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LITERATURA

GEOPOLÍTICA

João Marcio Palheta fala do Mapa das Minas no Pará

MÚSICA

Centenário de nascimento do Maestro Wilson Fonseca

Foto: PAULO SANTOS

Vicente Franz Cecim. Voz-Silêncio da Amazônia

amazônia MERCADO COMUM José Conrado Santos - Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) fala da Ação PróAmazônia e sobre vários aspectos do desenvolvimento e da integração regional.


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literatura

música

20 audiovisual

08

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20

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romance

folclore

lançamento

música

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Maestro Wilson Fonseca

teatro

Solo Marajó: A narrativa e a expressão verbal do romance “Marajó” de Dalcídio Jurandir, em 8 episódios, marcantes no monólogo encenado por Cláudio Barros.

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cinema cannes

O filme: Juliana contra o Jambeiro do Diabo pelo Coração de João Batista dirigido por Roger Elarrat.

entrevista

José Conrado Santos ,- Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) fala da Ação Pró-Amazônia e sobre vários aspectos do desenvolvimento regional.

geopolítica

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pará: O Mapa daS Mina S

joão Marcio Palheta fala da riqueza advinda da mineração que impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional.

AÇÕES TERRITORIAIS NA Amazônia

Geógrafo e Doutor em Ecologia Aquática, Christian Nunes fala das ações Territoriais na Amazônia Transnacional.

cinema paraense

A IV Mostra de Filmes da Amazônia chega configurando-se como plataforma de discussão, intercâmbio e circulação regional e internacional

economia

Vicente Malheiros da Fonseca relata a Vida e a Obra do maestro santareno Wilson Fonseca - Maestro Isoca.

dramaturgia

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Nazaré de Mello e Silva Soares aborda a literatura oral e a relação simbólica dos mitos amazônicos. Edmilson Rodrigues lança o livro Amazônia - Jardim de Águas Sedento.

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literatura A trajetória do escritor e cineasta Vicente Franz Cecim rumo à Andara, seu Uni-verso amazônico rompendo as fronteiras regionais.

teatro

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eo rioguamá,onde está?

O geógrafo Pedro Rocha Silva nos situa da sua origem e da sua localização.

72 Salão do Humor V Salão Internacional de Humor

A linguagem dos desenhos que contam atráves do humor, questões políticas e ambientais.

78 moda Sandra Machado

A estilista que assina figurinos

impressionantes como a segunda pele indígena-futurista da Gang do Eletro e  Iva Rothe tem se destacado para além dos limites do Estado.


cinema

economia

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ensaio Bruno Cecim sai pelo mundo a registrar o visível e o invisivel da realidade.

documentário

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O asilo das ma dalenas

José Maria de Castro Abreu Jr. nos leva para 1921, época em que as meretrizes tinham caderneta de identidade fornecida pelo Instituto Médico Legal do Pará

artes plásticas

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O exílio eaCor

Tikka Sobral inspira-se em Albert Camus para abordar, com distânciamento, o metafísico e a matéria, às vezes, ambos, para construír, sem dúvida, a sua própria maneira de existir (Clemente Schwartz)

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itinerário

fotojornalismo

Foto: Jordy Burch

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GEOPOLÍTICA

Para Vicente Franz Cecim, escrever é descer às profundezas dos antigos registros duma vivência anterior e interior e qualquer coisa encontrar que lhe dê sentido, significado para o existir, perceber e poder penetrar na memória do Universo, emergir do Vazio, da eterna condição inexprimível do verso que se mostra aos homens como substância múltipla e transitória do Uni-verso. E, ao retornar transfigurado, não ter mais palavras, só um imenso olhar, imenso como a noite que busca atravessar. O leitor, por sua vez, faz a sua própria Viagem a Andara invisível através das páginas visíveis de A asa e a serpente, Os animais da terra, Os jardins e a noite, Terra da sombra e do Não, Diante de ti só verás o Atlântico, O sereno, Música de areia, Silencioso como o Paraíso, Ó Serdespanto, K O escuro da semente, oÓ: Desnutrir a pedra. Travessia de uma noite de escuras árvores, de um mundo “onde não faltam mistérios”, uma floresta de símbolos onde podemos ver sem os olhos e passar “entre os homens que dormem com um rosto de pedra. entre a realidade, sonhos, vozes e silêncios, movimentos e inércias, o ar, o fogo, a terra, a água, o vegetal, minerais profundos e principalmente, insone, o animal.


Redação

A quem interessa o debate Amazônico?

O

desenvolvimento sustentável da Amazônia Brasileira (que abrange nove Estados) é um dos grandes desafios atuais. Para enfrentá-lo é fundamental que sejam desenvolvidas estratégias e políticas públicas integradas, produtivas e inclusivas, envolvendo o esforço conjunto de governos, parlamentares, sociedade civil, movimentos sociais, midiativistas, atores que compartilham da ideia de que essa região já atingiu o limite de descaso, abandono, exclusão e injustiça social. Diante das escalas envolvidas e da complexidade das características naturais, culturais, econômicas e sociais amazônicas, é essencial que essas políticas conjuntas priorizem, ao máximo, investimentos maciços em ciência e tecnologia, informação e educação, para introduzir e consolidar as bases de um novo tipo de desenvolvimento, uma nova economia. Os avanços científicos são essenciais para gerar alternativas nos sistemas produtivos e para superar as desigualdades sociais. As inovações tecnológicas, contextualizadas e implementadas de forma apropriada, podem contribuir para manusear os recursos naturais e as potencialidades inerentes, utilizá-los economicamente de modo criativo e contribuir decisivamente para a geração de oportunidades de emprego e renda, a formação de redes e de Arranjos Produtivos Locais para as comunidades da região. Os Estados amazônicos não dialogam entre si, não integram-se, nem interagem-se. Não possuem uma frente parlamentar forte. Diante dessa constatação, percebeu-se a necessidade de maior aproximação comercial, institucional e estratégica entre os Estados amazônicos. Para viabilizar essa aproximação, foi criado o Portal de Integração da Amazônia Legal, onde podemos formar um mercado comum amazônico na perspectiva de ampliar não apenas as transições financeiras mas as transações culturais. O processo de riqueza e de pobreza nos municípios paraenses foi impulsionado pela pressão exercida pelo governo brasileiro, em busca do desenvolvimento industrial e, consequentemente, pela falta de políticas integradoras que contemplasse de fato as sociedades produzindo efeitos socioeconômicos desiguais. A riqueza advinda da mineração, por exemplo, impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional, e fez surgir em diferentes regiões do território paraense cidades ligadas a mineração atraindo direta ou indiretamente um contingente populacional significativo com pessoas vindas de diversas regiões do Brasil para o Norte, em busca de trabalho e melhores condições de vida nos projetos com dinâmicas atreladas a escala nacional e internacional. Mas em seu entorno a pobreza como resultado desse processo contraditório e combinado de desenvolvimento econômico no território ainda é um problema que precisamos superar. A questão da Amazônia é central nas discussões internacionais e muito pouco nas questões nacionais, talvez pelo fato do número de habitantes, do coeficiente eleitoral que não pesa tanto na balança das eleições presidenciais e por isso envolve a questão geopolítica. Mas o futuro da região depende da capacidade científica e política, do aproveitamento daquilo que a Amazônia tem de diferencial em relação ao mundo. Mesmo sendo grandiosa em tudo, a Amazônia não tem vantagem competitiva: uso sustentável e inteligente da biodiversidade e dos recursos renováveis. E não possui inventimentos, financiamentos em setores produtivos que podem se tornar estratégicos. Nós podemos dizer que somos maiores em recursos hídricos, em termos de água doce, que será o maior problema do século XXI. Nós somos a maior bacia da terra, somos a maior província mineral do planeta e o principal banco biogenético, a maior biodiversidade em termos de ecossistema de toda a terra, a maior diversidade cultural brasileira, porém o Brasil “Não tem um plano de desenvolvimento para a Amazônia!”. O grande desafio para quem mora aqui é ser atuante. Uma coisa é falar sobre a Amazônia, outra coisa é falar da Amazônia com o compromisso, a responsabilidade e a sensibilidade de quem mora, pesquisa e trabalha e morre por aqui. O Brasil não tem um projeto para a Amazônia, nunca teve um projeto digno para a Amazônia. Apenas projetos de submissão colonial. O Brasil quando pensa um projeto na Amazônia pensa apenas num projeto contra o desmatamento, e não passa disso. A Revista PZZ – Arte, Educação e Cultura em 17 edições vem pautando a arte, a cultura e questões pertinentes ao debate de projetos e ideias relacionadas a essa região que ocupa 60% do território brasileiro e ainda é a mais desconhecida do planeta. “Nossa História só terá realidade quando o nosso imaginário a refizer, a nosso favor.” Carlos Pará Rilke Penafort Editores da PZZ

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Edição 17 | julho/agosto de 2013

Diretoria Executiva Carlos Pará e Fábio Santos Editor Responsável Carlos Pará 2165 - DRT/PA Editor de Arte/Projeto Gráfico Rilke Penafort Pinheiro Produção Executiva Almir Trindade Neto, Pedro Vinna, Narjara Oliveira, Pavel Fernandes, Virginia Cecim Fotógrafo Bruno Pellerin Web-Designer Rilke Penafort Pinheiro Impressão: Gráfica Sagrada Família Distribuição Belém, Pará, Brasil. Assessoria Jurídica: Alfredo Nazareth Melo Santana 11341 OAB-PA Contatos (91) 3351-5188 - 9616-4992 - 9616-3400 email revistapzz@gmail.com Twitter @revistapzz Facebook revistapzz Editora A Revista PZZ é uma publicação bimensal da Editora Resistência Ltda - Av. Duque de Caxias, 160, Loja 14, Belém, Pará, Amazônia, Brasil Cep 66093-400 Cnpj : 10.243.776/0001-96 Issn: 2176-8528 site http://revistapzz.com.br/

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SECULT

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literatura do pará

Vicente Cecim

um ser de escritura “ ” UMA ESCRITURA QUE VEM DA VOZ E DO INVISÍVEL, ECOA DA COSMOGRAFIA MANISFESTA EM ANDARA, uma compreensão de Amazônia e de nós mesmos: os seres e a região mais desconhecidOS do planeta. Carlos Pará

E

scritor e cineasta, Vicente Franz Cecim nasceu em Belém do Pará e é o idealizador do projeto literário e existencial Andara, que teve como uma de suas nascentes a obra literária e a própria vida da escritora Yara Cecim, sua mãe. Yara nasceu e viveu sua infância e juventude às margens do rio Tapajós na cidade de Santarém, no Pará, e depois veio morar em Belém, trazendo consigo a vivência do rico imaginário amazônico, expressa em seu principal livro, Lendário - Contos Fantásticos da Amazônia. Cecim sempre cita a mãe, quando fala da invenção de Andara. “Escrever, sonhar os livros de Andara foi uma opção muito solitária, e do que havia sido escrito aqui na Amazônia, pelos escritores cultos, chamemos assim, eu não me nutri de quase nada. Meu único alimento foi a literatura oral, as lendas, os mitos, que aprendi desde criança a admirar através da minha mãe, que nos contava, não os contos dos irmãos Grimm, de Perrault, que tem coisas geniais, de Andersen, que é todo ele um gênio, mas umas histórias delirantes da região amazônica, para nos fazer dormir, a mim e aos meus irmãos Paulo e Elizabeth. O sono vinha, mas como um portal de acesso a todo esse mundo feérico. Não sabíamos mais o que era natural e o que era sobrenatural”. Seguindo como a mãe o caminho da literatura, Cecim quis ir além - e fez-se, ele próprio, o que passou a chamar de “um ser de escritura”. Ele é a Voz que se insurge contra o atraso cultural,

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político, econômico e o colonialismo imposto à realidade social e ao imaginário amazônico. Uma voz que se dirige às vítimas deste estado de coisa, exigindo mudanças: “Vítimas de uma sociedade violentamente gerada pelos

Para Cecim, escrever é descer às profundezas dos antigos registros duma vivência anterior e interior e qualquer coisa encontrar que lhe dê sentido, significado para o existir, perceber e poder penetrar na memória do Universo, emergir do Vazio, da eterna condição inexprimível do verso que se mostra aos homens como substância múltipla e transitória do Uni-verso. mais evidentes padrões de colonização, nossas chances de mudá-la começam na visualização da face oculta de quem nos fez isso. Este é um esforço que precisa voltar bem atrás, e que deverá se espalhar, interrogativamente, em várias direções, para obter êxito” – escreveu em seu Manifesto Curau, lançado em 1983, durante o primeiro Congresso da SBPC – Sociedade Brasileira para

o Progresso da Ciência, realizado em Belém, e permanentemente atualizado desde então. Um exercício de reflexão crítica que corre paralelamente à criação da sua obra de ficcionista e poeta reunida no imaginário livro-rio Viagem a Andara oO livro invisível. Dessa obra, em constante geração, diz: “É um não-livro, não escrito, puramente imaginário, do qual nascem os livros visíveis que escrevo”. O primeiro deles foi A asa e a serpente, que em 1979 deu início à invenção de Andara, “a Amazônia trans-figurada em região-metáfora da vida”, o relato da aparição de uma assombração militar em Santa Maria do Grão. Segundo Benedito Nunes, o livro alude “a uma realidade que traumatizou sua geração: a época do grande medo, que se tornou assombração política e fantasma histórico na cidade do Grão ou em qualquer outra parte do Brasil após 64.” E foi o grande crítico e filósofo paraense talvez o primeiro a logo identificar uma das principais, senão a maior originalidade da literatura de Cecim, ao observar: “Mais firmeza ganharia a fábula se maior contraste houvesse entre o plano prosaico da narração e o plano lírico da expressão poética, conciliando o sonho e a alegoria. Com a dominância do lado onírico, ganhou por certo o lirismo, que transforma a narrativa numa assombração literária impetuosa. Sujeito e objeto de metamorfose, o texto se interioriza, e o fantasma da História tende à história fantástica”.


Foto: Jordy Burch

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literatura do pará Para Cecim, escrever é descer às profundezas dos antigos registros duma vivência anterior e interior e qualquer coisa encontrar que lhe dê sentido, significado para o existir, perceber e poder penetrar na memória do Universo, emergir do Vazio, da eterna condição inexprimível do verso que se mostra aos homens como substância múltipla e transitória do Uni-verso. E, ao retornar transfigurado, não ter mais palavras, só um imenso olhar, imenso como a noite que busca atravessar. O leitor, por sua vez, faz a sua própria Viagem a Andara invisível através das páginas visíveis de A asa e a serpente, Os animais da terra, Os jardins e a noite, Terra da sombra e do Não, Diante de ti só verás o Atlântico, O sereno, Música de areia, Silencioso como o Paraíso, Ó Serdespanto, K O escuro da semente, oÓ: Desnutrir a pedra. Travessia de uma noite de escuras árvores, de um mundo “onde não faltam mistérios”, uma floresta de símbolos onde podemos ver sem os olhos e passar “entre os homens que dormem com um rosto de pedra. No vento passam os prisioneiros do infinito, as maldições do pó”. Andara é “um dia na vida do homem sem memória”, uma plantação de urtigas, uma “corrente fria que leva corpos para parte alguma”, mas aquele que não temer a sua obscuridade e a sua irrealidade aparente encontrará dentro de suas entranhas uma exploração que não destrói a Natureza, uma outra realidade sondável, selvagem, no seu estado bruto, desconhecida, in-pura, uma realidade substancialmente ou existencialmente feita de sangue e ossos, também de ecos e sonhos, vozes e silêncios, movimentos e inércias, o ar, o fogo, a terra, a água, o vegetal, minerais profundos e principalmente, insone, o animal. Onde quer que se encontrem o teu mistério, os venenos do ar, respira sem medo. Adiante te espera um rosto de areia. Relógios de pedra afundam em nosso sono. No negro que se segue às luzes que se apagam, no movimento das águas frias, nos lábios que beijam a palavra mais cruel do idioma, há incêndios nas florestas, animais que buscam a aventura, rigorosos e desesperados, enquanto queimamos esta cabeleira ao vento estremecidos de beleza. A ASA E A SERPENTE. 10 www.revistapzz.com.br

Podemos identificar o Livro Invisível de Andara às palavras do nosso velho mestre Francisco Paulo Mendes, no seu artigo “Notas sobre a Poesia Contemporânea” publicado na Revista Encontro, em 1948, onde já definia o sentido da poesia como uma atividade mística a superar os limites da matéria e dos sentidos e a procurar conquistar um conhecimento fora das vias normais do conhecimento racional e sensível, para transmitir pela poesia uma verdade suprassensível e suprarracional elaborada. São deles estas palavras: “O poeta deve praticar uma exploração impiedosa e minuciosa da sua vida interior, da sua subjetividade que o instinto poético leva à verdade. Uma exploração que não somente abranja os estados da consciência e de vigília, mas que vá além – trabalhar dentro de uma mina literária, sobre os estados semi-conscientes, vagos e oníricos. Explo-

Meu único alimento foi a literatura oral, as lendas, os mitos, que aprendi desde criança a admirar através da minha mãe, ração extensiva e intensiva que atinge as zonas que ficam fora do campo de consciência e que consiste em captar as diversas formas da vida da atividade dissimulada e abismais do nosso “eu”, correntes ilógicas de pensamentos, ideias absurdas, desejos obscuros, sentimentos aberrantes, os sonhos e os delírios, toda uma confusa mas fervilhante vida subterrânea do nosso ser. De tudo isso se apodera o poeta e para ele adquire um significado e constitui uma linguagem inteligível que dá o sentido do Universo. Abandonando-se as vagas do pensamento não discursivo, deixando-lhe levar pelas formas inferiores da vida afetiva, pelos estados oníricos e até mesmo pelo historicismo e pela alucinação, entregando-se sem opor resistência a forças desconhecidas e irracionais e envolvendo-se na agitação de uma atividade semi-consciente conseguirá o poeta atingir o íntimo das coisas porque a essência delas se acha refletida, “presente”, no seu espírito e, sendo assim, por uma explo-

MUNDO INVISÍVEL DE ANDARA A VIAGEM

“O poeta deve praticar uma exploração impiedosa e minuciosa da sua vida interior, da sua subjetividade que o instinto poético leva a verdade. Uma exploração que não somente abranja os estados da consciência e de vigília, mas que vá além – trabalhar dentro de uma mina literária, sobre os estados semi-conscientes, vagos e oníricos.”

FRANCISCO PAULO MENDES


Foto: Bruno Cecim

Yara Cecim, mãe de Vicente Cecim, em primerio plano.

ração extensiva e intensiva do eu, elas entregar-se-ão e desvendar-se-ão”. Vicente Franz Cecim narra sua existência nestes sentidos. Seu estilo veio com o milagre de uma prosa poética, musical, sem ritmo, sem rima, bastante maleável e bastante sacudida para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos espelhos e os seus duplos, aos sobressaltos da in-consciência e da memória ancestral. Assim como também sonhou Baudelaire, em seus dias de ambição, sonhou com essa forma bastante lúdica, ao aplicar à descrição da vida moderna, ou antes, de uma vida moderna e mais abstrata o procedimento que ele aplicara na pintura da vida antiga, tão estranhamente pitoresca. Andara

é “geografia interior” feita “de ossos e sonhos, a carne: a residência” de “fogos imensos”. É a narrativa de uma vida secreta desvelada pelo autor. Há mais de trinta anos já que toda a sua escrita é assim um exercício de repulsa em face de toda a repressão da Literatura como forma-objeto de consumo submetida a um modo de circulação socialmente “privilegiado”. Circulação sem depósito fiel, concurso ideal de um espírito universal classista e de signos decorativos, suspensos sem espessura, sem peso, sem vida, menos sociais do que artificiais, sem responsabilidade, não apenas com os outros, mas principalmente consigo, e sabemos que enganar não apenas os outros, mas a si mesmo, é a pior mentira duma falsa literatura que se prostitui como autor e que se rende a lucros absurdos. “Em sentidos diferentes se direcionam as obras de dois grandes autores: Ariano Suassuna e Vicente Franz Cecim. (...) Escrita de rupturas e de vertigens, Franz Cecim escreve uma única obra, Viagem a Andara, que se subdivide em diversos livros. O palco mítico de sua prosa é a Amazônia, mas estamos muito longe sequer de vestígios de literatura regionalista. O autor fala sempre na Floresta Sagrada. Trata-se de uma floresta totalmente alegórica, e é nela que se desenreda a vida de seus personagens e seu texto-vida insurrecto como definiu certa vez Benedito Nunes, um dos maiores críticos brasileiros que o Pará já teve. (...) Mais do que uma filiação à Literatura Fantástica, que levou a literatura da América Latina a um conhecimento de nível internacional, Cecim reivindica uma literatura fantasma: aquela que só é legível, não em termos icônicos nem simbólicos, na famosa distinção de Peirce, mas sim indiciais e residuais. (...) Só uma prosa que bebe em correntes arquetípicas profundas, como a de Cecim, e, para lembrar uma escritora da mesma família espiritual, Clarice Lispector, é capaz de solver esse impasse formal e dar conta da amplitude ética e existencial dessa realidade. A melhor maneira de visualizar algo parecido com a sua literatura é cinematográfica: Andrei Tarkósvski. RODRIGO PETRÔNIO/CAMINHOS DA LITERATURA BRASILEIRA ATUAL/POETRY WALES, 2004, PAIS DE GALES/ www.revistapzz.com.br 11


literatura do pará Viagem a Andara oO livro invisível No início de novembro de 2012, Cecim foi convidado a ir a Alemanha e proferiu a conferência “Amazônia trans-figurada: uma região como metáfora da vida” no Centro de Pesquisas Brasileiras do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim. Durante a visita, também mostrou na Embaixada do Brasil três filmes de curta-metragem da sua série KinemAndara: Sombras, A Lua é o Sol e Fonte dos que dormem. Depois, estendeu sua viagem a Praga e foi conhecer a terra e o túmulo de Franz Kafka, sua mais querida referência literária, como faz questão de declarar, e fez mais um filme, iniciado no trajeto de trem: K+afka, mergulhando na noite de Praga, quando chegou, e culminando no túmulo onde adormece o escritor tcheco, no Cemitério Judeu. Assim é o escritor em sua in-quietude, sempre buscando transformar-se recriando-se viajando e disposto a subverter a ordem, a lógica e o medo estabelecidos na vida e no imaginário do mundo Ocidental, para o qual nos alerta em seu Manifesto Curau: O medo ocidental culto é o medo dos imperialismos da Razão, e sua base econômica e totemicamente moral, às possibilidades históricas e estéticas da África, da Ásia, do Oriente Médio e da América Latina. Também não temos o direito de esquecer que é com esse medo que as autoridades desse Ocidente culto submetem o indivíduo ocidental anônimo: latente aliado do Terceiro Mundo para uma insurreição em escala planetária. Esse medo é o manifesto temor, de impulsões assassinas – os massacres do imperialismo estão em toda parte, inclusive na expansão de um novo imperialismo europeu de esquerda – de um organismo arcaico ante a emergência de novas vitalidades sobre o planeta. O equívoco das lutas anti-imperialistas circunscritas à confrontação política e econômica é, tem sido, ignorar que o projeto de permanência do imperialismo ocidental, projeto liderado pelos imperialismos europeu e norte-americano, inclui estratégias mais vastas e invisíveis, que utilizam a cultura - a Cultura, exprime melhor - e todas as suas ramificações, previamente envenenadas com 12 www.revistapzz.com.br

um curare entorpecedor das culturas do Terceiro Mundo, tolhendo na nascente sua afluência e sua chance de uma ação nativa libertadora. Assim é que esse Ocidente, tendo tudo a perder, nem vivo no real, nem mais vivo ainda na incorporação de um real total pela incorporação do além-fronteiras do onírico humano, quer, insiste em se propor como modelo alienador, das culturas oprimidas. Freud continua sendo para o Ocidente culto uma ferida aberta no seu inconsciente, perigosa, e que o Ocidente precisa cicatrizar, esquecer, e a conversão de suas descobertas em estratégias terapêuticas é a mais explícita constatação da manifestação do medo ocidental diante do imaginário. Será compreendendo que, do outro lado do Atlântico e mais acima dos Trópicos, se encena uma farsa, essa, que regiões de fome e de visões como a Amazônia terão direito, um dia, fatalmente, a um solo próprio e à convivência com suas raízes. O real está em toda parte, sim, mas sob o domínio do medo ele se transforma em fantasia e fuga ao real. Só a fábula insurrecta cravada na vida resgatará estética e historicamente a Amazônia dessa miragem: o padrão colonizador imposto a ela. E, também, da falsa existência que tem sido a nossa até então. Mas onde está esse subsolo real, o autêntico chão que servirá de base a essa independência histórica e estética, assim exigida com ênfase? Enquanto ignorarmos isso, esse solo fértil, nem ênfase nem Cultura nos levarão um passo adiante. E é inevitável que, para saber, será preciso um sacrifício cultural: o sacrifício dessa cultura a que nos habituaram e nos habituamos, será preciso romper tabus, negar-se a velhos cultos. Não. Não se trata de mais uma alienação, mera crença. Antes, é preciso ver nisso a presença de uma consciência que já viu. E viu o quê? É simples: ao tomar o real expresso como o Real, o homem se amesquinha e trai seu projeto de ser inerente: ao suspeitar desse real manifesto em torno de nós, todas as possibilidades de modificá-lo se

escancaram. Esse real à nossa volta é, na Amazônia, socialmente, a transplantação da realidade forjada pela cultura do dominador, herança a que nos forçam. Alguém já disse: - Do fundo de uma prisão, um homem pode fechar os olhos e destruir o mundo. É disso, enfim, que se trata. Desse poder. E nós o temos, mas ele dorme entorpecido o nosso sonho de região sem voz, sem identidade, sem alma – porque fomos desalmados pelo invasor. Ante a constatação inevitável da nossa carência material em resistir a esse colonizador com armas idênticas às dele, porque somos, irmãos, muito pobres, e ante a constatação de que isso seria repetir seus erros e reafirmá-los como valor – quando o nosso projeto é uma reinvenção cultural, uma revalorização da vida – ante essas constatações, e a


