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VÁ R I O S A U T O R E S ORGANIZADOR:

RICARDO GNECCO FALCO

EDIÇÃO DOS AUTORES

Janeiro de 2012


DESEN ONTOS Vários Autores

Edição dos Autores


Antologia

DESEN ONTOS Vários Autores

Organizador:

R icardo G necco Falco

Janeiro de 2012 Rio de Janeiro - Brasil


“...Vâmu marcá!”


OS CONTOS NIVEA VILLAS BOAS A SURPRESA

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JANDA MONTENEGRO UMA BOA AÇÃO

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RICARDO GNECCO FALCO CASTELO DE AREIA

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JESSICA MULULO EM TEMPOS DE INTERNET, QUALQUER CONTO É DE FADAS Página 21 ULISSES TEIXEIRA O CHUVEIRINHO DO LADO DA PRIVADA NÃO ESTÁ FUNCIONANDO Página 25 ANDRÉ CARVALHO A LUZ VERMELHA

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33

DANIEL FIGUEIREDO UMA ATÍPICA NOITE DE INVERNO

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39


RICARDO GNECCO FALCO O SORRISO DA LUA

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44

JESSICA MULULO IMPULSO

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47

DANIEL FIGUEIREDO O DIA DA VIRADA

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49

RICARDO GNECCO FALCO APREÇO

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53

ANDRÉ CARVALHO BANAL

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57

ULISSES TEIXEIRA CIRCO DE HORRORES

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A Surpresa

por Nivea Villas Boas

Tudo parecia caminhar muito bem na vida de Lucia Helena. Havia um ano que ela tinha se casado com Osvaldo, que sempre se mostrou o homem ideal para ter como companheiro até o fim dos dias. Nesse primeiro ano de matrimônio não foi diferente, Osvaldo era o maridinho que toda mulher sonhou, agradava Lucia Helena como se ela fosse uma rainha, fazia suas vontades sem pestanejar. As pessoas que conviviam com o casal chegavam a ficar irritadas em vê-los numa eterna lua de mel. Por falar em lua de mel, para comemorar as bodas de papel, Lucia Helena e Osvaldo passaram um final de semana em Penedo, destino tradicional de casais apaixonados. A viagem foi simplesmente maravilhosa, mas ao voltarem para casa, um modesto apartamento no bairro do Méier, tudo estava diferente. O marido perfeito havia se tornado um homem extremamente ciumento e possessivo. Como consequência da mudança, Lucia Helena se afastou de suas amigas e até mesmo de sua família. Dona Dalva, sua mãe, ficou inconformada com a situação, mas aquela achava normal, e até gostava do ciúme do cônjuge, pois assim se sentia mais amada. O problema é que com o passar do tempo, Osvaldo foi ficando cada vez pior. Se a esposa fosse à padaria e o padeiro lhe servisse um pão branquinho e fresquinho, o marido dizia que o homem estava interessado em Lucia Helena, mas se o mesmo lhe servisse um pão torrado e frio, a mulher é que havia dado confiança. Apesar das exigências, Osvaldo havia se envolvido com Silvia, manicure e amiga de Lucia Helena. Tantas cobranças pareciam ser na verdade medo de que a mulher pudesse fazer o mesmo, se envolvendo com outro alguém. Desde então, o maior alvo das perseguições do marido ciumento passou a ser Tadeu, seu melhor amigo, com quem construiu uma relação de irmandade ao longo de muitos anos de amizade. Embora 11


DESENCONTOS Tadeu sempre elogiasse a esposa do amigo de modo respeitoso, Osvaldo passou a se sentir incomodado com isso e a evitar as visitas do rapaz a sua casa, inventando muitas desculpas. Mesmo percebendo todas essas mudanças, Lucia Helena continuava achando tudo normal e se mantinha submissa. Algumas vezes conversava com Silvia, que lhe aconselhava a largar o marido ou até mesmo traí-lo, mas não lhe dava ouvidos, pois não conseguia enxergar sua vida sem ele. O que a mulher apaixonada também não enxergava era o relacionamento que existia entre Osvaldo e a amiga conselheira, que também pedia ao amante para abandonar o seu lar, mas este afirmava amar muito a esposa, por isso não a largaria por nada nesse mundo. Certo dia, enquanto voltava do mercado, Lucia Helena encontrou Tadeu, que lhe ajudou com as compras. Ela perguntou o porquê dele ter sumido, já que Osvaldo havia dito que o amigo andava meio indiferente e sempre falava estar bastante ocupado no trabalho, e ambos se admiraram quando o rapaz respondeu que quem estava estranho era o marido de Lucia Helena, parecendo evitar suas visitas. Por um momento, um silêncio ocorreu entre a conversa, pois ninguém conseguia entender esse comportamento de Osvaldo, até que a mulher resolveu propor a Tadeu que fizessem uma festa surpresa para o marido, visto que seu aniversário seria na próxima semana. Durante toda a semana seguinte, Lucia Helena e Tadeu trocaram telefonemas para acertar os detalhes da festa. Osvaldo sempre espiava o celular da mulher, que por saber desse hábito do amado, apagou todas as chamadas para não estragar a surpresa. Entretanto, à véspera do dia da festa, ela se esqueceu de apagar uma ligação, o que deixou o marido intrigado. Partindo do princípio de que a vingança é um prato que se come frio, ele resolveu não expressar ainda a sua fúria. No dia seguinte, alguns amigos convidaram Osvaldo para jogar sinuca no bar da esquina, a fim de distraí-lo. Enquanto isso, Lucia Helena, Silvia e as esposas de dois colegas do aniversariante preparavam os últimos detalhes da comemoração. O grande problema é que do bar era possível avistar o prédio do casal, então, o marido possessivo viu quando Tadeu chegou à portaria. Seu desejo era fulminar o amigo apenas com um olhar, mas respirou fundo e decidiu dar um tempo para que pegasse o dois no flagra. 12

DESENCONTOS Após alguns minutos, Osvaldo quis ir para casa dar um basta naquela situação sem dizer o que estava acontecendo, mas os amigos o impediram, pois esperavam a autorização de que estivesse tudo preparado. Entre uma tacada e outra, Lucia Helena telefona para um dos amigos para dizer que o marido já podia subir. Os dois despediram-se de Osvaldo com a desculpa de que tinham um compromisso. Na verdade, o plano era irem logo em seguida para participarem da festa. Enfurecido e com os olhos cheios de lágrimas, Osvaldo subiu os quatro vãos de escadas do prédio como um bicho que corre trás da presa. Dentro do apartamento estavam todos os convidados escondidos, esperando o momento certo da surpresa. Ao abrir a maçaneta, o aniversariante não viu ninguém na sala de estar, então, correu imediatamente para a cozinha e nem reparou os quitutes da festa que o aguardava tamanho o ódio que o consumia. Ele pegou o facão mais amolado, usado nos churrascos dominicais, e caminhou silenciosamente para o quarto em busca de um flagrante perfeito. Todavia, antes de chegar ao destino, encontrou Lucia Helena no corredor. A mulher lhe dá um forte abraço seguido de um “feliz aniversário, meu amor” e é surpreendida por uma facada na barriga. Em seguida, os convidados apareceram com balões coloridos, gritando “surpresa”, menos a esposa fiel e submissa, pois dava seu último suspiro. Todos ficaram atônitos sem saber o que fazer, inclusive os dois amigos da sinuca que entraram na hora do acontecimento, e Silvia que saiu do prédio correndo totalmente desequilibrada. Ao perceber que tudo não passara de um mal entendido, Osvaldo chorou copiosamente e com as mãos ensanguentadas abraçou Tadeu, que não teve uma reação sequer. O marido, agora assassino, pediu perdão ao amigo que não soube o que responder.

Nivea Villas Boas é professora de Língua Portuguesa da Rede Municipal do Rio de Janeiro, formada em Letras e pós-graduanda em Produção Editorial. Demonstrando, desde sempre, seu gosto pelas letras e pelas artes, ainda na infância escrevia poemas e músicas bem humoradas. Na adolescência, dedicou-se ao teatro, e descobriu sua grande paixão: a literatura dramática.

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DESENCONTOS

Uma Boa Ação

por Janda Montenegro www.jandamontenegro.com

Era um daqueles péssimos dias em que você se arrepende de ter acordado. Fui fazer exame de sangue, coisa normal, só por precaução. Mas isso me deixou um pouco tonta e eu não conseguia enxergar direito as coisas. Peguei o ônibus na Reitoria, sentei-me à janela, um alto senhor ao meu lado. Era véspera de feriado e eu voltava para casa com um desejo de descanso. Foi na Biologia que ele subiu: não fazia o meu tipo, mas definitivamente fazia o das minhas amigas. Foi a primeira coisa que pensei ao vê-lo. “Se antes já era bom brincar de médico...”. Era isso o que dizia a sua camisa. Hum, ele faz Medicina! Não, definitivamente não faz o meu tipo! É impressionante a quantidade de informações que se pode tirar só com o visual das pessoas. Enquanto eu dava continuidade a essas reflexões infundadas, o senhor que se encontrava ao meu lado se levantou. Oba! Agora só falta eu dar a sorte de ele se sentar ao meu lado! E ele se sentou. A primeira coisa que pensei foi pedir para que ele se virasse para que eu pudesse ler a parte de trás de sua camisa. Não o fiz. Depois pensei que, talvez, por ser estudante de Medicina, ele pudesse me dizer o que eu poderia fazer para me sentir melhor. Só que essa também era uma ideia absurda, afinal, onde já se viu um profissional ou um estudante ficar fazendo diagnóstico em pleno ônibus em movimento, sem sequer conhecer ou avaliar fisicamente seu paciente! 14

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DESENCONTOS O tempo que durou todas essas suposições e todas essas abobrinhas foi o tempo que levou entre a Linha Vermelha até a Leopoldina. Virei-me para o lado e reparei que ele cabeceava de sono. Ele era alto, não cabia direito no banco e suas pernas se viam forçadas e ficarem de lado. Seus lábios entreabertos liberavam uma fraca respiração de estudante cansado.

DESENCONTOS – Claro! – E apenas sorri-lhe com os olhos. Ele se levantou e trocamos de lugar. – Você vai descer aonde? – Só...na Praia de Botafogo. – Você quer que eu te acorde lá?

É, ele faz Medicina, né? Não, não era porque era Medicina, era porque ele era estudante e assim como eu, a gente tem que se dedicar muito, ler muito e virar muitas noites em sono, sim! Ou será que ele simplesmente caiu na farra ontem à noite e negligenciou a noite dormida? Eu olhava para ele com uma admiração maternal e ele quase caiu para o meu ombro de tanto que os movimentos do ônibus faziam o seu corpo ceder para o meu lado. Uma nova onda de pensamentos me assaltou e de súbito eu quis oferecer-lhe que trocássemos de lugar, afinal, é muito mais fácil conseguir dormir quando se tem a janela como apoio. Falo ou não falo? De repente, ele quase cai no corredor por causa de uma curva que nosso ônibus fizera e sou impulsionada a tocar-lhe o braço. Ele se sobressai e ensaia de imediato um movimento como se ele de repente se desse conta de que eu apenas queria a passagem para sair do meu lugar no banco e descer do ônibus. – Escuta - eu disse. – Você não prefere se sentar aqui para poder apoiar? Tive a impressão de que minha voz estava mais fraca do que o normal. Eu realmente não estava bem, mas apresentei-lhe meu mais sincero sorriso. Ele entreabriu a boca e logo se interrompeu, como se avaliasse a credibilidade de minha proposta. – Pô, tem como? A pergunta foi feita com um rosto de súplica e os olhos cheios de amor. 16

Sorriu. – Pô, pode ser? – Claro! Senti que ele descansou mais aliviado. Talvez não fosse o tempo mais longo do mundo, talvez uns vinte minutos apenas. Mas às vezes só isso já é suficiente, como às vezes é suficiente apenas um gesto. Não podemos mudar o mundo todo e de uma vez só, mas podemos mudar o mundo de uma pessoa com uma simples atitude, que não nos exige dinheiro nem esforço físico, mas apenas bom senso. Talvez ele ficasse pensando se eu era uma pessoa que realmente existia, mas ele nunca irá saber quantos diálogos eu tive com ele sem antes pronunciar qualquer palavra. – Oi, já estamos em Botafogo. E com um suave toque em seu braço, ele despertou. – Ah, obrigado! Sorriu, passou por mim e desceu. Segui no meu ônibus. Agora eu já me sentia melhor.

Janda Montenegro é uma jovem autora que teve sua estreia marcada com uma obra sobre o polêmico episódio do ônibus 174 no Rio de Janeiro, “Antes do 174” (ed. Íbis Libris, 2010). Formada em Letras pela UFRJ, é mediadora do espaço mensal Nós, Autores da Saraiva RJ e faz pós-graduação em Produção Editorial. Aos 26 anos, a escritora agora aposta em sua trilogia voltada ao público infanto-juvenil, “O Incrível Mundo do Senhor da Chuva”.

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Castelo de Areia

por Ricardo Gnecco Falco www.subterfugie-se.blogspot.com

Dentre todas as coincidências, aquela era a mais comum. Encontrar Luzia ali, em meio a tantas outras pessoas, não era assim tão inesperado. Era um dia de sol, a praia estava lotada e ela sempre gostara de sol e de praia. Conhecer o Rio de Janeiro sempre estivera em seus planos e, nesta época do ano, certamente aproveitava as férias para realizar tão antigo desejo. Mais este desejo. Reconhecera Luzia em meio às meninas que formavam uma roda na areia. Era a mais branca do grupo; mais até do que a areia. O contraste da pele com as longas e negras mechas de seu cabelo lhe dava um destaque todo especial. Um brilho. Luzia era especial. Sentou-se ao lado dela, como se ali fosse o destino de todos os passos que já dera na vida. Permaneceram calados; ambos. O vento movia lentamente as poucas nuvens no azulado céu e acariciava de modo intrínseco os pensamentos perdidos ali. Lembrou-se da primeira vez que a vira nua. Inquietante miragem em meio ao devaneio etílico. O andar de cima da casa vazio, cada vez mais e mais distante da festa. O batuque eletrônico em sua exata ruptura ao fechar da porta. O verde mar convidativo daquele inesquecível olhar. A ilha que trazia o horizonte para perto da praia. Um vendedor de sorvetes tentava atrair a atenção do grupo com seus urros de praxe. Ver Luzia novamente lhe fazia delirar. Sentado ao lado dela, então, difícil acreditar... Queria poder gritar. Congelar aquele instante. 18

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DESENCONTOS Derreter aquele gelo gigante. Relembrar os momentos vividos; os incontáveis sorrisos perdidos. Refazer uma trajetória retórica, ensandecida. Retorcer o aço dos traços contidos no peito. Sonhar a respeito. Perder por direito o acesso ao descaso. Reter o fio da navalha que lhe inflamava a alma e ardia. Voltar para casa no rastro da espuma das ondas, tardias. Sua fortaleza...

Em Tempos de Internet, Qualquer Conto é de Fadas

por Jéssica Mululo

Castelo de areia. Ela, sereia, irretocável. Ele, ser ele, irrevogável. Em busca de perguntas, não respostas. Ter nas mangas as cartas dela. Reviver a vívida vida não vivida junto dela. Deter nas mãos os nãos dela. Ser forte o suficiente para ela. Por ela. Às vezes sentir saudades, outras vontades. Algumas meninas se levantaram, indo na direção do mar. Entre elas, Luzia. Das poucas que ficaram, apenas duas lhe fitaram. Quem era e o que fazia ali, perguntaram. Não sabiam da história de Luzia; não a viam. Nada havia.

A solidão era tanta que até resolvi me permitir conhecer alguém novo, fosse para amizade ou qualquer coisa. Esperei um tempo e nada acontecia, até que numa sexta-feira a noite e em casa chega uma mensagem anônima na caixa de e-mail: – Nossa! Quantas coisas temos em comum, não é? “Mas quem era aquela pessoa?” Foi o que pensei na hora, mas como estava me dando oportunidade, respondi: – É? Temos? Não sei quem é você, como posso saber?

Não sabiam de nada...

Até aí tudo bem, não havia acontecido nada demais, só uma perguntinha básica, ou indireta mesmo. Fiquei sem resposta imediata, porém eis que no dia seguinte ao primeiro contato a pessoa misteriosa responde: – Muito prazer, sou Marcelo, mas já enviei uma solicitação de amizade no facebook, me aceita lá! Então, fui olhar meu perfil e lá estava a solicitação do Marcelo; rapaz bonito, olhos claros, gostei dele de primeira, sem contar a sua abordagem, bem discreta. Resolvi aceitar o pedido de “amizade” visto que, realmente tínhamos gostos em comum e até amigos para ser mais concreta. Começamos a manter um diálogo bem interessante com o tempo, nos tornamos até colegas. Ricardo Gnecco Falco é bacharel em Comunicação Social (Jornalismo), pós-graduando em Produção Editorial, músico, compositor, escritor, poeta. Organizou a antologia «REDE DE CONTOS», publicada pela CBJE em Março de 2010, com obras de novos autores brasileiros. Já no colégio descobriu o gosto pelas letras, tendo participado de um concurso de redação quando ainda cursava a sétima série, chamado “Cultural Projects interescolas” (CP4). Foi premiado no salão nobre da Academia Brasileira de Letras, no centro do Rio. Daquele dia em diante, decidiu: não pararia mais de escrever...

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Depois de um período de conversas animadas e de muitas indiretas, decidimos nos conhecer pessoalmente, e aí começaram as expectativas - Eu pessimista até o dedão do pé - como sempre, achando que é o primeiro passo para o fracasso, mas vamos seguir em frente! 21


DESENCONTOS

DESENCONTOS

Chegou a hora de se deixar ser conquistada e ser feliz, vamos andando para não atrasar, sou péssima com horários.

– Marcelo, venho notando que você está distante de uns tempos para cá. Fiz ou falei algo de errado?

Nos cumprimentamos com um abraço tímido e um “oi”. Foi engraçado. Nos divertimos, conversamos muito, aliás, não sei de onde surge tanto assunto, nos falamos todo dia. Mas deve ser um bom sinal.

– Claro que não! Você é uma mulher incrível de muitas qualidades, eu adorei ter te conhecido. Só estou um pouco cansado por contra do trabalho.

