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arte política, cultura e ciência

ANO III Nº 07 R$ 10,00

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Rafael Lima

Visceral

Os bastidores de um músico amazônico inter-nacional O SOL DO MEIO-DIA

A resistência da música autoral nos anos de 1970 em Belém do Pará Política e Poesia: a poética de Charles Trocate

Terra Imatura: o surgimento rutilante no inferno verde por Marinilce Coelho

Ensaio Fotografico: “Conexões”, de Janduari Simões

Guiné-Bissau: imagens Brasileiras por Hilton Silva PZZ ABRIL / MAIO DE 2009 1


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Charles Trocate: poemas que valem um momento

ABRIL/MAIO DE 2009 ÍNDICE EDITORIAL...........................05 POESOFIA..................................... 06 A POESIA POLÍTICA DE TROCATE .................. 08 DOCUMENTÁRIO............................ 16

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Tudo começou no Sol do Meio Dia

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TUDO COMEÇOU NO SOL.....................................18 SOL DO MEIO DIA..................................................20 CARREIRA SOLO......................................................32 MUSICOGRAFIA DE UM EXILADO.......................34 ARRIBADO MALUNGO..........................................36 APUÍ: MÚSICA DA RAIZ..........................................38 500 YEARS, SO WHAT?..........................................42 FESTIVAIS INTERNACIONAIS...............................44 REINAVAM COMO CASTIÇAL............................46

REVISTAS.................................................50 O SURGIMENTO RUTILNTE NO INFERNO VERDE....................................................... 52 TRAÇOS DE NANQUIN.........................................55 VELAS DA POESIA.................................................60

CONEXÃO ÁFRICA..................................64 RETRATOS DA GUINÉ-BISSAU:...........................65 ARTE, CULTURA E RESISTÊNCIA...........................74

Retratos da Guiné-Bissau

FOTOGRAFIA VIVA ...............................75 JANDUARI SIMÕES

CONTOS PARAENSES............................87 O PRÉDIO................................................................88

CIÊNCIA E TECNOLOGIA...................91 GENÔMICA E PROTÔMICA..............................91

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O Infernp Rutilante de Terra Imatura

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Rede Paraense Genômica Proteômica

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Ensaio Fotográfico: Janduari Simões


Atividade

em Revista A necessidade da luta revolucionária é hoje maior que nunca!

Diretor Executivo Carlos Pará Editores Carlos Pará, Rilke Penafort Pinheiro, Janduari Simões, Odir Castro, Pamela Coelho Produção Executiva Odir Castro Projeto Gráfico&Diagramção Rilke Penafort Tratamento de Fotos Igor Pará Pesquisa Carlos Pará, Odir Castro, Marcos Andrade, Ilton Ribeiro, Hilton Silva Web Designer Márcio Caldas Revisor Editor responsável Carlos Pará Conselho Poético Benedito Nunes, Paulo Roberto Ferreira, José Roberto Pereira, André Belfort, Na Figueredo, Dimitri Maracajá, Elza Lima, Luiz Arnaldo Campos, Célia Maracajá, Marcos Urupá, Enilson Nonato, Alberdan Batista, Rogerio Parrera, Charles Trocate, Vicente Cecim, Albery Albuquerque, Rosa Acevedo, Jussara Derenji, Pavel Fernandes, George Venturielli, Acácio Sobral, Afonso Galindo, Ramiro Quaresma, Rômulo Queiroz, Isabella do Lago, Zenito Weyl, Igor Pará, Letícia Pará,Carlos Barbosa, Departamento Financeiro Laura Santana Publicação Editora Resistência Assinaturas e-mail: revistapzz@gmail.com Publicidade em Belém: Tel.: (091) 96164992 Av. Duque de Caxias, 160 Ed. José Bonifácio LJ-14 - MARCO CEP.: 66093-400 Fones: (91) 9616-4992 (91) 3246-3987 revistapzz@gmail.com

A Revista Pará Zero Zero – PZZ é um projeto editorial de caráter inovador junto à comunidade paraense-amazônica que promove a poesia, a escritura, a pesquisa e o livre debate de idéias artísticas, filosóficas e científicas com propósitos de elevar a consciência da sociedade, nasce, re-nasce, para avivar o pensamento, o sangue, a altitude das ações, nasce, re-nasce para abrir o caminho da luta por um mundo novo, necessário, morre para despertar o espírito libertário da multidão inconformada pelo descaso poético e político que assola a humanidade, demasiadamente humana. O poder transformador da PZZ é o esforço revolucionário de uma vida verdadeiramente combativa, sem medo de ser in-feliz; contra todas as adversidades, afirma-se como um meio de reflexão e crítica afrontando e indo-além da manipulação e da dominação dos diferentes mecanismos de poder produzidos no sistema cultural, político, social, econômico. Afronta o desperdício de material produzido pela indústria do lixo político e cultural, afronta o poder da opressão mercadológica que a todo o tempo tenta ignorar, abafar, apagar, boicotar o renascimento de um ser que se renova como o espírito da Arte. Tiranos tendem a uniformizar o rosto cambiante do ser e a uniformizar o rosto ao transformá-lo numa máscara indefinidamente repetida, imobilizada, fixa diante de suas vaidades e mentiras para esconder a diversidade que tem a vida em seus múltiplos aspectos culturais e instrutivos. fora daqui quem só quer a nação vilipendiar... a pedagogia das ações golpeia no corpo essa atroz geografia se calarmos... as pedras gritarão... Preferimos essa Vida e nos basta o espírito dela, o combate. porque é assim que as vidas que assumiram o caminho da luta se planejam

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Poesofia Poemas que valem

um momento No mundo, o poeta observa as estratégias e artimanhas, instrumentos da classe dominante,conjunturais, no combate à esquerda: são as grandes corporações de jornais e televisões, o patriarcalismo violento e a compadrinhagem internacional de políticos ambiciosos. Caracteristicamente, a brutalidade do latifúndio na sua reação – os assassinatos, as injustiças assinadas na faca – apresentam-se na poesia de Charles Trocate (Francisco Burciere).

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Poesofia

Charles Trocate

Charles Trocate é paraense, nasceu na beira do rio Apéu em Castanhal, autor dos livros, “Poema de Barricada” 2.002 São Paulo, Gráfica e Editora Perez, “Folhas de Prosa e verso”, 2.003, jornal livro de poesias em parceria com Jorge Luis Ribeiro, Marabá , Grafica e Jornal Opnião. “Ato Primavera e Bernardo -meus poemas de combate! São Paulo, 2.007 Editora Expressão Popular. É membro da coordenação nacional do MST.

A poética

Política de Trocate CARTÃO POSTAL DO HOMEM

RESPOSTA PÚBLICA

Para Ulisses Manaças

Para Rivelino

Preferi essa vida E me basta o espírito dela É verdade que nada mudou desde que me fiz assim, de aço [lambendo tristezas Verão no chão do lamento Pasmem, com o ócio, duelando sempre! Já quase adulto recorre essa pergunta obsessiva O que poderei fazer para o amanhã? Se me tiram a alface da boca Ordenam prisão aos meus poemas sobreviventes

Sou real, ambíguo entre as ruas e os combates? Estou farto da onda do mar, não? Mas é insuportável não ter o mar Vivendo nessa cidade de sensações.

De que naufrágio sofrerá o poeta? Preferi essa vida E me basta o combate dela O amido companheiro do presente Porque é assim que as vidas me planejam. Marabá Outubro de 2006

Debates tortos sobre a vida Ignorâncias desdenhando O último acontecimento Lirismo apodrecido! Vivo esses dias machucado por essas pancadas [rinocerontes Um dia, ingovernável será minha loucura Quando ela chegar quero um lugar Debaterei esse lugar Serei esse lugar A mim que é posto isso, odeio a metafísica Hoje tão angular na política! Tenho músculos explorados e toda a classe [deveriam saber Mais os piores hematomas Vão no coração galáxia Terreno cheio de diagramas e explosões! Marabá Outubro de 2006

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Poesofia

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NAÇÃO DO SILÊNCIO Para Marildo Menegat Tenho uma nação de homens dentro de mim [se manifestando Devolvidos ao esquecimento Todos os dias Se acrescentam Se diminuem Se multiplicam, apenas querem explodir? Em mim vai essa nação de homens organizados [no silêncio bruto Espetáculo “do que é? O que é?” Estão dispersos e mudos Foram ligeiramente arrancados Do tempo real. Esses homens São perguntas por aí e dormem objetos indecisos? Dia desses como um guarda reveza o turno Imaginarão-se todos fantasmas! Marabá Outubro de 2006.

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Poesofia

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PARA UM EDITORIAL DE JORNAL

RESIDÊNCIA

O CAMPO DESSE CAMPO

Para o Mano

Para Henri des Roziers

Escuto o alarme da noite Decido pelo que me parece óbvio Afundarei com murros martelos O navio de ódio Atracado no editorial do jornal

Confesso já distante Não tenho apego pelo que se repete A idéia caminha sem paletó É o remorso dos simples arando a razão Essa flauta quem recusará?

Aos olhos incrédulos (até que se exime o escritor bufão) suas idéias Inacessíveis, coisa mesmo, mau hálito Tolice de alguém cego com dois olhos abertos Olhando-se na inação.

Tudo de novo tornou-se surpresa e viaja comigo O que não pode esperar Não pode esperar os dilacerados, a rude bandeira [do grito. O passado que pari o secreto país. Enjaulado de antiformas Como um Hegel enlouquecido Escrevo esse verso e retumbo Planejo pelo décimo dia do mês o comum de todos [os atos! Estou calado na boca do mundo Sou nome chamado?

Um dia quando não existiam latifúndios Eram florestas de castanhais Então, o que deveis? Vejo os governantes disso por aí Fogosos e hirtos rumando para a dissipação Estão informulados Imunes? Reclamo, não permanecerão...

As essas queixas escusas Mergulharei no mar se preferes Ó crítico imundo, o incidente Sociólogo dos pedestais. Mergulharei no mar, é decisão Até que se afogues de sabenças vãs. Marabá Setembro de 2006.

Desalojado da arte sou espécie vulgar Nunca mais sonharei? Acolhido da fantasia ignoro presente, a sorte e o azar Coisas enigmáticas Pendões do nada Aforismo lavrado dentro do rio.

Difícil é compor isso Atravessar o tempo com os corpos em jejum Aprender a sepultar com a mesma fronteira Ignorar, teses secretas a podridão do assunto Permiti com - o aço da beleza - flores Nesse campo exausto, exausto? Xingo a morte e o drama aberto Intérmino pela palavra esse acontecimento. Minha vida posicionada Aceita o sol Vai com o corpo cheio de obrigatoriedade Podeis vê nisso felicidade?

De hoje pra manhã é minha questão Organizarei no solo impaciente do meu peito [uma plantação Árvores teimosas Pessoas são árvores!

É Verdade! Venho do campo com os meus mutilados universais Em pasmo explico a tensão Efusão que me dá tempo de dizer: viveremos! Neles me calam justificativas para faltar O arroz e a novidade, eu canto Todos estão inertes, infantes? Densos e súbitos planejam hectares E o dever já amanhecido Que quer meu coração Essa conclusão que realiza e consome Qual é o pronome? Trago da noite que perturba o gesto unido Espantosa multidão da lavoura!

Marabá, Outubro de 2006

Marabá Outubro de 2006.

Faço saber: não me submeterei à escravidão Esse vexame que rosna no estômago do homem A vida devastada soa e urge!

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Poesofia QUANDO AMANTE! Para Elis Mello Análises já não dizem nada Nem me alcançaram Diz-se, tudo vai muito bem por aí Falsários! O último almoço que fiz já faz quase um ano Todos esses dias (escreve aí) Lavei a fome com água e sabão no rio da poesia Nas noites improvisei a casa que me cabia dormindo [e se sinto frio? Ela, inglória não existia. Se me indagam, porque não responderei? Guardo amores num coração que inverna Hoje me apresso pelo século avalanche A língua da violência Continua a lamber meus planos Ergo-os bem alto para serem a novidade terrestre Tantos são os desenganos! Alegria Se interditam o caminho Faço uma outra via O que hoje é supremo secará com os mil sóis [que implantarei Num ato primavera. A ti que amas Entregarei meu bosque de idéias E coisas sãs! Marabá Janeiro de 2006

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OUTRORA

PRAZER EM CONHECÊ-LA

Para Sanara Barbosa

Prazer em conhecê-la Sou vulcão Versos de mim marcharão pelo mundo, acreditas? Sendo árvores floresta Até que o governo do meu país Apareça na minha casa sem guarda costas Para diálogos enormes

Sou assombro aos olhos dos imbecis Porque sou de carne e alarme Que bom que seja O cão que há em mim fareja O bicho burguês Que há em vocês! Divido-me e não há o que esperar Parte estou, parte não estou Não descansarei a vida que tenho Em rimas tristes Nem esperarei pela sorte Ao olho nu quero um norte!

De impostos sobre o café da manhã A política de parques infantis A permissão ignóbil Da guerra! Marabá Outubro

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Documentário O músico nômade

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afael Lima, cantor e compositor paraense com 30 anos de estrada ultrapassou as fronteiras amazônicas. Sua trajetória começou nos fins dos anos 70, quando se juntou a outros grandes nomes da música paraense do grupo “Sol do Meio Dia”. Sempre engajado em movimentos estudantis e populares, tocava em manifestações políticas da esquerda, além de atuar como membro da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos e como repórter do jornal “Resistência”. Sua carreira solo teve início em 1983, com o show “Sinal Aberto”, que estreou no Teatro da Paz., e logo no ano seguinte mudou-se para São Paulo, onde permaneceu até 1986. A carreira internacional começou no Canadá, em fins de 86, passando pela Suíça, Itália, Espanha, Alemanha, onde foi convidado para tocar em festivais de altíssimo nível, como o “Festival de Jazz de Montreux”, o “Mariposa”, o “KWT Jazz”, o “Festival Internacional de Jazz de Otawa”, o Blue Sky Fest , o “Festate World Mosic”, e outros eventos importantes Atualmente Rafael Lima se prepara para o lançamento de seu 5° CD produzido pelo Ná Figueredo, que deverá ser seu primeiro cd, literalmente brasileiro, com músicos amigos, que residem em Belém, como Minni Paulo Medeiros, Jacinto Kawhage, Calibre, Príamo, Toninho Abenathar, Marcos Puff, Pato Moraes, Ricardo Aquino, Marcio Jardim entre outros.