Foto: Bruno Cecim

permanente, sabemos, ou deveríamos saber, que é preciso tocar o coração de Aquiles do real, ali onde ele é sensível e impaciente espera de um acontecimento total que o transfigure. Sempre em movimento, viajando na vida como em Andara, Cecim fez recentemente a conexão Norte-Sul da literatura brasileira, convidado a participar da Caravana de Escritores da Funarte, promovida pelo Ministério da Cultura, recebido em Porto Alegre por escritores gaúchos e recebendo em Belém escritores do outros estados: o cearense Carlos Emílio Correa Lima e o carioca Alberto Pucheu, dialogando sobre os caminhos da literatura e seus desdobramentos na crítica literária, sobre o mercado editorial e a criação literária contemporânea. Esse movimento levou o crítico Leo Gilson Ribeiro a

“Mas nós, aqui, entre peixes, sonhos e homens, nesta Amazônia em transe permanente, sabemos, ou deveríamos saber, que é preciso tocar o coração de Aquiles do real, ali onde ele é sensível e impaciente espera de um acontecimento total que o transfigure”. par de um esforço de independência política e econômica, não temos o direito de negar-nos a nossa arma mais eficaz, imediatamente: o Imaginário, esse poder de que os nossos dominadores seculares, exaustos de sonhar, vêm abrindo mão. A Amazônia é uma irrealidade, então? Uma utopia? Um fantasma geográfico habitado por fantasmas humanos? É? Também. Da perspectiva da nossa opressão, isto é trágico, mas da perspectiva da nossa realidade, aí está o começo da nossa liberdade. E não apenas em relação ao colonizador, mas também em relação à própria vida, para nós, potencialmente, um dado lúdico. E no entanto, aqui se morre, se nasce em ondas, há a fome em estado crônico, homens doentes nos olham nos olhos às vezes com paixão, outras vezes com ódio. Tudo é igual à vida como ela é, vista por

fora. Juntamente com a mobilização de uma operação política, então, é precioso pôr em movimento também uma operação mágica. Esta: para além do real que me é dado pelo mundo, e, sobretudo, se esse real está deformado pelas marcas de uma dominação alheia a mim, resta-me o recurso de um jogo. E nesse jogo descubro e me repito, até o último alento: – A História, a minha história, só terá realidade quando eu me apossar dela pelo meu imaginário de homem e região. Foi isso o que o colonizador esqueceu, e por isso ele fez de sua história uma História lenta, mas fatalmente, contra a sua própria vida. Mas nós, aqui, entre peixes, sonhos e homens, nesta Amazônia em transe

dizer dele: “A fulminante trajetória literária de Cecim, que se iniciara com o belo, poético e enigmático poema em prosa Viagem a Andara, prossegue com um livro, se possível, mais rico e fascinante ainda: Silencioso como o Paraíso. Um dos mais perfeitos livros surgidos no Brasil nos últimos dez anos, imbuído de poesia, encanto e o que Guimarães Rosa chamava de peregrinação álmica’ (da alma).” É o que nos motiva a penetrar em Andara. Mas o que é Andara? Em entrevista à jornalista Márcia Carvalho, o escritor nos elucida: “Andara é uma região imaginária, toda ela onírica, que eu criei, ou que quis se criar através de mim, de qualquer maneira: que eu sonhei, mas sua matéria prima é a Amazônia, a Floresta Sagrada onde eu www.revistapzz.com.br 13


literatura do pará Foto: Bruno Cecim

nasci, com suas águas, seus peixes, suas aves, seus insetos, seus animais, suas árvores. Só que em Andara tudo pode acontecer e ainda mais do que acontece na Amazônia, que em si já é uma região naturalmente encantada: árvores podem falar com os homens, aves que caem do céu se transformam instantaneamente em terra, retornando ao pó, o vento vem nos contar histórias, tu podes te deparar com uma mulher alada como Caminá, do segundo livro visível de Andara, Os animais da terra, há muitos outros seres alados em Andara, talvez anjos ou sejam demônios, que descem do céu com suas asas negras, com suas asas brancas para conviver com os seres humanos. Também é grande a presença de serpentes em Andara. Pois o que está no Alto é como o que está Embaixo, como dis14 www.revistapzz.com.br

se Hermes Trimegisto. Andara é lugar de sonhar, em Andara tudo é possível, Andara é a imaginação em liberdade, Andara quer abolir a razão do ato de escrever. Andara é quase um manifesto prático contra a literatura regionalista, mimética, que geralmente se limitava a copiar, e copiar mal, a realidade amazônica. Mas a realidade é oculta em si mesmo: se disfarça em sua epiderme. Fazer literatura assim é ampliar o ilusório. Heráclito, que entendia dessa Obscuridade, já nós advertiu há quase 25 séculos atrás: - Vida ama ocultar-se. Andara quis romper, desde o primeiro livro, A asa e a serpente, de 1979, com essa tradição que quer nos reduzir a criadores de uma literatura superficial, anedótica, supérflua, com raras e parciais exceções.” Os primeiros sete livros de Anda-

“Nossa História só terá realidade quando o nosso imaginário a refizer, a nosso favor.”

ra, publicados em volume único pela Editora Iluminuras, recebeu, em 1988, o Grande Prêmio da Crítica da Apca – Associação Paulista de Críticos de Arte, nessa década somente atribuído também a Hilda Hilst, Cora Coralina, Mário Quintana e, na seguinte, a Manoel de Barros. A mesma Apca já havia lhe atribuído o Prêmio Revelação de Autor, em 1980, por Os animais da terra. E no ano seguinte obteve Menção Especial no Prêmio Literário Internacional Plural, no México, com A Noite do Curau, primeira versão de Os jardins e a noite. No Brasil, além de Benedito Nunes, Leo Gilson Ribeiro, Rodrigo Petrônio, também Deonísio da


Cecim encara a região amazônica como um território sagrado, vasto campo quântico, aberto para experimentações e experiências artísticas absolutamente reais porque não é uma realidade artificial, não é uma realidade de civilização, é uma realidade de natureza. destes textos inclassificáveis, que oscilam entre uma espécie de deliberada monotonia do ser e o sentido golpeante das cintilações verbais. O pensamento liberta-se dos seus lastros terrestres e ganha um estatuto de ave, uma leveza de princípio do mundo, uma sageza do fim dos séculos, uma inocência dos extremos. O que faz de Ó Serdespanto um livro inclassificável é que ele é feito do círculo crepitante das histórias que se contam e recontam, do uso visionário das palavras refeitas letra a letra ou a da lenta respiração da terra. E sobretudo de uma demorada aprendizagem do espanto de ser e de não-ser.” Sobre Ó Serdespanto, lançado posteriormente no Brasil, em 2006, também escreveu o nosso crítico e filósofo Benedito Nunes: “Um texto em prosa dividido em cantos, e os cantos se desenrolando rit-

mados, como versos que têm o hausto de versículos. O conjunto pulsa como a fala de um oráculo, já proferido, ao ritmo institucional da repetição, a cada passo trazendo o choque de uma ideia que abalasse a razão comum, o bom senso cartesiano. Mas esse abalo não lhe antepõe o irracional, e sim o faz recuar ao pré-racional de uma linguagem em estado nascente, poética. Como não pensar imediatamente em Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, como o mais ilustre antecessor imediato, se não inspirador desse Ser de espanto, de Vicente Franz Cecim? No entanto, a frase de Nietzsche, embora da mesma cepa poética, visa, para além da poesia, a realização de um ato fundador, moral e político de uma nova Humanidade. Embalado numa fala oracular, este livro-poema nasce de uma mimese do sagrado, como de um corte horizontal das camadas mítica e mística dos repositórios históricos orientais e ocidentais da sabedoria religiosa. Mas ele não quer estar fora da poesia. Suas diversas sortidas para tantos autores, de Novalis a Angelus Silesius, de Eckhart a Guimarães Rosa, que não levam para fora do campo poético, onde deseja permanecer, são como um contraponto ao pensamento religioso enlaçado ao filosófico. Contraponto no sentido de luminoso enfoque opositivo, contrário, que reforça em vez de ferir a pulsação rítmica, oracular. Mas não é por acaso que esse livro-poema tem uma origem filosófica que seu próprio nome denuncia. Pois o ser de espanto não é senão o thaumazein grego, o espanto que deu nascimento à Filosofia, como misto dos sentimentos de admiração e de estranheza diante do que há. Este escrito de Cecim é também um misto um texto híbrido, miscigenado, que citando e glosando Heráclito, São Paulo e Kant, oscila entre literatura e filosofia.” Cecim encara a região amazônica como um território sagrado, vasto campo quântico, aberto para experimentações e experiências artísticas absolutamente reais porque não é uma realidade artificial, não é uma realidade de civilização, é uma realidade de natureza. E a Amazônia tem guiado o escritor não só através da criação, da arte, também como a grande referência na qual confia inteiramente. Sendo a

Uma revelação extraordinária!

Jornal Público

Silva, Fabrício Carpinejar, Antonio Hohlfeldt e Moacir Amâncio, entre outros, já manifestaram seu reconhecimento e apreço pela obra do escritor. Sua obra atravessou o Atlântico e surpreendeu Portugal, onde Ó Serdespanto, lançado em 2000, foi apontado pelos críticos portugueses como o segundo melhor do ano e recebeu os mais altos elogios do crítico literário e filósofo Eduardo Prado Coelho. “Uma revelação extraordinária! Leo Gilson Ribeiro fala-nos, referindo um Guimarães Rosa que obviamente está presente nestes textos, em “peregrinação álmica” (da palavra “alma”), e a expressão está certa para nos dizer a estranheza, a perturbação, os momentos de arrebatamento que nos podem vir

Leo Gilson Ribeiro fala-nos, referindo um Guimarães Rosa que obviamente está presente nestes textos, em “peregrinação álmica” (da palavra “alma”), e a expressão está certa para nos dizer a estranheza, a perturbação, os momentos de arrebatamento que nos podem vir destes textos inclassificáveis, que oscilam entre uma espécie de deliberada monotonia do ser e o sentido golpeante das cintilações verbais. O pensamento liberta-se dos seus lastros terrestres e ganha um estatuto de ave, uma leveza de princípio do mundo, uma sageza do fim dos séculos, uma inocência dos extremos. O que faz de Ó Serdespanto um livro inclassificável é que ele é feito do círculo crepitante das histórias que se contam e recontam, do uso visionário das palavras refeitas letra a letra ou a da lenta respiração da terra. E sobretudo de uma demorada aprendizagem do espanto de ser e de não-ser. EDUARDO PRADO COELHO Jornal Público, Lisboa.

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literatura do pará vida natural, sem segundas intenções, a Amazônia é a realidade como ela é, por isso, absolutamente confiável, e como é a natureza, um campo de manifestações do Cosmos inteiro. Bem mais do que é ensinado pela geografia oficial. Na Amazônia o escritor descobriu universos, galáxias e vive nessa dimensão. Vive sua Cosmografia, mais do que uma mera Geografia. O essencial é entender tudo mesclando a região geográfica da Amazônia com a região verbal de Andara, em que transfigura a região. Como foi dito, a experiência de Cecim ultrapassa a questão de copiar a Amazônia, pois isso seria ofendê-la e não entender nada da dimensão imaginativa e criativa que proporciona como vida e como linguagem, metáfora da existência, diante da dimensão cósmica que a Amazônia é. Como diz seu Manifesto Curau: “Nossa História só terá realidade quando o nosso imaginário a refizer, a nosso favor.” No livro Andara: Vicente Franz Cecim e a Narrativa Ontológica por Karina Jucá, publicado através do prêmio IAP de Literatura 2010, certificamos um caráter que é marcante na obra de Vicente que é o Rio, elemento físico e mítico da Amazônia. “O rio ceciniano, uma metáfora da vida e do discurso humano, nasce da intertextualidade com Heráclito, o filósofo pré-socrático que utilizou o rio como metáfora icônica da mutabilidade da existência; e se une às demais metáforas: espelho submerso e caos perdido, compondo a impressão particular do autor sobre o contexto da obra literária e da escritura. Por sugestão e metonímia os espelhos representam a imagética e a visão humana, não apenas pelo fato de tecnicamente “refletirem imagens”, mas porque simulam a visão, aludindo com isso às implicações embutidas neste ato. Por essa razão, estudiosos do imaginário como Durand (1997) apontam que, arquetipicamente e em algumas civilizações, o espelho é tido como uma espécie de “objeto mágico”, cujo caráter simbólico está relacionado ao misticismo. Literalmente partidos no rio, os espelhos de Cecim ilustram o aspecto fragmentário e falho dos conceitos e faculdades mencionados, e de um modo mais profundo, do olhar 16 www.revistapzz.com.br

místico e propriedades transcendentes que estes metaforizam. Estendendo a análise, expressam as “possibilidades” da visão mística não diretamente atestável, à semelhança de postulados Herméticos como este: “a luz única e intangível do uno-onipresente acaba por se estilhaçar em múltiplos reflexos por intermédio do prisma do espírito” (BURCKHARDT, 1991, p. 5). Os fragmentos de espelhos refletem, contudo, imagens inteiras. Apesar de “partidos” fazem supor que são partes

de um grande espelho, e por isso, na frase subentendem unidade, ou derivação difusa de uma “matriz”; tal como o conceito platônico de Idéia, a teoria da existência de espécies, imagens únicas intuíveis – as Idéias, que em tese são modelos excelsos, matrizes perfeitas das coisas existentes – os chamados Simulacros, reflexos truncados, incompletos ou turvos destes modelos. Em Parmênides, contudo, o grego coloca em dúvida a existência de Idéias correspondentes aos elementos naturais


Foto: Bruno Cecim

o Mundo Invsível de Andará No Coração da Luz/centelhas para um Segundo Manifesto Curau, ou não, por Vicente Franz Cecim

A ASA E A SERPENTE Tu escreves um livro com tinta invisível. Por que fazes isso?

OS ANIMAIS DA TERRA Nós somos homens in-visíveis. Depois de nascidos, visíveis. Entre o início visível e o invisível final, nós somos os homens visíveis. Aproveitemos para ver-nos.

(fogo, água e outros), assim como questiona a existência de uma matriz – Idéia – para o Homem. Quando refere o caos perdido, a metáfora de Cecim mostra afinidade com a mesma incerteza. A noção de escritura/Escritura está condensada na metáfora do profundo e vasto (dis) curso do rio (vida). Os espelhos são a metáfora dos olhos e das palavras do Homem, que refletem a opacidade e a translucidez-cega da vida, ou seja, a evidência da vida e da própria língua, mas a obliteração da

“Nossa História só terá realidade quando o nosso imaginário a refizer, a nosso favor.”

sua origem, porque estas estão misteriosa e encantatoriamente auto-encerradas: “Porém, os homens esqueceram a tua Voz onde deixaste um espelho” (CECIM, 1988. p. 44). A Escritura está saturada do mistério não desvelado da Origem: Em O Nome de Deus, A teoria da

K O ESCURO DA SEMENTE Situação dos livros de Andara: condenados à visibilidade para que Viagem a Andara, o livro invisível possa existir como pura ilusão.

OS JARDINS E A NOITE E então ir escrevendo outros livros, neste jardins, todas essas asas, para que um livro vá se fazendo. Mas não em si. Dele não se verá nem sombra das palavras no papel.

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literatura do pará Linguagem e Outros Estudos de Cabala e Mística, Scholen (1999, p. 229) escreve: “Totalidades são transmissíveis somente de forma velada. O Nome de Deus é acessível, mas não pronunciável. Pois somente o fragmentário nele presente torna a língua falável. A verdadeira língua não pode ser falada, não mais do que o concreto absoluto pode ser realizado” Segundo o Mito de Babel, as palavras são fragmentos esfacelados de Deus. A língua como herança divina truncada é representada pelos fragmentos do espelho que subentendem a Totalidade perdida. O Mito da Origem judaico está intimamente imbricado ao mito da própria linguagem, a ação divina fundadora pela linguagem. E um espelho em certo sentido também se faz ”imagem e semelhança”, como o Homem de Deus. Por isso, na passagem referida da obra, o espelho adquire o simbolismo de um portal virtual inefável, do vislumbre do mistério e da Unidade perdida. Platão, por exemplo, falou a respeito da grandeza e da multiplicidade que podem ser abrangidas com um único olhar: “o que faz supor que o grande é uno”. Emersos, os espelhos refletem o firmamento e o apreendem como horizonte-limite, ultra-exterior. Imersos, refletem as águas, a vida submersa, ultra- interior. Os que refletem a vida (o rio) têm o foco na imanência, e os que refletem o firmamento, na transcendência. Mas sob determinada ótica são dois lados de um mesmo enigma, e apenas focos. A metafísica vira, então, miragem, porque o “olhar” do espelho é virtual. Reproduz a visão, mas não “vê” em sentido literal. A frase total de Cecim, tal como na Cabala, tem “expressividade enigmática” (SCHOLEN, 1999, p. 224), haja vista que “O alegórico pode ser sempre expresso por um modo diferente, é sempre traduzível, sempre relacionável a outra coisa existente no mundo. Os símbolos numa compreensão mais exata dizem respeito aos fatos que se revelam e comunicam não em si mesmos, mas exclusivamente na transparência em outros objetos, em outros fatos. Os símbolos não podem ser traduzidos. Eles expressam algo que não é exprimível, que se esquiva da comunicação 18 www.revistapzz.com.br


lingüística em forma direta... E um simbolista, nesse sentido exato, é uma pessoa para a qual o mundo se torna transparente em sua interioridade fechada”. (SCHOLEN, 1999, p. 73). A implicação da imagem simbólica é um dos aspectos mais importantes da obra de Cecim. Como na pintura zen, ou na linguagem mítica, uma imagem sugere cosmogonias. No rio de Ó Serdespanto, vê-se a ilustração dos dois aspectos referidos por Scholen (1999): o simbólico e o alegórico. O componente alegórico do rio de espelhos é utilizado para refletir nos diversos primas sobre a essência simbólica da vida. Afinal, dentro do (dis) curso do rio, há o “transcurso” dos espelhos: Interstício entre o texto primeiro e o infinito da interpretação. Fala-se sobre o fundo de uma escrita que se incorpora ao mundo; fala-se infinitamente sobre ela, e cada um de seus signos torna-se, por sua vez, escrita para novos discursos, mas cada discurso se endereça a essa primeira escrita, cujo retorno, ao mesmo tempo que promete, desvia (FOUCAULD, 1999, p. 57). Portanto, a frase de Cecim levanta questões em torno da leitura e exegese das Escrituras Sagradas ou ainda do mito da origem da linguagem, e sua derivada mundana, secularizada, a escritura poética. Para os místicos e poetas “simbolistas” (na acepção de Scholen), uma Escritura não é apenas alegoria, embora assim se apresente sob determinada ótica. O rio é a alegoria da vida, mas a vida está prenhe de espelhos, isto é, de símbolos que se esquivam de uma compreensão direta e última. Citando a Torá, Scholen (1999) menciona que a mística judaica vê nas Escrituras (e aqui mais uma correspondência com o rio de espelhos) “a luz resplandecente, infinitamente multifacetada, na riqueza de sentidos infinitos, que agora possibilita a descoberta de novos níveis de significado, a introvisão simbólica nos segredos do ser divino” (SCHOLEN, 1999, p. 74). Comumente definido “escritor hermético”, xamã da literatura brasileira, cabe, porém, evitar o equívoco de uma interpretação de cunho místico literal da obra, que é, sobretudo, heterodoxa, revisitando as questões existenciais básicas: de onde viemos, quem somos,

para onde vamos. Em entrevista Cecim menciona a diferença fundamental entre “artistas que praticam a arqueologia da história da arte” daqueles que “praticam a arqueologia da própria vida”. O rio de espelhos partidos exemplifica a

“A implicação da imagem simbólica é um dos aspectos mais importantes da obra de Cecim. Como na pintura zen, ou na linguagem mítica, uma imagem sugere cosmogonias. No rio de Ó Serdespanto, vê-se a ilustração dos dois aspectos referidos por Scholen (1999): o simbólico e o alegórico. O componente alegórico do rio de espelhos é utilizado para refletir nos diversos primas sobre a essência simbólica da vida. Afinal, dentro do (dis) curso do rio, há o “transcurso” dos espelhos”. segunda categoria. Acerca do problema da leitura na escritura poética, o rio de espelhos também metaforiza a fluidez da interpretação possibilitada em textos desta natureza radicalmente diversa. Os espelhos (da obra) no qual se miram os leitores podem alterar a percepção total da obra. O rio de espelhos com sua introvisão é tão poderoso e exuberante quanto (o mito grego de) Argos, o rei que possuía “cem olhos”, dos quais, alternadamente cinqüenta se conservavam abertos, enquanto o restante repousava, e, que por uso indevido destes sentidos, Hermes, o mensageiro dos deuses, sob ordem do deus supremo, os transformou em “olhos” da calda de um pavão. Como que a dialogar com este mito e retomar as questões do rio de espelhos, pergunta o narrador a si e aos leitores: “São esses mil olhos que tudo vêem e nada vendo?” (CECIM, 2001, p. 52).

o Mundo Invsível de Andará NOSSA HISTÓRIA SÓ TERÁ REALIDADE QUANDO O NOSSO IMAGINÁRIO A REFIZER A NOSSO FAVOS

SILÊNCIO COMO O PARAÍSO O não-livro. Não existe, não existe Literatura fantasma. Não foi escrito. Enquanto texto, tudo o que teremos dele é um título

Ó SERDEPANTO E a pergunta seguinte é: E o que são livros, os livros que se escrevem? Livros de Andara. Livros-miragens. Pois uma vez escrita, da vida só resta a alucinação literária

oÓ: DESNUTRUÍR A PEDRA Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente. E ela está começando, assim.

LIVRO DE KARINA JUCÁ, PRÊMIO IAP DE LITERATURA Andará, Vicente Franz Cecin e a Narrtaiva Ontológica

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literatura folclorica

Nazaré Mello

o folclore literArio O folclore literário retratado em nossa cultura de contos simbólico.

O

ato de contar uma história induz a curiosidade, que será aguçada a reportar-se ao imaginário capaz de resignificar o universo simbólico humano, presente desde a infância. Os contos fabulosos conseguem ultrapassar os limites do tempo, por permanecerem no mundo dos encantamentos que percorrem os sentimentos dos leitores, invadindo locais indizíveis e repletos de significados folclóricos, uma vez que a definição da palavra folclore é a reunião de músicas, costumes e conhecimentos populares produzidos naturalmente, ao longo de gerações. A literatura pode servir como ponto mágico do longo percurso a ser realizado por cada um de nós, as histórias que vão se entrecruzar com os contos folclóricos do homem, ao abordar sua resignificância na forma em que produz um sentido para sua existência no mundo, procurando dimensionar sua compreensão afetiva com a realidade. As narrativas literárias contam e relatam o desejo

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humano da plenitude, do conflito entre o bem e o mal. Pelo viés lendário, existe a possibilidade de tocar nos infinitos mistérios que constituem a vida e a alma do homem. Morin dizia que o imaginário humano se desdobrava em estruturas multidimensionais daquilo que chamamos de real. Todas as culturas constituem entrelaçamentos com a vida real e o imaginário baseado na realidade, num sistema próprio que permite um duplo movimento de projeção e identificação com as estruturas conhecidas e com suas relações ditadas pelas ordens da estética cultural. Tendo a função de permitir um papel de evasão ou divertimento, podendo regular ou consolar a vida, como uma forma de escape mental em níveis diferenciados, projetando psiquicamente necessidades impossibilitadas de serem satisfeitas na dimensão do real, mas possível no mundo dos sonhos retratados nas lendas em geral, que permanece delineada, profana e terrena. São forças ocultas nos processos mitológicos do que há

de mais empírico. Esta, não se cristaliza e nem dispõe do caráter coercitivo e do poder temporal, portanto o indivíduo pertencente a esta literatura, apresenta diversas características humanas, ressaltadas por suas personalidades formatadas nas lendas. A fatalidade e a providência estão sempre presentes, a justificativa diante da impotência de resolver todos os questionamentos individuais. Tais implicações estão sempre presentes nos textos mitológicos ou lendários, contudo, devido a uma linha imaginária, o leitor interpreta e desperta o seu simbolismo com seu teor criativo, provoca ações de interatividade, nos que percebem o sentido deixado pelo autor, quando estimula suas percepções relacionadas às características iniciais de sua cultura, aliados ao processo imaginativo. Torna-se um momento de espaço fantástico para a expansão do seu pensamento, num pleno exercício de sua capacidade simbólica, visto


Foto: Bruno pellerin

SÍMBOLO CUILTURAL Nazaré de Mello e Silva Soares é pedagoga, administradora escolar, professora, pesquisadora, MBA e Mestra em Ciências da Educação. É autora de 10 livros publicados sobre lendas e mitos. Membro do IHGP.

