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+ OPINIÃO

Brasília, Cingapura e Sucupira

+ PERFIL

Kelvin Johnson, Dragão da Independência

U 19 Ano 2 | Novembro 2012 | www.meiaum.com.br

A dura vida de quem vai de bicicleta


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Sujeito à análise de crédito.

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conta a d m lé a u o t s a )G rsário e v d a e im t o d l ) Go

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Uma nova marca. O Sesc de sempre. A marca do Sesc está presente em todo o Brasil. Ela faz parte da vida de milhões de pessoas a quem o Sesc proporciona qualidade de vida e bem-estar. São brasileiros que se transformam e ajudam o Brasil a se transformar. Agora, a marca do Sesc se transforma também.

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Papos da Cidade

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Enigmas– Truman Macedo Descubra de onde são as fotos

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Artigo – Antônio Carlos Queiroz

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Perfil

O que Hamlet diria sobre a PPP do lixo?

Kelvin Johnson conta como é o dia a dia de um Dragão da Independência

Fora do Plano

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Conto – Ângelo dos Santos

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Reflexões, análises e resmungos de quem vive em Brasília

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ÍNDICE

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Agnelo comprou briga no PT

Muitos eram os costumes e as coisas da casa, que se confundia com a própria Avó

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Opinião – Orlando Cariello O arrebatamento do governador pelo Plano Cingapura

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Artigo – João Rafael Torres

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Conto – Mariana Vieira Demorou para ela entender o que era feio

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Artigo – Kátia Marsicano

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Caixa-Preta

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Charges do Gougon

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Arte, Cultura e Lazer

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Banquetes e Botecos

Artigo – Aldo Paviani Brasília e seu papel de metrópole

Capa

Histórias de gente como Lia, que adotou a bicicleta como meio de transporte

Artigo – TT Catalão

Uma reflexão sobre a cultura e os programas de governo

Até quando tudo parece preenchido, vem um estranho desejo de desejar

Se você passa o dia com fones de ouvido, leia este texto

A vitória nas eleições municipais foi do PT, mas o PSB foi a grande estrela

Tem até um convite para o ministro Joaquim Barbosa

Os destaques da programação da cidade

Em cada edição, Marcela Benet visita um restaurante. E ninguém sabe quem ela é


Luana Lleras

Ângelo dos Santos

pág. 24

Mateus Zanon

Detalhista e recluso, este norte-mineiro é um contador de estórias, inventor de pessoas. Vive em Brasília há mais de dez anos dando palavras às fantasias que permeiam as relações familiares. Lançará o livro Viagem em família no próximo ano.

Mateus Zanon pág. 38

Criar e ser prático, duas coisas que o definem muito bem e servem como pilares para seu modo de vida. Seguidor do pensamento função do designer como “facilitador da vida” ou “solucionador de problemas”, e não um cara bitolado em grids e estéticas aleatórias. Não o entenda mal, ele não é contra esses caras; só acha que as pessoas complicam a vida mais do que deveriam e a vida é uma piada, e curta.

Luana Lleras

Antônio Carlos Queiroz pág. 16

Jornalista há 35 anos, foi repórter de Movimento, editor do Porantim (Cimi) e da revista Tema (Serpro). Trabalhou no Diário da Manhã, Brasil Agora, Reportagem e Retrato do Brasil. Foi secretário-adjunto de Comunicação do governo Cristovam. Vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas (gestão 2004–2007) e diretor da Coohaj.

Luana Lleras

Mariana Vieira pág. 42

Carlos Drumond

Brasiliense de nascença, de criação e de coração. Provável formanda em comunicação social na Universidade de Brasília. Estado civil imaginário: casada com o jornalismo, de rolo com a gastronomia e amante da literatura. Faz contos, reportagens, bolos, fotos, festas, frases, listas, projetos e, quando dorme, sonha.

Lucas Muniz pág. 16

Designer e ilustrador, nascido em Brasília, apaixonado por artes, cinema, HQ e games. Tem como maior fonte de inspiração para seus trabalhos a cultura nerd em geral.

Colaboradores


Monique Renne

Luana Lleras

João Rafael Torres

pág. 40

É psicoterapeuta e analista junguiano, especialista em dependências, abusos e compulsões. Tarólogo de vocação, desde garotinho. Aplica as teorias do velho Jung nas cartas. Nos tempos de jornalismo, já se dedicava às questões do comportamento humano. Hoje, sacia a vontade de escrever com participações especiais em revistas e portais, falando de bemestar e espiritualidade.

Truman Macedo pág.12

Do sertão do Cariri no Ceará, ficou espantado com as formas da arquitetura de Brasília, como ficou com John Lennon, Belchior, Fernando Pessoa, Nicolas Behr e Van Gogh.

Luana Lleras

Nilson Carvalho

Aldo Paviani pág. 26

Gaúcho, é geógrafo com doutorado em Geografia Urbana (UFMG) e pósdoutorado na Universidade do Texas. Transferiu-se da Universidade Federal de Santa Maria (RS) para a UnB em 1969. Pesquisa emprego/desemprego em áreas metropolitanas e evolução urbana de Brasília. É professor emérito da UnB e cidadão honorário de Brasília.

Orlando Cariello pág. 38

Arquiteto. Trabalhou na Novacap por 34 anos, e também em escritório de projetos. É especialista em planejamento habitacional e planejamento urbano e mestre em arquitetura e urbanismo. No ano passado defendeu, na FAU-UnB, tese de doutorado com análise crítica das políticas federais de habitação popular. Capixaba de Vitória, passou a infância no Rio de Janeiro e veio para Brasília em 1963.

E mais...

Francisco Bronze pág. 8 Larissa Leite pág. 9 Bruna Gil pág. 9 Priscila Praxedes págs. 10 e 48 Gougon págs. 23, 46 e 47 TT Catalão pág. 36 André Zottich pág. 42 Kátia Marsicanopág. 44 Miguel Oliveira pág. 46 Lúcio Flávio pág. 49 Marcela Benet pág. 54 Rômulo Geraldino pág. 54


Carta da editora

A cidade do futuro

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omo estará Brasília em 2062? Não sabemos, claro, mas o governo do Distrito Federal encomendou o planejamento de nosso futuro a uma empresa de Cingapura. Sim, a cidade-país na Ásia onde mascar chicletes é proibido. Podemos, pois, dormir tranquilos, esquecendo as agruras de nosso dia a dia. Já que os brasileiros não conseguem resolver os graves problemas de nossa cidade, os cingapurenses o farão, em troca de alguns milhões de dólares. O arquiteto Orlando Cariello avalia para a meiaum o que esse contrato representa para Brasília e para os brasilienses. Cariello mora na capital desde a década de 1960 e, poucos sabem, foi competente repórter de O Globo antes de se dedicar aos projetos arquitetônicos. Que Brasília precisa de planejamento, não há dúvida. Aqui predominam as improvisações, as irregularidades de todo tipo nas barbas das

autoridades, a especulação imobiliária, as medidas adotadas especialmente para beneficiar empresários. Um planejamento sério certamente será bem-vindo. Mas pode ser feito por aqui mesmo, no Brasil. Não é preciso buscá-lo tão longe, quase em sigilo e com pagamento em dólares. Demonstração da falta de planejamento é a política de facilitar o uso de bicicletas pelos cidadãos. O governo promete 600 quilômetros de ciclovias no Distrito Federal e já começou a construir em algumas áreas. Mas para fazer a ciclovia na Asa Norte foi preciso passar tratores em cima das calçadas novinhas da L2. Ao estilo do que foi feito na W3: pintaram as faixas nas pistas, para assegurar que na da direita só circulem ônibus, e depois renovaram o asfalto, apagando as faixas, que agora têm de ser pintadas de novo. Certo, vamos ter as vias exclusivas para bicicletas, mas se os ciclistas quiserem fazer compras, não têm

onde estacionar. E se eles se afastarem das bicicletas, há elevadas chances de elas serem roubadas, a julgar pelos crescentes índices de criminalidade em nossa cidade. E as bicicletas? Não há nenhum plano de oferecê-las gratuitamente ou mediante um módico pagamento, como se faz em outras cidades, inclusive no Rio de Janeiro. Que cada um compre a sua! A repórter Paula Oliveira, que não pretende deixar seu carro na garagem para pedalar, conta nesta edição as venturas e desventuras de quem se dispõe a circular de bicicleta em Brasília. E eu aqui querendo saber, em novembro, a programação do réveillon 2012/2013 na Esplanada dos Ministérios. Tolice. O governo do DF já está pensando nas atrações da passagem de ano de 2062 para 2063.

Anna Halley

( ) MEIA

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(meiaum) é uma publicação mensal da Editora MEIAUM Conselho editorial: Anna Halley, Carlos Drumond, Hélio Doyle (coordenador), Luana Lleras, Noelle Oliveira e Paula Oliveira Diretora de Redação: Anna Halley Fotografia: Luana Lleras Projeto gráfico e diagramação: Carlos Drumond Assistente de Produção: Cristine Santos Publicidade Sucesso Mídia Comunicações – (61) 3328-8046 – barroncas@sucessototal.com.br TIRAGEM 12 mil exemplares Impressão Gráfica Imprima (Brasília) – (61) 3356-7654 Os textos assinados não expressam, necessariamente, a opinião da Editora Meiaum. | Contato: editora@meiaum.com.br

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Siga @revistameiaum | www.meiaum.com.br ISSN 2236-2274 CAPA | Por Pedro Ernesto

Anna Halley e Hélio Doyle (sócios) SHIN CA 1 Lote A Sala 351 Deck Norte Shopping – Lago Norte | Brasília-DF | (61) 3468-1466 www.editorameiaum.com.br

Desenho a nanquim e vetorial Designer gráfico, atua no mercado brasiliense, é autor de livro infantil e colabora na meiaum desde seu primeiro número. Faz parte do escritório Grande Circular. Veja os trabalhos da equipe em www.grandecircular.com.


Papos da cidade } ilustrações Francisco Bronze bronze@grandecircular.com

Os segredos da rampa e da política Nem só os fanáticos estavam preocupados com o final da novela Avenida Brasil e com a identidade do assassino do personagem Max (Marcelo Novaes), em 19 de outubro. Com a ampla audiência conquistada pela Rede Globo, os engenheiros do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) planejavam um consumo excessivo de energia após o capítulo, o que é conhecido no setor como “rampa”. Enquanto Nina e Carminha duelavam na sexta-feira à noite, boa parte dos brasileiros estava sentada no sofá, assistindo ao desenrolar da trama e consumindo pouco volume de energia elétrica. Mas, quando o entretenimento acabou, todo mundo resolveu fazer algo, como tomar banho, abrir a geladeira e, com isso, gastar grande quantidade de energia de uma vez só. Haja organização para dar conta do recado. Ingênuo, no entanto, é quem pensa que a tal rampa é matéria de estudo apenas de senhores das ciências exatas e dos escritores das tramas televisivas. Quem deveria estar de olho nela são muitos sociólogos e cientistas políticos brasileiros. Afinal, no período eleitoral também existe rampa. Mas ao contrário. Justamente no horário em que os políticos apresentam suas propostas na televisão, o consumo de energia aumenta. Isso porque os brasileiros desligam seus equipamentos e vão fazer algo mais produtivo, como tomar banho, esquentar uma pizza no micro-ondas ou buscar uma bebida na geladeira. A campeã das rampas ocorre após a transmissão de jogos da Copa do Mundo de Futebol. Aí, sim, pouquíssimo de energia é consumido durante os jogos, havendo um salto de consumo com o término das partidas. Talvez esse comportamento explique em parte os escândalos políticos e os representantes populares que vêm sendo eleitos por aí. Alguém conta para os


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candidatos que, nesse caso, é melhor estar no pé da rampa do que lá em cima? “Rampa” não é palanque, a não ser para o Romário. Noelle Oliveira

Fora, área VIP! “Estou com estafa cultural”, disse o colega curitibano, morador de Brasília por paixão e opção. Mal-acostumada com o deboche daqueles que reclamam, emburram e se quedam no bar, a frase soou libertadora. Veio feliz, com um sorriso de uma ponta à outra, de alguém que gostaria de engolir tudo, mas não tem noites, fins de tardes, madrugadas suficientes. Os festivais e as mostras de cinema se emendam, novos arranjos ou grupos de teatro aparecem na programação do fim de semana, as oficinas estão por toda parte. Como contrapartidas, ou como a partida para uma experiência que propõe o se mover. Sem contar que é de graça. Sem contar que a gente vai passando, vê gente e música, e para. Encontra pessoas sem ter combinado, ou apenas se diverte ao observar um espaço até então inusitado para misturar gente e música. Na praça, na calçada, na passarela. E que ocupem as pontes, e continuem fechando as ruas e conduzindo o trio elétrico pelo balão da quadra afora. Opa, ainda não é carnaval! Mas é quase réveillon e a debandada do povo da Bras-ilha já se anuncia. Mas, até lá, já fomos cercados, inundados por uma maré boa de interação. Pode começar desajeitado e eu posso ficar tímida, desconfiada. Posso não ter sucesso na primeira vez e não saber quem vai comigo. Não fosse eu candanga, tivesse vindo do Paraná, de Minas, do Rio, talvez achasse curioso o rompante da “ocupação dos espaços públicos”. Mas, como brasiliense por amor e certidão de nascimento, abro um sorriso daqueles largos. Esquece o bar, me convida pra

dançar! Juro que da próxima vez eu vou. Larissa Leite

para a votação. Tudo isso é óbvio, ou deveria ser, pelo menos para analistas e jornalistas políticos. Hélio Doyle

Jornalista não é profeta Em março mandei a seguinte mensagem para um amigo meu que é jornalista: “Caro, não aposte nesta volta da Marta nem na derrota consumada do Haddad. Quem trabalha com campanha sabe que 3 por cento agora em nada inviabiliza o Haddad. Há inúmeros casos assim”. Ele respondeu falando da falta de votos, de carisma e de alianças do candidato do PT à prefeitura de São Paulo. Minha resposta: “Não será isso que vai decidir. Há muita coisa pela frente”. Meu amigo não foi o único jornalista a apostar na derrota de Fernando Haddad e a dizer que teria sido melhor para o PT que a candidata fosse Marta Suplicy. Lembro-me bem de que no início de 1989, quando a campanha eleitoral nem tinha começado, um grupo de jornalistas foi almoçar com o candidato Fernando Collor e um deles reclamou: “É perda de tempo, este cara não tem a menor chance de se eleger”. Tinha. Em 1994, dois meses antes das eleições, entrei em um elevador cheio e alguém falou sobre a candidatura de Cristovam Buarque a governador. Um jornalista que não me conhecia riu e disse: “Fica para a próxima, esta já está decidida e Valmir Campelo será eleito no primeiro turno”. Cristovam ganhou. Há inúmeros outros exemplos de candidatos que saíram disparados na frente e nem foram para o segundo turno, e de outros, como Cristovam, Collor e Haddad, que começaram mal, pareciam derrotados e se elegeram. A política é assim. Pesquisas são meras indicadoras de tendências, eleições podem surpreender e é uma grande bobagem dizer que um candidato não tem chances de ser eleito quando falta mais de um mês

Ah, o verão É somente uma hora de diferença, mas o rebuliço é grande. O horário de verão chegou e, com ele, os jornais se apressaram para dar matérias de questionável utilidade pública: a dieta ideal para a adaptação, o melhor horário para fazer exercícios físicos e, claro, dicas para não ficar tão sonolento durante o dia. Mas não é só uma hora de diferença? As pessoas reclamam de mudanças no metabolismo, de dificuldade em dormir cedo e acordar tarde e de se sentir mais cansadas. Repito: mas não é só uma hora de diferença? Para mim, frescura. O único transtorno é o primeiro dia útil com o horário. Procrastinar é comigo mesmo: só acerto o relógio depois que acordo atrasada! Eu sei que no verão os dias são mais longos e o objetivo do governo é aproveitar a luz no fim do dia para diminuir o consumo no chamado horário de pico. Mas assim quem precisa acordar muito cedo acende a luz. Se antes já acordava com o dia claro, passa a se levantar ainda sem a luz do sol. Então dá na mesma. Por isso acho que, se a mudança provoca economia de energia e diminui a sobrecarga nas redes de alta tensão, qualquer estação do ano serviria. E outra, também não vejo essa melhora tão grande no serviço de distribuição de energia mesmo com tantos anos de mudanças para poupar a usinas geradoras. O fato é que prefiro o horário de verão ao das outras estações do ano. Terminar o dia uma hora antes compensa os minutos a menos na cama de manhã, quando o despertador toca. Não entendo por que não o adotar o ano inteiro. Vai ter gente que vai dizer: o nome já diz tudo, porque é de verão! Mas, e daí? Que


