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Olh de peixe

I X

B i e n a l

I n t e r n a c i o n a l

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D a n รง a

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C e a r รก 1


Casa Civil

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IX bienal internacional de dança do Ceará

Eu me importo com você Carta aberta, de Isabel Gurgel, enviada em 2011, a David Linhares, diretor da Bienal de Dança do Ceará.

Caro David, Eu me importo com você. Li a frase em um texto que a Andréa Bardawil me enviou por e-mail há uns 15 dias. Havia encontrado Andréa no aeroporto, ela chegando do Norte com Graça Martins e Sâmia Bittencourt. Viajando para dançar. Eu chegando do Sul. Que geografia espantosa a do Brasil! Nossa escala básica vai das vastidões da Amazônia ao microscópico mundo de uma gota d’água sobre uma vitória-régia. Não podemos pensar pequeno vivendo em um país tão grande! Eu me importo com você. A frase estava em uma cartaz feito à mão por um manifestante do Ocupe Wall Street. A ativista canadense Naomi Klein diz que é a afirmação mais radical que ela viu nos últimos tempos. Adestrados que estamos para não olhar o outro, para não reconhecê-lo, para não nos perceber a nós mesmos como estranhos, como a mais radical experiência de alteridade, encontrar na rua um cartaz feito em casa Eu me importo com você pode ser o que foi um dia a brisa do Nordeste para um poeta como Manuel Bandeira. Uma coisa da qual dá para se viver. Sim, isso me ajuda a viver. E é só a vida que importa, não é, David? Hoje cedo quando você ligou para saber do texto desejado para ler na abertura da Bienal, eu tive vontade de lhe dizer: David, eu me importo com você. Eu me importo com o modo como estamos a viver. Eu me importo com a Bienal de Dança. Eu me importo com o Theatro José de Alencar. Eu me importo com Fortaleza. Incrível como pode parecer tão cafona, tão carola... Espantoso como pode ser tão necessário, básico, cotidiano como se manter de pé. Então é sobre isso que quero falar. É sobre isso que estamos sempre a falar, sobretudo quando ficamos em silêncio uns com os outros e não sabemos o que dizer. É tão difícil viver, não é? Manter-se de pé... Cair quando já se sabe andar: acho que escrevi isso nos primeiros textos que você leu abrindo nossas bienais de dança. Sim, viver é muito estranho. 4


Talvez por isso a gente dance. Talvez por isso a gente tenha vontade de dançar. Talvez por isso. Só para viver. Você acha que dá para abrir uma Bienal debutante lendo um texto assim: tão miudinho, tão entre eu e você, você e eu, tão pedidor de atenção para as coisas que nos ensinam a viver, que nos ajudam a viver? Pensei que poderíamos listar quinze coisas que gostaríamos de dizer, tipo: 1. A vida só quer saber de se reproduzir, de viver, de se ampliar. 2. Ver com olhos livres. Isso é fala de Oswald de Andrade. 3. Eu não acreditaria em um deus que não dança. Ai, quem falou isso? 4. A vida é como a poesia: está sempre acima. 5. Bailarinos são antropólogos-antropófagos não só de um mundo raro que pode se extinguir, a dança como um documento sobre o que somos, mas sobretudo de um mundo ainda em processo de feitura, de algo que está a se tornar. 6. Repetição é modo de fazer. Na dança, no teatro. Na vida também. Tornamo-nos por meio da repetição. Repetindo, pode surgir o que não sabemos. O inesperado nos fazendo surpresa. 7. Use o que você tem. 8. Olhe este lugar lindo onde nos encontramos agora:

