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Volume 2 - NĂşmero 2 - 1Âş Semestre 2009


Expediente Publicação semestral - Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo Reitor Oriovisto Guimarães Vice-Reitor José Pio Martins Pró-Reitor de Graduação e Pró-Reitor de Planejamento e Avaliação Institucional Renato Casagrande Pró-Reitora de Extensão Fani Schiffer Durães Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa João Batista Machado Pró-Reitor Administrativo Arno Antonio Gnoatto

Conselho Editorial Integrantes externos Adolpho Queiroz João Carrascoza Jorge Pedro Souza José Marques de Mello Maria José Baldassar Mônica Cristine Fort Integrantes da UP Alexandre Castro Christian L. M. Schwartz Elson Faxina Gabriela Eying Possolli Maria Zaclis Veiga Ferreira Rafael Bezerra Ricardo Pedrosa Macedo Roberto Wu Ronaldo António Hofmeister Tomás Eon Barreiros

Diretor de Núcleo de Ciências Humanas Márcio Roberto Bueno de Camargo Coordenador do Curso de Comunicação Social - Jornalismo Alexandre Castro Coordenador do Curso de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda André Tezza Consentino Coordenador Adjunto do Curso de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda Ricardo Pedrosa Macedo

Coordenação Editorial Alexandre Castro André Tezza Consentino Ricardo Pedrosa Macedo www.up.edu.br/comunicacao Projeto Gráfico e Diagramação Cristiane Pedrosa Macedo Ricardo Pedrosa Macedo

www.ricardomacedo.com.br

Dados internacionais de catalogação na Publicição (CIP) - Biblioteca da Universidade Positivo COMUNICAÇÃO : reflexões, experiências, ensino ; Revista dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda / Universidade Positivo. v. 2 - n. 1 - 1° semestre 2009 - Curitiba : Universidade Positivo, 2009 Periodicidade semestral ISSN 2175-5132 1. Jornalismo - Periódicos. Publicidade - Periódicos. I. Universidade Positivo. CDU 070:659 Impresso no Brasil / Printed in Brazil


Sumário AFOGAMENTO NUM TONEL DE CHUCRUTE CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRÁTICA JORNALÍSTICA A PARTIR DE DUAS NOTAS INTERNACIONAIS

7

Tomas Eon Barreiros

O PODER DA IMAGEM OU A IMAGEM DO PODER? A POLÍTICA NO TELEJORNALISMO.

19

João Somma Neto

EXEMPLOS DE ESTEREÓTIPOS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO

31

Alyohha de Oliveira Moroni Elza Aparecida de Oliveira Filha

O OUTRO LADO DA ENTREVISTA: SINAIS E VERDADES QUE O JORNALISTA NÃO VÊ

47

Marianne Cabral Baggio Rosângela Stringari O MARKETING NA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA

65

Ana Paula Mira

NOVAS TECNOLOGIAS, TRABALHO, ESCOLA E FAMÍLIA EM TEMPOS DE RIGIDEZ E FLEXIBILIDADE

77

Celso Rogério Klammer

IMPRESSÕES SOBRE O PORTO

97

Maria Zaclis Veiga Ferreira

MÚLTIPLAS INTERFACES DE UMA EXPERIÊNCIA COLETIVA O PRÊMIO SANGUE NOVO NO JORNALISMO PARANAENSE

107

Emerson de Castro Firmo da Silva

MÍDIA E FELICIDADE, UMA LEITURA PSICANALÍTICA Leonardo Ferrari

121


PROJETO TEATRO SHAKESPEARE EM INGLÊS: UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE LÍNGUA INGLESA EM CURSO DE JORNALISMO Alexandre Castro Patrícia Helena Rubens Pallu

141

INDÚSTRIA CULTURAL, TOTALITARISMO E SOCIEDADE DE CONSUMO: REFLEXÕES SOBRE O DECLÍNIO DA TEORIA CRÍTICA André Tezza

155

A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA (EAD) E SUA RELAÇÃO COM UM AMBIENTE VIRTUAL DE APOIO AO ENSINO PRESENCIAL Ricardo Pedrosa Macedo

165


Apresentação

O segundo número de Comunicação – reflexões, experiência, ensino consolida a continuidade desta nova coleção, com periodicidade semestral, e também vem ao encontro das atividades que celebram os dez anos de existência dos cursos de comunicação social da Universidade Positivo. São dez anos de construção e muitas conquistas acadêmicas, em que o desafio permanente de exercer o ensino superior de excelência esteve e está presente no corpo docente e discente das habilitações de jornalismo e publicidade. Mas, independente dos primeiros dez anos completados, 2009 certamente é um divisor de águas e um marco para a comunicação do Paraná. Pela primeira vez em Curitiba, depois de mais de 30 anos de existência, o maior encontro científico de comunicação da América Latina, o congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom), será organizado pelos cursos de comunicação social da Universidade Positivo. A realização do congresso da Intercom é a prova da maturidade dos nossos cursos de comunicação, como também aponta para os novos horizontes que tanto esta publicação quanto o congresso visam: a construção da pesquisa científica. Neste número, assim como no primeiro, destacamos a riqueza e a abrangência dos temas, que vão das novidades do ensino de comunicação às tendências mais atuais da reflexão crítica da área. Os objetivos são claros: renovar e atualizar o saber da comunicação e promover o ensino ético e de qualidade na formação de novos jornalistas e publicitários.

André Tezza, Alexandre Castro, Ricardo Macedo Organizadores, Curitiba, junho de 2009.


AFOGAMENTO NUM TONEL DE CHUCRUTE CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRÁTICA JORNALÍSTICA A PARTIR DE DUAS NOTAS INTERNACIONAIS Tomas Eon Barreiros1 RESUMO O presente artigo analisa aspectos da produção jornalística a partir da análise de duas notas internacionais sobre o mesmo tema (o afogamento de uma senhora em um tonel de chucrute). O artigo analisa, especialmente: critérios de noticiabilidade, a importância relativa dos valores-notícia, as possibilidades de falhas no processo de elaboração de uma notícia e o conceito de verdade no Jornalismo. Propõe o conceito de verdade jornalística como realidade socialmente aceita a partir da publicação de notícias pela mídia. Palavras-chave: produção jornalística, verdade jornalística.

ABSTRACT This article describes some aspects of journalistic production from the analysis of two international notes about the same subject (the drowning of a woman in a barrel of cabbage). The article analyzes: newsworthiness criteria, the relative importance of news values, the possibilities of imperfections in the process of elaborating news and the concept of truth in Journalism. It considers the concept of journalistic truth as a reality which is socially accepted from the publication of a piece of news by the media. Keywords: journalistic production, truth in Journalism.

1 Possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR, 1996), especialização em Língua Portuguesa, também pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1997), e mestrado em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP, 2003). Tem experiência nas áreas de Educação e Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino de jornalismo, jornalismo, entrevista, crítica da mídia, construção da realidade, rádio. - tomas.barreiros@uol.com.br


AFOGAMENTO NUM TONEL DE CHUCRUTE CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRÁTICA JORNALÍSTICA A PARTIR DE DUAS NOTAS INTERNACIONAIS

UMA CURIOSA NOTA INTERNACIONAL Quando era editor da seção internacional do diário Indústria & Comércio, em Curitiba, onde comecei minha carreira jornalística, tinha entre minhas responsabilidades receber, selecionar e editar as notícias internacionais para publicação no jornal. Era o ano de 1996, quando eu ainda cursava o último ano da faculdade. Em meio à lide diária, eu procurava questionar quais os critérios de seleção de uma matéria. Na faculdade de Jornalismo, víamos um tanto superficialmente os conceitos de valornotícia – na prática, entretanto, conforme eu podia observar no comportamento dos colegas, a seleção era quase inteiramente intuitiva, ou seja, cada editor selecionava as matérias de acordo com o que “julgava” ser importante, sem parar para pensar sobre os critérios que norteavam esse juízo. Já naquela época de estudante e “foca” (termo do jargão jornalístico para designar jornalista principiante), eu me questionava sobre a real importância das notícias que os meios de comunicação divulgavam. Qual a utilidade delas para o público? Essa pergunta veio à tona de modo bastante cogente quando recebi uma curiosa nota da agência Associated Press (AP), datada de 19/03/96 às 13h36min. O teor da nota, identificada como VINAGRETE/MORTE, era o seguinte (a grafia está exatamente como no original): BUDAPESTE, 19 (AP) – Uma mulher de 80 anos identificada apenas como Juliana, de origem húngara, morreu na aldeia de Ebes, a 160 quilômetros desta capital, ao cair num barril com repolho em molho vinagrete.

Ao que parece, a anciã debruçou no barril para apanhar uma colher do tradicional codimento e sentiu uma tonteira, provavelmente devido ao forte odor do molho. Ela caiu no barril e morreu afogada. Pouco depois os vizinhos encontraram o bisneto de Juliana chorando no pátio e foram descobrir o corpo da anciã. O acidente ocorreu no domingo. LOL 19/03/96 13:36 Apesar da tragédia noticiada, sorri instintivamente. A princípio, pareceu-me absurdo que tal fato merecesse ser noticiado para o mundo. Qual o valor-notícia associado ao fato?

CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE A professora Gislene Silva (2005) fez um estudo das diferentes concepções e definições de noticiabilidade e valores-notícia em diversos teóricos, elaborando uma proposta de sistematização dos critérios de noticiabilidade. Segundo a proposta de tabela de valores-notícias elaborada pela autora (2005, p. 101-102), a notícia em questão poderia interessar por encaixar-se nas categorias Tragédia/Drama (dentro da qual a autora inclui os atributos: Catástrofe, Acidente, Risco de morte e Morte, Violência/Crime, Suspense, Emoção, Interesse humano) e Raridade (Incomum, Original, Inusitado). Morte é tema de interesse permanente – mas milhares de pessoas morrem todos os dias, dos mais variados modos e causas. Obviamente, aquela morte, tão distante 8 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 7-18| 1° Semestre 2009


TOMAS EON BARREIROS

do leitor brasileiro e curitibano, tinha algo de inusitado – afinal, quem um dia soube de alguém que tenha morrido nessas condições? Claro está também que a tragédia em questão – como em geral acontece – tinha algo de cômico. Portanto, a dedução forçosa: os valores-notícias associados ao fato eram “morte” e “inusitado”. Para o público curitibano, um fator de desinteresse era a distância. Pesquisa realizada em 2006 por mim e pela jornalista Cleide de Paula (BARREIROS; PAULA, 2007) com leitores da Gazeta do Povo, de Curitiba (principal diário do Paraná), indica o valor proximidade como o que mais interesse suscita no leitor. Nem cogitei em publicar a notícia, mesmo porque, ademais, o Indústria & Comércio era especializado em economia, negócios e política. Diversos teóricos tratam dos critérios de noticiabilidade de um fato. Dentre os incontáveis acontecimentos que se sucedem a cada dia, os jornais precisam selecionar aqueles que devem ser noticiados. Esses critérios se aplicam em diferentes fases da produção da notícia. Gislene Silva afirma: É no percurso dessa longa cadeia produtiva da notícia que devemos investigar a rede de critérios de noticiabilidade, compreendendo noticiabilidade (newsworthiness) como todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o público, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais. (2005, p. 96)

Partindo dessa idéia, a autora estabelece “instâncias ou conjuntos diferenciados de critérios de noticiabilidade”, que assim apresenta: (a) na origem dos fatos (seleção primária dos fatos / valores-notícia), considerando atributos próprios ou características típicas, que são reconhecidos por diferentes profissionais e veículos da imprensa; (b) no tratamento dos fatos, centrando-se na seleção hierárquica dos fatos e levando-se em conta, para além dos valores-notícia dos fatos escolhidos, fatores inseridos dentro da organização, como formato do produto, qualidade do material jornalístico apurado (texto e imagem), prazo de fechamento, infra-estrutura, tecnologia etc, como também fatores extra-organizacionais direta e intrinsecamente vinculados ao exercício da atividade jornalística, como relações do repórter com fontes e públicos; (c) na visão dos fatos, a partir de fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo, compreendendo conceitos de verdade, objetividade, interesse público, imparcialidade, que orientam inclusive as ações e intenções das instâncias ou eixos anteriores. Esses conjuntos, com certeza, não funcionam de modo isolado. Na prática da produção noticiosa, todos esses critérios variados de noticiabilidade atuam concomitantemente. (2005, p. 96)

Inicialmente, o jornalista que apura as informações para transformá-las em notícias precisa considerar qual o grau de interesse de determinado fato. A noticiabilidade ou não de um fato está relacionada a diversos fatores, como os muito bem apontados por Silva. Para um jornalista que apura um fato e escreve uma notícia a ser divulgada por

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uma agência noticiosa internacional, há a dificuldade do desconhecimento do públicoalvo – nesse caso, torna-se importante a existência de alguns critérios mais objetivos que justifiquem a transformação de um fato em notícia. Entretanto, é claro que o processo de elaboração da notícia numa grande agência internacional está ligado a diversos outros fatores, como os interesses econômicos e ideológicos em torno dela, já que, por assim dizer, boa parte do mundo verá aquele fato com os olhos do jornalista que o descreveu. No jornalismo factual, a utilidade da informação para o leitor poderia ser considerada um guia para a determinação se um fato deve ou não ser noticiado. E utilidade aqui não tem apenas o sentido de suprir uma necessidade prática concreta. A utilidade da informação, de acordo com Clóvis Barros Filho (2001, p. 137) corresponde, dentro das pesquisas de comunicação de massa, ao estudo dos usos e gratificações que encontra o receptor em consumir este ou aquele produto midiático a ele oferecido. Barros Filho cita estudo de Elihu Katz sobre as necessidades dos consumidores de jornal que se mantiveram privados de acesso ao periódico, durante duas semanas, por razão de uma greve de entregadores de jornal em Nova York. Katz identificou: “A obrigação social de ler um jornal (ligada ao prestígio social de consumir este ou aquele produto) e, conseqüentemente, de sentir sua ausência, e a falta de diversão e entretenimento foram os itens mais mencionados pelos entrevistados” (apud BARROS FILHO, 2001). Katz concluiu que a utilidade prática da informação é um fator determinante da leitura – mas a utilidade prática maior estava na inserção social possibilitada pela leitura de jornal. A já citada pesquisa realizada por mim e Paula para apurar a utilidade do jornal Gazeta do Povo para seus leitores levantou dados que levaram a uma conclusão bastante semelhante à da pesquisa de Katz. Assim apresentamos as conclusões iniciais: De posse dos dados levantados, conclui-se que a utilidade prática do jornal impresso para os entrevistados contempla especialmente a interação social. “Ter assuntos para comentar com os colegas” foi a principal utilidade apontada pelos leitores que responderam ao questionário. Lazarsfeld e Merton (1948), em estudo sobre as funções dos meios de comunicação de massa, afirmaram que os meios servem para “reforço do prestígio para os que se adaptaram à necessidade e ao valor socialmente difundido de serem cidadãos bem informados” (apud WOLF, 2003, p. 57). A importância da interação social proporcionada pela leitura do jornal foi identificada também em muitas respostas dos entrevistados na pesquisa qualitativa, num resultado semelhante ao encontrado por Katz (apud BARROS FILHO, 2001, p. 139). (BARREIROS; PAULA, 2007, p. 66).

Portanto, o conteúdo da notícia parece não ter tanta importância quanto o simples fato de ela estar apresentada no jornal. É esse o principal fator que lhe agrega importância! Ou seja: mais do que um fato virar notícia por ser realmente importante, a realidade maior é que um fato toma importância por ser transformado em notícia. Eliseo Verón chega a afirmar, em obra na qual comenta o acidente da central nuclear de Three Mile Island, nos Estados Unidos, e sua repercussão na mídia, que “Os acontecimentos sociais não são objetos que se encontram prontos em qualquer lugar 10 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 7-18| 1° Semestre 2009


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na realidade e cujas propriedades a mídia nos faz conhecer depois: eles não existem senão na medida em que a mídia os fabrica” (1981, p. 7-8). Ou seja, mais ainda do que dizer que o fato não está na mídia porque é importante, mas é importante porque está na mídia, ele sustenta que o fato só existe porque está na mídia (tema do qual voltaremos a tratar adiante). Em suma, o que determina se um fato deve ou não ser noticiado é um conjunto de fatores mais ou menos subjetivos, em diferentes fases da produção jornalística. No caso concreto da notícia sobre a senhora húngara, sua não-publicação deveu-se basicamente à linha editorial do jornal, que não contemplava a divulgação de uma notícia daquela natureza. Seria de se supor que cada jornal publicasse ou não determinadas notícias de acordo com o que efetivamente interessa ao seu leitor específico. Entretanto, é de se observar que quase sempre esse suposto conhecimento que o jornalista acredita ter em relação ao seu leitor é muito mais uma idéia intuitiva. A realidade é que os jornalistas, efetivamente, via de regra têm muito pouco conhecimento sobre seu público. Michael Kunczik cita estudos que denunciam o problema. Dentre os que defendem que o jornalista tem uma falsa imagem do público, Kunczik relaciona Donsbach, Kunz, Bogardt e MacQuail. Estudo realizado na Alemanha junto aos leitores revelou: Normalmente se sabe muito pouco sobre o público. Muitos dos jornalistas que manejavam as notícias não tinham a menor idéia a respeito do seu público. Compensavam essa deficiência orientando-se pelos colegas e/ou especialistas. Uma comparação da imagem que os jornalistas da imprensa tinham de seus leitores com os resultados de uma pesquisa de opinião pública (cf. Kunz, 1967: 68) demonstrou que as suposições dos jornalistas não correspondiam de maneira nenhuma ao verdadeiro comportamento dos leitores, mas que eram claramente distorcidas pela idéia de que ao leitor só interessava o entretenimento leviano e sensacionalista (apud KUNCZIK, 2001, p. 191).

Embora tanto a pesquisa citada quanto a obra de Kunczik não sejam tão recentes, é bem possível que a constatação continue válida. Dessas considerações em torno de noticiabilidade, pode-se então concluir: 1) A noticiabilidade de um fato está condicionada a um sem-número de fatores. Embora diversos teóricos tenham analisado valores-notícia com base na análise daquilo que é noticiado, na realidade, a decisão sobre a noticiabilidade ou não de um fato depende não só de suas características, mas de condições ligadas ao veículo que divulga a informação, às características do jornalista e ao público-alvo. 2) A atribuição de noticiabilidade levando-se em conta o interesse do público leitor baseia-se muito mais na intuição do jornalista que produz a notícia do que num real conhecimento que este tenha em relação aos interesses do público. 3) Embora talvez seja ousado demais sustentar que qualquer fato possa ser noticiado – bastando, para que seja “notícia”, que apareça nos jornais –, há indicadores consistentes de que a importância maior do fato é ele ser noticiado, independentemente de sua importância “intrínseca”. Acontecem, por exemplo, incontáveis casos de pais COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 7-18| 1° Semestre 2009 | 11


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que matam filhos barbaramente, mas o caso do casal Nardoni é mais importante porque apareceu na mídia (e não apareceu na mídia por ser mais importante que os outros, mas porque algum jornalista decidiu que ele deveria ser noticiado do modo como foi).

FALHAS NA INFORMAÇÃO Voltando à redação do Indústria & Comércio... Ainda estava digerindo minhas idéias sobre a nota da AP quando chegou outro despacho, desta vez da Agência France Press (AFP), identificada com as palavras-chave Hungria-chucrute. O texto dizia: IDOSA MORRE AFOGADA EM TONEL DE CHUCRUTE BUDAPESTE, 19 mar (AFP) – Uma mulher de 80 anos morreu afogada em um tonel de chucrute em Ebes (Leste da Hungria), informa esta terça-feira o jornal húngaro “Nepszabadsag”. A mulher, uma romena de origem húngara que visitava parentes na Hungria, ficou tonta quando se aproximou do tonel, onde caiu, afogando-se no chucrute que estava fermentando. A vítima foi encontrada pelos vizinhos, que ouviram o choro de sua neta de três anos e que a acompanhava. bij/sb

A leitura da segunda nota provocou novas reflexões. Se eu questionava o fato de uma grande agência internacional divulgar tal notícia para o mundo, duas então... era uma supervalorização do fato. Mais interessante, entretanto, eram outras constatações possíveis a partir da comparação das duas notas. Com os dados de ambas, é possível montar uma tabela comparativa, como segue. Informações

AP

AFP

Quem?

Uma mulher de 80 anos identificada apenas como Juliana, de origem húngara

Uma mulher de 80 anos, romena de origem húngara

O quê?

Morreu

Morreu

Quando?

No domingo

? (Informa esta terça-feira)

Onde?

Na aldeia de Ebes, a 160 quilômetros de Budapeste

Em Ebes (Leste da Hungria)

Como?

Debruçou no barril para apanhar uma colher do tradicional condimento, sentiu uma tonteira devido ao forte odor do molho e caiu no barril

Ficou tonta quando se aproximou do tonel, onde caiu, afogando-se no chucrute que estava fermentando

Por quê?

Afogou-se num barril de repolho em molho vinagrete

Afogou-se em um tonel de chucrute

Quem a encontrou?

Vizinhos

Vizinhos

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TOMAS EON BARREIROS

Quem chorava?

O bisneto de Juliana

A neta de três anos que a acompanhava

Fonte da informação

?

O jornal húngaro “Nepszabadsag”

Outra informação

-

Visitava parentes na Hungria

Com base no quadro comparativo acima, é possível fazer algumas considerações interessantes. Em primeiro lugar, há lacunas e divergências informativas. A nota da AP responde às seis clássicas perguntas do lide, enquanto a da AFP não informa exatamente o “quando” – apenas diz que o jornal húngaro informou o fato na terçafeira, mas não diz quando o fato ocorreu. No entanto, o “quem” da notícia não está adequadamente informado. Nenhuma das notas relata o nome completo da vítima – a nota da AP informa apenas o primeiro nome, dizendo tratar-se de uma mulher de origem húngara, enquanto a AFP diz ser uma romena de origem húngara. Quanto à fonte, a AFP deixa claro que extraiu a notícia de um jornal local – ou seja, para a produção da nota, não houve propriamente um trabalho de apuração, mas apenas a reprodução das informações coletadas por outro veículo. A AP não informa a fonte. Nesse caso, seria de se supor que um jornalista da agência tivesse apurado os fatos, o que é difícil de acreditar, dadas as lacunas informativas da nota: que jornalista apuraria uma notícia sem sequer ter o cuidado de levantar um dado tão básico como o nome completo do personagem da notícia? O uso do particípio passado (“identificada”) que evita a identificação de um sujeito passivo constitui-se numa técnica (“muleta”) para esconder a omissão do repórter. “Identificada” por quem? Juntando-se os dados de ambas as notas, seria possível criar uma informação ainda incompleta, mas com mais dados. Entretanto, seria impossível saber quem acompanhava a senhora: seu bisneto (AP) ou a neta de três anos (AFP)? É forçoso constatar que uma das duas notas tem erro de informação – a não ser que a vítima estivesse acompanhada tanto de seu bisneto quando de sua neta de três anos, e ainda assim haveria omissão. Ora, alguém poderá alegar que é dado irrelevante. Não, não é. Se o fato, a juízo dos jornalistas que o relataram, mereceu ser noticiado, ou é construído com os dados corretos, ou é mentiroso. Se dados “menos relevantes” podem ser noticiados com erro, como confiar em relatos com dados “mais relevantes”? (Entre aspas, pois essa relevância é relativa – para familiares da senhora húngara que eventualmente lessem a notícia certamente seria importantíssimo saber a verdade). Quem confiaria sua fortuna a uma pessoa que tem por hábito roubar alguns trocados de vez em quando? As duas agências noticiosas gozam de credibilidade. Seu material é reproduzido em centenas de veículos mundo afora. Entretanto, o longo caminho entre o fato e a notícia publicada no jornal, ao alcance do leitor, passa por diversas mediações, desde a primeira elaboração da matéria pelo jornalista que apurou os fatos até a versão final impressa na folha que chega às mãos do leitor. Como uma espécie de “telefone sem fio”2, esse longo caminho gera distorções. Ainda mais levando-se em conta que, no 2 Brincadeira infantil em que diversas crianças se colocam em roda ou em fila, e a primeira sussurra uma mensagem no ouvido da seguinte, que deve passar a mensagem adiante do mesmo modo, até a última da roda ou fila, comparando-se a mensagem inicial com a que foi recebida pela última criança. A graça da brincadeira está em constatar as enormes distor-

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caso de muitos países (como no Brasil), há necessidade de tradução dos textos. E toda tradução, por definição, é sempre irremediavelmente infiel ao texto original. É provavelmente a tradução o que faz, por exemplo, uma nota afogar a vítima num tonel de chucrute e outra num barril de repolho em molho vinagrete (na falta da palavra exata, um dos textos usa uma descrição), que, aliás, seria mais adequadamente chamada, em termos culinários, de “guarnição” do que de “condimento” (“codimento”, com erro de grafia, na nota da AP). São imprecisões lingüísticas que alteram o conteúdo da informação. A propósito, um dado apontado pela AP carrega a nota de um sentido diferente em relação ao relato da AFP. A AP diz que “a anciã debruçou no barril para apanhar uma colher do tradicional codimento”, enquanto a AFP simplesmente afirma que ela “ficou tonta quando se aproximou do tonel”. A senhora teria sido vítima de um descuido acidental, de sua curiosidade (aproximou-se do barril para ver o que ele continha) ou de sua fome ou vontade de comer o chucrute? A causa da morte foi curiosidade, gula ou imprudência dos produtores de chucrute que fizeram do barril uma quase-armadilha para a idosa? Nenhuma das notas informa, mas o relato da AP carrega o fato de uma conotação diferente: a pobre senhora teria sido afoita ao querer provar o chucrute antes da devida hora... Por fim, é digno de nota que a AP utilize no texto as expressões “ao que parece” e “provavelmente”. Ora, o jornalista não deve informar objetivamente o que aconteceu? Não precisa apurar os fatos adequadamente antes de noticiá-los? Então, por que essas elucubrações? Se não é possível apurar os fatos tal como eles ocorreram, melhor é simplesmente relatar o fato: a mulher morreu afogada no tonel, sem fazer elucubrações sobre por que ela teria caído se não há dados suficientes para comprovar qualquer afirmação a respeito. Tratando-se de uma notícia distribuída por agência internacional, as numerosas mediações dificultam a comprovação dos fatos, e não apenas para o leitor comum, mas até mesmo para o próprio jornalista do veículo que a recebe. Como editor da seção internacional do I&C, eu poderia ter decidido publicar a primeira nota e nem sequer ler a segunda entre as centenas que chegavam. A informação seria divulgada, mesmo que tivesse erro. E quantas notícias internacionais não terão sido publicadas pelo jornal com erros de informação? Não há como saber. E essas notícias estão lá, preto no branco. Se alguém precisar de alguma informação sobre um fato passado, poderá recorrer aos arquivos dos jornais. Poderá consultar diversos jornais com notícias semelhantes. Muitos terão as mesmas matérias originárias dos mesmos despachos de agências internacionais. Em muitos casos, esses relatos jornalísticos poderão ser a única fonte documental dos fatos noticiados. A veracidade dos fatos será atribuída a eles terem sido publicados. A esse respeito, é ilustrativo o seguinte trecho de José M. Wisnik: Pela suposta literalidade da sua representação, ao contrário do caráter declaradamente ficcional da literatura, o jornal aproveita-se duplamente daquela boa (ou má) fé inerente à leitura, dada pelo fato de que queremos acreditar no que lemos, e embarcamos por princípio, mesmo quando armados de recuo ções que sempre acontecem no caminho da mensagem, que sempre chega ao final bastante alterada.

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TOMAS EON BARREIROS

crítico, em tudo que se apresente por escrito como crível (esta talvez seja, em tudo o que constitui o mundo do jornal, a ilusão mais difícil de perder). (1992, p. 335)

De passagem, convém citar aqui a questão do domínio da informação mundial levado a efeito pelos grandes conglomerados de mídia. A par dos problemas concretos de falhas na informação, há o domínio ideológico dos grandes conglomerados que dominam a difusão da informação em nível mundial. O tema é antigo. Diversos estudos vêm apontando o controle da informação por determinados grupos. Em 1981, Pedrinho Guareschi já alertava para o fato, citando diversos estudos importantes sobre o tema. Ismar de Oliveira Soares afirma a esse respeito que: o controle da informação em nível global pertence aos que detêm o controle político e militar do mundo (Shiller, 1992, pp. 93-103). Da maneira como se apresenta hoje, a condição da informação no mundo está em processo de ser organizada e administrada por mais ou menos uma dúzia de superconglomerados dos media culturais [...] (1996, p.23).

Embora não seja o objetivo deste artigo desenvolver este tema, não é possível descartá-lo quando se consideram as condições de produção de uma notícia, especialmente no que diz respeito às agências internacionais. Feitas essas considerações, pode-se tirar delas algumas conclusões: 1) A notícia está sujeita a erros de informação, sejam eles intencionalmente provocados pelo seu autor, seja por falhas no seu processo de elaboração. 2) Esses erros efetivamente acontecem, e sua constatação é muito difícil para o leitor comum de um jornal. Também é difícil que o editor de um jornal consiga detectar tais erros, pois as agências cujos serviços são assinados pelo veículo gozam de credibilidade. 3) Erros de informação publicados num jornal tendem a fixar-se como um documento falso da realidade, ao menos para o observador não-especializado que recorra aos jornais para atestar a veracidade de algum fato noticiado. 4) A impossibilidade de se detectarem possíveis erros decorre também da própria natureza do trabalho jornalístico como obra do espírito humano, pois o erro é inerente a tudo que o ser humano, sempre falível, empreende no campo das ciências humanas.

A “VERDADE” DA NOTÍCIA Partindo-se do que até agora se discutiu, cabe aqui a pergunta: como então saber se as notícias são “verdadeiras”? A discussão do tema é permanente. Ser “verdadeiro” é imperativo ético do jornalista – mas de que “verdade” se está falando? Há diferentes correntes teóricas na formulação de uma resposta. Orlando Tambosi (2007) resume as três principais teorias da verdade aplicáveis ao Jornalismo: 1) “a da verdade como correspondência (ou conformidade, ou adequação)” (p. 37), assim explicada resumidamente: “De acordo com a teoria da correspondência, as afirmações procuram descrever como são as coisas no mundo, e tais afirmações serão verdadeiras ou falsas COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 7-18| 1° Semestre 2009 | 15


AFOGAMENTO NUM TONEL DE CHUCRUTE CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRÁTICA JORNALÍSTICA A PARTIR DE DUAS NOTAS INTERNACIONAIS

em função de as coisas serem realmente como elas dizem que são” (p. 37-38). Essa é, para Tambosi, a teoria mais adequada para o Jornalismo. As outras duas: 2) “a teoria da verdade como coerência (ou não-contradição)” (p. 37), que “entende que a verdade consiste em relações de coerência num conjunto de crenças” (p. 38) – teoria descartada por Tambosi por sua perspectiva relativista, tendo em vista que ela considera verdadeiros os discursos coerentes entre si, o que leva a considerar verdadeiros inclusive discursos ficcionais, desde que coerentes – e 3) “a teoria pragmática da verdade” (p. 37), que “define a verdade em termos de utilidade, isto é, em termos daquilo que é desejável ou tem conseqüências úteis para aquele que crê na proposição tida como verdadeira” (p. 38), ou seja, “a crença verdadeira contribuirá para a utilidade e o êxito das ações” (p. 39) – “dito de outra maneira, as crenças verdadeiras funcionam” (p. 39). Tal teoria também é rechaçada por Tambosi, sob o argumento de que “o pragmatismo poderia nos levar a reconhecer que a proposição ‘a Terra é o centro do universo’ é verdadeira só porque, durante longo tempo, foi considerada útil” (p. 39). Após apresentar os pontos fortes e débeis das três teorias, Tambosi conclui que, do ponto de vista epistemológico, a teoria da verdade como correspondência “é a teoria que melhor se aplica ao Jornalismo, que, pelo menos nesse sentido, está num campo epistemológico próximo ao das ciências, justamente por relacionar, tanto quanto estas, linguagem e realidade” (p. 47). Trocando em miúdos: o que um jornalista afirma é verdadeiro na medida em que corresponda à realidade dos fatos. Luiz Amaral, por seu lado, em obra de 1996, já discute o conceito de verdade relacionado ao Jornalismo, defendendo a impossibilidade de se retratar nos veículos de comunicação uma realidade objetiva. Cita Hilton Japiassu, para quem, “Do ponto de vista epistemológico, nenhum ramo do saber possui a verdade. Esta não se deixa aprisionar por nenhuma construção intelectual.” (p. 46). Respondendo à pergunta: “a imprensa tem que dizer a verdade?” (p. 46), cita Walter Lippmann, lembrando que, para o jornalista americano, “a função da notícia é sinalizar um evento, enquanto a função da verdade é trazer à luz os fatos escondidos e relacionar uns com os outros. E só no caso em que as condições sociais assumem uma forma reconhecível e mensurável é que a verdade e a notícia coincidem.” (p. 47). Quem, entretanto, “reconhece” e “mede” essas condições sociais? Sempre haverá um filtro subjetivo nas considerações dos fatos noticiados. A notícia é forçosamente produzida a partir de um ponto de vista, que é o daquele que a produz. Henry Luce afirmava: “Mostre-me um homem que pensa que é objetivo e eu lhe mostro um homem que está enganando ele próprio” (apud Amaral, 1996, p. 65). Sustentar isso não significa necessariamente negar a existência de uma verdade absoluta. Richard Dawkins, em “O rio que saía do Éden”, ridiculariza a posição relativista que rejeita a existência da verdade absoluta: “Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita”, afirma ele (apud DAWKINS, 2005, p. 35). É claro que a realidade sensível apresenta dados pragmaticamente confiáveis para cada um de nós. Viajo de avião porque sei que o avião voa (embora tenha medo de que ele caia, o que também sei que pode acontecer e efetivamente acontece com uma porcentagem ínfima dos vôos...). Trata-se, entretanto, de constatar que o relato jornalístico sempre será uma construção discursiva a partir da observação forçosamente subjetiva do jornalista. Mesmo quanto a dados concretos:

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TOMAS EON BARREIROS

se o jornalista diz que o carro que atropelou a vítima era um Gol vermelho, só posso ter certeza de que isto é verdadeiro na medida em que tenha uma confiança subjetiva no jornalista. Que, aliás, pode ser daltônico e não entender muito de automóveis – nesse caso, sendo bom jornalista, precisaria conferir de perto a marca do carro e perguntar a alguém qual sua cor, confiando, por sua vez, na palavra de quem lhe desse a informação. Portanto, em oposição ao que defende Tambosi, parece mais adequado definir como critério de verdade para o Jornalismo uma verdade criada pelo próprio Jornalismo, a verdade jornalística: o que é afirmado como verdadeiro nas páginas dos jornais é efetivamente verdadeiro na medida em que é socialmente aceito como tal. A “realidade” retratada nos jornais pode ser uma realidade criada pela própria condição de um fato ser noticiado – noticiar um fato pode modificar de tal modo a influência desse fato sobre a sociedade que a notícia torna-se uma realidade nova. Daí justificarse a afirmação de Verón anteriormente citada. No dia-a-dia, a verdade jornalística tem estes aspectos pragmático e consensual: serve como parâmetro nas relações sociais e aproxima-se assim da verdade como resultante “do consenso ou do acordo entre os indivíduos de uma determinada comunidade ou cultura” (AMARAL, p. 45). Ou seja, do ponto de vista jornalístico, algo é verdadeiro porque foi fixado pela mídia e, a partir disso, aceito socialmente como tal.

CONCLUSÃO As considerações levantadas a partir da análise das duas notas internacionais levam à conclusão de que há inúmeros fatores que condicionam a produção da notícia e a fazem distanciar-se da idéia de um relato objetivo da realidade. Desde a apuração dos fatos até a sua divulgação ao público em forma de notícia publicada num jornal, os caminhos percorridos para a apresentação do fato em forma de discurso jornalístico tornam contestável a afirmação de que o jornalismo apresenta um retrato fiel da realidade. Nesse sentido, a verdade no Jornalismo é uma verdade construída pelo próprio Jornalismo, de característica consensual e pragmática. Embora a busca da verdade seja apresentada como imperativo ético para o jornalista, o processo de produção de uma notícia é condicionado por uma série de fatores que influenciam o tratamento do fato a ser transformado em notícia, desde sua apuração até que a notícia esteja disponível para o leitor nas páginas de um jornal. Esse longo processo, sujeito a muitas mediações, faz com que o relato de um fato apresentado nos jornais seja uma construção discursiva que, como fruto da elaboração do espírito, é eivada de uma subjetividade tal que não há como esperar que seja um retrato completamente fiel do que se pretende relatar. Assim, mais adequado do que falar em uma realidade exterior às páginas dos jornais que nelas é reproduzida é considerar a realidade presente nas páginas dos jornais como uma realidade construída e tida como verdade porque assim é socialmente aceita.

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REFERÊNCIAS AMARAL, Luiz. A objetividade jornalística. Porto Alegre: Sagra – D. C. Luzzatto, 1996. BARREIROS, Tomás; PAULA, Cleide de. A utilidade do jornal para o leitor: pesquisa com leitores da Gazeta do Povo. In: BARREIROS, Tomás; CASTRO, Alexandre; LIMA, Marcelo. Jornalismo – reflexões, experiências, ensino. v. 2. Curitiba: Pós-Escrito, 2007. BARROS FILHO, Clóvis. Ética na comunicação: da informação ao receptor. São Paulo: Moderna, 2001. DAWKINS, Richard. O capelão do Diabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. GUARESCHI, Pedrinho A. Comunicação & poder – A presença e o papel dos meios de comunicação de massa estrangeiros na América Latina. 8.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987. KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo: norte e sul: manual de comunicação. São Paulo: Edusp, 2001. SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. In: Estudos de Jornalismo e Mídia. v. II n. 1 – 1º semestre de 2005. Florianópolis: Insular, 2005. Disponível em: <http://posjor.ufsc. br/public/docs/141.pdf >. SOARES, Ismar de Oliveira. Sociedade da Informação ou da Comunicação? São Paulo: Cidade Nova, 1996. TAMBOSI, Orlando. Jornalismo e teorias da verdade. In: Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, v. 30, n. 1, jan./jun. 2007, p. 35-48. Disponível em: <http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/rbcc/article/view/3232/3041>. VERÓN, Eliseo. Construire L´événement – les médias et l´accident de Three Miles Island. Paris: Les Éditions de Minuit, 1981. WISNIK, José M. Ética. São Paulo: Vídeo Cultura, 1996.

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O PODER DA IMAGEM OU A IMAGEM DO PODER? A POLÍTICA NO TELEJORNALISMO. João Somma Neto1 RESUMO A relação existente entre o telejornalismo, as ações de poder na sociedade, e as condições de formação e de exercício da cidadania na contemporaneidade parece se estreitar cada vez mais. O acesso à informação, e a aquisição de conhecimento sobre tudo o que envolve os cidadãos, sua vida individual e em comunidade, passa a depender diretamente de como se desenvolve o trabalho jornalístico na televisão, um dos principais veículos de comunicação no mundo globalizado. Palavras-chave: poder, telejornalismo, cidadania.

ABSTRACT The relationship between the television, the actions of power in society and conditions for training and exercise of citizenship in the contemporary seems to increasingly closer. Access to information, and the acquisition of knowledge about everything that involves citizens, their lives individually and in community, going to depend directly on how to develop the journalistic work on television, one of the main vehicles of communication in the globalized world. Key words: power, television, citizenship.

1 Mestre e Doutor na área de concentração em Jornalismo pela Universidade de São Paulo, Professor Adjunto do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná. Autor do livro “Ações e relações de poder: a construção da reportagem política no telejornalismo paranaense”, e de diversos artigos científicos na área do Jornalismo..


O PODER DA IMAGEM OU A IMAGEM DO PODER? A POLÍTICA NO TELEJORNALISMO.

O telejornalismo se tornou uma atividade que exige do profissional não só pleno conhecimento e domínio das técnicas produtivas, dentro de uma linguagem específica do meio, mas, sobretudo, uma especial capacidade de percepção quanto às ligações sutis entre o modo de produção estabelecido, para obter um produto final determinado, e o processo em que ocorrem as relações de poder na sociedade. Esta exigência é obrigatória, se o jornalista pauta sua conduta em procedimentos éticos voltados ao cumprimento integral do papel do jornalismo como instrumento fundamental à disseminação de informações no meio social, como forma de busca permanente da garantia de livre acesso à informação e do exercício da cidadania. Neste sentido, a reflexão sobre o telejornalismo feito na atualidade em nosso país precisa identificar e pensar as questões cruciais referentes à produção das matérias jornalísticas, sobretudo as reportagens de televisão. Alguns dos pontos significativos, no emprego das técnicas produtivas, vão desde a elaboração das pautas, se faz a escolha de temas agendados para abordagem, até a definição de enfoques, tendenciosidade ou favorecimento político ideológico no trabalho da informação, tratamento visual da informação, produção de acordo com o grau de naturalidade ou artificialidade dado à matéria, atribuição do nível de importância ao tema da reportagem, seleção de fontes, tipo de imagens captadas, composição do cenário de fundo onde é mostrada a matéria, critérios de apuração e edição, trilhas sonoras, e outros elementos caracterizadores do produto final mostrado ao público. Ciro Marcondes Filho define o telejornal como o “gênero mais importante em matéria de noticiário de TV” por ser a melhor síntese do formato televisivo. (MARCONDES FILHO, 2000, p. 79). A partir dessa idéia é importante perceber a maneira como se produzem as matérias jornalísticas de televisão. Esse modo de produção apresenta múltiplos fatores determinantes, incluindo aqueles meramente técnicos, que devem ser analisados no plano ético. Isso porque a utilização de técnicas produtivas, definidas conforme certos parâmetros, contribui para construir a matéria jornalística de tal modo que lhe confere aparência da própria realidade a ser retratada, com a qual muitas vezes se confunde aos olhos do espectador. É imprescindível, portanto, do ponto de vista ético-profissional, identificar e discutir como se constroem as matérias transmitidas nos telejornais, para conhecer com mais propriedade os elementos determinadores do modelo de produção adotado no jornalismo televisivo. Dessa forma, poderemos compreender melhor a produção do material jornalístico na televisão, acusada muitas vezes de manipulação e parcialidade, principalmente quando mostra coisas relacionadas ao campo da política. Hoje a televisão é o mais importante, senão o único, meio de acesso à informação para uma grande parcela da população brasileira. Mais do que isso, a TV é utilizada pelas instâncias de poder na difusão, e defesa, de suas idéias, valores, atos e opiniões, quando não na formação de uma imagem pessoal, ou institucional, que se pretende difundir. As matérias pertencentes à chamada “editoria política” estão presentes invariavelmente nos telejornais. Na estrutura dos noticiários da televisão, podemos comprovar com facilidade o grande espaço ocupado pelos temas específicos dessa área. Também não é difícil perceber a importância atribuída pelas próprias esferas de poder ao veículo televisão, e ao telejornalismo, como instrumento de visibilidade social. 20 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.19-30| 1° Semestre 2009


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Por isso, as matérias jornalísticas também podem ser consideradas como formas de representação simbólica da realidade, as quais trabalham com recortes dessa realidade, passada ao telespectador como se fosse a própria realidade vivenciada. Além disso, no Brasil não se dissocia a televisão dos meandros em que se exerce o poder, sobretudo o poder político, como demonstra Bucci: Televisão no Brasil é uma questão de poder. Não em decorrência daqueles lugares-comuns, como “imprensa é poder”, ou “os meios de comunicação se prestam à manipulação das informações segundo conveniências de interesses privados”. Aqui, televisão é poder porque ela se confunde com o próprio poder. O andamento moroso da evolução da TV no Brasil para um modelo mais plural é exatamente análogo e simultâneo ao da evolução da democracia. A TV anda devagar porque a evolução política é vagarosa (...) Pois assim é com a TV. Ela avança (ou não) segundo as mesmas leis que regem os avanços (ou não) das formas de poder (...) Uma boa representação dessa parceria (Estado e televisão privada) pode ser encontrada no tom oficial que adquiriu o telejornalismo. (...) É curioso o que aconteceu. Ela continuou servil ao poder político, por automatismo e por limitações de sua própria gênese, de sua própria natureza; o dado novo é que ela ganhou a prerrogativa de decidir quem seriam os titulares desse poder. (BUCCI, 1997, p. 18-20).

E o próprio “funcionamento do sistema político nas democracias da sociedade moderna está sendo cada vez mais determinado pela mídia”. (MATOS, 1994, p. 17). Isso acontece também mediante as atividades jornalísticas, principalmente na televisão. Wolton afirma que “a comunicação política é um espaço de intercâmbio de discursos controvertidos, ocupado por aqueles que detêm a legitimidade para expressá-los publicamente: os políticos, os jornalistas e a opinião pública...” (Wolton, 1996, p. 31). Reafirmando essa visão, Soares complementa: “a videopolítica não se reduz à publicidade, incluindo diversos gêneros e níveis de intervenção sobre a política: telejornal, entrevista, debate, comentário”. (SOARES apud MATOS, 1994, p. 116). Podemos aceitar, conseqüentemente, que as matérias jornalísticas na televisão se enquadram dentro de formas de expressão que têm por base representações sociais, onde se mesclam infinitos fatores. Nesse aspecto, Guareschi afirma que: ...implicado e inerente às motivações e forças que nos levam a fazer o que fazemos, não há apenas elementos racionais, cognitivos, lógicos. De modo algum. As “razões” de por que fazemos o que fazemos passam por outros canais e são legitimados e impulsionados por outros fatores bem mais amplos que o racional e o cognitivo: nessas supostas “razões” estão também presentes elementos míticos, afetivos, religiosos, culturais, tradicionais, ligados a status, poder, prestígio, etc. É a isso que chamamos de representações sociais. (GUARESCHI, 2000, p. 69).

Aquilo que é mostrado na tela, resultado das técnicas jornalísticas de televisão, busca a representação do real, na medida em que “o real é também produção do simbólico, uma representação do concreto, do empírico, da realidade objetiva, o que faz com que, ao invés de tomarmos uma realidade como unívoca, pensemos em muitas simbologias, que podem ser até contraditórias” (GUARESCHI, 2000, p. 77). COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 19-30| 1° Semestre 2009 | 21


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A presença das chamadas representações sociais na mídia é notada ainda mais se levarmos em conta a definição estabelecida pelo autor, segundo a qual: ...as representações sociais procuram ocupar um espaço específico, e podem ser compreendidas como um conhecimento do senso comum, socialmente construído e socialmente partilhado, que se vê nas mentes das pessoas e na mídia, (...), nos comentários das rádios e TVs.(...) São um conhecimento social, um campo representacional. Elas podem possuir aparentes contradições na sua superfície, mas nos seus fundamentos elas formam um núcleo mais estável e permanente, baseado na cultura e na memória dos grupos e povos. (GUARESCHI, 2000, p. 78).

Recentes estudos realizados esclarecem também o fazer jornalístico, principalmente na televisão, colocando em evidência representações sociais que podem ser criadas e legitimadas através da mídia. Esta é, inclusive, uma tendência manifestada de maneira muito forte no âmbito da política. De acordo com Guareshi, os grandes meios de comunicação atuam no sentido de interferir no processo político, criando e disseminando representações sociais conforme a intenção de manutenção da hegemonia dos grupos detentores do poder. Ele cita um estudo sobre o assunto, realizado pelo Grupo de Pesquisa do Channel Four, de Londres, em 1995, que resultou numa “investigação sobre o papel da comunicação, especialmente da Rede Globo, no Brasil, de 1982 a 1992. A pesquisa conclui que não houve fato político importante daquela década que não tenha sido influenciado decisivamente pelo poder da mídia”. (GUARESCHI, 2000, p. 179). Partindo do pressuposto de que o jornalismo, apresenta uma dimensão política muito forte, as reportagens dessa área adquirem uma importância significativa tanto do ponto de vista da veiculação, como do público que recebe informações diretamente ligadas ao seu cotidiano. O telejornalismo passa a ter então uma influência que não pode ser desprezada nas relações sociais, o que faz aumentar o interesse em se conhecer mais profundamente seu processo produtivo. Para Guareschi a dimensão política é aquela que move o ser humano para o social, não havendo como negar que ela sempre ocupou lugar central, tanto na vida pessoal, como na experiência social dos seres humanos. Essa maneira de encarar a política está fundamentada no fato de que “embora haja boas razões para se enfocar a esfera pública como o palco específico da política, no qual se situa o sistema político e o estado, o domínio teórico da política é bem mais amplo. Mesmo que não haja estado nem políticos, a política continua uma característica central das práticas sociais cotidianas”. (GUARESCHI, 2000, p. 264). Numa análise rápida podemos afirmar que os temas relacionados à política, em geral, recebem uma atenção diferenciada em termos de importância e desfrutam de espaço e tempo relativamente grandes na mídia. Em especial no telejornalismo se estabelece certa cumplicidade entre jornalistas e políticos. Os primeiros em busca da informação, seu material de trabalho, e os outros na procura de espaço para aparecer, falar e fazer seu proselitismo. Com isso, características determinadas marcam a estrutura dos telejornais e, dentro dela, aquilo que se mostra ao espectador. Lage aborda a questão enfatizando 22 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.19-30| 1° Semestre 2009


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que “as editorias políticas dos jornais conjugam todas as variantes dos verbos do campo semântico de dizer; nos noticiários de televisão, o que mais aparece são rostos falantes, seguidos, em ordem de freqüência, por votações e manifestações coletivas”. (LAGE, 1998, p. 38). Isto reflete não só um modo de produção jornalística instituído pelo emprego de procedimentos técnicos, privilegiando um formato consagrado resultante na matéria pronta levada ao ar conforme a maneira de fazer preconizada tanto pela empresa como pelo próprio profissional, e também demonstra a forma como se dão as relações entre fontes e produtor do material jornalístico. No interior do campo específico da política: O que é dito em público depende de enunciados que se resguardam em papéis secretos e conversas reservadas; são acordos, conchavos e acertos que justificam elevado investimento em espionagem, tornam a lealdade virtude cara. Em todo caso, a política obedece a regras: uma é que nela interessa, mais que qualquer discurso, o quadro que se altera permanentemente (daí existir a crônica ao lado do noticiário, a informação - no sentido estratégico-militar do termo: relato consistente, versão não contraditória - depois do informe); outra, que os temas dominantes são os dispostos pelo poder, de modo que impor um assunto representa prova de força. (LAGE, 1998, p. 38).

Outro ponto relevante quando se tenta compreender o funcionamento do jornalismo dentro da noção de representação social é seu papel expressivo na construção de cenários, montados a partir da atuação política de diversos agentes. Na História recente do país há exemplos espetaculares indicando como isso ocorre, partindo do modo como se constroem as reportagens jornalísticas na mídia em geral e na televisão em particular, até chegar à montagem do próprio cenário político. Foi assim com a ascensão e queda de Fernando Collor de Mello, um dos acontecimentos mais conhecidos, e continua no momento presente, com o Presidente itinerante, com o cartão corporativo, com o dossiê de FHC, com a proposta do terceiro mandato. Na acepção de Lage, “análises essenciais de fatos políticos, qualquer que seja a instância que se pesquise, desenham cenários, não criam roteiros nem designam atores”. A consciência e intencionalidade, em maior ou menor grau, com que se apresentam ao público os significados contidos no material jornalístico produzido, incluindo-se as imagens das reportagens televisivas, com o intuito de se obterem resultados estabelecidos previamente, levam ao questionamento necessário do trabalho profissional no telejornalismo. É preciso, então, buscar o desvendamento das relações estabelecidas entre o emprego de técnicas consagradas, que reafirmam e legitimam o modelo, e as concepções éticas fundamentais, presentes ou ausentes neste processo. Não se pode perder de vista que valores, conceitos, normas e leis, reguladores da vida social, estão vinculados intimamente com o fazer jornalístico. Quanto às normatizações técnicas do jornalismo, pode-se questionar o consenso nas redações de que a abordagem de um assunto, ou o seu simples descarte, tem a ver com a relevância social a ele atribuída. Mas, quem diz o que é relevante? E a partir de quais critérios? A forma como isto é feito também condiciona, muitas vezes, COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 19-30| 1° Semestre 2009 | 23


O PODER DA IMAGEM OU A IMAGEM DO PODER? A POLÍTICA NO TELEJORNALISMO.

a maneira como essa abordagem é realizada, como os destaques são escolhidos, os meios empregados para apurar certas informações, etc. No caso do telejornalismo existe ainda o problema, ou a virtude, da imagem. Ela é considerada até como ícone de uma verdade escancarada, a conferir credibilidade àquilo que se mostra e do que se fala. Essa credibilidade tem uma ligação estreita com a possibilidade de a TV mostrar os acontecimentos, num processo de reprodução do real aparente. No entanto o que se tem é um trabalho realizado a partir de recortes da realidade ou, segundo alguns autores, de construção, ou ainda de reconstrução da realidade. O simples fato de a televisão mostrar a ocorrência não significa que no interior do modo de produção do telejornalismo tenhamos a oportunidade de reproduzir a realidade tal como ela é. A imagem televisiva não garante que aquilo que é visto na tela seja exatamente o que acontece em sua essência, principalmente porque, além da subjetividade inerente aos profissionais que produzem o material jornalístico, os procedimentos técnicos também interferem diretamente na captação e na difusão dessa realidade. Além do quê, existe o uso da reportagem para passar ao público a imagem que as instâncias de poder pretendem, mesmo diante da atuação do jornalista. Cabe então o questionamento: temos aí a imagem do poder, ou estamos perante o poder da imagem? A compreensão de como se processa esse fenômeno é facilitada quando Lage aborda a reconstrução da realidade na mídia. Segundo ele, Produzir narrativa sobre um evento qualquer da realidade é: a) selecionar fatos e ordená-los em seqüências, atribuindo sentido aos acontecimentos; b) escolher qualidades e categorias dos personagens e ambientes, de modo a caracterizálos; c) produzir funções que estabeleçam o diálogo com o consumidor da mensagem. Isto significa partir de critérios que não podem ser outros senão o momento histórico de quem escreve, seus valores, preferências ou interesses. Por outro lado, quem lê ou vê uma narrativa a interpreta conforme os mesmos parâmetros pessoais. (LAGE, 1998, p. 96).

Pesquisas atuais demonstram que, cada vez mais, o jornalismo se posiciona como um elemento institucional de mediação simbólica, cumprindo um papel social importante na medida em que sua prática possibilita o conhecimento de fatos ou eventos pelo público. Dessa forma, torna-se possível o acesso por parte dos espectadores de televisão aos acontecimentos considerados relevantes, embora não se saiba se a maioria desse público concorda com a relevância atribuída. Isto faz com que as análises se voltem também aos aspectos estruturais do jornalismo, e em nosso caso do telejornalismo. Assumem importância, então, os problemas ético-profissionais, ao lado de outras questões como os problemas de conteúdo, de significação e de leitura, pelos telespectadores, do material jornalístico divulgado pela televisão. No que se refere às possibilidades de leitura da matéria jornalística de TV, Arlindo Machado destaca que: Um mesmo telejornal pode ser “lido” diferentemente por diversas comunidades de telespectadores, em função de seus valores, ideologias e estratégias perceptivas ou cognitivas. Por mais fechado que seja um telejornal, há sempre ambigüidade suficiente em sua forma significante, a ponto de interditar

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qualquer “leitura” simples e unívoca, e há também autonomia suficiente, por parte do telespectador, de modo a permitir que ele faça uma triagem do que lhe é despejado no fluxo televisual. (MACHADO, 2000, p. 100).

