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ANO 9 - Nº 99 - 09 DE JULHO DE 2017 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


A Terra pede paz! Atire a primeira flor!


Sebastião Salgado & Lélia Wanick

FOTO: RICARDO BELIEL

Homenagem do Ano

“A destruição da natureza pode ser revertida.” Inscrições e indicações prorrogadas até

21 de agosto

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EXPEDIENTE

FOTO: JÚLIO HUBNER

YARA TUPYNAMBÁ Flores - Serra do Cipó

Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

REPORTAGEM Juliana Pio e Luciana Morais

ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

EDITORIA DE ARTE André Firmino

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A

COLUNISTAS (*) Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza REVISÃO Gustavo Abreu CAPA Sanakan Firmino DEPARTAMENTO COMERCIAL Sarah Caldeira sarah@souecologico.com

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda. REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte-MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br EDIÇÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br

Igor Santos igor@souecologico.com

(*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com

sou_ecologico revistaecologico EMISSÕES CONTABILIZADAS

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

2,81 tCO2e Julho de 2017

souecologico ecologico


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ÍNDICE

CAPA

AVANÇO DA MINERAÇÃO NA SERRA DO CURRAL REVELA DUAS SURPRESAS: DE UM LADO, A RECUPERAÇÃO AMBIENTAL. DO OUTRO, A AMEAÇA DE RETORNO DA ATIVIDADE.

18 PÁGINAS VERDES O JORNALISTA ANDRÉ TRIGUEIRO FALA À REVISTA ECOLÓGICO SOBRE SEU NOVO LIVRO “CIDADES E SOLUÇÕES”

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TERRA BRASILIS

SEGUNDO O ATLAS DA MATA ATLÂNTICA 2017, 29.075 HECTARES DO BIOMA FORAM DESTRUÍDOS ENTRE 2015 E 2016

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ENSAIO FOTOGRÁFICO A BELEZA FLORIDA DOS IPÊS DE BH SOB AS LENTES DO FOTÓGRAFO MINEIRO JÚLIO TOLEDO

E mais... CARTAS DOS LEITORES 08 CARTA DO EDITOR 10 ECONECTADO 12 GENTE ECOLÓGICA 14 SOU ECOLÓGICO 16 DENÚNCIA 24 ESTADO DE ALERTA 30 ENERGIA LIMPA 36 PREMIAÇÃO 50 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS 69 VOCÊ SABIA? 74 FLORA 76 INSTITUCIONAL 82 MEMÓRIA ILUMINADA 84 NATUREZA MEDICINAL 90

Pág.

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1 IMAGEM DO MÊS

UM GIGANTE NO OCEANO

FOTO: NASA

Um trilhão de toneladas. Esse é o peso do imenso iceberg da plataforma Larsen C que se desprendeu da ponta oeste da Antártida, entre os dias 10 e 12 de julho. Segundo cientistas da Nasa, o bloco de gelo de 5.800 km2 - área 17,5 vezes maior que Belo Horizonte (MG) - estava sendo monitorado há mais de uma década e sua ruptura já era esperada. Segundo estimativas, se todo o gelo de Larsen C derreter, o nível dos mares pode aumentar até 10 cm.

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  07


CARTAS DOS LEITORES

Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

 SUSTENTABILIDADE - ARCOS DE ESPERANÇA Rede de empresas que opera a marca Mc Donald's adere à "carne verde" “A princípio, causou-me até certa estranheza a matéria sobre o Mc Donald's na revista. Para ser ambientalmente correto, principalmente no segmento alimentício, é preciso ir além do básico. Deve-se incentivar a adoção de hábitos sustentáveis e diversificar ainda mais o cardápio com alimentos orgânicos. Mas vejo nessa iniciativa da empresa um passo positivo.” Júlio Castro, via e-mail  MEMÓRIA ILUMINADA - PE. FÁBIO DE MELO Seleção de frases e trechos de artigos mais expressivos do sacerdote católico sobre fé e sustentabilidade

“Padre Fábio é um pensador contemporâneo. Tem uma lucidez incrível. Ele provoca, instiga todos a fazerem o melhor para suas vidas e pelo próximo de forma segura, sem fantasias.” Daniel Braga, via e-mail  MATÉRIA DE CAPA - O IMPEACHMENT NATURAL Matéria aborda as Medidas Provisórias 756 e 758, que ameaçam ceifar quase 600 mil hectares da Amazônia

“O título da reportagem expressa exatamente o que penso que deveria acontecer com políticos que atuam para beneficiar a si próprios e a empresários gananciosos. Quem paga por isso? Quem votou neles. E a natureza, claro.” Ludmilla Couto Vieira, via e-mail “Quem sabe a população brasileira não cria uma forma de fazer com que políticos condenados por crimes contra o país paguem por seus erros fazendo compensação ambiental? Já imaginou? Praticamente teríamos as nossas florestas e os biomas totalmente recuperados.” Luan Freitas, via e-mail “Protejam nossos rios, que estão sendo barbaramente assassinados! Por que não sancionar uma lei obrigando qualquer tipo de propriedade a preservar no mínimo 16 m2 de mata perto deles?” Elza Ferreira, via Google+

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 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - LÂMPADAS LED “Inquestionável a qualidade desse tipo de lâmpada. Deixa a iluminação muito melhor.” Daniele Barbosa, via e-mail EU LEIO “Adoro ler a Ecológico, principalmente os assuntos que nos mostram como podemos efetivamente contribuir para a preservação do meio ambiente. Acompanho a revista há mais de oito anos, ainda quando era um suplemento do Jornal do Brasil. As imagens são belíssimas, principalmente as das seções ‘Ensaio Fotográfico’ e ‘Você Sabia?’. Aguardo ansiosa, a cada lua cheia, a chegada da Ecológico. Ela se tornou leitura obrigatória.” FOTO: ARQUIVO PESSOAL

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FA L E C O N O S C O

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

Juliana Nunes Moreira, psicóloga


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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

O IMPEACHMENT

NATURAL (2)? E

m sua última edição, a Revista Ecológico reportou, como matéria de capa, a histórica união de ambientalistas, indígenas e artistas de todo o planeta e tribos contra duas medidas provisórias (MPs) do Governo Temer que iriam ceifar quase 600 mil hectares da Floresta Amazônica. O que Temer fez, inclusive tuitando para a nossa top model ecológica Gisele Bündchen? Com uma mão esperta, ele vetou ambas as medidas que também ameaçavam os compromissos climáticos assumidos solenemente pelo Brasil no Acordo de Paris. E, com a outra mão, mais esperta ainda, o que ele fez, mais precisamente no último dia 11 de julho, um mês depois de tamanha e derradeira esperança em seu governo? Sancionou outra MP, a de número 759 (cujo relator é o senador Romero Jucá), que ele já trazia na manga, acabando com a proteção de 1,1 milhão de acres da maior floresta tropical ainda de pé na face da Terra. Isso depois de Temer ter, internacionalmente, vendido uma imagem de “protetor da Amazônia”, conforme protesto do ambientalista Diego Casaes, ativista do Movimento Mundial Avaaz, que tem quase 10 milhões de membros no Brasil e uma longa história de luta pela proteção da Grande Floresta: “Os cidadãos do mundo não vão esperar sentados enquanto assistem ao presidente Temer destruir a Amazônia, uma árvore por vez. É revoltante que, para proteger sua própria vida política, Temer esteja disposto a sacrificar tanto e privar todas as gerações futuras da Amazônia. Se seu governo não parar de empurrar leis como essa MP goela abaixo dos brasileiros, um dia teremos que explicar aos nossos netos como deixamos a corrupção também matar a Amazônia”. A taxa de desflorestamento hoje do bioma é a maior dos últimos nove anos. E a MP 759 irá afrouxar a proteção da floresta ainda mais, dando a centenas de milhares de fazendeiros o direito de ocupar áreas de preservação. A preocupação planetária procede. Segundo o deputado federal Edmilson Rodrigues, essa requentada MP vai pôr fim à reforma agrária e legitimar os grileiros: “20 milhões de hectares do bioma amazônico e 40 milhões de hectares 10  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

CAPA da Exame aborda o fim do verde da maior floresta do planeta

do Cerrado brasileiro podem ser devastados juntos”. Segundo os ambientalistas sob convocação novamente da WWF Brasil, já passada também a pressão de doadores internacionais (vide o corte de 50% no apoio financeiro anunciado pela Noruega contra o desmatamento do bioma), este novo projeto de lei do Governo Temer, já chamado de “MP da Grilagem”, foi subscrito por mais de 200 deputados da bancada ruralista. Ele integra um pacote recente de propostas que defendem que a Amazônia seja liberada para mineração e agronegócios em nome do desenvolvimento local. E não pelo desenvolvimento “sustentável” local que é realidade em várias partes do Brasil que dá certo, onde existem mineração e agricultura ambientalmente corretas. Não foi à-toa que a Revista Exame, em sua última edição – “A Amazônia em risco” –, escancarou também na capa a questão, após seus repórteres terem percorrido 1.418 quilômetros para dimensionar esse tamanho retrocesso e impacto na economia brasileira. “A destruição da floresta mais importante do


UÇÃO FOTOS: REPROD

planeta avança num ritmo equivalente a 128 campos de futebol por hora”. Mas deu esperança, em apoio à causa ambiental que hoje é de toda a humanidade, menos dos nossos políticos: “A boa notícia” – afirmou a publicação – “é que dá para reverter o prejuízo”. Isso explica porque, nesta edição a favor de todas as árvores e florestas que ainda restam no planeta, a Ecológico aborda, com chamada de capa, a questão da falta de verde na fábrica da Coca-Cola Femsa em Itabirito, em meio às montanhas devastadas de Minas (vide matéria na página 38). Até hoje, já passados dois anos da sua inauguração, a unidade mineira da marca Coca-Cola (reconhecida e admirada por sua pegada sustentável na Amazônia) não tem uma só árvore na planta industrial. Nem cuida e investe, de forma exemplar, no verde à sua volta. E mesmo assim, anuncia-se como a “fábrica mais verde e sustentável do mundo”. Que verde preterido é esse, mesmo já chamado por todas as religiões de o “símbolo da vida”? A Coca-Cola deveria saber que, como dizia Guimarães Rosa, além de inconfidente e berço do ambientalista

ANUNCIADA como a mais "verde e sustentável" do mundo, a fábrica de Itabirito (MG) não tem árvores

brasileiro, em Minas até “o vento é verde”? É essa a indagação, também com esperança, desta edição. Boa leitura e até a próxima lua cheia! 

Fabiana Rocha, técnica Sebrae Minas

O sonho de Seu Ivair era viver do campo. Sonho que quase abandonou diante das dificuldades. Foi aí que encontrou o Sebrae, e a virada começou. Hoje, se enche de orgulho para falar do seu queijo premiado. É pra isso que o Sebrae Minas trabalha há 45 anos: para que o empreendedorismo ajude a transformar a vida das pessoas.

Seu Ivair, São Roque de Minas

A gente sonha junto 0800 750 0800

sebrae.com.br/minasgerais

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  XX


ECONECTADO

FOTO: DIVULGAÇÃO

“É nosso trabalho proteger nossa Mãe Terra. @ MichelTemer, diga NÃO para reduzir a proteção na Amazônia!”

“Nós usamos 500 milhões de canudos de plástico todos os dias nos Estados Unidos. Alguns acabam indo para o oceano, poluindo-o. Recuse canudos de plástico e ajude a limpar o nosso oceano.”

FOTO: GEOFF LIVINGSTON

@giseleofficial Gisele Bündchen, modelo

FOTO: DIVULGAÇÃO

@adriangrenier - Adrian Grenier, ator e recém-nomeado embaixador da Boa Vontade da ONU Meio Ambiente

Quanto tempo você perde procurando algo em casa? Já pensou em quantos itens você tem e não usa mais? E se pudesse reutilizá-los para ajudar a por as coisas em ordem? O Instagram da @ps.organize reúne dicas simples e descoladas de organização e de reciclagem para todos os gostos e cômodos da casa. Objetos antigos, desenhos das crianças, móveis velhos e itens aparentemente inúteis ganham novas funções: cabides podem ser transformados em porta-retratos; garrafas PET, em porta-joias; cortinas, em portas de closet; e cases de violão em charmosos armários. A página foi criada pela especialista em projetos de organização personalizada Suzana Siqueira e reúne conceitos como DIY (“Do it yourself”, ou “faça você mesmo”), desapego, economia, decoração e bem-estar. Ficou curioso? Siga @ps.organize para acompanhar as novidades!

ECO LINKS Já ouviu falar no “Uber” do agronegócio? A Ulleragro é uma empresa que criou dois aplicativos para celulares (Uller e Uller Maq) que interagem entre si e possibilitam o compartilhamento de máquinas e implementos agrícolas. Baseadas no princípio da economia colaborativa, as ferramentas funcionam como uma plataforma digital em que o produtor rural pode disponibilizar sua máquina para locação ou ainda alugar outras a preços mais acessíveis. De acordo com a diretora de Operações da Ulleragro, Danielle Fonseca, por meio da geolocalização, o aplicativo identifica a máquina agrícola mais próxima de quem deseja alugá-la e classifica os equipamentos em um ranking, conforme a avaliação de quem os utilizou. No momento, o aplicativo ainda é restrito a fornecedores do sul de Minas Gerais, mas já conta com 69 máquinas cadastradas e 200 produtoresfornecedores. Os aplicativos Uller e Uller Maq estão disponíveis para Android no Google Play. Saiba mais: www.ulleragro.com.br

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Eleita democraticamente o cartão de visitas natural de Belo Horizonte, a Serra do Curral foi tema da matéria mais acessada no site da Revista Ecológico em junho. Sob o título “A Serra pede Paz”, a reportagem faz uma análise da polêmica construção do novo e sustentável Hospital de Câncer da Oncomed no lugar dos escombros do ex-Instituto Hilton Rocha. Para saber mais, acesse: goo.gl/GQKZR6

FOTO: RODRIGO QUEIROGA

MAIS ACESSADA “Não vamos esperar Trump, nem ninguém. O futuro do planeta está nas escolhas que fazemos todos os dias.” @WalcyrCarrasco Walcyr Carrasco, dramaturgo

FOTO: DIVULGAÇÃO

INSTAGRAM VERDE

TWITTANDO

FOTO: DIVULGAÇÃO

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“Mais de mil organizações clamam para que se cumpram os Objetivos do Milênio contra a pobreza.” - EL PAÍS09 de junho de 2005

“Número de pessoas em extrema pobreza cai para menos de 10%.” - EL PAÍS05 de outubro de 2015

A WayCarbon completa 10 anos. E, assim como o mundo, vivenciamos grandes transformações. Construir um futuro sustentável é possível! Esse é o objetivo que nos inspira.

www.blog.waycarbon.com


FOTO: DIVULGAÇÃO

GENTE ECOLÓGICA FOTO: HULTON ARCHIVE

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“O que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um ponto no meio entre nada e tudo.”

FOTO: J_SCHÄFER

BLAISE PASCAL, teólogo e matemático francês

“Todo corpo que tem um deserto, tem um olho de água por perto.” “A mulher é um efeito deslumbrante da natureza.”

MARISA MONTE, cantora e compositora, na música "A Primeira Pedra", de 2006

“A ousadia não está apenas nos números. Mas no aprofundamento da gestão sustentável em todos os nossos processos produtivos.”

“Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros.” VOLTAIRE, escritor e filósofo francês 14  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

LUCIENE ARAÚJO, gerente de Responsabilidade Social do Sistema Fiemg, comemorando a marca recorde de 5.287 empresas e 299 municípios regularizados ambientalmente pelo Programa “Minas Sustentável”

FOTO: SEBASTIÃO JACINTO JR.

ARTHUR SCHOPENHAUER, filósofo alemão


CAETANO VELOSO, cantor e compositor, na canção “Nu com a minha música”, de 1981, mas que continua atual

ADÉLIA PRADO, escritora e poetisa

“Licenciamento no Brasil virou guerra ideológica. Não entendo as pessoas serem contra a mineração e ainda andarem de carro, terem suas casas ornamentadas de granito. Querem apreciar a cachoeira, mas com o celular feito de minério de ferro no ouvido.” FERNANDO COURA, presidente do SindiExtra e presidente de honra do Ibram

“A questão do desmatamento ilegal das florestas brasileiras, além de crime ambiental, revela o desperdício e a visão tosca de desenvolvimento, que devem ser banidos.” IZABELLA TEIXEIRA, ex-ministra de Meio Ambiente

FOTO: PAULO DE ARAÚJO

“Só melhoro quando chove.”

FOTO: DIVULGAÇÃO

FOTO: REPRODUÇÃO

DENISE HAMÚ, representante da ONU Meio Ambiente no Brasil

ACHIM STEINER

O ex-diretor da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), ambientalista e economista gaúcho é o novo administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Steiner não é um estranho no ninho da ONU: já foi diretor-executivo da pasta de Meio Ambiente em 2006 e subsecretário-geral. IVANA MOREIRA

A revista Canguru, da jornalista e empreendedora mineira, vem conquistando pais de crianças matriculadas em instituições de educação infantil no país. Depois do sucesso em BH, agora é a vez de Rio e São Paulo (onde a revista é distribuída junto com o jornal “Metro”). Mais que tratar da ecologia humana, a publicação preencheu com sucesso uma lacuna editorial ao produzir conteúdo para ajudar pais a criar filhos melhores para o mundo. JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  15

FOTO: REPRODUÇÃO

Os telhados dos estúdios da maior emissora de televisão do país, em Jacarepaguá, na Cidade Maravilhosa, receberam 1,5 mil painéis de energia solar. Com isso, quase 100% da energia consumida nas instalações virá de fonte renovável. A emissora, vale sublinhar, já tem histórico de adoção de práticas sustentáveis: foi a primeira rede de TV a conquistar a certificação ambiental ISO 14001, iniciativa que garantiu a ela o “Prêmio Hugo Werneck 2011” na categoria “Melhor Empresa”.

FOTO: RAMA

“Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor.”

REDE GLOBO

FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

FOTO: ELZA FIÚZA / AGÊNCIA BRASIL

FOTO: DIVULGAÇÃO

“Até 2050, se continuarmos lidando com a natureza da mesma forma que hoje em dia, teremos mais plástico do que peixes nos mares.”

CRESCENDO


SOU ECOLÓGICO

FOTO: VERONICA MANEVY/IMPRENSA MG

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O GOVERNADOR Fernando Pimentel e o diretor-presidente da Codemig, Marco Antônio Castello Branco, em visita a Itabira: esperança de um futuro mais verde

VISITA EMBLEMÁTICA No último Dia Mundial do Meio Ambiente, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, priorizou sua agenda oficial para conhecer de perto um dos viveiros de mudas do “Projeto Plantando o Futuro”, coordenado pela Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig). Em meio ao verde viçoso das mudas, Pimentel não somente agradeceu o empenho dos viveiristas e demais técnicos da Codemig envolvidos como destacou os avanços reais do projeto. Somente em Itabira, já foi concluído o desenvolvimento de 800 mil mudas de árvores nativas do Cerrado e da Mata Atlântica. Elas irão reflorestar 61 municípios da Serra do Espinhaço, região já declarada pela Unesco como “Reserva Mundial da Biosfera”, beneficiando mais de um milhão de pessoas. “Essas mudas são o nosso futuro”, apontou o governador.

RUBENS MENIN, presidente da MRV

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MRV: EXEMPLO NACIONAL A informação é de José Luiz Esteves, gestor executivo de Segurança, Saúde e Meio Ambiente da MRV Engenharia. A empresa fechou o primeiro semestre de 2017 com mais de 97 mil novas árvores plantadas nas cidades onde atua. Esse número representa 85% da meta de plantio prevista pela construtora para todo o ano, que é de 115 mil mudas. A

região Sul de BH recebeu 22 mil mudas, seguida pelo Rio de Janeiro, com 18 mil. E Ribeirão Preto (SP), com mais de 17 mil. Tais iniciativas, segundo ele, dão sequência ao compromisso público, cidadão e empresarial de Rubens Menin em contribuir com o meio ambiente. E, consequentemente, com a qualidade de vida das mais de 140 cidades brasileiras onde a sua construtora está presente.


Acesse o blog do Hiram:

LAGOA DA PAMPULHA vista do Iate Tênis Clube

FOTO: WEBER COUTINHO

hiramfirmino.blogspot.com

Cultura, história e lazer em 1 dia

As cidades mineiras reservam atrações para o visitante se inspirar e se apaixonar.

A PAMPULHA É AZUL Durante recente seminário sobre Engenharia Sustentável realizado na sede do CREA-MG, na capital mineira, um ambientalista notório se despontou risonho e esperançoso em meio a tantos amantes da natureza ali reunidos. Trata-se do engenheiro Weber Coutinho (foto), ex-gerente de Planejamento e Monitoramento Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de BH, estudioso e lutador implacável pela recuperação da Pampulha. Ex-coordenador do Selo "BH Sustentável" e espécie de leão de chácara ecológico de Marcio Lacerda, ele tinha, em mãos, motivos visíveis para estar feliz: uma série de fotografias impressionantes que tirou, mostrando como já melhorou a qualidade de água da Lagoa: "Isso não é truque, gente. É verdade! É fruto real do trabalho de despoluição enfrentado há anos pelas prefeituras de BH e Contagem, mais a Copasa. É só a gente fazer a nossa parte que a natureza faz o resto".

