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Daniel Correia
Pedro Benevides
Ahistória de vida de Pedro Benevides confunde-se com a própria história da comunidade portuguesa em Toronto: uma narrativa feita de herança cultural, sacrifício, mobilidade social e um profundo sentido de responsabilidade intergeracional. Ainda jovem, com apenas 19 anos, Pedro carrega consigo uma consciência clara de quem é e de onde vem. Uma identidade construída desde cedo no seio de uma família onde a língua, a cultura e a memória portuguesa nunca foram apenas símbolos, mas práticas quotidianas.A sua ligação a Portugal começa em casa e, sobretudo, na relação próxima com a avó, professora de português durante décadas no Canadá. Foi ao seu lado, ainda criança, que Pedro aprendeu que a língua é mais do que um meio de comunicação: é um ato de resistência cultural, uma forma de pertença e continuidade. Enquanto ela ensinava português no First Portuguese ele observava, brincava e absorvia, quase sem se aperceber, a paixão com que se defendia uma identidade longe da terra de origem. Mesmo após 50 anos no Canadá, a avó de Pedro nunca deixou de se afirmar portuguesa e quis garantir que essa ligação atravessasse gerações.
Crescer num bairro onde muitas famílias portuguesas partilhavam histórias semelhantes reforçou esse sentimento de comunidade. Em casa, falava-se português, comia-se comida portuguesa e lia-se a imprensa portuguesa. As histórias do avô, que passou por Portugal, Moçambique e Goa, abriram desde cedo janelas para o mundo e para a complexidade da história política e colonial portuguesa. Toronto, com o seu multiculturalismo vibrante, nunca diluiu essa identidade; pelo contrário, tornou-a ainda mais consciente e assumida.
A trajetória da família é também marcada pela dureza da emigração. Depois da Revolução de 1974, a perda de bens em Moçambique, as dificuldades em Portugal e a decisão de recomeçar no Canadá em 1976 trouxeram desafios profundos. A avó trabalhou em lares de idosos, o avô numa serração, o pai começou a trabalhar ainda adolescente. Foi esse esforço silencioso que permitiu que Pedro seja o primeiro da sua família imediata a frequentar a universidade, um marco que ele encara não como um ponto de chegada, mas como uma responsabilidade.
Estudante na Universidade de Toronto, Pedro constrói o seu percurso académico entre
a economia, a política e o direito, áreas que refletem uma curiosidade constante sobre o funcionamento das instituições e da sociedade. O interesse pelas notícias, despertado em criança diante da televisão ligada às atualidades, transformou-se numa vocação cívica. O voluntariado político, o trabalho em campanhas eleitorais e a proximidade com a comunidade portuguesa, sobretudo com os seniores, deram-lhe uma compreensão concreta das dificuldades, expectativas e invisibilidades que persistem.
Paralelamente, enquanto presidente da Associação de Estudantes Portugueses da Universidade de Toronto, Pedro assume um papel ativo na formação da próxima geração de líderes luso-canadianos. Entre bolsas de estudo, eventos culturais, iniciativas de desenvolvimento profissional e ligações a associações comunitárias, vê na juventude a chave para a continuidade da cultura portuguesa no Canadá. A sua história não é apenas a de um jovem promissor, mas a de uma herança que se reinventa com consciência, ambição e um profundo sentido de pertença.
CRESCER PORTUGUÊS
EM TORONTO
A identidade portuguesa de Pedro Benevides foi construída desde a infância, de forma natural e profundamente enraizada no quotidiano familiar e comunitário. Antes mesmo de compreender o significado de pertença, a língua, os costumes e as tradições portuguesas já faziam parte do seu dia a dia, moldando a forma como se via a si próprio e ao mundo à sua volta. Crescer rodeado por referências culturais portuguesas, dentro e fora de casa, permitiu-lhe desenvolver uma ligação orgânica a uma herança que nunca foi imposta, mas vivida. Entre a escola, o bairro e o convívio familiar, Pedro encontrou na cultura portuguesa um espaço de segurança, continuidade e identidade, mesmo inserido numa cidade profundamente multicultural como Toronto. Essa vivência precoce ajudou a consolidar um sentimento de pertença que viria a acompanhar todo o seu percurso, influenciando es-
colhas, interesses e o envolvimento ativo na comunidade luso-canadiana.