ninguém que participou de sua feitura está nas áreas hoje. O que estamos fazendo de nós mesmos, o que estamos a produzir como memória coletiva para permanecer à nossa passagem? 9. Abstraia tudo o que você sabe sobre financiamento da vida artística no Ceará, no Brasil, no mundo. O dinheiro é um bem público. Um amigo me contou que pasmou quando ouviu isso em um filme recente do Godard. 10. A cidade é um bem público. Guaiúba, Paracuru, Sobral, Fortaleza... 11. Não existimos sem o outro. Somos privilegiados, nós da dança, do teatro, porque exercitamos a premissa nos seus limites. O que fazemos só exisite com o público. 12. Achar bonito é um modo de entender. Isso dito pela Clarice Lispector é assim uma espécie de alongamento intensivo do cérebro. 13. O cérebro é no corpo todo. O corpo todo pensa. Todo ele sente. 14. Um minuto de silêncio. Um instante vazio. E por fim, mas não o fim, o ítem 15. 15. Começaria tudo outra vez. (Isso é uma fala sua, David. Você olhando lá para 1997, o ano UM da Bienal.) Isso: hoje, 21 de outubro de 2011, eu David Linhares, eu cada um que está na platéia, afirmo com coragem e alegria: começaria tudo outra vez. 5


OLHO de PEIXE é uma publicação editada pela KA Editorial. Editores Assaoka e Celso Oliveira Diretor de Arte Assaoka editor de fotografia Celso Oliveira e Assaoka

ka

editorial

Olh de peixe

O encontro da arte de fascinar e da arte de perpetuar Sem intuições ou afetos não há inteligência nem sentido. Sem dedicação e entrega não se forma o artista. Neste terceiro número da Olho de Peixe, há o encontro de duas artes que, para além da técnica, utilizam a sen-

Fotógrafo professor Emidio Luisi

sibilidade, a intuição e os afetos para se comunicar. Uma

Fotógrafos Adriana Pimentel, Beto Skeff, Celso Oliveira, Claudemi Santos, Davi Pinheiro, Fernanda Leal, Fernanda Oliveira, Fernando Jorge, Galba Sandras, Igor de Melo, Igor Grazianno, Leo Henriques, Markos Montenegro, Marília Oliveira, Régis Amora, Ricardo Rios, Sol Coelho

mais factual e a outra mais perene, que se conversaram em silêncio, ou melhor, em insistentes cliques, durante os dias que durou a Bienal de Dança do Ceará. Essa conversa começou 10 dias antes com a Oficina de Fotografia de Espetáculos ministrada a 16 fotógrafos do Ceará por Emidio Luisi, fotógrafo importado da cidade de São Paulo.

colaboradores Iana Soares Sarinha Sínteque Rian Fontenele Clara Machado

táculo – foi um desafio. Captar o momento-tempo e

Editoração Ka Editorial

no movimento seguinte, a eternização do instante é o

Produção Vanessa Andion

mesmo que desconcentra e irrita os dançarinos-atores,

Revisão Airton Ulhoa Neto Impressão Gráfica LCR Ka Editorial Rua Dona Leopoldina, 203 Fone: 85 9777-3433 ka.assaoka@gmail.com Agradecimentos: Bárbara Machado, Chico Gualbernei, Clara Machado, Davi Linhares, Fernando Costa, João Uchoa, Laís Lobo, Roger Wagnart, Tiago Santana, Travessa da Imagem, Valéria Laena Fortaleza, dezembro de 2013

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Fotografar os instantes dessa arte – a dança-especongelar numa imagem-emoção. O clique que busca,

protagonistas do espetáculo e das nossas lentes. Pelos insistentes e irritantes cliques, nossas desculpas. A todos os artistas-dançarinos e à direção da Bienal de Dança, nossa admiração, respeito e agradecimentos. O resultado faz sentido. Os Editores


Índice OLH de PEIXE

I X

B I E N A L

I N T E R N A C I O N A L

D E

D A N Ç A

D O

C E A R Á 145

Capa. Foto de Igor de Melo

6 Emidio Luisi 16 Markos Montenegro 24 Igor Grazianno 30 Beto Skeff 40 Régis Amora 46 Ricardo Rios 54 Galba Sandras 60 Davi Pinheiro 70 Fernando Jorge

ARTIGOS

76 Claudemi Santos

14 Sara Síntique

80 Igor de Melo

66 Rian Fontenele

90 Fernanda Oliveira 96 Leo Henriques 102 Marília Oliveira 108 Sol Coelho 114 Adriana Pimentel 118 Fernanda Leal 122 Celso Oliveira 7