FOTO: DIVULGAÇÃO

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PÁGINAS VERDES

A PEDADOGIA FOTO: LEANDRO DITTZ

DA ATITUDE

TRIGUEIRO: “Um mundo mais sustentável tem de começar dentro de nós”

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Luciano Lopes

redacao@revistaecologico.com.br

A

humanidade vive um período de extrema ignorância ambiental. Do ponto de vista da preservação da vida na Terra, isso é perturbador: a maioria das pessoas vê que a natureza está sendo destruída, mas aprendeu a aceitar a violência contra os nossos recursos naturais com mera desconsideração intencional. No entanto, essa “comodidade” ingrata, principalmente se você vive em uma cidade, precisa sofrer um revés. Em 2050, segundo estimativas da ONU, 70% da população viverão nas zonas urbanas. No Brasil, a realidade é mais avassaladora: chega a 85%, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Considerando que qualquer solução para a melhoria de vida da população passa pelas cidades, é imperioso que bons exemplos e projetos sejam cada vez mais pensados e replicados mundo afora. O momento de crise implica uma mudança íntima e coletiva de atitude em favor do meio ambiente. São essas experiências transformadoras que se multiplicam nas páginas do novo livro do jornalista André Trigueiro: “Cidades e Soluções – Como Construir uma Sociedade Sustentável”. Inspirada no programa homônimo apresentado na GloboNews há mais de dez anos, a obra também denuncia os riscos de um colapso ecológico global, mas está sempre alicerçada com esperança no ser humano. “A utopia de um mundo melhor e mais justo, onde a sustentabilidade seja o norte magnético da bússola, dependerá basicamente de uma nova cultura urbana. São novos hábitos, comportamentos, estilos de vida e padrões de consumo que devem considerar os limites do planeta e a escassez crescente de recursos naturais não renováveis fundamentais à vida. A boa notícia é que isso não é apenas possível, mas já está acontecendo”, afirma Trigueiro no texto introdutório. Cidades que se transformaram, rios poluídos resgatados, projetos exitosos de eficiência energética, uso sustentável de recursos naturais, modelos de reciclagem de sucesso. Entrevistas com personalidades notáveis na área ambiental, empresarial e científica. Tudo em “Cidades e Soluções” é para inspirar. “O livro traz a pedagogia da atitude”, reforça o jornalista. Confira a entrevista que ele concedeu à Ecológico na última semana fria de junho:


ANDRÉ TRIGUEIRO

Jornalista

O livro não é uma reprodução dos roteiros dos programas? Não. Eles apenas serviram de ponto de partida para alavancar um projeto editorial que surgiu de um projeto jornalístico. Nele, atualizamos dados, incorporamos novos conteúdos, reorganizamos demandas. “Cidades e Soluções” tem o nome do programa, mas ele tem autonomia e traz um pacote de soluções sustentáveis que mudaram para melhor a vida das pessoas. Transformaram o lugar onde elas vivem de uma maneira positiva, reduzindo o desperdício, estabelecendo uma relação inteligente com o meio ambiente em que as comunidades estão inseridas. Que fatores hoje impedem a construção da sociedade sustentável que o livro aponta? Estamos falando de uma mudança de cultura. E cultura não se muda por decreto. Portanto, em diferentes níveis de organização social há perceptíveis reações pontuais à ideia do novo. Por quê? Primeiro, por falta de informação. Segundo, porque se está contrariando interesses. Vamos pegar o exemplo de Belo Horizonte: ela aparece no livro como

a capital brasileira dos coletores solares. O que seria contrariar interesses nesse contexto? Que os coletores vão encarecer a construção. Então, quem só está preocupado com o custo de construir alega que isso deixa a obra mais cara. Mas se incorporá-lo na conta do usuário, seja um edifício comercial ou residencial, o retorno vem em dois ou três anos e você começa a consumir água quente sem gastar como antes. Isso é extremamente vantajoso. Mas não está na contabilidade da empreiteira, da construtora ou da incorporadora. Isso é diferente em BH? Na capital mineira, já é cultura: está na consciência de quem vai comprar imóvel na planta per-

guntar se o empreendimento tem coletor solar. Fora de BH, as construtoras sabem que essa solução existe, mas não a aplicam por uma questão de comodidade no curto prazo. Isso é crime de lesa-cidade. É algo que afronta o bom senso. Falando de educação ambiental, o Brasil já encontrou um jeito certo de ensinar sustentabilidade? Não, embora eu reconheça avanços nas escolas públicas e privadas. A garotada hoje tem muito acesso a informações na área de resíduos sólidos, reciclagem, reaproveitamento de materiais ou sobre a importância de usar com inteligência a água, que é um recurso escasso e precisa ser FOTO: DIVULGAÇÃO

Como surgiu a ideia de escrever o livro? Comentei com minha esposa, Cláudia Guimarães, que o programa “Cidades e Soluções” estava completando dez anos no ar, com mais de 400 edições exibidas, e ela me disse: “Isso tem que virar livro”. Cláudia é jornalista e, então, me senti muito acolhido. Acabou sendo uma relação matrimonial que se confundiu com profissional: ela participou ativamente da confecção da obra, editando e sugerindo novos textos e realizando pesquisas.

O NOVO livro é uma vitrine de soluções, rumo e perspectiva para as pessoas

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JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  19


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PÁGINAS VERDES

De que forma isso pode ser trabalhado nas escolas? O que seria a água abordada de forma transversal? O professor de história mostrar lugares no mundo onde a disputa por água justificou conflitos ou guerras diplomáticas. O de geografia, como as características geográficas da água são desiguais no planeta e como certas culturas se estabeleceram geograficamente próximas de mananciais ou nascentes. O de matemática pode ensinar como fazer uma conta em metro cúbico, a medir a força da água a partir de regras e formas de cálculo que vão emprestar sentido, como a eletricidade, a construção de barragens, a maneira como se canaliza leito de rio, se pensa estocagem e uso de água. E por aí vai. Falta então reforçar mais a abordagem e os debates sobre temas ambientais no âmbito escolar? Sim. Quer um exemplo? Falar muito sobre a reciclagem de lixo em sala de aula não resolve o problema do debate ausente sobre consumismo. Se você educa a pessoa para fazer reciclagem ou reaproveitamento de materiais em uma escola, mas não insere no conteúdo a questão do consumo consciente, que está intrinsecamente ligada à geração de resíduos, não adianta. Como serei zeloso com o que estou descartando se não sou cuidadoso na hora de consumir? Como me 20  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

FOTO: DOLLARPHOTOCLUB

um bem valorizado. Mas não me parece que as instituições de ensino estejam majoritariamente aplicando tudo aquilo que está inserido nos parâmetros curriculares do Ministério da Educação (MEC), onde a sustentabilidade é entendida como um dos conteúdos transversais.

“É possível fazer jornalismo ancorado em notícia boa. Naquilo que funciona, resolve, modifica para melhor as pessoas e as coisas.” posiciono como consumidor em um mundo que vive uma crise ambiental sem precedentes? Que cidade brasileira vem conseguindo encontrar soluções ambientais que efetivamente se traduziram em mais qualidade de vida para a população? São Paulo. A única megacidade do país, a meu ver, que na gestão municipal passada deu passos importantes e consistentes para estabelecer novas rotinas ou diretrizes na busca de um modelo sustentável de gestão. Isso aconteceu quando a prefeitura abriu caminho para as bicicletas na cidade, que é ostensivamente motorizada. Quando inaugurou duas usinas mecanizadas de reciclagem de resíduos contratando cooperativas de catadores para participar da triagem dos materiais, acelerando um processo sustentável na cidade que mais gera e consome lixo no Brasil. Quando começou a implantar faixas seletivas para ônibus e reduziu a velocidade nas marginais, comprovando o

impacto da redução de mortalidade com números. E ainda proibiu sacos plásticos, com políticas públicas para regular a demanda, instituindo a coleta seletiva. São exemplos de como a maior e mais caótica cidade do Brasil, no sentido da conurbação, de verticalização urbana, tudo junto e misturado, teve a iniciativa de usar o poder público como propagador de iniciativas que remetem a uma nova cultura. Há mérito nisso, porque é a nossa maior metrópole e a mais desafiadora do ponto de vista de gestão de qualquer coisa. Fora do Brasil, Freiborg, na Alemanha, é um grande exemplo internacional de cidade sustentável. Berlim está no mesmo caminho? Berlim foi toda recauchutada depois da guerra. Os alemães conseguiram combinar uma cultura centrada no pragmatismo com a precisão germânica de “missão dada é missão cumprida”. O fato de serem craques nas ciências exatas, principalmente a engenharia, contribuiu para isso. Eles se levantaram por duas vezes, depois de duas guerras que perderam. O contexto brasileiro é completamente diferente, pois ainda se remete àquela questão de “paraíso de recursos abundantes e infinitos na Terra”, como se em seu radar não houvesse a palavra “crise”. Enquanto estou conversando com você, Brasília experimenta o primeiro racionamento de água da sua história. O Nordeste, a pior estiagem em 100 anos - e historiadores já afirmam que é a seca mais severa de todos os tempos. E só fazem apenas três anos que passamos pela falta d’água mais devastadora de São Paulo, que obrigou o paulistano a sentir o gosto do volume morto. Estamos no país mais rico do


ANDRÉ TRIGUEIRO

Jornalista

mundo em recursos naturais, inclusive de água! E que vai sediar o Fórum Mundial das Águas ano que vem! Exatamente. Não há lugar melhor para isso acontecer. O nosso aprendizado está sendo pela dor. É só pensar, por exemplo, na Bacia do Rio Doce. Ela só tem valor e importância depois que morre. Ela sempre foi o vazadouro de rejeitos de minério, das cidades sem saneamento. Na história do Rio Doce, os movimentos em favor da sua resilência eram pontuais e pouco significativos. Agora, tudo mudou. Então a pedagogia do planeta Terra é mesmo a dor? É. E o livro traz a pedagogia da atitude. Não estou dizendo que perdemos tempo com os projetos, protótipos e utopias passadas. “Cidades e Soluções” foca naquilo que, de fato, já transformou realidades. Compartilhamos informação relevante, porque ela traz como riqueza o resultado. Voltando no Rio Doce, falamos no livro sobre projetos muito bem resolvidos de fabricação de tijolos a partir de rejeito de minério de ferro desenvolvidos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que foram oferecidos às mineradoras e elas desprezaram. No trecho que abordamos o maior desastre ambiental do Brasil, fizemos questão de afirmar que há utilidade e serventia para o rejeito de minério, que não deveria ser visto como algo que não tem

outra destinação a não ser a de ocupar progressivamente um reservatório. Não faz sentido. É bizarro e constrange a inteligência de quem deveria ter a solução como saída. E há solução para o lixo, o esgoto e, principalmente, para os rejeitos de mineração. Chico Xavier dizia que “toda crise é fonte sublime de espírito renovador para os que

sabem ter esperança”. É nos momentos de crise que as soluções se tornam mais urgentes e valiosas. Este é o momento certo para frisarmos isso. Os 10 anos do programa “Cidades e Soluções” foram celebrados em 2016, mas quis o destino que o lançássemos em 05 de junho de 2017, no “Dia Mundial do Meio Ambiente”. E em plena segunda-feira, dia de exibição do programa na GloboNews. No auge de uma crise política horrorosa, um momento econômico devastador para os brasileiros, em que todos estão prostrados, perplexos e irritados. E com razão.

Como a espiritualidade influencia no seu trabalho com meio ambiente? Não é só no trabalho com ecologia. Tanto este novo livro quanto o anterior, “Viver é a Melhor Opção”, têm a ver com vida. Estamos falando de defesa, de proteção, de exaltá-la como patrimônio que merece atenção e reclama atitude. Seja no microcosmo de um indivíduo seja no macrocosmo de uma civilização, prestemos atenção no que estamos fazendo. A espiritualidade para mim é fonte de muita inspiração por conta desse comprometimento na defesa da vida, nas suas diferentes resoluções. Inclusive, este é o quarto livro que lançamos em que os direitos autorais são destinados para o Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que atua voluntária e gratuitamente no apoio emocional e na prevenção do suicídio. Este novo livro traduz o seu trabalho jornalístico em qual sentimento? De perceber o mundo como um lugar em que a gente está de passagem, e essa transitoriedade implica uma responsabilidade no uso do tempo. E por isso temos de fazer o que está ao nosso alcance para transformar o mundo em um lugar melhor e mais justo. Isso é muito espiritual e fora do quadrante linear espaço-tempo que vivemos. O norte magnético da minha bússola está apontando nessa direção, sem nenhum conteúdo proselitista. Não estou

2

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  21


1

PÁGINAS VERDES

ANDRÉ TRIGUEIRO

Jornalista

O programa na GloboNews completou uma década em 2016. Qual o balanço você faz desse tempo no ar? “Cidades e Soluções” foi o primeiro programa da televisão brasileira, seja aberta seja por assinatura, a compensar carbono emitido. Construímos uma trajetória bacana sobre como realizar um trabalho jornalístico sem se escorar em notícia ruim, de violência, de guerra... Os 24 prêmios que o programa conquistou sugerem isso: é possível fazer jornalismo ancorado em notícia boa! Naquilo que funciona, resolve, modifica para melhor as coisas e as pessoas.

FOTO: FRED LOUREIRO / SECOM ES

tentando converter ninguém ou pedindo que pensem como eu. Na minha vida, a espiritualidade é uma oportunidade de realizar um trabalho útil para alguém. E o jornalismo só faz sentido se for assim.

“O nosso aprendizado continua sendo pela dor. É só pensarmos, por exemplo, na Bacia do Rio Doce. Ela só tem valor e importância depois que morre.” No início do programa, o primeiro prêmio que ganhamos foi de R$ 10 mil. Em uma sugestão que o grupo todo acatou, investi-

mos o dinheiro em uma pós-graduação em Gestão Ambiental, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para uma colega nossa, que foi muito importante na largada do projeto. E ela fez o curso, para assim termos na Redação mais massa crítica, mais gente ajudando a qualificar pauta. Tudo isso é espiritual. Não podemos falar de solução se nós não praticarmos isso da porta para dentro. Se você não está fazendo aquilo que não defende como certo, e ficar nessa hipocrisia do discurso com a prática, em algum momento a máscara cai. Temos de passar a verdade. Estamos falando de um mundo mais sustentável, e isso tem de começar dentro de nós.  SAIBA MAIS

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Toda Lua Cheia

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Revista_ecologico.pdf 1 28/02/2014 15:02:37

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1 DENÚNCIA

A SUA MAIOR e única “área verde” na planta industrial também será árida um dia. O gramado atual está reservado para a futura expansão da fábrica

A Coca-Cola mais sem

VERDE DO MUNDO Dois anos após sua implantação em Itabirito (MG), a “fábrica mais verde e sustentável do Sistema Coca-Cola Femsa do planeta” ainda não faz jus ao que anuncia. Paisagismo zero. Não tem árvores nem passarinho Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

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o dia 11 de junho de 2015, a Femsa Brasil, maior franquia e engarrafadora privada de bebidas da marca Coca-Cola no planeta, inaugurou a sua anunciada “fábrica mais verde do Sistema Coca-Cola no mundo”. Mais: “Uma fábrica de bebidas entre as mais modernas e sustentáveis, a qual representa

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um marco em respeito ao meio ambiente, tecnologia e produtividade”. Foi no distrito industrial de Itabirito (MG), a 55 km da capital mineira, às margens da BR040, saída lindissimamente montanhosa para o Rio de Janeiro. A inauguração, com toda pompa empresarial, circunstância política e esperança ecológica, foi

precedida de uma forte suspeição e reação dos ambientalistas. Sob a liderança da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), eles queriam saber se a Femsa também tinha tratado previamente com o poder local, via prefeitura e Governo do Estado, ações para evitar a ocupação imobiliária e o adensamento caótico


que a nova fábrica iria atrair, em proporção geométrica na região, além dos empregos e impostos. Preocupação solitária. Não houve diálogo nem planejamento suficientes, muito menos atuação parceira dos órgãos ambientais nesse sentido. Em se tratando de um investimento da ordem de US$ 258 milhões no município e arredores, o empreendimento foi licenciado com mais ações de mitigação (diminuição do impacto ambiental) do que de compensações sociais e ambientais (para preservação da fauna e da flora) ao seu redor. Sem essas críticas, ainda nos bastidores, mas com esperança, a Revista Ecológico também registrou a inauguração da nova e maior “fábrica verde do mundo”, a exemplo da maioria dos veículos de comunicação. Pelo menos a maquete do empreendimento prometia isso.

FOTOS: ECOLÓGICO

FOTO: DIVULGAÇÃO

DESECOLOGIA humana: não há sombra para seus funcionários e visitantes...

... nem bancos para descansarem, em meio à desolação e o calor

DECEPÇÃO VERDE Há um ano, a Ecológico recebeu um convite da Femsa Itabirito para conhecer a fábrica já em franca e exitosa operação. Afinal, tratava-se da planta industrial mexicana mais eficiente do Sistema Coca-Cola, utilizando 1,45 litro de água para cada litro de refrigerante produzido. O convite se estendeu a toda a equipe de funcionários da revista. Fomos e voltamos mineiramente surpresos e decepcionados. A natureza que nos dá vida e sustenta, constatamos in loco, não havia sido convidada a integrar o projeto da “fábrica verde”. Vista e cultuada universalmente como o “símbolo da vida”, nenhuma árvore sequer havia sido plantada em meio aos seus 65 mil metros quadrados de área construída. Vegetação alguma capaz de embelezar, dar sombra, flor para passarinho pousar e capaz de melhorar o microclima fer-

vente de tamanha aridez. Nenhuma sombra tanto para os seus motoristas e caminhões quanto para os carros dos seus 450 funcionários, mais clientes e visitantes artificialmente encalorados e estacionados em pátios 100% ensolarados. Uma falta de verde medonha, vide seus pisos nada drenantes, só de asfalto e cimento, incapazes de reter e infiltrar a água da chuva. Não há caramanchão natural algum. Todos os muros, divisórias e cercas na área externa da fábrica também negam o bucolismo típico dos mineiros. Nenhuma trepadeira, um pé somente de bougainville e outro de maracujá ou jasmim. Em vez de madeira certificada, todos os equipamentos que separam gentes, carros e caminhões são de arame, cimento e ferro. Nem o gramado enorme, de 50 mil metros quadrados, equivaJULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  25


FOTOS: ECOLÓGICO

1 DENÚNCIA

NA MAQUETE o verde está presente dentro e fora da fábrica

lente a um terço do tamanho de toda a área construída, localizado à esquerda da entrada da fábrica, pode ser chamado de área verde. Como cantavam Chico Buarque e Milton Nascimento, nada de árvores foi plantado. Nem nunca será. Trata-se de uma área industrial estratégica para a futura expansão da fábrica. UM MÊS ATRÁS Coincidindo com o segundo aniversário da fábrica, desta vez foi a própria Ecológico que solicitou ser convidada pela Femsa para integrar a visita de um outro grupo de jornalistas. Nosso objetivo era rever se, já passado esse tempo todo, o pouco verde prometido na maquete da “fábrica mais verde” da Coca-Cola havia virado verdade. Não virou. Na planta, a área verde natural existente ao redor da fábrica chega a um total de 78.879,5 m2. São quase três mil metros quadrados a mais do que toda a área construída sem verde. E não se trata de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Mas, sim, sob a forma de Reserva Legal e de Área de Preservação Permanente, como já reza a legislação ambiental brasileira. O que se vê esverdeado ali é um conjunto bastante significativo, 26  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

tipo manchas, de matas de galeria igualmente antropizadas à sua volta. Ou seja, cujas características originais (solo, vegetação, relevo e regime hídrico) foram alteradas em consequência de atividade humana. Nossa pergunta, já feita duas vezes, foi: por que a Femsa não ajuda a natureza local, já parcialmente degradada, com o adensamento/plantio das próprias espécies locais, fazendo uso das tecnologias de recuperação ambiental existentes? A empresa respondeu que “são terrenos com solos ferruginosos e, por isso mesmo, têm de ser deixados como estão”. Simples assim, sem verde por onde o homem passou. Perguntamos também se poderíamos ver os locais onde, no início das obras da fábrica, deveriam estar plantadas as anunciadas 800 mudas de espécies nativas, sendo elas bagueiras (plantas com grande capacidade de atração de animais), para o plantio posterior de mudas na área de estudo. Também não nos mostraram, pela segunda vez solicitada. A Ecológico insistiu: - E algumas árvores pequenas que vimos no fundo da fábrica, durante a visita ao processo de engarrafamento? Não seriam elas

essas mudas? Podemos vê-las? A resposta foi novamente negativa. Somente a empresa terceirizada, que fez o projeto, poderia nos informar. Terminada a visita à fábrica, e com muita dificuldade de acesso, vide a explosão urbana descontrolada à sua volta, decidimos ir ao local por nossa conta. Podemos estar equivocados quanto à localização certa desses plantios. Mas o que vimos ali, plantadas próximas aos muros e cercas artificiais sem verde da unidade, não passam de algumas dúzias de árvores de tamanho médio. Quase todas elas sem estaqueamento e caídas, por falta de monitoramento, abandonadas em meio ao capim gordura reinante na região. Ato final. Pode ser delírio dos amantes da natureza, como no passado eram chamados os ambientalistas em sua defesa, mas enquanto a Femsa, o município de Itabirito e o Governo do Estado não convidarem a natureza para fazer parte do empreendimento e de seus planos de negócios a partir das montanhas de Minas, essa sua “maior fábrica verde da Coca-Cola do mundo” não pode ser sustentável, muito menos chamada assim. Como cantaria Roberto Carlos... Ainda!


