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Despertei,

antes mesmo que o despertador me despertasse. Era meu primeiro dia no trabalho novo e eu não queria chegar atrasada. Depois de passar três semanas na expectativa de ser chamada para o cargo, não arriscaria por nada a chance de assumir a gerência de uma das lojas da famosa Joalheria Luc Prado, num shopping de luxo, a alguns quarteirões de onde moro. Naquela tarde, aborrecida com uma série de problemas que resolveram surgir todos ao mesmo tempo, fui ao shopping espairecer. Entrei e saí de lojas. Experimentei roupas e calçados. Mas nada comprei. Nem tinha condições para isso. Eu precisava pensar em como faria para pagar as contas que se acumulavam. Ver coisas bonitas alegravam meus olhos. E foi diante de uma vitrine repleta de objetos belos e valiosos que estacionei deslumbrada com tantas maravilhas. Então, notei um anúncio no canto do vidro. Curiosa, cheguei mais perto e quando vi do que se tratava, tirei uma foto com o celular. Duas horas mais tarde, compareci à agência oferecendo-me para a vaga. Foi o tempo de passar no apartamento, trocar de roupa e descobrir como chegar ao endereço especificado no anúncio. Fiz minha inscrição e dois dias depois me chamaram para uma entrevista. Vestida com discreta elegância, mantive minha atenção nos olhos do recrutador, respondendo com firmeza todas as perguntas, sem tremer a voz uma única vez sequer. Eu queria tanto ser contratada, que me imaginava circulando naqueles metros quadrados suntuosos, coordenando a equipe e me assegurando que tudo funcionasse com eficiência.


Seria o primeiro emprego conquistado pelo meu próprio empenho, pois as duas experiências anteriores foram estágios conseguidos por indicação de papai. A sala da agência estava lotada. A concorrência era grande e mesmo não sabendo com quantos candidatos eu concorria, entendi que a disputa à vaga seria feroz. Por esse motivo, a comemoração em ser aprovada ao cargo teve um sabor especial. Mamãe foi a primeira pessoa a quem avisei da novidade. — Que golpe de sorte, filha. — Sorte? — Quando tem de ser, não tem jeito. — E meu esforço? E meu potencial? E minha iniciativa? — Ah, por favor, não comece a me retrucar, Virgília. — Mamãe! Eu não... — Já sabe quanto vai ganhar? — me interrompeu ela. — Sei. — E? — É pouco no início. Mas o suficiente para... — Melhor que nada. Agora tenho de desligar. Tá na hora do meu remédio. — Tchau, mamãe. — Oh, já ia esquecendo-me de avisar, seu irmão ligou e me pediu um favor. Eu disse que sim. Depois vocês conversam. — Espera! Não desliga, mamãe! Qual favor? Fiquei sem resposta e curiosa para saber do que se tratava. Meu mano nem mora aqui na cidade. Fora transferido a trabalho para outro estado, levando esposa e dois filhos. Achei que estavam bem. Agora isso. O que seria? Qual favor? Qual? Fui me arrumar. Tomei banho. Preparei um café preto com torradas. Vesti o terninho composto de uma saia cinza e uma camisa de seda branca, que me foi entregue pela agência. Calcei os sapatos pretos de saltos médios. Prendi os cabelos num coque. Fiz uma maquiagem suave. E fiquei admirando com satisfação o resultado em frente ao espelho, alisando o nome Joalheria Luc Prado, bordado no bolso esquerdo.


