Page 1

Edição 25 • junho 2016 • boni

Edição 25 junho/julho/agosto 2016

Boni

Presidente da Rede Vanguarda

O antenado thepresident

Edição de Aniversário

6 anos


editorial

E

m junho de 2010, a primeira edição de THE PRESIDENT era lançada. Aqui estamos, seis anos depois, celebrando mais um aniversário, sempre confiando em um caminho considerado quixotesco por alguns: reunir os melhores textos da imprensa brasileira – e os melhores fotógrafos, claro – num veículo impresso de alto gabarito. Acreditar na qualidade e apostar na inteligência, por sinal, foi o que fez o protagonista escolhido para a capa desta edição comemorativa: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Boni jamais recuou um milímetro sequer no intento de elevar o nível da televisão no Brasil. E continua esgrimindo pelo mesmo ideal. Na descontraída e franca conversa que manteve com o jornalista Tom Cardoso, Boni critica o falso clima de descontração do Jornal Nacional (“Tem de transmitir credibilidade e não leveza”) e conta que agora, aos 80 anos, adoraria dirigir um canal só de jornalismo de primeira. Fala de uma maneira tão otimista sobre o futuro da tevê que faz lembrar outro sonhador-realizador: o mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, para quem o Brasil tinha um rumo próprio – e grandioso – a seguir. Em um texto primoroso, o conterrâneo Nirlando Beirão recorda JK, quatro décadas depois da partida do “Presidente Bossa Nova” no trágico acidente de automóvel na via Dutra. Noblesse oblige, e a edição traz também a beleza provocante de Bárbara Evans, fotografada em um elegante ensaio em preto e branco pelo craque J.R.Duran. Isso sem falar no exemplo de imprensa ousada, criativa e de alto padrão, que, por sinal, nos inspira: o diário francês Libération, cuja história leva a assinatura de outro mineiro respeitado, o escritor e jornalista Alberto Villas. Um brinde à qualidade, pois. Boa leitura.

andré cheron e fernando paiva Publishers

4

| THEPRESIDENT | 0 6 .2016


PAJEROFULL.COM.BR


Pedestre, use sua faixa.

PAJERO

FULL FULL

OF

LIFE.


expediente

the president Publicação trimestral da Custom Editora edição 25

publishers André Cheron e Fernando Paiva

REDAÇÃO Diretor editorial Fernando Paiva fernandopaiva@customeditora.com.br diretor editorial adjunto Mario Ciccone mario@customeditora.com.br redator-chefe Walterson Sardenberg So berg@customeditora.com.br Repórter Juliana Amato julianaamato@customeditora.com.br ARTE editorES CONVIDADOS Ken Tanaka e Mariana Manini editor Guilherme Freitas guilhermefreitas@customeditora.com.br assistente Raphael Alves raphaelalves@customeditora.com.br prepress Daniel Vasques danielvasques@customeditora.com.br PROJETO GRÁFICO Alessandro Meiguins e Ken Tanaka COLABORARAM NESTE NÚMERO Texto Alberto Villas, Ana Paula Laux, André Borges Lopes, Barbara Gancia, Décio Costa, Enio Squeff, Luciana Lancellotti, Luiz Guerrero, Marion Frank, Mauro Marcelo Alves, Nirlando Beirão, Rogério Christofoletti, Ronaldo Bressane, Sergio Crusco, Silvana Assumpção e Tom Cardoso Fotografia Jorge Bispo, J.R.Duran e Marcelo Spatafora Tratamento de imagens Felipe Batistela e Regis Panato

PUBLICIDADE Diretor executivo André Cheron andrecheron@customeditora.com.br diretor comercial Oswaldo Otero Lara Filho (Buga) oswaldolara@customeditora.com.br Gerente de Publicidade e Novos Negócios Alessandra Calissi alessandra@customeditora.com.br executivOs de negócios Northon Blair northonblair@customeditora.com.br Bruna do Vale brunadovale@customeditora.com.br ANALISTA DE MAILING Marcia Gomes marciagomes@customeditora.com.br ADMINISTRATIVO/FINANCEIRO Analista financeira Carina Rodarte carina@customeditora.com.br Assistente Alessandro Ceron alessandroceron@customeditora.com.br REPRESENTANTES REGIONAIS BBI Publicidade - Interior do Estado de São Paulo Tel. (11) 95302-5833 Tel. (16) 98110-1320 / (16) 3329-9474 comercial@bbipublicidade.com.br GRP – Grupo de Representação Publicitária PR – Tel. (41) 3023-8238 SC/RS – Tel. (41) 3026-7451 adalberto@grpmidia.com.br CIN - Centro de Ideias e Negócios DF/RJ – Tel. (61) 3034-3704 / (61) 3034-3038 paulo.cin@centrodeideiasenegocios.com.br

ilustração Guilherme Freitas e Raphael Alves Revisão Goretti Tenorio Capa Boni, fotografado por Jorge Bispo, no Rio de Janeiro

THE PRESIDENT facebook.com/revistathepresident @revistathepresident www.customeditora.com.br

8

| THEPRESIDENT | 0 6 .2016

Tiragem desta edição: 8.500 exemplares CTP, impressão e acabamento Log&Print Gráfica e Logística S.A. Custom Editora Ltda. Av. Nove de Julho, 5.593, 9º andar – Jardim Paulista São Paulo (SP) – CEP 01407-200 Tel. (11) 3708-9702 ATENDIMENTO AO LEITOR atendimentoaoleitor@customeditora.com.br Tel. (11) 3708-9702


TWO WAYS TO CONQUER THE WORLD. De 12 a 16 passageiros 5.950nm / 11.020 km de alcance*

CAÇAS LENDÁRIOS, JATOS EXECUTIVOS EXTRAORDINÁRIOS

Nascidos na mesma família, criados pelas mesmas equipes, os Falcons herdam muitas de suas características únicas dos nossos lendários caças Mirage, Rafale e nEUROn. Robustos e precisos, cada Falcon carrega benefícios diretos das inovações tecnológicas e design desenvolvidos em nossos programas militares. Tudo para oferecer o que há de melhor em conforto e segurança, além do menor consumo de combustível da categoria e capacidade sem igual de pousar em aeroportos pequenos e com pistas curtas. Você pode não precisar de um caça em seus negócios, mas vai ter a sua disposição toda a tecnologia de um quando estiver a bordo do seu Falcon. Para voar entre cidades ou entre continentes, embarque na elegante cabine de um Falcon e você vai chegar rapidamente ao seu destino. Família Falcon: mais de 50 anos de experiência, mais de 2.000 Falcons em operação pelo mundo.

Now you have two choices for superior, ultra-long-range capability. The 5,950 nm Falcon 7X—the fastest selling Falcon ever (and with good reason). Or the new, 6,450 nm Falcon 8X, destined to become a favorite of world travelers. Both have the awe-inspiring ability to fly long distances from short and challenging runways such as Aspen and London City. The 8X is more than three feet longer, with over 30 cabin layouts. Fly far. Fly in comfort. Achieve more.

De 12 a 16 passageiros 5.200nm / 9.630km de alcance*

De 12 a 16 passageiros 4.750nm / 8.800km de alcance*

De 12 a 16 passageiros 6.450nm / 11.945km de alcance*

WWW.DASSAULTFALCON.COM I RODRIGO PESOA: +5511 3443 7043 I RODRIGO.PESOA@FALCONJET.COM WWW.DASSAULTFALCON.COM I FRANCE: +33 1 47 11 88 68 I USA: +1 201 541 4600

*Alcance máximo baseado em M.80, 8 passageiros, para os Falcon 8X, Falcon 7X e Falcon 5X. LRC, 6 passageiros para o Falcon 900LX. M.80, 6 passageiros para os Falcon 2000LXS e Falcon 2000S.

De 8 a 10 passageiros 4.000nm / 7.410km de alcance*

De 8 a 10 passageiros 3.350nm / 6.205km de alcance*


Porsche recomenda

Se a história é um bom indicativo, você está olhando para o futuro dos carros esportivos. O novo 911.

Todos juntos fazem um trânsito melhor.


www.porsche.com.br


jorge bispo

sumário

20 20 VISÃO

58 CAPA Se há um criador da moderna televisão brasileira, o seu nome é Boni

26 AUDIÇÃO

71 BLACK BOOK

32 OLFATO Os vizinhos podem reclamar. Mas o cheiro de tinta já inspirou alguns dos principais pintores

38 PALADAR Na literatura, há detetives que gostam tanto de desvendar um crime quanto apreciar uma iguaria

44 TATO A acupuntura venceu muitas resistências antes de acertar o ponto no Ocidente

48 adega Não há vinho como o Petrus, um rei sem castelo – e que merece todas as reverências

52 cult Pense em um par de óculos escuros. É bem provável que ele seja um legítimo Ray-Ban

12

52

Cacá Diegues adora. Neville D’Almeida ama. Bruna Linzmeyer é a queridinha dos cineastas

Que baita saudade do150, em São Paulo. Nunca mais houve um nightclub como ele

| THEPRESIDENT | 0 6.2016

junho 2016

Do melhor da Suíça a uma conversa com o criador da Butterfield & Robinson

86 imprensa Libération, o único jornal diário em que um dia jamais será igual ao outro

92 memória Há 40 anos morria JK, o presidente que moldou um país com o otimismo

100 vento Orton Hoover fez de tudo em aviação no Brasil. Por que, afinal, nos esquecemos dele?

106 motor Com estilo e tecnologia, o Pajero Full sempre marcou época entre veículos 4x4

112 velocidade A BMW conseguiu instalar ainda mais maravilhas eletrônicas no novo Série 7

86 36 118 garagem Uma relação de seis supermáquinas com o melhor de japoneses, alemães e ingleses

126 mulher Bárbara Evans era a ninfeta da TV. Veja como mudou – para ainda melhor

142 paixão O homem que fez do marchador um cavalo de sucesso aqui e lá fora

150 artigo Barbara Gancia dá “bye bye, Brasil”, preocupada com o que vai dizer lá em Londres

154 THE PRESIDENT O país que sonhamos tinha assinatura: a de Juscelino Kubitscheck


TAG HEUER CARRERA CALIBRE HEUER 01

Chris Hemsworth works hard and chooses his roles carefully. He handles pressure by taming it, and turning it to his advantage. #DontCrackUnderPressure was coined with him in mind.

São Paulo: Boutique TAG Heuer - Frattina - Julio Okubo - Montecristo The Graces Sorocaba: Arrais Joalheria Campinas: Lafith Rio de Janeiro: Celini – Lafry Joias Porto Alegre: Dvoskin Kulkes Fortaleza: Tânia Joias Curitiba: Bergerson Brasília: Grifith Belo Horizonte: Manoel Bernardes


lailson santos

javan ferreira alves

colaboradores

CAPA

OLFATO

TOM CARDoso

jorge bispo

enio squeff

Cronista, repórter e escritor, é autor das

Ele bem poderia estar contracenando

Este gaúcho tem vários talentos.

biografias de Tarso de Castro e do craque

com Bruna Linzmeyer sob as ordens

Formou-se em música e é clarinetista.

Sócrates, entre outras. No Rio, sua cidade

gerais do Boni – aliás, clicou os dois

No ofício de jornalista, teve cargos como

natal, entrevistou Boni e surpreendeu-se

para esta edição. Seguindo uma tradição

editorialista da Folha de S.Paulo. Trocou

com “o papo reto, sem rodeios”. Dada

familiar, Bispo começou como ator. Até se

tudo pelos pincéis. Já expôs em Cuba, na

a fama de seu sabatinado, esperava

presentear com uma câmera e descobrir,

Alemanha e na Polônia. Nesta edição alia

bebericar um Romanée-Conti. Não veio.

de maneira fortuita, a vocação que fez

dois de seus talentos ao escrever sobre as

“Aceitei o cafezinho”, conformou-se.

dele um dos melhores fotógrafos do país.

emoções provocadas pelo cheiro de tinta.

PALADAR

TATO

CULT

ana paula laux e

silvana assumpção

sergio crusco

rogério christofeletti

As histórias desta carioca radicada em

Escrever sobre os prazeres da vida é uma

Eles são jornalistas, autores do livro

São Paulo há décadas tem personagens

das múltiplas atividades deste paulistano

Os Maiores Detetives do Mundo e titulares

do quilate de Janis Joplin e Chet Baker, a

que comanda o blog dringue.com, no qual

do site literaturapolicial.com. Casados,

quem conheceu por acaso. Versátil, atuou

mistura bebidas, cultura e gelo. Neste

moram em Florianópolis com o filho

nas redações de Exame, Forbes Brasil e

número, Sergio assina o texto sobre a

Vinicius e dois gatos – Ágatha e Sherlock.

CartaCapital, escrevendo, com a mesma

história do Ray-Ban. A propósito: os seus

Estreiam na revista com um texto sobre

desenvoltura, sobre economia e cultura.

foram comprados numa tarde ensolarada

os detetives gourmets da literatura.

Seu assunto nesta edição é acupuntura.

em San Francisco.

bob quevedo

CAPA

16

| THEPRESIDENT | 06.2016


kiko ferrite

colaboradores

MEMÓRIA

VENTO

alberto villas

nirlando beirão

andré borges lopes

Dos seus sete anos de Paris, o jornalista

Mineiro de Belo Horizonte, jornalista

Deveria ter sido médico, mas fugiu

mineiro trouxe a paixão pelo Libération,

desde 1967, escritor e comentarista

da faculdade para estudar história e

sobre o qual escreve nesta edição. Hoje

do Jornal da Record News. Como

jornalismo. Tornou-se consultor em

morando em São Paulo, ele lê o diário

correspondente, morou em Nova York e

tecnologia editorial e gráfica. A miopia

francês todos os dias, pela internet.

Paris. Dono de um texto de insuperável

impediu que tirasse brevê. Mesmo assim,

Religiosamente. “A paixão pelo jornal será

elegância, é tão cosmopolita quanto o

continuou um entusiasta da aviação.

eterna enquanto eles durarem – o jornal

conterrâneo Juscelino Kubitschek, a quem

Prova disso é o seu texto desta edição,

e o jornalista”, prevê.

perfila, impecável, neste número.

sobre o esquecido piloto Orton Hoover.

18

Tricia Vieira

marcelo spatafora

IMPRENSA

MULHER

PAIXÃO

ARTIGO

J.R.Duran

marion frank

barbara gancia

Recordista absoluto, clicou 120 capas da

Quando se formou em jornalismo, jurou

“Mito vivo do jornalismo tapuia e

Playboy. Um dos homens mais invejados

a si mesma que aproveitaria a profissão

torcedora do Santos Futebol Clube”,

da história da humanidade, este catalão

para andar a cavalo mundo afora. E assim

nas suas próprias palavras, La Gancia tem

radicado em São Paulo há quatro décadas

ocorreu. Mas para fazer a reportagem

um estilo inconfundível, que marcou em

continua contracenando com mulheres

sobre os manga-larga marchador desta

três décadas de Folha de S.Paulo. Antes de

especialíssimas. Como Bárbara Evans, cujo

edição nem foi preciso ir longe. Marion

tirar férias do programa de televisão

nome é adjetivo altamente justificável –

passou um dia adorável em Jaguariúna,

Saia Justa, do GNT, destilou seu humor

e a quem fotografou em ensaio aliciante.

a 123 quilômetros de São Paulo.

para os leitores de THE PRESIDENT.

| THEPRESIDENT | 06.2016


visão

Por ronaldo bressane retratos jorge bispo

Lips like sugar Bruna Linzmeyer roda quatro filmes ao mesmo tempo. Em um deles, vive uma contorcionista – sem usar dublê

Q

uando a vi pela primeira vez, perguntei: de que planeta ela veio? Ela era russa e tinha os cabelos vermelhos e os olhos verdes; se dirigia ao escritor em sua noite de autógrafos como um Sputnik orbitado por um jardim de delícias, todas prometidas por uma boca que não cabe em nenhuma descrição. Seria o sonho de todo escritor que acaba de lançar um livro: a musa redentora que chega do nada. Assim veio ao mundo Bruna Mayara Linzmeyer, na série Afinal, O Que Querem as Mulheres?, dirigida por Luiz Fernando Carvalho — que definiu aquela garota de 17 anos como “um vulcão”.

reprodução

No filme O Grande Circo Místico

20

| THEPRESIDENT | 06.2016

Foi como se expelida por um Etna que ela entrou no novo estúdio do amigo Jorge Bispo, saltitando em seus tênis para preencher de Brunas acrobáticas o grande espaço no Alto Leblon. Estrela do dia, impôs à conversa a trilha sonora que despejou do iPhone no som da casa, começando com uma cover de Tom Waits na voz de Scarlet Johansson. Eu ia mesmo compará-la à sua colega gringa: com uma voz tão suave, já pensou em ser cantora? “Mas eu canto! Vou fazer esse filme com o Johnny Massaro... já é o quinto trabalho que faço com ele. É um road movie até o Paraguai com uma dupla que vai pra um festival de música cover”, conta, bebendo água para dissipar o vapor de suas bochechas rosadas. “Eu toco baixo e violão. Tocamos Mutantes, Metrô... o filme é baseado na viagem”, prossegue. “O roteiro é do Matheus Souza e a direção é do Daniel Lieff. O seu primeiro longa”, diz, abanando-se. Aos 23 anos, a alienígena Bruna quase não tem tempo para aceitar tantos convites de filmes. No dia da entrevista, tinha acabado de rodar com Selton Mello uma adaptação de um livro do romancista chileno Antonio Skármeta, O Filme da Minha Vida, também ao lado de Massaro. Ensaiava com

Daniela Thomas a produção O Banquete, uma história acontecida em 1992 – mesmo ano em que ela nasceu –, centrada nas conspirações por trás da queda de Fernando Collor. Pouco antes estava em Portugal finalizando a participação no Grande Circo Místico, de Cacá Diegues, em que atua como uma contorcionista – “fiquei 19 horas seguidas me retorcendo”, brincou, toda orgulhosa. Elétrica e eletrizante

Não usou dublê, somente a agilidade natural de 1,60 metro e 55 quilos aliados a muita ioga. E no mesmo momento estava em cartaz em A Frente Fria Que a Chuva Traz, de Neville D’Almeida, filme baseado na peça de Mário Bortolotto. Para interpretar a prostituta Amsterdam, dependente química, livrou dez quilos em seis semanas – à base de muito suor: afinal, um de seus livros de cabeceira é Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida, de Haruki Murakami. Os outros são Jóquei, da poeta portuguesa Matilde Campilho; Só Garotos, de Patti Smith; e Como É?, de Samuel Beckett. Uma cabeceira trepidante. “Tento me conectar ao fluxo”, diz, justificando tantos papéis em uma carreira tão curta – e nem falamos das várias novelas. “Pra onde a vida me leva? Isso não é falta


visão Aliás, já é”, diz Neville D’Almeida. “Brunanão é só uma atriz. É uma grande estrela, única e incomparável”, bisou Cacá Diegues. Parece que esses dois medalhões do nosso cinema sabem do que estão falando. Do meio do mato

“Quando foi a última vez que chorei?”, tentava lembrar, pingando colírio nos olhos azuis-turquesa, ao som de “This Is the History of the Hurricane”, de Dylan. “Lembro que eu estava em um hotel perto da Paulista durante as manifestações pró-impeachment. Aquilo me deu muita angústia, e chorei pelo que poderia acontecer com meu país, o que aconteceria com as conquistas que tivemos nos últimos 15 anos”, contou

Neville D’Almeida: “Ela já é uma das nossas atrizes mais importantes”. Cacá Diegues: “Bruna não é só atriz. É uma grande estrela, única e incomparável” não era aqui com a gente?’”, conta, sorrindo com os olhos muito líquidos. Uma das explicações para tanta atividade da elétrica e eletrizante Bruna surge quando se assiste ao ensaio fotográfico. A dado momento, parecia que, em vez de ser dirigida, ela é quem dirigia, tornando Bispo, que já fizera um livro inteiro só com ela, um mero peão da rainha: a cada clique, uma pose nova – e parecia ter dezenas de poses no bolso do colete. “E se a gente fizesse em cima de uma mesa? E na parede? E sentada no chão? E se eu tirar o sutiã?” E sacou o sutiã – sem tirar a blusinha – ao som de “Bitch, Don’t Kill My Vibe”. Uma cena tão bela e natural quanto as cachoeiras do planeta de onde veio este ET. “Vejo um grande futuro para ela. Será uma de nossas atrizes mais importantes.

22

| THEPRESIDENT | 06.2016

ela, que votou apenas duas vezes, em Marina Silva e Dilma Rousseff. “O Brasil é um país rico; o que nos falta é consciência e reforma política. Não acho o governo do Temer legítimo. A gente sofreu um golpe: não vão permitir que Dilma volte. Mas, neste momento rachado, novas eleições seriam o mais interessante”, sugere. Ela adora falar sobre política e suas palavras soam ao mesmo tempo sinceras e teatrais, maiores que a vida. “Nossa geração é muito amorosa e a internet veio a nosso favor”, reflete. “O que os secundaristas estão fazendo nas ocupações de escolas é de uma riqueza e de uma originalidade enormes: esse sangue nos olhos é capaz de muita coisa. Tenho alegria de ver as pessoas falando sobre política como nunca. Claro, tem o ódio. Não sei se mostrar seus preconceitos

fotos reprodução

de controle, é o ‘assim foi, assim eu quis’, do Nietzsche“, diz. “Não escolho meus papéis: sou escolhida. Mas antes eu coloco meu desejo no mundo: só quero fazer o que eu não sei fazer”, afirma. “Sou louca por esse desespero inicial no trabalho de não saber o que fazer.” Ela se joga: para sua elogiada atuação como Linda, a autista da novela Amor à Vida, fez uma pesquisa de um ano e ficou dois meses estudando em Florianópolis em uma instituição para pessoas com deficiência mental. “Eu ia lá todos os dias: levava as pessoas ao banheiro, preparava comida, conversava com elas”, relembra. “Tem uma menina autista com quem me identifiquei muito que sempre pergunta de mim: ‘Como ela é autista na novela mas

tem algum valor. Mas talvez seja necessário para chegar a uma nova educação”, pede. Ela acha que falta educação. “A gente não condenou ninguém por se envolver com a ditadura, a população não sabe quão cruel é nossa história. Se a gente sugerisse aos políticos usarem escola, saúde e transporte público, teríamos outro país”, defende. “Mas pra isso precisamos de uma educação diária nas coisas simples: tratar direito o porteiro, a empregada. Já fui quase atropelada por gente que fura o sinal vermelho. Aqui as pessoas te agridem para se proteger”, diz. “Educação” é subtexto de várias respostas, durante a entrevista. Afinal, essa escorpiana (que acredita em astrologia) nascida em Corupá, em Santa Catarina, ainda estava cabreira com histórias que naquela semana a atropelaram.


Na missĂŠrie Gabriela: ousada


visão

24

| THEPRESIDENT | 06.2016


fotos: reprodução

Em livro e nas novelas Meu Pedacinho de Chão (acima) e A Regra do Jogo, com Cauã Raymond

Depois de três anos namorando Michel Melamed (seu par em O Que Querem as Mulheres?), e embora o tenha como um mentor permanente – “o grande amor da minha vida” –, está solteira. Ao declarar à Folha de S.Paulo “agora namoro uma mulher, mas também posso namorar um homem”, deixou imprensa, fãs e fofoqueiros ouriçadíssimos com sua nova companhia. “Educação é a coisa mais importante de todas”, retoma, quando confrontada sobre o excesso de manchetes que sugeriam o nome de sua namorada. “Para além do respeito a mim e da valorização à diferença, com quem eu transo e com quem eu deixo de transar não faz a menor importância. Ih, acabou a água!”, diz, levantando-se para ir buscar outra jarra. “Sou muitíssimo preservada”, falou, ao voltar. “Mal entro no Facebook, e posso ter 300 mil seguidores no Instagram, mas lá tudo o que posto é de alguma maneira ligado ao meu trabalho, seja poeticamente seja diretamente. Tenho uma tiragem maior do que um jornal:

Catarinense de Corupá, ela teve uma infância de sonho. “Mas ser adolescente em cidade pequena é muito peculiar”, diz. “Se beijasse um menino na esquina, meus pais logo saberiam” por que não usar a rede social para comunicar coisas mais importantes do que só minha vida pessoal?” Semanas depois, Bruna usava o Instagram – que tinha mostrado a recente viagem solitária à Grécia –para militar em favor do MinC, das ocupações dos secundaristas e das marchas feministas contra a cultura do estupro. Assédio desde sempre foi uma pedra em seus tênis. “Já ouvi atrocidades nas ruas. Não respondo: sigo em frente. Posso voltar pra xingar e essa pessoa vai me bater. São pessoas sem a menor consciência do que falam. Certamente a desigualdade social contribui pra essa cultura ficar impune”, analisa. “Olha meu amor, eu estou voltando”, cantava no som a banda Comadre Fulozinha, fazendo Bruna dançar em cima

da mesa, girando perigosamente sobre os saltos. De onde veio essa mulher descendente de índios, negros, portugueses e alemães? “Vim de um Brasil do meio do mato antes de Portugal chegar. É um planeta real, não é mental. É onde eu me reconheço, onde vejo meu tamanho”, diz. “Quando vou pra Corupá, deixo as malas, meu pai me leva pra uma cachoeira, eu mergulho em silêncio”, descreve. “Tive uma infância de sonho encantado, atrás de casa tinha um rio onde meu pai pescava. Mas ser adolescente numa cidade pequena é muito peculiar: eu não podia beijar um menino na esquina que meus pais sabiam uma hora depois. Eu vivia me perguntando: qual é o tamanho do mundo?” Certamente bem menor do que esses lábios que nos sorriem. P

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

25


audição Por walterson sardenberg sº

All that jazz Em 1981 o 150 Night Club abria suas portas. São Paulo jamais veria uma casa como aquela

B

illy Eckstine, o grande Mr. B, já passara dos 70 quando fez uma temporada no 150 Night Club, no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. Ainda estava sacudido e mantinha o elán dos anos 1940, quando fumava com piteira e se tornou o primeiro cantor negro a fazer sucesso entre as plateias brancas entoando um repertório romântico – antes mesmo de Nat “King” Cole. Hospedado no Maksoud, Eckstine convidava amigos recentes para um scotch na suíte, antes de descer para o show no 150. Foi assim com o produtor Luiz Carlos Miele, um raro brasileiro que veio ao mundo de smoking. Por sinal, este era o traje de Eckstine naquela noite. Miele acomodou-se, com o copo a estibordo. Eckstine permaneceu bebericando de pé. Miele perguntou: “Por que o senhor não se senta?”. Resposta em barítono profundo: “Não posso. Vai tirar o vinco das calças”. Miele comentou tempos depois: “Um cara com a carreira solidíssima,

26

| THEPRESIDENT | 06.2016

absoluta, ainda se preocupava em não tirar o vinco das calças, em não fazer essa afronta ao público”. Isso era elegância.

Elegância é uma boa palavra para definir o 150, casa noturna para apenas 200 pessoas, embora não fosse o figurino pessoal do proprietário do hotel, Henry Maksoud, um tipo miúdo, calvo, enérgico e com uma queda por gravatas berrantes. Na sua ausência, seus funcionários o tratavam por Mr. Magoo, em virtude da semelhança com o personagem de desenho animado que enxergava mal à beça. Ao contrário deste, era um homem de visão. Em 1979, quando completou 50 anos, Maksoud, filho de imigrantes libaneses, estava no auge. Seu conglomerado incluía a construtora Hidroservice – que ergueu o Aeroporto do Galeão (hoje, Tom Jobim) –, a indústria de computadores Sisco e a revista semanal Visão. Inquieto, comandava um programa de entrevistas na TV, no qual

brandia contra a “intromissão do Estado na economia” e tagarelava o triplo dos convidados. Ainda em 1979, inaugurou o seu Palácio de Versailles, na confluência dos bairros de Cerqueira César e Bela Vista: o mais glamouroso novo hotel do continente, um portento para 685 hóspedes, com 371 apartamentos, 38 suítes de luxo, sete suítes presidenciais, três bares, cinco restaurantes, um teatro e um nightclub. O tal nightclub, claro, era o 150, nome que ocorreu a Roberto Felix, o mais velho dos dois filhos de Maksoud, a partir de um fato prosaico. “O hotel dá frente para a rua São Carlos do Pinhal. Mas a entrada do 150 era pela alameda Campinas, número 150.” Elegante, sim, era – e ainda é – Roberto, a despeito da silhueta rechonchuda em 1,68 metro. Um homem discreto, embora, como goste de frisar, nascido em um período de insana turbulência: “Quatro dias após o suicídio de Getúlio”. Coube a Roberto, no viço dos 25 anos, administrar o Maksoud Plaza enquanto o pai bradava pelo liberalismo na TV.


Bobby Short: seis temporadas

Em 1981, o hotel ganhara fama internacional ao trazer Frank Sinatra para quatro apresentações. A temporada bem-sucedida do cantor reforçou a aposta na ideia inicial do 150, levada à prática naquele mesmo ano: um lugar pequeno e íntimo para se dançar de rosto colado, ao som de standards tocados ao vivo por um grupo inspirado nas big bands do swing. “Não havia nada assim na época, dominada pela música disco”, relembra Roberto. “Achávamos que existia uma lacuna para agradar gente mais romântica, mais adulta e com gosto mais refinado.” No alvo.

O jornalista e produtor musical Zuza Homem de Mello estranhou quando abriu a janela de seu apartamento no Edifício Pauliceia, na rua São Carlos do Pinhal, e viu, do outro lado da calçada, o vetusto convento das freiras circundado por tapumes. Uma reforma? Não. Logo ficou sabendo que a moradia das religiosas seria derrubada para dar lugar a um hotel de luxo com 22 andares. Sua melhor surpresa foi descobrir não só o 150 como também a principal cartada de Roberto Maksoud: além da apresentação diária da Banda 150, a casa programava, na metade de cada semana, uma temporada de algum astro brasileiro ou internacional. Sempre um biscoito fino, para degustar com whisky das Highlands, num período em que, no Brasil, harmonizar ainda tinha a ver com música, e não com brancos e tintos. “Eu morava sozinho ali ao lado”, recorda-se Zuza. “Em minutos estava lá. Cheguei a

frequentar o clube três vezes por semana. Jamais uma boate brasileira reuniu um elenco tão fabuloso de músicos.” Basta uma olhadela no cardápio no decorrer de 16 anos do 150 para compreender o entusiasmo de Zuza. O jazz era o prato principal, trazendo ao país, entre outros, os pianistas Earl Hines, George Shearing e Page Cavanaugh; os saxofonistas Benny Carter e Paquito D’Rivera; o

vibrafonista Lionel Hampton; as cantoras Anita O’Day, Alberta Hunter, Betty Carter e Carmen McRae; os cantores Bobby Short, Joe Williams e Steve Ross. Mas também havia espaço para outros paladares, dos condimentados blues de Buddy Guy, Junior Wells e John Hammond Jr. à cozinha caprichada do chileno Lucho Gatica, dos italianos Paolo Conte e Sergio Endrigo, do francês Michel Legrand e do

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

27


audição mexicano Armando Manzanero. Sem olvidar o produto nacional: João Donato, Leny Andrade, Nana Caymmi, Nara Leão, Tamba Trio, Tom Jobim e grande elenco. Boa parte dos escolhidos era preferência pessoal de Roberto. Ele cresceu com a rebeldia do rock, mas soube dar ouvidos aos roqueiros com mais swing – como Ginger Baker, Traffic e Steely Dan – antes de atirar-se nos braços do jazz. Teria hoje em casa uma discoteca com mais de 3 mil discos de vinil, não houvesse seu irmão Cláudio, à sua revelia, vendido a coleção para um primo espertalhão. Roberto quis adquiri-la de volta. “Desisti para não comprar uma briga de uma geração inteira na família”, resume.

150. Foi Roberto Corte Real, outro dedicado fã de jazz, quem apresentou a seu xará hoteleiro um tarimbado agente de Los Angeles, Harold Jovien, que passou a fazer o meio de campo com os músicos estrangeiros. Quando queria saber se um artista veterano ainda estava ou não em boa forma, Roberto Maksoud telefonava para Leonard Feather, um dos principais historiadores do jazz, que Jovien lhe apresentara. “Desisti da Nina Simone quando me garantiram que ela era encrenqueira”, conta. Já o cantor Mel Tormé fez muitas exigências. Queria que pagassem o combustível de seu jato particular. Não veio. Havia argumentos aliciantes para viabilizar a vinda dos artistas. A começar pelo

preferindo o de serviço, fechado. Isso foi o de menos. Ainda no dia da estreia, no ensaio vespertino, ofendeu os técnicos de som com expressões que corariam Vanderlei Luxemburgo ao instruir a zaga em dia de derrota. Por fim, já com o 150 lotado, negou-se a descer para o show. Chamado a intervir por um funcionário aflito, Roberto ligou para a suíte. “Tim não queria cantar de jeito nenhum”, relembra. No desespero, Roberto queixou-se: “Poxa vida, você está me dando muito mais trabalho que o Sinatra!”. Mágicas palavras. Tim surpreendeu-se: “É mesmo, mermão?”. Em seguida, fez soar uma tonitruante gargalhada e, vingado e feliz, avisou: “Estou descendo!”

Pouco antes do início de seu show, Tim Maia se recusou a cantar. Só topou entrar no palco depois que o dono do hotel lhe disse: “Poxa vida, você está me dando muito mais trabalho que o Sinatra!” Mal sabia que as desavenças entre os Maksoud subiriam de tom até se tornarem estrondosas.