FOTO: DIVULGAÇÃO

NA REAL só existe o “paisagismo” natural, externo e antropizado

ACESSO, piso e estacionamento: só cimento, asfalto e sol inclemente GRADES INTERNAS e externas: “muro” verde algum. Só arame


1 DENÚNCIA

Compromisso e contradição Cartilha distribuída pela Femsa elenca as medidas sustentáveis que lhe fizeram obter o licenciamento ambiental. Mas se contradiz nos itens “verde” e “fauna” Confira, a seguir, quais são os compromissos mais significativos assumidos junto à Semad. E os apontamentos feitos pela Ecológico: Reciclagem dos resíduos gerados, reaproveitamento e reúso da água pluvial. E tratamento dos efluentes líquidos para utilização nas dependências sanitárias e na irrigação das áreas verdes.

 Eficiência energética por meio

de motores de alto rendimento, sistema de iluminação com ajuste da intensidade da luz e sensores de iluminação com células fotovoltaicas para aproveitar a luz do sol.  Redução do consumo de energia por meio de aberturas na cobertura da fábrica (claraboias que permitem a entrada da luz durante o dia).

Uso de equipamentos certificados por empresas que se preocupam com a sustentabilidade.

Nota da redação: A última medida apresentada na cartilha é “Desenvolvimento da fauna e flora nativa por meio da criação de planos de enriquecimento ecológico com as espécies da região”, justamente o que a Ecológico não comprovou ou foi demonstrado. Pelo contrário, a empresa ainda defende a tese de que não se pode mexer nem enriquecer a flora local. Por que apenas mantê-la pobre ambientalmente? É o questionamento ainda ecoante dos ambientalistas.

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NO FUNDO que divisa a fábrica: irrisórias e abandonadas mudas


FOTOS: ECOLÓGICO

Ao redor da fábrica, o verde é pobre e aparente, desfigurado pela ocupação humana

“IMPACTOS E AÇÕES” Com este mesmo título, quando da inauguração da fábrica, a Femsa fez circular publicamente outra cartilha, reafirmando que cumpriu as exigências estabelecidas pelo governo estadual no processo de licenciamento ambiental do empreendimento:

MANCHAS de matas de galeria, à direita da entrada principal: apenas ilhas de preservação em meio à paisagem antropizada

Reaproveitamento da água e efluentes líquidos: instalação da Estação de Tratamento de Água (ETA) e encaminhamento dos efluentes líquidos para a Estação de Tratamento de Efluentes Industriais e Sanitários (ETE). 

 Monitoramento da poluição do ar: controle das emissões e instalação de um sistema de cogeração para aproveitamento dos gases do processo industrial na produção de gás carbônico (CO2).

Controle da poluição sonora: instalação das linhas de envase e equipamentos mais ruidosos em espaços fechados e isolados acusticamente.

SOLOS FERRUGINOSOS já agredidos pela presença humana e contíguos às matas naturais protegidas por lei: sem esperança de revitalização

Reaproveitamento de resíduos sólidos: garantia da reciclagem de mais de 90% dos materiais utilizados. Incentivos da coleta e reciclagem de embalagens pós-consumo por meio de investimentos em cooperativas locais.

Manutenção do solo: conservação e recuperação das áreas verdes do entorno.

Preservação dos cursos d’água: monitoramento constante da qualidade das águas do entorno do empreendimento.

Em tempo: conforme a Ecológico testemunhou, as áreas verdes naturais conservadas pela empresa na unidade de Itabirito (MG) são poucas. Na sua maioria, trata-se de algumas manchas de matas de galeria em meio a um ambiente bastante antropizado. O mesmo pode ser dito em relação à anunciada recuperação do verde à sua

volta. A empresa não plantou nem fez praticamente nada em termos de recomposição arbórea para enriquecer e alimentar a flora e fauna locais. Apenas mantém, também sem qualquer custo, tal como encontrou, um cenário desolador de solos ferruginosos e capim gordura. Portanto, ao falar que, com 65 mil m2 de área construída, a maior “fábrica verde” do Sistema Femsa só ocupou um quinto de todo o terreno adquirido, os outros quatro são só de verde. Um verde pobre e aparente, desfigurado pela ocupação humana.  JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  29


MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

FOTO: EVANDRO RODNEY/IMPRENSA MG

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ESTADO DE ALERTA

PARQUE Estadual do RolaMoça, que também sofre com o descaso político: todo ano, à mercê das queimadas

UCs AMEAÇADAS P

ara denunciar o descaso com a proteção das Unidades de Conservação (UCs) no Estado, ambientalistas encaminharam ofício ao governador Fernando Pimentel lembrando que Minas tem somente 1,7% de seu território protegido integralmente. Percentual ínfimo diante da grande extensão e riqueza de sua biodiversidade, por localizar-se no encontro dos mais importantes biomas brasileiros e abrigar cabeceiras de algumas das mais importantes bacias hidrográficas do país. E, mesmo assim, a maioria de seus parques e reservas naturais vem enfrentando situações graves e preocupantes, como os incêndios florestais que anualmente destroem grandes áreas de vegetação nativa, calcinam o solo, poluem cursos d’água, queimam animais, prejudicam a saúde pública e causam acidentes em rodovias. Os ambientalistas lembram ainda que a construção de aceiros nas UCs é uma das ações mais efetivas, pois auxiliam na prevenção e no combate ao

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fogo. Eles denunciam no ofício que há dois anos não são liberados recursos para tanto. Grande parte das UCs está em áreas de relevo acidentado, o que obriga que sejam feitos manualmente, exigindo tempo para sua execução. Para que fossem concluídos antes do início da “temporada de fogo”, teriam de ter começado há pelo menos dois meses. Para as entidades, se não fosse a enorme, negativa e lamentável confusão gerada pela demissão de guarda-parques que atuavam por meio da contratação de empresas prestadoras de serviços, a situação não estaria tão grave. Infelizmente, o IEF não tomou providências para impedir os graves resultados disso: a demissão aconteceu em fevereiro do corrente ano. O concurso da MGS foi realizado em março e até hoje, com exceção de nove aprovados que foram para o Parque Estadual do Rio Preto, os demais não foram convocados. No ofício, as entidades destacam que o processo seletivo realizado pela MGS feriu preceitos mínimos de lógica, pois não levou em consideração a expe-


“Se não fosse a enorme, negativa e lamentável confusão gerada pela demissão dos guarda-parques que atuavam por meio da contratação de empresas prestadoras de serviço, a situação não estaria tão grave.” riência dos concorrentes em ações de combate a incêndios, implantação de aceiros, conhecimento mínimo sobre flora e fauna. Privilegiou conhecimentos sem qualquer aplicabilidade ao exercício das funções de guarda-parques, incluindo perguntas como “a qual partido pertence Donald Trump?”. Grande parte dos antigos funcionários era composta de pessoas simples, oriundas das comunidades vizinhas aos parques, analfabetas ou com precário nível de instrução formal, e não foram aprovadas. A situação poderia ter sido diferente se a experiência fosse quesito forte na pontuação e a MGS e o IEF tivessem zelado para que as provas contivessem questões adequadas a seu nível de conhecimento e à proteção dos parques. Destaca-se ainda que a experiência exigida foi de apenas seis meses. Para complicar ainda mais a situação, há denúncias de que documentos de comprovação de experiência apresentados por alguns dos poucos convocados para o Parque Estadual do Rio Preto são falsos. A MGS e o IEF não se manifestam sobre isso. Mesmo assim, os aprovados não foram convocados (os antigos foram demitidos) e as UCs estão altamente ameaçadas, pois já começou o período de estiagem. O Parque Estadual da Serra do Rola-Moça foi citado como exemplo da situação, já que praticamente todos os anos ocupa espaço na mídia em decorrência de grandes queimadas. Há três anos as entidades vêm insistindo junto ao IEF e ao Copam para implantação de “aceiros negros” (faixas queimadas preventivamente como proteção contra o avanço das chamas) em pontos críticos das UCs, visando reduzir os riscos de grandes incêndios. A prática é largamente adotada em todo o mundo. Aqui no Brasil já é praticada há muito pelo ICMBio nas UCs federais. Além dos custos significativamente mais baratos do que os de aceiros convencionais, os impactos ambientais provocados pela eliminação da vegetação nas faixas de proteção são também bem menores (as raízes da vegetação nativa não são removidas, facilitando sua rebrota). A adoção da técnica depende de regulamentação do artigo 93 da Lei Estadual 20.922/2013 (que dispõe sobre a política florestal do Estado e sobre a proteção da biodiversidade), o que no entender das entidades é algo simples. Proposta neste sentido já foi apresentada à Diretoria de Áreas Protegidas do IEF, que, no entanto, não se posiciona e os TAMANDUÁ-BANDEIRA cercado pelo fogo no Parque Nacional da Serra da Canastra: vítima silenciosa

incêndios já começaram. Ao final, solicitam apoio e providências do governador, visando a: 1. Imediata normatização e implantação de aceiros negros nas Unidades de Conservação pelo IEF. 2. Renovação do convênio entre Semad/IEF e Corpo de Bombeiros Militar, visando fortalecer a estrutura do Estado na proteção contra queimadas em áreas protegidas e no seu entorno. Segundo informações obtidas, este documento não foi ainda assinado, resultando em atraso dos procedimentos preventivos e de combate ao fogo, que devem ser desenvolvidos de forma articulada entre as duas instituições. Lembramos que 50% do valor recolhido pela taxa de incêndio criada no primeiro governo de Aécio Neves deveria ser destinado a equipar a corporação. 3. Convocação dos guarda-parques aprovados, com verificação rigorosa da comprovação de experiência. 4. Liberação dos recursos necessários à construção dos aceiros onde não for possível utilização de fogo. Enviaram o ofício as seguintes entidades: Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda); Instituto Hóu; Fundação Relictos; Movimento Mineiro pelos Direitos Animais; Associação para a Gestão Socioambiental do Triângulo Mineiro (Anga); Associação Amigos de Iracambi; Ecologia e Observação de Aves (Ecoavis); Movimento Pró Rio Todos os Santos e Mucuri; e CBH dos Afluentes Mineiros do Mucuri.  (*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).


FOTO: ANDRÉ FIRMINO

1 A SERRA PEDE PAZ (2)

O PERIGO MORA AO LADO

Cada vez mais visível pela população de BH, avanço da mineração na Serra do Curral revela uma surpresa: trata-se também da sua recuperação ambiental. Já o retorno de uma antiga e predatória mineração é real. E vem de Nova Lima Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

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e perto, nada é o que parece ser no dorso leste da serra símbolo da capital dos mineiros. Nos arredores do Pico de Belo Horizonte, separadas pela crista da serra, existem duas empresas de mineração cujos projetos andam em caminhos opostos. E podem gerar amor ou ódio à atividade mais antiga dos mineiros, daí o nome que temos: das Minas Gerais. Do lado voltado para a ex-Cidade Jardim do país, a Empresa de Mineração Pau Branco (Empabra) ainda realiza atividades de exploração concomitantemente a um plano de recuperação de área degradada, previsto para ser concluído até 2019, seguindo seu

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plano de fechamento de mina. Do outro lado da Serra, no município vizinho de Nova Lima, a Taquaril Mineração, pertencente à Construtora Cowan, está em fase de licenciamento ambiental de um novo projeto junto aos órgãos oficiais. Sua proposta é retirar minério justamente numa grande e belíssima área ainda natural, atualmente somente agredida pelos treieiros e suas motos de destruição da natureza. Eles não respeitam cercas de arame farpado nem porteiras trancafiadas. Basta ver as cicatrizes erosivas que suas máquinas e pneus adaptados para rasgar o solo continuam fazendo na face natural da serra e seus contornos

montanhosos. Uma beleza de cenário principalmente no município de Nova Lima, onde já se percebe também novas invasões de favelas e projetos imobiliários chegando juntos. Foi o que a Revista Ecológico conferiu in loco, na companhia da geógrafa e consultora em licenciamento ambiental da Empabra Valéria Rocha; do engenheiro Euler Cruz, estudioso e morador vizinho; e da superintendente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), Maria Dalce Ricas. A área do projeto de recuperação da Empabra abrange duas propriedades distintas e em litígio judicial: uma em nome da


VALÉRIA ROCHA: fiscalização permanente

maioria da população ainda não consegue ver na sua totalidade. Só imagina continuar avançando com a complacência do Ministério Público, dos dois municípios e o Estado. Mero e bom engano. Seus órgãos oficiais, incluindo a Semad, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e até a Polícia Ambiental – a Revista Ecológico apurou – atuam pra valer e sem trégua. Hoje devidamente licenciada pela Prefeitura de BH e a Semad, a Empabra opera com uma planta de beneficiamento a seco, sem utilização de barragens. Como garante Valéria Rocha: “Pelo fato de estarmos em plena Serra do Curral, divisa com a população ao sul de BH, semana sim, semana não, ainda somos instados pelo Ministério Público e visitados pelos fiscais. E isso é bom! Mostra à opinião pública

que, pelo menos, o Município e o Estado funcionam, de fato, na área ambiental” – disse ela. A Empabra também informou que antes de retomar o projeto, quando a área estava abandonada devido ao embargo, o local era utilizado inclusive como “desova” de lixo e cadáveres humanos. Atualmente, além de fazer divisa, ao sul, com os parques das Mangabeiras e Baleia, ambos ameaçados pelo crescimento dos aglomerados Cafezal e Taquaril, a mineradora é vizinha da ocupação Castanheiras, invasão que avança rapidamente no limite da área de recuperação ambiental, e que dificilmente será detida quando a exploração cessar. Para Dalce Ricas, a área após recuperada deveria ser destinada à preservação ambiental e estruturada para uso de lazer e educação da comunidade, o que depende do poder público, já que pertence a particulares: “Se a prefeitura não tomar providências nesse sentido, os proprietários terão muita dificuldade para impedir invasões e destruição dos plantios, principalmente por fogo. Ou seja, a Empabra, por força do licenciamento, investe muito para recuperar a área, com alto risco de tudo se perder após sua saída. Isso é a demonstração clara da ineficiência das nossas políticas ambientais públicas” – apontou a ambientalista.

NO LIMITE: ambas as minerações - a Empabra que reabilita e a Taquaril, da Cowan, que abandonou a atividade sem recuperar o que fez - estão a aproximadamente 200 metros do pico da Serra do Curral

FOTO: SANAKAN FIRMINO

FOTO: ANDRÉ FIRMINO

Empabra (12,5 hectares); e outra, da família Navantino Alves (55 ha). No passado, essas áreas foram exploradas pela mineradora Emitaq que, devido ao tombamento municipal da Serra do Curral no início da década de 1990, teve suas atividades embargadas. E na contramão da mineração sustentável, ali deixou um grande passivo ambiental, com enormes pilhas de finos de minério dispostas de forma inadequada, colocando em risco todo o seu entorno. Em 2006, a Empabra fez um acordo com o Ministério Público Estadual e assumiu a recuperação das duas áreas, caracterizado por um projeto de exploração de material in situ e o reaproveitamento dos finos ali deixados, acompanhado de um plano de recuperação das áreas degradadas. Um plano que previu uma série de compromissos, como construção de bacias de amortecimento de águas pluviais, retaludamento das encostas para promover a estabilidade da geografia local e o sequenciamento de revegetação com espécies nativas, em conformidade com o ecossistema do entorno. Tudo isso acontece, acredite se quiser, em meio à maior paisagem lunar ainda existente no cume leste da serra, entrando pelo bairro Taquaril. Uma sucessão de cratera que, de longe, a

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  XX


TOMBAMENTO DÚBIO Onde mora, então, o novo e real perigo de desfiguração continuada da Serra do Curral? Em Nova Lima, onde a delimitação da área de amortecimento do perímetro de tombamento do Pico de BH, o seu relevo mais alto, ainda está sendo redefinida pela Superintendência Estadual do IPHAN em Minas Gerais. Na verdade, só existe tombada até hoje a parte da Serra pertencente ao município de BH, incluindo o que é ou devia ser outras áreas anexas de preservação ambiental, denominadas de entorno ou amortecimento. Na época do tombamento inicial da Serra do Curral, esqueceu-se que, naturalmente, ela também existe no município de Nova Lima. A sua natureza é uma só, indivisível aos olhos da Criação. E para isso, o IPHAN também já deveria ter notificado o município, o poder local, sobre a sua necessidade igual de tombamento e preservação do ponto de vista artístico-cultural e ambiental. Isto está sendo feito agora, mas como entorno, já que o Conselho Consultivo da autarquia acatou os recursos apresentados contra a nova delimitação. O campo de batalha atual por uma brecha na legislação capaz de permitir novos projetos minerários da serra corre somente nos bastidores. Enquanto os governos federal, estadual e municipais buscam formular as próximas regras do jogo, tendo como base um novo estudo georreferenciado e integrado de toda a Serra, um combate maior, bom ou mau, se avizinha. Caso as partes envolvidas não se reúnam e, desaguerridas, dialoguem em paz, em busca do “economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente mais justo”, que é o outro nome da sustentabilidade, a situação tende a piorar. Apesar dos processos erosivos, 34  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

FOTOS: SANAKAN FIRMINO

1 A SERRA PEDE PAZ (2)

ÁREA AINDA não recuperada na divisa com os parques das Mangabeiras e da Baleia, ambos ameaçados pelo Aglomerado Cafezal...

...E EM REABILITAÇÃO, na divisa com o Aglomerado Taquaril/Castanheiras: medo de invasão quando a Empabra terminar suas atividades

tipo voçorocas, ainda visíveis, abandonados e não recuperados até hoje pela sua Taquaril Mineração, a Cowan continua tentando licenciar um novo projeto. Uma nova e grande exploração mineral não apenas contígua à mineração reparadora em curso da Empabra, mas entrando pra valer no costado novalimense da Serra do Curral. A empresa questionou a delimitação da área do tombamento. E busca, assim, mudar as regras do processo. Alterar tanto a demarcação de delimitação histórica do Pico, como do tombamento e preservação de toda a Serra do

Curral em ambos os municípios. Isso inclui também as áreas de entorno e amortecimento, criadas pelo estado brasileiro justamente para proteger a natureza e o meio ambiente contra suas descaracterizações contumazes e prementes. Mas quais são essas regras e brechas na legislação? É o que a Ecológico continuará mostrando em sua próxima edição, “A Nova Regra do Jogo”, sobre o antigo dilema de minerar e recuperar versus proibir e preservar a serra mais emblemática e querida dos mineiros. Acompanhe!

Li id m


Beleza ameaçada Maria Dalce Ricas (*)

“A Cowan, que questiona os limites de tombamento da serra, está tentando conseguir licença para minerar em sua área, limítrofe à cava explorada pela Empabra. Ela tem este direito minerário e quer exercê-lo. Acontece que o local é belíssimo, com relevo formado por abismos e picos ondulados, ainda cobertos pela rica e diversificada vegetação dos campos ferruginosos e vales do quadrilátero, abrigando espécies que só nele existem. Um potencial

VISUAL DE CINEMA, tamanha a beleza do outro lado da Serra em Nova Lima, onde, a exemplo da Vale (ex-Mina Águas Claras), a Cowan pretende minerar

turístico que comprova, só por imagens, a necessidade da sua preservação. Mas, do jeito que as coisas vão, vide a incompetência do Estado, a continuidade das invasões, os incêndios e os

estragos abertos pelos treieiros (motociclistas), pouca coisa pode sobrar ali no futuro.”  (*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).

Liberdade e democracia são valores que definem Minas Gerais. Na nossa Assembleia Legislativa, esses ideais estão sempre presentes no debate, no diálogo e na luta diária pelos interesses de Minas e dos mineiros. Participe! É com você que a Assembleia se torna, cada vez mais, o poder e a voz do cidadão.

almg.gov.br

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  XX


1 ENERGIA LIMPA ATÉ RESTOS de poda de grama são usados como matéria-prima na produção de biometano

ITAIPU NA BIOSFERA Primeira usina a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, Itaipu Binacional também se destaca com planta inédita para a produção de biometano Luciana Morais (*)

A

vançar na geração de energia elétrica de forma limpa e parceira, comprometida com o desenvolvimento de seu entorno e disposta a contribuir para a conservação da biodiversidade. Essa tem sido a tônica das ações da Itaipu Binacional, que fecha o primeiro semestre de 2017 com novas conquistas a comemorar. A mais recente delas foi a incorporação das áreas preservadas do lado paraguaio da hidrelétrica ao programa Man and the Biosphere (MAB), da Unesco, aprovada durante reunião ocorrida em meados de ju-

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FOTOS: DIVULGAÇÃO ITAIPU

redacao@revistaecologico.com.br

nho, em Paris. A Rede Mundial de Reservas da Biosfera reúne áreas destinadas à pesquisa cooperativa, à proteção do patrimônio cultural e à promoção do desenvolvimento sustentável em 120 países. Esse reconhecimento internacional é fruto de esforços empreendidos por Itaipu, especialmente nas últimas décadas, visando à recomposição de áreas nas duas margens da hidrelétrica. Na próxima reunião do MAB, em 2018, a ideia é apresentar uma proposta de extensão da reserva da biosfera, de forma a abranger também as

LUIZ FERNANDO VIANNA: "Nossa vocação é a geração de energia limpa e renovável"


FIQUE POR DENTRO

O biogás é uma mistura de gases composta principalmente por metano e dióxido de carbono. É normalmente obtida através do tratamento de resíduos domésticos, agropecuários e industriais, por meio de processo de biodegradação anaeróbia, ou seja, na ausência de oxigênio. Já o biometano é resultado do processo de purificação do biogás e tem características similares ao do gás natural.

