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Editorial

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Eis que surge uma nova Fraude. ‘Surgir’ talvez não seja exato, pois dá uma ideia de que tudo se organizou por vontade de Deus e só dele. E não foi bem assim... Foram nove meses de gestação pensando no que traríamos de novo (mesmo sabendo que nada nunca é tão novo assim!) tanto para nossos fiéis leitores quanto para os eventuais. Se o início deste editorial parece com uma frase clichê de convite de formatura não é por acaso. É só para justificar que essa foto não é sinal de heresia. Fraudamos tudo, não por mal, mas por necessidade. Nem a Santa Ceia nos escapou e ele tem de nos perdoar. Na ânsia de querer mais e mais, trazemos três reportagens mais longas que renderam experiências bacanas tanto aos

repórteres quanto à equipe. Foram elas: Body modification, Redução de Danos e, claro, a matéria (de capa) sobre o Café Calypso. Em compensação, outras ficaram mais enxutas. Falando nisso, publicamos um calendário de 2012 com fotos sensuais de uma das mulheres mais famosas do mundo. Só não vá destacá-lo e colar na parede de sua casa, por favor! Extinguimos as cinco editorias que desde a quinta edição nos acompanhavam, afinal classificações são boas até quando nos permitem fazer algo novo. Criamos o Selo Fraude de qualidade, que este ano foi dedicado ao melhor arrumadinho da cidade. Contamos com a colaboração sempre bem-vinda de muitos ilustradores, que souberam expressar através dos seus traços exatamente aquilo

que queríamos dizer com nossas palavras. Como se não bastassem todos esses processos de realização da revista, a Macaquicha sumiu. Inventou que nunca nenhum de nós demos real importância a ela, alegou que nem a convidamos para a foto deste editorial e fugiu, sem lenço e sem documento. Espalhamos cartazes de procura-se pela cidade, ligamos para a Polinter e pedimos ajuda aos amigos, mas até hoje não a encontramos. Antes de fugir, no entanto, pediu que pelo menos tivéssemos a consideração de publicar uma entrevista com um amigo que ela costumava afogar desilusões perdidas pela internet. Após tudo isso, só temos dois grandes desejos: não nos crucifique e aprecie a nona edição da Fraude sem moderação.

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um guia para a fraude

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“Me pinte aqui pra Timbalada!” A obra de Ray Vianna: da Timbalada às lojas de decoração A forma fora da fôrma Body modification: a arte estampada no corpo

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O Zéu é o limite Em entrevista, o artista multimídia fala sobre trabalhos, fragilidades e desafios

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O lado B do jornalismo O encontro de dois personagens de ficção que se mostram jornalistas de verdade Barbie quer ser gente grande Um ensaio sensual com a modelo que não envelhece nunca

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Selo Fraude de qualidade Em sua edição de estreia, o Selo Fraude avalia os arrumadinhos de Salvador

Antes de tudo, um forte O imaginário sertanejo do artista plástico Juraci Dórea

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Um lugar do caralho! O Café Calypso: saudoso e famoso inferninho de Salvador

A arte chegou lá! Tintas, cores, pincéis, brilho, desenhos e... cera! Oxe, uai! Conheça os culpados pelo inusitado e criativo Quadrinhos Rasos e a dinâmica por trás do blog

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Não é proibido fumar Redução de Danos: a estratégia de saúde que respeita o uso de drogas

E ainda: confira o material extra das matérias no site revistafraude.com


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quem faz a fraude Tutora Petcom: Graciela Natansohn Editora-geral: Marília Moreira Subeditores: Amana Dultra, Karina Ribeiro, Marcelo Argôlo e Tais Bichara Editora de Fotografia: Amana Dultra Editora Multimídia: Bruna Cook Diretor de Arte: Wesley Miranda Diagramação: Amana Dultra, Marcelo Argôlo e Wesley Miranda, com colaboração de Karina Ribeiro Assessoria de Comunicação: Bruna Cook, Daniel Silveira,

Marília Moreira e Paula Morais Produção do Lançamento: Daniel de Farias, Eduardo Coutinho, Flávia Santana, Karina Ribeiro e Tais Bichara, com colaboração de Bruna Cook e Nelson Oliveira Repórteres: Amana Dultra, Bruna Cook, Daniel de Farias, Daniel Silveira, Eduardo Coutinho, Flávia Santana, Karina Ribeiro, Marcelo Argôlo, Marília Moreira, Paula Morais, Tais Bichara e Wesley Miranda Foto de Capa e Editorial: Agnes Cajaiba/Labfoto Ilustração de Capa: Oliver Dórea

agradecimentos À gráfica Cartograf, pela ajuda de sempre na impressão da revista. A Oliver Dórea, pela ilustração feita sobre a foto de Agnes Cajaiba e que deu um “quê” à nossa capa. A Nancy Viégas, Vandex, Mauro YBarros, Ronei Jorge e Luciano Matos, frequentadores do antigo Café Calypso, que dedicaram uma parte de suas manhãs a posar para nossa foto de capa. Ao jornal Correio* por ceder uma foto de seu arquivo para matéria sobre o Café Calypso. Às ilustradoras Maribê e Luana Vellame. A Isabela Maranhão, Guilherme Souza e Breno Costa por terem cedido as fotos do ensaio sensual da Barbie para compor o calendário 2012 da nossa revista. Ao professor Rodrigo Rossoni, pelos conselhos fotográficos. A Matheus Pirajá pela gravação e edição dos vídeos de divulgação do evento. À banda Expresso Libre, que aceitou o convite para animar o lançamento. Ao Pelourinho Cultural, Centro de Culturas Populares e Identitárias e Secretaria de Cultura por cederem a Praça Pedro Archanjo e toda infraestrutura necessária à realização do nosso evento.

A revista Fraude é uma publicação do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação (Petcom) da Universidade Federal da Bahia. O Pet é um programa mantido pela Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação, e é através do orçamento anual destinado ao Petcom que é paga a impressão da revista. As opiniões expressas neste veículo são de inteira responsabilidade dos seus autores. Ano 8, número 9, novembro de 2011 Salvador - Bahia. Tiragem: 1000 exemplares. End.: Rua Barão de Geremoabo, s/n, Ondina, Salvador, Bahia - Brasil. Tel.: 3283-6186 www.petcom.ufba.br | petcom@ufba.br www.revistafraude.com


“Me pinte aqui pra

Timbalada!” texto Daniel de Farias e Daniel Silveira foto Lorena Vinturini/Labfoto

Se você assistiu a “Ó Paí, Ó”, certamente lembra dessa fala de Rosa, personagem de Emanuelle Araújo no filme de Mônica Gardenberg. Quem vê as marcas tribais pintadas de tinta branca nos corpos que acompanham o trio elétrico puxado pela banda Timbalada geralmente não tem noção de como a ideia surgiu. Invenção casual de Ray Vianna, a pintura dos timbaleiros é a principal obra do artista plástico, designer e cenógrafo baiano, com cerca de trinta anos de dedicação ao trabalho artístico. Aos 15 anos, Ray Vianna já trabalhava em decorações do carnaval com os artistas plásticos Renato Vianna, seu irmão, e Juarez Paraiso, sua principal influência. Ainda na adolescência, participou do grupo de cenografia do colégio onde estudou. A experiência despretensiosa com arte, carnaval e

Ray Vianna é artista plástico e transita entre suas origens na Timbalada e suas novas peças para decoração

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cenário influenciou decisivamente a trajetória profissional do artista. Ray conta que acompanhou a Timbalada desde o início. Participou da montagem de trios, pinturas de instrumentos e de abadás, ou seja, da produção da identidade visual da banda. O desenho tribal, por exemplo, nasceu de um engraçado acaso. “Antes de um importante show, o figurino de um dos percussionistas não chegou e ele pediu para ter o próprio corpo pintado por mim. Pouco tempo antes de começar, tive a ideia de pintar desenhos tribais com tinta acrílica branca”. No dia seguinte, como a Timbalada estamparia a próxima capa da revista Isto É, Carlinhos Brown pediu ao artista que ele refizesse a pintura, dessa vez em toda a banda. A pintura se tornou símbolo da Timbalada. Até hoje, quem se pinta com as marcas características é reconhecido

como timbaleiro. No entanto, os desenhos não ficaram só no corpo. Nas capas dos três primeiros discos da banda, produzidas por Ray, as marcas tribais são destacadas. A primeira, em que os seios de Patrícia – na época vocalista da banda – aparecem pintados, rendeu ao artista o troféu Caymmi – prêmio dedicado aos destaques da música baiana – na categoria melhor capa de disco. A influência da cultura afro-baiana no processo criativo do artista é evidente no resultado final de sua obra. Tanto no trabalho com a Timbalada, como nas decorações de carnaval e obras de artes plásticas, os elementos de matriz africana, que, nas palavras do artista, entram pelos poros, estão presentes. A escultura “Odoyá” – localizada no bairro Rio Vermelho – foi elaborada junto com a decoração da festa de Yemanjá e expressa saudação

Oxum/Série Orixás, 2009

Alegria da cidade, 2010

Ray Vianna/Arquivo pessoal

Sem título, 2011

ao orixá, além de reportar à tradição pesqueira local. Atualmente, Ray tem dado prioridade às artes plásticas, levando o reconhecimento da cenografia para o mercado das artes. O artista faz o que ele intitula de “arte aplicada” e suas obras mais atuais também são vendidas em lojas de decoração. Segundo ele, espaços em galerias são muito difíceis e Salvador tem um público que não costuma consumir artes plásticas. Se alcançar a versatilidade e realizar trabalhos em diversas linguagens é uma meta de muitos artistas, para Ray Vianna é uma realidade. Difícil para ele é parar de trabalhar. Quando não está no computador desenhando um novo produto, está no atelier pintando ou montando peças. Multifacetado, ele afirma com prazer que se sente feliz em fazer o que faz.

Odóyá, 2008

E MAIS...

FOTOS DE OUTRAS OBRAS DE RAY VIANNA

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Para contemplar uma pintura no museu ou o lançamento de um filme é necessário o deslocamento do espectador até o encontro dessas obras artísticas. No entanto, a arte em movimento e estampada no corpo, chamada de modificação corporal ou body modification, não exige ser contemplada em um lugar específico, afinal é vista frequentemente. A ideia de utilizar o corpo como suporte da arte foi difundida na década de 1960 com o movimento body art (arte do corpo). Braços, pernas, pelos ou fluidos corporais – sangue, saliva ou suor – são alguns dos elementos usados como base para a criação das obras do artista. Por também fazer uso do material corporal, a body modification se insere como uma das práticas desse movimento. O objetivo dessa prática é alterar a silhueta através de cortes, aplicação de adereços ou produtos químicos, produzindo novas dimensões estéticas. Os motivos que levam o indivíduo a optar por essas modificações são contrastantes: por um lado, existe a busca por singularidade, por outro, essa procura é influenciada a partir da mídia, através de seus ídolos. FRAUDE 08 FRAUDE 20112011

Elvira Bono é pesquisadora da body modification e adepta da prática


A body modification além da técnica texto Paula Morais e Wesley Miranda ilustrações Wesley Miranda fotos Leonardo Pastor/Labfoto

Ritual, dor e transição Os povos da África, Oceania, Ásia e América conservavam práticas distintas e exclusivas da body modification como parte inerente à cada cultura. Durante o período das grandes navegações, em que os europeus entraram em contato com esses continentes, as práticas foram difundidas para outras partes do mundo. No Brasil, os índios Aimorés usavam materiais circulares para alargar lóbulos e boca. Ainda hoje, as modificações são encontradas como marca cultural em alguns povos: as mulheres da tribo Padaung - comunidade indígena de Kayans, localizada

