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ANO 9 - Nº 101 - SETEMBRO/OUTUBRO DE 2017 - R$ 12,50

EDIÇÃO: TODA LUA CHEIA


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EXPEDIENTE Pássaros da Noite - Vale do Tripuí obra de YARA TUPYNAMBÁ

FOTO: JÚLIO HUBNER

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Em toda lua cheia, uma publicação dedicada à memória de Hugo Werneck

DIRETOR-GERAL E EDITOR Hiram Firmino hiram@souecologico.com

REPORTAGEM Fernanda Mann e Luciana Morais

ASSINATURA Ana Paula Borges anapaula@souecologico.com

DIRETORA DE GESTÃO Eloah Rodrigues eloah@souecologico.com

MÍDIAS DIGITAIS Bruno Frade

IMPRESSÃO Log & Print Gráfica e Logística S/A

EDITORIA DE ARTE André Firmino

PROJETO GRÁFICO-EDITORIAL Ecológico Comunicação em Meio Ambiente Ltda.

DIRETOR DE ARTE Sanakan Firmino sanakan@souecologico.com CONSELHO EDITORIAL Fernando Gabeira, José Cláudio Junqueira, José Fernando Coura, Maria Dalce Ricas, Mario Mantovani, Nestor Sant'Anna, Patrícia Boson, Paulo Maciel, Ronaldo Gusmão e Sérgio Myssior CONSELHO CONSULTIVO Angelo Machado, Célio Valle, Evandro Xavier, Fabio Feldmann, José Carlos Carvalho, Roberto Messias Franco, Vitor Feitosa e Willer Pos

COLUNISTAS (*) Marcos Guião, Maria Dalce Ricas e Roberto Souza REVISÃO Gustavo Abreu CAPA Fotos: Greenpeace/Rodrigo Baleia | AFP Photo/Apu Gomes Arte: Sanakan

REDAÇÃO Rua Dr. Jacques Luciano, 276 Sagrada Família - Belo Horizonte-MG CEP 31030-320 Tel.: (31) 3481-7755 redacao@revistaecologico.com.br EDIÇÃO DIGITAL www.revistaecologico.com.br (*) Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da revista.

DEPARTAMENTO COMERCIAL Sarah Caldeira sarah@souecologico.com MARKETING Janaína De Simone janaina@souecologico.com

sou_ecologico revistaecologico EMISSÕES CONTABILIZADAS

EDITOR-EXECUTIVO Luciano Lopes luciano@souecologico.com

2,81 tCO2e Setembro de 2017

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ÍNDICE

CAPA

OS RECENTES RETROCESSOS NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA, MARCADOS PELA POLÊMICA DA RENCA, E O NOVO AMBIENTALISMO QUE VEM GANHANDO FORÇA NO BRASIL.

20 PÁGINAS VERDES MARCIO ASTRINI, COORDENADOR DE POLÍTICAS PÚBLICAS DO GREENPEACE, FALA SOBRE AS AMEAÇAS À FLORESTA AMAZÔNICA

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NATUREZA SELVAGEM DOCUMENTÁRIO DE LAWRENCE WAHBA MOSTRA A BELEZA DO AMANHECER EM VÁRIAS PARTES DO MUNDO

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ENSAIO FOTOGRÁFICO

O OLHAR MINEIRO DA FOTÓGRAFA JOANA MOREIRA SOBRE AS CEREJEIRAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BH

E mais... CARTAS DOS LEITORES 10 CARTA DO EDITOR 12 ECONECTADO 14 GENTE ECOLÓGICA 16 SOU ECOLÓGICO 18 ESTADO DE ALERTA 26 ENCARTE ESPECIAL FIEMG (5) 51 AS ÁREAS PROTEGIDAS DO MINAS-RIO (1) 58 GESTÃO & TI 63 AGRONEGÓCIO 66 EMPRESA & AMBIENTE 71 VOCÊ SABIA? 72 NATUREZA MEDICINAL 74 MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO (M&A) 76 ESTANTE VERDE 84 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS 85 MEMÓRIA ILUMINADA 94

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CARTAS DOS LEITORES

Por motivo de clareza ou espaço, as cartas poderão ser editadas.

é um dos poucos pensadores brasileiros que de fato nos mostram um caminho possível e sustentável para o planeta, as cidades e para as pessoas.” Marcos Antônio Pratte, via e-mail l TURISMO - NA FLORESTA DOS CEDROS DE DEUS Matéria mostra as belezas naturais do Líbano

“Bela e muito bem escrita a reportagem de J. D. Vital para a Revista Ecológico. Ao lêla, tive uma vontade imensa de conhecer o Líbano, principalmente a Gruta de Jeita. No texto, história, cuidado ambiental e espiritualidade são integrados de forma tão jornalística e harmônica que você fica querendo ler mais e mais.” Manoel Norarde Cunha, via e-mail l TERRA BRASILIS - AMBIENTALISTA: PROFISSÃO MORTAL Brasil lidera, pelo quinto ano consecutivo, o ranking de países que mais matam defensores ambientais

“Meu Deus, que absurdo! Eu tenho orgulho de ser ambientalista e não vou me intimidar por isso!” Yara Souza Passarinho, via Facebook l ECOLÓGICO 100 Matéria comemorativa à centésima edição da Ecológico

“No país da impunidade, ser ambientalista é um perigo!” Terezinha Macedo, via Facebook

“Parabéns! Desejo muito sucesso à revista! E que ela chegue à milésima edição!” Cheila Chespo, via Google+

EU LEIO

“Sobreviver no mercado editorial de hoje é uma vitória. Parabéns à equipe.” Martha Oliveira, via e-mail “Que a Ecológico possa trazer ainda mais luz para a questão ambiental nos próximos anos. E que mantenha viva a mensagem do dr. Hugo Werneck, o mineiro que, de forma visionária e carinhosa, nos mostrou como cuidar do meio ambiente.” Natanael Vieiras, via e-mail l PÁGINAS VERDES - SÉRGIO ABRANCHES Trechos da participação do sociólogo e ambientalista no projeto Sempre um Papo, em BH

“Que prazer ler o pensamento sempre contemporâneo e ecológico de Sérgio Abranches. Ele 10  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

“Acompanho a Revista Ecológico já faz alguns anos. Acredito que ela é uma fonte confiável e diferenciada de informações, um exemplo de publicação midiática que ainda consegue manter sua missão em meio às contradições do mercado editorial. Fico feliz com a permanência da revista ao longo do tempo. Os conteúdos são sempre relevantes e inspiradores para mim. Vida longa à Revista Ecológico!” FOTO: FERNANDA MANN

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FA L E C O N O S C O

Envie sua sugestão, opinião ou crítica para cartas@revistaecologico.com.br

MARIANA MAYUMI, professora universitária


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CARTA DO EDITOR

HIRAM FIRMINO | hiram@souecologico.com

GISELE BÜNDCHEN: o porquê e o como que reacenderam o movimento ambientalista mundial

POR QUEM

AS LÁGRIMAS ROLAM?

É

a pergunta que continua no ar, desde o controvertido debate sobre a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) no coração da Amazônia até o Rock In Rio mais ambientalista de toda a sua história, passando pela Exposição Internacional de Mineração (Exposibram) e pelo Congresso Brasileiro de Mineração na capital – não à toa – das Minas Gerais. Mas, por quem exatamente as lágrimas da top model Gisele Bündchen rolaram, senão pelo desenvolvimento sustentável e o amor à natureza que nos protege e mantém a vida sobre todo o planeta, muito além da Amazônia? É o que a Revista Ecológico, também tocada pelo

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choro verde da bela, continua discutindo nesta edição. A começar pela entrevista do coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, Marcio Astrini, nas “Páginas Verdes”. Ele revela, com precisão, onde estão “escondidos” os destruidores da última grande floresta tropical úmida da Terra. Não mais erroneamente o “pulmão do mundo”, mas, a ciência comprova, o “grande refrigerador” natural que regula o clima do planeta. Para melhor ou para pior, só depende da nossa capacidade e ignorância de continuar a devastação. Da nossa falta de sentir, do nosso desamor. Vejam também, caros leitores e internautas, na cobertura do maior evento sobre mineração na Améri-