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literatura folclorica trabalhar diretamente, com elementos do poético maravilhoso e imaginário. Betteheim, sempre reitera que “Os contos de fadas que hoje lemos à luz da psicanálise e da sociologia apresentam reações distintas diante de um e outro instrumental”. A par disso, hoje sabemos, os textos de tradição oral da idade média operavam sobre os ouvintes de modo similar ao que atuam sobre nossas crianças, embora não tivessem notícia do inconsciente freudiano. Com os recursos atuais é possível ler os contos, numa nova leitura intertextual, diante de uma multiplicidade de interpretações dos textos polissêmicos. É a possibilidade de interpretar e analisar as obras, que permite a renovação social permanente dos escritos. Quanto maior forem as ambigüidades, maior será o sentido ampliado das situações da vida abarcadas pelo leitor, que ao usar suas referencias de sentido objetivo para a comunicação, remeterá com clareza à sua unidade de significações, percebendo a diferença entre o que é ficção e o que faz parte da realidade, dando então um significado subjetivo e particular a esses textos. “Mito” reporta-se à palavra grega mythos, em seus primórdios, como outras palavras que também sofreram variações através dos séculos, mas que na sua interpretação principal, esta permaneceu com seus sentidos e aplicações quando se utiliza este termo, para designar uma personagem ou ainda uma representação de fatos que foram exagerados pela imaginação popular. A concepção dada a este termo é de senso comum, são assuntos que não tem cunho verdadeiro ou provável, mas pertence a uma contextualização que o torna em sua gradação metafórica, em algo que expressa dimensões que são elaboradas de forma crível, e assim possíveis de existirem. O folclorista Britto dizia sempre que as lendas se caracterizam por sua natureza fantástica, surpreendente e impressionante, onde tudo é possível, em observar que as conotações apontam também para algo vindo do desconhecido, do encanto com o sobrenatural. O 22 www.revistapzz.com.br

mito origina-se de alguma história de teor sagrado, de uma determinada realidade, modificada por um contexto fabuloso de natureza simbólica, levando a condição humana para o irreal. É um mundo que precisa ser visto sob a ótica da significação de um povo, que se expressa com terminologias próprias e subjaz a um sentido amplo, dotado de implicações referenciais que visam compreender o surgimento dos seres mitológicos relacionados à cosmologia, que se transformam em mitos, presentes nas histórias lendárias e se tornam uma tradição histórica, mesmo que estejam de-

Qual papel importante, elas representam para a comunidade, por abordar questões intrínsecas as tradições da região e que não podem, nem devem ser esquecidas, mas sim evidenciadas e difundidas, como forma de valorizar as raízes da cultura humanística do homem, com identidade mística por excelência, por tradição de seus aspectos culturais como é o amazônico. terminados por contos fantasiosos e poéticos. As lendas nascem do relacionamento entre o homem nativo e a exuberante flora, que apresenta atores sobrenaturais dentro de um cenário belo e misterioso, e estando dentro de realidades culturais extremamente complexas e singulares, foram sendo criadas no seio de sociedades integrais nos interiores amazônicos. O homem do povo reproduz com domínio de conto que vira folclore cultural, com o referencial do conceito, que se dispuseram e permitiram abordar interpretações de fatos, através de perspectivas múltiplas que complementaram histórias retratadas em tempos fabulosos. Sendo que estas histórias re-


sultaram, em variadas interpretações conforme a transmissão dos contos, levando a um maravilhoso leque folclórico composto de animais falantes e com diversos poderes. Seres que assombram as florestas, ou heróis poderosamente simbólicos, que pertencem a alguma história lendária, que apresenta em sua justificativa que faz sentido as explicações, para fatos dos quais não se consegue razões, para a personificação cultural. Assim como Benedito Nunes, pedia para que requalificássemos a figura do indígena e do nativismo, a poesia que tenta se enraizar à cultura nativa, aproveitan-

Os contos fabulosos conseguem ultrapassar os limites do tempo, por permanecerem no mundo dos encantamentos que percorrem os sentimentos dos leitores, invadindo locais indizíveis e repletos de significados folclóricos, uma vez que a definição da palavra folclore é a reunião de músicas, costumes e conhecimentos populares produzidos naturalmente, ao longo de gerações. do o sumo das peculiaridades léxicas (malinar, panema, esse-um) termos que dispensam imagens do nexo. O Mito está definido para dar ênfase a grandes façanhas de seres ou entes sobrenaturais, de histórias encantadas que passaram a existir, em funções articuladas ou sistematizadas. São histórias narradas dentro da realidade amazônica, repletas de seres, que refletem o simbolismo descrito, porque estão inseridos nos contos traduzidos em linguagens diversas, e textos existentes a respeito do assunto geradores das lendas ligadas aos fenômenos vistos, nas forças da natureza, que transforma em condições humanas irreais, o entendimento de fatos e representações imaginárias de um

povo. São semideuses poderosos, índios destemidos, criaturas com dons da metamorfose, a natureza interfere na vida comum. Esse conteúdo deve ser estudado de forma a chegar a patamares de interpretação das tradições mitológicas amazônicas, para a obtenção de um conhecimento mais amplo e aprofundado que possa desvelar, quais mensagens estão ali registradas. Qual papel importante, elas representam para a comunidade, por abordar questões intrínsecas as tradições da região e que não podem, nem devem ser esquecidas, mas sim evidenciadas e difundidas, como forma de valorizar as raízes da cultura humanística do homem, com identidade mística por excelência, por tradição de seus aspectos culturais como é o amazônico. A adoção de temas e contos relacionados com as lendas amazônicas, quase não se faz presente dentro dos conteúdos programáticos escolares, a despeito de seu valor cultural e grandiosidade dramatúrgica fascinante. Lembramos Câmara Cascudo, quando afirmava que, os contos variam infinitamente, mas os fios são os mesmos. A ciência popular vai dispondo-os diferentemente com a ilusão da originalidade, histórias que envolvem as lendas e o folclore, induzem interações. O incentivo a leitura, proporcionaria uma relação com a temática e suas raízes, que em muito, encontram-se encobertas por outras histórias que não fazem parte de sua identidade e cultura oral. Um dos primeiros pedidos que a criança de idade semiótica faz ao seu círculo familiar ou educacional, é a expressão quase universal repetida por muitos ouvintes ávidos por descobertas: Conta-me uma história? E quando os temas forem sobre o nosso folclore lendário, o conhecimento e a fluidez da imaginação levarão a um mundo literato, criativo e cultural. Nazaré de Mello e Silva Soares é pedagoga, administradora escolar, professora, pesquisadora, MBA e Mestra em Ciências da Educação, escritora com 10 livros publicados sobre lendas e mitos. Membro do IHGP. www.revistapzz.com.br 23


literatura lançamento

Edmilson Rodrigues

AMAZÔNIA Globalizada EDMILSON ANALISA EM LIVRO BELO MONTE E O USO TERRITORIAL NA AMAZÔNIA (jardim de águas sedento)

Avelina Castro

D

outor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), Edmilson Rodrigues - que também é deputado estadual pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) -, analisa no livro a relação entre globalização e soberania territorial. De forma profunda, o autor lança seu olhar científico sobre o fenômeno da apropriação privada dos recursos hídricos do território na Amazônia, região fundamental para a manutenção do planeta. A análise científica é focada no atual período histórico da globalização, na qual ele lança olhar crítico em relação à soberania territorial, tomando como base o uso do território através de eventos já realizados ou em realização, que são significativos para a interpretação dos constrangimentos que impactam a soberania territorial no processo de reconfiguração e refuncionalização do território. Para isso, analisa o fenômeno da apropriação privada dos recursos hídricos do território, em especial os eventos sucedidos na Amazônia, chamada por ele de jardim de águas sedento, destacando os usos territoriais não-hegemônicos, que se constituem em formas de resis-

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tência dos lugares. A usina hidrelétrica de Belo Monte é um dos eventos analisado no livro, em função da grandiosidade de seu sistema de engenharia e seu potencial no processo de reconfiguração espacial. "A instalação de sistemas técnicos –

“A instalação de sistemas técnicos – verdadeiras próteses - no território, não aconteceria sem um conjunto de agentes normativos baseados em uma geopolítica que expressa os interesses de países ricos, de corporações oligopolistas, das classes hegemônicas, sobretudo os agentes do capital financeiro”. verdadeiras próteses - no território, não aconteceria sem um conjunto de agentes normativos baseados em uma geopolítica que expressa os interesses

de países ricos, de corporações oligopolistas, das classes hegemônicas, sobretudo os agentes do capital financeiro", destaca Edmilson, que também analisa os interesses de agentes normativos internacionais em explorar o território amazônico. "Destaco em minha análise as gigantescas corporações que atuam com a exploração dos recursos hídricos (sistemas de abastecimento de água, hidrelétricas etc.) que são representados por uma espécie de “santíssima trindade” financeira da globalização: o Banco Mundial (BIRD), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC)", acrescenta. Edmilson explica que o papel dessa "santíssima trindade", ou seja, dessas instituições multilaterais da ONU é o de normatização do território a fim de torná-lo dócil ao uso mercantil de seus recursos, constrangendo, assim, a soberania. Essa tríade, composta por agências das Nações Unidas, segundo ele, ganha facilidades do Estado brasileiro no relacionamento com os governos dos Estados territoriais, garantindo, entre outras coisas, a aprovação de dispositivos normativos legais constitucionais ou infraconstitucionais con-


forme a sua conveniência. Pesquisador crítico, Edmilson critica a ideia de que o princípio da soberania territorial estaria superada. "Apesar dos que se julgam portadores do “pensamento único” defenderem a tese do fim da soberania, esta permanece existindo, pois os eventos exogenamente planejados necessitam do estado nacional para tornarem-se normas nos territórios. A globalização, portanto, não eliminou o sentido de permanência do direito dos povos à autodeterminação e à soberania territorial. Ao contrário, a fragmentação imanente ao processo de globalização reacende a ideia de fronteiras e de estados territoriais", diz Edmilson. Ao analisar o momento atual da globalização, o pesquisador ressalta que é uma ideologia a tese da “desterritorialização” dos Estados, que não mais teriam a função de exercício do poder soberano. De acordo com ele, o território usado é uma totalidade dinâmica e contraditória, disputado por todos (instituições, trabalhadores, empresários) e é, também, todo o espaço. É o que, segundo ele explica, Milton Santos conceitua como “espaço banal”, pois na globalização atual são as normas definidas pelas empresas que determinam os usos predominantes no território, visando o lucro. "Mas é preciso lembrar que também há usos populares do território, movidos pela necessidade de bem estar, que baseiam-se em racionalidades alternativas à do capital. Por isso, destaco a crise dessa ideologia, já que são notórias as resistências indicativas de que uma outra globalização é possível e já vem sendo constituída pelos que querem o território como abrigo, como bem social, sobretudo a água que é, por definição, uma não-mercadoria", defende. Em sua tese doutoral, Edmilson prova que as resoluções da Conferência de Dublin realizada pela ONU em 1992, ao definir a água como “bem econômico”, logo “precificável”, a fim de ser vendido como qualquer bem mercantil, serviram para orientar o trabalho de normatização do território a fim de tornar legítima internamente essa estratégia dos países ricos e suas gigantes corporações. "A partir daí, os

governos, domados por essa ideologia, passam, em nome da modernização do país, a protagonizar reformas normativas legitimadoras da entrega ao “livre mercado” de nossos recursos hídricos", explica. Para o pesquisador, Belo Monte é um bom exemplo de normatização do território brasileiro para apropriação privada. "Belo Monte é uma catástrofe anunciada. É um sistema de engenharia condenável em todos os aspectos possíveis. Em primeiro lugar porque afeta cerca de 30 terras indígenas e não foram realizadas as audiências públicas com os povos, confor-

“Belo Monte é uma catástrofe anunciada. É um sistema de engenharia condenável em todos os aspectos possíveis. Em primeiro lugar porque afeta cerca de 30 terras indígenas e não foram realizadas as audiências públicas com os povos, conforme determina a Constituição Federal”. me determina a Constituição Federal. Há também incertezas sobre a vazão e a capacidade do hidrograma (canal de concreto) em construção para redirecionar a água nos 100 km da volta Grande do Xingu. Ou seja, se os impactos negativos não foram identificados, obviamente torna-se inviável o planejamento de ações mitigadoras para compensá-los", destaca. Além disso, segundo Edmilson, o rio Xingu, em 35 anos só alcançou 22 mil m3/s de volume em 6% dos dias. De acordo com ele, são necessários 14 mil m3/s para produzir energia e, pelo menos, 8 mil m3/s para manter a vida nos 100 km da Volta Grande. "Isso evidencia que a usina vai impor uma escolha absurda: ou se sacrifica a Volta Grande ou se sacrifica a geração de energia. Além disso, a obra custará mais de R$ 30 bilhões, ou seja, muito acima dos R$ 19 bi previstos no período licitatório", concluiu o pesquisador.

Arquiteto, professor e pesquisador Edmilson Rodrigues lançou o seu mais novo livro, intitulado Território e Soberania na Globalização - Amazônia, Jardim de Águas Sedento. O livro de 569 páginas é baseado em sua tese de doutorado - defendida em 2010 - e publicado pela Editora Fórum, de Belo Horizonte, MG, no ano passado.

TERRITÓRIO E SOBERANIA NA GLOBALIZAÇÃO- AMAZÔNIA JARDINS DE ÁGUA SEDENTO Edmilson Rodrigues. Editora Fórum, 1a edição, 596 páginas. Apresentação: Maria Adélia Aparecida de Souza

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música BRASILEIRA

ArqUIVO

Maestro Isoca Wilson Fonseca é o uirapurumor da Pérola do Tapajós, onde fica a paradisíaca praia de Alter do Chão, fonte de inspiração do escritor, músico e poeta, um dos mais importantes compositores da Amazônia.

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Wilson Dias da Fonseca

centenário de nascimento do maestro centenário de nascimento do maestro wilson fonseca - mestre isoca faz reafirmar a importância da obra e da pesquisa para a músca brasileira

Vicente José Malheiros da Fonseca

W

ilson Dias da Fonseca (Maestro Isoca) nasceu em Santaré, PA (17.11.1912) e faleceu em Belém, PA (24.03.2002). Era casado com Rosilda Malheiros da Fonseca, sua musa inspiradora, falecida em 2009. O casal teve seis filhos, quase todos dedicados à música: José Wilson, Vicente José, Maria das Dores, Maria da Conceição, José Agostinho e Maria de Jesus. Musicista talentoso, com reconhecimento no Brasil e no exterior, é herdeiro de uma tradição musical que começou com seu pai José Agostinho da Fonseca, com quem iniciou seus estudos em 1920. A valsa Beatrice é a sua primeira composição (1931), criada para sonorizar uma cena do filme O Beijo (com Greta Garbo), na época do cinema mudo, cuja sincronia era feita por Isoca, em sua terra natal. Em 1958 a sua composição Ecce Sacerdos Magnus (Coro 4 vozes mistas e Órgão) foi cantada na Catedral de Chicago (USA), na solenidade de sagração episcopal de D. Tiago Ryan, Bispo-Prelado de Santarém. Ele é a alma da Pérola do Tapajós, orgulho da cultura amazônica e da história da música brasileira, pelo singular exemplo de compositor praticamente autodidata, além de poeta, pianista, saxofonista e professor. www.revistapzz.com.br 27


música BRASILEIRA

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screveu o livro Meu Baú Mocorongo (coletânea de 6 volumes), impresso por RR Donnelley Moore (SP) e editado pelo Governo do Estado do Pará (2006), com quase 2.000 páginas de pesquisas, recordações e reflexões sobre a vida histórica e sócio-cultural de Santarém e da Amazônia. Foi Membro da Academia Paraense de Música (cadeira nº 24, que tem como patrono seu pai e atual ocupante Vicente Malheiros da Fonseca, seu filho) e da Academia Paraense de Letras (cadeira nº 7). Trabalhou no Banco do Brasil durante 31 anos e foi o primeiro funcionário, aprovado em 1º lugar, em concurso público, da primeira agência do interior do Pará, onde laborou no período de 1941 a 1972, quando se aposentou. Nunca aceitou ser removido de Santarém, não obstante as ofertas de promoções na carreira profissional. Ao Banco do Brasil, Isoca dedicou a música BB-130 – Dobrado nº 35 (1990). Sua obra musical, do popular ao erudito, contém 20 volumes (4 publicados), com mais de 1.600 produções (canto, piano, banda, coral, conjuntos de câmara, sacras e orquestrais). O catálogo de sua obra musical está assim organizado: Coral (I); Sacra (II); Valsas, Modinhas, Toadas, Tangos e Canções (III); Orquestra, Trio e Duetos (IV); Músicas para Banda (V a VIII); Sambas, Marchas, Foxs e Boleros (IX); Diversos-A (X a XIII), Poema Sinfônico – América 500 Anos, de 1992 (XIV), Ópera Amazônica – Vitória-Régia, O Amor Cabano, de 1996 (XV), Diversos-B (XVI a XX). Merecem ainda destaque a abertura sinfônica Centenário de Santarém (1948), 46 Dobrados para Banda, 23 Cantatas, 12 Missas, a série de 9 Choros-estudos, 5 Ave-Marias, 2 Noturnos, 1 Sonatina, Amazônia (suíte para jazz-band, 1996), Tapajós Azul (valsa, para orquestra sinfônica, 1997) e As Pastorinhas (peça de teatro popular, revista em 1997). Suas composições musicais mais conhecidas: Hino de Santarém (letra de Paulo Rodrigues dos Santos), Pérola do Tapajós (parceria musical com Pedro Santos e letra de Felisbelo Sussuara-

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na), Canção de Minha Saudade (letra de Wilmar Fonseca), Terra Querida, Lenda do Boto, Um Poema de Amor, Hino da Festa de N. S. da Conceição (letra de Emir Bemerguy). Alguns CDs gravados com músicas

Sua obra musical, do popular ao erudito, contém 20 volumes (4 publicados), com mais de 1.600 produções (canto, piano, banda, coral, conjuntos de câmara, sacras e orquestrais). suas, dentre outros: Projeto Uirapuru – O Canto da Amazônia; Encontro com Maestro Isoca; e Sinfonia Amazônica (Orquestra Jovem Maestro Wilson Fonseca, dirigida por seu filho Agostinho Neto, 2 volumes). Compus inúmeros arranjos e elaborei alguns textos poéticos para músicas de autoria de meu pai. Ele também escreveu arranjos e transcrições para obras musicais de minha lavra. Somos parceiros desde os memoráveis recitais quando tocamos peças para Piano a 4 mãos, na década de 50 do século XX. “Alheio a modismos ou escolas, tenho dito que Wilson Fonseca (Isoca) jamais se afastou das autênticas raízes nacionais, daí porque a sua música, impregnada de sadio regionalismo, guarda a essência e as características da alma brasileira e, ao mesmo tem-

Boa parte da profícua produção musical de Wilson Fonseca – o “Barroco do século XX”, conforme Vicente Salles – permanece inédita, aguardando pela descoberta dos estudiosos e da grande mídia nacional. po, possui uma dimensão universal, mesmo quando aborda as manifestações folclóricas, a cadência sincopada

do maxixe ou o ritmo inconfundível do choro. Nela se observa uma nítida identificação com a herança transmitida por seus grandes mestres (Bach, Ernesto Nazareth e José Agostinho da Fonseca). Do primeiro, extraiu a estrutura fundamental, aperfeiçoada pela singular formação epistolar, com a proveitosa troca de correspondências com mestres da escola germânica (Frei Pedro Sinzig, Frei Alberto Kruse, o Tomás Samaí, e Dr. Heinrich Lemacher), o que lhe valeu um convite para estagiar na Alemanha, que não pôde atender. Do segundo, retirou a experiência da cultura de nosso povo, nas manifestações folclóricas, na cadência sincopada do maxixe ou no ritmo inconfundível do choro. E do terceiro, recebeu o tempero necessário do sabor santareno, elemento telúrico e determinante em todas as formas que se expressou na arte dos sons” (“Tributo ao Maestro Wilson Fonseca”, artigo que escrevi: Revista Brasiliana nº 11, Academia Brasileira de Música, Rio de Janeiro, maio/2002). O ano de 2012 foi repleto de homenagens ao centenário de nascimento do compositor e escritor Wilson Fonseca, desde a escolha de seu nome como patrono da XVI Feira Pan-Amazônica do Livro, realizada pelo Governo do Estado do Pará, até o lançamento de meu livro com o tema de sua vida e obra, lançado em Santarém, em 17 de novembro, justamente na data de seu natalício, no Centro Recreativo, e depois em Belém, no Tribunal Regional do Trabalho, durante a cerimônia de minha posse no Instituto Histórico e Geográfico do Pará, em 14 de dezembro, quando fui saudado pelo advogado e parceiro musical Célio Simões, autor da letra do hino do IHGP, com música de minha autoria. Em meus discursos de posse no Instituto e na Academia Nacional de Direito do Trabalho (para a qual também compus um hino), prestei homenagem ao maestro centenário. Por coincidência, no IHGP ocupo a Cadeira patrocinada por Domingos Rayol (Barão de Guajará), que é patrono da Cadeira que foi ocupada por meu pai na Academia Paraense


Alguns CDs gravados pelo maestro Wilson Fonseca, com arranjos e composições classicas

Capa do CD - Encontro com Maestro Isoca - O disco de Wilson Fonseca que traz arranjos e composições clássicas da música paraense.

Encontro com Maestro Isoca - O disco de Wilson Fonseca que traz arranjos e composições clássicas da música paraense.

Projeto Uirapuru - O Canto da Amazônia por Wilson Fonseca.

Orquestra Sustenidos e Bemóis (1916) - Wilson Fonseca é o menino no centro com seu pai

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música BRASILEIRA

Foto: Bruno pellerin

VICENTE JOSÉ MALHEIROS DA FONSECA, filho do Maestro ISOCA, herdou do pai o ofiício da arte: pianista, compositor, poeta e escritor

Nasceu em Santarém-PA (1948). Filho do compositor Wilson Fonseca (Maestro Isoca) e Rosilda Malheiros da Fonseca. Neto do músico José Agostinho da Fonseca. Magistrado trabalhista de carreira há 40 anos (Desembargador Federal do Trabalho). Decano e ex-Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, sediado em Belém (PA). Foi Coordenador do Colégio de Presidentes e Corregedores dos Tribunais Regionais do Trabalho do Brasil, por dois mandatos. Agraciado com medalhas, comendas, honrarias e premiações. Participou de vários Congressos Jurídicos, inclusive na condição de conferencista, no Brasil e no exterior. Idealizou a criação do “Fundo de Garantia das Execuções Trabalhistas”, tese que defende há mais de 30 anos, incorporado ao art. 3º da Emenda Constitucional nº 45/2004 (Reforma do

de Letras. Em junho, os extraordinários concertos da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, em Belém e em Santarém, sob a regência de José Agostinho da Fonseca Júnior, neto de Isoca, com a participação do Coro Carlos Gomes, promovidos pelo Governo do Estado do Pará, com peças do compositor tapajônico, gravado para registro em CD, em comemoração ao seu centenário de nascimento. Alguns arran-

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Poder Judiciário), pendente de regulamentação legal. Membro de diversas entidades jurídicas e culturais, tais como Academia de Letras e Artes de Santarém; Academia Paraense de Música; Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós; Academia Nacional de Direito do Trabalho; e Instituto Histórico e Geográfico do Pará, para os quais compôs os respectivos hinos. Pianista, compositor, poeta, escritor e professor universitário. O catálogo de sua obra musical registra mais de 1.000 composições, em diversos gêneros: canto, piano, violão, coral, hinos (mais de 50), conjuntos camerísticos e peças orquestrais etc. Compôs 18 canções dedicadas a cantoras líricas e a série de “Valsas Santarenas” (atualmente, 95). O “Hino da Justiça do Trabalho” (1998), de sua autoria, foi oficializado, em âmbito nacional, pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho (2012), e gravado no CD “Sinfonia Amazônica” (2002, vol. 2), pela Orquestra e Coral Jovem “Maestro Wilson Fonseca”, de Santarém (PA), sob a regência do maestro José Agostinho da Fonseca Neto, seu irmão. Além de numerosos artigos na área jurídica e cultural, é autor dos livros "Reforma da Execução Trabalhista e Outros Estudos" e "Em Defesa da Justiça do Trabalho e Outros Estudos", Editora LTr, São Paulo. Escreveu ainda o livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, Editora do Banco do Brasil, lançado em Santarém (PA) e em Belém (PA), em 2012, em homenagem ao centenário de nascimento de seu genitor.

jos orquestrais para os concertos da OSTP, em Belém e Santarém, foram escritos por três gerações da família Fonseca: Wilson Fonseca Vicente Malheiros da Fonseca, filho do compositor, e José Agostinho da Fonseca Júnior, neto do compositor. Em setembro, a outorga da Comenda da Ordem do Mérito Jus et Labor, in memoriam, conferida pelo TRT-8ª Região. Em novembro, a edição da Lei Municipal nº 19.132/2012, que

denomina Rua Wilson Fonseca, em Santarém. Vale registrar a homenagem musical prestada pelos filhos: Valsa ao Centenário de Wilson Fonseca (Conceição Fonseca), Quarteto 2012, Trio 2012 e Dobrado Maestro Isoca (Vicente Fonseca). Enfim, inúmeros eventos em Santarém, sob o eficiente comando de José Agostinho da Fonseca Neto. O livro sobre “A Vida e Obra de Wil-


Euterpe-Jazz Banda de jazz que tinha Wilson fonseca ao piano, em 1952. Nascido e criado no interior da Amazônia, a obra musical do compositor santareno revela influências do meio em que viveu, mas se projeta para muito além.

son Fonseca (Maestro Isoca)” constitui uma autêntica missão de vida. Uma homenagem filial. A realização de um sonho, de um ideal. Fruto de um sábio e precioso conselho de meu tio Wilmar, autor da letra da bela Canção de Minha Saudade (1949), que tem música de Isoca, na época em que morei em São Paulo, a fim de estudar no Conservatório Musical José Maurício, na década de 60 do século XX. Eis o conse-

lho: “Vicente, o teu pai é um gênio! E tu precisas divulgar melhor sua obra musical”. Foi ali, à distância, que aprendi a apreciar, ainda mais, a figura de meu pai, como homem e como artista. Desde então, ainda muito jovem, adotei esse conselho como missão de vida. A obra é a síntese das pesquisas que venho realizando há muitos anos a respeito de meu pai, análise de suas composições musicais, discografia,

bibliografia, influências, suas parcerias, inclusive com os filhos, fotos etc. Foi impresso na Editora do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. O livro ainda será lançado na XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, promovida pelo Governo do Estado do Pará, em 1º de maio de 2013, no Hangar Convenções & Feiras da Amazônia, na Sessão de Autógrafo (Ponto do Autor), em Belém (PA). Boa parte da profícua produção muwww.revistapzz.com.br 31


música BRASILEIRA sical de Wilson Fonseca – o “Barroco do século XX”, conforme Vicente Salles – permanece inédita e aguarda ainda pela descoberta dos estudiosos e da grande mídia nacional.