Numa observação ainda que superficial das matérias, reportagens e comentários, que todos os dias são transmitidos nos telejornais, evidencia-se a prevalência de determinadas fontes de informação. Raras vezes a diversidade de fontes permite uma apuração mais pluralista das informações, ou mesmo a variação de imagens, fazendo com que o enfoque seja direcionado para o aspecto mais importante de um suposto ponto de vista do interesse público. O que se vê, normalmente, são informações provenientes de um fluxo único e unidirecional, privilegiando-se origens autorizadas, especializadas, consagradas, no caso das informações trabalhadas nas matérias das editorias políticas. São os líderes políticos, representantes classistas, os partidos, as autoridades governamentais, que têm voz e a oportunidade de falar, além de mostrar o que pretendem que apareça na tela dos milhões de aparelhos de televisão espalhados pelo País. No plano técnico, de elaboração do produto jornalístico, há inúmeros fatores que interferem no processo, indo desde orientações recebidas dos superiores hierárquicos, passando pela política editorial do veículo, até as próprias condições de trabalho do jornalista, que muitas vezes fogem do ideal, chegando também a certa acomodação do profissional, como critica Lage: Jornalistas apressados ou preguiçosos adoram ouvir fontes oficiais (dispensamse de confirmar informações); detestam ler textos longos, como os de processos judiciais; exageram na apuração de matérias por telefone, não costumam conversar com os entrevistados e desprezam informações que não podem publicar imediatamente. (LAGE, 1998, p. 235).

Mesmo com o aprimoramento constante dos instrumentos de busca e apuração de informações, com o desenvolvimento tecnológico rápido a disponibilizar facilidades, com a internet e outros mecanismos de acesso, continuam sendo mantidos antigos hábitos no relacionamento necessário entre jornalistas e suas fontes. A implantação de novos procedimentos não elimina velhas fórmulas empregadas no trabalho jornalístico, e ainda permite uma mistura em que convivem o novo e o arcaico, como se nota na abordagem feita por Lage. Repórteres precisam de fluxo contínuo e confiável de matéria-prima para suas notícias e reportagens. Isto significa que as relações que guardam com as fontes são do tipo em que se troca informação por prestígio ou influência. As fontes oficiais beneficiam-se de credibilidade geralmente excessiva; dispensam confirmação, enquanto informações de fontes não oficiais precisam ser confirmadas, o que envolve custo e disponibilidade de tempo adicionais. A crescente profissionalização e o treinamento das fontes (oficiais e privadas, incluídas aí as organizações não governamentais) facilita os contatos mas, ao mesmo tempo, faz com que as informações sobre fatos venham já competentemente revestidas da versão que interessa à instituição que as divulga. (LAGE, 1998, p. 371).

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O PODER DA IMAGEM OU A IMAGEM DO PODER? A POLÍTICA NO TELEJORNALISMO.

Dentro da rotina produtiva situam-se ainda outras questões específicas da prática telejornalística, em que elementos informacionais atuam em conjunto produzindo significados e sentidos. Imagens, textos, falas dos agentes (repórter e entrevistado), efeitos, luzes, movimentos de câmera, ângulos escolhidos, entre outros, determinam a estruturação do material produzido, bem como as significações pretendidas. A imagem, considerada muitas vezes como o que há de mais importante na matéria jornalística, segundo Barros Filho, é o elemento “informativo com maior grau de aparência de objetividade, estando ou não associado a um texto escrito ou falado”. Para o autor, esta “aparência de objetividade provém da relação mantida com o espectador, pelo tipo de percepção que enseja, e da relação mantida com o real”. (BARROS FILHO, 1995, p. 82). Torna-se relevante, a partir dessas constatações, refletirmos sobre os mecanismos de produção intencional no telejornalismo, até porque a televisão ocupa uma posição privilegiada na dinâmica das relações entre os segmentos que interagem socialmente. Este posicionamento garante ao telejornalismo a condição de importante instrumento para circulação de informações, idéias, valores, atuando na mediação comunicacional e em certa medida funcionando também como instaurador de relações de poder. Não há como deixar de levar em conta, em conseqüência, a forte ligação entre o telejornalismo e o estabelecimento, e desenvolvimento, dessas relações de poder no âmbito da sociedade, como focaliza Lage: ...a produção de informações numa sociedade é algo mais complicado do que a feitura de um jornal, a edição de um programa de rádio ou televisão, a concepção de um clip de 30 segundos; de fato, confunde-se com a própria estrutura de poder, na medida em que sociedades são conjuntos ordenados por hierarquias. Jornalistas devem transformar, processar, codificar informações segundo padrões técnicos consensuais (sem o que as mensagens correriam o risco de não ser aceiras ou compreendidas) e obedecendo a valores éticos admitidos pela sociedade, embora não necessariamente por todos os grupos que a compõem. (LAGE, 1998, p. 230).

A complexidade do funcionamento social influencia diretamente a maneira pela qual se faz a produção jornalística em televisão que, igual como em outros meios, passa por condicionantes ligadas ao modo como se estruturam as relações de poder. Do mesmo modo, há uma permanente e indissociável ligação entre a forma como se desenvolve e se produz o telejornalismo e as condições socioeconômicas e culturais presentes na sociedade capitalista contemporânea. O processo de globalização econômica, vivenciado na atualidade, vai além das questões econômicas entre países, e se enraíza nos meandros das formas de hegemonia vigentes na ordem mundial. E o telejornalismo está integrado a este contexto refletido em sua forma e conteúdos. Desse modo, o fazer telejornalístico instaurado se realiza no interior de um contexto socioeconômico, no qual a própria televisão em sua condição empresarial está inserida. Estão presentes aí, também, necessidades de mercado, que se unem a normatizações de caráter político institucional no plano global. Esta situação dá origem a várias fórmulas de produção no telejornalismo praticadas com a finalidade principal de cativar e atrair cada vez mais público. O modelo que contém estas fórmulas é 26 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.19-30| 1° Semestre 2009


JOÃO SOMMA NETO

justificado e explicado por argumentos, em geral inconsistentes, incluindo desde os batidos conceitos da objetividade, imparcialidade, neutralidade, até questões, como a capacidade de absorção e entendimento das mensagens pelo espectador, relações espaço temporais, padrões de qualidade, gosto médio do público e uma infinidade de outras concepções técnicas balizadoras do modo consagrado de se fazer jornalismo em televisão. Para a visão mercadológica com que é encarada a produção no telejornalismo, o que mais importa são os índices de audiência. Disso resulta o emprego de uma “lógica da sedução do telespectador” (MERCIER, 1996, p. 165), privilegiando estratégias voltadas à plena satisfação do público, com o objetivo primeiro de vender audiência aos financiadores /anunciantes. Tudo gira em torno da obtenção de prestígio e rentabilidade, na medida em que se atendem expectativas, desejos e aspirações de camadas cada vez mais amplas do público e se obtêm, ao mesmo tempo, mais recursos oriundos dos anúncios carreados a partir de elevados índices de audiência. Esta é a base sobre a qual se assenta um jornalismo com características peculiares, por fazer parte de uma programação estruturada pela chamada “neotelevisão” (MERCIER, 1996, p. 166), aquela que se faz de forma industrial, repetindo um sistema produtivo disseminado em escala mundial. O modelo adotado trata a informação, anteriormente conceituada como matériaprima do jornalismo, e sua conseqüente transmissão, de acordo com as leis de mercado e do espetáculo, pois tudo vira show de imagens. Essa espetacularização está ligada aos apelos emocionais utilizados no jornalismo de televisão. Ferrés classifica o campo televisivo como o império das emoções ao mesmo tempo que considera que a eficácia socializadora da televisão se baseia em boa medida no desconhecimento que as pessoas têm dos motivos que as levam a assistir determinados programas de televisão. Não é mais importante a informação pelo que pode representar socialmente, mas, sim, o simples atendimento àquilo deque o espectador gosta, pela possibilidade de cativálo, de seduzi-lo. Cada procedimento valoriza a proximidade com o telespectador. O rompimento da distância física acontece pelo uso de recursos que, geralmente, podem interferir de forma direta no processo, deturpando, manipulando, direcionando e condicionando a informação. As fórmulas produtivas empregadas no jornalismo em televisão estão sujeitas a diversos fatores. Mas é a espetacularização da notícia, que tem prevalecido para atrair e seduzir o público. Técnicas, recursos e sofisticados equipamentos são usados com essa finalidade, iniciando com o trabalho de captação das imagens, quando são produzidas as cenas, dirigidas de acordo com o desejo, ou sugestões de repórteres, cinegrafistas, chefes de reportagem, pauteiros ou diretores, quando não por elementos estranhos ao processo de produção do telejornalismo. O roteiro da reportagem é previamente marcado, produzindo-se uma informação pré-fabricada sem autenticidade, e não-espontânea. A realidade televisiva não corresponde mais ao acontecimento. Na realidade produzida pelo telejornalismo tudo é rápido e superficial, o que resulta numa falsa impressão de recepção de informações, como afirma Marcondes Filho: “Ninguém se informa seriamente de nada; só se tem a impressão de ficar informado”. (MARCONDES FILHO, 1988, p. 54). Esta forma de se fazer jornalismo na televisão está embasada no modelo caracterizado pelo emprego de conhecimentos, e aplicação

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de técnicas produtivas que padronizam e modelam também a realidade externa. Daí que a TV muitas vezes acaba “fazendo de pequenos incidentes grandes fatos nacionais e menosprezando fatos importantes, se eles não interessarem a ela”. (MARCONDES FILHO, 1988, p. 56). A transformação em show de tudo o que é mostrado na TV ocorre, sobretudo, a partir dos anos 1960. É nessa época que o telejornal deixa de ser a simples leitura de notícias, passando a ganhar identidade resultado do desenvolvimento de uma linguagem própria e das técnicas de produção da televisão. Em quase todo o mundo, a produção dos telejornais está padronizada, revelando a existência de alguns paradigmas próprios deste tipo de prática jornalística. Um deles é a substituição da informação pela emoção. Outro é o que Marcondes Filho chama de a lógica da velocidade, referente tanto à rapidez com que os fatos chegam até o público, quanto ao ritmo de transmissão das notícias. A preocupação com a velocidade tem ligação também com o problema da concorrência. Um assunto ou tema não é considerado mais ou menos importante pela relação que mantém com a vida das pessoas, com sua qualidade intrínseca, ou pelo que representa em termos de bem-estar social. O primeiro critério vigente no telejornalismo passou a ser a necessidade de transmissão da matéria antes dos concorrentes. Tudo se transmite com ritmo veloz, e as notícias passadas freneticamente, com a troca ágil de planos produzindo um “efeito de aceleração”, como analisa Marcondes Filho. Este efeito não é captável de imediato, exigindo que o espectador fixe inconscientemente diversas narrativas rápidas em tempo mínimo. Como conseqüência há superficialidade das notícias, a não-reflexão a partir delas e a emocionalidade. O primeiro objetivo do modo de produção jornalística na TV passa a ser provocar emoções; a notícia tem que sensibilizar os telespectadores, com cenas montadas, e imagens captadas, especialmente para transmitir e atiçar sentimentos. No telejornalismo não são quaisquer imagens que servem, são vetadas imagens monótonas, sem vida, paradas, que não causam atração ou interesse. Mais do que ser verdadeiro, o espetáculo no telejornal tem que ser instigante para poder prender a audiência. Os fatos são trabalhados sob a perspectiva da estética televisiva e traduzidos para a linguagem própria do meio. Não existe acontecimento em estado bruto na televisão, todos sofrem influência direta do modo de produção vigente no telejornalismo. As imagens, correspondentes aos supostos fatos, são captadas por diferentes angulações de câmera, por travellings, panorâmicas e zooms, e enfocadas diferentemente, e de acordo com a escolha de entrevistados e depoentes. Todos esses fatores interferem e levam à tradução do fato por uma linguagem-padrão e repetitiva. Isso significa que há uma reinterpretação do real, a partir de um recorte deste mesmo real, segundo um modo de ver, e também segundo uma perspectiva tecnológica da televisão. Exige-se que a realidade seja adaptada aos modelos da ficção para ser mostrada no telejornal. O acontecimento é transformado em algo sedutor, uma vez que o interesse e atenção do espectador são despertados pela emoção, pela sensação de envolvimento que provoca. É como se quem assiste estivesse participando junto. Daí resulta a aparência de autenticidade, de verdade, conferida pelo telejornalismo comercial àquilo que se passa.

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Pode-se perceber também o modo de produção específico do jornalismo televisivo nas matérias com temática política. A televisão acaba instituindo uma forma fragmentária, pela qual são construídos os fatos políticos. Nela se dissolve a discussão política por tema, personaliza-se o debate, que é substituído pelo espetáculo. Dependendo da maneira como é produzido, o jornalismo de televisão pode interferir diretamente na vida das pessoas, em sua maneira de pensar, de interpretar o mundo e de fazer suas escolhas cotidianas. Cabe um papel insubstituível, então, à formação profissional do jornalista, na busca incessante de alternativas voltadas à garantia de uma função realmente social à atividade jornalística em especial na televisão. Diante da singularidade contemporânea, na qual a tecnologia avança vertiginosamente, é imprescindível avaliar, compreender e atuar no sentido do emprego de técnicas produtivas fundamentadas em valores éticos essenciais. Só assim não se reforçará e repetirá um modelo desumanizador dos sujeitos envolvidos no processo produtivo do jornalismo. É preciso colocar em prática normas de conduta que na maioria das vezes ficam apenas no papel, como, por exemplo, um dos preceitos constantes do manual de redação do jornal O Globo que diz: “todo jornalista, do repórter ao editor, seleciona e dá pesos diferentes aos elementos de informação que passam por suas mãos. Isso é inevitável – pois não há outra maneira de trabalhar – e representa o exercício de considerável poder: o de decidir como determinado aspecto da realidade será apresentado à opinião pública. A primeira questão ética que se põe para o jornalista é aprender a não abusar desse poder. É inaceitável que o processamento da informação seja posto a serviço de fins políticos, ideológicos e pessoais”.

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REFERÊNCIAS BARROS FILHO, Clóvis. Ética na comunicação: da informação ao receptor. SP: Moderna, 1995. BUCCI, Eugenio. Sobre ética e imprensa. SP: Cia. Das Letras, 2000. FERRÉS, Joan. Televisão subliminar. P. Alegre: Artmed, 1998. GUARESCHI, Pedrinho et al. Os construtores da informação: meios de comunicação, ideologia e ética. Petrópolis: Vozes, 2000. LAGE, Nilson. Controle da opinião pública: um ensaio sobre a verdade conveniente. Petrópolis: Vozes, 1998. LOPES, Dirceu F; SOBRINHO, José Coelho (org.). Edição em jornalismo eletrônico. SP: Edicom: 2000. MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. SP: SENAC, 2000. MACIEL, Pedro. Jornalismo de televisão. P. Alegre: Sagra, 1995. MARCONDES FILHO. Televisão - a vida pelo vídeo. SP: Moderna, 1988. MATOS, Heloiza (Org.) Mídia, eleições, e democracia. SP: Scritta, 1994. MERCIER, Arnaud. Le journal télévisé. Paris: Presse de Sciences, 1996. SOMMA NETO, João. Ações e relações de poder: a construção da reportagem política no telejornalismo paranaense. Curitiba: Ed. UFPR. 2007. WOLTON, Dominique. Elogio do grande público. São Paulo: Ática, 1996.

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EXEMPLOS DE ESTEREÓTIPOS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO Alyohha de Oliveira Moroni1 Elza Aparecida de Oliveira Filha2

Universidade Positivo

RESUMO Este artigo pretende discutir se o telejornalismo auxilia no reforço de idéias estereotipadas. Durante uma semana, as edições do Jornal Nacional, Jornal da Record e SBT Brasil foram gravadas e algumas matérias, que tratavam de coletivos sociais, foram exibidas a um grupo de 19 entrevistados, paranaenses e moradores de Curitiba ou Região Metropolitana. Comprovou-se a estereotipização no material selecionado, já que o conteúdo veiculado pela televisão coincidiu com os estereótipos projetados pelos entrevistados. Palavras-chave: jornalismo, telejornalismo brasileiro, estereótipos.

ABSTRACT: This paper aims to debate if journalism contributes to disseminate and reinforce stereotypical ideas. The daily editions of Jornal Nacional, Jornal da Record and SBT Brasil were recorded during a week, and afterward a selection from this material concerning social collectivities were presented to a group of 19 people, born in the stat of Paraná and residents in the city of Curitiba or its surroundings. This research corroborated the existence of a process of stereotyping in the selected material, since the content broadcasted by the television channels was similar to the stereotypes displayed by the interviewees. Keywords: journalism, Brazilian tele-journalism, stereotyping.

1 Editora de texto da TV Paraná Educativa. Pós-graduanda em Comunicação Política e Imagem pela Universidade Federal do Paraná. Jornalista formada pela Universidade Positivo em 2006. E-mail: alyohha_moroni@yahoo.com.br. 2 Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), 2006; mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), 2002; formada em Jornalismo pela UFPR em 1976; atuou durante mais de 20 anos em jornais diários (O Estado do Paraná, Indústria & Comércio, Folha de Londrina, O Estado de S. Paulo e O Globo). Professora do curso de Jornalismo da Universidade Positivo, em Curitiba. E-mail: elza@up.edu.br.


EXEMPLOS DE ESTEREÓTIPOS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO

INTRODUÇÃO A tarefa de compreender como se estabelecem as relações sociais e a percepção do outro pode ser facilitada se vertentes multicausais forem analisadas. Uma das facetas importantes são os meios de comunicação (COHEN, 1980). No Brasil, este papel recai especialmente sobre a televisão. Porém, devido à complexidade das estruturas sociais, o que parece uma fórmula simples pode apresentar desvios. Entre as fontes de erro de percepção social está o estereótipo, uma “supergeneralização de uma característica para toda uma categoria ou grupo de pessoas” (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 1994, p. 35), que pode conduzir a enganos de impressão sobre o outro. E se a estereotipização3 estiver presente naquele que é o veículo mais atraente perante os brasileiros? O presente artigo aborda fundamentalmente esses assuntos: jornalismo televisivo e estereótipo, e traz como proposta analisar se o primeiro transmite e reforça o segundo. A análise tem como base respostas de dezenove entrevistados, que depois de assistirem a um composto de reportagens, indicaram suas impressões sobre alguns grupos sociais. Tais matérias foram retiradas de três telejornais de veiculação nacional, gravados em uma mesma semana, no mês de julho de 2006. Quais são as primeiras características e lembranças quando se pensa em um francês? Ou em mulheres bonitas? Provavelmente, as respostas serão semelhantes. Certas figuras emblemáticas costumam remeter à recordação das mesmas características. Essas generalizações podem ser consideradas estereótipos. Pereira (2002, p. 46) define os estereótipos como “crenças compartilhadas sobre os atributos pessoais, especialmente traços de personalidade, como também sobre os comportamentos de um grupo de pessoas”. Outra conceituação determina que estereótipos são “uma crença rígida, excessivamente simplificada, não raro exagerada, aplicada tanto a uma categoria inteira de indivíduos como a cada indivíduo da mesma” (JOHNSON, 1997, p. 93). Apesar da diversidade de definições, não há dúvidas de que esses padrões prédeterminados estão presentes em diferentes segmentos e manifestações sociais, inclusive nos meios de comunicação de massa. Eles agem, juntamente com a família, a escola e os grupos de amigos como agentes de socialização e constituem uma das vertentes da construção do imaginário das pessoas (COHEN, 1980). Por serem resultado de um processo cultural, os estereótipos estão impregnados no inconsciente humano e social. A estereotipização traz consigo a generalização, que, muitas vezes, traduz padrões equivocados e simplistas. Duas ou três características mais marcantes acabam por representar todos os indivíduos de um mesmo sexo, etnia, origem, profissão, classe social, etc. Nos programas veiculados pela televisão, a tendência à homogeneização também existe, como reforça Sodré, para quem essa mídia “é impelida a uma homogeneização dos diversos conteúdos culturais, isto é, a redução dos mesmos a modelos facilmente 3 Apesar de o termo estereotipização não ser considerado por dicionários da língua portuguesa, a expressão será utilizada neste trabalho, já que aparece com freqüência na bibliografia adotada.

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ALYOHHA DE OLIVEIRA MORONI - ELZA APARECIDA DE OLIVEIRA FILHA

aceitáveis pelo público” (SODRÉ, 1977, p. 77-78). O autor afirma que “o receptor percebe a imagem da tevê como algo de ‘natural’ no interior de sua casa” (p. 59). Por esse motivo, o que o espectador assiste é mais facilmente aceito e absorvido. A naturalização pode ser considerada perigosa, já que os estereótipos, com freqüência, transformamse em preconceito. Esse convencionalismo pode proporcionar implicações negativas aos atingidos, como baixa auto-estima, depressão, não-socialização, sentimentos de rejeição, desprezo e outros problemas psicológicos e sociais. Além disso, em muitos casos, essas impressões são simplistas e generalizantes.

1 JORNALISMO Ferramenta considerada fundamental e decisiva nas sociedades contemporâneas, o jornalismo é cúmplice direto na garantia – ou não – do exercício do direito à informação. Pode-se dizer que informar é o grande objetivo da profissão. No Brasil, o telejornalismo assume o papel de maior fonte de informação da população, como explica Rezende: “No caso brasileiro, a TV não é apenas um veículo do sistema nacional de comunicação. Ela desfruta de um prestígio tão considerável que assume a condição de única via de acesso às notícias e ao entretenimento para grande parte da população“ (REZENDE, 2000, p. 23). Entre as razões apontadas pelo autor para a formação desse panorama estão a desigualdade na distribuição de renda, a centralização das emissoras nas mãos de poucos proprietários, o governo ditatorial dos anos 60 e 70, e a baixa instrução educacional do brasileiro – com a presença numerosa de analfabetos funcionais e a falta do hábito da leitura (REZENDE, 2000). Alguns autores, apesar de não desconsiderarem essa função social dos meios de comunicação, acreditam que a divulgação da informação está comprometida com outros interesses que não os da sociedade. Para Juan Somavia e Rezende, por exemplo, a ligação econômica da mídia jornalística com outras instituições submete a informação às condições de mercado, resultando em uma subtração desta perante as imposições da busca pela audiência. Somavia acredita que “a notícia se transformou em uma simples mercadoria que é vendida segundo a lógica do mercado dominante, e, em conseqüência, é incapaz de refletir as realidades histórico-culturais e políticas que dão aos fatos real dimensão” (SOMAVIA apud SQUIRRA, 1995, p. 13). No ambiente televisivo, o procedimento parece seguir uma direção semelhante, mas com proporções relativamente maiores: a ênfase se dá sobre o telespectadorconsumidor. Rezende aplica o raciocínio ao veículo: Sob o controle rígido da ditadura do lucro, os programas e a linguagem que a TV emprega se adaptam, na forma e no conteúdo, ao perfil do público aos quais se dirigem. A fórmula adotada pelo sistema comercial de TV é simples: uma audiência maior aumenta o faturamento publicitário e agrega rentabilidade às empresas de televisão. Tal lógica de produção sacrifica o telespectador-cidadão e exalta o telespectador-consumidor, referência básica de toda essa operação mercantil (REZENDE, 2000, p. 25).

Não existe um consenso sobre o que teria maior importância no telejornalismo: o

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EXEMPLOS DE ESTEREÓTIPOS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO

texto ou a imagem. A proposta mais aceita é considerar ambos como parte da linguagem telejornalística: “O sentido das coisas nos telejornais não é dado exclusivamente pelo discurso falado, mas decorre também do andamento das imagens. A associação entre elas (dada por fatores aparentemente casuais como a mera proximidade) é uma das possibilidades de sentido” (BUCCI, 1997, p. 52). Porém, não há dúvidas de que a imagem é o grande diferencial e o maior atrativo da televisão em relação aos outros meios de comunicação. Isso porque a sociedade atual prioriza a visão e valoriza esse sentido. Outro ponto a favor é que a imagem pode ser visualizada de forma universal, independentemente de cultura, idioma ou nacionalidade. “A imagem não tem fronteiras” (SQUIRRA, 1995, p. 53). Para o telejornalismo, a imagem é utilizada para rebater críticas sobre uma possível superficialidade de conteúdo. Sua força é resultado da “capacidade de convencimento, poder de expressão e dramaticidade” (SQUIRRA, 1995, p. 51) inerentes a ela – ligação com o caráter emotivo do receptor. Geralmente uma boa imagem, que não pode ser descartada, é aquela em que há algo impactante, que represente beleza, tristeza, dor, alegria e ações emotivas. Por todos esses fatores a imagem é, para Bucci, “o principal critério da notícia. Se não há uma imagem impactante, dificilmente o fato merecerá um bom tempo no telejornal” (BUCCI, 1997, p. 29). Esse enfoque justifica a preocupação, desde a pauta, com matérias que só rendam boas imagens A brevidade adotada pelo telejornalismo se apresenta como uma característica própria de sua linguagem, afetada principalmente em função do imediatismo do tempo, da objetividade necessária e da exigência de que o conteúdo seja compreendido pelo receptor no momento em que é transmitido (BARBEIRO; LIMA, 2002). Além disso, a heterogeneidade dos receptores influencia diretamente na escolha do tipo de linguagem a ser adotado pelo telejornal. Essa busca pela síntese foi praticamente imposta para que o telejornal alcançasse o público diverso ao qual se destina. Por isso, e pretendendo maximizar o entendimento do conteúdo veiculado, o texto é enxugado e são eliminadas as palavras descartáveis, mantendo-se apenas aquelas essenciais para o entendimento da notícia. Dá-se preferência a frases curtas na ordem direta. A informação no telejornal “tem de representar de uma forma sintética, breve, visualmente coerente e significativa o objeto da notícia” (PEREIRA JR., 2001, p. 124). Certamente que essa característica do telejornalismo também foi acentuada para atender a lógica de mercado ao qual é submetido. O tempo na televisão é caríssimo e não é desperdiçado pelas emissoras, já que isso seria sinônimo de perda nos lucros. A maior eficiência da linguagem telejornalística é atribuída ao seu coloquialismo, já que “a notícia para televisão é linguagem falada, é conversa” (SQUIRRA, 1995, p. 68). Apesar de esta linguagem ser preferível e mais eficiente do ponto de vista da comunicação – “é mais acessível para as pessoas de pouca escolaridade e, mesmo para as que estudaram ou lidam constantemente com a linguagem formal, permite mais rápida fruição e maior expressividade” (LAGE, 2003, p. 37) –, o modelo formal é bem visto pela sociedade. Desta forma, “a conciliação entre esses dois interesses – de uma comunicação eficiente e de aceitação social – resulta na restrição fundamental

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a que está sujeita a linguagem jornalística: ela é basicamente constituída de palavras, expressões e regras combinatórias que são possíveis no registro coloquial e aceitas no registro formal” (LAGE, 2003, p. 38). Tais elementos do telejornalismo são apropriados pelos estereótipos para manter os padrões pré-concebidos que impõem. Ou seja, as ferramentas mais características do veículo – a imagem e o texto curto e de fácil entendimento – parecem coincidir com algumas premissas fundamentais para a eficácia da estereotipização. Neste contexto, a linguagem da TV tende a contribuir para o reforço da estereotipia. A repetição das palavras, por exemplo, coincide com uma das artimanhas utilizadas para reafirmar a consistência e longevidade do estereótipo, que é a própria repetição. O texto coloquial utilizado no veículo, que deve ser transmitido quase que em tom de conversa, pode disfarçar outra característica do estereótipo: o parecer-se natural, como se verá na seqüência.

2 ESTEREÓTIPOS O conto infantil da Cinderela relata uma situação vivida pela jovem borralheira, uma moça que sofre com as malvadezas da patroa e de suas duas filhas. Durante um baile, a pobre moça conhece um príncipe, eles se apaixonam e começam um conturbado romance. A maioria absoluta dos livros que apresentam o enredo da Cinderela atribui aos personagens as mesmas características físicas e psicológicas: a protagonista é jovem, bondosa, bonita (tem traços delicados e cabelos lisos), de pele branca, magra e inteligente – ou seja, a vítima. As antagonistas são feias, cruéis, extremamente ambiciosas e sem escrúpulos. O príncipe é belo (também tem cabelos geralmente claros e é magro), rico, veste-se bem, é de boa índole e gentil. A simples e aparentemente inocente história traz esses – só para citar alguns – elementos que, na maioria das vezes, passam despercebidos. Essa caracterização remete o leitor a associações perigosas e generalizantes, como, por exemplo: pessoa bonita é boa e pessoa feia é má. Esse é um caso típico e um dos mais comuns de ocorrência/transmissão de estereótipos. Essa atuação já se inicia na infância, quando do convívio em sociedade e se estabelece entre grupos. Ferrés conceitua: Os estereótipos são representações sociais, institucionalizadas, reiteradas e reducionistas. São representações sociais porque pressupõem uma visão compartilhada que um coletivo social4 possui sobre outro coletivo social. São reiteradas porque são criadas com base na repetição. A palavra estereótipo provém, justamente, da tecnologia utilizada para a impressão jornalística, ‘na qual o texto é escrito em um molde rígido – na impressão em offset ou de estereótipo – que 4 Em nenhum momento o autor conceitua a expressão coletivo social. Entende-se, então, por grupos sociais. A definição adotada será a seguinte: “um grupo é qualquer conjunto de pessoas em interação, que compartilham uma consciência de membros baseada em expectativas comuns de comportamento. No estudo dos grupos, os sociólogos identificaram três tipos básicos. Num primeiro tipo, o grupo é visto como sendo qualquer conjunto físico de pessoas (um agregado ou coletividade). Um segundo tipo de grupo é o constituído pelo conjunto de pessoas que têm algumas características comuns (uma categoria). O terceiro tipo de grupo é aquele formado por pessoas que compartilham alguns padrões organizados de interação” (COHEN, 1980, p. 49). Esta pesquisa considerará o segundo grupo exposto. Cohen exemplifica: “Ex: pessoas de uma mesma faixa etária, formação étnica, raça, ocupação ou sexo seriam todos membros da mesma categoria” (COHEN, 1980, p. 49).

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permite reproduzi-lo tantas vezes quanto se deseje’ (E. NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 191). O estereótipo tem, pois, muito desse molde rígido que permite a repetição. A base de rigidez e de reiteração, os estereótipos acabam parecendo naturais; seu objetivo é, na realidade, que não pareçam formas de discurso e sim formas da realidade. Finalmente, são reducionistas porque transformam uma realidade complexa em algo simples (FERRÉS, 1998, p. 135).

Os estereótipos visuais têm forte apelo representativo, ou seja, são de fácil assimilação. Neste ponto se assemelham à característica da imagem na televisão, que também tem no impacto seu ponto alto. Sousa descreve os estereótipos visuais como sendo: “(...) imagens que contribuem para associar pessoas a ideias5 simplistas e pré-concebidas sobre a idade, a nacionalidade, a etnia, a proveniência geográfica, o sexo, a orientação sexual, o estatuto económico, as deficiências físicas e mentais, etc. Essa associação algumas vezes é verdadeira, mas muitas vezes é infundada e falsa, contribuindo para a dissociação entre uma realidade e as cognições pessoais e sociais sobre essa realidade” (SOUSA, 2006). Os padrões estereotipados têm como função legitimar as ações e o comportamento de quem os criou ou de quem é subsidiado por eles. Além de algumas histórias infantis, os estereótipos estão presentes em diversas manifestações culturais e sociais, como na telenovela, na propaganda, na piada, no cinema, no jornalismo, só para citar exemplos. Por considerarem apenas um fragmento de um objeto da realidade, geralmente negativo, os estereótipos se tornam dúbios: são verdadeiros ou falsos? Este parece ser um ponto extremamente relevante para o entendimento do assunto. Para Férres, os dois... (...) são verdadeiros porque costumam basear-se em aspectos parcialmente verdadeiros, extraídos efetivamente da realidade. Sempre poderão ser encontrados na realidade vestígios que confirmem o estereótipo. Mas são falsos porque toda generalização simplificadora pressupõe uma traição a uma realidade que é, necessariamente complexa, contraditória, dual (FERRÉS, 1998, p. 136).

A redução e a seleção de elementos são características marcantes na estereotipia. Cria-se aqui uma generalizante e simplista realidade, opondo-se ao que ocorre de fato. Uma das mais comuns conseqüências desse aspecto generalizante dos estereótipos é ignorar a individualidade da pessoa, ou seja, os estereotipados são vistos como um bloco único, sem particularidades ou diferenças entre si. É o sertanejo, é o homossexual, é o negro, e assim por diante. Luciene Cecília Barbosa comenta que: “é comum o negro não ser considerado um indivíduo, e sim a representação coletiva de um grupo marcado por uma estereotipia negativa. É isso que se vivencia no mundo real e é representado na ficção” (BARBOSA, 2006). Outro exemplo é presenciado quando o estereótipo se refere à beleza física. Nestes casos, o inconsciente transfere o aspecto físico – beleza ou feiúra – ao conjunto da pessoa; (aliás, as atribuições físicas destacadas e salientes são mais facilmente atingidas pela estereotipização). É desta 5 O texto utilizado nesta citação foi retirado de um artigo escrito em português de Portugal. Sua grafia original foi mantida.

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forma que os estereótipos agem. Eles... (...) selecionam intencionalmente uma dimensão isolada da realidade (no caso dos estereótipos, normalmente negativa), polarizando a atenção do receptor sobre esta dimensão, com a intenção de que o receptor realize um processo de globalização, transferindo a parte negativa para o todo. Pretendem, então, que a dimensão negativa se transforme, para o receptor, em uma representação da realidade completa (FERRÉS, 1998, p. 136).

O objetivo da generalização é estimular o pensamento primário, instigar o envolvimento emocional do espectador e descomplicar a interpretação desse quadro complexo, que se apresenta intimidante e ameaçador – para os estereótipos. Neste contexto, o estereótipo é colocado como um defensor contra os perigos da verdadeira realidade. A ameaça, aliás, é uma das bases da estereotipia e fator fundamental sua eficácia (FERRÉS, 1998). Isso porque a intimidação, que se dá sobre as crenças, seguranças e identidades culturais, aponta a exclusão daqueles que não adotam as falácias dos estereótipos. Induzido pelo medo de “ter que assumir uma identidade minoritária” em vez de integrar-se ao coletivo social, o receptor não arrisca e aceita o padrão estereotipado (FERRÉS, 1998, p. 142). Tal atitude atua como um pressionador social e estimula o conformismo, já que o estereótipo reflete o conservadorismo do discurso dominante. Podemos supor, portanto, que se alguém se insurgir ou apresentar uma interpretação divergente dessa visão estereotipada do mundo, tal pessoa tenderá a ser considerada perigosa e perversa, podendo-se pensar, conseqüentemente, que a tolerância em relação aos outros dependerá, basicamente, de conceber os próprios códigos como constituídos por estereótipos que devem ser evitados (PEREIRA, 2002, p. 34).

A quem foge à regra estão destinados o preconceito, a discriminação e a marginalização. A ameaça e o medo impõem ao receptor que tudo permaneça inerte, contribuindo, certamente, como vias de formação e conservação de julgamentos sociais pré-concebidos (PEREIRA, 2002). “O estereótipo enquanto crença generalizada e equivocada com respeito a um grupo gera atitudes de preconceito em relação a esse grupo. Mas, ao mesmo tempo, legitima-as e potencializa-as” (FERRÉS, 1998, p. 139). Pode-se dizer que uma das raízes do preconceito esteja no estereótipo, que já na infância atua e dissemina conceitos pré-estabelecidos. Dois elementos já foram apresentados para justificar a aceitação dos estereótipos por parte dos receptores: a ameaça e o medo. Outros dois fatores, apesar de não serem os últimos, também contribuem para esse acolhimento. Primeiramente, a obviedade disfarçada dos estereótipos (PEREIRA, 2002). Para o espectador, a construção estereotipada é tão natural que não há resistência em aceitá-la. Não há questionamentos e nem incertezas. Essa receptividade é absoluta também por outro motivo: por atender às necessidades primárias do ser humano, entre elas a instigação de emoções elementares e o envolvimento sentimental. Prevalecendo-se desta certa fragilidade, o estereótipo COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 31-46| 1° Semestre 2009 | 37


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exerce, voluntária ou involuntariamente, “uma influência ideológica ou ética, legitimadora do status social, político, econômico e cultural” (FERRÉS, 1998, p. 139). Durante a infância os estereótipos começam a atuar e já existe uma tendência a simplificar e a rotular as pessoas (em dois pólos opostos e extremos). A propensão a estereotipar sobrevive à idade adulta pelo fato de haver “um esforço cognitivo no sentido de ordenar e simplificar o mundo, já que a complexidade e hetereogeneidade que o caracteriza termina por dificultar a possibilidade de representá-lo internamente” (PEREIRA, 2002, p. 36). Mas isso significa que a estereotipia não pode ser eliminada? A realidade deturpadora transmitida pelos estereótipos é inatingível? Não. É claro que existem exemplos de antigos estereótipos, que têm sua origem na história e estão enraizados na cultura (a exemplo das anedotas transmitidas ao longo dos anos). Isso, porém, não prova que o processo de estereotipagem seja imutável, apesar de ser de difícil diluição. Dois exemplos de transformações: “No início da década de 40, a maioria dos americanos concordava com o fato de que existissem espaços reservados para os negros nos ônibus e bondes. Hoje, a maioria não concorda. Em 1942, menos de um terço da população branca (e somente uma pessoa de cada 50 no sul do país) era a favor da integração racial escolar. Quarenta anos mais tarde, o apoio era de 90%” (MYERS apud FERRÉS, 1998, p. 140). As situações citadas revelam que as alterações quanto ao conteúdo do estereótipo do negro demoraram décadas para serem concretizadas. Mas aconteceram. Isso demonstra que as mudanças são resultado de um árduo e lento processo, entretanto possíveis (PEREIRA, 2002). Os estereótipos atuam em diversas vertentes, ou seja, vários são os meios que ajudam na perpetuação desses conceitos. Juntamente com o cinema, a televisão seria o meio em que a estereotipia é maior, mais evidente e forte (FERRÉS, 1998). As simplificações são utilizadas com o objetivo de que a mensagem seja compreendida pelo seu público heterogêneo e para atender às necessidades da “indústria do espetáculo, que facilita a tarefa do espectador” (FERRÉS, 1998, p. 138). Deste modo, o processo de internalização dos estereótipos permanece ativo a cada vez que o aparelho televisivo é ligado. “Independentemente do sexo, da idade e do nível de educação, aqueles que assistem muita televisão tendem a ver o mundo como mais perigoso, tendem a ser menos confiantes e superestimar a maldade” (FERRÉS, 1998, p. 140). Esse processo é maximizado em função da familiaridade que a televisão tem com seu espectador, que acaba aceitando, muitas vezes sem resistência e esforço, o conteúdo que é transmitido pelo veículo (PEREIRA, 2002). A eficácia é valorizada também pela aparência de naturalidade do estereótipo, que praticamente afasta o receptor de qualquer reflexão crítica. Pode-se dizer que a própria televisão não tem esse caráter reflexivo e não exige um grande raciocínio por parte do seu público (SQUIRRA, 1995). Paulo Francis afirma que “na televisão se representam estereótipos que o público possa logo identificar sem o menor esforço mental” (FRANCIS apud SQUIRRA, 1995, p. 36). Outra relação entre televisão, jornalismo e estereótipo é a freqüente recorrência 38 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 31-46| 1° Semestre 2009


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ao uso e apelo das emoções, sempre carregadas de significação. Esse é um dos mecanismos de socialização utilizados, juntamente com o aspecto inconsciente do processo. A simplificação do estereótipo responde às carências afetivas do telespectador (FERRÉS, 1998).

3 ANÁLISE DOS ESTEREÓTIPOS A análise empírica tem como base o conteúdo da gravação de três telejornais de veiculação nacional: Jornal da Record, SBT Brasil e Jornal Nacional. A semana selecionada compreende as edições exibidas entre os dias 17 e 22 de julho de 2006, período escolhido aleatoriamente. Ao todo, as dezoito edições apresentaram 234 reportagens, 69 notas6 cobertas, 57 notas peladas e 30 participações ao vivo dos repórteres (links). A seleção das matérias de acordo com o critério de grupo social foi apresentada a dezenove entrevistados, naturais do Paraná e residentes em Curitiba ou alguma cidade da Região Metropolitana da capital. Cada um declarou os seus próprios dados, que incluíam profissão, idade, escolaridade, renda, cidade natal, cidade de residência e cor da pele.7 Os três telejornais apresentaram matérias que correspondiam à condição exigida nesta pesquisa. Ao todo, 14 inserções compuseram a coletânea assistida pelos entrevistados que, no final da exibição do material a respeito de cada coletivo social eram orientados a declarar a primeira associação que faziam. Do Jornal Nacional foram três reportagens e uma nota pelada; do SBT Brasil foram uma nota coberta, uma coluna diária e uma matéria; por fim, o Jornal da Record foi o que mais forneceu inserções, sete no total: seis matérias e uma nota coberta.8 6 No jornalismo, nota é uma “notícia curta dada pelo apresentador, sem auxílio de matéria gravada (VT), nem entrevista ao vivo” (ROITER & TRESSE, 1995, p. 83). No telejornalismo podem ser de dois tipos: pelada – apenas o texto lido pelo âncora; e coberta – com o recurso de imagens. 7 Foram entrevistados por ordem alfabética: ADENILSON, porteiro, entre 21 e 30 anos, Ensino Médio incompleto e renda familiar mensal de até 3 salários mínimos (SM). Nasceu em Castro e declarou-se como sendo da cor branca; ANDRESSA, publicitária, entre 21 e 30 anos, Ensino Superior completo, renda mensal de 3 a 5 SM, nasceu em Curitiba, declarou ser branca; CAROLINA, estudante, entre 21 e 30 anos, cursa Ensino Superior, renda familiar mensal de 10 a 15 SM, nasceu em Curitiba, é branca; CLEVERSON, ferramenteiro, menos de 20 anos, cursa Ensino Médio, tem renda familiar de 3 a 5 SM, nasceu em Campo Largo; é branco; EDUARDO, estagiário, entre 21 e 30 anos, cursa Ensino Superior, tem renda mensal até 3 SM, nasceu em Curitiba, é branco; ELIANE, enfermeira, tem mais de 50 anos, Ensino Superior completo, renda mensal de 3 a 5 SM, natural de Curitiba, declarou-se de cor branca; KÁTIA, jornalista, entre 31 e 40 anos, Ensino Superior completo, renda de 5 a 10 SM, curitibana, declarou que sua cor é negra; LUCÉLIA, professora, entre 41 e 50 anos, renda de 3 a 5 SM, natural de Tomazina, declarou-se da cor parda; LUÍZA, estudante, menos de 20 anos, cursa Ensino Médio, possui renda familiar mensal acima de 15 SM, natural de Curitiba, é branca; MARIA, aposentada, mais de 50 anos, Ensino Superior completo e renda de 5 a 10 SM, nasceu em Curitiba, declarou-se da cor branca; MARILY, dona-de-casa, entre 41 e 50 anos, Ensino Fundamental completo, renda acima de 15 SM, nasceu em Curitiba, declarou que sua cor é morena; MIICHEL, auxiliar administrativo, menos de 20 anos, cursa Ensino Médio, renda até 3 SM, nasceu em Clevelândia, sua cor é branca; MONIQUE,estudante, menos de 20 anos, cursa Ensino Superior, renda mensal de até 3 SM, natural de Curitiba, declarou ser morena; ROSÂNGELA, servente, entre 21 e 30 anos, Ensino Fundamental incompleto, renda de até 3 SM, nasceu em Foz do Iguaçu, sua cor é morena clara; ROSELEY está desempregada, tem entre 21 e 30 anos, Ensino Médio completo, renda de até 3 SM, natural de Ubiratã e declarou-se como sendo da cor morena clara; RUI, engenheiro civil, mais de 50 anos, Ensino Superior completo e renda mensal familiar acima de 15 SM, nasceu em Curitiba, é branco; TALISSON, estudante, menos de 20 anos, cursa Ensino Fundamental, renda familiar mensal de 3 a 5 SM, nasceu em Curitiba, declarou que é da cor branca; TÂNIA, dona-de-casa, entre 41 e 50 anos, Ensino Médio completo e renda de 5 a 10 SM, natural de Curitiba, branca; WESLEY, faz manutenções em geral, tem entre 21 e 30 anos, Ensino Médio completo e renda mensal de até 3 SM, nasceu e mora em Campo Largo, declarou que é da cor morena. 8 Na pesquisa original foram trabalhados sete grupos sociais – nordestino, gaúcho, francês, chinês, população pobre, negros e mulheres bonitas. No presente artigo são exemplificados os grupos francês, mulheres bonitas e negros.

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3.1 Francês O apontamento mais comumente feito pelos entrevistados sobre o termo francês foi a proximidade com o perfume. Oito (três homens e cinco mulheres) das dezenove pessoas questionadas fornecerem esta alternativa na primeira associação. Marily adianta o conteúdo da próxima característica mais votada. Ela afirma que “francês é perfumadinho por causa do perfume, não pelo banho”. A relação com a falta de banho também foi destaque para seis entrevistados, todas mulheres. Monique confessa que nunca conheceu “um francês pra comprovar aquela questão do banho. Sei lá se é uma mentirinha que contam que todo mundo acredita, mas diz que, realmente, eles são uns fedidos que não tomam banho e perfume pra tudo quanto é lado”. Para Tânia, apesar do pouco banho que tomam, os franceses continuam a fascinar pelo quesito luxo. Rosângela, Eduardo, Andressa e Carolina têm a mesma visão. Em sua associação primária, Carolina disse que os franceses “se vestem bem, diferente de algumas pessoas daqui do Brasil, que são meio largadonas, lá não tem”. Andressa também não tem dúvidas sobre a resposta e é incisiva ao afirmar que a “elegância, com certeza”, é um ponto marcante daqueles que nascem na França. As duas entrevistadas também relacionaram os franceses a pessoas esteticamente bonitas, principalmente as mulheres. Para completar, Eduardo diz que os franceses “aparentam ser sofisticados em tudo, desde a comida até cultura”. A cultura, aliás, também foi apontada por quatro depoentes. As respostas vieram dotadas de dois sentidos: relacionado à arte e ao aspecto de possuírem cultura, ou seja, serem cultos. A partir da análise realizada, pode-se apontar que o estereótipo existente sobre francês estaria ligado à produção de bons perfumes, falta de banho, mas também a um certo porte de luxuosidade e valoração cultural. Durante a semana em que foram realizadas as gravações dos três telejornais selecionados, países do Hemisfério Norte, incluindo a França, vivenciavam um forte calor e altíssimas temperaturas. Várias reportagens foram realizadas sobre o assunto, mas em uma situação os franceses estiveram mais em evidência. Em seguida a uma matéria sobre o tema referido acima, o SBT Brasil do dia 18 de julho, exibiu uma coluna chamada SBT Brasil Clima e Meio Ambiente. Nela, o jornalista Luiz Lobo explica com detalhes certos aspectos climáticos. Logo no início da apresentação, Lobo narra o seguinte texto: Os franceses chamam este período do verão de canícula, quando temperaturas mínimas não ficam abaixo de 20 graus e as máximas ficam acima de 30 graus em certas regiões. Ventos fortes do deserto do Saara e o aquecimento global podem ser as principais causas. Amanhã, Paris registra máxima de 34 graus. Autoridades recomendam que os franceses evitem as ruas entre meio-dia e quatro da tarde e tomem até dois banhos por dia.

A última informação transmitida reforça o que foi constatado a partir das entrevistas. A estereotipização se aprofunda quando, após o término da leitura deste trecho, o jornalista dá uma risada aparentemente um pouco sarcástica, um pouco irônica

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e até mesmo desrespeitosa. Aí se constitui mais uma característica do estereótipo negativo, que é dar bases para a formação do preconceito e excluir socialmente aquele que é diferente. Em outra reportagem, apresentada pelo Jornal da Record no mesmo dia, os franceses também são representados, desta vez, interligados com a idéia de luxo e apreço cultural. A matéria do repórter Lúcio Sturm retrata a relação do paulistano com as padarias da cidade e o hábito crescente de freqüentar o local para as mais variadas situações. Agora, conta a matéria, algumas padarias oferecem desde o tradicional pão quentinho até opções variadas de almoço e doces. Um dos locais visitados pela reportagem também inovou e trouxe um padeiro francês especialmente para produzir especiarias do seu país de origem. O off afirma que “o ambiente nas megapadarias é sempre refinado. Algumas lembram a São Paulo de antigamente. Outras parecem empórios franceses com doces de dar água na boca. Esta importou um padeiro. Jean Jacques trouxe os sabores de Paris para São Paulo”. Então, tende-se a pensar na possibilidade de reforço do estereótipo acima descrito.

3.2 Negros Dos dezenove entrevistados, apenas Kátia9 declarou ser da cor negra. Outros três optaram pela caracterização pele morena, dois por morena-clara e um por cor parda. Kátia apontou como primeiro pensamento sobre a expressão negro a falta de oportunidade. Para ela, é normal e comum ter uma reação de estranhamento quando se vê “um negro, por exemplo, no sinaleiro com um carro bom”. Ao contrário, se o dono do carro fosse uma pessoa branca, a reação seria de normalidade. Outra associação, de acordo com Kátia, é em relação às cotas por critério de cor nas universidades. Ela é contra. “Isso só aumenta o racismo. Daí você pensa ‘será que ele tá aqui porque realmente sabia ou por causa da cota?’ As pessoas olham e marginalizam o cotista.” Seis outras pessoas tiveram a mesma associação, todas contra as cotas para negros. Outra relação comum esteve associada à questão do preconceito, do racismo e da discriminação. Dez das dezenove pessoas fizeram esta alusão. Para Rosângela, ao contrário do que “muita gente pensa e diz, o brasileiro é racista”. Tânia conta que já viu casos em que uma pessoa branca não queria sentar perto de um negro porque “soltava a cor”. Talisson diz que “tem gente que pega na mão [de um negro] e depois limpa”. Três pessoas associaram os negros à escravidão. Lucélia acredita que a cultura africana, tão presente entre os brasileiros, foi trazida principalmente pelos escravos. Luíza parece não gostar da própria resposta: “Lembro de escravo, não deveria, mas...”. Por fim, três pessoas associaram o grupo em questão à situação de pobreza10, inclusive Kátia. Eliane imediatamente diz: “Negro lembra logo pobreza, né? São os marginalizados”. Eduardo é ainda mais específico: “Falando em negro você imagina 9 Como Kátia foi a única a se declarar como negra, ela não foi desconsiderada desta análise. Isso porque apenas um indivíduo não pode ser admitido como um grupo constituído. 10 Quando o questionamento aos entrevistados foi em relação aos negros, três deles relacionaram o grupo social à condição social. Porém, quando a pergunta teve como foco a pobreza, nenhum dos entrevistados citou a população negra.

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pobre ou jogador de futebol. As famílias negras que são ricas ainda são minoria. Então, é difícil de você associar negros com coisas diferentes do que carnaval, futebol e pobreza”. Desta forma, o estereótipo em relação às pessoas negras é exclusivamente negativo. Não houve apontamentos positivos relevantes por parte de nenhum dos entrevistados. Apenas uma reportagem, exibida no dia 22 de julho pelo Jornal Nacional, deu ênfase significativa aos negros. A matéria em questão é sobre o desconhecimento da população a respeito do Estatuto da Igualdade Racial, criado pelo senador Paulo Paim. O projeto prevê a criação de cotas para negros em segmentos da sociedade. A principal discussão gira em torno das cotas raciais e sociais, incluindo o caso dos negros. Durante a reportagem de aproximadamente quatro minutos, temas como preconceito, racismo e discriminação são associados à população negra. Neste caso, não que a matéria tenha sido preconceituosa. O estereótipo é reforçado pelo fato de ser constante a veiculação das mesmas associações (cotas, racismo) com os negros. A matéria não apresenta estereótipos visuais, já que é basicamente composta por gráficos. Apenas no início da reportagem, durante quatro segundos, são focalizadas pessoas negras.

3.3 Mulheres bonitas O aspecto mais citado pelos entrevistados quando questionados sobre o que seria uma mulher bonita foi relacionado a atributos físicos. Dez das dezenove pessoas citaram as palavras rosto ou corpo durante a fala. Porém, ao contrário das análises anteriores, houve dificuldade por parte dos entrevistados em fornecer definições mais precisas. Respostas como a de Talisson, que disse que uma mulher bonita precisa “ter um rosto bonito e um cabelo bonito”, foram comuns. Contudo, quando perguntados sobre o que exatamente seria esse bonito, poucos conseguiam explicar. Rui é um deles. Para ele, a beleza é “aquilo que faz bem para os olhos, visualmente falando”. A explicação para a falta de exatidão pode estar no fato de que a beleza é considerada subjetiva. “Às vezes é bonito pra mim, mas não é bonito pra outras pessoas”, diz Lucélia. Cinco pessoas admitiram que existe um padrão de beleza imposto socialmente às mulheres. Neste contexto, a beleza feminina seria destinada àquelas que atendessem a determinadas características físicas, principalmente a magreza e a alta estatura presentes em modelos de passarela. Entretanto, apesar de reconhecerem este modelo estético, seis entrevistados discordam de tal molde físico e não consideram isto como belo. Além de Tânia, Eliane e Monique têm a mesma opinião. Esta última afirmou que “a definição que todos têm de mulher bonita, que é a modelo, magra, esquelética, alta, pra mim não é beleza”. Igualmente, Roseley, Maria e Andressa confirmam que o padrão de mulher bonita é o da alta e magra, porém acreditam que a beleza também se configura por meio de qualidades de personalidade. “Hoje em dia, tão falando mais de estética, né? Magra, alta, boca carnuda. Eu acho que a mulher tem que se sentir bem do jeito que ela é, não precisa ficar correndo atrás de clínicas pra modelar seu corpo”, conclui Roseley. 42 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 31-46| 1° Semestre 2009


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Mais cinco pessoas, sendo quatro mulheres, consideram que uma mulher bonita é aquela que se aceita como é ou que possui a chamada beleza interior. Apenas um homem, Adenilson, se aproximou deste conceito. Ele diz que existem várias maneiras de definir se uma mulher é bonita ou não: “o corpo, o jeito que se veste, o estilo, o jeito que ela conversa, te trata. Não adianta ser bonita e não tratar as pessoas bem, a boniteza fica de lado”, afirma o porteiro. Mesmo assim, o quesito corpo não foi descartado de sua fala. Já para Marily, “beleza feminina é você se aceitar, tá bem. A hora que a pessoa se aceita ela é bela”. A referência de belo para Rosângela é a atriz norte-americana Angelina Jolie, que além de ser bonita “é simpática e bem humana”. A atriz foi citada por mais dois depoentes, entre eles Eduardo, o único que considera o padrão das modelos de passarela como belo. A partir das respostas fornecidas, pôde-se notar que os entrevistados consideram que o padrão social de beleza são as mulheres altas e magras, embora a maioria absoluta não concorde com essa imposição estética. Além disso, as qualidades nãofísicas também foram analisadas para a classificação da mulher bonita. Durante a semana coletada, o Jornal da Record apresentou uma série de reportagens sobre a beleza no Brasil. Para analisar o estereótipo em questão, duas matérias serão consideradas. A primeira foi veiculada no dia 17 de julho, data de estréia da série. A reportagem introduz o assunto de forma geral e aborda superficialmente temas como a busca pela beleza em academias e clínicas e os profissionais da medicina estética. Vários elementos presentes na reportagem valorizam uma beleza comprada, não natural, adquirida por meio de tratamentos e intervenções cirúrgicas. Isso contradiz um dos itens expostos pelos entrevistados, que acreditam que o belo está no interior da pessoa e que cada um precisa gostar de si do jeito que é. O texto da cabeça de VT é um exemplo. Os apresentadores dizem: “Quando o poeta Vinicius de Moraes se desculpou com as feias, ele nem imaginava que a beleza se tornaria tão fundamental no Brasil. Nós estamos no inverno, época que as pessoas começam a se preparar para o verão. É, e hoje todo mundo quer melhorar alguma parte do corpo”. Esta última frase faz uma generalização e instiga a não-aceitação de imperfeições físicas. Outro exemplo é a vinheta de abertura. A imagem escolhida para representar a série é composta por um suposto pote de creme que, inicialmente tem um código de barras em primeiro plano e em seguida exibe a frase “o preço da beleza” no rótulo. Na seqüência, ao som de uma música agitada, a repórter Cleisla Garcia fala o seguinte texto: “Altas, magras. Beleza nacional tipo exportação. O que elas exibem nas passarelas do mundo todo, nos salões de beleza, clínicas e academias, outras brasileiras perseguem”. Durante 25 segundos, as imagens utilizadas são de modelos desfilando em passarelas. Nos sete segundos restantes de off (de “nos salões” até “perseguem”), as imagens mostram mulheres se exercitando em aparelhos aparentemente pesados de uma academia. Juntando esses dois elementos (imagem e texto), a impressão que a reportagem transmite é que as pessoas comuns precisam delinear o corpo em academias para conseguir alcançar a beleza das modelos apresentadas. Desta forma, segue a estereotipização de que mulher alta e magra é bela e que aquelas que não se enquadram neste perfil, precisam buscá-lo.