ca Latina, quase dois anos após a tragédia de Maria- com qualidade de vida. na, como o setor que tanto destrói a natureza quanto Nem tudo, enfim, está perdido. Pelo contrário, a preserva investe na sua ecologização e nem sabe como encerramos nesta edição da Ecológico, o mescomunicar isso à opinião pública. Não por ausência mo e mais frio ser humano, incapaz de se comover ao de conhecimento técnico e poder econômico. Mas cortar quilômetros de florestas, secar uma nascente por falta do sentimento de pertenou ainda jogar lixo pela janela de cimento, gratidão e amor mesmo, seu carro, é capaz de fazer exataMas, por quem no seu sentido maior, à natureza mente o contrário. Sentir e amar o que lhe dá, incondicionalmente, as próximo, desde um índio sem floexatamente as suas montanhas, nascentes e floresta até o barranqueiro sem água lágrimas da top model do São Francisco, muito além de restas para serem exploradas. E por isso mesmo, ao contrário todo choro e lágrimas de Gisele. Gisele Bündchen do agronegócio, cujo homem do Quem nos lembra disso, dessa rolaram, senão pelo campo trabalha mais próximo da nossa desumanidade e humaninatureza – a respeita e sente mais a dade ainda possível e sustentádesenvolvimento sua falta –, acabou provocando um em “Memória Iluminada”, é sustentável e o amor vel, novo fenômeno de comunicação o psiquiatra Viktor Frankl, autor à natureza que nos global, vide a reação dos artistas no do livro “Em Busca do Sentido”. episódio da Renca. Fez reacender, Indagado sobre o propósito da protege e mantém como nunca e em novos rostos, o vida, após ter passado mais de a vida sobre todo o movimento ambientalista mundial. três anos no campo de concenMostrou que a causa ambientração de Auschwitz, na Polônia, planeta, muito além tal não é mais reserva de merdurante a Segunda Guerra Munda Amazônia? cado nem luta ideológica tão dial, ele responde e a Ecológico somente das ONGs ambientais, também acredita: “Quem tem incluindo a imprensa verde, na qual a Ecológico um porquê enfrenta qualquer como”. se insere. Hoje, graças à tecnologia da informaÉ o que a mineração, o agronegócio e outros ção, qualquer cidadão do mundo, desde que mu- setores têm de descobrir, praticar e comunicar. nido de um celular nas mãos, é também jorna- Sem choro nem vela. Mas com respeito, esperanlista, repórter e fotógrafo. E cumpre, de maneira ça e amor à natureza, em nome da nossa sobrevinunca vista e multiplicadora nas redes sociais, o vência comum. papel de denunciar e contribuir para um munBoa leitura! do e uma humanidade mais sábios, amorosos e Até a Lua Cheia de novembro. 

QUEM MATA A MATA, mata mais que a mata. PRESERVE A FLORESTA preserve a água QUEM MATA A MATA, mata mais que a mata.


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ECONECTADO

FOTO: ANGELA WEISS

TWITTANDO

“A Escócia estabeleceu 2032 como prazo para banir carros movidos a diesel ou gasolina, oito anos antes do Reino Unido.”

FOTOS: DIVULGAÇÃO

@LeoDiCaprio - Leonardo DiCaprio, ator e ambientalista

“Olá, mundo! Acorde! Estamos no caminho de perder dois terços dos animais selvagens até 2020!” @darylhannah - Daryl Hannah, atriz e ativista norte-americana

ECO LINKS A DINÂMICA DA GENTILEZA Definitivamente, uma “doce” iniciativa que leva o internauta a resgatar uma qualidade: a gentileza. O aplicativo “Tem açúcar?” é uma plataforma online criada para estimular o compartilhamento e a camaradagem entre vizinhos. A ideia é simples: se você precisa pegar algo emprestado, é só acessar o app, que pode ser baixado gratuitamente no site www.temacucar.com. Lá, você pesquisa o item que necessita e pergunta qual vizinho mais próximo poderia emprestar. Na sequência, combine diretamente as condições do empréstimo e... bingo! Só correr e buscar (e devolver depois, claro!) Seja furadeira, barraca de camping, liquidificador ou até uma xícara de açúcar, o aplicativo é mais que um estímulo à colaboração: conecta pessoas por meio da solidariedade. Gentileza gera gentileza! SUSTENTIFY Que tal ter a sustentabilidade na palma da sua mão? Foi pensando nisso que a bióloga Valeska Torquato idealizou o aplicativo Sustentify, um localizador de produtos e serviços que contribui positivamente para o bemestar do nosso planeta. Além de promover o consumo consciente, estimulando um estilo de vida mais saudável e responsável, o app utiliza a geolocalização para indicar aos usuários opções locais de negócios sustentáveis sobre alimentação, moda, construção, cosméticos e viagens. Endereços e horários de funcionamento desses locais também são disponibilizados pela ferramenta. Desenvolvido pela empresa Rumo Ambiental, o software tem o cuidado de manter apenas parceiros confiáveis com produtos totalmente sustentáveis. O aplicativo está disponível para download gratuito em smartphones e tablets com sistema Android, via site (goo.gl/1DydeJ), e pela Google Play Store.

MAIS ACESSADA

“Desperdiçar tempo é mais caro do que desperdiçar dinheiro.” @paulocoelho Paulo Coelho, escritor 14  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

A matéria “A Coca-Cola mais sem verde do mundo”, publicada em nossa edição 99, foi a mais acessada no site da Ecológico em agosto. A reportagem mostrou que, dois anos após a instalação da autoproclamada “fábrica mais sustentável” da marca Femsa em Itabirito (MG), ainda há zero de paisagismo e árvores na área construída de 65.000 m2. No Facebook da revista, a repercussão foi considerável: mais de 17 mil pessoas visualizaram o material. Para ler a matéria, acesse: goo.gl/RrKmYU


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GENTE ECOLÓGICA

“A necessidade, a natureza e a história não são mais do que instrumentos da revelação do Espírito.”

FOTO: DIVULGAÇÃO

FRIEDRICH HEGEL, filósofo alemão

“A natureza detesta o vazio.” BLAISE PASCAL, físico e teólogo francês

“Cada um fazendo sua parte, uma grande mudança acontece. Se você compartilhar o conhecimento e iluminar outras pessoas para que também compreendam a importância da água limpa, o feito se torna muito maior.”

“Se falo da natureza não é porque saiba o que ela é, mas porque a amo.” FERNANDO PESSOA, poeta português

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“Não existe mais lugar para os ecochatos nem para as empresas que degradam o meio ambiente. Elas têm de sair do discurso da sustentabilidade para a sua prática, e comunicar isso à sociedade.” GERMANO VIEIRA, secretário estadual adjunto de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável

FOTO: POLLYANNA MALINIAK/ALMG

FOTO: DIVULGAÇÃO

DANNI SUZUKI, atriz e embaixadora do projeto global Waves for Water


FOTO: DIVULGAÇÃO

CHICO BUARQUE, na canção “Blues pra Bia”, de seu novo CD “Caravanas”

“Basta! Não aguentamos mais. Temos de extinguir o câncer da corrupção no nosso país.”

Como parte das comemorações dos 90 anos da UFMG, o professor Angelo Machado foi um dos agraciados com a "Medalha Reitor Mendes Pimentel". A comenda distingue personalidades e instituições que se destacam por contribuições relevantes à universidade e foi entregue em seis de setembro. Conselheiro da Ecológico e vencedor do "Prêmio Hugo Werneck", Machado tem vasta contribuição nos campos da neurobiologia e na taxonomia de libélulas. BARACK OBAMA

AGUINALDO DINIZ FILHO, vice-presidente da Fiemg

FOTO: REPRODUÇÃO YOUTUBE

FOTO: DIVULGAÇÃO

ANGELO MACHADO

Em sua primeira viagem ao Brasil, após deixar a Casa Branca, o ex-presidente dos Estados Unidos reafirmou sua preocupação com as mudanças climáticas, observando que, em seu governo, ficou provado que progresso econômico e sustentabilidade não são incompatíveis. "Há indicações de que mais furacões, secas e alagamentos não são coincidência. São sinais de aquecimento global”, frisou, durante palestra em São Paulo.

MINGUANDO

FRED COSTA

“O nosso ambiente de trabalho melhorou muito e trouxe mais qualidade de vida aos nossos colaboradores. Isso será revertido para o sucesso da companhia, pois é esse time que vai atender melhor os nossos clientes.” EUGÊNIO MATTAR, CEO da Localiza, sobre a sua nova sede, em BH, com 18 mil m2 de área verde e de lazer

“A comunicação é importante para construir pontes, mesmo em momentos de crises.” ROBERTO BARALDI, coordenador de Comunicação Corporativa da Fiat Chrysler

O deputado mineiro (PEN) continua destilando atraso e preconceito contra a implantação do mais moderno e ecologicamente correto crematório da América Latina, no bairro Vale do Sol, em Nova Lima (MG).

SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  17

FOTO: RONALDO GUIMARÃES

“No coração de Bia, meninos não têm lugar. Porém nada me amofina. Até posso virar menina, pra ela me namorar.”

FOTO: PETE SOUZA

FOTO: CPFL CULTURA

CRESCENDO


SOU ECOLÓGICO

Recém-eleito em chapa única, com 99% dos votos válidos, à presidência da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (Faemg), Roberto Simões mostrou por que ganhou mais três anos de mandato e confiança do setor. Foi na abertura do seminário “Minas no Caminho das Águas”, realizado pela Fiemg no último dia seis, lua cheia de outubro, na capital mineira. Ele mostrou, com muita informação, que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) espera que o Brasil aumente em 40% a sua produção agrícola para ajudar o mundo a alimentar nove bilhões de habitantes. E que os produtores rurais não são apenas “usuários” das águas, as quais, em grande parte, retornam naturalmente ao sistema hídrico. Mas, sim, e cada vez mais, seus “produtores” estratégicos, por serem os principais interessados em preservá-las. Os últimos dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), comprovados por imagens de satélite da Embrapa, em 620 mil propriedades rurais de Minas, mostram a preservação de 33%, em média, de suas vegetações nativas: “Mais que os 20% de reserva legal, exigidos pela legislação brasileira” – disse Roberto, lembrando que mais de mil cursos técnicos sobre proteção e recuperação de nascentes foram realizados pelo Serviço Nacional de Aprendizado Rural (Senar) em 350 municípios mineiros. Engenheiro Agrônomo e mestre em Economia Rural pela UFV, ele defendeu ser plenamente possível tornar sustentável o trinômio lavoura-pecuária-florestas e sua relação com os recursos hídricos: “Eu mesmo virei pregador. Venho pregando isso, a todos os ventos, para os nossos associados. Afinal, dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs) lançado em 2015, pela ONU, 13 estão ligados diretamente à agricultura, a esse recurso valioso que são as nossas águas. Se de um lado aumenta a nossa preocupação, de outro, também, a nossa esperança.” JESUS ECOLÓGICO O recado de esperança de Roberto Simões foi elevado, em seguida, com a fala surpreendente do advogado e ambientalista Mário Werneck,