Em pouco tempo cheguei ao meu destino. Eram 9:00h. Segunda-feira. Dia 01/04/2013. Enquanto aguardava para receber instruções sobre o meu cargo, acomodei-me numa poltrona macia. E, ansiosa para assumir minhas funções, assisti ao movimento da loja, observando como se portavam clientes e vendedores. Fui avisada que o chefe tivera um contratempo e eu teria de esperar além do combinado. Achei deselegante me fazerem esperar logo no meu primeiro dia, mas tentaria tirar proveito, estudando os funcionários em ação. Inicialmente minha função seria para gerenciar, mas em caráter experimental. Isso significava que alguém estaria me avaliando. O mesmo alguém por quem eu esperava, certamente. Ah, se fosse eu a avaliá-lo, corria sérios riscos de perder o posto. Os minutos passavam e nenhum sinal da tal pessoa surgir. Cruzei e descruzei as pernas. Ajeitei alguns fios de cabelo que ameaçavam fugir do coque. Olhei em volta, para me sentir de fato integrada ao ambiente. Estava a um passo de perder a paciência, o emprego, a oportunidade de um salário para pagar as contas, desistindo daquela espera interminável, indo embora. Lembrei de meu primo Murilo e suas mensagens reflexivas e serenas. Jamais entendi como uma pessoa consegue atingir um nível tão elevado de paz interior. Desde que entrou para o movimento Hare Krishna, Murilo tornou-se um novo Murilo. Aliás, nem sei se continua atendendo pelo mesmo nome. A última vez em que o vi ele estava com aquela roupa laranja, vendendo livros na praça e distribuindo sorrisos ensolarados. Daí, quando meu sangue ameaça ferver, recorro aos ensinamentos de paz e harmonia que ele prega e tento me acalmar por dentro. Raramente funciona, mas ajuda a manter minha mente ocupada. Mentalmente fiquei estourando bolhas de plástico, daquele tipo usado para embalar e proteger mercadorias. São excelentes calmantes nas horas de tensão. Ploc. Ploc. Ploc. Estourei incontáveis vezes, sem, contudo perder o ar de tranquilidade e o sorriso calmo, lançado a cada vez que me dirigiam o olhar. Trinta minutos de espera. Parei de estourar bolhas e foquei no balcão de vidro. O cordão com pingente de coração, ostentado num estojo luxuoso me fez recordar de Leo, meu ex-namorado. Não, Leo não me deu uma joia preciosa. Ele mesmo revelou ao me presentear no dia dos namorados, que o cordão com pingente de coração era bijuteria e fora comprado num catálogo de produtos, vendidos por uma vizinha. Como sou romântica, sentimental e tola, achei bonitinho e enchi o rosto dele de beijos.


Depois de um ano e dois meses juntos, ele terminou tudo comigo, sem mais nem menos. Um telefonema no meio da noite. E antes que eu terminasse de perguntar “aconteceu alguma coisa, pra me ligar tão tarde?” ele me disse uma frase dura, que caiu como um tijolo em minha cabeça: “amor, não quero mais namorar você”. Falou isso, pediu desculpas e desligou. Fiquei sem chão. Demorei uns cinco minutos para assimilar o que escutara. Tínhamos uma relação ótima. Não fazia sentido. Chorei horrores. Devorei caixas de chocolate. E praticamente fiquei dias vigiando o telefone à espera de uma ligação que não veio. Soube da forma mais desagradável possível, o motivo do rompimento. Vi os dois juntos, Leo e Clara, de mãos dadas, trocando carinhos. Minha reação foi de espanto e vontade de chorar e gritar e jogar neles o que tivesse na frente. Mas ele parecia tão feliz com ela. Não me viram, tão entretidos estavam os dois. Conheci Clara através de Leo e nos tornamos amigas e até confidentes. Foi tão fácil me tornar amiga de Clara. Linda, meiga, generosa, dona de um sorriso cativante e uma voz muito doce. Finalmente eu me sentia compreendida por alguém. Ela concordava comigo em quase tudo, é verdade. Eu gostava disso. Ah, como doía perder duas pessoas importantes ao mesmo tempo. E agora...agora eu precisava aceitar: Clara era a nova namorada do meu namorado. Aquilo me deixou arrasada. E só descobri, porque praticamente fui arrastada até um barzinho num sábado qualquer, por Samuel, um amigo nosso em comum. Insistiu tanto para eu sair de casa e me divertir um pouco. Certamente ele queria me contar e não sabia como, então me levou onde Leo e Clara estavam, para que eu mesma visse. Meu mundo ruiu. Mas de um modo muito doido eu fiquei contente em ver que ele estava contente. Foi um tipo de libertação. Ele estava bem. A dor de cotovelo passou. Agradeci Samuel. Levantei e fui cuidar da vida... Da minha vida dali em diante sem Leo o tempo todo dentro da minha cabeça e do meu coração. O namoro deles não durou muito. E quando Leo me procurou querendo voltar, eu já havia me desapegado inteiramente. Foi muito estranho escutar as palavras que escutei. Intimamente me senti poderosa em saber que ele queria voltar, porque me amava e precisava de mim. Ser amada e necessária causa uma satisfação imensa. Mas...era tarde. Ouvi com atenção, mais por educação do que por interesse em ouvir. Dei a ele o direito de falar. O direito que ele me negou, quando terminou comigo desligando o telefone e me deixando no vácuo. — Amor, minha vida está uma bagunça. Você sempre foi tão organizada. Eu cometi um erro. Volta pra mim? Sadicamente, maltratei-o um pouquinho. — Não entendi, Leo. O que o fato de eu ser organizada tem a ver?