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Documentário

Tudo começou

NO SOL Q

uando entrei para o “Sol do Meio Dia” em 1977, a moçada lá, já tinha uma referência boa, pra música; o sol já era uma referência. Já rolava umas músicas em ritmos ímpares; O Alonso Jr. tinha saído (que era quem cantava), e eu entrei para substituí-lo, muito embora o Sidney Piñon, tenha tido uma breve passagem como cantor e compositor, antes de mim. E aí, o Albery Albuquerque, ainda estava por lá, e eu lembro que ele tinha umas canções em ritmos ímpares, “Verde Maravilha” por exemplo que tinha uma característica do som do “Sol”; quebrar os ritmos e os arranjos com muitos “cortes”, como a gente dizia, e coisas assim; e isso já fazia um diferencial. Ouvíamos muito rock progressivo, e o que aparecia por aqui, de jazz e música instrumental, tentando, claro achar um caminho, um direcionamento. Mas o que sempre foi determinante, no som original, era a maneira original de criar e fazer arranjos e tocar apenas as nossas composições. Por isso o “Sol do Meio Dia”, foi o grande divisor de águas dessa época, depois naturalmente vieram outras bandas como o “Madeira Mamoré”, e outras. O “Sol” teve várias formações, e tudo começou com Minni Paulo (baixo), Odorico (guitarra), Zé Macedo (percussão), Magro, (bateria),, que se reuniam na Casa da Juventude pra acompanhar as missas do Pe. Raul aos domingos. À esses cinco integrantes, juntaram-se Mozart (piano), Alonso Jr. (voz), Dolabela (Piano), Depois o Alonso saiu e eu entrei para ser o cantor, e aì o Mozart já não estava mais e nem o Zé Macedo, e tínhamos Rose Abensur tocando flauta pra substituir os teclados, o que dava um outro timbre. Depois a Rose viajou para

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São Paulo, e o Guilherme Coutinho veio tocar com a gente. Fizemos um show em 1978 com dois bateristas (magro e sagica), além do Guilherme Coutinho (teclados) e Jesus no Saxofone, e claro, Minni Paulo, Odorico, eu, Zé Macedo e Barão (na percussão), e ainda o Luis Pinto no violão. Depois o Minni e o Magro viajaram para S.Paulo com o Johnny Alf, e o Odorico me convidou pra remontar o “Sol”, com o Luis Pinto no baixo, e nós montamos “A festa de Nazaré” que tinha roteiro do Sidney Piñon. Nessa temporada éramos eu, Odorico, Luis Pinto, Rato (Moacir bateria), Wilson, e Zé Macedo; Depois saíram Zé Macedo, Rato e Wilson, e entrou o Walter Freitas e o Aritana; com esse quinteto (Odorico, eu, Walter, Luis Pinto e Aritana), a gente deu continuidade ao projeto de tocar na periferia, só que desta vez em cima de um caminhão, porque na temporada passada, a gente fazia, nos centros paroquiais das igrejas, colégios, onde desse. Convidei o Walter Freitas para entrar no “Sol”, que por sua vez tinha me convidado para cantar músicas de sua autoria “Verdoenga e Estrela negra”, que tinham sido classificadas para as finais da “Feira Pixinguinha-Pará/80”, e que foram gravadas nesse mesmo ano. Depois dessa fase, já no finalzinho de 82, o Minni voltou para Belém, e aí a gente remontou a formação quase que original do “Sol”, com Odorico, eu, ele, Zé Macedo e o Sagica; Já era uma outra fase do “Sol”, e os arranjos estavam cada vez mais elaborados e bem mais definidos, porque o Minni já estava com mais experiência e naturalmente, nós também. Essa temporada de shows, 82/83, se não me falha a memória foi a última vez em


JANDUARI SIMÕES

Rafael Lima em apresentação no Sol doMeio Dia.

que o “Sol”, tocou enquanto “Sol do Meio Dia”, e já tinha mais composições minhas e do Walter Freitas, de uma nova fase, que logo no ano seguinte, eu já estaria, digamos assim, incrementando mais a minha carreira solo. E, claro, meu primeiro show valendo, mesmo, foi com toda a base do “Sol”; que foi o “Sinal Aberto”, que tinha direção e arranjos do Minni, e produção do Arnaldo Silva, cenários do Macário Lima, e direção cênica do Walter (Freitas), e além de mim, Odorico e Minni, tinha o Sam (piano), Sagica (bateria), Yuri (flauta), e Maciel (trompete). Depois, alguns dos raios do “Sol” ganharam o mundo: Magro (EUA), Minni (França), e eu (Canadá, Suíça, Europa);

Mas o que sempre foi determinante, no som original, era a maneira original de criar e fazer arranjos e tocar apenas as nossas composições.

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Mini Paulo e Albery Albuquerque, fizeram parte da primeira formação do Sol do Meio Dia.

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Documentário

O Sol do Meio Dia Por Carlos Pará

O Sol do Meio Dia era um grupo de resistência que tentou provar que era possível fazer som de qualidade em Belém apesar de toda a barra e por isso partiu para apresentar seus trabalhos em outros lugares de maior acesso, ao ar livre, ao céu aberto, mais intenso, mais enérgico como o Sol do Meio Dia.

O

Sol do Meio Dia estava inserido no contexto musical amazônico e tinha um projeto de ampliação nacional, uma proposta musical que grande parte dos músicos paraenses podiam se beneficiar encarando suas iniciativas. Embora existissem ressalvas para levar a frente um trabalho próprio, autoral, como expressão artística de resistência cultural e de liberdade criativa. Os músicos do grupo foram tomando consciência do que fluía espontaneamente em suas veias abertas ao fazer um trabalho regional, mas não regionalista, trabalhando dentro do contexto de um conjunto de diversidades e adversidades musicais na Amazônia. O Sol do Meio Dia era um conjunto de música contemporânea que pesquisava temas regionais, lendas e literaturas amazônicas e que, procurando engrandecer mais a cultura de nossa terra, desenvolvia seu trabalho baseando-se em suas origens e raízes, expressando suas canções. Buscavam o que havia por trás deles mesmos, de suas vidas como pessoas dentro de toda uma riqueza de elementos poéticos, culturais e da complexidade social e política que é a Amazônia ao aceitar as suas próprias vivências ao inserir na própria música suas experiências e sentimentos e com isso construir a base de uma proposta nova.

Processo Inicialmente, pesquisavam o assunto que seria o alicerce do trabalho e posteriormente compunham música e letra, desde que já tivessem um volume de dados suficientes para integrar esses dois últimos elementos. A partir daí, então, eram efetuados os arranjos apoiados numa total liberdade de efeitos sonoros, com perguntas e respostas de um instrumento para o outro, dando um

MIGUEL CHIKAOKA/KAMARA KÓ

Rafael Lima,Odorico, Luiz Pinto, Walter Freitas, Aritannã “O Sol na Periferia”.

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certo sentido, um desenvolvimento quase semelhante ao do jazz de vanguarda. “Não queremos vínculos intelectuais, compromissos com a criação musical, explicam. A música, como aliás, toda arte, precisa ser livre, para expressar realmente os sentimentos humanos. E , nesse ponto é a música, de todas elas, a que mais necessita de intuição. Por que é através dessa faculdade que nós sabemos quando amamos. E, dentro do campo do som, podemos dizer um tal sentimento. Mas, para isso, é preciso estarmos sem prisões mentais, para que ela se manifeste naturalmente, afim de falar ao coração das pessoas”. O Conjunto tinha como meta expandir a música amazônica, mostrando que o Pará tem um grupo de pesquisa musical à altura, com estilo e origens próprias, sempre procurando difundir e divulgar a arte e a cultura popular paraense.

Ritimos Musicais Em termos de ritmos musicais no grupo se criavam vertentes de construir uma linha de

trabalho amazônico, e não só em termos de música, mas também em termos de postura humana, postura vivencial. Sem inferiorizar nenhum estilo musical, pensando em levar um trabalho próprio, autoral, ao ter ligações realmente de vida, estando inserido nele, e desenvolver um trabalho para conseguir que a música prove que realmente é universal, que ela chegue a ser conhecida e absorvida por outros centros, por outras pessoas que não tenham nenhuma relação vivencial com ela. O grupo sempre teve diversas vertentes de composição, estilos e concepções. O Albery quando entrou no Sol do Meio Dia que estava nascendo ainda, via que o grupo cantava músicas do Caetano Veloso, Luiz Melodia, Milton Nascimento e outros, então propôs que o grupo tocasse músicas dos compositores da terra, composições próprias incluindo as suas, como “Menina Estrangeira” Que menina é aquela de olhar tão vazio /No leito da flor do mangue dos rios / Que menina é aquela de olhar tão vazio/ Olhando pro nada, nada, nada,... a música apresentava muito swing, surpresa criativa nos arranjos e nas composições dentro do contexto da música,

do rock, da ecologia social, “Sol a Sol” que trabalhava a palavra através da aliteração dentro do processo da pesquisa musical baseado no ritmo do Caburé, Albery tinha também a música, um rock “Verde Maravilha” que foi gravada no estúdio da Rauland e depois foram fazer uma filmagem, um videoclipe na ruína do Murucutú como cena do programa Rock 76 da Liberal. O Sidney Piñon, compôs várias letras de música, “Pedra Sabão”, apresentava uma quebra de compasso, o arranjo era feito pelo próprio grupo, ninguém tinha formação acadêmica musical e era tudo improvisado, o resultado ficava no estilo, o Sidney tinha também “Doce Fauna” em parceria com o Odorico, o Minni Paulo tinha musica instrumental a “Bacuri”. Walter Freitas apresentava composições como “Verdoenga” e dialogava muito com o grupo sobre a concepção da música e do “Sol”.

Profissionalização O “Sol” não tocava só por tocar, tinha a preocupação em se profissionalizar e discutia muito sobre concepção musical. Durante três anos que o conjunto atuava, vários músicos tinham saído e entrado para o “SOL” e com o afastamento de uns e a chegada de novos elementos, era necessário praticamente refazer todo o trabalho, e conseqüentemente, fazer uma nova adaptação do companheiro na turma, na idéia do que era o “Sol do Meio Dia”. O encontro com o músico e pesquisador Egberto Gismont em Belém em 1979, atiçou o Sol a começar a batalhar mais, ensaiando cinco dias por semana, exceto sábado e domingo, para poder mostrar sua arte musical fora de Belém; a intenção deles era arribar, isso exigiria maior aplicação dos músicos, e tra-

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Documentário

A capa do disco “Sol do Meio-Dia” de 1977 de Egberto Gismont que foi gravado em 1977 com as experiências musicais dele no Alto do Xingu.

balhar mais intensamente era uma forma dos músicos se entrosarem melhor e saber como os outros tocavam, criar uma organicidade no Sol. Essa era uma proposta de profissionalização futura com a preocupação principal que o grupo teve depois também, foi gravar um disco. Chegaram a conclusão que a velha teoria tinha que ser aplicada “90% de trabalho e 10% de inspiração. Se você não tem trabalho não tem inspiração”. Outra preparação para poder fazer música amazônica de qualidade era preciso estudar, pesquisar os ritmos e as sonoridade da Amazônia e aplicar em experiências subjetivas de criação e composição, viajar para o interior, para o meio do mato, das cidades ribeirinhas, viajar para o interior de si mesmo e descobrir essa floresta de símbolos, de sons com seus mistérios e imaginários poéticos onde as possibilidades de criação são infinitas, conhecer tribos indígenas e seus rituais de passagens onde a música cadencia os passos e nos leva a ancestralidade do mundo. “Os músicos aqui em Belém, principalmente, se não morrem de fome, recorrem 24 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

a boates de terceira categoria, para poder sobreviver através da música. O meio musical daqui é muito restrito; Além de marginalizar o artista: não compreendemos o por que disso, quando no sul, gente célebre ou não, não se tem essa diferença por parte dos empresários de rádio e televisão, ou ainda do público. Por isso, sempre achamos que devia existir uma espécie de líder, afim de solucionar esses problemas que definimos de “divisão artística”. Isso é uma questão de casta intelectual que começa por achar que apenas gente que já tem seu rótulo, como

Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros, é que valem a pena ser valorizados. Que nada. Temos um bom pessoal, aqui em nossa terra, que anda fazendo coisas muito boas em termos de composição e trabalhos musicais de toda forma.”

História musical O “Sol” iluminava a história musical na Amazônia, uma história consistente, também contra a propaganda e as dificuldades


JANDUARI SIMÕES

Egberto Gismonti

Da esq. p/ dir. Aritannã, Luiz Pinto, Rafael, Carlos, Odorico, Wilson, no show “A Festa de Nazaré”, do Sol, no “Waldemar Henrique”, em 1979.

de acesso ao mercado e pelas condições que garantissem a continuidade de um trabalho artístico profissional. Nunca na verdade tinha havido um movimento musical que se propôs de cunho histórico, como o Sol do Meio Dia. A proposta musical que se divulgava no céu de Belém era clássica e elitista algumas vezes mascarada de popular e amazônico. O Sol do Meio Dia sempre produzia novas melodias e novas letras e algumas delas foram muito tocadas. O Sol incorporava suas realizações numa perspectiva dinâmica, onde a

Egberto Gismonti tinha um disco chamado “Sol do Meio Dia” que foi gravado em 1977 com as suas experiências musicais no Alto do Xingu. Quando ele veio tocar em Belém, em 1979, pelo Projeto Pixinguinha, no Theatro da Paz, o grupo do Sol deu uma fita cassete do show ‘Sol e Cia’ para ele. Ele ouviu, e depois fez uma espécie de workshop com eles, e fez uma constatação de que não havia uma unidade musical: Segundo ele, era como se existissem umas três ou quatro linhas de trabalhos diferentes dentro do Sol. O que não deixava de ser uma verdade por que o Sol sempre teve diversas vertentes de composição, estilos e concepções. A diversidade de estilo, o Egberto, particularmente não gostava, mas se a intenção do trabalho era essa, então “tudo bem”, segundo ele. A partir desse momento o grupo começa a batalhar mais, ensaiando cinco dias por semana, para poder mostrar um trabalho musical fora de Belém; a intenção deles era sair, e isso exigiria maior aplicação dos músicos, e trabalhar mais intensamente; essa era uma proposta de profissionalização futura. A preocupação principal que o grupo teve depois também, foi gravar um disco. Chegaram a conclusão que a velha teoria tinha que ser aplicada “90% de trabalho e 10% de inspiração. Se você não tem trabalho não tem inspiração”. O Egberto meteu corda no grupo para gravar um disco, e chegou a dizer que ajudaria inclusive a produzir esse disco.

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Documentário Cartaz do show “Verde Vago Mundo”, inspirado na obra do escritor paraense Benedicto Monteiro. Arte de Luiz Pinto.

mistura do(s) velho(s) e do(s) novo(s), a par de indicar certas mudanças, que são inevitáveis, re-afirmava uma linha coerente de trabalho para evitar o mero folclorismo, o radicalismo nacionalista, o panfletarismo anti-estético, isto é, o panfletarismo pelo panfletarismo, ao recriar de forma pessoal e original, as influências brasileiras e internacionais que estruturavam suas vivências cotidianas. Construir realmente uma linha de trabalho amazônica de forma espontânea, criativa e conceituada. Fazer musica na Amazônia e ir além do regionalismo.

Sol na Periferia O Sol do Meio Dia fez shows em bairros da periferia de Belém num projeto de formação de platéias, proposto pelo grupo, para a Secretaria Estadual de Cultura da época. Foram quinze apresentações subvencionadas, com shows abertos, e ao ar livre, pelos subúrbios de Belém. Era uma experiência totalmente diferente do que tocar no Theatro da Paz porque o público era diferente, mais vivo, mais descontraído, as pessoas escutavam porque estavam ali e ouviam o som e não estavam a fim de criticar, estavam a fim de curtir o som mesmo. Um público que nunca tinha visto o Sol do Meio Dia. O público que assistia o Sol era um público que assistia eles no teatro, em recintos fechados, era um público de amigos e conhecidos, de intelectuais, restrito e não por culpa deles. O Sol do Meio Dia nesse projeto tocava em cima do Caminhão pelas ruas e periferias de Belém, no intuito de formar platéia, era uma estratégia eficaz de inclusão musical do projeto e de divulgação da banda que já tinha a intenção de realizar uma intervenção urbana mais eficaz como em 1979, com o show “A Festa de Nazaré”, e outros, antes mesmo, como “Sabor de Chocolate”, “Verdevagomundo” e “Respirando Água”. Já em cima do caminhão, na perife26 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

ria, eles se apresentaram com a banda no Marco, Jurunas, Sacramenta, Marambaia, Guamá, Terra Firme e Telégrafo; acordavam às seis da manhã e se encontravam no Agir (uma espécie de escola/centro de teatro, música e poesia) que ficava na Rui Barbosa; lá eles colocavam os instrumentos no caminhão e iam para a periferia tocar. Esse Projeto começou em cima de um tema com roteiro do Sidney Pinoñ que era a “Festa de Nazaré”, e basicamente foi musicado por Rafael Lima e Odorico, além de outras parcerias como a de Vital Lima, Alonso Jr., e Luis Pinto. O Odorico teve uma idéia de vir da periferia para o centro da cidade. Era uma inovação no cenário musical da cidade, mas não tinha ido pra frente porque pagavam com seus próprios recursos, batalhando com pouca munição e naquela oportunidade, sem nenhum apoio ou subvenção oficial. Depois, com o projeto de formação de platéia, tocando em cima do caminhão, começaram a usufruir de um dever do Estado que estava apenas cumprindo com uma das poucas obrigações

A Festa de Nazaré”, e outros, antes mesmo, como “Sabor de Chocolate”, “Verdevagomundo”


MIGUEL CHIKAOKA/KAMARA KÓ

Em cima do caminhão o Sol percorria a periferia de Belém: Pedreira , Guamá, Sacramenta, Marambaia, Terra Firme, Telégrafo, ...

que devia cumprir, pagando o trabalho de músicos que tocavam para pessoas que não tinham acesso a teatro, a shows, porque não podiam ir e pagar ingressos. Então, isso era uma proposta aliada ao interesse da banda em tocar nos bairros de Belém e com o cachê poderiam viabilizar seu primeiro disco o que seria um grande registro documental do Sol do Meio Dia e da história musical paraense. Mas o dinheiro não foi liberado todo de uma vez e inviabilizou a produção do disco. O Sol foi uma das grandes bandas autênticas que já teve em Belém , depois veio o Madeira Mamoré; chegaram inclusive a cogitar um show em parceria: “Luz na Estrada” que não aconteceu.