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FOTO: DIVULGAÇÃO

Do produtor de água ao Jesus hídrico FOTO: FLÁVIO AMARAL

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Roberto Simões e Mário Werneck, o produtor rural e o secretário ambientalista: recados fortes no evento da Fiemg

secretário municipal de Meio Ambiente de BH. Primeiro ele compartilhou com a plateia um ensinamento de seu primo emblemático, o amoroso ambientalista Hugo Werneck (in memoriam), a quem a Revista Ecológico é dedicada em todas as luas cheias: “Antes de revitalizarmos o planeta” – ele me ensinou na beira do Velho Chico - “temos de revitalizar o homem”. E pediu licença para falar de um outro homem, filho de um carpinteiro, que dividiu a história recente da humanidade, antes e depois Dele: “Quero lembrar de Jesus, que também foi ambientalista. Seu primeiro milagre foi transformar água em vinho. Andava sobre as águas e só pregava nas montanhas, em Áreas de Proteção Permanente (APPs). A última caminhada de Jesus partiu de uma Unidade de Conservação (UC), o Jardim das Oliveiras. E quando O espetaram, do seu corpo saiu... água!”. E concluiu: “Se a gente ainda não consegue ouvir a natureza e respeitar a questão hídrica, o que ela está nos dizendo, pelo menos nos lembremos de Jesus. Temos de aceitar, como Ele demonstrou, que a água e a natureza do planeta têm uma ligação direta com Deus. Esse grande ser humano gostava muito de água. O nosso caminho em comum, o caminho de Minas como a caixa d'água do país, passa pelas águas. A nossa esperança e saudação a elas também passa por Deus”. Aplausos hídricos!


Acesse o blog do Hiram:

FOTO: ARQUIVO COPASA

hiramfirmino.blogspot.com

DA DIREITA para a esquerda: diretor de Operação Metropolitana da Copasa, Rômulo Perilli; vice-presidente do CBH Velhas, Ênio Resende; presidente do Comitê da Bacia do Rio das Velhas, Marcus Vinícius Polignano; presidente da Copasa, Sinara Meireles; e a diretora-geral da Agência Peixe Vivo, Célia Fróes

AVANÇO HISTÓRICO Durante a 97ª Reunião Plenária do CBH Rio das Velhas, o governo estadual anunciou o investimento de R$ 530 milhões, nos próximos cinco anos, em obras de saneamento nos municípios de concessão da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) que integram a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas. Segundo Sinara Meireles, presidente da

Companhia estão contempladas obras de ampliação da coleta, interceptação e tratamento de esgoto, bem como investimentos em programas ambientais, mobilização social e conservação de mananciais desses municípios. Marcus Vinícius Polignano, presidente do Comitê e que também assinou o Termo de Adesão da Copasa ao Programa Revitaliza Rio das Velhas, afirmou que o ato é um “avanço histórico”.

FOTO: RODRIGO QUEIROGA

ACONTECEU SARNEY FILHO, ministro do Meio Ambiente, Suely Mara, presidente do Ibama, Alexandre Sion, da Sion Advogados, e Luiz Fernando Barreto, presidente da ABRAMPA, na 129ª Reunião do Fórum Permanente da EMERJ, no Palácio de Justiça, Rio: por um Ministério Público mais verde.

A SERRA PODE ESPERAR A última reportagem da série “A Serra pede Paz”, sobre o falso dilema envolvendo a construção de um novo hospital de câncer pela Oncomed, onde funcionava o Instituto Hilton Rocha, na Serra do Curral, será publicada em nossa próxima edição, lua cheia de novembro.

REFLEXÃO “Compliance não é requisito competitivo de mercado; mas uma mudança de cultura. Um instrumento necessário de sobrevivência ética e moral. E uma resposta real do mundo corporativo ao clamor social contra a corrupção.” Renata Willens, diretora jurídica da CBMM, durante palestra no "XXII Congresso Nacional do Ministério Público", na capital mineira SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  19


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PÁGINAS VERDES

"OS DESTRUIDORES DA AMAZÔNIA

FOTO: CAIO PAGANOTTI / GREENPEACE

ESTÃO NO CONGRESSO"

ASTRINI: "Há uma relação muito clara no campo entre morrer as árvores ou as lideranças. Normalmente, elas estão no mesmo lugar ou são vítimas da mesma política" 20  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

Luciano Lopes e Luciana Morais redacao@revistaecologico.com.br

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m 12 de setembro último, um grupo de artistas e ambientalistas fez um ato público na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), contra os recentes retrocessos na legislação ambiental brasileira que impactam, principalmente, a Floresta Amazônica. Na ocasião, foi entregue ao presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um documento assinado por 1,5 milhão de pessoas contra o Decreto 9.147/2017, que extinguia a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), uma área de 4,6 milhões de hectares entre os estados do Pará e Amapá. Além dos artistas, representantes de vários outros setores da sociedade se posicionaram contra o decreto, que causou repercussão negativa nacional e internacional, e acabou suspenso pela Presidência e o Ministério de Minas e Energia, com a justificativa de que o tema precisava ser “debatido com a participação da sociedade”. O decreto foi revogado em 26 de setembro, por meio de outro decreto: 9.159. Em entrevista à Ecológico, o coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, Marcio Astrini, afirma que todos esses retrocessos na legislação fazem parte da ação de grupos de interesses instalados há tempos não na floresta, mas no Congresso Nacional. “Eles representam máfias, como por exemplo, a do desmatamento, dos madeireiros ilegais e de grileiros de terra. Enquanto o país não resolver tirá-las, a situação vai continuar como está.” Para Astrini, que acompanhou os artistas durante a manifestação na Câmara dos Deputados, o maior desafio nesse sentido é o Estado fazer valer a lei: “O grosso do desmatamento é por conta de grilagem de terra, porque é um mercado extremamente lucrativo. A terra é pública, o sujeito entra e a toma para ele. E ainda consegue acesso a créditos públicos. Ou seja, a mesma terra que era pública, ilegal, o governo transformou em legal e privada - e ainda financia!”. Confira:


MARCIO ASTRINI

FOTO: DANIEL BELTRÁ / GREENPEACE

Coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

"Veja a questão da Renca. É errado dizer que não houve debate. Houve sim, mas somente com as mineradoras e com investidores do Canadá." Quais as principais ameaças enfrentadas pelo Brasil com o retrocesso das leis ambientais? Temos sete pontos em questão. Começa com o da Renca. Depois, a questão indígena, que é a paralisação de demarcação de terras. Os políticos querem, inclusive, desfazer as terras já demarcadas e fazer o mesmo com as Unidades de Conservação (UCs). Temos também a questão da venda de terras para estrangeiros, a liberação de agrotóxico, o licenciamento ambiental e a MP 759, que facilita a grilagem de terra. Em paralelo, há a diminuição de recursos e da capacidade de fiscalização. Sem contar o sucateamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), que é um grande problema, pois áreas

indígenas são a maneira mais eficiente de se proteger florestas. Há uma grande teia de situações acontecendo e o pior resultado que já poderíamos medir nessa situação é o aumento das mortes de lideranças rurais e ambientalistas no campo. Dados coletados anualmente pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) desde 1988 mostram que 2017 é o ano mais violento da série histórica. E olha que ele ainda nem acabou. A ONG Global Witness apontou que o maior número de mortes de defensores da floresta ocorreu em áreas de mineração, agronegócio e exploração petroleira... Sim. E isso coloca o Brasil como o país mais violento para quem

trabalha com a área ambiental no mundo! O levantamento da CPT é um pouco mais específico, porque classifica a violência como um todo e não só contra ambientalistas. E ela ocorre principalmente na Amazônia, que está sendo palco de várias chacinas, atreladas às áreas de disputa de terra e desmatamento, e são incentivadas pelo governo federal por meio dessa série de medidas. Há uma relação muito clara no campo entre morrer as árvores ou as lideranças. Normalmente, elas estão no mesmo lugar ou são vítimas da mesma política. Quais os próximos passos do Greenpeace para evitar esse “pacote de maldades”? Temos três coisas muito bem

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SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  21