‘‘Body modification significa transição ’’ Origami na Tailândia – utilizam, desde muito jovens, aros de metal para alongar o pescoço como símbolo de beleza. Os praticantes da body modification também aliam o apelo estético ao caráter cultural, exibindo seus trabalhos artísticos em eventos performáticos, que vão desde demonstrações com menor público até grandes apresentações em convenções de tatuagem. Essas apresentações são oriundas do conceito ritualístico das sociedades primitivas, cuja intenção era obter o controle sobre o corpo, através da superação dos limites físicos. Na tribo dos Maués, indígenas da Amazônia brasileira, é

realizado um ritual em que os meninos colocam as mãos dentro de uma luva cheia de formigas tucandeiras, cuja dor da mordida pode durar 24 horas e ocasionar convulsões, febre, vômito e diarreia. Os jovens que passam no teste de bravura provam sua masculinidade e se tornam guerreiros da tribo. Segundo Elvira Bono, estudante da Escola de Belas Artes da Ufba e adepta das modificações corporais, atualmente, os ritos são realizados com objetivos distintos e pessoais. “Alguns ainda buscam a superação de limites ou a inclusão em um determinado grupo social. Por outro lado, há pessoas que fazem somente por curiosidade e também quem deseje o prazer masoquista. O ritual é uma categoria inserida nas possibilidades de práticas corporais denominadas ‘jogos do corpo’ (body play). Essas práticas trabalham com estímulos dolorosos, mas não chegam a ter o intuito de mudar a forma original da silhueta”, explica. O ato de levantar o corpo por meio de ganchos atravessados em perfurações na pele, chamado de suspensão corporal, apesar de ser doloroso, não tem a intenção de causar modificações, já que os furos são temporários e feitos somente no dia da apresentação. “As pessoas perguntam se existe a possibilidade dos ganchos rasgarem a pele na hora, mas somente se o furo for mal feito. É necessária uma agulha de quatro milímetros para os ganchos, que suportam 50 quilos cada, além de equipamento de bungee jump e o auxílio de profissionais experientes”, ex-

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‘mento ‘Pensoéqueumaa sensação dor do procedicomo

qualquer outra a que estou sujeita a passar todos os dias

comum imaginar que a procura pela prática seja influenciada exclusivamente por conta da dor. “Penso que a dor do procedimento é uma sensação como qualquer outra a que estou sujeita a provar todos os dias. Não gosto de senti-la, mas a tolero, pois faz parte da escolha que tomei. Depois posso amenizá-la”, comenta Elvira Bono, desconstruindo essa ideia. A superação da dor, que marca a transformação da criança em adulto na cultura dos Aimorés, também caracteriza a mudança de fases da vida para os adeptos à body modification. Segundo o body piercer profissional Romeu Queirós, conhecido como Origami, tolerar a dor é uma necessidade. “Dói, mas passa. Isso faz parte do método. É muito comum essa prática ser feita em pessoas entre 18 e 28 anos, ou seja, na passagem da adolescência para a fase adulta. A body modification significa transição”, declara.

Cortes, suturas e perfurações

Decidir a primeira modificação corporal pode ser uma tarefa difícil, já que Elvira Bono a prática apresenta muitas opções para a mudança estética do corpo. As escoplica Elvira Bono. lhas podem ser desde pequenas alteraOs estímulos dolorosos também fa- ções, como aplicação de um piercing zem parte das modificações corporais no nariz, até as mais invasivas, que e são entendidos como uma sensação necessitam de maiores cuidados, como inerente ao processo. No entanto, é a nulificação, cujo objetivo é a amputação de membros ou outras partes sa-

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dias do corpo. A maioria das mudanças são decisões irreversíveis e, mesmo as revertíveis, como as tatuagens, podem deixar lesões caso haja a tentativa de remoção. A bifurcação da língua é a modificação invasiva mais procurada e é feita através de uma pequena intervenção cirúrgica. O procedimento consiste em dividir a língua em duas partes até a sua metade. Uma bifurcação pode ser feita em 40 minutos, mas desde o momento em que uma pessoa decide fazê-la até o dia em que a língua é cortada, há algumas etapas a serem cumpridas. “É preciso fazer um corte mais profundo do que o normal e esperar a cicatrização. Durante esse tempo, vai ser criada uma mucosa dentro desse corte e no dia exato da bifurcação poderei usá-lo como base”, explica o body piercer profissional André Mascarenhas, conhecido como Pirão. Uma pequena intervenção cirúrgica também é feita na aplicação dos implantes subcutâneos na hipoderme (camada profunda da pele). Os materiais, que podem ser de silicone, aço cirúrgico ou politetrafluoretileno (PTFE), geram relevo no local com diferentes formas e modelos, a depender da criatividade: bolas, estrelas, coração ou chifres. A pele também pode ser usada para a criação de desenhos feitos através de cortes com uma lâmina ou bisturi.


Pirão é body piercer e tatuador

A técnica, conhecida como escarificação, forma esses desenhos a partir de cicatrizes. “É necessário que o tempo para a cicatrização seja retardado para que os traços venham a ser permanentes. Caso cicatrize de modo suave ou rápido, o desenho pode ser perdido”, explica Pirão. Para adeptos a adereços na orelha, o alargador consiste em aumentar a per-

furação do lóbulo, a depender do tamanho desejado. O material é colocado através do pino de inserção, material de aço cirúrgico em forma cônica, que força a dilatação do lóbulo e facilita o procedimento. A expansão do furo na região de forma mais rápida pode ser realizada com o scalp, que também é utilizado para corrigir perfurações. “A diferença entre o alargador e o scalp é o método do uso. Com o scalp, posso colocar de uma só vez uma peça de dez milímetros, através do corte feito com o bisturi na orelha”, comenta Origami.

O monopólio do bisturi O uso de materiais como o bisturi e a linha de sutura, ou a necessidade de serem feitas pequenas intervenções cirúrgicas nos procedimentos das modificações corporais, levam ao questionamento sobre até que ponto a prática médica interfere na artística: os body piercers realizam o exercício ilegal da profissão médica? Para o presidente regional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Marcus Moscozo, a ilegalidade é consumada somente em casos de complicações com diagnóstico. “O profissional que empreende uma solução para o problema, recomenda medicação e

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Um tabu (quase) quebrado

Quando as modificações corporais e rituais aparecem em telejornais e outros programas televisivos, são quase sempre tratados como “bizarrices” feitas por “loucos” que gostam de sentir dor. São notícias geralmente relacionadas a tragédias em apresentações performáticas ou a indivíduos extremamente modificados – no caso de Dennis Avner, que ficou famoso como o “Homem-Gato”, ou Erik Sprague, o “Homem-Lagarto”. Em 2007, na Rede Record, foi exibido o vídeo de um ritual de suspensão no qual uma garota, ao ser suspensa, teve os joelhos rasgados pelos ganchos. Na reportagem, não foram apurados os possíveis motivos causadores do acidente; foram ao ar somente os procedimentos realizados pelo profissional: estancou o sangue, colocou gaze, fez um curativo e levou a jovem até um centro médico. A exibição de acontecimentos como esse nos veículos de comunicação reforça a ideia negativa de que modificações e rituais não passam de loucura. A matéria não mostrou, porém, que o acidente foi causado por imprudência do profissional da suspensão, que utilizou um catéter de espessura errada, fazendo um furo muito superficial nos joelhos. Em fevereiro de 2011, com o clipe Born This Way, da

cantora americana Lady Gaga, foi apresentado ao mundo o modelo canadense, Rick Genest, 31 anos, também conhecido como Zombie Boy. Ele é assim chamado porque tem a maior parte do corpo coberta por tatuagens que se assemelham a órgãos e formas da anatomia humana, além de possuir piercing no septo nasal. Apesar da sua atuação como coadjuvante, Zombie Boy fez muito sucesso devido ao seu visual inusitado e ajudou a mostrar que as modificações podem ser abordadas de modo positivo pela mídia, juntamente com Lady Gaga, que durante a campanha de divulgação desse clipe, aparecia com uma maquiagem semelhante a implantes subcutâneos na testa. Segundo Diana Magnavita, o que é negativo não é o assunto difundido na televisão, mas a forma superficial com que é discutido. “Eu acho que a prática das modificações corporais deve ser veiculada na televisão, mas acredito que o assunto nunca foi pesquisado a fundo e, quando divulgam matérias, são rasas, de modo que nos fazem parecer pessoas insanas que só desejam obter furos pelo corpo”, comenta. Diana acredita que esse tipo de abordagem se deve ao caráter chocante das modificações. “Tudo que choca e é muito diferente do ponto de vista social acaba gerando uma deturpação”, afirma.

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‘‘O corpo é um templo e não devemos profaná-lo ’’ Marcus Moscozo tenta a correção com uma intervenção cirúrgica está praticando o exercício ilegal da medicina. O indivíduo que faz um procedimento médico sem exercer a profissão é responsável por qualquer risco que a pessoa venha sofrer”, esclarece. O uso da anestesia também é proibido nessas intervenções. Segundo o doutor Moscozo, a utilização indevida da droga pode causar complicações sérias. “Quando um dentista ou um médico aplica uma anestesia local, ele sabe que o paciente pode ter um choque anafilático ou uma parada cardíaca e tem que saber lidar com a situação. Caso ocorra algum problema, quem faz modificação corporal saberá tratar? Saberá entubar a pessoa? Terá adrenalina para injetar?”, provoca.

As complicações podem também acontecer muito tempo depois de feita a modificação. A estudante do curso de Dança, Diana Magnavita, precisou tirar um piercing que tinha na língua por mais de dez anos, devido a uma retração na gengiva. “Durante muito tempo, a bolinha do meu piercing ficou em atrito com a boca, causando um ferimento, até arrancar uma parte da gengiva. Mesmo com cuidados médicos, ainda dói muito”, comenta. Os danos podem ser evitados com uma pesquisa adequada e escolha do melhor local para realizar os procedimentos, procurando conhecer principalmente o trabalho do profissional. A maior decisão a ser tomada, contudo, é a de realizar alguma modificação. “O corpo é um templo”, afirma Moscozo, “e acredito que não devemos profaná-lo”, completa. No entanto, há quem o profane e o adore tanto em cadeiras de estúdios quanto em mesas de cirurgias, já que nenhum templo está imune a marcas, sejam do tempo ou da mão humana. E MAIS...