Trabalho Político

“Sol”, sempre tratava sobre as questões de desmatamento, estava preocupado com o social, e com a devastação das florestas. Nessa fase o Sol amadureceu politicamente em termos de manifestação, em termos nativos, nas letras e no próprio trabalho musical. O fato é que o movimento musical nesta cidade praticamente não existia porque os músicos não tinham espaço para criar, ensaiar e apresentar seus trabalhos com liberdade de expressão. O que existia no campo musical oficial, eram inúmeros concertos de música clássica no Theatro da Paz, de difícil acesso a maioria da população, seja pelo preço dos ingressos, seja pela arrogância de suas fachadas, seja quanto ao interesse do público por esse tipo de expressão artística tão distante do dia-a-dia da maioria das pessoas.

O Sol tinha um trabalho político consciente onde também tocava em diferentes Centros acadêmicos na UFPa. Os temas musicais do PZZ ABRIL / MAIO DE 2009 27


Documentรกrio

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Cartaz do show “Sol & Cia”, Theatro da Paz, Projeto Jayme Ovalle.

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Documentรกrio

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Documentário

Carreira

Solo Luiz Maklouf Carvalho

N

ão se trata de estar aqui ou estar ali, na colônia ou na metrópole, que é colônia também. O pais é. Não como categoria vaga, de nação e povo. Mas de país dividido: velho x novo. Minoria x maioria. Pais de classe. De luta. A arte de enquadrar no seio farto dessas contradições e estabelecer um pólo de defesa, uma trincheira: Rafael Lima aí. Sinal aberto, curva fechada, esquina rompendo o beco. É do tempo de beco e de sinal muito fechado que o homem está na luta. Como Rafa, outros. Armas diferentes querendo ser poder de fogo junto. Tempo de treva, já se anuviando: de sentir na veia e na garganta o seguinte: a força da voz dele, da minha e de quase todos. A voz. A música. A palavra. O som, o artista. O músico, esse, digamos, fu(n)dido. Em Rafael Lima (“novacomo o broto da limeira/livre como o grito da manhã) a consciência dessas armas não é de hoje. Ele cantou só, primeiro, e mesmo cheio de gente, pelos bares, pela vida, pela boêmia, pelo sem dinheiro, continuou sozinho até que descobrisse mais. Não um sozinho de solidão, mas de procurar gente e ganhar um pessoal pra confiança da sua arte. Pintou o Sol do Meio-Dia: experimento da calma, de tumulto, de criatividade. De porrada e de companheirismo. Rafael cresceu com e para cada músico do Sol. Sinal Aberto é uma vitória da luta de Rafael. Ele quis muito e está aí como um artista 32 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

que tem o que dizer. Num canto que emociona e significa. Mexe. Arrepia. Um artista em construção: “por isso pegar a bigorna e o martelo e — o quanto antes — novas canções forjar”. Ele trabalha como músico de letristas que dizem que “os dias não eram assim”. Que alguma coisa sumiu, “como somem as verdades”. Que brincam gostosamente de guerra: “é bala de melão na boca/acesa dos conflitos”. Que “jogam frutos no mundo”. Quem em gotas de sol, esperam que “dias novos hão de vingar”. Tudo se encontrou na inspiração (e no trabalho, muito) de Rafael. E sai pra fora, abrindo o sinal e mais um pedaço da liberdade com a competência e o brilhantismo dos músicos da Banda Esperta. Um show, enfim, que dá força.

Arte gráfica do poeta Age de Carvalho para o primeiro show da cerreira solo de Rafal Lima


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Documentário

Músicografia de

um exilado Influências regionais e muitas parcerias nas andanças do músico e compositor paraense Rafael Lima, que nunca se cansa de abrir o verbo para falar da gente daqui para o mundo ouvir.

O

“Arribadas” (1983) foi meu músicos radicados em São Paulo, como primeiro disco, gravado Proveta,(sax.) Pedro Ivo (baixo), Maguimetade no Canadá e meta- nho (bat.), Luizão Rabelo (perc.) e Jota de em São Paulo. A mas- Rezende (teclados). terização e a prensagem foram feitas na Essa história de eu sair fora daqui, é Suíça em 1983. Nesse CD gravei músicas porque tem um momento que as coisas como “Arribada Malunga”, que tem letra começam a ficar muito pequenas; e eu tido João Gomes “uns malungos atrevidos nha ficado saturado de Belém, queria videsceram os lamejos levados / no porto do ver de música. Daí, um dia, já morando em sal se melaram de pêxe S.Paulo, abandonei o e as modinhas marrom”; Eu nem pensei duas Banco Central, a es“Nao” com letra também vezes, ou no depois, tabilidade financeira, do João, “Mim” que é só quando decidi arrime separei da minha de minha, “Fubar, em riba d`asas mulher e da minha guêra” do Macácomo o Walter Freitas filha que eu amava rio, “Tum Ta Tá” escreveu; a certeza muito, e meti o pé na e “Lua-aluá” do que eu tinha, era essa estrada, como a genWalter Freitas. história, de acreditar te costumava falar na O CD tinha letras do na música, na música época; Eu nem penJoão Gomes, com uma que eu fazia, no meu sei duas vezes, ou no linguagem que o Walter canto... depois, quando deFreitas já vinha desenvolcidi arribar, em riba vendo no seu disco “Tuyabaé Cuaá”. Tem d`asas como o Walter Freitas escreveu; a coisa do tupi guarani, do linguajar peculiar certeza que eu tinha, era essa história, de do caboclo amazônida. E era praticamen- acreditar na música, na música que eu fate, esse o repertório do “Arribadas”; era zia, no meu canto, que na verdade ainda só esse som, que eu já tocava lá fora, no estava em processo de maturidade, mas Canadá, e que virou disco. Tem músicos já existiam canções, como “nao, mochocomo por exemplo: Gordon, Sheard (pia- índio, arribada malunga, festança, festêra” no/teclados), David Woodhead (baixo), entre outras, que viriam ser a base do meu Quammie Williams (perc.), Jonh Jonh- primeiro CD. Festêra, por exemplo, é a preson (saxs.), Armando Castagnoli (saxs./ sença da “caboca festêra”, dançadeira de caflautas), Bird (bateria), entre outros, e, rimbó, lundú, síriá e outros ritmos do norte 34 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

O disco “Arribadas” de 1993. Gravado no Canadá e prensado na Suiça, foi a sua primeira experiência fora do Brasil.


ARQUIVO

NAO* Rafael Lima e João Gomes Nós veio do dentro da índia Na indi’América do sul seremos nomeados índios na Indi’Améri’Carnaval na vaga músicaBrasíli morenos frangos de quintal seremos pedra matutina auroleando o pessoal suando pingo de resina que nem tambor no pacoval a pele tosc’AleGrest’ina derrete as esporas de sal Agora nós pede licença É Sin’Agô’IampTribal o bumba da nossa vivença fêz baque nessa capital nós truxe o sumo das essença o cimo im flor do mangueiral o pitiú da piracema as flor do bicho folharal no quengo tuda a conciênça das tribo la do bananal uns ‘ronco de rumpí ‘nhá vença dessas modinha tropical

do Brasil e a tematica desta canção que têm como ritmo básico o carimbó. A personagem central na música que narra, na verdade só quer a atenção do seu parceiro, o nhô belo, que também é um dançador. Parece também uma alusão à lenda do boto branco, o encantado, que à noite sai das águas dos rios e se transforma no mais belo dos homens; e, exímio dançador, encanta e seduz a todas as mulheres nas festas por onde passa. Diz ainda a lenda, que este belo homem sempre está vestido impecavelmente todo de branco - até o chapéu-, e este, nunca o tira, mesmo durante a dança, pra que não se deixe ver o furo que traz na nuca que é o seu respiradouro de peixe. Ainda na canção a personagem central contrapondo-se a lenda, diz que até esse rapaz encantado, o boto branco, se rende aos seus encantos de mulher, quando esta, devidamente esta trajada para as festas de carimbó. Porém, a dançadeira só quer o nhô belo, seu parceiro, que segundo ela é um dançadeiro incomparável a ninguém; nem mesmo

ao exímio boto branco, o encantado. Até então, em Belém, eu já tinha gravado duas músicas do Walter Freitas na feira Pixinguinha em 1980, al´wem da experiência no Sol do Meio-Dia, e tinha gravado também uma música do Pedrinho Cavalero e do Jorge Andrade chamada “Bem-te-vi”, no disco do Festival “Três canções para Belém”. Essa minha estada de três anos em São Paulo (1984-1986), me deu mais um fôlego, um know how para tentar a vida no exterior. Na minha bagagem eu carregava o ritmo da mata, os ritmos ímpares, que é o som do índio; misturados com o carimbó, lundu, outros batuques, outros sons, que compõem a diversidade, a peculiaridade, e a riqueza musical amazônica.

Três toque no banjo caboco faz fest’AniM’ont’arraial Alegra o povo faz seresta paresque as do castanhal Sonora flor lá da floresta Iara às vez, um bamburral fez D’alva’im’riba im nossa testa e o rumo foi cimento e cal A gente é sodade que infesta reimã que não traz o mal É “Nao” que todo o brilho empresta pro nossso canto natural.

* ”nao”- abreviação de nome feminino japonês; aqui também usado no sentido de embarcação, nau. do dentro da índia-citação da mata amazônica; o que é nascido, vindo do seio dela.

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Documentário A poética das letras de Rafael Lima e joão Gomes incoopora a linguagem popular como imagem narrativa das nossas raízes caboclas. FESTÊRA Rafael Lima e João Gomes ‘to ruxinha ‘tô danada nada e pêxe no ‘gapó tudo é pêxe dentro d’ágúa nada sû sem carimbó feche a dûr adore a dança vença o “pare” o desamûr’ abra a boca encharque a pança de alua, bacaba é bom’ ‘nhô és belo eu quero eu quero rebola lá no moju to menina, to vexada vermelinha ‘iguá ‘rucum flor és belo eu quero eu quero te ‘roça nos meu’ caju juro juro de pé’junto tar’juriti zé cantadû: ‘revelû lá na cidade que eu a filha de xangô stí das muita a mais bonita ‘té que ‘nita e ‘nhá fulô ‘ói que quando ‘tô de chita que me arrastû no lundû boto branco inté se agita sobe im terra e berra eu sû: ‘nhô és belo, eu quero eu quero, etc... tôdo o refrão o rapaz das prûfundeza lá do rio de bujaru diz pra mira que eu sû princeza me prûmete o seu amor mas só quero tu nhô belo vem no tum-tum do tambor’ que de cá, me vû te quero dançadêro iguá’ nenhum

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“Arribado


GERALDO RAMOS

o Malungo”

Da esq. p/ dir. João Marcos (teclados), Sagica (bateria), Mini Paulo (baixo). Rafael Lima (violão e voz), Odorico (guitarra), Zé Macedo (percissão) e Paulo Levi (saxs), no lançamento do CD “Arribadas” em Belém do Pará.

ARRIBADA MALUNGA Rafael Lima e João Gomes uns malungo atrevido descêro os lamejo levado no porto do sal - se melaro de pêxe e as modinha marrom se melaro (lavaro) na gosma do sol ver-o-peso da chula q’sses paricero trûxero do cuspo do vau ver a fama do bicho no bumba matêro, no limo desse pessoal é sumano benzido e bentado nos tronco’ reivoso’ dos açaizal é suprimo de corpo fechado pula’ sete flexa do preto Amerbal é m’é feia de fita enxotando a tristeza espiando o que chêra -os quintal é ‘scambimbo de zinho no couro da vida é cacete no lombo do mal uns caboco atentado aluaro de lua ‘s pitinguarana das manhã aNaoaro de ´strela a Cidid’Amazônia na luz matutina - Iansã Saravara’ as cidade os perfume no ar Saravara’ as cidades os perfume no ar de Mentina-Clemen, tiã, tiã, tiã... de Mentina-Clemen, tiã, tiã, tiã... e a festêra na bera das água deságua um sorriso da moça Iananã na planície, as caboca se ajuntam morena - tûda’ salpicadas de sol urubú desce lento acordu salvaterra- e a paixão verdoenga arribû de Mentina- Clemen, tiã, tiã, tiã... de Mentina- Clemen, tiã, tiã, tiã... pixãim chêra forte o budum lava terra de reçarayanarrebol, de raçarayanarrebol e os rebumbo da pele cabana agora tão lá (as lonjura correm) no estrangêro vela à pique fazendo seu sol do bronze fazendo seu sol uns tapuio atantado no mundo alentado no mundo, uns tapuio uns malungo, uns tupã uns tambores tantando no mundo atantando no mundo uns tapuio, uns malungo uns tan-tan

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Documentário

Apuí: música da raiz

A formatação da elaboração musical muda com a presença da tecnologia na Suíça Francesa.

N

o disco “Apuí”, passamos aproximadamente um mês dentro do Groundworks estúdio, na Suíça Francesa, gravando, entre setembro e outubro de 1995. Foi uma experiência diferente do Arribadas, porque a gente tinha um estúdio na mão e podia experimentar mais; não era aquela coisa de chegar e gravar porque a hora tava correndo...E depois tinha a presença do Bocato, do mestre Bocato, que fazia os arranjos pros metais e mandava ver. Era muito legal porque passamos essa temporada na mesma casa, eu, Bocato, Tiago Costa, Doum Rumão, Paulo Levi, Eduardo Costa, e a moçada que vinha gravar. Só o Calibre, que morava em outra casa, mas a gente se via todo dia no estúdio. Então o Apuí teve todo esse clima. A gente ficava impressionado com a energia do Doum (Rumão), com seus já 70 anos de idade. Depois, o Bocato, era como se fosse uma espécie de Paizão de todos, com aquela calma dele; eu me sinto um cara meio que de sorte, por ter conhecido o Boca (Bocato), e ele ter gostado do meu som; eu me sinto muito feliz por isso, e serei eternamente grato a ele por isso. Depois de terminadas as gravações eu vim para o Brasil e só retornei à Suiça para a finalização em fevereiro de 86. O CD foi produzido por Stanley Maumary pela gravadora Birdline e o lançamento foi feito no Festival de Jazz de Cully no norte da Suíça. Nessa turnê de lançamento participaram os músicos que tinham gravado como o Paulo Levy, Bocato, Thiago Cos38 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ


O disco “Apuí” de 1996, gravado na Suíça Francesa, contou com um sofisticado estúdio de gravação.

O Apuí pertence a família Cecropiaceae, e existem diferentes espécies de Apuí, cada qual com seu nome científico. O Apuí é um cipó que cresce sobre outras árvores lançando raízes aéreas (vem do alto em direção ao chão), e a medida que vai se desenvolvendo, abraçando e dominando a árvore que o hospedou, esta vem a morrer. É uma caracteristíca da Floresta Amazônica ela se alimentar dela mesmo, daí a constatação de que na floresta, muitas vezes morte é vida

ta, Eduardo Costa, Calibre, Rodrigo Botter Maio e o grande Dom Um Rumão que foi parceiro da Elis Regina. O Dom Um eu conheci na Suíça num festival de Jazz: Eu ia abrir o show dele, era eu, uma banda italiana e ele, e aí na passagem do som ele me ouviu, curtiu muito o meu som, e quis tocar comigo e acabamos tocando juntos a minha música. Tem uma particularidade nesse Cd que é a música Sagas, ela entrou à parte no disco Apuí. Quando retornei à Suíça para finalizar o Cd, resolvi gravar Sagas que é alusiva ao massacre dos 11 trabalhadores rurais sem-terra em Corumbiara, Rondônia. Depois com o disco pronto voltei ao Brasil para fazer o lançamento, começando por Belém, chegando aqui no dia 18 de abril de 1996; ou seja, um dia depois do massacre de El Dorado dos Carajás no Pará onde “dezenove brasileiros foram massacrados, na PA-150 dezenove lavradores foram assassinados na curva do “S”. Foi outro choque, porque eu tinha acabado de gravar o “Apuí”, que eu incluí um música sobre um massacre, e daí acontecia um outro massacre muito pior. Dei de cara com uma imensa manifestação de todos os setores da sociedade, contra esse massacre, ali por volta das 11h. da manhã, na avenida Magalhães Barata, e naturalmente, acompanhei os protestos. E, logo em seguida, como eu já tinha uma agenda a cumprir sobre o lançamento do Cd, fui no programa Sem Censura e denunciei que o responsável pelo massacre era o governador Almir Gabriel. Essa denúncia, me rendeu um ostracismo que perdurou até o governo do Simão Jatene, e a minha música, que já não tocava muito regularmente na Radio Cultura, daí mesmo é que foi proibida de ser veiculada. Anos depois, em 2007, é que vim a saber através de funcionários da Funtelpa, que, na verdade existia esse tipo de proibição meio que nas escondidas. Acho que já nos dois últimos anos do governo Jatene, é que ouve uma relaxada, e tocaram algumas vezes, mas isso é uma coisa que não acompanhei porque pouco parava por aqui.