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passe a ser chamado de horário de todas as estações. E pronto. Bruna Gil

Os espaços culturais ficam para depois Já deu para perceber que a prioridade da cúpula do governo brasiliense realmente é a Copa do Mundo. Nada contra, torço para que seja excelente – que o evento ajude no desenvolvimento do País, contribua para a melhoria dos aeroportos, das estradas e gere empregos. Mas é preciso pensar no pós-2014. A copa dura apenas um mês, mas as necessidades de quem vive aqui não têm prazo de validade. Brasília é uma capital nova e não consegue sequer garantir locais de cultura permanentes. Gasta milhões no mundial esportivo. Enquanto isso, bem ali na Asa Sul, o Teatro Goldoni, que há 15 anos recebe peças e oficinas, será fechado. Não sabemos nem mesmo o que será construído no lugar. E o Cine Brasília? O fim da reforma do espaço estava programado para novembro, mas a reabertura já foi adiada para abril de 2013 (aposto que até lá será adiada novamente). Ainda pior é a situação do Polo do Cinema, em Sobradinho, que está caindo aos pedaços. A Secretaria de Cultura já foi clara: obras só depois de 2014, a prioridade agora é o Plano Piloto, devido ao grande evento esportivo. Bem... mas o Polo de Cinema não foi feito só para Sobradinho, foi construído para atender às necessidades de quem trabalha com audiovisual no DF. Triste essa realidade. A copa vai acabar e, pelo jeito, os espaços culturais em Brasília também. Priscila Praxedes

Pelo prazer de incomodar, parte 2 Sentir-se orgulhoso do que faz é um privilégio. Nem todo mundo pode dizer que tem esse

sentimento. Existe jornalista com vergonha de escrever matérias encomendadas. Advogado com vergonha do próprio cliente. E médico que não confessa nem sob tortura possíveis deslizes no diagnóstico, por pura vergonha. Mas tem gente que fica satisfeita com pouca coisa. Que sorte desse pessoal! Na edição de junho da revista meiaum, escrevi aqui sobre vandalismo. Disse que não entendia a cabeça de quem gosta de estragar a propriedade alheia por pura sacanagem. Mostrei casos que se deram à época de depredações justificadas por revoltas populares contra crimes, política, serviços públicos de péssima qualidade. Mostrei também o resultado dos atos de vandalismo. Nenhum. Ninguém conquistou nada com o protesto. Também existem aqueles que depredam por nada, por causa alguma. Não têm o que fazer e passam o tempo imaginando e executando maldades. Isso tudo para rir depois. Para mostrar que tiveram coragem de fazer algo que nem eu nem você teríamos, espero. A moda, em junho, era pichar carros estacionados em quadras residenciais da Asa Norte. Como se já não bastasse estragar muros e portões. Só de ler a notícia, meu sangue ferveu. Como assim? Nunca tinha ouvido falar nisso. No início do mês, me levantei para trabalhar, como faço todos os dias. Fui até o meu carro e vi um risco, provavelmente feito com uma chave, na porta traseira. Não gostei, claro, mas também não me abalei muito. Reclamei com conhecidos e pronto. Nem perguntei ao porteiro se as câmeras de segurança haviam registrado quem era o engraçadinho. Dois dias depois, o capô do meu carro estava todo riscado. Não sei se foram as mesmas pessoas da primeira vez. Nem se foi um grupo ou alguém que agiu isoladamente. Senti-me vítima de violência. Abalada psicológica e fisicamente com a situação, precisei segurar

momentaneamente a revolta, já que tinha trabalhos inadiáveis para fazer. A única coisa que sei é que são pessoas de sorte. Afinal, escreveram bem profundamente na lataria do meu carro: vândalos com orgulho. Paula Oliveira

Não será desta vez Estamos em novembro e a tradicional pergunta já começou: “Onde você vai passar o réveillon?” A pouco mais de um mês do último dia do ano, é natural que as pessoas queiram se planejar. Difícil é apostar no escuro, como tem sido tradição aqui na capital. Moro há 15 anos em Brasília e nunca passei uma virada na Esplanada dos Ministérios. Sempre ouvi dos próprios brasilienses que é roubada. Com o tempo passei a achar que era um pouco de preconceito e faz uns anos que decidi que ainda vou assistir à queima de fogos no centro do poder. O problema é que, toda vez que o período se aproxima, os organizadores me dão pistas de que tem tudo para ser uma roubada mesmo. Demoram a se planejar, fazem editais de licitação questionáveis e acabam atrasando ainda mais o processo. Ficamos naquela dúvida se vai mesmo ter festa. E, se tiver, será que as atrações musicais serão aquelas que não conseguiram um contrato melhor? Como em outros lugares sei que a festa é garantida, minha decisão em novembro ou em dezembro, quando vejo que vai ser roubada mesmo, acaba sendo comprar uma passagem. Quero absorver boas energias na virada. Quando volto, no comecinho do ano, ouço sempre que fiz bem em não arriscar. O fato é que sou teimosa. Antes de comprar minha passagem neste ano, fui atrás do governo para saber como estão os planos. A Secretaria de Cultura, responsável pelo evento, me informou que


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não preciso programar viagem nenhuma. Segundo o órgão, já houve reuniões e estão avançando na preparação da festa para receber 2013. Os editais de licitação para a parte estrutural – palco, iluminação, camarotes, fogos – estão sendo elaborados. Vamos torcer para que fiquem prontos logo e não tenham de ser suspensos pelo Tribunal de Contas até que o governo corte os gastos. Foi isso que aconteceu no ano passado, quando os valores iniciais superavam em até 200% os de mercado. Outro fiasco que a Secretaria de Cultura promete que não vai se repetir é o anúncio de atrações não confirmadas. Dizem que serão boas surpresas. Do jeito que estão as últimas surpresas deste governo, prefiro não arriscar. Quem sabe em 2062, quando os cingapurenses tiverem nos ensinado a fazer planejamento direito? Anna Halley


Enigmas

Reconhece BrasĂ­lia?

Este cearense diz que ficou espantado com a arquitetura da cidade. Percorreu lugares muito visitados e monumentos que tornaram a capital mundialmente admirada. Truman desafia vocĂŞ, leitor, a identificĂĄ-los nestas imagens Fotos Truman Macedo truman.macedo@gmail.com

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Respostas: 1 Panteão da Pátria – 2 Estátua do apóstolo S. Marcos (Catedral, de Alfredo Ceschiatti e Dante Croce) – 3 Memorial dos Povos Indígenas – 4 Pintura interna da Igrejinha (de Galeno) – 5 Estátua A Justiça (Alfredo Ceschiatti) – 6 Teto do Santuário Dom Bosco – 7 Palácio do Itamaraty (arco externo frontal) – No índice, a Catedral Rainha da Paz

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Artigo

Há algo de podre na PPP do lixo

Por que entregar os serviços da limpeza urbana do DF a um monopólio privado por 30 anos mais cinco e R$ 11,7 bilhões? Texto Antônio Carlos Queiroz Ilustração lucas Muniz acqueiroz@yahoo.com

lucasmuniz.arts@gmail.com


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assava das 14h da quarta-feira, dia 10 de outubro, e as cenas na sala lateral esquerda do Teatro Nacional eram no mínimo grotescas. Lembravam trechos com a “gente azoinada e assustadiça” da Garatuja, a ópera cômica composta pelo músico do final do século 19 que dá nome ao local, o cearense Alberto Nepomuceno. A salinha, apropriada para apresentações de música de câmara, comporta 80 pessoas sentadas, mas naquela tarde calorenta tinha o triplo ou mais da lotação, pessoas que esperavam a audiência pública de apresentação da proposta da PPP do lixo. Márcio Galvão Fonseca, o secretário-executivo do Conselho Gestor de PPP do GDF, tentava acalmar os ânimos, sem sucesso. Pediu que as pessoas tomassem assento. Mas onde? Pediu silêncio. Mas, quando o técnico encarregado de apresentar a proposta garantiu que não mais haveria incineração, a casa veio abaixo com gritos de “mentira!”. De boné vermelho e voz de tenor, o líder dos catadores, Rônei da Silva, entoou: “Você está mentindo! A incineração está, sim, prevista no item 1.5, página 4, do Anexo I do Projeto Básico”. A partir daí os apupos foram engrossando até que alguém, também aos berros, alertou que a situação tinha ficado perigosa, com risco de descontrole. Sem alternativa, os funcionários do GDF decidiram suspender a audiência. Devagarinho, a multidão foi deixando a sala, mas o alvoroço continuou no hall do teatro, onde havia uma massa de gente cinco vezes maior, apinhada em torno de um telão. Os mil catadores que compareceram ao teatro saíram para o estacionamento dos fundos, em frente à Sala Martins Pena, onde ficaram os 25 ônibus que alugaram. Em vez de rumarem para casa, porém, decidiram fazer uma marcha até o Palácio do Buriti, portando faixas contra a PPP do lixo, contra a extinção do SLU, e exigindo a coleta seletiva universal em todo o DF, não apenas no Plano Piloto, como previsto no Anexo I. O Correio Braziliense pautou um repórter e uma fotógrafa, mas no dia seguinte não deu uma linha nem sobre o fracasso da audiência, nem sobre a marcha dos catadores ou o bloqueio do lixão da Estrutural, iniciado na terça-feira, dia 9. Por que a censura? Por que o GDF não publicou os anexos, contendo os estudos de viabilidade técnica e econômico-financeira, da minuta do contrato da PPP antes da audiência pública? Todos os movimentos do GDF envolvendo essa PPP soam estranhos, desde a escamoteação de informações básicas até as justificativas que não fazem o menor sentido.

A opção da administração pública por uma parceria público-privada, forma de concessão dos serviços públicos prevista na Lei 11.079/2004, tem lógica quando, por exemplo, o governo esgotou a capacidade de se endividar para fazer investimentos. Nesse caso, o parceiro privado contrai os empréstimos, assume parte dos riscos e é remunerado pelo negócio, ou diretamente pelo governo, como no caso da construção de um hospital, ou pelos usuários, por meio de tarifas, como no caso de uma estrada com pedágio. No caso da PPP do lixo, a justificativa do GDF é que precisa de investimentos da ordem de R$ 770 milhões para universalizar os serviços de limpeza, implantar a coleta mecanizada, implantar dois aterros sanitários, mitigar o lixão da Estrutural etc. Mas o que são R$ 770 milhões (com seis zeros) diante do astronômico valor previsto para o contrato, da ordem de R$ 11,7 bilhões (com nove zeros)? Coisa de 6,5% ou R$ 25,6 milhões por ano, durante a vigência do contrato, de 30 anos, renováveis por mais cinco. Os números dos investimentos podem impressionar à primeira vista, mas são fichinhas diante os valores anuais que o GDF pagará pela contraprestação dos serviços prestados pela empresa que vier a ganhar a concorrência. Basta dividir os R$ 11,7 bilhões por 30 anos. Dá R$ 390 milhões por ano, o dobro do que se gasta hoje com esses serviços. Em quatro anos, portanto, só o que o GDF pagará a mais (R$ 190 milhões por ano) será igual à soma dos investimentos a ser feitos ao longo do contrato. Isso não faz sentido. Também não faz sentido, e é ilegal, entregar todos os serviços da limpeza urbana a uma só empresa, estabelecendo um monopólio privado num setor que não constitui monopólio natural, como é o caso do abastecimento de água. A PPP dos Resíduos Sólidos que o GDF propõe contraria a legislação distrital e federal, aponta para o aprofundamento da privatização e a futura extinção do SLU, e atropela todos os esforços despendidos para a organização dos serviços da limpeza pública no DF em consórcio com os municípios do Entorno.

Em quatro anos, só o que o GDF pagará a mais será igual à soma dos investimentos a ser feitos ao longo do contrato.


Perfil

Eles são pomposos, usam farda branca, capacete dourado, seguem tradições nascidas há quase dois séculos e fazem parte da paisagem turística de Brasília

Texto Paula Oliveira Fotos Luana Lleras paulaoliveira@meiaum.com.br

fotografia@meiaum.com.br


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anter o uniforme branco e vermelho sempre limpo e bem conservado é um desafio. Ainda mais se for ostentado por homens que montam a cavalo e usam botas pretas bem engraxadas. Mas sabe como é militar. A disciplina em seguir as tradições não deixa essa dificuldade transparecer. Ou você já reparou em algum sujinho no uniforme do soldado que fica em posição de sentinela em frente ao Palácio da Alvorada? Ou em alguma falha na vestimenta daqueles que acompanham a presidente da República em eventos oficiais? Quem lava é o próprio soldado, pelo menos no caso dos que compõem o cerimonial dos Dragões da Independência, como Kelvin Johnson Pereira da Silva, de 21 anos. O sabão é especial para não encardir o tecido claro. O cuidado é tamanho que ele faz questão de lavar a farda, que não é pequena nem leve, à mão. Ele mesmo passa o uniforme a ferro para que nenhum amarrotado tire o brilho histórico do modelo desenhado pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret, ainda em 1816, a pedido do príncipe regente, d. João. O uniforme é composto por dez peças. O soldado garante que fica pronto em dez minutos. Muito tempo para os padrões do Exército, mas o ritual é complicado. Depois de vestir a calça branca, as botas pretas, o cinto e a blusa camuflada, é a hora da jaqueta, das charlateiras (adornos nos ombros) e da faixa vermelha. Este último é o item mais complexo. É preciso contar com a ajuda de outro soldado para se enrolar no tecido e deixar a faixa bem esticada. “Quando não tem ninguém para ajudar, a gente amarra uma das pontas em algo fixo e vai se enrolando sozinho”, explica. Para completar a farda, o cinturão, o capacete dourado e as luvas brancas. Johnson é um dos 1.534 militares brasileiros que usam o uniforme criado há quase dois séculos. O 1º Regimento de Cavalaria de Guarda (1º RCG), que abriga a tropa dos Dragões da Independência, é o mais antigo e mais tradicional do Exército Brasileiro. Foi criado

como 1º Regimento de Cavalaria do Exército, composto pelos 70 soldados portugueses que vieram como guardiões do império e da família real. Os membros do regimento chegaram ao Brasil em 1808 com d. João, que fugiu de Portugal quando o país foi invadido pela tropa de Napoleão Bonaparte. Os Dragões da Independência tiveram participações importantes em vários momentos da história do País. O primeiro que vem à cabeça – e que dá nome à tropa – é o famoso Grito do Ipiranga. Os antecessores de Johnson estavam lá – pelo menos é o que está escrito nos livros de história. E também de Rafael dos Santos Pereira, de 21 anos, que completa a dupla da foto na página anterior. Eles não questionam nada e respeitam todas as tradições à risca. Se houve evolução ou mudança nas instruções ou nas cerimônias, foi por esquecimento, diz o comandante do regimento, o tenente-coronel de cavalaria Fábio Ricardo Marques. Quando pergunto o porquê de algum costume ou rito, a resposta é direta: “Porque é tradição”. As variações são “Porque sempre foi assim” ou “Porque é histórico”. Sério e concentrado em serviço, Johnson não perde a postura nem mesmo na hora de explicar como é a sequência de movimentos usada para descansar enquanto está em sentinela. Aliás, a capacidade de ficar imóvel é o que mais intriga os civis que o conhecem. “O que mais me perguntam é como consigo ficar tanto tempo na mesma posição”, diverte-se. A resposta? “Sou treinado para isso, não vejo dificuldade em executar.” Bom, mas ficar ali parado durante mais ou menos duas horas sem se render às provocações do público, ao calor, ao frio, à chuva ou à coceira na ponta do nariz não deve ser fácil. No treinamento, conta Johnson, todas essas situações são simuladas. Os colegas tentam “atrapalhar” a sentinela para já se acostumarem com a curiosidade das pessoas que visitam as instalações presidenciais. Os soldados também são preparados fisicamente. Antes de assumirem o posto, recebem o catanho – sacola com alimentos ricos em


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carboidrato e açúcar. Além disso, a preparação engloba fortalecimento físico e hidratação, como em outros regimentos e batalhões do Exército. A concentração é essencial. Eles não ficam ali parados pensando na vida, mas atentos a tudo o que acontece ao redor. Em uma emergência, como a tentativa de invasão, devem estar prontos para agir. Mas isso é em último caso, porque existem outras instâncias de segurança que devem entrar em ação antes de o soldado tomar alguma atitude. “Estamos em serviço e cumprindo um papel importante de guarda, não podemos nos distrair”, diz.