áreas protegidas pela companhia no lado brasileiro. Atualmente, Itaipu mantém sete reservas e refúgios biológicos, totalizando 41 mil hectares protegidos. No Brasil, estão os refúgios Bela Vista e Santa Helena. No Paraguai, as reservas Itabó, Limoy, Carapá, Tati Yupi e Yui Rupá. A empresa atua ainda na difusão da aquicultura e da piscicultura em seu reservatório, além de apoiar práticas de produção agropecuária mais amigáveis ao meio ambiente nas comunidades do entorno. INOVAÇÃO Vencedora do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza 2016”, na categoria "Homenagem do Ano", graças ao programa “Cultivando Água Boa”, Itaipu segue investindo também em projetos voltados para o aproveitamento de insumos e recursos com base no conceito da economia circular. A Binacional inaugurou, em dois de junho, uma planta inédita de biometano no complexo de sua usina, em Foz do Iguaçu (PR). Desenvolvida em parceria com o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), a unidade inova

VISTA aérea do Refúgio Biológico Bela Vista: biodiversidade preservada

A PRODUÇÃO estimada é de 4.000 m3 deste biocombustível por mês

ao usar como matéria-prima poda de grama, esgoto e restos orgânicos de restaurantes gerados na própria hidrelétrica. Com tecnologia 100% nacional, a produção da nova planta é estimada em 4.000 m3 de biometano/mês, volume suficiente para abastecer 80 dos 250 veículos da frota interna de Itaipu. Outra vantagem da iniciativa é o menor custo do biometano: R$ 0,26/m³ contra R$ 0,36 do etanol, o que resultará numa economia mensal de R$ 15 mil. Otimista, o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Luiz Fernando Vianna, frisou que o objetivo é replicar esse modelo país afora, comprovando a viabilidade

ambiental, econômica e social da produção de biocombustível com o uso de resíduos urbanos em empresas, cooperativas e municípios. “Conseguimos fechar o ciclo da produção do biogás e isso é motivo de grande orgulho para todos nós. Temos uma planta que foi concebida em módulos e, portanto, pode ser adaptada às diferentes escalas de produção. Queremos seguir avançando e fortalecendo a nossa vocação maior, que é a geração de energia limpa e renovável.”  SAIBA MAIS

www.itaipu.gov.br www.cibiogas.org (*) A repórter viajou a convite da empresa.

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  37


1 TERRA BRASILIS

FOTO: WELLINGTON PEDRO

CONTRASTE E DOR: o índice de desmatamento na Mata Atlântica no Brasil, no período 2015-2016, incluindo a tragédia de Mariana, foi o maior em 10 anos

PASSADO PERDIDO Novo Atlas da Mata Atlântica aponta que o bioma perdeu 60% de área verde entre 2015 e 2016. Bahia e Minas Gerais foram os estados que mais desmataram

P

arece não ter fim. Enquanto o Brasil vê de olhos vendados o agravamento da crise ambiental, com a legislação sendo brutalmente atacada e enfraquecida para benefício de empresas, empresários e políticos sem escrúpulos, a Mata Atlântica pede socorro. E é impossível que não estejamos ouvindo o seu grito, já no último volume. É o que mostra os novos dados do “Atlas da Mata Atlântica”, desenvolvido pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

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(Inpe), referentes ao período 2015-2016. O estudo aponta o desmatamento de 29.075 hectares (ha), ou 290 km2, nos 17 estados abrangidos pelo bioma, representando um aumento de 57,7% em relação ao período anterior (20142015), que foi de 18.433 ha. “Há mais de uma década não era registrado no bioma um desmatamento nessas proporções. Entre 2005 e 2008 a destruição foi de 102.938 hectares: uma média anual de 34.313 ha. Tivemos um retrocesso muito grande”, afirma Marcia Hirota, diretora-executiva

da SOS Mata Atlântica. A Bahia foi o estado que liderou o desmate, com devastação de 12.288 ha – alta de 207% em relação ao ano anterior, quando foram destruídos 3.997 ha. Dois municípios baianos – Santa Cruz Cabrália e Belmonte – lideram o ranking de maiores desmatadores, com supressão de 3.058 ha e 2.119 ha, respectivamente. Se somados aos desmatamentos identificados em outros municípios do Sul da Bahia, como Porto Seguro e Ilhéus, a destruição do bioma local, historicamente


de 74%. A destruição concentra-se na região das araucárias, espécie ameaçada de extinção, com apenas 3% de florestas remanescentes. No Piauí, os maiores desmatamentos ocorreram em Manoel Emídio (1.281 ha), Canto do Buriti (641 ha) e Alvorada do Gurguéia (625 ha), municípios limítrofes entre si e próximos ao Parque Nacional Serra das Confusões. Esse é o quarto ano consecutivo que o Atlas registra padrão de desmatamento nesses municípios que ficam numa importante região de fronteira agrícola, que concentra a produção de grãos e é também área de transição entre a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga.

FOTO: GUSTAVO PEDRO

conhecida pela chegada dos portugueses e pelo início da colonização do país, chega a 30%. “Essa região é a mais rica do Brasil em biodiversidade e tem grande potencial para o turismo. Nós estamos destruindo um patrimônio que poderia gerar desenvolvimento, trabalho e renda para o estado”, complementa Marcia. Um sobrevoo realizado por técnicos da SOS Mata Atlântica, em 16 de maio deste ano, sobre os dois municípios baianos constatou queimadas em floresta, conversão das matas em pastagens e processos de limpeza de áreas onde o entorno apresenta forte atividade de silvicultura. A vice-liderança do ranking do desmatamento da Mata Atlântica ficou com Minas Gerais, com 7.410 ha desmatados, seguido por Paraná (3.453 ha) e Piauí (3.125 ha). Os principais pontos de desmatamento ocorreram nos municípios de Águas Vermelhas (753 ha), São João do Paraíso (573 ha) e Jequitinhonha (450 ha), região reconhecida pelos processos de destruição da Mata Atlântica para produção de carvão ou pela

MARCIA HIROTA: "O retrocesso é grande"

conversão da floresta por plantios de eucalipto. Minas liderou o ranking em sete das últimas nove edições do “Atlas da Mata Atlântica”, sempre com municípios dessa região figurando na lista dos maiores desmatadores. Mas vem acenando uma nova esperança com o Projeto Plantando o Futuro (leia mais na página 64), que visa plantar 30 milhões de árvores até 2018. Já no Paraná, os índices de desmatamento voltaram a subir pelo segundo ano consecutivo, passando de 1.988 ha destruídos em 2014 e 2015 para 3.545 ha no período seguinte. Um aumento

MOBILIZAÇÃO URGENTE No período de 2015 e 2016 foi identificada supressão da vegetação de restinga em nove dos 17 estados do bioma: Ceará (788 ha), Piauí (244 ha), Santa Catarina (199 ha), Bahia (64 ha), Sergipe (50 ha), São Paulo (32 ha), Rio de Janeiro (29 ha), Paraná (14 ha) e Rio Grande do Norte (6 ha). Já FOTO: MARCELO MINN

536.480

DÉCADAS DE DESTRUIÇÃO

500.317

No período 2015-2016, 29.075 hectares do bioma foram destruídos. Confira a evolução dos índices de desmatamento (em ha) desde 1985, quando foi registrada a maior taxa recente:

445.952

174.828 102.937 18.433 2015

2014

18.267

2013

23.948

2012

21.977

2011

14.090

2010

2008

2005

2000

1995

1990

1985

30.366

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  39


1 TERRA BRASILIS recorde, sobre o nosso sistema de proteção ambiental. A sociedade não pode ficar alheia às decisões tomadas por nossos governantes e legisladores. Precisamos nos mobilizar para frear o desmonte da nossa legislação”, conclui.

FOTO: MARCELO TRAD

MARIO MANTOVANI: "A situação é gravíssima"

zação do licenciamento ambiental e diversos ataques ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação. “No momento em que o caos está instalado em Brasília, numa crise política que tem no seu centro a maior empresa de carnes do mundo, a bancada do agronegócio e o núcleo central do governo federal avançam, de forma orquestrada e em tempo FOTO: CARLOS ALKMIN

o desmatamento em mangues aconteceu apenas na Bahia, em uma área de 68 ha. Para Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, a situação é gravíssima e indica uma reversão na tendência de queda do desmatamento registrada nos últimos anos. E, para ele, não é por acaso que os quatro estados campeões de desmatamento são conhecidos por sua produção agropecuária. “O setor produtivo voltou a avançar sobre nossas florestas, não só na Mata Atlântica, mas em todos os biomas, após as alterações realizadas no Código Florestal e o subsequente desmonte da legislação ambiental brasileira. Pode ser o início de uma nova fase de crescimento do desmatamento, o que não podemos aceitar”, destaca o também ambientalista. Segundo ele, a ofensiva continua com a tentativa de flexibili-

SANTA CRUZ Cabrália foi o município mais desmatador do período, com 3.058 hectares, o equivalente a 2.831 campos de futebol

40  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

DESMATAMENTO ZERO Em maio de 2015, 17 secretários de Meio Ambiente dos Estados da Mata Atlântica assinaram a carta “Nova História para a Mata Atlântica”, compromisso que prevê a ampliação da cobertura vegetal nativa e a busca do desmatamento ilegal zero no bioma até 2018. Entretanto, após dois anos do acordo, esta edição do “Atlas da Mata Atlântica” aponta que apenas cinco estados estão no nível do desmatamento zero, ou seja, com menos de 100 hectares (1 km2) de desflorestamentos, somadas áreas desmatadas em florestas, mangues e restingas: Rio Grande do Norte (6 ha), Alagoas (11 ha), Paraíba (32 ha), Pernambuco (16 ha) e Rio de Janeiro (66 ha). Não estão mais no nível de desmatamento zero Goiás, com 149 ha desmatados; Ceará, com 797 ha e São Paulo, com 730 ha. A boa notícia fica para Pernambuco, que voltou para a lista deste ano com a redução de 88% do desmatamento – passou de 136 ha entre 2014 e 2015 para 16 ha no último ano. “Apesar do grande aumento do desmatamento em São Paulo, é importante destacar que 90% ocorreram por causas naturais, mais especificamente vendavais e tornados que atingiram os municípios de Jarinu, Atibaia, Mairinque, São Roque e Embu-Guaçu em cinco de junho do ano passado”, esclarece Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador e coordenador técnico do estudo pelo Inpe.  SAIBA MAIS

www.sosma.org.br


“A água é um projeto de viver.” CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

MINAS RUMO AO ENCARTE ESPECIAL (3)

FOTO: ALFEU TRANCOSO

FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA


1

ENCARTE ESPECIAL FIEMG (3) LINDA MURASAWA, superintendente de Sustentabilidade do Banco Santander e diretora Setorial da Federação Brasileira de Bancos (Febraban)

“NÃO EXISTE MATEMÁGICA HÍDRICA” Luciana Morais

m 2015, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) alertou: a segurança hídrica é fator vital para a perenidade dos negócios. Com o lançamento da publicação “Gerenciamento de Riscos Hídricos no Brasil e o Setor Empresarial: Desafios e Oportunidades”, a entidade mostrou como problemas no suprimento de água podem levar a perdas significativas de produção, aumento de custos com impactos na competitividade, risco de suspensão de licenças e até mesmo de encerramento de uma operação. Do ponto de vista do sistema financeiro, o alerta segue ativo. A comprovação de ecoeficiência e a adoção de parâmetros sociais e ambientais na análise de risco já são pré-requisitos para a concessão de crédito e aceitação de novos clientes pessoa jurídica em vários bancos brasileiros. Essa realidade foi apresentada pela superintendente de Sustentabilidade do Banco Santander, Linda Murasawa, durante a “Semana de Produção e Consumo Sustentável”, promovida pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) em 21 e 22 de junho passado, em Belo Horizonte. No painel “Fórum Mundial da Água 2018 – A segurança da água para a indústria”, a executiva traçou um panorama hídrico do Brasil e do mundo. Pontuou as graves consequências do não gerenciamento desse recurso vital, que tem relação direta com a geração de energia elétrica, com o combate às mudanças climáticas e a necessidade de melhoria dos precários índices de saneamento básico no país. “O mundo está mudando. Em breve, haverá barreira comercial e supertarifação de produtos que não tenham eficiência em água, em energia elétrica, em redução das emissões de CO2, etc. Não existe ‘matemágica’ ou uma receita de bolo aplicável a tudo. Temos de compreender a urgência das circunstâncias e somar esforços.” Confira, a seguir, os principais trechos de sua apresentação:

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FOTO: SEBASTIÃO JACINTO JR.

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redacao@revistaecologico.com.br

MURASAWA: "Não há como avançar em segurança hídrica sem planejamento urbano"


QUEM É ELA Uma das mais respeitadas especialistas em sustentabilidade no Brasil, Linda Murasawa foi escolhida pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) para integrar o grupo das 10 mulheres “excepcionais” do mundo por suas contribuições para o desenvolvimento sustentável. Já trabalhou em grandes empresas, como IBM, Villares/Hitachi e Banco Nacional / Unibanco até chegar, em 2001, ao Banco ABN AMRO REAL, adquirido pelo Grupo Santander em 1998.

ANTEVISÃO  “A capacidade de antevisão da Fiemg em relação ao tema água merece ser destacada. O fato de estarmos reunidos para debater a segurança hídrica na indústria comprova o quão relevante e urgente é o assunto. Ainda mais quando lembramos que, recentemente, a Agência Nacional das Águas (ANA) publicou uma resolução, proibindo a captação em toda a Bacia do Rio São Francisco, às quartas-feiras, até o mês de novembro, exceto para consumo humano e dessedentação de animais [leia mais a seguir].” CIÊNCIA X CONSCIÊNCIA  “Considerando o panorama mundial e do Brasil, a situação é cada dia mais crítica. Portanto, não custa lembrar que só 2,5% da água do planeta é doce e apenas 0,3% desse volume está à disposição. Numa comparação rápida, se toda a água (¾) da Terra coubesse numa garrafa de um litro, a disponibilidade de água doce representaria apenas uma gota.”  “Anualmente, mais de US$ 100 bilhões do PIB mundial são perdidos devido à seca e, a cada 15 segundos, uma criança morre no mundo por

FOTO: ALFEU TRANCOSO

MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

“Se toda a água (3/4) da Terra coubesse numa garrafa de litro, a disponibilidade de água doce representaria apenas uma gota.” falta de acesso à água potável. Até 2030, metade da população estará vivendo em áreas de estresse hídrico elevado, enquanto a captação de água em nível mundial praticamente triplicou nos últimos 50 anos.” “Nas análises anuais do Fórum Econômico Mundial, a escassez de água é apontada como um dos três riscos globais de maior impacto, agravada por eventos climáticos extremos, imigrações em larga escala e grandes desastres naturais. Tudo isso é muito sério. Nesse ritmo, seriam necessários 3,5 planetas para suprir todas as nossas demandas atuais de água.” 

RISCO X OPORTUNIDADE  “Mas, por que eu, representante de um banco que, em tese não depende diretamente da água em suas operações, estou aqui debatendo segurança hídrica? A ideia é mostrar como o sistema financeiro, que é um grande mitigador e gestor de riscos, também vem atuando nessa questão.”

“Estamos assistindo a uma mudança muito importante nos modelos financeiros, com várias discussões e medidas em andamento em todo o mundo. Não por acaso, o tema água já é um dos principais fatores analisados na hora de liberar financiamento e calcular taxas.”

“Fazemos análises de crédito cada vez mais detalhadas, além de complexas simulações para avaliar a capacidade de gestão hídrica e da sustentabilidade como um todo, em empresas e indústrias de diferentes portes e segmentos.”

PLANO B “Além de minimizar o risco financeiro do negócio, a análise socioambiental previne que o banco financie atividades que desrespeitam legislações ou coloquem em risco a saúde pública e o meio ambiente.” 

“Se o cliente não tem, por exemplo, um ‘Plano B’ para casos em que ocor-

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1

ENCARTE ESPECIAL FIEMG (3)

ram racionamento e/ou corte no fornecimento público ou opera em áreas sujeitas a seca e estresse hídrico, ele pode ter a sua produção comprometida e até mesmo fechar as portas.” TECNOLOGIA E REÚSO  “Além dos produtos e serviços direcionados aos clientes, internamente, temos um amplo programa de gestão ambiental, destinado a minimizar impactos naturais e reduzir os custos financeiros das nossas operações. Monitoramos todo o consumo interno de água, energia elétrica e papel. Felizmente, nos últimos anos, apesar de a operação do Santander Brasil ter crescido, registramos queda significativa na utilização de vários recursos.”

que, meses antes, custava cerca de R$ 600. E olha que um caminhão dava para manter a agência funcionando só uma semana. Imaginem se tivéssemos de replicar essa medida de urgência para as nossas quatro mil agências? Seria completamente inviável.” “Além de reúso e reaproveitamento, há inúmeras tecnologias e mecanismos de eficiência hídrica disponíveis no mercado. Temos dados animadores de empresas que buscaram financiamentos junto ao Santander para essa finalidade e, com isso, reduziram seus custos com água em quase 40%. Isso é muito bom para todo mundo, mostra que dá para fazer.”

MODELO GLOBAL “Participamos também do desenvolvimento de um modelo chamado ‘Stress Test Hídrico’, destinado a tornar as instituições financeiras mais resilientes aos riscos ambientais. Trata-se de um projeto-piloto da Agência de Cooperação Internacional da Alemanha (GIZ) e da Aliança Financeira para o Capital Natural (NCFA), que desenvolveram uma ferramenta analítica já testada com sucesso em vários países, permitindo aos bancos quantificar e avaliar os potenciais impactos de secas na performance de suas carteiras de crédito. 

 “Estamos alocando cada vez mais tecnologia tanto na construção de novas agências e edificações quanto na manutenção e operação das já existentes. O Santander tem 15 prédios administrativos e quase quatro mil pontos de venda (agências). Entre 2015 e 2016, houve queda de 17% no nosso consumo de água, graças principalmente ao reúso e ao reaproveitamento de água da chuva nos banheiros, na limpeza e na irrigação de jardins.”

BOAS PRÁTICAS  “Não temos como manter uma agência aberta e garantir atendimento ao público sem água. Também somos vulneráveis a esse risco e, por isso, temos procurado avançar em planejamento, gestão e resiliência. Temos procurado internalizar as boas práticas e fazer com que elas realmente funcionem. Na crise hídrica de 2014/2015, nossa agência de Maricá (RJ) ficou quatro meses sem abastecimento público de água. Também tivemos de recorrer a caminhões-pipa.”  “No auge da crise, chegamos a pagar R$ 6 mil por um caminhão-pipa

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SANEAMENTO PRECÁRIO  “No Brasil, outro gargalo hídrico-ambiental é a ausência de saneamento básico. Estamos em 18º lugar no ranking de 24 países latino-americanos nesse quesito. Apenas 39% da nossa população é atendida por serviços de tratamento de esgoto.” DE EXTREMA A NY  “Para reverter essa realidade, precisamos obter ganhos de eficiência na gestão hídrica, além de investir e incentivar políticas públicas com foco na lógica da conservação, como ocorre em municípios como Extre-

FIQUE POR DENTRO  No Santander, a análise de risco socioambiental é aplicada em três situações: aceitação e manutenção de clientes pessoa jurídica do segmento atacado (faturamento acima de R$ 80 milhões/ano) e concessão de crédito com risco de crédito/limites iguais ou maiores que R$ 1 milhão.  Desde 2002, as empresas que atuam em um dos 14 setores com maior potencial de risco socioambiental passam por uma avaliação específica. Elas respondem a um questionário para levantar informações sobre as práticas de gestão ambiental e de segurança e saúde do trabalho.  As respostas são analisadas pela área de Risco Socioambiental (RSA), que tem funcionários especializados. Em seguida, os dados são checados em fontes de informação internas e externas e, caso haja dúvidas, o cliente é contatado ou visitado.  Simultaneamente, é realizado um levantamento de licenças ambientais, autorizações, multas, infrações, indícios de trabalho infantil ou análogo a escravo, terrenos contaminados, certificações e sistemas de gestão socioambiental dessas empresas. Se aprovado, o cliente é acompanhado e anualmente são feitas novas avaliações.

ma, no Sul de Minas, que assegura o pagamento por serviços ambientais a produtores rurais que preservam matas e nascentes em suas terras.” “O modelo de Extrema, aliás, é inspirado na experiência de Nova York (EUA). Lá, a água que abastece a cidade é captada a centenas de quilômetros, nas montanhas de Catskill, graças a acordos firmados entre produtores e a prefeitura.”  “Pode parecer caro investir em canalização para buscar água em lo-


MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018 FOTO: GERALDO HUMBERTO

visão e dar um passo adiante, começando a antever, a planejar e a fazer as transformações necessárias.” “A crise atual é séria e ruim para todos, mas sinto que estamos naquela curva na qual, depois de muito afundar, o Brasil começará a recobrar o fôlego e a se recuperar. Por isso, acredito que esse seja um momento muito propício para repensarmos conceitos, hábitos, práticas, modelos de gestão, de produção, etc.” 