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FOTOS DOS TRABALHOS DOS ENTREVISTADOS


OOsZéu é o limite outros lados de Zéu Britto texto Eduardo Coutinho e Flávia Santana fotos Leonardo Pastor/Labfoto Aos 14 anos de idade, a cidade de Jequié já tinha ficado pequena demais para a inquietação do menino Zéu. Desde pequeno escrevendo músicas e transformando o quintal de casa em teatro para que ele mesmo pudesse se apresentar, Zéu Britto deixava explícito o traço multimídia que carrega consigo até hoje. No último ano do colégio, já em Salvador, Zéu conciliava os estudos com o Curso Livre de teatro da Ufba e, depois de cursar Artes Cênicas por dois anos, as peças o levaram de vez para a carreira profissional. Zéu trabalhou durante seis anos com o grupo baiano Los Catedrásticos, onde ganhou certo reconhecimento, e depois foi convidado a fazer uma peça no Rio de Janeiro, de onde nunca mais saiu. Além do trabalho como ator em séries de televisão como “Sexo Frágil” e filmes como “Capitães da Areia” e “Trampolim do Forte”, Zéu já apresentou dois programas no Canal Brasil e, atualmente, grava participações como

repórter para o programa Mosaico Baiano, da TV Bahia. Como cantor, teve suas músicas incluídas em trilhas sonoras de filmes como “Lisbela e o Prisioneiro” e “Meu Tio Matou um Cara”, além de ter lançado no último ano o DVD “Saliva-me”. Você afirma que foi na infância que começou a cantar e compor canções excêntricas, como o “Hino em louvor à raspada”, inspirado no ensaio da atriz Claudia Ohana para a Playboy. As suas primeiras músicas já apresentavam esse caráter? As primeiras eram até mais excêntricas do que agora. Hoje eu já tenho uma ideia louca e já consigo lapidar para deixar mais no parâmetro da minha idade, com outra roupagem, outros ritmos. Nessa época, era um escárnio porque com 13, 14 anos eu não tinha limites, mas agora é esse escárnio mais lapidado. Na minha música eu falo pa-

lavrão, mas eu brinco com coisas da vida. As coisas reais, duras, podem ser engraçadas, só que vivemos em um mundo em que isso é pesado. E o que motiva isso? Eu não sei, acho que medo. Nas minhas músicas, o máximo que falo é sobre sexo, mas existe um preconceito contra esse discurso. Acho que não falo nada demais, eu falo de coisas que acontecem na vida, nenhuma dessas canções é inventada. Adoro ser cronista dos fatos reais, mas parece que isso está assombrando as pessoas. Você se considera um ator que canta, um cantor que atua ou não existe essa distinção? Não existe. Inclusive eu estava ouvindo uma entrevista de Jô Soares à Marília Gabriela e ele falou uma coisa que eu concordo: é tudo vertente de um

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‘‘Eu sou eu o tempo inteiro e, no palco, só dilato ou diminuo’’ FRAUDE 2011


mesmo ser comunicador que não tem limites. Tem a ver com realização, porque não é para ganhar dinheiro, é para se realizar, e acaba virando profissão. Não foi um que virou o outro porque tudo parte do ser artista. Em uma entrevista no programa “Provocações”, você falou que nunca fez um grande personagem na sua carreira artística. O que seria um “grande personagem” e por que você acha que isso ainda não aconteceu? Na verdade, isso já aconteceu (risos). Nas primeiras peças que fiz, no Curso Livre e depois em Los Catedrásticos, o que eu interpretava não eram personagens, eram seres. Eu nunca tinha feito uma construção no palco, algo que exigisse um cuidado, eu só tinha feito maluquice mesmo. Um ano depois daquela entrevista, eu fiz a peça “Decameron”. Ali sim! Eu fiz Biondello, um personagem meio erudito que tocava violão de um jeito bem diferente do meu, e também fiz a Irmã Beta, uma freira descarada com um jeito de ser estranho. Eram personagens porque eu vivia aquilo durante uma hora e meia intensamente e me preocupava com a construção do personagem, em levá-lo adiante e ir melhorando. Sabe aquilo de “estou mais perto do personagem ideal”? Isso eu não tinha feito até então. “Decameron” me satisfez, foi aí que quebrei esse cabaço! A grande maioria dos personagens que você interpretou até o momento apresenta características bastante reconhecíveis: são caricatos, engraçados, excêntricos. Isso tem relação com o seu próprio jeito de ser? Totalmente. Inclusive, minha busca agora é um personagem na televisão que dê chupão, que tenha um envolvimento amoroso, que fale sério, que fale “cadê o documento, Dona Celeste?”, porque hoje só faço maluquice pesada. Eu gosto e quero fazer maluquice sempre, mas, quando você faz trinta anos, você busca outras coisas também. Adoro interpretar, mas tem que ter desafio. Até um dia desses, eu

fazia da interpretação uma brincadeira pessoal em que o diretor embarcava. Não conseguia pegar a minha alma e botar num cabide, eu não me deixava em paz. Então, todo diretor teve que aceitar o pacote, o ser. Eu sou eu o tempo inteiro e, no palco, só dilato ou diminuo. Você consegue destacar um trabalho que fugiu desse padrão? No cinema, em “Trampolim do Forte”, em que eu fiz uma travesti. As gravações eram na rua do Porto da Barra, de madrugada, e fazia muito frio. Então, uma hora o humor foi embora. Sabe quando você perde a graça? Quando você está na exaustão, como diz Augusto Boal, aí sim chega o personagem! Porque aquele salto alto, a calçola no cu, tudo era muito desagradável. Depois de quatro horas esperando, quando começou a gravação, eu não tinha mais graça. No filme dá para perceber que não parece comigo. É outro tom, outro jeito. Esse tipo de personagem me acrescentou muito, eu quero fazer muita coisa assim. Se você pudesse escolher o próximo personagem a ser interpretado, como ele seria? (Pausa) Boa pergunta. Eu usaria o meu outro lado, que é o lado dramático pesado, que chora. Acho que poderia ser um personagem como um pai de família que está com o filho numa situação de hospital e perde o emprego. Sabe numa situação desoladora? Isso seria um desafio, eu iria enlouquecer para fazer um negócio desses. Uma situação assim, dramática, pesada. Não sei como me sairia, mas tenho curiosidade de descobrir. Você afirmou em entrevista que o seu lado artista é, antes de tudo, frio e calculista, apesar de isso não ser mostrado. Explique para nós quando e como esse lado oculto se manifesta. É que eu sou aquariano com Lua em Peixes e, se deixar, eu nunca piso no chão. Se pudesse, ficaria um, dois me-

ses em casa criando, pintando meus quadros, tocando piano ou cuidando dos cachorros... Mas eu preciso trabalhar e luto contra esse ser que só quer ficar em casa. Então o lado frio e calculista, o lado racional, vem nessa hora. É que sou meio, bem pouquinho, sociopata. Não gosto de ir a um lugar que tem muita gente e que sei que vou demorar. Mas esse seu lado que não fica à vontade num espaço com muita gente é algo que surpreende... Porque o que fica é essa minha maluquice, mas eu tenho os meus maneirismos. Só enfrento coisa assim se estiver munido profissionalmente de uma função. Por exemplo, cobertura do carnaval da Bahia: uma van te deixa na multidão e você tem que interagir, buscar quem entrevistar. Isso não é coisa de sociopata, mas aí o lado racional entra em ação e eu me policio. Se deixar, juro por Deus, eu não iria para aquela muvuca nunca! Geralmente, com muita confusão, costumo ficar tímido, só que vestido de personagem de bufão, de arlequim, eu enfrento. Quando exatamente você é tímido? Quando sou pego de surpresa. Se eu chegar a um lugar e, sem saber, encontrar uma multidão, vou imediatamente ficar muito sem graça. Mas se vier alguém perturbando, de repente, já fico envolvido na festa. Mas geralmente eu prefiro não ir, sou igual a gato, eu gosto de ficar em casa. Como em qualquer artista, existem diferenças entre o Zéu Britto “pessoa” e o Zéu “personagem”. Que diferenças são essas? É chocante, mas não tem diferença não. Eu não consigo levar um papo, até com gente íntima, sem gesticular, sem arregalar os olhos, sem cuspir, sem embolar a língua. Mas o povo me acaba, diz que é falsidade, que eu invento um personagem para me inserir socialmente. Nunca! Eu sou assim sempre, desde pequeno, em qualquer situação. E MAIS...

PODCAST

FOTOS

DE ARQUIVO

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Antes de tudo, um forte O sert茫o de Juraci D贸rea

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texto Amana Dultra foto Leonardo Pastor/Labfoto


Terra e couro nas entranhas do sertão No imaginário sertanejo de Juraci não cabem ônibus direto para São Paulo, antenas parabólicas e sandália de borracha. As casas, a caatinga, os homens, tudo é feito de couro e de terra. O “Projeto Terra”, trabalho mais conhecido de Dórea, também é assim: varas de pau estendendo o couro de bicho na imensidão da paisagem. Arte de sertanejo para sertanejo ver. Entre os anos de 1982 e 1998, Juraci viajou pelo sertão construindo as instalações do projeto. As peças começaram a ser feitas na fazenda de seu pai, em São Gonçalo. “Eu quis demarcar alguns lugares que estavam associados à minha infância, como o Tanque Novo, a Tapera e o Jericó, que eram referências pra gente que andava no mato, circulando pela fazenda”, explica Dórea. Depois, ele seguiu para Monte Santo, Canudos e Euclides da Cunha, até che-

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Cenas Brasileiras 56 e 57

O blém-blom do chocalho de metal é a campainha que abre as portas da casa de Juraci Dórea. É o mesmo blém-blom das cabras que pastam em Feira de Santana, portal do sertão e cidade natal do artista plástico. Juraci mora no bairro Olhos d’Água, próximo à Igreja da Matriz e ao Feiraguai, no coração do comércio da cidade, na mesma rua em que morava quando criança. Em sua infância, esta rua era caminho das boiadas. Já em sua memória, o bairro está encravado entre a Feira moderna e a dos vaqueiros. Quando foi estudar arquitetura na capital, Juraci não se imaginava longe de sua cidade. “No final do curso vinha cada vez mais frequentemente visitar meus pais”, lembra. Sertanejo tem raiz forte, é de sua terra que tira força. Longe, fica como rês desgarrada, como na música de Dominguinhos e Gil.

gar ao Raso da Catarina. Segundo ele, essas escolhas se deram em função de suas idas ao sertão mais tradicional. Na infância do artista, Feira de Santana era muito ligada à cultura sertaneja, e foi na medida em que a cidade ia perdendo essa referência que ele começou a fazer as viagens a Monte Santo, na década de 1970. “Lá era quase uma ilha, a estrada era de barro e demorava um dia pra chegar. Era aquele sertão bruto”, lembra. A ideia de fazer o projeto no sertão foi em função do lugarejo: “Eu ficava em Feira e, quando viajava para lá, era como se eu recarregasse as baterias, como se eu buscasse uma energia do sertão. Quando surgiu o “Projeto Terra” eu pensei em devolver um pouco disso para o lugar”, completa. Em Monte Santo, ele conheceu Edwirges, uma senhora de 76 anos, moradora da região. Ela é uma personagem central, assim como Monte Santo é um lugar central para o “Projeto Terra”. “Ela é aquela velha que está com a pedra na cabeça no filme ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’. Depois da filmagem, incorporou isso de ser artista”, explica ele. Segundo Juraci, Edwirges tinha toda a memória de Monte Santo, desde as origens. “Ela contava as histórias do lugar, tudo ao jeito dela. Tenho horas e horas de fitas gravadas de conversas sobre o sertão”, emociona-se ao falar da genialidade por trás do depoimento da sertaneja. Ele lembra, também, da época em que estava em Canudos e das dificuldades que enfrentou para fazer as instalações, prender as peças de couro nas varas de pau e depois fixá-las no chão. “Canudos é muito seco, tem um sol muito quente. De repente, ficou um trabalho bonito no meio daquela paisagem seca. A gente tem sempre surpresas”, conta. Por serem instalações, as obras se re-

lacionam com a paisagem e, portanto, a definição do local físico foi fundamental. “Eu escolhia pela força do lugar, como a casa de Edwirges. Decidi fazer em alguns lugares também porque eram memórias”, diz. Juraci conta que montou uma delas na frente da casa-da-fazenda do Acaru que, segundo dizem, hospedou as tropas de Canudos. Hoje, essa casa não existe mais. O tempo agiu também sobre as instalações. Feitas de material perecível, estavam dentro da proposta de arte efêmera, em que o que fica do projeto é o registro. Por isso, o artista acompanhou as transformações das peças através de fotografias, filmagens e gravações de áudio das impressões dos sertanejos e de seus comentários sobre as obras. “A própria ação do tempo faz parte do trabalho”, afirma Dórea.