“Você tem de trazer o Bobby Short.” A dica era do consultor financeiro Geraldo Forbes, frequentador assíduo. Roberto Maksoud foi ouvir a opinião do fotógrafo americano David Drew Zingg, radicado no Brasil havia duas décadas. “Traga amanhã mesmo. É o maior saloon singer do mundo!”, referendou o eufórico Zingg. Roberto estava sempre aberto a sugestões. Zuza conta: “Lembro-me de ter indicado a ele o trompetista Les Elgart e Lionel Hampton, que continuavam tocando o fino”. De fato, os dois artistas vieram ao

28

| THEPRESIDENT | 06.2016

aval do escritório de Sinatra. Outra: as passagens aéreas eram bancadas pela Pan Am, que tinha uma parceria com o hotel e, mais tarde, seria substituída pela Varig. Despesas com hospedagem e alimentação ficavam, evidentemente, por conta do Maksoud. Ao artista, restava botar o cheque no bolso, entrar em um dos elevadores panorâmicos e descer ao subsolo, onde ficava o 150. Com ou sem o vinco nas calças. Apesar dessas facilidades, Tim Maia aprontou – quem mais? Sua temporada deveria ser de duas semanas, mas encolheu para quatro shows. O autor de “Vale Tudo” chegou ao hotel furioso. O motor do carro em que viajava do Rio para São Paulo fundiu na via Dutra, e foi preciso pedir carona na estrada. Receoso, Tim não quis subir por elevador panorâmico,

Convencer Bobby Short a vir a São Paulo foi mais fácil, embora até então o cantor e pianista só trocasse o nova-iorquino Café Carlyle, onde se apresentava desde o último degelo, pelo descanso em seu château na Côte d’Azur. Bobby sentiu-se em casa no 150, onde cumpriu nada menos que seis temporadas. “A principal exigência dele era vir ao Brasil na primavera”, diz Roberto, que se tornou amigo do cantor. “Aos poucos, fui descobrindo um Bobby muito brincalhão. Rindo muito, ele me deu de presente um cinzeiro muito cafona com a foto dele mal impressa em preto e branco, souvenir que mandou fazer no Corcovado.” Cada vez mais à vontade no Brasil, Short passou a agregar a Banda 150 às suas apresentações. Encomendou até arranjos ao maestro do grupo, Hector


fotos: reprodução

Costita. Fez amigos. Frequentava churrascos. Lavava a alma por aqui – com sabonete Phebo, que adorou e adotou. O roteirista e escritor Renzo Mora, habitué do 150, rememora: “Num show que fez na boate, o Miele imitava o Bobby mostrando as mudanças do cantor à medida que ia relaxando no Brasil. Começava bem caretão e terminava, digamos, delicadíssimo”. Quando fez 50 anos, em 1983, Zuza viveu uma das melhores noites de sua vida, ao lado da namorada. Cinquenta casais amigos foram ao 150 comemorar o seu aniversário ao som de Bobby Short. Em meio ao show, o polido e boa-praça maître João Aragão Prado, o Prado – para quem Zuza costumava enviar postais quando viajava –, trouxe o bolo. Bobby emendou com “Happy Birthday”. Precisava mais?

Foi o amigo Bobby Short quem disse a Roberto Maksoud: “Você tem de trazer a Alberta Hunter”. Alberta quem? A pergunta não era despropositada. Alberta

começou a cantar nos anos 1920 acompanhada por ninguém menos que King Oliver e Louis Armstrong. Compôs “Downhearted Blues”, gravada por Bessie Smith. Em 1950, desgostosa, mandou tudo às favas e passou a trabalhar como enfermeira em Nova York. Estava esquecida quando retomou a carreira musical em 1977. “O Brasil fica na América Central? Para a América Central eu não vou”, ela disse ao telefone, ao receber o convite para cantar no 150. Do outro lado da linha, Roberto explicou: “O Brasil é na América do Sul. Olhe, a senhora poderia se informar a meu respeito com o Bobby Short”. Dois dias depois, estava confirmada a vinda de Alberta Hunter ao 150. Quem a viu chegando ao hotel aos 88 anos, numa cadeira de rodas empurrada por seu pianista, Gerald Cook, não podia acreditar que a fatigada senhora faria duas efervescentes temporadas no 150. “Quando começava o show, aquela velhinha se transformava em um mulherão. Como cantava!”, suspira o jornalista Márcio Gaspar. “A última apresentação de Alberta no exterior aconteceu no Brasil.” Márcio trabalhava na CBS

– hoje, Sony –, que representava no Brasil a Columbia, gravadora de Alberta Hunter. Assim conseguiu marcar uma conversa com a cantora no Maksoud. “Ela me recebeu no quarto, muito bem-humorada”, diz. “Divertidíssima, disse que Duke Ellington era gênio na vertical mas péssimo na horizontal.” Se Bobby Short levou sabonetes Phebo e Carmen McRae pôs na mala uma cachaça da boa, Alberta carregou orações. Nas duas vezes que esteve em São Paulo, reuniu funcionários do Maksoud no dia da viagem de volta à Nova York, pedindo que rezassem por sua volta ao Brasil. Morreu antes da terceira temporada, aos 89 anos.

O maestro Hector Costita não estranhou quando Roberto Maksoud lhe avisou que traria Toshiko Akiyoshi – 14 vezes indicada ao Grammy – para

Tim Maia e Alberta Hunter: atrações

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

29


Arquivo Roberto maksoud

Bobby Short no 150. Na plateia, 200 pessoas. Muitas fumando. Toda trajadas com sobriedade

conhecer a boate naquele mesmo dia. A pianista e arranjadora japonesa faria seu show de estreia na noite seguinte. Era sempre assim. Roberto amava exibir a Banda 150, formada por dez músicos. Tinha orgulho do grupo. Em especial, do naipe de metais comandado pelo próprio Costita ao sax tenor e clarineta, secundado por Maurício Souza (sax barítono) e Nailor Proveta (sax alto); Capitão e Gil (trompetes) e o americano Peter Cirelli (trombone). “Ganhávamos bem, tínhamos um ótimo ambiente de trabalho e a banda estava a cada dia mais afiada”, relembra o simpático argentino Costita, com o sotaque que mais de meio século de Brasil não limou. Toshiko ficou encantada com o que ouviu. Ela iria se apresentar acompanhada apenas pelo marido (o saxofonista Lew Tabackin), o baixista e o baterista. Mas, depois de ouvir Costita e seus asseclas, a pianista, cheia de dedos, perguntou a Roberto: “Será que posso me apresentar unindo o meu grupo com a banda da boate?”.

30

| THEPRESIDENT | 06.2016

No ensaio marcado para a tarde do dia seguinte, Toshiko trouxe duas olheiras e mais de uma dezena de novos arranjos. Passara a noite em claro escrevendo, uma a uma, as partituras para cada instrumento da Banda 150. “Foi uma temporada incrível!”, exulta Costita. Depois do último show, o maestro, com dor no coração, viu-se obrigado a devolver as partituras a Toshiko. “Ela, muito querida, me deu todas de presente.” Nos dois anos e oito meses em que comandou a Banda 150, Costita teve várias surpresas ótimas. Também acompanhou, entre outros, Benny Carter, Michel Legrand e Bobby Short (“Ele me chamava de Mon Petit, porque morei três anos em Paris”). Só deixou o 150 por causa de uma desavença com Henry Maksoud. O ardido dono do hotel teve um faniquito ao saber que Costita se apresentaria em uma série de espetáculos no Sesc. “Não comprometeria o meu horário no 150 e, além disso, eu não tinha nenhum contrato de exclusividade com

ninguém”, defende-se o maestro. Diante do impasse, Costita foi tocar em outra freguesia: o Hotel Renaissance, a 12 quadras dali.

O jornalista e escritor Roberto Muggiati, autor de cinco livros sobre jazz, saía do Rio de Janeiro, onde ainda mora, para assistir aos shows do 150 e entrevistar os protagonistas. Tem saudade do clima altamente civilizado. “Conversei à vontade com o Benny Carter às 3 da manhã, quando ele reencontrou um amigo que o conhecera na Holanda nos anos 1930”, diverte-se. A irascível Anita O’Day, que destratou repórteres e foi hostil com os músicos – embora tenha gravado um disco ao vivo no 150 –, não lhe pareceu tão intratável. “Ela até enviou-me sua biografia.” Com Joe Williams, Muggiati papeou antes de o cantor entrar no palco. “Ele foi muito gentil, mas tinha os olhos bem vermelhos, de quem acabara de dar uns tapinhas.”


Renzo Mora também enaltece a categoria do ambiente. Ainda na dureza da juventude, ele raras vezes tinha dindim para pedir o prato de resistência da casa, o filé à maturine, servido com molho roti. Ficava nos dois whiskies. Mesmo assim, era recebido com fidalguia pelo maître Prado. “Quando ele me via bem acompanhado e sabia que eu queria impressionar a moça, perguntava: ‘Vai querer o de sempre, seu Renzo?’ E ainda piscava para mim, cúmplice”. O publicitário Enio Basílio Rodrigues é outro frequentador contumaz com saudade do tratamento reservado aos fregueses. “Nenhum garçom te importunava, querendo empurrar comida ou bebida”, testemunha. Aboletado em um banquinho no bar, seu lugar preferido, Enio viu cenas memoráveis. Entre elas, a da cantora Nana Caymmi, de porre ao seu lado, avacalhando o show que fizera com o pai e os irmãos: “Foi uma merda!”. Enio tentou contemporizar, pedindo que ao menos poupasse o pai, Dorival. “Ele é outra merda”, retru-

cou Nana, antes de decretar, de copo em riste: “E você também!”. Beberique-se com um barulho desse. Enio lembra-se também da noite em que Buddy Guy, com um cabo extenso da guitarra, deixou o palco e comandou um feérico trenzinho da plateia, enquanto cantava e tocava. “A turba foi parar dentro do banheiro feminino, para horror de uma linda senhora da sociedade recolhida a um dos cubículos.” O 150, enfim, foi um número – como ainda se dizia para designar algo muito divertido. Pena que Henry Maksoud, açoitado pelas oscilações da economia naqueles anos 1990, tenha resolvido popularizar a casa, escalando cantores de vozeirão, com dó de peito e sem dó da pauta. Ao arrepio do bom gosto do filho mais velho, forçou a barra com uma temporada de Agnaldo Rayol. “Não tinha o perfil do 150, mas fez sucesso”, admite Roberto, lembrando que conseguiu escapulir de uma série de shows de Jessé, outro canário de peito varonil. Por fim, em 1997, Henry Maksoud decidiu fechar o 150. Em seu lugar, abriu um

bingo. Poderia ser um tobogã. Ou uma pista de patinação. O objetivo da boate jamais foi ter grandes lucros. Nem haveria como, por causa das dimensões reduzidas. Mas sim emprestar projeção internacional ao hotel. Roberto se recorda, ou quase isso: “O fim foi tão desolador que algum mecanismo psíquico fez com que eu me esquecesse completamente dos últimos shows”. Dois anos depois, Roberto deixou o hotel. Quando o velho Henry Maksoud morreu, em 2014, decrépito, a família estava dividida na Justiça, pleiteando a herança avaliada em R$ 700 milhões. Na disputa, o filho mais velho de Roberto, Henry Maksoud Neto, está do lado contrário do pai. Hoje, ocupa o lugar de Roberto à frente do hotel. Em vez do 150, o Maksoud Plaza agora tem uma boate de música eletrônica, a PanAm. Sem glamour. Sem músicos. Os DJs não precisam nem sequer conhecer claves ou compassos. Nem trocar o sono por partituras. Muito menos se preocupar com o vinco das calças. P

Toshiko Akiyoshi (com o marido Lew Tabackin) e Buddy Guy: boas histórias

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

31


Autorretrato (1991) e HelenĂ­stica (2015)

32

| THEPRESIDENT | 06.2016


olfato

texto e pinturas de ENIO SQUEFF

PROFUMO DI DONNA Da difícil arte de pintar o cheiro da tinta, nas palavras e imagens de um especialista

C

onta-se que certa vez um jovem perguntou ao compositor Wolfgang Amadeus Mozart se era difícil compor. Mozart não tergiversou: “Sim, era muito difícil”. Ao que o jovem rebateu: “Mas maestro, o senhor já compunha aos 6 anos”. Resposta: “De fato, comecei a compor desde criança – mas nunca perguntei se era difícil”. Guardadas todas as proporções do mundo, dei-me conta da sabedoria da resposta quando num belo dia decidi montar um ateliê para me dedicar integralmente à pintura. Ou, digamos, ao seu sucedâneo, os cheiros das tintas. Na época, como fazia normalmente no Estadão e, mais tarde, na Folha, entre uma matéria ou outra, eu vivia a desenhar às escondidas. E, quando podia, nas férias, ou nos feriados, pouca coisa me satisfazia mais do que sair pelo campo com uma tela, uma folha de papel, qualquer coisa, única e exclusivamente para desenhar. Ou pintar. Nada de aprendizado no sentido convencional. Se desde moleque, em Nova Prata, no interiorzão do Rio Grande do Sul, eu me comprazia em pegar os envelopes que meu pai, médico, recebia dos

laboratórios, só para desenhar, por que não me conceder esse prazer vida afora? O “vida afora” aí, me valeu por toda uma existência bastante eclética. No dia em que descobri Beethoven, Bach, VillaLobos e sei lá quantos mais, o que me arrebatou foi a música. Seria uma amante para a vida inteira (como foi e é). Profumo di donna, digamos. Mas música eu teria de aprender. E, ao me decidir pelo clarinete,

eu já intentava um complemento. Não só o ingresso num conservatório, mas em algo que me sustentasse em meus estudos; e que me valesse enquanto a música não chegasse por inteiro. Foi quando me matriculei simultaneamente no curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – já então minha família se mudara para Porto Alegre – e num curso livre de clarinete, na Escola de Artes da mesma universidade. Eram duas ou três vidas (pois acabei me metendo na política estudantil). Pela manhã, estudava jornalismo; à tarde com o compositor Bruno Kiefer, como seu assistente, e, no entremeio, aulas com o professor Osmar Pedrosa – primeiro clarinetista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). Então veio 64. Aí tudo se complicou. Começou pelo desconvite para lecionar na universidade como professor assistente na cadeira de Cultura Brasileira. Eu era subversivo demais para integrar seu corpo docente. E, logo depois, seguiram-se as recusas de emprego nos jornais de Porto Alegre. Gente de esquerda com certa nomeada não era lá muito bem-vinda nas redações da cidade. Foi quando


soube que a Editora Abril lançara um concurso nacional para editar o que veio a ser a Veja. Me inscrevi, vim para São Paulo, passei no estágio e ingressei no jornalismo, digamos, pela porta da frente. Depois disso sobreviria o Estadão, durante quase dez anos, e por fim o convite da Folha, para ser editorialista. Aí começou a minha vida de artista propriamente dito. Foi tudo mais ou menos ao acaso. Estava desenhando como de costume, entre um editorial ou outro, quando sou surpreendido pelo Seu Frias. “Mas não é que este sujeito desenha bem?”, disse, ao ver minhas garatujas. Fiquei meio sem jeito. “O senhor acha, Seu Frias?” “Mas é claro”, respondeu. “Você não quer fazer ilustrações para a página três?”, convidou, referindo-se à página da seção de opiniões do jornal. Não sei se tentei argumentar que já era crítico de música e editorialista. E que talvez fosse demasiado me apresentar como ilustrador. Mas Octavio Frias foi categórico: “Vou falar com o Boris [Casoy, então o editor-chefe] pra ele arrumar um espaço pra você desenhar na página três”. Era a primeira vez que o trem da arte passava pela minha vida. Aceitei. Mais tarde, já saído do jornal, inventei uma revista de ecologia e cultura, a Pau Brasil, para o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) de São Paulo. Então apareceu o segundo trem. É que a gráfica do Daee era tão precária que eu a ilustrava com o que desse: desenhos dos grandes mestres, ilustrações antigas e, quando não havia como ilustrá-la de outra maneira, ou seja, sempre a traço, eu mesmo fazia

34

| THEPRESIDENT | 06.2016

fotos javam ferreira alves

olfato

os desenhos (as gráficas sabem a tintas acres). Nada de fotos, pois a gráfica do Daee não comportava a qualidade requerida pela ecologia. E pela cultura. Deu-se, entretanto, que uma manhã recebo um telefonema da Rio Gráfica (atual

me convidou a ilustrar todas as capas de uma coleção que a editora iria lançar nas bancas: “Grandes Sucessos da Literatura Internacional”. Até então eram só bicos de pena. E foi com o cheiro amargo da velha nanquim que li e ilustrei algo em torno de

O óleo e a terebintina ensejaram uma nobreza de séculos. E quando me deparo com os grandes (Ticiano, Goya, Picasso e Iberê) eu me remeto a esse cheiro que parece exalar, ainda hoje, de suas obras Editora Globo). Queriam saber quem era que tinha ilustrado, na revista, a matéria de uma professora americana. Fui à página: o desenho era meu. O representante da Rio Gráfica duvidou. Mas eu não era o diretor da revista, o crítico de música? Respondi-lhe que sim – eu era as duas, ou melhor, as três coisas. Foi quando ele

22 livros: Proust, Buzzati, Svevo e por aí vai. Enfim, o terceiro e definitivo trem parou na minha estação sob a forma do convite do pintor João Rossi, meu verdadeiro mestre. E eu embarquei. Foi durante uma palestra minha sobre música. No local, havia um desenho meu numa das paredes. O Rossi quis saber


de quem era. Disse-lhe. Ele então me perguntou se eu não pintava. Respondilhe que não. Quando ele quis saber por que, fui direto e sincero: “Porque tenho medo”. E ele: “Medo de quê?”. Não hesitei: “Medo de nunca mais parar”. Rossi gostou da resposta e me convidou para ir a seu ateliê. “Não vou lhe ensinar a desenhar, nem a pintar. Mas vou lhe dar uma aula de como fabricar aquarelas.” Fui, vi, mas não venci: não cheguei a não parar de pintar. Só tinha tempo à noite, e muitas vezes apenas depois dos concertos aos quais eu assistia para a crítica do dia seguinte. Até que numa noite gelada em Porto Alegre, andando a esmo com o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo e o jornalista Elmar Bones – o ar frio da noite sempre me evocou romanças –, divisei um parque. As luzes incidiam sobre as árvores: a minha justificativa de não pintar senão à luz do sol não se sustentava. A noite era repleta não só de perfumes, mas de cores. Quando voltei a São Paulo, montei meu primeiro ateliê e passei a pintar muitas vezes até a madrugada, pelas ruas da Vila Madalena.

Foi meu aprendizado não só da aquarela, mas da bandidagem. De repente, eu era aquele cara maluco que ficava pintando sob a luz dos postes. Fiz amigos. Nunca me esqueci do dia em que o bicheiro e um dos traficantes da vila me trouxeram um sanduíche de mortadela e uma cerveja, pura pena do pintor. Era uma noite gelada. Nunca comi um sanduíche nem bebi uma cerveja tão bons. Mas desde então, e lá se vão 30 anos, não parei um só dia de trabalhar, ou seja, de desenhar, pintar a óleo ou com acrílica. Cheirar a tintas. Toda vez que me perguntam como é pintar, respondo com dois exemplos: um de Matisse, de quem se dizia ser um homem feliz. Outro de Van Gogh. Sobre o holandês, deu-se uma vez de uma senhora, ao me ver

Enio Squeff em seu ateliê, em São Paulo, e algumas de suas obras: Ecce Homo (1996), Nu (2013), São Cristóvão (2008) e A Amante do Estadista (2002)

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

35


fotos javam ferreira alves

olfato

Duas obras recentes: São Jorge (2014) e Adão e Eva (2015)

pintar ao ar livre, me dizer que eu deveria me divertir muito. Respondi-lhe que, se pintar fosse uma coisa relaxante, Van Gogh não teria se suicidado. Mas tratei de garantir-lhe também que eu não era um “desinfeliz”, para usar uma palavra cara a Mario Quintana. Voltando a Mozart, de fato, nunca perguntei se pintar era difícil. Tocar qualquer instrumento é dificílimo. E dizer qualquer coisa sobre música exige bem mais do que escutas e estudo sobre livros. Mas duvido, sem falsa modéstia, que exista muita gente que trabalhe tanto sobre a arte quanto eu. É uma tarefa insana. E perfumada, principalmente se lidamos com óleo, e seu solvente, toxicamente inebriante, como a terebintina. Não foi por isso, porém, que me voltei para a tinta acrílica, tão inodora quanto a aquarela. Mas pela intensidade

36

| THEPRESIDENT | 06.2016

da cor que, se mal entendida, pode resultar em algo inodoro e insípido também. Admito: o óleo e a terebintina ensejaram uma nobreza de séculos. E quando me deparo com os grandes – Ticiano, Goya, Picasso, Iberê, entre outros – eu me remeto a esse cheiro que parece exalar, ainda hoje, de suas obras. Pouco antes de sua morte Iberê Camargo me enviou uma carta. Nela me aconselhava a copiar os clássicos. Não fiz tanto quanto ele me recomendou. Mas me lembro de que uma vez me meti a copiar um pequeno quadro de Delacroix. Aprendi com o seu óleo, com o odor inebriante de seu colorido, como nunca fizera antes. E se hoje volta e meia estou no Masp, e se, em geral, saio de lá meio tonto – pela fragrância de suas cores, estampadas em seus quadros maravilhosos –, não é porque os mestres são incomensuráveis.

Mas porque me anima saber que ali reside sobretudo a coragem. É o que me justifica não ter começado antes. Se tivesse tido a valentia de arrostar faculdade de artes, que era recheada de meninas (essas sim, perfumadas, acho que por Deus), algo que as preservava para serem “do lar” (?), tudo bem. No entanto, preferi o jornalismo e a música. A coisa, em minha opinião, durou o tempo certo. Não conheço nada melhor para o espírito que a música (ah, o perfume do “Noches en los Jardines de España”, de Manuel de Falla). E não vejo também nada tão divertido quanto o jornalismo. Um amigo querido, hoje falecido, definiu bem as coisas. Ao abraçar a música eu estava me preparando para a pintura. E, ao me tornar jornalista, eu frequentava aos poucos a vida futura e olorosa no ateliê. Acho que é isso. P


AS MARCAS QUE SÃO REFERÊNCIA EM ÁUDIO, VÍDEO E AUTOMAÇÃO ESTÃO NA SOM MAIOR. Referência no mercado, a Som Maior se orgulha de colecionar, em seus mais de 30 anos de história, não apenas um portfólio de marcas, mas parcerias com os melhores fabricantes mundiais de equipamentos High End, ícones em suas áreas de atuação. Seja em áudio, vídeo ou automação, a Som Maior conta com uma gama de produtos e serviços de altíssima qualidade e desempenho superior. Um bom exemplo é a parceria recentemente firmada com a Crestron, líder mundial em Automação High End. Sem contar no orgulho de poder participar de mais um grandioso lançamento de Bowers & Wilkins: a nova Série 800 Diamond D3 – simplesmente a evolução da melhor linha de caixas acústicas de todos os tempos. Por isso é que quem busca excelência, procura sempre a Som Maior.

47 3472 2666 - www.sommaior.com.br


paladar

Por ANA PAULA LAUX e ROGÉRIO CHrISTOFOLETTI ilustração Raphael alves

Na pista das iguarias Há detetives na literatura policial que desvendam crimes e devoram banquetes com o mesmo apetite

C

ombater o crime e solucionar mistérios dá uma fome danada. Ao menos assim acontece com diversos personagens da literatura policial, que aliam coragem, poder de dedução e paladar aguçado. Detetives gourmets como Pepe Carvalho e Nero Wolfe são bons exemplos de uma tendência cada mais vez presente. Literatura policial harmoniza tanto com gastronomia que o recurso vem se tornando um elemento desse gênero. Entre um caso e outro, nossos heróis se envolvem com pratos sofisticados, ingredientes improváveis e cardápios aliciantes.

Nero Wolfe é desses que usam o olfato para farejar pistas e bons temperos. O marcante personagem criado por Rex Stout em 1934 pesa 150 quilos e, na prática, soluciona os casos atracado à sua poltrona doméstica – as investigações são feitas pelo seu lépido assistente, Archie Goodwin. O detetive é tão fã de comida que tem um chef de cozinha full time ao seu dispor: Fritz Brenner, criador de delícias estrambóticas. Com seu rotundo physique du rôle, o grande Nero Wolfe – grande mesmo! – não é apenas um devorador de pratos, um glutão, mas um apreciador refinado. Traduzindo para a linguagem da gastronomia, ele é a combinação do A torta de maçã (apfelstrudel) é uma das preferências de Nero Wolfe

gourmand com o gourmet. A Larousse Gastronomique ensina: o primeiro gosta de comer bem e bastante; o segundo sabe escolher e apreciar. Apesar de ingerir refeições em quantidades pantagruélicas, Wolfe exercita o garfo com apuro e requinte. E ainda por cima cultiva orquídeas. No menu de suas preferências – e ele tem muitas! –, estão moluscos de Cape Cod, vitela com molho de alcaparras e atum, bisteca de porco recheada, molho agridoce com cogumelos e abóbora com creme de leite. Para a sobremesa, apfelstrudel, amêndoas e castanhas assadas. Se não houver tempo para refeições mais demoradas, Nero Wolfe opta por uma criativa variedade de sanduíches com carne moída de coelho ou presunto da Geórgia, sem contar seu predileto: o de pastrami. Eis aí um clássico de Nova York, onde ele atua. Na realidade, essa receita de carne macia, quase sem fibras, suculenta e que derrete na boca surgiu no sudeste da Europa e emigrou para os Estados Unidos, como o próprio detetive, iugoslavo de nascimento. Um dos segredos do pastrami é o preparo. A carne bovina é curada com sal e temperos.Depois,


0 6.2016 | THEPRESIDENT |

39


paladar defumada e cozida no vapor por até cinco horas. Fica tenra como poucas. Como nem todos podem contar com um chef suíço à disposição, por que não arregaçar as mangas e preparar maravilhas na cozinha? Assim procede a doutora Kay Scarpetta. A personagem da escritora americana Patricia Cornwell surgiu em 1990 e, desde lá, protagonizou 22 livros. Não só: levou a tecnologia forense tão a fundo que foi determinante para o surgimento de séries de TV como CSI e Bones. Se durante o dia a médica-legista usa o bisturi para abrir cadáveres, à noite, corta tomates para um borbulhante e espesso molho para suas massas. De ascendência italiana, Scarpetta capricha no azeite de oliva, pães, conchigliones e linguines. A detetive loira, quarentona e séria fala com os mortos – como se diz na sua área – mas também faz os ingredientes conversarem, harmonizando vinhos e massas. Para ela, boas pedidas são risotos e frango com limão (pollo al limone), além de curiosidades como lasanha com cogumelos porcini.

40

| THEPRESIDENT | 06.2016

Sua profissão exige sangue-frio, e é por isso que a doutora Scarpetta busca na cozinha não só um hobby, mas uma terapia. Para leitores com grande apetite, quanto mais ela estiver estressada, melhor. Scarpetta na cozinha é um caso tão sério que, em 2002, sua criadora lançou Food to Die For, um livro com receitas da detetive, para se comer até... morrer. Sabores europeus

A doutora Kay Scarpetta tem um bocado de sangue italiano, mas por que não jantar com um típico mediterrâneo? É possível atravessar o Atlântico em poucas páginas se o leitor escolher o detetive Salvo Montalbano, criação do aclamado Andrea Camilleri. Morador da fictícia Vigàta, esse comissário de pavio curto encara criminosos com o mesmo apetite com que destroça um polvo à carreteira. Seu cardápio é bem servido de pescados e outras maravilhas do mar, dada a privilegiada oferta do litoral da Sicília. É difícil terminar um livro protagonizado por Montalbano e não salivar com os banquetes ali descritos. Que tal começar com mariscos salteados,

anchovas com agrião ou os muitos tira-gostos à base de frutos do mar, os irresistíveis antipasti di mare? Nosso sanguíneo herói perde a educação diante dos antepastos da trattoria San Calogero. E como Montalbano é – acima de tudo – um forte, encara sem cerimônia cabritos ao forno, ensopadinhos de lula e um prato de massa ao molho de caranguejo. Com fúria, enfrenta cardumes de merluza, rodovalhos, fragaglias e linguados. Como o trigo é outro alicerce da cozinha mediterrânea, Montalbano não abre mão do pão com vinho, e do pão com caciocavallo, queijo típico dos povos nômades, feito antigamente com leite de jumenta. Para arrematar, o guloso detetive se abastece com uma generosa fatia de cassata siciliana, a sobremesa feita com ricota açucarada, pão de ló, marzipã e frutas cristalizadas. É bom lembrar que Montalbano foi batizado em homenagem a outro grande escritor policial, o espanhol Manuel Vázquez Montalbán, criador de mais um detetive gourmet: Pepe Carvalho. Sarcástico e bem-humorado, o personagem catalão é um ex-agente da CIA residente na bem temperada Barcelona. Para ele, “sexo e gastronomia são as coisas mais sérias que existem”. Quem há de duvidar diante de suas escolhas? A variedade é quase uma volta ao mundo: peru recheado ao molho de romã, arroz de coelho picante, spaghetti à carbonara, figos recheados à síria e caldeirada de peixe. Gostou? Mas não acabou. Em suas aventuras, Pepe Carvalho se depara com cordeiros na brasa, morchella com toucinho, tripas à catalã e merluzas ao alho torrado. Os leitores ficam babando. Não dá pra falar de gastronomia sem


reprodução

Autores bons de apetite: Patricia Cornwell, Agatha Christie, Andrea Camilleri e Georges Simenon

citar a culinária francesa. Assim como é impossível abordar a literatura policial sem lembrar o comissário Jules Maigret, criação do belga Georges Simenon, um dos escritores mais prolíficos da história. Surgido em 1931 e protagonista de 75 livros e 28 contos, Maigret se mostra um homem aparentemente comum. Mas se revela um respeitado chefe da Polícia de Paris e um amante da boa mesa, dono de silhueta arredondada, embora nem tanto quanto a dos detetives Charlie Chan, de Earl Derr Biggers, e Adão Flores, do nosso Marcos Rey. Maigret bate cartão na Brasserie Dauphine, onde se empanturra de iguarias variadas. Em casa, é muito bem tratado pela mulher, Louise, que prepara refeições criminosamente deliciosas, como bacalhau à provençal, coq au vin, linguado dieppoise e cassoulet, uma parente francesa da nossa feijoada, nascida na cidade de Carcassonne. O temido homem da lei tem lá seus caprichos. É fã de charutos e vive com um cachimbo de cabo reto entre os lábios. Aprecia um cálice de pastis, mas também vai de vinho, brandy, cognac e seu primo armagnac. Que seus superiores não saibam, mas Maigret tem um fraco por cervejas e por calvados, destilado de maçã, típico da baixa Normandia. A

bebida jorra de tonéis, a partir de fermentação e destilação da cidra, e é uma riqueza com Denominação de Origem Controlada. Ou seja, só pode ser chamado de “calvados” o produto feito naquela região e conforme a legislação francesa, como ocorre com o champanhe. Outro francês de primeira linha, o antropólogo Claude Lévis-Strauss registrou em 1946 que homens e mulheres se tor-

casos ocultos. Dos compostos para fazer venenos à elaborada mesa dos detetives, lá está a gastronomia, não só garantindo que nossos heróis sobrevivam, mas que também tenham uma boa vida. Nesse sentido, Hercule Poirot é exemplar. O metódico detetive criado pela inglesa Agatha Christie em 1920 é símbolo de inteligência e elegância, distribuídos num corpinho roliço e bem alimentado.

Os gourmets do crime têm muitas nacionalidades: o francês Maigret, o iugoslavo-americano Nero Wolfe, o catalão Pepe Carvalho, o italiano Salvo Montalbano e o nosso brasileiríssimo Mandrake naram culturalmente mais desenvolvidos quando passaram a usar o fogo para preparar seus alimentos. Cozimento é transformação, cuidado e aprimoramento. Por isso, não é exagerado pensar que a história da humanidade pode ser contada a partir da evolução da culinária. A cozinha não é um cômodo doméstico qualquer: é lugar de encontro, ateliê e laboratório. Pequenos grandes prazeres

Não à toa, “gastronomia” tornou-se o nome moderno para o que antes chamávamos de “alquimia”, ciência e arte recheadas de mistérios. Tinha que funcionar com uma literatura que vive de segredos e

Atrás dos bigodes arqueados, dos olhos verdes como azeitonas e dentro da cabeça em forma de ovo há uma mente insaciável por respostas, comandando um estômago exigente. Habitante de um simétrico e bem decorado apartamento em Whitehaven Mansions, Londres, o nada modesto Poirot conta com a lealdade do capitão Hastings e os serviços de George, o mordomo que lhe chama de “Sir”. Entre seus prediletos no menu está o frango assado com legumes, acompanhado por licor de cassis ou tisana, infusão de ervas adoçadas com cinco cubinhos de açúcar. Não bastasse a sofisticação, há a sorte, e às vezes a montanha vem até Maomé.