Depois de tanta conversa, houve aquele momento de silêncio assustador, aquele que antecede o beijo. Estava muito nervosa, o coração parecia que ia pular do peito. Foi uma sensação muito boa, nunca senti isso com ninguém tão aleatório quanto ele.

Aceitei a justificativa dele, mas mesmo assim continuei achando estranho, ele ainda estava bem distante, mesmo depois de quase um mês daquela conversa, quando falava comigo eu percebia.

Dia seguinte: – Acho que estou apaixonada... Nem parecia que eu era a mesma pessoa, ansiedade dominando meu ser! – Ligar ou esperar ele ligar? Esperar, melhor assim. Ou melhor: Internet, aí vou eu! Ele estava online e para minha surpresa, não dirigiu sequer uma mísera palavra a mim. Desespero transbordando! Algo estava errado. – Como pode? Um dia tudo é lindo, ele se comporta como um príncipe, tem todas as qualidades que procuro e no outro faz que não me vê e quando vê age friamente? Fato que irei investigar! Naquele mesmo dia, já de noite: – Oi Marcelo, boa noite. – Opa! – Então, o que você acha de sairmos outro dia?

– Está tudo bem mesmo Marcelo? Sinto que você ainda anda meio estressado. – Tudo bem, vou me abrir com você. Eu não me orgulho de ser desse jeito, eu só estava tentando ser normal. – Como assim normal? – Há um tempo eu venho me sentindo estranho, um pouco retraído. Mas me dei conta de que sou assim, me desculpe por agir de um modo um tanto estranho com você. Acho melhor sermos apenas amigos. – Tudo bem, sem problemas. Claro que podemos ser amigos. Depois desse banho de água fria, até psicólogo comecei a frequentar, não é possível que eu afaste tanto os homens assim de mim. Será que é meu jeito? Mas aí, com o passar do tempo, percebi que não havia problema algum comigo. Após ter chegado de mais uma sessão com o psicólogo, fui acessar o facebook para ver as novidades sobre meus amigos e tive uma grande surpresa: Marcelo está em um relacionamento sério com Rafael. Ele assumiu. O príncipe era, na verdade, uma princesa.

– Não me oponho... Foi aí que eu percebi que realmente havia algo estranho , que não era “maluquice” minha. Dei continuidade ao papo: 22

Jéssica Mululo é formada em Letras, pós-graduanda em Produção Editorial, quadrinhista e «escritora» nas horas vagas. Carioca e moradora da Cidade Maravilhosa desde sempre. O gosto por desenhar vem desde o primário e o gosto por escrever tem pouco mais de um ano. Pretende desenvolver ainda mais esse seu lado escritora.

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O Chuveirinho do Lado da Privada Não Está Funcionando

por Ulisses Teixeira

Não consigo imaginar porque alguém daria o cu. Quer dizer, não sou homofóbico, nem nada, mas não passa pela minha cabeça ter prazer com isso. Eu, por exemplo, já comi o rabo de algumas mulheres e gostei muito, mas nunca daria para ninguém. Não sei nem o que passou na cabeça dessas mulheres ao darem o cu para mim. O problema não é exatamente a penetração, mas o calor. Na minha opinião, um cu assado é o pior castigo que um homem pode ter. Daí vem a minha narrativa. Apesar de não ser americano, meu café da manhã consiste em uma xícara de café, bacon e ovos. Segundo meu cardiologista, o meu desjejum é uma merda. Mas depois de passar pelo meu estômago, intestino grosso e intestino delgado vira uma merda maior ainda, merecendo o status de Fezes, com “F” maiúsculo. Uma verdadeira obra de arte da escatologia. Mas, como todo artista, sofro pela minha arte. Ela não sai tranquila e pacificamente. Não, minha bunda reclama a cada peido e meu rabo fica com a mesma temperatura de Hiroshima em agosto de 1945. Você pode imaginar como funciona a coisa toda, provavelmente já passou por isso. É a vingança da natureza, não tem como escapar. Por isso, para que o meu humor continue em alta até o fim do dia é importante que eu tenha sempre à mão o chuveirinho do lado da privada. Meu cu precisa desse frescor matinal. Naquele dia, em particular, tinha preparado um desjejum bastante satisfatório para mim. Iria ser um longo dia no escritório e eu teria que ficar sentado na minha cadeira de subalterno, enclausurado na minha baia. Desde que entrei na empresa, meu sonho era ser promovido, não pelo aumento de salário ou por ter uma sala com meu nome na porta, mas sim, pelas cadeiras dos executivos. Uma cadeira onde eu pudesse 24

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DESENCONTOS apoiar a minha cabeça e relaxar minha coluna na posição correta, a posição que difere o Homo sapiens dos outros animais (se bem que a maioria dos executivos não merece ser chamado de Homo sapiens). Há alguns meses atrás, minha esposa teria preparado o café de manhã para mim. Ela teria preparado algo com muitas frutas, queijo branco e leite desnatado. “Você precisa perder peso”, ela me dizia. Eu concordava com ela e comia toda aquela comida com gosto de papel. Internamente, eu me sentia triste. O impacto de não comer aquilo que se gosta, para um homem como eu, é ter o dia inteiro arruinado. Além disso, o chuveirinho não proporcionava todo o seu potencial. Porém, a minha mulher me deixou. Me trocou por um rapaz mais novo, que frequentava a academia com ela. Curiosamente, fiquei sabendo depois, por amigos em comum, que o rapaz tem o mesmo peso que eu tinha na época que ela me largou. A grande diferença era o percentual de gordura. Eu também teria frequentado a academia, se eu não tivesse que ficar catorze horas no trabalho para pagar as contas. Quando ela decidiu que nossa vida em comum tinha acabado, usou toda a grana da nossa conta conjunta para mobiliar seu novo apartamento, com sua nova cama king size e encher seu novo armário com calcinhas safadas e, talvez, novos amantes. A vadia foi impiedosa com meu coração e com a minha conta bancária. A traição foi um puta baque para mim. Não só pela minha autoestima, mas também para o meu peso. Eu não sei cozinhar e as coisas mais fáceis de fazer são as piores para o seu corpo. No supermercado, tudo que existe pronto para ser colocado no micro-ondas é, na verdade, gordura congelada. E tudo comestível que pode ser entregue em casa é, na verdade, gordura quente. Como eu posso catar uma mulher, cortejá-la, convidá-la para se mudar comigo e convencê-la a cozinhar para mim, se eu engordo a cada dia? Homem solteiro, siga o meu conselho: é mais fácil contratar uma empregada e comê-la de vez em quando, se você tiver sorte. E é o que eu faria se tivesse grana e tempo. Depois do meu café, veio a hora divertida do dia. A hora do chuveirinho. Que beleza. Depois de quinze minutos cagando, tempo esse que não desperdiço, pois costumo levar meu laptop para navegar na Internet, vem o Prazer. Com cuidado, embrulho o meu computador em uma sacola plástica e o coloco à uma distância segura. Pego o chuveiro e man26

DESENCONTOS do ver. Vou ao Céu. É como sentar em um riacho de águas límpidas no interior de Minas Gerais, observando os campos extensos e as montanhas verdejantes. Me sinto um menino livre de novo, em uma praia de nudismo exclusiva para mim. Compensa até mesmo a verdadeira lixa que é o papel higiênico barato que eu compro. Devia haver uma lei que proibisse as empresas a fazer papel higiênico ruim. Essa é uma área do corpo que merece nosso respeito. Depois disso, o meu dia é uma bosta ainda maior àquela que eu mandei pelo ralo algumas horas antes. No trabalho, meu chefe é um caso sério. A única coisa que ele produz é gás carbônico. Mas, em contrapartida, consome oxigênio. Sendo filho do dono da empresa, é particularmente fácil ficar o dia inteiro conversando no MSN e pensando em formas mais cruéis e imbecis de explorar os funcionários. Tive vontade de ir ao banheiro depois do almoço, mas me mantive firme em minha baia. Além de não me sentir confortável em defecar em lugares estranhos, não poderia trocar o meu fiel banheiro por qualquer outro, afinal já tinha passado por uma traição e sei como é difícil superar isso. Depois de quinze horas (fiz hora extra) trancafiado no meu espaço de dois por dois (conhecido como Baia do Inferno dessa Bosta de Trabalho), puder entrar no meu espaço de três por doze (conhecido como Caralho de Ônibus Cheio) e transitar pelo espaço de onze quilômetros (conhecido como Merda de Trânsito). Cheguei em casa e coloquei uma lasanha no forno. Sentei para ver televisão e, onze minutos depois, ouvi o bipe do micro-ondas. Comi enquanto assistia mais televisão. Abri uma cerveja. Depois outra. E mais outra. Suficientemente bêbado, resolvi tomar um banho. No banho, me masturbei e depois fui dormir. Uma rotina inalterada desde que minha mulher me deixou. Inclua “tentei-comer-minha-mulher-mas-ela-disse-que-tinha-tido-um-dia-cheio-e-tinha-malhado-muito-na-academia-e-estava-muito-cansada-para-isso-e-além-disso-estava-muito-calor” antes do “me masturbei” e você tem a minha rotina pré-solidão. Na manhã seguinte, também segui fielmente minha rotina. Acordei às seis e meia da manhã e fui dar uma mijada. Depois, no café, preparei as delicias que a sociedade tenta te fazer culpado em comer. E, mais uma vez a hora boa tinha chegado. Peguei o computador, encaixei-o na minha axila e segui para o banheiro. Quinze minutos depois, teria alegria ao meu alcance. 27


DESENCONTOS Mas, não. O chuveirinho não estava funcionando. “Porra”, exclamei. Não consegui pensar em nada mais original, mas sintetizava o momento. Por que a porra do chuveirinho não funcionava? Olhei a mangueira e nada parecia errado com ela. Vi o cano na parede e percebi uma torneira. Me estiquei para tentar alcançá-la com meu braço, mas não consegui. Tentei um pouco mais e meus dedos roçaram nela. Determinado, consegui atingir meu objetivo, mas provavelmente inventei uma nova posição do Yoga no processo. Mas foi infrutífero: rodei a torneira e o chuveirinho não funcionava. Rodei para o outro lado e o chuveirinho continuou sem funcionar. Comecei a ficar nervoso de verdade, xingando todos os utensílios do banheiro. Tentei molhar o papel higiênico, mas isso só resultou em papel machê e uma mão marrom. Limpei rapidamente a mão e tive que desistir de tentar refrescar a minha anatomia cansada depois de tanto trabalho. Vencido, usei o método tradicional do papel higiênico solitário. O dia transcorreu pior do que o previsto. Mal consegui ficar sentado. A sensação de queimação era horrível. Mas andar também não era uma boa solução. Na verdade, só piorava. Tive que voltar à minha baia, depois que meu chefe reclamou que eu estava muito tempo ao lado do bebedouro, que ficava no corredor. Não dava para ver esse bebedouro dos escritórios e nem das baias. Em determinados horários, o corredor fica bastante deserto. Uma ideia louca tinha passado pela minha cabeça: sentar em cima do bebedouro e “me refrescar”. Tamanho era meu desespero que se eu fosse mais louco e mais magro, teria posto a ideia em prática. Além disso, se ninguém me visse, os meus colegas usariam o bebedouro normalmente. E depois, provavelmente morreriam. Era o plano perfeito: além do refresco em meus glúteos, traria também satisfação pessoal. Mas, como disse, fui flagrado pelo meu chefe e abortei a missão. De noite, em casa, tentei mais uma vez. O chuveirinho ainda não funcionava. Liguei para o zelador, pedindo uma providência. Ele fora um tanto gentil, mas firme: chuveirinho de lado de privada não era a prioridade do condomínio. Tentei eu mesmo consertar o dito cujo. Tudo que 28

DESENCONTOS consegui foi ficar molhado, mas, de alguma forma, uma fraca e rala água saia do chuveirinho. Um lapso de esperança – por um momento, pensei que tudo tinha voltado ao normal – mas não. Não tinha pressão. Ontem eu tinha uma mangueira de bombeiro, hoje um regador. Fui dormir decepcionado. De manhã, já sabendo o destino que me aguardava, acordei com raiva. Preparei sem cuidado nenhum o meu café, o que faz o bacon queimar e o café ficar forte demais. Na hora que fui ao banheiro, mais uma vez levei o meu laptop. Teimoso como sou, resolvi fazer mais uma tentativa. Nenhum sucesso. Já estava desesperado e começava a ter ideias impossíveis. “Será que uma bala Halls de menta enviada no meu cu produz o mesmo efeito? Ou eu teria que usar algo mais forte, como Halls preta?” Fiquei com medo da química do meu ânus ser similar a da Coca-Cola Light e desisti da ideia (embora creio que teria sido engraçado ver tentar alguém fazer isso no Youtube). Será que refrescante bucal funcionaria. Mas qual? Listerine? Colgate Total Mais? Oral-B? Também abandonei a ideia com medo de que, alguma forma, o meu cu ficasse branco e brilhante. E a última coisa que um gordo solteiro que não come ninguém há três meses precisa é de um cu branco e brilhante. Desesperado e sem ideias, comecei a chorar. O dia no trabalho foi curto. Ao chegar, me sentei com a mesma dificuldade do dia anterior e me preparei para ligar o computador. O chefe passa pela minha baia e diz que eu estou estranho. As palavras exatas foram: “mais estranho do que o costume, eu quero dizer”, enquanto se afasta rindo como uma criança quando ouve um palavrão. Duas horas e meia depois, com o bebedouro ainda me chamando, me testando – e eu me mantendo firme – meu chefe passa novamente pela minha baia e diz que aprovou uma nova regra que proíbe os funcionários de terem objetos pessoais em suas mesas. Minhas miniaturas da Millenium Falcon e da Enterprise terão que voltar para o “porto espacial”, segundo outra genial piada do meu chefe. Isso foi realmente uma pena, pois pretendia usar as próximas horas simulando um combate entre as duas para me distrair do martírio. A minha impaciência quanto ao trabalho foi aumentando. Quase no fim do expediente, meu chefe me manda executar uma função que de29


DESENCONTOS moraria no mínimo umas três horas. Ele reclamou que era uma tarefa urgente. Acatei, visando o aumento das minhas economias. Porém, teria que me deslocar ao almoxarifado para a realização do trabalho. Depois de, finalmente, conseguir realizar a urgente tarefa e pronta para entregar ao meu chefe, o vejo indo em direção ao elevador. Corri e entreguei meu relatório. Ele olha, com certo desdém, murmura um “passável” ao ver a capa. Eu fico parado, esperando uma resposta. Ele me pergunta o que eu ainda estou fazendo ali e, logo depois dele concluir a frase, me faço a mesma pergunta. Ele diz que eu preciso ficar “mais ligado” se um dia, eu quiser ser como ele e chegar à algum lugar. O elevador chega, ele entra e vai embora, me dando o mesmo olhar que as patricinhas usam quando alguém diz que achou “Crepúsculo” uma porcaria. A porta do elevador finalmente fecha. Estou sozinho no escritório. Olho para um lado e não vejo ninguém. Olho para o outro e vejo o bebedouro. Sorrio... Apesar da pequena felicidade no escritório no dia anterior, não posso me dar ao luxo de fazer isso todo dia. “Tenho que consertar o chuveirinho” se tornou uma ideia fixa na minha cabeça. Mas as “pontadas” no meu estômago, não me davam tempo, a não ser de pegar o meu notebook e correr para o banheiro. Quinze minutos depois e, mais uma vez, o chuveirinho não funcionou. Confesso que tive um ataque de pânico. Isso era o limite. Um homem ainda podia aguentar um emprego ruim, salário baixo e ser corno, mas nunca tire seu único momento de felicidade do dia. Chorei de novo e reparei o meu coração acelerando. Arranquei a mangueira com raiva e a água começou a jorrar violentamente. Comecei a dar socos esporádicos no ar e nas minhas pernas. Acho que fui um pouco violento, pois, por causa do meu peso, a privada quebrou, eu caí no chão e os restos do vaso cortaram as minhas costas inteiras. Olhei para trás e vi a privada quase toda vermelha. Aumentei ainda mais o meu ataque de pânico e senti meu braço esquerdo dormente. Totalmente molhado e ainda sangrando consegui alcançar meu computador. Usei a última das minhas forças para pedir ajuda a um amigo no MSN. Depois apaguei. Acordei em um hospital, em um espaço um pouco maior do que minha baia. Uma enfermeira me disse que meu amigo do MSN conseguiu 30

DESENCONTOS entrar em contato os bombeiros, mas que eu quase morri por causa do meu peso. Chegaram a tempo para os primeiros socorros, mas não conseguiam me tirar do banheiro. Tiveram que derrubar uma parte da parede. Ela me informou também que eu tive um infarto fulminante durante o acidente, estivera desacordado por uns dias e que meus pais providenciaram a minha transferência para um hospital particular. A primeira coisa que minha mãe me disse quando me viu foi: “Você precisa perder peso”. No hospital, minha vida piorou imensamente. Esqueça tudo que você já ouviu falar de enfermeiras gostosas, elas só existem na Internet e nos desenhos-animados. A julgar pela idade da minha enfermeira, ela provavelmente realizou os primeiros-socorros em Cristo. Ou pelo menos, as chagas dos pés de Cristo, visto que ela, na verdade, tinha a altura e aparência de uma hobbit. Mas, obviamente, isso não a impedia de se insinuar sexualmente para mim e outros pacientes. A comida do hospital era horrível. Não dava nem gosto de cagar aquela merda. Por mais impensável que seja, cheguei a sonhar com os cafés de manhã que a minha antiga vadia preparava. Por causa dos meus ferimentos, tenho dificuldade de ir ao toalete. Eles têm que me dar uma cadeira de rodas adaptada, para me levar ao vaso. Hoje já não me sinto culpado por trair o banheiro – ele me traiu primeiro. Ele e seu comparsa, o chuveirinho do lado da privada. Porém, dei um jeito de adquirir meu antigo hobby refrescante. Dou cinco pratas para o faxineiro ir até meu quarto à noite com uma mangueira e me proporcionar o prazer de ter um rabo frio. Ele pensa que eu sou um veado com algum tipo diferente de taradice e as enfermeiras pensam que eu sofri um choque pós-traumático e mijo na cama todo noite. O psicólogo do hospital insinuou que eu posso estar traumatizado com privadas e que essa é a forma do meu subconsciente demonstrar isso. Eu não ligo para o que ninguém pensa, contanto que minhas nádegas fiquem geladinhas. A única parte decente dessa estada no hospital são as visitas. Não a dos meus pais que cobram a minha redução de peso na mesma frequência que respiram. Mas alguns poucos colegas vêm me trazendo livros, os últimos gibis lançados e alguns DVDs para eu me distrair. Mas o melhor presente que eu recebi foi a visita do meu amigo do MSN que chamou os 31


DESENCONTOS bombeiros. E tudo que ele me trouxe foi uma notícia: uma bela, sórdida e escatológica notícia. “Você não soube? Metade do seu andar lá no trabalho está interditado. Talvez eu não devesse falar isso com você, mas o seu chefe morreu há dois dias. Disseram que encontraram coliformes fecais na água do bebedouro. Coisa incrível, não?” E assim, eu sorri, relaxei minha coluna na posição que os Homo sapiens fazem e, pela primeira vez em muitos meses, pude admirar o dia em paz.