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Emidio Luisi

Nascido na Itália, começou a fotografar na década de 70. Desde então, fotografou espetáculos de teatro, dança, etnofotografia e ensaios pessoais. Coordenou oficinas de fotografia em diversas cidades brasileiras e realizou várias exposições no Brasil e no exterior. Recebeu o XI Prêmio Abril de Fotojornalismo e o Prêmio Fotografia da Associação Paulista de Críticos de Arte. Participa das coleções de fotógrafos brasileiros do Instituto Cultural Itaú e Acervo Coleção MASP – Pirelli. Fez curadorias para vários projetos e lançou os livros “Ué Paesa “; “Kazuo Ohno”; “Ballet Stagium 35 anos” e “São Carlos de Todos os Povos”. Participou da exposição “Ocupação Ballet Stagium”, e realizou a exposição “Antunes Filho, Poeta da Cena”, junto com o lançamento do livro de mesmo nome e a exposição “Paesani” . Atualmente, além de fotografar, coordena projetos na área de fotografia e dirige a Fotograma Imagens.

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Sara Síntique*

Somos marcados, entre outras coisas, por dores que mastigam nossos corpos e corações. O que tentamos esconder nessa beleza de sorrisos, olhares e posturas? Ousamos revelar ao outro apenas o que queremos: por certo, é a força que nos é exigida e que nos prestigia perante todos. Construímos gestos condizentes com essa necessidade vital de defesa. Mas somos humanos: dentro da pele, ossos tortos; dentro da pele, ossos quebrados. Ruídos. Ranger. Órgãos que aos poucos se dilaceram, fraquejam, fragmentam, destruindo-se para construir. Há um corpo físico-

químico que exige alterações constantes, que se atrasa, exigindo e impondo um tempo próprio. E há fraturas, também, na alma. Há fraturas, ainda, na alma... Podemos e devemos nos apoiar sempre no que nos é intacto? Ou é viável assumir nervos pulsantes, temores, veias dilatadas, medos, resíduos semissólidos, líquor, anseios e

odores? Há um desconforto que clama sinceridade. Há sempre algo ou alguém a quem nossas fraquezas não precisam estar ocultas. Arriscadamente: é ao demasiado amor que nos libertamos. E então, desnudar-se para a inteira mutilação, na qual os pedaços, regenerados ou não, esvoaçam por céus sem nuvens. Nessa entrega, há um

corpo que delira e que se interessa por compor movimentos críticos e reflexões do seu eu no espaço. Ele assume uma oscilação lírica que nos permite repensar e confrontar tudo o que é nosso. Ele está no andar do corpavão: desfile de caudas e cores exuberantes. E num tropeçar: é depenar com sangue. Ele é o corpanimal: o que se

o corpo Brinca, cria ilusões

nos faz crer que suas vestes podem se desprender e correr soltas

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curva para o sacrifício e, ao levantar-se, num ato ardil, escancara exibição de prazer pelo sentir da pele em pressão, pelo causar no olhar alheio o incômodo da tortura. É tez em júbilo de se denotar carne. E é, ainda, aquele que regressa na dita evolução e se assume corprimata. Ele é ferir de calos. Ele é balão que estoura. Ele assume a palavra até que

ela se esgote na falta de sentido e se torne outra. Ele é ação também de parar: esconde-se para ser penumbra da madrugada, sombra de qualquer janela. Ele escuta grilos e galos e nos presenteia com um sono cítrico, porque sabe da nossa preocupante vigilância. Esse corpo brinca, cria ilusões, nos faz crer que suas vestes podem se

desprender e correr soltas, porque já não dependem dele: e ele as liberta. É disforme e belo. Corpo de mulher selvagem a se rasgar nas pedras. Corpo que se derrama. Corpo de homem, espada cortante. Corpo de criança, a ousar. No ar, ele salta. Desafia quedas. Propõe com seu fôlego que os outros, os estáticos, acelerem no peito algu-

ma vontade de também assumir o turbilhão que é o notar-se. E notam-se, porque são atingidos: algumas partículas já imploram vontades próprias. E quem o nega: se censura. Esse corpo, que não se nomeia: ele estremece. Esse corpo: ele dança. *Graduada em Letras – Português – Francês pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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Markos montenegro Respira, inspira e transpira fotografia. Esparrama e contagia essa paixão, essa alegria e a imensa vontade de que essa arte faça parte do DNA das pessoas e da cidade.