“Na última crise hídrica, nossa agência de Maricá (RJ) ficou quatro meses sem abastecimento de água. Também tivemos de recorrer a caminhão-pipa.” cais tão distantes, mas os ganhos são claros e, a conta, muito simples: para cada dólar investido nesse sistema de proteção da biodiversidade e da água economizam-se sete em tratamento. Resultado: a água chega limpa e pura à população, que pode beber diretamente das torneiras.”

60% da nossa geração vem das hidrelétricas. A correlação é direta: se faltar água, corremos o risco de ficar também sem energia. Ou seja: a situação é séria exatamente porque todos os riscos estão interligados. Afinal, água é vida, é sobrevivência, é energia, é business, é competitividade.”

“Além de replicar boas iniciativas, precisamos atuar também em outras frentes, como na redução das perdas que ocorrem nos sistemas de distribuição. Hoje, desperdiçamos quase 40% da água produzida. E considerando o atual ritmo de investimentos, a promessa de universalização do acesso à água/ esgoto tratados no Brasil não será cumprida até 2030, quando vencem os prazos dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estipulados pela ONU. Água potável e saneamento é o sexto item dessa agenda de compromisso a ser globalmente implementada.”

“É exatamente assim que um banco enxerga o risco, com base nessa interdependência. E nesse contexto, as práticas socioambientais das empresas passam a ser completamente decisivas na escala de crédito, afetando variáveis como taxas, limites, prazos e exigências de garantias nos empréstimos.”

REFLEXÃO URGENTE  “Não há como avançar em segurança hídrica sem planejamento urbano, sem gestão diária nas indústrias e empresas, sem plano de contingência, sem ações de resiliência, sem mitigação de riscos e sem investimentos em ecoeficiência. Temos de repensar tudo isso.”

 “No geral, as pessoas só costumam INTERDEPENDÊNCIA  “No quesito geração de energia, parar para refletir e tentar mudar a dependência do Brasil em relação algo quando enfrentam situações à água também é enorme. Cerca de de crise. Precisamos modificar essa

FUTURO  “O mundo está mudando. Em breve, haverá barreira comercial e supertarifação de produtos que não tenham eficiência em água, em energia elétrica, em redução das emissões de CO2, etc. Teremos taxas escalonadas e crescentes: quanto mais recursos naturais um setor consumir, maiores serão as sobretaxas.”  “Na Europa, já se discutem novos modelos de avaliação e selos de ecoeficiência. Entre eles, o Ecolabel, criado em 2011, e que auxilia na identificação de produtos e serviços que têm impacto ambiental reduzido durante o seu ciclo de vida, da extração da matéria-prima até o descarte final. No Canadá, EUA, Japão e China a tendência é a mesma.”  “E acreditem: nós somos capazes de fazer tudo isso. Não existe ‘matemágica’ ou uma receita de bolo aplicável a tudo. Temos de compreender a urgência das circunstâncias e somar esforços. O objetivo maior é tornar o Brasil um país verdadeiramente sustentável, mais justo e melhor para todos. Juntos, só temos a lucrar.”

SAIBA MAIS

sustentabilidade.santander.com.br

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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (3)

CAPTAÇÃO DE ÁGUA no degradado São Francisco: é preciso encontrar alternativas que atendam as restrições do uso de água sem afetar o meio ambiente e o setor produtivo

Publicada no último dia 21 de junho no Diário Oficial da União, a Resolução 1.043 proíbe as captações de água nos rios federais da bacia do Rio São Francisco todas as quartas-feiras, até o dia 30 de novembro, exceto para abastecimento humano e animal. Preocupada, a Fiemg reuniu seus empresários para discutir alternativas ao “Dia do Rio” estabelecido pela Agência Nacional de Águas (ANA) com o objetivo de restringir a captação de água em rios de domínio federal. A medida, segundo Wagner Soares Costa, gerente de Meio Ambiente da Fiemg, afeta diretamente as indústrias mineiras que possuem outorga na bacia do Rio São Francisco. “Precisamos encontrar soluções alternativas para a estiagem, que 46  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

FOTO: SEBASTIÃO JACINTO JR.

“Todo dia é Dia do Rio”

WAGNER SOARES: "Todos os dias e os rios são assim na natureza"

atendam às necessidades de restrição de uso sem afetar desproporcionalmente o setor produtivo”. Segundo ele, setores como os de siderurgia e ferro-ligas, dadas

as suas características de operação, precisarão desativar o funcionamento de seus fornos. Um dia sem captação, em verdade, significa até três dias de paralisação na produção. Os segmentos de carnes e laticínios também serão prejudicados extensivamente, devido à necessidade de água para os processos de higienização da atividade. Em sua argumentação junto à ANA, com o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o representante ambiental da Fiemg lembra que a legislação em relação ao uso de água do São Francisco em Minas Gerais impõe maior restrição do que em outros estados que também recebem água do rio, a partir do critério definido para o cálculo da vazão de referência para autorizar o uso da água (outorga): “Minas

FOTO: MARCELLO CASAL JR. / AGÊNCIA BRASIL

1


MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018 trabalhar com suas vazões de forma sustentável. Assim, a CNI, a FIEMG e a FIEBA apresentaram proposta à ANA em que indústrias que possuem um período de captação menos que 13 horas por dia irão participar da não captação às quartas-feiras durante o período até novembro. Por outro lado, indústrias que possuem um período de captação acima de 13 horas por dia, terão uma redução de 14% no volume captado durante o período até novembro por possuírem fluxo contínuo de produção.” Acreditamos, continua Wagner

Costa, “que o mais sensato e ecológico, ao contrário desta proibição generalizada, seria, por exemplo, a ANA apoiar os estados e municípios drenados pelo Velho Chico a diminuirem os índices ainda altíssimos de perdas e desperdício, além do descarte direto, sem qualquer tratamento, do esgoto doméstico. Dessa forma, chegaríamos aos mesmos resultados, sem prejuízo para ninguém. E agindo assim, ao contrário de apenas um dia na semana, todos os dias seriam ‘Dias do Rio’”. FOTO: CLEFERSON COMARELA

usa o critério de 30% da Q7,10, vazão mínima em sete dias do ano em 10 anos, enquanto a metodologia da Bahia usa 90% da Q90, vazão mínima de um ano”, exemplifica. Nos quadros ao lado, preparados pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), podemos verificar a variação de critérios utilizados nos estados e pela ANA na Bacia do São Francisco. E o que isso representa em termos de vazão que não pode ser utilizada e permanece no corpo hídrico. Como se pode observar em Minas Gerais, para um mesmo ponto de captação, o IGAM outorga ou autoriza para uso um volume até 58% menor que dos outros estados e a ANA. Por exemplo: se um empreendimento situado em Juatuba, com captação em afluente da Bacia Rio São Francisco, estivesse situado na Bahia, ele poderia ser autorizado a utilizar 12 m³/s a mais que em Minas.Trata-se de fato de uma contribuição significativa. Além disso, Minas possui outros instrumentos para gestão da escassez de água como a declaração de área de conflito em que as outorgas individuais passam a ser coletiva, e a DN 49/2015 que define um percentual de restrição de uso do volume outorgado segundo o grau de deficiência hídrica em determinada porção hídrica. Frente a esse arcabouço restritivo muitas empresas entenderam o valor estratégico da água na sua produção e implementaram programas de uso racional e reúso da água. Por exemplo, a mineração possui um indicador de reúso de água de 80%, o setor de açúcar e álcool, com a introdução da colheita mecânica, saiu de um consumo aproximado de 25 litros de água por tonelada de cana processada para cerca de 1,5 litro por tonelada. “O setor industrial não é contra a ideia maior de salvarmos os nossos rios. O setor reconhece a situação crítica de escassez e vem procurando

Critérios de outorga na Bacia do Rio São Francisco Estado

Fração Outorgável

Vazão de referência

ANA

70%

Q95

Bahia

80%

Q90

Igam

30 ou 50%

Q7,10

Pernambuco

Depende do risco que o requerente possa assumir

Sergipe

100%

Q90

Análise de dados em estações fluviométricas Estação Fluviométrica Ponte Nova do Paraopeba Fazenda Lemeira Porto Extrema

Curso hídrico

Município

Q7,10 (m3/s)

Q90 (m3/s)

Q95 (m3/s)

Paraopeba

Juatuba

17,5

29,5

24,9

Preto

Cabeceira Grande

8,9

18,8

13,7

Paracatu

Brasilândia de Minas

35,2

68,1

54,5

2

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  47


1

ENCARTE ESPECIAL FIEMG (3)

MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

Juntos por Mariana FIEMG e Fundação Renova assinaram, no Dia 26 de junho último, um Termo de Cooperação para estimular a economia de cidades atingidas por rejeitos da barragem de Fundão. O objetivo é unir os esforços em curso de reparação, restauração e reconstrução ecológica das regiões impactadas pelo acidente, em novembro de 2015, incluindo ações de fomento de capacitação profissional de suas populações. A Renova atua em ações de infraestrutura, restauração ambiental, saúde, cultura, educação ambiental, inovação e estímulo à contratação local, entre outras, nos municípios ainda afetados pelos rejeitos em Minas e no Espírito Santo, inclusos na Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Para o presidente da Fundação Renova, Roberto Waack, a parceria busca aproveitar um dos pilares de atuação de ambas as federações de indústrias, que é a excelência em capacitação de mão-de-obra. “Queremos utilizar a longa tradição delas no campo de capacitação profissional, de modo que possamos acelerar o processo de inclusão das pessoas que trabalham nas regiões de nossas atividades”, afirmou. Segundo Olavo Machado, presidente da Fiemg, o apoio firmado é para gerar sustentabilidade, negócios e oportunidades em ambos os estados: “O que já aconteceu, aconteceu. Precisa ser corrigido, e as perdas, compensadas. A tarefa, agora, é construirmos um novo final para a tragédia, com justiça e criação de oportunidades”, afirmou.  48  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

FOTO: SEBASTIÃO JACINTO JR.

e pelo Rio Doce

Marcelo Figueiredo, Olavo Machado e Roberto Waack: união em busca de um novo final para a tragédia


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1 PREMIAÇÃO

TV HORIZONTE: A BENÇÃO DE BENTO Documentário ambiental produzido pela emissora católica, parceira da Revista Ecológico, vence prêmio de comunicação da CNBB

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

U

m ano após o desastre provocado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), os moradores afetados continuam sua luta, por meio da fé e da esperança, para superar as consequências que sucederam a destruição ambiental. Foi com o propósito de fazer esse registro que a TV Horizonte, parceira da Revista Ecológico, produziu e lançou o contundente documentário “O Bento, Terra da Gente”. Durante cinco dias, a equipe da Rede Catedral, em parceria com a PUC TV Minas e o apoio da CatóliAssociação Católi ca de Comunicação visi(Signis Brasil), visi tou a região atingi atingida e ouviu relatos mode diferentes mo habiradores que habi tavam o distrito de soBento Rodrigues, so terrado pela lama. Com o olhar so social sobre as causas, a produção mostra como a união e a de devoção do povo são importantes no pro processo de reconstru reconstrução de suas vidas. Exibido pela TV Horizonte em novembro de 2016, um ano após o

EDUARDO BANDEIRA, diretor-executivo da Rede Catedral, e o produtor João Eugênio: troféu ambiental

acidente de Mariana, o documentário foi um dos grandes destaques da 50ª edição do “Prêmio Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)”, realizada em Trindade (GO). O evento reuniu as emissoras católicas de rádio e televisão de todo o país. “O Bento, Terra da Gente” foi o vencedor da categoria “Clara de Assis” de melhor documentário. “A premiação tem grande importância no reconhecimento público do trabalho em equipe na divulgação da questão ambiental. No ano em que a Campanha da Fraternidade tem como tema ‘cultivar e guardar a Criação’, o

documentário vem ao encontro da preservação da vida humana e do meio ambiente”, destacou o diretor-executivo da TV Horizonte, Eduardo Bandeira, que esteve na cerimônia acompanhado do apresentador e produtor João Eugênio.  SAIBA MAIS

Assista ao documentário na íntegra na página da TV Horizonte no YouTube: goo.gl/Pjcg4x. A TV Horizonte pode ser assistida pelo Canal 22 da NET, 19 UHF ou sintonizando em qualquer parabólica do Brasil. A programação também está disponível, em tempo real, no site tvhorizonte.com.br.


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1

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ARNOLD E O EXTERMÍNIO DO PIB

F

oi vivendo o personagem andróide T-800 que Arnold Schwarzenegger imortalizou a frase: - I’ll be back! Até achei que ele iria voltar mesmo, mas pensei que fosse nas telas, numa interminável sequência do robô-herói que salva o mocinho humano. Só que ele ameaça voltar de outro jeito, na forma de máquinas e algoritmos que bem podem melhorar nossa vida ou acabar com ela. De um jeito ou de outro, Houston, nós temos um problema! Foi dizendo isso que a Apollo 13 anunciou que podia não voltar pra Terra. É dizendo isso que precisamos explicar didaticamente para nossos governos que o avanço da tecnologia implica repensar o trabalho. E fazer isso é repensar a produção e os preços, e o Produto Interno Bruto (PIB) pode ficar louco. Imagine um mundo com tecnologia infinita. Numa conta de padeiro, onde tudo se pode, toda felicidade é possível e se o PIB, última instância, mede o bem-estar de um povo, estamos na praça! É nóis! Mas não vai funcionar assim! A gente aprende que as empresas, força da competição da China ou do mercadinho da esquina, precisam entregar cada vez mais pelo mesmo preço. Todas elas foram vítimas de um encanto que parece maldição: inovar, inovar, inovar. Mas inovar é cada vez mais difícil num mundo onde todo mundo pode fazer isso. E onde, convenhamos, pouco se inova, muito se melhora em processos, mais ainda se “passa batom no porco”. Ele está bonitinho, mas ainda é um porco! Será que vai valer a pena investir, perguntam os empreendedores, num mundo onde investir não retorna mais em renda que valha a pena? Melhor será deixar o dinheiro no banco, mas até o banco pode não ter o que fazer com ele. Nesse mundo em que máquinas tomam o lugar de muitos de nós, não haverá trabalho. Não havendo trabalho, não há renda. E sem ela preços não fazem

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sentido, repito. Vender cada vez mais, porque temos tecnologia, para cada vez menos gente, já que não temos dinheiro para comprar. A conta não fecha e não faz sentido nenhum ou faz todo o sentido do mundo. Os humanos capitulam diante de T-800, mas, desta vez, ele não tem nas mãos uma arma aterrorizante, nem vem montado numa motocicleta negra. Ele apenas nos encurrala num beco sem saída e nos pergunta: se eu posso fazer quase tudo o que você faz, para o que é que você existe? Se o encurralado for um economista, é nessa hora que ele perguntará: pra quê PIB, meu amigo? Numa sociedade em que entende o valor do humano, ser rico ou ter salário não é necessidade. A renda é distribuída na forma de educação, lazer, saúde, segurança, transporte e alimentação de graça, com qualidade. Nessa sociedade, o maior desafio não é ofertar trabalho às pessoas, porque elas terão renda básica, mas sim ofertar sentido para suas vidas, a capacidade de criar. Partidos me chamarão de socialista. Paradoxalmente, outros dirão que sou liberal. O mundo oscila entre teses que são só o que queremos ver. Para mim, não é política: é realidade! É filosofia! É tecnologia, aquela que desmonta todos os dias nossas certezas e, aos economistas, reserva sempre uma pergunta desconcertante: - PIB? Que PIB?

TECH NOTES  O fim do PIB

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 Onde está rolando a renda mínima

goo.gl/U87BSY

(*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arbórea Instituto.


SUSTENTABILIDADE

FOTOS: DIVULGAÇÃO

PERSPECTIVA do memorial: arquitetura contemporânea e uso de equipamento de tratamento térmico com tecnologia limpa, sem emitir barulho, fumaça ou odor

IMPASSE NO

VALE DO SOL Mesmo ambientalmente correto, empreendimento mais moderno da América Latina no setor de crematório gera polêmica em Nova Lima

“V

iver não é preciso, morrer é preciso.” Parafraseando de modo invertido o poeta português Fernando Pessoa, o nosso viver e sobreviver são mesmo imprecisos. Nunca saberemos como ou quando iremos morrer. Assim, melhor deixarmos um legado ecológico e também de mais qualidade de vida tanto para o planeta quanto para os filhos e netos

54  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

que nos sucederão. Essa é a filosofia que permeia, sob a égide da sustentabilidade, o Memorial Vale do Sol, primeiro projeto ambientalmente correto de cremação em edificação no ale do Sol, em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte. O processo de legalização do empreendimento está em curso, mas tem sido marcado por polêmicas, envolvendo a Prefeitura de Nova Lima,

a empresa responsável e também a comunidade vizinha, que questiona, entre outros aspectos, a instalação de um empreendimento de tal natureza na avenida principal do bairro, cuja vocação maior é a gastronomia, com a presença de vários restaurantes e bares. Diretor-geral do Memorial Vale do Sol, o empresário Felipe Dias lembra que a morte, em nossa so-


FOTO: ECOLÓGICO

FELIPE DIAS: "A morte ainda é cercada por tabus. A maioria se esquece de que todos vamos passar por isso. É o ciclo da vida"

ciedade, ainda é cercada de muito tabu, o que dificulta sua tratativa. “A maioria se esquece de que todos vamos passar por isso um dia. É o ciclo da vida, algo natural e que, portanto, merece ser analisado e debatido.” Primeiro, segundo ele, é preciso esclarecer que a técnica é de tratamento térmico, de desidratação, e não de queima de corpos, como sugere o nome cremação. “Esse procedimento é, sem dúvida, a melhor alternativa aos riscos ambientais representados pelos cemitérios. O serviço de tratamento térmico não oferece riscos de

contaminação do solo e dos lençóis freáticos, como ocorre com o sepultamento nos cemitérios, além de contribuir com a não ocupação de novos terrenos”, assegura. Outra vantagem, aponta o empresário, é o custo do tratamento térmico, menor do que o do sepultamento convencional, pois não requer, por exemplo, despesas com o pagamento de terreno no cemitério ou a locação de jazigo. Após a incineração, as cinzas são entregues à família ou podem ser guardadas em urnas no columbário. “Sobre a escolha do local, um aspecto decisivo são as perspectivas de desenvolvimento do Vetor Sul de BH, que envolvem grandes projetos na área da saúde, o novo eixo viário e o plano de desenvolvimento Água Limpa, além dos condomínios já existentes. “Seus moradores não precisarão enfrentar todo o trânsito de BH para se deslocar até os crematórios existentes na RMBH”, destaca o empresário. RESISTÊNCIA ESPERADA Para os moradores do Vale do Sol, pesa o fato de não ter havido diálogo inicial com a comunidade, de o bairro ainda carecer de investimentos em infraestrutura por parte do poder público e, claro, o medo

SAIBA MAIS  No distrito de Macacos (São Sebastião das Águas Claras), em Nova Lima, há um crematório de animais. Ele funciona próximo a residências, pousadas e restaurantes. O processo de tratamento térmico usado no local é praticamente o mesmo do Memorial Vale do Sol, não gerando qualquer tipo de fumaça, odor ou incômodo para os vizinhos.  Outro exemplo similar em atividade em Belo Horizonte é a Funeral House, casa de velório urbano que funciona na Avenida Afonso Pena, no bairro Funcionários.

do desconhecido. o que afirma a presidente da Associação dos Proprietários e Moradores do Vale do Sol (Aprevs), Camila Alterthum. “Ficamos surpresos em saber que a construção já estava em andamento, mesmo sem o nosso conhecimento. A comunidade se indignou pois não considera adequado um bairro que ainda precisa de iluminação, água, esgoto e pavimentação em muitas vias receber um empreendimento como esse. E tem também a questão simbólica da morte, que acredito ser o principal incômodo da maioria”, afirma amila.

LATERAL do empreendimento: a operação será toda pela Rua Atlas, ao fundo; e não pela avenida principal

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  55


SUSTENTABILIDADE CEMITÉRIO É FONTE DE POLUIÇÃO O necrochorume, que não é gerado na cremação, é constituído de água, sais minerais e substâncias orgânicas que poluem o lençol freático e são vetores de doenças. Nele também podem ser encontrados formaldeído e metanol, usados no embalsamento de corpos, além de metais pesados (nos adereços dos caixões) e resíduos hospitalares, como medicamentos.

Cada cadáver verte cerca de 200 mililitros de necrochorume por dia, com alta carga tóxica e microbiológica, vírus e bactérias. Como o próprio nome sugere, é parecido com o chorume gerado pelos resíduos dos aterros sanitários. A diferença entre o aterro e o cemitério é que, no último, o funcionamento é mantido indefinidamente, fazendo dele uma fonte permanente de contaminação. 

Quando escapa do túmulo, o necrochorume entra em contato com o lençol freático, criando uma mancha de poluição que pode atingir quilômetros de distância, contaminando poços e rios. 

O licenciamento ambiental de cemitérios está previsto nas resoluções 335/2003, 368/2006 e 402/2010 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Elas preveem uma série de regras para o funcionamento desses locais, como distância mínima do nível inferior do jazigo até o lençol freático, distância entre a área de sepultamento e o muro do cemitério, bem como a exigência de sistema de drenagem de águas pluviais para evitar alagamentos etc.