Nada pode abalar o soldado em sentinela. “E se a presidente passar por lá e puxar papo?” A pergunta ficou sem resposta. O 1º RCG não se restringe ao cerimonial da guarda presidencial, tem funções bastante específicas: guarda das instalações presidenciais (Granja do Torto, Palácio da Alvorada, Palácio do Planalto e Palácio do Jaburu), manutenção das tradições equestres, participação em operações de garantia da lei e da ordem com prazo e local específicos, cumprimento de missões internacionais. Eles participam de treinamentos diários

para cumprir qualquer um desses papéis. Johnson entrou no Exército contra a vontade do pai, que é policial militar. “Eu queria ter essa experiência e ele me fez prometer que eu ficaria apenas para cumprir o período obrigatório de um ano”, conta. Ele está há quase três no regimento. Gosta da vida de militar, apesar de o dia a dia no 1º RCG ser puxado. A cada dois dias, eles cumprem o serviço de 24 horas. Assim mesmo, sem dó. Tudo tem uma razão de ser, garante o comandante. Qual, eu pergunto. “É tradição!” Os soldados precisam estar muito bem preparados, ser resistentes ao cansaço


22 e estar prontos para agir quando solicitados. Além do mais, são eles que mantêm todo o regimento. Os mais de mil soldados são divididos em subunidades, denominadas esquadrões. Um é o de apoio, responsável pela parte administrativa, pela limpeza, pela alimentação. Cerca de 200 soldados fazem parte da cavalaria. Outros 300 são do cerimonial a pé, entre eles o Johnson. Outro esquadrão do regimento está sendo reativado e, por enquanto, os membros estão espalhados pelos outros grupos. Existem ainda os militares que estão cedidos para missões no exterior. O regimento é enorme – 11 hectares – e o que não falta é trabalho para os soldados. São 400 cavalos que precisam ser bem cuidados. O pessoal de plantão acorda de madrugada para não perder o horário de alimentar os animais. Johnson não é dessa turma, mas, se precisar, faz o serviço. Quem quiser pode visitar as instalações. Nos dias em que não está de plantão nas dependências presidenciais, Johnson trabalha na parte administrativa do regimento. Ele gosta e se identifica com a função, mas o grande barato de ser um Dragão da Independência é estar vestido com a farda e cumprir com o protocolo. Na primeira vez que fez a guarda no Palácio da Alvorada, avisou a toda a família. O orgulho de ver o rapaz na posição foi geral. “Tiraram um monte de fotos”, recorda-se, com alegria. No ano que vem, pretende fazer alguma faculdade. Até quando conseguir, vai conciliar as duas carreiras: a civil e a militar. De qualquer forma, o Exército lhe ensinou muito sobre como se portar fora das dependências do 1º RCG. “Aprendi a disciplina, o respeito à hierarquia, o companheirismo e a humildade e sei que vou levar tudo isso para o resto da minha vida”, afirma. Enquanto isso, é um orgulhoso Dragão da Independência, que, no auge da sua simplicidade, quis uma foto com a equipe de reportagem para mostrar para a família e para os amigos. E foi assim que meros civis que tantas fotos tiraram ao lado dos imponentes soldados no Palácio da Alvorada ) viraram atração também.

“Aprendi a disciplina, o respeito à hierarquia, o companheirismo e a humildade e sei que vou levar tudo isso para o resto da minha vida.”

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Fora do Plano por NOELLE OLIVEIRA noelleoliveira@meiaum.com.br

Alvo errado

Quando seus escolhidos não parecem tão alinhados às suas convicções, ou podem prejudicar grupos poderosos, Agnelo Queiroz não pensa duas vezes para fazer trocas de comando. Depois de Marcelo Piancastelli perder o cargo na Secretaria de Fazenda, em setembro, por defender a retirada de benefícios fiscais de empresários e o aumento da arrecadação tributária, no último mês, o petista Jacques Penna foi convidado a deixar a presidência do Banco de Brasília (BRB). A mudança foi interferência direta do governador. Embates envolvendo patrocínios com os quais Penna não concordava e outras divergências o motivaram. Agnelo indicou de imediato, para a substituição de Jacques, o empresário do setor varejista Abdon Henrique, seu grande amigo. Péssima jogada.Conseguiu comprar briga com o grupo majoritário do PT, do qual Jacques faz parte, e com nomes importantes no partido, como Chico Vigilante, que segue a mesma linha. Logo Chico, que sempre o defendeu de tudo quanto foi tipo de acusação durante a campanha e nestes quase dois anos. Esse mesmo grupo petista bancou o ingresso de Agnelo no PT quando este saiu do PCdoB. Com carreira técnica respeitada, Jacques parece “perseguido” – foi demitido de três cargos desde o começo do governo, passando pelas funções de chefe da Casa Civil, secretário de Desenvolvimento Econômico e presidente do BRB. Abdon, por sua vez, exibe carreira meteórica – de administrador do Lago Sul, passou para secretário e para o comando do banco. Nos dois últimos substituiu justamente Jacques.

Desavenças Com a mudança no BRB, Agnelo comprou briga com o PT. Já com a contratação de consultoria de uma empresa de Cingapura – para a criação de um plano de desenvolvimento –, Agnelo desagradou a aliados no Congresso e levantou muitas suspeitas. Os senadores Cristovam Buarque (PDT) e Rodrigo Rollemberg (PSB) alfinetaram, o petista respondeu na imprensa. Agora, é questão de tempo, e não muito, para o PSB deixar o governo. Uma reunião já ocorreu para debater o assunto, mas não chegou a nenhuma conclusão. A

existência de cargos no governo local ainda precisa ser solucionada pelo partido para o desfecho. Quem tem vaga está com receio de sair, já os mais ideológicos mantêm o propósito firme. Também se torna inevitável a candidatura de Rollemberg para governador em 2014. O apoio, comenta-se, pode vir de Toninho do Psol e de Reguffe, todos em prol de uma chapa mais limpa e que deve se propor a encontrar o “novo caminho” que a gestão petista até agora não achou. A “hora de botar a casa em ordem” já passou, será que ninguém percebeu?

Memória curta Projeto de lei da oposição pra lá, veto do governador pra cá, e no fim das contas o novo estádio continuou levando o nome de Mané Garrincha, mas com prenomes extras: Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Agora, o governo, que antes se opunha à manutenção do nome do craque futebolístico no estádio, pretende construir no local o Museu do Mané Garrincha. A Secretaria de Comunicação Social produziu até mesmo uma edição de um programa semanal de rádio dedicada ao jogador de futebol. Assim fica difícil ser coerente.


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O xodó de Avó

A cristaleira

As crianças não podiam entrar naquela sala nem sair da cama antes das oito. Mas um dia Soninha resolveu quebrar as regras

Texto Ângelo dos Santos emaildoangelodossantos@yahoo.com

A casa, desde a entrada, cheirava a mato, a mato e a terra molhada. O avô tinha ido buscar seu neto mais velho, mas teve que levar a menina também. “Eles são irmãos, aonde vai um vai o outro”, disse Marta, mãe de Soninha. Olhando de fora se via o portão e ao fundo o segundo andar da casa, escondido atrás das árvores altas e da trepadeira que cobria quase completamente as paredes mofadas. O telhado de cerâmica, já esverdeado pela umidade e pelo tempo, deitava suas faces sobre as paredes imponentes. Ao tocar o portão Soninha já sentia o cheiro forte de verde. No caminho de pedras que levava até o pomar, as orquídeas bem cuidadas por Avó embelezavam ainda mais a mata atlântica nativa. O quintal era imenso, formado pelo pomar, pela longa entrada e por um banco, pró-

ximo ao portão. Esse banco, feito na pedra, estava sempre tomado pelos musgos, nunca por gente. Naquele lugar viviam seus avós e uma tia solteira. Muitos eram os costumes e as coisas da casa, que se confundia com a própria Avó – também imponente, um tanto mofada e de cabelos cor de cerâmica. Contavam que tinha sido muito bonita. Soninha não via como. Parecia-lhe uma velha rabugenta e cinza. A voz tornada grave pelos muitos anos de tabaco assustava a menina. Sempre com olhar desafiador, seios grandes, queixo a noventa graus dos ombros e um chinelo disposto a cantar na bunda dos meninos. Assim era Avó. Soninha não era a preferida do avô, tampouco de Avó ou da tia. O avô não largava o neto mais velho pra nada. As duas mulheres só tinham olhos pros

homens da casa, o pai de Soninha e seu tio. À menina cabia a tarefa de ajudar a pôr e a tirar a mesa, assim como a de limpar a casa e lavar a louça. Odiava ter que ficar com as mulheres na cozinha limpando a sujeira daqueles homens falantes que fumavam e gritavam na sala da cristaleira após as refeições.

***

Independentemente da hora em que acordassem, só a velha Avó podia sair da cama antes das oito da manhã. Não se sabia ao certo a razão de tal regra, mas assim era. Soninha ficava acordada por muito tempo até poder se levantar. Nesse tempo pensava na casa, que falava com ela. Os longos corredores do segundo andar, onde ficavam os cinco quartos, tinham azulejos verdes no chão frio e ecoavam a cada passo da velha. Nas paredes, os quadros com fotos tão antigas quanto


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***

Estava tudo diferente. As árvores altas pareciam ansiosas por algo. Pôde perceber que a mata respirava. As orquídeas a olharam com desconfiança. Teve medo. Lembrou-se de Avó e de sua proibição. Quis voltar pra cama. A terra sob seus pés se movia lentamente, como um grande lençol balançado a quatro mãos. Equilibrou-se. Olhou para as trepadeiras que pareciam cobrir toda a casa, rastejando parede acima. A casa estava mesmo viva, toda ela. Ouviu chamarem seu nome. Era Avó, estava sentada no banco de pedra perto do portão. Tinha sido descoberta. Caminhou

cabisbaixa em direção ao banco enquanto pensava em alguma desculpa. Avó lhe sorriu. Estava também diferente, assim como a casa, estava mais viva. Soninha notou em seus olhos uma doçura que nunca tinha reparado. Parecia mais leve. Pediu que a menina sentasse e começou a lhe contar sua história enquanto lhe afagava os cabelos. Tinha fugido de casa, ainda bem nova, para casar. Sua família não gostava do avô de Soninha. Era uma estória linda, de romance de livro – pensou a menina. Pela primeira vez imaginou que Avó não tinha nascido velha. Durante os anos seguintes viveram muitas coisas naquela casa, que era também ela mesma. Disso a menina já sabia, sentia. Nesse momento Avó fitou-a longamente e com uma delicadeza emocionada pediu a Soninha que cuidasse dos cristais, quando ela não pudesse mais fazê-lo. A menina sentiu um arrepio estranho. Nada daquilo podia ser. No meio da mata respirante, entre orquídeas desafiadoras, Avó a adulava e pedia que cuidasse dos cristais? Não se lembrava de já ter recebido carinhos de Avó. Olhou mais uma vez pra velha. Achou-a bonita. Seus olhos passavam uma tranquilidade fúnebre. Teve medo, muito medo, aquela não podia ser Avó. Correu o máximo que pôde, deixando a velha pra trás. Ofegante, passou pelo quintal e subiu os degraus até a sala da cristaleira. Quando entrou viu Avó, no chão. Seu corpo ressecado e mais velho do que nunca. Suas mãos em forma de gancho seguravam a cristaleira, endurecidas. Avó, ou o que restava dela, parecia agarrar-se àquele móvel com todas as forças que lhe sobravam. Levava no rosto uma expressão de pavor intenso, que fazia com que suas bochechas entrassem cara adentro. A menina tremeu. Pé ante pé, caminhou para seu quarto, abriu a porta e deitou-se. Olhou o relógio do quarto, ainda era cedo. Cobriu-se e es) perou dar oito horas. )

o próprio tempo, faziam Soninha pensar quantos anos Avó teria. Tinha ainda a sala da cristaleira. Uma sala pequena, quando comparada aos outros cômodos. As crianças não podiam entrar lá. A cristaleira era o xodó de Avó, que a mantinha sempre brilhante. Pelo menos era o que diziam os adultos. Nesses momentos do início da manhã era quando a menina podia melhor escutar a casa. Naquela manhã Soninha decidiu que não ficaria na cama até a hora estabelecida. Pisou o mais leve que pôde no chão. Sabia que Avó não estava por perto. Tocou seu pezinho de menina no chão frio de azulejos verdes e sentiu-se levada por eles. Enquanto os azulejos corriam sob seus pés sentiu um frio no estômago. Entrou na sala da cristaleira. Seus olhos esbugalhados quase cegaram com a luz que vinha dos cristais. Entendeu por que Avó não deixava que as crianças olhassem aquilo. Eram muito novos para tanta beleza. O sol que entrava pela janela grande de madeira se refletia nos cristais rosados criando cores indescritíveis. Foi possível ouvir o som das cores fluorescentes. Paralisada, talvez tenha chegado a sorrir. Ouviu alguma coisa e chispou escada abaixo, rumo ao pomar.


Artigo

Em vertiginoso crescimento

Assim está a metrópole em que vivemos. Ou você ainda não notou que moramos em uma das maiores cidades brasileiras? Texto Aldo Paviani Foto Nilson Carvalho paviani@unb.br

nilson.carvalho@gmail.com


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uitos habitantes da capital federal ainda não se deram conta de que residem em uma metrópole. Isso significa morar em grande cidade ou em uma das maiores cidades brasileiras. Brasília é metrópole integradora de vasto território à sua volta, tendo a “missão” de ser diversa na organização espacial, se comparada aos demais grandes aglomerados, porque nasceu de vontade política de Juscelino Kubitschek e da prancheta de dois gênios da arquitetura e urbanismo – Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Passados 52 anos da transferência da capital para o Planalto Central, verificamos que Brasília é classificada como metrópole 1B, junto com o Rio de Janeiro, segundo o IBGE. Em termos de hierarquia urbana, São Paulo tem posição superior, pois é nossa metrópole 1A. Esse trio metropolitano é diversificado no que toca à evolução e à história e quanto ao volume populacional, atividades e funções de cada uma delas. Para a formulação dessa hierarquia urbana, foram selecionadas características como possuir “grande massa populacional”, além de funções econômicas estruturantes. São Paulo possui um parque industrial que se destaca de outros na América Latina e mantém área de influência nacional. O Rio de Janeiro, mesmo após a transferência da capital, mantém influência regional importante e se destaca pelas belezas naturais que o tornam atrativo para o turismo. Brasília tende a diversificar suas atividades e a ampliar seu papel de capital política e administrativa do Brasil. Daqui para a frente terá maior desempenho funcional, em razão da tendência a integrar vasto território à sua volta – constituindo sua região geoeconômica. Pelo Censo de 2010, Brasília atingiu a casa dos 2,5 milhões de habitantes, mas, internamente, sua população não está bem distribuída no Distrito Federal. Há localidades urbanas com grande número de habitantes, como Ceilândia – mais de 400 mil – e cidades com pequena “massa populacional”, como o Núcleo Bandeirante, a antiga Cidade Livre, com cerca de 38 mil. Há, igualmente, cerca de 900 mil habitantes nos municípios goianos limítrofes ao DF. Funcionalmente, esses municípios compõem a Área Metropolitana Integrada de Brasília (AMIB), em organização. É em Brasília, sobretudo no Plano Piloto, que essa população trabalha e busca serviços. O estreitamento das relações urbanas enseja que se pense na AMIB como ente metropolitano, capaz de conduzir a gestão dos “serviços de uso comum”, para que os benefícios de Brasília cheguem até a periferia metropolitana.