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

41


reprodução Rico Tomaso para The American Magazine (março/1938)

paladar

Nero Wolfe: comilão imortal

No conto “A Aventura do Pudim de Natal”, Poirot é convidado a passar a festa num casarão rural no interior da Inglaterra onde servem a tradicional sobremesa, que é simplesmente “de matar”. Na novela Treze à Mesa, o detetive precisa descobrir quem deu cabo de lord Edgware, e a presença em um jantar é justamente o álibi de que uma mulher suspeita precisa. No Brasil também existem detetives charmosos e bons de garfo. Mandrake aproveita sua condição de advogado criminalista para solucionar casos, comer bem e conquistar belas mulheres. Criado em 1967 por Rubem Fonseca, divide um escritório no Rio de Janeiro com o sócio Leon Wexler e alimenta a lenda pessoal de

42

| THEPRESIDENT | 06.2016

ser irresistível. É também um incorrigível em sua especial atenção para os charutos. Não abre mão dos Panatela e dos Havana médios e supremos. Como dinheiro na mão é vendaval, pouco sobra no seu bolso. Menos exclusivo, mas tão charmoso quanto Mandrake é o delegado Espinosa, titular da 12ª delegacia de polícia, em Copacabana. De hábitos frugais, o detetive criado por Luiz Alfredo Garcia-Roza em 1996 gosta de caminhar para refletir sobre seus casos e, de quebra, comprar comida pronta ou ingredientes para seus aperitivos. É um homem prático, que não tem as habilidades culinárias de Scarpetta nem os requintes de Nero Wolfe. Mas tem seu charme. Não dispensa um bem

escolhido vinho tinto, cervejas estupidamente geladas e um fumegante café. Com os policiais de sua confiança, almoça numa trattoria discreta e não resiste às delícias do restaurante árabe vizinho de seu apartamento no Bairro Peixoto. Como mora sozinho, ao longo da semana, recorre a congelados, sanduíches e pizzas. Mas, quando chega a sexta-feira, abastece a despensa com pães diversos, presunto defumado, camembert, provolone, queijo brie e emmental. É que a namorada Irene vai dar uma passada por lá e só partirá na segunda-feira. Elementar, meu caro Watson – frase que, aliás, jamais foi dita por, Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, outro detetive inesquecível. P


Elevadores Atlas Schindler. Design e sofisticação como sua vida merece. Nossos elevadores, escadas e esteiras rolantes são idealizados para acompanhar o seu ritmo e proporcionar as melhores experiências a cada viagem, sempre com sofisticação e design. Esse é o nosso movimento! Oferecer a todos os momentos do seu dia a dia o máximo de conforto, segurança e exclusividade. Mais de 140 anos de história • Presente em mais de 120 países • 57 mil colaboradores no mundo • 5.000 colaboradores e mais de 150 Postos de Atendimento no Brasil.

www.atlas.schindler.com • 0800 055 1918


tato

Por silvana assumpção

O PONTO DA CURA. A acupuntura chinesesa venceu preconceitos. Hoje é a segunda prática médica do Ocidente

S

e há um ponto em torno do qual as medicinas oriental e ocidental se encontram em simbiose perfeita, apesar de seus radicais antagonismos, ele não é um ponto: são centenas ou milhares deles, que os chineses começaram a mapear na superfície de nossos corpos milênios atrás. Espalhados sobre pele e ossos, músculos e nervos, eles são como portais abertos para os caminhos por onde, de acordo com a filosofia natural chinesa, circula nossa energia vital – o Chi. Estamos falando, claro, dos pontos de acupuntura (do latim acus – agulha, e punctura – picada), cuja cartografia já soma algo entre 1.500 e 2.000 locais determinados – todo ano pesquisadores descobrem mais

fotos: reprodução

Dr. Jia: o divulgador no Brasil

44

| THEPRESIDENT | 06.2016

alguns. Mas na prática terapêutica concreta utilizam-se quase sempre os 365 estabelecidos pela tradição. “As necessidades para além disso são muito raras”, afirma o médico acupunturista chinês radicado em São Paulo Jou Eel Jia, um dos maiores especialistas e precursores da técnica no Brasil. Embora os fundamentos da acupuntura – que supõe a circulação de Chi por canais os quais se ramificam para todos os nossos órgãos – passem a léguas de distância do racionalismo científico ocidental, ela já é, segundo Jia, a segunda especialidade mais praticada de toda a medicina ocidental, depois somente da clínica médica. A própria denominação “acupuntura” é ocidental e foi dada pelo missionário do padroado português no Oriente Francisco de Jasso Azpilicueta Atondo y Aznáres, o São Francisco Xavier, no século 16. Atribuem-se a ele as primeiras notícias no Ocidente sobre a técnica, que viu ser utilizada com sucesso no tratamento do cólera. O chinês usa outra nomenclatura, que significa “agulha e calor”, uma vez que o tratamento tradicional é sempre associado à moxabustão (que se acredita ser mais antiga que o uso de agulhas), ou estimulação dos pontos pelo calor da moxa – espécie de bastão feito da fibra da

artemísia que queima lentamente, como um incenso ou charuto. Outras formas tradicionais de acupuntura são a ativação dos pontos com ventosas e massagem. Suas bases modernas foram estabelecidas na dinastia Ming (1368–1644), com a publicação de O Grande Compêndio de Acupuntura e Moxabustão, de  Yang Jizhou, no século 16, que traz detalhadas descrições dos 365 pontos. Note-se que na China as dissecações eram proibidas, não existindo a anatomia como disciplina. Pode-se dizer, portanto, que a técnica da acupuntura foi um impressionante saber médico construído apenas pela observação superficial do corpo por meio dos sentidos, especialmente o tato. Nixon na China

Quanto ao uso da técnica na Antiguidade, a datação mais aceita estabelece as origens da acupuntura em torno de 1.000 a.C., sendo que o documento inequívoco mais antigo sobre ela é de cerca de 100 a.C.: O Livro de Acupuntura (ou O Tratado de Acupuntura) do Imperador Amarelo (Huan Ti Nei Su Wen). A obra, apresentada na forma de perguntas feitas pelo imperador amarelo a seu ministro, Ch’i Po, já foi então uma


Dos mais de 1.500 pontos, sĂŁo usados 365 no dia a dia

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

45


tato compilação de tradições acumuladas por séculos. A primeira descrição do tratamento feita por um médico ocidental apareceu por volta de 1680, elaborada pelo alemão Willem Ten Rhijne, que era empregado da Companhia das Índias Ocidentais. Uma nova onda de interesse despontou no século 19, com o surgimento de artigos em diversas publicações científicas.

de sua programação na terra de Mao Tsé-Tung, assistiram a uma cirurgia de grande porte com o paciente acordado, anestesiado apenas pelo uso das agulhas. Já então, desde o início da década, muitos americanos e europeus começavam a interessar-se por terapias alternativas, acompanhando o interesse que eclodia por tudo que era oriental, em especial entre os

A Escola Paulista de Medicina sediou o 1º Congresso Médico de Acupuntura em 1987. Foi o reconhecimento oficial de que a prática era bem mais que um “orientalismo” alternativo Mas foi nos últimos 40 anos que a acupuntura se tornou a mais utilizada forma de tratamento complementar associado à alopatia em todo o mundo, totalizando só nos Estados Unidos, onde esta contabilidade é minuciosa, mais de 10 milhões de atendimentos anuais. Contribuiu largamente para essa difusão o inesperado marketing de um dos acontecimentos políticos mais importantes do século 20: a visita do presidente americano Richard Nixon à China, em 1972, que já virou até ópera. Tendo por pano de fundo esse histórico capítulo da abertura entre as potências em conflito na Guerra Fria, a acupuntura ganhou enorme visibilidade quando Nixon e sua comitiva, como parte

jovens, naquele período animado pela contracultura. A própria Organização Mundial da Saúde reconheceu a técnica chinesa como método de “tratamento complementar” em 1970, status que ainda não se modificou, mas está em discussão, segundo Jia. Isso porque a acupuntura, já declarada também Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela Unesco, em 2010, é considerada sem rodeios uma “prática médica” em vários países. O Brasil foi um dos pioneiros (depois apenas da Alemanha e da França) a conceder à técnica esse reconhecimento, primeiro pelo Conselho Federal de Medicina, que a declarou “especialidade médica” em 1993, e depois pela Associação Médica Brasileira, em 1998. Isso aconteceu em grande parte graças ao trabalho de Jia, que imigrou com a família para o Brasil ainda adolescen-

Moxabustão: uma variante da técnica

te, aqui se formou pela Escola Paulista de Medicina (EPM), da Unifesp, e depois se especializou em acupuntura na China. Foi ele que organizou o 1º Congresso Médico de Acupuntura no país, em 1987, sediado pela própria EPM. A partir de 1990, introduziu a disciplina na pós-graduação da escola e no Hospital do Servidor Público Municipal. “Nos anos 1970 acupuntura ainda era vista como coisa meio mística”, diz. “As pessoas se assustavam ao imaginar que a manipulação de algumas agulhas poderia curar uma enxaqueca ou melhorar um quadro de hipertensão. Só nos anos 1980 o mundo acadêmico, aqui no Brasil especialmente a Escola Paulista, começou a estudá-la de modo científico.” Jia também treinou centenas de acupunturistas em programas da Secretaria Estadual de Saúde e da prefeitura, além de atender em sua clínica, famosa pelos clientes notáveis do empresariado, das artes e da política. Entre eles, o governador Geraldo Alckmin, que também é médico. Segundo Jia, a acupuntura é ainda oferecida pelo SUS em todo o território nacional e pode ser encontrada no âmbito dos diversos serviços de saúde estaduais e municipais do país. Mas, se instituições e organismos de saúde convencionais no Brasil e no mundo incluem a acupuntura entre seus tratamentos, algumas antigas discussões persistem. Uma investigação sobre a técnica em publicações médicas internacionais revela inúmeros artigos que põem em cheque seus princípios e eficácia, comparando os eventuais resultados positivos a efeitos placebo. Uma das alegações desses detratores é que a ciência não comprova a existência dos meridianos ou do Chi. Essa não seria, no entanto, a única maneira possível de explicar


creative commons

O encontro de Mao Tsé-Tung e Richard Nixon em 1972 foi um involuntário e poderoso marketing para a acupuntura

sua ação terapêutica. Segundo Jia, a base científica da acupuntura está no fato de seus pontos se ligarem às fibras C dos nervos e se conectarem diretamente ao cérebro. “Pelo estímulo desses pontos libera-se uma série de substâncias como neuropeptídeos, neuroproteínas, neurotrofinas”, explica. “Elas transmitem mensagens capazes de modificar o circuito cerebral e promover mudanças fisiológicas que levam à cura. Dependendo do estímulo, você chega até a analgesia de cirurgias complexas.” O “desabrochar” de Mao

Os próprios chineses foram buscar os fundamentos científicos da acupuntura e seu grande poder de analgesia, uma das mais populares aplicações da técnica, em meados do século passado, logo após a

Revolução Comunista de 1949. Nos anos 1950 desenvolveram-se no país pesquisas demonstrando a liberação de neurotransmissores por meio da estimulação dos pontos de acupuntura, particularmente os peptídeos opioides – ou seja, anestésicos produzidos pelo próprio corpo. Apareceram também nessa época os institutos de pesquisa e os departamentos de acupuntura em hospitais de molde ocidental, marcando um retorno às origens depois de um longo período de desprestígio da medicina tradicional no país. Desde fins do século 17 os chineses em contato com a cultura ocidental haviam começado a encarar sua própria medicina como supersticiosa e irracional. Embora a acupuntura persistisse entre a população, sobretudo nos meios rurais, sua prática foi sendo abandonada pela camada social mais

culta e acabou excluída do Instituto Médico Imperial em 1822. O maior golpe viria em 1929, quando a prática foi considerada ilegal. Agradeça-se o novo impulso da acupuntura ao nacionalismo de Mao Tsé-Tung – e também à sua necessidade de reabilitar a medicina tradicional para poder levar atendimento de saúde à imensa população chinesa depois da revolução. Diga-se, porém, que ele próprio preferia a alopatia quando precisava de cuidados. O famoso “Desabrochar de Cem Flores”, período da história da China em que o Partido Comunista incentivou a expressão das mais variadas escolas de pensamento (e dentre elas as práticas tradicionais de medicina), durou pouco, extinguindo-se ainda na década de 1950. Mas pelo menos a bela e milenar semente da acupuntura frutificou. P

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

47


adega

Por MAURO MARCELO ALVES

um rei sem castelo O Petrus não tem um château para chamar de seu. Mas é o vinho mais celebrado de Bordeaux

O

produtor do vinho mais

imprópria para o crescimento das vinhas.

região, se interessou pela propriedade. Ela

célebre do mundo está

Afinal, o ferro é asfixiante para as plantas e,

tinha boa visão de negócios e começou a di-

fincado em uma região onde

ao menos na teoria, originaria vinhos medí-

vulgar o vinho, que nem de longe alcançava

a maioria de seus simila-

ocres. Tal paradoxo só aumenta a curiosida-

os preços dos maiorais do outro lado do rio

de em torno do Petrus.

Gironde, no Médoc. Pouco a pouco Tante

res ilustres traz, antes do próprio nome, a

Lou foi comprando frações da sociedade e

imponência traduzida pela palavra château.

Nesse pedaço de terra no coração do

No entanto, mesmo encastelado no ponto

Pomerol, o vinho era feito desde o século

mais alto do firmamento dos vinhos nobres

19 pela família Arnaud, que deu a ele o

de Bordeaux, na França, seu rótulo estampa

nome do primeiro papa. Mas foi a partir

placar seu vinho na festa de casamento da

simplesmente Petrus. E nada mais. Nem

da década de 1920 que começou uma nova

rainha Elizabeth II. Assim, Petrus ganhou

precisaria, na opinião dos admiradores.

carreira, quando madame Edmonde Lou-

definitivamente ares de celebridade – e já

bat, chamada Tante Lou, uma hoteleira da

com uma qualidade indiscutível na época,

Se não está instalado em um château e só em 2014 concluiu a reforma do velho prédio – que mais parecia um galpão na com-

A sede mais parecia um galpão

paração com os vizinhos –, qual o segredo para ser o que é? A primeira explicação para isso tem uma data: 40 milhões de anos. É a idade do solo onde crescem os vinhedos do Petrus na região do Pomerol, em um platô de 40 metros de altura chamado La Boutonnière. Ali, a fina argila negra cercada por pedras pequenas e areia age como uma espécie de esponja que absorve a água, mas sem retê-la em excesso, liberando gota a gota o que as plantas precisam. Sempre é bom lembrar que as uvas da espécie Vitis e nem de terrenos férteis. Outro mistério: por baixo dessa camada de argila negra há outra, de argila azul rica em ferro e que por isso, em tese, seria

wikimedia commons

vinifera não gostam de umidade em demasia

se tornou a única proprietária em 1945. Dois anos depois ela conseguiu em-


0 6.2016 | THEPRESIDENT |

49


adega assinalada pelas míticas safras de 1945 e 1947. Seus preços passaram a rondar o céu, sobretudo na década de 1960, quando os americanos voltaram suas taças para ele ao saber que era o vinho preferido do presidente Kennedy. Tante Lou morreu em 1961, sem herdeiros diretos. Dois sobrinhos de rara sorte ficaram com o mito: madame Lilly Lacoste e monsieur Lignac. Algum tempo depois, o negociante de vinhos Jean-Pierre Moueix entrou na sociedade, adquirindo a parte de Lignac. Madame Lacoste, riquíssima e desejosa de passar seus dias apenas tocando Chopin e Liszt ao piano (morreu quase centenária em 2006), passou suas ações para Moueix em 1969, gerando controvérsias judiciais dos herdeiros que durariam vários anos – Jean-Pierre Moueix e família só se tornariam donos plenos em 2001. A trajetória do Petrus se consolidou ainda mais, agora baseada apenas na majestade de suas 30 mil garrafas anuais (eram 45 mil em 1985), que abrigam 95% de Merlot e 5% de Cabernet Franc (casta adicionada apenas para cumprir a legislação, que não permite um vinho 100% varietal). Talvez por não ter a potente Cabernet Sauvignon em sua composição, uva predominante no Médoc – diferentemente do Pomerol, onde a Merlot é rainha –, ele se impõe pela elegância, baseada em uma acidez menos perceptível.

reprodução: www.blomberg.com

Por isso, é um vinho melodioso pelo equilí-

50

| THEPRESIDENT | 06.2016

brio com os taninos, revelando uma notável harmonia aromática e de sabores, principalmente nas grandes safras. Mas isso não quer dizer que Petrus vá impressionar desavisados ou novos-ricos dispostos a pagar € 5 mil por uma garrafa esperando orgasmos organolépticos.


Por desavisados entendam-se aqueles

Uma garrafa Imperial (6 litros) de 2010 está

ficação atento aos humores dos fermentos e

acostumados com vinhos encorpadões

à venda, no momento, na Sherry-Lehmann

da temperatura, degusta interminavelmente

e frutadões típicos de moda recente

nova-iorquina por U$ 64.995. E no super-

para descobrir qual a assemblage perfeita –

impulsionada por dindim vindo do Texas,

mercado Leclerc, em Paris, uma curiosida-

mistura de uvas ou de barricas diferentes –,

da Rússia e da China. Petrus é um vinho

de: a garrafa do 2005 vem sendo oferecida

determina o tempo ideal de maturação na

sóbrio e até mesmo sensível e delicado à

a € 8.000,99, com os centavos repetindo a

madeira e o momento de engarrafar. Para

sua maneira, com o qual se dialoga como

estratégia de lojas populares para induzir os

Berrouet pai, há apenas uma receita em sua

com um amigo querido e confidente. Uma

clientes a acreditar na pechincha...

profissão: “Fazer um grande vinho consiste

frase que costuma defini-lo confirma: “É a

Talvez mais curioso ainda seja saber que o custo de produção de cada garrafa do

simplicidade na excelência”.

em escutar a natureza com humildade”. O primeiro grande vinho feito por seu

Petrus 2005 foi de € 30, conforme reve-

filho é o Petrus 2009, uma safra já histórica

1982, 1989, 1990, 1995, 2001, 2005, 2006,

lou Christian Moueix, um dos filhos de

neste século. As palavras de Olivier Ber-

2009, 2010, mas safras mais antigas continu-

Jean-Pierre Moueix, que até 2011 cuidava

rouet para descrevê-lo: “Sua cor é púrpura

am majestosas, já que o vinho “abençoado”

da distribuição do vinho. Naquele ano,

profunda, intensificada por reflexos rubis

pelo apóstolo Pedro ignora o tempo e pode

ele cedeu sua parte no negócio ao irmão,

cintilantes. O bouquet se revela ao mesmo

Entre seus grandes anos recentes estão

ser guardado por décadas e mais décadas. Por isso e por toda a mística e mistério que o cercam, Petrus atinge preços, digamos, excitantes. Provocados sobretudo pela mudança

Em 2011, a Christie’s de Nova York leiloou uma caixa de Petrus 1961 por US$ 144 mil. Uma garrafa Imperial (6 litros) está a venda, na Sherry-Lehmann, na mesma cidade, por US$ 64.995

do eixo de suas vendas, que saiu de Bordeaux e Paris e foi, entre outras plagas, para Hong

Jean-François Moueix, que até hoje cuida

tempo intenso e sutil, com tostado e torre-

Kong, onde uma garrafa da safra 2000 – com

inteiramente da venda e distribuição do

fação em um primeiro momento, antes de

nota máxima de 100 pontos do crítico ameri-

precioso bem. Jean-François é o presidente

evoluir sobre finas notas de cereja madura,

cano Robert Parker –, por exemplo, é vendida

da holding familiar Videlot, proprietária do

cassis e especiarias doces, realçadas por

pelo equivalente a mais de € 8 mil. Mesmo

Petrus. O que arremessa o valor final ao

uma nuance de grafite e defumado. O

um ano de condições meteorológicas difíceis,

pico da montanha é o mesmo de sempre

ataque à boca é suave e sedoso, prelúdio

como 2004, que rendeu um Petrus de menor

com relação a outros produtos de luxo:

delicado a um paladar rico, amplo e denso,

expressão, é negociado a € 1.650 a garrafa.

negociantes, atravessadores e especulado-

forrado com taninos aveludados extraídos

Em 2011, a Christie’s

res que também enxergam nas garrafas de

com uma rara suavidade. Ao final, a menta

de Nova York leiloou

rótulo imutável um ativo de (alto) rendi-

apimentada se funde longamente ao alca-

mento assegurado.

çuz e a um nobre amargor, que aporta tônus

uma caixa de Petrus 1961 por US$

Muito se fala dos Moueix, como é na-

e complexidade. Sedutor e elegante, é uma categoria à parte no Pomerol”.

144 mil, maior

tural, mas é preciso reconhecer que Petrus

preço até então

deve muito de seu sucesso aos Berrouet:

para um vinho

Jean-Claude, enólogo de 1964 até 2008,

as características do vinho, descritas de

do Pomerol.

sucedido por seu filho Olivier. A impor-

maneira técnica e poética ao mesmo tempo,

Olivier Berrouet, o enólogo, cuida da produção há sete anos. Sucede ao pai

A última frase não tem nada a ver com

tância do enólogo é total: ele

mas determina a natureza exata do Petrus

acompanha o crescimento da

em seu status de hors-concours: alheio a mo-

vinha, escolhe os melhores dias

dismos e atemporal, é um rei sem castelo. E

para a colheita, conduz a vini-

não dá a mínima para isso.

P

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

51


CULT

POR SERGIO CRUSCO

De olho nas estrelas Os óculos Ray-Ban, criados para aviadores, sempre se beneficiaram de estar no rosto de superstars. Mesmo quando não eram os modelos originais

P

eter Fonda vivendo toda a sorte de experiências malucas a

que tudo indica, não. Nenhuma foto do ator com o modelo da Ray-Ban so-

bordo de sua motocicleta em Easy Rider. Os Blues Brothers ba-

brou para contar história. Ainda assim, os internautas ampliam imagens,

lançando o coreto com seu som alucinado. Tom Cruise derre-

analisam a posição dos rebites e os formatos das armações para provar suas

tendo o coração das menininhas em Top Gun - Ases Indomáveis.

teses. Seja como for, até hoje muita gente que tem um Wayfarer se gaba de

Michael Jackson segurando o punhado de Grammys recebidos pelo álbum Thriller. Madonna curtindo adoidado em Procura-se Susan Desesperadamente.

usar os óculos preferidos de James Dean. A marca Ray-Ban – como toda história saborosa – começa meio por

Esses e outros retratos perpétuos do imaginário pop têm muito em co-

acaso, “num belo dia” ou no “era uma vez” de contos de fadas. Ela nasceu em

mum. Refletem, nas lentes escuras de seus protagonistas, não só momen-

1937, filhote de uma empresa de sucesso, fundada pelos imigrantes alemães

tos de mudança de comportamento, mas também quebra de tabus, a che-

John Jacob Bausch e Henry C. Lomb em Rochester, Nova York. Sim, a Baus-

gada de novos ritmos no pedaço e a vontade de viver livre, perigosamente

ch & Lomb, que desde 1853 fabricava lentes, microscópios, binóculos, teles-

ou gostosamente. Coincidência ou não, todos os envolvidos nessas cenas

cópios e outros aparatos para ajudar a ver mais longe, melhor ou maior. Era

usam Ray-Ban – por vontade própria ou por alguma ação de marketing da

uma manufatura de respeito quando recebeu a sugestão do piloto de provas

marca de óculos escuros mais famosa do mundo.

John MacReady de criar lentes aptas a filtrar os raios que embaralhavam a

Já viu Bob Dylan sem os seus? Claro que viu. Mas é bem provável que

visão dos aviadores. A invenção de lentes verdes, que obliteravam os raios

a primeira imagem do músico que venha à cabeça seja alguma em que ele

ultravioletas e infravermelhos, foi apelidada de anti-glare (anticlarão), mas

usa um Wayfarer, modelo paradigmático da Ray-Ban. Ou não, já que todos

aquele não parecia um nome charmoso. Alguém, até hoje não se sabe quem,

os óculos negros de forma trapezoidal viraram

juntou ideias e as traduziu de maneira sucinta e

Wayfarers (ou Ray-Bans ) por tabela ou osmose.

vendedora: se essas lentes banem raios indese-

O assunto gera discussão eterna. Há po-

jados, eis aí um bom nome para elas: Ray-Ban.

lêmica acalorada num post de discussão sobre

Ray-Ban virou moda imediata não só en-

James Dean na internet, dentro de um blog es-

tre aviadores, mas em todas as forças armadas

pecializado em identificar marcas e modelos de

americanas. Mas faltava à marca ter alguém de

óculos que os atores teriam usado nos filmes ou fora das telas: seria ele um fã do Wayfarer? Ao

Bausch & Lomb: os criadores da marca


DAVID GAHR/GETTY IMAGES

Dylan e o Wayfarer: forever young


CULT renome para propagandeá-la e fazê-la cair no gosto das massas. As ima-

mente foi o Manhattan, manufaturado pelos ingleses da Oliver Goldsmi-

gens do general Douglas MacArthur desembarcando pela segunda vez nas

th, que criaram vários desenhos exclusivos para os filmes de Audrey. Era a

Filipinas, a fim de lutar contra o Japão, em 1944, foram suficientes para os

marca predileta da atriz. Mas a Ray-Ban, mais uma vez, surfou com gosto

óculos meio ovalados, de aros metálicos finos, virarem coqueluche. Era o

na fama equivocada. Que no fim, para a Bausch & Lomb, acabou acertada.

modelo Aviator, estava na cara. A partir daí, cada modelo lançado pela Ray-

Centenas de blogueiras de moda ainda reproduzem a falsa história com o

-Ban estaria associado a um rosto famoso . Ou a vários ao mesmo tempo.

entusiasmo de quem acaba de descobrir a pólvora.

Dylan) acabou popularizado por estrelas de cinema, políticos e celebrida-

De Andy Warhol a Debby Harry

des de toda estirpe. O garoto-propaganda mor do modelo foi o presiden-

Acontece que Ray-Ban tornou-se algo como Gillette ou Leite Moça,

te John Kennedy Jr., que saracoteava em iates, convescotes e cerimônias

sejam quais forem as lâminas ou o leite condensado que se estiver esco-

oficiais com óculos escuros que, por acaso, nem sempre eram fabricados

lhendo. Alguém apareceu com qualquer modelo que lembre o Wayfarer

pela Ray-Ban, mas a marca se beneficiava disso. Pelo menos os dois mo-

ou o Aviator e pronto – é Ray-Ban. O mesmo vale para produtos seme-

delos guardados no John F. Kennedy Presidential Museum and Library – e

lhantes a outro modelo da marca, o Clubmaster, os “óculos Malcolm X”,

mais alguns que estão nas mãos de colecionadores – nunca foram. Um de

com armação espessa na parte de cima e fininha ao redor das lentes. Para

seus prediletos, o Saratoga com armação tipo tarta-

os especialistas em estilo são modelos clássicos, que vão bem em qual-

ruga, produzido pela American Optical, acabou

quer momento. Você pode cruzar o tapete vermelho do Oscar com um

confundido com o Wayfarer 5022, pelo design

deles. Estará igualmente alinhado se usá-los para dar um pulinho no me-

parecido. A Ray-Ban não fez a mínima questão de

cânico, a fim de trocar as pastilhas de freio.

desfazer a confusão, já que quem quisesse imitar o

A elegância, no entanto, está sempre sujeita a novas interpretações.

estilo do presidente investia na marca criada pela

O que parece chique hoje será a cafonice da década que vem, pode apos-

Bausch & Lomb, já àquela altura líder no mercado.

tar. Na virada dos anos 1960 para os 70, o Wayfarer ficou tão ultrapassa-

Outro mito pop é o de que Audrey Hepburn

do quanto a Cuba Libre e os passos do hully gully. Parecia irremediavel-

usa um Ray-Ban Wayfarer em Bonequinha de Luxo (1961). A verdade é que não se sabe ao certo que modelo era aquele. Provavel-

mente relacionado ao estilo de vida que a garotada contracultural queria derrubar na base da infusão de ervas. Eram os óculos do seu avô. Cool era o modelo redondinho, tipo John Len-

FALSOS

Parecem modelos Ray-Ban. Não são. James Dean, Audrey Hepburn, John Kennedy e Malcolm X usavam cópias da marca. Mas a Ray-Ban jamais se queixou disso

54

| THEPRESIDENT | 06.2016

FOTOS: REPRODUÇÃO

Típico dos anos 1950, o Wayfarer (pretinho básico preferido de Bob


non, moldura perfeita para a onda power flower e para as ideias psicodélicas

Os Blues Brothers (os atores Dan Aykroyd e John Belushi) criaram sua

que moravam debaixo dos caracóis daqueles cabelos. Ou aqueles óculos

persona com os ternos e chapéus pretos e o modelo clássico da Ray-Ban, no

femininos de aros acrílicos gigantescos. Se o caro leitor é jovem a ponto de

final dos 1970. Debbie Harry, a Blondie, também era fã. Mas esses astros

não saber quem foi Andrea Thomas (que tirava seus oclões e virava a Pode-

não contam, nasceram diferentões.

rosa Ísis) ou ter tido uma tia doidona que usasse um modelo daqueles, dê um Google tipo “70’s women’s sunglasses” para entender o show de horror.

A era da customização

A Ray-Ban adaptou-se às novas tendências, criando desenhos que

Para sacudir a poeira, a companhia teve a sacada de usar o que, no

traduziram a alma dos anos psicodélicos. Entre eles, o Olympian usado por

jargão do marketing, se chama product placement: tascar sua marca na cara de

Peter Fonda em Easy Rider (1969), que dava ao galã certo ar de homem-mos-

gente influente. Um contrato foi firmado com uma empresa especializada

ca. Ou o Balorama, espécie de Wayfarer afinado, usado por Clint Eastwood

nisso e um dos primeiros resultados surpreendeu. Tom Cruise revivendo o

na série de filmes em que interpretou o tira Dirty Harry, a partir de 1971.

Wayfarer em Negócio Arriscado (1983) fez com que fossem vendidos 360 mil

Com a moda dos anos 1970 avançando em aberrações de cores e dese-

exemplares numa tacada. Madonna repetiu o feito no filme Procura-se Susan

nhos, a Ray-Ban seguiu a onda, lançando modelos arrojados e hoje de gosto

Desesperadamente (1985). Mesmo roqueiros alternativos como Johnny Marr,

discutível, como o Vagabond (que lembra o Aviator, só que com aros plásti-

guitarrista dos Smiths, banda inglesa sensação do meio da década de 1980,

cos mais grossos) e o Stateside – este, “a” cara da era da discoteca. Alguns

adotaram o Wayfarer (Johnny tem uma linha assinada com seu nome pela

vinham com armações de borda multicromática, em tons fortes e contras-

Ray-Ban). Havia a tribo new wave. Mas esses, em vez do preto básico dos

tantes. Há quem os busque nos sites de vendas de produtos vintage ou nos

darks, preferiam armações em cores como o verde-limão, o rosa-choque, o

brechós do planeta. Alguns valem uma nota preta.

jerimum-cheguei ou todas elas combinadas com outros matizes elétricos.

Pois moda é que nem bumerangue e, no final da década de 70, a Ray-

Outra ação poderosa, não se sabe se arquitetada pelo pessoal de

-Ban já não animava multidões co­mo na era Kennedy. Ainda assim,

marketing da Ray-Ban ou se ganha de bandeja, foi a presença de Michael

continuou encarapitado no nariz

Jackson na noite do Grammy de 28 de fevereiro de 1984. Depois de

de gente famosa. Bob Dylan

embasbacar a plateia com sua nova dança, o moonwalk de “Billie Jean”,

nunca deixou de usar os

carregou seu punhado de troféus ostentando um modelo Aviator (o mesmo

seus Wayfarers. Tam-

que Tom Cruise usou em Top Gun, de 1986). Jackson gerou milhares de

pouco Andy Warhol.

clones no planeta, usando Aviators genuínos ou fajutos.

LEGÍTIMOS

Modelos genuínos da marca apareceram nos rostos do general MacCarthur, Peter Fonda, os Blues Brothers e outros heróis e anti-heróis americanos

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

55


FOTOS: REPRODUÇÃO

CULT

GENTE DE VISÃO

Por gosto (ou contrato) eles também usam Ray-Ban: Debbie Harry, Tom Cruise, Michael Jackson, Madonna e Johnny Marr

56

Um novo declínio na popularidade do Wayfarer e de outros desenhos

também está no pacote de possibilidades. Cerca de 40% das vendas hoje

clássicos abalou a Bausch & Lomb nos anos 1990, quando grifes como a

vêm dos modelos customizados, que permitem a escolha de materiais pou-

Oakley dividiam a preferência da garotada. Ray-Ban havia virado carne

co prováveis como o couro, o denim e o veludo na confecção das armações.

de vaca, seus produtos chegavam a custar menos de US$ 20 e já não eram

A liberdade de criar seu modelo único, claro, não vence a força da

fabricados com a melhor matéria-prima. Podiam ser encontrados até em

moda. Os modelos Round, os “redondinhos” identificados como “óculos

lojas de conveniência de posto de gasolina. Endividada, em 1999 a empresa

John Lennon”, estão na crista, assim como o Aviator e o gatinho. A Ray-Ban

vendeu sua poderosa, embora combalida, marca ao grupo italiano Luxot-

não foi rápida ou esperta o suficiente para firmar contrato com Yoko Ono,

tica (que compraria a concorrente Oakley em 2007) por US$ 640 milhões.

que vendeu o nome do marido para outra empresa, a Adlens, criando a John

A nova direção logo tratou de recuperar a reputação da Ray-Ban, inves-

Lennon Eyewear Collection. Mas é só uma dar passada d’olhos pelo site ofi-

tindo em materiais mais nobres para a confecção dos óculos e numa grande

cial da Ray-Ban, na seção dedicada aos Rounds, para topar com alguém co-

campanha publicitária. Já em 2000, as vendas da Ray-Ban geraram € 252

mentando: “Adoro o estilo Lennon!” Que, sim, usou Ray-Ban também. Era

milhões para a Luxottica, número que em 2014 ultrapassava a marca dos

louco por óculos – a capa de seu disco Walls and Bridges, em que coloca um

€ 2 bilhões. Atualmente a Ray-Ban representa 27% das vendas do grupo

punhado deles na cara, está de prova. E nem os tirou quando ficou pelado ao

e abocanha 5% das vendas mundiais de óculos, segundo a revista Fortune.

lado de Yoko para a foto do disco Two Virgins (1968).