Do sertão à Veneza: trajetórias Essas lembranças e fotografias se transformaram em um painel de 3,60x3 metros e foram para a 43ª Bienal de Veneza, em 1988. Colocada na entrada do pavilhão, a obra teve forte impacto sobre o artista: “De repente eu fui chegando e vi aquele cenário nordestino através daquelas fotos. Foi uma viagem no tempo. Eu estava na Europa e, de repente, eu estava no sertão”. Os registros fotográficos acompanharam vídeos, couro estirado e bosta de boi, que completaram a instalação da mostra italiana. Só faltou levar o sol de rachar. A instalação de couro que pode ainda ser vista, foi feita há quatro anos, e fica na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). “Aqui, em Feira, as pessoas não se interessam mais pelo couro. Se pudesse levar a peça toda para vender, talvez”. No sertão, não. “Qualquer pedacinho que sobrava, os sertanejos ficavam de olho. Qualquer

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Raízes, fantasias sertanejas, feira livre e outras histórias “A feira já é outra história”, diz ele, “está mais associada à minha memória de Feira de Santana”. Assim como Caruaru, Feira era conhecida pelo comér-

Juraci Dórea/Arquivo pessoal

Escultura em Canudos, 1984

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cio ao ar livre. Tanto era que, quando Sartre veio à Bahia, Jorge Amado o levou para conhecer a cidade. Na década de 70, quando a febre modernista varreu o país, e, especialmente depois da implantação do Centro Industrial Subaé (CIS), a feira livre foi extinta. Juraci chegou a filmar a última feira, em uma câmera Super 8. Para ele, isto foi o sinal para outras coisas acabarem: “A arquitetura foi se modificando, a Festa de Sant’Ana aca-

na Europa ‘‘ Eue,estava de repente, eu estava no sertão

‘‘

tira que sobrava dava para fazer uma correia, dava para consertar um gibão, uma sela, um sapato”, completa Dórea. O couro é muito útil no sertão, quanto mais o sertão é bruto, mais ele é usado. Para Juraci, a reação das pessoas em Feira foi muito diferente da dos passantes das estradas em que construiu o projeto. Ele acredita que isso se deu porque a cidade já tinha outras características, não era mais um sertão bruto: E MAIS... “A reação às obras estava muito assoTEXTO ciada ao que já se conhecia, às reporDE CAROLINA tagens sobre o trabalho que já tinham LÔBO SOBRE passado na televisão. No sertão não PROCESSO tinha nada disso, era algo novo, tinha CRIATIVO DE JURACI DÓREA uma certa curiosidade, tinha aquele esFOTOS tranhamento em relação à peça”. Ele DE ARQUIVO argumenta que, antes, Feira era a grande referência de sertão da Bahia. Para o artista, a grande perda da memória da cidade aconteceu quando a feira livre acabou.

bou. Só sobrou a micareta, que quase acabou também”. A feira estava associada ao Campo do Gado, onde acontecia o comércio ligado à pecuária, outra grande referência de sertão baiano. “Inclusive”, ressalta o artista, “Glauber começa ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ no Campo de Feira”. Durante o Império, quando a comercialização de pecuária era muito forte, Dom Pedro II veio a

Feira de Santana conhecer o Campo do Gado. Hoje, isto se perdeu e, para Juraci, a cidade precisa construir uma nova identidade. Assim como o sertão de Juraci é romântico, seu sertanejo é imaginário, é um homem cavaleiro – como já disse o poeta Antonio Brasileiro. É o homem que tem uma ligação forte com a terra, que tem sabedoria. Não uma sabedoria de livro, mas de vivência, e é isto que encanta Juraci: o conhecimento profundo da vida que tinham as pessoas que conheceu em suas entradas pelo sertão. Dons Quixotes que levam a boiada para onde tem pasto verde, que rezam pela chuva, que festejam dia de Reis, que vão à feira. Ele mesmo também é um cavaleiro, labuta para tentar guardar um pouco da cultura do seu tempo para as próximas gerações. Tempo de um sertão do povo da enxada, dos pés cor da terra, da poeira subindo. Uma das grandes satisfações do trabalho de Juraci Dórea é ver as novas gerações falarem do sertão que não conheceram e que construíram em sua imaginação também a partir da memória do artista. Sertão idílico, em que a alma do sertanejo ainda é feita de couro.


Um lugar do caralho! As lembranças de quem tocou, trabalhou e frequentou o bar que transpirava rock

texto Bruna Cook e Marcelo Argôlo ilustração Bruna Cook

Travessa Prudente de Morais, número 59, Rio Vermelho. Na casa branca com portas e janelas de madeira pintadas de verde e uma estrutura que, para quem passa na frente, deixa uma sensação de insegurança, habitava uma família: Jean Claude, Lourdes e Naomi, filha do casal. Travessa Prudente de Morais, número 59, Rio Vermelho. No meio da ladeira de acesso ao bairro boêmio é inaugurado o Café Calypso, apelidado carinhosamente pelos seus assíduos frequentadores como “Café Colapso”: um pequeno bar, para aproximadamente 80 pessoas, que costumeiramente ultrapassava a lotação. Muitos não lembram como chegaram, apenas sabem que lá estavam. Sem um sistema de refrigeração eficiente e janelas sempre fechadas para diminuir os problemas com a vizinhança, o Calypso, como todo bom inferninho, tinha como principais características rock ‘n roll a noite inteira e um calor de deixar o Saara com inveja.

Agnes Cajaiba/Labfoto

Luciano Matos, Nancy Viégas, Vandex, Mauro YBarros e Ronei Jorge de volta ao antigo Café Calypso

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Nancy Viégas: vocalista da extinta banda Nancyta e os Grazzers

Agnes Cajaiba/Labfoto e Lorena Vinturini/Labfoto

Paulinho Oliveira: músico e ex-guitarrista da Cascadura

Jean Claude: dono do Calypso

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O estabelecimento foi inaugurado em maio de 1997 sem a proposta de abrigar shows de rock, pois o francês Jean Claude, seu dono e ex-proprietário do Paris Latino – um antigo bar de rock na orla do Rio Vermelho –, queria apenas que a casa fosse um restaurante. “Eu tinha prometido que não faria música ao vivo, para poder fechar mais cedo. Não queria aquela agitação”, confessa. No entanto, duas semanas depois da abertura, a casa sofreu um assalto e, para recuperar-se do prejuízo, Jean Claude resolveu investir em música ao vivo. No dia 8 de junho de 1997, uma apresentação de violão clássico deu inicio à nova fase do bar. No mês seguinte, as primeiras bandas começaram a tocar e foi criada uma programação: encontro de jazz organizado pelo baterista Ivan Huol às terças-feiras, Enfim Blues às quartas e Black Soul Connection aos sábados. Estas duas foram as primeiras bandas a tocarem no local com um estilo mais próximo do rock. A casa 59, com uma simples placa oval branca, escrito em vermelho “Café Calypso”, chamava atenção por sua fachada precária. Aqueles que se arriscavam a entrar atravessavam o portão principal – onde geralmente ficava o segurança do bar, Márcio Santos –, abriam outra porta e subiam uma escada íngreme que dava acesso ao ambiente principal. Com uma iluminação avermelhada, contava com um balcão, cadeiras e mesas. O palco, improvisado, ficava ao lado desse balcão, de costas para o banheiro e de frente para as mesas. Essa disposição

espacial (ver ilustração da página 22) criava a mais memorável e emblemática característica do Calypso: o público precisava atravessar a banda no meio do show para ir ao banheiro ou pegar uma cerveja.

A casa do rock Jean Claude nunca teve a intenção de montar outro estabelecimento do tipo. Entretanto, se tornou dono de um bar que respirava e, principalmente, transpirava rock. Márcio Santos, que trabalhou desde 1997, revela que era pessimista em relação ao futuro do Calypso. “Achei que o bar não iria vingar. No entanto, o tempo foi mostrando que o Calypso era, como muitos falavam, a ‘casa do rock’”. Esse título começou a ser construído quando Jean Claude abriu espaço para as bandas Enfim Blues e Black Soul Connection e a sua consolidação veio no ano seguinte, com as temporadas das bandas King Cobra e Cascadura. O Café Calypso é sempre lembrado como um espaço agregador da cena musical, principalmente de rock. “Era a nossa casa. Lá fazíamos o que queríamos”, diz Paulinho Oliveira, músico e ex-guitarrista da Cascadura. O local era o ponto de encontro das pessoas que curtiam a produção roqueira da cidade. Apenas quem realmente era interessado na área musical se submetia aos problemas de estrutura do espaço. Logo, a maior parte dos frequentadores assíduos eram músicos ou tinham relação próxima com eles, como jornalistas e produtores. Por isso, era comum, ao fim do show, a plateia pe-


gar os instrumentos, subir no palco e transformar a noite numa jam session. Esse, inclusive, era um dos diferenciais do lugar: público e banda estarem no mesmo espaço de circulação. “O Calypso desmistificava aquela ideia do músico como intocável”, afirma o produtor e DJ Rogério BigBross. As mesmas pessoas que estavam tocando no palco viam a banda seguinte – existindo uma mão dupla entre ser público e ser artista. O clima sempre amistoso predominava, principalmente porque a maioria dos que circulavam se conhecia, o que fazia dele um lugar ao mesmo tempo de trabalho e lazer, em que as pessoas estavam presentes de terça a domingo. “Era o velho povo do rock que circulava por lá, mas foi ali também que surgiu um novo público, menos homogêneo. Começaram a aparecer as mulheres no rock, inclusive”, completa o jornalista e DJ Luciano Matos. O bar tornou-se trampolim e centro de divulgação para as bandas iniciantes ou já firmadas no cenário roqueiro soteropolitano. Cascadura, brincando de deus, The Dead Billies, The Honkers, Guizzzmo, Jupiterscope, Brinde, Soma, Sangria, Arsene Lupin, SmoothPod, Saci Tric, Lou, Retrofoguetes, Formidável Família Musical e mais uma interminável lista tocou no local. “O Calypso foi importante porque nos proporcionou uma difusão. Conhecemos músicos e isso serviu como laboratório”, afirma Vandex, fundador da Guizzzmo. O espaço conseguiu manter um fôlego para a cena alternativa em um momento que as bandas precisavam de

um ponto de referência, independente da sua estrutura. As apresentações eram democráticas, fosse banda cover ou autoral. Era possível ter a King Cobra – cover de clássicos do rock – aos sábados e Cascadura – autoral – no dia seguinte, ambos com lotação máxima. “Tinha cover, mas não precisava ser cover para tocar no Calypso”, frisa Vandex. Apesar da King Cobra ter feito longas temporadas, o bar foi considerado um dos principais pioneiros na difusão de material autoral. “Era bem mesclado, mas longe de ser uma casa majoritariamente de covers. Com tanta coisa legal na cidade, um bar só de banda cover era uma burrice sem tamanho. Jean valorizava a cena”, afirma Luciano Matos. Jean Claude tinha uma preocupação em dar espaço também para bandas novas e sempre que uma delas apresentava um bom CD de demonstração – mais conhecido como demo – ele marcava um show. “No começo eu colocava na programação do mês, só que depois eu percebi que precisava de um teste antes, porque acontecia de uma banda entregar uma demo boa, e ao vivo falhar”, afirma. Outra iniciativa para fomentar e incentivar a renovação das bandas foi a realização do Troféu Heineken. Fruto de uma parceria do bar com a filial nordestida da cervejaria holandesa – que implicou na mudança do nome Café Calypso para Calypso Heineken Station –, o evento tinha um formato de competição. Em cada eliminatória, duas bandas disputavam entre si uma vaga para as próximas etapas, sob

Rogério BigBross: produtor e DJ

Mauro YBarros: designer e baixista da Black Soul Connection

Luciano Matos: jornalista e DJ

Vandex: fundador da Guizzmo

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a avaliação de um júri formado por produtores, jornalistas e músicos. A premiação foi a gravação de uma coletânea com músicas das três melhores bandas. A divulgação de todos os eventos se dava basicamente por meio de cartazes no Rio Vermelho, panfletos e releases para a imprensa, além do bom e velho boca a boca. Essas poucas ferramentas, graças ao engajamento do público, já proporcionavam lotação. Panfletos eram impressos em menor quantidade, pois o tamanho do local não justificava uma grande panfletagem.