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Em um momento o conteúdo da reportagem corrobora com a questão da aceitação apresentada pelos entrevistados. Primeiramente, a administradora Bárbara Vicentin comenta: “Até em visita, em qualquer lugar que você vai se você tá bonita com você, se você se sente bem, você passa isso para os outros”. Porém, o off seguinte à sonora diz que: “Ela não perde uma novidade. E são muitas. De sessões que prometem deixar a pele ainda mais bonita e iluminada a tratamentos para emagrecer, para perder aqueles pequenos e tão importantes centímetros no quadril, na cintura”. Novamente, o texto exposto faz referência a características físicas e remete à idéia de que é necessário se integrar ao padrão estético definido. Durante nove segundos, as imagens repetem o foco: exercícios na academia de ginástica. A outra matéria utilizada nesta análise foi veiculada no dia 20 de julho. Aqui, a tendência ao reforço pela busca por determinado padrão estético permanece, bem como a não aceitação de incorreções visuais. Já na cabeça de VT, as palavras incitam as transformações na aparência: “Uma multidão que não se importa com o preço pra se sentir mais bela”. Outro exemplo é apresentado no trecho “para alcançar pequenas mudanças ou grandes transformações, realizar vontades antigas que a genética não proporcionou, a cirurgia plástica é o recurso mais procurado”. Nesta reportagem, é marcante a presença de imagens que representam o estereótipo trabalhado. Logo no início, durante dez segundos, pinturas de mulheres feitas por Leonardo da Vinci acompanham o off: “Harmonia de traços, como defendia um dos maiores nomes da pintura de todos os tempos: Leonardo da Vinci”. Em seguida, o texto “contornos exóticos que impressionam por tamanha exuberância” é coberto com imagens de Angelina Jolie, atriz citada por três entrevistados. Na continuação, mais nove segundos de cenas que mostram uma modelo desfilando na passarela. Enquanto isso, off questiona: “Altura, peso, centímetros no busto, no quadril. Afinal, como se mede a beleza?” Para esta pergunta, as respostas fornecidas na reportagem podem ser separadas em: atributos físicos e atributos não-físicos. As respostas “um metro e setenta, mais ou menos” e “morena, assim da hora” fazem parte do primeiro grupo e foram fornecidas por dois homens. Já a resposta “fisicamente? Primeiro ela tem que se sentir bonita, tem que se gostar” compreende a segunda divisão e foi gerada por uma mulher. Isto coincide com as respostas dos 19 entrevistados, em que praticamente só mulheres caracterizaram a beleza com apontamentos não-físicos. Nos dezessete segundos finais da matéria, outra seqüência de imagens reforça o estereótipo. Seis artistas famosas compõem esse trecho, entre elas, novamente, a atriz Angelina Jolie. Todas as personagens são magras e aparentemente não têm uma estatura baixa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS As respostas concedidas pelos 19 entrevistados, juntamente com o conteúdo das reportagens analisadas, comprovam que o telejornalismo contribui para que estereótipos já existentes na sociedade sejam reforçados. Para isso, o gênero jornalístico utiliza-se de expressões generalizantes e presentes no senso comum, e tem o hábito de 44 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p. 31-46| 1° Semestre 2009


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apresentar determinados grupos sociais a partir de um mesmo enfoque. Tal conduta favorece a consolidação dos estereótipos, já que a repetição é uma das maneiras pelas quais esses padrões se constituem enraizados no meio social. Outra comprovação está representada nas respostas da última pergunta realizada aos depoentes: “Você acredita que as reportagens reforçaram essas impressões que você já possuía?” Todos responderam que sim, que houve um reforço e o que eles assistiram não mostrou uma visão realmente distinta da original. Apenas o estereótipo da beleza feminina foi reforçado parcialmente. Houve a confirmação do que os entrevistados indicaram como o padrão estético da mulher bonita existente na sociedade (alta e magra). Porém, muitos deles discordam desse modelo e valorizam outros atributos, que foram apresentados de maneira superficial pelas reportagens. Como já mencionado anteriormente, os assuntos e a forma como os grupos sociais foram apresentados nos telejornais corroboraram em muitos aspectos com as respostas dos receptores, que eram produzidas de forma imediata e praticamente sem reflexão. Isso poderia indicar que o veículo mais presente e importante no cotidiano dos brasileiros transmite algumas informações com base exclusivamente em preceitos, muitas vezes, infundados. A tendência a estereotipização no telejornalismo acontece principalmente quando grupos étnicos, sobretudo com especificações regionais ou de nacionalidade, estão envolvidos. Em grande parte das situações os grupos receberam estereótipos negativos, tanto nas respostas dos entrevistados como nas reportagens veiculadas nos telejornais. Por fim, foi reafirmada a necessidade de novas reflexões e estudos sobre o tema, objetivando evitar que o telejornalismo contribua para a disseminação de idéias simplistas, base do preconceito e discriminação.

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EXEMPLOS DE ESTEREÓTIPOS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO

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O OUTRO LADO DA ENTREVISTA: SINAIS E VERDADES QUE O JORNALISTA NÃO VÊ Marianne Cabral Baggio1 Rosângela Stringari2

RESUMO A proposta deste trabalho é estimular a reflexão sobre a necessidade de aprimoramento do método de entrevistar, baseado em ciências do comportamento humano, como a Psicanálise, a Psicologia Comportamental e as teorias de expressão corporal. A escolha destas vertentes se deu pela estrita ligação que as mesmas mantêm com a comunicação. Quando alcança melhores resultados na entrevista, o jornalista capta informações mais precisas e aprofundadas e pode cumprir seu papel de informar com qualidade. Palavras-chave: jornalismo, entrevista, psicanálise, psicologia comportamental, expressão corporal.

ABSTRACT The purpose of this study is to generate a discussion about the need to improve methods of interviewing, based on the science of human behavior like psychoanalysis, psychological behavior and the theories of corporal expression. The choice of these topics was due to the strong relationship they have with communication. When better results are achieved in an interview, the journalist gathers in-depth and more accurate information, and can that way perform the role of informing the public with quality. Keywords: journalism, interview, psychoanalysis, psychological behavior, corporal expression.

1 Possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Positivo. 2 Possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (1979) e mestrado em MPhil Communication Studies - University Of Malta (1998). Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornnalismo, atuando principalmente nos seguintes temas: assessor de imprensa; televisão; impresso especializado; rádio; comunicação e movimentos sociais; pesquisa em comunicação.


O OUTRO LADO DA ENTREVISTA: SINAIS E VERDADES QUE O JORNALISTA NÃO VÊ

A carência de reflexões sobre entrevista jornalística e o método de entrevistar em material bibliográfico que ampare a atitude, percepção e escolha do repórter foi a força motriz deste estudo. Discute-se, como premissa, que a qualidade da entrevista fica comprometida com a falta de percepção e de conhecimento do jornalista sobre o comportamento humano. O desafio é contribuir para uma nova visão de fazer uma entrevista analisando e mostrando os seus outros lados: são os sinais inconscientes e transmitidos por movimentos do corpo, dos gestos, da aparência, do tom de voz e da pronúncia das palavras. Ao perceber a entrevista como instrumento basilar para o jornalista, ou a matériaprima com a qual ele trabalha, torna-se vital aprofundar o estudo de sua execução apoiado em referenciais de ciências do comportamento humano. Para tanto, o estudo encontra eco em Cremilda Medina, que reconhece o valor de práticas, como a Psicanálise e Psicologia no Jornalismo. Não se está pensando aqui em segunda graduação, mas em ampliação de conhecimento. Mas seria possível se apropriar dessas ciências sem conhecimento profundo? Sigmund Freud acreditava que sim e em entrevista publicada, em 1957, no “Journal of Psychology”, defendeu a prática da psicanálise por leigos. Quanto à linguagem corporal, outra vertente deste trabalho, Allan e Bárbara Pease (2005) reputam que a atenção excessiva às palavras prejudicou a informação sobre a linguagem corporal. A entrevista é o cerne do jornalismo, é o próprio jornalismo por excelência e, como observa Annett Garrett3 (1991), em “A entrevista seus princípios e métodos”, todas as pessoas de uma maneira ou de outra estão em contato com a entrevista, ora entrevistando ora sendo entrevistadas. No olhar de Érico Sampaio Firmo (2004), a entrevista “configura-se como atividade conversacional, que, por sua vez, é a mais cotidiana das práticas comunicacionais humanas”. Alguns indivíduos, no entanto, utilizam mais a entrevista que outros, ou têm a entrevista como componente essencial na atividade que exercem. O jornalista, pela sua função, é um desses indivíduos. Ele é um entrevistador profissional.

ENTREVISTA: INSTRUMENTO PROFISSIONAL Entrevistar, portanto, é uma prática situada nos alicerces do jornalismo que, segundo José Benítez, citado no “Manual de la entrevista periodística” de Juan Cantavella (1996), representa metaforicamente as células do corpo chamado jornalismo. Cremilda Medina (2001), em “Entrevista o diálogo possível”, elege a entrevista como uma interação e assume a imagem de que a mesma deve estabelecer um diálogo, numa troca, na qual os envolvidos – fonte de informação, repórter e receptor – interagem, se modificam, se revelam e crescem no conhecimento do mundo e de si próprios. Dentro da proposta de humanização do relato a que Medina (2001) se refere, 3 O livro é dedicado à assistência social, no entanto, no prefácio, a editora explica que o trabalho foi feito “para uso tanto de assistentes sociais como de entrevistadores de outras organizações” (GARRETT, 1991, p. 10). 48 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.47-64| 1° Semestre 2009


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ajusta-se a concepção da jornalista Rosi Guilhen4, também adepta do diálogo possível. Para Guilhen, o repórter peca ao chegar para a entrevista “com aspas prontas”, isto é, com a matéria estruturada, em busca das respostas para inserir entre as aspas. Guilhen (2006) explica que o diferencial está em ouvir o entrevistado, sem pré-conceitos. Este emprego do diálogo, proposto por Medina, também é defendido por Alberto Dines (apud CRIPA, 1998) em um processo que ele chama de “parto da verdade”. Dines esclarece que o diálogo, a partir de Platão e Sócrates, é a busca pela verdade em um processo maiêutico5, ou seja, por meio de perguntas mostra ao interlocutor as verdades do objeto observado. Ressalte-se que dessa busca pela verdade devem participar dois ou mais integrantes, porque é nessa troca que se encontra uma verdade menos precária. Medina (2001) adverte que, quando a entrevista jornalística não se aproxima de um diálogo interativo (processo maiêutico a que se refere Dines) no momento em que dois dos envolvidos ─ fonte de informação e repórter ─ não se interligam em uma única vivência, o terceiro do elo ─ o receptor ─ percebe a falta de interação e de qualidade. Ora, se a entrevista é um diálogo, ela deve então ser mais do que a simples obtenção de respostas por perguntas pré-pautadas, ela deve ser tratada como um braço da comunicação humana. A entrevista pode ser apenas uma eficaz técnica para obter respostas prépautadas por um questionário. Mas certamente não será um braço da comunicação humana, se encarada como uma simples técnica. Esta – fria nas relações entrevistado – entrevistador – não atinge os limites possíveis da interrelação, ou, em outras palavras, do diálogo. Se quisermos aplacar a consciência profissional do jornalista, discuta-se a técnica da entrevista; se quisermos trabalhar pela comunicação humana, proponha-se o diálogo (MEDINA, 2001, p. 5).

Mas, para alcançarmos esta nova condição, a da comunicação humana, no pensamento de Medina, há patamares a serem perseguidos. Sendo a entrevista uma atividade essencial, na qual o básico é perguntar, o diferencial é o tratamento dado a este processo de procura da informação. É o que Garrett (1991, p. 16) chama de “a arte da entrevista”: “para alguns, entrevistar constitui uma arte e quase mesmo uma ciência, da qual podem eles formular e organizar, dentro de um corpo sistematizado de conhecimentos, pelo menos alguns princípios básicos”.

PERSPECTIVA: ENTENDER OS SINAIS A entrevista deveria ser tratada como fator primordial na sobrevivência de quem 4 Para engrossar a análise deste estudo foram realizadas entrevistas com quatro jornalistas de expressão na imprensa paranaense. São eles Rosi Guilhen, Mauri König, Albari Rosa e Vania Welte. O objetivo inicial era coletar dados locais que reforçassem o embasamento teórico, uma vez que se observou uma lacuna bibliográfica que tratasse a entrevista de forma mais aprofundada. 5 Maiêutica, segundo o dicionário Aurélio (2004, p.1251), é o “processo dialético e pedagógico socrático, em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em questão”.

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tem por função informar a sociedade, e estudada cientificamente sob a perspectiva das ciências do comportamento humano. O jornalista, como profissional em contato direto com indivíduos, deveria se especializar em pessoas, entender os sinais conscientes e inconscientes do entrevistado e aprender sobre seu próprio corpo para comunicar-se também através dele. Alexandre Garcia confia nessa teoria. Ao relatar sua experiência como repórter a Carlos Tramontina (1996, p. 22), ele revela que o jornalista “deve conhecer um pouco do perfil psicológico de seu entrevistado e ir dosando as coisas (...) só assim é possível decidir o ritmo de uma entrevista”. Outros autores também aprovam a sistematização da entrevista no domínio da psicologia. Um deles é Annett Garrett (1991). A autora é firme quando profere que somente a prática do entrevistador é insuficiente para o aperfeiçoamento da entrevista. “A habilidade pode ser desenvolvida, no seu mais alto grau, somente quando a prática é acompanhada pelo conhecimento do que seja entrevistar e pelo estudo consciente da nossa própria prática” (p. 17-18). Em outras palavras, seguindo o raciocínio de Garrett, a prática continuada, sem reflexão, não traz nenhuma condição de melhora e, sim, a perpetuação do erro decorrente de atitude viciada na origem. Medina (2001) contribui para a discussão afirmando que “os fundamentos psicanalíticos da relação paciente-terapeuta dão sólidos alicerces para o debate teórico sobre o encaminhamento da entrevista. A Psicologia Social, segundo os autores dessa área (...) reúne bibliografia extensa sobre a técnica de entrevista” (p. 8-9). Por ter convicção de que a postura do jornalista interfere no resultado da entrevista, Medina recomenda ao repórter investir no conhecimento da própria personalidade para, no diálogo, saber atuar em uma inter-relação criadora.

PRODUÇÃO: MAIS AGILIDADE, MENOS QUALIDADE No artigo “Crise nos paradigmas do jornalismo”, Luiz Gonzaga Motta (2002) reflete sobre a condição do jornalismo atual. Ele repensa os paradigmas do jornalismo e a própria profissão em si e, criticando as mudanças na produção da notícia, propõe o termo “metamorfose profissional” – um ajuste às novas circunstâncias industriais da produção cultural – e diz que o jornalismo rápido, ligeiro e sem aprofundamento só reforçou o compromisso profissional com o empirismo. Em parte, a transformação mercadológica do jornalismo, a instantaneidade e a falta de tempo nas redações é que leva a entrevista a uma prática empírica, ou seja, baseada apenas na experiência e não no estudo, exatamente o contrário do que é proposto por Garrett (1991), Garcia (apud Tramontina, 1996) e Medina (2001). Motta (2002) discorre ainda sobre a evolução tecnológica dos meios de comunicação, da produção nas redações e da linguagem jornalística, que levam a notícia a um produto superabundante, barato e instantâneo. Nilson Lage (2004), em “A reportagem”, concorda com Motta quanto à evolução tecnológica quando dispara que desde a invenção do telefone, com a possibilidade da realização de entrevistas à distância, o resultado não é mais o mesmo. O uso do telefone “suprime algumas condições facilitadoras da entrevista, tais como o ambiente e a presença do outro” (LAGE, 2004, p. 78). A mesma condição é válida também para outras tecnologias, 50 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.47-64| 1° Semestre 2009


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como os recursos da internet. No entanto, há de se fazer parênteses e admitir certos benefícios e facilidades da transformação mercadológica do jornalismo. O próprio telefone, para citar o mesmo exemplo, ele agiliza o trabalho do jornalista poupando tempo e deslocamentos, mas, como comentado, enfraquece a qualidade da entrevista. Desde essa transformação mercadológica, a função e característica do jornalismo foram modificadas. A rapidez da informação perdeu a contextualização e o aprofundamento. Esses mesmos novos meios de comunicação, novos contextos de produção e novas linguagens estão alterando o fazer jornalístico. Hoje, ganhase em agilidade, mas se perde em qualidade. O jornalismo online é sintetizado, os jornais impressos aderiram ao design didático, mas são superficiais, e o jornalismo televisivo e o radiofônico reforçam o compromisso profissional com o empirismo e não elucidam o que mostram. Além disso, as empresas da indústria cultural do Brasil investem pouco no seu profissional. Medina (2001) afirma que o investimento sempre foi maior na modernização tecnológica do que no aperfeiçoamento e qualificação dos quadros humanos de produção. Afirma ainda que o próprio profissional da informação não investe no seu crescimento e que tampouco a universidade tem capacitado seus novos profissionais adequadamente. O profissional médio, sem estímulos na rotina desgastante da sobrevivência, não investe, por conta própria, no crescimento e na amplitude de repertório (...) Os poucos cursos de extensão e aperfeiçoamento são freqüentados, em geral, por uma clientela que não a que está à frente dos processos de decisão. Estes, os editores, chefes de reportagem, repórteres especiais, permanecem preocupados com o imediato desempenho, satisfazendo as exigências dos próprios empregos. Não são sensíveis à discussão crítica sobre a própria profissão (MEDINA, 2001, p. 24).

Nessa mesma linha o jornalista Alberto Dines (1998) explica que, a partir do momento em que o jornalismo voltar a ser uma atividade humanística, a sistemática das redações e conseqüentemente a entrevista serão mudadas. No entanto, Sylvia Moretzsohn (2000), na dissertação de mestrado “A velocidade como fetiche – O discurso jornalístico na era do tempo real”, reduz a possibilidade de uma mudança na imprensa. Moretzsohn afirma que a imprensa, afundada no mercado da concorrência, está presa à necessidade de veicular notícia em primeira mão. A autora chama isto de um processo irracional da produção da notícia, na qual a qualidade não é a de conteúdo, mas a de rapidez na transmissão da informação.

BIBLIOGRAFIA: DIMENSÃO NEGLIGENCIADA O campo bibliográfico é outro fator para o não-aperfeiçoamento da entrevista. De acordo com o jornalista Érico Sampaio Firmo (2004), a entrevista jornalística permanece, em certa medida, uma dimensão negligenciada. “Durante muito tempo, os estudos sobre a entrevista no campo do pensamento sobre o jornalismo priorizaram o

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como fazer, a dimensão técnica, voltada para construir um guia de ação para jornalistas e também para fontes em potencial”, argumenta exaltando a necessidade de superação do tecnicismo. Na realidade brasileira há uma lacuna de livros que se especializem e que constituam um saber científico neste fundamento do jornalismo. Os trabalhos que citam o tema, em capítulos, dão apenas algum parecer do autor sobre como fazer uma entrevista. A maioria deles, inclusive, tem conteúdos repetitivos e sem inovação. Isto é visível, por exemplo, no “Manual de Redação da Folha de S. Paulo” (2001), um dos jornais mais expressivos do Brasil. A Folha propõe recomendações básicas como: o agendamento, que o jornalista informe ao entrevistado o tema e a duração da entrevista; que anote e grave o conteúdo da mesma; que se vista de maneira adequada ao ambiente; que faça perguntas breves e diretas; que identifique contradições nas respostas; que aborde temas sensíveis e que registre recusas. As informações são rápidas, em forma de tópicos e sem explicação. Adiante, o Manual discorre sobre a influência do gravador e da ocorrência de lapsos do entrevistado, sem detalhamentos. O “Manual de Redação do O Estado de S. Paulo” (MARTINS, 1997), diário de circulação nacional, peca ainda mais quando se limita a indicações gramaticais. Reconhece a importância da entrevista e ressalta que ela “constitui uma das principais fontes de informação de um jornal e está, direta ou veladamente, na maioria das notícias que ele publica” (p. 108). Porém, na seqüência, apresenta 18 conselhos triviais para a realização de uma entrevista. A maioria, inclusive, com o objetivo de nortear a redação de texto que o jornalista, empregado do jornal, vai publicar no “Estadão”. Jöelle Rouchou (2003), em “Ouvir o Outro”, evidencia sua dificuldade em encontrar obras teóricas sobre a entrevista e explicita a importância do jornalismo como documento histórico. Rouchou garante que o repórter entrevista empiricamente por falta de teoria. “Uma das dificuldades como professora de prática de jornalismo na UniverCidade6 é a de encontrar opções de teoria da entrevista. Claro que há um extensa lista de obras que estampam as melhores entrevistas, mas a reflexão sobre o tema, sua função ética ainda está em fase embrionária”, justifica. Para os jornalistas Mauri König e Albari Rosa, repórteres da Gazeta do Povo, é a experiência profissional que desenvolve a técnica, dessa forma a fundamentação acadêmica auxilia, mas tem pouco valor. No entanto, em outro ponto da entrevista, König reconhece a importância do estudo da Psicologia e a Filosofia. Acho que as duas disciplinas são fundamentais (...) Filosofia pra te dar um campo mais amplo de entendimento, de formação crítica mesmo, de pensar. (...) E a psicologia, justamente pra quem trabalha na área de comunicação, pra você tentar entender o outro. Principalmente quando você depende do outro pra conseguir o teu material de trabalho que é a informação. (...) Por isso sim, é importante, sem dúvida nenhuma, você saber da psicologia (KÖNIG, 2006).

Medina (2001) menospreza a experiência profissional e defende firmemente a 6 UniverCidade (Centro Universitário da Cidade): instituição de ensino superior localizada no Rio de Janeiro – RJ.

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necessidade de um aprofundamento teórico do repórter. A autora afirma que os críticos do jornalismo contestam o agir impulsivo do jornalista e o aprendizado na base do faro e do “clima da redação”. Estamos, no Brasil, em um patamar de artífices pouco conscientes de suas próprias possibilidades. Atropelamos, pelo faro, pelo jogo de cintura, pelas agilidades inatas ou pseudo-inatas, a etapa de acúmulo de conhecimentos. Há até um certo preconceito quanto à teorização, como se esse campo específico não estivesse submetido às mesmas características da reflexão sobre o fazer. Portanto, se o entrevistador das Ciências Sociais é preparado, o repórter também deveria ser. Embora empreguem ferramentas de trabalho ligeiramente distintas, ambos têm de investir no aprendizado (MEDINA, 2001, p. 20).

Se há um excesso de tecnicismo nos manuais e obras que dissertam sobre a entrevista, e na própria prática da profissão, segundo Medina, seria necessária uma reflexão sobre a problemática da entrevista e um investimento no aprendizado. Então, por que não aperfeiçoar a entrevista jornalística valendo-se de estudos, como a Psicanálise, a Psicologia Comportamental e as teorias de expressão corporal, já que essas ciências nasceram na tentativa de entender a mente e o comportamento humano?

NOVAS INFORMAÇÕES: COMPORTAMENTO E EXPRESSÃO CORPORAL João Bosco Lodi (1971), no livro “A entrevista teoria e prática”7, defende esta teoria. Na concepção do autor a entrevista é abordada em quatro estágios, nos quais a comunicação pode ser interrompida e distorcida. Estes estágios são explicitados no seguinte processo: complexo de dados, situações, problemas, sentimentos e desejos, que por meio de um sistema de codificação são transformados em mensagens – transmitidas através das palavras, dos gestos e das pausas de silêncio – e por fim manifestadas por meio de outro sistema de codificação, isto é, traduzidas em significados. É neste processo de troca de mensagens, que Lodi chama de frágil e que é a entrevista, que ele acredita na eficácia dos estudos de Freud e dos teóricos da Psicodinâmica. O autor assegura que “o comportamento do entrevistado será melhor compreendido quando se separa teoricamente o lado racional e o lado emocional” (LODI, 1971, p.35). Lodi explica ainda que o comportamento humano é o resultado de muitas forças que interagindo e conflitando entre si exercem pressões sobre o indivíduo. Explanando a base psicológica da entrevista, o autor indica três fatores que podem dificultar a comunicação interpessoal, agindo como barreiras comunicacionais. São eles: a falta de motivação, a linguagem e a incapacidade de se comunicar devido a forças emocionais. A falta de motivação está relacionada à postura e ao estímulo dado pelo entrevistador ao entrevistado (a tendência ao julgamento daquilo que o entrevistado comunica também interfere ou inibe a comunicação). Quanto à linguagem, a teoria do 7 Apesar de referir-se à entrevista administrativa, a de seleção de candidatos, seu livro contém instruções que também podem ser aplicadas no jornalismo, uma vez que, apesar de terem objetivos diferentes, o encaminhamento desses dois estilos de entrevista é similar.

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autor indica que as diferenças lingüísticas e a falta de conhecimento de vocabulários constituem um fator dificultoso da entrevista. Já as forças emocionais estão ligadas aos mecanismos de defesa. Os mecanismos de defesa do indivíduo, maneiras como o “eu” – a mais importante estrutura do campo psicológico – reduz a tensão das forças interiores, protegem o indivíduo contra revelações indesejáveis e filtram a comunicação, só o deixando ouvir e ver aquilo que lhe interessa. Essas defesas mobilizadas pelo entrevistado, de acordo com Lodi (1971), ameaçam a veracidade da entrevista: “agindo sob o efeito desses mecanismos de defesa, a memória tende a modificar, mudar ou distorcer as situações passadas procurando torná-las mais confortáveis ou funcionais” (p. 38). O autor aponta o afastamento (retirada de uma situação de tensão), a agressão (tentativa de hostilizar o obstáculo gerador de tensão), a racionalização (busca de justificativas), a projeção (transferência de características) e a repressão (rebaixamento da tensão ao nível do inconsciente) como alguns dos mecanismos de defesa. O que Érico Sampaio Firmo (2004), no artigo eletrônico “Jornalismo e Política: Entrevista como Prática Paranóica” nomeou de “face” – um desejo em ambas as partes, entrevistador e entrevistado, de construir “uma imagem favorável de si próprio” acompanha o mesmo pensamento de Lodi. No entanto, Firmo alerta para o confronto da auto-idealização perante outros: “na busca por ressaltar ou tentar construir uma imagem ideal sobre si, o indivíduo, por certo, terá que ocultar tudo aquilo que, presente em seu comportamento, contrapõe-se a essa imagem de perfeição”. Sobre esse confronto, Lodi (1971) conclui que a entrevista só pode ser feita quando o ambiente criado for favorável, cordial e com a sinceridade do entrevistador, que resultam da confiança do entrevistado. O conceito remete ao “diálogo possível” de Cremilda Medina. Quanto à postura do entrevistador, Lodi também previne que o preconceito – elemento que ele qualifica de inconsciente, reflexo e não-desejado – e a formação ideológica podem variar o resultado de uma entrevista. O autor reafirma a confiança como elemento fundamental na entrevista: Um comunicador que não confia na pessoa com quem está falando tende a esconder suas próprias atitudes, o resultado é que o recebedor da comunicação não percebe adequadamente o material comunicado. A falta de confiança do entrevistado tem efeitos importantes sobre a relação da entrevista. Para isso considera-se importante o grau de empatia dos dois participantes (LODI, 1971, p. 70).

Já do ponto de vista da psicanálise a entrevista é, segundo Harry Sullivan (1954), citado por Lodi (1971, p. 48), “o encontro de duas pessoas, o expert e um cliente, que esperam derivar algum benefício da discussão. O estudo da entrevista é a observação do que acontece com elas”. Sullivan alerta para a distorção paratáxica, um processo no qual o entrevistado dirige-se a uma figura imaginária que ele associa à figura do entrevistador. Dentro desse contexto, o autor fala dos conceitos de transferência e contratransferência. A transferência, a que também se refere Weiten (2002), é a tendência do entrevistado

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de projetar na figura do entrevistador suas idéias e sentimentos conflitantes a respeito de pessoas importantes de sua vida particular. E a reação, segundo Lodi, é recíproca. O entrevistador, por sua vez, pode transferir para o entrevistado, sem aparente razão, seus sentimentos de ódio ou de afeição. Esse procedimento exige do entrevistador a consciência para essa percepção de seu interlocutor. O pai da Psicanálise, Sigmund Freud explica as diferenças do ensino da Medicina, regida pelo palpável e pela percepção visual, e o ensino da Psicanálise, baseada na retórica. O tratamento psicanalítico não comporta mais que uma troca de palavras entre o analisado e o médico. O paciente fala, conta os sucessos de sua vida passada e suas impressões presentes, queixa-se, confessa desejos e emoções. O médico trata de dirigir a marcha das idéias do paciente, desperta-lhe a atenção em certas direções, dá-lhe explicações e observa as reações de compreensão ou incompreensão que assim provoca no paciente (FREUD, s d, p. 9).

Essa conversa de que fala Freud é muito semelhante à entrevista jornalística. Mesmo leigo nos extensos estudos da ciência freudiana, o jornalista tem condições de utilizar a psicanálise em uma entrevista. A prática por leigos foi inclusive defendida pelo pai desta ciência em uma entrevista que concedeu ao jornalista George Syvester Viereck, em 1926. Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopolizá-la. George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos? Sigmund Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos. (VIERECK, 2006).

Nesse quadro de leigos a que se refere Freud, pode-se acrescentar qualquer não especialista e, portanto, o próprio jornalista. Não que o profissional do jornalismo deva praticar a psicanálise, no teor do trecho citado – isto é, aplicando e fazendo a análise psicanalítica e prescrevendo diagnósticos –, mas utilizar referenciais de práticas psicanalíticas dentro do seu campo de trabalho e nos seus limites. Um dos objetos de observação da psicanálise é o que Freud chamou de atos falhos, ou falhados. Em “Introdução à Psicanálise”, ele dedica suas primeiras reflexões aos atos falhos. Esse estudo é de grande interesse justamente por estar presente em qualquer indivíduo e revelar algo a mais sobre a pessoa.

“ATOS FALHOS”: TAMBÉM SÃO IMPORTANTES Os atos falhos são acidentes de caráter aparentemente insignificantes e em sua maioria de curta duração. São os lapsos da retórica, a falsa leitura, a falsa audição, entre outros. Laplanche e Pontalis (2001) explicam que o ato falho é “o ato em que o resultado explicitamente visado não é atingido, mas se vê substituído por outro (...)

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é um ato bem-sucedido: o desejo inconsciente realiza-se nele, muitas vezes, de uma forma bastante clara” (p. 44). Freud sugere que os atos falhos podem lançar rastros de coisas mais importantes. Teoricamente, eles são conflitos entre duas intenções às quais Freud chama de perturbada e perturbadora. A perturbação, ou tendência perturbadora, provêm de idéias que pouco antes do ato falho preocupavam a pessoa. E pode haver entre as duas intenções uma relação de conteúdo, na qual uma intenção contradiz, retifica ou completa a outra. Freud elege o lapso (erros de linguagem) como o mais freqüente dos atos falhos, com razões de ocorrência inúmeras. Apesar disso o autor oferece caminhos para encontrar seus significados. “Os atos falhados têm sentido e indicam os meios de desvendar este sentido, segundo as circunstâncias que acompanharam o ato” (s d, p. 52). Um desses caminhos é a interceptação do indivíduo, perguntando a ele a razão do lapso. Também o “Manual de Redação da Folha de S. Paulo” (2001) reconhece a existência de lapsos na comunicação do entrevistado. O manual diz que “o ato falho pode ser mais revelador que uma declaração pensada” (p. 44), mas não discorre sobre como o jornalista pode perceber a existência de um lapso, apenas recomenda seu registro no texto jornalístico, e só. A psicanálise propõe ainda a observação da entrevista na totalidade. Sullivan (1954, apud LODI, 1971, p.49), afirma, por exemplo, a importância da experiência vocal, quando diz que “a entrevista é uma experiência vocal e não apenas verbal. Os aspectos da entonação, velocidade de linguagem, dificuldade de enunciação e outros problemas vocais são importantes fatores para revelar o conteúdo da entrevista”. No livro “Comunicação não-verbal” (1979, p.22), Flora Davis propõe o estudo da comunicação no todo. Davis é uma estudiosa da linguagem corporal e, segundo ela, “as palavras são bonitas, excitantes, importantes, embora tenham sido superestimadas em excesso, uma vez que não representam a mensagem total e nem parcial”. O jornalista Nilson Lage (2004), assim como Davis, não ignora as palavras, mas acredita também na importância da proximidade física. O autor explica que o resultado do encontro entre duas pessoas depende da avaliação que uma faz da outra à medida que capta mensagens. “A proximidade física permite uma afeição da resposta – um feedback – rápida, visual e auditiva, corriqueira a que nos acostumamos desde pequenos e que nos dá maior segurança” (p. 79). Como o verbal, isto é, a palavra, conforme afirmam Davis (1979) e Lage (2004), não é a única forma de comunicação, o conhecimento da linguagem do corpo é outra importante ferramenta que o jornalista interessado em aprimorar-se na arte de entrevistar deve sempre utilizar. A jornalista Vânia Welte é uma defensora da idéia. Ela afirma que seria importante para o jornalista ter a noção do valor da comunicação corporal. E vai ainda mais longe, quando propõe uma preparação semelhante à de policiais de inteligência. Aquela coisa, quando você está lembrando, quando você está mentindo. Todas essas informações o corpo passa. Então, seria muito interessante que o jornalista

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tivesse essas informações, que alguns policiais de inteligência têm. Quando ele olha pra baixo, olha pra cima, ele desvia o olhar, ou muda o tom de voz. São informações preciosas mesmo para o jornalista. São mesmo. (WELTE, 2006).

O CORPO NÃO MENTE O corpo fala, revela sentimentos, libera sensações e vontades, afirmam Allan e Bárbara Pease (2005) no livro “Desvendando os segredos da linguagem corporal”. Segundo eles, a linguagem do corpo é um reflexo externo do estado emocional de uma pessoa, assim, cada movimento pode ser uma importante fonte de informação sobre a situação sentimental dela numa dada situação. Além disso, a comunicação através dos movimentos do corpo representa 55% da mensagem passada (MEHRABIAN apud PEASE, 2005). Isso significa que se o repórter focar sua atenção apenas no que a fonte diz terá uma perda considerável da mensagem durante uma entrevista. Mônica Rector (1999), em “Comunicação do corpo”, assegura que a comunicação não-verbal corresponde a ainda mais, sendo responsável por 65% do total das mensagens enviadas e recebidas. Mesmo com percentuais distintos, esses dados revelam a importância de se atentar para as expressões corporais. Ora, se o jornalista não estiver preparado para decodificar o discurso do corpo do entrevistado, ele pode, segundo os dados divulgados por Pease e Rector, estar perdendo um percentual significativo de comunicação. Pierre Weil (1986), no livro “O Corpo Fala”, ressalta que a linguagem do corpo não mente e que o homem não consegue dominar a expressão do seu corpo. Rector (1999) concorda com Weil complementando que “falamos pela atividade voluntária de nosso aparelho fonador; porém, ao participar de uma interação social, nós o fazemos com todo o nosso corpo” (p. 21). Ela assegura que um indivíduo, ao expressar-se pelo corpo, o faz de forma muito clara e imutável. Outra voz que faz coro à linha de pensamento de Weil (1986) e Rector (1999) é a de Weiten (2002). O autor assume que a expressão corporal é inata, ou seja, nasce com o indivíduo. Testes realizados com cegos de nascença comprovaram que “as pessoas cegas de nascença sorriem e fecham a cara como todo o mundo, apesar de nunca terem visto um sorriso ou uma pessoa carrancuda” (p. 297). Mas a leitura das expressões corporais deve sempre levar em conta a totalidade, o grupo. Os gestos estão diretamente relacionados uns aos outros, portanto, analisá-los separadamente é um equívoco. Um dos erros mais graves que um aprendiz de linguagem corporal pode cometer é interpretar um gesto isolando-o de outros e das circunstâncias. (...) assim como a linguagem falada, a linguagem corporal tem palavras, frases e pontuação. Um gesto é como uma palavra – pode ter vários significados diferentes (PEASE, 2005, p. 25).

Dimitrius (2000) também alerta para a necessidade de análise do todo e explica que a linguagem corporal muitas vezes reflete uma condição física ou um estado mental

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temporário, que não obrigatoriamente fazem parte da personalidade. Ela adverte para o risco de julgar uma pessoa em um primeiro encontro. Diferentemente de Dimitrius, Flora Davis (1979) acredita no emprego momentâneo da comunicação não-verbal. Ela explica que todos, até certo ponto, têm habilidade para decodificar significados da linguagem corporal. “Em questão de segundos interpretamos um movimento do corpo ou reagimos a um tom de voz, atribuindo-lhes parcela de uma mensagem completa” (p. 15). Mauri König confirma esta habilidade de percepção da linguagem corporal. Ele conta que, entrevistando um delegado de polícia sobre superlotação dos distritos, percebeu a abertura de guarda do seu entrevistado pela postura do seu corpo. De braços cruzados inicialmente nos disse não. Mas a partir do momento que ele interagia conosco conversando, gesticulando, ele tinha aberto a guarda dele. (...) Da minha parte foi inconsciente. Não foi coisa programada. É que a gente já tem essa lida com freqüência e acaba sendo natural, não é nada muito pensado. Mas você percebe quando a pessoa está reclusa e tá inacessível e quando ela está mais aberta, é meio que inconsciente. (KÖNIG, 2006).

Ora, se a comunicação acontece segundo Davis (1979), em um nível subconsciente, por que não praticar essa comunicação conscientemente, aprimorando o conhecimento do jornalista sobre a comunicação do corpo para que ele também possa utilizá-lo no diálogo com o entrevistado? Uma condição para a percepção do todo é a entrevista realizada ao vivo conforme indicam as respostas às indagações motivadoras deste trabalho que foram obtidas em pesquisa qualitativa e quantitativa.

PESQUISA DE CAMPO O estudo qualitativo buscou entender como os jornalistas se preparam e agem durante uma entrevista e também, registrar opiniões quanto à qualidade das entrevistas veiculadas na mídia. Para esse procedimento foram escolhidos quatro jornalistas de renome na imprensa paranaense (Mauri König, Albari Rosa, Vânia Welte e Rosi Guillen) sem a preocupação quanto ao veículo em que atuam. Os depoimentos coletados nessa fase também contribuíram para fundamentar o quadro teórico do trabalho. A coleta de dados quantitativos se deu por meio de levantamento usando como instrumento um questionário com treze questões, doze delas fechadas (com espaço para justificativa) e uma aberta. O intuito foi compreender como a entrevista é vista e realizada pelos jornalistas. Os 70 jornalistas que integraram a amostra aleatória são de diferentes meios de comunicação de Curitiba: a TV Educativa, a rádio Band News, o jornal Gazeta do Povo e a Rede Paranaense de Comunicação. A tabulação dos resultados demonstra que para que 91% dos participantes a entrevista sem mediação tem melhor qualidade. As justificativas indicam que uma entrevista ao vivo cria maior empatia entre as partes e possibilita a observação dos

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gestos e reações da fonte. Quanto ao uso de técnicas de entrevistas, 54% afirmam que o mais usual é se preparar sobre o tema e o entrevistado. Alguns falam em deixar perguntas polêmicas para o final, em ir ganhando a confiança, ou não levar gravador para não inibir. Porém, 44% confessam que não usam técnica nenhuma. Entender as atitudes do jornalista diante de fugas de questionamentos também era uma preocupação do estudo. Nesse caso, 43% repetem a pergunta; 36% esperam e repetem mais tarde; e18% perguntam por que não respondeu. Também se levantaram informações sobre a compreensão da mensagem por parte do jornalista. Nesse caso era preciso indicar por ordem de importância, entre as alternativas propostas. Os resultados mostram que a primeira atenção do entrevistador está voltada diretamente para as palavras (54%), mas que o modo de expressar-se complementa a mensagem com outros elementos. Nas justificativas, o modo de falar (37%) foi ilustrado como forma de mostrar a credibilidade do que foi dito. Expressão corporal (36%), o que não é dito (39%) e (34%) as roupas. A mensagem do corpo, segundo Rector (1999) e Paese (2005), é parte importante da comunicação humana. Portanto, por sua expressiva representatividade comunicacional observar as manifestações corporais é fundamental em um diálogo e deveria ter um número de respostas mais significativo. Outra questão importante nos resultados é a interpretação do vestuário como sinal de status social. Esta não era a intenção, a roupa se propunha a cogitar se o que o entrevistado veste, pode ou não, comunicar algo ao repórter. Dimitrius (2000) comprovou que as vestes são extensões da personalidade de uma pessoa e, portanto, também importantes na observação. Os jornalistas locais não têm esta percepção.

CONCLUSÕES Com base nos resultados, pode-se concluir, por exemplo, que para a maioria (91%) dos respondentes a entrevista sem mediações é a de melhor qualidade, ou seja, permite a humanização do relato de que fala Medina (2001). A entrevista ao vivo, apesar de por vezes inviável, é necessária para um melhor aproveitamento do diálogo entre fonte de informação e repórter. No contato “tête-à-tête” o jornalista tem a possibilidade de observar reações do entrevistado, o que é inviável por telefone ou Internet, e até mesmo de utilizar seu próprio corpo como forma de comunicação. A linguagem corporal, o tom de voz, o comportamento, a relação do entrevistado com o ambiente, seu corpo, as roupas que veste e os lapsos são informações valiosas no processo de busca de verdades. Assim, a comunicação deve ser encarada na sua totalidade, levando-se em conta todas as formas de transferência de mensagens. Essa observação sobre o todo da comunicação do entrevistado tem efetivamente sido praticada pelos entrevistadores. Isso pôde ser ressaltado na análise quantitativa. No entanto, na análise geral dos dados (tanto nas entrevistas, quanto nos questionários) ficou evidente que é feito intuitivamente. Ora, se é importante observar as reações da fonte, sua expressão corporal, seu tom de voz, como muitos dos respondentes afirmam e como foi corroborado na teoria que fundamenta este

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estudo, então como observá-las de forma unicamente empírica? O jornalista, no cumprimento da sua função social, tem que estudar o comportamento humano para um melhor desempenho. Acreditar que apenas a experiência profissional e a intuição são suficientes e apostar na eficácia do empirismo é fechar os olhos para as ciências, que existem para serem utilizadas com consciência. Logicamente, a experiência é valiosa no processo da entrevista. No entanto, apoiar-se apenas na prática para adquirir uma boa técnica é um equívoco. Mas admitase, por hipótese, que só ela seja o bastante. Se assim fosse, nenhum jornalista recémformado teria condições de ser um repórter com resultados satisfatórios. E isso seria ainda um ciclo vicioso, afinal de contas, sem experiência, o novo jornalista não teria condições de realizar boas entrevistas e, sem fazê-lo, como conquistaria a prática? Aceitar o princípio da “experiência” como único é esconder-se atrás do escudo do empirismo e fechar-se para o aprimoramento e o crescimento profissional. A entrevista, pela sua importância, e sendo o próprio jornalismo por excelência, necessita de pesquisas que agreguem a ela novas possibilidades de desenvolvimento. Se o jornalista é um entrevistador profissional e graduado para isso, então, que construa sua base – a entrevista – em alicerces teóricos consistentes. Para tanto, o estudo da entrevista não pode continuar limitado a conselhos e sugestões. O jornalista deve aprimorar seu ato de escuta, a observação e o modo de conduzir uma entrevista, apoiando-se em ciências do comportamento humano como forma de aperfeiçoar a entrevista jornalística e, por fim, melhorar a qualidade da reportagem e da informação divulgada. Confiar apenas na intuição é, até certo ponto, negligência profissional. Se 56% dos jornalistas reprovam a qualidade das entrevistas, onde está a falha? De quem é a culpa? Ora, quem é o responsável pela entrevista? Quem orienta a fonte e seleciona os caminhos a serem seguidos? A resposta é clara: o jornalista. Portanto, condenar os resultados de uma entrevista é atirar no próprio pé. Mas criticar a qualidade das entrevistas praticadas é uma atitude saudável. Assim, propor mudanças, como faz este estudo, é repensar os erros e procurar melhores alternativas. Lançando um novo olhar sobre a entrevista e estudando o ser humano e seu comportamento, o repórter terá mais embasamento para chegar ao diálogo possível defendido por Medina (2001). O jornalista deve participar de uma troca com a fonte sem dirigismos, sem as “aspas prontas” apontadas por Rosi Guilhen. O momento da entrevista deve ser uma entrega na qual os envolvidos, no âmbito da confiança, compreendem a si mesmos. O jornalista não pode encarar a fonte de informação como sua adversária. Até mesmo porque, como demonstra Lodi (1971), a falta de estímulo e de motivação do entrevistador é um obstáculo no processo da comunicação interpessoal. Então, é necessário entender a psicologia humana para se ter a clareza de poder reconhecer que muitas das motivações do indivíduo são inconscientes, conforme comprova a teoria psicanalítica. Compreender como funciona a mente humana e perceber os conflitos do indivíduo agregam ao jornalista valiosa ferramenta que possibilita apurar características do entrevistado e superar as barreiras que causam o 60 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.47-64| 1° Semestre 2009


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seu comportamento. Além disso, em uma entrevista, a tensão, os processos defensivos e a tendência à autoconstrução favorável da imagem influenciam diretamente o seu resultado. Esses são dados preciosos para o jornalista. De posse dessas informações, o jornalista age em sintonia com seu entrevistado, em um clima de cordialidade e confiança. E, conscientemente, pode reduzir esses efeitos para alcançar um diálogo mais sincero. Como não prestar atenção ao que o corpo comunica se a linguagem corporal, conforme o demonstrado por Pease (2005), equivale a 55% do total da mensagem transmitida? É preciso refletir sobre esse percentual. Deixar de atentar para aquilo que o corpo diz é perder mais da metade da informação transmitida. E essa perda é ainda maior se for levado em consideração os resultados de Rector (1999). Para a autora, a comunicação não-verbal é responsável por 65% da comunicação interpessoal. Assim, não observar o corpo é captar apenas 35% da mensagem transmitida, o que é muito pouco. Além disso, como afirma Weil (1986), a mensagem corporal é sincera, isto é, o homem não tem domínio sobre a linguagem inconsciente do seu corpo. Ela não mente e é inata, nasce com o indivíduo. A comunicação do corpo é leal e reveladora, pode até mesmo contradizer a retórica, ou então afirmá-la. O movimento dos olhos, das mãos, o sorriso, a voz, enfim, o corpo é um reflexo externo do estado emocional de uma pessoa. Esses são dados reveladores e que devem ser considerados. Ora, o jornalista, deixando de observar a linguagem corporal, perde uma parte significativa da informação. O jornalista, de posse dessa informação, aprende a utilizar os sinais a seu favor e, assim, alcança melhores resultados no exercício profissional a serviço da sociedade.

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O MARKETING NA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA Ana Paula Mira1

Universidade Positivo

RESUMO O presente estudo propõe a introdução à análise dos efeitos do marketing na produção jornalística. Diferentes teorias acerca do marketing, que abordam desde sua concepção mais tradicional até novas abordagens, como o marketing de idéias, são explicitadas para que se possa estabelecer a relação entre o uso de estratégias de mercado na maneira como se produz a informação. Esse novo nicho no mercado da informação mais uma vez traz à tona antigos conceitos, agora estudados à luz do marketing, como o mito da imparcialidade, do jornalismo objetivo e imparcial, bem como a conseqüência da desinformação por parte dos leitores. Palavras-Chave: jornalismo. Marketing. Produção.

ABSTRACT This study proposes the introduction to the analysis of the effects of marketing in the production journalism. Different theories about marketing, dealing with since its conception more traditional approaches to new ideas, such as marketing, are explained in order to establish the relationship between the use of market strategies, in the way information is produced. This new market niche in the information once again brings to light old concepts, now studied in the light of marketing, as the myth of impartiality, the objective and impartial journalism, and the result of misinformation on the part of readers. Keywords: journalism. Marketing. Production.

1 Possui graduação em Letras Português pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1997), graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (1998), Especialização em Leituras de Múltiplas LInguagens e Mestrado em Marketing e Gestão Empresarial pela Universidade Internacional de Lisboa (2005). Atualmente é professora da Universidade Positivo, das Faculdades Integradas do Brasil e da Universidade Tuiuti do Paraná. Tem experiência de 12 anos na área de Educação, com ênfase no ensino de Língua Portuguesa e Redação Jornalística..


O MARKETING NA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA

INTRODUÇÃO Quando o termo marketing é citado, não são raras as pessoas que o definem como mera propaganda de algum produto ou alguma estratégia de promoção. É importante, antes de analisar o marketing sob os aspectos que se propõem neste estudo e pesquisa, definir a diferença entre os termos publicidade e propaganda. Esclareça-se que a propaganda (e não a publicidade) – no sentido de propagar princípios e teorias – é a base para a relação que se estabelecerá entre marketing e jornalismo. O termo (do latim propagare) foi criado em 1597, pelo papa Clemente VII, que fundou a congregação da propaganda, com o objetivo de propagar a fé católica pelo mundo. Já a publicidade (também do latim publicus) tem relação com a palavra “público” e se refere ao ato de vulgarizar, de tornar público um fato, uma idéia. Vê-se claramente que há uma diferença expressiva entre os dois conceitos, já que um deles denota uma carga ideológica, enquanto outro determina apenas a ação cotidiana da compra e venda dentro de algum nicho mercadológico. É por essas diferenças conceituais que foi utilizado o termo propaganda, simplesmente porque o marketing permeia muito mais áreas do que a simples venda, podendo ser definido como um processo social que procura satisfazer determinados desejos ou necessidades do consumidor (KOTLER, 1995). A criação de determinados produtos pode ou não ser um sucesso de vendas a partir da estratégia de marketing utilizada. Despertar desejos adormecidos nos potenciais consumidores é tarefa árdua, afinal, é preciso, antes de tudo, conhecer os estados de carência do ser humano e, a partir deles, desenvolver um processo de satisfação pessoal. No entanto, quantos consumidores realmente percebem como o marketing atua por trás de toda a propaganda e conseqüente venda propagada pelos meios de comunicação? Devido a esse desconhecimento e até mesmo a essa idéia equivocada do marketing, muitos segmentos aproveitam essa ignorância – não no sentido pejorativo, mas, sim, literal da palavra – para vender um produto com a intenção já específica e idealizada do que se quer atingir com ele. Nesse último caso, entra a Comunicação. Uma das áreas que mais cresceu nos últimos 20 anos, a Comunicação movimenta hoje investimentos vultosos e lucros exorbitantes. Tudo isso graças à possibilidade de fazer da informação e do entretenimento produtos extremamente rentáveis, duráveis e, principalmente, vendáveis. O tema principal do presente estudo é justamente essa comercialização – com ajuda do marketing – da comunicação, mais especificamente da notícia dentro do jornalismo. O interesse pelo tema surgiu ao verificar, como jornalista, o quanto é desconhecida a maneira como as notícias chegam aos leitores. Por não terem conhecimento do processo de produção de um jornal, desde a definição das pautas até fechamento da diagramação, muitos acabam por definir que jornal comprar e em que linha editorial acreditar pela propaganda, pela diagramação atraente, pelo marketing da imparcialidade e da objetividade jornalística. A teoria da prática jornalística acaba por se limitar aos meios acadêmico e profissional do Jornalismo, mesmo esta sendo uma atividade com repercussões em todos os níveis da sociedade humana. Esse conhecimento, que deveria ser disseminado para evitar deturpação da função jornalística, não existe por parte do principal público de um jornal, formado por seus 66 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.65-76| 1° Semestre 2009


ANA PAULA MIRA

leitores. Uma boa comparação para entender a necessidade de conhecer o passo-apasso do jornalismo é com a área do Direito. Apesar de muitas pessoas não saberem quais são os trâmites de um processo, parte da sociedade sabe que tem meios para se defender. Tem à disposição códigos legislativos, sabe onde procurar advogados – inclusive do Estado, sem custos – e sabe como proceder em casos nos quais as leis e os direitos estão sendo infringidos. No Jornalismo, não. É preciso contar com senso crítico para tentar distinguir diferenças na abordagem das notícias, maneiras como determinado conteúdo é escrito, como as notícias são filtradas, qual informação merece mais importância do que outra. Para conquistar essa faculdade, é necessário levar ao conhecimento da sociedade como se produz a notícia.

MARKETING: CONCEITOS E FINALIDADES Walter Benjamin, em A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica (1990), fala sobre a destruição da aura das obras de arte com a Revolução Industrial. Seguindo essa idéia, é possível estabelecer uma comparação com teóricos modernos da comunicação, como Marshall McLuhan (1969), Nelson Traquina (1993) e Luiz Amaral (1996), que vêem na notícia a destruição do seu conceito primário. Todos citam a comercialização da comunicação e suas conseqüências. Quando McLuhan (1969) eternizou a frase “o meio é a mensagem”, ficou clara sua posição em relação ao poder que o meio tem. Associando esse mesmo poder à força do marketing, podem-se imaginar os danos causados na formação daqueles que, pelo jornal, procuram tomar posicionamentos. Questiona-se, então, de que maneira o marketing influencia essa produção e como ele torna-se perceptível na produção jornalística. Apesar de as teorias referentes ao marketing terem evoluído muito desde seu surgimento, na década de 60, é difícil encontrar bibliografias que retratem sua atuação no jornalismo. A proposta deste artigo é cruzar determinadas informações acerca do marketing para que se possa evidenciar seu uso na produção jornalística.