Wilson Fonseca (Maestro Isoca) é o uirapuru-mor da Pérola do Tapajós, onde fica a paradisíaca praia de Alter do Chão, fonte de inspiração do escritor, músico e poeta, um dos mais importantes compositores da Amazônia. Nascido e criado no interior da Amazônia, a obra musical do compositor santareno revela influências do meio em que viveu, mas se projeta para muito além. Embora Wilson Fonseca, “o alimentador da vida cultural de Santarém”, conforme o Prefácio de Lenora Menezes de Brito, seja mais conhecido pelo Hino de Santarém, Canção de Minha Saudade, Terra Querida, Lenda do Boto e Um Poema de Amor, tenho

A vida e a obra de Wilson Fonseca justificam mais do que um livro, um filme ou um documentário. É um belo exemplo de dignidade, fé, esperança e amor. O livro, um sonho que se realiza. Mais uma forma de gratidão pelo tanto que o Maestro Isoca nos proporciona com seus exemplos de vida e de arte. Um homem simples e sábio. Um gênio! a convicção de que existe um “outro” Isoca, menos conhecido do grande público, autor de peças de câmara e orquestrais, inclusive as suas maravilhosas músicas sacras, a meu ver a 32 www.revistapzz.com.br

Sua obra musical, do popular ao erudito, contém 20 volumes (4 publicados), com mais de 1.600 produções (canto, piano, banda, coral, conjuntos de câmara, sacras e orquestrais). A valsa Beatrice é a sua primeira composição (1931), criada para sonorizar uma cena do filme O Beijo (com Greta Garbo), na época do cinema mudo, cuja sincronia era feita por Isoca, em sua terra natal.

quintessência de sua produção musical, onde ele alcançou o ápice em sua carreira como compositor talentoso. O livro – a primeira biografia do Maestro Isoca, segundo assinala Gilberto Chaves, na Breve Introdução – permite que se conheça um pouco mais sobre a vida e a obra do autor de belas canções, hinos, dobrados e do livro “Meu Baú Mocorongo” edi-

tado no mesmo ano da Lei Federal nº 11.338/2006, que denominou o Aeroporto de Santarém – “Maestro Wilson Fonseca”. Destaque ainda merecem a Lei Estadual nº 7.337/2009, que declara integrante do patrimônio cultural do Estado do Pará a sua obra musical e literária; e a Lei Municipal nº 19.132/2012, que denomina Rua Wil-


Foto: PAULA SAMPAIO

Vicente José Malheiros da Fonseca restabelece a conexão com seu pai, Maestro Isoca, grande Cânone da música paraense

son Fonseca, em Santarém. No Rio de Janeiro existe também a “Rua Wilson Fonseca” (Decreto nº 27.126/2006). A vida e a obra de Wilson Fonseca justificam mais do que um livro, um filme ou um documentário. É um belo exemplo de dignidade, fé, esperança e amor. O livro, um sonho que se realiza. Mais uma forma de gratidão pelo tanto que o Maestro Isoca

nos proporciona com seus exemplos de vida e de arte. Um homem simples e sábio. Um gênio! Wilson Fonseca (Maestro Isoca) é o uirapuru-mor da Pérola do Tapajós, onde fica a paradisíaca praia de Alter do Chão, fonte de inspiração do escritor, músico e poeta, um dos mais importantes compositores da Amazônia. www.revistapzz.com.br 33


teatro paraense

Cláudio Barros

solo marajó “ ” As oito histórias narradas em “Solo Marajó” são trechos do livro “Marajó” de Dalcídio Jurandir e fazem um retrato da paisagem marajoara, revelando um retrato multifacetado das relações humanas de quem vive mergulhado nos confins da Amazônia. Carlos Pará

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m sua nova versão, o espetáculo teatral, o monólogo “Solo de Marajó” encenado pelo ator paraense Cláudio Barros, com direção de Alberto Silva Neto, narra oito pequenas histórias extraídas do romance “Marajó”, o segundo da saga amazônica “Ciclo do Extremo Norte” dos dez romances publicados pelo escritor paraense Dalcídio Jurandir (1909-1979) originalmente entre os anos de 1941 à 1978, um ambicioso projeto de dar voz aos habitantes da Amazônia, sobretudo aos mais humildes. O historiador Vicente Salles, considerava que é impossível conhecer a história social da Amazônia sem ler a obra do escritor que nasceu em Ponta de Pedras na Ilha do Marajó em 1909. Segundo Benedito Nunes, é ele que inaugura a literatura urbana na Amazônia, e o faz com grande valor artístico, superando o exotismo que vitima a literatura regional elevando o drama do homem amazônico à dimensão universal que ele merece. Mas é na opinião de Bruno de Menezes que identificamos uma relação primordial com a peça em questão: “Marajó, de fato, é desconcertante no seu bárbaro ficcionismo, porque a realidade condensada em seus capítulos está emoldurada pelo estilo nevrosado, esboçando a vida de certas figuras femininas deambulantes em suas páginas (...). Qualquer escritor que hoje se volte para os temas de miséria e desajustamentos coletivos, é envolvido pela assimilação de suas ideias como ambiente, e, quando não é traído nos seus

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pontos de vista, nos dá livros torturados, com teses discutíveis ou antiproselitas. Dalcídio Jurandir, porém, continua a se afirmar o romancista que recompõe esse mundo marajoara, para mostrar aos sociólogos, na sua bruteza e no seu pauperismo, homens, mulheres e crianças, nem mesmo irmanados aos animais, aos bichos ferozes, porque a sua condição é tão ínfima que aqueles valem mais do que estes”. Em “Solo de Marajó” temas como a infância; paixão, sensualidade, incesto; gravidez e morte; o tráfico humano; a violência contra a mulher; o infortúnio; o adultério são encenados pelo ator Claudio Barros entre onomatopeias, diálogos, sussurros, gritos e silêncio, o ator interpreta diversos personagens divididos em oito cenas desde o prólogo com A Lua de Guita; seguindo por: Alaíde nos Cajueiros; Tenório; O Barqueiro e a Menina Rita; Orminda; Felismina e as Redes de Lágrimas; Rita Violada; e o epílogo, com a cena de Alaíde e o Orminda: O Fim. Os atos fazem um retrato da paisagem da Ilha do Marajó em meados do século XX, revelando um retrato multifacetado das relações humanas de quem vive mergulhado nos confins da Amazônia. Cláudio Barros, vivencia experiências e histórias de vida como se realmente fosse os personagens da obra. O ator incorpora a essência da narrativa e da expressão interior de cada um. O grande desafio foi fazer isso tudo convergir


Foto: JM CONDURÚ

O ator e diretor de Cláudio Barros com 35 anos de teatro, é um dos principais atores paraenses na arte de interpretar e na produção de audiovisuais de renome nacional. Além de ter sido parte da história paraense pela sua participação no tradicional Grupo Cuíra, agora brilha novamente através da peça Solo Marajó e no seu trabalho na execução do cinema. A eterna paixão pela arte de interpretar e dos bastidores de peças de teatro e cinema fizeram de Cláudio Barros um profissional de destaque na área.

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teatro paraense numa encenação só. Com sua voz grave e sua plasticidade corporal, Barros transita entre as sonoridades masculinas e femininas, infantis e outras sussurrantes, para contar a existência dos habitantes (personagens) do Extremo Norte. “E que, não fora a força descritiva, a orquestração vocabular, a identificação de paisagem com a existência dos vaqueiros, dos pescadores, dos canoeiros, das autoridades-caciques, das raparigas de todo homem, heróicas nos seus infortúnios, na sua humildade asiática, no seu desprezo de si mesmas, com que Dalcídio adornou, poeticamente dramático esse caos arrepiante, então teríamos rubros cenários de revolta, com seres irracionalizados clamando por uma redenção tardia que os liberte, que lhes traga auspícios de vagas promessas de reivindicações oportunas, nessa Marajó grandiosa somente nas cartas geográficas. Quem é que poderá acusar a um es-

Cláudio Barros, vivencia experiências e histórias de vida como se realmente fosse os personagens da obra. critor de apreciar roteiros ideológicos, quando o material de que se serve é a lama, fome , injustiças, ignorância, doenças, superstições, baixa religião, rios mefíticos, onde os peixes morrem aos montes e os homens famintos são proibidos de pescar? Em que nas fazendas, latifúndios recebidos de escrituras suspeitas. Os empregados são expulsos pelos feitores ensoberbados, seguindo a rotina disciplinar de seus patrões? Um meio no qual o amor perde o mínimo sentimento de dignidade, para se tornar um instrumento de egoísmo, de satisfação carnal, sem ao menos a reciprodutividade biológica, como fazem os touros e as vacas, os cavalos e as bestas, que pastam em ruidosas manadas, nos campos sem fim? (...)” Uma noite, Missunga levou Alaíde para o igarapé. As folhas pingavam luar como sereno. A maré vinha va36 www.revistapzz.com.br


Foto: JM CONDURÚ

garosa do rio, parecia escorrer da lua cheia. Trouxera Alaíde, como uma filha das águas brancas, os cabelos de prata, o corpo de peixe, o cheiro de aninga. Alaíde não pode evitar que Missunga a despisse como se descascasse uma fruta. Tentou escapulir-se dos braços dele, as águas caiam da lua branca, era a terra, o homem e só a noite, com escuro e peludo mistério, era o que Alaíde cobria com as mãos. Não, Missunga. Pára. Sou sua irmãgaua. Não. Sou sua irmãgaua. Para, Missunga. Não. Seu pai é meu padrinho. Pára. Sou sua irmã... Eu sou sua irmã... Missunga, ao voltar naquela noite para a casa grande de Paricatuba, ficou subitamente dominado pela dúvida: Minha irmã? Sob a capa de padrinho, meu pai esconde filhos e filhos, todo mundo sabe... Cheguei tão perto... Se não fosse Alaíde... Eu teria conseguido evitar?... Teria?...Minha irmã... (...) Que vida romanesca a de Alaíde, a de Guita, a de Orminda, esta entorpecedora como um tóxico, dando-se nos baileus das geleiras, nos balseados de canaranas floridas, no chão das beiradas, nas gramas dos campos luarescidos, nas palhoças cai-nao-cai, até na torre de igreja, onde as linhas de seu corpo modelado ficam desenhadas nas tabuas poeirentas. Que vida a das criaturas perdidas, amadas de Missunga, umas lhe enlutando a alma de tédio e de renúncia, outras procuradas aflitamente para as fugas de seus recalques. Que vida regalada, como a das cobras sonolentas, a de seu Nelson, a do tio Guilherme. Que viver-morrendo o das crianças opiladas, comidas de vícios, nascidas dos impulsos do sexo, da embriaguez, das atuações nas pajelanças das noites de farra e pescarias do Arari, nas orlas do Pacoval, nos caminhos das derrubadas entre estalos de ramos secos, gemidos de quem esta morrendo, pavores de visagens noturnas. Há livros de autores celebrados que nos empolgam pelo que a sua estrutura nos denuncia como tragédia humana ligada a terra, as águas, a selva, a exploração do subsolo, enfim, obras em que o processo construtivo e universalista, re-

fletindo problemas virtualmente nossos, isto é, amazônicos. Em Marajó, sem visar demagogias reacionárias, antes, inversamente, dando a alma e o vigor necessários a um singular poema em ágil, rica e viril prosa incomum, tamanha é a sua justaposição da paisagem com os temas e imagens de um “surrealismo” impressionante, Dalcídio Jurandir nada insinua relativamente aos programas dos líderes nem das massas esfaimadas, porque é apenas o interprete do que de real existe, com evidência clamorosa sob um céu cristão, cobrindo o primitivismo e a servidão. O caso literário da Amazônia é puramente local e humano. Daí, só um Iivro

Apesar das narrativas de forte cunho social e político, “Solo de Marajó” é um espetáculo simples, no qual cenografia, figurino e iluminação são neutros e buscam ressaltar a presença do ator, o elemento mais importante desta encenação. em tintas fortes, como é Marajó, resistir aos pronunciamentos da crítica, no aglomerado de seus personagens, nos seus fenômenos sociais, que ali se transformam em opulento instrumento de símbolos, que as novas gerações desta gleba orfanada saberão interpretar um dia. MENEZES, Bruno de. Marajó é o nosso romance “O Estado do Pará, Belem. 11 abr. 1948. No palco se apresentam vidas secas, morte vidas severinas, pessoas comuns vivendo o seu dia-a-dia em tramas e dramas existenciais. A peça cria um universo ficcional que, paralelamente à história dos personagens, narra também, se não prioritariamente, “as aventuras de uma experiência interior”, como bem notou Benedito Nunes. O que não deixa de ser curioso, porque, para um autor que pertenceu aos quadros do Partido Comunista www.revistapzz.com.br 37


teatro paraense Brasileiro, que se dispôs a escrever um romance, Linha do Parque, nos moldes do Realismo Socialista, (embora não tenha tido pleno êxito, conforme os dirigentes do referido partido), era de se esperar a absoluta predominância do documental, da linguagem referencial sobre a poética. Não foi o que ocorreu, felizmente, deixando evidenciado o equilíbrio entre os dois eixos. O romance Marajó é uma crítica social de alto teor onde comunidades assentadas sobre as diferenças sociais, são determinadas pela estrutura latifundiária. Dos grupos de personagens que protagonizam a narrativa: O Coronel, seu filho, os mandatários da terra com seus capangas e seus comparsas, mulheres pobres e, aquelas padecentes

O romance Marajó é uma crítica social de alto teor onde comunidades assentadas sobre as diferenças sociais, são determinadas pela estrutura latifundiária. das crueldades geradas por uma ordem autoritária e machista, como expressa a situação de Alaíde, Orminda, Guita, Felismina, Rita e a menina levada pelo barqueiro em Solo Marajó. As águas do rio feito mar na ventania da tarde. No trapiche, o barqueiro viu aquela família parada: o pai, a mãe e a menina Rita sem ter para onde ir. O homem era vaqueiro e foi mandado embora da fazenda de Coronel Coutinho. O barqueiro se aproximou e disse: - Vocês me dão a menina que eu levo ela pra Belém. Conheço quem precisa de uma menina assim. Pai e mãe se olharam - Que tu diz, mulher? A menina olhou de lado, esfregando as mãos, se encolheu na saia da mãe. A mãe, com a cabeça baixa, sem responder, cuspindo a masca de tabaco, limpou a boca com a 38 www.revistapzz.com.br


Foto: JM CONDURÚ

ponta da saia e olhou a menina. Lembrara-se do parto. A criança se mexia na esteira. A mãe notara-lhe o choro estranho e viu que a menina se esvaia em sangue. A parteira não apertara bem o nó do umbigo de Ritinha. Quanto sangue perdeu... - Taí a menina. Por mim... Então, o pai disse ao canoeiro: - Pode levar... O nome dela é Rita. Ritinha olhou o pai, a mãe, o beiço tre meu, começou a chorar. Passou a mão no rosto sujo e se agarrou na saia da mãe. - Não quero ir. Mamãe me pegue. - Não! - Não! - Vai, diabo. Que então tu fica fazendo aqui? A narrativa do romance, a oralidade dos personagens é um entrelaçamento com a literatura popular. Com a apresentação desta peça, podemos enxergar de outra forma o enredo e a narrativa da obra e nos ajuda a desvendar o universo romanesco de Dalcídio Jurandir. Algumas técnicas como o entrecruzamento de vozes narrativas na peça, foram acentuadas e a linguagem sofreu influência dos experimentos efetivados nos 04 anos de apresentações. As técnicas de criação teatral envolvidos na criação, concepção e apresentação do Solo Marajó chama a atenção não só pelo enfoque das mazelas dos personagens, mas sobremaneira pelo modo como informa essas mazelas. Cláudio, usando apenas os recursos de corpo e voz sobre o palco vazio, sem efeitos especiais, cria em cena um universo poético para expressar o drama do homem amazônico, refletido de forma tão profunda na extensa obra do autor. O primeiro passo do trabalho constituiu-se na leitura e discussão do romance, relacionando as informações contidas nessa obra com as experiências de vida dos participantes do grupo. As cerca de 450 páginas de Marajó foram condensadas num roteiro de leitura dramática que foi de 5 à 8 atos, visando contribuir para uma maior divulgação da obra e exercício teatral. Fez-se questão, contudo, sempre que possível, de preservar o texto original de Dalcídio Jurandir, como se pode verificar na grande maioria das falas

dos personagens e do narrador. Quando a orquestra parou, Orminda caiu no banco como se o seu cavalheiro a houvesse empurrado. Benedito, então, a passos lentos, voltou para o mato. Tomou um gole de cachaça. Meteu a garrafa no bolso. A flauta soprou o samba. Deteve-se ao ver um dos cearenses avançar com o braço estendido para Orminda. Ela talvez lhe dissesse que já tinha par. O homem insistia, a mão estendida. Benedito receou. Orminda era sempre Orminda e se recusou a dançar daquela vez. Permaneceu imóvel no banco e em frente à mão já desafiadora do cearense. Benedito tropeçou, caiu, limpando-se afobadamente para alcançar sua dama. Num instante, ouviu-se o grito: - Pois vai apanhar, ouviu? Sua vagabunda! Orminda quis se baixar e correr. A bofetada derrubou-a sobre o banco. Ergueu-se com raiva, mordeu o braço do agressor, cuspiu-lhe na cara. O homem puxou a faca e a manejou. Orminda deu um grito com o rosto a sangrar. Confusos, os homens acudiram. Um deles, o mais afoito, surgiu num salto, mas tombou com um só golpe. Desta vez, o cearense acertou. Rompendo o tumulto com a faca pingando sangue, o assassino ganhou o terreiro sob o clamor das mulheres. Benedito, já voltando da cozinha com um terçado, atravessou o corredor, pulou o parapeito e saltou sobre o nordestino que mantinha os homens a distância. Benedito brandiu o terçado com tanta rapidez que desorientou o inimigo e o abateu. Ao estudar a obra romanesca de Dalcídio Jurandir, a equipe incidiu o foco nos personagens e no universo em que transitam, justamente para não perder de vista o olhar social do autor e para poder justificar a complexidade e excelência de sua literatura, para com isso também tentar tirar esse escritor do limbo e delinear novas páginas para a História da Literatura Brasileira e principalmente, da Literatura Universal. A obra de Dalcídio Jurandir quebra com uma tradição literária sobre a Amazônia, marcada pela grandiloqüência de imagens, na tentativa de www.revistapzz.com.br 39


teatro paraense revelar uma Natureza opulenta, majestosa, maravilhosa, mágica, não que não seja. Porém, o autor traça um painel da Amazônia pós auge do ciclo da borracha e nos mostra a decadência da classe econômica e as relações entre a capital e o interior do Estado. Marli Furtado em seu livro “Universo Derruído e Corrosão do herói em Dalcídio Jurandir” aponta que “É visível o trabalho de Dalcídio Jurandir em aprimorar as técnicas narrativas de romance em romance, no sentido de produzir uma obra sempre inovadora, que já começa, em Trinta, distanciada do naturalismo de grande parte da produção da década, e termina próxima das boas obras dos anos setenta, apresentando o esfacelamento como

Marli Furtado em seu livro “Universo Derruído e Corrosão do herói em Dalcídio Jurandir” aponta que “É visível o trabalho de Dalcídio Jurandir em aprimorar as técnicas narrativas de romance em romance, no sentido de produzir uma obra sempre inovadora. um de seus traços de composição. É visível o trabalho de Dalcídio Jurandir em aprimorar as técnicas narrativas de romance em romance, no sentido de produzir uma obra sempre inovadora. Sob a mesma perspectiva, é notória a atuação e o trabalho da peça “Solo Marajó” em aprimorar as técnicas narrativas de apresentação em apresentação, no sentido de reproduzir um texto histórico em arte contemporânea, representando personagens e o ambiente em que atuam. A experiência da direção da peça, a dramaturgia e o ator debruçaram-se meses durante a pesquisa do romance e a observação das apresentações. A cada ano foram realizadas transformações para adaptar texto e linguagem, expressão e representação no palco. O diretor da peça nos fala que “A convite do ator Cláudio Barros que me convidou para dirigir o espetáculo. É uma grande honra partir de uma obra dele, mas também não podemos incorrer no erro de idolatrá-lo a ponto de almejar 40 www.revistapzz.com.br

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apenas transpor sua obra para à cena (até porque isso é impossível, em tese). Devemos, isso sim, confrontá-lo com nosso discurso pessoal e coletivo, e ver o que nasce desse conflito”. Apesar das narrativas de forte cunho social e político, “Solo de Marajó” é um espetáculo simples, no qual cenografia, figurino e iluminação são neutros e buscam ressaltar a presença da narrativa da obra e da expressão do ator, o elemento mais importante desta encenação, percebendo os personagens, construindo a partir da densidade de cada história e da capacidade do espetáculo de construir imagens ao espectador a partir de um repertório de ações físicas que resultaram do ato de contar histórias pessoais e também gerar ações e sonoridades induzidas por descrições de lugares, sons e cheiros contidas na obra. O resultado é uma bela partitura gestual e vocal que traduz de forma sensível a vida do povo nativo que habita os confins da Amazônia. Missunga riu e perguntou pelos filhos de Negra Felismina... Eram tantos... Um andava por aí, inchado, flechado de bicho do fundo. Só prestava pra ladrão. Outro era barqueiro na contra-costa. Nunca aparecia. Vivia no contrabando. As filhas... As duas prostitutas... Uma morreu num aborto... A outra era Orminda, que se meteu naquela briga e ganhou um talho na cara... Tinha também Francisco... Uma morte tão sofrida... Negra Felismina bem que pediu pra Francisco não ir pro quartel... Ouve tua mãe, meu filho. Ouve. Dudicia tua. Quero servir a Pátria, mamãe. O que é que eu fico fazendo aqui? Ser eleitor do Coronel Coutinho? Apanhar açaí toda a vida? Já criei calo de tanto trepar em açaizeiro, mamãe. É só desgosto, só miséria. É, Missunga, meu filho tanto queria ir pro tal do quartel que morreu servindo a Pátria e os políticos lá, como bem querem. Meu filho com a barriga aberta na rua como um disgraçado qualquer e os mandões se abraçando. Me contaro que ele pedia água, água, quando morria. Nem água não quisero dar pro pobre do meu filho. Negra Felismina se calou. Que nem

quando fiava no seu cansado tear. Fazendeiros e doutores lhe mandavam fio. As redes que ela fazia saiam grandes, bonitas. Mas depois da morte de Francisco, eram fadadas. Feitas também com os fios de suas lágrimas, numa revolta contra os brancos. Com esse ódio, tecia as redes para branco ter amor, ter sossego. Missunga ficou na porta da igreja, vendo sua velha ama de leite partir... Que Nossa Senhora da Conceição lhe acompanhe, mea mãe... A forma teatral é um meio muito apropriado para aperfeiçoar a nossa capacidade de percepção da realidade amazônica e os recursos de expressá-la, além de despertar o interesse para a obra desse grande escritor da Amazônia que é Dalcídio Jurandir. É isso que o grupo quer compartilhar com o público, além da poética, semiótica e da estética de sua Obra. Através do estudo e da representação do romance Marajó, em forma de monólogo, em diversas apresentações públicas seguida de debate, procurou-se desenvolver o conhecimento da realidade cotidiana e da cultura dos habitantes do Marajó, com atenção especial para aqueles que sucumbem pela tragédia social. O espetáculo estreou em Belém em 2009, como programação especial da Feira Panamazônica do Livro. Depois, a montagem fez temporadas de sucesso em diversos teatros e espaços culturais da capital paraense e de outros Estados, como São Paulo e Rio. “Solo de Marajó” como não poderia deixar de ser, foi apresentado nas cidades de Muaná, Soure, Salvaterra, Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras no arquipélago do Marajó. A montagem tem direção de Alberto Silva Neto, dramaturgia de Alberto Silva Neto, Claudio Barros e Carlos Correia Santos, assistência de direção de Papi Nunes, iluminação de Tarik Coelho e produção executiva de Sandra Condurú. Carlos Pará é jornalista, editor da Revista PZZ e pesquisador da arte, cultura e comunicação amazônica.

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CINEMA PARAENSE

LIRÍSMO ÓLICO. DIAB CINEMA PARAENSE EM CANNES

O Filme do diretor Roger Elarrat eleva a qualidade da produção da nova fase do cinema paraense conquistando seu lugar no cenário nacional e internacional. Jessica Mota

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que você faria se descobrisse que o diabo roubou sua alma? O curta-metragem paraense “Juliana Contra O Jambeiro Do Diabo Pelo Coração De João Batista” sob direção de Roger Elarrat, narra uma desesperada corrida contra o tempo na vida de um homem sem alma, que tem seus dias contados na mão do demônio. A cada dia mais doente, João acredita que está à beira da morte porque o diabo roubou sua alma em uma brincadeira de moleque na infância. Ele não consegue dormir e nem comer direito. Um homem frio, incapaz de demonstrar seus sentimentos alimentados pela única pessoa que o apoia, a fotógrafa Juliana.

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PRIMEIRA VEZ Depois de mais de 20 testes e horas e horas assitindo às gravações das outras canditatas, a escolha de Geisa Barra, pela equipe de produção do filme, foi unânime. Publicitária e jornalista, ela estreia com os dois pés nas telonas do Festival de Cannes.