A Luz Vermelha

por André Carvalho

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Em seu apartamento escuro, bagunçado, sujo e povoado por baratas, Virgínia chorava sentada em uma cama velha, sem lençol e forro rasgado. Em sua mão esquerda segurava um cigarro, na direita, um retrato de seu filho Douglas, de nove anos. O garoto falecera havia três semanas, devido a problemas cardíacos que o acompanhavam desde o nascimento, oriundos da gravidez regada a álcool e cocaína, além dos serviços profissionais de sua gestante. A fase do choque e desesperada negação já tinha passado, mas fora substituída por uma intensa saudade e insuportável vácuo. Não mais chorava cachoeiras e gritos agonizantes; agora, apenas filetes salgados escorriam em sua face, deslizando sobre as rugas adquiridas em quase meio século de vida lasciva. Virgínia olhou em volta e percebeu que nunca tivera nada. Tudo o que enxergou foram paredes sujas e inchadas pelas infiltrações, um espelho manchado com a moldura rachada, o chão de tacos velhos e soltos de onde brotavam algumas baratas, um televisor antigo que exibia um programa evangélico e, por fim, na cabeceira, três linhas feitas de um pó branco e cristalino. Para Virgínia, a cocaína era um anestésico que a fazia se sentir menos decadente do que realmente era, dava-lhe coragem para ir trabalhar, e o mais importante: camuflava a profunda e incisiva agonia de perder o único filho. Douglas era sua razão de viver.

Ulisses Teixeira Ele nasceu. Leu quadrinhos. Depois morreu. Fim da história.

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Esticou-se até a cabeceira, pegou uma nota de cinco reais e a enrolou na forma de um canudo. As três carreiras foram aspiradas por completo, fazendo o nariz sangrar, como sempre acontecia quando abusava. Era a única maneira de encarar seu trabalho de prostituta: drogada. 33


DESENCONTOS A mulher vestiu uma meia calça para disfarçar as celulites por baixo de uma saia curta, e uma blusa decotada que ajudava a moldar seus seios já não mais tão firmes e belos quanto outrora. Olhou-se no espelho para dar uma última conferida, limpou a sujeira branca e avermelhada de seu nariz e saiu de casa, para a vida. Depois de caminhar pelas ruas sujas, escuras e perigosas do centro do Rio de Janeiro, Virgínia chegou ao seu local de trabalho: uma simples porta de madeira encimada por uma lâmpada vermelha incandescente. Abriu a porta, cumprimentou o segurança e se preparou para subir as escadas que levavam ao sobrado. “Não aguento mais essa merda de vida. Isso precisa acabar logo”, pensou Virgínia, com um suspiro desanimado enquanto subia lentamente as escadas íngremes, temendo o que encontraria lá em cima. Já conseguia ouvir a música sertaneja saída do jukebox, que ecoava alta demais para o ambiente, tornando-o ainda mais perturbador. Virgínia respirou profundamente, e adentrou no recinto para mais um dia de trabalho asqueroso, com clientes ainda mais asquerosos. O próprio local a enojava, pois era um doloroso reflexo de sua existência. Um pequeno palco circular de madeira, de onde se projetava um poste improvisado, localizava-se no centro do recinto. Uma jovem sem beleza ali dançava de maneira tosca, exibindo suas formas sem contorno. Vagabundos da pior espécie sentavam-se ao redor do “queijo”; alguns gritando elogios vulgares e, outros, xingamentos. Todos eles embriagados ou drogados. Em um canto do vasto salão ficava o bar, repleto de garrafas de cachaça e outras bebidas fortes. Um homem de meia idade, chamado Carlos, e sua mulher, uma prostituta aposentada vinte anos mais jovem, serviam drinks à clientela. O homem era dono do lugar; responsável pelas meninas, e também encarregado de “acalmar” os clientes mais afoitos. Um jukebox, enfeitado com luzes neon berrantes, estava encostado em uma parede abarrotada de calendários de borracharia e pôsteres de mulheres nuas, infinitamente mais atraentes do que aquelas que ali desfilavam. O cafetão, Carlos, gritou de trás do bar o nome de Virgínia. Revirando 34

DESENCONTOS os olhos e bufando discretamente, a mulher atendeu ao chamado. – Virgínia! - Carlos exclamou com indisfarçável ironia – Olha só quem tá te esperando ali no sofá. Virgínia virou-se para ver quem era. Quando viu, seu rosto deformou-se numa expressão de ódio e repulsa. Era um homem que aparentava não mais do que quarenta anos, trajado de branco, como um marinheiro. Seu olhar, cruel e faminto, denunciava o quanto ele ansiava por um brinquedo em forma de mulher, algo que provavelmente ele não via há meses, por passar a maior parte do tempo em alto mar. Dois marinheiros mais jovens estavam sentados com ele, conversando animadamente. O mais velho, porém, não desviava o olhar de sua presa, que conversava com o barman e o olhava temerosa, com o canto dos olhos. – Não, Carlos! – protestou Virgínia, mais alto do que deveria – Não vou mais com aquele babaca. Não lembra? Ele me espancou na última vez, e me obrigou a dar conta dos outros também. Ele é uma aberração! Qualquer um, menos aquilo – olhou de soslaio na direção do sofá. Carlos riu. Um misto de deboche e raiva. Segurou firme o braço de Virgínia, com a intenção de causar dor. – Escuta aqui, piranha - sua mão forte a apertava cada vez mais – Esqueceu do que você é? Esqueceu de como consegue dinheiro para comer e cheirar seu pó? – O cafetão a puxou mais para perto, falando-lhe olho no olho – Você trabalha para mim, vagabunda; e a não ser que queira voltar pras esquinas, faça o que eu digo, porque quem manda nessa birosca aqui, sou eu! – esbravejou, quase babando – Agora, vai fazer seu trabalho, puta – e soltou o braço da mulher, deixando marcas de dedos. Virgínia segurou o braço dolorido e, mesmo assim, arriscou-se a suplicar mais uma vez. – Não Carlos, por favor! Qualquer outro, menos ele. – Diante da ameaça de ser esbofeteada, a mulher se encolheu, e caminhou na direção dos marinheiros. Enquanto se dirigia a encontro do homem que a apavorava, Virgínia, num lampejo, passou a encarar o temível momento que se aproximava 35


DESENCONTOS como uma oportunidade de por um fim ao seu tormento. A mente da mulher começou trabalhar e uma torrente de pensamentos desesperados a fizeram ponderar sua vida. Talvez, imaginava, com uma simples atitude, pudesse por um fim a seu tormento. Por que ter medo? Nada restava-lhe. Perdera o filho, sua mãe a ignorava envergonhava-se dela, estava ficando velha e não vislumbrava esperanças de melhorar sua situação, o apartamento em que morava era um chiqueiro, e nem dela era. Via-se como uma puta sem honra e entregue ao vício. Lembrou-se que em diversas ocasiões tentou cortar os pulsos, mas faltou-lhe coragem suficiente. Estava convencida de que não tinha nada a perder. Nunca tinha conseguido, ela mesma, dar um fim ao seu sofrimento; mas e se ela instigasse uma situação que levasse um terceiro a fazer o serviço? Virgínia sabia que aquele homem que a esperava, tinha um temperamento cruel e doentio; matar, não seria um problema para ele, se fosse provocado. Abriu caminho entre os bêbados, viciados e bandidos, até ficar cara a cara com seu objetivo. O estado de embriaguez do marinheiro, embora não fosse debilitante, era claramente perceptível. – Olá, princesa! – disse com ironia, enquanto passava a mão na parte interior da coxa de Virgínia – Vamos pro quartinho, tesuda. – Nem em sonho – rebateu com voz de nojo, enquanto afastava a mão do marujo – Prefiro um mendigo sarnento. O homem ficou pálido de ódio e, por um instante, sem reação. Quando finalmente absorveu as palavras da meretriz, agarrou seu braço com força e tentou se levantar usando-a como apoio, mas não conseguiu. Levou uma cusparada nos olhos e um tabefe na face esquerda, caindo de volta no sofá. Os dois jovens que o acompanhavam, explodiram em gargalhadas e logo os risos de deboche se espalharam por todo o salão: uns mais discretos e outros escrachados. Furioso e com a moral em frangalhos, o ébrio marinheiro investiu contra Virgínia, aplicando-lhe um soco desajeitado, mas eficaz; derrubando-a de costas para o chão. O olho direito da mulher inchou quase que imediatamente. Ela chorou, e suas lágrimas borraram a maquiagem pesada. 36

DESENCONTOS Houve reações. Meia-dúzia de clientes indignados investiram contra o homem do mar, socando-o e chutando-o, até deixa-lo se contorcendo no chão. Irado com a confusão em seu estabelecimento e preocupado com uma possível visita inconveniente da polícia, Carlos, o dono do estabelecimento, levantou a prostituta do chão e a enxotou do lugar. Ferida, no corpo e na alma, Virgínia caminhava pelas ruas escuras e sinistras dos arredores, as lágrimas escorrendo pela face e pingando pelo queixo. Mergulhada em suas lamúrias, a mulher ignorava as sombras noturnas que espreitavam ao redor. Não percebeu que o homem que a agredira momentos antes, seguia-a discretamente, com a mão direita cintilando um brilho metálico. Um terrível grito de dor, agudo como uma agulha, ecoou pelos prédios e vielas. Janelas ao redor se acenderam, e rostos curiosos e omissos pipocaram em cada uma delas, morbidamente curiosos. Uma roda de mendigos, viciados em crack, prostitutas e travestis rodeavam Virgínia estirada, moribunda, com sete perfurações distribuídas entre seu tórax, abdômen e dorso. Uma enorme poça rubra espalhava-se ao redor. Do chão, Virgínia avistava a multidão que se aglomerava ao seu redor, curiosos e apáticos. Sequer vislumbrou um reflexo de seu algoz, mas isso não a preocupava, pois agora, sabia, tudo acabaria. O filme de sua vida desdobrava-se diante de seus olhos vidrados e um turbilhão de pensamentos, reflexões e dúvidas digladiavam-se uns contra os outros, disputando fiapos de sua consciência residual. Enquanto seu corpo esfriava e esvaziava, a mente trabalhava freneticamente em seus últimos suspiros de atividade. Sentia-se prestes a se libertar. Ansiava por encontrar seu filho. Para sua decepção, lembrou-se de que provocara a própria morte e vivera em pecado desde sempre; não apenas nas últimas horas, mas durante toda sua vida. Lembrou-se das lições obtidas em sua infância cristã. Aprendera que libertinagem é pecado, que prostituição é o passaporte para a danação. O suicídio, diziam, era o pior dos pecados, e garantia uma passagem sem volta para o inferno. 37


DESENCONTOS Virgínia sabia que sempre fora, de certa forma, uma suicida. Usava cocaína desde moça, e era ciente de que aquilo a matava lentamente; prostituíra-se durante anos sem conta; e agora, cometera o suicídio literal e derradeiro, provocando a própria morte, mesmo que indiretamente. À sua mente, que já se esvaía, veio-lhe a lembrança de que quando as crianças morriam, iam direto para o paraíso, automaticamente absolvidos de suas transgressões. Compreendeu, então, que, embora nunca tivesse feito mal a alguém, apenas a si mesma, seu destino seria o oposto. Nunca na eternidade veria seu filho novamente. O submundo a aguardava. Isso deveria ser um pensamento aterrorizante, mas ao pesar os fatos, percebeu que sempre viveu no pior dos infernos. Não acreditava que nenhum daqueles que a esperava, poderia ser mais terrível do que este do qual se despedia naquele momento. Teve certeza: o inferno era a terra, o que viesse depois, seria lucro, por pior que fosse; até mesmo se não houvesse nada no outro lado. Se sua alma apenas se desfizesse e se espalhasse como poeira etérea no universo, sem ir para lugar algum, simplesmente deixando de existir, estaria feliz. Na verdade, era isso o que mais queria. Enquanto sirenes de polícia podiam ser ouvidas se aproximando, os olhos de Virgínia tornaram-se opacos. Sua pele esfriara e sua consciência abandonou a casca, iniciando sua jornada para outro lugar no espaço-tempo, com certeza, melhor do que o mundo material.

Uma Atípica Noite de Inverno

por Daniel Figueiredo

Manhattan, inverno de 1976.

O movimento no Café estava razoavelmente bom para aquela época do ano. À minha frente, dois velhos amigos meus que trabalhavam juntos nas docas e sempre vinham ao Café depois do fim do expediente. Um pouco afastada deles, uma senhora de aparência cansada que costumava afogar suas mágoas numa dose dupla de uísque, quando brigava com seu marido alcoólatra. À minha esquerda, um senhor agasalhado até as orelhas que frequentava o Café pela primeira vez. Estavam todos à volta do balcão onde trabalho ouvindo e comentando as notícias do rádio. – Parece que este ano, vamos ter um inverno muito rigoroso – disse John, um dos homens que trabalhavam nas docas. – Um dos piores que já tivemos, creio – concordei. – Lembro de uma vez que meu irmão perdeu todo o gado que tinha por causa de uma nevasca – continuou John. – Será que vai ser assim até chegar a primavera? – perguntou Edward, amigo de John. – Deus queira que não! Eu não suporto frio – falou Amanda ao virar o que ainda tinha de uísque em seu copo – Outro double, por favor, Bart – ela me pediu. – Tomara que não! – eu disse concordando com a senhora. Depois que todos fizeram seus comentários sobre o tempo para o inverno, silenciamo-nos para acompanhar o rádio novamente:

André Carvalho é formado em Letras, escritor, revisor de textos e pós-graduando em Produção Editorial, além de Designer Gráfico e Web Designer.

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“Mais uma pessoa é encontrada morta nos arredores de Nova Jersey. Dessa vez, um senhor alto e magro de 54 anos. O corpo foi encontrado atrás de um latão de lixo e médicos acreditam que a morte se deu por estrangulamento. A polícia suspeita tratar-se de mais um caso de assassinato cometido pelo Homem Invisível e, se for verdade, esta terá sido sua quarta vítima”.

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DESENCONTOS – Homem invisível... – repetiu John em tom debochado. – Não acredita que isso seja verdade? – perguntei. – Não acreditaria se não fosse o relato de duas senhoras que viram um homem de rosto transparente saindo do local onde, mais tarde, acharam uma pessoa morta. – Ai, por favor, não falem desse maníaco perto de mim que tenho até arrepios – suplicou Amanda ao acender nervosamente um cigarro. – Afinal, ele está longe daqui e não há porque ficarmos preocupados. – Será mesmo que ele ainda está em Nova Jersey? – perguntou Edward ignorando completamente o apelo de Amanda. – Não creio que ele permaneça lá – disse o outro dos senhores ao tomar um gole do seu café. Era a primeira vez que ele se manifestava desde que chegou. Todos, inclusive eu, viramos os olhos e ouvimos atenciosamente o que dizia o homem. – Ele já cometeu quatro assassinatos e toda a polícia de Nova Jersey está atrás dele. É bem provável que ele tenha ido para outro estado a fim de despistá-la. – Seria o mais inteligente – disse John como se estivesse a admirar a astúcia do tal homem invisível. – É, é isso mesmo. Ele deve ter mudado de estado. – Sabem o que dizem por aí? – perguntou Edward. – Que ele é um espião americano. Fruto de um experimento malsucedido. – Como? – perguntamos eu e Amanda ao mesmo tempo em tom de surpresa. – Parece que o governo americano andou tentando criar uma roupa que fosse totalmente invisível para uso dos agentes enviados à Rússia. E deu certo. – Ah, a maldita Rússia! Tinha que ser ela pra nos trazer esses problemas – resmungou Amanda. 40

DESENCONTOS – Mas o homem visto pelas duas senhoras tinha o rosto invisível, não a roupa – retruquei. – Como isso é possível, então? – questionou John. – Esse é o ponto! – continuou Edward. - Com o sucesso obtido no primeiro experimento, os cientistas americanos resolveram aprimorar ainda mais a técnica e deixar os próprios agentes invisíveis. E então, criaram um soro. O soro da invisibilidade. – Isso explica muita coisa – disse Amanda. – Não só o óbvio, como a invisibilidade do próprio homem, como também o motivo dos assassinatos. Os americanos estão testando a eficácia do soro! Sim, sim, é claro! Outro double, Bart – me pediu Amanda, entusiasmada com o raciocínio que estava tendo. - Estou começando a entender essa história. – Como assim testar a eficácia? – perguntei intrigado enquanto pegava a garrafa de uísque. – Simples! Estando invisíveis, os agentes podem matar importantes oficiais russos sem levantar suspeitas. Mas precisam antes fazer testes por aqui. Ver quanto tempo dura o efeito do soro, se ele causa algum efeito colateral... esses tipos de testes. – Não, não é isso – negou Edward. – Soube que alguma coisa deu errado no experimento. Só iriam testar o produto se ele tivesse dado certo. E também, não testariam em nós, americanos. Seria um absurdo! – Concordo com o senhor – disse o homem da esquerda. – Inclusive, gostaria de saber se o senhor sabe exatamente o que deu errado. – Não. – Pois então acho que ouvi um pouco mais dos boatos do que o senhor – disse ele num tom levemente convencido. – O que deu errado no experimento foi o próprio soro. Os produtos químicos usados deixaram-no hiper-eficiente e, com isso, fizeram com que os espiões ficassem permanentemente invisíveis. Além disso, a combinação química afetou o coração, matando todos eles, com exceção de um. Esse, dizem, não teve o coração atingido, e sim o cérebro, o que lhe causou perturbações 41