No passado, a capital planejada possuía uma aura de organização interna. Todavia, o planejamento se perdeu no açodamento na criação de cidades-satélites, a partir de 1958 com Taguatinga, que surgiu com trabalhadores residentes em favelas próximas ao Núcleo Bandeirante. Sucessivamente, outros núcleos foram criados para receber a população que, compulsoriamente, foi transferida das “Localidades Provisórias” ou as “Grandes Invasões” (favelas), abrigos dos imigrantes que vieram erguer os ministérios, os blocos das superquadras e os palácios. Como a transferência (“erradicação”?) de favelados para as novas localidades obedeceu a critérios burocráticos e repetitivos, hoje temos 31 núcleos ou regiões administrativas. Por vezes, fala-se em outras mais. Contudo, o território começa a ter esgotados os espaços livres para assentamentos, em razão dos impedimentos ambientais contidos nas áreas de proteção ambiental – as APAs. Felizmente, a época dos “condomínios irregulares ou “invasões” deve ser ultrapassada, pois tomam-se medidas para a regularização fundiária e o povoamento se dará sob o império da lei. Ademais, algumas medidas permitem o adensamento dos núcleos existentes, sem o desatino cometido com Águas Claras, onde há prédios com 30 andares, totalmente em desacordo com a arquitetura do DF. Será importante conter o ímpeto imobiliário sobre a Quadra 901 do Setor Hoteleiro Norte. Essa área de reserva poderá ser mantida ou se submeter ao padrão construtivo que deu a Brasília o honroso galardão de Patrimônio Cultural da Humanidade. Portanto, a hora é de prever o futuro, reservando espaços estratégicos para nossos pósteros e para que tenhamos uma cidade com maior descentralização de oportunidades, mais humana, mantendo qualidade ambiental. Para esse propósito, há capacidade profissional – técnica e intelectual – para que o planejamento seja feito pelos herdeiros dos sempre lembrados fundadores.

Como a transferência (“erradicação”?) de favelados para as novas localidades obedeceu a critérios burocráticos e repetitivos, hoje temos 31 núcleos ou regiões administrativas.


Capa

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arecia simples. Minha missão era ir de casa para o meu local de trabalho de bicicleta. Eu teria que começar do zero. Nem bicicleta eu tinha e precisaria pegar uma emprestada, mas não me pareceu complicado cumprir a tarefa proposta em reunião de pauta da meiaum. A distância não é grande – do fim da Asa Norte ao início do Lago Norte – e o trânsito é relativamente tranquilo por estar sempre no contrafluxo. Sedentária que sou, temia o cansaço, mas isso eu poderia resolver saindo bem mais cedo para ter a liberdade de ir parando no meio do caminho. Passada a empolgação inicial comum de quando somos desafiados, parei para pensar o que seria essa experiência na prática. A saga começou em julho. O discurso comum dos defensores da bicicleta como meio de transporte não é simplesmente ambiental. Há argumentos para quase tudo: ela ocupa menos espaço, é um veículo mais lento, não precisa de combustível e dá liberdade para o condutor ir e vir sem depender de equipamentos públicos. É o tal do Direito à Cidade. “Uma pessoa que mora em Samambaia não pode ir ao Plano Piloto à noite se depender de ônibus ou de metrô”, exemplifica o servidor público, ciclista e defensor do Direito à Cidade Renato Zerbinato, de 35 anos. Se não tiver carro, precisa prestar atenção no horário para não perder a condução. De madrugada, nada funciona. Então está bem, comprei o discurso. Um carro a menos nas ruas já faria diferença. Além disso, eu poderia me empolgar com a experiência e, quem sabe, me

Missão nã

cumprid Pedalar é preciso para termos trânsito não tão tumultuado, menos emissão de gases tóxicos e mais saúde, mas vale o sacrifício? Nossa repórter acha que sim, mas ainda prefere o carro Texto Paula Oliveira paulaoliveira@meiaum.com.br


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30 tornar ciclista. Tenho costumes típicos de brasilienses, como não andar a pé nunca. Nem mesmo para percorrer distâncias curtíssimas. Mas eu poderia diminuir o uso do meu carro e contribuir um pouco para a preservação do planeta. E contribuir também para a minha tão desejada boa forma, mas essa é outra história! “A convenção mundial é de que o transporte por bicicleta seja feito em percursos máximos de sete quilômetros”, diz Zerbinato. Mais do que isso fica cansativo e demorado. Em média, se gastam 30 minutos nessa distância. O pedestre caminha aproximadamente seis quilômetros por hora. De bicicleta, a velocidade dobra. Mesmo dentro do DF, que tem o território pequeno, muita gente que depende de ônibus ou enfrenta engarrafamentos gasta mais do que meia hora para chegar ao trabalho. Comprei a bicicleta (sim, de verdade!). Tive dificuldade de encontrar a ideal. Pesquisei e vi que há o tamanho certo para cada pessoa, mas as personalizadas são caras demais. A que eu vi sairia no mínimo por R$ 1,2 mil, fora os acessórios. Como eu estava começando, preferi não fazer um investimento tão alto. Mesmo assim, gastei pouco mais de R$ 400. A que comprei ficou grande para mim. O ideal é encostar os pés no chão quando no sentado no selim. Eu fico na ponta dos pés. Mas, tudo bem, eu me acostumaria. Resolvi treinar antes de pensar em pedalar para o trabalho. O medo foi grande e a vergonha também. Dizem que ninguém se esquece de como é andar de bicicleta. Eu tinha me esquecido. O segundo dia foi mais tranquilo. Estava mais segura. Fiz isso algumas vezes e comecei a ver na prática quais

seriam as dificuldades para adotar o hábito, ou pelo menos cumprir a pauta. Pela ponte, eu não vou Enfrentar as ruas cheias de carros, motos e pedestres era, e continua sendo, uma das minhas maiores preocupações. Para Zerbinato, que tem esse costume há mais de dez anos, as vias de Brasília são perfeitas para transitar de bicicleta. “Para mim, não vejo necessidade de adaptação”, garante. Mas, quando o filho de 12 anos pedala com ele, o servidor público prefere as calçadas. “É perigoso”, admite. E eu? Não tive coragem de ir de uma quadra residencial a outra sem me desgarrar do caminho que faria a pé. Se eu soubesse na época que existe uma organização chamada Bike Anjo (www.bikeanjo.com.br), em que voluntários ajudam iniciantes a enfrentar o trânsito, talvez tivesse conseguido. A socióloga Renata Florentino, de 28 anos, recorreu ao serviço para se iniciar na vida de ciclista. Precisou de ajuda para sair do Sudoeste, onde mora, para a Asa Sul, onde trabalha. Ainda tem medo, admite. “Pedalo só há uns meses, ainda estou me adaptando, mas está dando certo.” Zerbinato é um voluntário, mas, mesmo se eu tivesse a companhia dele, acho que minha missão teria furado. O fato de eu ter que passar pela Ponte do Bragueto atrapalha. “Não aconselho porque é muito perigoso”, sentencia. E olha que trabalho a apenas sete quilômetros de casa. Estaria dentro da convenção mundial e gastaria apenas uns 15 minutos a mais para chegar. Mas o conselho de um Bike Anjo é sagrado. Minha alternativa seria pegar a Epia e


31 entrar no Lago Norte por ela, mas é muita contramão. Sem contar que, para quem tem medo de circular no Plano Piloto, seguir para uma estrada de velocidade alta não seria coerente. Missão não cumprida.

Luana Lleras

Preciso de fôlego Já ouvi muito que a endorfina, produzida quando fazemos exercícios, traz sensação de prazer. Eu mesma nunca senti isso, mas é o que dizem. Pedalar por meia hora, para quem não é atleta, é uma malhação. Eu tentei, juro, mas depois desse tempo todo em cima da bicicleta eu não produziria uma só linha de texto. Queria ajudar a melhorar o trânsito, mas preciso chegar ao trabalho disposta. Enquanto estou com preguiça dos meus sete quilômetros, o garçom Afonso Pacheco Portela, de 43 anos, percorre o quíntuplo para o trabalho. É um entusiasta da bicicleta. Em casa, tem cinco. Um carro e uma moto também, mas os xodós são as

“magrelas”. Trabalha há nove anos como copeiro em uma empresa no Setor Bancário Norte e mora em Ceilândia. Desde os primeiros meses no emprego, vai de bicicleta. “De ônibus é um sacrifício.” Além de lotados, não estão em bom estado. “Sem contar o estresse de ficar no ponto de ônibus esperando a boa vontade dos motoristas em parar”, reclama. Como já pedalava por esporte, viu que não haveria problema em adotar a bicicleta como meio de transporte também. São nove anos de persistência. O garçom tinha mais ou menos a minha idade quando tomou essa decisão e garante que não é preciso muito prepa-

ro para enfrentar o caminho pedalando. “Em pouco tempo você se acostuma”, incentiva. Sei. Para ele, é fácil. É maratonista e também participa de competições ciclísticas. Portela diz que o pior dos 70 quilômetros que ele percorre por dia é o trânsito pesado (ele passa pela Via Estrutural), a sujeira no asfalto, a falta de educação de motoristas e, claro, as condições da via.

Renato defende o direito de ir e vir sem depender de equipamentos públicos. É voluntário e ajuda novos ciclistas a enfrentar o trânsito.


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Quero chegar viva Qualquer pedregulho ou peça de veículo no chão representa grande perigo para o ciclista. Se o motorista precisa ficar atento a milhões de coisas enquanto dirige, quem está de bicicleta pode dobrar o grau de preocupação. “É complicado”, reclama o garçom maratonista. Ele usa no dia a dia um pneu próprio para competições de mountain bike para diminuir a possibilidade de furar com cacos de vidro, comuns no meio do caminho. “Acho que as pessoas desistem da bicicleta por causa dessas pequenas dificuldades que, no fim das contas, se tornam grandes.” Ele mesmo desiste quando está chovendo. A falta de ciclovias agrava o problema. Quem sabe isso se resolva quando o governo do DF entregar os 421 quilômetros de ciclovias que promete construir até 2014? Ainda assim, para ele, circular de bicicleta compensa. O Código de Trânsito reconhece a bicicleta como meio de transporte. É

chamado veículo não motorizado e precisa seguir regras. Uma delas, com a qual nunca me conformei, é andar sempre na mesma direção dos carros. Fico insegura. De costas para os veículos, não vejo como está o trânsito, quem chega perto. Mas a norma segue uma lógica física. Se a colisão se der de frente, as velocidades se somam e o estrago é maior. Outra regra é que o ciclista deve dar preferência ao pedestre e evitar as calçadas. As ciclovias que estão sendo construídas na cidade são de uso misto (pedestres e ciclistas), e a preferência é de quem está a pé. Segundo o Código de Trânsito, na falta de ciclovias ou acostamentos, lugar de bicicleta é na via. “Inserir o ciclista no trânsito é difícil porque nem o motorista vê a bicicleta nem o ciclista vê o carro”, diz Zerbinato. A impressão que dá é de que em qualquer lugar a bicicleta é um incômodo. Os motoristas não a querem nas vias e, na calçada, representam risco para os pedestres. Solteira e sem filho, Eliz Pessoa, de 35 anos, é estudante de pedagogia e trabalha com produção de eventos. A insegurança dela vem toda do trânsito mesmo. Se os motoristas já respeitam pouco o ciclista uniformizado, imagine aqueles que circulam com roupas do dia a dia? Talvez a roupa e os equipamentos imponham um pouco mais de respeito,

Renata pedala de vestido e enfeitou a bicicleta ao seu estilo, bem feminino.

mas ela não tem nada disso. Prefere andar livre, como nos filmes europeus ou nas novelas escritas por Manoel Carlos. É errado, sim. Precisa de campainha, de sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais e de espelho retrovisor do lado esquerdo, além do capacete e de roupas claras e chamativas. É o que diz o Código de Trânsito. Mas, se não for obedecido, não tem punição. Há previsão de multas, mas não existe regulamentação para que sejam aplicadas. O preço mais alto é mesmo a exposição em caso de acidente. Para a publicitária Lia Tavares, de 32 anos, a segurança é imprescindível. Ela tem tudo. Até a sapatilha especial que se encaixa no pedal. A bicicleta está na vida dela desde a adolescência. Ela não quer poluir ainda mais o planeta e diz que sempre teve essa postura mais consciente. E a bicicleta faz parte dessa cultura que adotou como estilo de vida. Ainda jovem, fazia tudo de bicicleta: faculdade, estágios, festas, cinema, shopping. Tinha resistência em comprar um carro, mesmo quando passou a ter condições financeiras. Além disso, nunca teve paciência para o trânsito. “Bom é pedalar no meio dos carros parados no engarrafamento e sentir que você não precisa daquele estresse para chegar a algum lugar”, reflete. Lia é natural ao extremo. Mora em uma área rural perto do Lago Norte chamada Córrego do Tamanduá. Houve uma época em que abandonou a bicicleta como veículo para trabalhar e adotou o caiaque. Sim, a casa dela é perto do Lago Paranoá e o lugar em que trabalhava também. Então, todos os dias ela remava de um lado para o outro. Precisava de 15 minutos e esse tempo servia de meditação, de relaxamento. Agora mãe de duas crianças – uma de 4 e a outra de 2 anos –, precisou comprar um carro. Foi chocante, como ela mesma descreve, mas não havia jeito. Morar no Lago Norte, trabalhar na Esplanada dos Ministérios e ter duas filhas para levar à escola, tudo de bicicleta, não é prático. Nem mesmo para Lia, tão dedicada à preservação ambiental.


Quando quer fazer compras, a bicicleta também não é mais viável. Ela tem uma família de quatro pessoas e precisa carregar muita coisa. Se precisa resolver alguma pendência em órgãos públicos também não pode ir de bicicleta. Geralmente eles não têm estacionamentos próprios, apesar de existir uma lei distrital que os obriga a instalar bicicletário (Lei 4.800, de março de 2012). Só que uma volta pelo Setor de Autarquias Sul já denuncia que a regra não é cumprida. Eles têm dois anos para se adaptar. Enquanto isso, se não há bicicletário, não há solução. O Departamento de Trânsito do DF não tem nenhuma orientação sobre onde o ciclista deve parar. Quando chove, pior ainda. Como vai ficar o dia inteiro com a roupa molhada? Mesmo que tenha como se trocar, é um transtorno. Certa vez, foi impedida de entrar na garagem de um shopping por estar de bicicleta. Hoje, os shoppings já perceberam a falha e alguns oferecem estacionamento para os ciclistas. Eles pagam como motoristas. “Os impedimentos são muitos, mas vale a pena tentar”, garante a publicitária. Hoje não pode levar a vida que tinha quando adolescente, mas o gosto pela bicicleta e a convicção de que é possível ter uma vida mais harmoniosa com a preservação do meio ambiente não a deixaram abandonar o hábito tão facilmente. Uma ou duas vezes na semana, Lia vai trabalhar de bicicleta. A operação é trabalhosa, mas ela diz que parece mais complicada do que realmente é. Ela sai de casa de carro, com as duas crianças, o material da escola, uma mochila com roupa para trabalhar, água e, claro, a bicicleta no porta-malas. Deixa as meninas na escola e segue de carro até uma quadra da Asa Norte. Para o veículo, monta a bicicleta e segue para a Esplanada dos Ministérios. Ela demora cerca de 30 minutos e diz que esse seria o tempo que perderia se estivesse de carro. “O tempo que levo para chegar pedalando compensa o que perco procurando vaga para estacionar”, calcula. Na volta, a mesma coisa. Só não busca as crianças na escola. O marido dela faz isso mais cedo.

Onde vou tomar banho? Por estar ao ar livre, o ciclista tem contato maior com a poluição liberada pelos veículos – além de toda a poeira da rua, do vento forte, do sol intenso, da chuva, do frio. Enfim, está sujeito a tudo. Chegar limpinho e cheiroso? Pode se esquecer disso. Portela, o garçom ciclista, usou, por quase uma década, o banheiro do shopping ao lado do prédio em que trabalha para tomar banho antes de iniciar o expediente. Tudo precisa ser bem planejado. No armário do trabalho, guarda os produtos de higiene e carrega a toalha na mochila – acessório indispensável. Uma trabalheira! Para conseguir liberação, precisou conversar com o pessoal da administração do centro comercial. Não foi fácil. Neste ano, depois de muito insistir, Portela foi autorizado a tomar banho no edifício em que trabalha. Ele e mais uns três ou quatro têm o mesmo hábito. Mas nada de bagunça! Essa foi a exigência da administração. Cada um chega em um horário e toma o seu banho. Outro pré-requisito: precisa ser homem. Não há espaço para as mulheres, pelo menos nesse prédio. Ao me preparar psicologicamente para o desafio de pedalar pela cidade, o primeiro problema que veio à minha cabeça foi o cansaço. O segundo foi justamente a higiene. Ter que carregar uma mochila cheia de roupas, acessórios para o banho, secador de cabelo e sapato não seria prático para mim. Onde eu trabalho não há chuveiro. Não por má vontade da empresa, mas por falta de infraestrutura mesmo. Nem no prédio que abriga a agência há chuveiro disponível. Talvez, se eu negociasse por nove anos, como fez Portela, eu conseguisse. Mas até lá chegaria ao trabalho suada e incomodada. É aquela velha história do que deve vir primeiro: a consciência individual de adotar um meio de transporte alternativo ou a consciência coletiva de preparar os ambientes para incentivar as pessoas a adotarem hábitos mais saudáveis para elas, para a cidade e para o planeta?