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Documentário

São meganhas infelizes matadores de escopetas arma e lei, uma merda só latifúndio em uma só mão

A impunidade motiva e fomenta a violência no campo. O atrazo da Reforma Agrária no Brasil vai gerar maiores conflitos e consequentemente mais ocupações, despejos, trabalho escravo e mortes

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SAGAS (1996)

CAÇULA

Rafael Lima

Rafael Lima

então que alguém ´tra vez me explique ´onde é que foi parar o sermão do santo padre da santa madre -será tudo isso não foi em vão? Como pode um certo exército, assim armado até os dentes assassinar tanto inocente onze mártires de um clã mataram assim a brasileiros gente sem terra sem teto á procura de um abrigo á procura de seu chão em paranaspanemas, corumbiáras, no sul do Pará, a chacina tem a benção do Estado para defender o patrão São meganhas infelizes matadores de escopetas arma e lei, uma merda só latifúndio em uma só mão Recupéra-se o perdido Rompe-se a dura prisão no auge do furacão segue o mar embravecido são diolindas, são antonios “dons” josés, rainhas e pedros gente cuja teimosia treme mundo move chão teimosia com honestidade dando a vida por justiça gente vista como não santa mas me mostre a santidade de um “antonio do pau oco” tomás de aquino ou agripino que em vida as diatribes muito, muito cometeram melhor o não canonizado o aqui na terra pagante gente humilde retirante “franciscana” de meu deus

JOÃO LAET

refrão então me diga quantos médices golberís e figueredos fhc e outros fernandos estarão ainda de plantão mantendo em dia a dita ordem massacrando opositores

financiado pelas cias, es.u.as. e outros financiadospelas “Cias” “Euas” e outros ladrões - ou será que as “Cias” da vida outros “Allendes”, “Ches” e Lamarcas continuarão assassinando com o aval de seus patrões com Nestles e city Banks financiando esses massacres aparatados pelo estado em suas sórdidas missões refrão

não te assusta não corre já pra dentro maré vai subir sobe `s água é já. junto jacaré `roncô; tu´viu? passa vem cura`r `ssa maleta braba quem ti `mpinimô? anda que tua febre arde tem três noites chá que é bom tu já não toma tem 3 dias ´s águas já alagaram os campo´ tem três luas böiu jiju tu já não come é só por birra? senta o rabo nessa rede – oh, os santos! faz descanso três Aves Marias cuida moleque `sse teu quebranto nhá Preta tira com sabedoria paludismo que matou muito curumim por lá `strela d’alva vem më conta os home` se pûs a remar as mulhe` se pus a velar na `ilhar`ga os filho a bom rezá sofrendo atrás de ter`ra ar`ta nös alagados prá acolá sucuriju veio, corpo levû foi tudo tão matrêro que pir`ralho num anadû. tem de engulí `m seco, pegá no terçö entregá a alma ao santo o cor`pó o diabo já arribô. não te assusta não corre já pros campos maré vai ba`xá junto as cobras, vai `paludismo, febre, rôla vem - tu `viu! dêxa zefa já ´ssa semvergonhice `stá já que te `ncantû anda que o calor `tá forte não tem mais enchente `ta só igapó sar`ta que a maré `ta baxa tem muita vazante nesse Marajó toca montaria ligêra `rumo lá pros lados do alto-arari .(....)

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Documentário

500 years,

so what ? Mentiras e verdades sobre os 500 anos do “Descobrimento do Brasil”.

F

oi um disco gravado em aproximadamente 10 dias em maio de 2000, em Lausanne, na Suíça, e produzido por Stanley Maumary pela gravadora L177; era um disco que eu queria chamar a atenção para a farsa dos 500 anos de “descobrimento” do Brasil por isso fiz uma música em parceria com o Minni Paulo Medeiros com texto em inglês para que a denúncia fosse mais abrangente na Europa e ao mesmo tempo escrevi a canção “quinhentos danos”, que é uma outra forma de retratar a questão do “descobrimento” , ela vai mais no cerne da questão, do massacre dos índios, e de todos que se levantaram contra a mão branca colonizadora. A outra particularidade desse disco é a ausência de instrumentos de sopro e a presença mais incisiva da guitarra do músico espanhol Jesus Gomes. Participam desse disco, além desse guitarrista, Calibre (baixo),, Nicola Marinoni (percussão), Minni Paulo Medeiros (baixo), Stanley Maumary (bateria), e tem um coro com 50 integrantes do Movimento Sem Terra no refrão da música “as pedras gritarão”. Esse coro, nós ensaiamos em frente da Universidade da Amazônia na hora do Julgamento dos militares responsáveis pelo massacre; e após o término, fomos caminhando até o estúdio e gravamos. Esse material eu levei comigo para a Suíça e incluí no CD.

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Capa do disco “500 Years, so what ? de 2000. Gravado na Suíça pela L177 Records.

Cartaz da turnê de lançamento do CD 500 years, so what? na Europa.


QUINHENTOS DANOS

AS PEDRAS GRITARÃO

Rafael Lima

Rafael Lima

então que alguém me diga, que alguém me diga e explique já ! que merda é essa agora ? quinhentos anos comemorar ! quem fôi que descobriu ? descobriu o que ? quem fôi esse “pedro” vil ? “cabrão” corrido não sei lá da donde ê querem que a gente engula e se ponha a comemorar massacres do passado atrocidades sem conta “palmares” e “farrapos” e tantos outros mais uma certa cabanagem... que vingou lá pras bandas do meu pará e uma nação cabana quase tres anos a lutar indios, negros e humildes contra os demandos do lugar desmandos dos impérios dos “portugais” tiranos vis “manélis” gente muito mesquinha que aportou cá kraós, yanomamis, kaiapós e kamayurás tembés e nhambiquáras, guerreiros todos se juntai tomemos dos tacapes e bordunas o sangue derramado de nossos ancestrais temos que vingar... quantos quinhentos danos, ainda teremos que suportar ? quantos outros massacres, ainda teremos que enfrentar ? massacres de inocentes, sempre a lutar por uma pátria livre... por “liberdad” por um brasil cabano... por “igualdad” um país soberano... “fraternidad” uma nação que seja livre e possa cantar... uma nação que seja livre e possa cantar... uma nação que seja livre e possa cantar... quem matou nossos ancestrais vai ter de pagar no fogo do inferno essas almas hão de queimar deuses, guerreiros hão de um dia se levantar contra os malfeitores que sangram nosso lugar curupiras e pajés hão de um dia vingar fora daqui quem só quer a nação vilipendiar...

testemunhamos pra contar a nossos filhos e suas gerações governava o brasil em dezessete de abril, dia do massacre vão um tal fernando henrique que era o presidente, e chefe da nação governava o meu pará, dr. almir gabriel, que determinou a operação mas foi um tal de coronel mário pantoja, que deu ordem de atiração dezenove brasileiros foram massacrados, na PA-150 dezenove lavradores foram assassinados na curva do “S”, então eram silvas, pereiras, almeidas, santos, dias, e nascimentos gente de brio e fibra como eles não são tantos, atrás de teto e chão a PA-150, foi manchada em sangue, do brio desses irmãos a curva do “S”, para sempre envergonhada, chora a morte desses cabra “bão” “acreditamos que as pessoas que vivem para os outros, um dia chegarão a reconstruir o que os egoistas tentam destruir, mas nunca conseguirão” 3 antônio, 1 oziel, 1 lourival, 1 joaquim 1 amâncio, 1 manoel, 1 leonardo, 1 altamiro joão rodrigues, joão carneiro, 1 abílio, e 1 raimundim dois josés, um graciano, aquele-um robson, e 1 valdemiro candelárias, candelarias... candelarias, candelárias... candelárias, candelárias carandirús, corumbiáras, os eldorados dos carajás a pedagogia das ações golpeia no corpo essa atroz geografia se calarmos... as pedras gritarão... música de rafael lima e adaptação poética em texto escrito por pedro tierra sobre o massacre de eldorado de carajás, ocorrido em 17.04.96

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Documentário

Festivais internacionais A

música de Rafael Lima tem cruzado diferentes fronteiras e enfrentado as mais diversas platéias, mundo afora, em festivais de música, normalmente voltados para o jazz, mas com uma visão progressiva, ou o jazz/fusion, por exemplo, como a música de Miles Davis, Jaco Pastorius, Weather Report, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, entre outros. E isso, seja na América do Norte, na Europa, ou no Brasil. É dentro desse contexto que se pode citar alguns eventos que Rafael Lima vem se apresentando ao longo desses anos: Montreux Jazz Festival, Suíça 1994; Stelli sotto State, Milão, Italia, 2005; Festival Latino

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Americano, Milão Italia 1992; Otawa International Jazz Festival, 1989; Festival de Jazz de Barcelona, 2004; Varese Jazz Festival, Varese, Italia, 2005; Blue Sky Festival, Crareedon, Canadá, 1989; Festate World Music, Chiasso, Suíça 1991; Kultur Jazz, Festival contra o Racismo e a Xenofobia, Locarno, Suíça, 1993; Festival de Cinema de Locarno, Suíça 1991; Mariposa Festival, Berye/Toronto Canada 1987; Jazz in the Garden, Lausanne, Suíça 1997; KWT Jazz Festival, Toronto, Canadá, 1987; Les Toniques Festival Lausanne, Suíça 1998; Podring Jazz Festival, Biel, Suíça, 1995; Cully Jazz Festival, Cully, Suíça, 1996.


ARQUIVO

STEFAN EICHER

Da esq. p/ dir. Nicola Marinoni (percussão), Rodrigo Botter Maio (saxs., flautas), Chico Correa (teclados e piano), Mini Paulo (baixo elétrico e acústico) e Rafael Lima (voz,violão), em tournê pela Suiça em 1997.

Stefan Eicher - sexta - e Rafael Lima - sábado por uma nova música; Jorge Ben Jor, Ney Matogrosso e Daníela Mercury pela “brasileira”. “... Se um paralelo é consentido (fazer) entre os artistas que pisaram o palco deste festival nos dois primeiros dias, não se pode deixar de não considerar junto ao nome de Stefan Eicher o nome do compositor, cantor e violonista brasileiro Rafael Lima. Pelo “respiro” cultural que ele acumula, a propensão a confrontar-se com outras culturas, e o empenho por uma nova linguagem musical que seja expressão de uma escolha de vida. Na primeira noite brasileira o festival de Montreux propôs nomes seguramente mais famosos que o de Rafael Lima, de seu trombonista Itacyr Bocato e de seu percussionista suíço Nicola Marinoni. Nos referimos a Jorge Ben Jor, a Ney Matogrosso e a Daniela Mercury, artistas que sábado a noite chamaram milhares de expectadores ao Auditório Stravinski, transformando-o em uma fantasmagórica praça do Rio de Janeiro em pleno carnaval. Mas mesmo com um “consumado” mistério, com sedução e transgressão refinadas, não fizeram outra coisa a não ser oferecer o Brasil a Montreux como um produto de consumo entre a “música de baile e karaokê de massa”. Rafael Lima, com seus músicos um pouco brasileiros e um pouco europeus foi um mensageiro do Brasil e de sua cultura...” Umberto Savolini (Transcrito do jornal suíço “Corriere dei Ticino” de 4 de julho de 1994)

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Documentário

Reinavam com o

castiça Rafael Lima e Walter Freitas, apresentando “Reinavam com o Castiçal” em Ponta de Pedras, nas comemorações do centenário de Dalcidio Jurandir, em janeiro deste ano. Os dois parceiros se conhecem desde 1978, o que ja rendeu algumas parcerias e varios shows juntos. Rafael já gravou seis canções do parceiro.

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È

ARCEVO FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA

al

Capa do livro “Primeira manhã” de Dalcídio Jurandir onde Rafael Lima musicou o diálogo de 13 páginas entre Alfredo e Ludica no que viria a se transformar na opereta “Reinavam com o Castiçal”

um diálogo do livro “Primeira Manhã” de Dalcídio Jurandir que eu musiquei em 1993 numa noite de inverno em Zurique na Suíça, resultando numa opereta de aproximadamente 30 minutos. Eu andava com os 11 livros do Dalcídio na mala, podia deixar roupas, mas os livros andavam sempre comigo. Esse diálogo se trava entre o Alfredo que é um personagem recorrente de quase todos os 11 livros de Dalcídio, e

DALCIDIO JURANDIR Ludica, uma “quase prima”, dele que aparece nesse livro, à frente de um santuário iluminado por um castiçal onde os dois adolescentes, ela com 16 e ele com 15 entre sutilezas, brincadeiras e essa linguagem peculiar ribeirinha fazem uma comparação entre o sexo masculino e o castiçal aceso e a partir daí a conversa se desenvolve através do universo dalcidiano que invoca as crendices, os costumes, o imaginário popular amazônico, o linguajar marajoara e a própria musicalidade porque a escrita do Dalcídio sugere isso. Por exemplo, a primeira vez que eu li o “Primeira Manhã” em meados dos anos 80, quando eu me deparei com esse diálogo, eu tinha a certeza que isso era música pura; muito tempo depois em Zurique, já em 1993, relendo esse livro, quando eu cheguei no diálogo, comecei literalmente, imediatamente a tocar isso, e a compor o que viria ser a opereta que posteriormente eu viria a chamar de “Reinavam com o castiçal”, e que praticamente a fiz naquela noite. Recentemente a opereta foi apresentada no mês de janeiro , por ocasião das comemorações do centenário de Dalcídio Jurandir, em Ponta de Pedras, (10), Cachoeira do Arari (13), e na Fonoteca da Fundação Tancredo Neves (15). Eu convidei o Walter Freitas para interpretar o Alfredo e eu fiquei com a parte da Lúdica.

Castiçal

À

mesa do oratório, no castiçal tão bem areado quê se acreditava de ouro, a caçula acende a vela. Devagarzinho ia Alfredo descendo do parapeito de Eunice, da janela da Odaléa, até que uma furtiva palavra da mocinha o fêz cair no alçapão. Então, foi, tirou da bagagem o jabuti, dou não dou, dou não dou, e deu: tome que lhe trouxe, trate bem dele. A moça indaga. Ele sem explicar nada. Deu-lhe, no silêncio, um brusco pesar pela Valmira, brusco, o impul­so de sair dali, correr entre os coqueiros... A moça só pinava, estudando aquele embaraço, curiosa, ansiosa, fa­minta de conversar, de tirar dele, rapaz da cidade, o que a cidade tem, oculta e promete. Num querer ganhar intimi­dade, fêz-se mais dada, como coisa que ele era de casa, um primo, puxa um assunto mais travesso, resvala aqui, dis­farça ali, foi passando nas palavras e na faceirice a sua urtiga e o seu anel arqueava-se no riso ou de repente cara de anjo, a voz proibida, o todo sorrateiro, o olhar facheando sobre o desconfiado. De embaraçado, foi por pouco, Alfre­do chega a saliente. Já nem sabiam como principiaram. Reinavam com o castiçal.