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CINEMA PARAENSE

Em meio ao delírio e realidade, decididos a voltar onde tudo aconteceu, o casal parte para São Caetano de Odivelas, em uma jornada baseada em expectativas diferentes: Juliana acredita que essa é a única chance se reconciliar com o companheiro, enquanto João espera finalmente confrontar o diabo que o aguarda à espreita escondido para o acerto de contas. Desde muito cedo Roger Elarrat, se interessou pela arte em suas mais belas e variadas formas. Começou quando criança com o desenho e teatro, passando pela fotografia, produção de quadrinhos e rádio novelas. Mas o audiovisual ainda era apenas mais um dos seus interesses. Na graduação em jornalismo, Roger começou a perceber seu talento para direção cinematográfica, produzindo muitos documentários, animações, vídeos experimentais e junto com os amigos, ganhou vários prêmios em Festivais de Audiovisual Nacionais e Universitários. Os sets de filmagem foram sua grande 44 www.revistapzz.com.br

A paixão pelo enredo, misturado com o comprometimento de cada profissional envolvido foram ingredientes essenciais para fortalecer as raízes do jambeiro e dar um up no nível de produção cinematográfica local, pois ficou clara a necessidade de elevar a qualidade para poder acompanhar essa nova fase do cinema paraense conquistando seu lugar no cenário nacional e internacional. escola. Trabalhou por 10 anos como editor e por 5 anos como assistente de direção em vários filmes paraenses. Sempre muito observador Roger vivia o processo por inteiro, analisando as relações

Em meio ao delírio e realidade, decididos a voltar onde tudo aconteceu, o casal parte para São Caetano de Odivelas, em uma jornada baseada em expectativas diferentes. profissionais, as técnicas e cada detalhe de produção. O ponto de partida decisivo na sua história foi o curta produzido ao final de uma oficina no IAP (Instituto de Artes do Pará), em 2002: “Quando pisei pela primeira vez em um set de cinema de verdade, fiquei 5 horas em pé observando tudo, naquele momento tive certeza, esse era o meu lugar”, disse Roger Elarrat A partir daí, Roger mergulhou de cabeça no cinema, sempre tentando fazer de cada projeto um desafio maior que o anterior. Aos 25 anos começou a executar seus projetos maiores através de financiamentos e editais, ele assina a direção de “Vernissage” (2006), um vídeo experimental; “Visagem” (2006), uma animação em stop motion baseada no livro de Walcyr Monteiro - “Visagens e


Em 2008, Adriano Barroso trouxe mais algumas ideias à narrativa amarrando tudo ao carnaval do boi de máscaras.

Assombrações de Belém”; o documentário “Chupa-Chupa: a história que veio do céu” (2007) sobre os fenômenos luminosos que assombraram o município de Colares, nos anos 70; e a minissérie televisiva “Miguel Miguel” (2010), baseada na obra do escritor paraense Haroldo Maranhão. Em 2012, através do Ministério da Cultura e co-patrocínio do Banco da Amazônia, “Juliana Contra O Jambeiro Do Diabo Pelo Coração De João Batista” foi produzido por uma equipe de alto nível escolhida a dedo, sob a luz de um roteiro refinado, escrito em parceria com o ator, jornalista e diretor Adriano Barroso. A paixão pelo enredo, misturado com o comprometimento de cada profissional envolvido foram ingredientes essenciais para fortalecer as raízes do jambeiro

Quem conhece o trabalho de Roger Elarrat sabe, ele adora desafios. Seus filmes são distintos entre si na linguagem e escolhas estéticas, mas o mistério, cerne de seus trabalhos, está sempre presente acompanhado de temas com forte teor sobrenatural de lendas regionais; o oculto e o resgate cultural do contexto popular e tradicional paraense já se tornaram marcas na sua filmografia e dar um up no nível de produção cinematográfica local, pois ficou clara a necessidade de elevar a qualidade para

poder acompanhar essa nova fase do cinema paraense conquistando seu lugar no cenário nacional e internacional. Roger tinha a ideia de fazer um filme sobre um personagem sem alma desde 2005, inspirado por “Coração satânico” de Alan Parker, com Mickey Rourke e Robert de Niro, e um episódio dos Simpsons que o Bart vende a alma ao Milhouse por 5 dólares. E a partir dessas referências desenvolveu um roteiro para o curta, associando o jambo e o jambeiro à namorada Juliana. E em 2008, Adriano Barroso trouxe mais algumas ideias à narrativa amarrando tudo ao carnaval do boi de máscaras. “O objetivo era fazer um filme que não tivesse efeito especial e ficasse mais focado na personalidade dele (João Batista) e a forma como um cara sem alma vê o mundo”, conta Elarrat, que trabalhou por mais um ano no roteiro até o projeto ser selecionado no edital do MINC em 2009. Projeto aprovado, equipe pronta, mas a escolha para os personagens principais não foi nada www.revistapzz.com.br 45


CINEMA PARAENSE

fácil, depois de muito sofrimento para achar a pessoa certa para o papel de João Batista, encontraram o ator Leoci Medeiros, experiente no teatro, fisicamente perfeito para o papel, mas estreante no cinema, seu grande desafio foi diluir a linguagem teatral. Confiante com a escolha, Roger assumiu a preparação do ator para o cinema; enquanto isso continuava a busca por Juliana, uma jovem decidida, sem papas na língua, curiosa e cética. Após mais de 20 testes, a equipe se reuniu para assistir as filmagens das cenas de todas as candidatas e a decisão foi unânime, Geisa Barra, publicitária, jornalista e também estreante no cinema, era a Juliana que tanto procuravam. Dona de um feeling artístico, rapidez de raciocínio e percepção aguçada, ela carregava o perfil e o personagem de Juliana, captando naturalmente tudo muito rápido, entrou no clima e no tom da cena que lhe serviu como teste. E a equipe interia não teve dúvidas, era ela. Os processos de preparação para os dois 46 www.revistapzz.com.br

Finalizado em Abril de 2012, o filme apresentado em película 35 mm e teve lançamento mundial na segunda semana do Festival de Cannes em Maio de 2012, na mostra “Short Film Corner”. E em Belém, a obra recebeu prêmio de Melhor Curta pelo Júri Popular no Amazônia Doc 4. foram bem distintos, foi preciso cortar certos exageros na expressão teatral de Leoci - excessos advindos do teatro - até encontrar um ponto onde nada estivesse destoando. Enquanto Geisa imprimia isso com mais facilidade, sua única dificuldade aparecia nas cenas mais emo-

O filme foi rodado em Belém, durante 8 dias, contou com mais de 50 profissionais na produção. tivas. Portanto a tarefa era equilibrar os dois, injetando em um o que no outro tinha de sobra. Após três meses de ensaio, em alguns momentos surgiram ideias e propostas para simplificar o curta, cortar locações, ir para o estúdio gravar em cenários fake, alterar o roteiro, diminuir a qualidade da fotografia, tudo para que o processo fosse mais fácil e menos dolorido. Mas quem conhece o trabalho de Roger Elarrat sabe, ele adora desafios. Seus filmes são distintos entre si na linguagem e escolhas estéticas, mas o mistério, cerne de seus trabalhos, está sempre presente acompanhado de temas com forte teor sobrenatural de lendas regionais; o oculto e o resgate cultural do contexto popular e tradicional paraense já se tornaram marcas na sua filmografia. Ele deixou a equipe do Jambeiro completamente à vontade, com total liberdade pra traba-


Roger Elarrat

lhar, e graças à sede de vontade de realizar o curta, todos estavam afinados, e dispostos a dar o melhor de si naquela missão intensa, portanto nenhuma concessão de cortes foi atendida. O filme foi rodado em Belém, durante 8 dias, contou com mais de 50 profissio-

“Quando pisei pela primeira vez em um set de cinema de verdade, fiquei 5 horas em pé observando tudo, naquele momento tive certeza, esse era o meu lugar”. Roger Elarrat nais na produção, entre eles Téo Mesquita e Rafaela Fontoura (coordenação de produção), Emerson Bueno (coordenação de fotografia), Boris Knez (direção de arte), Leonardo Venturieri (Trilha Sonora), Lozansky Benur (edição), Sônia

Penna (maquiagem), Antônio Mauriti (figurino), Otoniel Oliveira (arte gráfica), Camila Kzan (produção executiva), Dário Jaime (produção de elenco), entre outros. 300 figurantes, muitas cenas noturnas, externas, músicas, danças coreografadas, sequências rodadas no meio das ruas da cidade Velha e bairro do Comércio, equipamento de luz de ponta alugado de São Paulo e Brasília, filmagem à noite e em barco de passageiros, cemitério, periferias próximas à BR 316, encruzilhada e um imenso jambeiro. Finalizado em Abril de 2012, o filme apresentado em película 35 mm e teve lançamento mundial na segunda semana do Festival de Cannes em Maio de 2012, na mostra "Short Film Corner". E em Belém, a obra recebeu prêmio de Melhor Curta pelo Júri Popular no Amazônia Doc 4. "Eu estava confiante. Achava que iria ser selecionado porque foi um trabalho em que tudo deu certo. Contamos com uma equipe muito talentosa e dedicada. Não tivemos problema nenhum na

realização. Mas fiquei surpreso. É algo muito grande participar de Cannes. Foi um impacto de qualquer forma", revela Roger. Enchendo os olhos de quase todo mundo que viu. A resposta do público foi maravilhosa, pois o cinema paraense causou impacto ao levar um curta super produzido, cheio de locações, cenários, trilha original, fotografia marcante e centenas de figurantes, afinal os curtas tendem a ser bem mais simples em Cannes. Roger conta que adorou a resposta do público multicultural presente na mostra sobre uma cosmologia tão distinta para a maioria daquelas pessoas. ”Tinha um francês que me disse que não entendia o que era um “jambo-tree”, porque o Jambo é uma fruta que em poucos lugares do mundo se conhece, mas lá eles associaram à palavra jambon, que significa ‘presunto’ em francês, e ficou no imaginário, ‘uma árvore de presunto’”. Além das centenas de filmes que assistiu nos 12 dias de festival, estar em Cannes é uma oportunidade imensa para fazer contatos, e mostrar o trabalho conversando pessoalmente com vários profissionais do meio. Elarrat encontrou com a cineasta francesa Agnes Varda, e aproveitou para dar uma cópia do “Jambeiro” depois de uma boa meia hora de conversa com Apichatpong Weerasethakul após sua palestra. Roger conheceu atrizes e atores famosos que estavam por lá como Marion Cotillard, trocou uma ideia com Brad Pitt, e conta que enquanto muitos entravam por passagens secretas e sumiam em elevadores escondidos, Wes Anderson estava na praia, de terninho, andando apressado. “Cannes foi uma das maiores experiências que tive, principalmente por me sentir um deles lá.” Sobre o futuro, Roger adianta que está trabalhando em seus projetos de longas-metragens que estão engatinhando. Ele continua escrevendo e pesquisando muito, portanto não tenham dúvidas de que coisa fina vem por aí, o próximo filme será um desafio maior que o Jambeiro, e o público não perde por esperar. Jessica Mota é comunicóloga, atriz, modelo, publicitária, produtora, artista visual, bailarina e pintora.

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CINEMA PARAENSE

IV Dira Paes, personagem principal do filme “Matinta”, dirigido pelo paraense Fernando Segtowick

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MOSTRA AMAZÔNIA DE CINEMA O Projeto do Instituto Cultural Amazônia Brasil chega aos 10 anos de existência configurando-se como uma das únicas plataformas de discussão, intercâmbio e circulação regional e internacional da produção audiovisual amazônica.

Pedro Vianna “Há muito os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia. Diversos são os aspectos da maior floresta tropical do planeta que atraem a atenção de turistas, curiosos, artistas e pesquisadores. Desde a força de sua natureza e biodiversidade exuberantes, passando pelo exotismo e pluralidade de seu povo e suas manifestações artísticas e culturais, até os constantes conflitos agrários e questões ambientais amplamente divulgados pela mídia. O fato é que nos últimos 10 anos essa atenção e interesse vêm se intensificando de forma assustadora, chegando ao ponto de trazer à tona questões como a ocupação militar e tombamento da floresta amazônica como patrimônio da humanidade. O núcleo dessas questões parece apontar para interesses mais que ecológicos e humanitários na região. Interesses fundamentados em uma espécie de olhar inquisidor, que busca revelar o descaso das autoridades responsáveis e a exploração predatória indiscriminada da região, e ao mesmo tempo tenta sensibilizar a opinião pública e afirmar-se como possível solução para essas questões. Este olhar exterior acaba por paradoxalmente projetar uma imagem no mínimo distorcida e estereotipada da Amazônia para o mundo.

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“Mostra de Cinema da Amazônia” é um festival de cinema itinerante, realizado pelo Instituto Cultural Amazônia Brasil, e produzido por A Senda Produções, que busca revelar o olhar dos realizadores e produtores de audiovisual da região amazônica sobre sua própria realidade. A mostra utiliza o cinema como ferramenta de intercâmbio e diálogo entre a Amazônia e o mundo, através da exibição de produções filmadas na Amazônia por realizadores da Amazônia. Buscando assim contribuir para a difusão da arte e cultura amazônicas no Brasil e no exterior, além de fortalecer as relações entre os profissionais de produção audiovisual dos estados brasileiros envolvidos. A mostra vem assim colaborando para o rompimento de um estado de desconhecimento mútuo e isolamento histórico das cenas audiovisuais da região amazônica como um todo, não só através da exibição do que está sendo produzido, mas através de atividades de livre formação, discussões sobre audiovisual trans-

“Mostra de Cinema da Amazônia” é um festival de cinema itinerante realizado pelo Instituto Cultural Amazônia Brasil que utiliza o cinema como ferramenta de intercâmbio cultural entre a Amazônia e o mundo mitidas via web, e debates com a participação de nomes expressivos da área. “É muito importante que público e realizadores possam ter a real dimensão do que está sendo feito em audiovisual na região, para que, não apenas os filmes ganhem visibilidade, mas cadeia produtiva em si ganhe força”, pensa o presidente do Instituto Amazônia Brasil, e idealizador da mostra, Eduardo Souza. A Primeira Mostra de Cinema da Amazônia aconteceu em nível internacional com filmes inteiramente produzidos e realizados no estado do Pará. O Festival des Films sur l´Amazonie foi realizado em Paris e fez parte da programação oficial do Ano do Brasil na França, através da Exposição Amazônia Brasil. O evento 50 www.revistapzz.com.br

reuniu 19 filmes, entre curtas e médias metragens, vídeos, documentários e animações, e apresentou a Amazônia sob os mais diferentes olhares e aspectos. Foi um importante passo para a abertura das portas de exibição do cinema amazônico para o mundo. Em 2006, em sua segunda edição durante a Copa do Mundo da Alemanha, a Mostra foi premiada entre os 40 melhores projetos de intercâmbio cultural entre o Brasil e a Europa no Programa Copa da Cultura. A “II Mostra de Cinema da Amazônia” (Filmvorführung Amazoniens) selecionou e exibiu 20 produções independentes feitas nos estados do Pará, Rondônia e Amazonas, em universidades, centros culturais e salas de cinema de cinco cidades alemães. Em contrapartida, apresentou em Belém, Manaus e Porto Velho a “Mostra Curta Alemanha Contemporânea”, que reuniu 30 curtas metragens alemães independentes e inéditos no Brasil. A III Mostra de Cinema da Amazônia aconteceu na Universidade de Coimbra durante a Feira Internacional de Turismo de Coimbra, e em seguida no Cineclube Fila K. A programação no Brasil aconteceu em Manaus (Icbeu), Macapá (Cine Paraíso) e Boa Vista (Centro Multicultural de Boa Vista) e fez parte da caravana cultural do projeto Ciclos pelas capitais da Amazônia. A quarta edição da mostra percorreu durante o mês de maio de 2013 as capitais dos estados do Pará, Amazonas, Acre, Rondônia, Amapá e Roraima através de parceria firmada com os coletivos integrantes do Circuito Fora do Eixo, com exibições gratuitas em teatros, cinemas, escolas, universidades, bibliotecas, fonotecas, videotecas, centros culturais e espaços públicos das cidades envolvidas. Em março de 2013 foram abertas inscrições para filmes de média e curta metragem no site do projeto. Em dois meses foram contabilizadas mais de 150 inscrições de todos os estados da Amazônia brasileira, entre documentários, ficções e animações. A maior parte das inscrições e dos filmes selecionados foram do estado do Pará, o que é um dado importante para a construção de uma cartografia crítica da produção audiovisual na região. De fato o Pará é o estado onde está concentrada a maior parte de produções com um nível de produção mais profissionalizado, porém várias produções de outros estados,

ainda que realizadas com certa escassez de recursos técnicos, se afirmam pela força da temática e criatividade. E foram estes os principais critérios de avaliação das inscrições: a importância da temática abordada, a criatividade e a qualidade técnica da produção. Após o processo de curadoria foram selecionados 44 filmes para compor a grade de programação. O uso do audiovisual, através da prá-


tica cineclubista em escolas públicas, e outros espaços não-convencionais, além de ser um instrumento para produzir e socializar conhecimento, pensamento crítico, promoção da cultura brasileira é o estímulo do uso de um meio de comunicação nos ambientes sem acesso à fruição cultural que serve como instrumento de produção,

construção e socialização de conhecimentos. O Cinema é uma linguagem pedagógica multidisciplinar, uma linguagem artística que congrega várias outras como teatro, literatura, música, poesia, estética, e por isso, seus benefícios em favor da educação. Nesse sentido, a Mostra Amazônia chega ao encontro das perspectivas

O Último Lamento (RR). Dir.: Alex Pizano. Ano: 2012. O cinema como memória de práticas socioculturais, reconta, recupera, revive não só uma tradição cultural e social de uma época, mas dialoga com o público de ontem e de hoje.

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CINEMA PARAENSE 1

teóricas das políticas públicas educacionais e culturais para criar e implantar mecanismos de acesso ao bem audiovisual, difundir e fazer circular o filme nacional para além das barreiras geográficas e sociais, formar plateia e agentes culturais. Esses são pontos positivos entre os expoentes do setor para a conquista de um cinema paraense e brasileiro sólido, calcado numa relação madura entre público e arte e entre instituição, comunidade e a cidade. A programação iniciou em Belém, com a cerimônia de abertura e inicio das exibições no dia 10 de maio, às 18:00 no Cine Líbero Luxardo, no Centur. No dia 11 aconteceu um debate sobre a produção audiovisual na Amazônia no mesmo local a partir das 16:00 com Fernando Segtowick, Andrei Miralha, Januário Guedes, Marco Antônio Pereira e Eduardo Souza. Em seguida a mostra repetiu sua programação no Cine Olímpia, e no dia 26 o espaço da Casa Fora do Eixo Amazônia recebeu uma exibição dos filmes de animação da mostra e um show com o cantor Arthur Espíndola como atividades de encerramento da etapa brasileira. A parceria com os coletivos do Circuito Fora do Eixo da Amazônia foi fundamental para a realização 52 www.revistapzz.com.br

ALGUNS Filmes da mostra 1. Muragens(PA). Dir.: Andrei Miralha. Ano: 2008. 2. Mãos de Outubro (PA). Dir.: Vitor Souza Lima. Ano 2010. 3. A Arte da Fé (PA). Dir.: Michelly Murchio. Ano: 2009. 4. Cine Jornais (PA). Dir: Líbero Luxardo e Milton Mendonça. Ano 1050 à 1960. 5. Chupa Chupa (PA) Dir.: Roger Elarrat. Ano: 2007. 6. O Número (RO). Dir.: Beto Bertagna. Ano: 2004.

do projeto em outros estados da região norte. Através dessa parceria foi possível que a mostra fosse relizada em praticamente toda a Amazônia, no mesmo padrão e com os mesmos programas e atividades que aconteceram em Belém. Dessa forma realizadores, críticos e produtores de cada cidade participaram efetivamente do processo de produção local da mostra em suas cidades. Em agosto será realizada a etapa internacional do projeto em Portugal, nas cidades do Porto, Coimbra e Lisboa. Dando assim visibilidade internacional para o cinema independente produzido na Amazônia. Esta-

belecendo o intercâmbio cultural entre os países envolvidos. E fomentando parcerias e relações comerciais de co-produção entre artistas, produtoras e

Em junho a mostra aporta em Portugal com uma programação que envolve shows musicais, intervenções, exposições e feira gastronômica em 3 cidades portuguesas. instituições nacionais e internacionais. Este ano o projeto contou com o patrocínio o Governo Federal, Banco da Amazônia, FAP, Prefeitura de Belém e Governo do Estado do Pará. Foram parceiros Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, Museu da Imagem e do Som, Circuito Fora do Eixo, Blog Cinemateca Paraense e A Senda Produções. Pedro Vianna é escritor, produtor executivo da Mostra de Cinema da Amazônia, diretor da A SENDA Produções e membro da PZZ


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entrevista

José Conrado Santos

amazônia portal de integração regional

JOSÉ CONRADO SANTOS CONCEDE ENTREVISTA ESPECIAL PARA A REVISTA PZZ PARA FALAR DO PORTAL de integração da amazônia legal e das perspectivas de desenvolvimento do estado do pará em um novo cenário de investimentos e ações integradas NA REGIÃO

PZZ – Os dois grandes investimentos no Pará nesta década serão aplicados em minérios e hidrelétricas, centenas de milhões e de alguns bilhões de investimentos privados e públicos serão destinados nas áreas de energia e mineração sendo a atividade econômica de maior capital desenvolvido, elevando a posição do Estado do Pará entre os 4 maiores exportadores nacionais, além de gerar o segundo maior saldo de divisas do Brasil. O Estado do Pará, as indústrias e os fornecedores estão preparados para receber esses investimentos? José Conrado – O Estado do Pará vai assumir a liderança da economia mineral brasileira. Dos quase R$ 90 bilhões, que constam da programação das empresas até 2016, quase R$ 52 bilhões serão aplicados na extração 54 www.revistapzz.com.br

de minério, (R$ 27 bilhões) na indústria de transformação, o restante em infraestrutura, transporte, logística e em outros negócios. O segmento dos

Em 2011, foram gerados negócios na ordem de R$ 56 bilhões entre os estados da Amazônia. Já a relação comercial da região com as demais localidades do Brasil registram um montante de R$ 92 bilhões. minérios fará parte de quase 90% da exportação paraense. Estamos investindo pesado para contribuir com o fortalecimento da indús-

tria mineral paraense. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Senai Pará irão investir R$ 51 milhões para a implantação do Instituto Senai de Inovação e Tecnologias Minerais, centro que será responsável em desenvolver pesquisas para o aperfeiçoamento da produção mineral e ficará vinculado a Rede Senai de Inovação. Além de atender as indústrias paraenses, mineradoras de todo o país, terão nele um suporte para alavancar a produção ao introduzirem métodos inovadores na produção. Estamos buscando consultoria em centros que já são referência mundial na área de inovação. O Instituto Fraunhofer, da Alemanha, e o MIT, dos Estados Unidos, serão nossos parceiros para a instalação desse Instituto. Ele será construído lá no Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá e deverá acelerar essa área de


paulo santos

JOSÉconrado Santos É vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), José Conrado é também o coordenador da Ação PróAmazônia, grupo que congrega as nove federações de indústrias da Amazônia Legal.

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entrevista pesquisa. A indústria, para ser competitiva, precisa de inovação. PZZ – E qual o papel da FIEPA neste contexto? José Conrado - A Federação das Indústrias do Estado do Pará, a Fiepa, atua de forma decisiva em prol do desenvolvimento do setor produtivo paraense. Composta por três instituições – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Serviço Social da Indústria (Sesi), Instituto Euvaldo Lodi (IEL), e ainda pelo Centro Internacional de Negócios (CIN) e pela Rede de Desenvolvimento de Fornecedores (Redes), o Sistema Fiepa busca fornecer serviços de formação profissional, implantação de indústrias e bem estar do trabalhador industrial. A Fiepa passou a influenciar cada vez mais os destinos do Estado ao

A ideia é contribuir para o desenvolvimento e o fortalecimento de polos industriais espalhados nas mais variadas regiões, onde exista uma potencialidade natural para o crescimento da indústria. reivindicar infraestrutura, defender grandes projetos e estimular a verticalização da produção. Essa é uma luta que transcende os interesses industriais e beneficia toda a população paraense. Hoje, a Federação é a porta-voz dos interesses do setor industrial perante a sociedade e ao poder público, participando ativamente das principais ações que determinam os rumos da economia paraense. São filiados à Federação 40 sindicatos, que reúnem representantes dos variados segmentos produtivos e que tornam a entidade uma das principais instituições de classe da história do Pará. O papel da Federação das Indústrias fica na intermediação com esses setores e os 56 www.revistapzz.com.br

interesses do setor industrial. PZZ – Um recente estudo da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) identificou que os nove estados da região amazônica mantêm relações comerciais maiores com o sul e sudeste do país do que entre si. Qual a importância da criação de uma rede de cooperação econômica e polítia neste sentido? José Conrado – Em 2011, foram gerados negócios na ordem de R$ 56 bilhões entre os Estados da Amazônia. Já a relação comercial da região com as demais localidades do Brasil registram um montante de R$ 92 bilhões. Diante dessa constatação, percebeu-se a necessidade de maior aproximação comercial, institucional e estratégica entre os Estados amazônicos. Para viabilizar essa aproximação, foi criado o Portal de Integração da Amazônia Legal, materializado em cerimônia de assinatura do convênio de cooperação técnica entre Sudam, a FIEPA e o Ação Pró-Amazônia, grupo ligado à Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e que reúne as nove federações das indústrias da região. O portal virá no sentido de criar e consolidar um canal direto para que os Estados amazônicos possam conhecer melhor o mercado de seus vizinhos, apresentando soluções para que os investimentos aplicados na Amazônia sejam interiorizados na própria região. Os Estados não podem se manter de costas entre si. Precisamos de maior integração. É através dessa maior inter-relação entre os Estados que alcançaremos o desenvolvimento regional. Para isso, vamos aplicar no Portal de Integração da Amazônia Legal a mesma metodologia que vem sendo desenvolvida pela Redes. Aqui no Pará, por exemplo, com o trabalho da Redes conseguimos elevar de 19 para 51% a contratação de bens e serviços realizada pelos grandes projetos. Antigamente, os empreendimentos de grande relevância econômica se instalavam aqui, mas compravam de outras regiões. Fizemos um trabalho com as empresas locais e com as grandes indústrias, no sentido de

capacitar os micro e pequenos empreendedores e aproximá-los dos grandes. Foi assim que revertemos a situação das compras locais. Esperamos fazer o mesmo na região amazônica. Este é o objetivo deste Portal. PZZ – E como será a metodologia de implantação deste programa? José Conrado – Primeiro faremos um mapeamento e um estudo de cenário da região. Após este trabalho de prospecção local, a ideia é identificar todos os projetos anunciados para os nove Estados da Amazônia Legal. Com conhecimento dos investimentos futuros, faremos uma capacitação com as empresas locais, promovendo a qualificação delas para que venham a atingir o nível de excelência exigido pelos grandes projetos e, assim, possam se tornar fornecedores de bens e de serviços.