Hoje você não encontra mais seu Ray-Ban na loja de conveniência e, se

A esperteza da Ray-Ban é continuar relacionando o nome de celebrida-

quiser comprar um modelo básico, gastará no mínimo R$ 400 no site brasi-

des a seus produtos, mesmo que por sugestão ou associação de ideias. Uma

leiro da marca. Por aqui também contamos com o serviço de customização

de suas coleções mais procuradas pelos jovens é a Justin, com modelos que

que, lançado em 2013, permitiu pela primeira vez a consumidores criar seus

basicamente são cópia do Wayfare, porém alguns em cores ousadas, como

próprios óculos virtualmente. É possível escolher a cor das lentes, da arma-

o beterraba, e todos com armação emborrachada e acabamento fosco. Ah,

ção, das hastes, o tamanho e até gravar seu nome ou uma mensagem exclu-

é a linha de óculos de Justin Bieber, ele também é maluco por óculos, não é?

siva no interior da haste direita. A cor do estojinho, outro ícone da marca,

Não, não é. Mas quase todo mundo pensa que sim.

| THEPRESIDENT | 06.2016

P


capa

POR TOM CARDOSO retratos JORGE BISPO

Sempre antenado Aos 80 anos, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho continua ligadíssimo no mundo da TV. e diz que sonha comandar um canal só de jornalismo

58

| THEPRESIDENT | 03.2015

on

i


capa

60

| THEPRESIDENT | 06.2016


A

crise econômica obrigou José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, aos 80 anos, a tomar uma sábia decisão: não vai gastar mais um tostão com vinhos. Pelas suas contas, sua adega tem capacidade para abastecê-lo até o fim da vida, mesmo que ele mantenha o hábito de tomar, religiosamente, uma garrafa por dia – metade no almoço, metade no jantar.  Para o empresário e diretor de televisão, nascido em Osasco, na Grande São Paulo, em novembro de 1935, não foram só os preços dos vinhos que se tornaram proibitivos. Os restaurantes também não são mais os mesmos. Para driblar a crise, aumentaram de tamanho, diminuíram a qualidade da comida e se tornaram insuportavelmente impessoais. Ele diz que o fenômeno é mundial e repete sempre a mesma frase quando lhe perguntam se não está sendo exigente demais: “Não é importante conhecer restaurantes. É importante conhecer restaurantes que conheçam você”.  Pode parecer rabugice, mas não é. Boni sempre foi assim, exigente, perfeccionista. Não por acaso criou, com Walter Clark, outro gênio da história da televisão brasileira, o “Padrão Globo de Qualidade”, que fez da rede de emissoras da família Marinho líder de audiência e sinônimo de excelência. Faz quase 20 anos que ele deixou o cargo de diretor-geral da TV Globo – de 1998 a 2003, recebeu por volta de R$ 1 milhão por mês (ele não confirma nem desmente), para não fazer absolutamente nada. Fez.   O ócio o destruiria. Boni não saberia, nem se tentasse, ser um bonvivant. “Eu não consigo deixar de ser workaholic”, diz. Logo que a “quarentena” imposta pela Globo acabou, em 2003, ele colocou no ar a Rede Vanguarda, antiga TV Globo Vale do Paraíba, que, sob sua batuta, deixou de ser uma modesta emissora do interior paulista para virar uma potência da região, líder em audiência, faturamento e, principalmente, em inovação.  A Vanguarda foi a primeira emissora do país a utilizar câmeras Sony de alta definição, com gravação em cartão de memória. Também saiu na frente no Brasil ao usar os transmissores Harris HD-MAIVA, inaugurados em São José dos Campos e Taubaté pouco antes da transmissão da Copa do Mundo de 2010.    Nesse meio tempo, Boni quase foi parar no SBT. Chegou a assinar com a emissora de Silvio Santos. O animador, centralizador, não pagou para ver. Desistiu no dia seguinte. Por contrato, Silvio não poderia dar

nem um pitaco sequer na programação. Não se sabe se o SBT, nas mãos de um Boni, seria hoje uma emissora pronta para competir de igual pra igual com a Globo. O que se sabe é que ela seria muito diferente da atual líder de audiência. “Se é pra fazer algo que eu já fiz, eu nem saio de casa. O que eu gosto mesmo é de desafios.” Boni continua de antena ligada. É sempre procurado para emitir opiniões sobre programas de sua ex-emissora. Fala sempre o que pensa, sem rodeios, sem corporativismos. É, por exemplo, o mais ferrenho crítico do Big Brother Brasil, programa dirigido pelo Boninho, seu filho, que considera um grande talento, porém mal aproveitado. Boni acha que a Globo recuperou o prestígio e o rumo depois de uma fase de turbulência, que coincidiu com a chegada de Marluce Dias da Silva, sua sucessora. “Ela era uma boa administradora, mas não conhecia nada de televisão.” Boni faz elogios ao conteúdo dos telejornais da Globo, mas tem horror ao atual formato, que, na sua opinião, peca pelo excesso de informalidade, com âncoras passeando pela bancada, dando tapinhas nas costas de comentaristas e chamando repórteres e as moças do tempo pelo apelido. Também critica a “falta de ponto final” nos programas da emissora. Considera a recente entrevista do ator José de Abreu no Domingão de Faustão, que usou o espaço para fazer um desabafo pessoal, um desastre. Na sua época, Fausto Silva correria o sério risco de perder o emprego. Por algo parecido, Chacrinha – que deixou Juca Chaves falar demais – perdeu.   Os amigos também costumam ser vítima de seu “sincericídio”. “Se eu jantar na casa de alguém e me servirem um vinho de pouca qualidade – e me perguntarem a opinião –, eu vou dizer que o vinho é ruim, mas isso raramente acontece. Os meus amigos têm bom gosto.” É com eles que Boni conta para uma eventual emergência, ou seja, se ele viver mais do que imagina e chegar ao fatídico dia em que será obrigado a tomar a última garrafa de sua adega. “Espero morrer primeiro.”   Boni concedeu a entrevista a seguir em seu escritório, que ocupa o último andar de um pequeno edifício no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, com uma bela vista para o mar, que provavelmente é pouco apreciada pelo anfitrião. Durante toda a conversa, o diretor e empresário não tirou os olhos da televisão, nem abaixou o volume. A impressão é que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho nunca vai desligar da tomada. Nem quando os seus vinhos acabarem.

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

61


capa THE PRESIDENT: Quem bebeu mais vinho, o senhor ou o seu avô Isaías?

Ele morreu jovem, com sessenta e poucos anos de idade, mas mesmo assim é capaz de ter ganhado de mim. Ele era bom de copo?

Mais do que isso. Ele importou vinhos numa época em que ninguém bebia vinho no Brasil. Quebrou e teve de beber a loja inteira. Nunca ninguém faliu tão feliz. Esse é o seu avô materno…

Sim. Um espanhol, antifranquista, uma grande figura. Ao fim da Segunda Guerra Mundial ele veio pra cá achando que os brasileiros estavam aptos a tomar um Château Lafite Rothschild, um Romanée-Conti.

foram à bancarrota muito rapidamente. Eles chegaram a se conhecer?

Sim. E tomavam vinhos juntos, faziam apostas juntos. Joaquina, sua mãe, foi outra figura marcante na sua vida…

Sim, muito. Meu pai morreu cedo, com 33 anos, vítima de tuberculose. Minha mãe era a típica dona de casa, só sabia bordar. Teve de arrumar um emprego para sustentar os filhos. E o que ela foi fazer?

Ela foi tirar fotografia das pessoas e transferir a foto para os pratos, que era uma mania na época. Chegou a vender pratos até em velório. Foi expulsa. Era uma guerreira, uma ótima vendedora.

“Um grande erro foi substituir de uma vez os apresentadores do jornal nacional Cid moreira e sérgio chapelin. você não muda radicalmente o hábito do telespectador” E não estavam?

Não. Ninguém tomava vinho por aqui. Ele abriu a loja no Guarujá, pois havia aquele mito de que a cidade era um lugar sofisticado. E não é que ele vendeu pouco vinho. Ele não vendeu absolutamente nada. E como se virou?

Foi dono de cinema e também quebrou. Era um sonhador, um misto de literato, político e comerciante. O seu avô paterno era outra peça rara...

Sim. Francisco de Oliveira, lá de Osasco, também de origem espanhola. Ele comprava boi e vendia na mesma hora. Não chegava a criar. Uma espécie de marchand de gado. E jogador. Chegou a ser viciado em jogo?

Sim, perdeu tudo. Eu tenho dois avós que tinham muito em comum: os dois

62

| THEPRESIDENT | 06.2016

Ela sustentou a família assim?

Depois se tornou funcionária pública, foi delegada do trabalho. Aí a nossa vida melhorou um pouquinho. O senhor tinha quantos anos quando seu pai morreu?

Sete anos. Meu irmão Guga, 2. E o senhor tem lembranças dele?

Sim, tenho. Ele era uma figura muito marcante, uma pessoa muito diferente das outras da minha família. Era dentista por formação, mas se considerava músico. Ele tentou ser cantor, mas cantava muito mal. Tão mal assim?

Sim. Ele tocava um belo violão, era muito rápido. O cantor que ele era nunca conseguiu estar à altura do músico que foi. Chegou a ser contratado pela Rádio Cultura de São Paulo. Pensou que era como cantor, mas o dono da rádio foi logo baixando a

bola dele: “Cara, você canta muito mal. Aqui você vai acompanhar os calouros”. Ele chegou a fazer uma carreira?

Estava fazendo. Chegou a integrar o conjunto Chorões de Presidente Altino com o Zé Carioca [José do Patrocínio, lendário violonista]. Chegou a tocar com o Garoto. Não estava no nível deles, é claro, mas era um belo músico. Ele acabou se convencendo de que não era um bom cantor?

Não. Ele se achava um injustiçado. E foi por causa dele que o rádio entrou na sua vida?

Sim. Ele era sempre contratado para acompanhar os calouros. E me levava. Eu tinha 4 anos. Ficava mexendo em tudo. Levava os scripts para casa e ficava brincando: “Sobe o som!”, “Desce o som”!”. Depois eu fui ler jornais por influência do meu tio Reynaldo, que montou um mapa-múndi de 2 por 3 metros para acompanhar os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial. Ele lia os jornais comigo todos os dias, para que a gente pudesse atualizar o mapa da guerra. Eu costumo dizer que essa foi minha escola no rádio, que misturava arte com jornalismo. Vamos dar um pulo na história e falar de jornalismo. A Rede Globo foi acusada pelo PT de cobertura parcial durante todo o processo que resultou no impeachment da presidente Dilma Rousseff. O senhor concorda?

Não. Eu acho que a Globo tem feito um belo trabalho, absolutamente isento. Sempre tem alguém reclamando. Veja o caso do [ator] José de Abreu, que foi ao vivo no Domingão do Faustão defender o PT. Depois desse episódio as pessoas começaram a dizer que a Globo estava a favor do governo Dilma, que a Globo tomou partido.


A Globo reconheceu erros. Fez até um mea-culpa histórico, ao admitir que o principal jornal do grupo, O Globo, errou ao apoiar o golpe de 64.

Foi um erro da Globo admitir culpa. Por quê?

irritar os militares. E você acha que o doutor Roberto mandou quem era comunista embora, para não correr riscos? Que nada! Manteve todo mundo. Tem aquela famosa frase dele: “Dos meus comunistas cuido eu”. E nunca censurou o Dias Gomes, o Ferreira Gullar, nem ninguém. Por tudo isso eu acho que não faz sentido nenhum pedir desculpas.

Aquilo foi feito mais por inspiração do Evandro Carlos de Andrade [diretor de jornalismo da Globo de 1995 até sua morte, em 2010]. Ele era um sujeito brilhante, mas carregava essa culpa. E nem deveria carregar.

de programação, criada há mais de 50

Ele nem trabalhava nas Organiza-

anos pelo senhor e pelo Walter Clark.

A Globo mantém a mesma grade

[jornalista que atualmente apresenta o Jornal Nacional ao lado de William Bonner]. Foi um acerto então substituir a Patrícia Poeta pela Renata?

A Patrícia é ótima, mas a Renata Vasconcellos eu venho acompanhando faz tempo, desde a época da GloboNews. Ela foi crescendo de uma forma tão consistente, tem um equilíbrio, uma leveza, uma voz perfeita. E é inteiramente correta em suas colocações. Comentou-se na época que a

ções Globo na época do golpe…

Não está na hora de mudar?

saída da Patrícia Poeta da bancada do

E não é só por isso. Todo mundo embarcou no negócio da revolução. E quem bancou tudo aquilo foram os Diários Associados [grupo de comunicação que pertencia ao empresário Assis Chateaubriand], que promoveram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Depois todo mundo entrou, o Estadão, a Folha.

Não acho que seja a hora de mudar. Eu não mexeria. O que houve, durante um tempo, foi o enfraquecimento de seu jornalismo e de sua parte de criação.

Jornal Nacional se deu principalmente

Mas a Globo não foi oposição à ditadura como os outros veículos de comunicação que o senhor citou…

E nem poderia! Os outros pularam fora, mas o doutor Roberto [Marinho, presidente das Organizações Globo] não podia virar oposição. Se entrasse, perderia a concessão. O governo cassaria. E mesmo assim eu afirmo com total segurança que a Globo nunca foi subserviente à ditadura. O senhor não está sendo muito condescendente?

Não. O doutor Roberto nunca censurou ninguém. Quem censurava eram os censores. E a gente era tratado com mais dureza do que os outros. O Estadão publicava trechos de Os Lusíadas, do Camões, para mostrar que uma notícia havia sido censurada e pronto. Já a gente tinha de fazer entretenimento para o público, “pentear as coisas”, como dizia o Dias Gomes, sem

E qual foi esse momento?

Quando a Marluce [Dias da Silva, diretora-geral da Rede Globo de 1998 a 2002, sucessora do próprio Boni] e o Evandro [Carlos de Andrade] chegaram. Eles não eram do ramo. A Marluce prometia uma nova mentalidade administrativa, mas não conhecia nada de televisão. É uma pessoa a quem eu quero muito bem, mas ela cometeu equívocos por falta de conhecimento. Não vou apontar aqui quais foram os erros, que foram muitos. É uma pessoa da qual gosto muito. E quais foram os erros do Evandro?

O maior deles: substituir os dois apresentadores do Jornal Nacional Cid Moreira e Sérgio Chapelin. O certo era mantê-los?

Você não muda radicalmente o hábito do telespectador. O Cid e o Sérgio estavam há mais de 20 anos apresentando o jornal. E você vai lá e tira os dois? Que fosse alternadamente então, mas nunca os dois juntos. Não sou contra a mudança. É preciso sempre renovar. Eu, por exemplo, sou fã incondicional da Renata Vasconcellos

pelo seu mau desempenho durante a entrevista com Marina Silva, então candidata à Presidência. O senhor viu a entrevista?

Sim, eu vi. Ela não estava à vontade, principalmente para improvisar. A Patrícia é uma ótima profissional, mas queimou etapas. Sofreu por essa falta de experiência e a Globo acertou ao substituí-la pela Renata, que é infinitamente melhor. Mas tem um lado do JN de que eu não gosto. Qual é?

Quando desbanca para o informal. Essa coisa de levantar, de dar tapinha nas costas, de chamar o jornalista pelo apelido. Não dá uma leveza?

O Jornal Nacional não tem que transmitir leveza. Tem que transmitir credibilidade. E em tempos de internet, quando todo mundo sabe a notícia, o que aconteceu, a responsabilidade do Jornal Nacional aumenta ainda mais. Ele não precisa ser sisudo, mas precisa ser correto, sério, austero. Na sua época, se o senhor percebesse algum deslize por parte dos apresentadores do Jornal Nacional, o senhor interferia pessoalmente, ao vivo?

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

63


capa Sim, fiz isso várias vezes. No caso da polêmica do José de

aguentar essa lenga-lenga. O senhor nunca se viu tentan-

Abreu no Domingão do Faustão, qual

do a dirigir novamente uma grande

seria a sua atitude? O quadro com

emissora?

ele estava sendo transmitido ao

Eu estou lá fazendo a TV Vanguarda. Se alguém aparecesse com uma proposta para fazer uma televisão nova, de massa, diferente, eu toparia. Se é pra fazer o que já fiz na Globo, eu não tenho o menor interesse, o menor prazer. Não por ter algo contra o modelo atual, que eu acho extraordinário, e fico envaidecido por ter sido responsável por sua criação, junto com o Walter Clark. Mas acho que se é para colocar minha energia num novo projeto que ele seja novo em sua essência.

vivo. Como interrompê-lo naquele momento?

Primeiro, acho que o espaço dado ao Zé de Abreu foi exagerado. A televisão deve restringir o máximo possível as colocações individuais. O Zé é um cara fantástico, acho que ele tinha o direito de desabafar, mas o espaço foi extenso demais. Como cortá-lo?

Eu ligaria para a produção do programa e mandaria o Faustão chamar os comerciais.

“Adoraria dirigir uma emissora totalmente voltada para o jornalismo. Uma bbc brasileira, uma cnn, amplamente conectada com as redes sociais. eu toparia na hora” E se o Faustão não fizesse isso?

Eu o mandaria embora. Fiz isso com o Chacrinha. Por quê?

Chacrinha começou uma entrevista interminável com o Juca Chaves. Pedi para ele encerrar. Ele não encerrou. Eu tirei o programa do ar, ele ficou possesso e eu o demiti. Foi para a TV Tupi. Depois ele voltou pra Globo e nunca mais houve problema nenhum. Está faltando um Boni na Rede Globo?

Eu acho que todas as emissoras perderam uma coisa chamada “ponto final”. Isso acontece em todos os programas, de entretenimento, de política, de esporte. Fica um blá-blá-blá e ninguém faz nada. Não é preciso ter respeito pelo entrevistado, e sim por quem está em casa sendo obrigado a

64

| THEPRESIDENT | 06.2016

E o que representa o novo na sua opinião?

Eu adoraria dirigir uma emissora totalmente voltada para o jornalismo. Uma BBC brasileira, uma CNN, mas amplamente conectada com as redes sociais. Eu toparia na hora. O senhor ficou muito perto de comandar o SBT. Por que não deu certo?

Eu acho que o Silvio [Santos] ficou com medo de que eu mexesse muito no SBT, que levasse a emissora para outro lugar, distante do que ele havia sonhado. Achei justo quando ele me colocou o problema. Se ele estava tão preocupado assim não tinha razão para a gente continuar a parceria. Vocês chegaram a assinar contrato?

Sim, assinamos. Ele ligou na minha casa no dia seguinte, explicando que não

estava feliz com o contrato que tinha assinado. Ele sabia que eu carregaria o SBT em cima do jornalismo. E ele nunca gostou de investir em jornalismo…

É, mas o meu projeto era audacioso. Eu ia fazer um jornalismo dinâmico, mais com a cara do SBT, bem diferente do feito na Globo, mas sem descambar para o sensacionalismo, sem ser apelativo. O Silvio começou a ficar apavorado. A multa para a rescisão de contrato era alta. Aí nós fizemos um distrato, não cobrei nada. Não seria justo. Se o projeto fosse pra frente, o senhor acha que o SBT seria uma emissora totalmente diferente?

Difícil dizer. Eu me lembro que a primeira pergunta que o Silvio fez foi: “Quanto vamos gastar?”. O que o senhor respondeu?

Eu disse que eu buscaria financiamento para tudo. E já tinha todos os contatos, empresas interessadas. E provavelmente não gastaria uma fortuna, pois não queria tirar nenhum profissional da Globo, bancar nenhuma multa. Eu ia trazer gente nova. O problema com o Silvio não foi de ordem financeira. Pelo contrato ele não poderia palpitar em nada na programação, não teria a ingerência que sempre teve. Isso o apavorou. O SBT não mudou muito desde então…

É, o Silvio pensa o SBT como uma espécie de reprodução do que ele é, uma emissora comandada por um animador, com foco no entretenimento popular. Tanto que ele sempre tentou achar um substituto para ele mesmo, com a cara dele. Tentou com o Ratinho, com o Celso Portiolli. E, convenhamos, é um modelo de sucesso, desde, claro, que ele esteja


No escritório: foto do doutor Roberto na parede

ali, no comando. O senhor acha que ele um dia vai encontrar um substituto à altura?

Não. Não vai. Dizem que a Patrícia Abravanel herdou o carisma do pai.

Mas não é igual. Um Silvio Santos não se repete, assim como um Roberto Carlos, um Chacrinha. Não tem substituto. E um Boni, tem substituto?

Aí você me complica. Prefiro falar sobre os outros. O senhor nunca foi convidado para voltar para a Globo?

Não. E não faria mesmo o menor sentido eu voltar. Por quê?

Porque o modelo que está ali é um

modelo que eu e o Walter Clark adotamos. Ele precisava apenas de algumas correções, que começaram a ser feitas depois da saída da Marluce. E estão sendo resolvidas de maneira correta. O senhor chegou a dizer que teria infartado se continuasse na Globo.

É, hoje a minha qualidade de vida é muito melhor. Eu continuo fazendo as minhas brincadeiras. E seria impossível pra mim a convivência com aquela Globo que se montou naquele momento, uma Globo inteiramente contrária à criação, sem comando algum. E as pessoas precisam ser orientadas para saber exatamente o que fazer. E isso se perdeu na época?

Sim, confundiram liberdade com anarquia. Sempre houve liberdade na minha

época. Eu não era o “Rei das Decisões”, um Silvio Santos. Eu trabalhava em equipe, com pessoas muito importantes, nomes como Daniel Filho, Dias Gomes, Janete Clair, Augusto César Vannucci, Armando Nogueira, Borjalo [Mauro Borja Lopes], [Renato] Pacote. Sempre trabalhei com os grandes, que comandavam núcleos e que tinham responsabilidades muito claras. Funcionava bem assim. Quiseram acabar com esse modelo. Quem quis acabar com esse modelo?

Quem estava no comando da Globo na época. O senhor disse que hoje tem qualidade de vida. Tornou-se um bon-vivant?

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

65


capa Não sou um bon-vivant. Aliás, detesto todo sujeito que se diz bon-vivant. Tenho é paixão pelo trabalho, sou um workaholic, adoro criar coisas. Na TV Vanguarda eu faço todos os comerciais, faço todas as vinhetinhas.

Sim. Bebo na casa deles e eles na minha. Deixamos de comprar.

Mas o senhor gosta de aproveitar

mônia e lhe servem um vinho ruim?

E existem adegas de amigos à altura da sua?

E quando o senhor vai beber na casa de um amigo ou em alguma ceri-

a vida, de viajar, de um bom vinho, de

Eu disfarço e deixo de lado. Não tomo.

restaurantes.

Já aconteceu algumas vezes?

Sim. Mas é um ócio criativo. Prefiro esse termo.

Várias vezes.

Existe algum vinho que ainda falta beber?

Não. Eu estou é precisando beber mais. E não pode?

Não, porque os vinhos estão com

E quando pedem a sua opinião sobre o vinho, e o vinho é ruim?

Sou sincero e digo o que eu acho. Quando não perguntam, eu não falo nada. Fico quieto. Quando não dá para deixar de lado, finjo que estou bebendo.

“Cada um dos três filhos do doutor roberto marinho tem um pouco do pai. mas você precisa juntar os três para dar um doutor roberto”

preços astronômicos. Eu não tenho mais possibilidade de tomar todos os vinhos que eu queria. Não tenho mais recursos financeiros para tanto. É evidente que eu tenho vontade de tomar alguns vinhos, mas olho o preço e desisto. E que vinhos são esses?

E olha que eu não estou falando nem de um Romanée-Conti. Tem vinho que eu tomava regularmente e que está custando R$ 50 mil reais a garrafa. Um absurdo. Então decidi não comprar mais. Estou com 80 anos e agora decidi tomar o que tenho na minha adega ou na casa dos amigos. Minha adega está diminuindo. Não reponho mais. Então o senhor pretende esvaziá-la aos poucos?

Sim. Quando eu morrer, o cara pode até namorar a minha mulher, mas não vai beber os meus vinhos. Vou deixar só um pouquinho para o Boninho. Ele merece.

66

| THEPRESIDENT | 06.2016

Mas não bebo. O senhor falou do Boninho, o seu filho. Ele é diretor do Big Brother Brasil, programa muito criticado pelo senhor. Ele fica chateado?

Não. Eu acho o programa ruim. Mas o BBB dirigido por ele é o melhor do mundo. O Boninho tem talento, pois comandar um programa como aquele não é fácil. É tirar leite de pedra. Como era a convivência pessoal com o Walter Clark, sendo vocês tão

Sim. Quem convivia de perto, como eu, percebia na hora. O Walter chegava de manhã e já não estava bem. O que o atrapalhava mais era o álcool. A cocaína nem tanto. Ele perdia o brilhantismo que lhe era peculiar. Passou a protelar as coisas. E a gente tinha pressa. A TV Globo não seria o que é sem o Walter, mas chegou um momento em que a convivência com ele ficou difícil. Eu acho uma pena o que ocorreu com ele, os problemas com o alcoolismo, o jeito que ele saiu. Eu diria até que, se ele tivesse ficado, eu estaria até hoje na TV Globo. Por que essa certeza?

Porque a saída dele enfraqueceu o time, acelerou a ruptura que determinou a minha saída também, anos depois. E a relação com Roberto Marinho?

Era a melhor possível. Se bem que eu me queixava. Pedia aumento?

Não. Eu queria que ele me desse uma fatia de alguma afiliada à Globo. Eu dizia: “Doutor Roberto, não sei até quando vou ficar aqui, provavelmente boa parte da vida. Eu tenho uma família, preciso construir um patrimônio”. Enquanto estive na Globo, recebi várias proposta para sair e não saí. Achava que deveria ser recompensado de alguma maneira. Quais foram as propostas

diferentes?

para sair?

O Walter era uma pessoa brilhante, mas muito sensível. Eu sempre dizia muito claramente as minhas opiniões. Ele, não. Vivia angustiado. Eu tirava o paletó e ia pra casa. Ele colocava o paletó e ia pra sala do doutor Roberto.

Recebi, por exemplo, proposta da Bandeirantes. Sempre tive um ótimo relacionamento com o João Saad. E a Band na época estava zero-quilômetro, eu poderia fazer muita coisa por lá. Mas sempre que eu recebia uma proposta, o doutor Roberto me convencia a ficar. Um dia ele me chamou na sala.

Era perceptível o problema dele com álcool e drogas?


capa

1

2

3

4

5

6

1. Os avós paternos, Ana Carolina e Francisco Caetano; 2. O jovem Boni, ainda em Osasco; 3. Com Walter Clark, numa festa no início da década de 1970; 4. Pose para a capa de um LP da gravadora RGE, em fins dos anos 1950; 5. Ao lado da mulher, Lou, descerrando seu retrato no restaurante Fiorentina; 6. Na amada adega – que promete beber inteira

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

67


Pra quê?

Ele foi direto: “Você vive dizendo que não tem nada, que não sei o quê. Agora cala essa boca, nunca mais reclama porque eu vou te dar 50% da TV Sorocaba. E aprende uma coisa nessa vida: não fique pedindo as coisas. Espere as pessoas darem para você”. Qual foi a sua reação?

Eu disse: “O senhor está me dando 50% da TV Sorocaba só porque eu pedi? Não porque eu mereço? Então eu não quero. Desse jeito, com o senhor se dizendo pressionado, eu não quero”. E ele?

Ele não esperava essa minha reação. Ficou com o contrato na mão, pedindo para eu assinar. Eu não assinei. E ele: “Larga a mão de ser teimoso, larga a mão de ser espanhol. Vai pra casa. Amanhã você me dá uma resposta”. Voltei no dia seguinte e não assinei.

para dar um doutor Roberto. Qual está mais próximo do pai?

Difícil dizer. O José Roberto tem essa coisa do refinamento. O Roberto Irineu é ousado, impetuoso. Mas não tem nenhum que seja realmente muito próximo do que foi o pai. Qual foi o maior talento da história da televisão brasileira?

Eu trabalhei com tanta gente importante. O Walter Clark era um gênio. Tem o Armando Nogueira, o Dias Gomes, o Daniel Filho. É difícil apontar um só. Mas se fosse para escolher uma figura talvez eu escolhesse o Cassiano Gabus Mendes, por ter sido o pioneiro, por ter montado a base dessa indústria. A Globo vai perder a hegemonia

conselho da TV Brasil, mas não durou

Se a TV Globo perder a hegemonia não vai ser mais a TV Globo. Vai direto para o

muito por lá. Por quê?

achou que estava tudo resolvido e foi inconsequente. resolveu gastar o dinheiro todo e deu no que deu”

TV Sorocaba?

Pra você ter uma ideia, a TV Sorocaba é, hoje, maior que a TV Vanguarda. Se eu tivesse as duas, então, estaria muito bem. Não se arrependeu mais tarde?

Não. Ficaria com aquilo na cabeça para sempre, de ter recebido não um presente do doutor Roberto, pelos meus serviços prestados à Globo, e sim o resultado de um pedido que ele achava que era uma exigência. Qual dos três filhos é mais parecido com o doutor Roberto?

Eu acho que cada um tem um pouco do pai, mas você precisa juntar os três

68

| THEPRESIDENT | 06.2016

O senhor participou do primeiro

algum dia?

“A dilma pegou o país acertadinho, entregue pelo lula.

Era um bom patrimônio os 50% da

Em alguns momentos, que eu já citei, quando a Globo colocou gente que não entendia de televisão para administrá-la, esse padrão ficou ameaçado, mas nunca deixou de pautar a programação. Na minha época, a obsessão por audiência não era só para ganhar do adversário. Era preciso ganhar de goleada, atrair uma fatia grande do mercado publicitário que permitisse que a gente não só investisse em novela mas também em sucursais de jornalismo no exterior, criasse, enfim, uma estrutura invejável que resultasse num grande diferencial de qualidade. Se a Globo perder muita audiência, ela vai perder recursos e, consequentemente, qualidade. Aí não será mais a TV Globo.

fundo do buraco. Não só a Globo, mas a televisão brasileira. Por quê?

Porque é importante que a Globo mantenha a liderança, que não precisa ser esmagadora, como era antes, mas precisa existir. Se ela perder o primeiro lugar na audiência, ela vai perder anunciantes e não terá dinheiro para produzir com alta qualidade, que é a sua grande marca. Eu torço para que ela se mantenha por muitos anos na liderança para o bem da televisão brasileira. Mas o “Padrão Globo de Qualidade”, implantando pelo senhor, nunca esteve ameaçado?

Eu participei só de duas ou três reuniões. E pediu o chapéu?

Eles achavam que bastava montar um conselho com pessoas importantes. Você precisa montar um conselho de gente que entende do negócio. Quando vi que estava sozinho, pulei fora. O Brasil vai sair da crise?

Eu nunca vi nada tão confuso. Além da questão econômica, da crise política, você tem esse fliperama jurídico, ninguém sabe quem é culpado realmente, quem não é. Se vamos sair da crise, não sei dizer quando e se vamos sair tão cedo. É uma pena, porque o Brasil estava no caminho, parecia que a gente ia decolar. Qual foi o momento em que perdemos a mão?

O Lula chegou a fazer coisas boas. Mas aí entrou a Dilma. Sabe a história do filho de pai rico?


Sai gastando a fortuna do pai…

Pois é. A Dilma pegou o país acertadinho, entregue pelo Lula, muito por conta da ajuda externa, de um momento favorável. Ela achou que estava tudo resolvido e foi inconsequente. Podia fazer tudo ficar ainda melhor, mas não: resolveu gastar todo o dinheiro do pai. Deu no que deu. O senhor acaba de voltar de Nova York. Foi, como sempre, a bons restaurantes?

Eu vou te dizer uma coisa: não é só a economia mundial que vai mal. A gastronomia também está indo para o vinagre. Por quê?

A crise mundial levou os restaurantes a mudar de postura. Hoje é raro você encontrar um restaurante para 30, ou 40, no máximo 50 pessoas. Os restaurantes agora são enormes, impessoais. Pega o exemplo do Peter Luger’s Steakhouse, de Nova York, um lugar que eu adorava. Era um restaurantezinho charmoso onde cabiam no máximo 50 pessoas. Hoje cabem 500. O dono precisa desse volume para gerar receita. E eu sempre digo: não é importante conhecer restaurantes. É importante conhecer restaurantes que conhecem você. É um fenômeno mundial?

Sim. Uma desgraça. Antes o garçom sabia quem você era, sabia onde você gostava de sentar, o seu prato preferido, o ponto certo da carne. Hoje, impossível. E a queda de qualidade não se dá apenas no atendimento. Quando se cozinha para tanta gente, a qualidade da comida cai. Não tem jeito. Mesmo em Paris, que sempre foi referência em gastronomia, os restaurantes tradicionais estão perdendo espaço para os bistrôs de média qualidade. E aqui no Brasil?

Em São Paulo tem dois ou três res-

taurantes em que vale a pena comer. O resto é enganação. Então o senhor raramente

tempo. E nem sei se vai acabar um dia. A televisão, como produto, nunca esteve tão forte, mesmo com a popu-

come fora?

larização da internet, dos computado-

Cada vez menos. Acabou a tradição dos bons restaurantes de tamanho médio e pequeno, porque eles têm de trabalhar com matéria-prima de primeiríssima qualidade, bancar o serviço, que também é caríssimo. E o que eles fazem? Baixam a qualidade da comida e tentam disfarçar fazendo tudo bonitinho, arrumadinho, caprichando na decoração, na iluminação.

res. É isso?

No Rio, não existe mais um restaurante que o senhor possa chamar de segunda casa?

Não. Essa segunda casa está acabando. Está tudo fechando. Com o a crise, diminui-se o gasto com vinho. Aliás, a crise fez tudo fechar ou baixar de qualidade. Os jornais já bateram as botas. E qual o futuro da televisão?

A televisão é mais forte, o veículo mais importante para a publicidade. E vai continuar sendo assim por muito tempo ainda. Pode ser que caia a qualidade, pelos motivos que eu apontei, mas a televisão não vai perder a hegemonia. Mas ela já não está perdendo audiência para a internet?

Não. A internet talvez permita, e já está permitindo, que a pessoa veja o programa que quiser, mas aquele conteúdo ainda está sendo produzido pela televisão. E tem uma coisa importante: nós somos animais gregários, gostamos de viver em grupo. E a televisão sempre estará ligada a isso. Você não chegou aqui e perguntou quanto estava o jogo do Real Madrid? As pessoas querem discutir o que aconteceu na novela. Essa imagem da família vendo tevê no sofá vai durar muito

Sim, exatamente. É fantástico você poder ver um jogo de futebol pelo seu iPhone, ou ver um filme no latpop enquanto viaja. Tudo isso é incrível. Mas se você pensar a televisão se defendeu muito bem de tudo isso, na medida em que se tornou possível comprar aparelhos de telas cada vez maiores, com som de qualidade cada vez melhor. A televisão não está sumindo da casa das pessoas. Pelo contrário: está ocupando cada vez mais espaço. Então a próxima revolução ainda está longe de acontecer?

Não sei. As revoluções são imprevisíveis. Espero estar vivo para testemunhar o máximo possível de transformações. Eu tenho fixação pelo novo. Como está a saúde?