Na maioria das grandes cidades brasileiras, o principal desafio é a falta de espaço para a abertura de novos cemitérios. De modo geral, as áreas disponíveis não têm profundidade suficiente para manter uma distância segura do lençol freático, elevando os riscos de contaminação. A essa realidade somam-se ainda a superlotação dos cemitérios já existentes, o alto preço para aquisição de novos jazigos e o crescimento exponencial da população. 

O cemitério vertical mais alto do mundo fica em Santos (SP). Tratase da Memorial Necrópole Ecumênica (foto ao lado), que começou a ser construído em 1983 e tem 14 mil lóculos, distribuídos em 14 andares. 

(Com informações da Agência Brasil).

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Felipe Dias esclarece que manifestações contrárias foram identificadas em praticamente todos os crematórios urbanos instalados no Brasil. “A resistência de alguns moradores é compreensível, em especial pelo desconhecimento que envolve o processo de cremação no país. Por aqui, o percentual de prestação desse serviço é de apenas 3%”, destaca. Segundo dados da Associação Cemitérios e Crematórios do Brasil (Acembra) somente 40 crematórios são filiados entidade. Em Minas, apesar da sabida existência de quatro (Contagem, Betim, Santa Luzia e Uberlândia), a entidade só tem o registro de duas empresas: uma na capital e outra no interior. Ao contrário do que ocorre em países da Europa, nos EUA e até mesmo da América do Sul, onde o cuidado ambiental ocupa lugar de destaque nas agendas política e social. Em muitos locais, a prática da cremação supera o sepultamento tradicional, como no Peru (85%), na Argentina (65%), em Portugal (54%) e nos EUA (48%). Seguindo o modelo de crematórios existentes em áreas comerciais e residenciais, o Memorial Vale do Sol é fruto de um longo trabalho. Ou seja, de pesquisas acerca das melhores práticas do setor e também visitas a mais de 40 empreendimentos no Brasil e exterior. O resultado será um empreendimento 100% ecológico, o mais moderno e sustentável da América Latina em seu segmento de atividade, além de ser discreto, íntimo e funcional (leia mais a seguir). “Teremos no máximo três cremações por dia, realizadas no espaço interno, sem qualquer visibilidade externa. Além disso, não haverá qualquer tipo de manipulação e/ou preparação de corpos no local. Apenas os serviços de velório e cremação”, esclarece o empresário. RESPOSTA POSITIVA Felipe Dias afirma que á foram feitas três consultas prévias ao Município – em 2014, 2015 e 2016 –, e todas foram positivas com relação à legalidade


FOTOS: DIVULGAÇÃO

Diferenciais técnicos e ecológicos

HALL DE ENTRADA, onde já foi plantada uma oliveira centenária, cultuada como a “Árvore da Vida”. E o muro “verde”, com muita flor e sem placa de identificação, para harmonizar o ambiente

O serviço prestado pelo Memorial Vale do Sol vai usar tecnologia limpa. O equipamento de tratamento térmico, de fabricação alemã, não emite qualquer tipo de barulho, fumaça ou odor. Além disso, destacam-se os baixíssimos índices de emissão de CO2 no processo, emanando menos carbono na atmosfera do que um carro de passeio. 

O equipamento também atende com total segurança às diretrizes da Resolução Ambiental 316, do Conama, bem como as normas de tratamentos térmicos NBR 12.313, que regulamentam o controle e a segurança de processos térmicos de combustão. O laboratório de tratamento térmico será 100% isolado, com entrada própria e restrita.

O processo será feito em dois estágios. Na câmara primária fica a matéria orgânica. A secundária é o local em que

se acomodam os gases da câmara primária. Na câmara secundária ocorre nova queima dos gases e o fluxo segue para as partes de filtro e injeção corretiva de O2. Por lei, a emissão deve ser inferior a 100 ppm de CO e a média do equipamento após essa compensação eletrônica é de cerca de 10 ppm de CO.

biodegradáveis. Supressão total do ambiente fúnebre, tanto no interior quanto no exterior do empreendimento. Estrutura minimalista e funcional. Ambientes sociais internos planejados para melhor conforto e privacidade familiar. Contará, ainda, com uma cafeteria. Arquitetura contemporânea e elegante, com total acessibilidade para cadeirantes, além de paisagismo e jardinagem com plantas típicas do Cerrado e da região.

Do ponto de vista construtivo, o Memorial Vale do Sol é 100% sustentável. Adota princípios Green Building (construções verdes), com aproveitamento da iluminação natural durante o dia, iluminação com lâmpadas LED, sistema fotovoltaico para captação de energia solar, captação e reutilização de água da chuva e piso permeável. São 609 metros quadrados de área construída, com investimento total estimado em R$ 4,5 milhões.

Entre as urnas a serem comercializadas, haverá opções de hidrossolúveis e

Recursos audiovisuais com tecnologia de ponta, incluindo transmissão por live streaming (transmissão ao vivo) e possibilidade de envio de mensagens de conforto em tempo real para os familiares.

Uso de materiais gráficos/ papeis reciclados e compensação de emissão de carbono com o plantio de árvores.

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  57


SUSTENTABILIDADE

58  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

FOTO: GOOGLE EARTH

EXEMPLOS INTERNACIONAIS

FOTO: GOOGLE EARTH

UITVAARTCENTRUM Crematorium Westgaarde, em Amsterdã, capital da Holanda: o empreendimento funciona em frente a um shopping, que conta com várias lojas de grife e restaurantes

KREMATORIUM Ruhleben, em Berlim, na Alemanha: o prédio está localizado em frente a um centro comercial onde estão instalados cafés e lanchonetes

FOTO: FELIPE CHISTÉ DIAS

da prestação desse tipo de serviço no local. Em 2015 e 2016 também foram emitidas respostas favoráveis pela Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg). “A consulta prévia é um documento de extrema relevância, pois é ela que encoraja o empreendedor a seguir adiante com o seu projeto, a fazer investimentos. Ela é a garantia de que a atividade é passível de ser desenvolvida no local pretendido”, ressalta. Outros importantes documentos para o andamento das obras foram três declarações (2014, 2015 e 2016) ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), assinadas pelo então prefeito e secretário de Meio Ambiente, confirmando que o empreendimento encontrava-se dentro das exigências do município de Nova Lima. Segundo o empreendedor, o Memorial, que está sendo construído na Quinta Avenida com fundos para a Rua Atlas, também já tem o Estudo de Impacto da Vizinhança (EIV) e o Relatório de Impacto de Vizinhança (RIV), encomendados para mapear e, se for o caso, minimizar algum impacto do empreendimento no local. A empresa também já obteve a Autorização Ambiental de Funcionamento (AAF), emitida em maio do ano passado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Nova Lima informou, por meio de nota, que: “Conforme Lei Orgânica, compete ao município a autorização da abertura de estabelecimento de serviços funerários de crematórios por particulares bem como sua fiscalização. No caso em questão, o alvará da Prefeitura foi expedido exclusivamente para a construção de um prédio comercial. Dessa forma, não há nenhum Alvará de Localização e Funcionamento da Prefeitura de Nova Lima para a instalação de um empreendimento deste teor no local”. Também procurado pela reportagem, o atual secretário de Meio Ambiente de Nova Lima, Danilo Vieira Júnior, não se manifestou até o fechamento desta edição.

DUE DIERENCREMATORIUM, também em plena zona urbana e residencial de Amsterdã, onde as pessoas transitam naturalmente, sem se sentirem incomodadas


Poluir não é preciso

Qual a abrangência da pesquisa e quais os principais problemas identificados nos cemitérios? Foram pesquisados 1.892 cemitérios tradicionais, no período 1970/2017, sendo 70% deles públicos ou municipais e 30% particulares ou privados, em 14 estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte, Maranhão e Amazonas. Os prin-

“Em todo o mundo contemporâneo, os crematórios são hoje a alternativa com justificativa econômico-ambiental mais positiva e moderna. Nos aglomerados urbanos, os crematórios operam de maneira quase imperceptível.” cipais problemas são localização geológica por vezes imprópria, construção inadequada de sepulturas e jazigos, má disposição dos resíduos sólidos operacionais, presença de vetores zoonósicos (animais transmissores de doenças) e exaustão da sepultabilidade. A coleta de dados segue ativa? Quais as principais novidades e avanços? Sim. A pesquisa nacional continua ativa. O conhecimento cemiterial foi enriquecido e aprimorado. Tecnologias foram desenvolvidas e colocadas em domínio público, como é o caso dos absorventes funeráFOTO: SEDEMA PIRACICABA

Segundo pesquisa coordenada desde os anos 1970 pelo geólogo Lezíro Marques-Silva, de São Paulo, o sepultamento convencional de corpos gera vários impactos ambientais, em especial no solo e nas águas. Dos quase 1,9 mil cemitérios analisados no Brasil, 75% apresentam problemas sanitários e ambientais, tais como localização geológica inadequada, vazamento/ contaminação por necrochorume e exaustão da sepultabilidade. Consultor e assessor técnico autônomo desde 2016, Marques-Silva é mestre em engenharia sanitária/civil (Arizona State University) e doutor Honoris Causa (The London Institute for Applied Research). É idealizador e detentor da patente do primeiro absorvente funerário no mundo (necronete) e de outros produtos para absorção, secagem e neutralização tóxico-microbiológica da matéria orgânica e do necrochorume produzidos pelos corpos sepultados. É, ainda, autor de mais de 200 artigos, publicações e trabalhos – no Brasil e no Exterior – sobre a temática cemiterial. Confira, a seguir, a entrevista dele à Ecológico:

LEZÍRO: "Churrascarias e alguns restaurantes poluem muito mais a atmosfera que cemitérios"

rios para os efluentes cadavéricos, necroxidantes (solução aquosa desinfetante), monitoramento hidrogeotanológico, etc. Que diretrizes prefeituras e governos estaduais devem adotar no sentido de cuidar dos cemitérios já existentes e melhor planejar os que serão construídos? Obedecer a legislação pertinente e praticar proativamente as resoluções e normas específicas, tais como as resoluções 335/2003, 368/2006 e 402/2010 do Conama, assim como os códigos sanitários estaduais. Estrategicamente, as prefeituras também devem: promover estudos hidrogeoambientais e sanitários dos cemitérios e crematórios, respeitar a obrigatoriedade de sepultação adequada – com o uso de lajes de contenção para o necrochorume etc. – e o uso também obrigatório de absorventes funerários (necronetes) e saquitéis (que podem ser colocados dentro do caixão), além de necroxidantes. Como a busca de alternativas ao sepultamento convencional, seja por meio da instalação de crematórios, cemitérios verticais etc., é tratada em outros países? Há exemplos que possam servir de referência?

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  59


SUSTENTABILIDADE Para as nossas condições e/ou características morfoclimáticas e socioambientais, os cemitérios verticais não são uma solução recomendável. Em todo o mundo contemporâneo, os crematórios são hoje a alternativa com ustificativa econ mico-ambiental mais positiva e moderna. No Brasil, há vários crematórios – públicos e privados – operando muito bem, em cidades de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro etc. Na capital paulista, a cremação de cadáveres adultos custa de 10% a 17% do valor de um sepultamento em cemitério horizontalizado (público e particular). No caso dos moradores do Bairro Vale do Sol, em Nova Lima, que “rejeitam” a pre-

sença de um crematório na vizinhança, o que senhor pode esclarecer ou orientar? Nos aglomerados urbanos, os crematórios operam de maneira quase imperceptível, sem gerar fumaça ou aromas incomodativos/desagradáveis. Os sistemas de incineração cadavérica e de purificação e depuração dos efluentes gasosos são eficientes e protetores das condições atmosféricas e ambientais. A disposição final das necrocinzas também é segura e discreta. As churrascarias e alguns restaurantes poluem muito mais a atmosfera, tanto com cheiros pronunciados como na emissão de poluentes (partículas de gordura, substâncias graxas e dioxinas, compostos altamente tóxicos, resultantes da combus-

tão). Idem para as torrefações de café. Estes sim, podem ser vizinhos indesejáveis! E à Prefeitura de Nova Lima, alguma recomendação? É bastante recomendável a execução de estudos apropriados, tais como viabilidade hidrogeoambiento-sanitária e técnico-econômica-operacional, etc. Dentre os nossos trabalhos publicados sobre a temática cemiterial – dezenas deles disponíveis na Biblioteca da Cetesb-SP –, há pelo menos cinco referentes a cremação e crematórios humanos.  SAIBA MAIS

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FLORESTA

DO FUTURO

Plantando o Futuro consolida parcerias e fomenta a recuperação ambiental do Estado a partir do plantio de árvores nativas e da reabilitação de nascentes

O

Projeto Plantando o Futuro, lançado em março de 2016 e coordenado pela Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), concluiu no primeiro semestre deste ano o plantio de mais de 225 mil mudas de árvores nativas em áreas degradadas, a proteção e a recuperação de 20 nascentes e viabilizou a produção de 1,4 milhão de árvores, em cinco viveiros. Por meio de convênios e parce-

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rias, o programa concretizou ações em municípios distribuídos em nove dos 17 Territórios de Desenvolvimento, atendendo à determinação do Executivo estadual para melhorar as condições de vida da população de maneira descentralizada e pluralizada. No Sul de Minas, o cercamento e a recuperação de 20 nascentes, realizados em parceria com a ONG Grupo Dispersores, foram acompanhados do plantio de 13

mil mudas nativas, nos municípios de Piranguçu, Piranguinho, Brazópolis, Paraisópolis, Wenceslau Braz, Delfim Moreira, onçalves, ta ubá, Pedralva e Santa Rita do Sapucaí. Além das nascentes reabilitadas, mais 28 olhos d’água já receberam a vistoria técnica e aguardam o envio de insumos para a proteção ou aguardam a assinatura do termo de compromisso por parte dos proprietários dos terrenos. Ainda na Região Sul, por meio de convênio


FOTO: CENTRO DE FORMAÇÃO FRANCISCA VERAS

FIQUE POR

DENTRO

Ações do programa em números: Produção atual de mudas: 1.400.000 árvores/ano Previsão para o fim de 2017: 5.000.000 de mudas/ano Nascentes com recuperação concluída: 20 Nascentes diagnosticadas: 1.043 Nascentes que aguardam o envio de material para recuperação ou assinatura do termo de compromisso do proprietário: 28

E RO DE UBER ND A tem capacidade para produzir 120 mil mudas por ano assinado com o Centro de Formação Francisca Veras – que prevê a recuperação de áreas degradadas em assentamentos legalizados pela Reforma Agrária –, foram concluídas as obras de um viveiro sediado em Campo do Meio, para a produção de 120 mil mudas por ano, destinadas a abastecer assentamentos na própria cidade e também em Guapé. Como previsto em seu plano de trabalho, o Centro Francisca Veras também está operando mais três viveiros florestais. Juntas, as estruturas em Periquito, Montes Claros e Uberlândia têm capacidade anual de produção de mais de 480 mil mudas de árvores. A entidade também começou a realizar plantios. Cerca de 40 mil mudas já vicejam em Campo do Meio, nos assentamentos Primeiro do Sul e Nova onquista . As cidades de Jampruca (Assentamento Manoel Ferreira Alves), Uberlândia (Assentamento Emiliano Zapata) e Governador Valadares (Oziel Alves) receberam o plantio de mil mudas cada. Também em

Uberlândia, a Codemig promoveu o plantio de 3.800 mudas de espécies nativas para recuperar a Área de Preservação Permanente (APP) dos córregos Liso e Guaribas. O cultivo foi feito por empresa contratada pela Codemig e recebeu apoio do nstituto Estadual de Florestas ( EF), que doou parte das futuras árvores. RIO MANHUAÇU Visando à recuperação da Bacia do Rio Manhuaçu, o nstituto erra que por intermédio do Plantando o Futuro conseguiu a liberação de R$ 5,5 milhões do Fundo de Recuperação, Proteção e Desenvolvimento Sustentável das Bacias Hidrográficas do Estado de Minas Gerais (Fhidro), para recuperar 1.000 nascentes na região – concluiu o diagnóstico ambiental de 1.043 olhos d’água. A partir do envio do relatório ao Fhidro, serão definidos planos de trabalho para recuperar as nascentes. A ação mobilizou mais de 500 pessoas interessadas em recuperar olhos d’água em suas

propriedades. Na região Central do Estado, outras 800 mil mudas de espécies da Mata Atlântica e do Cerrado foram geradas no Viveiro de tabira, construído em parceria com o nstituto Espinhaço. Do total, 165.454 plantas já foram introduzidas no solo de cidades localizadas na região da Serra do Espinhaço. tabira recebeu 71.685 mudas, Gouveia 45.560, Dom Joaquim 31.753 e Congonhas do Norte 16.456. Os quatro viveiros gerenciados pelo Centro de Formação Francisca eras e o iveiro de tabira, operado pelo nstituto Espinhaço, estão em fase de ampliação. Até o fim de 201 , as cinco estruturas terão capacidade de gerar mais 1,6 milhão de árvores, totalizando produção anual de três milhões de unidades arbóreas. E para reforçar a ‘semeadura’ de novas florestas, três viveiros do EF serão readequados, por meio de convênio assinado com a Codemig, para produzirem dois milhões de mudas por ano em três cidades: Patos de Minas, Corinto e Leopoldina. SAIBA MAIS

www.codemig.com.br www.plantandoofuturo.mg.gov.br

2 JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  65


FOTO: JOSÉ REYNALDO DA FONSECA

INFORME PUBLICITÁRIO

Sistema online melhora atendimento a usuários de água e desafoga Suprams Produtores rurais de Minas Gerais contam com um sistema online para cadastro de pequenos usos de água do nstituto Mineiro de estão de guas ( gam). A iniciativa, lançada em maio, deve beneficiar cerca de 30 mil produtores por ano, que passaram a ter acesso ao cadastro e também à regularização de forma eletrônica e gratuita, assegurando maior celeridade ao processo. Com base nos primeiros levantamentos, foram feitas 4.591 solicitações de uso insignificante de recursos hídricos no Sistema, considerando o período que se estendeu de 25 de maio a oito de unho. As finalidades de uso que concentram maior número são consumo humano, dessedentação de animais e irrigação.

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O desenvolvimento da nova ferramenta, autodeclaratória e sem cobrança de taxas, envolveu vários órgãos, tendo como objetivo principal facilitar a vida do cidadão. Essa, aliás, é a linha que o Governo de Minas Gerais tem adotado para reduzir a burocracia, prestando melhores serviços e reduzindo o tempo de espera por autorizações, documentos etc. O novo serviço também vai ajudar a identificar e regularizar o chamado uso insignificante da água, referente a pequenas vazões de água em propriedades rurais. A legislação prevê que, para esses usuários, não é necessária a concessão de outorga pelo poder público, cabendo somente o registro.

DADOS MAIS CONFIÁVEIS A criação do sistema integra um compromisso do governo mineiro no âmbito do Pacto pelo Cidadão, e vai substituir o fluxo atual, que é mais moroso, com duas etapas de formalização nas Superintendências Regionais de Meio Ambiente (Suprams), bem como o pagamento de taxa e o envio de certidões pelos Correios. Outra vantagem é que o Estado terá dados mais confiáveis dos usos, em especial dos pequenos, permitindo que todos os órgãos e entidades afins possam melhor planejar as ações necessárias, diante de eventos extremos, como as secas. De acordo com especialistas do gam, o novo sistema tem como objetivo primordial desburocratizar


FIQUE POR DENTRO

 O conceito de pequenos usos da água corresponde àqueles considerados de “pouca expressão” ou insignificantes, ou seja, utilização de pequena vazão de captação ou o volume diário destinado a atender a necessidades do usuário. Exemplos: pequenas áreas de irrigação, dessedentação animal, consumo humano, etc.  Tais valores equivalem

a uma vazão instantânea inferior a 0,5 l/s ou 1 l/s, de acordo com a localização desse uso nas Unidades de Planejamento de Gestão de Recursos Hídricos (UPGRHs), conforme prevista na Deliberação Normativa CERH/MG n° 09/2004. Isso equivale a um consumo diário entre 43.200 e 86.400 litros/ dia para usos consuntivos (intervenção que altere a quantidade de água de um corpo hídrico, a partir da apropriação de determinado volume) e superficiais.  No caso de usos

consuntivos subterrâneos, captações em nascentes, poços manuais ou cisternas, é considerado o volume diário de 10.000 litros, conforme Deliberação Normativa CERH/MG 09/2004.