Além de ter condicionamento físico para aguentar 70 km diários, Afonso investe na segurança. o ard

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Eliz Pessoa diz que isso não é problema. Para ela, é fácil. Ela jura que não sua. Acorda e veste roupas confortáveis para pedalar, chega ao trabalho um pouco antes e troca tudo. Como não transpira, não toma banho. “Não é qualquer empresa que tolera que o funcionário chegue com roupa esporte e use as dependências para se trocar, mas com jeitinho a gente acaba conseguindo a liberação.” Quando a entrevistei, em agosto, tinha acabado de trocar de emprego e ainda não sabia se teria essa liberdade. Mas ela dá um jeito e insiste em usar a sua velha bicicleta para ir para lá e para cá. E se o pneu furar? O hábito de Eliz começou por necessidade. Estudante e sem dinheiro, viu que seria viável fazer o trajeto de casa para a faculdade de bicicleta. E ela gostou da experiência. “Via aqueles filmes europeus em que as pessoas pedalam felizes e bucólicas pelas ruas e eu queria aquilo para mim também”, conta.


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Talvez por isso abomine uniformes de ciclistas e grupos de pedal. Prefere ser livre e pedalar sem compromisso com nada, nem com ninguém. “Não sou ciclista, sou biciclista”, define-se. Hoje teria condições de utilizar outro meio de transporte, mas persiste. Para Eliz, pedalar é um prazer, apesar dos obstáculos. Se um pneu fura, por exemplo, é um problema. Se de carro já é motivo de chateação, de atraso e de trabalho sujo, de bicicleta é pior. A primeira dificuldade é encontrar borracheiro por aí. Sempre tem um por perto, mas não um que conserte pneu de bicicleta. Se alguma peça se quebra no meio do caminho, também complica. Acaba que todo ciclista, ou biciclista, é um pouco mecânico. A sorte de Eliz é se ela encontrar um colega do pedal como Portela, o garçom que sai de Ceilândia todos os dias para trabalhar no Setor Bancário Norte. Ele

costuma carregar ferramentas para ajudar os ciclistas com dificuldades. Só que ela tem uma vantagem: todo o seu percurso é dentro do Plano Piloto. Não enfrenta uma autoestrada como Portela. Assim fica realmente mais fácil encontrar ajuda. Ela não tem carro. Então, tudo é feito pedalando. Até as compras de casa. A mãe a acompanha. Cada uma na sua bicicleta. E as compras precisam ser picadas. Não dá para fazer o mercado do mês, por exemplo. Se se empolgarem, o peso fica insuportável e o que já não é prático fica ainda pior. “Já diminuímos o volume porque ficávamos com muitas dores. Agora acertamos a quantidade, eu acho”, diz. E como já escrevi, Eliz tem sorte. Ela mora em um lugar em que o acesso ao comércio é facilitado. Tem tudo por perto. Então não é um sacrifício tão grande assim, na avaliação dela. Mas eu acho que ir várias vezes ao mercado por não conseguir carregar todas as compras não é tão legal assim. Eliz vai de bicicleta até para festas e shows. Diz que não vai produzida porque prefere o conforto. “Às vezes até tenho vontade de me vestir de mulherzinha, colocar um vestido bonito, arrumar os cabelos, mas de bicicleta não dá.” Levar mochila para trocar de roupa no trabalho até vai, mas em uma festa fica difícil. O jeito é se conformar e se divertir conforme as possibilidades. Chegar perto do palco, no caso de shows, não dá. Ela não se sente segura em prender a bicicleta em um poste qualquer. Tem medo de que a levem embora. Então, fica pelos cantos, nas áreas mais vazias para não ter problemas. Se quiser ir a dois eventos em uma mesma noite, também não dá. Ainda mais se forem distantes um do outro. Já voltou de festas de madrugada sozinha. O problema é a segurança. Na bicicleta, a pessoa fica mais vulnerável a tudo. Medo

ela não tem, mas procura não repetir os caminhos com frequência. Às vezes percorre distâncias mais longas, mas prefere assim. “De qualquer forma, nunca fui abordada por ninguém. Quando estou em movimento, me sinto segura.” Uniforme pra quê? Como trabalha com produção de eventos, Eliz precisa estar vestida com trajes sociais. Salto alto e tudo o mais. Claro que não vai pedalar assim. Coloca tudo na mochila e segue viagem. No trabalho, troca tudo. Levar vestido e sapato é fácil. Quero ver no dia em que estiver frio e precisar enfiar calça jeans, botas, casaco. Seria muito peso para carregar. A socióloga Renata, por sua vez, prefere enfrentar o pedal com a roupa com que vai trabalhar. Renato Zerbinato também. Mas ele é homem e fica mais fácil. Como é assessor de uma deputada federal, às vezes precisa ir de terno. “Não troco nada, nem carrego nada, vou do jeito que estiver”, diz, desprendido. A única adaptação é dobrar a perna da calça para não correr o risco de rasgá-la no pedal. Já perdeu algumas peças assim. A publicitária Lia faz questão de pedalar com roupas de trabalho. Acredita que assim os motoristas terão mais consciência de que ela é uma pessoa comum, que vai trabalhar e que precisa de espaço na pista. “Tenho vontade de fazer uma placa dizendo que sou mãe e que preciso chegar em casa com segurança.” Lia é veterana, mas Renata começou a pedalar no meio do ano. Antes, não sabia nem se conseguiria se equilibrar nas duas rodas. Assim como eu. Comprou uma bicicleta dobrável e do tamanho ideal para ela. Sorte a dela! E adaptou o novo veículo à sua personalidade. Enfeitada com flores, cesto de palha e adesivos do tipo “Um carro a menos na rua”, a bici-

Eliz faz tudo de bicicleta: Vai ao trabalho, ao mercado, a festas e a shows.


Leonardo Arruda

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Lia só comprou carro para dar conta da rotina com as duas filhas. Mesmo assim, não abandonou o hábito.

de vento”, explica. Aí, sim, já fiquei mais feliz. No lugar do colete, ela usa uma faixa, como de miss, também refletora. Sobra charme, mas falta o capacete. Depois que pedalo, meu cabelo está todo bagunçado e duro. Perguntei como Renata faz para manter o dela arrumado. Ela disse que algumas mulheres usam lenço para proteger os fios do vento e da poeira, mas ela prefere apenas prendê-los. Equipamento de segurança? Somente a faixa de miss para pedalar à noite.

)

cleta charmosa é reconhecida de longe. Nada de roupas com cores fluorescentes, capacete futurista e coletes refletores. Renata tem estilo. Ela vai de vestido! Quando a vi pedalando assim, quase saí correndo, também de vestido, para alcançá-la. Queria perguntar para alguém como é ser ciclista e continuar se vestindo de forma feminina. Para ela, não tem problema. “Comprei um acessório em um site gringo que é basicamente um elástico que colocamos na coxa com uma presilha para segurar a saia; assim, fico protegida das rajadas

Sem frescura, até daria Vendo as soluções e as justificativas dos ciclistas com quem conversei, entendi que eleger a bicicleta como meio de transporte não é muito simples. Faz bem para o corpo, para a natureza e para a cidade, mas não faz bem para a minha praticidade. Talvez, em uma cidade adaptada, com espaço para as bicicletas, para os carros e para os pedestres, com estacionamento e segurança para todos, com infraestrutura para receber quem optou por pedalar, eu pudesse abrir mão da comodidade do carro e das minhas frescuras para entrar para o grupo dos ciclistas. De que adianta eu comprar uma bicicleta, se, quando chego ao trabalho, não tenho estrutura para me apoiar? Não preciso nem chegar a tanto. Na minha experiência como ciclista, dei uma volta perto da minha casa. Depois de uma hora pedalando, fiquei com fome e quis comer em um restaurante por perto. Quando cheguei, vi que não teria onde deixar a minha Caloi. A solução foi pedalar até a minha casa, pegar o carro e voltar ao restaurante. “Acredito que, se o governo investisse mais em estacionamento para bicicletas e menos em ciclovias, por exemplo, o estímulo seria bem maior”, avalia Renato Zerbinato. E eu concordo. Os 600 quilômetros de ciclovias, ainda que ligadas, acredito eu, vão estimular a prática de atividade física. Não ) de locomoção por meio da bicicleta.


Artigo

cultura,

quem te atura?

É preciso exterminar aquela figura do artista coitadinho que mendiga verbinhas ao Estado paternal Texto e fotomontagem TT Catalão ttcatalao@gmail.com


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esprezada nos programas eleitorais, acessória por receber dotação orçamentária insignificante, sem foco quando confundida com arte. A cultura é muito falada e pouco efetiva quando se trata de planos estruturais dos governos para mudar, profundamente, a sociedade. Ironicamente, “está na cultura” dos políticos entender que “artista” é um ser extraordinário. Eterno carente que precisa ser paparicado mais pelo ego do que ser atendido, coletivamente, por ativas políticas públicas. Velhos vícios impedem novos viços. Vigora o toma lá dá cá nos projetos pessoais – sob excessiva ótica partidária e nenhuma estética autônoma –, a efeméride das celebridades pautadas por eventos gigantescos que funcionam como ralo de recursos e discutível retorno midiático. Dura enquanto duram os spots das coberturas. Morre no dia seguinte sem deixar raízes locais nem favorecer alimento para fortalecer o processo vivo. No poder, os partidos alegam que “o buraco é mais embaixo” e, em nome de uma realidade difusa, mesquinha, limitada, leiloam a cultura como “coisa de sonhadores” sem assumir alguns passos históricos do próprio Estado (que entrou em recuo, tomara, transitório): a cultura aliada do desenvolvimento (não pragmático só fundado em obras físicas) em uma outra economia de criação e narrativas simbólicas com força estruturante para uma cidadania que reclama porque se reconhece – exatamente pelos valores culturais expressos. Capacidade de expressão exige condições para se expressar. Linguagem resulta de misturas, circuitos livres, acesso aberto, invenção, experimento e trocas. “Expresso com o que tenho” é um grafite que fotografei no Recife, em 2004, e serviu de bandeira para os Pontos de Cultura do Brasil (sim, pois há Pontos de Cultura na Argentina, no Uruguai e na Colômbia pelo movimento Pueblo Hace Cultura). Expressar-se também exige espaço equipado e equipamentos mínimos para o básico do registro e da edição para daí chegarmos a canais de divulgação. Lembrei mais tarde que o grafite resumia um verso de Jorge Ben Jor na canção-manifesto Charles Jr. (o filho do Charles Anjo 45): “não importa o que eu tenho e sim o que eu posso fazer com que tenho”. É preciso ir além de uma postura antichororô, da dependência mascarada por chavões do tipo “mais apoio para a arte”, onde está embutido, no fundo, “mais apoio para o MEU projeto”. Lutar por estrutura, fundos permanentes com diretrizes claras e editais realizados com a participação

da sociedade é se contrapor ao muro das lamentações (como governantes adoram classificar “reivindicações” de grupos). Exterminar o artista coitadinho que mendiga verbinhas ao Estado paternal na pieguice do atendimento pontual ou esporádico de um evento. No plano local, o DF já deu passos estruturais e tem pedido respeito ao Fundo de Apoio à Cultura (não enfiem a faca no FAC), que cresceu e tomou rumos institucionais ao ser vinculado à Lei Orgânica, avançou em consolidação quando (após duas audiências públicas) criou princípios e conceitos de uso ao considerar e incluir a cultura popular e as práticas experimentais (a famosa vanguarda). O salto em política pública também avançou ao estar em consonância com as ousadias do MinC (que estiveram nos últimos dois anos interrompidas e até abortadas), mas que agora se reacende de esperança com a chegada de Marta Suplicy e a volta das políticas mais participativas geradas pela autonomia dos pontos e por novas tecnologias e compartilhamentos da cultura digital. O plano federal promete retomar as bases do Plano Nacional de Cultura (hoje há um sistema que provoca extensões da cultura em redes municipais) e a volta de uma discussão urgente: as cartografias culturais das regiões, que resultem na grande cartografia do Brasil plural e mestiço para orientar políticas públicas. Isso precisa repercutir no DF como reconhecimento das forças atuantes (independentemente do Estado, o DF cria fortemente e resiste) e a criação de estrutura em bases de expressão além do Plano e a favor dos Pilotos. Como dizem os Pontos de Cultura: “nós somos os autores das autoridades” ou “a gente muda quando a gente diz sim, eu sinto, eu sei, eu posso, eu faço, eu mudo” – “o Estado não impõe, o Estado dispõe”. É potencializar o que já existe para fortalecer o geral sem a perda do singular. E aí a cultura cai de boca na vida, mata outras fomes, vira gênero de primeira necessidade – fator de mudança, vetor de desenvolvimento, valor de sociedade!

É preciso ir além de uma postura antichororô, da dependência mascarada por chavões do tipo “mais apoio para a arte”, onde está embutido, no fundo, “mais apoio para o MEU projeto”.


Opinião

Made in Asia

Sobre Brasília, Cingapura e Sucupira

A decisão de fazer o tal planejamento de 50 anos passa ao largo de qualquer traço democrático de participação, de consulta e mesmo de comunicação à população

Texto Orlando Cariello Ilustração Mateus Zanon orlando.cariello@terra.com.br

Em Brasília, a primavera traz as chuvas que encerram os longos meses de seca implacável e revigoram o verde. Neste ano, o governo local tomou a si a missão de encorpar o já batido e previsível presente da natureza e agraciar o Distrito Federal com uma surpresa, um mimo a seu ver irrecusável: um “plano estratégico” completo para os próximos cinquenta anos, comprado pessoalmente pelo governador Agnelo Queiroz nas boutiques de novidades metodológicas do capitalismo emergente da Ásia, que aliás tem visitado assiduamente nos quase dois anos de gestão. Mais que um anúncio, a anunciação de tempos de desenvolvimento irrigados por uma enxurrada de investimentos

mateus@grandecircular.com

de grandes grupos econômicos internacionais carreados pela expertise (o termo da moda) dos especialistas da Jurong Consultants de Cingapura, empresa contratada sem licitação por “módicos” 8,6 milhões de reais, com plenos poderes para dizer como deve ser Brasília e todo o DF daqui para a frente. O arrebatamento do governador e de alguns destemidos auxiliares pelo Plano Cingapura faz lembrar a obsessão do prefeito Odorico Paraguaçu pela construção e inauguração do cemitério da fictícia cidade de Sucupira, em O Bem-Amado, novela televisiva de Dias Gomes levada ao ar quarenta anos atrás. Como Odorico fez com seu cemitério, o governador Agnelo parece ter trans-

formado o plano na razão de ser de seu governo, ainda que a população do Distrito Federal esteja, neste momento, penando com a precariedade dos sistemas públicos de saúde, de segurança, de educação, de transporte etc. No discurso sucupirano do governador, o plano será o rompimento com “um passado de atraso e obscurantismo, para um projeto de longo prazo, sustentável e ao lado de parceiros com credibilidade no mundo”, enquanto as críticas de arquitetos e urbanistas, de jornalistas, de entidades profissionais ou de políticos (inclusive aliados do governo) são meras manifestações de “provincianismo”, “miopia”, “falta de informação” e “fundamentalismo”1.