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Claro enigma Toda imagem também é percurso. Percurso ofertado aos atentos. Aos que se permitem desbravar o caminho-esfinge pelos sentidos inquietos, instigados para o que convida e narra a imagem. Como, então, poderia um desatento perceber a soma de tempo, espaço, envolvimento (...) memória e luz condensados e relevados no longo registro-exposição de um instantâneo? O desafio-enigma está sempre aos olhos de quem adentra a imagem lida, mais que vista. É este o percurso proposto pelo ensaio do fotógrafo Markos Montenegro. O caminho-ponte entre a revolução de pernas, braços, força e equilíbrio transcritos no olhar tenso e atento do bailarino, ao seu seguinte sentimento transbordado e exaurido em sua face no movimento final de seu ato. Há entre os dois momentos, não um hiato, mas o percurso talhado na imagem.

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Corpornô (Cia. Dita)

Igor Grazianno

A verdade é que sou fotógrafo: me aproprio do mundo, das percepções não visuais, dos gestos alheios para me construir enquanto corpo e linguagem.

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Corpornô (Cia. Dita)

Pensar a dança é pensar o gesto. Para nós, fotógrafos, o ponto – unidade mínima de comunicação visual – pode ser um ímã para o olhar humano. O gesto corresponde ao detalhe onde transborda o automatismo mecânico do corpo – adquirido pelas couraças cotidianas impostas pela sociedade.
O gesto diferenciado, emotivo (mais que belo), é quem gera a reação ao espetáculo, provocando flutuações nas expressões faciais de cada espectador, quebrando a armadura que nos engessa a corporeidade. Assim, busco no gesto mínimo – um sorriso, um levantar de sobrancelha, uma mão de “semitapa” o rosto, uma gargalhada incontrolável, um olhar de espanto – um gatilho para minha câmera a fim de comunicar não apenas o que vi, mas o que senti durante o espetáculo.

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Corporn么 (Cia. Dita)

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Beto skeff Quantos de nós podem existir numa fração de 30 segundos? Nesse momento me interessa a desconstrução da estrutura espaço-temporal. Alterar a percepção e, dessa forma, vislumbrar novas possibilidades visuais, foi o que me moveu nesse trabalho.

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Peekaboo, Petite Mort e Utopia ou o lugar que não existe (São Paulo Companhia de Dança - sp)

Régis Amora Penso sempre no corpo para além da fotografia.

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Mesmo descontextualizado, o corpo tem um poder de comunicação que transcende o entendimento. Ele se basta. Aliado à dança, potencializa seu pertencimento através de movimentos coreografados, pensados (ou não), com música ou apenas guiados pelas respirações dos bailarinos que o habitam. Estes heróis com mãos e pés de vento, ganham os ares no palco. Os mesmos ares que fora dele talvez não lhes pertençam. Assim, o corpo mostra o quão grandioso é poder existir e perceber sua existência para além dos espaços e dos seus significados.

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Corporn么 (Cia. Dita)

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Corporn么 (Cia. Dita)

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ricardo rios Profissão: advogado. Paixão: fotografia. Fã de dança e, em especial, do projeto social da Edisca. A emoção é a propulsora das imagens sempre que fotografa a arte, o amor e a dedicação dos bailarinos.

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“No coração da EDISCA, muito mais do que a denúcia do velho, pulsa o anúncio do novo. O anúncio de um país possível, onde cada criança tenha o direto de ser criança e onde cada adolescente possa olhar o futuro sem medo, porque está preparado para ele. O possível, sempre é bom lembrar, faz parte do real. (…) A EDISCA é contemporânea do futuro. É uma prefiguração.” Antônio Carlos Gomes da Costa - Pedagogo.

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“O magnífico trabalho que a EDISCA desenvolve só me faz acreditar mais nas pessoas e cada vez mais que é possível.” Rodrigo Perdeneiras – Coreógrafo do Grupo Corpo

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“O trabalho da EDISCA tem conteúdo ético e político que indica um caminho que pode ser o da regeneração política do Brasil”. Ariano Suassuna – Teatrólogo e Romancista. “A EDISCA é hoje um dos trabalhos mais qualificados no campo social, no campo da educação e no campo da arte que temos no Brasil”. Viviane Senna – Presidente do Instituto Ayrton Senna.

