THE PRESIDENT

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olfato

texto e pinturas de ENIO SQUEFF

PROFUMO DI DONNA Da difícil arte de pintar o cheiro da tinta, nas palavras e imagens de um especialista

C

onta-se que certa vez um jovem perguntou ao compositor Wolfgang Amadeus Mozart se era difícil compor. Mozart não tergiversou: “Sim, era muito difícil”. Ao que o jovem rebateu: “Mas maestro, o senhor já compunha aos 6 anos”. Resposta: “De fato, comecei a compor desde criança – mas nunca perguntei se era difícil”. Guardadas todas as proporções do mundo, dei-me conta da sabedoria da resposta quando num belo dia decidi montar um ateliê para me dedicar integralmente à pintura. Ou, digamos, ao seu sucedâneo, os cheiros das tintas. Na época, como fazia normalmente no Estadão e, mais tarde, na Folha, entre uma matéria ou outra, eu vivia a desenhar às escondidas. E, quando podia, nas férias, ou nos feriados, pouca coisa me satisfazia mais do que sair pelo campo com uma tela, uma folha de papel, qualquer coisa, única e exclusivamente para desenhar. Ou pintar. Nada de aprendizado no sentido convencional. Se desde moleque, em Nova Prata, no interiorzão do Rio Grande do Sul, eu me comprazia em pegar os envelopes que meu pai, médico, recebia dos

laboratórios, só para desenhar, por que não me conceder esse prazer vida afora? O “vida afora” aí, me valeu por toda uma existência bastante eclética. No dia em que descobri Beethoven, Bach, VillaLobos e sei lá quantos mais, o que me arrebatou foi a música. Seria uma amante para a vida inteira (como foi e é). Profumo di donna, digamos. Mas música eu teria de aprender. E, ao me decidir pelo clarinete,

eu já intentava um complemento. Não só o ingresso num conservatório, mas em algo que me sustentasse em meus estudos; e que me valesse enquanto a música não chegasse por inteiro. Foi quando me matriculei simultaneamente no curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – já então minha família se mudara para Porto Alegre – e num curso livre de clarinete, na Escola de Artes da mesma universidade. Eram duas ou três vidas (pois acabei me metendo na política estudantil). Pela manhã, estudava jornalismo; à tarde com o compositor Bruno Kiefer, como seu assistente, e, no entremeio, aulas com o professor Osmar Pedrosa – primeiro clarinetista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). Então veio 64. Aí tudo se complicou. Começou pelo desconvite para lecionar na universidade como professor assistente na cadeira de Cultura Brasileira. Eu era subversivo demais para integrar seu corpo docente. E, logo depois, seguiram-se as recusas de emprego nos jornais de Porto Alegre. Gente de esquerda com certa nomeada não era lá muito bem-vinda nas redações da cidade. Foi quando