Diante da constatação, percebeu-se a necessidade de maior aproximação comercial, institucional e estratégica entre os Estados amazônicos. Esta ferramenta irá potencializar o aumento do volume de negócios na Amazônia Legal e também a maior interiorização de riquezas na região. Ao utilizar a mesma metodologia da Redes, da FIEPA, o Portal já nasce com uma fórmula de sucesso para ampliar a comercialização de bens e de serviços entre os Estados da Amazônia. A idea é promovermos o lançamento do Portal ainda este ano, na sede do CNI. PZZ – Existe a necessidade da implantação da Universidade da Indústria, como será esse projeto? José Conrado – Dentro do novo contexto que o Pará vem vivendo, encara-se a necessidade de associar a relação entre crescimento econômico e desenvolvimento sustentável para gerar renda e progresso, incremen-


paulo santos

Desenvolvimento regional “Queremos desenvolver a indústria, queremos o fortalecimento, o crescimento dos parques industriais, mas também não esquecemos o nosso papel para com o desenvolvimento das regiões”.

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entrevista tando a economia para atingirmos mais fortemente a fase da verticalização da nossa produção. A ideia é contribuir para o desenvolvimento e o fortalecimento de polos industriais espalhados nas mais variadas regiões, onde exista uma potencialidade natural para o crescimento da indústria. Para atingirmos de modo mais célere o processo de verticalização, sabemos que além dos fatores que são alheios a própria vontade do segmento, é preciso investir mais no desenvolvimento de inteligências locais. Para isso, estamos estruturando o projeto da Universidade da Indústria que terá como público alvo, lideranças, gestores de empresas e estudantes em fase de estágio. É uma preocupação antiga da Fiepa em melhorar a qualidade do nosso empresariado e do trabalhador industrial. Já investimos cerca de R$ 1 milhão e meio no Instituto Aperfeiçoar, coordenado pelo IEL, e que promove cursos de capacitação e treinamento do empresariado local, contando com novas e modernas salas de aula, equipamentos da mais alta tecnologia e com capacidade para atender 140 pessoas por dia. Este já foi um primeiro passo para o nosso projeto de desenvolvimento de inteligências. Mais a frente, deveremos constituir a Universidade da Indústria, que virá com o mesmo foco do Instituto Aperfeiçoar, mas apresentará uma gama maior de produtos, atendendo esta demanda por profissionais altamente capacitados, empreendedores e que tenham na inovação a mola propulsora para o fortalecimento da indústria local.

indústria perdeu força. Em 1980, por exemplo, nossa participação no PIB era de 45%. Atualmente, a relevância das indústrias para o PIB caiu para 28%. É o triste fenômeno da desindustrialização. Infelizmente, as políticas governamentais de apoio ao segmento não atingiram o mesmo nível de agressividade de outros países. Esperamos que este quadro se reverta. A CNI e as 27 Federações de Indústrias estão fazendo sua parte. Nossos investimentos, nos últimos anos, cresceu muito na inovação e em ações para buscarmos a competitividade. O Instituto do Senai de Tecnologias Minerais é um exemplo deste esforço do Sistema Indústria. Acredito que, por meio do desenvolvimento de pesquisa e processos

PZZ – A inovação e a competitividade são palavras que já foram incorporadas no discurso e nas ações da Federação. Fale mais sobre estes dois temas. José Conrado – Até por direcionamento da CNI, as Federações, sempre em defesa do segmento industrial, vem focando e intensificando suas ações para o alcance destes dois caminhos, a inovação e a competitividade. Acredito até que, a inovação é caminho pelo qual chegaremos na competitividade. Infelizmente, com o passar dos anos, a

inovadores e tecnológicos na área da mineração, conseguiremos interferir positivamente não só no setor mineral, mas em toda a cadeia produtiva que depende e está diretamente ligada a ele. Este será um grande salto da indústria paraense e brasileira.

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Em 1980, por exemplo, nossa participação no PIB era de 45%. Atualmente, a relevância das indústrias para o PIB caiu para 28%. É o triste fenômeno da desindustrialização. Infelizmente, as políticas governamentais de apoio ao segmento não atingiram o mesmo nível de agressividade de outros países. Esperamos que este quadro se reverta.

PZZ - Realmente, nos últimos anos, a indústria vem alcançando espaço relevante na pauta econômica local. Até pelo seu alto poder de empregabilidade e os efeitos dinamizadores da economia regional. Lhe perguntamos agora, com esses

bilhões de investimentos, onde vai se concentrar principalmente no setor mineral, como associar os interesses industriais ao desenvolvimento econômico regional? José Conrado – Esta sempre foi uma preocupação real da Federação. Queremos desenvolver a indústria, queremos o fortalecimento, o crescimento dos parques industriais, mas também não esquecemos o nosso papel para com o desenvolvimento das regiões. Não à toa, investimos na Redes, da Fiepa, para qualificar os micro e pequenos empreendedores. Ao capacitá-los fazemos com que eles tornem-se fornecedores, potenciais clientes dos grandes projetos e que injetam uma quantidade bastante expressiva de recursos em nossa região. Isso é o que eu chamo de interiorização dos investimentos. Fazendo o micro crescer e se fortalecer, estamos possibilitando que aquele empresário gere mais riquezas para sua região, empregue mais mão de obra, venda e exporte mais. Dessa forma todos ganham. É preciso que os nossos governantes tenham essa percepção e se sensibilizem com a causa empresarial. Quem gera riquezas e dá emprego à população é o setor produtivo. A força da economia está no setor produtivo. PZZ – A economia do Pará está dividida em três eixos (projetos de desenvolvimento de energia, mineração, agronegócio e infraestrutura; economias tradicionais do extrativismo, agricultura familiar, pesca artesanal, economia de subsistência; e inovação, da economia criativa, do turismo, biotecnologia e todo o potencial de desenvolvimento de setores menos tradicionais e mais modernos da economia). Em sua visão, qual a melhor forma de apoiar e dinamizar a economia estadual? José Conrado – A Secretaria Especial de Desenvolvimento Econômico e Incentivo à Produção (Sedip) que tem à frente o deputado estadual Sidney Rosa, tem posto seu pessoal para estruturar uma política que venha promover o fortalecimento da indústria local, um exemplo é o Plano de Desenvolvimento para o Estado, que


está dentro das perspectivas de investimentos do Governo Federal no Pará, dentre os quais cito como investimentos significativos, a construção de dez hidrelétricas e de mais nove portos na Região de Miritituba, no município de Itaituba. A Região do Oeste do Pará será totalmente modificada pelos investimentos em logística e novos polos de produção serão criados. Por isso é tão necessário um plano que estruture e dê amparo ao crescimento econômico. Temos que nos apropriar destes projetos, fazer com que as riquezas sejam compartilhadas com todos que estão na região, desde o empresário até o trabalhador. Apesar do esforço da atual gestão, que deverá apresentar o Plano Pará Estratégico 2030, vejo que precisamos ser mais agressivos em nossas políticas e ações de atração e de investimentos ao setor produtivo. O processo histórico não nos foi favorável. Por algum tempo, o Pará se ressentiu de políticas eficazes para promover novos investimentos. Continuo acreditando e desenvolvendo parcerias com o atual governo a fim de desenvolvermos juntos uma política que traga em seu bojo estrutural a verdadeira preocupação com o segmento produtivo. Tenho esperança que, num futuro próximo, o Pará poderá exercer plenamente todo o seu potencial, com uma indústria mais robusta, competitiva e inovadora PZZ – Um dos fatores que impedem a indústria paraense em ganhar competitividade é a questão logística. Preocupados com a situação do transporte de cargas e o custo que isto tem para a produção local, a FIEPA foi a idealizadora do Projeto Norte Competitivo, mais tarde capitaneado pela Ação Pró-Amazônia, grupo que congrega as nove federações de indústrias e está diretamente ligado à CNI. O projeto apresentou um produto tão consistente para o desenvolvimento da região, que acabou sendo replicado nas demais regiões do Brasil. Como o senhor analisa a questão da infraestrutura? Este é o maior gargalo do segmento produtivo paraense? José Conrado –A infraestrutura é um dos fatores para a competitivida-

de da indústria nacional. As péssimas condições e o baixo investimento em novos eixos de integração encarecem a produção da nossa região, uma das mais prejudicadas pelo atual sistema logístico. Em busca de soluções para dar maior competitividade à indústria local, idealizamos um projeto para mapear e listar as principais obras para promovermos a melhoria logística do Pará. Contamos com a consultoria do Dr. Eliezer Batista, um profundo conhecedor de nossa região, que nos aconselhou levar esta ideia para todo a Região Norte e, inclusive, trabalhar eixos de integração com os países vizinhos. Este estudo foi feito e assim nasceu o Projeto Norte Competitivo. O estudo nos possibilitou quantificar o peso da logística para a produção. Perdemos

A Região do Oeste do Pará será totalmente modificada pelos investimentos em logística e novos polos de produção serão criados. Por isso é tão necessário um plano que estruture e dê amparo ao crescimento econômico. Temos que nos apropriar destes projetos, fazer com que as riquezas sejam compartilhadas com todos que estão na região, desde o empresário até o trabalhador. em competitividade com relação as demais regiões, pois nossos acessos terrestres, ferroviários, hidroviários e nossos portos apresentam condições precárias e que elevam o custo produtivo. Para se ter uma ideia, o custo logístico da Amazônia, hoje em dia, já passou a casa dos R$ 20 bilhões. Se melhorias logísticas não forem realizadas, se não pudermos contar com novos eixos de integração e se os atuais eixos continuarem com a capacidade de transporte ele-

vada, o estudo indica que em 2020, o custo logístico será de R$ 33,5 bilhões. O custo logístico da Amazônia Legal representa a soma de todos os custos logísticos pagos por todos os produtos originados ou destinados à região. Inclui custos de frete interno, de transbordo, tarifas portuárias e frete marítimo. PZZ – A indústria ocupou e permanece em destaque na cobertura dos veículos de comunicação do estado. E agora lança o Prêmio Sistema Fiepa de Jornalismo. Explique a importância dessa iniciativa? José Conrado – Como forma de reconhecer o trabalho dos profissionais que atuam na imprensa paraense, a Federação - que representa 40 diferentes sindicatos atuantes nos mais variados segmentos da indústria - lançou oficialmente no Dia do Jornalista, 07 de abril, o Prêmio Sistema Fiepa de Jornalismo. Composto de 13 categoriais, o Prêmio abrirá espaço para que o mercado de comunicação vote naqueles candidatos que mereceram destaque no ano de 2013. Além de reconhecer o trabalho importantíssimo da imprensa local, esperamos que esta iniciativa desperte maior interesse de jornalistas para a causa da indústria paraense que, por tudo que já disse, é a mesma da sociedade. Os veículos de imprensa têm um papel fundamental para dar visibilidade aquilo que todos nós cidadãos precisamos saber. Não podemos, por exemplo, deixar que a indústria continue perdendo força no PIB e o fenômeno da desindustrialização se agrave. Sem indústria, não se gera riquezas e não se tem empregos. Essa é uma pauta da sociedade e precisa estar em destaque sempre. PZZ – Qual o grande desafio para o desenvolvimento da indústria paraense? José Conrado – Tornar-se competitiva. Temos potencial. Nossa gente é altamente criativa e capaz, nossos recursos são abundantes, mas precisamos de políticas mais agressivas para o surgimento de um ambiente mais propício a geração de novos negócios.

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Marcio Palheta da Silva

bruno pellerin

GEOPOLÍTICA

Para o MAPA DAS MINAS A RIQUEZA ADVINDA DA MINERAÇÃO, IMPULSIONOU O QUE SERIA A SOLUÇÃO ECONÔMICA PARA O ESTADO NACIONAL

O

processo de riqueza e de pobreza nos municípios paraenses foi impulsionado pela pressão exercida pelo governo brasileiro em busca do desenvolvimento industrial e, consequentemente, pela falta de políticas integradoras que contemplasse de fato as sociedades produzindo efeitos socioeconômicos desiguais no Estado do Pará. A riqueza advinda da mineração, por exemplo, impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional, e fez surgir em diferentes regiões do território paraense cidades ligadas a mineração atraindo direta ou indiretamente um contingente populacional significativo com pessoas vindas de diversas regiões do Brasil, em busca de trabalho e melhores condições de vida nos projetos com dinâmicas atreladas

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Altamira

No Pará pelos dados do DNPM (2011) 21 municípios possuem em seus territórios atividades de mineração ligadas a indústria de transformação, pesquisa mineral e indústria extrativa mineral www.revistapzz.com.br 61


GEOPOLÍTICA a escala nacional e internacional. Em seu entorno a pobreza como resultado desse processo contraditório e combinado de desenvolvimento econômico no território, como é o caso da região sudeste com o núcleo urbano de Carajás e a cidade de Parauapebas, e de outras que já existiam antes mesmo da chegada dos projetos de mineração, mas tiveram suas funcionalidades e potencialidades alteradas pela dinâmica mineral em seu território, como é o caso da região do baixo amazonas, com Juruti e Oriximiná. Segundo dados do IBGE (2011), o Estado do Pará possui cento e quarenta e quatro municípios, sua população é de 7.443.904 numa área de 1.247.950,003 km². A distribuição da população tem na sua maioria municípios com menos de 50 mil habitantes. A maioria desses municípios depende de repasses do Estado e da União, como é o

Das 21 cidades que sediam atividade de mineração no que diz respeito à CFEM são destaque as cidades de Parauapebas, Canaã dos Carajás, Oriximiná e Juruti. caso do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), e outros por terem em seus territórios Grandes Projetos mínero-metalúrgicos conseguem atrair e receber recursos provenientes das atividades ligadas direta e indiretamente à economia mineral. Pelos dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM, 2011) Parauapebas, cidade da região sudeste paraense, é a primeira cidade em arrecadação da Contribuição Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), os chamados royalties da mineração. A criação da cidade se deu em razão dos grandes projetos minerais, como o Projeto Ferro Carajás (PFC), e pelos processos produzidos pelo grande projeto, fazendo surgir em 1988, o município de Parauapebas (desmembrado de Marabá) o mais importante na 62 www.revistapzz.com.br

Municípios e População no Estado do Pará em 2010

Principais Municípios Arrecadadores da CFEM no Estado do Pará MUNICÍPIO

2010

PARAUAPEBAS

229.896.598,41

CANAÃ DO CARAJÁS

26.389.306,77

Oriximiná

18.598.141,94

Paragominas

10.916.670,65

Juruti

12.297.592,13

Ipixuna do Pará

8.140.172,26

Marabá

6.083.211,67

Floresta do Araguaia

1.081.809,74

Itaituba

318.755,37

Jacareacanga

32.293.979,65

Total dos Dez Municípios

314.845.129,95

Total do Estado

346.016.238,59

Fonte: https://sistemas.dnpm.gov.br. Adaptado pelo autor.


MUNICÍPIO

2011 371.088.416,69

PARAUAPEBAS CANAÃ DO CARAJÁS

31.953.067,54

Oriximiná

21.220.281,78

Paragominas

12.336.831,69

Juruti

10.717.061,23

Ipixuna do Pará

7.114.356,53

São Félix do Xingu

2.709.765,44

Floresta do Araguaia

1.970.968,68

Marabá

1.874.832,81

Itaituba

306.528,09

461.292.110,48 462.408.808,04

mineração por possuir em seu território os principais projetos da maior companhia em atuação na mineração no Estado, a Vale, que tem em seu território, a maior mina em teor de ferro do planeta (a mina de ferro, a ferrovia Carajás e o Porto no vizinho Estado do Maranhão) e um extenso território de recursos minerais sob sua ação direta e indireta. O Baixo Amazonas tem principalmente com a bauxita sua maior expressão econômica mineral se tratando da conexão de escala local-internacional, e produz também uma dinâmica própria a partir dos Grupos que controlam sua exploração, grandes projetos que alteram direta e indiretamente o espaço geográfico local. Cidades com histórias distintas no tempo e no espaço e, que hoje (2013), possuem em seus territórios grandes projetos minerais com lógicas diferenciadas de ordenamento territorial. No Pará pelos dados do DNPM (2011) 21 municípios possuem em seus territórios atividades de mineração ligadas a indústria de transformação, pesquisa mineral e indústria extrativa mineral (Mapa 01), localizada espacialmente em diferentes regiões do Estado, com diferentes grupos econômicos explorando-as, sua maior concentração está nas regiões que vem nos últimos anos pleiteando a criação de dois novos estados: Carajás e Tapajós (no plebiscito de 11 de dezembro de 2011, foi rejeitado pela sociedade paraense). Segundo o IBRAM, o crescimento do setor mineral no Brasil de 2011 a 2015, será da ordem de US$ 64,8 bilhões, o minério de ferro, por exemplo, receberá recursos da ordem de US$ 40 bilhões, será o principal minério na pauta de exportação do país, e o Estado do Pará se tornará o principal Estado a receber esses investimentos passando a liderar o ranking brasileiro. A tendência do mercado mundial é o aumento da exploração desses recursos na Amazônia, tendo no Pará sua maior expressão com a economia mineral do ferro. Outro dado fundamental é que a China passou a ser o maior comprador de minério de ferro do

mundo, e consequentemente aumentou sua participação no mercado de exportação brasileiro. O Pará um estado cada vez mais minerador, verticaliza sua produção modestamente e, a sociedade que para essas áreas se deslocam em busca de melhores condições de vida e trabalho, não vem agregando valor ao trabalho e ao produto mineral com a mesma velocidade dos problemas que surgem, e que não é acompanhado por políticas públicas para essas localidades, geralmente nas periferias das cidades mineradoras bolsões de pobreza marcam a paisagem local, sujeitas a todo tipo de conflito. Os dados de população (Gráfico 01) são importantes na Amazônia paraense, pois

A riqueza advinda da mineração, por exemplo, impulsionou o que seria a solução econômica para o Estado Nacional, e fez surgir em diferentes regiões do território paraense cidades ligadas a mineração atraindo direta ou indiretamente um contingente populacional deles advêm outro recurso que é FPM que junto com a CFEM são fundamentais em municípios que sediam grandes projetos. No caso do Estado do Pará dos 144 municípios existentes, a maioria 103 deles tem menos de 50 mil habitantes, 30 deles possuem entre 50 a 100.000 habitantes, 10 entre 100 e 500 mil, apenas a capital Belém possui mais de 500 mil habitantes, exatos 1.351.618 habitantes (Gráfico 01), a maioria dos municípios que possui menos de 50 mil habitantes acabam se configurando com quase total dependência dos repasses do Estado e da União para o desenvolvimento socioeconômico dos seus territórios ou na dependência virtual de possíveis projetos, prinwww.revistapzz.com.br 63


GEOPOLÍTICA cipalmente da mineração. Das 21 cidades que sediam atividade de mineração no que diz respeito à CFEM são destaque as cidades de Parauapebas, Canaã dos Carajás, Oriximiná e Juruti. No Brasil, Minas Gerais e Pará são os dois principais Estados arrecadadores da CFEM, segundo o DNPM, o Pará é o segundo maior arrecadador de CFEM, no ano de 2010, sua receita total foi de 314.845.129,95 (mais de trezentos milhões de reais) um acréscimo de 29,80% em relação ao ano de 2009 (DNPM, 2011). A economia do ferro no Pará também é destaque, o que tem feito de Parauapabas o maior

A grande empresa de mineração não pode ser a única forma encontrada pelo Estado como organizadora econômica do território. Os municípios não podem atrelar a sua condição de desenvolvimento à mineração. É necessária uma política nacional para mineração que crie condições para acelerar a cadeia produtiva, no estado paraense, agregando mais valor ao recurso e preparar a sua sociedade para usar o território a ser favor. arrecador de CFEM no Brasil. Por outro lado, o minério de ferro teve nesses anos a mudança de parceiro no Pará, passando a China a ser o maior comprador do Estado fazendo crescer a balança comercial do Pará e brasileira atualmente, seguido do minério de cobre e do alumínio. Segundo o Anuário Mineral Brasilero (2010), o minério de ferro, respondeu por 58% , o cobre 6% e o alumínio 4% como as principais substâncias na arrecadação da CFEM no Brasil. 64 www.revistapzz.com.br

Esse cenário mineral brasileiro em que Minas Gerais e Pará são destaque, demonstra um crescimento na arrecadação da CFEM, e que em 2010, atingiu seu ápice na primeira década do século XXI, configurando a mineração com uma das matrizes da balança comercial brasileira mais importante, como podemos verificar no gráfico de 2003 a 2010 da CFEM (Gráfico 02). O Pará é o segundo Estado que mais arrecada CFEM, tem no ferro de Carajás, no município de Parauapebas sua maior expressão em arrecadação. Ainda segundo o DNPM (2011), o mínerio de ferro foi o primeiro colocado em arrecadação no ano de 2010, seguido do cobre e do alumínio, três substâncias minerais que o estado do Pará possui e, que o coloca como o segundo estado que mais arrecada CFEM. Embora no computo geral o Estado do Pará fique em segundo lugar em mineração no Brasil, Parauapebas (PA) no ano de 2010 arrecadou R$ 229.896.598,41 (duzentos e vinte e nove milhões, oitocentos e noventa e seis mil, quinhentos e noventa e oito reais e quarenta e um centavos), seguido de Nova Lima (MG) que arrecadou R$ 81.391.657,67 (oitenta e um milhões trezentos e noventa e um mil e seiscentos e cincoenta e sete reais e sessenta e sete centavos), depois Canaã dos Carajás (PA), nono arrecadador, Oriximiná (PA) décimo segundo e Juruti (PA) décimo quinto completam a lista dos municípios que mais arrecadaram em 2010 a CFEM, sendo os quatro municípios paraense os que mais arrecadaram CFEM no estado. No Estado do Pará dois novos municípios Parauapebas (ferro) e Canaã dos Carajás (a partir de 2004 passou a sediar a exploração do Cobre na mina do Sossego, pelo grupo Vale), lideram a arrecadação e, dois outros no Baixo Amazonas, Oriximiná e Juruti, municípios mais antigos lideram com a exploração da bauxita, dois minérios que são responsáveis pela balança comercial do Estado, que conectam

a economia do Estado ao mundo (Tabela 01). As dez cidades que mais arrecadam CFEM também se destacam na arrecadação do FPM, no caso de Parauapebas mais de 280 milhões de reais quando somados os dois tributos juntos, seguida de Canaã dos Carajás, municípios emancipados em razão da mineração, que seguidos de Oriximiná, Paragominas e Juruti, municípios mais antigos que não surgiram em função da atividade mineral. A mineração é a principal atividade nos dois primeiros municípios, mas todos ligados à economia internacional pela atuação em seus territórios de grupos mineradores que exploração as atividades em alta escala. No Pará municípios como Barcarena, Canaã dos Carajás, Ipixuna do Pará, Marabá, Parauapebas e São Félix do Xingu, tiveram um acréscimo populacional considerável. Parauapebas, Canaã dos Carajás, Marabá e São Félix do Xingu foram destaques nesses dez anos, comparando 2000 a 2010. Reflexo principalmente de projetos minerais em seus municípios, o que acelerou o crescimento populacional em seus territórios, gerando conflitos urbanos e rurais de diferentes natureza ligados direta e indiretamente aos empreendimentos minerais. Esses vinte e um municípios concentram boa parte da população paraense, em mais de um milhão de pessoas, que também é um fator político para eleições municipais, e que de certa forma atrelam o FPM e a CFEM como variáveis fundamentais tanto política como econômica em seus territórios, para serem usados pelas elites locais, e nos discursos desenvolvimentistas com base na economia mineral. Um dos problemas graves hoje é a ausência de planejamento integrado no território paraense. Esses fatores estão relacionados às expectativas econômicas que o Brasil vivia na época de instalação dos projetos de mineração na Amazônia, principalmente na década de 1980. Havia um conjunto de fatores que favoreceram as condições para que


esses projetos fossem instalados na região, além dos recursos naturais que existiam e existem. Dessa forma, a Amazônia brasileira estava relacionada a uma das fronteiras de expansão do capital internacional na América Latina. Assim, o governo conseguiu desenvolver sua estratégia de associação do capital privado nacional e internacional ao capital estatal. Associando, assim, a escala local à internacional visando, o mercado internacional de exportação dos recursos minerais. Os interesses internacionais e a riqueza produzida via exportação dos recursos minerais contrastam

É, preciso garantir que o estado nacional seja forte e torne forte o estado paraense para resistir às pressões internacionais, e assim o uso dos recursos naturais, como os minerais servir a própria lógica de desenvolvimento do Estado nacional e local, a serviço de sua sociedade. Se a política de ordenamento territorial continuar sendo construída sem a presença efetiva da sociedade civil, não teremos novidades, além da aceleração da exportação dos minérios para outros países com pouca agregação de valor ao trabalho e ao produto, acirrando ainda mais os conflitos já existentes no Estado do Pará. com a pobreza local. É necessário garantir às populações atingidas pelos grandes projetos de mineração seus diretos, não somente no uso dos recursos naturais, mas também a multiplicidade de experiências de usos do território pela sociedade, diferentemente das empresas de mineração, para garantir assim suas territorialidades.