PÁGINAS VERDES

FOTO: GUALTER NAVES

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“Se for aprovado, o PL 3.729/2004 abre precedentes para que tragédias como o desastre de Mariana (MG) se repitam pelo país. ” definidas a fazer: a primeira é a união com diversas outras ONGs por meio do movimento #Resista. São 150 organizações, que vão desde sindicatos até entidades ambientais locais, juristas, associações de Ministério Público e cientistas. Agora, iniciaremos um processo mais insistente, de levar essas denúncias ambientais para mercados e públicos internacionais. A nossa segunda estratégica é a parlamentar, com congressistas que podemos contar ou estão interessados em nos ajudar. Obviamente, o número é muito menor do que aqueles que querem atrapalhar o meio ambiente, mas mesmo com poucos congressistas esperamos traçar estratégias para impedir e atrasar votações. Vamos manter vigília constante no Con22  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

gresso Nacional, que é o principal palco de retrocesso. E a terceira ação? Se as duas anteriores não forem capazes de segurar o avanço da agenda, aí vamos judicializar. Principalmente no Supremo Tribunal Federal (STF), a exemplo do que já aconteceu com a MP 759. Fizemos a denúncia, ela foi votada no Congresso, onde se transformou em lei definitiva, e fizemos o pedido de ajuizamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) junto à Procuradoria-Geral da República (PGR), que está correndo no STF. Além de causar impactos ambientais, as medidas do

governo acarretam riscos de insegurança jurídica? Qual a sua visão? A MP 759 foi vetada por circunstância da viagem do presidente Temer à Noruega e não por consciência ambiental dele. O presidente aproveitou, ainda, para fazer uma “graça” com a Gisele Bündchen [ele respondeu à modelo e ativista sobre o veto pelo Twitter]. Mas, logo que voltou ao Brasil, reapresentou a MP em forma de Projeto de Lei com urgência constitucional. Depois, retirou a urgência, não por conta do projeto em si ou do mérito dele, mas porque atrapalhava a votação de outras pautas no plenário. Há várias dessas propostas que agridem a Constituição lá. A 759, por exemplo, cria mecanismos para privatizar a terra pública sem licitação. E a flexibilização do licenciamento? É outra proposta (PL 3.729/2004) que também fere a Constituição, e o Ministério Público já apontou várias inconsistências. E mais: vai provocar o aumento da judicialização de forma exponencial, a criação de uma “corrida” pela flexibilização entre os Estados, com a finalidade de atrair investimentos. Com isso, teríamos uma verdadeira guerra para ver quem protege menos o meio ambiente, algo na linha do: “venha e invista no meu Estado, porque aqui a licença ambiental é automática, basta preencher um formulário na internet”. A flexibilização das exigências ambientais, no que se refere à dispensa de apresentação de Estudos de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), também preocupa. Se for aprovado, o projeto abre precedentes para que tragédias como o desastre de Mariana (MG) se repitam pelo país. Afinal, sem estudos prévios,


MARCIO ASTRINI

Coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

não há como avaliar o potencial poluidor ou a gravidade dos impactos gerados por determinados empreendimentos. Qual é o maior desafio a ser superado em relação à grilagem de terras na Amazônia? O Estado fazer valer a lei. Não só contra a grilagem, mas de qualquer recurso na Amazônia. Aliás, no Brasil inteiro e em quase todos os setores. O grosso do desmatamento ocorre por causa de grilagem de terras, porque esse é um mercado extremamente lucrativo. A terra é pública, o sujeito entra e a toma para ele. Com essa apropriação, ele acaba tendo uma situação muito vantajosa, pois não só se livra do crime como também realiza o lucro que antes era indefinido com aquela área. Olha que grande negócio se tornou a grilagem na Amazônia! Além disso, esse sujeito tem acesso a créditos públicos, como o Plano Safra, uma vez que ele quer a terra legalizada. A mesma terra que era pública, ilegal, o governo transformou em legal e privada – e ainda financia! Não só repassou um bem público a um criminoso ambiental como também deixou esse criminoso propício a pegar o dinheiro financiado todo ano. O problema da Amazônia não começou nesse governo. Você já afirmou inclusive que grupos de interesse instalados no Congresso tentam, há tempos, aprovar retrocessos ambientais. Qual a diferença hoje, diante da atual crise política, e como avalia a postura/condução de

tais questões pelo presidente Michel Temer? Esses grupos estão aí há tempos. A Lei da Grilagem (13.465, antiga MP 759), por exemplo, foi escrita há décadas. A diferença é que tivemos dois últimos governos [Dilma e Temer] extremamente fracos, que não têm projeto político, com baixíssima popularidade e capacidade de negociação. E aí têm de ceder a um “toma lá

dá cá” muito explícito e o meio ambiente entra como moeda de troca. Quando querem votos para aprovar uma medida, eles pegam um projeto de lei engavetado há 20 anos e o transformam em medida provisória. No caso do Temer, há um agravante, porque a troca não foi por conta de “você aprova meu projeto e eu voto no seu”. Foi de forma mais explícita: “transforme meu projeto em medida provisória para que você continue no cargo e não vá preso”. Temos um presidente que está sendo indiciado por crime comum de corrupção, obstrução

à Justiça, com denúncias graves. Ou seja, ele corre o risco de não só deixar a presidência, mas também de ir para a cadeia. Quando a negociação chega a esse nível, tudo é possível. Quais são as consequências desses retrocessos para a floresta e a imagem do Brasil? Elas são principalmente comerciais. Além, claro, do aumento do desmatamento e da violência na Amazônia. Ainda não podemos afirmar que os números do desmatamento neste ano vão subir. Mas, com certeza, o que se devastar agora vai comprometer a floresta daqui a dois, três anos. Já a violência é o sinal mais claro que temos do que está acontecendo na floresta. Não há qualquer vergonha ou medo do poder do Estado, e as primeiras vítimas são os mais pobres, as lideranças e as comunidades tradicionais. Apesar de as exigências do mercado com relação à proteção ambiental serem cada vez maiores, inclusive entre os consumidores finais e as grandes marcas – que não querem ver o nome de suas empresas associados à destruição de florestas – as “entregas” do governo brasileiro caminham em sentido totalmente contrário. Ou seja, o mercado quer menos desmatamento, o governo o aumenta. O mercado quer mais segurança, o governo suspende as legislações que dão transparência e segurança.

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PÁGINAS VERDES Há exemplos de reação contrária a esse tipo de postura? Uma delas partiu do governo da França, que reafirmou a importância do combate às mudanças climáticas para o povo francês e a decisão de não aceitar produtos que resultem do desmatamento, tendo citado nominalmente a Amazônia. Nos acordos entre a Comunidade Europeia, a situação é semelhante. Em junho, um grupo de deputados europeus pediu que a negociação para criar um acordo de livre comércio com o Mercosul fosse suspensa, diante da crise política no Brasil. Essas são reações explícitas e mostram a que ponto o Brasil chegou. Isso acontece porque não temos governantes que se importem com o país, mas apenas com seus mandatos. Todo o restante fica para escanteio. Em relação à ausência de debate público no que se refere às

decisões que envolvem o meio ambiente: como avançar e evitar mais desmandos? O debate público não existe por própria iniciativa do governo. Veja a questão da Renca. É errado dizer que não houve debate. Houve debate sim, mas com as mineradoras e com os investidores do Canadá, por exemplo. Tanto é que o próprio ministro de Minas e Energia teve três rodadas de conversa: uma no Canadá, outra na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e outra numa grande conferência com as mineradoras brasileiras. Ele não conversou publicamente. Quem participou da MP da Grilagem também foram os próprios interessados em terra. A solução está em melhorar a política como um todo? Sim. Não vai adiantar apenas a cobrança pública. Se formos vitoriosos em tudo que estamos

"O Arpa é um programa vitorioso e exemplar internacionalmente. Ele nasceu num momento em que o planeta engatinhava na discussão sobre mudanças climáticas."

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lutando contra, quando chegar o fim de todo esse processo, vamos terminar com o que tínhamos anos atrás. Não existe nenhum avanço. Quando você reage a pautas ruins, não existe ganho. Existe, na melhor das hipóteses, empate. É preciso ainda mudar as relações com os políticos. Como isso pode ser feito? Hoje, existem no Congresso Nacional grupos que representam máfias, como por exemplo, a do desmatamento, dos madeireiros ilegais e de grileiros de terra. Enquanto o país não resolver tirá-las, a situação vai continuar como está. Em alguns governos, a situação tende a ser pior - como acontece no atual. Michel Temer acorda na Presidência da República todos os dias, mas não sabe se vai dormir no cargo. Outros governos podem ser mais fortes, com maior representação popular e menos dependência do Congresso, mas

FOTO: FÁBIO NASCIMENTO / GREENPEACE

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MARCIO ASTRINI

Coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

QUEM É

ELE

Marcio Astrini trata de licenciamento ambiental e trabalha para que o Brasil tenha políticas públicas que estimulem o Desmatamento Zero e o uso de energias renováveis. Para isso, dialoga com políticos, partidos e com outras organizações não governamentais. Atua no campo das políticas públicas há mais de 20 anos, tendo exercido atividades em diversos segmentos da área, desde a administração pública direta até movimentos sociais. É formado em Gestão Pública e vive em São Paulo.