39 comandada pelo capital internacional, assim como os “consultores catalães”, estes ancorados na venda do modelo da revitalização de Barcelona. No Rio de Janeiro, em 1993, um acordo formal entre a prefeitura de Cesar Maia, a Associação Comercial e a Federação das Indústrias deu origem ao Plano Estratégico da Cidade, que viria a ser financiado e conduzido diretamente por um consórcio de 46 empresas e associações empresariais. O plano carioca produziu pérolas como considerar as favelas um “incômodo” na cidade projetada para o lucro, e não o resultado de uma imensa desigualdade social, esta sim, indesejável2. Os especialistas desse “planejamento estratégico” seguem a mesma proposta global de cidades ditas “competitivas”, francamente regidas pelos interesses do grande capital (os “investidores”, imobiliários ou não). Seus planos requerem a adesão consensual da população para seu completo sucesso, como se não houvesse desigualdades, exploradores e explorados, classes e interesses de classes contraditórios na cidade capitalista. São cidades para o capital e seus negócios, não para os habitantes. O que se vê no discurso oficial em Brasília e na tentativa de supressão da crítica é a imposição desse falso consenso em torno do modelo cingapuriano, a apresentação da Jurong como portadora da solução única para o futuro do DF. O “fundamentalismo” neoliberal, o “provincianismo” e a “miopia” (ou hipermetropia, quem sabe?) de Agnelo estão fazendo o Palácio do Buriti assemelhar-se à prefeitura de Sucupira, e esse definitivamente não é o melhor destino para Brasília, nem para o governador. Ainda que pelo menos Sucupira ) seja uma coisa brasileira. )

Pode-se discutir tudo isso, a começar pela possibilidade do governo de Agnelo, com a composição política e os parceiros que tem, romper com o passado. A “falta de informação” é de responsabilidade exclusiva do governo, já que a decisão de fazer o tal planejamento de 50 anos e contratar os consultores cingapurenses passa ao largo de qualquer traço democrático de participação, de consulta e mesmo de comunicação à população – tudo indica ter sido tomada entre o governador e seus círculos mais próximos, particularmente os empresariais. O contrato da Jurong com a Terracap (por que com a imobiliária estatal?), sem assinaturas, só foi tornado público no portal do GDF na internet no dia 25 de outubro, um mês depois de aprovado no conselho de administração da empresa. O termo de referência, publicado no mesmo dia, mostra a empresa consultora estabelecendo os termos do contrato, e não uma definição, pelo governo local, do trabalho a ser feito; a tradução juramentada desse termo tem data de 23 de outubro, portanto, vinte dias depois da data de assinatura do contrato. Ao contrário do que diz o governador em sua acusação de “miopia”, as críticas em geral estão vendo longe, enxergando até mesmo o deslumbramento provinciano que parece ter tomado conta do governo. O “fundamentalismo” apontado pelo governador está, na verdade, no sentido neoliberal de sua proposta de desenvolvimento da cidade, que submete rigidamente os interesses da maioria da população aos interesses empresariais. Gerou-se, ao redor do mundo, uma rede de consultores especializados no chamado “planejamento estratégico urbano”, modelo de intervenção que se traduz na aplicação de métodos empresariais de planejamento, de gestão e de marketing às cidades, tratadas como organizações econômicas privadas e como mercadorias. O “modelo cingapuriano” é apenas uma variante dessa rede

1Entrevista a Ana Maria Campos, no Correio Braziliense de 21 de outubro de 2012. 2 Ver ARANTES, Otília, VAINER, Carlos e MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis (RJ): Vozes, 2000. brasileira.


Artigo

A casa vermelha Quanto mais a observamos, mais ela cresce. Lá dentro, tudo parece imprescindível

Texto João Rafael Torres Foto Luana lleras tarotanalitico@gmail.com

fotografia@meiaum.com.br


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entro de nós existe uma rua. Nela, nada lembra conjuntos habitacionais, planos urbanísticos ou qualquer coisa que os valha. Cada casa é de um jeito, moldada a partir das necessidades e condições de cada morador. Tem casa de fachada monumental, ostensiva. Tem taperinha, onde vive a espontaneidade. O sobrado alto é usado como torre de controle. Na casa grande, as portas estão sempre abertas para acolher os amigos. A rua é grande, sinuosa, tão populosa quanto é a nossa alma. Logo na entrada, temos uma casa vermelha. Resplandece, como os ipês no auge da seca. Essa é a casa do desejo. Lá dentro, tudo parece imprescindível. Há sempre uma parede lisa, pedindo um quadro; um cômodo vazio, que exige mobília. A demanda é a lei nesse lar. Nem tudo que se deseja é necessário, é verdade. Mas a falta consome, mobiliza, inquieta. Até quando tudo parece preenchido, vem um estranho desejo de desejar. Quanto mais observamos a casa vermelha, mais ela cresce. Invade, empurra as demais, tomando-lhes o lugar para existir. A sensação de falta é condição natural ao homem. Marcamos nossa progressão a partir daquilo que adquirimos, do que conseguimos suprir – seja na dimensão material, psíquica, social ou espiritual. O contentamento, entretanto, não chega. O desejo está associado a nossa capacidade de reflexão sobre a própria vida. Estabelecemos, com ele, parâmetros de uma suposta felicidade, que virá a partir de diversos fatores. Queremos ser bem-sucedidos, ou seja, atestar que conseguimos suprir faltas: relacionamentos, estabilidade profissional, conta bancária, saúde, autoimagem... uma lista composta por um sem-número de fatores. A base de diversas filosofias orientais é uma máxima: a insaciedade é a porta para que adentremos o sofrimento. Uma vez dentro da casa vermelha, o exercício de percorrêla se transforma num martírio. Surge sempre um novo aspecto a ser explorado. Ela é sedutora demais para ser abandonada. O mundo nos diz que é nela que reside a felicidade. Demoramos, inclusive, a perceber o dano que ela nos gera, até que nos decidamos por abandoná-la. Mas, mesmo de fora, ela permanece convidativa, provocante. Impossível encará-la sem que afetos sejam mobilizados. A falta de algo, ou a incapacidade circunstancial para adquiri-lo, desperta em nós um sentimento distorcido de impotência. Mas, afinal, a impotência é o antônimo de potência ou de prepotência? Seríamos mesmo capazes de conquistar tudo que está na casa dos desejos? Um dos

desafios da existência é aprender a distinguir a necessidade da vontade e do desejo. Ou seja, separar aquilo que é verdadeiramente imprescindível para que prossigamos. E elencar as motivações que nos fazem buscar isto ou aquilo. Em geral, a aura de realização que cremos encontrar naquilo que buscamos não se encerra em si: queremos um bom emprego para suplementar um déficit relacional, cremos que um bom casamento repararia as feridas da família de origem, um corpo atraente para disfarçar a baixa autoestima... Ou seja, o desejo deturpa as necessidades reais – age nocivamente, como paliativos que levam a crer que a doença foi curada. Em suma, verdadeiramente necessitamos de muito pouco para viver – isto é, quando comparado com tudo aquilo que supomos ser primordial, mas que, após cinco minutos de observação mais apurada, percebemos que pode esperar. Sim, na maioria das vezes, adiamos os desejos, como quem não quer ficar órfão deles. Tolice. Desejos são tão profusos como a nossa vontade de sobreviver. A depressão, apontada como doença do século, pode ser classificada como uma patologia do desejo: da ausência dele, para ser mais preciso. Parece incongruente num primeiro olhar. A questão é que a ausência de desejo não é sinônimo de saciedade. A depressão vem como um vazio, uma dissociação do sentido existencial. Nesse quadro, o desejo se faz necessário como instrumento de cura. Mas não os desejos vazios, que nada traduziam da alma – afinal, é geralmente isso que desperta a doença. A “boa falta” é aquela que nos leva a compreender que lidamos com um cronômetro em contagem regressiva, escondido na casa escura da incerteza – nunca sabemos quanto tempo nos resta, mas não conseguimos ignorar que ele continua gotejando a vida que se esvai. Para alguns, tal imagem nutre apenas uma angústia. Em outros, propicia o resultado: querem buscar um legado, uma afirmação do que foram enquanto indivíduos, únicos, exclusivos. Geralmente, esses últimos têm como resultado a dita felicidade. Não aquela lida nos parâmetros estatísticos, e sim a que se mede a partir da realização pessoal. Esse é o desejo bem-vindo, que gera bons frutos.

A questão é que a ausência de desejo não é sinônimo de saciedade. A depressão vem como um vazio, uma dissociação do sentido existencial.


Conto

Resquício

Éle e ponto Vida inteira que poderia ter sido

Texto Mariana Vieira Ilustração André zottich marianalovieira@gmail.com

A nossa cidade não abriga barraquinhas de flores; mal se veem vendedores de rosas com suas cestas por aí. Que pena, na nossa cidade flores são para ocasiões muito especiais, quando se dispensam muitos cruzeiros. É preciso pedir pelo telefone e pagar no banco as flores burocráticas, decorativas, estéreis. Quando muito, se encomendam flores para os mortos, na loja na beira do cemitério. As flores dos canteiros centrais são servidoras públicas, cheias de leis que as protegem contra as minhas boas intenções de te presentear. Mas não seja por isso. Já é quase setembro e eu te ofereço a vista coalhada de flores do hori-

emaildozottich@gmail.com

zonte plano da nossa cidade. Te ofereço as cores amarela e rosa, te ofereço o branco límpido, seu preferido, dos ipês. Eu sei, demoraram esses quase nove meses para desabrochar e não duram mais que alguns dias. Bonita, a gente tem que aproveitar o tempo que tem, mesmo que seja o tempo dos ipês, porque não para de jeito nenhum, só com foto. Eu te ofereço este instante congelado, as nossas flores no seu caminho. Para sempre e além, L. Iara dobrou o papel já marcado nas mesmas dobras, colocou-o de volta no envelope pardo, junto da fotografia. Margens brancas, papel fotográfico que um dia foi brilhan-

te cheio de digitais, evidências do manuseio excessivo. Nada ali era novo. Nem ela. Deixou cair no colo os óculos, pendurados em volta do pescoço por uma cordinha de contas azuis. Passou a mão nos cabelos esfarelados pelo tempo, chamuscados de branco por todos os lados. Entendia afinal a metáfora fácil do passar de primaveras. Havia chegado finalmente ao inverno da própria existência, e estava cansada. Ao passo que os ipês da foto – dois amarelos frondosos, um rosa discreto e um branco mirrado de nada – permaneceriam incansáveis, nessa primavera louca de Brasília, para sempre e além.


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Pegou o carro e dirigiu pelo Eixão até a altura da sete sul. Encostou no retorno. Pegou um saco plástico de supermercado no porta-luvas e desceu. Dali a pouco estava de volta. Dirigiu até o final da Asa Sul, pegou a saída para o Setor Hospitalar, estacionou. Na entrada do Campo da Esperança, dois homens de macacão cinza e boné azul-marinho fumavam encostados no muro. Iara passou por eles e seguiu cortando caminho pela grama, passando por seções e números, alas e letras. Os mortos de Brasília estão até mais bem-ordenados que os vivos, com seus condomínios irregulares, pensou. Estava

próxima agora, a mão que segurava a sacola plástica suando, gélida. Parada em frente ao túmulo de L., a senhora relembrou a última conversa delas, ao telefone, ela embargada pelo misto de saudade, prepotência, carinho, vergonha. L. calma, fazendo piada mesmo com a voz e tudo o mais debilitados pela doença. Não aceitou desculpas e perdões, disse apenas “bonita, eu entendo, você fez o que podia na época, fez tudo que conseguiu, eu só acho ruim que você não tenha conseguido ficar mais perto, vê se não me esquece de uma vez, tá bom?” Depois de dois meses estava morta, mais ou menos na época em que faleceu também o marido de Iara. Foi uma infeliz coincidência, mas muito conveniente: pôde chorar por ela todas as lágrimas que pensavam que era por ele. O disfarce perfeito até o fim. Havia sido tão ingênua. Afastou as folhas secas que teimavam em volta do nome de L. Tirou os galhos de ipê carregados de flores da sacola, dispondo-os ao redor do túmulo delicadamente. Para se confortar, gostava de fingir que tinha nascido no tempo errado, quando ainda era feio ser o que ela era. Hoje sabia que feio foi ter se jogado num casamento mentiroso. Ter vivido longe da cidade que tanto amava por tanto tempo, só para fugir. Feio foi ter se embriagado copiosamente todas as noites durante quarenta anos para que fosse menos repugnante se deitar com o marido. Feio foi ter condenado à morte um inocente: o filhinho que não nasceu, porque quando engravidou já não conseguia parar de beber. Ali, naquele fim de tarde no cemitério, Iara chorou as lágrimas já tão velhas e chocas como aquelas lembranças, seu próprio rio de mágoas. Ajoelhou-se, beijou a lápide e murmurou: “me perdoa, me perdoa, me perdoa”. Foi apenas na manhã seguinte que os funcionários do cemitério a encontraram lá, estirada de bruços e rodeada de flores ) de ipê. Reunida. )

Respirou fundo, a dor no peito cintilando. Alcançou o copo d’água na mesa. Tomou um gole, fazendo careta. Nessa idade, pensou Iara, era mais fácil virar uma garrafa de vinho do que beber água no conta-gotas. Não podia beber, de qualquer forma. Ainda que pudesse, não tinha com quem brindar. As taças haviam todas se partido, há anos usava copos de requeijão. L. nunca aprovaria. Fazia muito gosto de uma louça bonita. Não tinha dinheiro depois de romper com a família, mas conservou até o fim o bom gosto típico dos bem-nascidos. Era simples, elegante e linda, tão linda. L. era firme e suave, seguiu com a cabeça erguida. Tinha orgulho de ser quem era mesmo naquela época, em que a vergonha era a única reação e o disfarce, o melhor caminho. Mais um forçoso copo d’água, outro estralo no peito. Era bobagem, sabia, desculpa de covarde. Ela recolocou os óculos, guardou o envelope pardo no paletó, pegou a bolsa, as chaves. Deu uma olhada no cômodo antes de trancar a porta: o quarto e sala na Asa Norte era pura fuligem. Já desistira de lutar contra a época de seca, as chuvas de outubro que dessem conta da faxina necessária.


Artigo

Sob o risco da overdose sonora

Pesquisa mostra que jovens de Brasília colocam audição em risco e podem chegar à velhice pedindo bis a tudo que ouvirem Texto Kátia Marsicano Foto Luana lleras katiamarsicano@gmail.com

fotografia@meiaum.com.br


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O

olhar perdido, absorto em algo que só ele sabe o que é. No ônibus apertado, gente tentando passar se espreme entre mochilas e bolsas avantajadas. O garoto de uniforme parece estar ali apenas fisicamente. A cabeça está longe. Passo bem atrás dele rumo à saída e entendo, então, o motivo da aparente letargia. Dois fones de ouvido despejam em seus pavilhões auditivos um monocórdico batidão a pleno volume. Penso: “Será que ele ainda tem tímpanos?” Olho para os lados e vejo uma moça sentada com a cabeça encostada na janela, também com seus fones no ouvido. O rapaz de cabelo espetado está na mesma situação. À direita, duas jovens compartilham as “pernas” do mesmo acessório. Até o cobrador, que batuca os dedinhos no ritmo da sua trilha sonora particular, está “ligado”. Para eles – deduzi – melhor trocar o som do trânsito por funk, rock, sertanejo, samba, ou seja lá o que for para se distrair e começar melhor o dia. Cenas comuns como essa parecem não exigir reflexões, mas não pude deixar de prestar mais atenção e concluí que, em Brasília, o hábito de ouvir música com fones é muito mais comum do que pensava. Para explicar o fenômeno, imaginei dezenas de possibilidades: a evolução da tecnologia, a melhoria do poder aquisitivo, a tendência à alienação no mundo moderno, a timidez do brasiliense que prefere não conversar ou simplesmente o prazer de ouvir música. Sei lá. O fato é que o assunto chegou à academia. Foi o que me contou o doutor em Física Sérgio Garavelli, da Universidade Católica de Brasília, autor de pesquisa que busca os efeitos do uso excessivo do pequeno e recorrente objeto auricular. O resultado foi de estarrecer. O que parece apenas mania, modismo de adolescentes, é, sim, problema de saúde pública. Pais, professores e, claro, as próprias pessoas que adotaram o hábito precisam ficar atentos às consequências. Duzentos jovens de Brasília, de 11 a 25 anos, responderam a um questionário que procurou identificar, entre outras coisas, o tempo de exposição diária ao som dos fones de ouvido e a partir daí avaliar o grau de risco de perdas auditivas. Meninos e meninas em proporções semelhantes foram entrevistados – 61% na faixa de 16 a 20 anos. A maioria (42% e 41%, respectivamente) alunos dos ensinos médio e superior, que declararam, em 51% dos casos, usar o celular para ouvir música. E isso nunca por tempo inferior a uma hora por dia. Durante pelo menos três horas permanecem conectados.