1.1 Evolução dos conceitos Em 1960, a American Marketing Association (AMA) definiu o marketing como atividades que direcionavam bens e serviços a um determinado consumidor. Esse conceito, à época, foi suficiente para dar início aos estudos relacionados a uma área que, por desconhecimento ou interpretação equivocada, “virou sinônimo de técnica de ludibriar o consumidor” (VAZ, 1995, Introdução p. XVII), entendendo o autor que a própria palavra vem sendo mal empregada e seu real significado, muitas vezes, não chega ao conhecimento de todos. Justamente para evitar essa incoerência, vários estudiosos procuraram definir o marketing, nos últimos 45 anos. Depois da AMA, a Ohio State University, em 1965, ampliou o conceito, mas não com uma mudança tão grande quanto Philip Kotler proporia quatro anos depois. Kotler e Sidney Levy sugeriram incluir no âmbito do marketing as instituições sem fins lucrativos. Essa nova visão não só tornou o campo de atuação mais vasto, como também alertou para uma “miopia do marketing” que COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.65-76| 1° Semestre 2009 | 67


O MARKETING NA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA

acontecia até então (KOTLER, 1995, p. 5). Essa miopia fez com que, por muito tempo, o marketing fosse enxergado apenas como uma estratégia para vender produtos, e não para satisfazer necessidades. (Muitos vendedores) ficam tão encantados com seus produtos que focalizam apenas os desejos existentes, deixando de ver as necessidades subjacentes do cliente. Esquecem-se de que o produto físico é apenas uma ferramenta para resolver um problema de um determinado cliente. Esses vendedores têm problemas quando surge um novo produto que atende melhor às necessidades ou é mais barato. O cliente com a mesma necessidade irá desejar o novo produto (KOTLER, 1995, p. 6).

A principal contribuição desse novo conceito foi a expansão dos limites do marketing e o estabelecimento de suas dimensões sociais. No mesmo período, Kotler e Gerlad Zaltmen empregaram o termo “marketing social”, definindo-o como “a criação, implementação e controle de programas calculados para influenciar a aceitabilidade das idéias sociais e envolvendo considerações de planejamento de produto, preço, comunicação, distribuição e pesquisa de marketing” (COBRA, 1997, p. 24). Com as atenções mais voltadas para o âmbito social, Marcos Cobra (1997) destaca uma questão importante que passa a fazer parte do escopo do marketing: a responsabilidade social. É nesse ponto que se inicia o diálogo com os meios de comunicação e sua inter-relação, já que o produto, antes essencialmente concreto, pode também ser abstrato, assim como sua abrangência. De 1969 até a atualidade, outros conceitos foram criados, porém sem nenhum grande diferencial do que havia sido proposto. Surgiram também, cada vez mais fortes, as especializações do marketing, como industrial, empresarial, cultural, religioso, internacional, entre outros, que criaram consumidores diferentes e mais exigentes.

1.2 O consumidor Tão importante quanto entender a lógica do marketing é compreender – ou tentar – o comportamento humano. Isso porque o homem é motivado por necessidades e desejo de satisfação dessas mesmas necessidades, lógica na qual se estabelecem as relações de marketing. Se não fosse a figura do consumidor, não haveria por que discutir conceitos, criar teorias ou aprimorar as relações de compra e venda que o sistema capitalista tem como pilar de sobrevivência. Estudos acerca desse comprador chegaram a algumas definições importantes para a compreensão da análise proposta nesse trabalho. A primeira delas é entender que são vários tipos de motivo que levam uma pessoa ao consumo, classificados basicamente de primários e secundários. Os primários “são baseados em necessidades biológicas que precisam levar as pessoas à sobrevivência. Os mais importantes estímulos primários são, sem dúvida, a fome, a sede e a fuga da dor” (COBRA, 1997, p. 38). É coerente perceber, então, que o maior desafio do marketing está nos motivos secundários, que abrangem necessidades mais abstratas, como de aprovação, status, segurança e realização. 68 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.65-76| 1° Semestre 2009


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Outro item a ser analisado são os fatores externos que agem sobre o consumidor. A cultura, o meio social, o meio profissional, tudo isso exerce influência no momento em que se escolhe um produto, em que se decide fidelidade a ele ou em que se rejeita o que está sendo oferecido ao comprador. Kotler (1995) considera quatro fatores como principais para estabelecer essa interferência na vida do consumidor: culturais, sociais, pessoais e psicológicos. Os CULTURAIS abrangem a Cultura em que se está inserido, as Subculturas e a Classe social. Existe também uma subdivisão quando se considera o fator SOCIAL, já que ele compreende os diferentes Grupos em uma sociedade, a Família e os Papéis/Status de cada um nesse meio. Há ainda os fatores PESSOAIS, que abarcam Idade e estágio de vida, Ocupação, Situação econômica, Estilo de vida e Personalidade/Autoconceito. Por último, porém não menos importantes, destacam-se os fatores PSICOLÓGICOS, subdivididos em Motivação, Percepção, Aprendizado e Crenças e atitudes. Seria inútil, no entanto, citar todos esses fatores sem contextualizá-los à comercialização da informação; posto isso em prática, três deles se destacam como essenciais para entender as estratégias que veículos impressos de comunicação podem utilizar: a Cultura, os Grupos e o Estilo de vida. É importante detalhá-los para compreender por que, entre tantos fatores, esses influem diretamente na comercialização das idéias de um jornal. A Cultura, enquanto conjunto de manifestações de uma sociedade, “é a causa mais determinante dos desejos e do comportamento da pessoa, comportamento este que é em grande parte aprendido”, diz Kotler (1995, p. 97). É ela quem determina os valores básicos que uma pessoa vai seguir durante sua vida e as percepções que ela tem acerca de diversas instituições, como famílias, governos, entre outras. Por esse motivo, a cultura interfere profundamente na produção midiática de uma sociedade; a sobrevivência de alguns veículos e a morte de outros, por exemplo, têm relação direta com isso. No Brasil, essa característica ainda é acentuada pela variável econômica originária do subdesenvolvimento, que estabelece mudanças ainda mais visíveis no comportamento do consumidor em relação à informação que chega até ele. Outro fator são os Grupos a que cada comprador pertence. Existem os grupos de associação, que exercem influência direta, e os grupos de referência, que são utilizados para comparação (KOTLER, 1995). Apesar dessa diferenciação, qualquer um deles pode ser responsável pela escolha de um produto e desprezo por outro. Neste estudo, é importante ressaltar que o produto notícia, o qual se tem como referência quando se identificam aspectos de marketing, é “consumido” por vários grupos diferentes, o que aumenta as possibilidades de influência em relação à sua comercialização. O último item destacado e, na visão desta pesquisadora, mais importante, é o Estilo de Vida. A explicação centra-se no fato de que este é um fator extremamente subjetivo. Entre os demais fatores citados, a Cultura, ainda que não possa ser concretizada fisicamente, é tangível e facilmente perceptível quando exemplificada. Os Grupos também podem ser mensurados: quantos são, por quem são formados, etc. No entanto, o Estilo de vida de uma pessoa não é algo de tão fácil definição. Segundo Kotler (1995, p. 101), “é o padrão de vida da pessoa conforme expresso

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na sua psicografia, envolvendo a medida das dimensões centrais do consumidor: atividades (...), interesses (...) e opiniões (...)”. É esse item, portanto, que inclui a necessidade da informação, essencial para o consumo de jornais, já que é o estilo de vida de uma pessoa que a faz ter posições ideológicas, opiniões em relação ao seu meio e capacidade crítica e de análise.

2 MARKETING NO BRASIL As características, conceitos e influência do marketing, explicitados até aqui, podem ser adaptados a quase todas as sociedades capitalistas. No entanto, existem algumas especificidades quando o país em questão é o Brasil, pelo fato de ainda não haver suficiente clareza entre o real papel do marketing e a propaganda ou venda de produtos. Mesmo assim, o desenvolvimento nessa área tem sido expressivo: O crescimento da renda per capita da população brasileira, ao lado dos estímulos crescentes à produção e à exportação, tem contribuído, e muito, para a adoção do marketing no Brasil. E essa importância do marketing, antes privativa da área de consumo de massa, agora ganha importância e credibilidade junto aos setores básicos da atividade industrial, com o marketing de negócios; na atividade agrícola e pecuária, com o marketing agrícola; na atividade de serviços públicos e privados e de saúde, com o marketing de serviços; com o marketing político e o marketing religioso entre outras configurações do marketing (COBRA, 1997, p. 32).

Apesar desse otimismo, Cobra (1997) ressalta que na realidade brasileira o marketing é erroneamente utilizado, criando desejos de consumo de alguns produtos e serviços que, na verdade, não atendem a nenhuma necessidade específica. Criar hábitos de consumo é mais complexo do que simplesmente incentivar a compra de algum produto. Muitas vezes, os meios de comunicação brasileiros – com ênfase nos jornais impressos, tendo em vista o objeto de análise – utilizam o caminho mais curto e rápido da propaganda para conquistar público junto com estratégias de marketing mal focadas e mal elaboradas (MARSHALL, 2003). Cabe ressaltar aqui que podem ser percebidas estratégias de marketing nos jornais impressos sob dois ângulos: o das promoções populares, ofertas de assinaturas, sorteios, produtos agregados à compra (como enciclopédias, CDs, coleções, viagens, ingressos de eventos, entre vários outros), e sob o ângulo proposto neste estudo que se refere à disposição e escolha das informações nas páginas dos veículos impressos. “Alguns jornais empastelam as páginas com cores chamativas, muitas fotos, ilustrações, infográficos, textos curtos em letras grandes, notas e mais notas, colunas de fofocas, planejamento gráfico arrojado, pesquisas e mais pesquisas de opinião, etc” (MARSHALL, 2003, p. 142). Além disso, ainda há um forte investimento em tecnologia de ponta, impressão em cores, tudo para proporcionar páginas mais atraentes visualmente. Marshall (2003, p. 142) considera que hoje esse é o grande problema de determinados veículos: O resultado de todas essas estratégias de marketing tem sido jornais cada

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vez mais audaciosos e atraentes, mas com pouco conteúdo e quase nenhum compromisso com a verdade, com a informação e com o interesse público. Os jornais tornam-se meros produtos de mercado, que disputam espaço e lutam para crescer com as mesmas regras de qualquer outra empresa dos setores primários, secundário ou terciário da economia. As regras que mobilizam os empresários da comunicação e do próprio corpo de jornalistas são motivadas por decisões de mercado. Os princípios do jornalismo tornam-se assim uma parte apenas acessória de um processo e de um produto da mercantilização.

3 MARKETING INSTITUCIONAL De todos os segmentos em que se desdobrou o marketing, o Institucional é o que mais se aplica à proposta deste estudo. Ele, na verdade, é o ponto de partida para o marketing de idéias, que atua em um campo mais subjetivo e, muitas vezes, intangível. Kotler (1995, p. 461) define o marketing institucional como “atividades empreendidas para criar, manter ou modificar as atitudes e comportamento do público-alvo com relação a uma organização”. No entanto, alguns autores, como Kotler (1995) e Vaz (1995), apontam que ainda existe uma grande dificuldade em estabelecer o limite entre o marketing empresarial e o institucional, pelo fato de que este deriva daquele. Para compreender, portanto, a evolução da visão empresarial para a institucional e, por fim, chegar ao marketing de idéias, é preciso diferenciar uma empresa de uma instituição.

3.1 Da empresa à instituição Como visto no início deste capítulo, o primeiro conceito de marketing abrangeu apenas organizações com fins lucrativos, pelo fato de comercializarem bens e serviços tangíveis. Quando Kotler e Sidney Levy, em 1969, incluíram as organizações sem fins lucrativos na definição de marketing, abriu-se a brecha para todas as especializações segundo as quais, hoje, as idéias são consideradas um produto tão comercializável quanto um livro, por exemplo. Apesar de o conceito já existir há mais de 30 anos, não foi tão rápida a assimilação de que podem existir diferenças significativas entre o que é caracterizado como empresa e como instituição. “O conceito original de empresa dizia respeito a uma pequena unidade produtiva resultante de um empreendimento individual, que fabricava e comercializava bens tendo como contrapartida a obtenção de lucro” (VAZ, 1995, p. 15). Já o conceito de instituição, para o mesmo autor, tem outro princípio e é bem mais vasto: a instituição é uma organização constituída juridicamente, mas com objetivo de atender demandas de uma comunidade ou sociedade. A diferença básica está no fim que cada umas dessas organizações almeja; enquanto uma persegue o lucro, a outra espera interferir no meio em que atua a favor daqueles a quem a instituição serve. Logicamente, os meios de comunicação deveriam se inserir na segunda classificação, porém, há aqui um primeiro paradoxo: os jornais impressos constituem-se como empresas, mas têm como função primeira atender a uma demanda específica da sociedade, que é de informação. Vaz (1995) explica que essa aparente

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discrepância tem origem em tempos muito mais remotos, nos primeiros anos da Idade Moderna, quando se iniciaram as expedições marítimas e a necessidade das primeiras transações econômicas. Essa mudança de comportamento originou o pensamento mercadológico, em contraponto ao pensamento retórico, os quais se constituem em dois pilares fundamentais para compreender a inter-relação que existe hoje entre marketing empresarial e institucional. Enquanto o pensamento mercadológico percorria uma longa trajetória do mercado de bens materiais até a incorporação de elementos do mercado simbólico, um outro tipo de pensamento fazia o caminho inverso. É a retórica, arte e técnica milenar de convencer o semelhante pelo poder da palavra, da persuasão, da argumentação, sem uso da força física. Do seu habitat natural, que é o campo das instituições filosóficas e afins, percorreu também uma extensa trajetória histórica até receber, nos dias de hoje, uma influência muito forte das instituições econômicas, cruzando-se de modo marcante com o pensamento mercadológico (VAZ, 1995, p. 26).

Atualmente, o que se vê é a interação dessas duas práticas e a interdependência desses dois tipos de pensamento. Isso se evidencia, principalmente, no surgimento da figura do profissional de Relações Públicas, responsável muitas vezes por entremear esses dois campos a fim de que a imagem de determinada empresa esteja de acordo com o que deseja seu proprietário. Em muitas organizações – seja ela com fins lucrativos ou não – existem dois esforços para manter-se no mercado e conquistar consumidores: vender produtos e serviços e vender, ainda, a “idéia” de que aquela é uma empresa passível de confiança, respeito, credibilidade ou qualquer outra atribuição subjetiva que seja importante para o produto em questão. No Jornalismo, o serviço oferecido é a informação e a idéia pretendida é da imparcialidade. Para compreender tal lógica, é necessário explicitar a diferença entre os dois mercados que se entralaçam nessa realidade e a atuação do recente marketing de idéias.

3.2 Mercado material e Mercado simbólico A conseqüência dos diferentes conceitos de empresa e instituição e dos diferentes pensamentos presentes em uma e outra – o mercadológico e o retórico – é a identificação de duas esferas de atuação das organizações: o mercado material e o mercado simbólico. O primeiro trabalha com as mercadorias “bens” (tangíveis ou intangíveis) e o segundo com as mercadorias “idéias”, ou seja, é o tipo de mercadoria que identifica o mercado e, conseqüentemente, todas as ações a serem tomadas para a venda daquele produto. Essa divisão, entretanto, não significa que esses dois mercados não se sobreponham. Vaz (1995) afirma que as idéias englobam os bens, por estes serem, na verdade, a materialização daquelas. É importante ressaltar que, sobre o mercado material, atua especificamente o marketing empresarial; sobre o simbólico, atua o marketing institucional. Porém, Vaz (1995, p. 13) demonstra que essa exclusividade, na prática, não é tão evidente: “(...) na prática, o Mercado Material (e, por conseqüência, o Marketing Empresarial) não se torna espaço exclusivo das Organizações com Fins Lucrativos. Nem o Mercado Simbólico (e, por conseqüência, o Marketing Institucional) é área exclusiva das Organizações sem Fins Lucrativos”. 72 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.65-76| 1° Semestre 2009


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Chega-se aqui ao ponto essencial do capítulo, que é a identificação do Marketing de Idéias, proveniente do Institucional, que se adapta de modo mais peculiar ao que se pretende demonstrar no objeto de análise desta pesquisa.

4 MARKETING DE IDÉIAS A ramificação mais importante do marketing institucional é, sem dúvida, o marketing de idéias, no qual se insere o texto jornalístico dito imparcial. Para Kotler (1995, p. 465), “em certo sentido, todo marketing é um marketing de uma idéia, seja uma idéia geral de escovar os dentes ou a idéia específica de que determinada pasta dental é mais eficaz para combater as cáries”. Apesar de essa percepção ser relativamente simples, a eficácia das estratégias do marketing de idéias não é fácil de se avaliar, principalmente porque depende de retorno subjetivo em relação ao produto e do uso da retórica, questão importante embutida no marketing de idéias e já citada no item anterior para explicitar o mercado simbólico no qual esse mercado age. O Marketing Institucional, sendo em essência um Marketing de Idéias, um Marketing Ideológico, depende fundamentalmente da Retórica, pois esta nada mais do que a forma de expressão da Ideologia. Compreender como opera o pensamento retórico é vital para o entendimento e operacionalização do Marketing Institucional. (VAZ, 1995, p. 27).

Surgem dois conceitos importantes nessa relação entre marketing de idéias e institucional: ideologia e retórica. Sem se ater a questões filosóficas mais aprofundadas – por não caber no foco deste estudo – é fundamental conceituá-los. Vaz (1995) indica que a ideologia é tudo aquilo que faz parte do universo de saberes do destinatário e do grupo a que pertence. Esse universo abrange não só as expectativas psicológicas de um indivíduo e suas experiências, mas também suas referências e seus valores. Ao aplicar esse conceito ao contexto dos meios de comunicação, percebe-se que a idéia ou ideologia de cada leitor interfere na escolha do veículo de comunicação que fará parte de sua preferência, assim como o posicionamento do jornal perante questões cotidianas será essencial para consolidar essa fidelidade entre leitor e jornal escolhido. Ou seja, só é possível essa interação quando essa ideologia é reconhecida, ou ainda, quando é manifestada por meio de códigos de comunicação, idéia que se aproxima do conceito de Retórica. “A Retórica é um determinado modo de empregar a linguagem, identificando-se com determinado modo de pensar a sociedade” (VAZ, 1995, p. 28). A essência do pensamento retórico, nesse sentido, é a crença no que se exprime como mensagem, o que também pode ser entendido como necessidade de credibilidade e confiança no que é exposto. Apesar de muitos desses conceitos terem surgido na Grécia Antiga, são perfeitamente aplicáveis ao que acontece hoje nos grandes veículos de comunicação, especialmente na Folha de S. Paulo, objeto deste estudo. O principal objetivo do periódico é conquistar credibilidade suficiente para fidelizar leitores e, conseqüentemente, manter ou aumentar suas vendas. O marketing de idéias, dessa forma, é uma estratégia empregada para vender um conceito, uma imagem, enfim, uma idéia.

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O conceito de idéia aplicado nesse tipo de marketing vai além de um enunciado verbal. “Idéia é aqui compreendida numa acepção mais ampla: um gesto, um som, um desenho ou uma fotografia constituem idéias tanto quanto a formulação de um pensamento” (VAZ, 1995, p.40). Para o autor, tudo que está abaixo da sensibilidade reflexiva e crítica deve ser considerado uma idéia. A resposta do consumidor depende justamente do nível de consciência em que a idéia é absorvida, principalmente porque algumas mensagens podem ser apreendidas além da camada racional do cérebro. A idéia a ser “vendida” pode, inclusive, relacionar linguagem verbal e não-verbal, para atender seu objetivo final de persuasão do consumidor e efetivação da compra. Com base nisso, é válido citar o que diz J. Teixeira Coelho Netto, em Semiótica, Informação e Comunicação (Perspectiva, 1980), sobre a dimensão política do signo2. Para ele, os signos são lidos a partir de um texto e do que há dentro de seus limites, revelando a mensagem por meio dessa construção e combinação de sentidos – pode-se, aqui, contextualizar ao impacto das primeiras páginas de um jornal, que utilizam signos verbais e não-verbais. Além disso, o autor também compara os sistema de circulação o sistema de circulação de mercadorias: (...) é imediata a observação segundo a qual, uma vez que a moeda substitui as coisas por seus signos, a circulação destes acaba se processando sobre o mesmo sistema (ou um sistema equivalente) em que se baseia a circulação da moeda. Em outras palavras, os indivíduos acabam por definir-se através de um sistema de troca de informações do mesmo modo como são definidos, no atual modelo econômicosocial, pelo sistema de troca de mercadorias. Seu papel, seu lugar, suas esperanças são inteiramente determinados por este último – o que implica, agora, dizer que são determinados pelo sistema de informação (COELHO NETTO, p. 204) A troca de bens intelectuais, princípio do marketing de idéias, abrange muito mais do que a técnica de compra e venda aplicada a um bem tangível. Quando se comercializa uma idéia, a intenção é convencer o consumidor de que é preciso “comprar” um novo hábito, um novo paradigma, uma nova visão de mundo. Adaptando essa realidade aos meios de comunicação, percebe-se por que o mito da imparcialidade (citado no primeiro capítulo desta pesquisa) perdura na imagem que os jornais vendem de si mesmos. Nesses últimos 50 anos, é notório que se agregou à prática do Jornalismo o uso do Marketing na produção da notícia. E é esse o novo período pelo qual essa área da Comunicação passa. Marshall (2003) defende a idéia de que a imprensa atual é meramente capitalista e substituiu a imprensa ideológica que antes existia. A informação depende antes da linha editorial e econômica do veículo do que do real interesse de sua publicação. Ignácio Ramonet (2001, p.37) exemplifica: A informação se tornou de verdade - e antes de tudo - uma mercadoria. Não possui mais valor específico ligado, por exemplo, à verdade ou à sua eficácia cívica. Enquanto mercadoria, lá está em grande parte sujeita às leis do mercado, da oferta e da demanda, em vez de estar sujeita a outras regras, cívicas e éticas, de modo especial, que deveriam, estas, sim, ser as suas.

Importante ressaltar que, mesmo não existindo estudos claros sobre a influência 2 Entende-se signo como “tudo aquilo que representa outra coisa”. (COELHO NETTO, 1980, p. 20)

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do marketing na produção jornalística, é evidente que a notícia hoje está permeada de intenções mercadológicas. E cada vez mais as estratégias de marketing têm sido utilizadas em larga escala, aumentando a desinformação e a deformação causadas pela imprensa brasileira.

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NOVAS TECNOLOGIAS, TRABALHO, ESCOLA E FAMÍLIA EM TEMPOS DE RIGIDEZ E FLEXIBILIDADE Celso Rogério Klammer1

Universidade Positivo

RESUMO Neste artigo, partiu-se do pressuposto de que toda sociedade, em épocas diferentes, tem formas próprias de expressar sua cultura e de manifestar também a forma como os indivíduos se organizam, se relacionam, produzem e difundem o conhecimento. Para tanto, tomou-se como referência o avanço da tecnologia da informação que sempre trouxe significativas transformações e um novo processo de aprendizagem e interação social. Sendo assim, dividiu-se o texto em três momentos. Inicialmente procurou-se pensar a relação entre educação, sociedade e tecnologias, numa perspectiva histórica, entendendo que a educação se define no conjunto das relações sociais, que é, portanto, uma prática social e histórica. No segundo momento, tomando como ponto de partida o desenvolvimento industrial, observou-se que, até os anos 1970, havia, e ainda há, um princípio educativo de base taylorista-fordista regendo, além das demandas do mundo trabalho, as relações na família e na escola. Nesta ótica refletiu-se que os indivíduos são formados numa perspectiva rígida, linear e hierárquica. No terceiro momento, analisou-se o avanço científico e tecnológico da contemporaneidade e o princípio educativo que passa a nortear as relações entre as pessoas no mundo do trabalho, na escola e na família. Esta análise aponta que estas relações são marcadas pela flexibilidade e pelo efêmero. E finalmente, à guisa de conclusão defende-se a necessidade de uma mudança de paradigma que provoque os indivíduos à indignação diante das injustiças sociais, que conduza-os à autonomia e à busca de alternativas para transformação da realidade. Palavras-chave: tecnologias da informação, taylorismo–fordismo, rigidez, flexibilidade.

ABSTRACT In this article, it was taken for granted that every society, at different times, has its own ways of expressing its culture and also presents the different forms of individual organization; the way people relate, the way they produce and the way they spread out their knowledge. In order to do that, this text has been divide into three parts. First, The relationship among education, society and technology has been established using a historical approach, assuming that education is part of a social network, therefore, it is a social-historical praxis. Second, using the industrial development as a starting point, it has been noticed that, up to the 1970s, there was and still is an educational 1 Doutorando em Educação pela PUCPR. Mestre em Educação pela UFPR. Professor de Teoria e Método da Pesquisa em Comunicação e Metodologia da Pesquisa na Universidade Positivo e Coordenador de TCC nos cursos de Comunicação Social - Publicidade e Propaganda e Pedagogia. - crk@up.edu.br


NOVAS TECNOLOGIAS, TRABALHO, ESCOLA E FAMÍLIA EM TEMPOS DE RIGIDEZ E FLEXIBILIDADE

premise based on taylorism and fordism guidelines, which lead the world of work, family and education. Third and last, scientific and technological advances have been analyzed and the educational premise that guides the actual relationships within the world of work, family and school brought to light. The present analysis points out that these relationships are marked by flexibility and promptness. At last, the conclusion states the need for a change in patterns in order to bring the individuals to a state of indignation concerning the social injustices, providing and opportunity for an autonomous behavior and for research on alternatives for transformation in their reality. Keywords: technologies of the information, taylorism, fordism, rigidity, flexibility.

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CELSO ROGÉRIO KLAMMER

1 INTRODUÇÃO Acredita-se que o conteúdo desta reflexão pode trazer alguns elementos que ajudariam a compreender o embate que se estabelece na sala de aula: por um lado, o professor que, na ânsia de explicar o que sabe, porque sente que pode contribuir para a formação dos jovens, se queixa de seu desinteresse, de sua falta de compromisso com o conhecimento e, por outro, os alunos que, muitas vezes rebeldes e apáticos, lutam para decifrar e entender os conteúdos que lhes são propostos. Neste sentido, nota-se que, na sala de aula, se evidenciam, de forma mais explícita, as tensões, contradições e exigências da sociedade atual, marcada pela tecnologia da informação e da comunicação. Por este viés pretende-se analisar a relação possível entre as tecnologias da informação e da comunicação, o mundo do trabalho, a escola e a família.

2 EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E TECNOLOGIAS Na análise deste tema, parte-se do pressuposto de que toda sociedade, em épocas diferentes, tem formas próprias de expressar sua cultura e de manifestar também a forma como os indivíduos se organizam, se relacionam, produzem e difundem o conhecimento. Defende-se que, com o avanço da tecnologia da informação, a sociedade, passando por significativas transformações, demanda um novo processo de aprendizagem e interação social. Enguita (2004, p. 19) afirma que “as mudanças constantes nas tecnologias e nas formas de organização (isto é, nos modos de relacionamento com as coisas e com as pessoas, respectivamente) requerem novas etapas de aprendizagem [...]”. Para se compreender a importância que este tema ocupa na contemporaneidade, considera-se fundamental enfocá-lo numa perspectiva histórica, ainda que a partir de uma breve contextualização. Para esta abordagem, defende-se que o ser humano, à medida que procurou produzir sua sobrevivência, sempre desenvolveu a capacidade de transformar a matéria existente na natureza em objetos para suprir suas necessidades. Nas comunidades primitivas, por exemplo, ele podia transformar determinado objeto, retirado de seu estado natural, em ferramenta de trabalho. O fêmur de um animal morto poderia ser transformado em instrumento de trabalho para abater outro animal. O fogo também significou uma grande inovação tecnológica pois tornou o homem criador e permitiu-lhe o domínio sobre a natureza, como afirma Davis (1983, p. 369): A tecnologia, então nova, com sua capacidade de emitir luz tem um efeito profundo na aprendizagem: proporciona calor e ao mesmo tempo dá aos alimentos sabores nunca antes alcançados. Emite luz na escuridão da noite, o que serve para manter afastados os animais depredadores.

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Estas transformações tecnológicas das comunidades primitivas levam a perceber que houve, não só uma profunda modificação na relação e organização dos homens e das mulheres, mas também uma nova forma de aprender. O fogo, por exemplo, além de aquecer e cozinhar alimentos, podia também oferecer mais segurança possibilitando, ao redor da fogueira, a troca de experiências através das histórias que podiam ser contadas. Sob esta ótica, os indivíduos são seres de relações e, à medida que se relacionam consigo mesmos e com os outros, transformam o seu agir. É preciso conceber o homem como uma série de relações ativas (um processo) em que, se a individualidade tem a sua máxima importância, não é, porém,o único elemento a considerar. A humanidade que se reflete em cada individualidade é composta por diversos elementos: 1) o indivíduo; 2) os outros homens; 3) a natureza” (GRAMSCI, 1991, p. 48).

O ser humano é social e aprende no ambiente histórico. As crianças da comunidade primitiva aprendem sob a vigilância difusa deste ambiente. Por ser uma comunidade essencialmente igualitária, onde todos os membros ocupam a mesma posição na produção da sobrevivência, ninguém, em especial, se responsabiliza por ensiná-las. As crianças se educam fazendo parte da coletividade e segundo o princípio pedagógico nele vigente. A sua consciência (da criança) era um fragmento da consciência social, e se desenvolvia dentro dela. Assim, antes de deixar as costas da mãe, ela já havia recebido, [...] o ideal pedagógico que o seu grupo considerava fundamental para a sua própria existência. Em que consistia esse ideal? Em adquirir, [...] o sentimento profundo de que não havia nada, [...] superior aos interesses e às necessidades da tribo (PONCE, 1996, p. 21).

Por este viés de análise pode-se afirmar que o indivíduo, na busca da sua sobrevivência, sempre foi inovando. Criou a ferramenta para que pudesse intervir e transformar a natureza. Mas ele também se transformou, pois, à medida que potencializou sua capacidade de intervenção, foi modificando outros elementos da natureza segundo as novas necessidades que iam surgindo a cada momento. Essa intervenção do sujeito na natureza constituiu a sua prática produtiva, ou seja, o sujeito, ao compreender a natureza, pôde transformá-la e construir assim seu mundo histórico e a produção da sua sobrevivência. Embora sejam os indivíduos que se relacionem concretamente com a natureza, sua ação é sempre uma ação coletiva. Pode-se dizer então que essa prática social está diretamente vinculada à prática produtiva, pois, à medida que o indivíduo se organiza socialmente, estabelecendo relações com seus pares, ele produz a sua sobrevivência. E para produzir sua sobrevivência, retirando da natureza tudo de que necessita, o indivíduo pode aprender com a convivência coletiva. Neste sentido, Saviani (2001, p. 154), afirma: [...] a educação praticamente coincide com a própria existência humana. Em outros termos, as origens da educação se confundem com as origens do 80 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p77-96| 1° Semestre 2009


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próprio homem. À medida que determinado ser natural se destaca na natureza e é obrigado, para existir, a produzir sua própria vida é que ele se constitui propriamente enquanto homem [...]

Em sentido amplo, entende-se que a educação se define no conjunto das relações sociais, que é, portanto, uma prática social e histórica. O indivíduo se relaciona com os outros indivíduos, com a natureza, participa uma determinada concepção de mundo e produz sua existência pela aprendizagem. A educação é concebida como uma prática social, uma atividade humana e histórica que se define no conjunto das relações sociais, no embate dos grupos ou classes sociais, sendo ela mesma forma específica da relação social (FRIGOTTO, 1995a, p. 31).

Nesta perspectiva, o indivíduo, ao longo da história da humanidade, para sobreviver, cria e aperfeiçoa tecnologias que também lhe garantem formas de aprendizagem: os sinais pictográficos, gravados, com estiletes, sobre tabletes de argila úmida, dão origem à escrita; a imprensa possibilita a reprodução de várias obras e o acesso de um maior número de pessoas aos livros; a bússola e as caravelas viabilizam as viagens marítimas que, por sua vez, contribuem para que se questionem as verdades tidas como absolutas, desmitificando o imaginário europeu quanto à existência de monstros marinhos; a industrialização altera a base técnica da sociedade.

3 SOCIEDADE, FAMÍLIA E ESCOLA EM TEMPOS DE RIGIDEZ A produção e satisfação das necessidades do ser humano e da sua relação com o aperfeiçoamento tecnológico tem sua explicitação essencial com o desenvolvimento industrial em suas diferentes fases, alterando a base técnica da sociedade. De acordo com Sancho (1998, p. 29-30), [...] é nas sociedades industriais e principalmente nas pós-industriais que a tecnologia se transforma em um fenômeno gerador. A interação do indivíduo com as suas tecnologias têm transformado profundamente o mundo e o próprio indivíduo.

Katz (1995, p. 22) também se refere à revolução industrial como “um acontecimento específico e original... a plataforma histórica das revoluções tecnológicas...”. Pode-se então afirmar, aferindo, Frigotto (1995b, p. 18)2, que este processo aponta em direção a três grandes mudanças na base técnica da sociedade: - 1780-1840: colimação de um grande processo de inúmeras mudanças técnicas a partir da máquina a vapor (Primeira Revolução Industrial). - 1860-1910: novas formas de energia - petróleo, eletricidade, química fina, etc. (Segunda Revolução Industrial) - a partir dos anos 1950 desenham-se mudanças marcadas fundamentalmente 2 Nessa abordagem, Frigotto refere-se à análise de Williams no texto Hacia al año 2000 (Barcelona: Gribaldo, 1975).

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pela microeletrônica associada à informática, microbiologia e engenharia genética, possibilitando criação de matéria prima e novas fontes de energia (Terceira Revolução Industrial).

Schaff (1996, p.22), referindo-se às mudanças tecnológicas contemporâneas, afirma que há uma segunda revolução técnico-industrial em curso: A primeira, que pode ser situada entre o final do século XVIII e o início do século XIX e cujas transformações ninguém hesita em chamar de revolução, teve o grande mérito de substituir na produção a força física do homem pela energia das máquinas (primeiro pela utilização do vapor e mais adiante sobretudo pela utilização da eletricidade). A segunda revolução, que estamos assistindo agora, consiste em que as capacidades intelectuais do homem são ampliadas e inclusive substituídas por autômatos, que eliminam com êxito crescente o trabalho humano na produção e nos serviços.

Em que pesem as diferenças de abordagem dos autores acima citados, entendese que todos enfocam a mudança na base técnica da sociedade, a partir da Revolução Industrial, e a relacionam com a produção do conhecimento humano. Pode-se assim compreender que tanto a Revolução Industrial do século XVIII como a do século XIX não significam somente uma mudança na base técnica. “A revolução industrial muda também as condições e as exigências da formação humana” (MANACORDA, 1996, p. 271). No século XVIII, com a Primeira Revolução Industrial, a energia a vapor substitui a humana, surge uma nova classe social - o proletariado - e fortalece-se a burguesia. A partir do século XIX, com a Segunda Revolução Industrial, também ocorrem mudanças sociais como a nova organização do capitalismo, pautada por uma base técnica eletromecânica e princípios tayloristas/fordistas. [...] entendemos o fordismo fundamentalmente como a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo deste século, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em massa, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle dos tempos e movimentos pelo cronômetro taylorista e produção em série fordista; pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução no processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição do operário-massa, o trabalhador coletivo fabril, entre outras dimensões... compreendemos o fordismo como o processo de trabalho que, junto com o taylorismo, predominou na grande indústria capitalista ao longo deste século (ANTUNES, 2000, p. 17).

Assim, no que se convencionou chamar de taylorismo-fordismo, implantase a produção em massa e investe-se no aumento do número de assalariados. No âmbito da administração, a gerência passa a controlar os movimentos do trabalhador, determinando até o tempo que deve gastar no desempenho de suas atividades. Neste sistema produtivo, cada um tem uma tarefa clara a desempenhar: o trabalhador executa

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sua tarefa; a máquina impõe, com suas esteiras automatizadas, o ritmo da produção; e a gerência planeja todo o processo produtivo, a partir do conhecimento elaborado, sistematizado e aprofundado. É importante destacar os princípios que o próprio Taylor elaborou: Primeiro: desenvolver para cada elemento do trabalho individual uma ciência que substitua os métodos empíricos. Segundo: selecionar cientificamente, depois treinar, ensinar e aperfeiçoar o trabalhador. No passado ele escolhia seu próprio trabalho treinava a si mesmo como podia. Terceiro: cooperar cordialmente com os trabalhadores para articular todo trabalho com os princípios da ciência que foi desenvolvida. Quarto: Manter a divisão eqüitativa de trabalho e de responsabilidades entre a direção e o operário. A direção incumbe-se de todas as atribuições para as quais esteja mais bem aparelhada do que o trabalhador, ao passo que no passado quase todo o trabalho e a maior parte das responsabilidades pesavam sobre o operário (TAYLOR, 1980, p. 49-50).

Dessa forma, ocorre a fragmentação do trabalho, e a divisão de funções entre o gerente da fábrica e os operários. Registram-se, portanto, uma nítida separação entre o saber e o fazer e uma rígida hierarquização no âmbito das relações de trabalho. [...] o trabalho de cada homem é totalmente planejado pela gerência que fornece instruções por escrito acerca do que, como e em que tempo deve ser feito o trabalho. A gerência passa a ser científica: realiza estudos e coleta conhecimentos e informações acerca do trabalho, o que não ocorre com o trabalhador, dada a sua suposta incapacidade. Este monopólio do saber sobre o trabalho confere ao gerente poder para controlar cada fase do processo de trabalho que, quanto mais complexo, mais se separa do trabalhador (KUNZER, 1995, p. 30).

De acordo com este enfoque, o trabalhador não precisa explorar sua capacidade intelectiva nem buscar alternativas para resolver problemas porque a gerência determina o que e como fazer. Sua habilidade cognitiva fundamental é a capacidade de memorização para o desempenho de movimentos repetitivos. Portanto, basta possuir coordenação motora fina e acuidade visual. Assim, a adaptação do trabalhador às novas formas de produção desenvolveuse não só pela coerção imposta pelas necessidades de sobrevivência mas também por meio de instituições como a escola. Alguns teóricos da economia política afirmavam que a instrução escolar era importante para os trabalhadores pois os tornavam mais aptos às necessidades da vida moderna. [...] a evolução da ‘moderníssima ciência da tecnologia’ leva a uma substituição cada vez mais rápida dos instrumentos e dos processos produtivos e, portanto, impõe-se o problema de que as massas operárias não se fossilizem nas operações repetitivas das máquinas obsoletas, mas que estejam disponíveis às mudanças tecnológicas, [...] até os próprios industriais são obrigados, pela realidade, a se colocarem o problema da instrução das massas operárias para atender às novas

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necessidades da moderna produção de fábrica (MANACORDA, 1996, p. 272).

Percebe-se com clareza que, neste contexto, a tarefa do trabalhador é desempenhar funções meramente manuais, que não demandam muita escolaridade. Sua formação deve limitar-se ao domínio de conhecimentos básicos sobre leitura, escrita e cálculo, que lhe garantam as ações repetitivas de seu fazer profissional. Requer-se, no entanto, daqueles que exercem a função de dirigentes na sociedade, sob a ótica política ou técnica, outra postura nas relações com o trabalho: que sejam estas mediadas pelo conhecimento científico, por habilidades cognitivas mais elaboradas, enfim, por uma formação que priorize o domínio de conhecimentos mais profundos e sofisticados. O taylorismo e o fordismo da produção em massa requeriam uma organização do trabalho hierarquizada de forma piramidal, na qual a criatividade e a inteligência concentravam-se na cúpula, enquanto o restante das pessoas devia executar mecanicamente as instruções recebidas (TEDESCO, 1998, p. 18).

Para dar sustentação a esta forma de administração, é preciso uma gerência que tenha “pulso firme” e tenha como categorias fundantes da sua prática a rigidez e a hierarquização. Ela é quem domina o conhecimento como um todo, sabe como melhor encaminhar as demandas do cotidiano profissional e determina como e quando as tarefas devem ser executadas. Por este viés de análise, observa-se que, até os anos 1970, havia, na sociedade e ainda há - considerando a relação entre permanência e ruptura do movimento histórico - um princípio educativo regendo, além das demandas do mundo do trabalho, as relações na família e na escola. Este princípio educativo, oriundo da base técnica de produção tayloristafordista, procura manter a divisão social e técnica do trabalho ao dicotomizar as ações intelectuais e manuais no mundo da produção. Mantém-se uma estrutura bem definida, com mecanismos de controle, através da supervisão na produção, no planejamento e na gestão segundo os princípios da administração científica, além de estímulos comportamentalistas como treinamentos para liderança, motivação e satisfação no trabalho. Considerando que cada sociedade, em épocas diferentes, possui maneiras próprias para formar seus intelectuais e entendendo que o objetivo da educação é preparar o cidadão para que participe da vida política e produtiva, defende-se que a escola também ocupa uma importante função na preparação desse cidadão. Portanto, ela não está isenta das exigências da sociedade para essa formação. Levando em conta o projeto pedagógico de base taylorista-fordista, vigente até os anos 1970, percebe-se que há uma semelhança no encaminhamento metodológico das tendências pedagógicas conservadoras no espaço escolar. Neste sentido a escola também se organiza numa perspectiva rígida, linear e com mecanismos de controle bem definidos.

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Nada mais adequado do que uma escola que, para realizar o trabalho pedagógico assim definido, se organizasse de forma rigidamente hierarquizada e centralizada para assegurar o pré-disciplinamento necessário à vida social e produtiva. (KUENZER, 2000, p. 36).

A escola humanista tradicional, por exemplo, se propunha a formar os dirigentes do seu tempo, com boa oratória e ótima cultura geral, para que desenvolvessem a capacidade de pensar e de se comportar a partir de determinantes mais gerais da sociedade. O conteúdo ensinado visava à formação da personalidade e do caráter a partir da assimilação do passado cultural da civilização. Essa proposta era voltada para os filhos dos dirigentes, enquanto que para os filhos da classe trabalhadora a formação era para a profissionalização, uma vez que desempenhariam funções meramente manuais. As noções singulares não eram aprendidas visando-se a uma imediata finalidade prático-profissional: esta finalidade não se revelava, pois o que contava era o desenvolvimento interior da personalidade, a formação do caráter através da absorção e da assimilação de todo o passado cultural da civilização européia moderna [...] Não se aprendia latim e o grego para saber falar estas línguas [...] (mas) a fim de ser e de conhecer conscientemente a si mesmo... Trabalhavase com rapazolas, aos quais deve-se levar a que contrariam certos hábitos de diligências, de exatidão de compostura mesmo física, de concentração psíquica em determinados assuntos [...] (GRAMSCI, 1991, p. 3-4).

Neste sentido, nota-se que o compromisso da escola é com a transmissão de conteúdos que contemplem a verdade numa perspectiva formal e linear. O método de ensino é o expositivo e o mais importante é que o aluno memorize, para cumprir suas tarefas e reproduzir os conhecimentos nos testes avaliativos. O conhecimento está centralizado no livro didático e no professor que exerce sua autoridade de forma rígida e hierarquizada. No contexto desse princípio educativo, pode-se refletir acerca da estrutura da família. Ela também encontra-se organizada segundo uma ordem hierárquica e rígida cujo poder decisório está centralizado na figura paterna. A família burguesa, de características patriarcais, tem sua origem na Revolução Industrial e adapta-se às necessidades de uma sociedade de produção em massa. Para Adorno e Horkheimer (1976, p. 217) este tipo de família se torna um lugar de adestramento para a adequação social, ou seja, é um reflexo da sociedade capitalista, hierárquica e machista. Para Ariès (1981, p. 75), a mãe é a responsável pela educação dos filhos; ao pai, cabe apenas cuidar do custeio dos estudos e estabelecer os padrões e as regras de comportamento e aos filhos, obedecer ao que é determinado. No Brasil, até os anos de 1970, os filhos dos trabalhadores são formados, sob uma perspectiva rígida, para exercer funções manuais na fábrica ou no campo. Para a classe média, Vaitsman (1994, p. 96) afirma que: as carreiras mais esperadas para os filhos da classe média eram, além das militares, o tradicional trinômio: engenharia, medicina e direito. Uma profissão que

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viesse a possibilitar o bom desempenho como chefe de família era tudo que os pais queriam de um filho. Quanto às mulheres da classe média, devem reproduzir os papéis que lhes são reservados na família e na vida privada. Em termos profissionais, podem exercer a função de professoras primárias, porque era condizente com a natureza feminina e não exigia tempo integral. Para as famílias de classe média baixa ‘as meninas só precisavam fazer o primário, porque iam casar, não precisavam de estudo. Os meninos iam trabalhar, mas não eram estimulados a estudar’(VAITSMAN, 1994, p. 95). À luz de Sennett (1999), pode-se dizer que, até os anos 1970, as relações entre as pessoas se estabelecem “longo prazo”, já que são duráveis e configuram um “senso de identidade sustentável”. [...] o tempo era linear em suas vidas: ano após ano trabalhando em empregos que raras vezes variavam de um dia para o outro. E nessa linha de tempo, a conquista era cumulativa: toda semana, [...] conferiam o aumento de suas poupanças, mediam a vida doméstica pelas várias melhorias e acréscimos que haviam feito na casa [...]. E finalmente, o tempo que viviam era previsível [...] os sindicatos protegiam seus empregos; [...] sabiam exatamente quando iam aposentar-se e o pecúlio que teriam (SENNETT, 1999, p. 14).

Tomando o longo prazo como categoria de análise, é possível entender como se constituíam os namoros e os casamentos. Os namoros eram longos e sérios, sempre sob a vigilância da família. Namoro “sério” significava um firme compromisso para o casamento, que na grande maioria das vezes era dissolvido somente com a morte de um dos cônjuges. Vaitsman (1994, p. 112) analisa: [...] o ciclo típico ideal que levava ao casamento moderno, [...] começava com um namoro sob as vistas da família da moça, prosseguia com o noivado sob o mesmo controle e, após alguns anos, desembocava no casamento civil e religioso, com véu, grinalda, festa e convidados. Tudo isto tomando-se como pressuposto a virgindade da moça, defendida até o dia do casamento.

Neste sentido percebe-se que o princípio educativo presente no mundo do trabalho marca sua presença tanto na família quanto na escola. Neste caso, pode-se afirmar que trabalho, família e escola estão diretamente articulados no projeto pedagógico da sociedade do seu tempo e é, sob esta ótica, que as pessoas são formadas. Para Tedesco (1998, p. 36-37) Na situação típica do século XIX, a escola era uma continuação da família em tudo o que se referia à socialização moral e aos estilos de vida. A escola transformava a criança naqueles aspectos que fortaleciam a coesão social: adesão à nação, aceitação da disciplina e dos códigos de conduta, etc. Nesse processo, a criança passava de uma instituição de coesão a outra instituição de coesão, nas quais vigoravam as mesmas categorias: seqüência e hierarquia. A seqüência e a hierarquia supõem um modelo único, dominante, com base no qual são estabelecidos os graus e as etapas. 86 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p77-96| 1° Semestre 2009


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4 SOCIEDADE, FAMÍLIA E ESCOLA EM TEMPOS DE FLEXIBILIDADE Hoje, à medida que a sociedade se moderniza científica e tecnologicamente, a escola humanista tradicional, fundamentada na divisão entre funções intelectuais e manuais, entra em crise. Se ela entra em crise, exige-se a mudança da escola atual pois, a própria sociedade está em transição e necessita de um outro tipo de educação. Cabe então observar que não se pode compreender a escola fora do contexto social, político, econômico e cultural em que está inserida. Sendo assim, acredita-se que é preciso compreender as transformações da sociedade contemporânea e perceber a necessidade da formação de um sujeito que domine o conhecimento elaborado, desenvolva sua consciência crítica e compreenda as relações que estabelece com os outros indivíduos e com a natureza. Entre outras coisas, a sociedade contemporânea exige um novo tipo de intelectual. Não somente aquele que desempenha a função de dirigente, mas todos os trabalhadores dos diferentes segmentos sociais. E também aquele que usava somente sua força de trabalho já não serve mais. O trabalhador de novo tipo deverá se apropriar do conhecimento elaborado que lhe possibilite agir prática e intelectualmente. A este trabalhador de novo tipo já não bastam algumas técnicas parciais de uma tarefa fragmentada; além de ser especialista, ele deverá potencialmente estar preparado para ser dirigente, sendo ao mesmo tempo capaz de atuar praticamente e trabalhar intelectualmente, dominando ao mesmo tempo as tarefas específicas, as formas de organização e gestão do trabalho, e compreendendo as relações sociais amplas que constituem a sociedade onde exerce as funções de produtor e de cidadão (KUENZER, 1996, p. 3).

A contemporaneidade, caracterizada pelo avanço científico e tecnológico, pela expansão dos mass media e do acesso a estes meios de comunicação, pela microeletrônica e biotecnologia, coloca em crise a divisão entre funções intelectuais e instrumentais. O desenvolvimento científico e tecnológico em diversas áreas, como Biotecnologia e Engenharia Genética, tem um papel relevante e revolucionário no campo da microeletrônica e das telecomunicações. A informática, por exemplo, ao criar novas possibilidades para o processo de automação, modifica o trabalho humano e traz conseqüências significativas para a qualificação do trabalhador, como novas formas de produzir, armazenar, processar, recuperar e transmitir informações. Pode-se assim afirmar que as transformações vividas no mundo contemporâneo, resultantes das tecnologias da informação, invadem o cotidiano. Quando aqui se mencionam estas tecnologias, o que se pretende é enfocar os aparelhos da microeletrônica e das telecomunicações que produzem, processam, recuperam e transmitem informações, como televisor, videocassete, computador, rádio e internet, entre outros. Todos os segmentos sociais têm acesso à televisão e ao rádio, que transmitem informações a uma velocidade meteórica.

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Elas estão nas salas de aula, nas famílias, nas conversas de trabalho, nos núcleos e grupos de educação não formal etc. E sua presença não depende do aparelho ligado. Sequer depende de o indivíduo possuir ou não o aparelho (de rádio, de televisão, de vídeo) ou ser assinante do jornal ou de revista. (BACCEGA, apud: KENSKI, 1996, p. 128).

O acesso a tais informações reformula as regras de convivência, gera novos hábitos e formas de pensar e agir, além de traçar um novo perfil de trabalhador com maior escolaridade e cultura mais sofisticada. Neste contexto, mudam o processo de aprendizagem e de interação social, ou seja, não há somente uma mudança tecnológica, mas também uma transformação na organização e interação dos homens e mulheres. Assim sendo, entende-se que novas questões se colocam para o sistema de ensino e que a escola, inserida na sociedade, não pode ficar alheia a essas transformações. Por esta vertente de análise, Soares (2006, p.25) observa que: O avanço tecnológico que atingiu a sociedade nas últimas décadas no mundo e no Brasil caracteriza a mudança de comportamento nas relações interpessoais e do mundo do trabalho alterado em seus processos, incorporando novas rotinas e exigindo uma nova comunicação entre as pessoas e as atividades que as integram, refletindo novas relações de conhecimento individual e coletivo.

Tedesco (1998, p.19) também chama a atenção para o fato de que “as mudanças na sociedade atual estão intimamente vinculadas às novas tecnologias da informação. Essas tecnologias têm um impacto significativo não só na produção de bens e serviços, mas também no conjunto das relações sociais”. Diante das inovações tecnológicas, exige-se, também, trabalho flexível e flexibilização das funções. O trabalho flexível procura reduzir os níveis de divisão e fragmentação do trabalho, ao oportunizar a rotatividade das funções. Assim o trabalhador deverá ser polivalente, desempenhar várias funções e desenvolver diferentes tarefas. Salermo (2001, p.59) afirma que, como polivalente, o trabalhador deverá ser multifuncional que “se caracteriza por operar mais de uma máquina com características semelhantes” e deverá também ser multiqualificado para desenvolver e incorporar diferentes repertórios e habilidades profissionais. [...]seja um operário responsável pela operação de um equipamento flexível, seguindo o princípio da flexibilização esta função abrangerá a execução de várias tarefas tais como: inspeção da qualidade dos produtos fabricados, manutenção preventiva do equipamento, preparação dos serviços, limpeza e ordem do local de trabalho e supervisão geral do processo... a flexibilidade do trabalho também abrange as multifunções que um trabalhador está capacitado a exercer... este aspecto seria representado pela capacidade adquirida pelo operário, ou grupo de operários, de operar diversos equipamentos ao longo do processo de produção saber operar vários tipos de máquinas definiria o grau de polivalência do operário, atributo a ser considerado nos sistemas de avaliação e retribuição da organização (TORRES JUNIOR, 1994, p. 95). 88 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p77-96| 1° Semestre 2009


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Observa-se que, quanto mais avança o desenvolvimento científico e tecnológico, mais simples se torna o fazer do trabalhador. Por outro lado, mais complexa fica a sua qualificação, pois implica um difícil acesso à ciência, uma apropriação quantitativa e qualitativamente nova do conhecimento científico. Machado (1995, p. 185) afirma que, com a flexibilização funcional, mais se exige do trabalhador: escolaridade básica, capacidade de adaptação a novas situações e compreensão global de um conjunto de tarefas, o que, por sua vez, demanda capacidade de abstrair e selecionar, assim como de tratar e interpretar informações. Assis (2001), referindo-se à pesquisa executada pelo Instituto de Economia Industrial da Universidade Federal do Rio de janeiro, que pretendia delinear o cenário para a formação profissional do ano 2000, discute o significado do nível de qualificação do trabalhador: em um rol de 15 atributos de qualificação despontaram como os mais relevantes para o profissional do futuro os que se seguem [...]: raciocínio lógico; habilidade para aprender novas qualificações; conhecimento técnico geral; responsabilidade com o processo de produção; iniciativa para resolução de problemas. (ASSIS, 2001, p. 194).

Tudo indica que o avanço da base técnica industrial, provocada pela microeletrônica, trouxe a automação e com ele as novas tecnologias da informação, favorecendo, em boa parte, a superação do taylorismo/fordismo que divide o trabalho de forma parcelarizada e repetitiva. Neste sentido, levando em conta as transformações tecnológicas, o trabalhador deverá ser mais qualificado o novo trabalhador não poderá ser preparado apenas para o exercício de tarefas fragmentadas e repetitivas. No nível da atividade concreta do trabalhador tornam-se prioritários o novo paradigma, conhecimentos sobre o processo global de fabricação e gestão da produção, que se configuram como conhecimentos abrangentes e amplos do processo produtivo. (MACHADO, 1995, p.195).

Portanto, com o avanço das tecnologias da informação, passa-se a exigir não mais o bom orador com ótima cultura geral, mas o dirigente com capacidade de inovar e aprender cada vez mais. Entende-se que isso significa que do trabalhador de novo tipo exige-se conhecimentos que lhe possibilitem compreender o conjunto das tarefas que deve desempenhar; desenvolver a capacidade de resolver problemas e saber operacionalizar e interpretar as informações adquiridas. O trabalhador tradicional que se limitava a executar as tarefas repetitivas não serve mais. O novo trabalhador deve se apropriar do conhecimento que a escola pode lhe oferecer e construir novas competências que lhe dêem condições de agir prática e intelectualmente. Esses atributos, não são exigidos somente para o operário, mas também àqueles que exercem ou vão exercer funções de dirigentes. Para esses dirigentes também será necessária uma formação que lhes possibilite novas formas de organização e COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.77-96| 1° Semestre 2009 | 89


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gerenciamento, que também são exigidas pelas mudanças da sociedade. Acredita-se, portanto, que a escola deve oferecer um ensino que permita ao aluno dominar os princípios teórico-metodológicos para compreender a produção científica e tecnológica contemporâneas; apropriar-se de conteúdos histórico-críticos que lhe possibilite compreender as relações sociais no seu conjunto. Neste sentido a escola não pode ser um espaço em que apenas se transmitam informações, mas um lugar da sua análise crítica, como bem afirma Kenski (1996, p. 143): As informações vêm de forma global e desconexa através dos múltiplos apelos da sociedade tecnológica. A escola precisa aproveitar essa riqueza de recursos externos, não para reproduzi-los em sala de aula, mas para polarizar essas informações, orientar as discussões, preencher as lacunas do que não foi aprendido, ensinar os alunos a estabelecer distâncias críticas com o que é veiculado pelos meios de comunicação.