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Trajet贸riam煤sica

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Inferno Verde... A revista Terra Imatura, ligada à literatura, à arte e à ciência. Essa revista foi significativa por expressar em suas páginas uma literatura mais preocupada com a realidade sociopolítica

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Revistas

Terra Imatura: o surgimento rutilante no inferno verde do Valle Guimarães, Adalcinda Camarão, Aloysio Chaves, Bruno de Menezes, Carlos Eduardo da Rocha, Daniel Coelho de Souza, Dalcídio Jurandir, Francisco Pauo final da década de 1930, lo Mendes, Fernando José Leão, Flávío quase dez anos depois do de Carvalho, José Augusto Telles, Juracy fechamento da revista Be- Reis da Costa, Luís Faria, Machado Coelém Nova, surgiu no Pará a lho, Mário Couto, Mário Augusto da Rorevista Terra Imatura, ligada à literatura, à cha, Ruy Guilherme Paranatinga Barata, arte e à ciência. Essa revista foi significa- Raul Newton Campbell Penna, Stélio Mativa por expressar em suas páginas uma li- roja e Solerno Moreira Filho. teratura mais preocupada com a realidade A revista contribuiu no sentido de consociopolítica, já sem aquele caráter expe- gregar intelectuais e poetas paraenses que rimental e irreverente do primeiro instan- estavam dispersos, sem ligação alguma te modernista. Dirigida pelos irmãos Cléo entre si (02). O título foi uma homenagem Bernardo de Macambiao romance do escrira (01) e Sylvio Braga, A revista Terra Ima- tor Alfredo Ladislau, a revista teve uma cir- tura, ligada à litera- intitulado Terra Imatura, à arte e à ciên- tura (03), publicado culação mensal cia foi significativa de 1938 até em 1923. O romance por expressar em 1942. trata sobre a cultura e suas páginas uma A redação a economia da Região literatura mais pre- Amazônica, ressaltanfuncionava, inicialmente, à rua Angelo ocupada com a reado a diversidade da naCustódio, 4, e depois lidade sociopolítica tureza. Duas epígrafes mudou-se para a rua compõem o romance 7 de Setembro, 66, no Centro de Belém. de Alfredo Ladislau, uma de Euclides da Na época, o mundo vivia a eclosão da Cunha transcrita de “À margem da históSegunda Guerra Mundial e a capital pa- ria - sobre a descrição geológica do “largo raense passava por transformações na sua canal terciário que por longo tempo sepapaisagem urbana. Folheando as páginas rou os planaltos Brasileiro e os de Guyada revista Terra Imatura, o leitor pode ver na” e a outra de Alberto Rangel sobre a as fotografias dos novos prédios públicos, “terra prometida às raças superiores, tonidos novos pontos de bondes no Ver-o-Pe- ficadoras, vigorosas, dotadas de firmeza, so, da reforma da Praça do Relógio. Além, inteligência e providas de dinheiro, e que, é claro, dos novos trabalhos de escritores um dia virão”, transcrita da obra Inferno Verde. Nesse contexto, o romance Terra e poetas locais e nacionais. José Maria Mendes Pereira, redator- Imatura despertou grande interesse no chefe de Terra Imatura, tinha a colabora- meio intelectual da época devido as poção de nomes como o de Alberto Soares sições ora mítica, ora nacionalista da obra Marinilce Oliveira Coelho

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em relação à Região Amazônica. A trama se desenvolve a partir da conversa entre dois personagens, Aiúna e Arianda, que contemplam o pôr-do-sol amazônico, da cidade de Santarém, na confluência dos rios Tapajós e Amazonas. Absorvidos pela beleza natural das terras amazônicas, eles dialogam sobre a pobreza econômica do povo daquela “vastíssima região impúbere, terra ainda imatura”(04), mesmo vivendo em “terra, prodigamente fecunda”. A inquietação daqueles jovens amazônicos, na exigente procura de um caminho de


Folheando as páginas da revista Terra Imatura, o leitor pode ver as fotografias dos novos prédios públicos, dos novos pontos de bondes no Ver-o-Peso, da reforma da Praça do Relógio.

desenvolvimento para a região, vingou como uma palavra de ordem no grupo de Cléo Bernardo que seguiu o estilo de pensar e adotou o espírito de luta na realidade econômica, cultural, social, política e cultural que se estruturava no país nos anos 30. A revista Terra Imatura (04) como tal meio de vincularão para comunicar a ideia da geração, publicou no número 2, de maio de 1938, um editorial que definia a finalidade do periódico e clamava apoio dos estudantes. Leia um trecho do editorial.

[...] Terra Imatura é a peleja por um Brasil mais nosso, por uma Amazônia mais ajudada. A mudança se fez porque o espírito da mocidade quis prestar uma homenagem reconhecida à memória daquele que em vida, entre lágrimas e soluços cantou os mistérios da Terra Imatura, tornando-se poeta cantado da planície. Quem ama com carinho esta terra, conhece a alma de Ladislau transformada em páginas sublimes — a jóia preciosa do seu espírito — Terra Imatura. Terra Imatura c a Terra Verde de Eneida. O verde esperança. A esperança c a mocidade.

A mocidade é o Brasil. Por isso, Terra Imatura, surgindo entre a promessa e a juventude tem que ser com a ajuda de Deus, a revista do Brasil [...] Terra Imatura aparecendo, surgindo rutilante, como o sol nas manhãs caboclas do inferno verde de Rangel, principia a cantar o hino mavioso que cantaremos sempre a grandeza sentimental da Amazônia - a esmeralda que o Brasil deve guardar com fé, no anel grandioso do seu orgulho. (05)

Nos trechos citados acima se percebe que a revista Terra Imatura, o “mensário independente dos estudantes do Pará”,

empenhar-se-ia em representar o mundo amazônico em seu lirismo e ideal regionalista. No artigo Para realizar - levantate mocidade!, de Cléo Bernardo, o autor volta-se para a necessidade da organização dos estudantes paraenses a fim de conquistarem melhorias sociais, como as alcançadas pelos estudantes de Pernambuco, que conseguiram fundar a Casa do Estudante, naquele Estado. Para Cléo Bernardo, uma instituição modelar que também poderia ser construída em Belém. “O estudante pobre tem duas barreiras

contra si: a sua pobreza e a carestia dos livros e das taxas escolares. Além disso tudo, a moradia e o passadio são caros. Em Belém não há casas apropriadas para hospedar estudantes pobres de outros logradouros. Só existe para o rico, com diárias a coronel”.(06) Outra preocupação com a injustiça social avança em outras crônicas do mesmo autor. Uma delas é A alma do século, a propósito dos horrores da guerra sinoPZZ ABRIL / MAIO DE 2009 53


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japonesa, vistos por Cléo Bernardo em filme, no cinema Olímpia, em 1938. A guerra surgiu porque a ambição nasceu (...), porque o século XX é o tempo do direito da força contra a consciência do direito. E o mundo acovarda-se. E as sociedades batem palmas, aplaudindo essas nações que querem fazer a sua glória, a sua grandeza no cume aguçado das baionetas. (07)

Em outubro de 1938, Terra Imatura trazia notícia sobre o avanço das tropas alemães na Europa. O autor demonstra toda sua indignação diante do nazismo e do fascismo que dominavam a Europa e revolta-se com a idéia do abuso de poder dos ditadores da guerra, Cléo Bernardo denuncia o morticínio legado à humanidade pelas guerras, de um tempo histórico de força contra o direito humano de viver. (08) O orgulho, o cego e tradicional orgulho alemão sempre plantando no seio da humanidade a semente da angústia, da grande angústia, da grande angústia universal [...] Bismarck passou. Guilherme II passará como Hitler e outros endocrinopatas imperialistas[...] (09)

Traços de nanquim

Os desenhos Cabeça de negro, do “artista da planície” Garibaldi Brasil144, e Maracatu, de Barandier da Cunha, servem de referência de um movimento intelectual que desvendava o país e sua gente.

Em Terra Imatura, tanto os textos chamam a atenção do leitor pela intensa determinação de pensar o Brasil (10) e sua gente, como os desenhos que aparecem na revista seguem o mesmo intuito. Os “redatores desenhistas”, como eram denominados, da revista muito colaboraram para manifestar o espírito crítico de interpretação que predominava no meio intelectual da época. Dentre os ilustradores, tem-se os seguintes nomes: Barandier da Cunha, Geraldo Corrêa, Guiães de Barros, Garibaldi Brasil. Os desenhos Cabeça de negro, do “artista da planície” Garibaldi Brasil (11), e Maracatu, de Barandier da Cunha, servem de referência de um movimento intelectual que desvendava o país e sua gente. Barandier, por exemplo, conseguiu captar o movimento harmonioso dos passos do maracatu e, mais além, a PZZ ABRIL / MAIO DE 2009 55


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Revistas sensualidade dos dançarinos em suas formas de equilíbrio e sensualidade, que nos lembram o ritmo frenético da “negra fulo” dos versos de Jorge de Lima. Outro destaque, do caprichoso trabalho gráfico e visual da revista Terra Imatura eram as capas. Um exemplo é a da revista número 2, de maio de 1938, ilustrada com motivos da flora regional, assinada por Guiães de Barros. A vitória-régia desenhada é símbolo de beleza para a mocidade de Terra Imatura que celebrava a vida. Já na revista de número 5 de outubro do mesmo ano, o desenho de capa, por Geraldo Corrêa, é uma alusão ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré, festa religiosa realizada no mês de outubro, em Belém do Pará. Desse mesmo desenhista é a ilustração da coluna “Ciranda Social”, onde, em traços de nanquim, garçons e fregueses habituais do terrace do Grande Hotel tornaram-se figuras magras e elegantes, de um cenário de conversas entremeadas por fumaça de cigarro e drinques.

Publicidade da loja “A Pernambucana” publicada nas páginas da Terra Imatura.

A literatura brasileira da década de 1930 é caracterizada pela “substituição do trabalho destruidor pelo trabalho construtivo.” O poema-piada, tão presente na fase inicial do Modernismo, perde lugar para a seriedade nas discussões, surgem preocupações novas de toda ordem: políticas, sociais, econômicas, religiosas e filosóficas. Em Belém, Ruy Guilherme Parana-

Velas da poesia Na década de 1930 foram lançados livros significativos para a história da literatura brasileira, obras como Libertinagem, de Manuel Bandeira; Remate de males, de Mário de Andrade; Poemas, de Murilo Mendes; Pássaro cego, de Augusto Frederico Schmidt, Cobra Norato, de Raul Bopp e Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade. No Pará, De Campos Ribeiro estreia com Aleluia (1930), Bruno de Menezes lança Poesia (1931) we Batuque (1931). Dulcinéia Paraense, Paulo Plínio Abreu c Ruy Guilherme Paranatiriga Barata publicam os primeiros poemas, nas páginas de Terra Imatura.

NOTAS DE RODAPÉ DA PUBLICAÇÃO “O GRUPO DOS NOVOS”. MEMÓRIAS LITERÁRIAS DE BELÉM D 01 Cléo Bernardo de Macambira Braga nasceu em Belém. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará, lecionou nesta mesma universidade e no Colégio Moderno. Jornalista, cronista, poeta e parlamentar estadual pelo Partido Socialista Brasileiro. Foi soldado voluntário da Força Expedicionária Brasileira. 02 BARATA, Ruy Guilherme Paranatinga. A geração remediada do Pará dá boa tarde a Fortaleza por intermédio de Ruy

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Barata. Folha do Norte, Belém, 20 jul 1947. Suplemento Arte Literatura, n°33, p. 3. Entrevista. 03 LADISLAU, Alfredo. Terra Imatura. Belém; J. B. dos Santos e Cia Editores, 1923. \361bidem, p. 15. 04 Terra Imatura, Belém, n. 2., maí 1938, p.2-5. 4. Na pesquisa realizada foram consultados o exemplares de número 2, 5 e 10, únicos encontrados ua Seção de Obras Raras da Biblioteca Pú-

blica “Arthur Viana”, cm Belém.

05 Idem, ibidem, p. s/n. 06 BRAGA, Cléo Bernardo. Para realizar - levanta-te mocidade! Terra Imatura, Belém, n. 5, p. s/n, out 1938. 07 Idein. A alma do século. Terra Imatura, Belém, n° 2, p. s/n, maio 1938. 08 HOBSBAWN, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX (1914-199Í). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 09 BRAGA, Cléo Bernardo. Agora. Terra

Imatura, Belém, n° 10. p. s/n, sct 1939. De acordo com Nelson Werneck Sodré, o confronto entre o velho e o novo regime político no Brasil, desde o fim do século XK até o encerramento da Primeira Guerra Mundial, despertou nos intelectuais do país um intenso trabalho de espírito crítico. Na década de l930, essa autenticidade de interpretar o país alcançou uma maturidade, pois com o Modernismo, os conceitos de novo, de moderno, de autêntico, de nacional e de

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tinga Barata (12) publica Eterno Dilema, sia de Dulcinéa Paraense tem de pessoal poema longo de três estrofes, numa linha um lirismo marcado pela saudade, pelo existencilista sobre o mito da busca. Um desengano. menino ouve e guarda o conselho amigo A revista Terra Imatura publicou tamdo velho sorridente, que lhe adverte a bém a prosa paraense. São textos que compreender a vida com um único senti- descrevem a paisagem regional, numa do verdadeiro. O menino cresce e as fra- linguagem clara, objctiva. Dois exemplos ses do velho soam-lhe em pensamentos de prosa podem ser citados. O primeiro é por muito tempo. Quando homem: em de Dalcídio Jurandir, intitulado Ver-o-Pebusca “da fortuna, do amor, da ventura e so, segundo noticiário da própria revista, da paz” que ele pensa ser a vida. um trecho do romance inédito, até aquela Com as sandálias rodata, mas que já potas, depois de ter anda- Ruy Guilherme Paranadia ser lido na edição do mundo afora depois tinga Barata publica em de setembro de 1939 de ter sonhado de Terra Imatura. VeTerra Imatura “Eterno e sofrido, “dejamos: Dilema”, poema longo pois de desistir de três estrofes, numa do prometido”, Tons de telhado linha existencilista soo jovem já descrente bre o mito da busca. colonial na luz nasolha para o céu e percente. Os sobrados gunta aos deuses: “ - Porventura existe abrem as suas janelas gastas e maravivida?” lhadas e com os seus azulejos reluzentes No mito da busca, o herói esvazia de e os seus telhados de telhas vãs olham as sentido a caminhada aniquila a crença na velas que vão subindo devagar, com o seu solução compensadora que algum dia lhe ritmo que seria uma dança de velas em traria “as pétalas de louro”. Na mitologia ascensão para a luz. Os canoeiros lançam grega, Jasão deve enfrentar vencer o dra- as velas que vão secar ao sol. É como se gão que guarda o velocino de ouro, mas toda a Doca, suja e espetada de mastros o herói após adormece, o monstro com a e traçado de cordagens fosse uma prodiajuda de um filtro mágico, preparado pela giosa flor desabrochando, todas as velas feiticeira Medéia. Jasão, submisso a Me- subiram para o sol, como se abrem as fodéia, perde o sentido da missão. Perdido lhas dos tajazeiros grandes (14). o sentido da busca, o herói não consegue compreender que certos fins não podem O segundo exemplo, é de autoria de ser atingidos por quaisquer meios. E, Ruy Guilherme Paranatinga Barata, que assim, se distancia da concepção de que publicava nas páginas de Terra Imatura para vencer basta apenas compreender o um trecho do romance inédito chamado “único ponto verdadeiro: a vida”. Trata- Interior. Numa narrativa mais introspectise, portanto, de desvendar o alcance e os va, o texto mostra o homem amazônico e limites circunscritos ao homem moder- a solidão do lugar. no. E ainda, em Terra Imatura, que a poe-

ETERNO DILEMA Ruy Guilherme Paranatinga Barata O velho lhe dizia sorridente nas manhãs de abril da sua infância. Menino, em breve serás homem, guarda contigo este conselho amigo para venceres sempre, basta apenas que compreendas o único ponto verdadeiro. - Ávida [...] E ansiando angariar o vcloeino de ouro, qual Jasão partiu sem olhar para trás... As sandálias já rotas curvado e encanecido, depois de ter sonhado e ter sofrido, depois de desistir do prometido descrente parou [...] Ó deuses das desditas e das desgraças, vós que regeis toda a humanidade, dizei-me: Porventura existe vida?

INCOMPREENDIDO Dulcinéa Paraense Alma incompreendida Se eu pudesse fazer de ti, como as múltiplas estrelas um precioso colar, te ostentaria, então, orgulhosa e altaneira sobre o meu peito arfantc a humanidade inteira para fazer vibrar de inveja c de desejos aqueles que fecharam as bocas aos teus beijos, aqueles que te viram e não te compreenderam aqueles que te possuíram e não souberam te amar.

DO PARÁ - EDITORA UINIVERSITÁRIA /UFPA popular, por exemplo, ganharam mais espaço nos estudos históricos e literários. Vide SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 489. 11 A revista noticia a mostra de nanquins de Garibaldi Brasil, ocorrendo naqueles dias, na Livraria Martins. Terra Imatura, Belém, n. 10, p. s/n, set. 1939, p. s/n. 12 Ruy Guilherme Paranatinga Barata nasceu cm 25 de junho de 1920, em

Santarém - Pará, cidade localizada às margens do rio Tapajós, filho de Alarico de Barros Barata e Maria Paranatinga Barata. Veio para Belém aos dez anos de idade a fim de estudar o ginásio. A família mudou-sc para Óbidos, outra cidade do Baixo- Amazonas. Cursou as duas primeiras séries no internato do Colégio Moderno as três últimas no Instituto Nossa Senhora de Nazaré - colégio religioso dirigi pelos Irmãos Maristas. Estudou ainda no Colégio Estadual Paes

de Carvalho. Neste colégio, juntamente com outros dois colegas, Cléo Bernardo e Carlos Eduardo da Rocha, fundou a revista literária e política Terra Imatura. Formou pela Faculdade de Direito do Pará, em 1943. Exerceu o jornalismo Trabalhou no jornal Folha do Norte. E dirigiu nos anos 60, o Suplemento literá de A Província do Pará. Elegeu-se deputado estadual pelo Partido Soe Progressista, cm duas legislaturas, de 1947 a 1954. Lecionou Literatura Bra-

sile na Faculdade de Filosofia, Letras e Artes. Em 1964 foi preso e demitido cartório em trabalhava e aposentado, compulsoriamente, do magistério superior com a anistia foi readmitido como professor da Universidade Federal do Pará Morreu em São Paulo, no dia 23 de abril de 1990, onde foi fazer uma cirurgia, sepultado em Belém. Livros: Anjo dos abismos (poesia, 1943); A linha imaginária (poesia, 1951); Antilogia (poesia, 2000).