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A EDISCA, com 22 anos de atuação, junto às camadas populares de Fortaleza, vem trabalhando não só pela transformação social e pessoal, mas, também, dando visibilidade ao enorme capital social existente nas comunidades periféricas. A EDISCA precisa e merece ser cuidada e protegida por cada um de nós. Seja você também um amigo. Faça sua doação. Informações: www.edisca.org.br. edisca@edisca.org.br.

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Galba sandras Indago e apresento a nudez feminina na individualidade de cada corpo. Alma e VĂŞnus ĂŠ o que me inspiram.

pudesse tomaria em copo cheio as tuas cores e beberia saciado teu en dehors pudesse tua sombra ceder a mim o mĂ­nimo gesto eu cantaria esgotaria nomes suspenderia palavras teu corpo bastaria minha linguagem.

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Khalos: contato e improvisação. Dançarinos: João Paulo Lima (diretor) e Clarissa Costa

há um burburinho: qualquer coisa que se move para um fim. há um sopro de flauta: moços possuídos de paixão chão de barro vermelho – um toque convexo. posso ver-te e dançar-te.

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Antes do beijo meu corpo já dançava o teu e a música era presságio e a noite, aurora.

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Davi Pinheiro

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Nascido no Crato e criado em Fortaleza, é fotógrafo documentarista e ensaísta desde 2005. Acredita na preservação da memória através do registro de pequenas coisas do cotidiano.


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Interferência de Silvia Moura (Fortaleza, CE). Habitando e redesenhando trilhos, ruas, asfaltos, calçadas, prédios, pontes, casebres, postes, muros, postos, praças, pessoas e arquitetura das cidades. A performance é um trajeto urbano traçado a partir das relações que a performer cria com o lixo que é encontrado, catado e ressignificado ao longo do trajeto.

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Rian Fontenelle*

A imagem como reconstrução do instante-tempo -mudo aprisionado. A presunçosa sentença da fotografia como celebração do repouso. Compreenderás que um bailarino pouco poderá falar do Repouso. Esta narrativa, do registro do baile delirante em seu pressuposto movimento veloz, condensado no instante-intervalo é de domínio do fotógrafo atento, de quem faz da imobilidade apreendida de um salto, seu ofício, sua percepção laboral da coreografia improvisada que o cerca e emociona. Da paixão e medo que inquietamente espelhamos os nossos guardados e convida-nos ao sorriso ofegante, perante a vontade implacável da arte em dialogar. Toda a Imagem, toda a Dança, toda a Palavra nos é Ponte. Travessia em nós. Gesto-convite para a prosa que transpassa incisivo e difuso os nossos sentidos. Há de se ler que os ensaios apresentados traçam passos que revelam, pelo emaranhado de vigor e tensão de braços, pernas e torsos onde dançam estórias de amor e morte. Contam trajetórias de equilíbrio, de técnica e esforço irradiando em transe nervoso – em rotações vertiginosas – onde o olho percorre o prazer da dança. Perceberás, agora, a provocação quase paradoxal de trazer ao baile a Pausa. Construindo um novo universo

imobilizado de gestos e cenários congelados como subversão ao que se faz raro ao espetáculo. A quietude tensa e inércia muda no bailarino. Não há conflito no aparente embate de som e movimento versus silêncio e repouso. Há reflexão! Testemunho. Convite franco para o argumento dançado expresso,

pequena nota sobre o gesto resistente

Aqui, poéticas do não esquecimento

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liberto dos presságios do momento intento-manifesto do que transborda em cada impulso e recuo dos homens e mulheres envolvidos e reinantes de leveza singela e liberdade violenta na cidade-palco. O corpo como resistência. Memória e vontade. A imagem – o pictórico – como tradução direta do espaço transformado sem artifícios com fúria e lamentação, loucura e consciência do romance que se constrói com o espectador, seu leitor silencioso. A dança impregnada de seu sentido de linguagem imaterial, a poesia sem palavra nem lugar ou tempo. A energia em rodopio de cada músculo com precisão exausta do sorriso, não em graça e volú-