O objetivo da educação escolar é preparar os indivíduos para que participem da vida política e produtiva. Sendo assim, pode ser pensada a partir de um projeto pedagógico que expresse as transformações por eles vivenciadas e o compromisso com um sistema de ensino no qual se tenha claro o tipo de cidadão que se quer formar e para que sociedade. As transformações da sociedade contemporânea, contudo, levam a questionar seriamente: os fins da educação; a responsabilidade dos que assumem o processo educativo em função daqueles que precisam de referências para suas relações sociais e produtivas e, ainda, as premissas, os valores, a concepção de mundo e de ser humano, a partir dos quais se pretende formar as gerações presentes e futuras. Entende-se que este dinamismo do mundo, trazido pelas inovações tecnológicas, tem sido muito significativo, pois pode proporcionar uma vasta aprendizagem, mesmo que de forma assistemática. Quanto à escola, pode contribuir para a sistematização deste processo e ser também um espaço no qual se manifestem o modo de ser do estudante e as contradições da sua realidade vivenciada. Conforme explicitado anteriormente, acredita-se que cada sociedade, em cada época, tem formas próprias de expressar sua cultura e também de manifestar como os seres humanos se organizam e se relacionam, produzem e difundem o conhecimento. Neste sentido, pode-se afirmar que a escola ocupa uma importante função na formação do ser humano, pois é seu dever garantir a todos o acesso aos requisitos fundamentais à vida em sociedade. Charlot (2001, p. 36) afirma que a escola é o principal lugar de convivência social [...] alguns professores queixam-se de que, para muitos dos jovens, a escola é ‘apenas um ponto de encontro’ [...] No entanto, o encontro é uma das condições necessárias para que as relações de ensino/aprendizagem sejam realmente frutíferas,

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As instituições que outrora assumiam um papel de disciplinamento, socialização e moralização sofreram profundas transformações, inibiram-se ou perderam sua eficácia. No que diz respeito à escola, também se modificou. No dizer de Enguita (2004, p. 66): Se antes ela ocupava apenas um lugar discreto na vida das pessoas (4 a 6 anos para a maioria, menos ou nada para muitos, e mais do que isso apenas para alguns poucos encaminhados às profissões liberais e burocráticas), passou a absorver praticamente a infância, a adolescência e boa parte da juventude [...] É desnecessário dizer que esse tempo a mais na escola é tempo a menos na família, na comunidade e no trabalho, o que por si só, já justifica um papel maior da escola na moralização das crianças.

Sendo assim, pode-se afirmar que, na contemporaneidade, também há um princípio educativo, baseado na flexibilidade, que norteia a relação das pessoas. A família, por exemplo, assume uma nova configuração. Devido às exigências da sociedade atual, cada um deve trabalhar muito para poder consumir e não há mais exclusividade para um provedor nem amparo para a concepção de relações eternas: casamentos e famílias desfazem-se e refazem-se continuamente. Passa a predominar na sociedade o efêmero, o descartável, o flexível: na moda, nos produtos, nos processos de trabalho e até mesmo na instância dos valores como amizade, confiança e lealdade com ênfase para as celebridades instantâneas e para a descartabilidade. Esta flexibilização se percebe também nas relações afetivas, entre os jovens, caracterizadas como o “ficar”. De acordo com Almeida (2006, p.150): [...] a prática do ‘ficar’ entre os jovens é captada em sua dimensão de instantaneidade, em seu traçado efêmero e seriado, em sua identidade volátil. [...] Esta prática é acionada, fundamentalmente, por encontros velozes e fugazes de jovens que têm no beijo sua expressividade mais radical.

No dizer de Vaitsman (1994, p. 48): Estas transformações na organização socioeconômica e cultural, que atingiram boa parte do mundo contemporâneo, ajudariam a explicar por que as pessoas passaram a se descartar com muito mais facilidade não apenas dos bens, mas também dos valores, estilos de vida, relações estáveis e ligação com as coisas, construções, lugares, pessoas e modos herdados de fazer e ser: o sentido de que ‘tudo que é sólido desmancha no ar’ raramente teria sido tão penetrante.

Sennett (1999, p. 27) faz essa discussão, referindo-se ao “longo prazo”. Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos?

Estas transformações pautadas na descartabilidade, na fragmentação, na flexibilidade, possuem um grande significado no desenvolvimento social, econômico COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.77-96| 1° Semestre 2009 | 91


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e cultural da história do capitalismo, pois obriga a todos refletirem acerca das possibilidades de transformações e modificações das condições da sociedade atual. Percebe-se que há uma positividade no avanço tecnológico marcado pela flexibilidade, como o acesso a informação, as conquistas emancipatórias das mulheres e as novas formas de aprendizagem. Ao mesmo tempo há uma preocupação das famílias quanto às condições em que podem formar seus filhos, especialmente considerando sua própria ausência, ainda que necessária: todos os seus membros precisam trabalhar, para consumir e suprir as suas necessidades. Assim sendo, a escola viria ao encontro dos anseios dos pais, como afirma Enguitta (2004, p. 64): “hoje, a escola complementa a família como fazia antes a pequena comunidade à sua volta”. Pesquisas desenvolvidas por Souza, Bianchetti, Almeida (1994); Sallas et al. (1999; 2003); Spósito et al. (1989), entre outras coisas, indicam que o jovem valoriza a escola como condição necessária para o desempenho profissional e facilitadora de acesso ao mercado de trabalho. Kuenzer (1995) mostrou, em pesquisa realizada junto a operários, que a escola é, para eles, a alternativa para a apropriação do saber socialmente produzido, que não só lhes permite compreender melhor seu mundo e sua situação de classe como lhes proporciona melhores condições de vida. [...] reconhecem a importância desse saber (teórico), e a escola como local em que isso ocorre, Ou seja, percebem claramente que, embora a competência que a prática lhes confere seja suficiente para que ele realize seu trabalho com eficiência, o acesso a outras condições de vida e de trabalho depende da aquisição de um outro tipo de saber, conferido pela escola: o saber teórico. Ela (a escola) aparece aos operários como um local de efetiva democratização do saber e de humanização, a partir do que serão melhoradas suas condições de vida (KUENZER, 1995, 145 e 147).

Numa outra pesquisa, desenvolvida com alunos trabalhadores do 2° grau3, Kuenzer (1992) indica que eles reivindicam um ensino competente que lhes possibilite entrar no mundo do trabalho e prosseguir seus estudos, ingressando na universidade. Isso significa que o aluno vê na escola de segundo grau a mediação que lhe possibilita se apropriar do saber e lhe dá acesso a um emprego e à universidade. Nas expectativas do aluno trabalhador, está bem presente uma escola que lhe proporcione melhor compreensão do mundo em que vive e entendimento das transformações da sociedade trazidas pela ciência e pela tecnologia. Os alunos trabalhadores procuram a escola para melhor compreender o mundo em que vivem, para conhecer, para entender as transformações causadas na sociedade pelo avanço da ciência e da tecnologia, para aprender novas formas de comunicação, para conhecer e participar de outros grupos e de outras experiências sociais e culturais... no horizonte da aspiração do aluno trabalhador está a universidade, ele tem clareza que é só através de uma escola de 2° grau que lhe 3 A nova Lei de Diretrizes e Bases, n° 9.394, de 20.12.1996, refere-se à etapa final da educação básica, como Ensino Médio. Porém, opta-se pela expressão 2º grau, nessa discussão, respeitando o ano de publicação (1992), segunda edição, da obra de KUENZER: Ensino de 2° grau: o trabalho como princípio educativo.

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permita o acesso a um bom emprego que isto será possível. Será, pois, através da mediação de um 2° grau que lhe permita o acesso a algum saber sobre o trabalho que, apesar dos limites impostos pela sua origem de classe, o aluno trabalhador poderá assegurar as condições necessárias no financiamento do acesso e permanência nos cursos superiores (KUENZER, 1992, p. 101-102).

As referidas pesquisadoras na verdade nos mostram que alunos e trabalhadores reivindicam o acesso a um saber que lhes dê condições de conhecer as relações que determinam seu modo de vida e ainda de participar ativamente da vida política e produtiva. Portanto, acredita-se que a escola se torna o espaço que pode garantir a apropriação dos princípios teórico-metodológicos necessários ao incremento do fazer e do pensar dos seres humanos. Considerando as reflexões até aqui realizadas, entende-se que: 1) novas questões se colocam para o sistema de ensino, pois não só mudanças tecnológicas acontecem, mas também se transforma o modo de os sujeitos se relacionarem com o conhecimento, interagirem e se organizarem; 2) ocorre uma ampliação dos espaços pedagógicos, em conseqüência do uso das tecnologias da informação e comunicação, que leva o processo de aprender para além dos muros escolares, afetando significativamente as relações dos indivíduos consigo mesmos e com os outros. 3) o princípio educativo presente no mundo do trabalho marca sua presença tanto na família quanto na escola. Neste caso, pode-se afirmar que trabalho, família e escola estão diretamente articulados no projeto pedagógico da sociedade do seu tempo e é, sob esta égide, que as pessoas são formadas. No âmbito da educação, não se podem ignorar tais mudanças, que afetam as relações entre o mundo do trabalho, família e escola. O mundo do trabalho exige um profissional flexível e multifuncional. A família já não possui as características patriarcais em que a rigidez e a hierarquização imperavam: o pai ditava as normas e os filhos deviam apenas obedecer. A escola não é mais a continuação da família, “o segundo lar”. Atualmente a criança não mais passa de uma instituição rígida e hierárquica para outra semelhante. Reitere-se que as transformações da sociedade, acima explicitadas, afetam diretamente as relações entre família e escola. Observase que é preciso refletir seriamente sobre o fato de que crianças e jovens passam (de acordo com a lei) onze anos na escola básica e pelo menos mais quatro anos na Educação Superior: um longo tempo de permanência, que confere à instituição escolar grande responsabilidade na formação de sua identidade e no seu preparo para participar ativamente da vida em sociedade.

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IMPRESSÕES SOBRE O PORTO Maria Zaclis Veiga Ferreira1

Universidade Positivo

RESUMO Utilizando alguns preceitos sobre a fotografia como forma de contextualização do tema, o presente artigo trata da imagem fotográfica enquanto representação e pretende provocar reflexões sobre o imaginário simbólico apresentado em fotografias feitas por jovens brasileiros, estudantes de Jornalismo, sobre a cidade do Porto, em Portugal. As imagens que retratam o Porto quanto as suas características físicas, sociais e étnicas, são o resultado de um projeto entre a Universidade Positivo do Brasil e a Universidade Fernando Pessoa, de Portugal. Palavras-chave: fotografia; Jornalismo; cidade.

ABSTRACT Using some rules on the photograph as a form of contextualization of the subject, the present article deals with the photographic image as a representation and intends to provoke reflections on the symbolic imagery presented in photographs taken in the city of Porto by young Brazilians, journalism students. The images that show Porto and its physical, social and ethnic characteristics are the result of a project between Universidade Positivo in Brazil and Universidade Fernando Pessoa in Portugal. Keywords: photographic, journalism, Porto

1 Maria Zaclis Veiga Ferreira é jornalista, fotógrafa e professora da Universidade Positivo. É mestre em Multimeios pela UNICAMP e doutoranda em Comunicação pela Universidade Trás-os-Montes e Alto D’ouro, Portugal. É autora dos livros Telejornalismo e Violência Social e Visões de Ponta Grossa - Mosteiro da Ressurreição e organizadora do livro Entrevista Coletiva 3 - Jornalistas Portugueses, todos editados pela Pós-Escrito.


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INTRODUÇÃO A fotografia, desde seu surgimento, tem sido considerada a representação (recorte) da realidade, do fato. O “isso foi”, definido por Barthes (1984) como o noema da fotografia, empresta a ela um caráter de realidade e credibilidade que se amplia pela presença do fotógrafo/ testemunha. Registro repleto de significações e com uma linguagem própria, a fotografia apresenta em sua estrutura, entre outras coisas, aspectos do imaginário simbólico daquele que fotografa. Boris Kossoy afirma que “o processo de criação do fotógrafo engloba a aventura estética, cultural e técnica que irá originar a representação fotográfica, tornar material a imagem fugaz das coisas do mundo, torná-la, enfim, um documento.” (1999, p. 26) No mundo-imagem (SONTAG, 2004) que promete sobreviver a todos nós, o registro das cidades adquire contornos maiores do que os de interesse estético a partir do momento em que as complexidades da vida em sociedade passam a ser observadas e apreendidas pela fotografia. Ao refletir sobre o processo de criação do fotógrafo Kossoy discorre que “na imagem fotográfica encontram-se, indissociavelmente incorporados, componentes de ordem material que são os técnicos, ópticos, químicos ou eletrônicos indispensáveis para a materialização da fotografia e os de ordem imaterial, que são os mentais e culturais.” (1999, p. 27) Dessa forma, os componentes de ordem imaterial são aqueles que, mesmo quando determinados pelas circunstâncias que levam o fotógrafo a fazer o registro, sejam elas de trabalho, pesquisa e/ou lazer, se sobrepõem aos técnicos por congregarem em sua essência as relações do fotógrafo com seu universo e repertório particulares. Ao fotografar a cidade considerando essas questões, as imagens passam a agregar valores estéticos e sociais que não estão sós. Mais do que uma arquitetura, a cidade é o depósito das características predominantes do seu entorno e quando sujeita a uma diversidade de olhares pode sugerir ricas interpretações, carregadas de elementos simbólicos. Para refletir sobre o imaginário simbólico que perpassa o material produzido pelos alunos, a partir da concepção, captação e edição das imagens fotográficas é necessário contextualizar o tema e estabelecer algumas linhas de pensamento que servirão como auxiliares na leitura das pranchas fotográficas que compõem este trabalho.

O PROJETO (RE)CONHECER A CIDADE Quinze alunos do Centro Universitário Positivo participaram, em julho de 2006, do projeto de extensão (Re)Conhecer a Cidade, do qual resultou um registro fotográfico da cidade do Porto - Portugal, quanto a suas características físicas, sociais e étnicas. Os objetivos do projeto, contemplados por meio de captação fotográfica, estudo do ambiente a ser fotografado, edições coletivas e discussões sobre o fotojornalismo

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e suas características, foram: proporcionar ao aluno de Jornalismo a compreensão dos diferentes olhares sobre um objeto ou fato fotografado; comparar as imagens coletadas com uma mesma intenção; promover a discussão sobre as semelhanças e diferenças entre Brasil e Portugal e ampliar o conhecimento dos aspectos técnicos, lingüísticos, de edição e de crítica de fotografia. Todos os alunos tinham experiência fotográfica adquirida na disciplina de fotojornalismo, ministrada no primeiro ano do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Ao se inscrever para participar do projeto cada um deles apresentou um pequeno portfólio com suas imagens. Além disso, antes da fase de captura foram relembrados alguns aspectos importantes da fotografia jornalística enquanto linguagem e técnica. O projeto foi dividido em quatro fases: na primeira os alunos entraram em contato com um roteiro de intenções que permitiu um sentido de organização para que o registro fotográfico acontecesse sem interferência diretiva dos professores e sem retirar a liberdade em uma construção narrativa coerente já que “(...) a busca excessiva por uma intenção (já na concepção do tema) pode deixar a fotografia inexpressiva – ou por aprisioná-la em um recorte anteriormente identificado e marcado, ou por determinar um distanciamento tal, que as informações se perdem por conta do isolamento do fotógrafo.” (VEIGA, 2006) O roteiro de intenções, portanto, teve como temas a distribuição e uso dos espaços públicos, as características arquitetônicas e étnicas de Porto e singularidades da cidade e da população. Na fase seguinte, já em Portugal, os alunos entraram em contato com as características da cidade e do país. Durante as manhãs, de segunda a sexta-feira, receberam três horas/aula abrangendo os seguintes tópicos: história de Portugal e Porto, panorama do Jornalismo e da fotografia na Europa e em Portugal e panorama do design gráfico de periódicos na Europa. Paralelamente, durante as tardes e noites, aconteceu a terceira fase, na qual os estudantes tiveram atividades turístico-culturais, conforme roteiro indicado pela universidade acolhedora e realizaram fotografias. Na quarta fase as fotografias foram selecionadas em grupo, passando por um processo coletivo de edição, no qual foram discutidos a técnica e o conteúdo fotográficos. As imagens coletadas foram comparadas e analisadas quanto aos aspectos de percepção do valor potencial – no sentido de harmonia e singularidade que passam despercebidos nas atividades cotidianas. De todo o material, 60 fotografias foram selecionadas e expostas em Curitiba.

INTERPRETANDO AS IMAGENS As dezesseis fotografias selecionadas foram classificadas conforme o protocolo de intenções do projeto para serem analisadas neste artigo. Foram escolhidas aquelas que apresentavam elementos recorrentes no material bruto dos alunos, dentro dos quatro temas propostos no projeto. A estrutura verbo-visual deste artigo se apóia no método de Bateson e Mead pela necessidade de organizar um material muito amplo. O método é utilizado como

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forma de estruturar o material, mas não é utilizado em toda a sua amplitude, por dois motivos: este artigo se refere à fotografia enquanto representação e não ao estudo da antropologia visual e porque não há a intenção de analisar as características que conjugam texto e imagem. As 16 fotografias aqui analisadas fazem parte de um acervo de 45 fotografias e foram distribuídas em 4 pranchas temáticas que apresentam as concepções visuais sobre cada um dos temas: distribuição e uso dos espaços públicos; características arquitetônicas; características étnicas; singularidades da cidade e da população. As fotografias foram analisadas no âmbito da relação do fotógrafo com os elementos simbólicos presentes na construção da narrativa fotográfica, considerando a intencionalidade envolvida na produção. Dessa forma as imagens são lidas a partir de um olhar analítico, que considera o caráter técnico da fotografia e soma a ele as características do perceber, ver e expressar dos alunos. Mas quem são esses alunos? Como estão inseridos no universo da imagem? Nascidos nos anos 80 cresceram tendo como pano de fundo a imagem. Quando questionados sobre as lembranças de infância, todos responderam por meio de narrativas imagéticas e estruturas de composição. Outro fator a ser considerado é o de que os alunos são oriundos de famílias de classe alta, que pôde lhes proporcionar uma viagem internacional.

PRANCHA 1 - DISTRIBUIÇÃO E USO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS As fotografias apresentadas nesta prancha são um relato daquilo que causou estranheza: a presença de pessoas estudando no parque, conversando tranqüilamente em bancos públicos, senhores jogando nas praças, pessoas deitadas na grama. Para observar este material deve ser considerado que a questão da violência, registrada sobretudo nas cidades, cria no Brasil uma permanente sensação de insegurança que impede a liberdade do uso dos espaços públicos como praças e logradouros. Na primeira foto, feita nos jardins do Palácio de Cristal, três estudantes estão debruçados sobre livros. O ambiente parece lhes fornecer segurança e tranqüilidade suficientes para o estudo. A segunda imagem apresenta uma cena bastante comum na cidade: pessoas sentadas tranqüilamente em momento de conversa, ao final da tarde, em um flanar despretensioso. A foto seguinte, registrada na praça em frente à Universidade Fernando Pessoa, mostra vários idosos jogando cartas. Há nesta cena uma impressão de alegria e sensação de “boa vida” dos idosos. Todos estão bem vestidos (até parecem uniformizados) e com aparência saudável. A última cena da prancha foi a que mais causou estranheza. As pessoas deitadas na grama das praças públicas, a tomar sol não é, definitivamente, algo que acontece no

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Brasil. Em Curitiba, especificamente, praças são, em sua maioria, ambientes muitas vezes hostis, habitados por desocupados e prostitutas. Prancha 1

PRANCHA 2 – CARACTERÍSTICAS ARQUITETÔNICAS O material arquitetônico foi o mais rico em termos de composição, embora muitas das imagens tenham sido dos mesmos ambientes e espaços. A ponte Luiz I foi a mais fotografada, seguida do conjunto de prédios da Ribeira. Os prédios antigos chamaram muito a atenção dos alunos, principalmente daqueles que não tinham visitado a Europa antes – importante lembrar que em Curitiba os prédios mais antigos são do século XVIII. O elemento arquitetônico que mais apareceu nas fotografias foi o azulejo português. Aqui se percebe uma lógica parecida com a do olhar do turista, embora tenha sido deixado claro que deveriam ser buscadas características arquitetônicas. As fotos desta prancha podem ser observadas em conjunto, uma vez que os discursos são muito parecidos, à exceção da segunda foto que mostra duas senhoras conversando através da sacada. O grupo percebeu que as sacadas são elementos bastante importantes no cotidiano português. São nelas que se estendem as roupas, a partir delas se observa a cidade e se dialoga. Todas as fotos foram feitas no mês de julho de 2006, época da Copa do Mundo, e uma nova característica apontava nas janelas portuguesas que eram enfeitadas pelas bandeiras e cores do país. COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.97-106| 1° Semestre 2009 | 101


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A primeira fotografia mostra a ponte Luiz I. É uma obra majestosa e foi registrada de um ângulo que destaca sua importância. A terceira foto foi feita de dentro do Canal da Música. O recorte potencializa o estilo arquitetônico do comércio. Embora os azulejos tenham sido fotografados em outros ambientes como o da fachada da Capela das Almas, os registrados na última foto estão em uma casa comum, em uma rua qualquer. O detalhe do azulejo em uma casa comum reforça o elemento como objeto da cultura portuguesa. Prancha 2

PRANCHA 3 – CARACTERÍSTICAS ÉTNICAS Essa foi a categoria mais complexa para os estudantes. Em seus relatos anteriores durante as discussões sobre as fotografias feitas, eles afirmavam saber que existiam elementos diferenciadores do povo português, mas não conseguiam descrevê-los. Dessa maneira, os elementos recorrentes na categoria foram os retratos que acentuam traços físicos e o vestuário, principalmente os lenços e as saias com meias curtas, usadas pelas mulheres mais velhas. Os retratos são interessantes porque não há relutância diante do olhar indiscreto do fotógrafo. A população se deixar fotografar, interage. Talvez pela própria facilidade que os jovens brasileiros possuem de interagir com desconhecidos, o famoso “puxar papo”. O estrabismo do senhor da primeira foto, gera incerteza quanto ao lugar para

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onde ele dirige o olhar. O olho esquerdo denuncia: olha para a câmera. Esse é o mesmo ponto ao qual se dirige o olhar da mulher da segunda foto, que se inclina para a câmera. Ambas as fotos foram feitas com uma grande aproximação dos fotografados. As duas últimas fotos mostram características do vestuário. Na foto da esquerda a senhora faz parte de uma composição na qual se misturam características da arquitetura, como as cores amarela e vermelha das paredes e as ruas estreitas. Nela também aparecem os varais. Na última foto da prancha, a mulher caminha pela Avenida do Brasil e carrega um cesto sobre a cabeça. É um dia comum. A roupa é traje do dia-a-dia. Prancha 3

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PRANCHA 4 – SINGULARIDADES DA CIDADE E DA POPULAÇÃO Como singularidades os alunos elegeram o alto número de idosos e poucas crianças, as roupas nas janelas, a mistura entre o antigo e o moderno e expressões lingüísticas. A primeira foto mostra um senhor que encara a câmera e exibe seus pertences, entre eles um carro antigo, com cuidados de colecionador. Diferente da maioria dos velhos brasileiros, o velho português possui boas condições de vida e aparece altivo. Carrega em si dignidade. As roupas nos varais foram bastante fotografadas. A foto escolhida foi feita através do vidro de uma janela do Centro Português de Fotografia. O vidro, no caso, pode parecer aquilo que protege o fotógrafo de um costume que causa estranheza e certo pudor. Além de ser algo curioso, a roupa estendida é uma extensão da intimidade. Varais anunciam o número de pessoas que moram na residência, para quem torcem, de que vivem. A terceira composição apresenta a mistura do antigo e do novo. O modelo no outdoor a sondar o fotógrafo por trás do prédio antigo pode ser o anuncio da modernidade encontrada na cidade. Essa modernidade foi retratada também em outras locais como o metrô e a casa da música. Na última há uma placa de trânsito, na qual se lê zona em primeiro plano e uma manequim pendurada em uma sacada ao fundo. A junção dos dois elementos se deve ao fato de que “zona” significa, no português brasileiro, local de meretrício. A manequim na sacada é um elemento que reforça este discurso. Nesta foto também há a presença dos azulejos. Prancha 4

CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise das fotos, ao passar por um processo tão subjetivo quanto o da produção das mesmas, aponta para a possibilidade de muitas interpretações. As reflexões deste artigo, portanto, são fruto de um estudo que, embora parcial, buscou compreender o processo simbólico que envolveu a captura de imagens sobre a cidade do Porto.

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MARIA ZACLIS VEIGA FERREIRA

Enquanto fotografavam, os alunos foram eliminando, aos poucos, as fronteiras da inibição e se aproximando mais das pessoas, intervindo no ambiente. Parece haver uma busca por uma conexão geográfica, sentimental e histórica que transforma a fotografia em mediadora da memória, em espaço de reconhecimento. Conhecer a população portuguesa passa, então, a ser reconhecer-se, seja pela identificação, seja pela falta dela. Ao fotografar/observar, dá-se o direito de expressar, reconhecer uma identidade plural. As formas de enunciação se apresentam híbridas. Há matrizes gestuais, cenográficas e culturais. Diferente das gerações anteriores, embaladas pelos sonhos de liberdade, herdados de 68, os nascidos em 80 não têm bandeira. E a falta do que hastear se reflete nas imagens, pois não há construção de um discurso lógico. Embora conduzidos por uma estrutura que tentou dar um certo sentido de organização, o resultado se apresentou como um conjunto de fragmentos, uma bricolage. Isso não diminui ou desvaloriza o conjunto, mas o valoriza na medida em que percebemos como uma representação conjunta de jovens estudantes que procuram descobrir réstias identificadoras da identidade brasileira refletidas nas cenas oferecidas pela cidade do Porto.

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IMPRESSÕES SOBRE O PORTO

REFERÊNCIAS BARTHES, R. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nove Fronteira, 1984. KOSSOY, B. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. SONTAG, S. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. VEIGA, M. Z. Fotografia, ensino e celulares. In: CASTRO, A; LIMA, M.; BARREIROS, T. (orgs.). Jornalismo – reflexões, experiências, ensino. Curitiba: Pós-Escrito, 2006

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MÚLTIPLAS INTERFACES DE UMA EXPERIÊNCIA COLETIVA O PRÊMIO SANGUE NOVO NO JORNALISMO PARANAENSE Emerson de Castro Firmo da Silva1

Universidade Positivo

RESUMO O Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense, criado há 13 anos pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, deve ser observado mais de perto em estudos acadêmicos do campo da Comunicação. A consolidação, o permanente aprimoramento da proposta e o processo que envolve toda a elaboração do Prêmio sugerem uma forma inovadora e até hoje ainda pouco identificada, embora efetiva, de intervenção na realidade do campo da Comunicação paranaense, especialmente curitibana. Palavras-Chave: Prêmio Sangue Novo, Comunicação paranaense

ABSTRACT The “Sangue Novo” Journalism Award of Paraná, created 13 years ago by Paraná Professional Journalists Union, should be closely observed in academic communication field. The proposal consolidation and continuous improvement together with the process related to Award elaboration, suggest an innovative intervention way which is until now, almost unkown, altough effective, in the field reality of communication in Paraná, mainly in Curitiba. Keywords: Sangue Novo Journalism Award of Paraná, communication in Paraná

1 Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (1986). Atualmente é professor titular no Complexo de Ensino Superior do Brasil e na Universidade Positivo. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Redação Jornalística, atuando principalmente no seguinte tema: jornalismo opinativo, assessoria de comunicação e gestão em jornalismo.


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Os jornalistas como atores sociais têm um grau de importância destacado no processo de mediação das questões em debate pelos demais atores e respectivas correntes de pensamento em disputa na arena social. Mas sua ação não cessa aí: exercem uma influência direta, pois não estão alijados de suas convicções como indivíduos ou membros de um grupo. Mais que isso, suas mediações, elaboradas também com base em ideais como imparcialidade e objetividade, são capazes de potencializar tanto a disseminação quanto a imposição de modelos ideológicos. A natureza do trabalho jornalístico, portanto, exige do profissional uma percepção esclarecida em dois sentidos: primeiro, perceber que, ao exercer sua profissão, por mais objetividade que procure estabelecer em seus textos – deixando aqui suspenso qualquer debate sobre o quanto isso é polêmico – ele permanece ator social, pois participa ativamente dos debates ao produzir conhecimento, além de formar e formular opiniões, desejos e interesses (próprios e de outros); segundo, perceber que desempenha a posição de mediador para os demais atores sociais, mas um mediador que, como qualquer outro membro da sociedade, pode ser mais ou menos afetado pelos fenômenos sociais. Além disso, o jornalista é um mediador de certo modo privilegiado no campo da comunicação, posto que sua ação não é mera mediação, mas reelaboração dos fatos apreciados bem mais de perto que os demais agentes que compõem a teia complexa das relações sociais vigentes. O dia-a-dia das redações exclui quase integralmente a possibilidade de uma reflexão sobre essas questões de fundo do exercício jornalístico. Excetuandose a hipótese de presença constante em eventos como congressos e seminários, a participação em cursos de pós-graduação ou mesmo outras formas de debate formal, não há espaço sério e conseqüente para que esta reflexão ocorra de modo concreto. Em paralelo, a academia, espaço que por natureza se propõe a refletir sobre as teorias e práticas do jornalismo, expõe-se muito pouco, seja na produção discente, seja nos modelos e conceitos adotados para orientação desses trabalhos. Isso vale tanto para os estudantes de Jornalismo, que têm poucas chances de expor-se, mesmo que queiram, quanto para os professores, que em geral analisam o tema sob a ótica da autonomia universitária, sem dúvida fundamental, mas nem por isso válida como argumento que justifique uma barreira que impeça a identificação de modelos e conceitos. Não há, com raras exceções, interação entre o universo acadêmico e o dos profissionais – considerando aqui mercado de trabalho e agremiações associativas como o Sindicato. Isso implica não só na falta de intercâmbio de idéias e conceitos, mas especialmente nas poucas chances de avanços gerais que estes poderiam representar para a comunicação ou mesmo especificamente para a evolução do material noticioso produzido e veiculado por jornais, televisões, rádios, portais de internet, agências de comunicação. Além disso, o pouco diálogo impede compreensões minuciosas de parte a parte sobre as respectivas produções, o que seria salutar tanto mais ocorresse. Os espaços que se propõem claramente ao debate necessariamente podem não levar a resultados suficientemente efetivos. Não é o caso aqui de contestar o valor de congressos, simpósios e seminários, que o têm, mas de avaliar o quanto outras

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EMERSON DE CASTRO FIRMO DA SILVA

instâncias, que diretamente não se propõem a essa reflexão explicitamente, podem obter resultados importantes. Neste artigo propõe-se um olhar sobre o Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense, formulado em sua versão inicial em 1995 pela então diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, e que após 13 edições suscita mais que a apreciação e destaque aos trabalhos dos jovens estudantes de Jornalismo do estado. Sugere-se aqui identificar indícios do quanto a percepção sobre a natureza do fazer jornalístico vem se tornando mais evidente aos jornalistas paranaenses a partir das participações que os futuros profissionais fazem ao submeter seus trabalhos ao julgamento dos profissionais. Da mesma forma, aos professores-orientadores desses trabalhos, que indiretamente apresentam para avaliação trabalhos por eles orientados; e também aos próprios profissionais julgadores, que precisam ter claros e em consenso os critérios de avaliação. São múltiplas as interfaces sociais que o Prêmio sugere individual e institucionalmente, e que estabelecem um espaço de intercâmbio de padrões técnicos e éticos da prática jornalística ou mesmo de seus conceitos, incluindo definições do que é novo ou velho no espectro dessas atividades. Individualmente, como já observado, envolve os jornalistas julgadores, jornalistas que concorreram ao Prêmio quando estudantes, assim como os professores e organizadores do Prêmio pelo Sindicato. Institucionalmente põe em contato direto ou indireto as universidades públicas e privadas, as empresas jornalísticas e o Sindicato, que também é um espaço de interação dos jornalistas com a sociedade. Ao mesmo tempo e num plano de maior abrangência, faz-se necessário estimar o quanto a longevidade do Prêmio está contribuindo para uma alteração nos padrões de conduta e de produção jornalística dos envolvidos com o Prêmio. Qual a condição de um prêmio para estudantes de jornalismo, elaborado nos moldes de prêmios para jornalistas, com peculiaridades que o tornam único no gênero, de colocar essas duas esferas do campo jornalístico – estudantes e profissionais – em contato tal que seja capaz de influir nos padrões conceituais e técnicos de ambos? Como esse mesmo processo pode produzir mudanças de comportamento em profissionais e futuros profissionais? O quanto esse Prêmio, ao longo do tempo, vem influindo na formação dos jornalistas pelas universidades, na interação de um sindicato com seus filiados e futuros filiados, ou mesmo nos critérios de escolha de profissionais pelas empresas? São perguntas cujas respostas exigem uma análise aprofundada, a qual não se pretende nem de longe esgotar neste artigo, até porque seria subdimensionar a proposta. Mas é possível apontar fortes indícios, a partir dos dados disponíveis, em contato com uma interface teórica, de modo a lançar um desafio a futuras análises.

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HISTÓRICO E DADOS O Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense vem sendo realizado há 13 anos, com a participação de 5838 estudantes (tomando-se os números absolutos de estudantes inscritos nos trabalhos), que inscreveram em torno de 2322 trabalhos, orientados por centenas de professores das quatro universidades públicas, três particulares e 16 faculdades particulares do Paraná. O Prêmio também envolveu aproximadamente 350 jornalistas julgadores, num universo estimado de quatro mil jornalistas em atividade no estado. Os números falam por si. O universo de jornalistas em atividade tem, portanto, um volume significativo de profissionais que participaram do Prêmio em alguma das situações já observadas anteriormente. São jornalistas de todos os pontos do estado (além de convidados de outros estados), das mais variadas especialidades, muitos tendo participado como estudantes e posteriormente como julgadores também ou mesmo na organização do Prêmio. Vale a pena, a esta altura, entender o processo de formulação inicial do Prêmio, quando foram estabelecidas suas bases conceituais e as intenções do Sindicato com sua organização.

CONTEXTO Durante toda a década de 1980 uma oposição sindical de jornalistas apresentouse à categoria como nova opção de ação sindical para o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná. Até que, no final de 1991, a chapa Extra Pauta, com Julio Tarnowski como presidente, assumiu a direção do Sindicato numa eleição de chapa única. Naquele momento eram muitos os desafios. Havia uma enorme expectativa de todos, tanto dos diretores quanto dos que votaram na mudança, para que o Sindicato assumisse uma trajetória mais reivindicatória dos direitos dos profissionais, e ao mesmo tempo de marcar presença nas discussões políticas e econômicas dos trabalhadores no período. Em paralelo, era necessário lentamente estabelecer uma distensão no conjunto dos jornalistas – após as eleições de 1988 deu-se uma fratura na base dos jornalistas, quando essa oposição foi derrotada por 19 votos. Três anos mais tarde, novos e velhos atores do campo jornalístico, mesmo sem uma disputa eleitoral, permaneciam tensionados politicamente. Promover uma reaproximação desarmada – sem abrir mão de princípios, visando à histórica e difícil “união da classe”, estava igualmente na ordem do dia 2. 2 Essa disputa e a divisão, em grande parte, deu-se, a partir das matrizes de formação profissional: jornalistas formados em redação e jornalistas formados em universidades – estes últimos, já à época, a maioria da categoria. A pouca percepção da diretoria que comandava o Sindicato de que essa base havia mudado de origem, e conseqüentemente de propostas e anseios, sobretudo democráticos, fez com que a luta pelo espaço sindical, naquele momento claramente político, se tornasse dura e traumática.

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Foram três anos de trabalho extenuante para todos, mas recompensador. Naquele curto espaço de tempo, arejaram-se as relações entre o Sindicato e sua base, reformouse a sede, estabeleceu-se uma assistência jurídica, foram assinados acordos salariais cujo enorme valor para as futuras gerações de jornalistas exigiria estudo específico num capítulo à parte na história do Sindicato. Tudo isso ampliou ainda mais os desafios para as gestões posteriores. No final de 1994 a segunda gestão Extra Pauta, com Maigue Guetz eleita presidente (a primeira mulher no cargo), precisava dar continuidade aos importantes projetos iniciados em 1991, especialmente o de solidificação das relações com a base dos jornalistas em todo o estado. Essa ampliação obrigava à nova diretoria, já nas propostas de campanha, propor uma aproximação concreta e interativa com os estudantes de Jornalismo. Naquele período estavam em funcionamento, além da UFPR e da Universidade Estadual de Londrina, os cursos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC (reativado), da então Faculdade Tuiuti e da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Na reunião de planejamento na sede do Sindicato, dias após a eleição, dividiramse os diretores e funcionários em grupos, procurando dar conta de todos os itens de campanha que precisavam ser encaminhados nos próximos três anos. Como as propostas eram, em alguns casos, genéricas, era necessário também estabelecer idéias que nelas se encaixassem, obviamente sendo viáveis na execução tanto financeira quanto politicamente. Um dos grupos a mergulhar num tema espinhoso era o que discutiu a aproximação com os estudantes de Jornalismo. Faziam parte dele o vice-presidente eleito, Emerson Castro; o vice-presidente que estava deixando o cargo, Elson Faxina; e o gerente do Sindicato, Cosmos Santiago. Era necessário levar em consideração o contexto da relação entre o Sindicato e os estudantes, que de longa data não era favorável à instituição. Na visão estudantil, o Sindicato jogava sempre contra os estudantes ao defender a proibição do estágio profissional. Na visão sindical – e na prática, da maior parte dos profissionais – o volume de estudantes cresceu tanto para a proporção das vagas de jornalistas no mercado naqueles últimos anos que foi impossível aceitar o estágio puro e simples, sabidamente mal utilizado pelas empresas. Ao mesmo tempo, compreendia-se que a idéia de que as universidades deveriam formar integralmente o futuro profissional – especialmente com Jornais Laboratório, entre outras ações (idéia defendida nos Congressos Nacionais e também por parte de muitos profissionais, incluindo alguns diretores do próprio Sindicato) – não era consenso. Era preciso encontrar um termo justo que contemplasse a formação, mas que regulasse o volume de vagas para estágio. Assim, a questão do estágio, claramente complexa e dependente de um diálogo com os diversos atores envolvidos no processo (profissionais, estudantes, professores, empresas, e Universidades, Sindicato), deveria ser desenvolvida em termos que melhor seriam consolidados em duas oportunidades posteriores: no Congresso Estadual de Ponta Grossa, em 1995, após longas discussões com as partes citadas; e, já em nível nacional, no Congresso Extraordinário de Vila Velha, Espírito Santo, em 1997, com COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p107-120| 1° Semestre 2009 | 111


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ampla contribuição do Sindicato do Paraná, pela experiência acumulada naqueles últimos anos3. Independente do problema “estágio”, que teria seus encaminhamentos específicos, era fundamental fazer emergir, daquela reunião de planejamento, um trabalho que fundasse um novo grau de colaboração no que se pode chamar de campo jornalístico paranaense. Também fazia parte das propostas de campanha lutar pela melhoria do nível do trabalho profissional e pela defesa da função social, o que obviamente passava pela formação em andamento nas universidades e pela atuação dos jornalistas já formados em jornais, rádios e televisões. Passou-se então a pensar algo que imediatamente criasse uma intermediação entre profissionais, empresas jornalísticas e estudantes, levando sobretudo as universidades a uma competição saudável pela melhoria na qualidade do ensino, além da aproximação entre Sindicato, jornalistas, estudantes e professores. O aspecto genérico da proposta, em relação aos estudantes, era estabelecer uma proximidade tal que eles pudessem visualizar o Sindicato como um espaço democrático e que tinha, como tem até hoje, o maior interesse na qualidade do ensino, inclusive como aliado dos próprios estudantes. Foi quando surgiu na mesa a idéia de um prêmio, a exemplo do que comumente ocorre entre profissionais. Entre jornalistas a importância ou atratividade dos prêmios sempre gira em torno do reconhecimento quanto à qualidade do trabalho pelos pares e de valores financeiros. Para os estudantes, a proposta ali desenhada precisava ser elaborada de tal modo que se cumprisse o que era básico: estabelecer uma relação que o resultado das premiações ultrapassasse os indivíduos envolvidos para atingir sobretudo as instituições de ensino superior, em suma, a qualidade no ensino de jornalismo. Também sob outro ponto de vista, que os julgadores, profissionais experientes, pudessem de um lado conhecer a qualidade dos trabalhos acadêmicos e de outro refletir sobre a própria ação jornalística cotidiana. Ainda mais, para as empresas, nas quais inúmeros julgadores trabalhavam, uma perspectiva para avaliar jovens talentos. Ao contrário de uma visão incipiente, à época sugerida em discussões com professores realizadas após as primeiras edições, o fio condutor dessa proposta não era a formação para o mercado. O ponto central de todo o trabalho era a bandeira, carregada até hoje por todos os jornalistas que têm orgulho do que fazem, da fundamental função social do jornalismo. A partir desse raciocínio, avaliou-se que era necessário ampliar o grupo de pessoas para pensar o regulamento do prêmio, além de definir oficialmente seu nome. Ainda naquela fase embrionária já se tinha uma sugestão, mais tarde aprovada por toda a diretoria: SANGUE NOVO NO JORNALISMO PARANAENSE. Ainda na gestão 1991-1994, surgiu uma proposta da assessoria da Cervejaria Brahma, em Curitiba, para que se criasse um prêmio de jornalismo do Sindicato 3 Cabe destacar que o documento aprovado naquele Congresso Nacional teve sua parte prática baseada quase que integralmente no documento elaborado no âmbito do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná. Com poucas modificações, é o mesmo praticado até hoje em todo o país.

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com patrocínio da empresa. Montou-se uma comissão, que examinou diversos regulamentos e chegou a esboçar uma proposta, mas os entendimentos com a empresa não se concluíram. (SINDICATO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS DO PARANÁ, 1994) Foi esse esboço e boa parte dessa mesma comissão que voltou a reunir-se no início de 1995 para discutir as adaptações necessárias e produzir um regulamento para a primeira edição do Sangue Novo.

PROCESSO Nas 13 edições realizadas, os procedimentos de produção do Prêmio seguiram uma linha praticamente idêntica, desconsiderando pequenas mudanças e aprimoramentos que foram adotados no período. Inicialmente, definidas as categorias – elas foram ampliadas, conforme acataramse as sugestões das escolas de comunicação, pulando de nove para 18 em 13 anos –, levanta-se a lista de julgadores possíveis, sendo necessários três por categoria. Em geral, a própria diretoria do Sindicato define essa listagem, mas as escolas de comunicação chegaram a ser consultadas em 2000, sendo convidadas a participar deste processo, o que ampliou as opções de julgadores e tornou o processo mais transparente. Esses julgadores são escolhidos pela organização do Prêmio com base no currículo, na experiência profissional e na identificação com os propósitos de premiar os melhores trabalhos, tendo como base a responsabilidade social. Ao fazerem o julgamento, defrontam-se com a necessidade de refletir sobre seus conceitos, individual e coletivamente, justificando suas escolhas. Fundamental aqui, para completar esse processo de trocas, é a reunião dos membros julgadores, seja num ambiente físico ou virtual (reuniões na sede do Sindicato, por telefone ou outros meios que possibilitem uma reflexão coletiva sobre os critérios que cada julgador pensou inicialmente adotar para definir qual seria, para ele, o melhor entre os trabalhos inscritos). Chegase então ao consenso em relação aos critérios (conceitos, métodos, técnicas) e, por conseqüência, à definição dos melhores trabalhos. A premiação, portanto, reflete esses critérios e os vencedores, assim como seus professores-orientadores identificam o que os jornalistas que estão no cotidiano das redações de todos os formatos e veículos ou agências de comunicação avalizam como ótimos projetos e reportagens. Além disso, essas opções são registradas em relatórios, os quais servem, posteriormente, de base para discussão e análise tanto entre estudantes que participaram de uma edição do Prêmio quanto seus professores e respectivas escolas de comunicação. Por sua vez, os estudantes – e indiretamente seus professores-orientadores – expõem suas produções jornalísticas (reportagens, projetos, monografias, jornaislaboratório) mais bem acabadas para uma avaliação fora do âmbito universitário. Expõem-se ao crivo de profissionais que, distantes dos inevitáveis percalços acadêmicos, farão seu julgamento com base em critérios correntes em seus respectivos veículos de comunicação.

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A hipótese é que o choque entre esses dois níveis de produção força um processo de auto-análise de mão dupla, gerando efeitos para ambos. Um processo pouco visto ou até inviável isoladamente. Os reflexos também podem ser medidos nas universidades públicas e particulares, sendo muitas participantes em todas as 13 edições do Prêmio. Reformulação de conceitos e currículos, valorização de professores, identificação de vocações em áreas específicas de formação, melhoria da qualidade no ensino são alguns dos reflexos percebidos. Entre as empresas jornalísticas, embora não tenham participação direta no Prêmio, também é possível verificar-se alterações de critérios de escolha entre os novos profissionais. No âmbito sindical, da mesma forma, ocorrem reflexos, pois o – Sangue Novo –, como é mais conhecido, permanece sendo realizado ininterruptamente desde 1995, apesar das mudanças de diretoria por quatro vezes no período. Não se trata, em todos os casos acima, de identificar somente influências mútuas em uma ou outra direção específica. Também sugere a possibilidade do surgimento de uma instância de diálogo, sem que se tenha ultrapassado a condição de decisão autônoma de todos os agentes envolvidos em qualquer das etapas descritas. Observe-se ainda que o tema em debate extrapola uma perspectiva de âmbito regional. Isto na medida em que ajusta o foco, privilegiando a leitura ampla da interface social do objeto de estudo. Esse ponto de vista, que se propõe investigar uma questão de interesse geral a partir de um estudo de caso peculiar, deve ser revelador sobre o jornalista brasileiro, sua identidade, seus conceitos de jornalismo, sua formação e condição de interação social.

QUADRO TEÓRICO Pensar por si mesmo, sem as amarras religiosas ou do estado, tornou-se para o homem objeto de busca incessante, sobretudo intelectual, nos últimos cinco séculos. O Iluminismo, a Revolução Francesa e tudo que direta ou indiretamente daí surgiu – conceitos que definiram os direitos do homem, do cidadão e as liberdades democráticas – fazem parte de uma cultura que lentamente se estabeleceu no processo de formação da sociedade até a primeira metade do século XX. Esse processo contínuo tinha suas bases associadas também ao liberalismo, como observa Armand Mattelart, ao apontar as relações, até então complementares, para que um livre fluxo de idéias e mercadorias fosse estabelecido. A padronização, significativamente para as tecnologias de comunicação, era um dos pontos altos da utopia universalizante (Mattelart, 2000). Décadas antes, ao falar sobre “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna”, Herbert Marcuse confrontou o indivíduo forjado no tipo de sociedade acima descrito, com o que estava surgindo em sua época, especialmente na Alemanha nazista. A razão individualista de antes distanciava-se profundamente do racionalismo produtivo agora proposto. 114 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p107-120| 1° Semestre 2009


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Para ele, o ser racional até então se definia duplamente como indivíduo e como parte da sociedade. Assim, este seria capaz de encontrar, por si mesmo, suas próprias formas de vida pessoal e social e, à medida que tivesse adquirido liberdade de pensamento, poderia agir de modo a transformar essa realidade. Para isso, bastaria que a sociedade a ele concedesse essa liberdade, eliminando as restrições que se chocassem com uma linha de ação racional (Marcuse, 1999, p.75). O aparato tecnológico, ainda segundo Marcuse, fez com que a racionalidade individualista se transformasse em racionalidade tecnológica. Aparece aqui uma nova atitude exigida do indivíduo: A nova atitude se diferencia de todo o resto pela submissão altamente racional que a caracteriza. Os fatos que dirigem o pensamento e a ação do homem não são os da natureza, que devem ser aceitos para que possam ser controlados, ou aqueles da sociedade, que devem ser modificados porque já não correspondem às necessidades e potencialidades humanas. São antes os fatos do processo da máquina, que por si só aparecem como a personificação da racionalidade e da eficiência (MARCUSE, 1999, p. 79).

Outra implicação da disseminação tecnológica e da padronização do pensamento é a identificação de “valores de verdade críticos”. Afirmações baseadas na lógica das disputas comerciais, como a necessidade de combate aos monopólios, são difundidas pela imprensa, mas perdem peso na medida em que se tornam parte de uma cultura estabelecida. Esse movimento leva a uma percepção de que a sociedade tornou-se indiferente ou insensível ao pensamento crítico. “Pois as categorias do pensamento crítico preservam seu valor de verdade somente quando levam à completa realização das potencialidades sociais que vislumbram, e perdem seu vigor se determinam uma atitude de submissão fatalista ou assimilação competitiva” (Marcuse, 1999, p. 86). Pior que não identificar os valores críticos pode ser ainda a compreensão de sua completa desnecessidade. A incessante luta entre ser humano e natureza era a base da conquista dos recursos intelectuais e materiais, uma necessidade premente para a administração da escassez. Na sociedade baseada na máquina, o processo de racionalidade tecnológica iguala-se à individualidade, além de tender a “transcendê-la onde concorre com a escassez” (Marcuse, 1999, p. 99). Oportuno e atual ouvir Benjamin Barber, em seu artigo “Cultura McWorld”, refletindo sobre as preocupações e constatações de Herbert Marcuse no livro Homem Unidimensional, cujo vislumbre avançava, na década de 1960, para a perspectiva de recrudescimento do processo tecnológico. Como um profeta, Marcuse previa a possibilidade iminente da unidimensionalidade do indivíduo, subsumido à máquina. Ao mesmo tempo, em contrapartida, também percebia a capacidade de contestação sobre essa situação. Barber vê “excessividade” nessa última parte. Hoje a capacidade do mercado de assimilar diferenças e contestações e embaralhar as oposições ideológicas, graças à imprecisão criada entre informação e espetáculo, recoloca os temores de Marcuse na ordem do dia. O

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consumismo mundial faz rondar o perigo de uma sociedade na qual o consumo se transforma na única atividade humana e, portanto, naquilo que define a essência do indivíduo. A unidimensionalidade adquire uma realidade geoespacial palpável na arquitetura das galerias mercantis, onde as praças públicas foram substituídas por espaços privados destinados a otimizar o comércio (BARBER apud MORAES, 2003, p. 47).

Estas reflexões tornam-se mais perturbadoras se o foco for ajustado para a mídia, espaço em que os jornalistas atuam. Claude Jean-Bertrand admite que ninguém vive atualmente sem a mídia, nem mesmo os habitantes das zonas rurais subdesenvolvidas. Apesar disso, critica os veículos de comunicação por não estarem cumprindo seu papel, nesse contexto, com qualidade. Para ele a mídia é uma indústria e um serviço público, mas nem por isso pode comportar-se como quaisquer outras indústrias ou serviços públicos. Atualmente, como é claro, não podemos contar nem com o Estado nem com o mercado, se quisermos uma mídia de qualidade. As forças políticas sempre se esforçam no sentido de impedir a circulação das informações. E para as forças econômicas, atualmente dominantes, os veículos de comunicação nada mais são do que máquinas de dinheiro, sempre mais dinheiro, não importa como. Elas rebaixam a mídia ao divertimento medíocre, à prostituição mais barata (BERTRAND, 2002, p. 9).

Bertrand sugere como solução para esta situação dar força ao que chama “arsenal da democracia”, os sistemas de responsabilização da mídia, desligados tanto do estado quanto do mercado. Baseia-se para isso num tripé: Lei + Mercado + Ética & MAS (sistemas de responsabilização da mídia) “com uma proporção conforme a nação, ligadas como são a ideologias, a visão tradicional do homem em sociedade, e as estruturas e práticas da mídia atual” (Bertrand, 2002, p.494). Independente da solução proposta, o fato é que os veículos de comunicação fazem parte do contexto unidimensional apontado anteriormente. Mais que parte, potencializam o fenômeno e os jornalistas não estão livres de envolvimento. Vale nesse ponto da discussão fazer uma rápida revisão histórica sobre as fundações do jornalismo atual, para identificar, no contraste com a situação exposta anteriormente, o que significaram essas mudanças. Briggs e Burke, discorrendo a respeito da mídia e a esfera pública no início da Europa moderna, enfatizam a fraqueza estrutural dessa esfera nos antigos regimes e mostram como em determinados momentos mais acirrados as elites apelaram ao povo e nestes a mídia, “especialmente a impressa, ajudou a elevar a consciência política. Em cada situação uma crise levou a um debate vivo, mas relativamente curto, que pode ser descrito como o estabelecimento de uma esfera pública temporária ou conjuntural” (Briggs; Burke, 2004, p.109). O jornalismo moderno surgiu, assim, entre os séculos XVII e XVIII, como espaço de coesão de uma sociedade que aos poucos foi reconhecendo-se como tal. Uma dupla necessidade do indivíduo estabeleceu esse processo: a de obter informações precisas

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sobre uma gama cada vez maior de assuntos, visando tomada de decisões; e num plano geral, a compreensão do papel e espaço a ser ocupado como ator social. Assim, o jornalista, embora também um cidadão, assumiu um papel necessário e destacado nas várias mediações necessárias para que fosse cumprida sua condição de elo entre o todo e as partes e vice-versa. É justamente a função da mediação que, na sociedade pós-industrial – forte e significativamente caracterizada hoje como sociedade da informação –, moldou-se de forma lenta, e sob um viés ideologicamente comprometido, com outras visões de mundo, diferentes das que se pautaram pelos conceitos do Iluminismo, do período anteriormente citado. Não se trata aqui de apontar um sentido caricato dessa moldagem, forma fácil de encerrar equivocadamente a discussão. Também não se pretende encontrar uma culpa específica, seja na formação cidadã do homem contemporâneo, ou na dos jornalistas. Estes, em geral, assumem esse comprometimento de modo pouco consciente, ou ao menos, sem ter absoluta clareza dos processos sociais em que estão envolvidos e, por outro lado, obviamente, influenciam. O processo social, portanto, é o eixo complexo pelo qual transita a moldagem ideológica tanto para os jornalistas quanto para qualquer cidadão. A agravante no caso do jornalista é sua função de mediador, supostamente consciente tanto desse papel como do processo no qual está envolvido, incluindo suas conseqüências. Sobre os jornalistas, Bertrand considera que precisam, entre outras coisas, estar cientes das funções da mídia na sociedade, “distinguir entre entretenimento e informação, entre eventos reais e eventos fabricados, entre as notícias interessantes e importantes”. Ele completa, opinando sobre o jornalismo: É preciso que seja modificado. Como sair de um padrão é sempre uma operação difícil. Isto levará tempo e não se deve permitir que se desenvolva na obscuridade. Precisa ser trazida às luzes do dia, ser debatida nas salas de notícias, em artigos, em programas de rádio e televisão, livros, conferências – e nas salas de aula das faculdades de jornalismo (BERTRAND, 2002, p. 484).