ainda sim vão sofrer as mesmas pressões. Uma opção de mudança seria a reforma política, mas ela avançou pouco. Trocar não apenas os governantes, mas também os representantes do Congresso, é algo, sem dúvida, urgente. E sobre o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho. O que pensa ou espera dele como titular da pasta e também no relacionamento com os movimentos ambientalistas? Convivi muito com ele quando era deputado e ainda convivo. Ele é bastante acessível e aberto ao diálogo, mas nenhum ministro de Meio Ambiente vai fazer milagre ou conseguir impor uma agenda. A pasta atual não tem força alguma, sua única expressão é fazer troca de votos por outras prioridades do governo, que luta para se manter vivo. O ministro fica “enxugando gelo” e ainda tem de se virar com outras formas de arrecadação para compensar as perdas de orçamento. Sem contar que, em casos como o da Renca e da MP

da Grilagem, só descobriu que havia sido “traído” pelo governo através da imprensa. É importante ressaltar que o ministro tem um longo histórico de luta em favor do meio ambiente e, apesar do governo, é muito bom termos alguém como ele hoje no cargo. Do contrário, o que já é ruim poderia ficar ainda pior. Qual a sua opinião sobre o Arpa, o maior programa de conservação de florestas tropicais do planeta, também abalado com o desmatamento no bioma? É triste e difícil falar sobre isso, porque o Arpa é um programa vitorioso e exemplar internacionalmente. Ele nasceu num momento em que o planeta engatinhava na discussão sobre mudanças climáticas e, de 15 anos para cá, esse debate suplantou o reduto de cientistas e ambientalistas e ganhou o mundo. Nesse caso, mais uma vez, estamos na contramão. Enquanto o mercado e o mundo caminham numa direção, o governo brasileiro caminha em outra totalmente oposta. Além de enfraquecer esse projeto pioneiro e que, internacionalmente poderia ajudar bastante o Brasil em termos do fortalecimento de sua imagem como grande produtor de alimentos e preservador de suas riquezas naturais, o governo federal usa toda a sua “competência” para atacar também o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Apesar do atual caos políticoambiental, você é otimista em relação ao futuro da humanidade e do planeta? Vejo coisas boas acontecendo. As pessoas estão mais conscientes e preocupadas, em especial essa geração que hoje tem 20 e poucos anos e já não aceita

mais, não só na política, mas principalmente na área ambiental, situações que antes eram consideradas “normais”. Outro aspecto positivo é o fato de a questão ambiental e social, que caminham juntas, se tornarem cada vez mais importantes para os tomadores de decisão e para a imagem de mercado. Acredito que vai demorar um pouco, mas com o tempo essa visão passará a influenciar também nas eleições, nas escolhas que o brasileiro fará ao ir às urnas. Sociologicamente falando, essa é a transição que se espera. E o lado negativo? É o mesmo de sempre: enquanto essa mudança não ocorre de fato e na prática, a floresta continua sendo destruída, o planeta segue se aquecendo. Infelizmente, no Brasil, ainda não temos a ação, a velocidade e a ambição necessárias para resolver esses problemas, nem em termos de participação em acordos de clima internacional e menos ainda no que diz respeito a políticas públicas sérias. O pior de tudo é que os impactos ambientais e relacionados ao clima vão vitimar principalmente os mais pobres, e não os mais ricos, aqueles que se corrompem, que aceitam propina e aparecem na TV por mau uso do bem público. Os mais afetados serão aqueles que mais dependem da rede de atendimento público. O morro vai desabar, o rio vai encher, a comida e água tendem a ficar mais caras e em cidades costeiras, como o Rio de Janeiro, estudos comprovam que vários hospitais públicos serão atingidos, em caso de aumento do nível do mar. Os mais frágeis são exatamente os que mais sofrerão.  SAIBA MAIS

www.greenpeace.org/brasil/pt/ SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  25


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ESTADO DE ALERTA MARIA DALCE RICAS (*) redacao@revistaecologico.com.br

FOTO: IPÊ/INCAB/PROJETO TATU-CANASTRA

FLORESTAS VAZIAS: um milhão de animais são atropelados por ano nas estradas de Minas Gerais

CAÇAR O QUÊ?

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Projeto Urubu, coordenado pelo professor Alex Bagio, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, diagnosticou que cerca de um milhão de animais silvestres morrem nas rodovias anualmente. A tragédia não afeta o emocional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e os Departamentos de Edificações e Estradas de Rodagem (DERs) estaduais. E mais: os órgãos ambientais esfacelados ou meros cabides de emprego mantêm uma ladainha de justificativas que já se tornou insuportável. Não há estatísticas sobre o número de animais que morre queimado pelos incêndios, desmatamentos, envenenados por agrotóxicos, tráfico e caça clandestina. E mesmo diante dessa tragédia silenciosa e sem “lama”, o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC)

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quer legalizar a caça esportiva, por meio do Projeto de Lei 6.268/16. De pessoal, acredito que ele tenha uma personalidade gelada, insensível à beleza da natureza e ao sofrimento de qualquer ser vivo. Provavelmente também aos seres humanos. E como político notabilizou-se por apresentar projetos contra populações indígenas e o meio ambiente de forma geral. Procurei no site do TRE de Santa Catarina a origem das doações à sua campanha, considerando que o PL atende interesse direto da indústria de armas que, coincidentemente, localiza-se no Sul do país. Mas não há informações. O PL é recheado de absurdos. Prevê “eutanásia”, classificação inapropriada para morte por tiro, envenenamento ou estraçalhamento por cães para


“Não consigo entender como matar animais pode ser sinônimo de diversão e esporte. Muito menos criar abrigo legal para que crianças sejam, como nos EUA, ‘iniciadas’ no manejo de armas de fogo, incentivando a cultura da violência.”

FOTO: FELIPE LESSA

animais que forem considerados nocivos às ativi- processo de discussão desse famigerado PL. São as “florestas vazias”. Enquanto brigadista, já dades agropecuárias. O Brasil tem tido safras recordes de colheita de passei noites e dias combatendo incêndios e semgrãos. Mas maritacas, pássaros-pretos, caititus e pre me impressionou o fato de raramente vermos outros são responsáveis por prejuízos ao podero- animais. Suas populações já foram tão reduzidas so setor ruralista. Grandes predadores, como as que é sorte avistar algum. Caçar o quê, então, “seonças-pintadas e pardas, cada vez mais acuados nhor deputado”? Se um caçador entrar na minha propriedade pelo desmatamento, matam animais domésticos para matar animais que protejo, posso atirar para comer. A solução é exterminá-los de vez. nele também? Espécies exóticas, introduzidas Unidades de conservação de proteção integral, pelo ser humano, como o javali e a lebre, estão mesmo quase abandonadas pelo poder público, áreas protegidas por alguns particulares e a prejudicando a agricultura e o meio ambiente, pois concorrem com proibição da caça a fauna silvestre em são os únicos faRESGATE A TRADIÇÃO DO FOGÃO A LENHA, diversos sentidos. tores que ainda COM RESPEITO AO MEIO AMBIENTE A pesquisa de solugarantem a sobreções para minimizar vivência de nossa o problema deveria, fauna. Se o PL pashá muito tempo, ter sar, a fiscalização FOGÕES sido priorizada pelo da Polícia Militar FOGUEIRAS poder público. É Ambiental e tamLAREIRAS preciso muita má-fé bém a dos órgãos CALEFATORES ou desinformação ambientais estaFORNOS DE PIZZA para acreditar que rão praticamente esse PL vá resolver o extintas, pois não problema. haverá mais abriCentenas de entigo legal. Detalhe dades protetoras de importante: o deanimais e defensoras putado apresendo meio ambiente, tou outro PL que alguns parlamentares PRODUTOS ECOLÓGICOS, ENERGIA RENOVÁVEL, SUSTENTABILIDADE prevê acabar com federais e estaduais, Tel. 31-3586.9068 ou 9069 a lista de espécies representantes do www.ecofogao.com ameaçadas de ex9.8444-9606 Ibama, IEF, pesquitinção. Isso, cersadores e Ministério tamente, facilitaPúblico estão mobilirá o extermínio das pequenas populações que zados na luta contra a proposta. ainda resistem. Mas é uma luta inglória, principalmente hoje, CULTURA DA VIOLÊNCIA Filosoficamente, não consigo entender como matar animais pode ser sinônimo de diversão e esporte. Muito menos criar abrigo legal para que crianças sejam, como nos Estados Unidos, “iniciadas” no manejo de armas de fogo, incentivando a cultura da violência. Porém, mesmo que esse aspecto pudesse ser deixado de lado, já que os “amantes da morte” chegam a dizer que matar animais é “direito humano”, há uma realidade que não pode ser esquecida no

com o país mergulhado numa crise política marcada por um parlamento que perdeu qualquer noção de respeito ao bem público. Encerro citando pergunta relativa à finalidade do PL, que faz parte do manifesto entregue à Câmara dos Deputados pela “resistência”: “Comprovar a soberania do homem sobre o meio em que vive?”  (*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).