pia, mas na franca trajetória, em colisão fecunda, de forças que se desnudam em festa da sequência de signos e sons fazendo caminho-atalho para longe da aridez da paisagem cotidiana. Não sua fuga, mas seu mergulho. Percorrerás, por fim, a reconstrução da impermanência representativa da dança, pelo quadro de todo tempo e tensão sensível domados de um ímpeto. O movimento violento e súbito do corpo bailarino corajosamente lançado ao vento, resgatado pelo filtro e lente do olhar-relato arrebatador do atento fotógrafo. *Pintor de sentidos inquietos.

Aos dois bailarinos que emprestaram seus corpos, técnica e plasticidade para as câmeras fotográficas dos alunos da Oficina ministrada por Emidio Luisi, nossos agradecimentos. Laís Lobo, bailarina e professora desbrava suavemente seu talento de dançar na Companhia de Dança Vera Passos.






 Rogér Wagnart, original de Fortaleza, inicia sua carreira artística na terra natal passando pela Escola de Dança Madiana Romcy e Vera Passos. Viaja a New York, EUA, e recebe uma bolsa de estudos pelo Joffrey Ballet School. Cinco anos depois se forma como bailarino clássico. Contratado pelo Metropolitan Opera House – MET, viveu no Estados Unidos por 13 anos.


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fernando jorge ”Foco é um conceito burguês.“ Henri Cartier-Bresson

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A dança e a alma 

 A dança? Não é movimento
 súbito gesto musical
 É concentração, num momento,
 da humana graça natural

 No solo não, no éter pairamos,
 nele amaríamos ficar
 A dança-não vento nos ramos


seiva, força, perene estar
 um estar entre céu e chão,
 novo domínio conquistado,
 onde busque nossa paixão 
 libertar-se por todo lado...

 Onde a alma possa descrever
 suas mais divinas parábolas
 sem fugir a forma do ser
 por sobre o mistério das fábulas Carlos Drummond de Andrade

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Claudemi Santos Fotografar dança é um desafio que me faz querer ir além. Captar através da lente o foco mais preciso, o plano que irá transmitir a poesia visual e fazer despertar o sentimento mais íntimo das pessoas.

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igor de Melo Fot贸grafo desde 2008. Gosta de contar hist贸rias com imagens, as que lhe contam e as que ele inventa.

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Todo movimento é risco. Sabe disso em cada gesto escondido e em toda parede arranhada não pelas unhas, mas pelo tempo. Todo movimento é risco. Enquanto tentava medir o palco, encontrou o quarto, a sala, a cozinha. Vasta é essa coisa qualquer interna vista sem fechaduras, só segredos. Todo movimento é risco. Em que instante rompeu a inércia? Nunca esteve parado, nem no retrato. Observe. Todo movimento é risco. Desse verso, repetido feito mantra entre as cores, nascem imagem e coreografia. Casa não 84


é gaiola para quem escolhe uma vida de pássaro. Casa é o primeiro céu. Só voa porque escolhe encarar o abismo – e este é menor do que o quintal, por isso imenso. Pelo medo, abre as asas. Pelo desejo, dança. Fotografa. Todo movimento é risco. No passo, cabe uma vida inteira. No instante, o fotógrafo é bailarino. Entende que todo movimento é risco e é daí que nasce a dança. É do risco que coreografa a vida. Iana Soares

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Fernanda Oliveira Amo o que faço. Utilizo a câmera fotográfica como uma forma de expressar e de perceber o ausente, o presente, a realidade e o imaginário. A fotografia é a minha paixão, o meu elo com o mundo. A imagem é algo que me transpassa, me atravessa em direção ao outro. A fotografia “é” em minha vida.