Estar ciente envolve partir do princípio, como o faz José Marques de Melo, de que o conhecimento humano acumulado começa na base da sociedade para em seguida expandir-se de modo mais elaborado nas organizações profissionais e legitimar-se na academia (Melo, 2003). Este estoque de conhecimento provém, então, segundo o autor, da confluência de duas fontes: Práxis, a aplicação do saber na sociedade pelas corporações, com propósitos produtivos que integram o processo civilizatório; e Teoria, a apropriação desse saber pela academia, que o reflete e sistematiza. Ao fazê-lo, por meio do ensino e da pesquisa, atua como formadora de recursos humanos e produtora de conhecimento. A inserção de um novo campo do conhecimento na estrutura acadêmica traduz a sua legitimação social. Implica, ao mesmo tempo, em seu aperfeiçoamento e avanço

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contínuos. Tal fenômeno é situado por GRANGER dentro do contexto que ele denomina “desenvolvimento explosivo da ciência”. A formação de novos profissionais se faz de maneira a combinar o saber já testado pela práxis (quase sempre manualizada) e o pensamento inovador (produzido pela reflexão e convalidado pela pesquisa) (MELO, 2003, p. 33-4). O vetor, portanto, avança da Práxis entre profissionais e suas corporações, passando pela Teoria desenvolvida e aperfeiçoada na academia, retornando à Práxis com novos profissionais formados. É desse ponto que se retoma a discussão inicial sobre as múltiplas interfaces proporcionadas pelo Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Percebe-se a possibilidade de uma inversão inovadora no processo, quando sugere a investigação de um novo elemento, criado a partir da corporação profissional, colocando frente a frente Práxis e Teoria bem no meio do processo anteriormente descrito. A inversão se dá com os profissionais sendo impelidos a refletir sobre suas práticas ao avaliar o produto que parte da academia, muito mais embasado na teoria do que necessariamente na prática. Enquanto isso a produção acadêmica discente, orientada pelos docentes, é levada a um diálogo com o corpo profissional, escancarando suas reflexões e pesquisas, de modo a encurtar e aprimorar o processo Práxis-Teoria-Práxis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS O Sindicato dos Jornalistas do Paraná, historicamente, tem analisado e vivenciado a questão da formação profissional e as correlações com a representação sindical dos jornalistas. Inclui-se aí o papel da instituição como parte duplamente interessada na legitimidade dessas correlações. Destaca-se aqui o interesse na legitimidade representativa e na condição de interlocutor com o campo comunicacional e com a sociedade. Ao longo de sua história de 61 anos, o Sindicato passou por inúmeras situações de conflito entre diretorias mais ou menos ligadas às bases profissionais, por si só multifacetada em funções diversas. O que se percebeu, a partir de ampla pesquisa com membros de chapas que disputaram eleições acirradas em 1959, 1963, 1976 e 1988, é que essa relação com as bases estabelecia-se significativamente a partir da matriz de formação profissional e as convicções vigentes no período. A condição de “governabilidade” estava diretamente ligada a essa relação (Silva, 2007). Assim, este artigo tem a pretensão de atingir futuros pesquisadores que se interessem em ampliar esta breve reflexão sobre processos de interação social no campo jornalístico – como é o caso singular do Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Um caso cujo processo deve ser compreendido em toda sua extensão e profundidade, para além do evento em si. Debruçar-se sobre este tema e explicitar o que hoje, na melhor das hipóteses, está implícito, poderá manter ou reforçar positivamente fatores interativos. Embora aparentemente desligados, esses processos entrelaçam-se

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tão fortemente quanto pouco percebidos nas suas interfaces culturais. São estes fatores que fizeram o Prêmio chegar ao grau de solidez, longevidade e credibilidade junto a todos os agentes nele envolvidos.

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MÍDIA E FELICIDADE, UMA LEITURA PSICANALÍTICA Leonardo Ferrari1

Universidade Positivo

RESUMO O objetivo do artigo é esclarecer a visão psicanalítica sobre a felicidade através da análise de letras de músicas sobre o tema, da poesia de Dante Alighieri e Carlos Drummond de Andrade e de uma reflexão sobre a mudança histórica do conceito, de uma idéia trágica sobre a felicidade na Grécia antiga para uma idéia de obrigação à felicidade na pós-modernidade, apregoada pela mídia sob a forma de tecnologias de encantamento. A análise do conceito de função paterna permite então demonstrar a resposta da psicanálise a essa obrigação, ressaltando-se que o mal-estar, a infelicidade formam parte da estrutura do desejo humano, não podendo ser eliminadas por nenhum artifício, sob pena do sujeito não existir. Palavras chave: Psicanálise, Felicidade, Mídia, Desejo, Édipo, Função Paternal.

ABSTRACT The purpose of this article is to clear the psychoanalytical vision about happiness through an analysis of the lyrics of some songs about this theme, of the poetry of Dante Alighieri and Carlos Drummond de Andrade and through a reflexion about the historical change of the concept of happiness. In Ancient Greece happiness was a tragic idea but in Pos-Modernity it became an idea of obligation, which is used by Midia through technologies of enchantment. The analysis of the concept of father function allows the demonstration of the psychoanalysis answer to this obligation, emphasizing that unhappiness and ill-being are part of the structure of the human desire and therefore cannot, by no means, be eliminated unless the person doesn’t exist anymore. Keywords: Psychoanalysis, Happiness, Media, Desire, The Oedipus Complex

1 Leonardo Ferrari é psicanalista, graduado em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná e Máster en Dirección y Administracción de Empresas pela Escuela Superior de Administracción y Dirección de Empresas - ESADE/Barcelona, Espanha. Trabalha como psicanalista em consultório desde 1991 e é professor da Universidade Positivo desde 1999, tanto na graduação como na pós-graduação.


MÍDIA E FELICIDADE, UMA LEITURA PSICANALÍTICA

Conferência apresentada na Semana Mídia e Desejo, promovida pelo curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo, em outubro de 2007 “Todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito” Isak Dinesen2 O que é a felicidade? Tom Jobim responde dizendo que ela é aquilo que tem fim3. Já Lupicínio Rodrigues explica porque ela tem fim: é que ela foi-se embora4. O que aconteceu então? Pois Milton Nascimento e Fernando Brant declaram: foi nessa hora que fez-se noite em meu viver5. Fazer a travessia da perda da felicidade exige um trabalho. Trabalho de luto, para Freud, que em 1917 escreve “Luto e Melancolia” (FREUD, 2006a) para tentar entender o que é que se perde quando a felicidade vai embora. O que fazer dessa noite? Dante Alighieri, em 1300, descreve assim esse momento em sua vida: “Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura, ché la diritta via era smarrita.” “A meio caminhar de nossa vida fui me encontrar em uma selva escura: estava a reta minha via perdida.” (ALIGHIERI, 1998a, p. 25).

Eis aí um homem, aos 35 anos de idade, perdido numa selva escura. Fez-se noite em seu viver. O que faz esse homem diante disso? Pois Dante retorna à memória, volta a Virgílio, seu mestre, seu autor, aquele de quem tirou o belo estilo6, e faz de Virgílio seu guia, seu intermediário para chegar à Beatriz. Freud também teve o seu Virgílio. Ou, quem sabe, suas Beatrizes. Foram elas, as mulheres, suas primeiras pacientes – e que paciência tiveram em ensinar Freud! Foram elas que lhe ensinaram a psicanálise – com o detalhe: sem saber que lhe ensinavam. Qual era a selva escura em que Freud se encontrava logo após terminar o curso de Medicina? Era a selva escura de um conhecimento que não servia para tratar o sofrimento das neuroses. Era um conhecimento que servia para tratar osso, servia para tratar rim, servia para tratar fígado, servia para tratar garganta. Mas, diante de uma dor que não era orgânica, diante da dor de uma infelicidade cotidiana, Freud ���������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Citada por Hannah Arendt na epígrafe do capítulo V, “Ação” de “A Condição Humana” (Rio de Janeiro: Forense Universitária, 10.ed., 2004. p. 188. 3 “Felicidade”, música de Tom Jobim e Vinícius de Morais. No anexo 1 deste artigo estão listadas todas as letras e autoria das músicas citadas ao longo do texto. 4 “Felicidade”, música de Lupicínio Rodrigues – ver anexo 1. 5 “Travessia”, música de Milton Nascimento e Fernando Brandt – ver anexo 1. 6 “A Divina Comédia – Inferno” - Canto I, verso 87, p.28 (ALIGHIERI, 1998a).

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logo percebeu que o saber universitário, tão rigidamente lhe ensinado, não conseguia resolver essas dores da alma, essas dores de paixão, essas dores de conflitos mal resolvidos, essas dores muitas vezes sem nome. Selva escura. Sem ver muito bem o que fazer, foi pela luz da palavra de suas histéricas que esse homem se deixou levar. Enquanto Dante e Virgílio, quando começam a descer no Inferno e se deparam na ante-sala, numa espécie de saguão, com aqueles que não poderão jamais nem chegar ao céu, nem ir para o inferno, é a descoberta dos indiferentes, dos neutros da vida, daqueles que fizeram do muro sua profissão de fé, aqueles que nossa língua tão gentilmente qualifica de “bagres ensaboados” – nem felizes, nem infelizes, muito pelo contrário –, enquanto Dante fica estupefato pelo fato de nem Deus nem o Diabo quererem esses condenados7, as histéricas levaram Freud ao avesso da indiferença, levaram-no pela mão até a diferença sexual, ao campo onde a biologia não consegue responder por que um corpo biológico não nasce sabendo o que fazer do sexo. O que é ser um homem, o que é ser uma mulher? Não vem escrito no DNA essa resposta. É uma resposta construída, não uma resposta pronta. As histéricas levaram Freud pelos círculos infernais do insabível (é o próprio conceito de inconsciente em alemão, unbewust) levaram Freud para o terreno das fantasias sexuais. E aqui, uma primeira parada fundamental, quando Freud recebe uma pergunta de uma paciente, uma pergunta muito difícil de responder. Isso está registrado no quarto capítulo de seus “Estudos sobre a Histeria”, assinado junto com seu professor, o doutor Josef Breuer – pode-se considerá-lo como um primeiro Virgílio nessa caminhada de Freud. Infelizmente ou felizmente, ao contrário do Virgílio de Dante, este aqui deu no pé muito cedo. Medo do inferno?8 A pergunta do paciente foi a seguinte: “É provável, doutor, que meu sofrimento, a minha infelicidade, esteja conectada com as peripécias de minha vida. Ora, se você nada pode fazer para mudar as coisas que acontecem em minha vida, meu chefe que me perturba, meu marido que não me dá atenção, meu professor que não me entende e me deixa abaixo da média, como é que você vai me ajudar?”9. Pergunta muito difícil. Freud dá uma resposta paradoxal: Olha, eu não duvido que o destino pode muito mais facilmente do que eu livrá-la de seu sofrimento. Que, por exemplo, seu chefe poderia morrer de repente, que seu professor poderia ser substituído de um dia para outro por alguém mais compreensivo, alguém mais motivado, alguém mais cooperativo, que seu marido pudesse mudar depois de uma forte dor de dente, e assim por diante. Mas, você se convencerá de que será muito maior o ganho se conseguirmos que, em vez de ficar esperando isso acontecer, em vez de ficar sentada à beira do caminho, diz Freud, não é melhor acabar logo com isso10? Não é melhor acabar com essa morte lenta e transformar a sua miséria histérica [neurótica] em uma infelicidade banal? Com uma vida psíquica restabelecida, você poderá defender-se muito melhor do destino.11 7 “A Divina Comédia – Inferno” - Canto III, versos 31-42, p. 38 (ALIGHIERI, 1998a). ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Em sua monumental biografia de Freud, o historiador Peter Gay relata, nas páginas 74-79 as possíveis causas do afastamento de Breuer em relação às idéias de Freud (Cia.das Letras, 1997). 9 “Você mesmo afirma que é provável que meu sofrimento esteja ligado às condições e peripécias de minha vida. Já que você nada pode fazer diante delas, então como pretende me socorrer?” (FREUD, 1987, p. 309). �������������������������������������������������������������������������������� “Sentado à beira do caminho”, música de Roberto e Erasmo Carlos – ver anexo 1. ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� “Eu não duvido que seria mais fácil o destino livrá-lo de seus sofrimentos do que eu próprio. Mas você se convencerá

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Reparem que é uma resposta belíssima. Mais do que uma resposta, é uma interpretação, ou seja, é algo que faz parte da lógica e da dinâmica de uma análise. Não se pode pegar essa resposta e colocá-la na capa de um livro de auto-ajuda e distribuí-la pelo mundo como uma “receita de felicidade”: seja um infeliz ordinário! É que essa transformação de uma miséria neurótica em uma infelicidade banal é fruto de um trabalho. Trabalho de análise. Trabalho singular, particular, não universal, não válido para todos. A cada um, sua própria e específica infelicidade banal. Como diz Tolstói em Ana Karênina, “todas as famílias felizes se parecem ; cada família infeliz é infeliz à sua maneira” (Tolstói , 1982, p. 11) . Freud está dizendo ao sujeito para não esperar sentado. Não ficar esperando a felicidade voltar. Ele convida o sujeito a fazer uma travessia. Ele convida o sujeito a parar de ficar olhando para si mesmo e passar do olhar para a fala, para a palavra. Ele está convidando a sujeito a sair da frente do lago (Narciso) e prestar mais atenção a Eco, ao eco do Outro12. Vocês sabem que Narciso, por não dar bola a ninguém, acaba condenado pela deusa Nêmesis a amar sua própria imagem refletida no lago, sem dali poder sair, sequer para se alimentar. Ora, a resposta de Freud indica essa travessia de passar de sentado a caminhante. A sair do silêncio para soltar sua voz nessa estrada da análise. Soltar sua voz mesmo que exista uma vontade de se matar. A vida na voz contra a morte do sonho, a morte da esperança. Sair da miséria...mas não para a riqueza. Freud não é neoliberal – ele não acredita no engodo do “sucesso”, na ilusão do “self made-man” [homem que se faz por si mesmo], no aconselhamento da “felicidade ao alcance da mão”, no conto-da-carochinha do “desenvolvimento de competências”, para esse tipo de finalidade13. O sujeito não é neurótico porque é incompetente. Ele é neurótico por tentar domesticar o indomesticável de suas pulsões, de seu desejo, de seu inconsciente. Ele é neurótico por tentar controlar, tentar dominar, tentar regrar o incontrolável, o incontornável, o ilimitável. Ele achar que é incompetente faz parte de sua miséria neurótica. Se sai da miséria da neurose através de um trabalho de desidentificação do indivíduo dessa unidade tão falsa da consciência de si próprio.14 Fazer com o braço seu viver não significa transformar a miséria em riqueza, a riqueza do ser feliz. Significa isso: fazer com o braço algo, fazer com as pernas um caminho, fazer com os buracos do corpo um percurso. Fazer uma escolha. E escolher significa perder algo, abrir mão de algo. Em um dos trechos mais belos do livro “Felicidade” de Darrin McMahon, o autor diz o seguinte sobre a representação da felicidade na de que é grande o ganho se conseguirmos transformar sua miséria histérica numa infelicidade banal. Com a vida psíquica restabelecida, você poderá se defender melhor do destino”. (FREUD, 1987, p. 309). 12 A história de Eco e Narciso é contada por Ovídio em Metamorfoses (São Paulo: Madras, 2003, pp. 61-65). “Outro” é um conceito que Lacan apresenta como sendo um lugar em que “ a questão de sua existência coloca-se para o sujeito” (LACAN, 1998, p. 555) , “isto é: de sua sexualidade e de seu desejo, de sua procriação e de sua filiação, de sua existência e de sua morte, do destino que terá sido o seu, enfim. Outro, portanto: um lugar de questionamento do sujeito. Poderia ser uma versão lacaniana do conceito de Inconsciente.” (fonte: Luiz Eduardo Prado de Oliveira in “O conceito de Outro e a abordagem das psicoses”, disponível no sítio http://www.pradodeoliveira.com/br/outro.html (acesso em: 26 de agosto de 2008). ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������ Dany-Robert Dufour discute essas questões no magnífico “A Arte de Reduzir as Cabeças – Sobre a Nova Servidão na Sociedade Ultraliberal” (Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005). 14 Sobre o conceito de “desidentificação”, indico o artigo “Acerca de la Desidentificación” de Willy Baranger, Néstor Goldstein e Raquel Zak de Goldstein in Artesanías Psicoanalíticas (Buenos Aires: Kargieman, 1994).

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antiga Grécia: Obrigadas a tomar decisões impossíveis entre alternativas irreconciliáveis, figuras como Agamenon e Antígona, Orestes e Édipo, Electra e Medéia são assombradas por deuses e perseguidas por maldições de família, submetidas pelo destino e derrotadas pela própria natureza das coisas. E, embora esses personagens tenham inevitavelmente contribuído para sua ruína pela arrogância e pela ingenuidade, o cerne do dilema trágico é que não há resolução simples para os conflitos, não há decisões sem preços altíssimos, não há finais felizes e fáceis. Agamenon, na Oréstia de Ésquilo, é, no que diz respeito a isso, uma figura típica. Ele ou tem que sacrificar sua própria filha em nome dos deuses ou tem de renunciar à sua honra abandonando a campanha grega contra Tróia. A tragédia de seu dilema é que ele não pode ter as duas coisas” (MCMAHON, 2006, p. 24).

Não poder ter as duas coisas talvez seja uma síntese magnífica para esse tempo antigo. Será que vivemos esse mesmo problema? Pensei, quando escrevia, no filme “Matrix”15, em que ao herói, Neo, é ofertada a seguinte escolha: ou a pílula azul, ou a pílula vermelha16. Ora, o bobo do Neo escolhe uma das pílulas. Por que bobo? Porque ele poderia não ter escolhido nenhuma, ou seja, poderia ter escolhido aquilo que Odair José um dia proclamou: pare de tomar a pílula17. Neo não está diante de uma escolha, ou a pílula ou a palavra, por exemplo. Ele está diante de ou a pílula ou a pílula. Que diabo de neo, de novo há aqui?18 Não é isso uma brutal servidão voluntária19 ao desejo do outro – outro equívoco entre sono e sonho, pois Morfeu, que propõe a escolha, pode ser tanto dormir quanto sonhar – aliás, cabe dizer que Paula Toller em seu SóNós20 brinca com essa palavra: é só nós dois ou é para dormir? Então dormir juntos? SóNós vira Sexo! Que admirável mundo novo21 é esse proposto por Morfeu? O mundo da servidão voluntária da drogadição22? O mundo onde se é obrigado a sorrir, obrigado a ser feliz, obrigado a tomar droga para se divertir? Sobre isso, o psicanalista Joel Birman faz uma reflexão fundamental: Diante da impossibilidade do sujeito de afrontar a dor produzida pelo desamparo, surge como solução imediata e, de maneira submissa, a colagem ao outro, ��������������������������������������������������������������������������� Filme “The Matrix” (1999), dirigido por Andy Wachowski e Larry Wachowski. ��������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Há um excelente debate sobre isso no capítulo 14, “Tomando uma Pílula Amarga: Autenticidade em Matrix e a Náusea”, escrito por Jennifer L. McMahon, no livro “Matrix – Bem-Vindo ao Deserto do Real”, coletânea de William Irwin (São Paulo: Madras, 2003. p. 193-203 �������������������������������������������������������������� Música “Pare de Tomar a Pílula” de Odair José – ver anexo 1. ���������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Basta lembrar do encontro de Ulisses com os lotófagos na Odisséia: “Quem saboreia a doçura do loto, perde a vontade de informar, de viajar, esquece o lar, quer permanecer, morar com aqueles indivíduos, os lotófagos. Transtornados pelo loto, perdem a vontade de voltar para casa” (HOMERO in Odisséia parte II. Porto Alegre: L&PM. p. 119. ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������ Referência ao “Discurso sobre a Servidão Voluntária” escrito por Etienne de La Boétie em 1577. Disponível na Internet no sítio: www.culturabrasil.pro.br/boetie.htm. ������������������������������������������������� CD de Paula Toller, “SóNós”, lançado em 2007. �������������������������������������������������������������� Referência ao livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. 22 Não é simbólico o fato de que a discoteca mais famosa de Ibiza, Espanha, tenha o nome de “Amnésia”? Fonte: Joan M. Oleaque in “Tormenta en la isla - ¿Qué ocorre cuando la mejor discoteca del mundo se ve obligada a cerrar un mês por “permisividad” con las drogas?”, El País, 9/7/2007.

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considerado poderoso e do qual se espera proteção para os seus infortúnios. O sujeito oferece ao outro o seu corpo e o seu psiquismo, para que aquele possa gozar como queira, desde que, em contrapartida, ele lhe ofereça proteção para o desamparo. Não obstante a humilhação que tal posição possa implicar para o sujeito, este prefere isso a permanecer entregue a seu desamparo. Podese entrever, por esse viés, por que as depressões assumem tal importância na atualidade, resultantes que são do pacto masoquista, realizado à custa de uma imensa humilhação da auto-estima. (...) Nesse contexto, as drogas são ofertadas em larga escala pela medicina e pela psiquiatria para apaziguar a desesperança e os gritos de terror que solapam as subjetividades. Com a psicofarmacologia e as neurociências, a maciça medicalização do sofrimento no Ocidente, que caracterizou a modernidade, atinge níveis de barbárie (BIRMAN, 2006, p. 52-54).

Será que não há uma droga oferecida também pela mídia? Um certo canto das sereias23? Então, da miséria neurótica para uma infelicidade banal significa lidar com as perdas. Lidar com o desamparo. É por isso que uma análise não é a procura do “sucesso”. Mesmo porque o sucesso é muito perigoso. Sobre isso, Freud escreveu um de seus mais atordoantes trabalhos. Ele se chama “Alguns tipos de caráter elucidados pelo trabalho psicanalítico”. Foi escrito em 1916 e seu segundo capítulo tem o incrível título de “Os que fracassam ao triunfar” (FREUD, 1989a). O problema aqui é justamente quando o indivíduo alcança a felicidade. Freud analisa dois personagens da literatura. A primeira, Lady Macbeth, da peça “Macbeth” de Shakespeare. A segunda, Rebecca West, da peça “Rosmersholm”, de Ibsen24. São duas personagens que, no “auge” do sucesso, não conseguem lidar com o êxito, e fracassam. É um lembrete dramático sobre os perigos da felicidade – do tipo: cuidado com o que você deseja. Um dia pode se realizar.25 Eu lembrei, relendo esse texto e as duas peças, da personagem da mitologia grega Sêmele26. Sêmele é filha de Cadmo, herói fundador de Tebas, e de Harmonia (filha de Afrodite, deusa da união, dos acordos, da reconciliação). Ora, Sêmele é uma criatura encantadora. Tão encantadora que ela atraiu nada mais, nada menos, que Zeus, o deus todo-poderoso – aumentando com isso ainda mais o ódio de Hera para com seu marido traidor. Isso é muito bonito na mitologia grega. Os deuses são faltantes. Os deuses gregos comem churrasco e se ausentam do Olimpo – eles não estão lá o tempo todo. �������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Homero denomina esse canto de “armadilha sonora”. Ver “Odisséia – parte II” (Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 217. Sobre a relação entre mídia e o canto das sereias, Roger Silverstone esclarece: “Vê-se então que a tecnologia é mágica e que as tecnologias da mídia são, de fato, tecnologias de encantamento. Essa sobredeterminação lhes confere um poder considerável, para não dizer aterrador, em nossa imaginação. Nosso envolvimento com elas é impregnado pelo sagrado, mediado por ansiedade e, de quando em quando, arrebatado pela alegria. Nossa dependência delas é substancial. O desespero que nos invade quando somos privados do acesso a elas – o telefone como “linha salva-vidas”, a televisão como “janela para o mundo” – é completo. Nosso entusiasmo, quando somos confrontados pelo novo, às vezes desconhece limites: “Quatro milhões de megas? Nossa!” ”(SILVERSTONE, 2005, p. 50). ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Há uma versão em português em “Ibsen – Seis Dramas – parte 2”. São Paulo, editora Escala. Em relação ao canto da sereia, há um personagem, Brendel, que assim se refere à Rebecca West: “sedutora sereia” (p. 65, op. cit.). ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Por exemplo, a história do rei Midas e seu desejo de que qualquer coisa que tocasse virasse ouro. Entretanto, ao descobrir que o próprio alimento que tentava comer se transformava em ouro, suplicou o fim da graça recebida (HARVEY, 1987). �������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Junito de Souza Brandão tem uma outra interpretação para a história de Sêmele em “Mitologia Grega – v. II”. Petrópolis: 2007, 16. ed., p. 120-123.

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Há no início da Ilíada esse episódio inesquecível do desamparado Aquiles pedindo a sua mãe que vá falar com Zeus no Olimpo. E sua mãe dá a resposta chocante de que Zeus e todos os deuses (atenção para este todos) não estão: eles foram comer um churrasco na Etiópia e voltam daqui a doze dias!27 São deuses da secretária eletrônica: pode deixar seu recado! Ora, Zeus terá relações com Sêmele, mas não de apenas um dia, como aconteceu com outras – mas Sêmele não era uma mera “outra”. Sêmele era Sêmele. Zeus vai ter uma relação com ela duradoura, de vários meses. Então, Sêmele, que vê Zeus deitar-se a seu lado toda noite sob uma forma humana, mas que sabe que se trata de Zeus, deseja que o deus lhe apareça pessoalmente em todo o seu esplendor, em sua majestade de soberano dos bem-aventurados imortais. Aí podemos perceber que Sêmele era histérica – diante de Morfeu, Sêmele não dormiria no ponto, ou no conto dele: com certeza, ela responderia – mas precisa tomar isso mesmo? E se não tomar? E não tem de outras cores? É marca registrada da histeria essa insatisfação. É por isso, aliás, que a ciência é histérica.28 Bom, Sêmele não pára de implorar a Zeus que ele se mostre como deus, e não como simples humano. Sêmele também contraria toda a ética de Aristóteles aqui. Está lá, na Ética a Nicômaco, bem no início, a frase que nos acompanha até hoje como se fosse uma espécie de verdade revelada: “o bem é aquilo a que todas as coisas tendem” (Aristóteles, 1987, p. 9). Resumindo, Aristóteles nos legou que “estamos bem no bem”. Não preciso lhes dizer do “sucesso” tremendo dessa frase de Aristóteles em nossa época. São milhões de livros e revistas publicados além de incontáveis programas de televisão com “receitas” de felicidade: sorria dez vezes por dia, tenha 50 orgasmos em vinte e quatro horas, fique linda só comendo abacaxi, e assim por diante. Ora, Sêmele não está bem no bem. Sêmele é uma excelente demonstração da resposta de Freud a Aristóteles, em “Além do Princípio do Prazer” de 1920: o ser humano não está bem no bem. Ele está bem é no mal (FREUD, 2006b).29 As amigas de Sêmele anteviram isso e, como boas amigas, lhe falaram: sua boba, você já conseguiu o deus, o que mais você quer? Ei, acorde, é ele, é o cara! O deus já lhe garantiu pensão, capa da Playboy, o que mais você precisa? Não é o máximo você chegar com ele lá na Liqüe, lá no Taco, lá na Eon, lá no Castelo do Batel30? Ele até já te engravidou, o que mais você necessita? Pois Sêmele, longe do registro da necessidade, demonstra que a pulsão não se regula pelo objeto, não se regula pelo bem. A pulsão deseja outro desejo.31 Diz Nietzsche em sua máxima 175 de Além do Bem e do Mal: “Por fim amamos o próprio desejo, e não o desejado” (Nietzsche, 2005, p. 72).

��������������������������������������������������������������������������������������������� Isso está explícito no canto I da “Ilíada” de Homero (Rio de Janeiro: Ediouro, 2001, p.70). ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Bruce Fink trabalha muito bem sobre essa questão no capítulo “Psicanálise e Ciência” de seu livro “O Sujeito Lacaniano” (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 170-179). 29 Sobre isso, Slavoj Zizek se pronuncia: “Em psicanálise, a traição do desejo tem um nome preciso: felicidade. (...) “felicidade” pertence ao princípio do prazer, e o que a solapa é a insistência em um além do princípio do prazer” (ZIZEK, 2005, p. 77-78). Já o psicanalista Ricardo Goldenberg conclui: “A psicanálise, entretanto, não se propõe a indicar onde está o Bem, e, enquanto o político entra de chofre no jogo do publicitário – o moderno engenheiro das identificações que orienta o fluxo dos desejos na direção dos interesses que serve –, a prática do psicanalista se exerce na direção contrária, de pôr em questão as soluções neuróticas para lidar com os impasses do desejo no intercâmbio social” (GOLDENBERG, 2006, p. 38). ������������������������������������������������������ Casas noturnas e restaurantes na cidade de Curitiba. ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Freud é muito claro sobre isso em seu texto “Pulsões e Destinos da Pulsão” de 1915: “O objeto da pulsão é aquilo em que, ou por meio de que, a pulsão pode alcançar sua meta. Ele é o elemento mais variável na pulsão e não está originariamente vinculado a ela, sendo-lhe apenas acrescentado em razão de sua aptidão para propiciar satisfação” (in Obras Psicológicas de Sigmund Freud – Volume 1. Rio de Janeiro: Imago, 2004b, p. 149).

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Ora, evidentemente, mesmo se de vez em quando os deuses assistiam a seus casamentos, é sempre um perigo para os homens quererem que os deuses se apresentem diante de seus olhos tais como são, como fariam parceiros mortais. Quando Zeus acata o pedido de Sêmele – Zeus obsessivo? – mas é difícil não ceder a uma histérica decidida –, e então Zeus aparece em seu esplendor fulminante, Sêmele é consumida pela luminosidade flamejante, pelo brilho divino do amante. Sêmele queima literalmente – ela pega fogo, mas não no sentido erótico, mas, sim, literal: queimadura de terceiro grau, sua pele fica negra, ela sequer grita, pois o fogo destruiu suas terminações nervosas. Como já estava grávida, Zeus não hesita um segundo: tira do corpo de Sêmele, que está se consumindo, o pequeno Dionísio, faz um corte na própria coxa, abre-a, transforma-a em útero feminino (Zeus pode tudo – bom, nem tudo. Diante de Sêmele queimando, ele não conseguiu apagar esse fogo – e olha, justiça seja feita, nem o outro fogo, pois ela queria...mais – não é esta mais uma prova da debilidade dos deuses gregos? Que deus é esse que não consegue apagar esse fogo? Aguardemos os próximos. Quiçá sejam mais fortes!). Então, Zeus tira esse bebê e coloca em sua coxa o futuro filho, que é então um feto de seis meses. Assim, Dionísio será duplamente filho de Zeus, será o “nascido-duas-vezes” (Vernant, 2005, p. 150). Aliás, Dionísio é o filho que toda mãe gostaria de ter. É ele quem vai buscar a mãe no Inferno (Hades) e leva-a para o Olimpo dos deuses onde ela, enfim, será promovida a deusa. Não é à toa que Nietzsche tenha se encantado com ele em sua obra “O Nascimento da Tragédia”. 32 Bom, mas voltando à mãe de Dionísio, eis aqui um desejo plenamente realizado. O que resta quando o desejo se realiza? Pois se o desejo nasce da falta, alguém que tivesse todos os seus desejos atendidos, não levantaria mais na manhã seguinte. Morreu, como Sêmele. Talvez por causa disso Dante, no canto II do Inferno, não queira de jeito nenhum seguir caminho com Virgílio. Dante tenta convencer Virgílio que ele não tem a virtude de Enéias (fundador de Roma), nem sequer um terço da força de São Paulo, logo (Dante era aristotélico), silogismo, ele, Dante, não pode seguir adiante. O pobre Virgílio tem que apelar ao nome de Beatriz para acordar Dante – e eis aqui algo muito belo: Beatriz acende o fogo do desejo em Dante (Alighieri, 1998a). Mas não será para todo ser humano...uma mulher em especial, aquela que nos move? Bom, então Freud propõe a transformação de uma miséria neurótica em uma infelicidade banal. O que é uma infelicidade banal? É aquela que possibilita a continuação da vida. É aquela que empurra para a frente, empurra ao desejo. É aquela em que ainda é possível uma resposta – sem que o sujeito fique à mercê do que não controla. Sem que o sujeito fique entupido de drogas, de cigarrinhos, de balinhas, de azuizinhas ou vermelhinhas que lhe prometem o paraíso sem o trabalho da perda, sem o trabalho da caminhada que em Dante vai do inferno pelo purgatório até chegar a um ponto de parada chamado paraíso – em São Paulo, é um dos destinos do metrô! Em Dante, não há atalhos entre o inferno e o paraíso. Há que caminhar e muito. É por isso que uma análise leva tempo. É o tempo de uma caminhada. Muitos anos depois, em 1930, em seu trabalho “O Mal-Estar na Cultura”, ��������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� A questão central dessa obra, posta por Nietzsche já no primeiro capítulo, é a seguinte: “Se fosse justamente a loucura, para empregar uma palavra de Platão, que tivesse trazido as maiores bênçãos sobre a Hélade?” (NIETZSCHE, 2003, p. 17-18). Dionísio é o representante dessa loucura.

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Freud aprofunda a reflexão sobre a felicidade: o que é que os seres humanos querem alcançar na vida? Querem alcançar a felicidade, consegui-la e mantê-la. E o que é essa tal felicidade? Diz Freud, é querer a ausência de dor e de desprazer e, por outro lado, querer vivenciar intensos sentimentos de prazer.33 Reparem para o “intensos” – prazeres mixurucas estão fora de questão. Eis aqui a insatisfação de Sêmele: Zeus-homem é pouco. Ela queria Zeus-deus. “Deus” no que deu. Freud declara a seguir que esse programa, esse projeto, esse objetivo, essa meta, esse desafio estratégico, esse “core business”34 entra em conflito com o mundo inteiro. É um projeto destinado ao fracasso. Ele é irrealizável. Freud recorre até a Goethe nessa hora (assim como Virgílio recorreu a Beatriz antes): “Nada é mais difícil de suportar do que uma sucessão de dias felizes”, diz Goethe35. Goethe é aquele estraga-prazeres que chega e diz: experimente fazer um jornal só com notícias felizes ou então uma revista só com anúncios publicitários, sem aquelas matérias de recheio sobre a fome no Sudão, a corrupção no Japão e assim por diante – vai morrer de fome. Mas, por que isso? Por que esse objetivo é irrealizável? Porque, diz Freud, de três lados nos ameaça o sofrimento. Do próprio corpo, destinado à ruína e à dissolução; da natureza, que pode se abater com fúria sobre nós e, a pior das ameaças, das relações entre os próprios seres humanos (Freud, 1988). É curioso pensar o que nosso século propõe a cada uma dessas ameaças. Para o corpo em decomposição, entra a cosmética36: a medicina dermatológica, endócrina e cirúrgica visando “corrigir” a falta, a falha, a divisão do sujeito através de plástica, plásticos, cirurgias e remédios. Para a ameaça da natureza, uma série de invenções, ar condicionado, aquecedores, mas as surpresas com furacões, tsunamis e mudanças climáticas. E para os relacionamentos humanos? Pois, surge a invenção genial da segregação, do isolamento, dos condomínios fechados: são muros em fronteiras, cercas de arame eletrificado, fossos, e logo o retorno triunfal do azeite fervendo...sem falar da invenção mais estarrecedora do século XX junto com a bomba atômica: o campo de concentração nazista – onde se inventou uma linha de desmontagem de vidas humanas inédita na história.37 Nesse campo, nosso século não ���������������������������������������������������������������������������������������������������������� Isso é amplamente desenvolvido por Freud no capítulo II do Mal-Estar na Cultura (FREUD, 1988), p. 74-96. ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Expressão da Administração e que indica a parte principal de um negócio ou área de negócios, geralmente definido em função da estratégia de uma empresa para o mercado. Sobre a felicidade como “negócio”, indico a conclusão do livro “Felicidade” de Darrin M. McMahon, quando ele conta a história do executivo de publicidade, Harvey R. Ball, e a criação do “Smiley”, o rosto sorridente, ícone moderno da felicidade (MCMAHON, 2006). ���������������������������������������������������������������������������������������������� A citação encontra-se na nota 4 do capítulo II do Mal-Estar na Cultura (FREUD, 1988), p. 76. ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Sobre isso, há um trabalho excelente do psicanalista Antonio Quinet, “As Novas Formas do Sintoma na Medicina”, disponível no sítio http://www.estadosgerais.org/historia/160-as_novas.shtml. ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Ver, por exemplo, o estarrecedor relato de Primo Levi em “É Isso Um Homem”? (Rio de Janeiro: Rocco, 1988). Sobre a felicidade, afirma Levi: “Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer “infinito”. Assim, opõe-se a esta realização o insuficiente conhecimento do futuro, chamado de esperança no primeiro caso e de dúvida quanto ao amanhã, no segundo. Assim, opõe-se a ela a certeza da morte, que fixa um limite a cada alegria, mas também a cada tristeza. Assim, opõem-se as inevitáveis lides materiais que, da mesma forma como desgastam com o tempo toda a felicidade, desviam a cada instante a nossa atenção da desgraça que pesa sobre nós tornando a sua

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quer ficar para trás. Inventou Guantánamo, onde prisioneiros sem nome, sem lei e sem acusação formal mofam ad aeternum.38 Se Freud apresenta essas três ameaças como algo permanente, isso significa que devamos renunciar à esperança? Mas como se na caixa de Pandora, foi só ela que restou no fundo39? Nisso, Dante foi absolutamente magnífico. No terceiro canto do Inferno, após Virgílio finalmente ter convencido Dante a seguir caminhando – o nome de Beatriz funcionou como o motor do desejo de Dante – ele se depara com a seguinte inscrição no Inferno: “Lasciate ognie speranza, voi ch’intrate” “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais” (Alighieri, 1998ª, p. 37). O Inferno é sem esperança40. É o lugar da não-mudança, é o lugar do pensamentoúnico, é o lugar da não possibilidade de revolução. O inferno é pensar que chegamos ao fim da história. O inferno é pensar que qualquer sistema político-econômico será para sempre a única possibilidade de pensar a vida. Ora, a resposta de Dante é que ele mesmo após ter perdido para sempre o amor de sua vida – Beatriz já tinha morrido quando ele começa a escrever o livro, mesmo estando para sempre exilado de sua cidade, seu caminhar não terminou. A resposta de Dante é sua obra, a Divina Comédia, é aquilo que vem no lugar de outra coisa, é aquilo que vem no lugar de Beatriz, ou seja, a Divina Comédia é uma metáfora. E também é uma metonímia, pois Dante não escreveu só esta obra. Tampouco a escreveu de uma vez só. Metáfora e metonímia. Cantar o impossível, mas cantar. Se a felicidade, Beatriz, foi-se embora e a saudade ainda mora no peito do poeta, Dante lá detrás do mundo, no exílio, decide fazer com seu braço seu viver. E aí escreve, e descreve, fala do impossível do paraíso, desse amor que move o sol e as estrelas41 e que moveu todo o seu trabalho de escrever essa obra extraordinária. Fazer do impossível uma obra resulta em transformar a impotência em realização. Representa transformar a impossibilidade da felicidade total nessa infelicidade banal que pode se chamar “A Divina Comédia”. Agora, de onde veio esta idéia de que a felicidade seja uma obrigação, esta idéia de que a felicidade total possa existir? É num trecho muito precioso de seu texto “À Guisa de Introdução ao Narcisismo” de 1914 que Freud vai esclarecer esse problema. Diz Freud:

A criança deve ter melhor sorte que seus pais, não deve ser submetida aos mesmos imperativos que eles tiveram de acatar ao longo da vida. Doença, morte, renúncia à fruição, restrições à própria vontade não devem valer para a percepção fragmentária, e, portanto, suportável” (LEVI, 1988, p. 15). ��������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Sobre o campo de concentração como um paradigma de nossa época, há um livro essencial do filósofo italiano Giorgio Agamben, “Homo Sacer” (Belo Horizonte: UFMG, 2004). ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Jean-Pierre Vernant faz uma bela análise de Pandora em sua obra “O Universo, os Deuses, os Homens” (São Paulo: Cia. das Letras, 2005. p. 68-74). ��������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Há uma belíssima reflexão sobre isso na conferência de Newton Bignotto chamada A Condição Humana (Dante), no livro organizado por Adauto Novaes intitulado “Poetas que Pensaram o Mundo”, ed. Cia. das Letras, 2005. �������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Referência ao último verso, o 145, da terceira e última parte da Divina Comédia, O Paraíso, o final da jornada: “l’amor che move il sole e l’altre stelle” [o Amor que move o Sol e as mais estrelas] (ALIGHIERI, 1998c , p. 234).

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criança, as leis da natureza, assim como as da sociedade, devem se deter diante dela, e ela deve realmente tornar-se de novo o centro e a essência da criação do mundo. His Majesty the Baby, tal como nós mesmos nos imaginamos um dia. A criança deve satisfazer os sonhos e os desejos nunca realizados dos pais, tornarse um grande homem e herói no lugar do pai, ou desposar um príncipe, a título de indenização tardia da mãe. O ponto mais vulnerável do sistema narcísico, a imortalidade do Eu, tão duramente encurralada pela realidade, ganha, assim, um refúgio seguro abrigando-se na criança (FREUD, 1988a, p. 88).

É uma reflexão genial de Freud. A criança vai surgir justamente nessa tentativa de preencher a esperança do Outro. Antes de poder escolher, a criança é escolhida pelo Outro: recebe um nome, as primeiras palavras, as primeiras significações sobre o que é que está fazendo ali, quem é e, mais importante, quem deverá ser. “Sonhos e desejos nunca realizados dos pais” – esse é o cimento e a argamassa que vão estruturar a instância do ideal em nossas vidas. O ideal do eu é uma espécie de farol42, que indica, sinaliza, aponta, mas também cobra, repreende, tornando quase que impossível uma “pureza da consciência” (IBSEN, p. 41). É desse ideal que emerge esse estranho projeto, o de ser feliz no lugar...dos pais que não foram ou não foram tanto quanto gostariam. A um primeiro momento de quase beatitude entre a criança e a mãe, poderá existir um segundo momento, de corte dessa relação. É isso que se chama função paterna em psicanálise.43 É essa função que vai fazer com que a criança possa passar da miséria de um gozo trágico – ela e a mãe – para o mundo das infelicidades banais, ela e o namorado, ela e o carro, ela e a caneta, ela e o microfone, ela e o estudo, ela e a profissão, e assim por diante. A função paterna é aquilo que funda um consumidor decidido. Decidido a vagar de objeto em objeto – lembremos que a pulsão não tem objeto, ao contrário do instinto dos animais – à procura daquilo que lhe trará a grande satisfação, a paz do cemitério, a paz do não-desejo – que seria o encontro com um objeto-total. Mesmo a tão utilizada droga exige sempre mais...mais um, mais um pouquinho, mais uma cheiradinha, mais uma balinha, só mais uma...até a morte – sem querer...querendo. A função paterna é aquilo que dá um limite, é um não que vai abrir todos os outros sims da existência44. No primeiro semestre de 2008, comemoram-se os cem anos da mãe de Caetano Veloso e Maria Betânia, dona Canô. Caetano lembrou da mãe desse jeito: “A maior lição que aprendi com minha mãe foi gostar da existência” (O Globo, 16/9/2007). O Édipo em psicanálise é justamente essa transformação da natureza, da nãoexistência, em cultura, é a mudança de um corpo biológico para um corpo erógeno, é a passagem da não escolha para o território das escolhas e, como preço, da perda, da falta e do...desejo.45 Não é fácil aprender a gostar da existência, pois isso implica ����������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Freud faz uma extensa análise disso em seu texto “A Divisão da Personalidade Psíquica”, de 1933 (FREUD, 1989b). ��������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Sobre a função paterna, indico o livro do psicanalista Joël Dor, “O Pai e sua Função em Psicanálise” (Jorge Zahar, 1991). ���������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Essa idéia é desenvolvida pelos psicanalista Alduísio Moreira de Souza no primeiro capítulo de seu livro “Precisões Clínicas em Psicanálise” (edição do autor, 2004). ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Sobre o conceito de complexo de Édipo, indico o belo livro do psicanalista Juan David Nasio intitulado “Édipo, o

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perder essa relação inicial com tudo aquilo que a mãe representa para o bebê. Antes de gostar da existência, o sujeito só está com ela. Há uma passagem aqui, uma travessia. Da mãe para a existência. É isso a função paterna. Da mãe para o mundo. A função paterna é o anjo torto de Drummond em seu poema de sete faces (publicado em 1930, no mesmo ano do Mal Estar na Cultura de Freud!): Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.46

Ser gauche, ser deslocado, ficar à esquerda dos acontecimentos, ficar à margem, torto, sem jeito, sem remédio, sem solução. “Drummond chamou de “um eu todo retorcido” a essa subjetividade convulsionada pela experiência moderna” (Wisnik apud Novaes, 2005, p. 39). Ser gauche é o preço a pagar para ser. A alternativa é péssima: não ser. Mas vai, Carlos, vai ser, vai existir, vai gostar da existência Carlos, vai se retorcer, vai ser barroco na vida, vai... Em um dos momentos mais impressionantes da Divina Comédia, já no Purgatório (é o canto V), Dante pára de caminhar atraído por um grito. Dante se distrai, se perde de novo.47 Virgílio imediatamente o repreende desta forma (p. 345): “Perché l’animo tuo tanto s’impiglia”, disse ’l maestro, “che l’andare allenti? che ti fa ciò che quivi si pispiglia? Vien dietro a me, e lascia dir le genti: sta come torre ferma, che non crolla già mai la cima per soffiar di venti;

“Por que a tua mente tanto se aventura”, disse o meu Mestre, “em vãos impedimentos? Que te interessa o que aqui se murmura? Vem, e ignora das gentes os comentos, sê como torre, que nunca estremece seu firme cimo por soprar de ventos;” (ALIGHIERI, 1998b, p. 37-38)

complexo do qual nenhuma criança escapa” (Jorge Zahar, 2007). ���������������������������������������������������������������� Poema de Sete Faces, Carlos Drummond de Andrade – ver anexo 2. ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������ Já no Inferno-Canto II (ALIGHIERI, 1998a), verso 121, p.35, Virgílio se irrita com a reticência de Dante em lhe acompanhar. No Inferno-Canto XXIV (verso 52, p.165), Virgílio ordena que Dante se levante, que não ceda à folgança (verso 46, p.165). No Purgatório-Canto III (ALIGHIERI, 1998b), verso 22, p.26, Virgílio pergunta de que Dante está desconfiando, se não acredita mais nele (verso 24, p.26). No mesmo Purgatório-Canto XII (versos 4 e 5, p. 79), Virgílio ordena que Dante se desligue de algumas almas que insistia em acompanhar . E, no canto XV do Purgatório (verso 136, p. 104), Virgílio precisa dar força aos pés de Dante, que parecem avançar muito lentamente. Finalmente, só no canto XXVII do Purgatório, Virgílio declara: “Aqui eu te trouxe com engenho e arte;/seja ora o teu quere quem te conduz;/ duras vias já não tens pra fatigar-te” (versos 130-133, p. 181). E, em um dos versos mais lindos de toda a Divina Comédia, já no Canto XXX do Purgatório (versos 43-48, p. 196), Dante, sem Virgílio e prestes a encontrar Beatriz, volta a cabeça à sua procura, assustado: “voltei-me à esquerda, com a confiança/ que, correndo pr’a mãe, o infante abriga,/quando assustado busca segurança;/pra a Virgílio dizer: “Uma só miga/de sangue não me resta que não trema:/reconheço os sinais da chama antiga” (ALIGHIERI, 1998b).

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É claro que Virgílio não é Freud. Se Freud certamente endossaria o “lascia dir le genti”, jamais ele estaria preocupado pelo fato de Dante se distrair, de Dante se perder na selva do desejo. Jamais diria a Dante para ele ser como uma torre firme. Torre firme? Isso é conselho, é auto-ajuda da Idade Média. O próprio Dante procura o tempo todo na Divina Comédia a fuga da disciplina, a fuga da ordem em que cada coisa está em seu lugar. No lugar do previsível, Dante erra pelo imprevisível. Dante desmaia diversas vezes, ele cai, ele se esborracha no chão48. Dante, esse homem símbolo do Renascimento, na verdade abre também a via do Barroco. E nesse sentido, Dante está próximo da psicanálise. Uma análise precisa que o sujeito aceite dizer o que não sabe, falar o que lhe vem à cabeça, falar sem saber, falar sem poder controlar onde é que vai dar o que está dizendo. Fazer da selva escura algo que valha a pena. Fazer metáfora, fazer metonímia, fazer um viver. Ser gauche na vida.

������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������ Por exemplo, no final do Canto III do Inferno, verso 136 (p. 41) e no final do Canto V do Inferno, verso 142 (p. 54),

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HARVEY, Paul. Dicionário Oxford de Literatura clássica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. HOMERO. Ilíada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. ______. Odisséia – v. II. Porto Alegre: L&PM, 2007. HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Abril Cultural, 1982. IBSEN, Henrik. Rosmersholm. São Paulo: Escala, s.d.. IRWIN, William. Matrix – bem-vindo ao deserto do real. São Paulo: Madras, 2003. LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. LEVI, Primo. É isso um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988. MCMAHON, Darrin M. Felicidade. São Paulo: Globo, 2006. NASIO,J.-D. Édipo – O complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Cia das Letras, 2003. ______. Além do bem e do mal. São Paulo: Cia das Letras, 2005. OVÍDIO. Metamorfoses. São Paulo : Madras, 2003. SHAKESPEARE, William. Macbeth. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2ª.ed., 2005. SOUZA, Alduísio M. de. Precisões clínicas em psicanálise. Porto Alegre: edição do autor, 2004. TOLSTÓI, Leon Nikolaievitch. Ana Karênina – v. I. São Paulo: Abril Cultura, 1982. VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Cia das Letras, 2005. WISNIK, José Miguel. Drummond e o seu Mundo (Drummond). In: NOVAES, Adauto (organizador). Poetas que pensaram o mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2005. ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real. São Paulo: Boitempo, 2003.

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MÍDIA E FELICIDADE, UMA LEITURA PSICANALÍTICA

ANEXO 1 – MÚSICAS CITADAS NO ARTIGO 1. Felicidade

Música: Tom Jobim Letra: Vinicius de Moraes Tristeza não tem fim Felicidade sim... A felicidade é como a pluma Que o vento vai levando pelo ar Voa tão leve Mas tem a vida breve Precisa que haja vento sem parar. A felicidade do pobre parece A grande ilusão do carnaval A gente trabalha o ano inteiro Por um momento de sonho Pra fazer a fantasia De rei, ou de pirata, ou jardineira E tudo se acabar na quarta-feira. Tristeza não tem fim Felicidade sim... A felicidade é como a gota De orvalho numa pétala de flor Brilha tranquila Depois de leve oscila E cai como uma lágrima de amor. A minha felicidade está sonhando Nos olhos de minha namorada É como esta noite Passando, passando Em busca da madrugada Falem baixo por favor... Pra que ela acorde alegre como o dia Oferecendo beijos de amor. Tristeza não tem fim Felicidade sim...

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LEONARDO FERRARI

2. Felicidade Lupicínio Rodrigues Felicidade foi embora E a saudade do meu peito inda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque eu sei que a falsidade não vigora A minha casa fica lá detrás do mundo Onde eu vou em um segundo Quando começo a cantar O pensamento parece uma coisa à toa Mas como é que a gente voa Quando começa a pensar

3. Travessia

Milton Nascimento e Fernando Brant Quando você foi embora Fez-se noite em meu viver Forte eu sou mas não tem jeito Hoje eu tenho que chorar Minha casa não é minha E nem é meu este lugar Estou só e não resisto Muito tenho pra falar Solto a voz nas estradas Já não quero parar Meu caminho é de pedra Como posso sonhar? Sonho feito de brisa Vento vem terminar Vou fechar o meu pranto Vou querer me matar Vou seguindo pela vida Me esquecendo de você Eu não quero mais a morte Tenho muito que viver Vou querer amar de novo COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.121-140| 1° Semestre 2009 | 137


MÍDIA E FELICIDADE, UMA LEITURA PSICANALÍTICA

E se não der não vou sofrer Já não sonho Hoje faço com meu braço meu viver

4. Sentado à beira do caminho

Roberto Carlos e Erasmo Carlos Eu não posso mais ficar aqui a esperar que um dia, de repente, você volte para mim Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim Meu olhar se perde na poeira dessa estrada triste onde a tristeza e a saudade de você ainda existem Esse sol que queima no meu rosto um resto de esperança de ao menos ver de perto o seu olhar que eu trago na lembrança Preciso acabar logo com isso Preciso lembrar que eu existo Vem a chuva, molha o meu rosto e então eu choro tanto minhas lágrimas e os pingos dessa chuva se confundem com o meu pranto Olho pra mim mesmo, me procuro e não encontro nada sou um pobre resto de esperança à beira de uma estrada Preciso acabar logo com isso Preciso lembrar que eu existo Carros, caminhões, poeira, estrada, tudo, tudo se confunde em minha frente minha sombra me acompanha e vê que eu estou morrendo lentamente Só você não vê que eu não posso mais ficar aqui sozinho esperando a vida inteira por você, sentado à beira do caminho Preciso acabar logo com isso Preciso lembrar que eu existo

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5. Pare De Tomar A Pílula Odair José

Já nem sei há quanto tempo Nossa vida é uma vida só E nada mais Nossos dias vão passando E você sempre deixando Tudo pra depois Todo dia a gente ama Mais você não quer deixar nascer O fruto desse amor Não entende que é preciso Ter alguém em nossa vida Seja como for Você diz que me adora Que tudo nessa vida sou eu Então eu quero ver você Esperando um filho meu Então eu quero ver você Esperando um filho meu (refrão) Pare de tomar a pílula Pare de tomar a pílula Pare de tomar a pílula Porque ela não deixa o nosso filho nascer (3x) Você diz que me adora Que tudo nessa vida sou eu Então eu quero ver você Esperando um filho meu Então eu quero ver você Esperando um filho meu Pare de tomar a pílula Pare de tomar a pílula Pare de tomar a pílula Porque ela não deixa o nosso filho nascer (3x)

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ANEXO 2 – POEMA DE SETE FACES DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Carlos Drummond de Andrade Poema de Sete Faces In Alguma Poesia (1930) Edições Pindorama Belo Horizonte, 1930 Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.   As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.   O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada.   O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode.   Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco.   Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração.   Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo.


PROJETO TEATRO SHAKESPEARE EM INGLÊS: UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE LÍNGUA INGLESA EM CURSO DE JORNALISMO Alexandre Castro1 Universidade Positivo

Patrícia Helena Rubens Pallu2 Universidade Positivo

RESUMO O presente trabalho tem o objetivo de relatar a experiência de busca de aperfeiçoamento do ensino de Língua Inglesa realizada em 2008 pelo curso de Jornalismo da Universidade Positivo. A experiência foi desenvolvida em atividade de extensão por meio do Projeto Teatro Shakespeare em Inglês e baseou-se na premissa de que atividades especiais facilitam o aprendizado de um segundo idioma por alunos de idade adulta. Um grupo de 23 alunos – com nível heterogêneo de conhecimento da Língua Inglesa – preparou durante oito meses a encenação de excertos de seis obras do dramaturgo inglês William Shakespeare. A estréia ocorreu em novembro, com resultados promissores. Palavras-chave: Ensino. Inglês. Jornalismo. Teatro.

ABSTRACT This work has as its main goal to report on the 2008 experience on enhancing the teaching of English Language at the Journalism School at Positivo University. The experience was developed by the “Shakespeare in English Theater Project”, based upon the premise that special activities make the learning of a second language easier for adult students. A group of 23 students with heterogeneous levels of English worked for eight months on a theater production of excerpts from six works by British playwright William Shakespeare. The premiere was in November, showing promising results. Keywords: Teaching. English. Journalism. Theatre.