DESENCONTOS mentais e danos irreversíveis ao órgão. Finalizando com um ar triunfal, disse: – Ao menos, é isso que dizem os boatos que eu ouvi. – Então agora tudo faz sentido! – disse Edward. – São essas perturbações mentais que fazem dele um assassino compulsivo. – Mas então, por que ele não se descontrola e sai matando todos a torto e a direito? Afinal, entre os dois últimos assassinatos há um intervalo de quase duas semanas – questionou John. – Tem um senhor que costuma frequentar o Café às sextas-feiras – disse eu. – É médico e uma vez conversamos sobre essas “perturbações mentais”. Ele me disse que elas são, na verdade, psicológicas e que se manifestam quando a pessoa se sente de alguma forma ameaçada. Aí, ela se desliga da realidade e passa a agir inconscientemente. – Deixe-me ver se entendi – disse Amanda. – Esse louco homicida que está à solta é um perturbado mental que ora age conscientemente como uma pessoa comum e ora se descontrola e mata pessoas compulsivamente? – Não diria compulsivamente, mas sim, que ele seleciona as vítimas inconscientemente. Deve ver nelas alguma semelhança com os cientistas que elaboraram o soro – disse eu. – Ao menos é isso que eu deduzo com base na conversa que tive com o médico. – E no caso desse tal homem invisível? – perguntou John. – Acho pouco provável que os crimes não tenham sido premeditados. – Pois eu também acho isso – concordei. – Sabe, ainda me baseando no que o médico falou, eu diria que inconscientemente ele seleciona a vítima e sente um ávido desejo de matá-la, um desejo maníaco que ele mesmo não compreende. Mas, se não tiver a oportunidade na hora em que a vê pela primeira vez, ele planeja tudo e se torna um assassino frio e calculista. Por um minuto ou dois, todos se calaram e ficaram refletindo sobre os 42

DESENCONTOS comentários feitos até Amanda interromper o silêncio: – Se esse homem invisível age como uma pessoa comum, não há como nos prevenirmos de um possível ataque dele, certo? – Exatamente! – disse John. – Ele pode ser qualquer pessoa, assim como qualquer um pode ser sua próxima vítima. – Valha-me Deus! – disse Amanda ao acender outro cigarro e imediatamente começar a fumá-lo. – Quer saber? Já estou farta dessa história toda. Bart, vê aí pra mim a saideira. O silêncio se fez novamente. Amanda terminava seu uísque e acendia o terceiro cigarro; os dois amigos conversavam baixinho e o outro senhor acabava seu café. Eram quase onze horas e eu já me preparava para fechar o Café. – Droga de vida! Amanhã tenho que levantar às quatro da manhã – resmungou Edward. – E eu também, meu amigo – falou John. – Creio que já vou – disse o senhor da esquerda ao olhar o relógio. – Não vou acordar tão cedo quanto vocês, mas ainda tenho compromisso pra hoje. Quanto lhe devo, meu caro? – Três dólares – falei. O senhor que mantivera a cabeça baixa durante todo aquele tempo tirou da carteira uma nota, a deixou sobre o balcão e começou a sair. Quando vi que se tratava de uma nota de dez, chamei-o de volta para buscar o troco. Estremeci. Quando me virei para chama-lo, ele estava na porta do Café. Olhei para seu rosto pela primeira vez e não havia nada lá. Amanda, ao ver, desmaiou de imediato. Os outros dois senhores se viraram para saber o porquê de estarmos tão assustados e ficaram igualmente apavorados. – Muito obrigado por avisar, mas pode ficar com o troco. Estou atra43


DESENCONTOS sado para um compromisso inadiável – No bolso do sobretudo, era possível ver a parte de uma arma cortante. Ele saiu. Eu, estagnado atrás do balcão, não conseguia agir. Durante toda aquela noite de inverno, eu estivera na presença dele, o assassino conhecido como Homem Invisível... O louco homicida que já havia matado quatro pessoas que nada tinham a ver com o experimento que o condenava àquele destino. Eu mesmo poderia ter sido morto. Mas não. Nessa noite, ele parte para selar o destino de outro e obedecer à sua cabeça doentia e perturbada. Olhe para trás. A vítima, nessa noite, é você.

O Sorriso da Lua

por Ricardo Gnecco Falco www.subterfugio.com.br

Era mesmo como um fiapo branco. Curvilíneo, ligando as duas pontas de um infinito negro. Um risco torto de claridade numa lousa insana e triste. Não havia estrelas, fixas ou cadentes. Só a antagonia visceral de um breu sobrecarregado pela luz. O rosto astuto do céu mirando-me em brilho. Senti a ameaça em cada poro da pele arrepiada pela brisa noturna. O ressoar oculto de um deserto sábio e incerto, trazendo-me a única certeza comum aos viventes de toda a Humanidade. Clara como a Lua. O despertar de outrora estava lá fora agora, dormindo. Dentro da caixa de madeira repleta de flores restavam apenas os sonhos. Já em processo de decomposição. Encarei então, finalmente, o suave sorriso que me chamava; clamava... Sereno. O gracejo da Lua. Ri. De verdade. Do fundo de minhas vontades. Sorri com a própria alma, liberta de iniquidade. E, naquele exato instante, revivendo o momento instigante, lembrei-me da frase infante.

DANIEL B. DE FIGUEIREDO, 27 anos, é formado em Letras Port/Ing pela Universidade Estácio de Sá, carioca de nascimento e criação. Sempre teve como hobby a leitura, mas nunca a inspiração para escrever. Esse livro é sua primeira tentativa de mostrar ao público geral um pouco de si através das palavras. Espera que dê certo.

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A Lua está parecendo um sorriso. 45


DESENCONTOS Dita no banco de trás do carro. Instantes antes... O assunto era outro, completamente diferente. Nada a ver. Nada a ver com a Lua. Com a beleza da Lua que só ele via. E que espalhar queria. Tudo a ver e ninguém via. Só ele. A frase pairou no interior do veículo como um risco sobre a imensidão mortal, padecendo de atenção. Um pequeno silêncio, reverberando-se antes do eterno calar. Captada, é claro, primeiramente, por seu sensível radar. Ecoou na mente de todos ali. Preencheu de silêncio a desconexa correria do dia a dia. Reverteu a agitação mental oriunda dos cosmopolitas estímulos para a transcendental meditação cósmica. A Lua. Tanta pressa para percorrer os caminhos e tanta animosidade ao chegar ao fim. Tanto tempo perdido em discursos, em vãs tentativas de firmar-se, para ao final só restar a inércia. E a impossibilidade da despedida. Quantas palavras, frases, gestos... Quando, ao cabo, é a silenciosa lembrança dos momentos singelos a ficar. E o sorriso.

Impulso

por Jéssica Mululo

Achei que tivesse superado isso, afinal já são dois anos de reabilitação. Queria não me importar tanto, queria não sentir tanto. Queria algo novo que me fizesse parar com isso de vez. É inevitável, às vezes acho que estou ficando louca, ouvindo vozes. Aflição... Me causa uma «dor» estranha, algo no estômago e na garganta, como se fosse uma pressão. Fora o arrepio na espinha e por fim as lágrimas. Tortura... Evitar o encontro e acabar «topando» com o que você não quer (ou quer), por acidente, e ter de baixar a cabeça, fingindo que não está vendo, é uma situação triste. Você sabe o que está acontecendo; sabe que tem algo no ar e é impossível que as pessoas ao seu redor não percebam. Sinto-me sufocada por um sentimento sem perspectivas de cura. Tive, e ainda tenho, todos os motivos para abandonar esse vício para sempre, já que esse foi apenas o ponta pé inicial para muitos outros que ainda virão. Pois é, esse é o seu novo começo.. Bem vinda a sua reabilitação... Você irá se curar...

No luar.

Depois de curada posso sentir que terei a vida normal que sempre quis ter... E, logo logo, voltarei a você meu amor, que é essencial na minha vida. Quando me recuperar desse vício, pode ter certeza de que irei comprá-lo mais uma vez... Meu par de sapatos Louis Vuitton! Ops! Parece que o tratamento não vai funcionar...

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DESENCONTOS

O Dia da Virada

por Daniel Figueiredo

Não sei por onde começar. Na verdade não sei nem se quero escrever. Ainda sinto vergonha! Você não vai querer chegar ao final desse texto estúpido, mas enfim, fica esse balanço que faço da minha vida até o presente momento. O que contar da minha infância? Gostaria muito de poder dizer que foi um período fantástico, daqueles em que olhamos para o céu e desvendamos os formatos das nuvens. Um período em que tudo a nossa volta parece um grande espetáculo da Broadway. Bom, também não foi de todo ruim, pois eu tive pessoas importantes na minha vida e que realmente me amaram. Eu tenho uma família. Mas do resto, não tenho muitas boas lembranças para compartilhar com você, já provavelmente entediado leitor. Ir à escola era um inferno, já que todos os dias eu tinha que aguentar zombarias de todos, sobre os mais diversos fatores: por ser nerd, por ser gordo, e outras coisas. Eu nunca fui popular. E eu era sempre o último a ser escolhido em qualquer atividade da aula de Educação Física, mas eu sempre dava um jeito de não precisar fazer essa aula. Amigos, bons e velhos, ou simplesmente colegas, eu nunca tive. As pessoas apenas passaram pela minha vida. Posso ter tido uma ou duas pessoas que foram mais próximas de mim ao longo da minha vida escolar, mas até isso teve fim, cada um vai para um lado e o contato vai ficando cada vez mais raro até não haver mais nenhum. Fora da escola, minha vida era razoavelmente boa até começar a sentir coisas diferentes pelas meninas. A partir daí, meu amigo leitor, foi só ladeira abaixo. Pode parecer que estou querendo exagerar, mas eu me apaixonei diversas vezes, e em todas, é isso mesmo, todas as minhas paixões foram frustradas. Lembro-me de cada uma delas, afinal, as derrotas são cicatrizes que nunca fecham. A primeira, me lembro como se fosse 48

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DESENCONTOS hoje, era uma menina que morava no bloco A do condomínio em que eu morava. Como ela era linda! Eu me imaginava vivendo o resto da vida ao lado dela, mas um colega utilizou-se de um sentimento que eu nunca tive, a coragem, e passou na minha frente. Ele ficou com ela. E assim foi... Com todas as mulheres pelas quais me apaixonei, ou então eu começava a gostar, até saber que já tinha namorado, ou era casada ou não tinha interesse por mim (o que acontecia na maioria das vezes). Foi muito duro e cruel ver a maioria dos meus colegas namorando, com uma vida social ativa, enquanto eu não conseguia nada, e isso me fazia ficar cada vez mais recluso. Cada vez mais eu me afastava das pessoas. Eu já estava começando a gostar disso. Chego à maior idade. Um motivo de felicidade para qualquer rapaz. Para mim? Não! Minha mãe falava pra eu arrumar um emprego, para que eu tentasse me socializar mais com as pessoas. Eu tinha certeza que não daria certo, mas tentei por minha mãe. O emprego veio. E o que você acha que aconteceu? Claro que foi uma furada! Não consegui fazer nenhum amigo, e pior, as pessoas ficavam me olhando de um modo estranho. O tempo passa na minha vida rindo de mim, pois nada muda.

DESENCONTOS Pois bem, o que realmente aconteceu eu conto agora. Hoje, tenho 30 anos pessimamente vividos, sou solteiro, ainda moro com minha mãe, trabalho em um emprego medíocre, com um salário mais medíocre ainda. Não tenho nada do que me orgulhar. Posso garantir com 100% de certeza que não sou uma pessoa feliz (você já deve ter percebido isso), mas de certa forma sou uma pessoa conformada, ou não. Se ser conformado é não ter atitude, então eu sou conformado; e com tudo que a vida me disponibilizou eu aprendi a conviver com os obstáculos, ou seja, eu não posso superá-los. Às vezes, eu penso se tudo isso não é um karma que estou pagando por uma vida passada. Quem sabe, né? O mais importante de tudo é que eu não luto mais por uma melhora, já me entreguei ao fato de que nada na minha vida vai mudar para melhor. É, caro leitor... Você tem toda razão. Eu realmente sou um perdedor.

Mas um dia eu acordei e pensei: “Por que tudo é tão difícil para mim? Eu não nasci pra ser um perdedor como eu fui até hoje. Eu não aguento mais essa vida. Preciso ser notado! Preciso fazer a diferença de alguma maneira. Isso tem que mudar, e isso vai mudar! Hoje é o dia da virada!” E você sabe o que aconteceu paciente leitor? Nada. E você aí achando que haveria alguma mudança. Peço desculpas pela minha incapacidade de agir. E fala sério comigo, pode falar, você realmente achava que alguma coisa boa iria acontecer? Ledo engano, meu caro... Como você é bobo! Acho até que como praticamente todas as pessoas que passaram pela minha vida. Isso aqui não é um filme em que depois de apanhar muito, o herói ressurge das cinzas e derrota o vilão. Isso aqui é vida real, e no meu caso, muito cruel, onde reviravoltas simplesmente não acontecem. Eu aposto que nesse momento você deve estar rindo muito da minha cara, e certamente me chamando de perdedor. 50

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DESENCONTOS

Apreço

por Ricardo Gnecco Falco www.rickfalco.wordpress.com

O cargo era o mais difícil de definir. Falava a empresa, o local de trabalho, o tamanho da sala, os benefícios... Mas, quando revelava o valor do salário, era inevitável a pergunta sobre o emprego. Afinal, por mais famosa, gigantesca e importante que fosse a corporação na qual trabalhava, ninguém poderia receber uma soma como a que ele dizia ganhar por mês. E olha que ainda mentia para menos, bem menos... Contudo, recebendo um valor tão vistoso e superior aos maiores ordenados de cargos públicos de seu país, como os de juízes do Supremo e desembargadores ou a remuneração do próprio presidente da República... Era mesmo impossível não causar tamanha surpresa. E não revelava o salário para qualquer um. Somente alguns poucos familiares e amigos mais próximos. Nem sua esposa conhecia a quantia correta, embora não precisasse se preocupar com isso, pois como era de se esperar, não lhe faltava nenhum bem, qualquer bem, que quisesse ter. E nunca na vida pensara que um dia, qualquer dia, fosse usufruir de tanta fartura. Mas, nem tudo tinha preço. Este era o caso do trabalho dele. Simplesmente não tinha preço. Fazia-o porquê gostava e porque ninguém mais no país inteiro, ou em qualquer outro país, o exercia tão bem quanto ele. Era algo como um dom, uma dádiva recebida sabe-se lá de onde ou de quem. Um poder que somente ele e ninguém mais possuía. 52

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DESENCONTOS Ele era único. Trabalhava com publicidade. Mas não era publicitário. Na verdade, nunca sequer produziu qualquer peça publicitária. Nenhuma campanha, nenhum anúncio... Nada. Mas trabalhava diariamente com propaganda(s). Todas. Via de regra, com as mais caras e melhor produzidas. Tinha contato direto com os melhores profissionais da área. Conhecia e era reconhecido à distância pelos mais renomados marqueteiros do planeta. Na verdade, era disputado a tapa por todos eles. Transformou-se, em muito pouco tempo, em um mito. Já tinha gente que até desconfiava de sua existência. Mas ele existia; estava lá. Trabalhava naquela megaempresa de televisão que parecia mesmo tentar desviar todo e qualquer alarde sobre a sua pessoa e, principalmente, sobre a função que ele desempenhava ali. Virou objeto de estudo e havia até uma equipe contratada para simplesmente acompanhá-lo no dia a dia, com a secreta função de analisar seu trabalho, tentar entender as escolhas e decisões que tomava.

DESENCONTOS mãos e braços. E vários membros da família a menos. O sonho de ser músico levado juntamente do pai, mãe e irmãos naquele fatídico cruzamento. Recomeçou do zero. Reaprendeu a andar, falar, pegar... Até a sorrir novamente, com a chegada de Mariana em sua vida, pouco tempo depois. Ao lado de quem estaria no altar, na maternidade e ao final de cada novo e belo dia de vida. Só não deu mesmo para voltar a tocar. Mas, como diz o ditado, quando uma janela se fecha, portas se abrem. E Paulo nem percebeu ao entrar no mundo que hoje tão bem lhe faz. E que tão bem o faz, também. Começou meio sem querer, ao sugerir a um amigo, que trabalhava em uma agência, que alterasse a ordem de exibição de um anúncio veiculado na televisão. Tal anúncio aparecia sempre após outro que terminava de uma forma que o incomodava, pois não só apagava a ideia da primeira propaganda, que deveria ficar na cabeça do público, como também revertia a mesma, afastando o consumidor do produto, ao invés de aproximar. Tudo por causa de uma simples questão de arranjo.

Era definitivamente um mestre. Tinha curso superior, é claro, mas em outra área, completamente diferente da que ocupava ali. Tornara-se a maior referência da atualidade no ramo sem sequer ter feito um único curso com aquela especificação. Era formado em música. Música clássica. Tocava peças musicais dificílimas, já aos sete anos de idade debruçado sobre o piano velho da tia-avó, herança de família. Um piano que nenhum ente querido queria guardar. Um elefante branco no meio da sala que ninguém gostava ou se interessava. Somente ele. Apreço. Então, aos vinte e três, a ruptura de seus maiores sonhos... Um acidente de carro no carnaval o obrigara a uma dolorosa estadia no CTI de um hospital. Vários meses. Vários ossos quebrados, principalmente nas 54

“O compasso está errado”, dizia ao amigo, que se interessou pela sugestão e, ao atentar-se para as demais colocações recebidas, vislumbrou algo ali que até então jamais enxergara. Nem ele, e nem ninguém que conhecia. Era uma ideia totalmente nova, um novo conceito. Algo que, embora óbvio, seria inovador. A quebra de um paradigma. E assim foi contratado. Pela primeira vez na vida, entrou em uma agência de propaganda. Foi apresentado pelo amigo aos profissionais da área responsável pelo fechamento dos contratos com as mídias e, também pela primeira vez, um contrato foi firmado com algumas poucas e, até então estranhas, cláusulas a mais. E que mudariam por completo não apenas sua vida... Mas também todo o modus operandi da publicidade contemporânea. 55


DESENCONTOS A agência do amigo tornou-se pequena e os convites de trabalho começaram a chover de diversos segmentos do mercado. Empresas privadas, grandes organizações corporativas, indústrias, conglomerados multinacionais, redes de comunicação... Até chegar ao cargo e empresa atuais. Ele orquestrava, de modo espontâneo, natural e subliminar, a ordem dos anúncios pagos pelas patrocinadoras para irem ao ar. Rarefeito naquela emissora, diga-se de passagem. Cortava alguns, repetia outros, misturava partes, sons... Silenciava imagens. Floreava tons, semitons. Fazia arte sobre a arte com total liberdade e domínio. Incomparável. Montava um caminho na apresentação ao público das peças que, ao final do intervalo, juntamente de sua massiva exposição, deslumbravam cada vez mais e mais consumidores e, consequentemente, anunciantes. Estupefatos. Conforme constatado por especialistas, as mesmas peças publicitárias, em outros canais e redes televisivas, não surtiam o mesmo efeito, o mesmo impacto nos sentimentos do público que causavam ao serem apresentadas, após seu arranjo, na emissora onde trabalhava. Era, realmente, um dom. Sua função, oficializada na tabela de cargos e salários da empresa, para estranhamento de todos os que tinham acesso às informações sigilosas da corporação ou aos holerites, estava assim definida: “Maestro”.