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Peekaboo, Petite Mort e Utopia ou o lugar que não existe (São Paulo Companhia de Dança - SP) página sequinte: Dreamlines - Trilha dos sonhos (Regina Advento - DE/BR)

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Comment Se Ment (Fabrice Ramalingom - Franรงa)

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Leo Henriques

“Letras, esta imagem lenta, lânguida e longínqua. Fotografa estas letras que saltam ao papel em delicada resolução. Que valem lentes se não captam a imagem tátil, volátil? Que valem letras se não tingem papéis, paixões, alegrias, amor...? Tu, poeta, prendes a emoção, escreve imagens, fotografa letras...” Waleska Testa

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Comment Se Ment (Fabrice Ramalingom - Franรงa)

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Marília Oliveira “Luz, quero luz Sei que além das cortinas São palcos azuis E infinitas cortinas Com palcos atrás Arranca, vida Estufa, veia E pulsa, pulsa, pulsa, Pulsa, pulsa mais” Chico Buarque

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O que são os limites? Para a maioria são muros intransponíveis que nos engessam. Para os bailarinos da Cia Gira Dança, limites são apenas convenções desimportantes, conceitos insignificantes diante das possibilidades que eles podem experimentar. Assim, este ensaio brinda à realização de toda sorte de coisas que acreditamos serem possíveis. Os limites estão nas nossas crenças e não nas nossas capacidades. Essas fotografias, tamanha a força e a pungência do espetáculo, poderiam facilmente receber um título homônimo: “Alguém que não eu para falar de mim”.

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solcoelho

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O nome Sol Coelho já se revela: do Sol posso dizer que é rápido, tem começo, meio e fim e volta no dia seguinte. O Coelho é um bicho saltador de grande habilidade e se parece muito com Sol, fotógrafo, de olhar jovem, ligeiro e atento ao movimento da luz e do corpo.


Sรฃo Paulo Companhia de Danรงa - SP

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Afinal o que vejo? À primeira vista não consigo nomear as formas. Após um olhar mais atento decodifico a imagem. Nossa! As abstrações que a princípio me confundiram são desenhos advindos de corpos em movimento. Braços e pernas que dançam, se entrelaçam, se harmonizam e formam um todo ilusório. O corpo é uma máquina? Os que acreditam que sim, ficariam fascinados ao se depararem com as fotos de Sol. Afinal os cliques de uma outra máquina, a fotográfica, conge-

São Paulo Companhia de Dança - SP

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laram corpos que mais parecem engrenagens mecânicas em movimento. Se esse corpo é máquina qual seu produto final? Eu diria que beleza e plasticidade, mas também explosões de sensações nos espectadores, bem como estranhamento, curiosidade e euforia. Ou seja, o produto final dessa junção de máquinas, corporais e fotográficas é a ARTE e toda a complexidade e questões advindas dela. Clara Machado

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Sรฃo Paulo Companhia de Danรงa - SP

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Bagaceira, Cana e Engenho (Coletivo Vatรก - CE)

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Adriana Pimentel Cores, sons, costumes. Tudo junto e misturado. A fotografia permite seguir trilhas não planejadas que nos invadem e colocam a alma a bailar. Talvez os registros fotográficos possam dizer o que em palavras me faltam, um pouco desses dois anos de vivência com a Cia. Vatá. Experiências que vão seguir meu olhar pelo mundo.

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Bagaceira, Cana e Engenho (Coletivo Vatรก - CE)

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Um Gesto que não Passa de uma ameaça (Sofia Dias e Vítor Roriz - Portugal)

Fernanda Leal

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Os olhos de quem fotografa têm total liberdade, assim como as mãos. Um corpo fotografa outros através de movimentos precisos, executando assim uma espécie de dança. Seguimos, então, eles e eu em um compasso de cliques e piscar de olhos.


Alguém que não eu pra falar de mim (Cia. Gira Dança - RN)

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Comment Se Ment (Fabrice Ramalingom - Franรงa)

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Celso Oliveira Faรงo fotografias para homenagear o ser humano em sua passagem aqui na Terra.

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paracuru cia. de danรงa - CE

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Paracuru, em tupi: lagartos do mar. Litoral oeste do Ceará, cidade de jovens bailarinos que iniciaram seu percurso artístico pela dança de salão. Uma dança transmitida pelos pais ao coreógrafo Claudio Bernardo, cearense radicado na Bélgica há mais de 20 anos. Do encontro entre estes cearenses, surge ParaBach, que transita entre a corporeidade nordestina brasileira e a sonoridade europeia através das composições de Bach. Um encontro para dançar.

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