Desde muito cedo estive muito em contacto com a cultura portuguesa. Fui para uma creche portuguesa, estive sempre muito envolvido, dancei num rancho e aprendi português no First. A minha avó era professora de português e lecionou na escola do First Portuguese em Toronto, mas também no Conselho Escolar Católico. Enquanto ela dava aulas na escola portuguesa, eu ficava lá, a brincar com as minhas coisas e a vê-la ensinar. Via a paixão dela pela língua portuguesa e pela cultura portuguesa. Isso inspirou-me. Mesmo depois de este ano assinalar 50 anos desde que ela vive no Canadá, manteve-se sempre muito próxima da cultura portuguesa. Ela considera-se portuguesa e queria muito que eu, os meus futuros filhos e a minha família mantivéssemos essa ligação à cultura. Acho isso muito importante. Passei muito tempo com a minha avó e desenvolvi um interesse especial pela cultura. Dentro da mesma família, os filhos podem ser mui-
to diferentes. Sou o mais novo, e talvez por isso tenha desenvolvido uma paixão maior. O meu irmão mais velho ainda fala algum português, mas eu estive mais envolvido na comunidade. A minha avó sempre foi muito exigente com o nosso português, e isso ficou comigo.
Também cresci num bairro onde havia muitas crianças portuguesas da minha idade, a viver em condições semelhantes. Era uma espécie de comunidade dentro de uma cidade maior, algo que eu sempre gostei muito. Em casa a comida portuguesa sempre foi essencial (polvo, sopas) cerca de 90% das refeições são portuguesas. E falávamos sempre português. A minha avó e o meu avô falavam português, e lembro-me de ler jornais portugueses em criança e de ouvir as histórias do meu avô sobre Portugal e Moçambique. Essas memórias familiares ficaram muito marcadas em mim. Toronto é uma cidade muito multicultural, e a cultura portuguesa sempre foi uma parte muito forte da minha identidade enquanto luso-canadiano.
1. Pedro com a avó Maria Benevides
2. Pedro e o irmão mais velho
3. Pedro com o pai e irmão mais velho
4. Avô na tropa
A HERANÇA FAMILIAR
A história familiar de Pedro Benevides é marcada por deslocações, perdas e recomeços forçados por circunstâncias históricas que ultrapassaram o controlo individual. Entre Moçambique, Portugal e, finalmente, o Canadá, a sua família viveu os efeitos diretos da descolonização, da instabilidade política e da emigração como única alternativa para reconstruir uma vida com dignidade. Esse percurso de sacrifício, feito de trabalho duro e adaptação constante, está na base das oportunidades que Pedro e os seus irmãos hoje têm. Mais do que uma herança de memória, é uma herança de responsabilidade, que molda a sua ambição académica e o seu profundo sentido de gratidão e dever para com as gerações que vieram antes.
O meu pai nasceu em Moçambique. O meu avô foi sargento do Exército Português, esteve colocado em Goa e em Moçambique. Mais tarde reformou-se do exército e tinha uma plantação de cana-de-açúcar em Moçambique. Após a re-
volução de 1974, ficaram lá algum tempo, regressaram a Portugal e depois vieram para o Canadá em 1976. A fazenda foi confiscada e passaram por grandes dificuldades financeiras em Portugal, pelo que decidiram que a melhor opção seria vir para o Canadá, onde já tinham familiares.
A vida, quando chegaram ao Canadá, foi dura. A minha avó trabalhou em lares de idosos antes de conseguir voltar a ser professora. O meu avô trabalhou numa serração. Foi muito difícil. Alguns anos depois conseguiram comprar uma casa, que ainda hoje têm no centro de Toronto, mas os primeiros anos foram muito duros. O meu pai começou a trabalhar ainda adolescente quando chegou ao Canadá.
Apesar disso, conseguiram criar melhores oportunidades para mim e para os meus irmãos. Sou hoje um estudante universitário e quero ser advogado. Valorizo muito a minha educação porque eles não tiveram as mesmas oportunidades. Sou o primeiro da minha família imediata a ir para a universidade. O meu pai
queria ter estudado, mas as circunstâncias não permitiram. Ele vê em mim a oportunidade de alcançar aquilo que ele não pôde, e sente muito orgulho no meu percurso.