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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

FOTO: REPRODUÇÃO

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O CHORO amazônico de Gisele, na abertura do Rock in Rio: clamor pela natureza

O AVATAR MINERAL 2? Pergunta feita pela mineração sobre o porquê das lágrimas de Gisele Bündchen contra o projeto de lei que extinguia Renca, derramadas durante o Rock in Rio 2017, faz recrudescer o movimento ambientalista mundial, à lembrança do filme-libelo de James Cameron Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

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uas décadas depois de ter ido navegar na eternidade, o oceanógrafo francês Jacques Cousteau foi novamente lembrado na Terra. Tudo por causa de uma mensagem que ele deixou e nunca esteve tão atual quanto agora, momento em que o Brasil rediscute a exploração mineral na última grande floresta

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tropical do planeta. Mais exatamente na Reserva Nacional do Cobre e Associados, a polêmica Renca, onde apenas 0,33% da Floresta Amazônica se acha desmatada: “A guerra do futuro” – disse Cousteau – “será entre os que defendem a natureza e os que a destroem. E a Amazônia vai ficar no olho do furacão. Cien-

tistas, políticos e artistas desembarcarão aqui para ver o que está sendo feito com a floresta”. Essa previsão do velho e sábio “Guardião dos Mares”, como ele ficou conhecido, também nos traz outra lembrança emblemática: “Avatar”, o ecologicamente impactante e contundente filme de ficção científica de 2009, escri-


“A guerra do futuro será entre os que defendem a natureza e os que a destroem. E a Amazônia vai ficar no olho do furacão.”

to e dirigido por James Cameron. Todos se lembram. A história que reacendeu o debate da sustentabilidade e cativou milhares de pessoas em todo o mundo, tornando-as também ambientalistas e amantes da natureza, se passava no ano 2154 depois de Cristo. Pandora, uma das luas de

um planeta distante, era habitada por uma espécie de humanoides adaptada à sua natureza, chamada Na’vi. Qualquer semelhança com a nossa realidade, com os nossos povos da floresta, não é mera coincidência. O povo Na’vi venerava a deusa da vida, Eywa. E, por

isso, vivia em harmonia com a Mãe Terra, simbolizada por uma colossal Árvore-Mãe que o alimentava, nutrindo-o de tecnologia limpa, energia e luz. Já os humanos, colonizadores de Pandora, consideravam os Na’vi primitivos. E, por essa razão, não tinham uma comuniSET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  29

FOTO: FÁBIO NASCIMENTO / GREENPEACE

Jacques Cousteau, oceanógrafo francês


AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

FOTO: DANIEL BELTRÁ / GREENPEACE

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Segundo a WWF-Brasil, menos de 30% da Renca estará acessível à exploração dos recursos minerais. As regiões que apresentam contexto geológico favorável à mineração estão inseridas em Áreas Protegidas que bloqueiam a extração de recursos minerais cação respeitosa e pacífica com eles. Não entendiam a cultura local de valorização, troca e sentimento profundo com a natureza exuberante que dava vida e recursos ambientais para sobrevivência e bem-estar de seus habitantes. Em vez de amar e interagir de maneira sustentável com a Mãe Natureza, os humanos queriam apenas explorar, e de maneira predatória, como mostra o filme, as reservas de um mineral tão precioso que existia em Pandora. Tal como o minério de ferro é estratégico hoje para a sobrevivência e o desenvolvimento tecnológico da humanidade.

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Tratava-se de mineral que existia somente ali, justamente debaixo da Árvore-Mãe dos Na’vi. Tal como, em paralelo e separada por 4,4 anos-luz de Pandora, encontra-se a Renca, hoje no subsolo mais preservado da Amazônia. É triste a ação criminosa do garimpo ilegal que o presidente Michel Temer permite no local, tal como os governos Lula e Dilma também fizeram, somado ao sucateamento histórico do Ministério do Meio Ambiente, Ibama, Instituto Chico Mendes e Funai. Justamente os órgãos que deveriam ser de ponta, aparelhados humana e

tecnicamente para o desafio do desenvolvimento sustentável, incluindo a mineração, na delicadeza do bioma amazônico. Voltando ao ano 2017, Planeta Terra, em tempos de mudanças climáticas. Para explorar os diversos minerais presentes na Renca, se permitido for, como aposta o Ministério de Minas e Energia e adverte o do Meio Ambiente, a indústria da mineração terá que tombar e fazer morrer 21% da Grande Floresta ali existente, para a tragédia biodiversa de todos os seus habitantes, os chamados povos da floresta, humanos ou não. Um desmatamento amazônico


FOTO: DIVULGAÇÃO

de quase um quinto da área total da Renca, equivalente ao tamanho do estado do Espírito Santo. Imagine o tamanho e as consequências, em efeito dominó, desse deserto artificial e nada ecológico, justamente onde a natureza não o concebeu? Será por isso que a top model e ambientalista brasileira Gisele Bündchen chorou no Rock in Rio, representando as lágrimas não apenas dos artistas e ambientalistas? Mas, doravante, vide o recuo perigoso de Temer, as lágrimas de todo cidadão consciente do estado ambiental do mundo? De toda e qualquer pessoa hoje transformada também em um novo defensor da natureza e jornalista ao mesmo tempo, graças a um toque no celular em punho? Por que a mineração, ainda não inteligentemente amante da natureza e, por isso, raramente sustentável, ainda é tão malvista e refutada pela opinião pública, se todos nós – sem exceção – não sabemos mais viver sem os seus produtos em nossa rotina? Seria a falta de comunicação, de amor, dever e gratidão à natureza que ela explora, ou tudo isso junto, a exemplo do que aconteceu em Pandora, cujo final, todos se lembram, foi a revolta da natureza contra a espécie humana? É o que a Revista Ecológico continua discutindo nesta edição, com a cobertura do 17º Congresso Brasileiro de Mineração e da Exposição Internacional da Mineração (Exposibram) 2017 – realizados entre 18 e 21 de setembro último, na capital mineira. Foi onde, com o tema: “Um olhar sobre o futuro da Mineração”, o setor fez, de maneira histórica e alvissareira, o seu primeiro mea-culpa público com relação à questão ambiental e de comunicação. Fez mais. Mostrou outra per-

A PRINCESA Neytiri, a Gisele Bündchen da ficção: lembrança do povo Na'vi, em “Avatar”

Em 2016, 41 dos 646 requerimentos para lavra de minério em áreas da Renca eram em terras indígenas. E aproximadamente 600 em Unidades de Conservação formance de como a atividade que, com seu poder econômico e conhecimento técnico, inegavelmente mais preserva o que ainda nos resta de natureza, no cumprimento das exigências do licenciamento (vide a Floresta Amazônica que só existe hoje no Sul do Pará, graças ao Projeto Carajás; assim como a Mata Atlântica do Jambreiro, na Grande Belo Horizonte, pelo Projeto Águas Claras). E mostrou que, embora bem

menos do que os ambientalistas defendem, ainda recupera consideravelmente o que degrada. O único desperdício de oportunidade, graças talvez a uma nesga de arrogância que ainda nubla a visão maior do setor, foi o Congresso Nacional não ter convidado a imprensa verde nem as ONGs ambientais do país para participarem do debate, em plena discussão mundial sobre a Renca. A Ecológico, inclusive, foi convidada a se retirar de uma das plenárias da Exposibram deste ano. O setor muito menos soube comunicar, na opinião dos ambientalistas clássicos e não radicais, os avanços da recuperação socioambiental em curso no Rio Doce, por meio da Fundação Renova, quase dois anos após a tragédia de Mariana, de onde as Minas Gerais buscam o mar ainda poluído do Espírito Santo. Confira:

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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

Quem não se comunica... Hiram Firmino

redacao@revistaecologico.com.br

WILLIAM Waack e o mundo da mineração: mea-culpa histórico

XX  ECOLÓGICO | SETEMBRO DE 2017

Somos todos mineiros - lembrei-me do brado incansável de Fernando Coura, ex-presidente do Ibram. Minerados e mineradores, todos temos razões de sobrevivência, na busca igual da sustentabilidade. Essa é a democracia maior e apartidária da ecologia. Amor e ódio, produção e produto, mineração e consumo, somos todos responsáveis, enfim, sob a ótica ambiental, pelo que fazemos com a finíssima crosta terrestre de um terço do planeta, e vamos colher o resultado juntos depois, como em “Avatar”. ABERTURA OFICIAL Após os discursos de sempre, teve início o talk show sob o comando novamente do jornalista William Waack, apresentador do Jornal da Globo. E ele mostrou a que veio. Como nas edições anteriores da Exposibram, “puxou a língua” dos líderes representantes do setor mineral ao seu lado. E... surpresa histórica! Pela primeira vez eu os vejo e ouço, sem aquela pitada de arrogância do passado, fazendo o seu mea-culpa pela imagem negativa que têm perante a opinião pública. Ao contrário, se posicionando também pelo que fazem de positivo e não FOTO: NETUN LIMA

Manhã ensolarada, quente e cinzenta do dia 18 de setembro último, data da abertura do 17º Congresso Brasileiro de Mineração – a Exposibram 2017. Queimadas criminosas ainda devastavam os contornos e nascentes do Parque Estadual do Rola-Moça, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que o próprio setor minerário ajuda a proteger, inclusive contribuindo para apagar o fogo. Até a data de realização do maior evento de mineração da América Latina parecia ter sido propositadamente escolhida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram): véspera do “Dia da Árvore”, da “Semana Florestal” e da entrada da primavera. Tinha tudo, enfim, para o setor se comunicar de maneira ecológica, inclusiva e propositiva com a opinião e a reputação pública. Auditório Turquesa, o principal do evento, logo após os convidados descerem a rampa que dá acesso ao Expominas. Alguns deles talvez não percebam, numa placa ao lado, a lembrança in memoriam de Fernando Brant. O compositor mineiro e parceiro eterno de Milton Nascimento nos faz recordar que não há separação entre natureza, mineração e sociedade: “Sou do mundo, sou Minas Gerais”.