Banal

por André Carvalho

Depois de mais um dia de trabalho no Ministério Público, Pedro chegou ao prédio em que residia. Posicionou seu carro novo, que nem emplacado fora, na entrada da garagem e acenou para que Severino, o porteiro, acionasse o botão que abria o portão automático. Guiou o veículo rampa abaixo e o estacionou na garagem subterrânea. Cumprimentou o manobrista e entrou no elevador, rumo ao seu apartamento no 14° andar, o 1402. Estava de bom humor, como sempre que chegava ao lar, de noitinha, depois de um dia de labuta. Adorava conversar e brincar com suas crianças e, depois, curtir a vida de casado. Assim que pôs a chave na fechadura, já podia ouvir seus filhos, alegres e barulhentos, indo recebê-lo na entrada. Pedro entrou em seu apartamento e, imediatamente, abraçou o casal de filhos, levantando-os brevemente do chão, num aperto amoroso. Quando saíra do trabalho, comprara um jogo de videogame para seu filhote e uma boneca para sua princesinha. Jogou com o menino no Nintendo Wii, enquanto a menina ficava ao seu lado, entretida com seu presente e afagando o pai. Cláudia, sua esposa, estava no banho no momento em que chegara. Quando saiu, atrapalhou rapidamente a jogatina entre pai e filho frente à TV para receber seu esposo com um beijo carinhoso, porém respeitoso. - Vou esquentar o jantar, crianças – disse Cláudia. – E depois de comer, cama. As crianças assentiram, obedientes. Com a mesa posta, os quatro se sentaram. Conversaram sobre o dia de cada um, especialmente o das crianças, que eram as mais empolgadas em narrar suas atividades. O único momento desagradável foi quando o menino reclamou que tinha apanhado no recreio para uma criança maior, que o perseguia de vez em quando.

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DESENCONTOS Nesse momento o casal se revoltou. Pedro queria conversar diretamente com os pais da criança, mas a esposa não concordou e sugeriu que seria melhor trabalhar o problema pedagogicamente, com a coordenação e a direção da escola. Ambos decidiram que seria bom para o garoto, que o mesmo fosse matriculado em alguma arte marcial. Apesar da notícia preocupante em relação ao bullying sofrido pelo filho, o bate-papo familiar, como sempre, foi agradável. Depois que o último terminou sua refeição, Cláudia tirou a mesa. - Meus amores – disse a mãe. – Agora é hora de escovar os dentes e ir dormir. Vocês têm aula cedo, amanhã. Enquanto Cláudia lavava a louça, Pedro ia preparar as crianças para dormir. Observou-os fazer sua higiene bucal e levou cada um pro seu quarto. O menino deitava e dormia logo, mas a menina, a princesinha da família, era mais mimada e muito apegada ao pai. Dormia apenas depois de longos minutos de cafuné. Com as crianças na cama e a louça lavada, o amplo apartamento, recém-adquirido, era agora só do casal. Sentaram-se no sofá e calcularam algumas contas da família: mensalidades do colégio das crianças, do curso de inglês e, agora, estipulavam o valor do karatê ou jiu-jitsu para o menino. Calculadas as pendências, planejaram o futuro e as próximas aquisições. Depois de discutidas as questões familiares, ligaram a colossal TV de LED e procuraram algo de bom na vasta programação que a TV a cabo oferecia. Escolheram um suspense em um canal de filmes e o assistiram até o fim, abraçados. Quando a programação terminou, Cláudia estava sonolenta. O estado de Pedro era o oposto; tinha problemas moderados de insônia e fazia uso de medicamentos para controlar o distúrbio, talvez provocado pelas estressantes atividades no Ministério Público do Rio de Janeiro. Pedro foi com a esposa para o quarto e deitaram abraçados, debaixo do edredom. Inevitavelmente, fizeram amor com a paixão de namorados adolescentes que tinham acabado de se conhecer. Depois do ato, ligaram o televisor do quarto no canal de noticiários. O repórter noticiava o assassinato de uma prostituta e a prisão do suspeito do crime. En58

DESENCONTOS quanto o âncora descrevia os detalhes, Cláudia decidiu que não queria assistir àquilo. - Ah não, amor – protestou Cláudia. – Muda de canal. No noticiário só passa coisa ruim. Só violência, corrupção e catástrofe. - É verdade – respondeu Pedro. – Mas saber que essas coisas ruins acontecem diariamente bem ao nosso redor, é importante. Nos lembra de termos cautela por aí. Temos filhos – ponderou. – E além do mais, parece ter alguma coisa a ver com o caso em que estou trabalhando lá no MP. - Eu sei, amor – Cláudia respondeu com compreensiva paciência, mas não se mostrava tão tensa. – Você é preocupado demais, Pedro. Por isso não dorme direito. Culpa desse seu trabalho que também te suga – bocejou e continuou. - Falando nisso, toma seu comprimido e muda logo de canal. Não é hora para tragédias nem assuntos de trabalho – Deu um longo e úmido beijo de boa noite no marido e fechou os olhos. Pedro tomou o calmante e mudou para o canal de documentários. Estava na hora de seu programa favorito, sobre caça. O jovem e bem-sucedido chefe de família apreciava o esporte desde criança, mas não teve muitas oportunidades de praticá-lo, afinal, não é um passatempo visto com bons olhos no Brasil. Enquanto passava na tela a imagem detalhada de um caçador preparando seu rifle, o homem, recostado na cabeceira, lembrou com carinho de seus finais de semana, feriados e férias nos dias antigos, quando ia para a roça, na casa de seu avô. Ambos saíam frequentemente para caçar capivara. O velho usava uma espingarda e ele, apenas um moleque franzino, uma carabina de ar comprimido. Além da emoção de rastrear, perseguir e alvejar um alvo móvel e dele tirar alimento para a família, a caça trazia à sua mente o saudosismo daquela época inocente, da fazenda e de seu falecido avô. Na tela, a programação seguia, com o caçador atirando em um alce. Ao mesmo tempo, o remédio ia fazendo efeito. Decidiu dormir, pois o dia seguinte seria cheio. O dia amanheceu e o despertador gritou. Pedro viu que sua esposa já havia saído para levar os filhos ao colégio e provavelmente, resolver o caso de bullying. Lutou contra o sono químico que ainda trabalhava sua mente e foi preparar seu café da manhã. Misturou leite e Ovomaltine 59


DESENCONTOS em um copão e bebeu quase tudo de uma vez. Fez a barba, vestiu-se, colocou o suspensório que guardava sua pistola automática e deu o nó na gravata. Praguejou em silêncio por ter de vestir o paletó no calor do Rio de Janeiro, durante o dia inteiro. Pegou a chave do carro, tirou-o da garagem e foi trabalhar. Lá fora, o calor estava de derreter pele e carne. Os pedestres suavam. Pedro ligara o ar-condicionado no máximo. O trânsito carioca, como sempre, estava caótico naquela manhã, desintegrando-lhe o bom-humor até a última partícula. Em cada sinal de trânsito era obrigado a gritar contra os “lavadores de para-brisas profissionais” que, invariavelmente, chegavam espirrando água imunda – Pedro desconfiava de que era mijo com detergente - nos vidros escuros de seu carro novo em folha. Às vezes, como todo motorista normal, tinha vontade de passar por cima deles, mas se limitava a xingá-los de nomes particularmente criativos. “Esse caos do Rio enriquece muito nosso repertório de palavrões” refletiu. Depois de um par de horas engarrafado e avançando lentamente, o homem conseguiu chegar à sede do Ministério Público de sua comarca, no centro do Rio. Ao entrar no edifício, seu humor melhorou sensivelmente, pois sempre encontrava rostos simpáticos, sorrisos gentis e olhares de admiração. Cumprimentou a todos indiscriminadamente no hall de entrada. Enquanto aguardava o elevador que levava à Vara Criminal e ao seu escritório, contemplou uma belíssima estátua trabalhada em metal que adornava o salão. Tinha a forma de uma mulher vendada que segurava em uma das mãos, uma espada, e na outra, uma balança. “Justiça”. Deu de ombros. No elevador, encontrou alguns amigos de trabalho, de quem Pedro genuinamente gostava. Havia camaradagem entre eles. Um deles cutucou Pedro e apontou com o queixo para a morena que estava na frente. - Olha que espetáculo – cochichou o amigo. - Porra, Batata! Sou casado – protestou Pedro, mas rindo para amigo. Mesmo assim não resistiu e deu uma olhadela discreta para os glúteos empinados, soltos sob a saia. - Mas não está morto, pelo que eu estou vendo, não é taradão? – res60

DESENCONTOS pondeu Batata, provocando risos contidos no grupo de amigos. A menina desceu no andar da Vara Trabalhista e todos olharam meio embasbacados o rebolado da moça, inclusive Pedro. Agora só os companheiros estavam no elevador e Batata novamente falou, mudando o clima: - Morreu mais uma prostituta – disse Batata. – Viu na TV? Pegaram o cara. - Ah, mas eu duvido que seja o elemento que matou as outras – rebateu Pedro. – Viu a cara do infeliz? Esse de ontem deve ser só mais um desses tarados que comem e matam pra não pagar, achando que são espertos. Além do mais, os padrões não batem. - Bem, esse fodeu, não pagou e se fodeu – Batata debochou. Risinhos preencheram o elevador. - Pegar traficante é mole – interveio outro colega, Arnaldo. – Mas esses malucos são mais espertos. Lembra-se daquele Maníaco do Parque? - Pois é! – concordou Pedro. – Vocês se lembram de quantas meninas o filho da puta matou e o tempo que demoraram pra encontrar o cara? – Pedro estava irado, afinal ele tinha sido designado para o caso. - Pedro, você está fodido com esse processo – disse Batata dando tapinhas nos ombros do amigo. - Vocês sabem o que me deixa puto da vida? – perguntou Pedro. – É a incompetência da Polícia Civil nesses casos. Os caras só sabem investigar assalto, tráfico, bêbado batendo na mulher... - E quando aparece um psicopata atípico, são ineficientes e não conseguem investigar sozinhos – completou Arnaldo. – E sobra para nós, que deveríamos observar mais indiretamente para montar o caso e acusar o elemento no tribunal, mas acabamos investigando como polícia comum e correndo perigo em campo. Nosso trabalho é no fórum, porra! Nesse instante, o elevador chegou ao andar desejado, mas o grupo continuou conversando enquanto se dirigiam para suas salas um a um. - E adivinha quem deve ir à carceragem interrogar aquele infeliz de ontem? – A pergunta de Pedro era retórica. 61


DESENCONTOS Pedro chegou à porta de seu escritório, despediu-se dos amigos e entrou. Colocou o paletó no cabide, tirou a arma, a colocou sobre uma pilha de processos e, finalmente, atirou-se na cadeira e ficou um tempo olhando para o teto. Voltou seu pensamento para o filho e imaginou o que sua amada Cláudia estaria fazendo a respeito. Balançou a cabeça para afastar os problemas familiares e preparar seu raciocínio para mergulhar na barbárie que permeava seu ofício. Analisou alguns processos; leu e se deparou com algumas fotografias aterradoras de alguns homicídios e escreveu vários despachos. Após limpar sua mesa a cota do dia, conferiu na agenda os compromissos para aquele dia. Ele teria três audiências, sendo uma delas, um júri popular. Examinou sem interesse os documentos referentes à morte das prostitutas. Isso o fez se lembrar do infeliz que fora detido no dia anterior e se encontrava encarcerado em uma delegacia próxima. Telefonou para o delegado e pediu que o preso fosse preparado para interrogatório. Pôs sua arma no suspensório e vestiu o paletó. Trancou sua sala e dirigiu-se até seu objetivo. Mas o fazia apenas por fazer; tinha certeza de que aquele criminoso não era o responsável pelo assassinato das outras prostitutas. Pedro chegou à delegacia. Todos o conheciam e o cumprimentaram com simpatia e brincadeiras respeitosas. O jovem promotor retribuía, sendo simpático e gentil com todos. O delegado, um colega de faculdade, o conduzira até o preso para que fosse interrogado. O suspeito era, claramente, um pobre coitado. Só de olhar, estava óbvio que não tinha a inteligência necessária para matar quase uma dezena de mulheres antes de ser pego. O sujeito era ignorante, falava errado e não captava as sutilezas e armadilhas das perguntas. Pedro deixou o encarcerado com a certeza de que ele tinha matado apenas a prostituta do dia anterior e só para não pagar pelos serviços. O jovem promotor estava perdendo a paciência com o caso. Precisava achar logo um culpado. Depois de sair da delegacia, seguiu para o fórum, para o júri popular de um homicídio duplamente qualificado. Pedro amava o júri, estudara Direito especialmente para viver esses momentos. O julgamento foi acalorado; e a batalha contra a Defesa, cheia de provocações e argumentos incisivos, principalmente por parte da Acusação. 62

DESENCONTOS Findo o júri popular, Pedro mais uma vez se saíra vitorioso. Aquela fora uma vitória importante para sua carreira. Seguiu para as duas próximas audiências, que seriam mais simples; apenas ele, a defesa, o réu e o juiz. Esses compromissos foram rápidos e sem aborrecimentos. Em um deles, Pedro saíra vitorioso, no outro, não. Seu expediente se aproximava do final e Pedro estava feliz com isso, ansioso para que chegasse o logo aquele momento especial de algumas noites, que lhe recarregava as baterias. Voltou para o prédio do Ministério Público, entrou em sua sala e se sentou com os pés na mesa. Como dormia mal à noite, acabou cochilando um pouco ali mesmo. Quando acordou, a noite já havia caído. Imediatamente pegou seu smartphone e ligou para a esposa, avisando que iria jogar sinuca com Batata e, depois, se reuniriam na casa do mesmo para trabalhar numa pilha de processos pendentes. Também avisou que provavelmente, quando chegasse, ela já estaria dormindo. Pediu-lhe para mandar um beijo para os filhos e deixar a comida na geladeira para que esquentasse no micro quando chegasse. O relógio marcava sete e meia da noite. Pedro praguejou por ainda ser cedo demais. Precisaria enrolar na rua, até chegar o horário apropriado para efetuar o que pretendia. “A Polícia Civil é muito incompetente mesmo”, sorriu com uma ponta de desprezo. Decidira que, naquela noite, ele mesmo iria chafurdar-se no mundo promíscuo da prostituição, esperando a manifestação do assassino em série. Para fazer hora, foi passear no shopping, onde comeu uma pizza na praça de alimentação. Posteriormente, visitou uma loja de videogames e comprou mais dois jogos de Nintendo Wii para seu filho. Em seguida, foi até loja de brinquedos e comprou três bonecas para sua princesinha. Caminhou mais algum tempo entre as lojas até decidir assistir a um filme no cinema. Quando promotor saiu do cinema, o relógio já marcava quase meia-noite. Era hora de agir. Pegou seu carro preto, com vidros escuros, e seguiu rumo a Copacabana, um dos maiores centros de prostituição do Rio, depois das dez da noite. 63


DESENCONTOS O veículo escuro percorria a Avenida Atlântica devagarinho, observando as mulheres da vida que ali transitavam em busca de dinheiro fácil. Uma delas esfregou os seios nus nos vidros escuros. O motorista abriu uma fresta. A mulher não era feia. - Gosta deles, amor? – perguntou a prostituta massageando os mamilos. - Adoro. São deliciosos! – respondeu Pedro, empolgado com a visão.

DESENCONTOS Pedro sorriu com o elogio e tratou de retribuir. - A palavra “beleza”, e qualquer derivado, deveriam ser usados somente para você – disse Pedro realmente impressionado com a mulher. – Acredito que nem “bonita” é o suficiente para você. Você é muito mais que isso, é linda, uma verdadeira divindade da luxúria. Nenhuma mulher nessa avenida deveria receber esses adjetivos enquanto você estiver presente.

- Dá a volta e entra no carro, meu bem – ordenou Pedro com voz dócil.

- Nossa! – exclamou a loira, ruborizada e visivelmente feliz com as palavras do rapaz. – Estou sem palavras. Além de ser um gato, você fala bonito e parece inteligente e culto.

- Não, não, amorzinho. Não saio com os clientes – declinou a mulher. – Tá vendo a segunda janela daquele prédio? É lá que vou te fazer feliz.

- Não sou isso tudo, minha linda – respondeu humildemente. – É sua perfeição que me inspira.

- Então fica pra próxima, minha linda. Queria te levar a um lugar melhor – beijou o ar na direção da prostituta e pôs o carro em movimento novamente.

- Como você é diferente dos outros! – disse ela, encantada com Pedro. – Eu adoraria sentir como eu te inspiro.

- Então... Você me quer, gostosão? – quis saber a meretriz.