Quer mais? Disseram que é um hábito que mantêm há no mínimo três anos, em todos os lugares. Em casa (57%), no trajeto para a escola ou para o shopping (48%) e na sala de aula (43%) não abrem mão dele. Agora, se segure: o menino que encontrei no ônibus quase arrebentando os tímpanos não é exceção. Mais da metade (55%) admitiu usar o volume em nível igual ou mais alto (35%) ao que foi medido no momento da pesquisa. Gostam mesmo é de “som na caixa”, ou melhor, nos tímpanos. E a situação é ainda mais grave se o ruído do ambiente também for alto. Quanto mais barulho, mais o usuário aumenta o volume. Minha sobrinha Julyanna, que não fez parte da pesquisa, é mais uma evidência dessa realidade. Depois de ter passado pelo celular e por toda a família MP3, 4 e 5, hoje usa o iPod Touch para ouvir as 700 músicas que baixou da internet. No auge da adolescência, diz que o vício é, na verdade, “alimento para a alma”. “Fico agoniada quando acaba a bateria ou quando a professora tira ele de mim na sala de aula”, me contou. De Chico Buarque e Capital Inicial a Tears for Fears, Adele e Light House Family, o ecletismo musical a acompanha mais de oito horas por dia. Para o pesquisador, é preocupante. A facilidade de acesso aos equipamentos – que podem custar R$ 40 na Feira dos Importados ou R$ 700 a prazo, no shopping – garante a popularização do hábito. Para ele, o que falta é cada um assumir o seu papel na história, que nada tem de inofensiva: os fabricantes devem ser obrigados a seguir padrões rígidos de qualidade, assim como as escolas e os pais precisam se engajar em campanhas de esclarecimento sobre os riscos do uso prolongado e desmedido dos fones. “É um problema relativamente novo, que ainda não tem merecido atenção.” Para resumir: 64% dos entrevistados estão em risco de perda auditiva. Com base nos padrões internacionais estabelecidos pela Comunidade Europeia, o limite de exposição diária prescrito é de 80 decibéis, no máximo oito horas por dia, cinco dias na semana. E não importa se está rolando um batidão trance ou um baladão sertanejo. Nesse caso, as buzinas no trânsito e a britadeira no asfalto têm o mesmo efeito de uma overdose de som todo santo dia diretamente dentro do ouvido. Garavelli adverte que isso não quer dizer que no futuro as pessoas vão ficar surdas. O problema é que, se não “se ligarem”, quer dizer, se não desligarem seus aparelhos portáteis, podem chegar à idade adulta e à velhice pedindo bis para tudo o que ouvirem, em um mundo com mais silêncio e menos música.


Caixa-preta

por miguel oliveira carlosmigueldeoliveira@gmail.com

Eleições municipais não mudam o quadro político

A vitória do PT nas eleições municipais foi clara, pelo número de votos, pelas prefeituras conquistadas e pelo resultado em São Paulo. E valorizada por ter ocorrido em meio à mais forte ofensiva já desferida contra o partido, da qual participaram intensamente órgãos da chamada grande imprensa, ministros do Supremo Tribunal Federal, jornalistas tucanos e da direita, articulistas e entidades neoliberais, como o Instituto Millenium, ancoradouro do conservadorismo no Brasil. Além dos adversários políticos de sempre: PSDB, DEM, PPS. Mas a vitória do PT se dá também em um quadro complexo, que não pode ser avaliado simplesmente a partir dos resultados obtidos pelos partidos. Primeiro, porque estes são hoje aglomerados sem ideologia e que pouco representam. Não é o partido que ganha a eleição, de modo geral é o candidato eventualmente inscrito nesse partido, e que poderá sair a qualquer momento, ou, se eleito como oposição, logo depois aderir alegremente à situação. O eleito poderá estar com o PT em um dia, com o PSDB em outro, ou com um em uma cidade ou estado, com o outro na cidade ou estado vizinhos.

PT vs. PSDB A política brasileira após as eleições municipais continua a mesma, polarizada entre o PT e o PSDB. O PT, que surgiu como partido de esquerda, caminhou para a centro-esquerda. O PSDB, que nasceu como centro-esquerda, é hoje de centro-direita. Os demais partidos gravitam em torno desses dois, podendo apoiar um ou outro. Quando até o esquerdista PSol tem apoio do DEM e do PSDB, como em Macapá, essa hipótese se comprova. O PMDB é o partido com maior inserção municipal, o que o ajuda a formar grandes bancadas no Congresso Nacional e assim estar sempre presente no governo – qualquer governo –, mas não tem um projeto autônomo. Nas

eleições de 2014, tudo indica que estará com o PT, mas poderá estar com o PSDB. Depois das eleições estará seguramente com o vencedor. O PSD, que mostrou força nessas eleições, graças aos insatisfeitos com outros partidos que encontraram um porto seguro, livre da cassação pelo TSE, também não tem um projeto próprio para 2014. Estará de um lado ou de outro, como estarão PP, PR, PRTB, PTC e outros pês que só são relevantes por um ou outro líder estadual com mais peso, por alguns votos no Congresso que podem fazer diferença e pelo tempo de televisão. O PCdoB estará com o PT, como sempre esteve. O DEM com o PSDB, com quem está desde 1994.

E o PSB correndo por fora O PT ganhou, mas o PSB é a grande estrela dessas eleições. Colocou-se entre os maiores e com um líder de peso, o governador Eduardo Campos. O PT quer mantê-lo ao seu lado, mas em diversas cidades os socialistas estiveram aliados ao PSDB, o que anima as especulações para 2014: de que lado estará Eduardo Campos? Deverá estar com Dilma, mas não se descarta estar com Aécio Neves. Ou estará com ele mesmo, candidatando-se a presidente e contando com ventos favoráveis ou uma derrota eleitoral que pode ser uma vitória política, dando-lhe mais cacife para 2018. Lula tinha 44 anos quando se candidatou a presidente em 1989, e foi eleito com 57. Eduardo Campos terá 49 anos em 2014, e 53 em 2018.


CHARGES DO GOUGON hgougon@gmail.com


Arte, Cultura e Lazer

História da Argentina em quadrinhos Pela primeira vez no Brasil, e exclusivamente em Brasília, a exposição Nos tocó hacer reír traz uma seleção de quadrinhos emblemáticos de 156 artistas da Argentina. Os trabalhos foram selecionados para mostrar a história do país, atestando como os desenhos estão relacionados com a política, a cultura e a economia argentinas. O destaque na imagem é de Alejandro del Prado (1925–1963), o Calé. Ele retratava em seus desenhos o cotidiano de pessoas humildes. Tem também a criação de Quino, Mafalda, personagem que completou 48 anos em 2012. A mostra começa em 22 de novembro e ficará por três meses no Espaço Cultural Renato Russo.

Cinema – lançamentos

5x pacificação Direção: Cadu Barcellos, Luciano Vidigal, Rodrigo Felha e Wagner Novais. A história das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nas favelas do Rio do ponto de vista dos que moram nas comunidades. Documentário. Classificação 10 anos. Kinoplex em 16 de novembro. 80 minutos.

Amanhecer – Parte 2 Direção: Bill Condon. Depois do nascimento de Renesmee (Mackenzie Foy), filha de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson), os Cullen se unem a outros clãs de vampiros e lobisomens para proteger a criança dos Volturi, que mantêm a ordem no mundo dos vampiros, não deixando que os humanos saibam de sua existência. Drama. Classificação 14 anos. Cinemark e Kinoplex em 15 de novembro. 125 minutos.

Argo Direção: Ben Affleck. Em 1979, o especialista em disfarces Tony Mendez (Ben Affleck) é

recrutado pela CIA para resgatar seis norteamericanos, refugiados na casa do embaixador canadense em Teerã. Mendez cria um falso filme para tentar tirá-los do país. Com Bryan Cranston, John Goodman, Taylor Schilling, Kyle Chandler, Alan Arkin, Tate Donovan, Clea DuVall, Adrienne Barbeau, Rory Cochrane, Kerry Bishé e Richard Kind. Drama. Classificação 14 anos. Kinoplex em 9 de novembro. 120 minutos.

divorciam, mas não estão prontos para deixar um ao outro: ainda moram juntos, têm os mesmos amigos e não se envolvem em outros relacionamentos. É quando Jesse diz que terá um filho com outra que Celeste sai em busca de um parceiro. Comédia. Classificação 12 anos. Cinemark em 16 de novembro. 89 minutos.

Curvas da vida

Direção: Brian Klugman e Lee Sternthal. Rory Jansen (Bradley Cooper) é um escritor no auge da carreira. Mas não escreveu o livro que o levou ao sucesso. Perceberá que o reconhecimento à custa dos outros tem preço. No elenco, Zoe Saldana, Olivia Wilde, Ben Barnes, Jeremy Irons, Dennis Quaid, J.K. Simmon, John Hannah. Drama. Verifique a classificação. Cinemark

Direção: Robert Lorenz. Gus Lobel (Clint Eastwood), veterano olheiro do baseball, descobre que está perdendo a visão. Embarca em uma última viagem com sua filha (Amy Adams) para analisar um jogador promissor. Forçados a passar mais tempo juntos pela primeira vez em anos, fazem descobertas que podem mudar o futuro. Justin Timberlake interpreta um ex-arremessador que se apaixona pela filha de Gus. Drama. Classificação

em 23 de novembro. 96 minutos.

12 anos. Kinoplex em 23 de novembro. 111 minutos.

As palavras

Celeste e Jesse para sempre Direção: Lee Toland Krieger. Celeste (Rashida Jones) e Jesse (Andy Samberg) se conheceram no colégio e casaram-se jovens. Aos 30 anos se

Disparos Direção: Juliana Reis. O fotógrafo Henrique (Gustavo Machado) é assaltado por um motoqueiro, que depois é atropelado por um


DreamWorks

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Cinema Luiz Gonzaga foi um dos maiores mitos pop da música brasileira. Sem sua invenção do Nordeste mítico, marcado pela seca e pela miséria, imortalizado em hinos como Asa branca e Assum preto, provavelmente artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dominguinhos e tantos outros não seriam o que são hoje. Dirigido por Breno Silveira, o mesmo cineasta que contou com delicadeza e sinceridade a história da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, no sucesso Dois filhos de Francisco, o drama Gonzaga: De pai pra filho narra a trajetória do Rei do Baião a partir de sua conturbada e shakespearia-

A origem dos guardiões

na relação com o filho Gonzaguinha.

Direção: Peter Ramsey. A animação é baseada na série de livros The Guardians of Childhood, de William Joyce. Papai Noel (Alec Baldwin) e o Coelho da Páscoa (Hugh Jackman) se unem a outros seres folclóricos, como Jack Frost (Chris Pine) e a Fada do Dente (Isla Fisher), para combater o Bicho-Papão (Jude Law). Animação. Classificação livre. Cinemark e Kinoplex em 30 de novembro. 93

que se estabelece entre pai e filho”, conta

minutos.

acreditando que faço o papel do meu

“É um filme brasileiro universal, que tem a família como tema central, a relação o músico Chambinho do Acordeon, que vive Gonzaga no auge da fama. “Minha família é de sanfoneiros, ainda não estou ídolo no cinema”, diz, emocionado. É a história de dois ícones da nossa música, desnudada de toda a pompa do sucesso e

carro não identificado. Após recuperar sua câmera, percebe que precisa voltar ao local para encontrar o cartão de memória e acaba acusado de omissão de socorro. Tentando provar sua inocência para o delegado (Caco Ciocler), começa a questionar sua responsabilidade diante dos fatos. Ação. Classificação 14 anos. Cinemark em 9 de novembro. 82 minutos.

Entre o amor e a paixão Direção: Sarah Polley. Quando Margo (Michelle Williams) encontra Daniel (Luke Kirby), a química é perfeita. Porém, a jovem não pode assumir sua paixão: está casada com o renomado escritor Lou Rubin (Seth Rogen). Quando Margo descobre que sua nova paixão

vive do outro lado da rua, seu casamento é seriamente abalado. Romance. Classificação 14

da fama. Mais uma vez o diretor mos-

anos. Kinoplex em 9 de novembro. 116 minutos.

humanização de seus personagens e nos

trou sensibilidade de sobra ao apostar na brinda com uma linda trama carregada de

Histeria Direção: Tanya Wexler. Baseado em fatos. No século 19, a histeria era diagnosticada como doença exclusivamente feminina. Dois médicos ingleses, acreditando que a origem do problema se encontrava no útero, começam a procurar a cura. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce) e Mortimer Granville (Hugh Dancy) acabam inventando o vibrador. Comédia. Classificação 14 anos. Cinemark e Kinoplex em 9 de novembro. 100 minutos.

amor, culpa e perdão. O grande mérito está no roteiro bem amarrado de Patrícia Andrade, mas não há como não prestar atenção na belíssima reconstituição de época e no cuidado desmedido com a produção da fita em todos os detalhes. Difícil conter lágrimas e a vontade de sair dançando por aí ao fim da sessão.

Lúcio Flávio Jornalista especializado em cultura


Leonardo Aversa

Arte, Cultura e Lazer

www.cinemark.com.br www.kinoplex.com.br Não informaram a programação a tempo: www.itaucinemas.com.br www.cinecultura.com.br

Cinema – outros

1º Curta Brasília Com 30 filmes, o festival será dividido em duas categorias de competição: Mostra Curta Brasília e Mostra Curta Brasil. E ainda contará com oficinas e debates. 29 de novembro a 2 de dezembro, no Teatro Nacional. Classificação e a programação em www.curtabrasilia.com.br.

Festival de Cinema Polonês

Marisa Monte A nova turnê, a primeira depois de cinco anos, tem como base as músicas de seu disco mais recente, O que você quer saber de verdade. O CD é o oitavo da sua carreira e foi lançado em 2011. 17 e 18 de novembro, sábado, às 21h30; domingo, às 19h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Ingressos (inteira): Superior R$ 240; Setor B R$ 300; Setor A R$ 400; Gold Lateral R$ 400; VIP Gold R$ 500. Classificação 14 anos. Telefone: 3364-0000.

Na terra de amor e ódio Direção: Angelina Jolie. Uma mulher muçulmana (Zana Marjanovic) ´ apaixona-se por um militar sérvio (Goran Kostic) dias antes do início da guerra da Bósnia e, durante o conflito, a relação fica profundamente afetada. Drama. Verifique a classificação. Kinoplex em 23 de novembro. 127 minutos.

Os penetras Direção: Andrucha Waddington. Marco (Marcelo Adnet) e Beto (Eduardo Sterblitch) são opostos e acabam se juntando por acaso para festejar o fim de ano. Marco é bem-humorado, farrista, sedutor e aproveitador. Beto é tímido, inseguro e chato. A dupla passa por uma maratona de festas e aventuras no intuito de encontrar

São sete obras feitas de 2008 a 2011. O objetivo é revelar a diversidade e a qualidade do cinema polonês contemporâneo. As produções percorrem diferentes gêneros e assuntos. Até 11 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil. Classificação e programação em www.bb.com.br/cultura.

Werner Herzog: sou o amor da vida de Beto. Mariana Ximenes, Andrea Beltrão e Susana Vieira também estão no elenco. Comédia. Classificação 12 anos. Kinoplex em 30 de novembro. 121 minutos.

Quatro amigas e um casamento

Direção: Lesley Headland. Reagan (Kirsten Dunst), Katie (Isla Fisher) e Gena (Lizzy Caplan) ficam surpresas ao saber que Becky (Rebel Wilson), sua amiga gordinha da época do colégio, vai se casar. No fundo, Reagan se ressente de que alguém esteja se casando antes dela. Como serão madrinhas, decidem curtir uma arrasadora despedida de solteira. Comédia. Classificação 14 anos. Cinemark e Kinoplex em 30 de novembro. 101 minutos.

o que são meus filmes Exibe 27 trabalhos documentais do diretor, produtor, roteirista e ator alemão. Conta com documentários produzidos de 1965 a 2010 e inclui Hércules, seu trabalho de estreia. 20 de novembro a 9 de dezembro, no CCBB. Classificação e programação em www.bb.com.br/cultura.

Música

Bobines Melodies O show apresenta curtas de animação do estúdio Folimage com música ao vivo do trio L’effet Vapeur: Alfred Spirli (bateria e objetos, como canos e brinquedos), Xavier Garcia (sintetizador) e o Jean-Paul Autin (saxofone, clarineta e outros). 16 de novembro, 21h, no CCBB. Ingresso (inteira): R$ 6. Classificação livre. Telefone: 3108-7600.


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Charlie Brown Jr.

Isso é jazz?

A banda apresenta em Brasília o CD Música popular caiçara, que reúne canções selecionadas do repertório dos dez discos lançados nos 15 anos de carreira. O álbum marca também a fase em que a banda liderada pelo vocalista Chorão volta com a formação original. 30 de novembro, às 22h, na

O projeto traz quatro shows com formações distintas. No repertório, temas autorais e reinvenções de clássicos. 12 a 15 de novembro,

AABB. Ingressos (inteira): Pista R$ 40; Área VIP R$ 60. Classificação 16 anos. Telefone: 3342-2232.