— Ah, você sabe como eu sou desligado. Só agora percebo que é de um pouco de ordem que eu preciso. Minha vida está um caos, amor. — Pois contrate uma faxineira ou aprenda a ser disciplinado. E pare de me chamar de amor! Deixei de ser. Não sou mais o seu amor. Desviei os olhos do estojo aveludado, pois lembrar o cordão, que agora jazia inerte no fundo de uma gaveta, me remetia a uma história de amor que acreditei ser especial. Uma pena, pois tínhamos uma química muito boa juntos. Persisti, mantendo os pensamentos oscilando entre o que eu via na loja e o que eu trazia na memória. Voltei a prestar atenção no ambiente. Espaço amplo. Móveis brancos. Balcões largos, envidraçados. Um tapete enorme no meio, predominando os tons brancos e dourados. Poltronas de couro branco, de um lado e de outro. Objetos de decoração de muito bom gosto. Sem dúvida um ambiente refinado, bem de acordo com o nível de clientela atendido. Olhei mais uma vez a hora no meu relógio de pulso e decidi ir embora. Pediria para me telefonarem quando o sujeito chegasse, pois tudo tem limite e por mais que eu quisesse o emprego, não fazia sentido perder tanto tempo aguardando. Nisso, um homem de camisa xadrez entrou apressado na Joalheria. A expressão tensa no rosto dele chamou a minha atenção. Alguma coisa séria tinha acontecido. Aparentando nervosismo, seguiu Tanya até um canto e ficaram conversando baixinho. Tanya é a vendedora mais antiga da joalheria. Considerada braço direito do gerente, fica como responsável pela loja quando o mesmo precisa se ausentar. Soube disso, quando cheguei hoje cedo e ela mesma me contou um pouco sobre seus anos de experiência, me apresentando a cada um deles. Falou, inclusive, que estava apta a me passar todas as instruções do meu novo cargo, mas recebera ordens superiores para que eu assumisse a gerência, seguindo rigidamente os padrões adotados pela Luc Prado. Ou seja, eu precisava esperar, por pura formalidade. O homem da camisa xadrez foi embora. Tanya veio até mim. — Virgília? — Sim? — Importa-se de retornar amanhã, no mesmo horário? — Não. Claro que não. Posso saber o que houve?