Esperou sair do campo de visão da mulher com quem fracassara em negociar e começou a sondar outros alvos. Passou por um grupo de meretrizes, algumas interessantes, mas as ignorou e continuou a dirigir. Não lhe interessava que alguém o visse caçando garotas de programa, afinal, era casado com uma esposa maravilhosa, pai de lindas crianças e tinha uma carreira brilhante e promissora. Assim sendo, procurava uma que estivesse sozinha, relativamente longe dos pontos mais movimentados da avenida. Não demorou muito e avistou. Pedro não acreditou na própria sorte. Poucos metros adiante, ele viu um taxi parar, e dele, desceu uma mulher estonteante: loira, pernas grossas e bem torneadas, seios fartos que pareciam naturais, e o traseiro grande e empinado. A moça parecia estar começando o expediente naquele momento. Assim que ela pagou o taxista, aproximou o carro da loira, que já rodava sua bolsa. Parou e abriu uma fresta do vidro do carona e acenou. A mulher sorriu, ajeitou a dourada e lisa cabeleira e inclinou-se à janela do carro. - Olha só! – cantarolou ela, interessada. – É difícil ver um cliente tão bonitão e elegante por essas bandas. 64

Pedro apertou um botão e a porta do carro se abriu. A bela prostituta entrou e sentou no banco do carona, sem hesitar. Pedro ficou excitado só em sentir o perfume da mulher. A visão das grossas coxas e do belíssimo par de seios atrás do decote ousado o atiçava ainda mais. Pedro conduziu seu carro para bem longe dali, distante, do outro lado da cidade. Passaram por uma estrada com pavimentação ruim, ladeada por árvores densas. Em determinado ponto, a estrada inclinou-se numa subida. Nenhum outro carro passava por eles, nem próximo. - Para onde estamos indo? – quis saber a loira, enquanto passava a mão sobre a calça de Pedro. - Vamos para um morro, curtir um momento mágico com as estrelas e a lua nos observando. - Que sorte a minha! Encontrar um partido como você no quinto programa que eu faço – revelou a jovem meretriz. - Não... – disse Pedro com uma voz lupina. – Que sorte a minha! Depois de uma hora de subida, chegaram a uma encosta, totalmen65


DESENCONTOS te deserta. Além do precipício, o lugar exibia uma visão maravilhosa da cidade lá embaixo, suas luzes oscilantes e carros percorrendo estradas, visíveis apenas por causa das lanternas vermelhas. Pedro saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para a moça sair. Ficaram encostados no carro. - Qual o seu nome? – Pedro quis saber. - Mariana – respondeu a mulher. - Não parece nome de guerra – gracejou o promotor. - Porque não é – rebateu com um sorriso tímido.

DESENCONTOS - Não mesmo, querida – concordou Pedro, sério e seco. – Quem vai pagar algo aqui, é você, minha linda. Mariana arregalou os olhos, apavorada. Pedro deu-lhe um soco no rosto e outro no estômago, fazendo Mariana gritar de dor e pavor. Ela caiu sentada no chão. Tentou freneticamente se arrastar para trás. O agressor pegou seu terno jogado sob o capô do carro e sacou uma pistola com silenciador. Obviamente, não era a sua arma. Como promotor de justiça, tinha acesso a outras armas, inclusive as apreendidas, de numeração raspada. - Corre – ordenou Pedro, a voz fria. – Corre pela sua vida, puta.

O jovem promotor olhou mais atentamente para Mariana. Era pouco mais que menina, com não mais que vinte anos, provavelmente dezenove. Isso o excitou ainda mais.

A jovem levantou-se, mas não conseguia correr, só gritar. O homem deu um tiro na terra, perto dos pés dela, fazendo-a sair em disparada. Não tinha para onde ir. Correu paralelamente ao penhasco, até se afastar o bastante e tentar a direção oposta da queda.

Pedro começou a fazer carícias nas pernas carnudas de Mariana, enquanto sua boca brincava no pescoço liso e perfumado da garota. Subiram no capô do carro e se esfregaram. Pedro ficou surpreso com a iniciativa da jovem em beijá-lo na boca, ainda mais de língua. Afinal, não era o comportamento normal de uma garota de programa. Ela abriu as pernas e ele entrou. Ficaram quase uma hora lá. Fizeram de tudo, inclusive coisas que não ousava tentar com sua esposa, mesmo ela sendo fogosa e tranquila em relação a sexo.

Pedro teve um flashback de suas caçadas da juventude, quando corria atrás dos animais, com eles na mira, e disparava. Tentou emular a imagem que viera à sua mente. Mirou na panturrilha da prostituta e apertou o gatilho. Ela gritou e se espatifou no chão. Mariana gritava e chorava desesperadamente, babava de terror, enquanto arrastava-se o mais rápido que podia, usando os braços e a perna boa. O atirador apenas caminhava, sem pressa, na direção da vítima.

Depois dos gemidos e gritos abafados de prazer terem cessado, ficaram abraçados, comtemplando o céu noturno e a vida urbana, centenas de metros abaixo. - Posso saber seu nome? – quis saber Mariana. - Gilberto – mentiu Pedro. - Sabe, Gilberto, hoje eu vou sem dinheiro para casa – confessou a jovem. – Não vou cobrar nada de você depois de uma noite tão maravilhosa. Foi delicioso, não pareceu trabalho. Você não precisa pagar nada. Pedro sorriu de maneira lupina.

- Por favor, não me mate! – implorou aos prantos. - Não adianta gritar, donzela – debochou Pedro. – Aqui, a essa hora, ninguém vai te ouvir. Pedro cantarolava, enquanto se aproximava. Quando chegou junto de Mariana, virou-a de barriga para cima com o pé. - Por que? – choramingou a jovem. - Porque gosto de caçar – respondeu. – Sou um caçador. Desde a infância. Cega pelo pavor e ao mesmo tempo pela fúria desesperada, Mariana

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DESENCONTOS respondeu, perdendo momentaneamente a noção do perigo. - Não, não! Caçadores caçam animais – encarou a jovem, com a coragem daqueles que nada mais tem a perder. – Você é um assassino. Apenas um maníaco covarde. - Viu só? Então eu sou mesmo um caçador, porque, você é um animal – rebateu Pedro. – Aposto que muitos a chamam de cadela – ofendeu. – E o ser humano é o mais inteligente dos animais, o que faz dele o mais perigoso. Por isso eu mato animais como você – respondeu com sinceridade doentia e desdém. – Mas devo confessar que você me decepcionou. Caiu na minha conversinha fiada. Fácil demais. - Gilberto, por favor, eu tenho um filho pequeno para alimentar – implorou Mariana. - Então vou poupá-los da vergonha de ter uma mãe puta – disse impiedosamente, enquanto apontava a arma clandestina.

DESENCONTOS voltou à sala, pegou os processos que disse à sua esposa que estaria trabalhando, e os colocou sobre a escrivaninha do escritório do apartamento. Depois, pegou as bonecas de sua filhota amada e colocou na mesinha de cabeceira rosa, ao lado de sua cama. Fez o mesmo com os jogos de Wii que comprara para o seu rapazinho. Foi para o seu quarto, onde sua amada Cláudia dormia profundamente e deitou-se. Deu um beijo longo e amoroso na testa da esposa e sussurrou: - Eu te amo, minha flor. Virou para o lado. Pedro sentia-se leve, satisfeito. Ninguém nunca desconfiaria dele. Sua sede secreta fora saciada e ele estava feliz. Olhou para os comprimidos de dormir e sorriu, ignorando-os. Já estava com sono. Naquele dia ele não precisou de química para adormecer. Teve sonhos vermelhos e proibidos, mas deliciosos.

A mulher começou a gritar desesperada diante da certeza de que morreria ali, naquele momento e naquele lugar. Pedro disparou um tiro na barriga e outro no coração, concluindo a sua caçada. Arrastou a morta até a borda do precipício. Amarrou pedregulhos nas mãos e pés do cadáver e o empurrou com o pé. A jovem caiu como uma boneca de pano, batendo nos pedregulhos proeminentes do abismo, sendo arremessada de um para o outro, até atingir a grande massa d´água que findava a queda. A pistola teve o mesmo fim. Pedro pegou seu carro e foi embora, fazendo o caminho de volta até a base da montanha. De lá, seguiu para casa. Quando chegou ao edifício, ninguém o viu. O condomínio não contava com porteiro à noite e Pedro abriu o portão da garagem com o controle remoto. Pegou o elevador até o décimo quarto andar e entrou em casa. Tirou a roupa e a colocou na lavadora. Em seguida, tomou um bom banho para tirar o cheiro de sexo e perfume feminino do corpo. Depois, 68

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DESENCONTOS

Circo de Horrores

por Ulisses Teixeira

Roberto Tristão encontrava-se em algum lugar da Amazônia. Não estava perdido, porém não sabia onde estava. O avião monomotor, que provavelmente fora concebido por Leonardo da Vinci e construído por Santos Dumont, voava tranquilamente a cem pés de altura das árvores mais altas. O avião passava perigosamente pela copa das árvores, na opinião de Roberto. Mas o piloto não se preocupava com isso. Aliás, ele nem mesmo se preocupava em guiar a máquina. Isso deixava Roberto intranquilo, muito intranquilo. - Você não deveria, ao menos, olhar para onde vamos? – perguntou Roberto. O piloto olhou para Roberto com o mesmo olhar que o Homo sapiens olhou para o Homem de Neandertal. - Não, doutor. O avião está no piloto automático e o solo por aqui é quase todo plano. A não ser que eu me distraia e a gente bata nos Andes. – respondeu sarcasticamente. Roberto nunca entendia porque os homens mais pobres o tratarem mal. Ele não era, afinal, um sujeito ruim e nunca tinha sido grosso com ninguém. Não era sua culpa ter tido a oportunidade de fazer uma faculdade e ter um bom emprego na Petrobras. Foi na escola, por exemplo, que ele aprendeu a localização da Grande Cordilheira dos Andes e sabia ser impossível, considerando o local onde se encontravam e o tipo de aeroplano que usavam, que as montanhas fossem atingidas. O combustível do avião acabaria e eles cairiam na floresta, com certeza. Na melhor das hipóteses, os dois morreriam. Na pior, os dois sobreviveriam e um teria que praticar canibalismo para sobreviver. Roberto não teve dificuldade de vislumbrar, caso isso acontecesse, quem seria comido. 70

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DESENCONTOS Esse pensamento o deixou ainda mais intranquilo. Mas, no fundo, ele sabia por que os porteiros, os lixeiros, os carteiros e quase todos os outros homens o tratavam mal. Ele era frouxo. E, na opinião de Roberto, isso se devia ao tamanho do seu pau. Era um pau mediano, ele sabia disso sem precisar comparar com o pau de mais ninguém. Caso dez caras fossem escolhidos ao acaso na rua, ele provavelmente ficaria em sétimo lugar. Com sorte, em sexto. Ele definitivamente não era o macho-alfa e a sua barriga roliça, a barba comprida, a sua careca e os seus dentes levemente amarelados e desiguais pioravam ainda mais a situação. O que deixava Roberto ainda mais nervoso era o fato de não saber exatamente para onde ia. A Petrobras estava com novas ideias de exploração de petróleo na Amazônia, como ocorre em Urucu. Mas, dessa vez, seria em um lugar mais afastado, precisamente onde Judas perdeu as botas. Um lugar sem nenhum rasgo de civilização, apenas uma pequena cidade próxima. Uma cidade sem luz, sem água encanada, sem esgoto, sem rua pavimentada. Mas em compensação, cheia de mosquitos, casas de pau-a-pique e gente feia e velha. Depois de quarenta minutos, o piloto preparou o avião para pousar. Nem mesmo a pista de pouso era pavimentada e Roberto decidiu que, se a Petrobras o obrigasse a fazer outras viagens àquele local, ele exigiria, pelo menos, uma pista de pouso decente. Ao desembarcar do avião, Roberto agradeceu a Deus (ele não era um homem religioso. Com o tempo, isso iria mudar). Ao lado da pista de pouso, ele encontrou com outros dos seus colegas de empresa; ninguém que ele conhecesse pessoalmente, mas que seriam sua companhia para os próximos dias. Dois deles eram engenheiros como ele. O outro era um local, que os servia como guia. Aparentemente, ele era o homem mais instruído da região, pois tinha cursado até a quinta série em uma escola da cidade vizinha. Feitas as apresentações, levaram Roberto para uma cabana de madeira que tinha sido construída para o trio pernoitar, enquanto analisavam as condições do local. O trabalho de Roberto não era exatamente procurar petróleo, mas avaliar se valia a pena transformar a aldeia onde se encontrava em uma cidade de verdade. A preocupação maior da em72

DESENCONTOS presa era construir uma escola e um hospital, para desviar a atenção dos ambientalistas contrários à exploração do petróleo em frágil ecossistema. “Sempre tentando deter o progresso, esses hippies” – Roberto pensava. Da parte dele, mal poderia esperar para trazer um pouco de concreto e de felicidade para a pequena comunidade de Dante. Mais tarde, o engenheiro filosofaria sobre como o nome de um dos maiores escritores da Idade Média tinha chegado àquele povo um pouco mais avançado que os homens pré-históricos. Mas não importava. O que importava é que, na opinião dele, “Dante iria do Oitavo Círculo do Inferno direto para o Oitavo Círculo do Paraíso”. Brincou, inclusive com a ideia de morar em Dante. “Se tudo der certo, serei um cidadão dantesco” – falou, para os outros engenheiros. Mas ninguém riu. À noite, Roberto e seus colegas foram dormir. Ao entrar na sala, Roberto sentiu um calafrio correndo em sua espinha. A luz da lua cheia invadia o local pelas janelas e era rebatido pelos mosquiteiros em cima das redes, dando-lhes um aspecto fantasmagórico. Parecia-lhe que cada rede tinha seu fantasma particular. Roberto, por um segundo, ficou com medo, mas, logo depois, não se permitiu ter tais devaneios. Atribuiu o seu calafrio ao fato de ter que dormir em uma rede desconfortável, como um selvagem. Ele e os outros engenheiros já se deslocavam para as suas redes e iam levantando seus mosquiteiros, quando ele reparou que Samuel, o guia local, corria para fechar as janelas. O calor estava infernal e Roberto perguntou: - Rapaz, deixe as janelas abertas. Está uma verdadeira sauna aqui dentro. - Não posso não, doutor. Hoje é noite de lua cheia. - E daí? - Noite de lobisomem, doutor. – Respondeu Samuel como alguém que anuncia algo óbvio. Roberto riu desgostoso. Aquele fim de mundo era ainda pior do que ele pensava. - Samuel, lobisomens não existem, a não ser em filmes B hollywoo73


DESENCONTOS dianos da década de 40. Deixa as janelas abertas e vai dormir. - Não entendo direito o que o senhor quer dizer – disse Samuel. Ele já estava perdido na palavra “sauna” e “filme”. Concluiu que “hollywoodiano” deveria ser algum tipo de palavrão. – Mas os lobisomens existem sim, senhor. Meu irmão viu dois deles cruzando na floresta quando estava voltando do bar, há uns meses. Agora, a floresta deve estar cheia de lobisomens e filhotinhos. Roberto começou a ficar nervoso. Contou até dez. Depois, se virou para Samuel que, nesse meio tempo, continuava fechando as janelas. - Samuel, lobisomens não existem. Seu irmão provavelmente estava bêbado e viu dois cachorros no cio. Quase com certeza, foi isso. Agora, volte e abra todas as janelas. Agora! – respondeu enfático. - O doutor vai me perdoar, mas eu não vou dormir aqui com janela aberta, não senhor. - Meu rapaz, preste bem atenção... – Roberto ia dar uma bronca nele, não se importando com o tamanho do pau de Samuel. Ele era frouxo, mas também era gordo e o calor é o maior inimigo de um gordo. Mas foi interrompido pelos outros engenheiros. - Roberto, deixa disso, já tentamos antes e nada. Ele é assim mesmo. E quando não é o lobisomem é a mula-sem-cabeça, o saci ou o curupira. Vamos dormir. Roberto ainda se sentia nervoso. Mas, como nós sabemos, era frouxo e desistiu. Provavelmente, até os outros engenheiros tinham o pau maior do que Roberto. Isso o deixou triste, pois era injusto. O sindicato deveria tomar alguma providência quanto a isto. Mas, enfim, conseguiu dormir. Os dias transcorreram normalmente. Seis dias, na verdade. A lua cheia já tinha acabado, mas Samuel continuava fechando as janelas todas as noites. E, realmente, quando não era o lobisomem, era a mula-sem-cabeça, ou o Drácula, ou o Monstro do Lago Ness, ou sei lá mais o 74

DESENCONTOS quê. Roberto procurava não dar atenção a Samuel e, se isso incomodava o rapaz, ele estava se lixando. Mas a rotina começava a imperar no trabalho e Roberto se perguntava se havia algo de divertido em Dante. Um dia, disse para Samuel. - Samuel, vem cá. - Sim, senhor? - Aqui nesse fim de mundo não tem nada de bom para fazer, não? - Como assim, senhor? - Tem algum lugar aonde pessoas vão para se distrair? - Tem o bar, doutor, mas eu não ponho os meus pés lá. É pecado, Deus disse que é. Deus disse. Eu falo isso com o meu irmão, mas ele me fala palavras feias e eu tenho que correr senão ele me bate, e... Roberto o interrompeu logo. A capacidade de Samuel continuar falando sem parar era certa. “Incrível como um homem com um vocabulário com menos de cem palavras pode falar tanto”, ele costumava pensar. - Tá, esquece o bar. Tem algum lugar por aqui que só homens vão se divertir? – perguntou Roberto, piscando sugestivamente. - Como assim, senhor? – respondeu Samuel, para quem uma piscada era um cisco no olho. - Tem algum puteiro por aqui, porra? Samuel levou um susto e olhou para Roberto como se ele fosse o demônio. Respondeu um fraco “tem não, senhor” e se retirou o mais rápido que pôde. Roberto novamente perdeu a paciência e decidiu ir ao banheiro (ou vala, seria mais apropriado) para mijar, se masturbar e se acalmar. Quatro minutos depois, acabou seu serviço e saiu calmamente do banheiro. Enquanto caminhava, ouviu Samuel o chamando, baixinho, meio escon75