 Para captação de água

subterrânea por meio de poço tubular é determinado o volume diário de 14.000 litros, conforme critérios estabelecidos na Deliberação Normativa CERH/MG n° 34/2010. Vale salientar que referida DN abrange a região do semiárido mineiro e propriedades localizadas na zona rural.

a regularização do uso de recursos hídricos considerado insignificante a fim de que os usuários possam fornecer as informações da utilização e emitir a certidão online. Além disso, a emissão da certidão é gratuita e a validação de sua autenticidade por outras instituições, tais como bancos e entidades que oferecem linhas de financiamento a produtores/empreendedores, é feita via web, tornando mais rápida a resposta às solicitações feitas pelos usuários. Outro importante diferencial da iniciativa será a maior aderência dos usuários de águas à regularização, impulsionando a melhoria na gestão de recursos hídricos pela abrangência da aplicação da política pública das águas. Com o sistema online, o cidadão não precisará mais se deslocar às Suprams para realizar seu cadastro, como ocorria até então. Para se ter uma ideia dos deslocamentos necessários, Minas Gerais tem 853 municípios e apenas nove Suprams para atender todo o Estado. A expectativa é de que haja uma queda de mais de 50 do fluxo no balcão das Suprams, eliminando, em média, 27 atendimentos diários, nas nove unidades existentes, e permitindo, assim, que se atenda melhor às demais demandas de regularização, tanto no contexto documental quanto de esclarecimentos ao público. Em 2015, foram realizados 59.049 atendimentos nos balcões das Suprams referentes a solicitações de usos insignificantes, o que corresponde à formalização do Formulário de Caracterização de Empreendimento (FCE) e dos documentos estabelecidos no Formulário de Orientação Básica (FOB), sendo que o usuário necessitava procurar o balcão no mínimo duas vezes. O atendimento médio relativo ao uso insignificante em cada uma das nove Suprams foi de 6.561, o que corresponde ao atendimento

médio de 27 usuários/dia nos balcões. O novo sistema foi concebido para facilitar o acesso à regularização do uso da água. Contudo, vale ressaltar que a gestão de recursos hídricos tem como base essencial informações e dados com confiabilidade técnica. Portanto, antes de iniciar o cadastro online, o usuário deverá providenciar as inforinfor mações necessárias e obrigatórias para a obtenção da certidão, tais como: coordenadas geográficas da intervenção de recursos hídricos, características da intervenção, vazão e finalidafinalida de, bem como dados do usuário/emusuário/em preendedor e do empreendimento. Primeiro produtor a receber o certificado eletr nico de pequenos usos da água, Camilo Machado Filho, da cidade de Baldim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, conta que a regularização trará mais segurança para o seu dia a dia. “Vai ser uma garantia para usar a água de forma mais tranquila. A gente fica com medo de ser multado. Agora, é só alegria”, comemorou.  SAIBA MAIS

Para efetuar os cadastramentos dos usos insignificantes, o interessado deve acessar um dos seguintes endereços: http://usoinsignificante.igam.mg.gov.br http://aguaonline.igam.mg.gov.br

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revistaecologico.com.br

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1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - LIXO ELETRÔNICO

Reflexão mais ampla sobre a realidade brasileira deve envolver gestores públicos, em conjunto com pesquisadores, fabricantes, distribuidores, recicladores e a sociedade organizada. Implementação efetiva da logística reversa também é essencial Luciana Morais

redacao@revistaecologico.com.br

A

indústria eletroeletrônica, uma das que mais crescem em todo o mundo, gera a cada ano aproximadamente 40 milhões de toneladas de resíduos sólidos provenientes, sobretudo, de computadores e smartphones. Esse tipo de resíduo, também conhecido como e-lixo ou lixo eletrônico, caracteriza-se por conter substâncias potencialmente tóxicas, como chumbo, mercúrio, cádmio e retardantes de chama, assim como materiais de valor econômico, entre os quais, cobre, ouro, prata e alumínio. No entanto, entre 60% e 90% desses resíduos – que contêm vários materiais recicláveis, com valor estimado em US$ 19 bilhões –, são comercializados ilegalmente, 70  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

descartados junto aos resíduos domésticos e/ou se acumulam em bota-foras, elevando o risco de contaminação ambiental de inúmeras cidades ao redor do mundo. Na sociedade atual, em que a maioria da população vive conectada, ninguém quer abrir mão da comodidade e da interação proporcionadas por diversos aparelhos presentes em nosso dia a dia. Eles incluem desde celulares, computadores e TVs até câmeras fotográficas, impressoras, eletro-portáteis e eletrodomésticos de grande porte. Uma alternativa viável, portanto, é assegurar o descarte seguro do e-lixo, e, consequentemente, ajudar a fomentar a cadeia de reciclagem de seus principais compo-

nentes. Quando coletado, separado e reciclado adequadamente, o lixo eletrônico poupa a natureza e ainda contribui para melhorar a qualidade de vida e a saúde das pessoas. Dessa forma, evita a contaminação do solo e das águas, por meio do tratamento adequado dos materiais potencialmente tóxicos, e reduz a quantidade de resíduos sólidos a ser enviada aos aterros sanitários. Além disso, possibilita o uso dos materiais recuperados como matéria-prima para outros segmentos da indústria, tais como o químico e o farmacêutico. EFEITO ESTUFA Conforme especialistas, a reciclagem de uma tonelada de e-lixo evita a emissão média de três


toneladas de dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Apesar de não haver consenso sobre a quantidade exata de resíduos elétricos e eletrônicos gerada no Brasil e no mundo, algumas estimativas prevalecem. Entre os chamados países emergentes, tais como China e Índia, o Brasil é líder na geração desse tipo de resíduo por habitante: são aproximadamente 4,8 quilos/ano, conforme aponta relatório produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em 2015. Considerando apenas telefones celulares, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), há cerca de 243 milhões de linhas ativas no Brasil. Com uma população atual de 207 milhões de pessoas, isso equivale a 1,17 celular por habitante. Já o tempo médio de uso (vida útil) de um celular entre os brasileiros é inferior a dois anos. Do ponto de vista da legislação brasileira, em 2010, foi aprovada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Ela se destina a disciplinar a gestão adequada dos resíduos sólidos, observando a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização,

reciclagem, tratamento e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. Um dos pontos fundamentais dessa lei é o conceito da logística reversa, ou seja, conjunto de ações que permite o retorno dos resíduos aos fabricantes dos produtos, para que sejam tratados ou reaproveitados, dando origem a novos produtos. INCENTIVO À COLETA No segmento de telefonia móvel, uma das iniciativas de destaque no país é o programa “Claro Recicla”. Seu objetivo é contribuir para a conscientização da população sobre a importância de reciclar e também dar uma destinação ambientalmente segura aos celulares, baterias recarregáveis, chips e acessórios com vida útil ultrapassada. Por meio do Claro Recicla, lançado em 2008, a operadora monitora todo o fluxo de reciclagem do lixo eletrônico e mantém urnas em mais de dois mil pontos de coleta. A empresa também publicou uma cartilha com orientações sobre a forma correta de descartar eletrônicos obsoletos ou fora de uso. Para o consumidor, tudo é feito de forma prática. O cliente – inclusive de outras operadoras –

ENTENDA MELHOR

 De acordo com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), os equipamentos eletroeletrônicos compreendem quatro linhas de produtos: A) Linha branca: refrigeradores, fogões, secadoras e lavadoras. B) Linha marrom: monitores, TVs, equipamentos de áudio e filmadoras. C) Linha azul: batedeiras, liquidificadores, furadeiras e cafeteiras. D) Linha verde: computadores, notebooks, tablets e celulares.  Ao fim da vida útil desses equipamentos, quando descartados por seus usuários, eles passam a ser denominados resíduos eletroeletrônicos, e-lixo ou, na linguagem popular, lixo eletrônico.  A partir do descarte há as seguintes possibilidades de valorização desses produtos pós-consumo: reúso por terceiros (mediante sua reparação, caso estejam quebrados) ou a reciclagem.

pode depositar o material obsoleto de qualquer fabricante nas urnas coletoras. Não é necessário preencher formulários ou entrar em contato com os funcionários. Todo o material é coletado pela empresa Essencis, que o separa, classifica e encaminha para a reciclagem. Grande parte do trabalho é feita pela Umicore, uma das principais empresas de reciclagem de baterias recarregáveis e celulares do mundo. A Umicore tem um processo exclusivo de reciclagem, denominado VAL’EAS, voltado para a recuperação dos metais desses produtos, que ocorre em suas fábricas na Suécia e na Bélgica. Para consultar a lista dos pontos de coleta da Claro, basta acessar www. claro.com.br/clarorecicla. VISITAS GUIADAS Para encontrar locais seguros de descarte de lixo eletrônico, uma

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JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  71


1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - LIXO ELETRÔNICO boa dica é ficar atento às orientações dos fabricantes, em especial sobre os cuidados que se deve ter no manuseio de produtos obsoletos e seus componentes. As cooperativas e empresas de reciclagem também têm ampliado sua atuação em diferentes cidades brasileiras. Em São Paulo, estado que mais gera resíduos eletroeletrônicos no Brasil, boa parte da população ainda desconhece o impacto ambiental que o descarte irregular de equipamentos velhos ou quebrados acarreta. Para alertar sobre essa realidade, mensalmente, a Coopermiti (www.coopermiti.com.br), cooperativa sediada em Casa Verde, na Zona Norte, promove palestras e recebe a população para visitas guiadas. Durante os eventos, os visitantes podem aproveitar para descartar equipamentos

URNA COLETORA do programa Claro Recicla

eletroeletrônicos quebrados ou sem uso. A Coopermiti conta, ainda, com um museu tecnológico, acervo que reúne os objetos mais curiosos já entregues no local. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), São Paulo lidera a lista

dos maiores geradores de e-lixo, com 448 mil toneladas/ano. No entanto, a Coopermiti ainda opera abaixo da sua capacidade mensal por falta desse tipo de resíduo. Na capital mineira, a empresa BH Recicla (www.bhrecicla.com.br) atua na destinação de sucata metálica, eletrônica, informática, máquinas, equipamentos e estruturas industriais. Grandes e pequenos volumes podem ser descartados mediante agendamento online e também por telefone. É possível ainda solicitar a coleta grátis. A destinação segue as ações pautadas na PNRS e engloba os seguintes passos: triagem, desmontagem, descaracterização e classificação dos resíduos, sempre com foco na reciclagem dos componentes. A BH Recicla realiza, em média, 700 atendimentos por mês, incluindo empresas e consumidores individuais.

FIQUE POR DENTRO

 Em um único celular são encontrados nada menos que 15 metais diferentes, tais como cobre, ferro, alumínio, ouro, prata, paládio, estanho e berílio. Há, ainda, metais pesados contaminantes, como níquel, cromo, cobalto, chumbo, cádmio, arsênio e mercúrio.  Cada aparelho contém, em média, 250mg de prata, 24mg de 72  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

ouro e 9g de cobre. Multiplique esse número por 243 milhões (quantidade de linhas ativas no Brasil) e você terá uma ideia da economia que a reciclagem pode gerar para o meio ambiente, uma vez que até 80% dos componentes de um celular podem ser reciclados.  Entre os produtos fabricados a partir de componentes de um celular reciclado estão: baterias,

joias, brinquedos, garrafas, baldes, vassouras etc.  Além de durarem menos, baterias de celular piratas podem conter dez vezes mais mercúrio do que as vendidas legalmente. Altamente tóxico, o mercúrio prejudica o fígado e causa distúrbios neurológicos, como tremores, vertigens, irritabilidade e depressão.


FOTO: DIVULGAÇÃO

QUATRO PERGUNTAS PARA...

ANGELA CASSIA RODRIGUES

DOUTORA EM SAÚDE AMBIENTAL PELA FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DA USP, MESTRE EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO (UNIMEP) E ESPECIALISTA EM MEIO AMBIENTE (FESPSP)

REFLEXÃO CONJUNTA Em sua pesquisa de doutorado, a senhora investigou o fluxo dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (EEEs) no município de São Paulo. Em que ano a pesquisa foi feita e que universo ela abrangeu? Em 2010, com amostra estatisticamente representativa dos lares paulistanos, mediante entrevistas em domicílio, com o uso de questionário contendo perguntas sobre: o estoque de equipamentos eletroeletrônicos em uso e fora de uso, por tipo de equipamento (foram considerados 26 tipos), formas de descarte adotadas e as respectivas quantidades descartadas nos cinco anos anteriores à pesquisa (por tipo de equipamento). Além disso, foi feito um estudo exploratório em Portugal para conhecer a experiência bem-sucedida de gestão naquele país. Quais foram os principais resultados obtidos? No município de São Paulo havia 71,8 milhões de EEEs, com média de 21 EEEs/domicílio. Destes, 8,8 milhões estavam guardados (fora de uso). Embora a maioria dos relatos indicasse tentativa de prolongar o tempo de uso por meio do conserto, havia limitações econômicas e técnicas. Para 65% dos entrevistados, o custo do conserto era o maior fator impeditivo. Nos últimos anos, estimou-se que o descarte no município foi de 20,5 milhões de EEEs fora de uso, envolvendo destinação com intenção de reutilização (59,5%), de reciclagem (20,4%) e descarte no lixo comum (16%). A reciclagem de componentes eletroeletrônicos é complexa. Além de requerer tecnologias avançadas, envolve a manipulação de substâncias potencialmente tóxicas. Considera viável incluir os catadores de materiais recicláveis convencionais nesse processo? Venho estudando essa questão desde 2003, quando não se cogitavam pesquisas sobre esse tema no Brasil. Muitas cooperativas enfrentam desafios em sua gestão, em especial no que se refere à melhoria das condições de trabalho

Nós apoiamos essa ideia!

e à proteção da saúde da mão de obra envolvida. Li inúmeros artigos na literatura internacional sobre questões de saúde do trabalhador no setor de reciclagem e, por isso, não sou a favor de que esse tipo de resíduo seja manipulado em centrais de triagem operadas por organizações de catadores. Essas centrais são concebidas para o manejo de materiais recicláveis, predominantemente de produtos de embalagens, para os quais não há necessidade de cuidados adicionais e treinamento, como para os resíduos eletroeletrônicos. Em que pesem os treinamentos promovidos por ONGs bem intencionadas, a rotatividade desses trabalhadores é muito grande. Como o Brasil pode avançar rumo a uma reflexão mais ampla, que inclua, por exemplo, questionamentos sobre as altas taxas de descarte e hábitos que incentivem melhores decisões de compra? Como engajar a sociedade e os demais atores dessa cadeia? Uma reflexão mais ampla deve envolver, nesta ordem: gestores públicos, em conjunto com pesquisadores, fabricantes, distribuidores, recicladores e a sociedade organizada. Em grande parte dos descartes realizados, a “culpa” não é de quem descarta. Os produtos são projetados para durar pouco e não terem condições de serem reparados. Os fabricantes não disponibilizam peças de reposição em quantidade e tempo adequados e há um desestímulo aos serviços de assistência técnica. É isso que move a indústria: mais vendas, em curto prazo, maior o lucro. Os prazos de garantia deveriam ser ampliados e, os consumidores, pautarem suas compras pelos fabricantes que oferecessem prazos mais estendidos e garantissem a retirada/coleta gratuita do produto ao fim de sua vida útil. Um caminho importante nesse sentido seria a implementação efetiva da logística reversa, por meio de decreto governamental e não como vem sendo feita, mediante acordos setoriais, sem metas, responsabilidades e prazos claramente definidos. 

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1 VOCÊ SABIA?

Golfinhos e botos Juliana Pio

redacao@revistaecologico.com.br

Q

ual a diferença entre golfinhos e botos? Um vive em água salgada e o outro em água doce? Depende. A verdade é que não existem características anatômicas e fisiológicas que diferem golfinhos de botos e, sim, nomenclaturas regionais típicas de um país de grandes dimensões territoriais, como o Brasil. Confira:

ECOLOCALIZAÇÃO

MESMA ESPÉCIE, NOMES DIFERENTES

O Flipper, personagem famoso da série de TV norteamericana, pertence à espécie golfinho-nariz-degarrafa (Tursiops truncatus). Quando encontrado em águas costeiras de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul é chamado de boto. Mas, de Santa Catarina ao Nordeste brasileiro, ele vive em águas mais afastadas, por isso é conhecido como golfinho. Outra espécie, a “baleiaassassina” do filme Free Willy, na verdade, é um golfinho. Isso mesmo! A orca (Orcinus orca) [foto acima, à dir.] é a maior entre essas espécies.

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Os golfinhos utilizam o sentido da ecolocalização para obter informações de outros animais e do ambiente. Eles produzem sons de alta frequência (na faixa de 150 kHz), a partir do ar inspirado. Assim, atingem o objeto e voltam na forma de eco. Essa habilidade os permite identificar a distância, o formato, a movimentação, a densidade e a textura da presa.

SAIBA mais curiosidades sobre esses animais no site da Revista Ecológico: www.revistaecologico.com.br


No geral, vivem de 25 a 30 anos e dão à luz a um filhote por estação reprodutiva, que dura de 10 a 11 meses. Habitam áreas mais próximas à superfície da água e caçam geralmente em grandes grupos, alimentando-se principalmente de lulas e peixes.

BOTO-VERMELHO OU BOTO COR-DE-ROSA

O golfinho fluvial, conhecido como boto, boto-vermelho ou boto-cor-de-rosa, é o maior golfinho de água doce. Costumam-se concentrar-se na bacia de rios e abaixo de correntezas, tendo populações já identificadas na Bacia do Orinoco, na Bacia do Amazonas e na zona superior do Rio Madeira, todas na América do Sul. Movimentos em direção a florestas inundadas, lagos e canais ocorrem durante a estação das enchentes. Nadam lentamente e raramente saltam. A cor do corpo varia com a idade, limpidez da água, temperatura e localização. Em águas frias, a cor rosada pode desaparecer.

INTELIGENTES, ACROBATAS E SOCIÁVEIS

Animais muito inteligentes e ótimos nadadores, eles são mamíferos aquáticos da ordem Cetacea (mesma das baleias). Presentes em todos os oceanos e em algumas águas de rios, podem atingir velocidade de até 40 km/h em seu nado e saltar cinco metros acima da água, pois são acrobatas. São animais sociáveis, que vivem em grupos, podendo interagir com outras espécies, como os humanos.

CARACTERÍSTICAS

Possuem de 45 a 55 pares de dentes e são da subordem Odontocetes. O tamanho das espécies varia de 1,5 m a 10 m. E o peso, entre 50 kg e 7.000 kg. Costumam ter testa achatada e uma estrutura longa e fina, parecendo um bico, mas o formato da cabeça muda entre as espécies. Respiram por pulmões e quando dormem apenas um hemisfério cerebral descansa. O outro continua ativo para não se afogarem e cuidarem da respiração. FONTES: Livro “Mamíferos do Brasil”/UEL; Laboratório de Biologia da Conservação de Mamíferos Aquáticos (LABCMA/IOUSP) - www.sotalia.com.br; National Geographic.

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FOTOS: SHUTTERSTOCK

MODO DE VIDA


1 FLORA

NOVA LOJA do Verdemar onde ocorreu o lançamento do projeto: acolhimento e difusão FOTO: AMIS

OLHAI OS IPÊS DA SAVASSI Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

N

MUDA DE IPÊ distribuída: brinde ecológico

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a manhã do último dia nove, lua cheia de julho - coincidindo com a circulação da Revista Ecológico - a rede de supermercados Verdemar pôs em prática o que havia anunciado em parceria com o Movimento Savassi Criativa, o Circuito Cultural Liberdade e a Secretaria de Esporte e Lazer de BH: convocar e ver as pessoas, em caminhada e abraço coletivo, abrirem suas retinas e corações para a irradiante floração dos ipês na capital mineira, antes mesmo da primavera. Árvore considerada símbolo nacional, os ipês floridos sempre enobrecem a paisagem,

seja ela urbana ou rural. De cores brancas, amarelas, rosas ou roxas, nessa época do ano as árvores perdem todas as folhas, como um modo de reter água enquanto setembro e as chuvas não chegam. Suas florações se iniciam no inverno por uma causa nobre da natureza: com o clima frio e seco, os ipês identificam um risco para sua sobrevivência. E, por isso, antecipam seu maravilhamento em formas e cores variadas. Há um ditado, inclusive, na roça, de que as chuvas só começam 25 dias após cair a última flor de ipê no chão seco e empoeirado. E, justamente por ser uma das


Poni ainda exemplificou: “Foi assim quando lançamos a campanha pela erradicação das sacolas plásticas. Levantamos essa bandeira e nossos clientes nos apoiaram. Agora, temos esse novo e belo desafio, inspirado na celebração do Hanami, que é quando a população do Japão sai às ruas para admirar a floração das suas cerejeiras. Quem sabe um dia, começando pela nossa Savassi, poderemos ver nossas crianças brincando com carrinhos de rolimã em praças seguras, mais cuidadas, arborizadas e coloridas?” Essa mesma pergunta foi feita como provocação respondida pelo fotógrafo Júlio Toledo, autor do Projeto Pédipê (vide “Ensaio Fotográfico” a seguir), igualmente emocionado: “Nestes dias de hoje, quando nos deparamos com a morte da esperança e dos valores diante de tanta tristeza e descrença, temos que lembrar e nos inspirar mesmo nos ipês. Eles nos ensinam, de maneira bela e verdadeira, que nada é permanente. A sua morte aparente, quando

"É através das palavras que qualificamos as diversas expressões do olhar: de contemplação, respeito, admiração, entre outros. Todas são expressões que qualificam os olhares nos diferenciando uns dos outros, tornando o mundo um lugar de contemplação. Valorizar esses olhares faz com que prestemos mais atenção ao nosso redor. Contemplar é o olhar religiosamente, é ater-se às emoções." ALFREDO BOSI, autor de "O Poder do Olhar"

perdem as folhas de propósito, é justamente a hora do seu renascimento”.  FOTO: EDY FERNANDES

mais populares e charmosas árvores da capital mineira, os ipês ganharam a admiração e o apoio do Verdemar que, em parceria com o fotógrafo e produtor cultural Júlio Toledo, idealizador do Projeto Pédipê, lançou a campanha “Celebre o Ipê”. O objetivo maior da causa, segundo Alexandre Poni, sócioproprietário do Verdemar, é sensibilizar e fazer seus clientes e vizinhos, a população em geral, adotarem uma nova e ecológica forma de ver BH. Foi o que ele declarou emocionado, durante vernissage de lançamento do projeto em sua loja no bairro mais charmoso da capital: “No fundo, o que nós e nossos parceiros queremos é valorizar a cidade onde moramos. Fomentar nas pessoas, através também da beleza da natureza, a reflexão sobre a causa ambiental e a mudança de nosso comportamento onde criamos nossos filhos. Os ipês são um espetáculo pronto para ser admirado. Basta erguer os olhos. E, uma vez admirados, receberão mais atenção e cuidado por parte da nossa sociedade”.