1 Alexandre Castro é coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Positivo e diretor de Planejamento do Instituto Cultural de Jornalistas do Paraná, graduado em Jornalismo Gráfico e Áudio-Visual (UFRGS), especialista em Pensamento Contemporâneo Século 20 (PUCPR) e mestrando em Administração (Universidade Positivo). jornalismo@up.edu.br 2. Patrícia Helena Rubens Pallu é professora da Universidade Positivo e integrante do Conselho de Coordenação do curso de Jornalismo, graduada em Letras-Inglês (UFPR) e em Administração de Empresas (FAE) e mestra em Educação e Cultura (UDESC). patypalu@gmail.com


PROJETO TEATRO SHAKESPEARE EM INGLÊS: UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE LÍNGUA INGLESA EM CURSO DE JORNALISMO

INTRODUÇÃO O presente trabalho tem o objetivo de relatar a experiência de busca de aperfeiçoamento do ensino de Língua Inglesa realizada em 2008 pelo curso de Jornalismo da Universidade Positivo, situada na cidade de Curitiba – Paraná, Brasil. A experiência foi desenvolvida por meio do Projeto Teatro Shakespeare em Inglês e baseou-se na premissa de que atividades especiais facilitam o aprendizado de um segundo idioma por alunos de idade adulta. Um grupo de 23 alunos – com nível heterogêneo de conhecimento da Língua Inglesa – preparou durante oito meses a encenação de excertos de seis obras do dramaturgo inglês William Shakespeare. A estréia ocorreu em novembro, com resultados promissores. O trabalho será dividido em seis seções. Após esta introdução, será feita uma breve exposição sobre a Universidade Positivo, destacando-se os seus valores e tradição em atividades culturais. Na sequência, será apresentado um histórico do Grupo de Teatro do Curso de Jornalismo, passando-se então à descrição do Projeto Teatro Shakespeare em Inglês, objetivo central do trabalho. À seção de conclusão seguir-se-ão as referências bibliográficas.

2 A UNIVERSIDADE POSITIVO A Universidade Positivo originou-se das Faculdades Positivo, criadas em 1988, e então compostas pelos cursos de Administração de Empresas, Administração Rural, Comércio Exterior, Pedagogia e Informática. Em 1999, foi implantado o Centro Universitário Positivo (UnicenP), que contava com um total de 18 cursos – os cinco das Faculdades Positivo e 13 novos: Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Ciências Econômicas, Ciências Contábeis, Turismo, Educação Física, Ciências Biológicas, Fisioterapia, Nutrição, Engenharia Civil, Engenharia da Computação, Engenharia Elétrica e Engenharia Mecânica. Posteriormente, foram criados os cursos de Direito, Marketing, Design – Projeto de Produto, Design – Projeto Visual, Psicologia, Farmácia, Odontologia e Medicina. No dia 30 de janeiro de 2008, o Governo Federal autorizou a transformação do Centro Universitário Positivo em Universidade Positivo. Já sob esse status, em 2009 foi criado o 27º curso de graduação da instituição, o de Enfermagem. A Universidade Positivo conta também com os cursos de mestrado em Administração, Odontologia e Gestão Ambiental, de doutorado em Administração e dezenas de cursos de especialização e extensão. A Universidade está instalada desde o ano 2000 em um câmpus de 415 mil metros quadrados, no qual circulam diariamente 11 mil pessoas, entre alunos, professores e funcionários. São 170 mil metros quadrados de área construída, que abrigam 180 salas de aula, 190 laboratórios, 2.700 computadores, seis auditórios, 120 mil livros numa

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biblioteca de cinco andares, dois teatros – um deles o maior do Brasil –, o mais moderno Centro de Convenções do País, dois ginásios de esportes, campo de futebol e 11 estacionamentos para 3.500 veículos. Essa infraestrutura é emoldurada por 245 mil quadrados de natureza, onde há um lago natural e inúmeras espécies de árvores nativas.

2.1 Valores A Universidade Positivo tem como missão formar não apenas profissionais competentes em suas especialidades, mas cidadãos com ampla formação cultural e capazes de entender o seu papel na sociedade. Essa missão é operacionalizada pelo desenvolvimento de quatro Valores Institucionais, assim definidos no Projeto Pedagógico Institucional da Universidade Positivo (2008): SABER Saber é a consciência que o homem tem do universo e das teorias criadas para explicar a natureza, a vida e os seus mistérios. O homem cria o saber, e este o transforma, propondo-lhe novos desafios. O saber é a luz que permite, ao homem, escolher seu caminho. ÉTICA Ética é a arte de bem proceder, caminho único para se alcançar o bem supremo: a felicidade. Para tanto, não deve o homem apenas deixar de fazer o mal, mas fazer o bem sempre que possível, como forma de evitar algum mal que resulte de não haver praticado o bem. TRABALHO Trabalho é a aplicação das forças e faculdades humanas (razão, sentimento e vontade), para alcançar determinado fim. O verdadeiro trabalho não se faz só com as mãos, mas também com a razão e o coração; enquanto trabalha, o homem transforma a natureza, a sociedade e, principalmente, a si mesmo. PROGRESSO Progresso é movimento, marcha para a frente, avanço, evolução, melhoria, civilização e desenvolvimento, do qual resulta a acumulação de bens materiais e crescimento intelectual e moral capazes de transformar a vida e de conferir-lhe maior significado.

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2.2 Tradição em cultura O Grupo Positivo tem sólida tradição em incentivo a atividades culturais. Há 27 anos, por exemplo, publica anualmente, em formato de livro, o “Palavra Viva”, coletânea de poemas, contos, crônicas e outros textos literários escritos por professores, alunos e funcionários das suas escolas de Ensino Médio, selecionados por meio de concurso organizado pela Academia Paranaense de Letras. Do “Palavra Viva” inicial originaram-se o “Palavrinha Viva”, voltado à publicação de trabalhos dos alunos do Ensino Fundamental, e o “Palavra Viva” da área específica da Universidade Positivo. No âmbito da Universidade, a Pró-Reitoria de Extensão desenvolve, desde 2005, o projeto Domingo no Câmpus, que tem por objetivo popularizar a música erudita. Todos os domingos, às 11h, são promovidas no Teatro Positivo Pequeno Auditório, com capacidade para 800 lugares, apresentações como da Orquestra Sinfônica do Paraná, Camerata Antíqua de Curitiba, Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, Quarteto de Brasília, bem como de recitais-solo e corais, além do próprio Ensemble Universidade Positivo. Antes das apresentações é feita uma exposição didática contextualizando o período em que as obras foram escritas e a vida dos compositores, para que o público conheça mais sobre o programa. Os preços das apresentações são simbólicos – justamente pelo objetivo de incentivar e popularizar a cultura – e o público-alvo são não apenas os alunos, professores e funcionários da Universidade, mas a comunidade em geral. Ainda como exemplo de incentivo à cultura, a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Positivo desenvolveu, em 2008, o projeto Teatro Grego, em que professores e alunos encenaram excertos de tragédias gregas clássicas, e criou o Coral da Universidade Positivo, também formado por professores, alunos e funcionários. Além disso, o Grupo Positivo construiu, no câmpus da Universidade, o maior e mais moderno teatro do Brasil – o Teatro Positivo Grande Auditório, com capacidade para 2.500 expectadores. Inaugurado em março de 2008, com uma apresentação do tenor José Carreras, o teatro abriga apenas espetáculos de grande qualidade cultural.

3 O GRUPO DE TEATRO DO CURSO DE JORNALISMO O Grupo de Teatro do Curso de Jornalismo foi criado em 1999, primeiro ano de funcionamento do então Centro Universitário Positivo. A idéia foi apresentada à coordenadoria do curso por um grupo de alunos que já cursavam Artes Cênicas em outra instituição de Curitiba. O Projeto Pedagógico de sustentação do Grupo foi construído sobre dois grandes pilares. O primeiro, de desenvolver nos alunos autoconfiança, auto-estima, capacidade 144 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.141-154| 1° Semestre 2009


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de expressão, segurança para enfrentar platéias, capacidade de improviso, capacidade para trabalhar em equipe, redução da timidez e de problemas de relacionamento, entre outros. O segundo, de colocar os alunos em estreito contato com grandes obras da dramaturgia brasileira e mundial, aprofundando assim a sua formação cultural e humanística. Tais eixos do projeto, evidentemente, enriqueceriam a formação e as competências dos futuros jornalistas. No aspecto técnico, eles estariam melhor preparados para, por exemplo, atuarem em programas televisivos e radiofônicos e em entrevistas coletivas. E, no aspecto cultural, ficariam mais bem dotados de informações para aprofundarem os conteúdos de suas entrevistas, reportagens, artigos e matérias em geral. O Grupo de Teatro foi estruturado como Atividade de Extensão – portanto, não integrante da Grade Curricular do curso – e sem custos aos alunos. As aulas, de participação voluntária dos alunos, foram marcadas para os sábados pela manhã, com quatro horas de duração. A partir do ano seguinte, o ano 2000, foram abertas duas turmas: uma pela manhã, para os alunos que iniciariam suas atividades teatrais, e outra à tarde, para os alunos que já haviam participado de atividades teatrais, fosse no próprio curso, fosse por experiências em outros grupos ou instituições. Desde sua criação, o Grupo é dirigido por diretora teatral especialmente contratada, a professora Marília Gomes Ferreira, que, nos projetos em Língua Inglesa, mais adiante descritos, passou a atuar em conjunto com a professora Patrícia Helena Rubens Pallu. Em nove anos de funcionamento, o Grupo já teve a participação de mais de 300 alunos. Muitos deles atuaram durante os quatro anos do curso e mesmo depois de deixarem a instituição – de vez que a coordenadoria do curso reserva vagas para exalunos, dentro da filosofia de manter vínculos com os egressos. O Grupo já encenou 18 peças – três delas por dois e até três anos seguidos, tendo feito apresentações tanto nos auditórios e teatros da própria Universidade Positivo quanto em escolas de Curitiba e cidades da Região Metropolitana, e inclusive nas dependências da Câmara Municipal da Capital.

3.1 Eixos de atuação O trabalho do Grupo de Teatro do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo é desenvolvido em três vieses. O primeiro é o da encenação de grandes peças de autores brasileiros e internacionais, como, no caso das nacionais, “A Falecida”, de Nelson Rodrigues, e “O Bem Amado”, de Dias Gomes, e, no caso das estrangeiras, “A Mãe”, de Bertolt Brecht, “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, e “O Inspetor Geral”, de Nicolai Gógol – além de excertos de William Shakespeare, como adiante será descrito. O segundo viés é o de projetos sociais com textos especialmente produzidos. O

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primeiro desses casos, desenvolvido entre os anos de 2001 e 2002, foi o projeto Crianças Desaparecidas, realizado em parceria com a Organização Não-Governamental (ONG) Movimento em Defesa das Crianças Desaparecidas. O Paraná, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, foi uma das regiões brasileiras mais atingidas pela chaga do sumiço de crianças – não somente bebês, mas na primeira infância – em circunstâncias nunca esclarecidas. Nesta peça, de cunho didático e lúdico, dirigida para crianças de até cerca de 10 anos de idade, eram expostas as principais situações de riscos de raptos. Encenada em dezenas de escolas, em intenso trabalho voluntário dos alunos – que chegavam a fazer até três apresentações por semana –, a peça foi assistida por nove mil crianças. O segundo projeto de cunho social, desenvolvido nos anos de 2006, 2007 e 2008, foi Criança Segura, realizado em parceria com a Organização Não-Governamental Criança Segura e com a Secretaria Municipal de Educação de Curitiba. Nesta encenação, também de caráter didático e lúdico, são retratados os principais riscos de acidentes com as crianças – tanto domésticos quanto de trânsito e em parques. Igualmente apresentada em sistema de frequentes apresentações voluntárias pelos alunos, a peça já foi assistida por 17 mil crianças, de centenas de escolas da Capital e de municípios vizinhos. O terceiro projeto de cunho social foi dirigido a outra chaga da sociedade brasileira – o drama do abuso sexual infantil. Coletânea de casos reais, a peça “É um assassinato mas não é um crime” foi encenada inicialmente, em 2007, para alunos, professores e funcionários da Universidade Positivo. Posteriormente, em 2008, a pedido da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, foram feitas quatro apresentações especiais para os 1.200 funcionários daquela instituição que trabalham em todas as escolas da rede pública da cidade e lidam com adolescentes em potencial situação de risco. E o terceiro viés dos trabalhos do Grupo passou a ser, a partir de 2008, o de buscar novas formas de ensino da Língua Inglesa para alunos adultos. Tal eixo pedagógico, centro do presente trabalho, será adiante detalhado.

3.2 Espetáculos A seguir, apresentamos a relação completa das peças encenadas pelo Grupo de Teatro do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo entre os anos de 1999 e 2008. PEÇAS ENCENADAS ENTRE 1999 E 2008 ESPETÁCULO O Bem Amado O Crime Roubado A Falecida

AUTOR Dias Gomes João Bettencourt Nelson Rodrigues

ANO 1999 2000 2000

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Controle Remoto A Mãe Crianças Desaparecidas Crianças Desaparecidas Elas Por Eles Uma História do Velho Oeste Todos Contra o Rei Lisístrata – Ou A Greve do Sexo Um Inimigo do Povo Delírios O Palácio dos Urubus O Inspetor Geral O Inspetor Geral Criança Segura Criança Segura É Um Assassinato Mas Não É Um Crime Criança Segura Como Revisar um Marido Shakespeare’s Dreams

Adaptação de obra de Luis Fernando Verissimo Bertolt Brecht Marília Ferreira Marília Ferreira Colagem de textos de vários autores Marília Ferreira Marília Ferreira: Adaptação de obra de Mário Frias Aristófanes Henrik Ibsen Marília Ferreira: Adaptação de obra de Woody Allen Ricardo Meirelles Nicolai Gógol Nicolai Gógol Marília Ferreira/ONG Criança Segura Marília Ferreira/ONG Criança Segura Marília Ferreira

2001 2001 2001 2002 2002 2003 2003

Marília Ferreira/ONG Criança Segura Oraci Gemba Marília Ferreira: Adaptação de obras de William Shakespeare

2008 2008 2008

2003 2004 2004 2005 2005 2005 2006 2007 2007

4 PROJETO TEATRO SHAKESPEARE EM INGLÊS Objeto de permanentes inovações, o Grupo de Teatro do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo ampliou, no início de 2008, não apenas a sua estrutura e suas atividades, mas o seu próprio Projeto Pedagógico. A coordenadoria do curso decidiu implantar o Projeto Teatro Shakespeare em Inglês. Com ele, seria, por um lado, dado prosseguimento aos dois pilares iniciais da criação do Grupo – possibilitar aos alunos o desenvolvimento de capacidades pessoais que melhoram o seu desempenho técnico como jornalistas (maior desenvoltura, autoconfiança, capacidade de expressão etc) e aproximá-los de grandes obras do pensamento humano. Além disso, no entanto, o projeto tinha o objetivo de implantar um novo eixo pedagógico ao Grupo: o de auxiliar no ensino da Língua Inglesa para alunos adultos, utilizando meios lúdicos que favorecem o rompimento de barreiras de aprendizado. Para o desenvolvimento do projeto, foi designada uma professora de Língua Inglesa para orientar os alunos e formada uma nova turma do Grupo – desta vez aberta também à participação de alunos do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade. A seguir, apresentaremos as linhas gerais do embasamento pedagógico do projeto. COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.141-154| 1° Semestre 2009 | 147


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4.1 Por que Inglês? Os Estados Unidos saíram da Segunda Guerra Mundial como a primeira potência mundial da história, e são conhecidos os estudos do seu Departamento de Estado – executados sempre que surgiram oportunidades – para subordinar aos interesses econômicos do país àquilo que denominaram de “Grande Área”, composta pelo Hemisfério Ocidental, a Europa Ocidental, o Oriente, o antigo Império Britânico, as grandes fontes de energia do Oriente Médio, o resto do Terceiro mundo e, se possível, o mundo inteiro. (CHOMSKI, 1996, PALLU, 2008). Independentemente de juízo de valores, após a Segunda Guerra Mundial tornou-se clara a influência econômica e cultural dos EUA no Brasil e no mundo, e a solidificação do uso da língua inglesa nas comunicações em âmbito internacional. Estimativas de Crystal, ainda em 1997 (apud Pallu, 2008, p. 27), davam conta de que 75% de toda a comunicação por escrito entre os continentes, 80% da informação armazenada nos computadores de todo o mundo e 90% do conteúdo da internet estivessem em Inglês. “Atualmente, a busca de informação e a necessidade de comunicar-se em nível mundial fizeram da Língua Inglesa o idioma mais aceito internacionalmente. (...) Como foi dado ao Inglês o papel de língua global, esse idioma se tornou uma das ferramentas mais importantes para o indivíduo, tanto do ponto de vista acadêmico quanto profissional” (Pallu, 2008: 28).

Na mesma obra, retratando a penetração da Língua Inglesa no Brasil, a autora observa que desde o momento em que a classe média acorda e a classe menos favorecida pula da cama para ir trabalhar, o povo brasileiro é bombardeado por palavras de Língua Inglesa, cujo significado, frequentemente, não é entendido por muitos daqueles que as ouvem. Escova-se os dentes com Close Up, Colgate ou Phillips. Usa-se meias Hangten, tênis Nike, Reebok, Snoopy; calças feitas com blue jeans. Depois de vestir-se com Master Stormy, Golden Cup, Copper Summer Lina, ou tantas outras marcas de roupas, as pessoas vão até a cozinha, sobretudo as de classe média, em busca do café da manhã. Comem biscoitos cream-cracker, waffles ou cookies com o café a ser mantido na garrafa térmica Aladdin Pump-A-Drink. Os estudantes ao sair para o colégio pegam sua mochila da Kipling com seus objetos: canetas Roller Ball da Parker, Bic Soft Touch, Paper Mate, Uniball, Pentel ou um Pilot que estão dentro do estojo made in Taiwan. Ao entrar numa lanchonete pede-se uma light-coke e come-se um hot-dog, um hamburger ou um cheeseburger. Nos finais de semana pode-se ir a uma steak house, ou ao restaurante self-service. E à noite toma-se um whisky em um scotch bar e depois sai-se para dançar num disc club.

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A Língua Inglesa está presente nos quatro cantos de uma residência onde aparelhos de rádio, televisão, vídeo, etc. são ligados e desligados com as indicações on e off. Nos catálogos comerciais, de academias a auditores, encontram-se Academia Muscle Ltda, Steel Center Ltda, Bic Loc, Trade Center, Golden Center, Selfs Alimentos Ltda, Holly Mix Comida Kilo, Rubberplast Indústria e Comércio, Help, Habit, World Sales Corretagem, Price Waterhouse Auditores, Academia Be Happy, Body Center, Master Gym. Na procura por um imóvel de alto padrão para comprar, tem-se que usar um dicionário Português-Inglês para entender a descrição dos imóveis e fazer a escolha. Os imóveis podem possuir penthouse gardens, suítes master, flat service, coffee shops, e um brasileiro que não aprendeu Inglês não saberia dizer se essas peculiaridades deixam o imóvel melhor ou não. Enfrenta-se atualmente, até, o problema da adoção do “gerundismo”, que pode ter se originado das traduções literais de expressões em Inglês tais como: “I’ll be putting you through” (“Eu vou estar transferindo a sua ligação”), que são indiscriminadamente utilizadas, por exemplo, pelos operadores de telemarketing – treinados com manuais americanos traduzidos sem o cuidado de identificar que a melhor tradução para o português brasileiro de “I’ll be putting you through” não é “Eu vou estar transferindo a sua ligação”, mas “Eu vou transferir a sua ligação”. Diante do quadro brasileiro, que poderia ser ampliado indefinidamente (e reiterando que aqui não se está entrando em juízo de valores), pode-se afirmar que aprender a Língua Inglesa neste início de milênio é tão importante quando aprender uma profissão. O idioma Inglês é necessário para a vida atual porque em muitas profissões é indispensável pelo menos um certo domínio de Inglês. Alguns motivos que levam as pessoas a estudar Inglês são: conseguir um bom emprego, promoção de cargos nas empresas, fazer turismo, conseguir uma bolsa de estudos para o Exterior, usar a internet, entre outros. É muito comum, inclusive, a publicação de artigos em Inglês em revistas editadas no Brasil pela comunidade científica. O argumento é que com isso a revista científica pode circular e ser lida nos países do Exterior, enquanto se ela fosse publicada em Português sua circulação seria restrita ao Brasil. Com isso, o Brasil não daria a conhecer suas produções científicas no Exterior, porque o Português não é uma língua universal, como é o caso do Inglês.

4.2 As dificuldades do aluno adulto São evidentes as dificuldades dos adultos em geral de aprender um segundo idioma. Enquanto as crianças apresentam grande facilidade, adquirindo compreensão perfeita, fluência e pronúncia igual à dos nativos da língua, os adultos enfrentam inúmeras dificuldades e bloqueios, não raro intransponíveis.

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Trata-se de um cipoal psicológico que faz com que, ao se aprender uma segunda língua em idade adulta, esteja-se como que assumindo uma nova identidade – o que pode ser aterrorizante. Pode também haver resistências do adulto de assimilação do idioma de países com os quais ele cultiva divergências culturais, políticas, econômicas e sociais. E há, ainda, dificuldades apontadas em relação à própria idade do aprendiz e aos métodos didáticos utilizados pelas escolas (PALLU, 2008). Na obra, analisando os trabalhos de numerosos autores, como Pinker (2002) e Lenneberg (1967), Chomski (1996), Freud (1911, 1914), Revuz (2002), Signorini (2002), Rajagopalan (2003) e Krashen (1988), a autora detém-se, entre outros, em três aspectos principais.

4.2.1 A idade do aprendiz Um deles é o da idade do aprendiz. Segundo Pinker (2002), o sucesso em aprender uma segunda língua em idade adulta em situação de sala de aula existe mas é raro e depende de “puro talento”. Ele defende a hipótese de que a aquisição de uma linguagem normal, isto é, a primeira língua, é garantida até a idade de seis anos; é comprometida de seis até pouco depois da puberdade; e é rara desse momento em diante. Ele especula sobre o “período crítico” e o explica por mudanças maturacionais no cérebro, que podem ser o declínio da taxa de metabolismo e do número de neurônios durante a idade escolar e de diminuição do metabolismo e do número de sinapses cerebrais na adolescência. Teórico do “instinto” da linguagem, sua especulação pauta-se pela linha do desenvolvimento físico e fisiológico do organismo e, em razão disso, ele supõe que a partir da adolescência adquirir uma segunda língua tornar-se-ia difícil, pois nos aspectos biológicos o organismo já atingiu a maturidade, e que a partir dessa faixa etária o processo de aprender será sempre mais difícil, mais demorado e, talvez, não possa mais se realizar a contento, pelo menos quando comparado com a aprendizagem em tempo mais favorável, que seria dentro do “período crítico”. Também Lenneberg , (Lenneberg ,1967: 158) é enfático nessa linha: “Depois da puberdade, a capacidade de auto-organização e ajuste às demandas psicológicas do comportamento verbal declinam rapidamente. O cérebro comporta-se como se tivesse se fixado daquela maneira e as habilidades primárias e básicas não adquiridas até então geralmente permanecem deficientes até o fim da vida”.

4.2.2 Uma nova identidade? Autores como Revuz (apud Signorini, 2002) apontam que toda a tentativa de aprender uma outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está escrito em cada um com as palavras da sua primeira língua. Muito antes de ser objeto de 150 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.141-154| 1° Semestre 2009


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conhecimento, a língua seria o material fundador de nosso psiquismo e de nossa vida relacional. Dito de outra forma, ao aprender um segundo idioma em idade adulta pode parecer ao aprendiz que está adquirindo uma segunda identidade – o que pode causar temor e, em decorrência, rejeição. “Iniciar o estudo de uma língua estrangeira é colocar-se em uma situação de total ignorância, é retornar ao estágio de infans, do bebê que ainda não fala. É retornar ao estágio de impotência no se fazer entender. Isso é reforçado quando o método utilizado é o que privilegia o trabalho oral que focaliza sons e ritmos. Esse método de apropriação pela boca dos novos sons parece que não é ‘natural’, se levarmos em conta os risos que provoca em quem nos ouve e os bloqueios que suscita no aprendiz (...) Pode haver aí um sentimento de impotência que pode parecer com o desamparo. Agora já não sei dizer o que quero? Estou à mercê dos outros? Perdi minha identidade, minha autonomia?”. (Pallu, 2008: 132).

Rajagopalan (2003) também reforça que quem aprende uma língua nova está se redefinindo como pessoa nova. E é difícil para muitos adultos tornar-se um outro eu – eles temem perder a identidade materna, temem esse outro eu ainda desconhecido. O envolvimento afetivo vivido na infância na aquisição da língua materna – e que não existe em sala de aula – pode gerar desmotivação, fixidez na língua materna, preconceito contra línguas, recusa em adquirir uma outra identidade linguística, sentimento de que não vai conseguir, antipatia com o professor, entre outras.

4.2.3 Dificuldades metodológicas Outro fator que dificulta o aprendizado de uma segunda língua em idade adulta são as metodologias utilizadas por inúmeras escolas. Uma delas é a que se baseia na crença de que a aprendizagem ocorre numa sequência – ouvir, pensar, falar, ler e escrever, quando, na realidade, o pensamento e a fala estão inter-relacionados, isto é, um não se constrói separado do outro, e no adulto esse processo deve ser orientado nessa ordem. Há escolas que se assentam em metodologias tradicionais desatualizadas – como as de simples tradução de palavras e frases prontas. Em geral, tais metodologias cultivam alunos submissos e passivos, que acreditam que é o professor quem sabe e ensina, não percebendo que é o aprendiz, pelo seu próprio esforço, quem se apropria do conhecimento.

4.3 Por que Shakespeare? Poucas escolhas poderiam ter mais numerosos e sólidos motivos para adequar-se ao eixo do projeto pedagógico do Grupo de Teatro de aproximar os alunos dos grandes autores da dramaturgia mundial. Amplamente considerado o maior dramaturgo de COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.141-154| 1° Semestre 2009 | 151


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todos os tempos, William Shakespeare (1564-1616) descreveu com rara profundidade, ao longo de 38 peças que chegaram até nosso tempo, toda a gama dos mais complexos sentimentos humanos. Para a encenação, foram escolhidos excertos de seis de suas obras. Para retratar o amor em toda a sua plenitude e lirismo, o texto, naturalmente, foi o de Romeu e Julieta – com a tocante despedida de Julieta a seu amado: “Parting is such a sweet sorrow that I could say good night till it be tomorrow” – a despedida é uma tristeza tão doce que eu poderia dizer boa noite até amanhã... A luta pelo poder esteve em Macbeth – que assassina o rei para usurpar-lhe o trono. A descrição do arrependimento, em todo o seu desespero, recaiu na enlouquecida Lady Macbeth – que inspirou o marido ao crime e passou a sentir nas mãos o cheiro do sangue que “nem todos os perfumes das Arábias” fariam desaparecer. A vingança – o fantasma do rei morto persuade o filho: “Escuta, Hamlet. Se algum dia amaste teu carinhoso pai, vinga o seu assassínio estranho e torpe”. A traição e a infidelidade – sem confiar em mulher alguma, Benedito desafia Maria: “Se em qualquer tempo provardes que eu perdi mais sangue com o amor do que possa recuperar com o vinho, arrancai-me os olhos e pendurai-me à porta de um bordel, com o emblema do cego Cupido...” A transcendência – “There are more things in heaven and earth, Horatio, that are dreamt of than in your philosophy”, há mais coisas no céu e na terra do que sonha sua filosofia. A vida e a morte – ser ou não ser, eis a questão... Dormir, morrer, mais nada... “To be or not to be – that is the question. What is nobler in the mind to suffer the slings and arrows of outrageous fortune or to fight against a sea of troubles...” A magia – as fadas e os duendes que Próspero libertou das rochas e que agora trabalham para ele… Escritas há mais de 400 anos, as obras de Shakespeare mantêm permanente atualidade. E, ainda justificando pedagogicamente a sua escolha, é de se ressaltar que, apesar da popularidade do nome Shakespeare, e mesmo do fato de que vários trechos de suas obras transformaram-se em ditos populares – “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, “ser ou não ser, eis a questão” etc –, tinha-se como certo (e como realmente se verificou depois) que boa parte das platéias estaria assistindo Shakespeare pela primeira vez.

4.4 Resultados do projeto Inscreveram-se no Projeto Teatro Shakespeare em Inglês 23 alunos – 15 moças e oito rapazes – dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Sob direção

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cênica da professora Marília Gomes Ferreira e direção em Língua Inglesa da professora Patrícia Helena Rubens Pallu, a turma trabalhou nas manhãs de sábado de março a novembro de 2008. O nível de domínio da Língua Inglesa pelos alunos era bastante heterogêneo – na verdade, pela própria natureza do projeto, não havia pré-requisito de conhecimento. Alguns alunos haviam estudado Inglês desde crianças, tendo fluência e pronúncia perfeitas, outros haviam inclusive feito intercâmbios no Exterior, enquanto muitos situavam-se entre um nível de conhecimento do iniciante ao intermediário. Os alunos que entraram no Grupo com domínio da língua tiveram a oportunidade de aprimorar a sua pronúncia e entonação, além de praticar sua capacidade de improviso na língua estrangeira. Percebeu-se também durante os ensaios que alguns alunos possuíam ótimo conhecimento da língua, mas nunca haviam sentido necessidade de usá-la, o que os havia deixado inseguros em situações reais de comunicação verbal. Esses alunos tiveram a oportunidade de vencer seus medos de falar Inglês em público durante os ensaios e no dia da estréia enfrentaram a platéia com segurança. Havia no Grupo duas alunas cujo conhecimento de Inglês era bem básico. Ambas tiveram uma atitude muito positiva em relação à sua suposta desvantagem perante o restante do Grupo e com sua dedicação nos ensaios obtiveram um resultado final surpreendente. Uma delas conseguiu até improvisar uma fala num momento em que seus colegas de cena haviam perdido uma sequência de falas. A peça estreou com sucesso dia 24 de novembro, com apresentação no Teatro Positivo Pequeno Auditório, para um público composto por professores, alunos e funcionários da Universidade, além de amigos e familiares dos alunos/atores. Em 2009, será dada continuidade aos trabalhos em Língua Inglesa no Grupo de Teatro – com textos ainda a serem definidos – para possibilitar uma análise mais acurada dos resultados na aquisição de conhecimento de um segundo idioma por aprendizes adultos.

5. CONCLUSÃO O presente trabalho teve o objetivo de relatar a experiência de busca de aperfeiçoamento do ensino de Língua Inglesa realizada em 2008 pelo curso de Jornalismo da Universidade Positivo, situada na cidade de Curitiba – Paraná, Brasil. A experiência foi desenvolvida por meio do Projeto Teatro Shakespeare em Inglês e baseou-se na premissa de que atividades especiais facilitam o aprendizado de um segundo idioma por alunos de idade adulta. Um grupo de 23 alunos – com nível heterogêneo de conhecimento da Língua Inglesa – preparou durante oito meses a encenação de excertos de seis obras do dramaturgo inglês William Shakespeare. A estréia ocorreu em novembro, com resultados promissores.

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O projeto terá continuidade em 2009 para, por meio de textos diversificados, possibilitar uma análise mais acurada dos resultados na aquisição de conhecimento de um segundo idioma por aprendizes adultos.

6. REFERÊNCIAS CHOMSKI, N. O que o Tio Sam realmente quer. 2 ed. Brasília, UnB, 1996. CRYSTAL, D. The Cambridge encyclopaedia of language. 2 ed. Cambridge University Press, 1997. FREUD. S. O inconsciente. In: A história do movimento psicanalítico. Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1914. __________ O caso de Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. ESB, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1911. KRASHEN, D. Second language acquisition and second language learning. London: Prentice-Hall International, 1988. LENNEBERG, E. H. Biological Foundations of Language. New York: Wiley, 1967. PALLU, P. H. R. Língua Inglesa e a dificuldade de aprendizagem da pessoa adulta. Curitiba, Pós-Escrito, 2008. PINKER, S. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo, Martins Fontes, 2002. RAJAGOPALAN, K. Por uma linguística crítica: linguagem, identidade e a questão ética. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. REVUZ. In: SIGNORINI, I. (org.) Lingua(gem) e identidade: elementos para uma discussão. São Paulo, Fapesp, 2002. SHAKESPEARE, W. Obras citadas: A tempestade, Hamlet, Macbeth, Muito barulho por nada, Romeu e Julieta, Sonhos de uma noite de verão. SIGNORINI, I. (org.) Lingua(gem) e identidade: elementos para uma discussão. São Paulo, Fapesp, 2002. UNIVERSIDADE POSITIVO. Projeto Pedagógico Institucional, Curitiba, 2008.

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INDÚSTRIA CULTURAL, TOTALITARISMO E SOCIEDADE DE CONSUMO: REFLEXÕES SOBRE O DECLÍNIO DA TEORIA CRÍTICA André Tezza1

Universidade Positivo

RESUMO Os estudos sobre a Indústria Cultural, nos moldes da Teoria Crítica dos anos 40, alcançaram extraordinária influência ao longo do século XX. As obras posteriores de Hannah Arendt e Michel Foucault, ainda que em perspectivas e epistemologias diferentes, trazem uma certa tradição de análise dos bens simbólicos e da sociedade de consumo que não é incompatível com os preceitos originais da Escola de Frankfurt. O que este trabalho propõe, sem a preocupação de um exame exaustivo, é uma reavaliação desta tradição à luz de alguns autores contemporâneos que contestam a crítica frankfurtiana e apresentam novos modelos de análise para as relações entre Indústria Cultural, sociedade de consumo e totalitarismo. Palavras-chave: indústria cultural, Escola de Frankfurt, sociedade de consumo, totalitarismo.

ABSTRACT The studies on culture industry under the patterns of the Critical Theories of the 40s have spread a striking influence throughout the 20th century. The latest works of Hannah Arendt and Michel Foucault, even under different perspectives and epistemologies, bring together a certain tradition of understanding the symbolic wealth and the mass consuming society which is not unsuitable with the original principles of the Frankfurt School.The objective of this article is to reevaluate this tradition according to some contemporary authors who contest the critiques of the Frankfurt School, and present new patterns for the analysis of the relationship between Culture Industry, mass consuming society and Totalitarianism. Keywords: culture industry, Frankfurt School, mass consuming society, Totalitarianism.

1 Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo, professor da disciplina de Ética e Legislação Publicitária. Publicitário graduado pela UFPR (1996), mestrando em Filosofia (UFPR) e especialista em Leitura de Múltiplas Linguagens pela PUC-PR (2002).


INDÚSTRIA CULTURAL, TOTALITARISMO E SOCIEDADE DE CONSUMO: REFLEXÕES SOBRE O DECLÍNIO DA TEORIA CRÍTICA

Sessenta anos depois, A Dialética do Esclarecimento, obra-chave para a crítica da cultura do século XX, ainda responde satisfatoriamente às relações entre consumo e a produção dos bens simbólicos? Escrita sob o impacto da Segunda Guerra Mundial (a publicação é de 1947), por Theodor Adorno e Max Horkheimer — dois notórios refugiados judeus-alemães do Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt que migraram para os Estados Unidos durante o conflito —, a obra entrou para o cânone do pensamento crítico contemporâneo devido, especialmente, a um capítulo em particular — A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. Negando a nomenclatura Cultura de Massas, termo tradicional dentro dos estudos franceses do século XX2 dos bens simbólicos (para evitar qualquer possibilidade de ambigüidade: nos novos moldes propostos, a cultura de massas é necessariamente produzida para as massas, isto é, por uma classe diferente das próprias massas), com A Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer fundam uma nova metodologia de compreensão da cultura na era industrial. A grande questão para os autores é a inserção da cultura nos padrões da racionalização administrativa, nas demandas técnicas da linha de montagem, em que a finalidade da produção simbólica não é a emancipação intelectual, mas, ao contrário, a dominação, a disciplina e o lucro. Nos contornos da teoria, o que se percebe é, de um lado, um projeto marxista não ortodoxo, em que deve haver uma chance libertária para a cultura (desde que filiada à ética política) e, de outro, uma associação possível entre o modelo nazi-fascista de persuasão simbólica e a utilização dos meios de comunicação nas modernas sociedades capitalistas (em ambos os casos, a razão burocrática que objetiva o controle sobre as massas). Grosso modo, estes dois grandes aspectos viriam a ser conhecidos como os fundamentos da Escola de Frankfurt — ou ainda, como os fundamentos da Teoria Crítica — que, em maior ou menor grau, com a apropriação eventual de outros modelos epistemológicos (como a psicanálise) também estão presentes nas obras de diversos pensadores do Instituto de Frankfurt, como Walter Benjamin e Herbert Marcuse. Sobre o primeiro aspecto, a questão de emancipação pela cultura, um recorte significativo das possibilidades de associação entre marxismo e a Escola de Frankfurt pode ser avaliado nesta proposta de Walter Benjamin: (...) acrescentarei agora uma palavra sobre a música, baseada num depoimento de Eisler. “Também na evolução musical, tanto na esfera da produção como da reprodução, temos que reconhecer um processo de racionalização cada vez mais rápido... O disco, o cinema sonoro, o automático musical, podem fazer circular obras-primas da música em conserva, como mercadoria. (...) A crise da música de concerto é a crise de uma forma produtiva obsoleta, superada por novas invenções técnicas”. A tarefa consistia, portanto, em refuncionalizar a forma-concerto, mediante duas condições: primeiro, eliminar a oposição entre intérprete e ouvinte, e segundo, eliminar a oposição entre técnica e conteúdo. 2 A origem francesa da preocupação com uma cultura de massas está na psicologia social, no final do século XIX, na obra de Gustave Le Bon. É curioso que neste momento já havia uma poderosa crítica à possibilidade de entender uma psicologia das massas escrita por Freud. Sobre os primeiros estudos da cultura de massas e sua crítica, conferir MATTELART (2006).

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A esse respeito, Eisler faz uma instrutiva observação: “Devemos guardar-nos de sobrevalorizar a música orquestral, considerando-a a única arte elevada. Somente no capitalismo a música sem palavras teve tanta significação e conheceu uma difusão tão ampla”. Ou seja, a tarefa de transformar o concerto não é possível sem a cooperação da palavra. Somente ela, como diz Eisler, pode transformar um concerto num comício político. Brecht e Eisler provaram, com a peça didática Die Massnahme (As medidas), que essa transformação pressupõe um altíssimo nível de técnica musical e literária. (BENJAMIN, 1993, p. 131, 132).

O comentário de Benjamin sobre o depoimento de Hanns Eisler (um discípulo de Schoenberg, que ficou conhecido como colaborador de Bertolt Brecht) é inequívoco: o papel da música de concerto é um papel político — somente no capitalismo a música pôde ser divorciada de sua função na vida pública. Ainda que, notoriamente, a versão de Benjamin para as possibilidades culturais no século XX seja menos apocalíptica que a de Adorno (isto é especialmente relevante na defesa de Chaplin e do cinema), também há aqui uma crítica ao modo burguês de fruição estética, voltado a um esvaziamento político e ideológico da arte. Sobre o segundo grande aspecto da Escola de Frankfurt, a associação entre a produção de bens simbólicos do capitalismo e a persuasão nazifascista, o pano de fundo é a racionalidade técnica, a razão destituída de suas prerrogativas éticas, isto é, a razão instrumental, outra categoria fundamental da análise frankfurtiana da cultura. Em ambos os casos, a questão da cultura é uma questão subserviente aos direitos da administração (HORKHEIMER e ADORNO, 1985, p. 123): “o denominador comum ‘cultura’ já contém virtualmente o levantamento estatístico, a catalogação, a classificação que introduz a cultura no domínio da administração”. Para Adorno, domínio da administração, além da burocratização e da classificação mercadológica, é também a própria reificação da cultura. Num dos muitos exemplos musicais de Adorno (é sempre prudente lembrar que Adorno foi músico prodígio — aos 17 anos, um quarteto de cordas seu impressionou o então professor Alban Berg — e que 11 de seus 23 volumes da obra-completa são dedicados exclusivamente à música), a questão é facilmente exemplificada: se não mais do que uma dúzia de ouvintes do mundo é capaz de diferenciar o som, como explicar o preço exorbitante de um Stradivarius senão pela associação entre fetichismo e reificação da arte? Ou ainda: qual o sentido de apreciar o valor de um Stradivarius e não o valor de uma obra ou interpretação musical? (ADORNO, 1991, p.86) A Teoria Crítica frankfurtiana teve uma influência colossal sobre o pensamento do século XX. Em qualquer visão pessimista da cultura massificada, em qualquer possibilidade de associar os bens simbólicos a instrumentos de controle, disciplina e persuasão, a bibliografia frankfurtiana, mesmo que às vezes diluída, mesmo que às vezes reconfigurada, esteve presente. Aliás, se o ponto de partida é discutir a impossibilidade de autonomia dos sujeitos frente aos bens simbólicos industrializados e massificados, a Escola de Frankfurt ainda é um modelo a ser considerado. Posteriormente, em perspectivas diferentes, sobretudo na crítica ao marxismo, Michel Foucault e Hannah Arendt não se furtarão a associar a produção dos bens COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.155-164| 1° Semestre 2009 | 157


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simbólicos com os (des)caminhos de uma sociedade de esvaziamento político, disciplina e controle. Para Hannah Arendt, o último estágio da modernidade é o da vitória do Animal Laborans sobre o Homo Faber, isto é, a vitória do labor — a atividade do trabalho que coincide com o ciclo biológico da própria vida e destituído de consciência e participação política — sobre o trabalho que produz a mundanidade, o artesanato em que há consciência entre os meios e os fins. O Animal Laborans é tanto o proletário imaginado na sociedade sem classes de Marx quanto o consumidor do moderno capitalismo — em ambos os casos, a Vita Activa, a vida pública, não é mais a primazia da ação, em que a condição humana é a da pluralidade (como na Antiguidade), mas a primazia do antipolítico, em que o “homem está a sós com o seu corpo ante a pura necessidade de manter-se vivo” (ARENDT, 2008, p.224). Em A Condição Humana, Arendt buscava a compreensão de como em uma organização burocrática de massas o totalitarismo seria possível3, dando continuidade a sua obra clássica, As Origens do Totalitarismo. Sem mais as preocupações típicas de várias vertentes do marxismo, de restaurar a realidade sociopolítica — aliás, a autora critica as possibilidades de apontar uma práxis objetiva em uma obra ou teoria4 —, Arendt aponta como a vitória do animal laborans sobre o homo faber permitiu uma sociedade em que os bens simbólicos são consumo e massificação. Neste sentido, ao apontar na arte (em oposição à cultura de massas) uma das últimas atividades do homo faber no nosso tempo, há uma semelhança entre o modelo frankfurtiano de análise da cultura contemporânea e o de Arendt: o aniquilamento da política5. Em Society e Culture, a autora distingue o entretenimento (a Indústria Cultural) da cultura, sendo o primeiro o artefato para o simples consumo e a segunda relativa aos objetos e à mundanidade — em outras palavras: esta é exatamente a mesma distinção entre labor e trabalho, entre os feitos do animal laborans e os do homo faber6. É notável que, na crítica à cultura de massa, Arendt não utilize nem as categorias nem os princípios epistemológicos de Adorno — isto é especialmente surpreendente pelo passado comum a ambos (refugiados da Alemanha nazista) e também pela mesma preocupação dos fins: as razões que propiciaram, durante o século XX, a invenção do totalitarismo. As diferenças de ambos, por um lado, têm uma escolha fundamental de fundo: Arendt descarta o marxismo (e suas derivações de organização de Estado) e o vê, já nos anos 50, como um modelo que, ao impor uma metodologia de verdade, 3 Sigo aqui as considerações de Celso Lafer no posfácio da edição brasileira de A Condição Humana. ������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������� Respostas são dadas diariamente no âmbito da política prática, sujei���������������������������������������������������������� tas ao acordo de muitos; jamais poderiam se basear em considerações teóricas ou na opinião de uma só pessoa, como se se tratasse de problemas para os quais só existe uma solução possível. (...) O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de refletir sobre o que estamos fazendo. (ARENDT, 2008, p. 13). 5 Sobre a arte como atividade do Homo Faber, a autora afirma que “Dada a sua permanência, as obras de arte são as mais intensamente mundanas de todas as coisas tangíveis; sua durabilidade permanece quase isenta ao efeito corrosivo dos processos naturais, uma vez que não estão sujeitas ao uso por criaturas vivas (...)”. (ARENDT, 2008, p. 181). 6 Culture relates to objects and is a phenomenon of the world; entertainment relates to people and is a phenomenon of life. (...) The disappearance of culture in a mass society, on the other hand, comes about when we have a consumer´s society which, in so far as it produces only for consumption, does not need a public worldly space whose existence is independent of and outside the sphere of its life process. (...) If we understand by culture what it originally meant (the Roman cultura – derived from colere, to take care of and preserve and cultivate) then we can say without any exaggeration that a society obsessed with consumption cannot at the same time be cultured or produce a culture. Artigo de Hannah Arendt incluso na coletânea organizada por Norman Jacobs (1961).

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trai a própria verdade, uma vez que a verdade, ou pelo menos a verdade que está além das abstrações racionais inventadas pelo homem, como a matemática, tem natureza necessariamente política, isto é, plural. Mas, por outro lado, há uma questão pessoal. Arendt nunca perdoou a recusa de Adorno em levar a sério e com profundidade a obra de Benjamin. Em parte, a obra de Benjamin sobreviveu à guerra e ganhou relevo e importância no Ocidente por conta da determinação de sua amiga Hannah7. O que Arendt já apontava na metade do século XX como problemático no ideário frankfurtiano seria um prenúncio para a refutação teórica mais consistente dos estudos de comunicação do século XXI. Ao propor, como verdade, aquilo que as pessoas devem ou não consumir na cultura e na arte ou, ainda, os modelos corretos de entendimento da política, a Escola de Frankfurt, ela própria foi acusada, ironicamente, de se sustentar sobre um ideário totalitário. Num comentário preciso de Slater (2002, p. 128): Quando as instituições e os discursos modernos proclamam ser autoridades em relação às necessidades das pessoas e, além disso, quando procuram legitimar a autoridade de seu conhecimento das necessidades por meio da ciência, da razão ou da verdade, podem constituir-se eles mesmos como uma forma particularmente insidiosa de poder social totalitário: o Estado, o sistema de bem-estar ou os serviços de saúde, a economia de comando que afirma conhecer as necessidades reais de seus cidadãos melhor do que eles, e com uma base científica, é antidemocrática no sentido mais ameaçador possível e tem o poder de impor suas definições de necessidades ao indivíduo na vida cotidiana prática.

A preocupação de Slater faz sentido não só por conta dos pressupostos teóricos frankfurtianos, mas pelas escolhas privadas e práticas dos autores da Escola. Como não observar aqui as considerações de Adorno sobre o jazz? Qual a autoridade “científica” ou de “verdade” pode justificar que Adorno tenha apoiado a decisão de Goebbels, às vésperas da segunda guerra, de proibir o jazz das rádios alemãs?8 Como não associar o radicalismo do que pode e deve ser considerado como arte e cultura “autênticos” com um ideal totalitário? Qual autoridade pode conjecturar sobre o que deve ser o homem “ideal” e refutar as escolhas privadas dos indivíduos? As perguntas são demolidoras e, por si sós, já demonstram o declínio de todo um movimento intelectual. Num outro momento teórico importante das relações entre poder e cultura, agora nos anos 70, Michel Foucault alertava que, desde meados do século XVIII, a modernidade ocidental trocou as formas espetáculo de punição (em que os suplícios públicos marcavam o castigo corporal e irascível de muitos sobre poucos) para as formas disciplinares e sutis do panoptismo. Inspirado no modelo carcerário de Bentham, o panóptico, Foucault argumenta que o controle visual de poucos sobre muitos — que objetiva a normalização, a disciplina, a economia do policiamento e o aumento de produção — é o que justifica e explica as extraordinárias semelhanças arquitetônicas e de gerenciamento entre as escolas, os presídios e as fábricas. Numa sociedade regulamentada por produtividade e normalização estatística, o panóptico é 7 Sobre a amizade de Hannah Arendt e Benjamin, cf. ADLER (2005) 8 Sobre este episódio, cf ADLER (2005).

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mais do que uma forma-presídio, é uma forma-conceito de aproveitamento diverso e que, para muitos comentadores de Foucault, perfeitamente aplicável à mídia e à propaganda da modernidade contemporânea. Neste caso, a Indústria Cultural, seus valores e seus empregos, é também uma poderosa força simbólica de estabelecer o normal, o socialmente aceito, o ideologicamente correto9. A mídia, na interpretação foucaultiana tão freqüente nos estudos de comunicação, é ela própria uma formapresídio, de determinação sobre os valores e distinções socialmente aceitos. Ainda que remeta a um novo momento de sociedade, ainda que diferentemente de marxismo tradicional, Foucault faz parte de certa tradição, iniciada, sobretudo, com os frankfurtianos, de desconfiança da autonomia dos sujeitos frente às forças do capital e de seus desdobramentos no espaço do poder. É possível que Foucault seja o último representante importante desta tradição e eis aqui o ponto central do trabalho que estamos propondo: há uma nova bibliografia, bastante crítica a este modelo, surgida ainda com timidez nos anos 60, mas que hoje pode até ser defendida como hegemônica. Esta nova bibliografia não é simplesmente uma crítica à anterior, mas uma perspectiva que se fez necessária frente às mudanças do capitalismo durante o século XX bem como à própria reestruturação da Indústria Cultural nos últimos anos. Nos anos 60, Umberto Eco, naquele momento ainda em uma atitude de equilíbrio e neutralidade, já apontava para novos horizontes de entendimento da Indústria Cultural em seu clássico Apocalípticos e Integrados, em que a grande novidade, de fato, era o posicionamento dos Integrados, que avaliavam os efeitos da cultura de massas também como positivos e muito distantes da alienação e do controle. O próprio Eco tenderia mais tarde para os Integrados, numa coletânea de ensaios dos anos 70 cujo título já expressa toda uma resposta: Apocalypse Postponed (ECO, 1994), ou o apocalipse postergado. Num dos artigos, “A audiência traz efeitos ruins para a televisão?” [Does the Audience have Bad Effects on Television?], título, diga-se de passagem, indiscutivelmente provocador, porque é uma inversão de conceitos (o estudo convencional seria: a TV traz efeitos ruins para a audiência?), Eco faz uma detalhada descrição do que foi a primeira geração televisiva na Itália — país em que as relações complexas entre mídia e poder, tendo em vista o fenômeno Berlusconi, são o palco para importantes estudos de comunicação, como o próprio Eco já apresentava em Apocalípticos e Integrados. Na Itália, a TV nasceu no começo dos anos 50 — da mesma forma que na maior parte do mundo industrializado, inclusive no Brasil. Observa Umberto Eco que o primeiro bebê italiano televisivo começou a falar imediatamente antes de seus pais comprarem o primeiro aparelho televisor, que deve ter chegado a sua casa por volta de 1953. Na seqüência, Eco descreve, ano a ano, todos os programas que acompanharam o desenvolvimento deste italiano — programas de auditório, de religião católica pausterizada, de conhecimento científico banalizado —, que, mesmo sem os conhecermos, sabemos que seguem as mesmas fórmulas dos programas que foram veiculados em todo o mundo nesse período (e sobrevivem até os dias de hoje). Ainda que o autor não fale a respeito, esta primeira geração mundial televisiva também 9 FOUCAULT (2007). Sobre as relações entre o panoptismo e a mídia, Cf.: THOMPSON (2001).

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viu a ascensão dos comerciais, uma vez que as agências de propaganda começaram a se profissionalizar também nos anos 50. Pergunta Eco: se déssemos valor para o discurso apocalíptico, que segundo o autor italiano tinha as pretensões de um marxismo aristocrático com origem Nietzschiana (isto é, a Escola de Frankfurt), o que teria acontecido com esta geração que foi submetida a milhares de horas televisivas, a dezenas de milhares de comerciais publicitários? Certamente, deduziriam os apocalípticos, seria uma geração apática e niilista, conformista e conservadora, superficial e submissa. Mas, como todos nós sabemos, não foi exatamente isso o que aconteceu. Quando essa geração entrou na Universidade, o ano era o de 1968: foi essa primeira geração televisiva que abraçou o anticonformismo, o parricídio, a crise na família, a causa das minorias homossexuais, o direito das mulheres, a crítica do autoritarismo do Estado e da escola. O que faz com que Umberto Eco conclua: I - A televisão sozinha (ou qualquer outra mídia) não é responsável pelo modo de pensar de uma geração, ainda que esta geração “faça sua revolução” com slogans que eventualmente saíram da televisão; II - Se uma geração se revolta contra aquilo que a televisão propaga, então ela pode interpretar a televisão de uma forma diferente daqueles que a produzem, consomem ou teorizam sobre — em outras palavras, a consciência, a crítica, não é uma impossibilidade. Sendo a TV, neste momento, a grande preocupação dos seguidores da teoria crítica, não é equivocado nem frágil apontar as reflexões de Eco não como uma revisão das teorias de produção audiovisual, mas de toda a metodologia em que a Indústria Cultural é associada ao totalitarismo, apatia e controle social e político. Uma década depois, Gilles Lipovetsky (1989) publicaria O Império do Efêmero, em que após uma breve explicação sobre as teses apocalípticas que permitem associações entre publicidade, Indústria Cultural e totalitarismo, o autor afirma, não sem ácido humor e não sem a contestação radical das teses de Foucault, que a forma moda, essa vitoriosa contemporânea da sociedade de consumo, é a oposta à lógica panóptico-totalitária: Essas teses [sobre o totalitarismo] tiverem sua obra de glória. Continuam em grande parte a servir de pano de fundo à apreensão do fenômeno, no próprio momento em que a rejeição social da publicidade está em baixa. (...) Alegaremos de forma radical a falsidade de toda assimilação da ordem publicitária à lógica totalitária. A disjunção é com efeito grande: nada em comum com o trabalho de absorção da sociedade civil pelo poder político e pelo projeto ilimitado de mudar o homem, de reconstituí-lo inteiramente. Nada em comum também com o processo de controle de tênue das ‘disciplinas’ de essência igualmente totalitária, em sua pretensão de normalizar e programar os corpos. As disciplinas tais como Foucault as analisou dependem estruturalmente da lógica totalitária: as instâncias de poder trabalham para reconstituir de ponta a ponta o movimento dos corpos, pensam no lugar dos sujeitos, dirigem-nos ‘racionalmente’, orquestrando de fora os detalhes mais íntimos dos comportamentos. Nada igual à publicidade: ao invés da coerção minuciosa, a comunicação; no lugar da rigidez regulamentar, a sedução; no lugar do adestramento mecânico, o divertimento lúdico. (...) A forma moda está em ruptura com a lógica panóptico-totalitária: a publicidade integra em sua ordem a livre disponibilidade das pessoas e o

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aleatório dos movimentos subjetivos.(LIPOVETSKY, 1989, p. 192)

Uma defesa radical do retorno do sujeito? Sem dúvida — sobretudo depois do enfraquecimento do estruturalismo, do colapso do marxismo como teoria materialista de compreensão da história, da não-confirmação dos sistemas políticos totalitários e, finalmente, a ruína da aposta frankfurtiana na fácil manipulação das massas após as pesquisas empíricas de recepção das mensagens da Indústria Cultural, muito comuns nos estudos de comunicação dos anos 80. O posicionamento de Lipovetsky tem toda a paixão (e os perigos da paixão) que é habitual a todo pensamento de ruptura. Lipovetsky, mais recentemente (2007), ponderou os problemas maiores da sociedade de consumo e, diferentemente de seus textos dos anos 80, contextualizou os perigos próprios do nosso tempo, em especial a crise da educação. Mas, é importante ressaltar, o autor ainda mantém a recusa de associar a comunicação de massa aos mecanismos totalitários, inclusive nas questões polêmicas das grandes corporações e marcas contemporâneas10. Num texto também mais próximo do presente, e já com os devidos pesos e medidas que o tempo providencia às provocações, um pensador como Bauman também é taxativo quanto à possibilidade de uma realidade totalitária contemporânea: Durante muito tempo, a distopia de Orwell, juntamente com o sinistro potencial do projeto iluminista revelado por Adorno e Horkheimer, o panóptico de Bentham/Foucault ou sintomas recorrentes de retomada da maré totalitária, foi identificada com a idéia de “modernidade” (...). Parece que o tipo de sociedade diagnosticada e levada a juízo pelos fundadores da Teoria Crítica (ou pela distopia de Orwell) era apenas uma das formas que a versátil e variável sociedade moderna assumia. Seu desaparecimento não anuncia o fim da modernidade. Nem é o arauto do fim da miséria humana. Menos ainda assinala o fim da crítica como tarefa e vocação intelectual. E em nenhuma hipótese torna essa crítica dispensável. (...) Não há mais “o Grande Irmão à espreita” (...) Não há mais grandes líderes para lhe dizer o que fazer e para aliviá-lo da responsabilidade pela conseqüência de seus atos; no mundo dos indivíduos há apenas outros indivíduos cujo exemplo seguir na condução das tarefas da própria vida, assumindo toda a responsabilidade pelas conseqüências de ter investido a confiança nesse e não em qualquer outro exemplo. (BAUMAN, 2001).