DESENCONTOS dido entre as árvores. - Senhor Roberto, senhor! Olha, aqui em Dante não tem nada disso que o senhor disse, aqui não. Aqui é uma cidade direita. Mas amanhã à noite, vai chegar umas coisas novas. - Que tipo de coisa nova? - A gente aqui chama de circo. O pessoal do circo chama de “Horrores-vindos-dos-mais-profundos-pesadelos-dos-seres-humanos-capazes-de-aniquilar-a-alma-do-mais-firme-dos-homens” – repetiu Samuel, como se entoasse uma reza. Roberto pareceu indiferente - Parece bem interessante. – mentiu. Como você decorou tudo isso? - Ah, é que todo ano eu fico parado na porta. Mas nunca tenho coragem de entrar. Não, tem gente que sai diferente do que entrou. E tem gente que não sai mais. E a gente nunca mais vê, nem quando o circo volta no outro ano. Roberto ficou desapontado. Mas, se um circo de horrores era a melhor coisa que ele conseguiria ali, que seja. Pelo menos, se fosse uma merda, ele teria companhia. - Tudo bem, Samuel. Amanhã, eu vou ao circo. E você vai comigo. E nem adianta dizer “não” como resposta! – avisou. Roberto caminhou satisfeito. No final, ficou feliz em conhecer Samuel. O rapaz era muito mais frouxo que ele e o fazia sentir-se um pouco melhor. Na grande noite, Roberto ainda estava um pouco inquieto. Ele realmente preferiria ir a um bordel. Estaria passando perfume em vez de repelente para mosquitos. E não conseguia tirar da cabeça que o dinheiro seria mais bem gasto no puteiro mesmo. Saiu da cabana e encontrou Samuel sentado em um toco de árvore, 76

DESENCONTOS morrendo de medo. O pobre homem tremia e olhava fixamente o negror da noite. Isso deixou Roberto ainda mais feliz e macho. Estufando o peito, deu um leve tapa (na verdade, não tão leve) no ombro do rapaz e disse: - Vamos, chegou a hora, homem. - Os outros doutores não vão com a gente? – perguntou Samuel, com mais medo na voz ao perceber que eles iam sozinhos. - Não, eles preferiram ficar aqui dormindo ou acabando com seus olhos lendo suas literaturas semipornográficas à luz de velas. Vamos só nós dois, qual é o problema? Samuel nem tentou perguntar o que era “semipornográfica”. O medo dominava o seu corpo e a única coisa móvel em seu corpo era seu maxilar. - Mas ainda dá tempo de desistir, não é? - Samuel, não seja frouxo. É uma ordem! Vamos! Esse grito teve ótimo efeito terapêutico em Roberto. Achava que tinha testosterona suficiente para encarar um exército sozinho. “Tenho que tomar cuidado, mais um pouco e viro o Hulk” – pensou Roberto e, depois riu da própria piada. O caminho ao circo era mata adentro. Samuel carregava o lampião. Depois de alguns minutos no meio de uma selva tropical escura, os níveis de testosterona de Roberto baixaram vertiginosamente. Cada barulho, cada ruído e cada rugido se transformava em um alarme para Roberto. Ele olhava para todos os lados, esperando jacarés, onças ou índios canibais o atacarem a qualquer momento. Mas depois, entendeu a situação e se acalmou. O pessoal do circo era esperto. A floresta já estava, como se diz no show business, “aquecendo” a plateia, ou seja, deixando o pessoal com um certo medo antes do evento principal. Como o show da banda desconhecida, antes da ban77


DESENCONTOS da principal. Assim, todos se assustariam muito mais facilmente com as atrações do circo de horrores, que, com certeza, não passavam de pessoas com problemas de nascença ou muito mal maquiadas. No meio do caminho, encontraram mais pessoas indo em direção ao circo. Samuel conhecia todas e acenava com a cabeça, mas nenhuma palavra era dita entre eles. Ao chegarem ao portão, o grupo já era de umas vinte pessoas, segundo Roberto. Era difícil contar pessoas com toda aquela escuridão. Ficou surpreso ao perceber que havia um portão e uma grande de ferro fundido, muito mal conservada. Olhou de soslaio para dentro e percebeu que o espaço do “circo” era grande. Na verdade, enorme. Isso deixou Roberto encucado porque, nas fotos de satélite que tinha recebido um pouco antes da viagem, não se lembrava de ver uma clareira tão grande naquela região da floresta. Se fosse algo ilegal, ele teria que informar à empresa. Estava se sentindo homem o suficiente para isso. Mas teria tempo para isso depois do show. Outra coisa que o deixou pensante foi que a estrutura do local parecia grande demais para ser construída em apenas um dia. A não ser, é claro, que o circo tivesse artistas suficientemente fortes e rápidos... Os pensamentos de Roberto foram interrompidos pelo susto que levou. Um clarão de fogo branco e roxo, vindo do chão, apareceu exatamente na frente do portão. Com a luz do clarão, Roberto pôde ver que, acima do portão, havia um arco escrito “Horrores vindos dos mais profundos pesadelos dos seres humanos, capazes de deixar o mais corajoso dos homens chorando de medo como uma menininha”. Visto assim, Roberto achou tudo ainda mais ridículo. E continuou achando ridículo quando deu uma olhada no anfitrião, que se encontrava no meio das chamas. Ele era o próprio vilão dos filmes dos anos 30. Vestido com um fraque preto impecável, uma cartola alta da mesma cor do terno, um nariz comprido e, abaixo dele, um bigode à lá Salvador Dalí. - Sejam bem-vindos, senhoras e senhores! Vocês têm coragem para encarar os seus maiores pesadelos? Acham que vão continuar os mesmos, após olhar nos olhos desses abortos monstruosos da natureza? 78

DESENCONTOS Pensam estar preparados para se deixar levar pela verdade terrível e saírem daqui incólumes? Estão?! – perguntou o anfitrião, com o rosto semiescondido pela capa. - Se sim, são cinco reais por cabeça. Roberto já se arrependeu de ter vindo. Tudo era ridículo e previsível. Porém, se surpreendeu mais uma vez quando viu todos pagando de prontidão os cinco reais (um preço caro para o local). Roberto pagou a sua entrada e a de Samuel. Samuel tremia mais do que nunca, e se recusava a se aproximar do anfitrião. Ao cruzarem o portão, Samuel faz o sinal da Cruz, sem tirar os olhos do homem. Ele, por outro lado, parecia indiferente e secava o suor em sua testa. O local era bastante grande, todo de terra batida e sem nenhuma árvore. Era como uma aldeia indígena, mas, em vez de ocas, existiam pequenas lonas de circo espalhadas pelo campo. Na frente de cada uma delas, havia uma placa informando o “personagem” que a habitava. - Para onde vamos primeiro? – pergunta Roberto. - Não sei não, senhor. É a minha primeira vez aqui. - Vamos na mais perto, então. Ao chegarem na tenda, a placa indicava “O Homem mais Forte do Mundo”. Lá dentro, um rapaz magro, mulato, como se descendente de índios, se encontrava sentado, preso em uma cela redonda. Roberto e Samuel sentaram em algumas das cadeiras espalhadas pelo local. Roberto reparou que o rapaz era magro de dar pena, parecia a ponto de desmaiar de fome. Cada vez mais, tinha se arrependido de ir. E Samuel não sossegava. Estava neurótico e se Roberto não o conhecesse melhor, poderia ter pensado que ele tinha consumido cocaína. O show era pífio. O raquítico rapaz dobrava barras de ferro e levantava pesos. Isso poderia impressionar os subdesenvolvidos habitantes da floresta, mas Roberto era um homem da cidade. Tentou explicar para Samuel os truques. “As barras não são de ferro, percebe Samuel?”; “Os pe79


DESENCONTOS sos são falsos e ocos, na verdade até um rapaz como você se sairia muito melhor do que ele, Samuel”. Nada disso deixava o rapaz mais distraído e ele não relaxava. Olhava fixamente para o homem executando seus truques. Por um momento, o “Homem mais Forte do Mundo” encarou sua plateia com raiva e desgosto. Levantou de seu banco e tentou forçar as barras. Elas não se moveram nem um milímetro. “Taí. Samuel, vê como é tudo truque? A única coisa verdadeira é a jaula”. Porém, internamente, Roberto pensou que era uma burrice do rapaz “entregar” o espetáculo dessa maneira. De repente, as luzes da tenda se apagaram. Mas só por um momento. Não deu nem tempo de alguém entrar em pânico, exceto por Samuel, é claro. A única diferença é que, agora, havia uma onça-pintada junto ao rapaz na jaula. Eles começaram a duelar e, finalmente, Roberto achou que o show tinha ficado mais interessante. A onça rasgava a pele do rapaz com suas patas e dava voltas em torno dele. A agilidade do animal não era párea para o rapaz dentro da jaula. Roberto se impressionou com a maquiagem dos ferimentos. A onça deslocou-se para um canto da cela e se preparava para dar o bote. Pulou como um raio e mordeu o ombro do Homem mais Forte do Mundo. Ele se ajoelhou e começou a gemer e chorar mais alto do que antes. E, sofrendo muito ao fazer isso, pegou uma das patas da onça com uma mão e com a outra (um pouco imobilizada pela mordida do animal) agarrou o “braço” do felino. Tão facilmente quando fez com as barras de ferro, entortou o braço do bicho até quebrar. O som do osso se quebrando foi seco e o sangue, real. O uivo do animal foi horrendo e logo o chão da tenda tinha manchas vermelhas. A onça cai no chão e ridiculamente tenta se levantar. O homem para em frente ao animal moribundo. Ele ainda chorava enquanto encarava a onça. De repente, alavancou um simples soco na cabeça do felino. Mais uma vez, ouviu-se um som seco, do crânio do animal afundando e, logo depois, se repartindo em pedaços. Roberto achou que já tinha visto o suficiente. Ele e um “para-sempre-traumatizado” Samuel saíram da tenda. - O senhor viu, senhor? O senhor viu o que ele fez com a onça?

DESENCONTOS controle, o que foi uma pena, pois estava ficando mais divertido. - Mas, mas agora a onça está morta. Já vi onça morta, meu pai já matou uma. Foi preciso ou ela ia nos atacar. Mas foi rápido e mais... Mais... (a palavra que ele procurava era humano) decente – concluiu. - Bobagem, Samuel. Uma parte daquilo foi treinada. Pelo menos, a parte do ataque do animal foi. Mas os bichos desse pessoal devem ser velhos e com os ossos fracos. O garoto deve ter feito um movimento ruim e, sem querer, quebrou o braço do pobre animal. Daí, ele deve ter dado a pancada na cabeça para que a onça apagasse e pudesse ser tratada ou para que morresse mais rápido e com menos sofrimento. Nada daqui é real, pode ficar tranquilo. Sem perceber, eles caminhavam para outra tenda. A placa dessa comunicava: “O Homem mais Inteligente do Mundo”. O interior dessa tenda não era muito diferente da outra, havia cadeiras em volta do “picadeiro”, uma jaula e um outro homem dentro da jaula. Esse homem estava sentado exatamente no meio da sua cela circular e nada tinha de anormal, a não ser o tamanho de sua cabeça, que tinha o formato e a aparência de uma jaca. Mais tarde Roberto percebeu que tinha o cheiro também. As pessoas chegavam perto da jaula e lhe faziam perguntas. O Homem-Jaca parecia entediado enquanto respondia. Devido ao grande número de pessoas se consultando, fazia um barulho infernal na sala e coisas desse tipo eram ouvidas: - Quem é o pai do meu bebê? – uma menina de uns quinze anos perguntou. - Seu próprio pai. - Eu vi Deus ontem. Deus existe? – um rapaz meio bêbado gritou. - Todos nós existimos. - Qual o sentido da vida? – perguntou um garoto solitário, no canto da tenda.

- Sim, foi realmente lamentável. Provavelmente o show saiu fora do 80

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DESENCONTOS - Quarenta e dois – respondeu o Homem-Jaca, com um risinho. Roberto percebeu que isso também era balela. Consistia em dar respostas aleatórias com convicção. Qualquer bom ator imaginativo poderia fazer isso. No início, ele tinha sentido pena pelo rapaz ter nascido com um defeito tão feio na cabeça, mas agora estava com vontade de desafiá-lo. Chegou bem perto da cela e gritou. - Qual foi a capital da Assíria? O Homem-Jaca arregalou os olhos e pareceu perdido por um segundo ou dois. Ergue uma das sobrancelhas e respondeu: - Olha, a principal capital foi Assur, porém, depois da conquista da Síria, o imperador Senaquerib transferiu a capital para Nínive. Entretanto, ao falhar em conquistar Jerusalém, foi assassinado por um de seus filhos, Esarhaddon (também conhecido por Assaradon) que conquistou e reconstruiu a Babilônia, existindo teorias de que essa tenha se tornado a nova capital da Assíria. Mas isso, obviamente, até 625 antes de Cristo, quando os caldeus tomaram a Babilônia e se uniram ao reino de Média para invadir Assur, em 615 antes de Cristo e Nínive em 612 antes de Cristo finalizando, assim, o Império Assírio. Roberto ficou sem ação. Seu maxilar estava solto em sua boca e ele não sabia o que dizer. Nem prestou atenção quando Samuel gritou “Não fale do nome do Senhor, aberração!”. Isso causou certa comoção popular e eles foram empurrados para fora da tenda. Pelo que Roberto pôde perceber, algumas pessoas achavam que o Homem mais Inteligente do Mundo era um enviado de Deus e não permitiam ofensas a ele. Quanto ao homem dentro da cela, parecia razoavelmente satisfeito por alguém ter lhe apresentado um desafio. Roberto não conseguia explicar. Não sabia como explicar isso. Samuel não ajudava com seus pedidos de “Vamos embora agora, senhor? Por favor?”. Roberto olhou o rapaz e se acalmou. Viu a diferença entre eles e pôde novamente colocar a cabeça no lugar. Comparando-o com Samuel, ele ainda era um homem superior, um homem de ciência. Tinha uma explicação razoável. Tinha que ter uma explicação razoável. Ocorreu-lhe 82

DESENCONTOS que afinal poderia ter alguém fora da tenda, com um notebook, procurando as perguntas difíceis na Internet. O Homem-Jaca não tinha defeito de nascença coisa nenhuma, era só maquiagem para esconder os pontos dentro do ouvido. Ninguém aguentava ficar olhando muito tempo para aquela cabeça disforme e ninguém repararia se tivessem pontos eletrônicos ou fios ligados naquele cabeção. Era assim que eles enganavam o povo, com certeza. Essa teoria ainda não explicava a velocidade da resposta do Homem-Jaca, “mas era um bom início”, pensou Roberto. - Vamos continuar – anunciou Roberto. Caminharam, dessa vez, para uma tenda a esmo. Viram muitas pessoas já indo embora, outras chegando e a maioria bastante assustada. As pessoas não conversavam entre si fora das tendas. A placa anunciava “O Homem mais Engraçado do Mundo”. “- Finalmente, um pouco de diversão” – pensou Roberto. Ao entrarem na tenda, todo mundo estava rindo do homem preso na jaula. As risadas eram altas, esquizofrênicas, histéricas. Isso por si só, já acabava com a graça do espetáculo, mas Roberto continuou lá dentro. Encontrou um homem barbudo e magro tentando ficar em pé dentro da jaula. Toda vez que ele estava quase ficando ereto, se desequilibrava a caía. Roberto reparou que o homem usava roupas velhas e tinha uma garrafa de cachaça em cada mão. Para Roberto, essa demonstração de humor visual era um tanto pobre e previsível e ele já ia se retirando quando o “Homem mais Engraçado do Mundo” tentava falar alguma coisa. A fala era mais arrastada do que uma cobra e mal dava para ouvi-lo com as risadas praticamente mecânicas da plateia. Foi mais ou menos isso que Roberto ouviu: - Voischês, voischês... Acham que shão eshpertohhssss, não é meschmo? Eu shou mais eshperto do que voischês! Eu shó queria ficá bêbadu pra shempre, shempre, shempre... Eu pedi a ele e ele me deu. Num tenho maish cacha, num tenho mais mulhé, num tenho mais trabaio... Tudo chatiche! Agora, echas aqui shão as minhas mulhé! – disse, erguendo suas garrafas. E, logo depois caindo de cara no chão, fazendo o pú83


DESENCONTOS blico rir mais alto ainda. As garrafas caem junto com ele no chão, não quebram, mas se derramam. O bêbedo grita: “Prechioso álcool!” e mais uma vez a plateia ri. Para Roberto, esse humor pastelão já tinha bastado. Pegou Samuel pelo braço e saiu da tenda. Ao dar uma última olhada, “O Homem mais Engraçado do Mundo” jazia deitado de barriga para cima, com o nariz sangrando, e jogando cachaça em todo o seu rosto, como se estivesse se divertindo em seu próprio mundinho particular. Como se ninguém estivesse vendo e rindo de sua pobreza. - Esse, de todos, foi o pior. – expressou Roberto. - Então, já podemos ir embora, senhor? – disse Samuel, com esperança. - Se acalme, homem, que ainda tem umas tendas que a gente ainda não foi. Coragem. - Não gostei dessa última tenda, senhor. Foi a quem menos gostei. O homem parece muito com o meu irmão quando volta do bar. Na outra tenda, ao chegarem Roberto leu: “O Homem mais Velho do Mundo”. Roberto e Samuel entraram. Como sempre, havia uma jaula e um homem sentado no meio dela. Nesse caso, um homem velho nu. Mas bastante velho. A visão era perturbadora. Seus olhos eram opacos, daquele azul, quase branco, de quem vive a vida inteira no escuro. Em suma, sem vida. A pele lembrava a casca das árvores de tão enrugada. Não havia mais cabelos em sua cabeça, mas as suas orelhas e o seu nariz eram cheios deles. A pele grudava nos ossos como se não houvesse carne. As unhas eram enormes e amareladas. Ele tentava preservar a visão de seu pênis, fechando as pernas magras e cheias de ferida. A coluna era um arco onde se podia contar cada vértebra. Ao abrir a boca para respirar, os poucos dentes que ainda sobravam eram amarelos, podres e quebrados, com pontas afiadas. As pessoas em volta faziam perguntas para o velho, como faziam 84