é informado à população: “Nós perdemos, sim, a interlocução com a sociedade”, admite Vicente Lobo, representante do Ministério de Minas e Energia. “Tudo problema de comunicação” - lembra ele, com razão. É sempre a natureza e a comunicação correndo atrás da engenharia e da produção, com danos indeléveis para a imagem pública do setor. A mineração ainda esquece que, na natureza, o cacarejar da galinha quando bota um ovo não é à-toa. É dever, informação e educação ambiental em nome da sobrevivência e multiplicação da sua espécie. “A verdade é que a gente se preocupa, faz e fala muito em meio ambiente sim. Mas somente no âmbito da mineração”, acrescenta Otávio Carvalheira, CEO da Alcoa World Alumina Brasil, fazendo um contraponto à atitude e espaço na mídia que Gisele Bündchen consegue ao empunhar a bandeira da Amazônia fora do Brasil, vide o desastrado episódio da Renca. “Será que ela sabe o que fazemos de bom?” - ele pergunta aos seus pares no palco. Clóvis Torres Júnior, diretor-executivo da Vale, dá um exemplo de dificuldade do setor, mesmo querendo fazer a coisa certa: “Mesmo inovando de maneira sustentável e obtendo licença social, quando, por exemplo, precisamos de uma anuência da Funai para implantar um projeto que trará benefícios para toda a sociedade e o próprio meio ambiente em volta que vamos preservar, o que acontece? Deparamos com mais uma instituição dentro de um sistema ambiental de governo todo desaparelhado. E tudo é paralisado, em prejuízo de todos”. Mas foi Tito Martins, CEO da Votorantim Metais, quem mais se referiu às lágrimas da top model e ambientalista brasileira: “Não sei por que a Gisele chora, se somos, ao contrário de como a sociedade nos vê, especialistas em meio ambiente”. Ele e ela estão certos, penso em silêncio, mineiramente. Não há como negar que o maior número de empresas, consultores e profissionais ligados ao meio ambiente, envolvendo biólogos, geógrafos, engenheiros, comunicadores e educadores ambientais, etc. estejam hoje empregados nas empresas de mineração. E se degradam e destroem tanto a natureza e depois a recuperam, ainda sem o sentimento de gratidão e pertencimento (e bem menos do que a maioria dos ambientalistas defendem), não há como negar. São também elas que mais preservam o que resta de meio ambiente no país, incluindo a Amazônia. A única porção do bioma que restou hoje no Sul do Pará deve-se à Vale, por força compensatória

A mineração ainda esquece que, na natureza, o cacarejar da galinha quando bota um ovo não é à-toa. É dever, informação e educação ambiental em nome da sobrevivência e multiplicação da sua espécie

no seu processo de licenciamento ambiental. Foi ela, não por ser boazinha nem por amor à natureza, que criou e preserva os hoje quase 400 mil hectares da Floresta Nacional de Carajás, a um custo anual de R$ 25 milhões. Fora dali, desta área verde equivalente a 400 mil campos de futebol interligados, partindo do planalto central de Brasília, não existe mais nada de vegetação natural. Foi tudo devastado. Virou pasto, garimpo, grilagem e degradação. Outro exemplo, mais perto, o evento lembrou: a Mata do Jambreiro, adotada pela ex-Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), atual Vale, durante a produção já desativada da Mina de Águas Claras, em Nova Lima (MG), atrás da Serra do Curral. Trata-se da maior reserva do bioma de Mata Atlântica em transição para o Cerrado preservada em toda a região metropolitana da capital dos mineiros. Ao seu redor, prossegue a mesma degradação, notadamente pelo avanço imobiliário insustentável. CONFIANÇA E REPUTAÇÃO Elevei minhas expectativas, enfim, com o que os palestrantes diziam sobre esperança ali no talk show. E não gravei nada, confiante no que estava expressamente garantido na programação oficial da Exposibram: “As palestras apresentadas serão disponibilizadas no site do Ibram, após a realização do evento”. Mesmo assim, desconfiado como todo mineiro, pedi para a minha equipe de jornalistas recorrer à assessoria de imprensa e garantir logo tão inovador conteúdo. Nosso objetivo era divulgar, na íntegra, tanto na versão impressa quanto digital, para todos os nossos leitores, tudo o que de luz e entendimento o setor mineral acabara de comunicar ali. Mais desconfiado ainda, resolvi ir direto ao colega

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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

SILÊNCIO MINERAL Nervoso, fui então ao Paulo Henrique. Ele anotou, novamente, como um bom comunicador. E eu confiei outra vez, acreditando e apostando na tal nova reputação em construção do setor: “Fique tranquilo. Vou ver isso e te retorno” – repetiu-me ele. Até hoje continuo aguardando o seu retorno. Seja pessoalmente, por telefone, e-mail... Ou via WhatsApp, cujo aparelho celular, a maioria da população e da opinião pública ainda não deve saber, depende de 43 minerais diferentes para a sua fabricação.

Paulo Henrique Soares, diretor de Comunicação do Ibram: “Pode deixar”, ele anotou. E prometeu: “Vou ver isso e te retorno”. Os dias foram assim. Passaram. Minha equipe não conseguiu nada. Só desinformação truncada. No último dia, antes de me encontrar novamente com ele, passei na assessoria de comunicação do evento: “E aí, que dia as palestras serão disponibilizadas, já que vocês gravaram e filmaram tudo? Estamos no fechamento da próxima edição da Ecológico”. A resposta veio uníssona: “Somente daqui a dois meses. E ainda teremos, antes, de obter autorização com cada um dos palestrantes para divulgar o material”.

Foi o que aconteceu também, equivocadamente, com o painel “O novo futuro da Bacia do Rio Doce”, a cargo da Fundação Renova, entidade criada após o acidente de Mariana, sobre os trabalhos de recuperação e reparação socioambientais que ela conduz de maneira profissional e independente. Mas até hoje é criticada por não se comunicar com os ambientalistas e a sociedade. E, assim, não ajudar como poderia, a Samarco a voltar logo a funcionar, de maneira sustentável e necessária, já que a Prefeitura de Mariana e sua população dependem, dramática e respectivamente, de 80% dos recursos vindos de seus impostos e dos empregos para sobreviverem. Ainda paralisada, a empresa já tem garantida, mesmo oficiosamente, todas as licenças necessárias: ambientais, sociais e políticas. Ou seja, só lhe falta a licença maior, que é a da reputação pública, e esta passa necessariamente pela comunicação. Por tudo isso, por se tratar de mostrar o que o setor tem feito para reparar tanto a maior tragédia socioambiental já causada na história da mineração brasileira como na sua imagem pública, tipo um divisor de águas antes e depois de Mariana, era de se esperar, e a imprensa gosta de cobrir, um lugar de destaque na Exposibram. De preferência na abertura oficial, na esteira da mensagem e da pegada do talk show de abertura. Não foi assim. Em vez do Auditório Turquesa, a Fundação Renova apresentou seu painel no Auditório Tur34  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

FOTO: NETUN LIMA

...Se trumbica e não constrói opinião pública

ROBERTO WAACK: postura, apresentação criteriosa e poucos ouvintes

malina, o menor, e para um previsível público pequeno no último dia e horário do evento. Foi uma pena. Intermediado pelo presidente da Fiemg, Olavo Machado, e o secretário-adjunto estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Germano Vieira, o presidente da Renova, Roberto Waack – primo do jornalista global


FOTO: FUNDAÇÃO RENOVA/DIVULGAÇÃO FOTO: JOKA MADRUGA

PORTAL da Praça Manoel Lino Mol, em Barra Longa, antes e depois: memória em reconstrução

William Waack – surpreendeu a plateia. Tranquilo e sereno, ele projetou uma nova e competente apresentação técnica do que a Fundação se propôs e vem fazendo, mais mineiramente impossível, dentro de sua missão maior. E dividiu com o público ouvinte, um “outro” planejado e compartilhado olhar sobre o futuro socioambiental para melhor da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, ao longo de mais uma década de atividades previstas pela Renova. Mostrou um modelo em curso inédito de governança. Bem ao contrário, exemplificou, do processo de recuperação socioambiental que foi o conserto do horror de poluição industrial que ocorreu em Cubatão (SP), cujo processo de judicialização durou 40 anos: “Não é a Fundação quem, pretensamente, aponta e diz o que se deve fazer ao longo das áreas degradadas pelo acidente da Samarco. Mas a sociedade local atingida, que ouvimos e valorizamos atentamente. É ela quem diz, aprova, acompanha e fiscaliza o que devemos fazer”. Disse mais sobre as críticas que a Fundação recebe, por não responder a tempo e hora, a reclamação quase diária na imprensa tradicional pelos atingidos pela tragédia: “Entendemos e aceitamos suas reivindicações. Na maioria das vezes elas procedem, e já estão incluídas em nosso cronograma de ações”. A questão crucial, compreensiva e de mão dupla, segundo Roberto Waack, é que um dia a mais na

vida dos atingidos, sem ainda um lugar próprio para morarem, destituídos de sua história familiar e lembranças, é bem mais demorado. “É humanamente mais demorado”, ele concluiu, que os dias que a Fundação e seus colaboradores, mesmo empenhados, têm para restitui-los desses seus direitos legítimos. “Por que a Fundação não divulga para o grande público, na mesma mídia tradicional que a critica, e não somente via digital, exatamente isso que vocês nos mostraram aqui?” – foi a segunda pergunta que lhe fiz, por escrito. Ele pouco respondeu à primeira, sobre quem compõe o Conselho Curador da Renova, cujos nomes e rostos ainda não são conhecidos. E não viu, não lembrou ou não quis responder à segunda pergunta sobre comunicação. Saiu logo da mesa e foi cercado por outros jornalistas. A pergunta continua no ar: alguém sabe o que a Fundação Renova e suas mantenedoras vêm fazendo de maneira criteriosa e de concreto, superando desafios e criando esperança Rio Doce abaixo, quase dois anos após a tragédia de Mariana? Eu, que sou da área e, convidado, já fui ver a situação in loco, passei a saber mais e mudei minha opinião. Mas, e você, opinião pública? Vai aguentar esperar mais dois meses para o Ibram disponibilizar e lhe comunicar a esclarecedora palestra do Roberto?