Sim, um retorno do sujeito, mas não a liberdade, nem a autonomia kantiana. Para o pensamento contemporâneo, a modernidade do nosso tempo é ainda a modernidade da heteronomia, mas não mais a heteronomia estatal totalitária, das determinações panópticas da mídia, da história ou de imposições de classe — a Indústria Cultural está provisoriamente absolvida (a bem da verdade, depois da revolução da Internet e das tecnologias da informação, a cultura de nicho, num processo aparentemente sem volta, é cada vez mais importante que a cultura de massa), o Estado é uma idéiaconceito em franca decadência e o materialismo histórico uma teoria que a cada dia 10 Lipovetsky aposta na capacidade de discernimento dos sujeitos e na frágil potencialidade de manipulação da comunicação de massa. Neste sentido, é um crítico contundente de, por exemplo, posturas que ainda guardam o ideário marxista, como o de Naomi Klein (2002).

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carece mais de demonstração e adeptos. A heteronomia do nosso tempo é advinda das crises e ansiedades individuais, da rigorosa performance exigida individualmente no tempo e espaço das grandes corporações (que substituíram o Estado em força e poder – neste aspecto, a teoria de sociedade de controle, de Deleuze, um apocalíptico tardio, é atual e precisa) e nas doenças advindas da falha desta performance: “As grandes doenças estudadas pela psiquiatria hoje são aquelas em que a performance falha: a depressão (o sujeito trancado em si mesmo) e a síndrome do pânico (o sujeito que não consegue estar num contexto em que a exibição de sua performance é requerida)” (DUPAS, 2001). No âmbito coletivo, a heteronomia do nosso tempo é o da dependência de um modelo produtivo que garante tanto o hedonismo e as marcas individuais da sociedade de consumo (bem-vindos para diversos autores, vale salientar) quanto a implacável destruição dos recursos naturais e a real ameaça de extinção da espécie. Pelo menos num aspecto, a trajetória do pensamento frankfurtiano permanece atual: o mito do progresso iluminista não nos levou nem à autonomia nem à felicidade.

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A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA (EAD) E SUA RELAÇÃO COM UM AMBIENTE VIRTUAL DE APOIO AO ENSINO PRESENCIAL Ricardo Pedrosa Macedo1

Universidade Positivo

RESUMO Este artigo procura mostrar a necessidade de as instituições de ensino se manterem atualizadas e, também, que uma tecnologia de ensino pode ser desenvolvida na própria instituição. O uso da Internet como uma ferramenta de suporte para atividades de educação à distância tem tornado disponível um grande número de ambientes baseados na Web, como o AVA, que visa auxiliar na administração de cursos e na realização de atividades pedagógicas via Internet, de forma atrativa, com uma fácil navegabilidade e com um conteúdo dinâmico no processo ensino-aprendizagem. Sites de EAD possibilitam a revisão de conteúdos vistos na aula presencial e a interação docentediscente-instituição. Considerados os aspectos de design gráfico e metodologia de projeto em hipermídia, este artigo apresenta o processo de desenvolvimento de um ambiente virtual de apoio ao aprendizado presencial. Palavras-chave: educação a distância, Tecnologias de informação e Comunicação, Processo de ensino-aprendizagem

ABSTRACT This essay tries to show the need for schools to keep updated and, also that teaching technology can be increased in the school itself. The use of the Internet, as a supporting tool for educational activities at a distance, has made available a great number of sites on the web, as the AVA that attempts to help the administration of the course and the carrying out of pedagogical activities via Internet, in an attractive way, with an easy connection and with dynamic contents in the teaching-learning process. The EAD sites enables the review of the subjects seen in a present class and the interaction among teacher-student-school. Considering the aspects of graphic design and project methodology in hypermedia, this task presents the developmental process of a virtual site supporting the present learning. Keywords: process of a virtual site for supporting the present learning.

1 Coordenador-adjunto do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Mestrado em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Designer graduado e especialista em Desenvolvimento em Ambiente Web pela PUC-PR. Professor (graduação e extensão) nas áreas de Publicidade e Design. Web Designer e professor convidado da UTFPR no curso de pós graduação - ricardo@up.edu.br.


A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA (EAD) E SUA RELAÇÃO COM UM AMBIENTE VIRTUAL DE APOIO AO ENSINO PRESENCIAL

INTRODUÇÃO Os constantes avanços tecnológicos ocorrem, atualmente, rápidos e tão envolventes que nem sempre a sociedade se apercebe do que está ocorrendo e, quando isto acontece, muitas vezes, comportamentos, costumes e valores já foram modificados e solidificados nem sempre beneficiando o cidadão e a coletividade. O mesmo tem acontecido, com alguma freqüência, no campo do ensino, com seus métodos, técnicas, estratégias, como pode ser constatado em diversos momentos históricos: entre os gregos as aulas peripatéticas, em que os seguidores do mestre perambulavam com ele, ouvindo e aprendendo o seu conhecimento; na Idade Média os discípulos atentos aos ensinamentos dos doutores escolásticos; na Era Napoleônica a tentativa de secularizar o ensino em que militares inválidos, pagos a soldo oficial, prestavam-se como professores improvisados nas aldeias, seguidos pelo ensino sistematizado, promovido pelos Irmãos Maristas, dando assim origem ao ensino regular hodierno, proporcionado por instituições públicas e privadas; e na atualidade o surgimento do ensino virtual promovido à distância via Internet, do outro lado à escola presencial em que professor e alunos compartilham de uma mesma sala de aula. A evolução foi tamanha que, hoje, fazer cursos à distância, palestras, conferências, nos quais professores ausentes fisicamente fazem-se presentes por meio da Internet já se tornou rotina. No entanto, a utilização da informática tem-se mostrado, em alguns casos, mais como forma de marketing do que precisamente uma tecnologia em favor da educação. Um computador presente em sala de aula parece não acrescentar nada ao educador ou ao educando e muito menos se estiverem em ambientes diferentes tal como a alardeada educação à distância (MORAM; MASETTO; BEHRENS, 2000). Sem dúvida, tanto as novas tecnologias como as convencionais, como quadro-negro, entre outras, devem visar à melhoria do complexo processo ensinoaprendizagem. Assim sendo, faz-se importante gerar condições adequadas ao ensino colaborativo por meio da Web para cursos presenciais, em que professores e alunos possam usufruir da nova tecnologia, dando suporte ao processo de aprendizagem. No Brasil tem-se buscado alternativas para viabilizar o ensino estendido à toda a população, em contínuas tentativas de melhorar as escolas, de aprimorar os recursos humanos mediadores imprescindíveis ao processo ensino-aprendizagem, adequando, com melhores técnicas, as programações de conteúdo, para estendê-lo a toda a população. Contudo, o alcance para este ensino ainda está longe de boa parte da população por diversos fatores, dentre os quais estão os custos e os meios ainda bastante escassos, e por isso ainda pouco disponíveis, sobretudo para quem quer valerse dos eletrônicos, destacando-se a Internet (BRANCO, 1998). Dentro desse contexto, percebe-se o contínuo empenho de instituições que, em parceria com universidades, realizam pesquisas nesta área, inclusive para concretizar a chamada Escola Virtual, ainda em estado incipiente, a fim de torná-la um instrumento sólido e de fácil manuseio para levar o ensino à distância. (retirar parágrafo)

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Torna-se cada vez mais fácil ter acesso a um computador; e, como a grande maioria da população dispõe de uma linha telefônica em sua casa ou no escritório, este é um dos motivos pelo qual a Internet tem-se difundido largamente nos últimos anos, levando a crer que o ensino à distância será cada vez mais viável e acessível (MORAM; MASETTO; BEHRENS, 2000). Regras estão sendo estabelecidas para disciplinar este ensino; porém não basta que ele seja visto apenas do ponto de vista legal, mas há, também, que considerar o que a pedagogia tem a fundamentar sobre o ensino à distância.

MORAM; MASETTO; BEHRENS (2000) lembram que este ensino não se caracteriza necessariamente por se fazer via Internet, pois este é apenas um dos meios pelo qual pode realizar-se. Ensino à distância, basicamente, é aquele realizado sem a presença física do professor em sala de aula, utilizando outros recursos, tais como: videocassete, televisão e correspondência. Educação à distância é o processo de ensino-aprendizagem, mediado por tecnologias, em que professores e alunos estão separados espacial e/ou temporalmente (MORAM, MASETTO BEHRENS, 2000, p. 19).

HEIDE & STILBORNE (2000) descrevem que, ao se criar um ambiente de apoio a aprendizagem via web, é preciso criar um ambiente interativo, em que o aluno possa se sentir amparado, mesmo sem a presença do professor. Deve haver acompanhamento, avaliação, exercícios para fixação do que foi ensinado no dia, e métodos e estratégias para tirar as dúvidas do aluno. Não basta a simples publicação de páginas na Web sem constar uma estrutura de assistência ao aluno. A tecnologia atual possibilita a troca de dados, som e imagem do professor, por meio das webcam, em tempo real, proporcionando maior interatividade entre professor e aluno e possibilitando a montagem de grupos de discussão, pois a trilogia imagem, som e dados já é uma realidade na rede, favorecendo em muito o aprendizado (LITWIN, 2001).

Assim sendo, torna-se necessário ofertar à sociedade um Ambiente Virtual de Apoio que possibilite preparar professores para ensino à distância e presencial pela Web. O método utilizado no desenvolvimento do AVA foi baseado no de Luli Radfahrer (2000), que é a estrutura de quatro etapas: a) conceito e estrutura; b) design e produção visual; c) programação e testes; e d) manutenção. Este método é uma fusão dos métodos do designer Roger Black, do Interactive Bureau / EUA, pioneiro na utilização de design na criação de sites para a Web, e de Clement Mok, do Estúdio Archetype.

EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA Educação à distância é aquela que acontece quando o professor e o aluno estão separados no tempo e no espaço, ocorrendo o processo ensino-aprendizagem não presencialmente. Nas duas últimas décadas, esta modalidade de ensino, via eletrônica, tem apresentado crescimento significativo (D’EÇA, 1998).

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A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA (EAD) E SUA RELAÇÃO COM UM AMBIENTE VIRTUAL DE APOIO AO ENSINO PRESENCIAL

A Educação à Distância é a modalidade educacional na qual a mediação didáticopedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos. Essa definição está presente no Decreto 5.622, de 19.12.2005 (que revoga o Decreto 2.494/98), que regulamenta o Art. 80 da Lei 9394/96 (LDB).

É sabido que a Internet é uma mídia relativamente nova em cursos de educação à distância, enquanto a aprendizagem à distância não é um fenômeno novo. Em 1728, Caleb Philipps, professor de Taquigrafia, iniciou o processo de ensino à distância, ao publicar um anúncio que informava às pessoas interessadas em aprender esta arte que poderiam receber em casa lições semanais que as levariam a conhecer e dominar este tipo de escrita (BELLONI, 1999). Posteriormente estendeu-se a outros campos de ensino, começando a existir institucionalmente a partir de meados do século XIX, na Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e Suécia (BELLONI, 1999). Segundo BRANCO (1998), no Brasil não existem dados precisos que comprovem a primeira experiência da educação à distância, mas podem apresentar algumas referências, como em:

• 1923 - Iniciou-se a educação por meio do rádio, pela Fundação de Rádio Sociedade do Rio de Janeiro; • 1939 - Ensino da eletrônica, pelo Instituto Rádio Técnico Monitor; • 1941 - Ensino profissional de nível elementar e médio, pelo Instituto Universal Brasileiro; • 1943 - Cursos bíblicos por correspondência, pela Igreja Adventista; • 1946 - Universidade do Ar, pelo SENAC; • 1959 - Escolas radiofônicas, na Diocese de Natal; • 1962 - Ensino de eletrônica, pela Ocidental School; • 1967 - Metodologia de ensino, pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal - IBAM. No fim da década de 70, no Brasil, o Ministério da Educação levantou a existência de 31 estabelecimentos de ensino utilizando a educação à distância por via postal ou radiofônica. A educação à distância via Internet surgiu somente na década de 90 (BRANCO, 1998). A Internet é uma grande facilitadora para busca, troca e aumento de informações, criação de diálogos e interatividade; por isso deve-se aproveitar este potencial para fins educativos. É fundamental, pois, que se explore este lado da Internet a favor da educação, beneficiando aluno, professor e conseqüentemente a sociedade (HEIDE e STILBORNE, 2000).

Segundo HEIDE & STILBORNE (2000, p. 277):

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Cada vez mais, a Web está permitindo-nos superar as barreiras do tempo e espaço no ensino e na aprendizagem. As organizações que oferecem cursos à distância têm o potencial de alcançar alunos não tradicionais (como alunos no local de trabalho) e alunos em outra parte do globo. Com a Internet, pelo fato de que a infra-estrutura para o oferecimento de cursos já está estabelecida, podem ser criados módulos de aprendizagem relativamente baratos e facilmente atualizados. A educação à distância é uma idéia antiga, sendo que esta metodologia tem grandes vantagens frente às características geográficas do país. Sua pouca utilização deve-se a motivos incorporados à cultura brasileira, bem como à falta de clareza do que é educação à distância (MORAM; MASETTO & BEHRENS, 2000).

A TECNOLOGIA E A ESCOLA Há dez anos, muitos não acreditavam que o computador faria parte das escolas do futuro. Atualmente, sua presença nas escolas e na vida dos estudantes é um fato, bem como, o uso da Internet. Hoje, os computadores já estão nas escolas, mas até agora eles não mudaram significativamente a natureza do ensino e a aprendizagem. Os computadores podem oferecer aprendizagem de uma nova maneira, mas ainda estão longe de oferecer o tipo de experiência de aprendizagem que queremos para nossos alunos (HEIDE & STILBORNE, 2000, p. 23).

Para explorar as informações disponíveis na rede é necessário conhecer os mecanismos de acesso à informação, como programas que permitam ao computador conectar e interagir com as numerosas fontes de informação. Johnson e Maddux (1999) descrevem que, para localizar a informação desejada na rede, são necessários alguns elementos-chave, como: • definir o tipo exato de informação desejada; • saber expressar isso textualmente para selecionar as palavras-chave a serem usadas na pesquisa; • escolher um mecanismo de busca para seleção preliminar do material; • fazer a busca do idioma solicitado; • acessar os documentos recuperados para selecionar as informações, eliminando repetições, material ultrapassado e não-pertinente; • verificar se a informação obtida atende à indagação original. O uso que antes se fazia dos computadores ajudava na instrução por meio de exercícios e práticas, baseados no trabalho de behavioristas como R. F. Skinner. Por isso a tecnologia foi relegada a um papel secundário e suplementar, que não conseguia capitalizar seus verdadeiros potenciais (HEIDE e STILBORNE, 2000).

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As teorias atuais colocam a tecnologia nas mãos dos aprendizes para ajudar no desenvolvimento de suas habilidades cognitivas de ordem superior e falam do poder da tecnologia para acessar, armazenar, manipular e analisar informações, permitindo, assim, que os aprendizes gastem mais tempo refletindo e compreendendo. Em geral, os objetivos de instrução em um ambiente construtivista concentram-se na solução de problemas, no raciocínio, no pensamento crítico e na utilização ativa de conhecimento (HEIDE e STILBORNE, 2000, p. 23).

O aluno, numa sala virtual, terá atenção em relação à sua individualidade, como sua velocidade de leitura, raciocínio e execução dos exercícios propostos. Observa-se nesta ação uma grande vantagem para o aluno, com poder de concentração maior ou que executam suas tarefas em tempo desigual. Segundo MORAN; MASETTO; BEHRENS (2000, p.75), “a sala de aula passa a ser um locus privilegiado como ponto de encontro para acessar o conhecimento”. É de grande valia esta relação individual que um site proporciona em relação a certas tarefas a serem desenvolvidas pelos alunos, como leituras, diálogos, exercícios e pesquisas. Porém, cabe lembrar que, em outros casos, é fundamental que o grupo esteja sintonizado para trabalhar em equipe (MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2000). Segundo Palhares (2000, p. 46), “aprender a cooperar é um pré-requisito indispensável quando se pretende desenvolver alguma atividade em conjunto, sobretudo quando as pessoas dos grupos envolvidos em processos educacionais estão distantes”. Alguns aspectos devem ser considerados: • saber comunicar-se por meio da rede e utilizar bem seus mecanismos, o que exige a compreensão dos mecanismos de comunicação interpessoal que a tecnologia da informação e comunicação requer; • sentir-se parte de um grupo e responsável pelos seus membros; • estar apto a ouvir e avaliar contribuições e comentários feitos por outros membros do grupo; • esforçar-se para, sempre que possível, respeitar prazos e limites de tempo; • desenvolver suas habilidades de mediador; • desenvolver um conhecimento razoável a respeito de computadores e da própria rede. Johnson e Maddux (1999) descrevem que, embora a Internet seja um universo de informações, e sempre em expansão, para os professores, a chave para utilizá-la com sucesso é aprender a utilizar algumas ferramentas: • ter domínio do meio e conhecer suas possibilidades – formar grupos de trabalho capazes de navegar na rede, localizando fontes úteis ao processo, e conhecer os mecanismos e serviços básicos da rede; • conhecer, explorar e aperfeiçoar os recursos que a rede oferece - significa não só estar familiarizado com os serviços básicos, mas saber empregá-los; e 170 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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• ter consciência da intermediação do computador – saber os prós e contras da comunicação intermediada pelo computador. A figura 1 sugere algumas formas de como a Internet pode ser vinculada ao ensino e à aprendizagem.

Projetos • colaborações • pesquisas • coleta de dados

Desenvolvimento profissional • cursos • conferências • relatórios de pesquisa

Comunicações • grupos de discussão • amigos por correspondência • perguntas a um especialista • tutores on-line

Publicações • notícias da escola • ensaios/relatos • “kidsopedia” • páginas da Web • downloads

Internet na sala de aula

Suporte da sala de aula • software • troca de idéias • planos de aula

Pesquisa estudantil • texto on-line • bibliotecas • bancos de dados • notícias

Interesse pessoal • viagem • saúde • cozinha • passatempo • esportes

Exploração educativa

• museus • expedições on-line • sites interativos

Figura 1 – Adaptação, Vinculação da Internet ao ensino-aprendizagem Fonte: HEIDE E STRILBORNE, p. 31, 2000.

Os professores devem testar a possibilidade de interatividade que a rede oferece, antes de conduzir os alunos às metas educacionais relacionadas ao uso da Internet, para sentirem-se mais seguros na utilização dos serviços do computador como mediador da comunicação na educação à distância. “Recorrer à Internet significa derrubar as paredes da sala de aula e deixar a comunidade exterior invadir saudavelmente aquele espaço, até agora perfeitamente delimitado e limitado” (D’EÇA, 1998, p.19).

ESTRATÉGIAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA O processo ensino-aprendizagem vai se aperfeiçoando à medida que o mercado de trabalho se torna mais competitivo, e, frente ao desenvolvimento tecnológico, a educação à distância é um método que possibilita a democratização do saber e a difusão da informação e do conhecimento (LITWIN, 2001).

Nesse contexto de desenvolvimento tecnológico, surgem novas propostas educacionais dentro da metodologia de educação à distância, usando recursos da

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informática, como a Internet. O processo ensino-aprendizagem confronta-se atualmente com duas questões que, segundo CARMO (1997), fazem com que as instituições apostem em duas novas estratégias: Do lado do ensino: • qualificar e diversificar as estratégias de comunicação educacional presencial, como a lição tradicional e as técnicas de trabalho em grupo, e • desenvolver modelos de ensino à distância com a utilização de suportes diversificados como o escrito, vídeo e áudio e sua combinação sob forma de sistemas de comunicação multimídia. Do lado da aprendizagem: • criando estratégias que visam aumentar a autonomia do educando no processo formativo, dando-lhe oportunidade de deixar de ser objeto para se afirmar como sujeito de formação. Processos centrados no Educador/Educando Processo centrado no Educador

Sistema Educador

Saber

Sistema Educando

Processo centrado no Educando

Saber

Sistema Educador

Sistema Educando

Figura 2 – Adaptação, Comparativo de processos educador/educando (CARMO, 1997, p. 191).

A figura 2 estabelece um comparativo entre um processo centrado no educador (professor) e um processo centrado no educando (aluno). No modelo apresentado, o saber passa mecanicamente do educador para o educando, enquanto no segundo modelo o sistema educador é o instrumento que possibilita ao educando maior ou menor acesso ao saber. E isso pode se realizar de forma tradicional ou via meios eletrônicos. No caso de 172 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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emprego de “ciberespaço” para fonte de informação, nem sempre é confiável, por isso cabe ao professor criar o senso crítico no aluno, para que ele saiba procurar a informação correta por um meio ou outro (MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2000). “A linguagem digital apresenta-se nas novas tecnologias eletrônicas de comunicação e na rede de informação, como o paradigma na era digital.” (PELLANDA e PELLANDA, 2000).

Poder ter acesso a mais informação é o primeiro passo para o aprendizado, como depurar a informação que trafega via Internet é, sem dúvida, função do professor, a quem cabe mostrar ao aluno como fazer um trabalho de reflexão. O professor não deve, portanto, estranhar se o aluno chegar a dados ou informações que ele próprio ainda não possui. Seu papel não é saber tudo sobre determinado assunto antes do aluno, mas sim estar aberto para aprender, também, com as novas informações obtidas pelo aluno, bem como ajudá-lo a desenvolver sua crítica diante do que venha a encontrar (MORAN; MASETTO ; BEHRENS, 2000). De acordo com Heide e Stilborne (2000, p. 282), não se pode predizer como serão as escolas ao longo do século XXI. Contudo, algumas tendências, já na reforma educacional da década de 90, anteciparam alguns reflexos do que provavelmente acontecerá: • os alunos assumem responsabilidades pela sua própria aprendizagem; • uma guinada de todos os alunos aprendendo as mesmas coisas para alunos aprendendo coisas diferentes individualmente; • a avaliação dos resultados da aprendizagem e do desempenho; • educação para a administração global facilitada pelas tecnologias de comunicações; • colaboração, comunicação e integração de raciocínio do visual e verbal; • mudança do papel de professor, de especialista para facilitador, mentor e parceiro na aprendizagem. No quadro abaixo podem ser observadas algumas mudanças entre os modelos antigos e novos de aprendizagem, juntamente com implicações para os alunos. Quadro 1 - Variáveis entre os modelos antigos e novos de aprendizagem Modelo Antigo Centrado no professor

Modelo Novo Centrado no aluno

Absorção passiva Trabalho individual

Participação do aluno Equipe de aprendizagem

O professor como espe- O professor como guia cialista

Implicações para os alunos Os alunos são investidos no poder de aprendizes ativos. A motivação do aluno é aprimorada. A equipe constrói habilidades que são aprimoradas; o aprender é aprimorado pelo compartilhamento. A estrutura de aprendizagem é mais adaptável às rápidas mudanças no mundo.

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Estático

Dinâmico

Aprendizado pré-deter- Aprender a aprender minado

Os recursos de aprendizagem são substituídos por um link on-line ao mundo real. Os recursos podem ser adaptados às necessidades imediatas da aprendizagem Desenvolvimento de habilidades para a era da informação.

Fonte: HEIDE E STILBORNE, 2000, p.28

A educação à distância possibilita algumas experiências novas, como aponta CARMO (1997). Em um sistema mais aberto criam-se possibilidades para o estudante poder escolher em maior ou menor grau: • o que quer aprender (conteúdo de aprendizagem); • onde quer aprender (local de aprendizagem); • como quer aprender (métodos e mídia); • quando quer aprender (tempo disponível e descontinuidade ou não); • o ritmo em que quer aprender (extensivo ou intensivo); • a quem quer recorrer para aprofundar conhecimento ou colher orientações metodológicas (professores, orientadores, fontes); e • a que sistema de avaliação quer se submeter (forma, altura e local). A educação à distância, segundo Branco (1998), como qualquer proposta educacional, precisa ter claros alguns parâmetros para a instituição: • trata-se de uma modalidade educativa diferente da educação presencial e que exige um tratamento diferenciado para sua implantação; • cria paradigma na relação docente / aluno e ensino / aprendizagem e exige maior comprometimento dos que atuam no processo para que se alcance um resultado positivo; • possibilita uma aprendizagem autônoma e independente, convertendo o usuário em sujeito da sua própria aprendizagem e centro de todo o sistema educacional.

A INTERNET NA EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA O fluxo da aprendizagem, atualmente, sofre contínua pressão pelos avanços tecnológicos com tal celeridade, que exige do profissional, já a partir do processo escolar e sobretudo, no percurso de suas atividades, constante retomada da aprendizagem, atualizando-se para poder fazer frente à competitividade. Lévy (1999, p. 157) descreve que: Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no início de seu percurso profissional estará obsoleta no fim de sua carreira. A segunda constatação, fortemente ligada à primeira, diz respeito à nova natureza do trabalho, cuja parte de transação de conhecimento 174 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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não pára de crescer. Trabalhar quer dizer, cada vez mais, aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos. Terceira constatação: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas.

Em relação ao uso da Web na educação, segundo Lévy (1999), duas grandes reformas seriam necessárias nos sistemas de educação e formação: • aclimatação dos dispositivos e do espírito da educação à distância (ensino aberto e à distância), ao cotidiano da educação, e • reconhecimento das experiências adquiridas. “Essas mudanças exigem novos comportamentos, novos modos de pensar, uma nova cultura tanto da parte do professor como do aluno no processo de educação à distância.”(LÉVY, 1999). O uso da Internet para fins educacionais pode ser visto de duas perspectivas diferentes: educação na rede e educação baseada na rede. Na primeira, a tecnologia da informação e da comunicação é vista como sujeito do processo de ensino-aprendizagem. No caso da educação baseada na rede, a referida tecnologia é tida como mecanismo indispensável e pré-requisito para a implementação de alguns modelos educacionais, tal como educação online.( PALHARES, 2000).

De acordo com referências encontradas por Palhares (2000), os sites de escolas devem cumprir basicamente as seguintes funções: • fornecer e desenvolver recursos apropriados para o ensino e a aprendizagem de assuntos que estejam sendo ensinados na escola ou curso; • identificar materiais, na própria escola ou região, relacionados ao que está sendo ensinado, tais como: documentação, artefatos ou outros dados; e • fornecer informação para novos usuários interessados em estudar, ajudando-os na escolha. Os sites, também, devem acrescentar outras funções que facilitam a consulta, tais como: informações sobre eventos e divulgação do calendário escolar; ligações com outras páginas do site e com outros sites da rede para reforçar os temas e ajudar a fixação; respostas aos exercícios de aula; divulgação dos melhores trabalhos apresentados; respostas a dúvidas surgidas durante a aula; anotações feitas por voluntários; ligações com dicionários e enciclopédias.

SITES Conforme a descrição de Radfahrer (2000, p. 67): “Site, em inglês, quer dizer “sítio, lugar”. Um website ou um site pode ser definido como o “lugar” ou o “endereço” de uma pessoa ou empresa na WWW. Como sabemos, um site é apenas o espaço no disco rígido de um computador ligado à Internet.

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Para a produção de um site é preciso estabelecer a meta a ser atingida de modo claro e resumido. Isso beneficia os que irão utilizá-lo, evitando a perda de tempo, e ajuda o criador do site a limitar-se ao assunto desejado na hora de implementá-lo (BLACK, 1997).

SITES DE PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA GERAÇÃO Segundo Siegel (1999), os sites de primeira geração eram lineares, simples e funcionais, para que os cientistas, em todo mundo, pudessem compartilhar de suas descobertas. A página apresenta uma seqüência do topo para base, da esquerda para direita de textos e imagens, intermediada por retornos de linhas e outros separadores de fluxo de dados, como marcadores e réguas horizontais. Os sites de segunda geração são basicamente sites de primeira geração com ícones substituindo palavras, imagens “ladrilhadas” substituindo o fundo cinza, botões com chanfros, e banners substituindo os títulos. Sites de primeira e segunda geração

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Outra Página

Outra Página

Outra Página

Outra Página

Outra Página

Figura 3 – Adaptação Representação de sites de primeira e segunda geração segundo SIEGEL, 1999, p. 13.

Os sites de terceira geração, em lugar de prover uma lista de movimentos de ida e volta à home page, é uma experiência que resulta em uma grande exploração. Siegel (1999) enfatiza que, enquanto os sites de primeira e segunda geração começam com uma home page e uma lista de opções (figura 3), os sites de terceira geração atraem pessoas pela porta da frente e as guiam pelo seu interior (figura 4).

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Página A

Túnel de Entrada 1

Atalho Página B

Página C

Página D

Túnel de Entrada 2

Página de Núcleo

Túnel de Saída 1 Túnel de Saída 2 Página de Saída

Figura 4 – Adaptação Representação de sites de terceira geração de SIEGEL, 1999, p. 14.

Referente a sites de quarta geração, Siegel (1999, p. 15) descreve: “algumas pessoas dizem que os sites de quarta geração são baseados em bancos de dados, repletos de conteúdo dinâmico.”

ESTRUTURA DO SITE Segundo Nielsen (2000), em qualquer navegação é fundamental que o usuário visualize sua atual localização e consiga movimentar-se alternativamente pela estrutura do site. A boa usabilidade depende da correta arquitetura das informações. Analisando a obra de Lynch (2001), a maioria dos itens de informação deve ser ordenada em hierarquia e organizada pelo grau de inter-relacionamento de navegação entre unidades de informação. Uma determinada lógica de prioridades pode construir uma hierarquia do tópico mais importante, ou conceitos gerais, até os tópicos mais específicos ou opcionais. Johnson & Maddux (1999) relatam que o site não deve espelhar o organograma da empresa e, sim, estar voltado para o cliente. Sua estrutura deve ser determinada pelas tarefas que os usuários desejam realizar, informações e serviços da empresa. Um site que não tenha uma estrutura planejada pode evoluir de forma a resultar em uma coleção de diretórios, sem qualquer relação sistemática entre as suas diferentes partes. Lynch (2001) descreve que a estrutura do site deve possibilitar uma navegação flexível, que permita ao usuário deslocar-se de formas diferentes. Uma exibição deve

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combinar profundidade, como níveis de hierarquia navegacional e abrangência, com lista das opções alternativas para cada nível. Segundo Nielsen (2000, p. 207), “O HTML dinâmico pode ser usado para combinar visibilidade permanente de todos os níveis (profundidade) com um menu instantâneo temporário das alternativas (abrangência) em qualquer dado nível quando o cursor se encontra sobre o nome daquele nível.” Nielsen (2000, p. 221) sugere, ainda, uma redução do acúmulo navegacional através dos seguintes métodos: • Agregação – mostrar uma única unidade que representa uma coleção de unidades menores; • Sumarização – formas de representar uma grande quantidade de dados através de uma quantidade menor; • Filtragem – eliminar grupos de dados inteiros que sejam relevantes; • Omissão – cortar tudo, exceto as primeiras partes da informação. Litwin (2001, p. 64) descreve: Bom design para web é aquele adequado à proposta e à função. Ele deve ser funcional, elegante, simples, fácil de entender e leve. Um bom paralelo é a construção de uma escada. Você deve se preocupar se a altura entre os degraus é adequada para a média das pessoas, se elas conseguem chegar ao fim sem se cansar. Não adianta pintar a escada de laranja se ninguém consegue subir. Então, primeiro você se preocupa com as pessoas que conseguem subir a escada e depois pensa se vai colocar um tapete. A funcionalidade antecede a forma.

Para Radfahrer (2000), um verdadeiro processo de arquitetura da informação envolve seis etapas, a saber: • identificação do problema, • classificação de suas particularidades, • levantamento de dados, • aglutinação de temas relevantes, • estudos de navegabilidade, • pontos de interatividade. O mesmo autor (2000, p. 112) ainda descreve: O design de informação prepara e organiza as estruturas de navegação – títulos, botões, barras de navegação, legendas, etc. Para isso, ele precisa entender a natureza da informação e traduzi-la, dando a ela um contexto em que seu conteúdo seja mostrado de uma forma compreensível e utilizável.

Segundo Nielsen (2000, p. 22), “a simplicidade sempre vence a complexidade, principalmente na Web, onde cada três bytes economizados significam um mili segundo a menos no tempo de download”. Muitos sites gastam mais espaço de telas 178 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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de navegação do que em informação. Em regra, o conteúdo deve corresponder a pelo menos metade do design da página e, de preferência, algo em torno de 80%. A navegação deve ficar abaixo de 20% do espaço das páginas de destino. O principal critério do webdesigner deve ser a velocidade. Quando se faz necessário o uso de elementos gráficos, devem-se adotar várias ocorrências da mesma imagem, pois a imagem estará no cache local do usuário, recomenda Nielsen (2000).

PADRONIZAÇÃO DE DESIGN POR MEIO DE FOLHAS DE ESTILO Deve-se usar uma única folha de estilo para todas as páginas do site, garantindo a continuidade visual à medida que o usuário navega pelo site. Nielsen (2000, p. 81) descreve que “os websites ganharão a mesma coesão de marca quando todas as páginas de um site forem vinculadas à mesma folha de estilo.” As formas de programar folhas de estilo são: • uma folha de estilo embutida é incluída simplesmente como parte da página da Web na forma de linhas de código adicionais; • uma folha de estilo vinculada é mantida em um arquivo separado e cada página da Web que venha usar este estilo tem um link de hipertexto em seu cabeçalho que aponta para a folha de estilo. Ao se usar uma única folha de estilo para todo o site, esse arquivo terá um só download, tornando-o menor e mais rápido. As folhas de estilo devem ser criadas por um único grupo central de design. Nielsen (2000) aponta dois motivos: • o design centralizado é a única maneira de garantir um estilo consistente e colher um dos principais benefícios das folhas de estilo; • a maioria dos criadores de conteúdo da Web não será capaz de criar ou escrever boas folhas de estilo. Siegel (1999) enfatiza que entender o efeito do estilo é relativamente fácil na editoração eletrônica tradicional, pois se trata de um ambiente WYSIWYG com uma única forma de saída canônica. A Web não é WYSIWYG devido à variabilidade de plataformas aceitas. As páginas devem ficar eficazes quando as folhas de estilo são desativadas pelo usuário final ou seu browser. Nielsen (2000, p. 84) descreve quatro tópicos importantes para o manuseio de folhas de estilo: • não use mais de duas fontes; as listas de nomes de fontes devem ser listadas na mesma ordem, pois o browser escolhe o primeiro que encontrar disponível; • não use tamanhos de fontes absolutos; em vez disso certifique todo o texto relativo ao tamanho de fonte básico definido pela opção de preferência do usuário;

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• as folhas de estilo em cascata permitem que elas especifiquem que determinadas opções devam sobrepor-se àquelas em outros níveis da cascata, incluindo-se um atributo “important”; • se tiver várias folhas de estilo, certifique-se de usar nomes da mesma classe (class) para o mesmo conceito em todas as folhas de estilo. Munari (1997, p. 236) descreve: “A característica principal de uma estrutura é modular um espaço, dando-lhe unidade formal e facilitando a obra do designer, que, ao resolver o problema básico no módulo, resolve o sistema todo.”

QUADROS OU FRAMES Segundo Black (1997), faz parte do projeto original da Web a unificação total de vários conceitos em uma única idéia, a página: • a visão do usuário das informações na tela; • a unidade navegação, ou o que se obtém quando se clica em um link se ativa uma ação de navegação como um bookmark; • um endereço textual usado para recuperar informações na rede (a URL); • o armazenamento das informações no servidor e a unidade de edição do autor, exceto quando se usa objetos embutidos como arquivos de imagens, que realmente requerem o autor para gerenciar arquivos múltiplos para uma página. Já para NIELSEN (2000, p. 86), “os quadros rompem o modelo unificado da Web e introduzem uma nova forma de ver os dados que não foi bem integrada aos outros aspectos da Web”. Segundo Radfahrer (2000, p. 78), um frame pode ter quatro tipos de formatos: • fixo – sua largura / altura é definida em pixels. Um frame pode ter 100 pixels de largura, outro 150, outro 30. Se a soma dos frames for maior ou menor que a largura total do monitor, o último será esticado ou comprimido; • percentual – suas dimensões variam conforme o tamanho do monitor. Um frame pode ocupar 10% do total, pouco importa o tamanho da janela; • proporcional – suas dimensões variam conforme o espaço ocupado pelos outros frames; e • misto - todos os formatos podem se misturar, o que dá um controle maior para o frameset.

TEXTO NA WEB O conceito para escrever para a Web é algo diferente do antigo modelo linear da imprensa, o leitor é um usuário, um colaborador, e precisa manipular a informação. Black (1997, p. 106) relata que “Na web, uma matéria pode ser encarada de várias maneiras; imagine a matéria principal como sendo o eixo de uma roda e os demais elementos os raios”. Assim sendo, não deveria fazer diferença por onde começamos, nem se pulamos de um raio para outro, através de hyperlinks sem jamais chegarmos 180 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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ao eixo. A pesquisa tem mostrado que ler na tela do computador é 25% mais lento do que ler no papel. Nielsen (2000, p. 94) descreve as três principais diretrizes para escrever para Web: • Seja sucinto. Não escreva mais do que 50% do que escreveria para tratar do mesmo assunto em uma publicação impressa. • Escreva tendo em vista a facilidade de leitura. Não exija que os usuários leiam blocos de texto longos e contínuos. Use parágrafos curtos, subtítulos e listas com marcadores. • Use hipertexto para segmentar informações longas em várias páginas. Segundo Palhares (2000), não há desculpa para o uso de letras trocadas, erros gramaticais e de tipografia em uma página associada com educação. Além dos erros, o emprego de gírias e palavrões é impróprio. Segundo Lynch (2001), alguns usuários da Internet gastam muito tempo lendo textos longos na tela, mas a maioria dos usuários economizará este tempo ao gravar os documentos em disco rígido para imprimi-los e ler mais tarde. Nielsen (2000) descreve que examinar superficialmente em vez de ler é um fato da Web e foi confirmado por inúmeros estudos de usabilidade. Os que escrevem para Web devem reconhecer esse fato e escrever tendo em vista a facilidade de leitura: • estruturar artigos com dois ou até três níveis de títulos. Os títulos facilitam o acesso para usuários com limitações visuais com leitoras de tela; • usar títulos significativos. A leitura do título deve dizer ao usuário do que trata a página ou seção; • destacar palavras importantes para chamar a atenção do usuário. O texto deve ser breve sem sacrificar a profundidade de conteúdo ao dividir as informações em vários módulos conectados por links de hipertexto . Para Willians (1995, p. 83), “um leitor nunca deveria tentar descobrir o que está acontecendo na página: o foco, a organização do material, o propósito, o fluxo de informações deveriam ser reconhecidos instantaneamente, através de um único olhar”. A leitura online é o principal uso das páginas da Web. É melhor oferecer uma versão separada para impressão de documentos longos. Um layout típico de 600 pixels de largura, que funciona na maioria dos monitores de computador, terá 21 centímetros de largura, quando impresso na resolução padrão 72 pixels por polegada. Já que as impressoras precisam de 0,6 a 1,2 centímetros de margem, a área imprimível em uma folha de papel-carta tem entre 19 e 20 centímetros de largura, ou seja, pelo menos 0,8 centímetro da página será cortado. No formato A4 perderá mais ainda (NIELSEN, 2000).

LEGIBILIDADE Nielsen (2000) relata algumas regras básicas para garantir a legibilidade:

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• usar cores com alto contraste entre texto e fundo. Uma ótima legibilidade requer texto preto e fundo branco, o chamado texto positivo, ou o inverso, texto negativo; • usar fundos de cores lisas ou padrões de fundo extremamente ameno. Os elementos gráficos de fundo interferem com a capacidade do olho de decompor a linha em caracteres e reconhecer as formas das palavras; • usar fontes de tamanho suficiente para que as pessoas possam ler o texto, mesmo que não tenham uma visão perfeita. Os tamanhos de fonte mínimos devem ser relegados a rodapés e de responsabilidades legais que poucas pessoas supostamente lerão; e • fazer com que o texto fique imóvel. Mover, piscar ou dar um zoom no texto dificulta a leitura.

FONTES Lunetta (2001) descreve que os monitores de computador funcionam como emissores de luz, enquanto o papel apenas reflete a luz que incide sobre ele. Isto faz com que o tipo não funcione da mesma forma nos dois meios de comunicação. As fontes são geralmente menos legíveis na tela do computador do que quando impressas em papel. Quanto à estrutura de uma fonte, ou seja, a maneira da qual ela é constituída, Williams (1995) classifica seis principais grupos de tipos: estilo antigo, moderno, serifa grossa, sem serifa, manuscrito e decorativo. A pesquisa realizada por Schriver (1997) destaca, para uso online, fontes sem serifa, devido à sua simplicidade, alta legibilidade e aparência moderna e que as fontes condensadas e estendidas devem ser evitadas. Sobre a criação de fontes digitais, Lunetta (2001) descreve que entre as produções mais conhecidas para mídias eletrônicas estão a CBS News 39, um tipo baseado na News Gothic, criado pela equipe de designers da CBS, e a GloboFace, desenvolvida por Hans Donner para a Rede Globo. Além dessas duas há também a Geórgia e a Verdana, que foram desenvolvidas pela Microsoft com o objetivo de melhorar a leitura de textos eletrônicos. O alfabeto Cathode foi criado por Luís Eduardo Santa Maria, que está desenvolvendo como o auxílio do LEUI (Laboratório de Ergonomia e Usabilidade de Interfaces em Sistemas Humano-Computador) da PUC-RJ, uma pesquisa para mestrado sobre como as características intrínsecas dos tipos influenciam o processo de leitura de textos eletrônicos. A produção de fontes para mídias eletrônicas ainda não cresce na mesma proporção que se multiplicam o uso dos computadores. Black (1997, p. 100) relata que “Adobe, Apple e Microsoft concordaram em combinar suas tecnologias rivais em um novo padrão que vai ter uma impressão tão boa quanto o Tipo I e funciona igualmente bem na tela como True Type”, que será o padrão Open Type.

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Parizotto (1997) relata sobre a importância de um texto e a ordem em que ele deve ser lido, variando-se o tamanho e peso da fonte. • Tamanho – um contraste de tamanho significa tipo grande versus tipo pequeno ou o contraste do tipo muito pequeno colocado em uma página grande. • Peso – o peso de uma fonte refere-se à espessura dos traços classificados em regular, bold (negrito), semibold, extra bold ou light. Certifique-se de criar contrastes marcantes, que atrairão o interesse do leitor, exceto se você optar pela criação de um design concordante. Lembre-se: contraste é contraste. O importante é a diferença existente entre os elementos da página para que seus olhos sejam atraídos para a leitura (WILLIANS, 1995, p. 128)

Parizotto (1997) enfatiza que, em uma página, a variação das fontes deve ser limitada para poucos tamanhos de uma ou de duas famílias diferentes. Na escolha do tamanho da fonte para documentos on-line, é importante considerar a distância da tela como um fator de legibilidade. Devem ser consideradas também as características da fonte, como largura e espaçamento das letras, e como o texto será espaçado (comprimento da linha e entrelinhas). Essa escolha também deve ser feita de acordo com as características do usuário (idade, ponto de vista, nível de motivação ou vontade de ler um texto contínuo). As palavras não são reconhecidas somente por suas letras, mas também por sua forma. Palavras digitadas em caixa-alta têm uma forma retangular similar, o que reduz a legibilidade. Outro contraste nítido é o uso do roman versus itálico. O estilo roman significa que a fonte está reta, opondo-se ao itálico, em que o tipo está inclinado. Um contraste útil para páginas com muito texto é o uso de uma fonte suave, com bastante espaço entre as letras e uma fonte em bold (negrito) e sem serifa, que cria uma textura escura.

HIPERMÍDIA E MULTIMÍDIA Miranda (2001) descreve que a hipermídia é a associação de nós de informação conectados uns aos outros por meio de links para formar redes de informação similar ao hipertexto, acrescentando que os nós podem conter diferentes tipos de informações por meio de diversos tipos de mídias: vídeo, áudio, animação, textos ou gráficos, recursos estes que, quando unidos, são denominados multimídia. O dado novo e interessante nos sistemas hipermídia é, segundo Miranda (2001, p.12), “a possibilidade da união de tipos diferentes de informações em um computador, tornando-o, desta forma, um novo meio tecnológico para a aprendizagem e a comunicação”.

IMAGEM Siegel (1999) descreve que as imagens tornam a página atraente, mas deve-se

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evitar o excesso. Cada figura aumenta o tempo necessário para baixar o documento. Além do uso de poucas figuras, sempre que possível, é melhor usar a mesma figura em diferentes lugares do documento, porque, depois que a figura foi carregada, ela pode ser usada de novo sem gastar mais tempo. No caso de arquivos de imagens muito grandes, como fotografias, Nielsen (2000) recomenda incluir uma miniatura da imagem da página (thumbnail), e permitir que os usuários tenham a visão completa ao selecionar uma ligação que conduza a ela. O autor sugere a combinação de recorte e escala, técnica que ele chama de redução de imagem com aumento de relevância, evita que imagens percam os detalhes ao serem redimensionadas. Para obter um thumbnail que seja 10% da imagem original, deve-se recortar a imagem para 32% do tamanho original e escalar o resultado para 32%. A imagem final será 0,32 x 0,32 = 0,1 da imagem original. Ainda, Nielsen (2000, p. 135) lembra: “Há também casos em que o velho ditado uma imagem vale mil palavras é tão adequado que supera o corolário uma imagem equivale a duas mil palavras em tempo de download”. Radfahrer (2000, p. 75) cita os quatro tipos de função que uma imagem pode realizar em um website: • simplesmente ilustrar; • servir como um botão com link de hipertexto; • agir como um mapa (imagemap) – com áreas clicáveis; e • atuar como uma imagem de fundo.

ANIMAÇÃO Radfahrer (2000) enfatiza que é extremamente difícil concentrar-se em ler um texto no meio de uma página se houver um logotipo que gira no canto superior. Devese evitar que as animações fiquem girando indefinidamente, elas devem girar ou piscar algumas vezes e depois parar. Nielsen (2000, p. 143) aponta sete finalidades para a inclusão de uma animação em um Website: • Mostrar continuidade nas transições – uma transição animada permite que o usuário acompanhe o mapeamento entre duas subpartes diferentes através do sistema perceptivo em vez de usar o sistema cognitivo para deduzir os mapeamentos. • Indicar dimensionalidade nas transições – transições animadas opostas podem ser usadas para indicar movimento de vai-e-vem em alguma dimensão navegacional. • Ilustrar a mudança no tempo – a animação é uma exibição que varia no tempo, oferece um mapeamento de um fenômeno em relação ao tempo. • Multiplexar o monitor - a animação também pode ser usada para mostrar múltiplos objetos informacionais no mesmo espaço (mouse over). 184 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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• Enriquecer as representações gráficas – algumas informações são mais fáceis de visualizar com movimento do que com ilustrações estáticas. • Visualizar estruturas tridimensionais – a tela do computador é bidimensional; os usuários nunca têm uma compreensão total de uma estrutura tridimensional por uma só ilustração. A animação pode ser usada para enfatizar a natureza tridimensional dos objetos e facilitar para os usuários a visualização de sua estrutura espacial. • Chamar atenção – para chamar a atenção do usuário a um único elemento no meio de vários ou alertá-lo quanto a informações atualizadas, um título animado dará resultado. Uma das últimas tecnologias aplicadas em animações vetoriais é o arquivo .swf, adotado por vários fabricantes de softwares, como Adobe (LiveMotion), Corel (Rave) e Macromedia (Flash). Siegel (1999, p. 265) descreve sobre o software pioneiro que é o Flash, “anteriormente denominado FutureSplash, é um formato vetorial que adquiriu impulso no design para a web desde a sua aquisição pela Macromedia em 1997. O Flash produz uma arte limpa, independente da resolução e baseada em vetores”.

ÁUDIO E VÍDEO Segundo Nielsen (2000), o som pode ser usado de duas formas em uma interface: integrado a ela, para deixar o usuário a par do estado do sistema, ou alertando o usuário de algum fato, como por exemplo, que uma tarefa acabou. Radfahrer (2000, p. 94) alerta quanto aos cuidados a serem tomados: • restrição – o excesso não vai acrescentar significado à interface e provavelmente será irritante; • redundância – o som não deve ser a única indicação que algo aconteceu. Deve sempre existir uma indicação visual para reforço; • invasão – muitos sons podem ser sutis e, mesmo assim, garantir a transmissão da mensagem. Sons invasivos, desagradáveis ou altos demais podem ser ofensivos ou intimidatórios. Sons repetitivos podem se tornar irritantes depois de exposição prolongada. Siegel (1999) descreve que uma das vantagens em se usar o áudio é oferecer um canal separado do monitor. O áudio pode ser usado para oferecer comentários ou ajuda sem carregar as informações na tela. Efeitos sonoros não-vocais podem dar uma nova dimensão à interface para orientar o usuário. Em relação a vídeos, a sua qualidade de transmissão, atualmente, é muito baixa devido às restrições de largura de banda. As palavras faladas são às vezes mais difíceis de entender, principalmente para usuários internacionais e usuários com problemas auditivos. Deve-se tomar cuidado, também, com legendas que ficam ilegíveis quando o vídeo é reduzido ao tamanho geralmente transmitido na Internet (NIELSEN, 2000).

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A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA (EAD) E SUA RELAÇÃO COM UM AMBIENTE VIRTUAL DE APOIO AO ENSINO PRESENCIAL

NAVEGABILIDADE Para Radfahrer (2000), a Web é um sistema navegacional com centenas de milhões de páginas. Como o espaço é tão vasto, a navegação é difícil e torna-se necessário dar aos usuários suporte navegacional, além dos simples hyperlinks “vá para”. Nielsen (2000, p. 188) descreve que as interfaces de navegação precisam ajudar os usuários a responder às três perguntas fundamentais da navegação: a) Onde estou? b) Onde estive? c) Aonde posso ir? • Onde estou? O usuário nunca terá a chance de entender a estrutura do site se não entender onde está. A localização relativa à estrutura do site é geralmente dada mostrando-se partes da estrutura do site e destacando-se a área em que está localizada a página atual. Também é importante ter um título principal claro para a página, dizendo o nome ou o principal conteúdo num relance. • Onde estive? Alguns poucos mecanismos de navegação úteis nos atuais browsers oferecem alguma ajuda. O botão Voltar leva o usuário diretamente para a página anterior, e a lista de histórico inclui uma lista das páginas visitadas recentemente e os links de hipertexto são apresentados em uma cor diferente se apontarem para as páginas visitadas anteriormente. • Aonde posso ir? Essa pergunta é respondida pelas opções de navegação visíveis e outros links na página. Como é impossível mostrar todos os possíveis destinos em todas as páginas, uma boa estrutura de site é um grande benefício a fim de ajudar os usuários. Segundo Johnson (2001), a Internet levanta uma nova questão em comunicação entre indivíduos e dá novo sentido às expressões one-to-one (um-a-um), one-to-many (um-a-muitos) e many-to-many (muitos-a-muitos), usualmente classificados por engenheiros e por teóricos da comunicação. A primeira seria a comunicação ponto a ponto, ou um-um, típica de cartas, telégrafo e telefone. O segundo é o um-muitos, característica dos meios de comunicação de massa – jornal, cinema, rádio, TV – onde uma fonte emite uma mesma mensagem para vários receptores. O terceiro, só encontrado na Internet, são o muitos-a-muitos, onde todos podem ser emissores e receptores e há muitas mensagens heterogêneas. O exemplo pode ser salas de chat ou os newsgroups, que se assemelham com festas e assembléias. É interessante notar que a Internet, como meio de comunicação, reúne estes três modos de comunicação a distância. 186 | COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 2| n.2|p.165-190| 1° Semestre 2009


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CONCLUSÃO Com base no que foi relatado, a educação à distância é uma metodologia de ensino que deve ser utilizada cada vez mais, por romper as barreiras de tempo e espaço, facilitando o aprendizado. A Internet é um meio de suporte para atividades de educação à distância e tem tornado disponível um grande número de ambientes baseados na Web, os quais consistem na sua grande maioria de um conjunto de mecanismos de envio e recebimento de mensagens, conversas, acesso a conteúdo instrucional e tarefas administrativas. Acredita-se que a educação à distância não substituirá o ensino presencial, mas será sua forte aliada. O uso da Internet em um ambiente virtual de apoio para educação pode facilitar o aprendizado individual, pode permitir que os alunos assumam responsabilidades pela sua própria aprendizagem e pode tornar o professor um parceiro na aprendizagem. Destacou-se a importância dos recursos que a Internet possibilita para a produção de um site de terceira geração e estabelece a meta a ser atingida de modo claro e resumido, beneficiando os que irão utilizá-lo e ajudando o criador do site a limitar-se ao assunto desejado na hora de implementá-lo. É indiscutível que a EAD teve uma rápida e significativa implementação nos últimos anos, devido à evolução vertiginosa da tecnologia, sobretudo no que diz respeito à mídia. Fundamentando-se que a Internet é uma forte ferramenta de suporte para atividades de educação à distância, os resultados deste trabalho vêm tornar disponível novos ambientes baseados na Web. Estes ambientes consistem, na maioria dos casos, de um conjunto de mecanismos de envio e recebimento de mensagens, acesso a conteúdo instrucional e tarefas administrativas.

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A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA (EAD) E SUA RELAÇÃO COM UM AMBIENTE VIRTUAL DE APOIO AO ENSINO PRESENCIAL

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Gràfica Posigraf Papel: Pólen 75g/m2 (miolo) e couchê fosco 250g /m2 (capa) Fontes: Times News Roman (texto), Zurich BdXCn BT (titulos) Impressão: offset Curitiba, junho de 2009


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