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Revistas A capa do disco “Arribadas” de 1993. Gravado no Canadá e prensado na Suiça, foi a sua primeira experiência fora do Brasil.

Mocidade crítica A revista Terra Imatura trazia uma coluna especial de crítica literária intitulada “Aspectos Literários”. De responsabilidade de Carlos Eduardo Rocha, a coluna comenta, por exemplo, sobre Machado de Assis. Com um estilo didático, Carlos Eduardo explica as duas fases da obra de Machado de Assis: a romântica é a realista. Essa divisão é feita, de acordo com o pensamento de José Veríssimo, admirado por Carlos Eduardo, que divide a obra machadiana de acordo com as características dos estilos literários românticos e realistas. Chama a atenção do leitor para o humor de Machado de Assis e para a influência de escritores estrangeiros, principalmente os franceses e alemães, na obra machadiana. Tece comentários, por exemplo, do tipo: “Machado de Assis, possuidor de importantes características, é, na sua personalidade total, o maior dos nossos escritores.” Em outro número da revista, aparece um artigo sobre Marques Rebelo (16). O autor de Oscarina (1931) é comparado a Machado de Assis: “Estilista de raça, descendente da nobilíssima família espiritual de Machado de Assis, pela eficiência de forma e, sobretudo pela sua humanidade.” É destaque o interesse de Marques Rebelo pelo ambiente urbano da Zona Norte do Rio de Janeiro, com sua gente: funcionários públicos, malandros, sambistas. Assim, Carlos Eduardo se refere a Marques Rebelo. Marques Rebelo, talvez como ninguém, compreendeu e sentiu tão bem o Rio de Janeiro mediano e burguês. Em Oscarina, fixou com perfeita exatidão o carioca despreocupado e o cotidiano da sua vida.

Outro nome ligado à crítica literária que aparece em Terra Imatura é o de Rornangueira de Oliveira. Em O atual movimento literário no Rio Grande do Sul, artigo especial para Terra Imatura, ele trata acerca da prosa e poesia atuais do Rio Grande do Sul. O ensaísta cita nomes de autores da literatura moderna gaúcha como por exemplo: Eriço Veríssimo, Mário Quintana e Darci Azambu62 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

ja. Obras de Érico Veríssimo, como Clarissa (1935), Caminhos cruzados (1935) e Música ao longe (1935), são elogiadas por suas densidades dramáticas. Oliveira destaca o interesse de Érico Veríssimo em escolher como tema para as novelas o cenário gaúcho e “parcialmente aspectos e costumes sulinos”, o que evidenciava na tendência regionalista da literatura brasileira daqueles anos. A rua dos cata-ventos (1940), livro de poesia de Mário Quintana, e No galpão, livro de contos de autoria de Darci Azambuja, seriam outros, destaques da literatura sulista. Do Norte do país, o ensaísta cita como exemplo de escritores de tendência regionalista, o romancista baiano Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. Diante disso, a revista Terra Imatura ampliou e desenvolveu os novos itinerários da literatura local e nacional da década de 1930, marcando definitivamente o movimento literário paraense. Depois do fechamento da revista, em 1942, por motivos financeiros, pode-se dizer que houve um desfalecimento na vida literária local. Somente a partir de 1946, a literatura paraense tomou um novo impulso com a publicação do suplemento literário da Folha do Norte. No qual se atinge uma literatura e, também, uma crítica literária preocupadas com os problemas existenciais do homem contemporâneo. Além do suplemento, duas revistas foram lançadas por essa geração de escritores: Encontro (1948), com apenas um número, e Norte (1952). A última, lançada quando o suplemento literário da Folha do Norte não mais circulava. Antes de passarmos para a análise do suplemento literária da Folha do Norte, que tem pela sua extensão e periodicidade uma importância literária e histórica maior, passaremos pela presença dessas duas revistas locais que, dirigidas por integrantes do “Grupo dos Novos”, apresentam importância documental para a história literária de Belém.


ConexãoÁfrica Guiné

Bissau: Imagens

Brasileiras

C

onsiderando os diversos aspectos da globalização e a vinculação intrínseca entre condições socioeconômicas, ambientais e as de saúde – situação conhecida na literatura científica como Determinantes Sociais da Saúde –, Brasil e GuinéBissau estão intimamente irmanados em seus desafios atuais, e a realidade de seu futuro dependerá da qualidade das medidas tomadas agora em favor de suas populações mais carentes. Hilton Silva

FOTOS HILTON SILVA

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ConexãoÁfrica

Retratos da

Guiné-Bissau Hilton Silva

S

entado ao pé de uma mangueira, vendo as pessoas passar ao meu redor e provando o cheiro e o sabor doce de uma manga daquelas que o educador Paulo Freire tanto gostava, não posso deixar de imaginar como era a Guiné-Bissau na época em que ele esteve aqui pela primeira vez, em 1975, logo após a independência. A guerra de libertação, liderada por Amílcar Cabral e vencida contra Portugal, foi o golpe de misericórdia no império português e transformou radicalmente a face da África, este enorme continente que se parece tanto com o Brasil (inclusive na sua forma geométrica), e que para nós ainda é tão superficialmente conhecido. Chega a ser, de fato, impressionante o pouco que é publicado na imprensa sobre este pedaço de mundo, a não ser em caso de guerras, pragas e desgraças naturais. Com apenas 36.125 quilômetros quadrados e cerca de 1,3 milhão de habitantes, a Guiné-Bissau, com nome e sobrenome para diferenciar da Guiné Conacri e da Guiné Equatorial, tornou-se oficialmente independente em setembro de 1974. O país, um dos menores da África, é formado por mais de 30 etnias, entre elas os grupos Balanta e Fula, populacionalmente dominantes, que se juntam aos Manjaco, Papel, Mandinga, Mancanha, Bijagós e muitos outros povos minoritários que, por sua vez, estão relacionados a diversas etnias de outros países do oeste africano. Essa junção forma um magnífico um mosaico multicolorido, ao qual se somam portugueses, caboverdianos, senegaleses e um crescente número de brasileiros. O encontro de povos contribui para uma profusão de línguas, desde a primeira,a língua materna, étnica, que as crianças aprendem 64 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

nas tabancas (como são chamadas as aldeias-vilas locais), a segunda, o crioulo, originada da mistura das línguas locais com a portuguesa, aprendida nas ruas, na interação com os outros grupos, e as demais que podem ser o português, o francês, o inglês ou o árabe, dependendo da atividade profissional, da origem familiar e das escolhas pessoais dos indivíduos. Como muitos países da África, a GuinéBissau também passou por convulsões internas após a libertação de Portugal e por uma guerra civil (1998-99) que deixaram marcas profundas em sua infraestrutura, fazendo com que essa jovem democracia, com mais de 30 partidos políticos registrados, ocupe uma das últimas posições no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que é medido em 177 países, situando-se, portanto, entre as nações mais pobres do planeta.

A guerra de libertação, liderada por Amílcar Cabral e vencida contra Portugal, foi o golpe de misericórdia no império português e transformou radicalmente a face da África, este enorme continente que se parece tanto com o Brasil Em 2007 estive na Guiné-Bissau como consultor do Unicef e da UNESCO para ajudar no treinamento de professores e desenvolvimento de materiais didáticos, alguns dos grandes desafios, entre muitos outros, enfrentados pelos guineenses. Nesse caso, minha função foi colaborar para o desenvolvimento de materiais de formação para os pro-

fessores leigos, isto é, aqueles que não passaram por uma Escola Normal, e que representam mais da metade dos docentes em atividade no sistema público no país. Lá o analfabetismo ainda prevalece em todas as faixas etárias, e mesmo as crianças que conseguem emergir do ensino básico, um em cada dez que ingressam, aproximadamente, não conseguem escrever no nível desejado nem se comunicar fluentemente em Português, a língua oficial do país. Após alguns dias lá, percebi que a Guiné-Bissau em muito se parece com o Brasil, embora seja centenas vezes menor, esteja muitos pontos abaixo no IDH e fique do outro lado do oceano Atlântico. Tanto no passado quanto no presente, além da fortíssima influência africana nas Terras de Vera Cruz (cerca de 28% dos nossos genes segundo alguns estudos), temos muitos pontos em comum. Ambos os países foram colônias portuguesas, têm como língua oficial o português, estão em vias de desenvolvimento, têm uma grande variedade de etnias tradicionais e se assemelham também nos ritmos que se ouvem nas ruas, nas comidas e frutas, nos mercados, na diversidade religiosa, na alegria e no esforço do povo em superar dificuldades, na mistura entre as muitas culturas, na presença de florestas tropicais e belezas naturais ainda desconhecidas do resto do mundo, e na elevada prevalência de problemas socioeconômicos, com suas inevitáveis conseqüências ambientais. Dependente fundamentalmente de recursos naturais para adquirir divisas, com grande parte da população rural e iletrada, Guiné-Bissau vê sua juventude sem perspectiva de educação e trabalho e assiste a infiltração das drogas em todas as camadas do tecido social. Lá, como aqui, milhares de pessoas morrem por falta de acesso a serviços básicos de


O país, um dos menores da África, é formado por mais de 30 etnias, entre elas os grupos Balanta e Fula, populacionalmente dominantes, que se juntam aos Manjaco, Papel, Mandinga, Mancanha, Bijagós e muitos outros povos minoritários que, por sua vez, estão relacionados a diversas etnias de outros países do oeste africano.

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água, esgotos e atendimento à saúde. As mulheres são discriminadas e a violência contra elas e as crianças é algo corriqueiro. Apenas uma minoria tem acesso à educação de qualidade, a gravidez entre as meninas, as doenças infecciosas, a pobreza, a violência no campo, o subemprego e a corrupção são endêmicos e as florestas estão virando carvão. As semelhanças com o Brasil são inegáveis. Uma das bases mais importantes da economia guineense é a castanha de caju. A monocultura do cajueiro se desenvolveu com maior intensidade, a partir da década de 1980, fomentada pelo governo como uma alternativa à agricultura tradicional de subsistência. Muita floresta foi cortada para dar lugar aos cajuais. Agora, a árvore cresce livremente nas propriedades familiares, sendo as plantações exploradas pelas famílias individualmente e a castanha vendida in natura aos atravessadores de diversos países que para lá se deslocam na época da colheita, nos meses de maio a junho. A coleta do caju e o tratamento das castanhas envolvem homens, mulheres e crianças, como as demais atividades agrícolas de subsistência, que garantem o sustento regular das famílias, freqüentemente numerosas e sujeitas às flutuações do preço de seu principal produto no mercado interno e externo. Em 2007, em função das mudanças climáticas globais e da especulação dos atravessadores, a produção foi severamente reduzida e os preços muito baixos deixaram milhares de famílias em situação precária. Na Guiné-Bissau, assim como em todos

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A Nos países considerados ‘em desenvolvimento’, entre os quais encontramse o Brasil e a Guiné-Bissau, grande parte das doenças humanas está associada a condições ambientais.

Cerca de 80% da população sobrevive com dois dólares por dia ou menos.

os países, a degradação ambiental é fruto dos padrões de uso social que se faz dos recursos naturais, e os efeitos das mudanças ambientais globais já começam a aparecer. No ano de 2007, as chuvas, que geralmente iniciam com intensidade em maio, não começaram até meados de julho. Em um país de bases econômicas rurais e extrativistas, isto pode ser catastrófico, e foi. Como declarado em diversos painéis e documentos da ONU, e reiterado no recente Fórum Social Mundial, em Belém (27\01 a 1\02\2009), os efeitos das mudanças climáticas serão mais sentidos nos países mais pobres. O caju, o arroz, o milho e diversas outras culturas guineenses têm sido severamente afetadas pela mudança no padrão das chuvas. Nos países considerados ‘em desenvolvimento’, entre os quais encontram-se o Brasil e a Guiné-Bissau, grande parte das doenças humanas está associada a condições ambientais. Os elevados níveis de parasitoses intestinais entre crianças e adultos, a alta mortalidade infantil e o grande número de internações hospitalares por desidratação, diarréias e gastrenterites estão ligados à carência de serviços de tratamento de água e esgotos e à conseqüente poluição dos mananciais. Muitos casos de doenças oftálmicas, respiratórias e, possivelmente, cânceres são causados por poluição doméstica, pela exposição crônica, especialmente de mulheres e meninas, à fumaça proveniente da queima de carvão nos fogões domésticos. A malária, principal causa de mortalidade na Guiné-Bissau e umas grandes endemias brasileiras, encontra terreno fértil para continuar a se desenvolver nas condições insalubres em que habitam grandes contingentes populacionais nas áreas rurais sem infra-estrutura e nas zonas periurbanas sem saneamento básico, e os anofelíneos (assim como o Aedes aegypti que transmite a Dengue, aqui) encontram muitos lugares para depositar seus ovos nas áreas alagadas, ruas lamacentas e nos lixões, que são ubíquos na paisagem nacional. Naturalmente, há coisas que são mais específicas da Guiné-Bissau. Algumas são mais prosaicas como a convivência, nas ruas empoeiradas deste país paupérrimo, entre os últimos modelos de Hummer,

Audi e Toyota, as centenas de velhos táxis de lotação e os ‘toca-tocas’ (nome local para as nossas vans) superlotados e caindo aos pedaços. Outras são muito mais graves. As plantações de arroz, a base da alimentação dos guineenses, estão ficando sufocadas pelas águas salgadas do oceano Atlântico, que a cada ano avançam mais sobre as bolanhas (planícies alagadiças onde se planta arroz), que recebem menos água dos rios, afetados pelas mudanças pluviométricas. Como em tantos outros países da África Ocidental, alguns grupos ainda realizam a mutilação genital feminina (parte de um complexo ritual iniciático chamado localmente de ‘fanado’ e que envolve também a circuncisão masculina), prática que tem sérias conseqüências sobre as morbidades associadas ao parto e à mortalidade feminina. Cerca de 80% da população sobrevive com dois dólares por dia ou menos. Conseqüentemente, a desnutrição infantil, e mesmo entre os adultos, é marcante. A mortalidade perinatal infantil e materna é bem superior a 10%, e, para agravar mais a situação, o sistema público de saúde é pago diretamente pelo usuário, por procedimento. A agricultura itinerante, a exploração de madeira nativa para fazer carvão e construção de casas e móveis, somadas à necessidade de expandir as plantações de caju, têm contribuído sobremaneira para a redução da cobertura vegetal natural – estimada em menos de 10% do território nacional. Um número desconhecido de crianças, os ‘talibés’, é enviado ao exterior pelos pais, principalmente ao Senegal, para estudar em escolas corânicas, mas acaba por engrossar a quantidade de pedintes nas ruas dos países recipientes, trabalhando para os seus ‘mestres’ em condições análogas às de escravidão, e mais de 80 % do Produto Interno Bruto (PIB) do país é proveniente de doações de outras nações, entre elas o Brasil. No entanto, diferenças à parte, as semelhanças entre a Guiné-Bissau e o Brasil têm muito a ver com a realidade sociopolítica dos dois países, suas histórias pregressas e suas perspectivas para o futuro. Em ambos, o investimento e as políticas nacionais para a educação e saúde têm tido muitos percalços e descontinuidades, PZZ ABRIL / MAIO DE 2009 69


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As semelhanças entre a GuinéBissau e o Brasil têm muito a ver com a realidade sociopolítica dos dois países, suas histórias pregressas e suas perspectivas para o futuro.