Isso dá-me um sentido de ambição e responsabilidade: sinto que é meu dever fazer o melhor possível, como forma de retribuir tudo o que fizeram por mim no Canadá.
FORMAÇÃO E VOCAÇÃO
A curiosidade intelectual de Pedro Benevides começou cedo, alimentada pelo hábito de acompanhar as notícias e de tentar compreender os acontecimentos para lá dos títulos. O interesse pelo funcionamento do mundo, das instituições e do poder político foi-se consolidando ao longo do percurso escolar, passando por diferentes áreas até encontrar na economia uma lente estruturante para interpretar a realidade
4 social e política. Esse caminho académico viria a conduzi-lo naturalmente ao Direito, entendido não apenas como uma profissão, mas como um espaço de argumentação, defesa de princípios e intervenção cívica. A exigência da Universidade de Toronto e o contacto próximo com professores de referência reforçaram essa vocação e a ambição de ir mais longe.
Desde pequeno lia jornais e via notícias. A minha avó limpava a casa com a televisão ligada nas notícias, e eu ficava a ver. Sempre me interessei por perceber como o mundo funciona. Ao longo da vida pensei em várias áreas: no secundário considerei Ciência Política, mas uma disciplina de Economia mudou a minha forma de pensar. A economia ajuda-nos a compreender instituições políticas, o funcionamento da economia e as políticas públicas.
Quero ser advogado porque envolve a defesa de causas e argumentação, algo que considero muito importante. Sempre achei que teria algum envolvimento político no futuro e que
a advocacia seria um bom caminho para isso. Interesso-me por várias áreas do Direito, sobretudo Direito da Concorrência, ligado aos mercados. A minha formação em economia e o interesse por política levaram-me a perceber que o Direito era o caminho certo.
A Universidade de Toronto é muito exigente. Tive 11 testes intermédios num semestre. Fiz parte de um programa especial no primeiro ano, limitado a 25 alunos, com professores especializados em política e negócios. Recebi muito acompanhamento e mentoria. Alguns professores tinham a Ordem do Canadá e experiência política, e incentivaram-me a ir mais longe, tanto na academia como na política.
A APROXIMAÇÃO À POLÍTICA
A consciência cívica de Pedro Benevides nasce do cruzamento entre memória fami-
liar e observação atenta da realidade política. As histórias do avô sobre contextos de instabilidade e mudança, aliadas ao contacto precoce com a atualidade, ajudaram-no a compreender o valor das instituições democráticas e da participação ativa na vida pública. Esse despertar não ficou no plano teórico: traduziu-se em envolvimento concreto, trabalho de proximidade e compromisso com causas que afetam diretamente a comunidade portuguesa. Para Pedro, a política é sobretudo um instrumento de representação e serviço, enraizado nos valores transmitidos pela família e na convicção de que dar voz aos outros é uma forma essencial de cidadania.
As histórias do meu avô sobre Moçambique e governos instáveis fizeram-me perceber a importância de viver num país como o Canadá. Desde criança, ao ver as notícias e figuras políticas, comecei a interessar-me por política. Acabei por fazer voluntariado para um deputado, trabalhei no seu gabinete, envolvi-me em
1. Pedro e os colegas da campanha eleitoral
2. Pedro e Justin Trudeau
3. Pedro na Universidade de Toronto
campanhas provinciais onde estive sempre muito próximo da comunidade portuguesa para defender os seus interesses.
Grande parte da minha identidade vem da família. O meu pai ensinou-me o valor do trabalho e incentivou-me a enfrentar desafios difíceis. A minha avó e o meu avô transmitiram-me amor, cultura e sentido de comunidade. Isso levou-me ao envolvimento político, sobretudo para ajudar os seniores portugueses, que enfrentam dificuldades no acesso a serviços e apoio.
Ao trabalhar em campanhas políticas, bati a muitas portas na comunidade portuguesa e falei em português com os eleitores. Foi emocionante ver pessoas sentirem-se representadas. Muitos seniores foram votar porque se sentiram ouvidos. As principais preocupações eram cuidados ao domicílio, envelhecer em casa e impostos elevados.
Gostaria de ver mais representação portuguesa em Toronto, sobretudo a nível provincial. A
comunidade portuguesa é um bloco eleitoral pouco representado e pouco mobilizado, e é por isso que continuo envolvido em campanhas políticas: para dar voz às preocupações da nossa comunidade.