Luciana Madeira, Alexandre Poni, Júlio Toledo e Nelson Galizzi: causa ambiental e mudança de comportamento

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1ENSAIO FOTOGRÁFICO

O PÉDIPÊ ENCANTADOR DE

ngenheiro civil de formação acadêmica, o fotógrafo de arquitetura, paisagismo e ensaísta mineiro Júlio Toledo, autor do Projeto Pédipê, realizado em parceria com o Movimento Savassi Criativa e o Verdemar, é um contumaz apaixonado pelos ipês da capital mineira. Isso explica o porquê dessa sua paixão se reciclar, à cada nova florada deles, em meio aos prédios históricos da ex-“Cidade Vergel”, segundo versos do poeta Olavo Bilac. Vencedor do “Concurso Cultura 2014”, do Ministério da Cultura, pela premiada instalação audiovisual “Sinfonia para uma Cidade Jardim” (www.facebook.com/bhcidadejardim), em parceria com a Voltz Design, ele conseguiu mais que o justo reconhecimento do Governo Federal, conforme a Revista Ecológico registrou na época: “Deixou boquiabertas as milhares de pessoas que compareceram ao Circuito Cultural Praça da Liberdade, no Prédio Verde. O motivo, mais que natural, foi o público ter apreciado, por meio de reproduções gigantes, a beleza diversa das flores e da arquitetura da capital mineira. Não apenas na primavera que se aproxima, mas em todas as quatro estações do ano”. Júlio Toledo é também criador dos calendários sobre a Serra da Moeda e BH Cidade Jardim, além das cinco Coleções Ipês de cartões-postais, vencedoras do título “Gentileza Urbana 2010”, pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/MG), entre outros projetos de sucesso. Em seu trabalho, Júlio lembra que BH é a primeira cidade planejada efetivamente no Brasil, além de já ter ostentado o título de “Cidade Jardim”, a exemplo de Paris, em cujo paisagismo se inspira e que possui mais de 500 bens tombados. “Diversos tipos de florações, com especial destaque aos ipês, cuja flor é o símbolo brasileiro, ainda colorem o nosso espaço urbano. Isso mostra que é possível buscar novamente o título que BH perdeu ao longo das administrações municipais”, provoca o fotógrafo. É o que você, caro leitor, cara leitora, pode comprovar a seguir. Desfrute conosco dessa sempre renovada e democrática paixão pela beleza e cores dos nossos ipês. Confira, a seguir, a emoção que eles transmitem! 78  ECOLÓGICO | JULHO DE 2017

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

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JÚLIO TOLEDO

TOLEDO: de volta com o "Projeto Pédipê", continuidade do "Cidade Jardim"


FOTO: ARQUIVO PESSOAL

FOTOS: JÚLIO TOLEDO

Edifício Niemeyer

Praça da Liberdade

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  79


Castelinho

Rainha da Sucata

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FOTOS: JÚLIO TOLEDO

1 ENSAIO FOTOGRÁFICO

Museu Abílio Barreto


Florações da espécie Tabebuia impetiginosa: beleza em cachos

 MAIO/JUNHO DEDE 2017 | ECOLÓGICO XX81 JULHO 2017 | ECOLÓGICO


1 INSTITUCIONAL

FOTO: ANDRÉ FIRMINO

GABRIEL e a matéria publicada na Ecológico que fez despertar seu interesse pelos animais: "Eu amo leões"

UM “LEÃOZINHO” NA ECOLÓGICO Em passagem à nossa Redação, o estudante Gabriel Ramayama, de nove anos, fala do seu amor à revista e sua paixão pelos animais Luciano Lopes e Janaína De Simone redacao@revistaecologico.com.br

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le é do signo de Câncer, nasceu em 26 de junho. Mas a alma e o coração são de... leão! Estamos falando de Gabriel Ramayana Ceolin, de nove anos, que visitou recentemente a redação da Revista Ecológico acompanhado da mãe, Daniela, e de sua amiga Ione. Ele é apaixonado por animais! E todo esse carinho começou depois de ter lido a matéria sobre o felino Cecil - símbolo do Zimbábue, que foi morto pelo caçador e dentista norte-americano Walter James Palmer. A matéria foi publicada na edição 83 da Revista Ecológico, de novembro de 2015, e foi Ione quem a deu de presente para Gabriel. “Foi a partir da história do Cecil que passei a ficar mais interessado nos bichos e na natureza”, diz o esperto e inteligente Gabriel, que nasceu em Nova Lima, Re-

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gião Metropolitana de BH. Seu quarto, afirma o estudante, é um verdadeiro “zoológico”: “Tenho três imagens de leões lá, incluindo um painel com uma foto de selva com um monte de bicho. Também tenho almofadas de animais, como girafa e chimpanzé, e um pijama pintado, imitando uma onça, que uso para dormir”. Gabriel é um “leão” quando o assunto é leitura. Tem mais de 1.500 livros em casa. “Os de bicho eu não vou doar. Em 2015, fui à Bienal do Rio de Janeiro e voltei com 78 livros só sobre animais!”, afirma o garoto, que tem uma calopsita, a Spike, no apartamento onde mora. “Prefiro muito mais cuidar e ficar perto dos animais do que do ignorante do ser humano. Já viu a ‘educação’ que as pessoas têm? Não deixo matar nem formiga!” Estudante do terceiro ano fun-

damental no Colégio Santo Antônio, ele torce para o Cruzeiro (“gosto do azul do time porque me lembra o céu”) e quer ser veterinário e biólogo. “A matéria que mais gosto de estudar é Ciências. Todo mês de setembro eu pego uma lagarta e faço uma experiência: cuido dela até se transformar em casulo e, depois, em borboleta.” Antes de o simpático Gabriel ir embora, ele foi presenteado com uma assinatura anual da Revista Ecológico, uma gentileza da amiga Ione e seu marido, o radialista Fábio Martins. Ah! E também aproveitamos para fazer mais uma perguntinha para nosso leitor ecológico: “Você conta carneirinhos antes de dormir?” A resposta não podia ser melhor: “Sim. Conto cobra, leão, jacaré. Conto todos os animais!”


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MEMÓRIA ILUMINADA – DANUZA LEÃO

FOTO: DUARDO KNAPP / FOLHAPRESS

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A ECOLOGIA DA

ELEGÂNCIA Livro “Na Sala com Danuza”, da cronista Danuza Leão, completa 25 anos e se mantém atual ao afirmar que ser elegante, na verdade, é ser gentil Luciano Lopes

redacao@revistaecologico.com.br

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m 2012, Danuza Leão provocou polêmica com uma de suas crônicas na Folha de S. Paulo. O texto fazia referência à ascensão das camadas sociais mais pobres, à expansão da classe C. Disse a cronista e escritora que “ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir”. A frase foi considerada deselegante, isso para dizer o mínimo na avaliação de quem estava acostumado a ler crônicas bem-humoradas, repletas de gentilezas. Danuza se redimiu em outro texto, mas a mancha demorou um pouco a sumir de seu vestido de sensatez. Já perdoada pelos porteiros e pelas domésticas, das quais também ganhou olhares atravessados, ela se levantou sem tropeçar. Afinal, a capixaba de Itaguaçu é uma “garota elegante perdida entre orangotangos de black-tie”, como afirmou o jornalista e escritor Eduardo Logullo, no texto de apresentação do primeiro livro da cronista: “Na Sala com Danuza”, best-seller que completa 25 anos. A obra surgiu de uma grande vontade, conta Logullo. “O telefone tocou, Danuza propôs fazer um livro sobre barbarismos e barbaridades que ela não aguentava mais ficar calada. A leoa queria rugir. A leoa queria enumerar delicadas delícias de uma gramática comporta-

mental, destilada após anos de filosofias e bobagens. Neste reino da farofa, só Danuza pode servir de indicador do comportamento: há décadas ela é ponta-de-lança de acontecimentos fervilhantes, vulcânicos e estrondosos”. Nascida Danuza Lofego Leão, em 26 de julho de 1933, ela foi casada com o jornalista Samuel Wainer, fundador do extinto jornal “Última Hora”. Com ele, teve três filhos. Modelo internacional de sucesso na década de 1950, foi a primeira brasileira a desfilar em Paris. Danuza é irmã da falecida cantora Nara Leão e até se aventurou pelo cinema, no clássico “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. Para alguém que não se conforma com o estado das coisas e tem muito a dizer, se aventurar pela literatura parecia um caminho sem volta. “Na Sala com Danuza” é o primeiro dos oito livros que ela lançou. A escritora, que hoje mora no Rio de Janeiro, tem um jeito visceral de escrever, sem se deixar prender às estéticas da etiqueta tradicional. “Na Sala” está bem longe disso. Basta uma primeira folheada para o leitor se sentir atraído pela ecologia de sua elegância: “Nunca apague um cigarro numa planta”, é um dos seus conselhos. E, com o avançar das páginas, outras boas regras de comportamento e convivência vão ganhando forma. A seguir, a Ecológico apresenta algumas delas. Confira:

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MEMÓRIA ILUMINADA – DANUZA LEÃO  EDUCAÇÃO “Nunca aponte para nada com o dedo – só para as estrelas.”

FOTO: REPRODUÇÃO

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“Atenção: fale baixo. Em sua casa, na casa dos outros, em lugares públicos. É incrível o ruído que se ouve quando se entra em alguns restaurantes, sobretudo os não acarpetados. Me sinto num galinheiro. E os salões de beleza? Acho que é por isso (também) que não os frequento.” “(...) O Brasil anda mal-educado. Da vulgaridade à grosseria, os homens que dirigem nosso país se tratam – e nos tratam – sem o menor respeito. É possível que a boa educação tenha desaparecido dos nossos costumes? Ninguém respeita ninguém, os códigos desapareceram.”  O OUTRO “A verdadeira cortesia é pensar primeiro no outro antes de pensar em si mesmo.”

DANUZA no filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha

indelicado, pode atrair olho grande.”  REPETIÇÃO

“Não conte histórias muito longas. Dê chance ao outro expor as ideias dele.”

“Nada é mais chato do que ouvir uma história pela segunda vez.”

“Seja atento, curioso, interessado. Nada pior que ouvinte distraído.”

 OPINIÃO

 HUMILDADE “Exibir erudição é pedante e antipático. Se você for mesmo muito culto, finja ser apenas médio. Seja modesto.” “Não é nenhuma humilhação não saber nada de algum assunto. Bobo é querer parecer que conhece – sem conhecer.” “Ninguém deve pretender ser o que não é. Me lembra a história de um amigo francês que ganhou muito dinheiro e anunciou que ia comprar um castelo. Ao que o outro respondeu: ‘Castelo não se compra. Se herda’.”  DISCRIÇÃO “Evite comentar sobre seus sucessos com quem está em má fase. Sobre seu maravilhoso trabalho com quem está desempregado. Sobre seu estonteante namorado com quem está sem nenhum. Além de

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“Não seja radical em suas opiniões. Tenha flexibilidade para mudar, se ouvir uma melhor que a sua. Também discorde. Se todo mundo estiver de acordo, morre o assunto.”  ANÁLISE “Não fique só no eu, eu, eu. Para isso, pague uma sessão de análise.”  PAGAR A CONTA “Basicamente, a coisa funciona assim: quem convida deve estar preparado para pagar. E quem foi convidado, para dividir.”  GATOS “Antes que me acusem de não gostar de bichos, com tudo que isso costuma implicar (falta de sentimentos, etc.), quero declarar minha paixão por gatos. Tive um, Amadeu, e tenho saudades dele até hoje. Gatos têm personalidade, independência: não são puxa-sacos nem carentes. São bonitos, elegantes, limpos, educados.”


“Galinhagem com repercussão social é muito grave. Nada mais fora de moda do que o adultério.”  AMOR “Nas relações amorosas, qualquer coisa é melhor do que a indiferença, o desinteresse. Às vezes, fico observando nos restaurantes casais que jantam sem se olhar, sem se falar. Para mim, é o pior filme que pode haver entre duas pessoas.” “O que pode acontecer com duas pessoas que moram junto, namoram, convivem ou são apenas amigas: um desentendimento, uma rusga, um mal-entendido, o que for, com ou sem razão, culpa de um ou de outro. Mas vocês se entenderam, se desculparam, se perdoaram. Então, regra de ouro: não se fala mais no assunto.” “(...) Depois de uma noite de grande desacerto, desapareça. Dê tempo para que a raiva passe e a saudade chegue. Talvez seja sua única chance.” “Aos que não conseguem deixar de jogar charme: seja um mestre na discrição. Galinhagem com repercussão social é muito mais grave. Aproveitando: nada mais fora de moda do que o adultério. As relações devem ser livres, ensolaradas.”  FILHOS “Não morra de vergonha se seu filho deu um vexame na frente de seus amigos. Não valorize os erros nem dê bronca em público.”

incomoda, afaste-se. Conviver e ficar falando mal, qual é a graça?” “Não revele pormenores de seu namoro para suas amigas. Um dia, uma delas pode usar tudo que ouviu de você para seduzir seu namorado e até fazer uma bela intriga, contando o que você, num momento de fragilidade, contou para ela.” “Às vezes, a vida separa as pessoas. Marido novo, interesses novos, acontece. Se sua amiga, que vivia em discotecas, vira zen, mesmo que a amizade permaneça, o assunto acaba, claro. Mesmo que você fique triste, procure entender. O gostar não inclui necessariamente a convivência. Se vocês se gostam mesmo, podem um dia se reencontrar e ficar tudo como era antes, sem cobranças do tempo que não se viram nem se procuraram.” “Nunca faça perguntas sobre assuntos pessoais. Se o outro quiser falar, ouça e fique quietinha. Não indague sobre afetos, casamentos, situação financeira, vida sexual, etc.”  ELOGIOS “Não economize elogios. Se você acha uma pessoa bonita, um prato saboroso, uma casa aconchegante, diga, diga, diga. Dê prazer aos outros.”

“Use sempre um bom vocabulário, isso aumenta a capacidade linguística das crianças.”

“Elogie sua mulher, sua namorada. O vestido, o penteado que ela mudou. Preste atenção na pessoa que você, pelo menos teoricamente, ama.”

 AMIZADE

 EMPRÉSTIMOS

“Aceite o amigo como ele é. Se a maneira dele ser te

“Antes de emprestar, avise que você empresta numa

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MEMÓRIA ILUMINADA – DANUZA LEÃO  BELEZA “Lembre-se de que não existe ninguém irremediavelmente feio e nada que não possa ser melhorado. Todos têm essa possibilidade, e é tão divertido! Sabe aquele dia em que parece que tem uma nuvem cinza bem em cima de sua cabeça? Pois nesse dia, mais do que nunca, acerte sua coluna, levante a cabeça e vá em frente.”  SENTIDOS

“Nunca apague um cigarro numa planta, num pires. Se não encontrar um cinzeiro, engula a cinza, mas não jogue no chão.”

boa, mas que tem o péssimo hábito de querer de volta.”  COZINHA “Aviso às mulheres que fogem da cozinha: aprendam alguma receita, ponham o nariz nas panelas, é uma delícia. E mulher que não sabe cozinhar deveria ser proibida de morar junto com alguém.”  PRIVACIDADE “Não se lê correspondência de outra pessoa. Nem se mexe na bolsa, ou se olha a agenda, ou a gaveta, ou se escuta uma conversa. Isso é invasão intolerável de privacidade.”  PROXIMIDADE “Não chegue muito perto nem toque seu interlocutor. Guarde a distância regulamentar de 50 centímetros. A não ser, claro, que já estejam a caminho do motel.”  VIDA “Seja senhor absoluto de sua vida. Faça dela algo de muito interessante – e que só pertence a você. E lembre-se: em qualquer setor, o problema não é o que se faz, mas como se faz.”  MODA “Não se preocupe com a moda. Mas seja obsessiva com a elegância.”

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“Desenvolva seus sentidos. No meio de um bosque, apure os ouvidos. Viaje através dos sons, dos odores. Apure seu olfato, seu paladar. Coma de tudo. Beba de tudo. Esqueça seus hábitos, seus horários.”  NO TRABALHO “Não passe a segunda-feira contando seu fim de semana.” “Ao chegar ao trabalho, cumprimente todos como se o mundo estivesse correndo às mil maravilhas. Não fique se queixando da vida.” “Seja boa colega de trabalho. Se ofereça para quebrar um galho, seja leal com os companheiros. Nunca faça comentários desagradáveis sobre a firma em que trabalha, sobre seu chefe. Corredores e bebedores têm ouvidos. Cuidado, emprego está difícil.”  GENTILEZA “Um sorriso e segurar a porta para o outro passar significam a mesma coisa, aqui ou em qualquer lugar do mundo. Se tratada com gentileza, a pessoa, por um instante que seja, se sente especial, e isso não a faz se sentir assim tão só.” “Se estendo a mão com um sorriso, o outro também estende a sua e me retribui o sorriso. As pessoas se imitam. Se eu te trato mal, você também me trata mal.” “O uso da cortesia é uma maneira de evitar o caos. O mundo está cada vez mais povoado e, quanto mais gente existir, mais necessitamos de boa educação.” “Esteja sempre pronto a ajudar quem cometeu uma gafe. Que essa ajuda surja como um reflexo, como quando você vê alguém escorregando na rua e, sem pensar, corre para ajudar. E nunca se aproveitando do fato de, por saber mais, fazer a pessoa se sentir ainda pior do que já está, depois do erro cometido. Afinal, mesmo no peito de quem não conhece etiqueta, também bate um coração.”  SAIBA MAIS

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Todos os dias, às 15h, acompanhe a transmissão da Santa Missa, direto do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté (MG).

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(31) 3209-0750


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NATUREZA MEDICINAL

MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

O ESPINHO QUE FURA E CURA

N

FOTO: MARCOS GUIÃO

o estopim dessa vida de raizada, num tinha dia nem noite que me segurava na ânsia de tomar sentido entre o correto e o duvidoso. Segurança era a busca, pois deu de arrodear gente me procurando na busca de remédio e ainda no verdor dos inícios. Num tinha muitos livros sobre o tema, os tempos eram de escuridão, com o escondido e o proibido vigorando sobre a luz e a liberdade. Na falta da internet, que hoje esfumaça qualquer dúvida, a contação de histórias era a ferramenta das mais poderosas que havia. Hoje trago a consciência da profunda gratidão

ESPINHEIRA-SANTA (Maytenus ilicifolia)

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que devemos primeiramente aos índios que aqui viviam e passaram aos que estavam chegando este conhecimento. Mas num podemos deslembrar os negros que trouxeram sabedoria e experiência da mãe África e nem os portugueses, pois eles foram os agentes dessa mistura, agregando ainda a ciência europeia pra que todo esse conhecimento se transfigurasse na sabedoria atual. Pois bem. Tô aqui me alembrando disso pra dizer que nem sempre é fácil se chegar numa planta medicinal e dá logo ponto de uso. Pra ilustrar essa peia, custei a beirar a espinheira-santa (Maytenus ilicifolia), plantinha danada de difícil de ser encontrada em seu estado natural nos Gerais. Ela demanda lugar de terra boa e por isso medra no livre pelo sul do Brasil e em vários outros países da América do Sul. Me alembro até hoje do dia em que durante uma viagem a Araxá, me embrenhei por entre canteiros de centenas de mudas numa flora e, de repentemente, me deparei com algumas arvoretas de uma planta com folhas duras e espinhudas, que fincam e furam a mão do vivente distraído. Fiquei alvoroçado e feliz com aquele encontro solitário e num tive dúvidas em afirmar que tava ali a espinheira-santa. Dali mesmo consegui umas mudas e esparramei com os amigos pra num ter mais carência da dita. Esse cuidado foi derivado das suas muitas propriedades cicatrizantes tanto interna quanto externamente. Ela age numa tanteira de tipo de câncer, que vai da leucemia inté o câncer de pele, quando se põe as folhas machucadas por cima da lesão. Mas sua consagração é mesmo nos casos de gastrite, indigestão e queimação no bucho, pois aí se dá regulagem da acidez do estômago. Com o passar dos anos, venho ouvindo relatos de cura completa de úlcera gástrica, do esôfago e duodeno, sendo ainda indicada pra ajudar no refazimento da flora intestinal, com suave atividade laxante e ajudando na eliminação de toxinas pela pele e rins. Mas o melhor de tudo é que tudo isso acontece sem provocação de nenhum efeito colateral. Pode um treco desses? Só mesmo vindo da natureza... Inté a próxima lua!  (*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


Dr. Luiz Adelmo Lodi Neto. Responsável Técnico. CRM: 16564.

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13,4 MILHÕES

PRODUÇÃO DA PECUÁRIA

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Revista Ecológico - Edição 99  

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