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estando sujeitos muito mais a decisões individuais dos mandatários de plantão do que a um projeto nacional. O investimento em educação é uma prioridade da qual nenhum dos dois países pode ser furtar mais, sob pena de perder seu lugar na história. Os chamados ‘tigres asiáticos’, e também alguns países africanos, vêm demonstrando muito claramente às demais nações em desenvolvimento que somente o investimento sério e contínuo em educação, como política de Estado, pode levar a uma perspectiva de superação da situação de miséria crônica em que as metrópoles deixaram os países colonizados nos séculos 19 e 20. A educação também desempenhará um papel fundamental em relação ao desenvolvimento de relações humanas menos predatórias com o meio ambiente e nas metas a serem alcançadas pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) da ONU. Assim como o Brasil, a GuinéBissau não alcançará muitos dos ODMs até 2015. No Brasil, os mais otimistas acham que a maioria dos oito objetivos será alcançada no prazo previsto, pelo menos em algumas regiões do país. Na Guiné-Bissau, como na maioria dos países africanos, nem os mais utópicos acreditam nisso. Nas duas nações, somente com a elevação do nível de escolaridade (Objetivo 2), será favorecida a igualdade social entre os gêneros (Objetivo 3); a boa governança será fortalecida, e as gerações futuras poderão reduzir a mortalidade infantil, a mortalidade materna e as elevadas taxas de gravidez entre adolescentes (Objetivos 4 e 5). A elevação da educação formal é essencial para o controle das doenças infecciosas como a malária, a tuberculose e a dispersão do HIV (Objetivo 6). Ela contribuirá ainda para reduzir significativamente, e até mesmo erradicar, as chamadas ‘práticas nefastas’ e as violações dos Direitos das Crianças, e para que os dois países possam dar passos mais largos na direção da erradicação da pobreza (Objetivo 1) e da corrupção, que dominam os cenários nacionais. Em particular para a Guiné-Bissau, especialmente em relação à saúde ambiental, os desafios enfrentados são enormes, uma vez que a maior parte da população vive


A maior parte da população vive em áreas rurais e periurbanas, sem acesso a saneamento básico, água tratada, luz, moradias adequadas e estradas para escoar sua produção.

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Pintura de artista plástica da Guine Bissau.

em áreas rurais e periurbanas, sem acesso a saneamento básico, água tratada, luz, moradias adequadas e estradas para escoar sua produção. Para sobreviver, a população explora o meio ambiente das maneiras mais diversas, como a realização de agricultura e pecuária em áreas impróprias para tais usos, práticas pesqueiras não sustentáveis, corte de madeira nativa para fazer carvão, lenha e móveis, construções civis que não levam em consideração impactos ambientais e disposição de lixo urbano no meio ambiente sem qualquer controle. Esta situação, no entanto, em muito 72 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

lembra a realidade da região amazônica brasileira, onde o Objetivo 7 – garantir a sustentabilidade ambiental – e vários outros também não serão alcançados até 2015. As mudanças climáticas globais, agora associadas à crise econômica mundial, já estão pesando muito mais sobre os países economicamente periféricos e que dependem fundamentalmente da agricultura para o crescimento do seu PIB. Em função de sua trajetória histórica e das demandas do capitalismo mundial, esses países tenderão a explorar cada vez mais intensamente seus


recursos naturais em busca dos fundos necessários à manutenção de seus “compromissos internacionais” e de máquinas estatais pesadas, burocráticas, elitistas e corruptas, cujos líderes, em sintonia com a globalização, investiram na ciranda financeira e nas indústrias dos países desenvolvidos aquilo que retiraram dos seus países de origem; e agora vêm em busca de mais, para “sanar” a crise. Os elevados níveis de pobreza dos países do Cone

Sul, a escassez, por pressões externas, de investimentos em saúde e educação, o crescimento do mercado de armas leves e de drogas, e a violência interna, que tem impacto milionário na economia brasileira e cujo perigo constante ameaça os guineenses, também são partes perversas da globalização. Mas a globalização também permite estreitar laços e buscar colaborações que não eram possíveis há apenas algumas décadas, e isso já é visível, por exemplo, na área do comércio. Atualmente, graças à tecnologia do telefone celular, amplamente presente na população, é possível falar com uma pessoa em qualquer tabanca da Guiné-Bissau, e os aparelhos, desbloqueados e mais baratos que no Brasil, freqüentemente são os mais modernos do mercado. Bebês são carregados nas costas das mães como há milhares de anos, mas agora usam fraldas descartáveis e calçam tênis de marcas famosas, feitos na Indonésia. Nas feiras, encontra-se uma infinidade de implementos agrícolas produzidos no Brasil e aparelhos eletrônicos vindos diretamente da Ásia. A globalização tem seu lado bom e seu lado ruim, e os cidadãos desta era precisam aprender a conviver com isso de forma a melhorar sua qualidade de vida. Considerando os diversos aspectos da globalização e a vinculação intrínseca entre condições socioeconômicas, ambientais e as de saúde – situação conhecida na literatura científica como Determinantes Sociais da Saúde –, Brasil e Guiné-Bissau estão intimamente irmanados em seus desafios atuais, e a realidade de seu futuro dependerá da qualidade das medidas tomadas agora em favor de suas populações mais carentes.

CANTOS DO MEU PAÍS Julião Soares Souza Canto as mãos que foram escravas nas galés corpos acorrentados a chicote nas américas Canto cantos tristes do meu País cansado de esperar a chuva que tarde a chegar Canto a Pátria moribunda que abandonou a luta calou seus gritos mas não domou suas esperanças Canto as horas amargas de silêncio profundo cantos que vêm da raiz de outro mundo estes grilhões que ainda detêm a marcha do meu País

Coletânea Um novo amanhecer, Guiné-Bissau, 1996

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Arte, Cultura e Resistência:

outras imagens

Na África a resistência também se fez e se faz atrvés de elementos culturais, que só agora começam a ser valorizados em outros continentes

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cultura é um poderoso mecanismo de resistência social. No Brasil, os escravos, primeiro indígenas e depois africanos, resistiram à violência da dominação colonial através de sua expressão musical, de seus ritos e, gradualmente, as suas palavras, modos, costumes e arte foram se fixando, tornando-se não mais parte da cultura “indígena” ou “africana”, mas componentes essenciais da cultura brasileira, inclusive como características que a diferenciam da cultura portuguesa. A resistência africana trouxe contribuições fundamentais para a formação nacional. Graças a ela hoje nos orgulhamos da capoeira, arte marcial genuinamente brasileira, reconhecida mundialmente; saboreamos a feijoada, adotamos padrões de beleza física próprios e temos uma língua muito particular, embora partilhe inúmeros elementos com a que é falada em Portugal. Na África a resistência também se fez e se faz através de elementos culturais, que só agora começam a ser valorizados em outros continentes. Apesar de meio milênio de intenso contato com a cultura européia, a arte, a música, a religiosidade e as línguas africanas conseguiram sobreviver e hoje ganham força como instrumentos de valorização étnica e nacional. Nos mercados, salta aos olhos a riqueza do artesanato em madeira, osso, dente, marfim, fibras vegetais e miçangas; o colorido dos tecidos e das roupas, em especial das mulheres, expressa seu orgulho identitário, e onde quer se reúna um grupo de pessoas e a conversa pare, alguém começa logo a entoar uma música, ao ritmo de palmas ou movimentos cadenciados. Lá, como no Brasil, a resistência é parte essencial da vida. Na Guiné-Bissau, dezenas de línguas convivem com o Português e o Criolo, as religiões tradicionais locais convivem com as grandes religiões ocidentais, e as expressões artísticas como desenho, pintura, música, poesia e dança florescem em função de uma crescente valorização do que é local. Para alcançar um mercado

mais amplo, como na música, artistas desenvolveram projetos que incorporam o moderno ao tradicional, e instituições como o carnaval são adaptadas para manter as tradições, enquanto mobilizam para as questões que estão no cotidiano do povo guineense. Um exemplo é o carnaval de 2008 cujos temas principais foram as drogas, a imigração ilegal e a corrupção. O carnaval, naturalmente, não é uma invenção da Guiné, porém, ali ele se adaptou plenamente e os diferentes grupos e agremiações participam da festa reforçando suas tradições. Dentro de um contexto de alegorias e danças próprias das diversas etnias e regiões do país, os temas são amplamente retratados através de fantoches, objetos alegóricos, fantasias, teatro de rua, música, declamações e movimentos. Dada a sua enorme diversidade e antiguidade (afinal os primórdios da humanidade estão naquele continente) é impossível alguém dominar todos os aspectos da “arte” ou da “cultura” africana. Porém, qualquer um pode apreciar sua beleza estética. Para mostrar um pouco dessa beleza, foi lançado na Mostra África-Brasil, durante o Fórum Social Mundial, em Belém, o docuficção Guiné-Bissau: Colorido de ritmos e movimentos, uma abordagem etnovisual e antropológica sobre movimento, dança e cultura naquele país, realizada no Pará, em colaboração com guineenses que vivem na Amazônia, a partir de imagens feitas em tempos diferentes, por diversos atores sociais, e interpretadas através de olhares artísticos-estéticos-criativos contemporâneos. No geral, a Mostra objetivou trazer ao FSM um pouco da produção audiovisual africana e sobre a África, contando com filmes feitos em Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Burkina Faso, Portugal e Brasil. Assim como outros aspectos da arte, o cinema africano também é, em grande parte, um cinema de resistência, voltado para os problemas locais e preocupado em contar estórias e histórias que reforcem as lutas por liberdade e melhores condições de vida para a população.


Fotografiaviva

Conexões A

realidade fotográfica, o olhar estrangeiro, o lugar desconhecido o encontro com as imagens, “Conexões”. O fotógrafo Janduary Simões, após apresentar sua exposição na Casa de Cultura de Wiesbaden na Alemanha, reconecta as nossas impressões que ultrapassam o olhar.

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Contos O Prédio Influencias regionais e muitas parcerias nas andanças do músico e compositor paraense que nunca se cança de abrir o verbo para falar da gente daqui para o mundo ouvir.

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Contosparaenses

Jossete Lassance

nasceu em Belém do Pará em 1962. Graduou-se em História e Artes Plásticas na UFPA. Participou de várias publicações em revistas como: Fundo de Gaveta, Belém/ PA (1982); Poesia do Grão Pará, Rio de Janeiro/RJ (2001); Carlegarius (2002); Revista Viva Vaia, Porto Alegre/RS (2003); Revista de Literatura Brasileira, Rio de Janeiro/RJ (2003); Pará ZeroZero, Belém/PA (2004) entre outras.

O Prédio Influencias regionais e muitas parcerias nas andanças do músico e compositor paraense que nunca se cança de abrir o verbo para falar da gente daqui para o mundo ouvir.

602

Acabara de se mudar para o sexto andar mais uma senhora que mora sozinha com seu gato persa, mania de tapetes persas e gatos. Na bagagem perucas usadas de todas as cores em cima de um manequim negro. Na era do rádio fora uma cantora, por isso mesmo atrás dos estúdios ainda guarda suas vaidades.. as revistas da época guarda na gaveta de uma eletrola rotação 45, de resto uma mobília cansada que ainda conserva com carinho. Um binóculo de cobre que ganhou de presente de seu avô. O caminhão estacionou bem na porta, largo, tomava conta quase da rua toda, uma via secundária esticada por um olho em perspectiva. Esperava pelo porteiro dar o aval, depois subiria pelo elevador de serviços todas as suas tralhas. Um cílio postiço saiu do lugar e a senhora de setenta e três anos não perdendo a compostura inclinou-se no espelho carcomido da sala de recepção e propôs a consertar seu erro, teria colocado com pressa, ainda no casarão onde morava, derrubado para mais uma construção de um prédio moderno. Lá funcionariam umas lojas de departamentos, com um enorme estacionamento e uma boate de vidro fumê tiraria a monotonia das noites e após 25 anos de aluguel e os donos terem morrido, a casa fora vendida, sem que os defuntos esfriassem, pelos filhos por uma imobiliária famosa.

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Agora ajeita a maquiagem, o pó, o rouge forte num de seus rostos envelhecidos. Depois da notícia, viu-se sentada no nada e a maquete a lhe sorrir embriagada de projetos, anti-projeto da senhora em desfazer-se dispersa no que fora todo esse tempo, a casa a despedaçar-se pelos ruídos dos tratores loucos comendo as lembranças, viu-se lixo, como o barro que se desfizera, do pó ao pó. O mijo da noite anterior ainda fedia nas paredes. Um som turvo a fez voltar, era a voz do porteiro dizendo que o elevador já a aguardava. Com o gato persa no colo entrou no elevador com uma sacola enfeitada de margaridas, o aço lhe refletiu a imagem 4 vezes, o tom colorido da bolsa e o vestido branco com seus movimentos, o gato miava e tocou o sinal de descer: 6º andar. Caminhou com as chaves nas mãos e abriu a porta do apto. Seu novo lar a aguardava vazio, nada que a despertasse lembranças. As bagagens foram subindo com os empregados da transportadora.

301

Sherlock Holmes, um garotinho de oito anos, míope quase de nascença, foi entrando no elevador e percebendo com sua lupa, os pêlos cinzas do gato persa espalhados no tapete. Examinava minúcias da passagem, desde as marcas digitas nas paredes metálicas... um garoto manchado de sardas, segundo sua mãe, o gênio do colégio.


Suas vozes misturaram-se ao eco do corredor e foram diminuindo de tamanho à medida em que abriam a porta. A sala impecável, os quartos impecáveis; seu pai um militar, sua mãe, dedicada dona de casa que se ocupava com as tarefas domésticas. Um aquário com peixes azuis quebrava a monotonia do ambiente, peixes azuis silenciosos percorriam dos navios abandonados entre esqueletos de piratas feitos de borracha. A televisão era um enfeite, a biblioteca, um prazer medido pelos pequenos olhos do menino, como o de satisfazer suas curiosidades. Do terceiro andar onde moravam, o pequeno caolho se debruçava nas grandes grades da janela a viciar-se por olhar a rua, a banca de revista, o playground funcionando, os seis andares do prédio ele tinha impressão de vê-los sob as nuvens e quando passavam no céu o prédio andava pelo vento fresco das nove horas da manhã, enquanto os garotos ferviam pulando atrás de uma bola.

302, 403, 202

Outros apartamentos vazios, por alugar, o vento fazia eco quando entrava nas frestas das janelas empoeiradas, o nada por vir das paredes, os azulejos em fila sem gorduras, as torneiras secas.

101

Dava para sentir o bafo úmido dos carpetes invadindo a voz fina e fraca da mulher com a maior paciência do mundo tentando acordar seu marido para tomar o xarope de groselha; um velhinho que passava o dia assistindo desenho animado, telejornal, filme, novela, programa de auditório, novela, jornal, filme.. até os grânulos abstratos da imagem aparecerem como um todo.

201

Três jovens morando sem os pais radicalizavam um andar: maconha, livros, rituais pagãos psicodélicos. Chegavam na madrugada subindo pelas escadas com suas garrafinhas

de cerveja compradas na loja de conveniências. Um incenso destilava sua aura mística enquanto se deliciavam num mantra. Correr antes que o tempo os freasse era sentir-se. Um sopro livre, um encontro com a paixão, um tiro no escuro: flashes e a luz a repetir-lhes a aparência, entre viadutos e carros, viadutos e carros, eles gozavam da noite esguia, de lá num ângulo lânguido reverberavam seus sonhos, a ilusão de todos os jovens, de dentro de seus corpos a mesma vibração, janelas moldadas de suas imaginações, de lá imagens ímãs em P & B. De dentro da sacola eles tiravam o horizonte e compravam cúmplices, vendendo seus anti-heróis na noite. Era como sentir o ar rarefeito e um calor na alma, passando todos eles como enfermos queimando em febre, seguiam as ruas da rotina lado a lado de suas quebras de tabu, e os ônibus frenéticos não paravam na paisagem da rua, passavam em velocidades frias, eles que não dormiam viam tudo com seus invisíveis guarda-chuvas negros a água cinzenta a passar pelas pernas em redemoinhos, um festival de corvos. O olhar das pessoas trancadas nos apartamentos tinha um pouco de silêncio sedutor, diziam tudo o que escondiam em sua boca. Sair e entrar eram desejos. Um fetiche usar o sentido anti-horário do mundo

304

Um homem suspeito, 45, solteiro, com uma enorme sobrancelha sempre tropeçava nas garrafas deixadas ao longo das escadas e reclamava alto, morava no terceiro andar mas fazia questão de ir pelas escadas, às seis da manhã descia e dava bom dia ao porteiro, ia se exercitar e depois retornava com um cigarro na boca, mal humorado e o jornal do dia dobrado em suas axilas suadas. Descia às nove para o trabalho e só retornava uma hora da manhã, nunca comparecia às reuniões de condomínio. Desapareceu. Três dias. O porteiro chamou os bombeiros, arrombaram a porta do apartamento: o homem estirado com as mãos pálidas segurando o coração arregalava um olho. Foi encontrado no seu criado mudo, pacotes

de cigarro com teor altíssimo de nicotina, muitas garrafas pequeninas vazias de uísque de avião com suas tampas abertas, tinha duas pontes de safena. Um livro de bolso na cabeceira de sua cama: . A geladeira aberta vazia. Nenhum móvel, exceto uma cadeira pintada de negro, uma mesinha de centro e uma almofada. Remédio para dormir, para fígado, estômago, garganta, remédio para alergia, remédio para gripe.