— Bem, um fato muito triste. Conversaremos amanhã. Espero que entenda. Não insisti. Levantei. Agradeci. Acenei para o pessoal. E antes de atravessar a porta, parei. Aquilo não estava certo. Primeiro mamãe, agora Tanya. Qual o problema com as pessoas? Por que não dizem o que têm para dizer, afinal? Voltei. Gentilmente, peguei Tanya pelo braço e fui com ela no mesmo canto em que ela conversara com o homem da camisa xadrez. Era um cantinho isolado, perfeito, discreto, distante o suficiente para não sermos ouvidas. — Tanya, não quero parecer rude, mas se vou trabalhar aqui acho que mereço um pouco de consideração, concorda? Se aconteceu algum fato que me diga respeito, direta ou indiretamente, eu quero saber. E se não for, então, por favor, me desculpe. Ok? — Está certo. Você tem razão. É que eu estou abalada com a notícia e preciso tomar umas providências urgentes. — Abalada com o quê? Por favor, fale! — Calma! Deixa eu procurar as palavras. — Alguém morreu? Foi isso? — Não. Ninguém morreu. Mas, quase. — Que bom. Ninguém morreu. Então, continue... — Antunes, a pessoa que você esperava para lhe passar as instruções de seu novo cargo, foi assaltado. Sofreu um sequestro relâmpago, na verdade. E todo este tempo, ele esteve em poder de bandidos. Está em casa agora, traumatizado, em choque. — Nossa! Que horror! Como foi isso? — Antunes foi gerente aqui por muito tempo e depois de ficar sob a mira de revólveres, num assalto que a Joalheria sofreu no mês passado, ele pediu demissão. — Então, era o ex-gerente que iria me passar as funções? — Sim. — Coitado. Ele é rico? Por isso foi sequestrado? — Virgília, acho que você não entendeu. Eles queriam as chaves daqui. Só que os bandidos não sabiam que Antunes não é mais o gerente e não possui mais as chaves da loja e nem as do cofre das joias. Essas chaves estão aqui conosco e seriam passadas hoje pra você, mas serão entregues amanhã.


— Tanya! O que está me dizendo? Isso é terrível! Nunca pensei que ser gerente de uma joalheria fosse uma função de alto risco. E o sistema de segurança? E por que não mudam o esquema das chaves? Não sei, deve ter uma alternativa mais segura. — Infelizmente não tem. Quem irá abrir a loja? Quem irá abrir o cofre? Quem tomará conta das joias? Quem ficará encarregado de trazê-las para serem vendidas? Chaves...alguém sempre estará em poder delas. E os bandidos sabem disso. — Coloquem um cartaz ali na vitrine, então: CHAVES COM DETECTOR E ALARME. Sei lá. Ah, depois disso, acho que vou pensar bem se aceito a função, ou não. Até amanhã darei uma resposta. — Certo. Caso recuse, por favor, telefone avisando. — Pode deixar. Obrigada, Tanya. Saí do shopping. Depois de uma hora e meia sentada, minhas costas doíam, minhas pernas formigavam e minha mente fervia. É óbvio que eu queria o emprego. Mas arriscar a vida por escolha própria, desconfiando de cada pessoa que fosse entrar na joalheria, tremer de medo quando abrissem uma pasta ou enfiassem as mãos nos bolsos, achando tratar-se de um assalto, seria realmente estressante. Enfim, aquele episódio tirou todo o glamour da função. Por tudo isso, mesmo precisando muito, terei de analisar os perigos e tomar uma decisão. Quando eu chegar no apartamento, vou esticar as pernas, comer alguma coisa e depois de um descanso merecido, fazer uma boa faxina. Lavar pisos e azulejos sempre me ajuda a raciocinar. E ver o apartamento impecável me acalma. Basta pensar em faxina, para um gatilho acionar minha memória. É instantâneo. Recordo na mesma hora de minha prima Celina. E seu fim, não foi nada impecável. Ao contrário. [....] O Medo de Virgília - Rosa Mattos Fanpage: www.facebook.com/OMedodeVirgilia Editora Selo Jovem: www.selojovem.com.br

O medo de Virgília  

Primeiro capítulo.

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