DESENCONTOS perguntas para o Homem-Jaca. Mas o velho não tinha respostas. Como todo velho, ele ficava falando eternamente para si mesmo. Na solidão, os velhos praticam muito o solilóquio. E esse velho era mestre nessa arte teatral. Não falava para ninguém em especial, não olhava para ninguém em especial. Somente a sua voz e seu olhar triste para o chão. - ... A primeira coisa que se esquece é o nome dos pais. E depois do rosto deles. E depois o seu próprio nome. Não me lembro de mais nada, foi como se eu não tivesse vivido nenhuma vida. Só me lembro de que um dia briguei com meus pais, vim aqui e aqui estou eu. Briguei com meus pais, é. Como era mesmo o nome deles? Depois de uns anos aqui, eu percebi que a primeira coisa que se esquece é o nome dos pais... – E, assim, ele continuou para sempre. Roberto e Samuel saíram da tenda. Apesar de terem ficado somente o tempo necessário para ouvir o que o velho tinha a falar, pareceu a eles que ficaram muito mais tempo. Quase como se fossem anos, na verdade. Roberto olhou para Samuel e percebeu que o rapaz chorava baixinho. Talvez pela primeira vez na vida, Roberto sentiu pena de Samuel e colocou a mão em seu ombro. Havia uma lição ali. Apesar de o velho ser horroroso de dar pena e de o texto ser extremamente pobre, a mensagem era para que vivessem a vida de forma plena e feliz, pois um dia você ia ficar velho e caquético e nem se lembraria mais de nada. - Tudo bem, Samuel. Tudo bem. Vamos embora. Samuel olhou para o engenheiro. Não podia nem acreditar. - Vamos mesmo, doutor? - Vamos. Eu não estava gostando muito, afinal... Roberto e Samuel foram andando, então, a caminho do portão de ferro fundido. Porém, o caminho mais curto passava por uma tenda ainda não visitada. Roberto, por pura curiosidade, leu a placa, que dizia: “A Mulher mais Bonita do Mundo”. Roberto esqueceu a mensagem do velho e seus bons sentimentos mais rápido do que a velocidade da luz. 85


DESENCONTOS - Espere um momento, Samuel. Olha, lá está a chance dessa noite melhorar! Samuel ficou meio perdido. Olhou a placa e a leu. Não parou de chorar, mas ao mesmo tempo parou de andar. Em seu interior, forças seculares como Moral versus Instinto Animal lutavam. - É... É pecado, doutor. - Depois a gente se entende com Deus. Vamos! A tenda era frequentada majoritariamente por homens, obviamente, embora uma ou duas mulheres pudessem se encontrar por lá. Todos os homens berravam, esbravejavam e mostravam todo o seu potencial de ser arrogante, sujo, nojento e ignorante (afinal, isso é ser homem). No meio da jaula, encontrava-se “A Mulher mais Bonita do Mundo”. Realmente, ele era exuberante. Cabelos louros cacheados, uma boca carnuda e vermelha, seios fartos com mamilos pequenos e rosados. Uma bunda perfeita, sem nenhuma celulite. Em suma, a mulher que todas as mulheres queriam ser. Mas ela se encontrava de quatro no meio da jaula, um homem gordo e peludo, penetrava-a por trás. A mulher gritava. Ela pedia para ele parar, mas para quase todos os homens, isso significa que as mulheres querem mais. O homem xingava a mulher de qualquer coisa: puta, vadia, cadela, enquanto metia no rabo dela. De repente, ouve-se o som de um sino. O homem que comia a mulher “termina o seu serviço”. Ele sai da jaula, enquanto o homem mais à direita da tenda entra na jaula e tira as calças. A mulher pede mais uma vez. - Por favor, não. Eu não aguento mais, não quero mais. Por favor, tenha piedade. Deixa eu ir embora, por favor! Por favor! - Cala a boca, sua vadia filha-da-puta! – diz o homem, enquanto dá um tapa na cara dela e a joga nas barras da cela. Enquanto agarra os braços da mulher, começa a estuprá-la. A mulher continua gritando. Roberto ficou tempo suficiente para ver mais dois estupros. Até onde 86

DESENCONTOS pôde perceber, já tinha entrado em uma espécie de fila para comer a mulher. Mas saiu ao perceber que Samuel tinha sumido. Quando saiu da tenda, Roberto viu Samuel vomitando. - Doutor Roberto, vamos embora, por favor. Como alguém pode tratar outra pessoa assim? Roberto olhou para Samuel. Estava envergonhado consigo mesmo. Dentro dele, ele sabia que estava gostando do show. - Quer dizer, aquela mulher é filha de alguém, doutor. Imagina como a mãe dela iria se sentir se descobrisse... Que vergonha, que vergonha. E uma mulher tão bonita. Tão bonita quanto um anjo. Se eu tivesse uma mulher queria que fosse como ela. Oh, que vergonha... Samuel começou a chorar. Roberto estava extremamente constrangido. Estaria ainda mais se houvesse alguém por perto. Foi aí que Roberto percebeu algo estranho. Não havia ninguém em volta deles. Nenhum som vinha de lugar nenhum, nem das tendas e nem da floresta. Parecia que o mundo tinha se tornado somente aquele pedaço de terra, no meio do nada. Mas baixinho, muito baixinho, Roberto ouviu o som de uma tenda. A última tenda a ser visitada. Samuel e Roberto foram diretos a ela, como se hipnotizados. Era a tenda mais distante do portão e formava uma reta com ele. Ao chegarem, leram a placa “O Maior Perdedor do Mundo”. Samuel olhou para Roberto e seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas. - Essa eu não vou com o senhor, não, por favor, não me obrigue a ir com o senhor, por favor, por favor... Roberto se assustou com a reação do capataz. Agora, ele via que tinha ido um pouco longe demais e tinha sido muito duro. Está certo, viu coisas bizarras que ele não conseguia explicar direito, mas não entendia 87


DESENCONTOS porque “O Maior Perdedor do Mundo” poderia ser assustador. Mas ficou com pena do rapaz. - Tudo bem, tudo bem, Samuel. Nessa, eu vou sozinho. Depois a gente vai embora. Só me espere, por favor. Roberto ainda estava em uma espécie de transe impressionável. Nem mesmo teve capacidade de perceber que ninguém, durante toda a noite, foi àquela tenda. Era como se a tenda fosse invisível, até aquele momento. Para falar a verdade, nem ele se lembrava se tinha percebido a tenda até aquele momento. A única coisa que ele percebeu é que ia ficando mais escuro a cada momento que ele se aproximava do local. Ao parar na entrada da tenda, o negrume era quase absoluto. Levou um susto ao perceber o anfitrião ao seu lado. - Querendo conhecer “O Maior Perdedor do Mundo”, senhor? Esse evento é pago à parte, infelizmente. Só mais cinco reais e o senhor conhecerá um perdedor tão grande, mas tão grande que o fará se sentir muito melhor consigo mesmo. - Acho que já conheço esse perdedor. – disse Roberto, olhando para Samuel. - Não um perdedor como esse, eu lhe garanto. Roberto pagou o homem. O calor que emanava da tenda era enorme, mesmo no padrão de florestas tropicais. Olhou para o anfitrião, que devolveu o olhar sorrindo, segurando um pedaço do tecido e abrindo a tenda. Roberto olhou para trás e viu Samuel muito longe, sentado no chão, como uma criança perdida. Samuel não olhava para Roberto, olhava para o anfitrião. Roberto entra na tenda. A tenda seguia o esquema das outras: uma jaula e um habitante. Mas nessa tenda só havia duas cadeiras. 88

DESENCONTOS E o habitante da jaula era o Demônio. O Demônio não era alto, nem baixo. Sua pele vermelha tinha aparência de borracha gasta. Ele estava sentado, completamente nu e Roberto notou que ele não tinha sexo. Seu corpo era cheio de cicatrizes mal costuradas. De cada uma delas jorrava sangue e pus. Ele não tinha unhas nas mãos e nos pés, as pontas de seus dedos estavam todas em carne viva. Ele era prognata, com dentes negros, podres e pontiagudos saindo de seu maxilar. Um de seus olhos era cego. O outro era laranja e encarava Roberto como se lesse todos os pecados que ele tinha cometido na vida. Por fim, sua careca reluzia com seus chifres anelados saindo da nuca de sua cabeça. Roberto se acalmou mais uma vez. Maquiagem, tudo maquiagem. Um show verdadeiramente besta, tirando alguma coisa aqui ou ali. Só o medo e o ridículo de Samuel tinham valido a pena naquela noite. - Olá, Roberto Tristão. - Como você sabe meu nome? – perguntou Roberto, cauteloso. - Por que eu não saberia, Roberto? Sou o Demônio. Laplace tinha razão. Eu sei tudo. - Sei, provavelmente, vocês fazem uma pesquisa na vila antes de alguém vir para cá, correto? Um homem como eu chama atenção em um fim de mundo como este, muita gente aqui deve saber meu nome... - É verdade. Mas será que eles saberiam que você, durante a sua infância, deu veneno para o seu cachorro comer, só porque estava com raiva de ter apanhado dos valentões da escola? Ou que você, uma vez com treze anos, já se masturbou pensando em sua irmã mais nova? Ou que você trai a sua esposa há alguns anos com uma prostituta?... - Como... Como você sabe de tudo isso? – perguntou Roberto, em pânico. - Já disse, sou o Demônio. 89


DESENCONTOS Finalmente, Roberto não conseguiu achar nenhuma explicação. Algumas coisas nem precisavam de explicação antes de ele entrar na tenda, mas agora todas precisavam. - Mas não sou eu quem lhe dará essas explicações, Roberto. É ele quem vai dar-lhe. Roberto, ainda impressionado, não tinha percebido que o anfitrião tinha entrado na tenda. Olhava Roberto e sorria presunçosamente. - O que está acontecendo aqui? – perguntou Roberto. - Sabe, ele não é o Demônio original. Eu sou. – disse o anfitrião. Roberto não estava entendendo mais nada. Sua mente de homem da ciência ainda procurava uma explicação. Mal ouvia o que o homem dizia. - Esse aí me procurou há muito tempo – disse o anfitrião, referindo-se ao Demônio da jaula – querendo fazer um pacto. Ele queria ser Deus. Falei para ele que isso não era possível. Então, ele me pediu para fazer a coisa mais próxima de Deus. E o que é mais próximo de Deus do que o Diabo? Não dizem por aí que o ódio é a emoção mais próxima do amor? Roberto ainda estava procurando explicações, mas ouvia mais atentamente o anfitrião.

DESENCONTOS O anfitrião sorriu como todos os Demônios sorriem. - Eu esperava que não. As pessoas entram aqui com um desejo. Um desejo tão forte que elas estão prontas para aceitar qualquer coisa. Eu dou a elas o que elas querem. Em troca elas ficam comigo aqui para sempre. - Que coisa horrorosa. - Não, no fundo, elas são felizes assim. Só se esquecem disso. Veja o Homem mais Velho do Mundo. Ele tinha doze anos quando visitou o “circo”. Tinha acabado de brigar com seus pais, exatamente porque eles o tinham tentado proibir de vir aqui. Ele entrou aqui querendo ser mais velho para poder ser independente e eu o transformei naquilo que ele é hoje. Atualmente, ele não tem que dar satisfações a mais ninguém. - Mas, isso é desumano. Então, ele não viveu realmente vida nenhuma. - Ele não especificou a idade que queria – o anfitrião deu de ombros. - O Homem mais Engraçado é na verdade o mais patético. Ele é verdadeiramente feliz, você vê. Um bêbado que só queria ficar cada vez mais bêbado, que foi abandonado pela mulher, perdeu o emprego. Veja a felicidade que eu proporcionei a ele.

- Quando eu fiz esse pacto com ele, acabei me livrando de uma maldição bem antiga. Posso andar com mais liberdade por aqui, na Terra, nos lugares esquecidos por Deus... Como esse. De certa forma, ele é o Demônio agora. E eu estou totalmente livre para fazer o que eu quiser. Foi aí que eu tive a ideia de abrir esse parquinho, esse pequeno espaço do Inferno. Um homem inteligente como você já entendeu como as coisas aqui funcionam, não é Roberto?

- Mas a mulher foi a melhor, em minha opinião. Ela estava ficando velha e o marido já não mostrava mais interesse por ela. Ela queria mais sexo na vida e foi justamente isso que ela recebeu. Pelo menos umas cinquenta e cinco vezes por noite – respondeu o anfitrião, sem poder conter um risinho.

Mais do que não ter respostas, Roberto odiava admitir ignorância. Mas teve que engolir essa.

- Nem tanto assim, Roberto. Eu sei que você também tem algo que quer.

- Não, não entendo.

- Você é nojento – foi tudo que Roberto conseguiu dizer.

Os olhos do anfitrião brilharam. Roberto não pensou em nada que 90

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DESENCONTOS pudesse querer a ponto de colocar sua liberdade em risco. - Acho que você se enganou. Não quero nada. - Ah, quer sim. Se não, não teria vindo aqui em primeiro lugar. Pense bem. Eu posso lhe dar tudo. O que você quiser. A situação ainda era estranha para Roberto. Os dois Demônios olhavam para ele esperando, esperando, como se pudessem ficar esperando por toda a eternidade. A cabeça de Roberto girava e ele viu que já tinha caído na armadilha. Esperava, rezava que Samuel agora aparecesse para tentar salvá-lo. Mas sabia que o rapaz não viria. Ele sabia que não podia sair dali e que teria que pedir alguma coisa. Então, ele decidiu que teria que pedir algo que realmente valesse à pena. Subitamente, ele se decidiu. Um ano se passou. O sumiço de Roberto Tristão foi investigado pela polícia do Estado do Amazonas, mas nenhum corpo foi encontrado. Por falta de evidências, Samuel teve que ser liberado da prisão. A senhora Tristão e Roberto Júnior ficaram extremamente tristes por um tempo, mas a Petrobras é bastante generosa com as famílias de seus empregados. Um enterro simbólico foi feito, missas foram realizadas e o assunto morreu depois de alguns meses. Quando o circo voltou para a cidade, Samuel teve que ir. Pela segunda vez em sua vida, cruzava aqueles portões de ferro fundido. Ele nunca tinha entrado no circo porque conhecia a verdadeira natureza do anfitrião. Não sabia explicar como, só sabia que sabia. Não foi à nenhuma tenda que tinha visitado no anterior, somente à nova.

DESENCONTOS O cansaço em Roberto era enorme. Já não se lembrava de muita coisa. Apesar de a sua tenda ser frequentada por muitas mulheres, algumas lindas, ele não conseguia ter uma ereção. Nunca mais teria. Quando viu Samuel, lembrou-se vagamente do rosto do rapaz, mas não tentou se mexer, com medo de se desequilibrar e cair. Samuel olhou com tristeza para Roberto. Era o único na tenda que encarava os olhos de Roberto e não o seu pênis. Depois de alguns minutos, esboçou um adeus com a mão e partiu. Na saída, encontrou o anfitrião. - Você já reparou como nossos nomes são parecidos? Samuel e Samael. Podíamos ser até uma dupla caipira. Samuel fez o sinal da cruz e começou a rezar baixinho. - Não adianta, Samuel, essas coisas não funcionam mais comigo. E você sabe que um dia estará aqui. Todos estarão aqui, pois tem lugar para todos até o fim da Criação. Até para gente como você. A sua tenda poderá ser “O Homem mais Santo do Mundo” ou qualquer coisa assim. Mas, tudo bem, posso esperar. A gente se vê ano que vem. Samuel saiu devagar e depois correndo no meio da selva, ainda rezando, agora em voz alta. Nunca mais voltou para o circo. Mas sua tenda, ainda estará lá.

A placa dizia “O Homem mais Bem Dotado do Mundo”. Quando entrou, lá estava Roberto, no meio de sua jaula. Roberto estava em pé havia um ano. O anfitrião o proibia de sentar, pois dizia que causava um melhor efeito se ele estivesse em pé. Seu pau ia de perto da sua cintura até o chão e ainda dava cinco voltas em torno dos pés de Roberto. 92

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OS AUTORES A SURPRESA NIVEA VILLAS BOAS

UMA BOA AÇÃO JANDA MONTENEGRO CASTELO DE AREIA / O SORRISO DA LUA / APREÇO RICARDO GNECCO FALCO EM TEMPOS DE INTERNET, QULAQUER CONTO É DE FADAS / IMPULSO JESSICA MULULO

O CHUVEIRINHO AO LADO DA PRIVADA NÃO ESTÁ FUNCIONANDO / CIRCO DE HORRORES ULISSES TEIXEIRA

A LUZ VERMELHA / BANAL ANDRÉ CARVALHO UMA ATÍPICA NOITE DE INVERNO / O DIA DA VIRADA DANIEL FIGUEIREDO

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A EQUIPE REVISÃO ANDRÉ MENEZES, MÁRCIA RESENDE, MONIKE BRAZ e RENATA RAMOS (COORDENADORA)

DIAGRAMAÇÃO / DESIGN GRÁFICO RICARDO GNECCO FALCO

PLANEJADO, ESCRITO, REVISADO, DIAGRAMADO, ILUSTRADO, PATROCINADO E DISTRIBUÍDO PELOS FORMANDOS DO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO (LATO SENSU) EM

PRODUÇÃO EDITORIAL

COMPOSIÇÃO DA CAPA ANDRÉ CARVALHO

DA UNIVERSIDADE ESTACIO DE SÁ - TURMA 09, DE 17/04/2010, CAMPUS PRESIDENTE VARGAS, RIO DE JANEIRO, RJ. “VÂMU MARCÁ!”

DIVULGAÇÃO RICARDO MARQUES

PATROCÍNIO ANDRÉ CARVALHO, ANDRÉ MENEZES, DANIEL FIGUEIREDO, JANDA MONTENEGRO, JESSICA MULULO, MÁRCIA RESENDE, MONIKE BRAZ, NÍVEA VILLAS BOAS, RENATA RAMOS, RICARDO GNECCO FALCO, RICARDO MARQUES, ULISSES TEIXEIRA

ORGANIZAÇÃO

JANEIRO DE 2012

RICARDO GNECCO FALCO

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PLANEJADO, ESCRITO, REVISADO, DIAGRAMADO, ILUSTRADO, PATROCINADO E DISTRIBUÍDO PELOS FORMANDOS DO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO (LATO SENSU) EM

PRODUÇÃO EDITORIAL

DA UNIVERSIDADE ESTACIO DE SÁ - TURMA 09, DE 17/04/2010, CAMPUS PRESIDENTE VARGAS, RIO DE JANEIRO. Janeiro de 2012

DESENCONTOS  

Antologia de contos reunindo obras de novos autores brasileiros.

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