603

Uma família perfeita: pai, mãe, filho, filha, bordados os dias da semana nos guardanapos laranjas, a geladeira enfeitada de bichinhos com ímãs, bordados como um cimento que imprime seu lacre, guardar mistérios domésticos, domesticados às vozes de diálogos familiares, nenhuma contravenção, perfeitos à ira de deus, impressos num jornal digno de domingo, digno de rosas, flores vermelhas, almoços nos jardins, passeios de carro pela praia, piquenique nas florestas. O pai médico do SUS, a mãe professora de gramática de escola pública, os filhos estudam no mesmo colégio de freiras, sempre saem impecáveis quando ao tomar seu café às sete, entram no fiat 93 do pai. A menina estudiosa, cabelos lisos, sempre penteados, usa xampu para cabelos secos, o menino usa cabelos bem curtos para dar impressão de limpeza. Limpeza é a exceção do mundo. 12 e 13 anos, idades e idéias revestidas de idéias sobre idéias sob idéias, sob inconscientes rompidos pelo consciente.

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Giordani tem um gato, diferente da Sra. do 602, não é um gato persa cheio de frescuras. O artista tem um gato torto, encontrado semi-morto, semi-vivo, num buraco de um esgoto destampado, Um gato magro, negro, vira-lata. Um gato torto porque quebrou suas costelas ao levar pedradas de um transeunte. Um gato magro porque não tolera razão, torce o nariz e assim só come às vezes, quando o artista decide dar-lhe algum resto de bife do almoço, ou pedaços de batatas fritas.

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Contosparaenses O gato arranha seu rabo fino na esperança de fiapos de rosbife da sobra de suas marmitas. O artista é ausente, apenas idéias e estórias, tem em seu arquivo uma fotografia do gato no lugar onde o encontrou, ainda com seus detalhes vermelhos de sangue em contraste com tons amorfos da calçada. Seu apartamento é espaçosos mas não tem onde sentar, nenhuma tela em branco, ficam no chão os registros, às vezes ficam no banheiro, escritos à mão nos azulejos num aramaico subjetivo.. O gato passa entre as garrafas azuis cheias de líquidos em quantidades diferenciadas, em turbulência se modificam as silhuetas esqueléticas do felino a cada passo que o artista vê sem piscar em seus movimentos desequilibrados, porque debruçado ao chão, as três garrafas lhes parecem vivas e em pé transformam em miragens, suas imagens reais. O artista vê em seu mundo fundo invertido na garrafa e o aniquila com seu olho cru e o distorce, diminui o volume da tolerância, explode em dejetos, a tela não é mecanicamente fluída, não lê nada, letreiros abstratos, não pinta, acelera-se em câmara lenta um retardar a seco.. Rompe a balbúrdia, extermina a vingança, veste-se de rato nas orgias noturnas e determina que o artista é bandido na mesma proporção da vida, bandido rato que não brinca, mas oblitera com sua máscara a julgar-se um corruptor de sentimentos. 5º andar. Apartamento alugado. Três meses de condomínio por pagar, o artista espera vender suas últimas obras, potes com suposições, escritos em esperanto, supostos abortos do tempo escondidos sob a superfície fina do óleo de linhaça, engarrafar loucuras são projetos suicidas... Morar de aluguel é se excluir de um espaço visual onde a rua é uma infinita razão para infinitas idéias de tortura, placas luminosas roubam o silêncio dos olhos, roubam a paz da limpidez onde comprar não é nenhum perigo e se limitar a ver consiste em sua verdadeira liberdade. Morar na rua é desligar-se da morada, desligar-se de domínios, é jogar-se à esmo pelas idéias do contratempo, tempo anti-matéria, um tempo não real, subjetivo, mas um tempestuoso inimigo do conforto. O artista mora e não morre, seu tédio vai além dessa chacina assassinato-ruas-friotempestuosidade-anonimato de identidades90 ABRIL / MAIO DE 2009 PZZ

amontoado amorfo de cérebros excluídos e carnes concisas deitadas na costura fúnebre dos jornais machados de sangue das notícias. Morar na rua é livre-se. O artista morre se não fizer de si um cirurgião, ali ele constrói sem medidas seus franksteins, remendo de estrelas, rascunhos de mentiras, rasura de ilusões. Um pacto entre o real e a criação, Enquanto isso lá fora o mundo se divide ao meio. O prédio e a rua. Dentro e fora dos portões avassaladores de ferro fundido. Lá fora a chuva na sua água absoluta começa a mudar o teor do domingo adentrando na rotina dos moradores. Chove sem parar e a cidade morre envolta numa alucinação coletiva. Os carros passam quase arrastando suas bundas nas enchentes. Todos se trancam e escutam o ronco invisível do trovão, a luz fluorescente quem vem antes no risco de um silêncio Uníssono, encorpado de eletricidade. É bom separar-se em átomos e exploir-se dessa paisagem negra da cidade, dessas paredes sujas de fumaça e limo, Bom é limpar os olhos nas lembranças nuas do campo, onde poder imaginar-se num correr de um puro sangue no pasto entre a linha do horizonte a fundir-se como uma trajetória neon em prata rasgando o céu de ponta a ponta e um raio a cair num lago onde costuma-se passar os domingos pescando.. E esse cavalo a correr agoniado na corporificação de sua ansiedade, as crinas a lhe caíres aos caos dos olhos cintilantes. Encobrir-se de toda essa aura nesse momento é único, é como envolver-se na velocidade de seu corpo lustroso e úmido pelas primeiras gotas, corpúsculos de uma chuva musculosa. Deixar-se penetrar nesse semblante de dentro de uma casa feita de pedra, embaixo de cobertores é sonhar sem medo que a tarde depois do crepúsculo cairá e se servirá de estrelas à noite mais negra do mundo. Enquanto isso as padarias, os pontos de café, de loteria esportiva, o ponto de ônibus, taxis, ambulantes, os pedintes, escravos do medo e da desordem urbana e cheia de metáforas futuristas, ilumina a tarde o movimento vivo de pedestres agoniados entre o fim de tarde, fim de trabalho e a noitada recheada de tv. As plantas das sacadas passam por metamorfoses, umedecidas as texturas verdes de

suas bocas transpiram pólens e suas flores suadas beijam o ar mostrando suas florestas nuas. Entre cores escarlates a mosca solitária pousa exausta. Mais um dia se passou e nada aconteceu de verdade. Todos empurram a vida com a barriga. A mãe, o pai, o filho, a empregada, a velhinha, o casal de velhos, os jovens, os gatos, o artista, o morto, vivem envolvidos em suas angústias e suas carreiras de felicidade, a selva mãe evidente os carrega de um lado para o outro. O trabalho e a chance de ascensão elevam o grau de cumplicidade com o sistema, que os obriga criar mecanismos que os confortem a passar o ano imaginando o dia de amanhã, e seus status sustentarem suas vaidades. O que se esvazia é o medo da penumbra, o olhar puro de seus espelhos sem mágica, e seus desejos aguçados de fome. Na realidade vivem neles o prédio, manhã após manhã, noite a pós noite, silêncio após silêncio, imersos na solitária sensação de eternidade. Ninguém os devolve à entrega, o que é absolutamente necessário é se possuir a certeza de que se deve assassiná-la. *Conto extraído do livro O Prédio, 2002, de Josette Lassance.

Livros publicados Vida de Bruxa Poemas (1992) Os Gatos Nus Passeiam sobre os Telhados Sujos Contos (1994) Galeria dos Maus Poemas e Contos (1999) Prazer Clandestino (Cartões Fotográficos de Poesia 2001) O Prédio Contos (2002)


CiênciaTecnologia

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CiênciaTecnologia

Rede Paraense Genômica e

Proteômica “A escolha do que vai ser investigado em um projeto genoma não é um processo simples. Um genoma é o ponto de início para busca de solução de problemas.”

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Dr. Artur Luiz da Costa

U

ma rede genômica tem por objetivo mapear e decodificar a estrutura molecular de todos os genes de um organismo. Este objetivo final não é uma tarefa trivial. São necessários maquinários especializados, insumos tecnológicos e uma atmosfera acadêmica favorável, construída por professores, pesquisadores e seus discípulos. Nosso Estado possui todos estes ingredientes e é por isso que a Rede Genoma Pará está sendo alvo de comentários na comunidade científica brasileira, pelo reconhecimento da competência aqui instalada e constatação da inversão histórica do papel dos centros produtores de conhecimento de tecnologia de vanguarda localizados no sul/sudeste para Amazônia. A competência para gerar um genoma é ainda privilegio de poucos países, um clube pequeno, e que no Brasil se iniciou em 1997 com o projeto Xylella, e que foi concluído em 2000. Neste mesmo ano, o MCT organiza o Programa Genoma Brasileiro e, na Amazônia, o CNPq implanta a Rede da Amazônia Legal de Pesquisas Genômicas. Nestes dois últimos projetos de pesquisa, a UFPA esteve presente de forma efetiva e foi aí que aprendemos a fazer genomas. Já se passaram quase dez anos. Não é muito tempo, assim como não faz muito tempo que o primeiro genoma foi completamente decodificado, o

da bactéria Haemophilus influenza, em 1995. O genoma humano só foi completado em 2003. O Estado do Pará só possui competência nesta área de fronteira por conta dos trabalhos pioneiros do pediatra, geneticista e estatístico Manuel Ayres, que criou o grupo da Genética no barracão de madeira do Laboratório de Filosofia e que o fundou. Ele foi também o primeiro diretor do atual Instituto de Ciências Biológicas. A tecnologia de seqüenciamento de DNA se implanta na região com os trabalhos pioneiros de Horacio e Paula Schneider, Iracilda Sampaio, João Guerreiro, Sidney e Ândrea Santos, em 1992. Neste período, no final de minha graduação em Biologia, tive oportunidade de estagiar no laboratório americano do Dr. Morris Goodman e lá aprender a técnica de clonagem gênica e seqüenciamento de DNA. O Solid - Implantar este arsenal tecnológico em Belém não foi tarefa fácil. Possuíamos instalações modestas, tínhamos que trabalhar com isótopos radioativos importados e contávamos com apoio unicamente do governo federal, uma vez que se demorou muito para termos uma fundação de apoio à pesquisa no Estado do Pará. Hoje a historia é diferente, estamos aqui para lançar a Rede Genoma Pará, que possui como principal componente tecnológico o sistema de produção de genomas Applied Biosystems SOLiD. Uma tecnologia inovadora, com alta capacidade de geração de dados e que faz um genoma de uma bactéria em apenas 4 dias e um genoma humano em 10 dias! O equipamento que temos é a versão 2.0. O upgrade para versão 3.0, lançada em fevereiro deste ano pelo fabricante, já está em processo de importação pela FAPESPA e representará um aumento de 10x na capacidade instalada e permitirá o processo de produção de genomas de novo. Um genoma de novo é um genoma que não possui informações previas sobre seu tamanho, complexidade e organização. Linhas de pesquisa - A escolha do que vai ser investigado em um projeto genoma

não é um processo simples. Um genoma é o ponto de início para busca de solução de problemas. Pensando junto com nossos colegas na FAPESPA, SEDECT e UFPA, tomamos a decisão de atacar um problema que é de alto interesse para o Pará: a cultura da pimenta do reino. A pimenta do reino é uma atividade de pequenos produtores, de agricultura familiar e o Brasil é o maior produtor mundial desta especiaria e por sua vez o Pará é o líder nacional. A cultura da pimenta do reino possui diferentes inimigos. Dentres os patógenos o que destaca é a fusariose. No pimental que o Fusarium se instala a produção é abandonada; se pensando em agricultura familiar isto pode significar a ruína financeira, a necessidade de aumento da fronteira agrícola ou mesmo a opção pela instalação de outra cultura. O Brasil está perdendo espaço para os produtores asiáticos. O projeto do genoma da pimenta versus Fusarium é uma parceria com a Embrapa Amazônia Oriental, instituição referência no estudo deste fitopatógeno e que já realiza pesquisas nesta matéria há mais de 40 anos. Fazer o genoma da pimenta do reino não bastava, o arsenal tecnológico implantado nos permitia ir mais além, sermos audaciosos; decidimos então procurar soluções e entender as razões da existência de um outro problema: o câncer gástrico. O Pará possui uma das mais altas prevalências em uma das variantes desta patologia. Não sabemos o porquê desta alta manifestação em nosso povo, mas há indícios que nosso componente genético miscigenado e nossa dieta possam estar colaborando. Vamos aqui procurar alvos de novas drogas e soluções para mitigar o sofrimento alheio. Este componente só é possível porque no Pará está presente o grupo que mais produz conhecimento acerca desta patologia no mundo e aqui está sendo implantada a Unidade de Alta Complexidade em Oncologia, uma parceria da UFPA, Secretaria de Estado de Saúde Pública e o Instituto Nacional do Câncer. Existe ainda outra vertente de pesquisa, a que trata do seqüenciamento do genoma PZZ ABRIL / MAIO DE 2009 93


CiênciaTecnologia a formação de médicos com mestrado e doutorado em genética do câncer. Esta rede de investigação não poderia estar sendo implantada sem o apoio incondicional da UFPA, que não mediu esforços no apoio aos grupos de excelência e na consolidação de novos grupos de pesquisa

O Estado do Pará começa a ocupar seu devido lugar na condução de pesquisas científica estratégicas para manutenção e aproveitamento da biodiversidade amazônica. na UFPA onde a equipe docente/pesquisadores tem agora mais oportunidades e melhores condições de trabalho resultado de uma articulação junto a Sectam e a

FINEP para que aqui se fosse implantado um dos dez laboratórios da Rede Proteômica Nacional. O Estado do Pará começa a ocupar seu devido lugar na condução de pesquisas científica estratégicas para manutenção e aproveitamento da biodiversidade amazônica. Não existe fórmula mágica, pois se quisermos o desenvolvimento social sustentável da Amazônia temos que seguir o exemplo do primeiro mundo. Na aprovação no orçamento da maior potência mundial, o presidente Obama justificou que o aumento recorde nas verbas para ciência e tecnologia em 2010 era uma das principais frentes para revitalização da economia americana. Os gastos para os próximos dois anos superam os investimentos, em valores corrigidos, feitos nos programa Apollo (viagem tripulada à Lua) e do projeto Manhattan (construção da bomba atômica). Só existe um caminho para nós: priorizar educação, ciência e tecnologia.

EUNICE PINTO

de bactérias de interesse biotecnológico industrial. Neste vamos empregar nossa moderna tecnologia no aproveitamento econômico de nossa biodiversidade através da prospecção de enzimas e proteínas de interesse da indústria de fármacos, de biocombustíveis e procurar a caracterização de outros químicos de alto valor agregado. Esta prospecção será feita em produtos de nossas matas e também baseado no conhecimento tradicional dos povos que habitam nossas florestas. Rede de investigação - A formação de recursos humanos é outra preocupação, pois a quantidade de informação que será gerada exigiu que implantássemos dentro do Programa de Pós Graduação em Genética e Biologia Molecular uma turma de mestrado e doutorado em Bioinformática, em parceria com colegas da Rede Genoma Minas e da Universidade de São Paulo. Também está em curso

Artur Luiz da Costa da Silva, é biólogo com mestrado e doutorado em Ciências Biológicas (Genética e Biologia Molecular) pela Universidade Federal do Pará e coordenador da Rede Paraense de Genômica e Proteômica.

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Foto: David Alves - Agência Pará

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, e a Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia trouxeram o SOLiD para a Amazônia. Primeiro sequenciador genético de ultima geração da América Latina, o SOLiD coloca a Rede Paraense de Genômica e Proteômica como referência mundial em pesquisas genéticas, ajudando a Amazônia a conhecer o seu próprio potencial.

GCI - Fapespa

O mais moderno sequenciador genético da América Latina preserva a maior biodiversidade do mundo.


EDIÇÃO ESPECIAL DA REVISTA PZZ N07  

EDIÇÃO ESPECIAL DA REVISTA PZZ N07 RAFAEL LIMA SOL DO MEIO DIA TYERRA IMATURA ENSAIO FOTOGRÁFICO JANDUARI SIMÕES CONTO JOSSETE LASSANCE CIEN...

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