Bom para brincar O Calypso nunca foi o melhor lugar para tocar. Tinha problemas de infraestrutura, instalação elétrica e sonorização, o que acabou implicando em um descompasso para a profissionalização das bandas. “Achar aquilo o horizonte da produção musical era bem problemático”, diz Messias Bandeira, vocalista da banda brincando de deus. “No entanto, era o possível naquele momento enquanto casa noturna”, completa. O espaço era um ponto de encontro social, onde muitos iam para ver as bandas iniciantes e tocar “de brincadeira”. “Todo mundo adorava isso, mas na hora de tocar para trabalhar todo mundo chiava”, diz Paulinho Oliveira. Não havia um palco propriamente dito, muito menos iluminação cênica. “Os músicos cheios de performance não gostavam. Não cabia a banda, que dirá o ego”, diz Mauro YBarros, designer e baixista da Black Soul Connection. Diversas propostas foram feitas para a mudança da estrutura interna, principalmente em relação à posição do palco. Entretanto, surpreendentemente, houve uma grande resistência até mesmo por parte das bandas, argumentando que essa era uma marca do Calypso. A classificação de inferninho não foi à toa. As janelas viviam fechadas e o ar-condicionado estava constantemente em manutenção. Para completar, o ar continha um grande percentual de fumaça oriunda de cigarros e derivados. “Muitos criticavam, mas poucos gastavam dinheiro aqui”, defende-se Jean.

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“Um dos problemas do Calypso era a Sucom”, brinca Nancy Viégas, paulista, vocalista da extinta banda Nancyta e os Grazzers, que se destacou junto com Pitty por representar as mulheres do rock em Salvador. O relacionamento de Jean Claude com os vizinhos era pacífico, apesar de algumas exceções. “O vizinho da frente vendeu a casa por não conseguir fechar o bar”, conta Jean Claude sobre um dos poucos conflitos. A concorrência também era algo que ele tinha que administrar. “Soube, por um ex-funcionário de um bar concorrente, que eles ligavam para a Sucom se passando por vizinhos e reclamavam do barulho”, lamenta.

Uma sexta feira 13 Pensando nos problemas financeiros e em sua saúde, Jean Claude, em 13 de fevereiro de 2004, abre o bar pela última vez – uma sexta-feira 13. “Sete anos e nunca havia sobrado dinheiro, pagávamos os custos pessoais e do bar apenas. Eu acordava, tomava café e já estava na frente do computador trabalhando: cuidando da divulgação e da programação do próximo mês. À noite era até três ou quatro horas da madrugada. Era cansativo”, afirma Jean Claude. No entanto, duas semanas após o fechamento do bar, ele foi reaberto. “Eu


Memorial O espaço serviu de palco para situações e shows marcantes. As apresentações das bandas cariocas Forgotten Boys e Pelvs; Velhas Virgens, de São Paulo; o show do gaúcho Wander Wildner e a gravação de uma parte do DVD “Admirável Vídeo Novo” da baiana Pitty são os exemplos mais recorrentes. Histórias peculiares ocorreram no bar ao longo dos nove anos e ficaram marcadas na memória afetiva dos seus frequentadores. Uma das mais inusitadas envolveu certo jornalista e crítico local que, bêbado, foi expulso do Calypso. Em outra situação, talvez uma das mais embaraçosas, a garçonete, Márcia Santos – irmã do segurança Márcio –, passou por trás do vocalista de uma banda conhecida, o cutucou e em seguida lhe entregou a conta, sinalizando explicitamente que estava na hora do show acabar. A passagem de Cássia Eller, Nando Reis, Nasi, ex-vocalista do IRA, e Ivete Sangalo – prestigiando os irmãos Calasans, que trabalhavam com ela – estão no hall de memórias do bar. “Eu tocava e colocava a cerveja em cima do amplificador. Quando virava, tinham levado a cerveja”, conta Ivan Oliveira, músico e ex-baixista da Cascadura. “Às vezes você ia beber

uma água e quando voltava já tinha uma pessoa cantando no seu lugar”, diz Nancy Viégas. “A fauna noturna de Salvador aparecia no Calypso em gênero, número e grau”, relembra Mauro YBarros. “O dia mais cheio que eu vi aquele Calypso foi no show da Forgotten Boys. As paredes suavam, transpiravam”, relembra Rogério BigBross. “Eu fiquei lá fora ouvindo, pois nem era tão fã da banda, mas lembro de ter visto, assim que o show acabou, três caras branquelos cheio de tatuagens sairem correndo encharcados de suor, parecendo que tinham saído de uma batalha. Eram os músicos da banda que não aguentaram o calor depois que terminaram de tocar”, conta Luciano Matos.

Saudosismo (ou não) O saudosismo do mais autêntico inferninho de Salvador está muito ligado ao cenário que existia na época – cenário este que, atualmente, está enfraquecido pela falta de espaços para bandas com trabalho autoral. “O Calypso representa a cena do final da década de 90, que foi o começo da escassez de público”, afirma Paulinho Oliveira. A nova geração de bandas hoje tem um público que, em sua maioria, não frequentou o Calypso, mas freqüentou bares como a Boomerangue e o World Bar – que se assimilavam ao formato da extinta casa 59.

Banda The Honkers em show no Calypso nos idos de 20 de janeiro de 2003

E MAIS...

PODCAST COM TRECHOS DAS ENTREVISTAS

“O lugar cumpriu seu papel. Talvez faça falta um lugar como o Calypso”, diz Fábio Cascadura, vocalista e fundador da banda que incorporou como sobrenome, referindo-se ao ambiente de amizade e fomento da cena. “Passava longas temporadas sem frequentar, porque cansava encontrar sempre as mesmas pessoas – um problema crônico da night alternativa de Salvador”, afirma Chico Castro Jr., jornalista e frequentador. “Só sentimos falta ou saudade quando algo não é completo. Como foi uma experiência completa, só tenho boas lembranças”, afirma Márcio Santos. “Rock”, “amigos”, “eterno” e “um lugar do caralho” são algumas expressões que foram usadas para se referir ao Calypso. Mesmo com seus problemas estruturais, o bar é lembrado com estima pelos músicos e frequentadores. Assim como o CBGB – clube de música novaiorquino que abrigou shows de bandas como os Ramones – foi fundamental para a formação e propagação do punk rock do final da década de 1970, o Calypso foi fundamental para o rock de Salvador no final dos anos 90. Seria um grande equívoco classificar o espaço como mais um bar com rock na região boêmia de Salvador. O Calypso, mesmo não sendo o melhor lugar para tocar, serviu de referência e foi, durante nove anos, a alternativa para o desenvolvimento da produção local de rock. Welton Araujo/Arquivo Correio

não queria fechar”, argumenta Lourdes Oliveira, ex-esposa e ex-sócia de Jean. Apesar da dificuldade financeira, durante mais dois anos o espaço continuou com a sua programação e seu público fiel. “Theo Filho, um dos sócios da extinta Boomerangue, tentou fazer uma sociedade comigo, mas o Calypso já estava em uma situação financeira instável”, continua. Lourdes lembra que o baterista de uma banda local tocou de forma ensurdecedora, o que implicou na visita da Sucom e em uma multa alta, que o bar não pôde pagar. Foi em novembro de 2006 que o Calypso Heineken Station fechou os portões de seu inferninho.

FOTOS DE ARQUIVO

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Não é proibido fumar Quando a liberdade de uso e de escolha do sujeito norteiam uma estratégia de saúde texto Eduardo Coutinho e Marília Moreira ilustrações Luana Vellame

Encontrar um folheto com indicações de como utilizar drogas, lícitas ou ilícitas, de maneira mais saudável, ainda pode causar espanto em muitas pessoas. Instruções sobre cuidados que envolvem a alimentação durante o uso, os instrumentos utilizados para consumir as substâncias ou a avaliação de sua qualidade e procedência são apenas algumas das ações da Redução de Danos. A prática, que já foi interditada e proibida no país sob acusação de estimular o uso de drogas, foi adotada no ano 2000 pelo Ministério da Saúde como uma estratégia de saúde pública.

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A Redução de Danos (RD) se preocupa em tornar o uso da droga menos nocivo ao indivíduo. Com a atenção voltada à autonomia do sujeito, a RD considera o consumo um direito do usuário e direciona as suas estratégias para o cuidado com a sua saúde. “A ideia é que esse usuário passe a ser visto como sujeito das suas próprias ações”, explica Wilton Valença, antropólogo do Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas Gey Espinheira. A estratégia, por não objetivar necessariamente a abstinência e ir de encontro ao princípio da tolerância zero e da cultura proibicionista, é alvo de críticas morais que consideram, tanto a droga quanto o usuário, males a serem extintos da sociedade. No Brasil, a vida é considerada um bem inalienável e inegociável. Devido a este princípio, o Estado tem o direito de intervir na liberdade de alguém quando este coloca a sua própria vida e a de outros em risco. A maioria dos defensores da Redução de Danos acredita que a “sacralidade” da vida não deve alcançar a liberdade do sujeito. “Se o sistema legal e o sistema de saúde lutam contra a morte até a morte, a Redução de Danos faz uma

mediação entre essa ‘sacralidade’ da vida e a liberdade individual”, explica Antônio Nery Filho, médico psiquiatra e coordenador geral do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad). A prática reconhece, portanto, o direito que as pessoas têm de usar droga, mesmo que muitos ainda acreditem que esse uso, por colocar a vida do usuário em risco, seja condenável. “Algumas pessoas acham que eu sou um defensor das drogas, mas não sou. Eu sou defensor dos direitos que as pessoas têm de usar drogas, afinal, não proponho que as pessoas usem drogas”, afirma. “Que há danos e risco em qualquer uso, sempre há, mas a estratégia existe justamente para que o usuário possa reduzi-los”, complementa.

Drogas, tô fora! A palavra “droga” é estigmatizada socialmente e costuma ser associada ao mal. Na Grécia, o termo utilizado era “fármaco” e significava tanto ve-

neno quanto remédio: a classificação dependia do uso e da dosagem de cada substância. O nome “droga” é mais recente, mas há uma luta para substituí-lo pelo termo “psicoativo”, para que haja a destituição de substâncias ilícitas dessa significação negativa e a introdução daquelas que são consideradas menos prejudiciais no mesmo grupo, a exemplo do álcool. A palavra “psicoativo” é destituída de um julgamento moral e a única significação que possui é a de que provoca alterações no sistema nervoso central, por isso a reivindicação pelo seu uso. Devido a diversos fatores associados ao consumo e ao usuário, a comum distinção das drogas em “leve” e “pesada” é rejeitada pela estratégia. Segundo Nery, se fôssemos seguir essa classificação, o álcool deveria estar entre as substâncias mais pesadas, uma vez que é a que mais causa transtornos físico, mental e social. “É perceptível que o que se chama droga pesada é a droga ilícita. Isso é uma convenção”,

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afirma. Nery, no entanto, faz uma ressalva ao caso da maconha, que é considerada uma droga leve pelo seu baixo potencial de morte e pela baixa probabilidade de causar transtornos mentais e sociais.