É, preciso garantir que o Estado nacional seja forte e torne forte o Estado paraense para resistir às pressões internacionais, e assim o uso dos recursos naturais, como os minerais servir a própria lógica de desenvolvimento do estado nacional e local, a serviço de sua sociedade. Se a política de ordenamento territorial continuar sendo construída sem a presença efetiva da sociedade civil, não teremos novidades, além da aceleração da exportação dos minérios para outros países com pouca agregação de valor ao trabalho e ao produto, acirrando ainda mais os conflitos já existentes no Estado do Pará. A grande empresa de mineração não pode ser a única forma encontrada pelo estado como organizadora econômica do território. Os municípios não podem atrelar a sua condição de desenvolvimento à mineração. É necessária uma política nacional para mineração que crie condições para acelerar a cadeia produtiva, no Estado paraense, agregando mais valor ao recurso e preparar a sua sociedade para usar o território a ser favor. É inegável que a mineração trouxe recursos financeiros, para os cofres do Estado e dos municípios onde a exploração desse recurso se faz presente, mais são poucos diante da importância de produtos como ferro, alumínio e cobre no mercado internacional e para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Só que muitos desses municípios atrelam o seu projeto de desenvolvimento às empresas mineradoras de forma errônea. Os projetos das empresas de mineração não trarão desenvolvimento, se não tiverem associado à economia local, por exemplo, a agricultura e a outros projetos que, na maioria das vezes, os municípios não possuem. É necessário a modernização das administrações municipais, e um maior compromisso do gestor público com seus municípios. Na maioria das vezes não se vê os gestores locais pensando no futuro de seus municípios. A solução para eles é mais imediatista, e a mineração quando está presente nos

municípios acaba contribuindo para esse pensamento, que inibe um planejamento futuro. Essa situação do imediatismo local, com a “ilusão do desenvolvimento” trazido pela mineração, da forma como ocorre no estado paraense, tende a gerar conflitos em considerar que o poder de determinados grupos de mineração suplantou o poder da estrutura administrativa dos municípios. Reforça esse entendimento uma antiga prática adotada por alguns prefeitos de condicionar o seu desenvolvimento somente com a presença dos grupos mineradores em seus territórios. É preciso reinventar e pensar numa outra lógica de desenvolvimento no qual os grandes grupos que exploram a mineração no Estado do Pará, se insiram com suas coligadas e contratadas, de uma forma que o Estado também seja um agente participativo e não apenas um agente legitimador da ação da exploração dos recursos naturais sem a participação da sociedade civil. Para não continuarmos um estado extrativista com baixo valor agregado aos seus recursos naturais e a sua sociedade, exportando suas ilhas de sintropias, abrindo mão da sua autonomia em busca de um desenvolvimento solidário e socialmente justo é necessário pensar numa outra globalização econômica que os recursos naturais possam ser usados e transformados a favor da sociedade paraense, e não multiplicar a entropia territorial, provocados pelos interesses internacionais presente na postura econômica dos grandes projetos de mineração na Amazônia paraense. João Marcio Palheta da Silva é Geógrafo/Socieefetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará/IHGP/Professor Associado I da Universidade Federal do Pará/Líder do Grupo Acadêmico Produção do Território e Meio Ambiente na Amazônia (GAPTA/CNPq) e Diretor Geral do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas– jmpalheta@ ufpa.br www.revistapzz.com.br 65


Christian Nunes da Silva

bruno pellerin

GEOPOLÍTICA

AÇÕES TERRITORIAIS NA Amazônia A RIQUEZA ADVINDA DA MINERAÇÃO, IMPULSIONOU O QUE SERIA A SOLUÇÃO ECONÔMICA PARA O ESTADO NACIONAL

A

o pensar na Amazônia devemos considerar as características ambientais e sociais que integram esse importante território transnacional, desde o período da ocupação humana anterior ao dito “descobrimento europeu”. Assim, da ocupação pelos indígenas, até as comunidades locais que habitam a região na atualidade, sejam elas de pescadores, agricultores, extrativistas, dentre outras, foram incorporadas novas culturas/economias e criados modelos e “ciclos econômicos” que refletem costumes próprios, inerentes à região. É importante ponderar também a influência que os recursos naturais presentes no território amazônico imprimem às outras regiões, refletindo na importância geopolítica e estratégica que a Amazônia tem para países e grandes grupos econômicos, que

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O território amazônico é palco, produto e condicionante de dinâmicas territoriais diversas, onde as “peças” dos agentes moderadores do espaço estão postas à mesa, como em um jogo de tabuleiro, aguardando os movimentos estratégicos de avanço ou recuo de interesses. se valeram da biodiversidade dessa região, como por exemplo, durante o chamado “apogeu da borracha”, onde era utilizada não somente a mão-de obra escrava, mas também a indígena que, posteriormente, também foram incrementadas com a inserção

dos primeiros grupos de nordestinos (ditos soldados da borracha), que foram utilizados no sistema de extração e aviamento da borracha para outros países do mundo. Sendo que, todos os “usos” e manejos dos recursos sempre contribuíram no desenvolvimento de outras atividades econômicas na região, como por exemplo, da extração do pescado dos pesqueiros reais, da borracha, do chamado comércio de regatão, da madeira, ou ainda, durante a criação dos grandes projetos mínero-metalúrgicos e hidroelétricos que são mais recentes. As influências dessas “dinâmicas territoriais”, de agentes públicos e privados, não são percebidas somente no meio rural, mas também no meio urbano do território amazônico, que presenciou a entrada de uma grande quantidade de migrantes vindos de diversas regiões do país, que interagem


HELLY PAMPLONA

um jogo estratégico O território amazônico é palco, produto e condicionante de dinâmicas territoriais diversas, onde as “peças” dos agentes moderadores do espaço estão postas à mesa, como em um jogo de tabuleiro, aguardando os movimentos estratégicos de avanço ou recuo de interesses,. www.revistapzz.com.br 67


GEOPOLÍTICA na complexidade que se observa nos dias de hoje, com alguns benefícios e outros aspectos negativos, como por exemplo, nas regiões de fronteiras, nas áreas limítrofes que, muitas vezes, são arenas de atividades que estão ligadas diretamente ao tráfico de drogas. Efeitos negativos que são frutos de uma imposição internacional, uma demanda global, que tenta submeter o modo de vida habitual amazônico aos padrões globalizados. Esse fato tem estreita relação com o padrão de consumismo imposto pelo capitalismo, com reflexo expressivo no meio ambiente e sua biodiversidade (floresta, água, minérios, animais etc.), com mais força no uso intensivo e irracional para o provimento do consumo predatório, que vem promovendo o desmatamen-

to e o uso irregular destes recursos da região. Nesse sentido, o território amazônico é palco, produto e condicionante de dinâmicas territoriais diversas, onde as “peças” dos agentes moderadores do espaço estão postas à mesa, como em um jogo de tabuleiro, aguardando os movimentos estratégicos de avanço ou recuo de interesses. Nesse sentido, empresas, organizações não-governamentais, sociedade civil, igrejas e o Estado tentam, estrategicamente, usar de suas influências para garantir a satisfação de seus anseios e lucro. As mudanças que ocorrem no espaço refletem, diretamente, na vida social e no contexto ambiental geral, estimulando o surgimento de estruturas conformadas de controle do espaço (resul-

Os Atores Sociais em seu Campo de Forças

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tando na criação de Terras Indígenas - TI, Unidades de Conservação - UC, Zoneamento Ecológico-Econômico ZEE, áreas militares, atividades industriais, company towns, hidroelétricas, etc). Essas circunstâncias harmônicas ou antagônicas são razão e produto direto do tipo de uso e ocupação do solo e seus recursos naturais, mostrando que as formas e os objetos que antes não interessavam, ou que eram “ilimitados” e que hoje adquirem um valor inestimável, fruto, sem dúvida, da escassez ou do aumento de demanda desses recursos, outrora abundantes e que refletem na figura a seguir, que demonstra esse embate de forças entre os diversos usuários do “palco amazônico”. Assim, ao analisarmos a Amazônia


mostrou a diversidade de atores envolvidos é muito grande. As principais conclusões a que podemos chegar nesta breve análise, que nunca serão finais, pois a realidade na Amazônia se transforma a todo o momento, gerando mais conclusões esporádicas, é de que esta região, com seus recursos minerais, habitantes e sua biodiversidade florística e faunística, são, e sempre serão, de fundamental importância para a sociedade como um todo. Dito isto, a sociedade local, e também a sociedade exógena, deve sempre procurar a melhor forma de gerir e ordenar este importante espaço natural e humanizado e, diante desta complexidade, as ciências geográficas ou “geografizadas” constroem um campo profícuo de análise, interpre-

tação e intervenção, elaborando trabalhos em que as dinâmicas do “jogo” podem ser descortinadas para a compreensão da realidade. Christian Nunes da Silva que é Geógrafo, Doutor em Ecologia Aquática e Pesca (UFPA). Professor da Faculdade de Geografia e Cartografia (FGC/UFPA). Professor e Vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGEO/UFPA). Pesquisador do Grupo Acadêmico Produção do Território e Meio Ambiente na Amazônia (GAPTA/UFPA). Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) e da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC). e-mail: cnunes@ufpa.br.

HELLY PAMPLONA

“(...) como um espaço que representa a simultaneidade de interesses nacionais e locais, regionais e globais. Um espaço construído por populações diversas” (MELLO, 2006, p. 23) entendemos esta complexidade, mostrada pela figura, notando que, pela diversidade de atores envolvidos, a tendência para a região amazônica estimula os conflitos que, em alguns momentos, se afloram, ora se resolvendo, ora se confrontando, num jogo de recuos e avanços em prol de interesses particulares. Ações como a criação de UC, TI, elaboração de ZEE, são exemplos claros de políticas e programas de incentivo ao uso e ordenamento da região. Porém, ações como estas não devem deixar jamais de levar em consideração os habitantes e usuários, pois como a figura anterior

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GEOPOLÍTICA

Pedro Rocha Silva

bruno pellerin

E O RIO GUAJARa ONDE ESTa? Os estudos das bacias hidrográficas, apesar da importância que apresentam, não têm sido usados como merecem na avaliação da contribuição da potencialidade que possuem no desenvolvimento regional. O Estado do Pará, com seus 1.248.000 km2 possui características extraordinárias em termos geográficos. Faz parte do maior complexo fluvial do mundo que é a Bacia Amazônica, comandado pelo grande rio Amazonas, por onde correm 175 milhões de litros de água a cada segundos, formados por um complexo sistema de rios, em geral, muito tortuosos. Para o Estado do Pará foi escolhido o estudo específico da área das bacias dos rios Capim e Guamá pela significância que apresentam, principalmente, para a região Guajarina. Região esta que tem suas origens fundamentadas no planejamento do IBGE, em micro região homogênea, que recebeu a denominação em função do rio Guajará. E o rio Guajará onde está? Num resumo de interesse hidrográfico: um dos pré-requisitos básicos a considerar diz respeito às informações sobre bacias hidrográficas do Capim e Guamá e às mudanças havidas no decorrer do tempo – como foi o caso da revisão na literatura geográfica e histórica, feito por nós em 1988, que permitiu a descoberta do nome origi70 www.revistapzz.com.br

nal do rio que banha Belém pela sua parte meridional, conforme mostra a imagem a seguir. Ao realizarmos a pesquisa das referidas bacias, foi necessário recorrermos mais profundamente aos estudos sobre a análise de bacias hidrográficas nos seus vários parâmetros morfométricos, que tomaram um grande impulso a partir de 1945 com os trabalhos de Robert Horton , ao definir a Densidade Hidrográfica, mais tarde modificada por Arthur Strahler , como sendo a Lei da Composição Logarítmica para Hierarquias Fluviais. Para esse estudo foram também determinados vários índices, com a finalidade de melhor compreensão de suas formas, índices esses, como as de Lee & Salle , que expuseram e obtiveram o Índice de Forma, através de uma figura geométrica. Quanto menor for este índice tanto mais próximo da figura geométrica respectiva estará a forma da bacia. Miller, em 1953 , propôs também o Índice de Circularidade, que auxilia na caracterização da forma das bacias e Barreto et al determinaram o Coeficiente de Compacidade, importante na relação de escoamento da enxurrada e do deflúvio, sendo tanto mais intenso quanto mais compacta for a forma apresentada pela bacia. No estudo realizado, foi percebida a

existência de problemas da definição do sistema que, preliminarmente, se presume que seja o rio Capim e não o rio Guamá, como atualmente é conhecido. Mas, neste contexto aparece a origem do rio Guajará, que surge da junção da desembocadura desses dois rios, acerca da qual vários pesquisadores regionais relatam que sua origem foi dada pelas primeiras incursões dos colonos portugueses e pelos frades Capuchinhos que, depois da fundação de Belém, vieram instalar-se na nova Capitania, isso porque na época da colonização, o nome dos rios era definido por imposição, por mera vontade, sem regras precisas, e não por princípios técnicos científicos, consoante podemos ver nos relatos de Oliveira & Gomes (1926), no trabalho intitulado “Reconhecimento Geológico nos rios Guamá e Capim em 1922”, no qual esses dois autores fazem menção ao rio Guajará, que banha Belém. Segundo Pinto , “o rio Guajará é formado pela reunião de dois grandes rios, o Capim e o Guamá. Ele lança as águas na baía do mesmo nome, após banhar parte da cidade de Belém”. Ainda para este autor, este rio foi um dos primeiros a receber as incursões dos colonizadores portugueses que, depois da fundação da cidade de Belém, vieram instalar-se na nova Capitania, na


Localização do Rio Guajará - confluência do Rio Guamá/Rio Capim

Legendas: Limites Municipais

figura a seguir assinalamos a junção dos dois rios (Capim e Guamá) dando Origem ao Guajará. O historiador Ernesto Cruz diz, entretanto, “que apesar de ter o rio Guamá um curso bastante menor que o do rio Capim, quando ambas as águas se misturam e se lançam no Guajará, a cerca de uma milha de distância de Belém, o Guamá absorve a influência do Capim e passa a partir daí dar a própria denominação ao conjunto”. Para tirar as dúvidas com relação essa polêmica, fizemos uma pesquisa ao longo da calha do rio Guamá, como é conhecido. E constatamos que os ribeirinhos antigos chamam de rio Guajará e não Guamá. Isto prova a existência do rio Guajará.

Apesar das afirmações feitas há tantos anos por estas autoridades, respectivamente na geologia, na geografia e na história do Pará, mapas antigos comprovam a existência do rio Guajará, que dá origem ao nome baía do Guajará, e não, de Guajará, como aparecem em certas literaturas quando se referem a baía do Guajará. Como um desatencioso cartógrafo e, ou, um desenhista modificou o nome original do rio, colocando nos mapas e cartas o nome Guamá em lugar do nome do Guajará. Pelos parâmetros técnicos de análise de bacias hidrográficas, porém, a bacia do Capim é em ordem hierárquica classificada, superior a do rio Guamá, sendo de sétima ordem, com

Drenagem

maior número de segmentos, maior área 43.920 Km2 e com o rio principal tendo uma extensão aproximada de 967 km, enquanto que o rio Guamá na ordem hierárquica é de quinta ordem, com menor número de segmentos e sua área é de 9.510 Km2 e seu rio principal tem 700 km de extensão. Assim, o rio Capim deve ser considerado como o principal rio da bacia, sendo o Guamá um dos seus principais afluentes da margem direita. Torna-se, portanto, necessária a mudança de nomenclatura do rio Guamá de sua confluência com o rio Capim até a foz na baía do Guajará, para rio Capim ou voltar a origem histórica rio Guajará, que seria o certo. Por isso, insistimos: E O RIO GUAJARÁ ONDE ESTÁ? www.revistapzz.com.br 71


salão de humor

salão do humor Cartunistas renomados decidem o páreo!

E

nquanto o show de abertura da XVII Feira Pan Amazônica do Livro iniciava no auditório Benedito Nunes, no Hangar, uma comissão reunia-se com a missão de escolher, entre os 160 trabalhos selecionados, este ano pelo V Salão Internacional de Humor da Amazônia, os dois melhores trabalhos nas categorias de Tema Livre, Ecologia e Caricatura. Jean Galvão (SP), Ulisses Araújo (RJ); Cássio Loredano (RJ), Orlando Pedroso (SP) e François Gabourg (Martinica), cartunistas, caricaturistas, ilustradores, desenhistas e chargistas, renomados e reconhecidos por seus trabalhos independentes, em jornais, revistas e na internet, convidados para o júri desta edição, divulgaram o resultado ontem mesmo. Foi um julgamento tranquilo. “Ninguém tinha punhal, nem faca, foi pacífico”, brincou logo de cara o caricaturista Cássio Loredano, que participa pela primeira vez do Salão. “Foi tudo muito simples, fizemos alguns acordos, pois o nível é bom dos trabalhos, mas nós tínhamos um olhar parecido no pano-

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Luciana Medeiros* rama geral, de maneira que não houve briga nas decisões. Não é usual isso. Eu já fui jurado em Porto Alegre, em Teresina, em Piracicaba e no Rio, e sempre tem um pouco mais de briga, mas aqui foi tranquilo”, disse Loredano, um dos mais antigos e consagrados dos convidados deste ano. Na categoria Tema Livre ganharam os cartuns “Violonista”, de Dereck (Brasil), em 1º lugar, e “Expulsão”, de Jota A. (Brasil), em segundo. No tema Ecologia, os premiados foram os cartunistas Bíer (Brasil), com Árvore Envergonhada, em 1º lugar e Liang Junqi (China), com “Mutation P.R”, em 2ºlugar. Na categoria caricatura, os prêmio foram para Pakdel com “Humphrey Bogart” e, 1º lugar e Yaser, com Clint Eastwood, em 2º lugar, ambos desenhistas iranianos. Para o júri a escolha deste ano foi bem difícil pelo alto nível das inscrições. “Na categoria cartum livre tinha muita coisa boa, também de outros países, coisas maravilhosas. Algumas vezes há um número grande de inscrições, mas nem sempre tem tanto trabalho bom assim”, disse Jean logo após a reunião que defi-

niu os vencedores. O tema Ecologia, mais uma vez, com um grande número de inscrições, também não foi uma tarefa fácil. “É um tema batido, ninguém pode escapar do lugar comum, está todo mundo pensando, ouvindo e dizendo mais ou menos a mesma coisa, e isso recai sobre o conjunto, um pouco repetitivo às vezes”, comentou Loredano. “Outra coisa que eu notei é que o pessoal está gostando de trabalhar com técnica de computador, resultando em algo mais vistoso, e isso tira o foco da própria ideia, muitas vezes. Eu também gostei bastante de alguns trabalhos, e por acaso o pessoal também gostou. Adorei o resultado também de caricatura. E a caricatura do Bogart, todo mundo ficou de acordo” concluiu Cássio, que está vindo pela primeira vez a Belém. “É, infelizmente foi assim, a coisa mais gostosa da votação é o pau, é a briga... não, não, brincadeira”, tirou sarro Orlando Pedroso. “Houve consenso de que os trabalhos escolhidos foram re-


Caricatura, Pakdel Humphrey Bogart, Iran, 1ยบlugar

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salão de humor Página à esquerda, caricatura,Yaser, Clint Eastwood, Iran, 2ºlugar. Página à direita, tema livre, Dereck, Brasil, 1º lugar.

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sal達o de humor

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Foram convidados a compor o júri desta edição do prêmio, Jean Galvão (SP), Ulisses Araújo (RJ), Cássio Loredano (RJ), Orlando Pedroso (SP) e François Gabourg (Martinica), cartunistas, caricaturistas, ilustradores, desenhistas e chargistas reconhecidos por seus trabalhos independentes em jornais, revistas e na internet

Tema livre, Jota, A EXPULSÃO, Brasil, 2º lugar. Ecologia, Bier, ÁRVORE ENVERGONHADA, Brasil, 1ºlugar. Liang Junqi MUTATION, PR, CHINA, 2ºlugar.

almente os melhores. Teve alguns empates, fizemos votação. No cartum eu fiquei muito surpreendido, positivamente. Fazer piada no Brasil já foi uma tradição muito grande, mas desenhar piada é uma coisa que se perdeu um pouco, com a coisa da Ditadura, tudo foi ficando mais pesado e agora me dá impressão de que isso está voltando, em boa fase. E digo ainda mais, Belém especialmente, tem ótimos cartunistas. No Brasil tem alguns bolsões desses caras que fazem piada. Belém e Curitiba são dois celeiros. São os dois lugares no Brasil em que tem o maior número de cartunista desse estilo”, encerrou o papo. Os trabalhos vencedores, e todos os demais selecionados pelo V Salão Internacional de Humor da Amazônia, puderam ser vistos até o final da Feira Pan Amazônica do Livro, no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia, com entrada franca. Os cartunistas convidados permaneceram em Belém por mais alguns dias e, junto com outros cartunistas paraenses, como ATorres, J. Bosco, Waldez, Sérgio Bastos, Biratan Porto, entre outros, participam da programação de workshops e mesas redondas que o salão oferecia, como os Workshops sobre o Desenho de Humor e Caricatura com Ulisses Araújo; e sobre “A ilustração e a Liberdade de Desenhar” com Orlado Pedroso. Além dos cursos, houve mesa redonda sobre «O Papel do Humor Gráfico na Contemporaneidade» com François Gabourg, Cássio Loredano e mediação de: J.Bosco; “Desenhos de Humor e Novos Mercados” com Sérgio Bastos, A. Torres, Waldez e Biratan. Mediador: J.Bosco.

Luciana Medeiros é formada em Comunicação Social pela UFPA. Trabalha com cinema, produção e assessoria de comunicação em projetos culturais.

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moda sustentรกvel

Moda

paulo santos

reci 78 www.revistapzz.com.br


oda

reciclável A estilista paraense SANDRA MACHADO Desenvolve uma arte conceitual E INCORPORA a moda SUSTENTÁVEL COM A CRIAÇÃO DE PEÇAS EM materiais recicláveis e desponta no cenário internacional da moda

HELLY PAMPLONA

Sandra Machado

Modelo Anabella Araújo. www.revistapzz.com.br 79


moda sustentável Até o ano de 2000 eu encarei a criação de roupas como um hobby, no máximo como atividade paralela, já que minha carreira de etnóloga e educadora ambientaram o meu ideal.

2 a exposição

A

estilista que assina figurinos impressionantes como a segunda pele indígena-futurista da Gang do Eletro e  Iva Rothe tem se destacado para além dos limites do estado. O uso de padrões indígenas e animais da fauna amazônica construiu uma identidade forte, mas que ultrapassa o regionalismo: “Gosto de misturar materiais orgânicos e sintéticos, como couro de peixe e lycra, sementes com cristais”.  ( Daniela Dacorso / Agência O Globo)” A Moda Sustentável é uma vertente especial do meu trabalho, com  a criação de peças em materiais recicláveis como as eco-bags  e capa de chuva de banner, roupas em crochê de fita K7. Além das vestimentas meu trabalho de pintura em seda tem tido uma forte aceitação na França (Paris, Orly e Marselha), onde já realizei 5 exposições de painéis de pintura em seda com  tema étnico, sendo a mais recente em importante galeria em Marselha, em maio de 2010.

1 A Estilista Meu trabalho como estilista teve uma trajetória clássica. Tenho duas irmãs mais velhas que eram já consumidoras de Moda, por isso cresci em meio a revistas, tecidos, assessórios e adorava ver minhas irmãs se produzirem. Ao mesmo tempo ficava frustrada por ser obrigada, por minha mãe a vestir vestidos rodados e engomados, quando o que eu queria era usar os vestidos de shape linha ‘A’ no estilo de Pierre Cardin, Mary Quant e Courrèges. Quando ganhei minha primeira boneca Suzi, em 1968, passe a fazer para ela as roupas que eu gostaria de vestir. Durante toda a minha adolesência eu costumisava minhas próprias roupas. Estudava em colégio de freira e utilizava as técnicas aprendidas nas aulas de bordado, crochê e tricô, para incrementar minhas roupas e assessórios. 80 www.revistapzz.com.br

Minha primeira exposição foi em Abril de 2001 no Casanostra Café, em Belém mostrando uma Coleção de Corset e Hand Bags. Em Santos, SP Faz uma Exposição com as vestimentas do meu acervo profissional e sedas pintadas à mão na Pinacoteca Benedito Calixto, de 7 a 23 de novembro de 2008. Essa exposição recebeu dois prêmios importantes da Baixada Santista, Prêmio Plínio Marcos e Prêmio Braz Cubas, na categoria artes visuais.

3 França Na França, em Paris fiz minha primeira exposição internacional na galeria da Bibliothèque F. Mitterrand - de 11 a 29 de outubro de 2005 - A segunda na Mediathèque de Bangnolet , um distrito de Paris, de 10 de dezembro - 2005 a 15 de fevereiro de 2006 - Outra na Galeria da Bobliothèque de Faidherbe em Paris, de 8 de dezembro - 2006 a 4 de fev. de 2007. Uma em Orly, de 28 de fevevereiro a 19 de março 2007 e a mais recente de 29 de abril a 21 de maio de 2011 na galeria L’Alcazar, em Maseille. As exposições na França foram todas de painéis de seda pintada à mão com temas de pintura corporal Kayapó de Kadiwéu e Mitologia Mehináko do Xingu.

4 Santos - SP Estou, desde o final de 2007, morando em Santos SP. Escolhi morar aqui pelo fato de ser uma cidade de litoral, com uma ótima estrutura urbana, uma enorme facilidade de deslocamento e que me possibilita usufruir das vantagens de São Paulo sem o ônus do trânsito e da poluição. Entre minha casa e a primeira estação de metrô são 50 minutos a 1h. Vim para São Paulo seguindo o Canselho da “papisa” Cristina Franco. Tive

uma ótima acolhida por pessoas que admiro e respeito, do meio da Moda em Sampa, formadores de opinião como Christine Ufon e Paulo Martinez. Vivo exclusivamente do meu trabalho com moda, o design têxtil e a criação de figurinos. Trabalho só e banco minhas produções.

5 Marketing de boca-a-boca Como meu seguimento é art wear e Couture, trabalho com peças únicas, sob medida. Mantenho uma excelente clientela na França para meus lenços, echárpes e foulards (um tipo de echárpe masculino, que substitue a gravata) e meus painéis de seda. Neste primeiro semestre visto uma noiva em Santos e uma em Sampa. Tenho feito figurinos para teatro aqui, também. Como não cheguei trazendo capital de investimento e não tenho nenhum tipo de investidor, os contatos se fazem no boca-a-boca, devagar e solidamente, sendo o meu melhor marketing a qualidade e o apelo estético do meu trabalho.