Muito bem. Continuo tomando todos os remédios possíveis. Não posso passar em frente a uma farmácia. Se passar, eu entro. Eu tomo quatro remédios receitados por médicos e mais de 20 por minha conta. O senhor é hipocondríaco?

Existem dois tipos de hipocondríacos: o tipo 1, que se enche de remédios sem consultar os médicos; e o tipo 2, que enche os médicos para tomar remédios. Em que tipo Boni se enquadra?

Nos dois. Outro dia entrei numa farmácia e vi uma caixa de remédios cor de laranja com 96 comprimidos. Nunca tinha visto aquele remédio. Seria uma nova vitamina? Na dúvida, levei. Tomou? Era remédio pra quê?

Era um novo anticoncepcional. Não tomei. P

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

69


relógios Suíça Honda butterfield & Robinson swiss


viagem

Quatro razões para ir à Suíça De Berna ao Cantão de Valais, belezas para todas as estações

cantÃo de berna região luminosa

R

Berna: para Goethe a mais linda cidade

aríssimas cidades do mundo preservaram a arquitetura medieval do seu centro histórico como Berna. A capital da Suíça, de 140 mil moradores, manteve um conjunto arqui-

tetônico erguido na segunda metade do século 12 – e reverenciado pela Unesco. São ruelas adoráveis, com lindas torres. Percorrê-las é facílimo, mesmo quando chove: seis quilômetros de calçadas são protegidos por arcos, formando um dos complexos de compras mais charmosos do planeta. As lojas privilegiam a produção regional de moda, design, joalheria, arte e gastronomia (sim, os célebres queijos, biscoitos e chocolates suíços). O poeta alemão Johann Goethe enxergou Berna com olhos

luminosos, exclamando a uma amiga em carta datada de 1779: “É a cidade mais linda que já vi”. Quem imagina a Suíça como roteiro exclusivo de inverno pode se inspirar no entusiasmo de Goethe e programar férias de primavera e verão nos arredores de Berna. Na região de Interlaken (entre os lagos Thun e Brienz), os aventureiros programam voos de paraglider sobre os vales alpinos ou escolhem entre várias opções de excursões de canyoning pelas rotas acidentadas das redondezas, enfrentado água e rochas. Quem prefere um trajeto mais sossegado e confortável vale-se de um sofisticado sistema de trens, teleféricos e funiculares para ganhar as alturas. O passeio pela ferrovia de Jungfrau, rumo à estação de trem mais alta da Europa, a 3.454 metros do nível do mar, é outro clássico bernês recomendado. Nesse pedaço, vilarejos como Grindelwald, Wengen, Mürren, Lauterbrunnen e Haslital, dotados de excelente rede hoteleira e gastronômica, recebem o visitante com charme. Recantos pitorescos para descansar a mente à visão das magníficas montanhas alpinas não faltam. Ou para continuar a aventura: a área de Jungfrau conta com muitos quilômetros de trilhas para serem percorridas a pé ou próprios para a prática de mountain bike, dependendo do seu estilo. madeinbern.com (Sergio Crusco)

72

| THEPRESIDENT | 06.2016


região do LAGO DE GENEBRA BELEZA, CULTURA E BOA COMIDA

A

s cidades de Lausanne e Mon-

famosos festivais de jazz. Bem ao lado, Ve-

pelos tratamentos de saúde, estética ou

treux Riviera, encravadas à beira

vey traz uma ótima novidade: em abril foi

relax, em clínicas como a La Prairie, em

do limpíssimo lago de Gene-

aberto o museu em homenagem a Charlie

Montreux Riviera. Muitas dessas opções

Chaplin, no casarão onde o cineasta viveu

terapêuticas se unem à arte da boa hospe-

locação perfeita para quem quer estar em

seus últimos 25 anos. Os visitantes conhe-

dagem, em hotéis com serviços de spa de

paz com a saúde e a boa vida. Situada no

cem a vida do ator e diretor por meio de

última geração como o Beau Rivage Palace

oeste da Suíça, a região é famosa por seus

uma vasta coleção de objetos pessoais,

Lausanne e o Fairmont Le Montreux

grandes restaurantes (101 deles rese-

projeções em HD e 3D, efeitos especiais

Palace. O Royal Savoy, joia arquitetônica

nhados no guia Gault & Millau e 11 deles

visuais e sonoros.

de Lausanne, fundado em 1906 e também

bra, o maior da Europa Ocidental, são a

estrelados no Michelin), hotéis e spas de luxo, alguns dos melhores do planeta.

A 10 minutos de Vevey está Lausanne,

equipado com spa, reabriu no final do ano

a charmosíssima cidade que, na verdade,

passado após longa reforma. Vem de brin-

Em um extremo do lago está Mon-

são duas: a alta (Haute Ville) e a baixa

de a paisagem vista do terraço, abarcando

treux Riviera. Montreux, com seu espírito

(Basse Ville). Toda a região do lago de

a cidade, o lago e os Alpes.

de Riviera Francesa, tem um dos mais

Genebra tornou-se famosa, em especial,

lake-geneva-region.ch (SC)

Catedral de Lausanne

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

73


VALAIS OS ALPES DOS CARTÕES-POSTAIS

U

mais luxuosos resorts de ski da Europa em

ou o restaurante do Hotel Fletschhorn,

fronteira com a Itália e com a França, é

busca de velocidades quase siderais. Um

ambos especializados em carnes.

tomar a Furka Pass, estrada estonteante

sistema de bondinhos aéreos permite

em curvas e em visões magníficas. Ali está

mesmo aos mais pacatos apreciar maravi-

os Alpes têm ainda mais cara de cartão-pos-

o lago glacial que dá origem ao Rotten, rio

lhas como a Grande Geleira de Aletsch, a

tal. Nas cidades vizinhas de Crans e Monta-

rebatizado de Rhône quando entra em

maior dos Alpes.

na, avistam-se o Matterhorn e Mont Blanc,

ma das maneiras de começar

explorar as trilhas montanhosas a pé du-

busca-se a dose de proteína necessária à

sua aventura por Valais, cantão

rante o verão e os que visitam alguns dos

aventura em endereços como o Essstube

ao sudoeste da Suíça, que faz

território francês. No caminho de des-

Ao sul da Valais, o Vale do Saas abriga

Há muito o que explorar na área onde

na fronteira entre França e Itália, picos reco-

cida, casas de madeira e igrejas brancas,

outro punhado de vilarejos no estilo conto

nhecíveis até por quem nunca pisou naquele

completam a paisagem de vilarejos como

de fadas, entre os quais Saas-Fee é o mais

solo. O roteiro de cidadezinhas pitorescas é

Gletsch, localizado na região de Goms.

procurado por esquiadores e comilões. Diz-

completo por Zermatt, Leukerbad, Verbier

se que ali está a melhor fondue do mundo,

e os povoados encravados nos vales da

em restaurantes como o Dü Saas-Fee. Ou

região de Martigny. visitvalais.ch (SC)

Essa região suíça recebe milhares de turistas o ano inteiro: os que preferem

Vale do Rhône, Valais

74

| THEPRESIDENT | 06.2016


Bernina Express: o roteiro é patrimônio da Unesco

PASSE LIVRE NA SUÍÇA PARA REBELDES E CERTINHOS

O

K, você está na terra dos

nicipal e até barcos, caso queira atravessar

Zermatt, St. Moritz e Lugano – e as para-

relógios, da pontualidade, onde

um dos grandes lagos suíços. Você começa

dinhas que se decida fazer entre elas.

chegar cinco minutos atrasado

seu roteiro onde quiser e quando quiser,

Outra vantagem do Swiss Travel Pass

pode ser uma gafe irreparável. Mas não é

mas vale lembrar que é recomendável

é o acesso livre a quase 500 museus e

preciso traçar um roteiro com programa-

fazer reserva para trens de alta velocidade,

instituições do país, incluindo o Museu

ção milimétrica para conhecer o melhor

internacionais ou noturnos.

Nacional de Zurique, o Zentrum Paul

da Suíça. A viagem pode ser feita ao sabor

Para quem gosta de tudo organiza-

Klee em Berna, a Maison do Gruyère em

do “por que não ficar um pouquinho mais

dinho, mas não quer necessariamente

Pringy-Gruyères ou o Castelo de Chillon

por aqui?” ou do “vamos ver a surpresa

pensar nessa organização, o sistema de

em Montreux. Antes de viajar, você

que nos espera na próxima parada”.

transporte do país sugere os roteiros do

pode conferir virtualmente os roteiros

Com o Swiss Travel Pass, comprado

Grand Train Tour of Switzerland. São

sugeridos da Grand Train Tour no site

online, é possível usufruir à vontade do

programas de quatro a oito dias, com

grandtraintour.swisstravelsystem.com,

sistema de transporte público do país, no

dicas maleáveis, que cobrem oito trechos

para depois decidir quantos dias de Swiss

período de dias que você estipular, incluin-

de ferrovias entre cidades-chave como

Travel Pass precisará no MySwitzerland.

do trens, ônibus, transporte público mu-

Zurique, St. Gallen, Lucerna, Montreux,

com/rail (SC)

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

75


Rodas da fortuna George Butterfield, o homem que inventou os roteiros chiques de bicicleta Por Juliana Amato

V

Hoje, a B&R comemora 20 anos no

férias pedalando é algo comum.

Brasil e ainda se considera empresa familiar,

viagem com sua mulher e seu

Mas há meio século, quando

embora promova viagens de bicicleta em

cunhado. Foi dela que surgiu a B&R? Mr. Butterfield: Não costumávamos

George Butterfield, aos 27 anos, teve a ideia,

mais de 80 países. Mr. Butterfield está

com o amigo de escola Sidney Robinson,

envolvido nas operações do dia a dia e guia

viajar muito. A intenção era apresentar

de fundar a agência de viagens Butterfield &

ao menos uma viagem por ano, enquanto

aos estudantes a cultura de Nápoles,

Robinson, a prática era muito restrita. Com

sua mulher, Martha, trabalha no marketing.

Roma, Florença e Veneza. Não tínhamos

sede em Toronto, no Canadá, a empresa

Enquanto isso, David, filho do casal, cuida

dinheiro. Mas sabíamos o que estávamos

começou tímida, oferecendo viagens de

da propriedade da família na Borgonha, na

fazendo e descobrimos que formávamos

bicicleta na Europa para estudantes. Já na

França, de onde saem Grand Crus, Premier

um bom time. No fim, o dinheiro nos

década de 1980, seus clientes eram agora

Crus, Villages e Régionales.

ajudou a pagar a hipoteca da casa e,

gente exigente que, entre as pedaladas, se

76

Em 1966, você organizou uma

iajar ao exterior para passar as

THE PRESIDENT conversou com

hospedava em hotéis de luxo e apreciava alta

Butterfield em São Paulo. Estava presente

gastronomia e vinícolas.

Norman Howe, CEO da B&R.

| THEPRESIDENT | 06.2016

depois dessa experiência, decidimos seguir por esse caminho. Como as suas viagens pessoais o


Butterfield: na Borgonha e no escritório em Toronto

inspiraram a criar o DNA da B&R? Mr. Butterfield: O DNA da Butterfield & Robinson é composto pelas viagens que eu gostaria de fazer. As pessoas sugerem roteiros em praias nos feriados especiais. Mas não é isso que eu quero fazer. Queremos viajar de bicicleta pelo sul da França, promover caminhadas pelo Piemonte. Viajar pode ser uma experiência quase religiosa no sentido de proporcionar uma transformação espiritual. E o que fazemos é muito mais fácil do que queimar gasolina ao redor do mundo. Norman Howe: A B&R é a primeira companhia que tirou as pessoas de

Butterfield & Robinson oferece

um ambiente de ônibus de excursão e

mais de 100 roteiros pelo mundo.

atmosfera de ar-condicionado. Nossas

Qual será o próximo passo?

viagens são sensoriais. Você sente o cheiro

Norman Howe: Estamos procurando

ambiente. Como viajar o ajudou a descobrir questões ecológicas? Mr. Butterfield: Isso não está ligado apenas às viagens e sim ao que você

da lavanda, o vento nos cabelos, o prazer

lugares que estão voltando ao cenário

vê nos jornais. O gelo derretendo no

das experiências únicas. Nossa função é

internacional por mudanças políticas

Ártico, por exemplo. Estar atento a esse

fazer com que os clientes não tenham que

como Cuba, Irã, Omã, Colômbia, lugares

tipo de coisa é muito importante e as

se preocupar com horários e reservas. A

que antes eram mais problemáticos

viagens são só uma parte do processo de

melhor coisa que nos acontece durante

de programar visitas. Ano que vem,

conscientização.

uma viagem é quando o viajante nos

queremos fazer mais coisas no Canadá.

pergunta quantos dias já se passaram, pois

A Europa sempre foi o nosso principal

da marca. O esporte também é

perdeu a noção do tempo.

destino. Encontrar novos lugares por lá

importante para a sua vida?

Você tem uma propriedade em Bordeaux. Fale sobre essa experiência. Mr. Butterfield: Sim, nós temos

é um desafio interessante. Quem sabe

Mr. Butterfield: Sempre joguei

Alemanha, Portugal e Leste Europeu.

squash, tênis, golfe e sempre amei andar

Atualmente as pessoas são alucinadas por compartilhar fotos.

uma pequena propriedade em Givrey-

Como o mundo digital ajuda a sua

Chambertin. Eu tomo muito vinho e

agência?

sou um grande admirador deles. Um dia

A bicicleta é parte do DNA

Norman Howe: O Brasil é muito

de bicicleta. É uma forma incrível de aproveitar a vida e apreciar a paisagem. Norman Howe: George e eu dividimos o mesmo gosto por bicicletas. Vamos ao trabalho pedalando. Andar de

tive um insight e entendi o que queria

engajado nas redes sociais. Quando os

bicicleta é sempre melhor do que de carro

dizer saber apreciar um bom vinho.

viajantes compartilham fotos com seus

ou ônibus. Mas se engana quem pensa que

Fui desenvolvendo esse gosto e acabei

amigos, isso ajuda a fidelizar os nossos

nossas viagens são feitas só para quem

comprando essa propriedade na França

clientes e mostra o que as pessoas

tem um bom preparo físico. Também

para produzir vinho. O meu filho, que vive

vivenciam com nossas viagens.

disponibilizamos bicicletas elétricas para

na Borgonha, se tornou produtor.

Você é um entusiasta do meio

quem se sente menos preparado.

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

77


FL Residence

Para longas estadas

A

partir de um modelo nova-iorquino bem-sucedido

somar até 100 metros quadrados. O lugar é ideal para

de aproximar vida, trabalho e lazer, o projeto

hóspedes que precisam ficar pelo menos um mês na cidade.

paulistano FL 4300 apresenta três torres vizinhas:

Especialmente expatriados, executivos em treinamento

Residence, Office e Corporate. Elas foram construídas na

e gestores que vêm de outras cidades. A média de

avenida Faria Lima, em São Paulo. Negociadas pela Nest,

permanência tem sido de três meses. Os aluguéis chegam

as unidades da torre Residence têm serviço de hotelaria,

a R$ 11 mil, enquanto a opção de compra pode passar de

concierge e decoração assinada por João Armentano.

R$ 1 milhão. Entre os estrangeiros, ingleses, americanos,

São 147 estúdios entre 35 a 66 metros quadrados. Equipadas com cozinha, as suítes podem ser unidas e

78

| THEPRESIDENT | 06.2016

canadenses e italianos são maioria. flresidence.com.br (Mario Ciccone)


swiss

SABOR NAS ALTURAS

M

enus gastronômicos harmonizados e

balas refrescantes Ricola, à base de um blend secreto de 13

arrematados com queijos e chocolates finos.

ervas cultivadas nas montanhas locais. Na car ta, destacam-

Para completar, blends de chás e de cafés

se dois vinhos da região de Neuchâtel, conhecida como “a

especiais. Poderia ser uma refeição em um restaurante

Borgonha suíça”: Château d’Auvernier Pinot Noir Barriquen

prestigiado, mas neste caso a experiência acontece nas

2014 e Blanc Neuchâtel AOC 2015. Os novíssimos lounges

nuvens, precisamente na business class dos aviões da

do terminal E do aeropor to de Zurique seguem a proposta

Swiss. A companhia dedica atenção especial ao catering:

e disponibilizam chefs para preparar refeições à frente dos

todos os chefs convidados estão à frente de restaurantes

passageiros. Para viajante gourmet nenhum botar defeito.

estrelados, como Jean-Marc Soldati, do Hôtel-Restaurant

(Luciana Lancellotti)

du Cerf, em Sonceboz (uma estrela Michelin). As opções sem carne, por sua vez, são desenvolvidas pelo restaurante Hiltl, em Zurique, referência internacional em gastronomia vegetariana. A tradição suíça está presente em cada detalhe – seja na manteiga Floralp, à base de creme de leite suíço, nos queijos maturados por Rolf Beeler, considerado o melhor mestre queijeiro da Suíça, ou nas

Jean-Marc Soldati está entre os chefs. Serviço de bordo de primeira

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

79


Honda SH 300i

Um toque europeu

N

ão é curioso que na terra da Lambretta e da Vespa a

uma moto estradeira para trajetos curtos. A SH 300i cumpre

campeã de vendas seja uma família de scooters da Hon-

muito bem o seu papel. Além disso, proporciona uma direção

da? É isso mesmo. A linha SH da marca japonesa domina

segura, com rodas de 16 polegadas.

as três primeiras posições desse segmento no mercado italiano. O modelo top de linha, SH 300i, começa a ganhar as ruas brasileiras,

usuário, que tem proteção contra o vento. E a grande inovação

já saindo da fábrica de Manaus. A Honda aposta que esse sucesso

desse modelo é a Smart Key. Ela permite que o motociclista acio-

para centros urbanos europeus se repita no mercado brasileiro.

ne o motor com um simples toque de um botão. É de se imaginar

Com 300 cc, essa scooter entrega a mobilidade ideal para

80

O para-brisa é o toque de elegância e de conforto para o

até como ficaria a imagem icônica de Gregory Peck e Audrey

circular em condomínios na praia ou no campo. Até porque é

Hepburn, em A Princesa e o Plebeu (1953), circulando por Roma a

um desperdício tirar da garagem um sedã de 300 cavalos ou

bordo de uma SH 300i. honda.com.br (MC)

| THEPRESIDENT | 06.2016


Panerai

O mundo em um olhar

O

s traços clássicos dos modelos Panerai são reconhecíveis em

qualquer lugar do mundo. O modelo Radiomir 1940 3 Days GMT Power Reserve Automatic tem um nome tão majestoso quanto as funcionalidades que proporciona ao usuário e acaba de chegar ao Brasil. De um relance, é possível obter sua hora local, saber a hora em um segundo fuso horário e ainda identificar se é dia ou noite nesse segundo endereço. As horas e minutos centrais, pequenos segundos concêntricos à indicação de dia e noite, a função GMT, reserva de energia e data são entregues pelo novo mecanismo P. 4002, inteiramente desenvolvido pela própria relojoaria em sua manufatura em Neuchâtel, na Suíça. Seu mostrador preto decorado em estilo clous de Paris entrega legibilidade em conjunto com os principais dados, que são revestidos em material luminescente em tom areia. Com 45 mm de diâmetro em aço polido, a caixa é elegantemente finalizada por uma pulseira de couro preto costurado com linha bege. panerai.com (Renata Bench)

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

81


Montblanc

presente de aniversário

N

o ano em que completa 110 anos, a Montblanc celebra o primeiro relógio de sua antecessora, a relojoaria

Minerva, adquirida mais tarde pela empresa. Daí a data 1858 do nome do modelo comemorativo. O Montblanc 1858 Small Second Blue Edition tem caixa de aço com 44 mm, prezando pela dimensão a facilidade da leitura daquilo que realmente importa: o tempo. Grandes algarismos arábicos luminescentes, revestidos com uma pintura de tonalidade retrô, destacam-se sobre o mostrador azul-marinho com decoração em efeito de raios solares. A posição de 6 horas abre espaço para a indicação de pequenos segundos. A proeminência dos ponteiros centrais para horas e minutos facilita a leitura nas mais adversas condições. Um movimento de corda manual proporciona cerca de dois dias de energia. Já o acabamento é dado por uma pulseira de couro de crocodilo, com tonalidade condizente com o dial. montblanc.com (RB)

82

| THEPRESIDENT | 06.2016


Vacheron Constantin

Esportividade em alta precisão

A

linha Overseas, da Vacheron Constantin, foi renovada no ano de 2016. Além de ganhar um sistema exclusivo de troca de pulseiras, a cor marrom foi adicionada às

opções de dial desta coleção. O novo modelo Overseas Chronographe consegue equilibrar a esportividade de um relógio com a função cronógrafo, a sobriedade da mistura entre o marrom e o prateado da caixa executada em aço e a diversão de optar pela pulseira que desejar: couro, aço ou borracha. Elaborado em laca, o mostrador combina decorações aveludadas, circulares e em raios solares. A possibilidade de medir intervalos de tempo de até 12 horas, além das tradicionais indicações de horas, minutos, segundos e data, é responsabilidade do calibre 5200 de fabricação própria da Vacheron Constantin. Assim como todos os outros mecanismos da relojoaria, este ostenta o cobiçado Selo de Genebra, que assegura perfeição nas decorações e acabamentos, além de alta resistência e precisão. Seu rotor elaborado em ouro 22 quilates – que dá a corda automaticamente de acordo com o movimento do pulso do usuário – pode ser visto através do cristal de safira posicionado no verso da caixa, que conta com 42,5 mm de diâmetro. vacheron-constantin.com (RB)

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

83


TAG Heuer

Pronto para acelerar

A

caba de chegar ao mercado brasileiro a versão remodelada de um best-seller da TAG Heuer: o Carrera. No auge

dos seus 53 anos, o modelo passou por uma repaginada tão radical quanto sua história, vinda da célebre corrida de automóveis Carrera Panamericana, no México, que percorre cerca de 3 mil quilômetros em oito dias. Carrera Heuer 01, como foi batizado, consegue ser ainda mais atraente no pulso do que na vitrine. Chamam atenção os detalhes vazados do mostrador, que revelam a expertise relojoeira do novo movimento desenvolvido e fabricado pela própria companhia. Além das indicações clássicas de horas e minutos, o modelo conta com a função cronógrafo, que permite o cálculo de intervalos de tempo de até 12 horas. Quando trabalhado em conjunto com o taquímetro ao redor do dial, permite obter a velocidade média percorrida em um quilômetro. A nova caixa elaborada em titânio substitui o aço de modelos anteriores e abriga o novo calibre Heuer 01 de corda automática, que oferece 50 horas de autonomia e é baseado no clássico movimento 1887, que equipava modelos anteriores. O arremate da esportividade da peça é dado pela pulseira de borracha perfurada, com detalhes que lembram o logo da TAG Heuer. tagheuer.com (RB)

THE PRESIDENT BLACK BOOK Colaboraram neste número: Juliana Amato, Luciana Lancellotti, Mario Ciccone, Renata Bench e Sergio Crusco


NA ILHA

eventos

Comandatuba é a ilha perfeita para quem procura um lugar para realizar um evento que vai fazer história. O resort possui infraestrutura completa com o moderno Centro de Eventos Comandatuba, aeroporto a 10 minutos do hotel, equipe especializada e tecnologia planejada para se adequar ao evento da forma que imaginar. Sem falar da infraestrutura de lazer, Spa Comandatuba, mais de 80 opções de esportes e lazer, gastronomia, cordialidade e qualidade com padrão Transamérica. Tudo isso em uma praia exclusiva, cercada de natureza exuberante. Faça seu evento no Transamérica Comandatuba e escreva mais um capítulo da história de sua empresa em um cenário inesquecível.

A ilha perfeita para sua história Grande São Paulo: (11) 5693 4050 | Outras cidades: 0800 012 6060 www.transamerica.com.br | Faça sua reserva, nossa equipe está à sua disposição ACUMULE PONTOS. PARTICIPE!

   

#comandatuba


reprodução

86

| THEPRESIDENT | 06.2016


imprensa

Por alberto villas

Libé geral!

S

A particularíssima história do diário francês Libération, na ativa desde 1973, um jornal em que o faxineiro ganhava o mesmo que o editor-chefe

egunda-feira, 3 de fevereiro de 1973. Apesar da escuridão da-

O comunicado oficial dizia que os terroristas – como eram chamados – ti-

quela manhã de inverno e dos termômetros da cidade mar-

nham “destino ignorado”.

cando apenas 3 graus, o burburinho era grande na Place de la

Aquela semente plantada naquela manhã, ali na Place de la Sorbonne,

Sorbonne. Uma pilha de jornais foi colocada na calçada, bem

vingou e, no dia 22 de maio, uma terça-feira, nasceu oficialmente o novo

em frente à livraria Presses Universitaires de France, ao lado de

jornal, um jornalzinho diário com pinta de nanico, cara de nanico, declarada-

uma das universidades mais famosas de Paris, da França, do mundo. Os es-

mente de esquerda. A manchete principal do número 1 era bem pessoal: “Pe-

tudantes, encapotados até a alma, paravam e iam pegando o seu exemplar do

gue nas mãos o seu jornal”.

primeiro número, um número experimental de um novo jornal, um tabloide

Quando o primeiro número do Libération chegou às bancas, não havia

magrinho, meio feioso, todo em preto e branco, com alguns toques artísticos

dúvidas de que era um jornal diferente de todos os outros que estavam ali ex-

em verde, chamado Libération.

postos nas bancas da cidade: Le Monde, Le Figaro, Parisien Liberé e o France-Soir.

O filósofo Jean-Paul Sartre fez questão de madrugar naquela segunda-

Chegou defendendo as minorias, os oprimidos, a classe operária, os estudan-

-feira para estar lá, ao lado da pilha de jornais, dando uma força para a juven-

tes, os gays, as feministas, os negros, os imigrantes, os pós-hippies, os primei-

tude. Não apenas dando força, fazendo número ou pose. Sartre era, ao lado

ros punks, toda essa juventude que queria, de uma maneira ou outra, mostrar

de Serge July, Philippe Garei e mais uma meia dúzia de maoístas, um dos edi-

o seu valor.

tores do novo jornal que ainda não era uma realidade, apenas um sonho. A

Porque era assim tão diferente? Primeiro, o Libé, como passou a ser cha-

manchete daquele número zero, que circulava de mão em mão e se espalhava

mado já na primeira manhã, não aceitava publicidade. Não queria ter o rabo

pela praça, entrava na universidade e depois ganhava o Boulevard Saint Mi-

preso com ninguém. Segundo, o salário das 32 pessoas que faziam o jor-

chel, não era escandalosa, apenas dizia: “Se você quiser um jornal livre todas

nal era exatamente o mesmo. Do faxineiro ao editor-chefe, o contracheque

as manhãs”. Paris não estava mais em chamas desde aquele maio de 68, mas

era igual no final do mês: 1.800 francos. Nem um centavo a mais, nem um

o sangue ainda fervia nas veias dos jovens, feito sal de frutas num copo d’água.

centavo a menos. E, por fim, um jornal escrito com liberdade total de cada

O presidente americano Richard Nixon suspendia os ataques ao Vietnã,

redator, sem um pingo de censura.

o aborto era legalizado nos Estados Unidos, Israel abatia um avião líbio aqui

Nos primeiros números, o Libération chegou a publicar cacos (tex-

e outro ali, enquanto, aqui no Brasil, o Ministério da Justiça dava como ofi-

tos de improviso sem autorização do editor-chefe) em suas matérias.

cial o desaparecimento de 26 guerrilheiros que queriam derrubar o regime

Cacos esses muitas vezes produzidos por secretárias e datilógrafas do

militar, imposto na noite de 31 de março de 1964, madrugada de 1º de abril.

jornal. Em várias reportagens, o leitor deparava, depois da última linha,


imprensa

O primeiro diretor, Serge July, com uma das equipes iniciais, ao lado de Sartre e Simone de Beauvoir e em sua mesa de trabalho

como se fosse um post-scriptum, observações do tipo: “Eu não acredito

brevivendo e ganhando leitores. Eles tinham consciência de que, por exem-

em nada disso que está escrito nesta matéria”.

plo, informações sobre greves de operários, antes de serem impressas, eram

Aquilo divertia os leitores, que tinham nas mãos um jornal meio anárquico, mas de verdade.

levadas às fábricas e lidas. Só saíam se as comissões de greve decidissem que estavam corretas e do lado dos trabalhadores. Finalmente, os filhos de Maio

O Libé era asssim, nos primeiros anos: anarquia total. Sem muito di-

de 68 tinham o seu porta-voz.

nheiro no caixa para pagar uma equipe maior, teve edições que chegaram às

Mas os primeiros capítulos da história desse jornal fora de série não foram

bancas muitas vezes incompletas, incapazes de concorrer com os grandes.

nada fáceis. Dois meses depois daquele número 1 do dia 22 de maio de 1973,

Circulava sem informação alguma de economia,

o Libé parou de circular por pura falta de dinheiro

às vezes sem informação de política internacional,

para pagar o papel, a impressão e as três dezenas de

esporte ou de cultura. Simplesmente por falta de quem apurasse, escrevesse, editasse. Mas o leitor entendia que aquele ali não era um jornal como os outros. Na verdade, era um jornalzinho comprometido com a esquerda, com um pé na revolução. Numa edição, chegou a publicar o beabá para a fabricação de um coquetel molotov. Estava claro que tinha alguém ali na redação que queria mesmo ver

Por dois períodos o jornal deixou de circular. Mas voltou com força. A ascensão da internet, porém, foi um golpe duro. O Libé acabou vendido ao barão de Rotschild

o circo pegar fogo.

vivia uma grave crise e, dentro desse caldeirão de acontecimentos, estava o Libération, borbulhando. Mas o entusiasmo era tão grande que ninguém queria deixar a peteca cair. Os fanáticos pelo Libé foram à luta e, de franco em franco, levantaram uma grana para colocar o jornal novamente de pé. Era curioso ver, numa banca de jornal, todas as manhãs, aquele nanico ao lado dos poderosos. O

Quando a rede de supermercados Carrefour

Libération fazia a diferença. Criou duas páginas para

lançou uma gama de produtos com a marca Car-

os leitores, um espaço para opiniões e, principal-

refour, espalhou outdoors pela cidade com a fotografia de uma gaivota voando

mente, trocas. Ali, você encontrava desde uma crítica ao governo de Giscard

num céu imaculadamente azul e os dizeres “A liberdade de escolher”. No dia

d’Estaing até um pedido de carona para algum lugar longínquo do planeta. Os

seguinte, o Libé saiu com uma página inteira em que um urubu muito doido

classificados do Libé viraram a Bíblia dos estudantes.

aparecia voando e soltando penas pra todos os lados, num céu cinza-chumbo, com os dizeres “Liberdade é não ter publicidade”. Mesmo sem muito dinheiro e aos trancos e barrancos, o Libération foi so-

88

pessoas que trabalhavam ali. A esquerda na França

| THEPRESIDENT | 06.2016

“Help! Preciso de ajuda para fazer minha tese de doutorado.” “Estou precisando de alguém para dividir um pequeno studio na região de Port Royal.”


novo, do criativo, sempre com um pé na modernidade, nas novas tendências. O segredo do sucesso estava na surpresa, a cada dia, a cada edição. Com o passar dos anos, deixou de ser um jornal de uma tribo para ser de todas. Mas, de repente, o mundo começou a mudar e numa velocidade estonteante. A internet bateu às portas do Libé, sem pedir licença. O jornal começava a perder leitores e dinheiro. Alguma coisa precisava ser feita – de novo – e com urgência. Em 2006, aconteceu uma nova – e mais uma – revolução no jornal. Com a chegada de novas mídias, o mundo dando uma cambalhota todos os dias, o Libé se virou para ficar longe da crise. Quase no vermelho, o jornal foi vendido para o barão de Rotschild e os atritos com Serge July começaram. Chegaram ao ponto máximo, o de um rompimento definitivo. Serge July decidiu deixar o jornal pela porta da frente. No dia em que deixou o seu Libé, 30 de junho de 2006, virou capa, cuja manchete era a seguinte: “Salut Serge”. fotos: reprodução

Era um tchau definitivo. July foi cuidar de projetos particulares, mas deixou para trás uma história muito bem contada, em edições inesquecíveis.

“Conhece alguém que está indo para Amsterdã?”

Números que entraram para a história, como aquela capa do chinês anônimo

“Partindo para o Nepal. Alguém se aventura?”

enfrentando os tanques nas ruas de Pequim, dos alemães festejando a unifi-

“All you need is love! Estou sozinho, precisando de uma companheira.”

cação em cima do muro de Berlim que caía, das Torres Gêmeas desabando

“Compro o número da revista Actuel, especial marijuana. Pago bem.”

sem manchete alguma, da guerra do Iraque, da Copa do Mundo de Futebol

“Quero me desfazer de um disco do Cream. Quem dá mais?”

bleu, blanc e rouge de 1998, do atentado que deixou centenas de mortos em Ma-

Aos poucos, o Libé continuou crescendo e ganhando fãs a cada dia. Mas,

dri ou da edição totalmente ilustrada com o personagem Tintin, no dia em que

no início dos anos 1980, chegou a hora de uma grande decisão. A grande vira-

seu criador, Hergé, morreu.

da do tumultuado e inquieto nanico começou a acontecer no dia 23 de feverei-

Em janeiro do ano passado, quando terroristas entraram na redação do

ro de 1981. Serge July reuniu todas as pessoas que faziam o jornal e anunciou

jornal satírico Charlie Hebdo, dizimando praticamente toda a redação, o Libé-

que o Libé não iria mais circular. Só sairia no dia em que fosse realmente um

ration não somente fez uma cobertura histórica da tragédia, como cedeu uma

grande jornal, um jornal completo, competitivo. Era crescer ou morrer. A me-

sala na sua redação para que os jornalistas sobreviventes pudessem manter o

tade do pessoal foi embora quando a palavra “publicidade” foi falada. Ficaram

jornalzinho de pé. Eles trabalharam lá durante alguns meses, com vários se-

na sala apenas pessoas dispostas a fazer um jornal independente, sem rabo

guranças na porta para evitar outra tragédia.

preso, sem puxar brasa para sardinha de ninguém – mas com publicidade.