O centro das atenções A sombra da ameaça do crack paira tanto sobre a mídia quanto sobre boa parte dos discursos políticos relacionados à segurança pública. O crack é uma mistura de pasta-base de cocaína com substâncias como carbonato de cálcio, ácido clorídrico e amoníaco e é resultado da interrupção do processo de refinamento da cocaína. Por ser uma droga barata e capaz de causar um forte efeito psicoativo, o crack é mais consumido por pessoas em situação de abandono social. Mesmo com a ausência de pesquisas indicativas do número de usuários de crack na cidade, a substância tem sido protagonista de afirmações que relacionam o uso de drogas aos índices de criminalidade. Wilton Valença atribui à mídia a culpa por reforçar alguns preconceitos através de slogans como “Crack: cadeia ou caixão” ou “80% dos homicídios estão ligados ao crack”. Para ele, essas afirmações são falsas e servem apenas a fins políticos. “É

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muito mais fácil dizer que a culpa dos problemas sociais é uma pedra”, afirma. A antropóloga Luana Malheiro, residente do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba, é enfática: “Eu já fiz uma provocação a muitos médicos. Se algum deles puder me mostrar um atestado de óbito com a informação de que a causa da morte foi o crack, eu coloco o meu nome embaixo destas propagandas”. Para ela, os usuários de crack estão morrendo por questões associadas à vulnerabilidade social, aos fatores de risco. “São pessoas que têm tuberculose, tomam chuva, dormem nas ruas, se alimentam mal, têm práticas sexuais de risco, muitos têm HIV, sífilis, e muitos morrem pela ausência de qualquer estrutura de saúde”, afirma Malheiro. No entanto, Nery atenta para o elevado risco de morte oferecido pelo consumo do crack, já que o seu consumo por via respiratória faz com que a quantidade de substância absorvida seja centenas de vezes maior que o uso de cocaína por via nasal, por exemplo.

Trajetória As primeiras medidas de Redução de Danos surgiram na década de 1920, na Inglaterra, quando um grupo de médicos passou a prescrever opiáceos, como morfina e heroína, com o objeti-

vo de auxiliar dependentes químicos a lidarem com as síndromes de abstinência. Na Holanda, durante os anos 80, a RD surge como uma estratégia de combate à transmissão de doenças como Aids e Hepatite B entre usuários de drogas injetáveis. No Brasil, a primeira tentativa ocorreu em 1989, e foi levada adiante pela prefeitura de Santos, em São Paulo, com objetivo de controlar a epidemia

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É muito mais fácil dizer que a culpa dos problemas sociais é uma droga, é uma pedra

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Wilton Valença da Aids entre os usuários de drogas injetáveis. Sob acusação de estimular o consumo de substâncias ilícitas, a experiência de Santos em pouco tempo foi interrompida por ordem judicial e o primeiro Programa de Redução de Danos do país só foi criado seis anos depois, em 1995, no Cetad, em Salvador. O professor e coordenador geral da Aliança de Redução de Danos Fátima Cavalcanti (ARD-FC), Tarcísio Andrade, que esteve à frente da implementação das estratégias de RD enquanto trabalhava no Cetad, afirma que as intervenções em rua superaram as expectativas. “No começo nós tínhamos 58% das pessoas que usavam drogas injetáveis infectadas com o vírus HIV e, alguns anos depois, essa taxa era de 7,1%”, conta Tarcísio. “Nos anos seguintes, o governo brasileiro começou a olhar a experiência da Bahia. Diante disto e da criação de novos grupos de redutores de danos em estados como o Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, o Ministério da Saúde adotou, em 2000, a Redução de Danos como uma prática de saúde do Brasil”, complementa Nery. Apesar de o Ministério da Saúde ter adotado a estratégia da Redução de Danos, foi apenas em 2006 que a lei brasileira relacionada ao usuário e/ou dependente de drogas (11.343/2006) deixou de prever a pena de prisão (art. 28). Diante deste cenário,


outra menos nociva, a exemplo da utilização da maconha em lugar do crack. “Se você oferece um pouco de maconha a uma pessoa que fuma dez pedras de crack por dia e ela reduz o consumo para cinco pedras, estão sendo reduzidos os danos”, explica Nery.

A rua

os profissionais têm trabalhado numa linha muito tênue entre a legalidade e a ilegalidade. “Os redutores de danos chegam às ruas e dão uma seringa para uma pessoa usar uma droga que é proibida”, diz Nery. Para ele, a posição ética dos profissionais de saúde é a de que não estão estimulando a ilegalidade, mas protegendo a vida de pessoas que estão na ilicitude. “Não somos policiais, por isso não nos cabe julgar as pessoas, mas sim proteger suas vidas”, compara. No entanto, Nery aponta para a fragilidade dessa fronteira entre vida e morte. “Você protege a vida quando dá uma seringa limpa, mas, ao usar a droga a morte está perto do usuário”, conclui. O estado ilegal das drogas impede que algumas ações de RD, como a estratégia de substituição das substâncias, aconteçam no Brasil. A ação consiste na diminuição ou substituição do uso de uma substância psicoativa por

Hoje, no país, as práticas de RD são adotadas por órgãos públicos de saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas (Caps-AD), além de estarem presentes em ONGs e em projetos de extensão universitária. Em Salvador, a estratégia é utilizada nos dois Caps-AD, situados nos bairros de Pirajá e Pernambués, além do Cetad e da Aliança de Redução de Danos Fátima Cavalcanti (ARD-FC), serviços pertencentes à Faculdade de Medicina da Ufba. Os Caps funcionam como uma instituição de portas abertas, onde o usuário é acompanhado por uma equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos e assistentes sociais. O bom desempenho do tratamento depende em grande parte do próprio usuário, já que é ele quem vai até o serviço por conta própria. A Redução de Danos pode estar presente ainda em festas de música eletrônica. Em Salvador, o Coletivo Balance assiste a usuários de drogas como êcstasy e LSD nestes tipos de festa dando orientações sobre o uso e testando a composição das substâncias. No entanto, a maior parte da população assistida pela Redução de Danos é moradora ou está em situação de rua,

e é nesse espaço que se concretizam a maior parte de ações. Tarcísio Andrade, coordenador da ARD-FC, afirma que o contato com os usuários de drogas nas ruas do centro histórico de Salvador, antes mesmo da implementação efetiva do programa de RD, permitiu que fosse conhecida uma realidade que, em muitos aspectos, contestava o imaginário popular. “Existiam crenças de que os usuários de drogas queriam mesmo morrer ou de que o compartilhamento de seringas entre eles estava relacionado a um pacto de sangue”, lembra. As experiências deram origem a pesquisas que, segundo Andrade, comprovaram que os usuários compartilhavam as seringas apenas por uma questão circunstancial, já que priorizavam a compra da droga. “As pessoas usam drogas numa tentativa de sobreviver, cada uma a sua maneira. O uso é sempre uma tentativa de sobrevivência psíquica, de enfrentar a vida, de tocar as coisas adiante, embora, às vezes,

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Você protege a vida quando dá uma seringa limpa, mas, ao usar a droga, a morte está perto do usuário

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Antônio Nery com consequências muito negativas”, explica Andrade. Hoje, as ações em campo pela ARD-FC cobrem as áreas como o Comércio, Gravatá, Praça da Sé, Pelourinho. Como o número de usuários de drogas injetáveis é praticamente inexistente, são distribuídos apenas preservativos. Na rua, o encontro entre redutores e usuários pouco parece uma visita de profissionais de saúde: entre orientações sobre uso, como indicação do papel mais apropriado para enrolar a maconha ou advertências para que nunca sejam compartilhados cachimbos de crack, são comuns piadas, histórias, gargalhadas e abraços. “Nós criamos um vínculo forte com o usuário e é a partir desse vínculo que ele se sente a vontade para falar sobre o seu uso, a sua vida. A relação é muito tranquila, os usuários recebem a gente muito

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pessoa que vá ao N.A. passa pelos 12 passos, herdados da teoria cognitiva comportamental e com forte cunho religioso, que se centra na culpa, na autopunição”. Para Luana, esse modelo não se preocupa com as particularidades do uso e do usuário. “Se você for usuário de crack, de álcool ou de maconha você vai usar os 12 passos e dessa forma o sujeito é achatado e a droga é considerada de forma uniforme”.

Feios, sujos e malvados

bem”, conta Beatriz Vianna, estudante de psicologia e redutora de danos da ARD-FC. Porém, o clima nem sempre é de tranquilidade. O trabalho nas áreas de tráfico pode, a qualquer momento, converter-se em insegurança. “O perigo maior é a polícia chegar. Ela chega nesses lugares de uma forma violenta, porque sabe que aquelas são pessoas desassistidas. No entanto, o risco quase nunca vem do usuário”, reforça Beatriz. O Cetad, que foi o pioneiro nas ações de campo através do conceito de consultório de rua – em que uma equipe multidisciplinar, com o suporte de um ambulatório móvel, presta atendimento aos usuários nos próprios locais de uso –, passou alguns anos sem realizar intervenções por falta de recursos e, em 2010, retomou as atividades. Segundo Tarcísio Andrade, o sucesso das intervenções em rua depende, em grande medida, da postura do redutor de danos. “Quando o profissional de saúde vai às ruas, ele tem que abandonar a tradição verticalizada, onde se diz ao indivíduo o que é bom, que remédio tomar, que dieta seguir, aonde se dirigir”. Para o médico, o redutor de danos deve deixar os seus valores em stand by para aprender com usuário e, junto com ele, construir um conhecimento.

Outros tratamentos

Há várias instituições de saúde que cuidam de usuários de drogas, mas que não concordam com a prática da Redução de Danos. O professor Antônio Nery dá o exemplo das comunidades terapêuticas evangélicas que não aceitam a troca de seringas. Também as comunidades católicas, que não aceitam a distribuição de preservativos. A Vila Serena, instituição privada de Salvador, que se baseia nos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos (programa criado nos EUA, caracterizado pela doutrinação religiosa e que leva em conta a percepção do sujeito enquanto impotente diante da droga), reconhece a prática de RD, mas não tem uma intervenção terapêutica baseada nessa estratégia. Moema Britto Raquelo, terapeuta da família e assistente social da Vila Serena Bahia, explica que todo o tratamento da clínica é baseado no modelo Minnesota, o qual compreende que a dependência química é uma doença crônica, progressiva, fatal, mas que tem controle e visa tratá-la em uma terapia de grupo. Apesar desses exemplos, Nery vê o Brasil muito mais do lado da Redução de Danos que contra ela (como acontece nos EUA que segue o princípio da tolerância zero). Luana Malheiro considera o modelo dos Narcóticos Anônimos (N.A.) restritivo, apesar de reconhecer que funciona para algumas pessoas. “Qualquer

E MAIS...