6 Conceito Acho que posso classificar o conceito que rege minhas criações com étnico, embora nem sempre este étnico esteja enraizado na floresta ou em populações indígenas. Há também o étnico urbano. Posso afirmar com certeza que toda criação minha é antes ‘sentida’ do que ‘pensada’. Me alimento do que me cerca e só produzo baseada no que me toca. Me inspira mais nas artes e expressões que na própria Moda. A partir dessa inspiração inicial, bruta, é que vou buscar as técnicas mais adequadas para dar forma a essa inspiração. Minhas peças nascem de uma necessidade visceral de expressão, acho que é por isso que toca as pessoas.

7 Sustentabilidade Sustentabilidade é algo que faz parte de mim há tento tempo que já não “penso’ em sustentabilidade, mas vivo. Sou uma das pioneiras em Educação


Modelo Anabella AraĂşjo. www.revistapzz.com.br 81


moda sustentável Ambiental no Brasil. Antes de existir cursos formais de EA, fui formada por Lou Ann Dietz do WWF e 1996 fui monitora dos projetos de EA do WWF no Brasil. Todas as minhas ações estão firmadas no conceito da sustentabilidade, inclusive a Moda. Quando em meados dos anos 2000, passou a ser “moda” a “moda sustentável”, pensei “antes tarde que nunca”. O brasileiro é um povo que desperdiça muito, em tudo. E houve durante muito tempo, e ainda persiste, o ideia de que não se podia repetir roupa. Que justamente as peças couture, as roupas de festas (mais caras) só se usava uma vez. Isso é absurdo e, felizmente, essa ideia tem caído por terra. A sustentabilidade na Moda está presente desde o material, como ele foi produzido, na sua manufatura e no uso. Acredito que o mundo vai se voltar para a sustentabilidade, se não pela consciência, pela necessidade.

1

8 A indústria Criativa Possibilidade há, quando a fonte de matérias primas diferenciadas, criatividade, tradição, história, cultura. Não só na Moda mas em vários outros seguimentos. Agora as dificuldades é que não entendo. Porque não existe um pólo industrial no Pará? Porque o Pará é como o “quintal do Brasil” de onde se tira tantas matérias primas e os produtos manufaturados retornam tão encarecidos pelos custos de transporte? Isso não me cabe responder.

9 A moda e as artes visuais A relação entre o que eu crio e as arte visuais incluído a fotografia e a arquitetura pela qual sou apaixonada são fontes profícuas de inspiração. E ainda há a parceria entre meu trabalho de Moda com os fotógrafos que me ajudam a expressar minha criação. Nisso tive muita sorte, pois o primeiro a fotografar meu trabalho foi o Luiz Braga. Com ele aprendi muito, principalmente a não transigir com o “mais ou menos”. Aprendi que meu trabalho merece e exige respeito. Sou muito grata a ele e me orgulho muito dos trabalhos que fizemos juntos. 82 www.revistapzz.com.br

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A modelo Anabella Araújo, veste a coleção de crochê.


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A relação entre o que eu crio e as arte visuais, incluído a fotografia, pela qual sou apaixonada, e a arquitetura, é de fonte profícua de inspiração. www.revistapzz.com.br 83


moda sustentรกvel

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10 Marketing Não sou muito boa de marketing, no sentido de que não me ocupo com a disciplina que deveria. Tenho um blog - que se encontra abandonado – transferindo para minha página no Facebook, onde escrevo diariamente e mostro não só meus trabalhos, mas os artistas e obras que me inspiram. Pretendo, assim que puder, ter um profissional que cuide para mim dessa parte.

11 Estilistas

Um trabalho atemporal que impõe respeito por onde eu mostro, seja em São Paulo ou em Paris. Já com a música, o teatro o cinema e a dança, a relação é de parceria criativa, através do figurino. Sou absolutamente apaixonada por criar figurinos, dar forma visual, vestir um espetáculo. Tenho uma grande facilidade em interpretar visualmente o trabalho de artistas tão diferentes entre si como, por exemplo Iva Rothe e a Gang do Eletro, Marco André e Juliana Sinimbu.

Os criadores de Moda contemporâneos que mais gosto são: Alexander McQueen, Jean Paul Gaultier, Lino Villaventura e Christian Lacroix. Estes são os contemporâneos cujas obras me emocionam como qualquer obra de arte. São artistas que utilizam o corpo como suportes de suas obras de arte.

Modelo kamila salazar

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moda sustentรกvel

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“ Fotos com a modelo Carolina Menezes

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moda sustentável 1

1. A relação entre o que eu crio e as arte visuais, incluído de fonte profícua de inspiração 2. A fotografia, pela qual sou apaixonada, e a arquitetura. Fotos com a modelo Anoã Machado Vanelli.

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FOTOENSAIO

Bruno Cecim

fotojornalista Paraense nascido na cidade de Belém, o fotógrafo Bruno Cecim veio ao mundo no ano de 1978. Parte da infância foi passada em Salvador. Na adolescência, estudou um ano em Washington (EUA), mas foi em São Paulo que o fotógrafo começou a trilhar seus primeiros passos no mundo das imagens.

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ilho da historiadora Silvia Castelo Branco e do escritor Vicente Franz Cecim, a arte, em suas mais diversas formas, sempre esteve presente na vida de Bruno. O ambiente familiar ainda lhe proporcionou estreita convivência com a arte. Cinema, literatura e artes plásticas sempre foram assuntos de debate dentro de casa. Foi por meio dessas conversas, aliás, que o fotógrafo descobriu o mundo da imagem. Nesse período, contou também com a ajuda do fotógrafo italiano Lamberto Scipioni, de quem foi assistente em São Paulo. Depois de participar da realização de alguns vídeos-documentários e com o objetivo de trabalhar com direção de fotografia no cinema, Bruno sentiu a necessidade de aprimorar o olhar. A fotografia seria apenas um caminho. A descoberta, no entanto, foi tamanha, que o fotografar agora é tido como sua principal atividade. Dedicou-se então, ao estudo da fotografia (fez diversos cursos no Senac, Sesc e etc), o fotojornalismo foi a ferramenta escolhida por Bruno para treinar o olhar. Depois, da escolha, o suor. Na agência de notícias Futura Press, Bruno descobriu a possibilidade do olhar rápido, preciso, mas ao mesmo tempo sensível, poético e humano. Teve fotos publicadas em veículos como Folha de S.Paulo, Correio Braziliense, Diário do Nordeste, Agora

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Carlos Pará

Bruno Cecim recebeu convite para participar da mostra Foto Retrospectiva – 2007, organizada pela Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de São Paulo (Arfoc-SP), no Memorial da América Latina . A foto escolhida foi “Compaixão” , publicada em matéria sobre o enterro de adolescentes que foram vítimas de uma chacina na cidade de Votorantim (interior de São Paulo). São Paulo, Época e IstoÉ!. Seu trabalho é conhecido em diversas partes do país. Prova disto, foi o convite que recebeu para participar da mostra Foto Retrospectiva – 2007, organizada pela Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de São Paulo (Arfoc-SP), no Memorial da América Latina . A foto escolhida foi “Compaixão” , publicada em matéria sobre o enterro de adolescentes que foram vitimas de uma chacina na cidade de Votorantim (interior de

São Paulo). Foi esta visão diferenciada que rendeu a ele quatro vezes o Prêmio ASI de Direitos Humanos, conferido pela Associação Sorocabana de Imprensa. As fotos premiadas foram “Protesto por moradia” (2006), “A longa estrada do saber” ( 2007) e “Marcas nazistas na região” (2009), “Vivendo nas Ruas” (2010) e no mesmo ano, recebeu o Prêmio Jornalístico APCD Sorocaba, com a foto “Boca saudável”. Em 2010, Coordenou o núcleo de fotografia de Votorantim, pela Secretaria de Cultura e prefeitura de Votorantim “As imagens começaram a fazer parte da minha vida quando eu tinha poucos meses de nascido. Quando cresci, já me vi atuando no cinema. Assisti menino o filme Malditos Mendigos, que meu pai Vicente realizou nos anos 70, com a assistência de produção da minha mãe Sílvia. Na cena, sob um sol ardente, apareço nu, no pedestal da estátua da República, na praça do mesmo nome, em Belém. Acho que minha paixão pelo cinema e pela fotografia veio dai. Além disso, nosso pai, meu e dos meus irmãos, nos levava desde pequenos para assistir grandes filmes clássicos nos cine clubes, com ele. Lembro que vimos todo um ciclo de Cinema Expressionista alemão: o Nosferatu, de Murnau, O Gabinete do Doutor Caligari, de Norbert Wiener. São imagens que nunca esqueci.


Chacina de Votorantim

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As imagens começaram a fazer parte da minha vida quando eu tinha poucos meses de nascido. Quando cresci, já me vi atuando no cinema. Assisti menino o filme Malditos Mendigos, que meu pai Vicente realizou nos anos 70, com a assistência de produção da minha mãe Sílvia. Na cena, sob um sol ardente, apareço nu, no pedestal da estátua da República, na praça do mesmo nome, em Belém. Acho que minha paixão pelo cinema e pela fotografia veio dai. Além disso, nosso pai, meu e dos meus irmãos, nos levava desde pequenos para assistir grandes filmes clássicos nos cine clubes, com ele. Lembro que vimos todo um ciclo de Cinema Expressionista alemão: o Nosferatu, de Murnau, O Gabinete do Doutor Caligari, de Norbert Wiener. São imagens que nunca esqueci

Índios Kuikuro (Alto Xingu), em visita à Toca da Raposa, São Paulo. www.revistapzz.com.br 93


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AS VIAGENS

Depois disso, passei por muita coisa e por muitas cidades. Meus olhos viram muitas outras coisas, ao vivo. Acho que devido aos meus pais serem se separados tive varias casas, sempre mudado de cidades também. Nasci em Belém, mas fui morar em Salvador, na Bahia, depois morei um ano nos Estados Unidos da América, voltei para o Brasil e 96 www.revistapzz.com.br

VER COM AALMA passei um tempo em Brasília, depois vim morar em São Paulo, na capital, onde iniciei minha formação profissional. E agora estou morando no interior paulista, na cidade de Sorocaba. Essas andanças me fizeram gostar de viajar e de conhecer novos lugares. Isso é uma coisa que amo muito, viajar e descobrir cidades e novas paisagens.

Quando você está fotografando, você não só fotografa com o dedo e com a câmera, mas usa a sua alma. O Brasil é muito bonito pode se fotografar muitas coisas aqui, e o povo brasileiro, a raça brasileira é uma maravilha. Poder cobrir e reproduzir esta cultura tão rica é um privilegio. O grande fotógrafo Robert Capa di-


zia: “Se sua foto não está boa, é porque você não chegou suficiente perto.” Você deve se envolver com o que faz, tomar uma posição, escolher um campo onde vai atuar. Pois para que lado vai a informação, se você não tem opinião sobre ela? Você tem que se conhecer e saber o que você quer, para poder contar sua história. Colhemos

imagens para as pessoas ausentes. É uma profissão muito boa, fascinante, seu compromisso é transformar as coisas em informação. Eu sou um fotografo que começou em uma agência de notícia e acho que isso me ajudou, porque me deu mais agilidade e vontade de fazer sempre o melhor e não me acomodar.

Colhemos imagens para as pessoas ausentes. É uma profissão muito boa, fascinante, seu compromisso é transformar as coisas em informação

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Bispos em visita do Papa no Brasil.

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bruno pellerin

José Maria de Castro Abreu Jr.*

O ASILO DAS MADALENAS 1921, época que Meretriz tinha caderneta de identidade fornecida pelo Instituto Médico Legal e que tinha escrito no seu cabeçalho: “Serviço Medico-Policial das Meretrizes, profilaxia das doenças venéreas e fiscalização da prostituição”

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história dos lugares de alguma forma tenta resistir às modificações e, às vezes surpreendentemente, consegue se preservar parcialmente em objetos que insistem em permanecer em espaços que se trasnformaram com o passar dos anos. Qualquer um que atravesse a entrada principal do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB) se depara com uma imagem de São Sebastião, mas poucos têm idéia que aquele santo está ali muito antes do hospital sequer existir, testemunha silenciosa dos dias que há muito se foram. Aquela peça sacra talvez seja tudo o que restou do Hospital São Sebastião, um dos hospitais que havia ali naque-

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le lugar, juntamente com o Domingos Freire e o São Roque, este funcionava nas proximidades, em uma casa alugada. Todos desaparecidos praticamente sem deixar rastros, como que amputados da memória coletiva. Cada um merecia ser abordado individualmente. Entretanto, por suas próprias peculiaridades e por representar um período da Saúde Pública no estado, abordaremos aqui o Hospital São Sebastião. Construído em apenas três meses para isolar os pacientes com varíola por volta de 1900 pela firma Manoel Pedro & Cia, era uma edificação pavilhonar de madeira, pintada em tons claros, medindo 120 metros de com-

primento por 22 de largura projetada pelo engenheiro Luiz Maximino de Miranda Corrêa sobre indicações do governador e também médico José Paes de Carvalho. Constituía-se de três corpos independentes uns dos outros ligados por varandas cobertas. No primeiro corpo estavam à recepção, aposentos das enfermeiras, capela sob a invocação de São Sebastião, farmácia e gabinete do médico. No segundo ficavam as grandes enfermarias e no terceiro estavam os quartos particulares para pensionistas, refeitório, cozinha e dispensa. Tinha água encanada e luz elétrica, coisa pouco comum na época, ainda mais levando-se em conta sua distância do centro


da cidade. Era administrado pela Santa Casa de Misericórdia até o ano de 1921, quando adquire nova função ao ser cedido ao serviço sanitário do Estado. O médico Heráclides César de Souza Araújo, então chefe do Serviço de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas no Pará, instala ali o hospital de isolamento para contagiantes venéreos, destinado exclusivamente para o tratamento de meretrizes. Como as irmãs de caridade que administravam o hospital se recusaram a prestar assistência à nova clientela, Heráclides fez com que as freiras desocupassem o estabelecimento, que passou a ter administração leiga e logo

profissão meretriz Em cima, o Instituto de Profilaxia das Doenças Venéreas do Estado do Pará (Souza Araújo, 1922) servia para o isolamento de contagiantes venérios, destinado com exclusividades para as meretrizes, atualmente o prédio é o silogeu da Academia Paraense de Letras - APL. Ao lado, capa de Carteira de identificação de meretriz (Souza Araújo, 1922). Talvez venha daí a expressão “Fulana é Prostituta de Carteirinha”.

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José Maria de Castro Abreu Jr.* teve sua capacidade ampliada de 35 leitos para 80. O médico Raimundo da Cruz Moreira assumiu a função de diretor e o estabelecimento ganhou o apelido de “Asilo das Madalenas” denominação pelo qual ficaria conhecido nesta nova fase. Na época cabia à polícia fazer o recenseamento de todas as meretrizes da capital, as quais se tentava que ficassem localizadas em um único bairro da cidade, as chamadas “zonas”. Estas possuíam cadernetas de identidade fornecida pelo Instituto Médico Legal com o seguinte cabeçalho “Serviço Medico-Policial das Meretrizes, profilaxia das doenças venéreas e fiscalização da prostituição”, daí talvez advenha à expressão “fulana é prostituta de carteirinha”. Estas eram obrigadas a se apresentarem semanalmente para exame médico no Instituto de Profilaxia das Doenças Venéreas. Havia 772 “mulheres públicas” matriculadas O Instituto funcionava no mesmo prédio onde hoje se localiza a Academia Paraense de Letras na rua João Diogo. Das oito às doze horas eram atendidos homens, mulheres e crianças e o turno da tarde era dedicado ao atendimento exclusivo das meretrizes; todo serviço era gratuito. O prédio era bem equipado possuindo nos jardins inclusive biotério com carneiros que forneciam sangue para reação de Wassermann. As prostitutas que apresentassem doenças necessitando de isolamento eram internadas compulsoriamente no Hospital São Sebastião, mas segundo o próprio Heráclides de Souza Araújo em relatório, no final das contas o resultado era sempre positivo. “De regra elas saem saudosas, e voltam muitos domingos a fio, visitar o estabelecimento e levar mimos as enfermeiras”, escreveu, afirmando ainda que muitas vezes era o hospital que lhes matava a fome, sendo comum que algumas se oferecessem para permanecer prestando serviços voluntários apenas em troca de comida. A maioria dos casos admitidos era de lesões sifilíticas ou neisséricas. Nesta nova fase as instalações do Hospital foram ampliadas e algumas salas receberam nomes como “Sala Eduardo Rebello”; a recepção passou 102 www.revistapzz.com.br

a se chamar “Carlos Chagas”; as enfermarias ficaram conhecidas como “Gaspar Viana”, “Werneck Machado” e “Silva Araújo”. Também foi criado um laboratório de pesquisa bacteriológica denominado “Oswaldo Cruz”, uma sala de pequenas cirurgias denominada “Souza Araújo”, uma moderna lavanderia com estufas francesas da marca Geneste, Hercher & Comp., para desinfecção de roupas ao calor de 120 graus, e banheiros especiais para tratamento sulfuroso das dermatoses seguindo os modernos preceitos médicos de uma era pré-antibióticos.

Aliás, lutar contra infecções bacterianas e treponêmicas numa época em que a penicilina não era sequer sonhada constituía-se em um grande desafio para o médico e um grande tormento para o paciente. O tratamento era à base de lavagens vaginais, uretrais e vesicais, banhos sulfurosos e com permanganato, curativos, cauterizações, injeções intravenosas de Neosalvarsan, intramusculares e subcutâneas de sais mercuriais, sais de quinino, óleo canforado, estricnina, ergotina, adrenalina e morfina. Havia, também, espaço para modernidades médicas da


profissão meretriz Hospital São Sebatião (Souza Araújo, 1922) funcionva nas proximidades do Hospital Universitário João Barros Barreto, em uma casa alugada. Construído em apenas três meses, por volta dos anos 1900, pela firma Manoel & Cia e pelo engenheiro Luiz Maximino de Miranda Corrêa.

época como aplicações de “Eletricidade Farádica”, o que hoje conhecemos como “bisturi elétrico”. É claro que um programa de saúde que previa um hospital destinado à “mulheres públicas” era uma questão polêmica por natureza. Souza Araújo defendia-se argumentando que não se tratava de uma apologia à prostituição, mas uma questão puramente de saúde pública e vigilância sanitária. Planejava inclusive no hospital um curso de alfabetização para as pacientes e atividades de reabilitação como corte e costura ou outros ofícios que pudes-

sem reintegrá-las à sociedade. Reconhecia ainda as dificuldades do programa em cadastrar as ditas cortesãs de luxo, que definia como mulheres recebiam em casa “certos amigos” e que freqüentavam, “às vezes”, uma casa de “rendez-vous”. Quando muito, conseguia que elas freqüentassem o Instituto duas vezes por mês, desde que não fossem fichadas pela polícia e fossem atendidas no horário da manhã, turno que era dedicado as ditas “pessoas comuns”. Embora a atitude de segregar as prostitutas possa soar, hoje, como politicamente incorreta, o fato deve ser analisado dentro de seu contexto histórico, sabendo-se que pelas primeiras décadas do século XX uma onda higienista-eugênica, de certo modo, teve seu momento no Brasil conquistando muitos adeptos, principalmente entre os formuladores das políticas de saúde. E como a descontinuidade das ações é a principal característica dos programas de saúde pública no Brasil, o Hospital São Sebastião pouco tempo depois foi transformado em referência para tratamento de tuberculose, as diretrizes propostas por Souza Araújo foram abandonadas e as doenças venéreas passaram atender pela sigla de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). Anos depois, em 1959, já considerado como “imprestável para qualquer finalidade” e “inteiramente inadequado à função que lhe foi emprestada a título precário”, o velho hospital foi demolido. Alterar a referência de um hospital de acordo com as necessidades epidemiológicas da ocasião, sem se preocupar com ações que tenham continuidade e mudar o nome de doenças pode até alterar os números oficiais, mas nem sempre se traduz em modificações para melhor no perfil epidemiológico de uma comunidade. Uma lição de política sanitária que até hoje parece difícil do poder público assimilar.

José Maria Junior é Médico Patologista, Professor de medicina legal na UFPa, Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará.

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artes pláticas

Tikka Sobral

o exílio eacôr TIKKA INSPIRA-SE EM ALBERT CAMUS PARA ABORDAR, COM DISTANCIAMENTO, O METAFÍSICO E A MATÉRIA, ÀS VEZES AMBOS, PARA CONSTRUÍR, SEM DÚVIDA, A SUA PRÓPRIa MANEIRA DE EXISTIR.

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ultimo trabalho de Tikka Sobral, “O exílio e a cor” é composta por uma série de desenhos inspirados em personagens de seis contos do escritor francês Albert Camus. Em contextos completamente distintos, as imagens abordam o exílio físico ou espiritual, e às vezes ambos, sugerindo o que as pessoas utilizam como suporte ou complemento para suas próprias existências. Ganhador do Nobel de Literatura de 1957, Albert Camus é indiscutivelmente um dos maiores escritores de língua francesa do século 20. “O exilio e o Reino “ é o ultimo livro de ficção publicado do escritor e é o único livro de contos. “A Queda” (1956) era um dos textos que deveria fazer parte da coletânea, mas Camus acabou transformando-a em um romance. Ao comentar o livro, Satre diz que Camus jamais se valeria da mesma técnica narrativa que empregava naquele romance.

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Clemente Schwartz Uma das características de Camus é que ele se renova a cada livro. Assim como, Tikka sobral, se renova a cada exposição. A coletânea de seis contos: “A mulher Adúltera”, “O Renegado ou Espirito Confuso”, “Os Mudos”, O Hóspede, “Jonas ou O Artista no Trabalho” e “A Pedra que Cresce” é uma síntese da obra de Camus. O narrador explora os temas que sempre o atormentaram, como a solidão, o destino do homem diante de um mundo indiferente e o absurdo da condição humana. O exílio fala sobre a solidão do estrangeiro, de sua marginalização e recusa a representação de um papel que a sociedade lhe atribui, enquanto que o “reino” é o paraíso da história particular universal, lugar onde o homem encontra a suposta felicidade. Tikka sobral, vem com uma verdadeira alteridade dinâmica e conjuntural apropriando-se da obra de Albert Camus . Onde nos traz

“O exílio e a Cor”, utilizando-se do próprio exílio para seu processo criativo e onde seu “reino” ainda é inabitual. “Meus trabalhos são processados por elementos da minha subjetividade e desenvolvidos como se fossem outros. Dessa maneira começa então um processo interminável de desvelamento de sentido, a recriação de minha versão sobre posição de significados. Uma alteridade dinâmica e conjuntural. Nesta atividade de apropriação, utilizo meu próprio exílio em uma analogia com Camus, para produzir minhas obras”, explicou Tikka Sobral. Em “O exílio e a Cor”, a artista apresenta as aproximações e limites entre arte visuais e literatura, resultado de experimentações estéticas derivadas desse encontro, tendo como suporte a técnica mista sobre papel. Para isso, Tikka estudou cada um dos personagens dos contos que se deparam com situações


Foto: Bruno pellerin

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A MulherAdúltera Pareceu-lhe que curso do instante, ninguém envelheceria mais, nem morreria. Em todos os lugares, de agora em diante, a vida estava suspensa, a não ser no seu coração, onde, nesse mesmo momento, alguém chorava de tristeza e de deslumbramento ...Ela andava sem ver ninguém, curvada sob um imenso e brusco cansaço, arrastando o corpo cujo peso lhe parecia agora insuportável...certamente não a amava . o amor, mesmo cheio de ódio não tem essa fisionomia descontente...

Os Mudos ...Yvars só sentia o seu cansaço e o coração sempre apertado. Mas nada tinha a dizer e os outros também não. Nos seus rostos taciturnos, liam-se apenas tristeza e uma espécie de obstinação.

Jonas ou o Artista no Trabalho De um modo simples, gozava essa emoção vazia, com as mãos ociosas, sem empregá-la numa obra. Mas era o que mais se aproximava da alegria para qual vivia, e agora ele passava longas horas sentado sonhando, em lugares enfumaçados e ruidosos

O Renegado ou Espírito Confuso Há tanto tempo que espero ... nunca um Deus me possuiu tanto, nem escravizou, toda a minha vida, dias e noites lhes eram consagrados, e a dor e a ausência de dor – não seria isso alegria –

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de exílio. “A mostra fala sobre a solidão do estrangeiro, de sua marginalização e recusa à representação de um papel que a sociedade lhe atribui. Enquanto o reino é o paraíso da historia particular universal, lugar onde o homem encontra a suposta felicidade. Os contos narrados exploram os temas que sempre o atormentaram, como a solidão e o destino do homem diante de um mundo indiferente, o absurdo da condição humana. E para mim o sentindo de autoria é existencial. Trata-se de se livrar por meio desses processos uma sobrecarga psicológica. Expressar-se é uma urgência inqualificável”, concluiu a artista. O que se expõe em “O exílio da Cor”, é o mais puro encontro poético-conceitual, representado nos 21 trabalhos em técnica mista na qual a base é o traço ( o desenho) sobre papel, Tikka Sobral, experimenta as possibilidades do desenho e da pintura enquanto discurso estético na contemporaneidade, reinventando significados dentro da obra de Camus. Ela pensa a pintura como dispositivo conceitual de discurso e diálogo ao se apropriar de uma obra em outra

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linguagem, questionando os limites da arte contemporânea através do traço e da cor, contribuindo para as discussões sobre o papel da pintura na arte contemporânea. Para a artista o sentido de autoria é existencialista. Trata-se de se livrar por meio desses processos de uma sobrecarga de urgência inqualifícavel. Tikka Sobral, em suas construções pictóricas se apropria da realidade, gerando relações estéticas confusas, caóticas, dramáticas, complexas e, no entanto, coerentes, conscientes de seu todo. A exposição é uma realização da produtora “A Senda”, com o patrocínio da Fundação cultural do Pará Tancredo Neves que vem apoiando, além desta, diversas linguagens artistísticas no Estado. A curadoria e desenho de montagem foram feitos por Ramiro Quaresma e a remontagem desta exposição será em Agosto deste ano, na Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves. Clemente Schwartz é cator, ator, jornalista e produtor cultural.


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