Tenho 19 anos e a possibilidade de ser político ainda está longe, mas admiro figuras portuguesas na política canadiana, como Charles Sousa e Peter Fonseca. Tenho uma grande paixão por políticas públicas e economia, especialmente orçamentos e programas sociais. No futuro, talvez, mas agora o foco é terminar os estudos.
LIDERAR A CULTURA, PREPARAR O FUTURO
O envolvimento comunitário de Pedro Benevides ganha hoje uma expressão concreta na liderança juvenil e na aposta consciente no futuro da comunidade luso-canadiana. À frente da University Of Toronto Portuguese
Association, Pedro vê a cultura não como um legado estático, mas como um projeto em construção, sustentado pela educação, pela participação cívica e pela criação de redes entre gerações. A associação funciona como um espaço de encontro, apoio e formação, onde tradição e modernidade se cruzam para preparar os líderes de amanhã. Mais do que organizar eventos, trata-se de fortalecer laços, criar oportunidades e garantir que a identidade portuguesa continue viva, ativa e relevante no Canadá.
Sou atualmente presidente da University Of Toronto Portuguese Association. É uma instituição cultural importante para os jovens luso-canadianos, promovendo a importância de mais jovens lusodescendentes prosseguirem os seus estudos e ligações culturais, com a atribuição de bolsas de estudo. Quando entrei na universidade ganhei uma bolsa de estudo e hoje participo na organização da gala anual que existe há mais de 40 anos. Organizamos eventos sociais, mas também
1. Pedro e os seus colegas da Associação de Estudantes
2. O irmão, pai, tio e primo do Pedro
oportunidades de desenvolvimento profissional. É uma instituição que procura verdadeiramente impulsionar a juventude portuguesa através dos seus programas de bolsas de estudo e das ligações culturais que promove. Por exemplo, há algumas semanas organizámos uma noite de karaoke, que serviu para conviver e aproximar os jovens portugueses. Mas, para além disso, trata-se de criar uma ligação com os jovens profissionais de amanhã da comunidade portuguesa, pessoas que, no futuro, irão liderar os clubes e associações culturais portuguesas. Tenho no meu grupo muitas pessoas inspiradoras, que se preocupam genuinamente com a nossa cultura e com a sua continuidade no Canadá. É sobre preparar os jovens líderes da comunidade portuguesa no Canadá. Eu acredito que a cultura portuguesa no Canadá graças aos jovens.
Temos também uma excelente rede de antigos membros, já que a associação existe há mais de 40 anos. Esses ex-membros organizam frequentemente iniciativas ligadas ao de-
senvolvimento de carreira para os nossos estudantes. Tivemos uma dessas iniciativas no ano passado e estamos a planear outras. No entanto, mais do que isso, destaco sobretudo a nossa ligação à ACAPO e aos clubes associados: quando realizamos eventos conjuntos e colaboramos nessas atividades, acabamos por conhecer muitas pessoas da comunidade portuguesa. É comum eu ir a algumas reuniões e alguém perguntar-me: “Qual é o teu apelido?”. Eu respondo Benevides e muitos associam-me logo à minha avó. Quando organizamos eventos conjuntos, todos se conhecem. É algo muito especial.
ENTRE DOIS MUNDOS
Entre o Canadá e Portugal, a ligação de Pedro Benevides constrói-se menos pela frequência das viagens e mais pela força da memória, da herança familiar e do sentido de pertença. Mesmo enraizado na realidade canadiana, o contacto com os lugares de ori-
gem da família reforça uma identidade que atravessa oceanos e gerações, abrindo espaço para interrogações sobre o futuro e sobre onde e como continuar esse percurso.
Não viajo muito a Portugal porque passo os verões a trabalhar na quinta da família no Canadá. Ainda assim, mantenho uma ligação cultural forte, o que mostra a força da comunidade portuguesa aqui. Mas quando fui aos Açores visitei a rua onde a minha avó cresceu, há mais de 80 anos, e a aldeia do meu avô e foi surreal perceber que toda a família veio de um lugar tão pequeno, mas está tão ligada no Canadá.
Gostaria de estudar em Portugal e ter condições para viver e trabalhar lá. Estou num momento de decisão sobre o futuro e talvez o meu futuro passe por fazer um mestrado em Economia, possivelmente em Portugal.