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TEXTO

A VIVÊNCIA DOS REPÓRTERES EM UM DIA DE REDUÇÃO DE DANOS

PODCAST

COM TRECHOS DA ENTREVISTA DE ANTÔNIO NERY

“Quantas vezes eu tive de sair daqui de madrugada, pegar um táxi para levar algum colega no hospital e, chegando lá, negarem atendimento?” A pergunta é feita de forma indignada por Roque*, morador da Praça Marechal Deodoro (Praça das Mãos), no bairro do Comércio e é reveladora de como os centros de saúde e grandes hospitais lidam com os usuários de drogas e moradores de rua. Acostumado a ouvir “não”, Roque não se acomoda com a resposta. “A gente tem que lutar pelo que é nosso de direito”, diz. Como a droga ainda está muito associada à criminalidade e à marginalidade, muitos profissionais de saúde ainda têm receio de prestar atendimento a estes usuários tanto em centros de saúde voltados para atenção básica, quanto nos hospitais de média e alta complexidade. Segundo Luana Malheiro, isso ocorre, entre outros motivos, devido ao fato de que a maioria dos usuários, sobretudo de crack, se encontram em situação de vulnerabilidade social e procuram atendimento com um aspecto muito sujo. “O cheiro, o jeito, o aspecto destes usuários incomoda. Os profissionais de saúde querem o usuário limpinho”, opina. A denominação “viciado”, geralmente associada aos usuários de drogas ilícitas, é mais um rótulo que acaba por violar muitos direitos dos indivíduos. “É justo que uma pessoa que toma remédio todas as noites para dormir não seja considerada viciada e uma pessoa que usa um cigarro de maconha todo final de semana seja nomeada desta forma? Um a gente chama de viciado e outro de paciente!”, ironiza Antônio Nery. *Nome fictício


o lado

B

do

Sob o pseudônimo de Duda Rangel está um marido inconformado pela perda da mulher, desolado pela iminente perda da guarda do cão Nestor. Ele é um jornalista desiludido pelo desemprego que bateu à porta mais cedo do que o esperado. Essas e outras frustrações foram transformadas por Duda no desilusõesperdidas.blogspot.com em postagens cheias de humor, de ironia e, porque não, de ficção. Apesar de muita gente acreditar que é um homem de carne e osso, na verdade, ele é uma criação de dois amigos jornalistas que preferem o anonimato. Eu, Macaquicha, a mascote da Fraude, conversei com Duda sobre o blog, jornalismo e outras desilusões. Ilusões Perdidas, de Balzac, romance que inspirou o nome do blog, é considerado um retrato duro e magnífico de uma sociedade que engole os fracos, atropela os ingênuos e destrói os sonhos dos idealistas. O blog Desilusões Perdidas também é?

Jornalismo texto Macaquicha* ilustração Oliver Dórea Como você reagiu à queda da obrigatoriedade do diploma? Pensou em aprender truques da cozinha após ver o Ministro comparar seu trabalho à culinária? Num primeiro momento, minha grande dúvida foi descobrir o que fazer com o meu diploma. Forrar a gaiola do passarinho ou o chão para o xixi do cachorro? Apesar de sempre xingar o Gilmar Mendes, sei que diploma não é tudo. Tem muito jornalista diplomado por aí que não sabe o que é jornalismo.

Seu blog é muito visitado, mas não há nenhuma publicidade nele. Você fez um voto de pobreza? Fiz voto de pobreza quando entrei na faculdade de jornalismo (risos). Minha idéia com o blog nunca foi ganhar dinheiro, mas ter um espaço com liberdade para publicar os meus textos. Não descarto no futuro ter publicidade, desde que isso não interfira no conteúdo.

Você deseja ainda ganhar prêmios com o jornalismo?

Com as ameaças de fim do mundo, sempre é bom se perguntar qual será a próxima vítima. O Desilusões Perdidas está na lista?

Se ganhar prêmio pagasse minhas contas, gostaria de ganhar um por mês (risos). Não sou contra prêmios, sou contra os jornalistas que são escravos de premiações.

O blog segue firme e forte. Pretendo até lançar, em breve, um livro. Porém, para responder esta pergunta com 100% de certeza, teria que consultar mãe Dinah. Todo jornalista sabe que seu ofício é cortar e trocar palavras. Como você reagirá às edições que a equipe da Fraude fará em suas respostas?

Não pretendo destruir o sonho dos idealistas, mas mostrar que o jornalismo não é feito apenas de glamour. Na blogosfera, discute-se muito o fazer jornalístico, o que é publicado na imprensa, mas quase nada da vida do profissional.

De verdade, não tenho nada contra mexerem no meu texto. Só ficarei bravo se vocês deixarem uma vírgula separando o sujeito do predicado numa frase (risos).

O que motiva você a escrever no blog Desilusões Perdidas? A idéia (ainda não adotei a nova ortografia, apenas por birra) de fazer o blog surgiu como uma forma de lutar por minha reconstrução pessoal. Fui abandonado pela minha mulher e perdi o emprego no jornal. Tentei o suicídio, mas fracassei. Como não tinha dinheiro para fazer terapia, resolvi criar um blog para desabafar. Os terapeutas se deram mal, não ganharam dinheiro comigo.

* por Amana Dultra e Marília Moreira

Você contaria algum off à revista Fraude? Se é off, não posso contar. Sou pobre, corno e desempregado, mas ainda mantenho meus princípios éticos. E MAIS...

TEXTO INÉDITO DE DUDA RANGEL

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Barbie quer ser gente grande texto Amana Dultra fotos Isabela Maranhão produção Breno Costa e Guilherme Souza

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Barbara Millicent Roberts e sua amiga Nikki são as Fraudegirls desta edição. Assim como as modelos que enfeitam as borracharias, Barbie estreia no calendário da mais famosa marca de carrinhos em miniatura. Nesse ensaio sensual, a fotógrafa Isabela Maranhão, monitora do Labfoto/Ufba, brinca de fraudar nosso imaginário infantil. Como sempre, fotos sem Photoshop e modelos sem botox.

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texto Flávia Santana foto Agnes Cajaiba/Labfoto O objetivo dessa primeira edição do Selo Fraude de qualidade é muito claro: descobrir qual é o melhor e mais saboroso arrumadinho de Salvador. É evidente que não foi possível visitar todos os lugares da cidade que servem o prato, mas, de todo modo, houve um cuidado em visitar botecos que estivessem localizados em diferentes regiões e que tivessem características

Selo Fraude

e públicos distintos. De 0 a 10, foram pontuados os melhores (e piores) arrumadinhos da cidade e, como a pessoa que vos escreve não é nem estudante de gastronomia e muito menos chefe de cozinha, os critérios de avaliação adotados estão baseados naquilo que todo mundo observa ao se deparar com um arrumadinho: aparência, quantidade, apreciação culinária do prato (sabor,

qualidade e textura da carne, variedade da salada, textura da farofa) e, por fim, custo-benefício. É possível que muitas pessoas, ao lerem essa matéria, se sintam injustiçadas porque seu arrumadinho favorito não apareceu aqui. Porém, devo lembrá-los que a busca ainda não terminou! Entre no site da Fraude [revistafraude.com] e deixe seu comentário e/ou sugestão!

Central da Lambreta Bar & Restaurante

Caminho de Casa

Quem pensa que a especialidade do Central da Lambreta é frutos do mar está muito enganado. O bar, localizado na Mouraria, tem no seu cardápio uma grande variedade de refeições envolvendo carne vermelha e, entre elas, o arrumadinho. O prato, que demorou apenas doze minutos para ficar pronto, tem um aroma agradável e é muito bem servido. Destaque para a distribuição dos ingredientes: muita farofa (a mais gostosa de todas, diga-se de passagem!); boa quantidade de salada; e pouca quantidade de carne, que foi cortada em pedaços minúsculos e misturada com o feijão para disfarçar.

Não é à toa que o Caminho de Casa está sempre cheio: local agradável e com um cardápio regional de deixar qualquer um com água na boca. Ainda que o custo-benefício seja baixo, já que a quantidade não é compatível com o preço, o arrumadinho do Caminho de Casa é excelente. A carne, cortada em cubos, é extremamente macia; a salada é bonita e tem variedade; o feijão é bem temperado; e, por fim, a farofa é fininha e saborosa – apesar de ocupar metade do prato. Vale muitíssimo à pena!

Local: Rua Tristão Nunes, Mouraria Valor: R$ 25,90 Nota: 8

Local: Rua Anísio Teixeira, Shopping Boulevard, Itaigara. Valor: R$19,50 Nota: 9

Bar & Restaurante 36a

Com mais de quarenta anos de existência, o Bar do Chico está localizado perto da ladeira da Barra. Mesmo sendo bastante frequentado pelos moradores do bairro, o local é prova viva de que nem sempre experiência é sinônimo de qualidade. O arrumadinho é composto por uma pequena quantidade de carne com nervos (além dos pedaços só com gordura!); um feijão que parece que foi cozido na água e sal; uma farofa seca não amanteigada e uma salada que mal tampa os buracos dos dentes. Definitivamente, não recomendo para ninguém.

Sendo um dos principais pontos de encontro de estudantes do bairro na hora do almoço, o Bar 36a, carinhosamente chamado de “36”, oferece uma grande variedade dos famosos “PFs” (pratos feitos). Ninguém tem dúvidas de que o ponto forte do local é o arrumadinho, pois, além de ser o mais pedido pelas mesas vizinhas, o prato apresenta diversas opções de tamanhos, como o mini, grande e super. O arrumadinho, em si, tem pequenos problemas: quase não se vê a cor da salada; o feijão é meio sem graça; a carne é gostosa, apesar dos nervos; e a farofa (que mais parece farinha) é molhada. De todo modo, o gosto caseiro é bastante específico e saboroso e o custo-benefício é muito bom, já que o “super”, por exemplo, serve de quatro a cinco pessoas.

Local: Rua Presidente Kennedy, Barra Valor: R$16,00 Nota: 3

Local: Av. Cardeal da Silva, Federação Valor: R$18,50 (grande) Nota: 7

Bar do Chico

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de Qualidade Malagueta

Bombordo Bar & Restaurante

Localizado no Mercado do Peixe, o Malagueta se destaca pelo bom atendimento e pela simplicidade. O arrumadinho tem um tempero caseiro gostosinho e a quantidade é muito boa (serve de três a quatro pessoas). Além disso, a carne é bem macia e sem nervos; a salada é de boa qualidade; o feijão é bem temperado e cozido; e a farofa é meio sem graça, mas cumpre o seu papel. Acompanhado de uma cerveja bem geladinha, é uma ótima pedida.

Apesar da vista privilegiada da orla da Ribeira, dos garçons simpáticos fantasiados de marinheiros e da limpeza do local, o restaurante Bombordo deixa muito a desejar. O arrumadinho (que de arrumado não tem nada) é um mix de carne de sol passada do ponto; salada verde mal cortada (não tinha nenhum tomate vermelho e os pedaços da cebola eram enormes!) e feijão misturado com uma farofa molhada. Mesmo apresentando um tempero caseiro especial, o arrumadinho do Bombordo não convence.

Local: Largo da Mariquita, Mercado do Peixe, Rio Vermelho Valor: R$20,00 Nota: 8,5

Local: Av. Beira Mar, Ribeira. Valor: R$22,90 Nota: 5

O autêntico arrumadinho do Aconchego da Zuzu

Aconchego da Zuzu O Aconchego da Zuzu surgiu há 12 anos e é administrado pela família da matriarca Zuzu – que faleceu em janeiro de 2011, aos 103 anos. O boteco ganhou bastante fama não só pelo sambinha aos domingos, mas, principalmente, pelos pratos da culinária baiana, como moqueca de peixe, caruru, mariscada e por aí vai. Entre outras delícias, você também pode encontrar o escondidinho de camarão e, claro, o arrumadinho que, por sinal, merece nota quase dez – não fosse pelo preço salgadinho. Em um prato de barro, o arrumadinho tem um cheiro de dar água na boca; a carne parece ter sido cuidadoE MAIS...

FOTOS

DE OUTROS ARRUMADINHOS

samente escolhida, muito macia, sem gordura e cortada em cubos; a farofa é bem soltinha; e a salada é bem variada, colorida e fresquinha. Tudo isso combinado com um tempero muito especial. Ficou com água na boca? Mas não para por aí: o docinho de goiaba fica por conta da casa. Local: Rua Prediliano Pita, nº87, Garcia (fim de linha) Valor: R$22,50 Nota: 9,5

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DIÁRIO GASTRONÔMICO

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A arte chegou lá Os novos contornos da depilação texto Karina Ribeiro e Marília Moreira ilustrações Maribê

Hoje, parece clara a ideia de que a arte é feita para ser publicada, exposta. Não é à toa que quadros, esculturas, espetáculos estão à mostra em galerias, museus e teatros para serem apreciados por todos que desejem. E quando tudo quanto é obra passa a poder ser copiada – e nem os direitos autorais e copyrights conseguem barrar essa proliferação –, isso fica ainda mais fácil e explícito, afinal, aumentaram as ocasiões e lugares em que elas podem aparecer. No entanto, um movimento interessante vem sendo notado, sobretudo, em terras brasileiras. A chamada depilação artística tem permitido o movimento contrário, uma vez que a pintura e o desenho chegaram às partes íntimas.