O jornal deixou para trás, também, números sem medo de uma manche-

Serge July estava decidido a abrir o Libé para todo tipo de informação, sem

te em inglês, como aquela da morte de Michael Jackson (“Too Bad”), de Obama

preconceitos. Não queria um jornal sério, queria um diário criativo, bem in-

reeleito (“We have a dream”) ou do adeus ao beatle George Harrison (“George

formado, completo. Montou uma nova equipe e foi à luta.

in the sky with Lennon”). Deixou para trás números especiais, históricos e antológicos: A Primavera de Pequim, A Revolução Russa, A Tragédia da Aids,

Revolução. Mais uma

Alemanha Ano Zero, A Guerra do Golfo, A Explosão da Ecologia, A Guerra da

O novo Libé reapareceu nas bancas no dia 13 de maio de 1981. O tabloide

Bósnia, O Novo Planeta e O Risco de a Água Acabar.

estava irreconhecível. Bem impresso, colorido, gordo, bonito, atraente e o que

Até hoje, diariamente, a surpresa está na pauta do dia. Em 11 de março

é mais importante: bem informado, completo e absolutamente independen-

passado, por exemplo, entregaram uma edição inteira para artistas, jor-

te. O Libé renasceu com páginas e mais páginas de política nacional, interna-

nalistas, escritores e intelectuais sírios fecharem. O Libé des Syriens foi um

cional, economia, esportes, cidade, ciência, comportamento, além de cultura,

sucesso de público e de venda. Em mais de 40 anos de vida, o jornal Libéra-

mídia e muita aventura. E publicidade.

tion mostrou, como ninguém, o dia a dia de um mundo que era um e hoje é

O jornal não parou mais de crescer. E de sempre arriscar em busca do

outro, completamente diferente. 0 6.2016 | THEPRESIDENT |

89


imprensa

2

1

3

um diário sem dia a dia 1. A MORTE DE MAO Na sexta-feira 10 de setembro de 1976, o jornal chegou às bancas com uma capa inteiramente escrita em chinês. Foi assim que homenageou Mao Tsé-Tung, o maior líder daquele país, morto no dia anterior. 2. O CAVALO DE AMAURY A turma do Libération nunca simpatizou com o empresário Emilien Amaury, proprietário do direitista Le Parisien Liberé. Em 2 de janeiro de 1977, Amaury morreu, depois de levar um tombo de um cavalo. No dia seguinte, uma segunda-feira, a morte do empresário virou manchete de primeira página do Libération: “O cavalo de Amaury sai ileso de um acidente”. Abaixo da manchete, a notícia: “O cavaleiro, proprietário do Parisien Liberé, não resistiu aos ferimentos”. E a foto na primeira página era a do cavalo de Amaury. 3 O HOMEM DO ANO Em seu número 478, de quarta-feira 1º de dezembro de 1982, a capa trouxe uma foto ocupando todo o espaço daquele que ele elegeu como O Homem do Ano. Ninguém menos que o ET de Steven Spielberg. 4. ADEUS, MIRÓ No Natal de 1983, o mundo perdeu um dos maiores gênios da pintura: Joan Miró.

90

| THEPRESIDENT | 06.2016

O Libération de 26 de dezembro reproduziu uma das obras do artista na capa e escreveu: “O pintor catalão parte junto com Papai Noel”. 5. O JORNAL DOS ESCRITORES Pela primeira vez, no dia 19 de março de 1977, os jornalistas do Libération, para comemorar a tradicional Feira do Livro de Paris, cederam suas mesas, cadeiras e máquinas de escrever a um grupo de escritores que fechou o jornal da primeira à última página. 6. O LIBÉ VESTE PRAVDA Em 11 de fevereiro de 1984, dia seguinte à morte do líder da União Soviética Yuri Andropov, o Libération saiu com uma capa completamente fora do habitual. Chegou às bancas com uma diagramação dura e pesada, idêntica à do jornal do Partido Comunista, o Pravda. 7. FRESCURA O verão de 2003 na França entrou para a história como um dos mais quentes de todos os tempos. Muita gente morreu e muita gente achou que o aquecimento global havia chegado para ficar. Era o planeta Terra correndo risco. Para refrescar um pouco a cabeça dos leitores, o Libé saiu com suas páginas na cor azul e a foto de seis pedras de gelo na capa.

8 BD (CONFIRA a capa na abertura) A turma do Libé sempre foi apaixonada por histórias em quadrinhos e sempre abriu espaços aos desenhistas. No dia 29 de janeiro de 2009, o jornal decidiu entregar suas páginas a quadrinistas e fez uma edição inteiramente “em BD” – bande desinée. Em bom português, em histórias em quadrinhos. 9. A MAÇÃ que chora No dia 7 de outubro de 2011, uma sexta-feira, o periódico chegou às bancas com uma de suas capas mais bonitas. Para homenagear Steve Jobs, a alma da Apple, morto no dia 5, foi bolada uma capa inteiramente preta, apenas com o logotipo da Apple, uma maçã – só que chorando. 10 . YES, NÓS TEMOS OBAMA Em 7 de novembro de 2012, dia em que Barack Obama foi reeleito presidente dos Estados Unidos, o Libé publicou, na capa, uma foto de Obama, bem tranquilão, e P uma manchete curta e grossa: “Yes!”.


4

fotos: reprodução

5

6

9

10

0 6.2016 | THEPRESIDENT |

91


JK memória

Por NIRLANDO BEIRÃO

A FALTA QUE ELE NOS FAZ Juscelino Kubitschek de Oliveira morreu há 40 anos. foi presidente de um Brasil que ele imaginou ser possível. Um Brasil que não existe mais, ou que talvez nunca tenha existido, a não ser na fantasia transbordante dele, Juscelino


Dmitri Kessel/The LIFE Picture Collection/Getty Images

Antes de começar na literatura, vibrou com a fotografia

Antes de Brasília: o absurdo era o deserto

06.2016 | THEPRESIDENT |

93


Memória

E

ra uma fantasia na qual, porém, Juscelino verdadeiramente acreditou e com a qual chegou a intoxicar de esperança e de otimismo toda a nação brasileira, até mesmo adversários impenitentes subitamente subjugados por seu carisma fatal e seu charme desbragado. Um de seus biógrafos observa, com toda a propriedade, que a presidência JK foi, ao longo do período republicano, o nosso verdadeiro “regime de exceção”. A regra costuma ser, de fato, bem assustadora. No intervalo de tempo em que militou na política, de 1933, quando o médico relutante virou chefe de gabinete do interventor Benedito Valadares, em Minas, até 1964, cassado que foram seus direitos de cidadão pela ditadura recém-instaurada bem no momento em que ele, a bordo da campanha JK-65, seduzia o país com um replay de dinamismo, de voluntarismo e de euforia, Juscelino e o Brasil se trataram com a intimidade carinhosa do primeiro nome, do apelido – Nonô –, do acrônimo – JK – e da fama de “pé de valsa’”, de festeiro, de brincalhão, de fidalgo da simpatia

JK se impôs naquilo que ele melhor sabia fazer. “Um articulador de consensos”, iria comentar um dia o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Mas JK só conseguiu ser, eleito presidente, em 1955, a ponte por cima dos ódios dos derrotados porque nunca teve medo de afrontar quem vivia de semeá-los, ainda que o fizesse com a pelica da astúcia e a delicadeza da inteligência. “Deus me poupou do sentimento do medo”, gostava de dizer. Enfrentou uma tentativa de deposição antes mesmo de assumir e duas sedições militares, em Aragarças (GO) e Jacareacanga (PA), quando no exercício do mandato. Anistiou os amotinados. Passou a faixa da Presidência, noblesse oblige, para um descabelado que venceu a eleição apostrofando, com calúnias medonhas, o então presidente. Mais que um ato de elegância, a decisão de dar posse a Jânio Quadros foi a premonição de uma ironia. Alguns meses depois, Jânio se enroscou em suas próprias mesóclises megalomaníacas e renunciou. Gentleman em meio às tempestades apopléticas de seus detratores, Juscelino cultivava uma distinção que começava na aparência – mas que acabava por definir toda Ele intoxicou de otimismo toda a nação. Até uma atitude. Acossado pelo ódio e pela os adversários. um biógrafo lembra que a mentira, tornou lendária sua tolerância. presidência jk foi, no período republicano, Ao final de seu governo, concedeu entreo verdadeiro “regime de exceção”. A regra vista ao repórter Carlos Castello Branco, da revista O Cruzeiro, e comentou 0 comcostuma ser, de fato, bem assustadora portamento da oposição: “Acredito no e de arauto da utopia. O presidente bossa-nova, com jeitão de jogo democrático. A oposição constituiu-se em vigilante fiscaliídolo pop, irradiava confiança. zadora dos meus atos. Agiu patrioticamente”. “Juscelino trouxe a gargalhada para a Presidência”, observou “Juscelino tinha uma brasilidade que tangenciava a caricao cronista Nelson Rodrigues – um jubiloso contraponto aos patura”, lembra o embaixador Marcos Azambuja, que foi seu chefe téticos dignitários de um país condensados à caricatura, até hoje de gabinete em Brasília. “Eu nem diria otimista – ele simplesinvestidos da “rigidez de quem ouve o Hino Nacional, cada um se mente achava que tudo era possível, que o Brasil era irresistivelcomportando como se fosse a estátua de si mesmo”. Juscelino, ao mente vitorioso. Contagiou o país e, depois daquele intermezzo contrário, era seriíssimo na decisão de não ser levar nem um pouco Jânio, pensava em voltar ao governo para nos brindar com um a sério. Tirava os sapatos debaixo das mesas dos banquetes bemsegundo ciclo de felicidade. Para JK, a função do governante é -postos e cochilava entre as audiências mais enfatiotadas. Esconpromover a felicidade do povo.” dia-se para encontros clandestinos com a amante duradoura. O “Transcendeu o bom senso, incluindo imprudências”, escreveu telegrafista de Diamantina, filho da professorinha Júlia, embalado Claudio Bojunga, em O Artista do Impossível (Editora Objetiva, 2001). no berço da modéstia e da dificuldade, nunca abandonou a índole A maior de todas as imprudências, com certeza, nem foi erigir, no do futuro mandachuva dos mais altos poderes. intervalo improvável de três anos e sete meses, uma Capital Federal No abismo traumático pós-54, esgueirando-se do rastro de em meio ao cerrado, sob o bombardeio midiático da oposição e da sangue deixado pelo suicídio de Getúlio Vargas e esquivando-se elite melindrada da Velha Cap – uma cidade inteira, com suntuoda sanha histérica dos golpistas dos quartéis e da mídia, a figura de sidade de palácios, monumentos e superquadras, não uma simples

94

| THEPRESIDENT | 06.2016


Copa do Mundo, uma mera Olimpíada. Outros tempos, aqueles. Não, a maior imprudência de JK foi acreditar no Brasil. Artista, sim, como quer o biógrafo Bojunga – pois a matéria do qual era feita a práxis política de JK era a mesma dos criadores de forma e beleza: a imaginação. “Os anos dourados foram aqueles em que os brasileiros deram as costas à derrota e viveram o sonho inédito de serem viáveis, modernos, inéditos – até mesmo invejáveis. Foi um momento mágico de crescimento econômico, democracia política e florescimento cultural”, escreve. Se até a administração pública era capaz de se sacudir por uma poética do sonho, não admira que as artes, por coincidência ou não, tenham se conectado à efervescência do ambiente. Os anos JK tes-

temunham – vai listando Bojunga – a ficção mágica de Guimarães Rosa, os versos geométricos de João Cabral de Melo Neto, as epifanias de Clarice Lispector, os acordes de João Gilberto, os joelhos de Nara Leão, as curvas do Karmann-Ghia. Sobem ao proscênio Tom e Vinicius, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, Lygia Clark e Hélio Oiticica. Os desconcertantes Pelé e Garrincha nos vingam, na Suécia, do desastre do Maracanazo – e a Copa é finalmente nossa. E, já que o governante é obcecado por obras, a arquitetura do impossível – na definição que cabe ao próprio JK – vai se fincar, firme, concreta, com a tabelinha profícua entre Lúcio Costa, que riscou o Plano Piloto, e Oscar Niemeyer, que o extrapolou. Diálogo travado entre uma carioca irritada e o presidente da República:

fotos reprodução

getty images

Garrincha, Pelé, João Gilberto e Karmann-Ghia: linha de ataque campeã da era Juscelino

06.2016 | THEPRESIDENT |

95


Memória viagem – Mas o senhor vai construir a capital num deserto... Isso é um absurdo. – Não, minha filha. O absurdo é o deserto. Brasília nasceu à feição de JK – sob o signo da urgência. Ainda hoje há quem a considere mero capricho pessoal de Juscelino, mas a pressa, com certeza, não era. Era uma ansiedade bem pragmática. Sabia: se a capital não fosse inaugurada por ele, o sucessor, fosse quem fosse, possivelmente deixaria de lado, como monumento ao desperdício, aqueles esqueletos de ferro e cimento fincados no nada. Chegou a ameaçar: se a lei não fosse aprovada até outubro de 1956, desistiria. A lei que criou a nova capital foi sancionada a 19 de setembro daquele ano. A oposição protelou o quanto pôde. Depois, resignou-se, numa aposta sarcástica: JK e seu governo iam acabar se atolando irremediavelmente naquele lodaçal sem sentido. Miragem de um “janota delirante”, bradava o agourento Carlos Lacerda, frenética voz da UDN. Pelo menos reconhecia o feroz oponente, na debochada alusão

do Ministério da Educação, no Rio, no foco do recém-nomeado prefeito de Belo Horizonte. O jovem arquiteto estava na capital mineira e foi chamado por Juscelino. Não se conheciam. Mas eram donos, os dois, daquele temperamento típico que faz pessoas virarem melhores amigos em questão de horas. “Juscelino, quando queria ser amável, era genial”, disse dele, não sem uma ponta de malícia, seu colega de PSD, Tancredo Neves. Juscelino lançou o repto a Niemeyer: criar um bairro de lazer nos ermos da Pampulha, “um bairro lindo como outro não existe no país. Com cassino, clube, igreja e restaurante” (Oscar Niemeyer, de Marcos Sá Corrêa, Relume-Dumará, 1996). Para quando? “Para amanhã.” Niemeyer foi, assim, apresentado ao estilo Juscelino de agir. E vice-versa. Niemeyer hibernou no hotel, varou a noite, na manhã seguinte sobraçava, na prefeitura, a papelada coberta de traços e esboços. “Nunca tinha visto tanto entusiasmo”, recordou Niemeyer. “E a obra começou. JK a segui-la diariamente, convicto de que seria coisa importante para aquela cidade. Quantas vezes visitamos as obras da Pampulha! Quantas vezes fomos de lansubmetido a duros interrogatórios pelos cha para vê-la de longe a se refletir nas águas militares de 1964, Juscelino ganhou deles da lagoa. Pampulha nos deu muito trabalho. um atestado de bons antecedentes, embora Para JK principalmente. A lutar por verbas involuntário. vasculharam sua vida e nada impossíveis, a brigar contra o imobilismo descobriram que comprometesse sua honra que o cercava, contra o espírito provinciano de seus acompanhantes.” ao “janota”, o apuro sartorial no qual o vaidoso JK assumidamente Mal podia imaginar o arquiteto, mas Pampulha estava equise esmerava. JK era, sim, um detalhista da finesse, chegava ao repando-o, com mais de uma década de antecedência, para o ato 2 quinte de recusar, nos bolsos internos do paletó feito su misura pelo da trepidante parceria – sim, antes da Brasília de JK, a Pampulha Aquino, seu alfaiate carioca, qualquer coisa que desfigurasse, o míde JK, “no entusiasmo que brota do zero, na pressão do cronogranimo que fosse, sua silhueta empertigada. Carteira, óculos, caneta ma, na liberdade concedida à criação, a oportunidade de contestar a – nem pensar. Em vez de cintos, suspensórios. Aquino cortava-lhe monotonia que cercava a arquitetura contemporânea, a onda de um de coletes a casacas. Lembrava-se de um cliente de gosto ortodoxo: funcionalismo mal compreendido que a castrava, dos dogmas de casacos de três botões, em estilo clássico e cores tradicionais (cinforma e função que surgiam, contrariando a liberdade plástica que za, azul-marinho, preto). À frente da tesoura e do molde, JK era um o concreto armado permitia”. A Pampulha impôs, ao longo de uma conservador implacável. lagoa artificial, o predomínio das marquises ondulantes, pedra de Em Brasília, a escala era outra, e a ambição, descomunal, mas toque do estilo Niemeyer. É como se Niemeyer estivesse despertanJuscelino se fiava no que pode ser considerado o laboratório para a do Niemeyer. E como se Juscelino estivesse despertando Juscelino. nova capital, a também vertiginosa experiência da Pampulha, em Ele ia fazer 38 anos quando assumiu a prefeitura de uma cidade Belo Horizonte. JK-Niemeyer: ali nasceu a endiabrada dobradinha de 211 mil habitantes que, em 1940, tinha de vida pouco mais do que que iria, no Planalto Central, driblar a reação adiposa dos caipiras de ele: 43. Belo Horizonte seria o trampolim para a vocação que ele já espírito. No episódio Pampulha, foi um acaso que botou Oscar, que se resignara a acatar. Constituinte em 1945, governador de Minas já começava a ser falado por sua prestigiosa colaboração no prédio em 1950. O Nonô da dona Júlia, agora aninhado no PSD, o parti-

96

| THEPRESIDENT | 06.2016


fotos: reprodução

do das raposas manhosas, tem na alma a comichão do poder e se aventura por um caminho que os adversários, desconfiados de sua amizade com Getúlio Vargas, de seu vice João Goulart e do suposto apoio dos comunistas, querem lhe barrar – ele que, fiel ao oligárquico PSD, votara em 1948, na Câmara Federal, pela cassação do registro do Partido Comunista. Insiste, disputa e vence a eleição presidencial de 3 de outubro de 1955. Eleição equilibrada, JK tem 36% dos votos. A UDN, ninho dos que tramaram contra Vargas, sucumbe com um general: Juarez Távora. Tenta, na voz estridente do deputado Carlos Lacerda, impedir a posse, alegando que faltou a JK maioria absoluta. O golpe falha pela ação de outro general, o legalista Henrique Lott. Juscelino assume e dá curso àquela “conjuração de loucuras”, como definiu o amigo e também mineiro Otto Lara Resende. Brasília, incendiada em polêmica, seria seu cartão de visitas, mas também seu calcanhar de aquiles. “Ele inventou a inflação no

Brasil”, entoavam, em coro, os derrotados de 1955, a pretexto da gastança monumental com a nova capital. Empréstimos do Banco do Brasil e do Export e Import Bank, dos Estados Unidos, de fato não foram suficientes, e o governo teve de avançar sobre os fundos de pensão e emitir títulos – as “Obrigações de Brasília”. “Obras superfaturadas, corrupção sem freio”, insistiam os desafetos de sempre, agora com eco numa esquerda primária que via no liberal Juscelino “um entreguista”, já que ele tomara a decisão de integrar a economia brasileira ao resto do mundo. Denúncias ácidas e persistentes que, paradoxalmente, os próprios esbirros haveriam de desmentir. Submetido a interrogatórios humilhantes pelos militares de 64, Juscelino acabaria ganhando deles um involuntário atestado de bons antecedentes. Vasculharam sua vida e nada descobriram que comprometesse sua honra. “Certamente houve algum tipo de corrupção”, admite Ronaldo Costa Couto (autor

Cena de Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, o escritor Guimarães Rosa e uma obra de Lygia Clark: anos dourados

06.2016 | THEPRESIDENT |

97


Memória

98

| THEPRESIDENT | 06.2016

na cota dos condores vingativos. Inconformada com a barbárie sofrida por seu filho, Stuart, torturado até a morte num quartel da Aeronáutica, Zuzu Angel fez um escarcéu junto às autoridades dos Estados Unidos (Stuart tinha dupla cidadania). Acabou vítima de um acidente encomendado na saída do túnel Lagoa-Barra, no Rio. A comoção que a morte de Juscelino provocou, numa unanimidade de choro e de tristeza, constrangeu os usurpadores do poder e a JK não foram dispensadas as honras oficiais que o presidente e estadista que ele fora recomendavam. O governo Geisel preferiu ignorar sua morte. O povo, não. Na Brasília que o visionário erigiu e que o acolheu para a eternidade, em solo sagrado sintomaticamente chamado de Campo da Esperança, uma multidão improvisou o féretro, emocionada, naquele 23 de agosto. Ao pária proscrito pela teimosa ditadura a nação enlutada retribuía, ali, com fé profana e desassombro patriótico, o amor cândido e sincero que Juscelino devotara a sua gente. À beira do túmulo de JK, o Brasil vivia. P

Memorial JK em Brasília

agência o globo

de Brasília Kubitschek de Oliveira, Editora Record, 2001). “Mas o que vale é que a construção de Brasília foi uma epopeia. Obra de sonho, improvisação, sacrifício, audácia e grandeza.” Há historiadores que se perguntam se a nova capital não obedecia – fora da moldura glamurizada do devaneio – a um imperativo geopolítico, bem pé no chão, pragmático, realista, de um governo cozinhado, no Rio, na panela de pressão da insatisfação das casernas e de uma oposição antidemocrática. A mais de 1.200 quilômetros do Palácio do Catete, Brasília seria, para JK e para os governantes que o sucedessem, uma segura válvula de escape. Dormia quatro horas por dia e o desafio o consumiu até aquele 21 de abril de 1960, que o colunista social Jacinto de Thormes, em Manchete, considerou “o espetáculo mais chique” de sua vida. “Esse dinâmico encontro da rua sem calçada com o sapato de Dior, uma cinematográfica confraternização das cartolas de Bond Street com o andaime funcional”. A JK aquilo custara 5 mil horas de voo e viagens por terra que totalizaram 3 milhões de quilômetros, o suficiente para dar 75 voltas em torno da Terra. Ao morrer, 40 anos atrás, a 22 de agosto de 1976, num acidente de automóvel enevoado por suspeitas e assombrado por perguntas jamais respondidas, foi-se com ele a ilusão de um Brasil cordial, tolerante, vibrante, que acreditava em si mesmo, que se deixava impulsar pela mola propulsora da autoestima, e que, no altar de uma utopia tropical e calorosa, convertia ódio em concórdia; lamúria, em propósito; queixa, em entusiasmo. Aquele a quem a mídia mal-intencionada atribuía “a sétima maior fortuna do mundo”, em irresponsabilidade que se tornaria uma praxe, faleceu a bordo de um velho Opala, na via Dutra, a caminho do Rio. Algumas sinistras coincidências andaram acontecendo naquele período que se seguiu ao golpe no Uruguai (em 1973), no Chile (no mesmo ano) e na Argentina (em 1976) – coincidências que iriam posteriormente jogar luz na azeitada conspiração apelidada Operação Condor. Tratava-se de, com a expertise dos arapongas americanos da CIA, tirar de circulação os líderes de oposição que incomodavam os ditadores do Cone Sul. Atentados se sucederam. Rastreado no Uruguai, refugiado na Argentina, João Goulart morreu quatro meses depois de JK. Em maio de 1977 foi a vez de Carlos Lacerda, diagnosticado um “infarto do miocárdio”– Lacerda, que de pivô do golpe se convertera em articulador de uma “frente ampla” de oposição a ele, tentava seduzir os dois, Jango e Juscelino. Até mesmo uma estilista de moda inconveniente, genuína mãe-coragem, entrou


vento

Por andrĂŠ Borges lopes

O gringo esquecido

Nascido nos Estados Unidos, Orton Hoover foi um dos mais importantes pioneiros da aviação no Brasil. Mas quem se lembra dele?


M

eio escondido no cemitério protestante do Reden-

Em 1919, estava de volta ao Brasil, agora com mrs. Charlotte Hoover. Des-

tor, na capital paulista, há um túmulo discreto com

sa vez, escolheu morar em São Paulo, onde seu primo era cônsul dos EUA.

o nome do americano Orton William Hoover. Ali

Pegou no batente como representante comercial dos aviões Curtiss. Era um

estão, desde 1958, os restos de um dos mais impor-

vendedor marqueteiro. Por três meses, o americano simpático, boa-pinta e

tantes – e menos lembrados – pioneiros da aviação

conversador levou autoridades, políticos e jornalistas para passear pelos céus

brasileira. Não há qualquer homenagem na lápide. Nada a estranhar. Pou-

de São Paulo e Santos. De graça, evidentemente. Sempre que possível, incluía

quíssimos sabem que, ao longo da primeira metade do século passado, não

nos passeios senhoritas da sociedade, seduzidas pelos olhos azuis do gringo e

houve setor da aviação nacional em que Hoover não tivesse aterrissado. Ele

pela emoção da aventura aérea.

foi mecânico de aviões, instrutor das primeiras escolas militares de aviação,

O lobby deu resultado. Além de ganhar status de celebridade nos jornais,

acrobata aéreo (dos melhores!), pioneiro dos voos turísticos, piloto de com-

Hoover convenceu o governo estadual a adquirir seis aviões de treinamento

bate em duas revoluções, introdutor da construção aeronáutica no país e en-

JN-4 (Jenny) e três Oriole, de maior porte. De lambugem, ainda arrumou um

tusiasta da aviação comercial. E preso político por duas vezes.

emprego e uma patente honorária de major para comandar a nova Escola de

Hoover chegou ao Rio

Aviação da Força Pública (embrião

de Janeiro em 1916. Tinha 25

da futura Polícia Militar). Foi Hoo-

anos. O jovem de Fairmount,

ver quem pilotou o voo de inaugu-

Indiana, vinha com a fama de

ração das instalações da escola no

ser um dos melhores mecâ-

Campo de Marte, o novo aeródro-

nicos da Curtiss Aeroplane

mo da capital. O entusiasmo do governo

hidroaviões – os chamados F-

paulista, porém, durou pouco. Para

-Boats – adquiridos pela Ma-

piorar, Hoover teve problemas com

rinha brasileira. Explica-se:

um ciumento oficial diretor. Re-

marinhas e exércitos come-

sultado: no segundo semestre de

çavam então a montar armas

1920, pediu demissão e montou em

de aviação independentes. No

São Paulo, com apoio da Curtiss, a

Brasil, a primazia coube à Ma-

primeira escola civil de aviação do

rinha de Guerra, que, há um

Brasil. Durante o ano de 1921, num

século, fundava sua Escola de

campo de pouso construído no

Aviação Naval.

bairro de Indianópolis (hoje, re-

Só havia um problema: não

existiam

instrutores.

Hoover se ofereceu. “Foi uma loucura: eu não falava portu-

fotos: reprodução

& Motor. Acompanhava três

gião de Moema), a Escola Curtiss de Aviação concedeu brevês a um pequeno número de pilotos civis, a O monoplano EAY-201, criado por Hoover, deu origem ao Paulistinha

guês, eles não falavam inglês”,

maioria vinda da aristocracia paulista. As dificuldades eram imen-

costumava contar. Mas sabia pilotar aviões havia quatro anos e já participara

sas. Em entrevista ao jornal Correio da Manhã, Hoover queixava-se da falta de

de travessias. Na falta de alternativas, o mecânico ianque tornou-se instrutor

apoio oficial: “O governo não facilita nada”, lamentou. “Um aparelho me sai

da primeira turma de pilotos navais. Data dessa época sua aproximação com

na América do Norte por cerca de 63 contos. Só de imposto a Alfândega leva

Alberto Santos-Dumont.

27. Não é possível dar um curso de aviação a preços leves.”

Com a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, Hoover retornou a seu país. Tornou-se instrutor civil para a aviação do Exército, no

Asas abertas sobre a Guanabara

Texas. Sua unidade formava pilotos de bombardeio, e Hoover desenvolveu

Com o Brasil prestes a completar 100 anos como nação independente, o

um grande talento para voos noturnos. Aproveitou a temporada para casar-se

governo federal decidiu comemorar a data com grandiloquência. Suntuosas

com uma bela jovem de Iowa, nove anos mais nova.

obras foram construídas no Rio para a Exposição Internacional do Centenário


vento

da Independência. O pomposo evento, inaugurado em 7 de setembro de 1922, esteve aberto ao público ao longo de seis meses. Além do Brasil, 14 países de três continentes exibiram suas atrações em pavilhões. Tão logo Hoover obte-

fotos: reprodução

Com seus alunos (1920), e o anúncio dos voos abertos ao público (1922)

ve a concessão para montar um serviço de passeios aéreos no parque da exposição, viajou aos EUA para buscar dois hidroaviões.

do Exército e da Força Pública transformou a capital paulista numa praça de

Como previsto, a exposição foi um sucesso de público. Ainda assim, os

guerra por 23 dias. Com a cidade bombardeada pela artilharia e por aviões

voos pilotados por Hoover e seu conterrâneo Fred Esper superaram as ex-

legalistas, as tropas rebeldes lideradas pelo general Isidoro Dias Lopes se reti-

pectativas. Galantes, os dois americanos promoveram um concurso para

raram para o interior do estado. Em outubro, houve o levante das guarnições

escolher os nomes das aeronaves. Detalhe: só mulheres podiam participar.

do Exército em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, liderado pelo capitão Luís

A vencedora ganhou como prêmio um giro pelos

Carlos Prestes. As tropas rebeladas reuniram-se

ares, pilotado pela dupla. Ao final, mais de 3 mil

com os paulistas em Foz do Iguaçu, no Paraná, e

pessoas foram apresentadas aos “passeios aéreos sobre a magnífica baía de Guanabara e a nossa bela cidade”. Terminada a exposição, foi tal a demanda que Hoover manteve o serviço por mais nove meses, com voos nos fins de semana e feriados. O lucrativo negócio rendeu à família Hoover

Em 1922 e no ano seguinte, Hoover e seu conterrâneo Fred Esper levaram mais de 3 mil

algumas semanas de luxo no recém-inaugurado

pessoas para sobrevoar a

Copacabana Palace e uma longa estada nos EUA.

baía de Guanabara

Além de Orton e Charlotte, embarcaram para

o governo federal do presidente Arthur Bernardes, que durou dois anos e ficou conhecido como Coluna Prestes. Em solidariedade aos revoltosos do Exército, oficiais da Marinha rebelaram-se no encouraçado São Paulo e partiram do Rio de Janeiro em direção ao sul do país, mas, sem conseguir juntar-se ao movimento, se exilaram em Montevidéu, Uruguai. O capitão Protógenes Guimarães –

Nova York a filha Paula, de 3 anos, e o bebê Orton

ex-chefe de Hoover na Aviação Naval – foi preso,

Jr – o casal ainda teria uma menina, Shirley. Dois

acusado de ser um dos líderes da insurreição.

anos depois, ainda nos EUA, veio a tragédia. Orton Jr foi atropelado por um

A agitação político-militar animou o governo estadual paulista a reativar

caminhão. Não resistiu. A dor e a distância afastaram o piloto da agitação

sua força aérea. E eis que, no início de 1925, Hoover estava de volta ao Brasil,

política que sacudiu o Brasil em 1924 e iria ter grande influência em sua vida.

convocado a reassumir o posto de instrutor na Força Pública. Os velhos treina-

No início de julho daquele ano, um levante de militares “tenentistas”

102

deram início a um movimento de guerrilhas contra

| THEPRESIDENT | 06.2016

dores Curtiss JN foram reformados e alguns poucos aviões de combate acaba-


ram adquiridos às pressas. Entre eles, um Huff-Daland Petrel batizado de Anhan-

Uberaba (MG), onde Hoover aproveitou o domingo de sol para assombrar os

guera e um Sikorsky S-31, o Raposo, prestavam homenagem à saga bandeirante.

moradores com uma arrojada exibição de acrobacias no ar. Como de hábito, sem jamais se esquecer do marketing, levou para voar políticos locais, criadores de zebu e – claro – a jovem cunhada do dono do principal jornal da cidade.

Aviões assombram o sertão

A Coluna Prestes seguia perambulando pelos sertões do Brasil e, no início

Na manhã de 31 de agosto, centenas de pessoas se aglomeravam para

de 1926, o governo federal pediu ajuda a São Paulo, que enviou dois batalhões

assistir à partida do esquadrão bandeirante rumo a Araguari (MG). Horro-

de infantaria da Força Pública ao norte de Goiás. Em seu apoio, partiu no mês

rizados, viram quando o Jenny de Edmundo Chantre sofreu uma pane logo

de agosto uma pequena esquadrilha liderada por Hoover e levando seus novos

após a decolagem. O avião caiu de bico, matou o piloto e feriu feio o tenente

pupilos na Escola de Aviação: os tenentes-aviadores Edmundo Chantre, Naul

Antônio Lima. Hoover não aguentou – teve uma crise nervosa e precisou ser

Azevedo, Antônio Lima e João Negrão. Negrão ficaria célebre no ano seguinte

medicado. A esquadrilha seguiu para Goiás desfalcada. Um mês depois, o Ra-

como copiloto do hidroavião Jahu, ao atravessar o Atlântico Sul.

poso se acidentou nas imediações de Ipameri (GO) ao voltar de uma missão.

Partindo de São Paulo, o plano de voo dos expedicionários previa diversas

Hoover, no manche do avião, chegou a ser dado pela imprensa como morto

escalas. Em Ribeirão Preto (SP), um dos Curtiss JN sofreu um acidente no pou-

no desastre. Foi a gota d’água. No Congresso, a oposição ao presidente Arthur

so e o tenente Chantre ficou esperando por reparos. Seus colegas seguiram para

Bernardes tornou-se implacável: como americano, Hoover jamais poderia

A bordo do IPT - “O Bichinho”, em 1940

Os bólidos projetados pelo gringo Biplano-escola São Paulo Projetado e construído em 1928 nas oficinas de manutenção do Campo de Marte, o São Paulo era um biplano de instrução para dois tripulantes. Equipado com um motor radial Velie de 5 cilindros e 65 HP, atingia 144 km/h. Acidentado em 1930, foi reconstruído com aperfeiçoamentos e um motor Le Blond, mais potente, de 90 HP.