David Guetta O DJ francês traz no repertório as músicas Titanium, Without you, Club can’t handle me, One love e Memories. Também farão apresentações os DJs Júnior C, André Pulse e Mário Fischetti. 14 de novembro, às 22h, no estacionamento do Estádio Mané Garrincha. Ingressos (inteira): Área Standard R$ 140; Área Premium (open bar) Fem. R$ 320; Área Premium (open bar) Masc. R$ 380. Classificação 16 anos (18 anos na área open bar). Telefone: 8121-0800.

Gaby Amarantos A cantora paraense se apresenta no mês de aniversário da boate. A rainha do tecnobrega traz mais uma vez a Brasília o show com as canções compostas por ela para o seu primeiro álbum solo, Treme. 10 de novembro, às 22h30, na Victoria Haus. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 18 anos. Telefone: 9552-2891.

às 20h, na Caixa Cultural. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 14 anos. Telefone: 3206-9448. Mauro Senise e quarteto: 12 de novembro | Victor Biblione e trio: 13 de novembro | Aquarela Carioca e trio: 14 de novembro | André Mehmari e trio: 15 novembro.

Mart’nália A cantora e compositora traz o seu novo trabalho, o álbum Não tente compreender, de 2012, que vai além do samba. Ela apresenta composições de Nando Reis, Gilberto Gil e Caetano Veloso, além do seu repertório já conhecido do público. 26 e 27 de novembro, às 20h, na Caixa Cultural. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 14 anos. Telefone: 3206-9448.

Perfis de Gonzaga Em comemoração ao centenário do nascimento de Luiz Gonzaga, a Caixa Cultural convida o violeiro Xangai e o cantor Marcelo Jeneci. 10 e 11 de novembro, na Caixa Cultural. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 12 anos. Telefone: 3206-9448. Xangai: 10 de novembro, às 20h | Marcelo Jeneci: 11 de novembro, às 19h.

Toquinho e Paulo Ricardo Canções de Vinicius de Moraes interpretadas por dois ícones de estilos distintos: Toquinho,

violonista, compositor e intérprete da bossa nova, e Paulo Ricardo, representante do rock, baixista e vocalista do RPM. 21 de novembro, às 21h, no Espaço Unique Palace – Setor de Clubes Sul. Ingressos (inteira): Mesa Avulsa e Mesa Bronze (cada cadeira) R$ 240; Mesa Prata (cada cadeira) R$ 300; Mesa Ouro (cada cadeira) R$ 400. Classificação 16 anos. Telefone: 9252-0234.

exposições

Carametade Imagine o homofóbico Jair Bolsonaro misturado ao falecido Clodovil Hernandes. O artista goianiense Roger Regner faz a fusão de rostos célebres e cria um terceiro personagem, com um novo nome. Os 28 rostos se fundem em 14 painéis, desenhados manualmente. Até 15 de dezembro, de segunda a domingo, das 8h às 21h, na UnB – ICC Norte. Entrada franca e livre. Telefone: 8126-5265.

Carlinhos Brown

O olhar que ouve Cinco telas de traços exuberantes e cinco instalações. Como na música, o movimento e a energia são as marcas de Brown. A exposição revela um lado do baiano pouco conhecido pelo público. Até 2 de dezembro, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural. Entrada franca e livre. Telefone: 3206-9448.


Arte, Cultura e Lazer Construção e geometria

Pneumática

O Museu de Arte de Brasília (MAB) está fechado há cinco anos por determinação do Ministério Público, devido à falta de condições de garantir a conservação e a segurança do seu acervo. Parte desse acervo está na exposição, com 40 obras. As gravuras são feitas de água-tinta e metal. Obras de 11 artistas. Até 2 de dezembro, sábados, domingos e

Esculturas infláveis de papel de seda criadas pelo paraense Paulo Paes a partir do contato com mestres baloeiros do Rio de Janeiro. Com uma pesquisa de todo o universo dessa tradição, o artista fez um resgate de fundamentos tecnológicos e elementos visuais da arte dos balões para criar objetos de caráter efêmero. Até 25 de novembro, de

feriados, das 9h às 17h, na Câmara dos Deputados.

terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural.

Entrada franca e livre. Telefone: 3216-0000.

Entrada franca e livre. Telefone: 3206-9448.

Em Brasília – A paisagem interior

na obra de Concha Gómez-Acebo Reúne 28 pinturas da espanhola que retratam o cotidiano, as paisagens urbanas e a natureza de quatro estados brasileiros (Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso e Amazonas) e do DF. Em 7 de novembro, às 19h30, a exposição será guiada pela própria artista. Até 10 de janeiro, de segunda a sexta, das 11h às 21h, no Instituto Cervantes. Entrada franca e livre. Telefone: 3242-0603.

Lambe-sujos e caboclinhos O fotógrafo Márcio Garcez traz 40 imagens da tradicional festa que narra o combate teatral entre escravos e índios, na histórica cidade de Laranjeiras (SE). A encenação é uma representação da luta do negro escravo pela conquista da liberdade. Os caboclinhos, índios catequizados pelas missões jesuítas, participam como auxiliares de captura dos escravos fugitivos. Até 29 de novembro, de segunda

Um Brasil encantado Esculturas de Marcella Ferreira, inspiradas no folclore brasileiro. Mais de 30 peças em técnica mista, entre elas papietagem (a partir de tiras ou pedaços de papel colados em camadas sucessivas sobre algum tipo de molde ou estrutura), papel machê, colagem, desenho, pintura e bordado. São pequenas esculturas, móbiles, quadros e dioramas (caixas com cenas em três dimensões). Até 25 de novembro, de segunda a sexta, das 9h às 18h, na Câmara dos Deputados. Entrada franca e livre. Telefone: 3215-8092.

Teatro

À mesa Inspirado em O banquete, de Platão. Quatro personagens, quatro amores, quatro opiniões, quatro meios diferentes para um mesmo fim em uma disputa divertida. Direção de Bruno Mendonça. No elenco, Emerson Dourado, Guilherme Cascais, Luana Fonteles e Luciana Barreto. Até 2 de dezembro, sextas e sábados, às 21h; domingos, às 20h.

a sexta, das 9h às 17h, na Câmara dos Deputados.

Entrada franca. Classificação 16 anos. Telefone:

Entrada franca e livre. Telefone: 3215-8080.

9641-8783. Sesc Taguatinga: 8 a 11 de novembro

Nos tocó hacer reír A Embaixada da Argentina traz a exposição, com quadrinhos de 156 artistas daquele país. Os desenhos representam a política, cultura e economia de cada época. 22 de novembro a 3 de fevereiro, de segunda a domingo, das 9h às 18h, no Espaço Cultural Renato Russo. Entrada franca e livre. Telefone: 3325-6101.

| Centro de Ensino Médio 4 (Centrão): 13 e 14 de novembro | Auditório da Administração Regional de Ceilândia: 17 e 18 de novembro | Teatro Sesc Gama: 20 e 21 de novembro | Sesc Setor Comercial Sul: 30 de novembro a 2 de dezembro.

Ausência A companhia franco-brasileira Dos à Deux traz o ator Luis Melo numa Nova York de 2036,

quando o planeta está na iminência de uma catástrofe com a colisão de um asteroide. Um monólogo que discute a condição humana, a solidão e o caos na sociedade. 30 de novembro a 16 de dezembro, sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h, na Caixa Cultural. Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 12 anos. Telefone: 3206-9448.

Ensaio geral Direção de Hugo Rodas, com a companhia ATA. A peça musical é uma conotação poética ao engajamento social, com discursos a partir de textos adaptados pelos próprios integrantes do grupo: Discurso para a humanidade, de Charlie Chaplin; Por trás da vidraça, de Caio Fernando Abreu; Um convite ao voo, de Eduardo Galeano; O cantar dos cantares, retirado da Bíblia; Dona história, de Hilda Hilst; e Um amor, um lugar, canção de Herbert Vianna. Até 11 de novembro, de quinta a domingo, às 20h, no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco). Ingresso (inteira): R$ 20. Classificação 16 anos. Telefone: 3327-2027.

Mais que dilmais Monólogo mineiro Gustavo Mendes. É uma compilação dos seus melhores textos de stand-up comedy, piadas e performances musicais. O público poderá ver Maria Bethânia cantando funk e Alcione, Roberto Carlos e Ana Carolina em situações engraçadas. Mas o principal momento é a imitação da presidente Dilma Rousseff. 24 e 25 de novembro, sábado, às 19h; domingo, às 20h, no Teatro dos Bancários. Ingresso (inteira): R$ 60. Classificação 14 anos. Telefone: 3262-9090.

Mercedez com Z O espetáculo dos Melhores do Mundo traz Adriana Nunes e Similião Aurélio. A história de uma mulher que abre o coração para Wanderley Wanderson, locutor de um programa de rádio das madrugadas. 14 de novembro, às 21h, no Teatro dos Bancários. Ingresso (inteira): R$ 50. Classificação 14 anos. Telefone: 3262-9090.


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Clara Braga

casa condenada, nos arredores de Brasília, quatro mulheres se apegam a subterfúgios fantasiosos para escapar de sua realidade. A chegada de um homem misterioso vai jogar por terra as certezas alimentadas até então. Diante da proposta de um jogo psicológico perverso e libertador, os personagens vão retirando suas máscaras sociais. No elenco, Andrea Borba, Cristine Bombarda, Eliane Silvestre, Fernando Bressan, Gê Martú, Marizilda Dias Rosa, Renata Cardoso, Viviane Piccinin e Yeda Gabriel. Até 2 de dezembro, sextas, sábados e domingos, às 21h, no Espaço Cultural Brasília Shopping. Ingresso (inteira): R$ 30. Classificação 14 anos. Telefone: 8170-8839.

Outros

Em cena no Planalto

Rei David Nos livros bíblicos e didáticos, o rei David, interpretado por Denis Camargo (foto) aparece como importante figura. Sucessor de Saul, ele teria completado a conquista da Palestina e transformado a cidade de Jerusalém na nova capital do reino. Mas, e se a história não tiver sido assim? E se David não tiver sido descendente de uma linhagem real, mas um mito construído, um herói fabricado pelo povo? O diretor Hugo Rodas e o dramaturgo Marcus Mota partem dessa premissa no espetáculo musical. 28 de novembro a 2 de dezembro, duas sessões por dia, às 19h e às 21h, no Anfiteatro 9 da UnB (Campus Darcy Ribeiro). Entrada franca. Classificação 14 anos. Telefone: 9214-4861.

Durante seis meses serão apresentados espetáculos de dança, circo e artes populares. Ao todo, serão 20 peças, oito oficinas e palestras, dois festivais e uma audição musical. Foram selecionados espetáculos que se destacaram em diversas regiões do País. Até 7 de março de 2013, no Teatro Funarte. Classificação, preço e programação em www.funarte.gov.br. Peças para os adultos: A vida impressa em xerox, 8 a 11 de novembro | teatro Açúcar: 8 e 11 de novembro | Mulheres de Caio, 15 a 18 de novembro. Peça infantil: Alma de peixe, 10 e 11 de novembro e 17 e 18 de novembro.

Não leve a sério

de novembro, às 20h, no Teatro da Unip (913 Sul).

no crime de invasão a domicílio, só podem ser capturados na rua. Assim, André (Aldri Anunciação) e Antônio (Flávio Bauraqui), passam o dia no apartamento, debatendo questões sociais e econômicas, anseios pessoais e as consequências de um iminente retorno à África. Dirigido por Lázaro Ramos. 16

Ingresso (inteira): R$ 60. Classificação 14 anos.

a 25 de novembro, sextas e sábados, às 20h; domingos,

Telefone: 2109-2122.

às 19h, na Caixa Cultural. Ingresso (inteira): R$ 20.

Maurício Meirelles, do CQC, da Band, traz o espetáculo no formato de stand-up. Não é recomendado para vizinhos que reclamam do barulho, ecochatos, apreciadores de pizza de rúcula e fãs de cinema iraniano. 25

Namíbia, não! Em 2016, o governo brasileiro editou uma medida provisória obrigando que todos os de “melanina acentuada” fossem cenviados imediatamente à África. Mas, para não incorrer

Classificação 14 anos. Telefone: 3206-9448.

O matadouro O diretor e dramaturgo Bruno Estrela criou um blog com espaço para declarações anônimas que resultaram na peça. Dentro de uma

Kukli – Theatral Circo da Rússia Mais de 40 artistas da Rússia e convidados de circos europeus. Entre os números estão: Futebol Juggler (o malabarista equilibra-se em cima de uma bola gigante, enquanto tenta não derrubar as bolas em movimento com as mãos), Homem Mola (as pernas viram braços e vice-versa), Duo Arni (um casal mostra que para trocar de roupa é só um passe de mágica), Duet Konfuz (dupla de palhaços). 15 de novembro, às 19h, no Ginásio Nilson Nelson. Ingressos (inteira): Arquibancadas R$ 60; Cadeiras Coloridas R$ 120; Área Ouro R$ 240; Área Diamante R$ 480. Classificação livre. Telefone: 9135-4445.


Banquetes e botecos } ilustração Rômulo Geraldino

Por Marcela Benet marcela.benet@gmail.com

romulog2000@yahoo.com.br

Quer ir a um japonês de verdade, sem rococó e firulas? Vá ao New Koto

1 2 3 4,5 5 O New Koto é um restaurante tradicional, comandado pelo sushiman Ryozo Komiya, de uma família do ramo de confeitaria em Tóquio, que trabalhou para pagar seu curso de gastronomia e conseguiu uma bolsa do governo francês para estudar naquele país. Cozinhou em restaurantes em Paris e em Genebra, na Suíça. Voltou para o Japão e depois veio para o Brasil. Trabalhou no Kosui, na Academia de Tênis, por sete anos. Depois, no Torre Palace, até abrir, em sociedade, o seu próprio restaurante. Este restaurante japonês tem decoração sem graça, chegando a ser até um pouco cafona, com peças orientais nada originais, que parecem ter sido compradas na 25 de Março, em São Paulo, e ainda uma televisão com vídeos japoneses. Sua fachada bege com portas de blindex pretas é tão discreta que passa despercebida. Mas a falta de charme e a claridade excessiva são esquecidas assim que o garçom chega com toda a sua simpatia. Uma vez tive uma aula de saquê. O garçom me deu amostras para escolher qual mais me agradava. Tem do mais suave até o demi-sec. O Gyonmaikon é um suave, mas gostei mesmo foi do Karkuchi, bem seco. A excelência é garantida com a compra de peixes diretamente no Nordeste. Na primeira vez que fui senti falta do rodízio. Lá não tem! Não há também aquelas inovações de sushis, como maçaricados, cream cheese e outras coisas mais. Só a tradicional comida japonesa, conservadora na “essência”, preservando a qualidade dos produtos e trazendo especiarias como ovas de ouriços e enguias. De entrada pedi as vieiras. São cozidas na manteiga, temperadas com bastante alho e acompanhadas de mexilhões e shimeji, e ainda vêm com fogo aceso para manter a manteiga derretida e quente. Não tem igual. Há outras opções para começar, como shimeji puro e sunomono, tudo gostoso. Pedi um combinado que dava gosto de ver. Os peixes superfrescos, com brilho e uma textura especial. O atum e a anchova negra estavam ótimos e as ovas deliciosas, as de salmão em especial. É uma experiência fantástica para os amantes de comida japonesa. Costumo ir a alguns restaurantes do gênero em Brasília. Adoro, mas não matam a minha vontade. No New Koto isso não acontece. O único problema é a conta. Como é caro! Se fizer opções como yakissoba sai um pouco mais em conta, mas o difícil é resistir ao restante. Então, se estiver com vontade de comer uma verdadeira comida japonesa, vá ao New Koto. CLS 212, bloco C, loja 20 (61) 3349-9668 Terça a sábado: 12h–15h e 19h–23h Domingo: 19h –22h


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Para Brasilia colher mais qualidade de vida.

O Governo do Distrito Federal está plantando mais de 1,6 milhão de mudas de árvores para preservar o Cerrado. Participe. Mobilize-se. Semeie esta ideia. Porque a sua qualidade de vida também depende de uma Brasília mais arborizada. Para conhecer mais sobre o projeto, acesse www.semarh.df.gov.br

Revista meiaum Nº 19  

A dura vida de quem vai de bicicleta

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