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Dessa forma, a arte, que adquiriu claramente um caráter público, volta a ser caracterizada pela privacidade da região mais escondida e, ao mesmo tempo, mais procurada do corpo humano. O chamado decote tem adquirido os mais diversos formatos através da técnica de depilação feita com cera e tinta. A remoção dos pelos do corpo é algo que existe há cerca de quatro mil anos. Desde o Egito Antigo, a cera, composta de gordura de animais e breu era utilizada para tal fim. Obviamente, Cleópatra se preocupava com o material que passava sobre o corpo, no entanto, o mais importante era ficar prontinha para César, Marco Antônio e o restante da sua vastidão de amantes. Já na Grécia, o produto era obtido através de um xarope espesso de açúcar e limão que não ia ao fogo. Além de tirar os pelos, esse xarope servia como esfoliante natural.

Da Mata Atlântica ao Pampa No Brasil, a depilação também não é algo novo. A carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal em 1500 revela que as índias desta terra já removiam pelos: "[...] Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelo mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha." Segundo Mônica Mayor, especialista em depilação, ainda que as índias tenham, por natureza, poucos pelos, elas costumavam retirá-los com escama de peixe-lixa. Foi com a chegada maciça dos europeus em território brasileiro que este costume acabou sendo esquecido. Somente a partir do século XIX, as brasileiras voltaram a se preocupar com a depilação, principalmente das pernas e axilas. Buço e barriga ganharam atenção apenas a partir da década de 1950, quando as mulheres passaram a utilizar lâminas com mais frequência. Além disso, “aquele lugar” não chegava a receber maiores cuidados, pois costumava ser pouco aparado e a lateral anal era completamente esquecida. A partir da década de 1980,

as técnicas e produtos de depilação se desenvolveram rapidamente devido à industrialização da maioria dos processos. Hoje é possível se depilar utilizando cera industrial, creme, laser, linha e de muitas outras formas. O ressurgimento da depilação feminina esteve intimamente ligado à moda das minissaias, com a popularização dos biquínis no Brasil e com a publicação do impresso Revista do Homem – atual Playboy – que acabava por indicar tendências e reformular a cultura de ambos os sexos. Não foi à toa que a atriz Cláudia Ohana acabou causando polêmica em 1985 por posar para a Playboy mostrando a Mata Atlântica de uma mulher brasileira. Mesmo tendo passado 23 anos da publicação desse ensaio, a polêmica perdura até hoje. Se por um lado a atriz diz aos quatro ventos que não se lembra de ter ouvido ninguém reclamar na época da quantidade de pelos que ela possuía, em 2008, na publicação do seu segundo ensaio nu para a mesma revista, ela resolveu não arriscar. A chamada depilação “cavada” da região da virilha surgiu no Brasil na década de 1990. A diferença do novo modelo consistia na diminuição do comprimento dos pelos e na sua extensão sobre a área genital, retirando inclusive aqueles localizados na lateral do ânus.

‘‘saradinhas E suas vergonhas tão altas e tão e tão limpinhas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha

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Pero Vaz de Caminha A adesão do público feminino foi permitida a partir do surgimento das mais variadas técnicas e produtos e, também, pelo boom das casas especializadas que começaram no Rio de Janeiro e apenas se fortaleceram na capital baiana há cerca de quatro anos. Mesmo sendo poucos aqueles que conhecem e ainda menor o número dos que aderem à técnica, o seu público é majoritariamente constituído por mulheres jovens, que têm entre 20 e 25 anos. Hoje é possível remover os pelos

com menos dor, com maior segurança em relação à qualidade dos produtos e da assepsia das clínicas estéticas e com maior facilidade diante da crescente oferta de serviços. Caroline Doval, artista plástica formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e especialista em depilação e micropigmentação, considera que o aumento do número de casas especializadas revela uma mudança que ultrapassa questões puramente mercadológicas. “Eu enxergo realmente como uma mudança de pensamento”, comenta. Hoje o hábito é, principalmente, um investimento na beleza.

Marquei um X Como tudo que envolve fantasias sexuais, quem faz ou gosta da depilação artística ainda se sente intimidado em dizê-lo. “As mulheres ainda têm muito medo do julgamento das pessoas, até das próprias amigas”, afirma a personal sexy trainer Fátima Moura, colunista do portal Vila Mulher e autora do livro “Sexo, amor e sedução”. A técnica da depilação artística, que existe há mais de cinco anos, permite a realização de desenhos na púbis a partir da remoção de alguns fios. Podem ser feitos os mais variados formatos – corações, coelhinhos, estrelas, luas, setas – que podem ser tingidos de diversas cores (inclusive, com as mais discretas, como o pink e o amarelo). Além de os pelos servirem como matéria-prima para o desenho, também é comum que os profissionais os retirem totalmente da virilha da cliente para pintar o local com tintas anti-alérgicas. “As pessoas pedem bastante coração, coelhinho da Playboy, mas letra de nome é o que mais encanta as mulheres. Elas fazem questão de colocar a inicial do nome deles”, revela Caroline Doval sobre as preferências de suas clientes. A prova de amor dura cerca de 15 dias, já que o crescimento dos pelos, felizmente, permite a renovação das iniciais. Já as pinturas, quando não são feitas de henna, duram até três dias. “A duração vai depender da intensidade do amor do casal”, brinca Doval. Ou seja, quanto mais inspirador o desenho, menos tempo ele terá de vida. O público masculino, apesar de es-

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E MAIS...

PODCAST ENTREVISTAS SOBRE “DEPILAÇÃO ARTÍSTICA”

tar aderindo cada vez mais à depilação comum, ainda tem uma forte resistência a estampar esta forma de arte no seu corpo. As mulheres são machistas e, por isso, a resistência. “Eu só fiz o desenho em dois homens: em um foi um coração e outro foi a letra inicial do nome do namorado”, comenta Doval. Ainda assim, muitos deles incentivam suas parceiras a fazerem. Para ela, os mais moderninhos que costumam frequentar sexshops à procura de inovações, que buscam coisas diferentes e fetiches, geralmente gostam que suas parceiras façam os desenhos. “Tudo que for novidade ajuda a dar uma apimentada e trazer maior intimidade ao casal”, comenta Fátima Moura. Há ainda os homens que não gostam

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‘‘ Eu gosto de decote artístico, mas ânus artístico não é a minha praia ’’ Caroline Doval deste tipo de depilação e, sabe-se lá por quais motivos, acham engraçado. Doval conta o caso de uma de suas clientes que retornou dizendo que o marido perdeu a concentração na hora H. “Quando ele viu o desenho, na mesma hora arriou e se acabou na risada. Os dois ficaram rindo e não conseguiram fazer mais nada, não tinha mais clima”, recorda.

Nem tudo são flores A diversidade de desenhos é infinita, e segue de acordo com a imaginação de cada um. “Já me pediram uma língua. Na verdade, o desenho de uma boquinha partindo do quadril com a língua descendo, circulando, circu-

lando, até chegar lá. Foi a coisa mais inusitada que já fiz”, conta Caroline Doval rindo. Ela afirma que já recebeu proposta muito mais ousada que essa: “Uma mulher queria fazer uma flor no ânus, com a técnica da micropigmentação. Isso para que quando ela fizesse sexo anal, o parceiro visse a flor desabrochando. Não aceitei fazer isso: eu gosto de decote artístico, mas ânus artístico não é a minha praia”. Entretanto, nem sempre é preciso arriscar tanto para inovar: tintas coloridas, glitter, tingimento dos pelos, olhinhos, lacinhos, tatuagens de henna, adesivos, letra do nome, coração, interrogação, boca, pegadas, pimentinhas são algumas das possibilidades. Criatividade para isso é o que não falta.


OXE, UAI! Os mineiros do “Quadrinhos Rasos” fraudando músicas com sotaque baiano texto Tais Bichara

Lá pelo início de setembro de 2010, tendo como cenário, provavelmente, mais uma mesa de bar em Belo Horizonte, Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho resolveram criar um blog por conta da (não tão) simples constatação de que “falar que faz quadrinho e fazer esporadicamente não transforma ninguém em quadrinista”, como colocou o próprio Eduardo. Mas quadrinhos sobre o quê? A ideia antiga de criar várias histórias a partir de um mesmo texto, a vontade de exercitar e de entreter, e a inexistência de (pré)conceitos quando o assunto é música – não necessariamente nessa ordem – deram origem, então, ao Quadrinhos Rasos. A dinâmica é simples: um escolhe a música para o outro ilustrar; pode-se usar qualquer trecho e começar de qualquer frase, contanto que não altere a ordem de nenhuma palavra ou frase da letra. No entanto, a regra que torna o trabalho dos dois mineiros diferenciado de fato é: o quadrinho não pode retratar o que a música diz. Experimentações visuais e escolhas narrativas inusitadas fazem com que cada exercício de re-interpretação surpreenda pelo conteúdo e impressione pela qualidade. O “rasos” fica mesmo só para o nome.

E MAIS...

TEXTOS SOBRE SURGIMENTO DO BLOG ENTREVISTAS COMPLETAS

*personagem das tiras “Bufas Danadas”

*personagem de Bill Waterson

Luís Felipe Garoocho

Culpado pelos quadrinhos de números ímpares, Eduardo Damasceno tem 28 anos e nasceu em Formiga, interior de Minas. Apaixonado pela música sertaneja, rejeita a velha história da cara feia acompanhada de “Ah, mas sertanejo de raiz é bom mesmo.” Ele gosta do sertanejo romântico também. Entrou na faculdade de Artes Plásticas, mas percebeu que não queria estar em um pedestal, nem olhar para alguém em um; queria mesmo era fazer entretenimento. Saiu correndo de lá, já que não tinha o Lipão para rir junto com ele das coisas em que ninguém mais via graça. Prefere criar no papel, experimentar materiais, mas finaliza sempre digitalmente, e sempre com softwares livres. Entre romances noir, faroestes e piratas, diz que qualquer ambiente em que falte senso de humor ou no qual as pessoas se levem muito a sério lhe deixa desconfortável. Segundo o Lipão, Duda é o Haroldo*.

Eduardo Damasceno

Culpado pelos quadrinhos de números pares, Luis Felipe Garrocho tem – segundo seus cálculos – 25 anos, nasceu em BH mesmo e está feliz com isso. Autor das tirinhas “Bufas Danadas”, sempre que tenta colorir o que desenha, acha que não vai ficar bom. E também por isso, se sente mais confortável com a linha pura, o grafite e a caneta; o que se reflete na forte presença de P&B em suas produções. Não parece gostar muito de sertanejo, a não ser do sertanejo que existe no Duda. Bill Waterson é sua maior referência e “Calvin e Haroldo” a melhor coisa que já leu em quadrinhos. Tem uma memória comumente chamada de assustadora e isso facilita tanto na hora de escolher a música para o Duda, quanto para trabalhar na própria música. E, claro, na hora de assustar as pessoas também. Segundo o Duda, Lipão é o Melhor Homem*, sempre com uma tira de bacon para salvar o dia.

FRAUDE 2011

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Eduardo Damasceno

FRAUDE 2011


Luís Felipe Garrocho

FRAUDE 2011


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Revista Fraude #9  

Revista de Jornalismo Cultural de Salvador/BA, do grupo Petcom/Ufba