EAY- 201 Apresentado em 1935, era um monoplano de asa alta, cabine fechada com dois lugares, estrutura de madeira e aço, cobertura de tela e contraplacado, inspirado no projeto do Taylor Cub americano. Concebido como um treinador primário, usava um motor francês Salmson de 40 HP e hélices de madeira de passo fixo. Aperfeiçoado por Romeu Corsini e com nova motorização, deu origem ao CAP-4 Paulistinha.

IPT- “O Bichinho” Um monoplano acrobático de asa baixa, para um tripulante, com estrutura feita de madeiras nacionais e asas elípticas. Foi desenvolvido no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo. O primeiro protótipo, apresentado em 1938, tinha motor checoslovaco Walter Mikron de 60 HP e atingia 240 km/h.

06 .2016 | THEPRESIDENT |

103


vitória de Vargas, a aviação estadual foi extinta, seus aviões confiscados pelo governo federal, e Hoover passou alguns dias no xilindró. Libertado, ele retomou o trabalho de instrutor da aviação civil e, em 1931, tornou-se sócio de Henrique Dumont Villares (sobrinho de Santos-Dumont) e Fritz Roesler na Empresa Aeronaútica Ypiranga (EAY), para a qual projetou e construiu planadores. Entusiasta do levante paulista de 1932, o americano ainda colaborou na montagem de uma aviação de combate para os constitucionalistas – enquanto dona Charlotte se alistava como enfermeira voluntária no Um retrato ao lado do Sikorsky S-31. Com direito a autógrafo

reprodução

Hospital Mackenzie. Usando os contatos de Hoover nos EUA, o

atuar em combates. A missão foi cancelada e os aviões remanescentes regres-

governo do estado comprou dez modernos Curtiss Falcon. Trazidos clan-

saram, com Hoover apenas ferido levemente. A mesma sorte não teve o sinis-

destinamente do Chile, não bastaram para impedir a derrota militar dos

trado Raposo. Embarcado num trem da Mogiana para reparos em São Paulo,

constitucionalistas. Hoover, que havia participado de missões contra na-

incendiou-se com as fagulhas da locomotiva e queimou até o fim.

vios da Marinha na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, amargou nova temporada na prisão. Graças aos esforços da diplomacia americana e

Duas revoluções, duas derrotas

às amizades influentes – o ex-colega Protógenes havia se tornado ministro

Nos anos seguintes, a Força Pública promoveu a construção de campos

da Marinha do governo Vargas –, nosso herói acabou deportado para um

de pouso no interior paulista, mas a escassez de

breve refúgio nos EUA.

recursos e o envelhecimento das aeronaves cobraram um preço alto em vidas. Na volta de uma viagem ao Rio, Hoover escapou novamente da morte quando o avião que pilotava, em pane, o obrigou a um pouso de emergência nas proximidades de Nilópolis, na Baixada Fluminense. A imprensa oposicionista denunciava que os bravos pilotos paulistas arriscavam as vidas em “cacarecos voadores”. Martirizado pelas mortes e pelos acidentes de seus jovens alunos, Hoover ainda enfrentou

104

Em 1938, construiu o primeiro avião totalmente brasileiro. Mais tarde, se tornou um entusiasta do transporte aéreo comercial

Construtor de aviões

De volta ao Brasil, ele retomou seu trabalho no desenvolvimento de planadores e aviões. Em 1935, sua empresa apresentou o EAY-201, monoplano de asa alta para dois tripulantes, com um motor radial francês Salmson de 40 HP. Apesar de ter sido testada e homologada como treinador pela aviação militar brasileira, a aeronave não teve encomendas. O projeto só vingou ao chegar às mãos

em 1928 o infortúnio de perder uma filha recém-

da Companhia Aeronáutica Paulista, que, em 1942,

-nascida. Mesmo assim, projetou e construiu

incorporou a EAY. Modificado e aperfeiçoado, o

nas improvisadas oficinas do Campo de Marte o biplano de treinamen-

monoplano deu origem ao lendário modelo CAP-4 Paulistinha, que, durante

to São Paulo, primeiro avião operacional fabricado no estado. Mas foi só

toda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), seria um dos sustentáculos da

depois da trágica queda do veterano Anhanguera, que conduzia o piloto e

campanha “Dê asas para o Brasil”. Promovida pelo jornalista Assis Chateu-

deputado Manoel Lacerda Franco, que o governo estadual finalmente de-

briand, a campanha resultou na compra e posterior doação de centenas des-

cidiu investir em novas aeronaves. Recém-incorporados, seis modernos

ses aviões para aeroclubes em todo o país. Outra iniciativa – uma parceria de

biplanos Curtiss Fledgling tiveram seu batismo de fogo em 1930, quando a

Hoover com Fernando Brotero no recém-criado Instituto de Pesquisas Tec-

Força Pública paulista se uniu aos regimentos legalistas e se preparou para

nológicas de São Paulo (IPT) – resultou no desenvolvimento do IPT-“O Bichi-

combater as tropas revolucionárias lideradas por Getúlio Vargas. Com a

nho”. Apresentado em 1938 e considerado o primeiro projeto de avião total-

| THEPRESIDENT | 06.2016


mente brasileiro, tratava-se de uma moderna e elegante aeronave acrobática

Em 1954 ele recebeu da Força Aérea Brasileira a comenda da Ordem

para um tripulante, com estrutura feita de madeira nacional, asas elípticas e

do Mérito Aeronáutico. Como diplomata, chegou ao posto de cônsul dos

motor de 60 HP. Dos quatro protótipos construídos, apenas um sobreviveu.

EUA nas cidades de Salvador, Curitiba e Santos. Morreu em São Paulo,

Está no Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro.

de causas naturais, em julho de 1958, aos 67 anos. Charlotte retornou

Os altos e baixos do negócio de construção de aviões no Brasil e as di-

aos EUA, onde viviam Paula e Shirley, as filhas do casal. Em contraste

ficuldades decorrentes da Segunda Guerra desanimaram Hoover. Em 1942 o

com a fama que teve no início do século 20, Orton Hoover desapareceu

empreendedor vendeu a EAY e entrou para o serviço diplomático americano,

da memória aeronáutica brasileira. Não há monumentos, aeroportos,

como adido aeronáutico civil do consulado em São Paulo. Nessa condição,

avenidas ou praças com seu nome nas principais cidades onde atuou.

participou da política de aproximação dos EUA com o Brasil no curso da Se-

O título de Grande Oficial da Ordem do Mérito Aeronáutico, concedi-

gunda Guerra Mundial. Sua filha mais velha, Paula, então solista do Corpo de

do pela Presidência da República no final de 2010, passou despercebido

Baile do Teatro Municipal de São Paulo e amiga de intelectuais como o pintor

pela imprensa. Apesar de nascido nos EUA, Hoover se dizia meio bra-

e arquiteto Flávio de Carvalho – que a retratou –, chegou a se mudar para o

sileiro por opção. Aqui viveu a maior parte de seus dias. O esquecimen-

Recife, Pernambuco, a fim de dirigir shows para os soldados americanos ins-

to de sua enorme importância histórica talvez tenha algo a ver com um

talados no Nordeste. Durante o pós-guerra Hoover foi um dos grandes entu-

nacionalismo tacanho que contamina os debates sobre o pioneirismo de

siastas do desenvolvimento do transporte aéreo comercial.

brasileiros e americanos na aviação.

Algumas máquinas voadoras que ele pilotou no Brasil Curtiss FBoat Model F Fundada em 1916, a Curtiss Aeroplane and Motor Company foi uma das primeiras empresas construtoras de aviões nos EUA. Projetados por Glenn Curtiss em 1912, os Flying Boats model F eram hidroaviões biplanos para dois tripulantes, equipados com um motor V8 de 100 HP. Foram usados pelas marinhas dos EUA, Rússia, Reino Unido, Itália e Brasil. Curtiss JN-4 “Jenny” Projetado em 1915, esse biplano leve de dois lugares (aluno à frente, instrutor atrás) equipado com um motor de 90 HP foi o treinador básico do Exército americano durante a Primeira Guerra Mundial. Fabricados aos milhares e vendidos a baixo preço no pós-guerra, os Jenny se tornaram um dos pilares do início da aviação civil nos EUA nos anos 1920. Curtiss Model 17 “Oriole” Produzido a partir de 1919, era um biplano de uso geral para três ocupantes (piloto e dois passageiros) com motor de 150 HP. Robusto e veloz para a época (138 km/h de velocidade máxima), foi o modelo cedido pela Força Pública ao piloto Edu Chaves para o pioneiro raide Rio-Buenos Aires, em 1920. Huff-Daland Petrel Avião raro, produzido a partir de 1924 pela Huff-Daland Manufacturing

Company (que deu origem à Delta Airlines), o ágil biplano militar tinha motor radial Wright de 200 HP, atingia 180 km/h, levando piloto e dois passageiros. Foi usado pelas marinhas dos EUA e da Argentina. Sikorsky S-31 Fabricado pela Sikorsky Manufacturing Corporation, foi projetado em 1925 como avião destinado a fotografia aérea. Dotado de um motor radial Wright de 200 HP, o biplano carregava dois tripulantes. Alguns exemplares foram convertidos para uso militar e receberam metralhadoras móveis. Curtiss Fledgling Model 51 Variante menos potente do treinador militar modelo 48, o Fledgling 51 foi desenvolvido em 1927 como treinador primário e avião de uso civil. Equipado com um motor Curtiss Challenger de 170 HP, era um biplano bastante ágil, que transportava dois tripulantes e atingia 170 km/h. Curtiss A-3 Falcon Lançado em 1925, o A-3 foi um poderoso caça-bombardeiro biplano adotado pelas aviações do Exército e da Marinha dos EUA. Seu motor V12 de 435 HP garantia uma velocidade máxima de 224 km/h. Podia ser equipado com até seis metralhadoras de calibre .30 e carregava 90 kg de bombas sob as asas. P

06 .2016 | THEPRESIDENT |

105


A fera Ă solta


motor

Por DÉCIO COSTA

pajero Clássico revolucionário Ele foi o primeiro a oferecer conforto em um veículo off-road. E continua ainda melhor em sua versão 2017


motor Versão 3 portas

N

o universo automotivo muitos são os modelos lembra-

para quem se submetia ao desconforto de projetos adaptados, muitos deles re-

dos como ícones. Na imensa lista há os superesportivos,

paginações de encomendas militares.

os que marcam determinada época e, claro, os que ino-

Apenas dois anos depois do lançamento, a Mitsubishi deixou claro para o

varam com soluções tecnológicas. Poucos, no entanto,

mundo o que pretendia com o veículo, inscrevendo-o no então Rally Paris-Da-

trazem em um só conjunto a aura de um projeto revolu-

car, hoje Rally Dakar. Era e continua sendo a competição off-road mais difícil do

cionário. Esse é o caso do Mitsubishi Pajero Full.

planeta. Daí o motivo de o Pajero Full jamais ter sido colocado no mesmo cesto

A história desse clássico revolucionário soma mais de três décadas – sua

dos demais utilitários esportivos. Em 1985 o carro chegou em primeiro, vencen-

concepção final apareceu no Salão de Tóquio de 1981. O carro foi responsável

do todos os obstáculos que um deserto impiedoso como o Saara perfila àqueles

pela introdução de um novo conceito na indústria: a de que um veículo fora de

que ousam desafiá-lo. Nesse cenário desafiador, o Pajero Full conseguiu um

estrada, além de robusto, resistente e capaz de enfrentar as piores condições de

feito inédito: 12 vitórias. Sete delas consecutivas, de 2001 a 2007. Venceu num

rodagem, podia ser bonito, confortável e sofisticado. Ideia que até hoje é perse-

terreno onde os fracos não têm vez.

guida por diversos fabricantes de automóveis.

Foi nas dunas africanas – e depois nas areias do Atacama, na América do Sul – que o carro encontrou seu melhor laboratório para continuidade e apri-

o pajero full venceu 12 vezes o impiedoso rally dakar, sete delas em sequência. feito até hoje inigualado

moramento do projeto. O rali trouxe fama, é claro. Bem mais que holofotes, porém, proporcionou provas e argumentos concretos para as qualidades que possui e entrega. Presente em mais de 170 países, o Pajero ultrapassou 3 milhões de unidades vendidas em todo o mundo.

Do asfalto à trilha

108

Com a estreia do Pajero Full naquele início dos anos 1980, a marca dos três

O modelo desembarcou no Brasil no começo dos anos 1990, já reconhecido

diamantes revelava algo mais que um novo modelo. Inaugurava um estilo de

como um clássico, receita preservada ainda hoje. E, pelo simples fato de ser um íco-

vida inédito. Até aquele momento, conhecer lugares além do fim da estrada era

ne, ele faz questão de manter as linhas tradicionais – mas sempre recebendo atua-

| THEPRESIDENT | 06.2016


Versão 5 portas

lizações e tecnologia de última geração. Essa é a fórmula de seu sucesso atemporal. Tome-se como exemplo a recém-lançada coleção 2017. Ela chega com diversos itens que privilegiam a segurança e o conforto. Caso do novo conjunto óptico de xenônio com lavador das lentes, ajuste de facho de luz e farol de neblina dotado de lâmpadas LED. O requinte fica a cargo do revestimento de couro nos bancos, do acabamento com detalhes cromados, do sistema multimídia completo, com tela touch screen, GPS, câmera de ré, bluetooth com viva-voz e entrada USB – além do teto solar panorâmico. Por dentro ainda, o Pajero Full em sua versão cinco portas – há também a de três – garante conforto para até sete ocupantes. Todos os assentos são dotados de cinto de três pontos, e os dois dianteiros possuem aquecimento. Se o

Conforto de sobra para sete pessoas e tecnologia de ponta a bordo

caso for necessidade de espaço para abrigar mais bagagem, a terceira fileira de bancos pode ser retirada ou simplesmente embutida no assoalho. No powertrain, o Pajero Full dispõe de motor 3.2 diesel de 200 cavalos ou um V6 3.8 a gasolina de 250 cavalos. Acoplada à máquina vai uma de suas maiores virtudes: a caixa de transmissão automática Invecs II. O câmbio permite até 20 combinações de marchas, das relações do 4x2 para o asfalto às reduções do 4x4 com bloqueio no diferencial nas trilhas mais pesadas.

Ícone da indústria Como se não bastasse, a Mitsubishi incrementou a transmissão com a tecnologia AWC-R, dispositivo no qual uma rede de sensores monitora em tempo

06 .2016 | THEPRESIDENT |

109


motor

a evolução de uma lenda 1982

1991

1996

1997

2012

2017

real as condições de rodagem e comportamento do motorista. Ao menor sinal de

também é considerado como prioritário. Além de oito airbags – dois frontais, dois

tendência de desvio de rota (em curvas, por exemplo), ou manobras repentinas

laterais e quatro do tipo cortina –, o sistema de freio incorpora toda a sopa de le-

na direção, o recurso aciona o controle de estabilidade e o de tração, recolocando

trinha disponível pela indústria, como ABS, EDB, BAS, que proporcionam dispo-

o carro na trajetória correta. O arranjo da suspensão preserva a solução original,

sição, equilíbrio e estabilidade nas frenagens. São recursos fora do alcance dos

de ser independente nas quatro rodas, característica que confere ao modelo sua-

olhos, mas que falam alto em uma eventual situação de emergência.

vidade ao rodar, mas sem prejudicar sua vocação para enfrentar os terrenos que separam os grandes dos gigantes. Conforto, requinte e desempenho seriam desprezados caso não fossem agregados a uma tecnologia de segurança a toda prova. E no Pajero Full o conceito

110

| THEPRESIDENT | 06.2016

Diante de tantos atributos e da bagagem que traz, o Pajero Full é um legítimo off-road. Mais do que isso, tornou-se um ícone da indústria. Um modelo que fez e faz história, marcando época como pioneiro em sua evolução tecnológica. mitsubishimotors.com.br

P


velocidade Por LUIZ GUERRERO

A chave da inovação A nova BMW Série 7 abre as portas para um outro universo, onde quase tudo é feito por acionamento remoto. Até manobrar sem entrar no carro


A

silhueta que você vê acima é a de um automóvel elegante. Perceba a fluidez das linhas e a harmonia do desenho que forma um traço contínuo. Simples e sem excessos. O capô longo sugere vigor; o teto curvo, aconchego; e a tampa do porta-malas curta, ousadia. De um extremo a outro, o que se vê é equilíbrio distribuído em 5,23 metros de para-choque a para-choque. É o que se enxerga por fora da sexta geração do BMW Série 7. O que não se vê, contudo, é o que vai fazer você ficar tentado a preencher um cheque de mais de R$ 700 mil para entrar e não querer mais sair desse carro. O Série 7 é a joia da coroa de um fabricante que produz desejos e tem em seu portfólio outras gemas, como o desconcertante superesportivo i8 – um bólido que produziu números antagônicos no teste da revista Car and Driver: acelerou até os 100 km/h em 4,8 segundos e rodou 30 quilômetros com um litro de gasolina na estrada. Se no i8 a marca pensou no desempenho e na eficiência, no Série 7 levou em conta outros fatores. A vanguarda tecnológica e o bem-estar a bordo foram alguns deles.

O Série 7 desde o início se caracterizou pelo ímpeto vanguardista. Surgiu em 1977 para ser opção ao Mercedes-Benz Classe S. Trazia inovações como o indicador do intervalo de manutenção em um visor do painel e recursos como o auxílio ABS para os freios. Pesava 1,5 tonelada e seu motor 6 cilindros produzia até 152 cavalos. Honestamente, o Série 7 de primeira safra não era páreo para os Classe S, embora tivesse desenho mais sedutor que o rival da Mercedes. A BMW, que começou montando pequenos carros sob licença de outros fabricantes, ingressava em um terreno dominado por companhias com mais tradição no que antigamente era chamado segmento luxo (e hoje é classificado como premium). Seu grande salto nesse nicho aconteceu em 2002, com o lançamento da quarta geração da série criada pelo designer Chris Bangle. Sim, o desenho, especialmente da traseira, era controverso. Mas com aquele carro a BMW surpreendeu o mundo ao introduzir o iDrive, sistema de informação e entretenimento que se tornaria referência – e obviamente seria copiado pelos demais fabricantes. Era um computador de bordo manuseado por uma espécie de mouse embutido no


velocidade

console e que projetava páginas e mais páginas de informações em uma tela de LCD no centro do painel. A operação era tão complicada que os vendedores se dispunham a ir até a casa dos clientes para ensinar os atalhos do sistema. Pouca gente, afinal, tinha paciência de estudar as 380 páginas do manual do proprietário para descobrir como mudar a estação do rádio, entre

basta um gesto para aumentar o volume do rádio. você se sente um maestro, regendo 16 alto-falantes outras 700 funções menos prosaicas oferecidas pelo programa. Ainda assim, o iDrive foi um marco. O carro tinha massageadores nos bancos. As portas se fechavam automaticamente. Comandos das funções triviais estavam no volante. Sem esquecer o poderoso motor que na configuração V12 produzia 440 cavalos e era gerenciado por um então inédito câmbio automático de seis marchas.

114

| THEPRESIDENT | 06.2016

O fato é que com o Série 7, de Chris Bangle, a BMW começou a incomodar os concorrentes e a provocar uma corrida tecnológica no segmento preferido pelos chefes de Estado e altos executivos. Com a sexta geração do sedã, que começa a ser vendida no Brasil, os alemães da Bavária saíram na frente. O primeiro contato que você tem com um automóvel é pela chave de ignição – e não pelo volante. E é pela chave que vamos começar a explorar o Série 7. Chamada de Display Key, lembra muito os celulares flip, aqueles que eram a última palavra em telefonia nos anos 1980, mas com recursos dos modernos smartphones. Uma das faces do DK é revestida por superfície de cristal líquido sensível ao toque e projeta informações sobre autonomia, intervalos de manutenção, localização do carro (no estacionamento de um shopping, por exemplo), além das operações mais comuns como travamento/destravamento das portas, abertura e fechamento das janelas e acendimento das luzes. A função mais inusitada, contudo, ainda não obteve homologação para ser aplicada no Brasil: a manobra do carro à distância. Fora do veículo, com movimentos do dedo, você pode esterçar as rodas e movimentar o


A chave (à direita) lembra em celular dos anos 1980. Mas é pura vanguarda, comandando um bólido futurista

carro em vagas apertadas como se estivesse operando uma miniatura rádio controlada. A chave, naturalmente, é presencial: você pode abrir as portas e dar a partida com a peça no bolso. A abertura/fechamento das portas é automática. E, ao se abrirem, um complexo sistema de microlentes projeta no solo o que a BMW chama de “tapete luminoso de boas-vidas” – um rastro luminoso de 4 m² de área que conduz os ocupantes para dentro do automóvel. O recurso foi encomendado ao Instituto Fraunhofer, o prestigiado centro de pesquisas avançadas, e é composto por 150 microprojetores agrupados em invólucro de 10 x 10 mm instalado sob a soleira das portas dianteiras. Sim, pode ser só um detalhe. Mas alguém se dedicou a pensar nisso. A marca informa que dos 25 recursos aplicados no Série 7, nada menos que 13 são inéditos. Céu estrelado artificial

Os sedãs de luxo foram os primeiros a usar plásticos de superfície macia no acabamento interno das portas e do painel, ainda nos anos 1980. O novo Série 7 praticamente aboliu o material: couro, madeira e metal revestem seu interior. A arquitetura interna segue o padrão adotado nos demais veículos da marca há décadas, uma configuração que se caracteriza pelas linhas horizontais e pela simplicidade. A configuração básica do cluster é formada por dois mostradores circulares (velocímetro à esquerda e conta-giros à direita), mas as informações da tela de 12 polegadas podem ser configuradas ao gosto do freguês. E também projetadas no para-brisa, dentro do campo de visão do moto-

rista. São recursos interessantes, mas não inovadores. O Série 7 inova, na realidade, ao criar os comandos por gesto. Para aumentar o volume do rádio na tela central do iDrive (ou a intensidade de ventilação do ar-condicionado), basta fazer movimento circular com o dedo indicador no sentido horário. O mesmo gesto, mas à esquerda, diminui o volume. Os movimentos do motorista e do carona são captados por sensor 3D instalado no teto. Você poderia executar a mesma operação por meio dos comandos agregados ao volante. Mas nesse caso não teria assunto para discutir com o seu sócio. “Seu carro tem gesture control?” O sistema de ventilação interna incorpora aromatizadores – são quatro opções de flagrância enumeradas pela marca como “refrescante, natural, picante e calorosa”. Carros franceses mais baratos, como o Citroën C3, contavam com o recurso. A inovação do Série 7 é trazer umidificador de ar integrado ao ar-condicionado. A iluminação interna pode ser controlada e até criar efeito de céu estrelado no teto: bati-

06 .2016 | THEPRESIDENT |

115


O preço? Algo em torno de R$ 700 mil

zado de Sky Lounge, o teto solar se ilumina com 15 mil pontos de luz. O Maybach, a limusine de 6,5 metros produzida pela Mercedes-Benz, já trazia o recurso desde que a marca ressurgiu em 1997. É improvável que o dono de um Série 7 saia do shopping com as mãos ocupadas por sacolas e tenha dificuldade em abrir o porta-malas. Mas, caso isso ocorra, a tampa pode ser levantada quando o sensor instalado sob o para-choque traseiro identifica o movimento do pé. A abertura remota funciona por meio de radiofrequência e, de acordo com as leis brasileiras, deve ser submetida à homologação da Anatel. A BMW conseguiu a homologação; a Volkswagen, que criou a solução há três anos com a perua Passat, não havia conseguido. O Série 7 foi pensado desde o princípio para agradar menos o motorista e mais quem viaja no banco traseiro. No começo, como era padrão para a época, viajavam três passageiros no assento de trás com um descansa-braço embutido no encosto do banco. Nos grandes sedãs de hoje, só cabem dois ocupantes, separados por um console que abriga o telefone e dá acesso ao bar refrigerado dentro do porta-malas. E que ainda embute um tablet pelo qual se comandam os sistemas de entretenimento, a climatização, o acionamento dos vidros e do teto solar e onde se define qual tipo de massagem produzida pelo

116

| THEPRESIDENT | 06.2016

banco é mais conveniente. As duas poltronas podem ser aquecidas ou refrigeradas. E quem controla é você por meio do tablet. Os carros que estão sendo trazidos ao Brasil, os 740LI M Sport, vêm apenas com uma configuração de motor e de carroceria – o V8 de 4,4 litros e 650 cavalos montado na base longa de 5,23 metros com 3,2 metros de entre-eixos (a versão normal do Série 7 é 1,4 metro menor no comprimento e na distância entre-eixos). Silêncio!

Nos bancos, dianteiros ou traseiros, não importa, a sensação de absoluto isolamento do mundo exterior é intencional. O motor, apesar de poderoso, trabalha silenciosamente e a suspensão integra sistema de nivelamento dos eixos para garantir que a carroceria não irá se inclinar e, quem sabe, atrapalhar a leitura ou a digitação de quem viaja no banco traseiro. Nenhum dos comandos, incluindo os alarmes, produz ruídos desagradáveis, e o sistema de som fornecido pela britânica Bowers & Wilkins Diamond conta com amplificador para dez canais com 1.400W e distribuído em 16 alto-falantes. A melodia, naturalmente, pode ser direcionada apenas para os bancos traseiros – seja lá qual for o gosto musical do passageiro. P


Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária - CONAR

2.827

Total de processos instaurados pelo CONAR entre 1/1/2007 e 31/12/2014

1.112

Processos abertos envolvendo propaganda enganosa

813

Processos que terminaram com penalização para o anunciante e sua agência

35 ANOS DE ÉTICA NA PRÁTICA

www.conar.org.br


garagem

Por mario ciccone

Seleção de aniversário Para comemorar os seis anos de the president, Ícones da Porsche, Mercedes-benz, Jaguar, BMW, VW e Honda

Honda Accord EX

N

ão há muitas unidades deste sedã da Honda

que compete no segmento de sedãs grandes premium, com uma

circulando no Brasil. A perspectiva de vendas

configuração de equipamentos e tecnologias bastante comple-

do modelo é de 150 unidades por ano. Impor-

ta, buscando um público sofisticado e de alto poder aquisitivo”,

tado dos Estados Unidos, o sedã chega ao país

afirma Marcos Martins, gerente-geral da área comercial da

apenas na versão top de linha, com o motor 3.5 V6 de 280 cv

Honda. A versão 2016 ganhou uma bela repaginada no visual,

de potência. Já o mercado americano tem uma gama completa

além de novos recursos para a tecnologia de bordo.

de versões e chegou a vender mais de 355 mil unidades do Accord. É o terceiro carro mais vendido por lá, fora as pick-ups. A comparação, segundo a Honda, é bem desproporcional,

118

Tudo começa pela chave. Ela permite acionar o motor à distância e acionar o ar-refrigerado, para deixar o interior do carro já na temperatura ideal. Também é novidade a troca de

até levando em conta o poder aquisitivo americano e tamanho

marchas nas borboletas do volante. Toda essa tecnologia ajuda

de mercado. Além disso, o Accord faz sucesso com um público

um bocado quem viajar com o novo Accord. Em um trajeto de

mais jovem por lá. “No Brasil, o Honda Accord EX é um carro

mais de 800 km de Rio de Janeiro a Curitiba, o carro encarou

| THEPRESIDENT | 06.2016


Ao lado, motor de 280 cv. A potência do Accord permite viajar muito bem Brasil afora

muitas curvas, o desafio da estrada Rio-Santos e a alta velocidade proporcionada pela Régis Bittencourt. O Accord se comporta bem nas esticadas – facilmente chega aos 180 km/h – e se revelou bem assentado. No meio da viagem, uma bom lugar para estacionar uns dias é Paraty. No coração da cidade, a Pousada Literária, premiada no guia Condé Nast Johansens, é uma das mais concorridas, especialmente durante a Flip. Na Estrada da Graciosa, que liga Curitiba a Antonina e Morretes (PR), um momento para desacelerar. O percurso cheio de curvas permite viajar a pouco mais de 40 km/h e passar por uma área preservada da mata atlântica. A bordo do Honda Accord, o trajeto fica ainda melhor. honda.com.br

06 .2016 | THEPRESIDENT |

119


garagem Novas versões do 911 Carrera coupé e cabriolet

Porsche 911

A

curvas de forma feroz e retoma a velocidade de modo quase ins-

em Mogi Guaçu (SP), as novas versões deste clássico da Porsche

les de estabilidade, as leis da física irão lembrá-lo a ter mais juízo.

gastaram muita borracha e desenvolveram incrível esportividade.

Se entrar errado na curva, pode ter certeza de que irá rodar.

lemão pela própria natureza, o novo Porsche 911 parece feito sob medida para uma pista brasileira. Nos 3.493 metros e 14 curvas do autódromo Velo Città,

tantâneo. Mas, se resolver fazer essa brincadeira sem os contro-

Em 16 voltas no circuito, foi possível testar algumas das novas

120

A tradução desses números na pista é um carro que ataca as

Em uma prova de aceleração, vale brincar com o modo

versões. Entre elas, o Carrera e o Turbo S, que chegam ao mer-

Sport Plus. Ao travar o freio com o pé esquerdo e pisar fundo

cado como coupé e cabriolet. O Turbo S, por exemplo, pode

no acelerador, o carro se torna um foguete. O corpo é então

fazer de 0 a 100 km/h em 2,9 segundos e chega a 200 km/h

grudado no banco e a sensação é de decolagem.

em 9,9. E mais: o velocímetro avança até 330 km/h.

porsche.com/brazil

| THEPRESIDENT | 06.2016


Mercedes E 250 Turbo Avantgarde

A

sar em sedã de luxo sem mencionar uma Mercedes-

243 km/h, com a capacidade de sair do 0 e chegar a 100 km/h

-Benz. Nessa história toda, tem coisas que já são

em pouco mais de 7 segundos. Por conta de seu desempenho

esperadas: o capricho no interior, a tecnologia de bordo e o

e conjunto da obra, este sedã esportivo é uma das máquinas

espaço para motoristas e passageiros. Mas é uma boa surpre-

mais surpreendentes do portfólio da Mercedes. Ela seguirá

sa acionar o motor desta Mercedes E 250 Turbo Avantgarde.

sendo importada. Na fábrica de Iracemápolis (SP), a monta-

O turbo no nome faz toda a diferença para os 211 cavalos de

dora está produzindo o sedã Classe C e já projeta o utilitário

potência. Se for definir este carro com uma palavra, essa é

GLA para o segundo semestre. Os dois modelos são respon-

“resposta”. Ele conversa com o condutor por meio do acele-

sáveis por 50% das vendas da marca no Brasil.

rador. O retorno ao peso do pé direito é rápido e agressivo.

mercedes-benz.com.br

tenção, a tradição pede passagem. Não se pode pen-

A velocidade máxima é limitada eletronicamente a

O motor turbo dá ao E 250 respostas rápidas

06 .2016 | THEPRESIDENT |

121


garagem Jaguar XF-S

U

m senhor sentado em uma poltrona de couro e fu-

voar. Fabricado com 75% de alumínio, o novo modelo é 190

mando charuto pode ter sido o alvo da Jaguar algum

kg mais leve que a geração anterior. Os engenheiros ingleses

dia. Hoje, não é mais. Na visão da montadora britâni-

conseguiram construir um carro mais curto, porém com

ca, quem também estará ao volante de suas máquinas será um executivo ou empresário bem-sucedido, com pouco mais de

entre-eixos maior. Isto é, tem mais espaço interno. Para completar o cardápio de esportividade, o sistema de

40 anos, com estofo cultural e muitos carimbos no passaporte.

suspensão dianteiro é Double Wishbone, o mesmo utilizado

Esse homem moderno e cosmopolita certamente irá apreciar

pelo F-Type. Na parafernália tecnológica, o carro é capaz de

cada item e sentir o rugido deste Jaguar com 380 cavalos. E ele

manter a distância de segurança do veículo da frente. E faz o

vai querer acelerar. E não vai se decepcionar.

Jaguar parar, se necessário. Isso porque o sistema monitora

A versão top de linha do modelo XF-S tem motor V6

o carro da frente em situações de trânsito intenso. Para a

3.0. A sua aceleração permite sair de 0 a 100 km/h em pouco

montadora, está aí um ícone da nova geração.

mais de 5 segundos. Não é só o motor que faz o carro quase

jaguarbrasil.com.br

Um novo clássico britânico

122

| THEPRESIDENT | 06.2016


Bom para quem tem motorista ou gosta de dirigir

VW Passat

O

s nomes Volkswagen e Passat são velhos conheci-

km/h em relação ao modelo anterior. A sensação de super-

dos. Ainda assim, o novo modelo da montadora

potência é incomum para quem dirige um sedã tradicional.

surpreende. Em sua oitava geração, o sedã revela

O carro chegou a ser chamado de o “Série C” da VW, numa

grade frontal maior que os faróis, com quatro barras cromadas.

alusão ao campeão de vendas da Mercedes. De fato, estamos

Uma imagem imponente e harmoniosa. No interior, uma solu-

em um veículo do segmento de ponta, embora a marca seja

ção que já vimos no Audi TT (marca que pertence ao Grupo

mais conhecida no Brasil pelo volume de vendas. O modelo

VW): o painel é digital e customizado, conforme a escolha de

faz bem o papel de carro de diretoria e presidência em gran-

informações por parte do motorista.

des companhias. Tem bom espaço nos dois compartimentos,

Sob o capô, o novo sedã ganhou 9 cv em relação à versão

pensando no executivo que prefere dirigir e também naquele

anterior. O motor 2.0 TSI BlueMotion desenvolve 220 cavalos

que opta pelo motorista.

e pode chegar a 246 km/h de velocidade, um ganho de 36

vw.com.br

06 .2016 | THEPRESIDENT |

123


garagem

Potência e consumo eficiente

BMW R 1200 GS

A

o se preparar para uma viagem, esta BMW R 1200 GS pode dar a você a melhor sensação ao pegar a

Já os freios têm o sistema Motorrad ABS de disco duplo na

estrada. Com a grife bmw no tanque de gasolina,

roda dianteira e simples na traseira, ambas com pinça flutuante.

a moto transforma o trajeto entre São Paulo e Campos do

O resultado de tudo isso é uma frenagem muito segura e

Jordão numa experiência digna das melhores estradas alemãs.

eficiente. Mas o que mais impressionou mesmo foi a economia

O motor de 1.170 cc e 125 cv permite ganhar muita velocidade

de combustível. Ela fez 15 km por litro, em média.

nas retas. Não era difícil chegar a 240 km/h, ainda mais com a

124

Sem susto e com ótimo desempenho.

Eis a melhor equação do mundo, ao somar potência e

transmissão de seis marchas. E nas curvas? A ciclística é incrível.

consumo eficiente.

Mesmo andando forte, a moto mantém estabilidade nas curvas.

bmw-motorrad.com.br

| THEPRESIDENT | 06.2016

P


AZ3


MUlher Por j.r.duran

bÁrbara

demais Bárbara Evans deixou de ser a lolita que amamos na TV. Virou um mulherão. Veja por você mesmo


Casaco Triton Lingerie Hope


mulher Casaco Rock Lily Chรกpeu Facinelli para Passarela Lingerie Hope

128

| THEPRESIDENT | 06.2016


06 .2016 | THEPRESIDENT |

129


mulher

Lingerie Hope

130

| THEPRESIDENT | 06.2016


mulher Cinto acervo

132

| THEPRESIDENT | 06.2016


06 .2016 | THEPRESIDENT |

133


mulher Cinto acervo

ONDE ENCONTRAR: HOPE www.hopelingerie.com.br PASSARELA www.passarela.com.br ROCK LILY Rua Regent Leon Kaniefsky, 476, São Paulo, SP TRITON www.triton.com.br Foto J.R.Duran Styling Manuela Figueiredo Beleza Rafael Capello (Amuse-Ment) com produtos Nars/Lowell Produção executiva Ariani Carneiro Assistente de fotografia Lucio Almeida Assistente de beleza Bárbara Bernardi Tratamento de imagens Regis Panato Agradecimento especial Maksoud Plaza Hotel maksoud.com.br

134

| THEPRESIDENT | 06.2016


06 .2016 | THEPRESIDENT |

135


circuito elegante

Vista do mirante do Cristalino Lodge

Na natureza, como um rei

U

ma viagem a um rincão distante, com toda a natureza ao redor, não precisa ser sinônimo de desconforto, nuvens de mosquitos, comida improvisada e aven­ turas inseguras pelo mar, pelo rio ou pela mata. Alguns hotéis e pousadas brasileiras conseguem reunir todas as qualidades de luxo de acomodações estreladas nos grandes centros e to­da sorte de experiências que se possa imaginar em lugares afas­ ta­dos das selvas de pedra. Seja qual for sua ideia de turismo ecológico e relaxante – na praia, na selva ou navegando por um rio amazônico –, há opções na medida do seu prazer. Os fãs das águas podem buscar seu refúgio em chalés aconchegantes numa praia isolada do Ceará. Ou no hotel flutuante de onde se avista o encontro das

136

| THEPRESIDENT | 06.2016

águas dos rios Negro e Solimões, no conforto de uma bem equipada cabine. Ou, ainda, em um lodge de luxo encravado no sul da selva amazônica, no norte de Mato Grosso. Tudo isso com acomodação de primeira linha, excelente gastronomia regional e internacional, e muita emoção à espera de quem precisa alimentar a alma com adrenalina. Os três hotéis aqui indicados integram a seleta rede Circuito Elegante. Para usufruir de suas benesses basta aces­ sar o site circuitoelegante.com.br e digitar o código “PRESIDENT”. Ao completar seu cadastro, o caro leitor tor­ na-se cliente especial, com direito às melhores tarifas no mo­mento de fazer a reserva. E mais: acumula pontos para outras hospedagens.


Natureza, aventura e 20 chalés à beira-mar

Rancho do Peixe Preá/ Jeri, CE

Se o seu conceito de férias em meio à natureza é estar bem longe do agito, a cearense praia do Preá, vizinha da sacudida Jericoacoara, pode ser seu porto seguro. O Rancho do Peixe, com apenas 20 chalés à beira-mar, é uma das opções mais charmosas de hospedagem na região. Não por acaso foi top 3 em uma eleição do TripAdvisor entre os 25 melhores hotéis de pequeno porte do Brasil. A gastronomia, perfumada com ingredientes locais, é um dos atrativos mais elogiados pelos hóspedes. O peixe que vem da região e as hortaliças cultivadas na propriedade fazem a alegria de quem quer uma alimentação saudável. Mesmo os

saudosos da comida urbana não ficam tristes, já que a pousada conta com uma pizzaria. Quem quer relax pode entregar-se ao spa, que oferece mas­ sagens, tratamentos de pele e outras terapias. Fãs de aventura também têm o que comemorar: a linda praia do Preá é um dos melhores pontos para a prática do kitesurfe no litoral nordes­ tino e o Rancho do Kite tem instrutores formados pela Inter­ national Kiteboarding Organization (IKO).

Rancho do Peixe – Rua da Praia, s/n, Cruz, CE, (88) 3660-3118, ranchodopeixe.com.br

06 .2016 | THEPRESIDENT |

137


circuito elegante

Iberostar Grand Amazon Manaus, AM

Um hotel flutuante pode ser a forma mais divertida, con­ fortável e luxuosa de conhecer as belezas da Amazônia. O roteiro de visões acachapantes começa com o encontro dos rios Negro e Solimões, uma das paisagens possíveis a bor­ do do Iberostar Grand Amazon, que conta com 72 cabines, todas com varanda para o rio e a selva, além de duas suítes especiais na proa. O navio funciona no sistema all inclusive e oferece gastro­ nomia internacional em dois restaurantes, Grill e Kuarup, com farta opção de receitas amazônicas à base de peixe, para quem quer entrar no clima local. Dois bares com ampla carta de cervejas e vinhos nacionais e importados também estão à disposição do hóspede. Além das atividades a bordo (academia, shows, discote­ ca, aulas de dança, loja, piscinas e jacuzzi), os hóspedes têm à mão um menu de aventuras que inclui pesca de piranhas, ob­ servação de jacarés e botos, excursões de lancha por igapós e igarapés. A equipe do hotel entre as águas também organiza atividades educativas sobre a fauna e a flora amazônicas.

Iberostar Grand Amazon – Call Center (92) 2126-9927, thegrandcollection.com

O navio tem 72 cabines e oferece passeios para pesca – e um visual e tanto

138

| THEPRESIDENT | 06.2016


Na Amazônia, com todo o conforto

Cristalino Lodge Alta Floresta, MT

No norte do Mato Grosso, sul da Amazônia, o Cristalino Lodge é uma das opções mais luxuosas e aconchegantes de hospedagem na floresta. Às margens do rio Cristalino, o ho­ tel tem 18 bangalôs situados numa reserva de 11.399 hectares e abastecidos por 60 painéis solares. Além disso, conta com tratamento de resíduos biológicos, acentuando a preocupação do empreendimento com o turismo responsável. Quem se hospeda no Cristalino tem à disposição uma sé­ rie de atividades que inclui trilhas na mata, passeios de barco, canoagem e visitas às duas torres de observação de 50 metros, de onde é possível admirar a selva por cima (as árvores mais

altas da região atingem 45 metros). As excursões são monito­ radas por profissionais ligados à Fundação Cristalino, entida­ de de educação ambiental apoiada pelo hotel. Os que preferem se entregar ao dolce far niente não estarão des­ providos de mimos: a excelente gastronomia brasileira do hotel, jantares à luz de velas, um deck flutuante para contemplar a natu­ reza e ouvir os sons da mata, um bar com fogueira acesa todas as noites, de onde se apreciam as formações rochosas da reserva.

Cristalino Lodge Alta Floresta – Mato Grosso, MT, reservas pelos tels. (11) 3071-0104 ou (66) 3521-1396, cristalinolodge.com.br

06 .2016 | THEPRESIDENT |

139


D R I V E Y O U R W O R L D

M I T R E V I S T A 6 1 J U N H O 2 0 1 5

LEIA TAMBÉM A MIT NO TABLET

AMORA MAUTNER A grife da Globo

EDIÇÃO 25 • JUNHO 2016 • BONI

EDIÇÃO 25 JUNHO/JULHO/AGOSTO 2016

BONI

Presidente da Rede Vanguarda

O antenado THEPRESIDENT

Edição de Aniversário

6 ANOS

Coleção

inverno 2016 Texturas, cores e tecidos

para a estação

edição 06 • inverno 2016

E mais: os melhores spas, aromaterapia e Lina Bo Bardi MMARTAN INV 2016_FINAL_DNA_5_010216.indd 1

2/29/16 10:23 AM

Especializada em Custom Publishing e Branded Content, a Custom Editora faz para a Mitsubishi Motors do Brasil a MIT Revista, publicação de luxo com 60.000 exemplares. Editamos ainda títulos como The President, Bravíssima, mmartan Home e Samsung View. Versões eletrônicas também estão no nosso portfolio, como a Living Alone e o Designbook da Tok&Stok. Na área de Branded Content desenvolvemos projetos especiais para a Avon e a RNN Sports. Se você acredita no poder do conteúdo para criar relacionamento e reforçar a imagem da sua marca, fale conosco. Tel. (11) 3708-9739 atendimentoaoleitor@customeditora.com.br facebook.com/livingalone facebook.com/revistathepresident

@revistalivingalone @revistathepresident


142

| THEPRESIDENT | 06.2016


paixĂŁo

Por marion frank fotos Marcelo Spatafora

a elegância em marcha Marcelo Baptista de Oliveira cuida da genÊtica para criar o manga-larga marchador mais parecido com o antigo cavalo da realeza lusitana


O marchador em ação: com todo o garbo

I

144

Sophia é mulher de Marcelo Baptista de Oliveira, presidente do

Muito do que se sabe sobre o Brasil dos primeiros séculos de his-

Grupo Protege, o mais importante no transporte de valores e seguran-

tória foi transmitido em desenhos e pinturas de Rugendas e Debret –

ça patrimonial do país. Tanto Marcelo quanto a propriedade citada,

alguns dos artistas que aqui chegaram para desvendar a colônia portu-

do interior paulista, são nomes reluzentes na criação do manga-larga

guesa mais afamada do Novo Mundo. Eles retrataram tipos humanos e

marchador – e não apenas no Brasil, como se verá adiante. Cavalo é

natureza, e também riquezas e premências. Entre elas, o uso do cavalo

bicho danado, entra no sangue de quem cria (e monta) de tal forma

para se locomover pela terra gigantesca.

que se torna mais querido que parente. Um amor que pode ser avaliado

Ter um cavalo era, portanto, privilégio real. E o adjetivo vem a ca-

pelo livro recém-lançado, Manga-Larga Marchador do Brasil – A História da

lhar, já que o equino em destaque naqueles primeiros retratos descendia

Raça e suas Cavalgadas pelo Mundo. A promessa do título é generosamente

de modo direto dos animais transportados pela corte de D. João VI, de

cumprida em cerca de 200 páginas. São fotografias de Sophia e Mar-

mudança de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808. Eram cavalos da raça

celo (e suas soberbas montarias) percorrendo trilhas da Europa que se

alter real, famosos na Europa não só pelo porte garboso, mas também

visita a cavalo, assim como textos e reproduções antigas que narram o

pela coragem e pelo andamento elegante. No país que se abria a facão,

desenvolvimento da raça no Brasil.

com trilhas serpenteando morros, sobretudo nas Minas Gerais do ciclo

Sim, Sophia tem razão, a chiadeira pode ser geral (os egos se in-

do ouro, o cavalo ibérico ganhou musculatura para dar conta do habitat.

flamam com facilidade entre criadores de cavalos), mas o fato é que a

“Animal resistente, mas confortável, imagine as distâncias que se

documentação ali exposta prova que a história do país pode ser revi-

tinham de percorrer no Brasil do século 18...”, atenta Sophia Rondon

sitada, em largos capítulos, seguindo as ferraduras do marchador. De

Baptista de Oliveira, do haras Agro Maripá, em Jaguariúna, a 125 quilô-

como o barão de Alfenas (Gabriel Francisco Junqueira), por exemplo,

metros de São Paulo. “E, com o perdão de outros criadores, o cavalo que

filho de imigrante português que fez carreira política e ganhou de D.

está no início da nossa história é o marchador, sem dúvida.”

Pedro II o título de nobreza, deu início à criação dos primeiros exem-

| THEPRESIDENT | 06.2016


plares da raça em fazendas da região mineira de Cruzília – a antiga São Sebastião da Encruzilhada, assim chamada por estar no cruzamento dos caminhos que vinham do Rio, de São Paulo e Paraty, escoando mercadorias rumo a São João del Rei e Diamantina. De como, ainda, o barão, que viveu entre 1782 e 1868, teria recebido de presente do próprio

No século 19, D. Pedro ii deu de presente um garanhão ao Barão de Alfenas, que passou a depurar a linhagem nas terras de minas gerais

existiam na região, resultando na configuração final do cavalo do sul mineiro. Versões tentam explicar, sem convencer, a razão de ele ganhar o nome de “manga-larga”. Já “marchador” é algo que ninguém discute, por fazer referência ao andamento peculiar, marcha em lugar de trote – o jeito encontrado pelo animal de se adaptar ao acidentado do terreno.

soberano um garanhão para dar qualidade à tropa, melhor, um alter real, de cabeça aristocrática, pescoço levemente arqueado e inteligência superior – um príncipe, se de gente se tratasse.

II Todo mundo gosta de cavalo. Marcelo Baptista de Oliveira também. Só que esse filho de família mineira, com fazendas de muitos

“Portugal, sucessivamente governado por mouros e espanhóis, po-

animais na Zona da Mata (diz que nasceu “por engano” no Rio, há

vos igualmente amadores de cavalos de raça, conseguiu naturalmente

66 anos, e que ganhou o primeiro cavalo aos 7, de um vizinho de seu

pelo cruzamento uma nova espécie de corcéis elegantes e intrépidos”,

avô), vai além. Por meio da genética, ele quer reeditar o equino que

lê-se na obra o elogio do próprio Jean-Baptiste Debret, o pintor que

mais se assemelha em aparência e temperamento ao antepassado

melhor documentou a formação do nosso país. Pois bem. A história

trazido nas caravelas. E quem gosta de cavalo, a ponto de se infor-

registra no ano de 1819 o início das atividades da Coudelaria Cachoei-

mar sobre raças e peculiaridades, já deve estar intrigado com as fotos

ra do Campo, nas cercanias de Ouro Preto, por D. João VI, fã ardoroso

desta reportagem.Porque o modo como os cavalos do Agro Maripá

de cavalos. Exemplares alter real foram então cruzados com outros que

portam a cabeça, o estilo largo com que avançam as pernas, ora, tudo

06 .2016 | THEPRESIDENT |

145


Paixão

Nossos cavalos em passeio na Normandia

isso espelha o lusitano, aquele que enfrenta touro em arena fechada,

melhança de um ideal, a linhagem Maripá do manga-larga marchador,

e não o marchador típico destas pradarias, menor de cabeça e de cor-

de traços anatômicos e andamento bem definidos (a marcha batida, de

po, e de passada curta (ou picada).

tríplice apoio, no caso).

“Um lusitano tropical”, dirão os entendidos – o que deixaria o cria-

Foi ideia de um dos presidentes da Associação Brasileira dos Criado-

dor satisfeito da vida. Pausa para reflexão. Marcelo fez curso técnico de

res do Cavalo Manga-larga Marchador, Magdi Shaat, tornar a raça tam-

contabilidade para logo cair no batente; mesmo querendo ser agrôno-

bém conhecida no continente europeu. De que modo? Participando de

mo não frequentou faculdade, seguindo o conselho do pai, “e hoje vejo

exposições, provas e cavalgadas de prestígio, além de criar uma extensão

que ele estava certo, porque adoro cavalo, mas detesto capim, enten-

da associação por lá. Chamou o projeto de Vitrine, vendeu a ideia para o

de?”. No dia a dia do haras, está cercado de uma equipe qualificada para

dono da Protege – e é por isso que desde 2010 o casal Sophia e Marcelo

orientar no que não sabe, pois “da genética quem cuida sou eu”. E isso

tem a árdua “tarefa”, às vezes, duas vezes por ano, de percorrer as rotas

acontece em relação ao plantel de 400 cavalos (divididos entre a pro-

mais conhecidas de quem anda a cavalo na Europa. Montados em gara-

priedade paulista de 160 alqueires, e outra, em Minas Gerais) e com o

nhões Maripá (enviados com a devida antecedência para se adaptar ao

rebanho de cabras (cerca de 200, em Jaguariúna), e ainda com as 22 mil

clima europeu), eles já atravessaram 300 quilômetros do Caminho de

cabeças de gado nelore, criados em fazenda do norte de Mato Grosso.

Santiago; cruzaram os Alpes seguindo o traçado romano da Via Claudia,

De que modo Marcelo Baptista de Oliveira conseguiu dominar a

146

no Tirol; e ainda roteiros pela Toscana, Normandia e Provença.

genética de animais? Ah! Só os deuses sabem. “Quem olha os meus

Nessa última, reencontraram Laurent Serre, o “Francês Voador”, fa-

cavalos enxerga uma história que remete a 1890, pois foi até aí que con-

moso pelos shows de adestramento e acrobacias em éguas lusitanas. “Ele

segui pesquisar os animais que deram origem à raça – e é gratificante

já nos conhecia do Brasil, ficou louco com os nossos cavalos...”, jura Mar-

reconhecer no animal que monto o mesmo trejeito do seu bisavô!” Em

celo. Na terra natal de Laurent, o criador brasileiro teve tempo de vê-lo

suma: há quase 40 anos, Marcelo vem se dedicando a criar cavalos à se-

montar Patek de Maripá, o garanhão favorito, e já fazê-lo saltar obstáculos

| THEPRESIDENT | 06.2016


1 3

2 4

1. Cavalos alter real em desenho de Debret; 2. O novo livro sobre o manga-larga marchador; 3. Cabras também fazem parte do plantel em Jaguariúna; 4. Marcelo e Sophia estão juntos há duas décadas; 5. Cantinho do casarão; 6. A postura aristocrática da tropa do Maripá

5

6

06 .2016 | THEPRESIDENT |

147


Paixão

Sophia conheceu Marcelo numa cavalgada

ao lado das éguas. “Um monstro”, reconhece. Um dos cavalos utilizados nas cavalgadas, Urano de Maripá, foi vendido para uma amazona da Alemanha, em 2013; ao todo, dez manga-larga marchadores Maripá já foram negociados para europeus (preço médio de 15 mil euros cada um). O livro serve também para isso, exaltar as qualidades da

O casal viaja sempre para cavalgar pela europa e mostrar os marchadores. dez de seus cavalos foram vendidos no velho mundo

ce na pista da Hípica Paulista, aprimorando as técnicas de montar. Outra de suas “agruras” habituais, por assim dizer. Mas nem só de prazer é feito o cotidiano de Marcelo. Meses atrás, a notícia que mais chamou a atenção dos brasileiros não foi a da Operação Lava Jato, mas sim do mega-assalto, com uso de explosivos e fuzis, à sede da Protege, em

raça para os aficionados do mundo inteiro,

Campinas. O prejuízo? Cerca de R$ 50 mi-

de olho nos negócios.

lhões. Na varanda da casa grande de Jaguariúna, antiga fazenda de café totalmente reformada para abrigar o haras,

148

III

Marcelo fica de repente sério ao recordar os momentos de tensão, “um

Sophia e Marcelo estão juntos há 20 anos. Como se preza entre casais

vexame, deu para ouvir a polícia falando que não era para ir, porque ti-

que gostam de cavalos, eles se conheceram em uma cavalgada, no Pan-

nha muito tiro...”. Foi preciso chamar a televisão, ele conta, para que as

tanal, organizada por ela (Sophia, natural de Campo Grande, também

forças policiais aparecessem no local. “É o país falido!”, fulmina. Mas,

descende de fazendeiros). Marcelo tem três filhos do primeiro casamento,

demonstrando perfeito controle de rédeas sobre as próprias emoções,

mas nenhum o seguiu na paixão por cavalos. Já a filha de 11 anos, Vitó-

ele retoma o fio da conversa que lhe afaga o coração – cavalos. Adivi-

ria, do seu relacionamento com Sophia, monta “melhor do que nós dois

nhe, leitor, qual o próximo desafio europeu do cavaleiro Marcelo (e de

juntos, quem diz é a professora de equitação”, garante a mãe, sob o olhar

sua querida amazona Sophia)? Dar a volta ao Louvre, em Paris. “Se a

orgulhoso do pai. O casal, que mora em São Paulo, praticamente amanhe-

guarda montada de lá pode, por que não eu?” Boa pergunta.

| THEPRESIDENT | 06.2016

P


A série Diálogos Capitais, iniciativa da Editora Confiança, busca apresentar e discutir temas de grande relevância, com a participação de autoridades, altos executivos, empresariado, estudiosos e formadores de opinião.

Conheça mais em www.cartacapital.com.br dialogoscapitais@cartacapital.com.br


artigo

Por barbara gancia ilustração guilherme freitas

london calling Antes de sair para uma temporada britânica, nossa articulista padece de um drama e tanto: o que eu vou dizer lá fora?

U

m senso de profunda humilhação macerou-me o diafragma e chegou a interromper minha respiração assim que me dei conta de que só faltam duas semanas para minha ida a Londres. Esfregando o hematoma simbólico deixado pelo impacto do fracasso, tentei enfiar oxigênio para dentro dos pulmões. Minhas vias aéreas não reagiram. A sensação era de que um odor curtido de ovo havia infestado o ambiente e comprometido meu fôlego – como nos ataques de asma tão recorrentes na infância. Preciso reorganizar as ideias. Como vou tratar com os amigos europeus das notícias que chegam do Brasil? Como explicar que não faço parte do país infame que está transparecendo no

150

| THEPRESIDENT | 06.2016

noticiário internacional? Ou será que faço? Ainda ontem o Brasil surfava a “buena onda”. Lá em Washington, Lula era “o cara”; o Cristo Redentor decolava feito nave espacial na capa da revista The Economist e o Eike encantava os banqueiros internacionais com possibilidades mil abertas pelas prospecções que fizera (só que não) nas profundezas do eldorado do pré-sal. O país da Copa, o Rio de Janeiro dos Jogos Olímpicos, ex-preso político –ainda mais sendo mulher – na Presidência, campeões mundiais no combate à fome... Um futuro luxuoso estendia-se diante de nós feito o tapete vermelho do comandante Rolim em embarque da (ora “pósfixo”) TAM. Não havia o que pudesse dar errado com o “B” da sigla BRICs. E, no entanto... ...Cá estamos. A ciclovia da orla tomou um caldo junto com nossos sonhos, o Hotel Glória, em Botafogo, que iria hospedar os “campeões do PT” virou esqueleto, o

desemprego chegou para assombrar. E todo o empenho de consolidação da democracia ocorrido desde a gestão FHC até agora escoou pelo ralo. Um cheiro de mofo, de velharia esquecida no armário, de tudo o que é mais ultrapassado invadiu nossas narinas. O que direi, lá em Londres, quando me fizerem a clássica pergunta: “Where are you from?” Por onde começo a explicar nossa derrocada? É mesmo o fim dos tempos? Haverá quem diga que a culpa é do Lula. Desde aquele episódio em que começaram a confundir a “vontade do Lula” com prosaica imposição da Organização Mundial de Comércio (OMC), na questão da PEC dos empregados domésticos, em que a organização impôs aos países-membros que observassem um certo parâmetro na legislação de todo e qualquer empregado registrado, me dei conta de que a coisa ia feder...


Dali para Lula virar um comunista com sangue nos olhos seria um passo. Viriam outras confusões patéticas, que evidenciariam o tamanho do mal causado pela censura durante o regime militar, que alienou duas gerações inteiras da cultura política. Houve quem bradasse que a educação sexual nas escolas era degeneração da juventude – desconsiderando parâmetros da Organização Mundial da Saúde –, e

teve quem notoriamente usou a degradação das minorias como arma política orwelliana para se favorecer no campo político – não é mesmo, Eduardo Cunha? – indo na contramão das conquistas civis obtidas nos últimos 25 ou, quem sabe, 75 anos. Como podemos manter alguma objetividade, se a falta de autocrítica nos impede de reconhecer nossa essência, e se sempre enxergamos tudo do jeito que nos convém, mesmo agora quando a camarilha liderada pelo sr. Cunha ameaça, do alto de sua demagogia, até mesmo o Estado Laico?

Não foi Lula quem inventou a luta de classes. Não é preciso ser petista retinto de vermelho com uma estrela na testa ou ter inclinação marxista para chegar a essa conclusão banal. Só tendo vindo de Urano sobre um jerico para acreditar que a “oposição” liderada por Lula e forjada, em outros tempos, acredite, pelo ministro-chefe da Casa Civil do general Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva, junto com Delfim Netto, ou seja, dois dos nomes mais representativos do regime militar, possa ser temida como “o inimigo”. Não. Bem antes de Lula nós já conhecíamos a insegurança das ruas, a abundância doentia dos B.O.s com óbito por arma de fogo, já temíamos a periferia e já tínhamos

06 .2016 | THEPRESIDENT |

151


artigo visto muito sangue manchando o asfalto. O advento da “Carta ao Povo Brasileiro”, que viabilizou Lula como candidato a presidente, quem sabe tenha até atenuado um fenômeno, já provado e comprovado pela estatística, de que países muito, muito pobres ou países muito, muito ricos tendem aos mesmos índices (baixos) de violência. E que são os países em que a desigualdade se mostra mais incisiva aqueles em que ocorre maior número de vítimas da violência por grupo populacional. Problema é que nós, a chamada turma do andar de cima, não entendemos mesmo nada de Brasil. Ninguém conhece o devido cheiro da brilhantina. Continuamos a insistir que pobre não sabe votar, como se aquela massa de alienados posando com policiais nas manifestações da avenida Paulista, que depois os jornais estrangeiros confirmaram ter sido representada pela parcela mais rica da população, tivesse alguma vantagem qualitativa de voto. Ainda existe, entre a elite analfabeta política, quem se ache no direito de tentar induzir os menos

152

| THEPRESIDENT | 06.2016

favorecidos a votar neste ou naquele seu candidato do PSDB, do DEM, quem não conhece essa crueza? Eles desconhecem pesquisas (perceba que não se chama “ciência social” por acaso) mostrando que a qualidade/mapeamento de voto no Brasil é muito parecida com a qualidade/mapeamento de democracias tarimbadas como a inglesa ou a francesa. Que tal usar este momento, aqui e agora, você e eu juntos, para desconstruir o que ainda resta dessa mitologia lisérgica, da ilusão ignóbil sobre nossa identidade? Proponho que se tente matutar como um país com uma minoria de ricos e um oceano de pobres promoveu uma queda da Bastilha a partir do degrau mais alto da pirâmide. Pode uma coisa dessas, Arnaldo? Então. Lembra quando a Eliane Cantanhêde falou brincando que o PSDB era um “partido de massa” e depois fez o adendo de que se tratava de “massa, porém, cheirosa”? Eis a nossa contradição escancarada. Se a base do PT e do PSDB é a mesma social-democracia

europeia; se o muro de Berlim já caiu e levou consigo a Guerra Fria; se na era Collor nós já passamos pelo processo de testar nossas instituições, então por que raios tememos uma abrupta mudança de regime? O que isso de fato representa, qual a ameaça real? Pistas, aqui estão algumas: João Figueiredo, último presidente do regime militar, certa vez afirmou preferir “cheiro de cavalo” ao “cheiro de povo”. Parece de uma infelicidade atroz fazer uma afirmação desse calibre, mas eu tenho a impressão de que nós não entendemos o que Figueiredo quis dizer. Tanto é que a frase virou seu epitáfio. Mas veja: em outra entrevista, o mesmo Figueiredo disse coisa ainda mais descabida, e ficou por isso mesmo. Suas palavras textuais foram: “O brasileiro pode muito bem não conhecer as condições de higiene [...] eu encontrei outro dia, num quartel, um soldado de Goiás que nunca escovava os dentes e outro que nunca tinha escovado. E por aí vocês me digam se é que o povo está preparado para eleger o presidente da República”. Revista hoje, a pensata do general entraria na categoria aberração. Mas por que na época ninguém ligou? Das duas uma: somos indecentemente frios com os menos favorecidos ou, quem sabe, achamos que a constatação procede. Há também a cruel possibilidade de não nos atermos a reflexões como essa porque não há entre nós demanda por atitude política, esse tipo de coisa sobra para quem tem o que reivindicar. Ou seja: no fim das contas, existe, sim, diferença de qualidade de voto entre os mais ricos e os mais pobres no país. Os ricos votam pior porque não se engajam minimamente, só conseguem enxergar o outro lado através dos vidros de seus carros blindados.


Dá para usar o PT como boi de piranha se estamos todos na nau dos desesperados, pergunto eu? Situada no contexto histórico, a afirmação sobre “cheiro de cavalo” e “cheiro de povo” de Figueiredo diz mais sobre o covil que ele iria enfrentar no Congresso do que sobre sua falta de refinamento filosófico. Já a “massa cheirosa” de Cantanhêde... Bem, nota-se certa descontração na constatação de que existem dois brasis, tão distintos quanto concomitantes, ou melhor, o tal “Brasil profundo” cuja existência não reconhecemos por conta de nossa endêmica cegueira social. Tem-se a impressão de que o cinismo de nossa desigualdade perene não causa incômodo. Não nos vemos o país fraturado que de fato ficou visível para o resto do mundo porque assim nos convém. Sabedora dos limites da crueza que uma autoanálise pode ensejar, penso ser conveniente usar este parágrafo para introduzir ao menos uma nota positiva a ser extraída desta máquina de moer que tem sido a vida política cotidiana do país na última década. Refiro-me à mudança de percepção que está ocorrendo. Antigamente, o Brasil não era temido, nós sempre fomos muito bem recebidos por toda parte, como quem não fede e não cheira, por causa do Pelé, da bossa nova, do Ayrton Senna e da nossa imensa simpatia. Hoje, nos damos conta de que a máscara caiu. O mundo inteiro já se deu conta de que o brasileiro não é tão bonzinho quanto parecia. E é por isso que eu estou aqui quebrando a cabeça para entender de que maneira irei aplacar a curiosidade das pessoas que encontrar nas minhas férias londrinas. O que dizer depois da fatídica: “Where are you from?” O Brasil atual, emergente em crise

existencial, está na coluna do Paul Krugman, no quadro da Christiane Amanpour na CNN, nas capas do New York Times, do Financial Times, da Fortune e no blogue do Glenn Greenwald. Somos um país de enormes contradições que começa a se olhar no espelho após uma esbórnia que durou coisa de 500 anos. Não é mais opcional confundir símbolo pátrio com a camisa de uma entidade tão malcheirosa quanto a “CBF 7 x 1”. Não é mais opcional se autodenominar “gente de bem” em comparação com a outra parte da população que não se enquadra na Miami sonhada por mengheles tapuias.

Passaria pela cabeça imaginar a elite de londres criando um abaixo-assinado para impedir estações de metrô em bairros chiques? Se um só guri fosse arrastado no meio da noite de um único imóvel situado, digamos, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, ou em Ipanema, no Rio de Janeiro, como acontece diuturnamente em todas as periferias das grandes cidades brasileiras com a desculpa de que quem está sendo levado de camburão para nunca mais ser visto “se parece com um traficante que está atuando na área”, garanto que manifestantes domingueiros iriam pensar duas vezes antes de pedir mais repressão. Será que o cheiro da rua irá penetrar finalmente o isolamento dos carros blindados? Em um mundo que clama por INCLUSÃO não é mais aceitável, não configura como opção, a separação de castas.

Permanecemos sendo a única economia emergente capaz de rejeitar a construção de uma estação de transporte de massa em área nobre. Passaria pela cabeça imaginar a elite de Londres criando um abaixo-assinado para impedir a construção de estações do metro em Knightsbridge, South Kensington, Sloane Square ou Victoria Station? Imagine se eu chegasse em Londres contando que, no bairro de nome tão significativo quanto o paulistano “Higienópolis”, o pessoal repudiou a construção de um acesso ao metro por medo de “gente diferenciada”? Melhor ficar sem dizer nada. Ou cancelar a viagem. P

06 .2016 | THEPRESIDENT |

153


the president agencia estado

JK: o estilo é o homem

154

| THEPRESIDENT | 06.2016


A vida é cheia de destinos.

E para chegar até eles existe um caminho perfeito. A SWISS leva você a mais de 100 destinos em todo o mundo, com qualidade suíça no serviço, na gastronomia e na hospitalidade. Para voar diariamente para a Suíça e todos nossos destinos, contate seu agente de viagens preferido ou visite-nos em swiss.com

Voe Nonstop ao coração da Europa e além SWISS.COM


Montblanc 1858 Small Second and Hugh Jackman Crafted for New Heights Em homenagem às origens da manufatura em Villeret, a Montblanc apresenta uma coleção inspirada pelo relógio lendário fabricado pela Minerva desde 1858, e confere ao seu aspecto vintage um toque contemporâneo e renovado. Como seu histórico precursor de 1930, esse relógio possui um mostrador preto, ponteiros de formato tradicional e um grande submostrador de pequenos segundos. Visite Montblanc.com São Paulo: Cidade Jardim 11 3552 8000 · Higienópolis 11 3662 2525 · Ibirapuera 11 5096 1714 · Iguatemi São Paulo 11 3032 4230 JK Iguatemi 11 3152 6180 · Morumbi 11 5184 0775 · Oscar Freire 11 3068 8811 · Rio de Janeiro: 21 3252 2744 · Brasília: 61 3361 3051 Belo Horizonte: 31 3505 5155 · Campinas: 19 3255 8922 · Curitiba: Barigui 41 3373 4797 · Batel 41 3026 3150

Profile for The President

THE PRESIDENT #25  

Edição de aniversário, 06 anos da revista Em junho de 2010, a primeira edição de THE PRESIDENT era lançada. Aqui estamos, seis anos depois...

THE PRESIDENT #25  

Edição de aniversário, 06 anos da revista Em junho de 2010, a primeira edição de THE PRESIDENT era lançada. Aqui estamos, seis anos depois...

Advertisement