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SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  35


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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

Comunicação e percepção social “Se usarmos uma metáfora biológica, humana, a atividade mineral é igual aos neurônios de nosso cérebro. O que falta para ela ser reconhecida como indutor econômico e não apenas uma atividade extrativista são as sinapses – a capacidade de interligação da atividade mineral com outros setores produtivos. É isso que gera o efeito multiplicador de geração e riqueza, melhores empregos. É natural e estrutural da mineração. E somente o governo, com seus mecanismos, tem de se preocupar com isso. É como fazer, por exemplo, que a agregação de valor ao bem mineral seja facilitado no país. Construir redes econômicas aos bens minerais iria permitir, com certeza, a melhor percepção da sociedade em relação à atividade de extração de minério. Se fizermos uma comparação entre o setor agrícola, o agronegócio e o setor mineral, do ponto de vista de impacto ambiental, é difícil dizer que o mineral é maior. Pelo contrário. A percepção da população sobre o agronegócio é muito mais positiva e tolerante do que a extração mineral. Minas Gerais está no cerne desse preconceito que a opinião pública tem contra a mineração. O setor precisa ter mecanismos de comunicação criativos e emotivos de chegar à população, assim como fez a agricultura brasileira. Precisa, enfim, aprender a se comunicar com a sociedade. Se você consegue mostrar os benefícios ao cidadão, seja ele morador de uma pequena localidade, de uma tribo indígena seja de uma comunidade quilombola até à classe média, você vai ter outro tipo de tratamento e resposta. Esse caminho a ser percorrido é grande. Estamos vivendo turbulências institucionais que afetam também o processo regulatório e econômico. Por exemplo, as medidas provisórias que estão alterando a regulação mineral. Existem hoje dúvidas se elas vão ser aprovadas ou não, se vão caducar. Tudo isso gera muita insegurança. PAGANDO O PATO Sobre a Renca, o que vi foi o setor mineral reclamando sobre como uma decisão que eles nem tinham tomado conhecimento afeta toda a percepção que a sociedade tem das empresas de mineração, mesmo se tratando de uma iniciativa isolada 36  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

FOTO: SARAH TORRES/ALMG

Marco Antonio Castello Branco (*)

MARCO ANTONIO: "O setor precisa aprender a se comunicar com a sociedade"

do próprio governo federal. Chegamos a convidar especialistas canadenses para falar na Exposibram sobre licenciamento ambiental para a atividade mineral próxima ou de maneira complementar com a preservação de seus parques nacionais e reservas indígenas. Ou seja, se isso é possível fazer de maneira ordeira, parceira e transparente em quase todos os países do mundo, vide experiências consagradas também na Austrália e África do Sul, porque não aqui não podemos? Esses países, como no Brasil, têm uma grande dependência da atividade mineral, sabem preservar e recuperar a natureza em volta de seus empreendimentos, com o conhecimento e participação da sociedade, formando opinião pública favorável. Mas aqui onde vivemos, vide a gritaria liderada pela Gisele Bündchen, temos essa coisa da comunicação rasa e instantânea nas redes sociais. Todo mundo reage a tudo, a todo instante, sem profundidade, sem ter conhecimento de causa.” (*) Diretor-presidente da Codemig.


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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

Uma polêmica

em stand by Governo federal revoga decreto que extinguia área protegida de 4,6 milhões de hectares na Amazônia e confirma o que todo mundo já sabe: meio ambiente é moeda de troca na política brasileira J. Sabiá e Luciano Lopes

redacao@revistaecologico.com.br

“A Amazônia é quase mítica.” Parece piada. Mas essa é a primeira frase do texto que apresenta o maior bioma brasileiro no site do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o órgão público oficial que zela pelos nossos recursos naturais. A julgar pelas recentes mancadas ambientais do presidente da República, Michel Temer, que negocia a Floresta Amazônica com a bancada ruralista e empresários para se manter no poder, é desrespeitosa a nova “contribuição” que o atual governo está dando ao futuro da humanidade e do planeta ao relegar este paraíso de cinco milhões de quilômetros quadrados à condição de lenda. Dois fatos ainda borbulhantes comprovam isso: 38  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

primeiro, a tentativa de extinguir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) – uma área de quase 47 mil km2 – por meio do Decreto 9.147/2017, liberando-a para a realização de pesquisas minerais pelo setor privado. Antes, apenas a União poderia fazer pesquisas no local. Com a decisão, que foi revogada em 26 de setembro último, a Renca corria risco de ser aberta para a atividade minerária, sob o pretexto de atrair investimentos para a região e fortalecer a economia do país. A repercussão negativa nacional e internacional da possibilidade de extinção da reserva fez cair ainda mais a reputação do Brasil como potência ambiental. Ela já estava abalada desde junho pas-


FOTO: JÚLIA MENTE / GREENPEACE

sado, quando a Noruega, maior financiadora internacional de projetos de combate ao desmatamento no bioma amazônico, anunciou o corte de 50% (cerca de R$ 200 milhões) de investimentos nesses projetos, diante dos retrocessos recentes na política ambiental brasileira. Em segundo lugar, foi a novela das Medidas Provisórias MP 756 (vetada integralmente) e 758 (vetada parcialmente e convertida na Lei 13.452/2017), como a Ecológico mostrou em reportagem especial publicada na Edição 98 (disponível no link goo.gl/YAgCHa). Tais propostas alteram os limites da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no município de Novo Progresso (AM), do Parque Nacional do Jamanxim e do Parque Nacional do Rio Novo, desmembrando e deixando desprotegida parte da área de mais de 600 mil hectares. Com isso, grileiros e posseiros ilegais seriam legalmente beneficiados, além de abrir precedentes para a construção de uma nova ferrovia paralela à BR-163, que traria mais desmatamento e danos à biodiversidade e às populações tradicionais da Amazônia. Temer revogou as duas MPs, mas aprovou em 11 de julho deste ano outra medida com anuência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal: a 759, conhecida como “MP da Grilagem”, que prevê a regularização fundiária de áreas urbanas e altera a legislação da reforma agrária. Ambientalistas e entidades conservacionistas criticaram o texto. Segundo a ONG Greenpeace Brasil, ele foi enviado ao Congresso sem participação da sociedade e de estudiosos da área. “A MP 759 ‘abre a possibilidade de transferência de terras da União a grandes especuladores fundiários, anistia grileiros, enfraquece a reforma agrária e acaba com o conceito de uso social da terra. Com isso, a medida resultará em aumento do desmatamento de florestas, a disputa pela posse de terras e, consequentemente, a violência no campo”, afirmou a ONG em seu site. No caso da Renca, esse cenário pode não estar tão distante, justamente por sua riqueza mineral. Em 2016, 200 ativistas ambientais foram assassinados no planeta. Desses, 49 foram no Brasil. De acordo com levantamento da ONG Global Witness, a principal causa de morte está ligada a conflitos contra agronegócio, exploração madeireira e mineração. Esta última, inclusive, permanece como a mais perigosa: 33 ambientalistas foram mortos

A MP 759 “abre a possibilidade de transferência de terras da União a grandes especuladores fundiários, anistia grileiros, enfraquece a reforma agrária e acaba com o conceito de uso social da terra” por se oporem a projetos minerários e petroleiros e ao garimpo predatório. No início de setembro, a reserva teve seu decreto suspenso por Michel Temer e o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Pinto, após enxurrada de críticas da imprensa internacional, artistas (leia mais a seguir) e até setores da base aliada. O governo prometeu um “amplo debate com a sociedade sobre as alternativas para a proteção da região. Inclusive propondo medidas de curto prazo que coíbam atividades ilegais em curso”. Na nota publicada no site do Ministério de Minas e Energia (MME), foi determinada “a paralisação de todos os procedimentos relativos a eventuais direitos minerários” na área da reserva. E que “a iniciativa se dá em respeito às legítimas manifestações da sociedade e à necessidade de esclarecer e discutir as condições que levaram à decisão de extinção da Renca”.

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SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  39


AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

GARIMPO ilegal na Amazônia: ameaça real diante de um Ministério do Meio Ambiente desvalorizado pelo governo

À época, ficou definido que o ministério apresentaria ao governo e à sociedade as conclusões desse amplo debate em um prazo de 120 dias (que seria até o fim de novembro próximo), destacando as medidas de promoção do desenvolvimento sustentável da área, com a garantia de preservação, e detalhando como seria feita a pesquisa mineral pelo setor privado na Renca. E é aí que mora o maior dos problemas: caso fossem liberadas as pesquisas no local, a possibilidade de se minerar a área seria uma realidade ameaçadora, tanto para a manutenção da delicada biodiversidade quanto para as comunidades tradicionais e o próprio governo federal, já que a fiscalização atual, em razão do desmantelamento do Ibama, é ineficaz para barrar a sangria da floresta. Além disso, o potencial mineral da Renca é equivalente ao de Carajás, no Sudoeste do Pará, cujo legado de destruição socioambiental atraído pela mineração a história comprova. FUGA ESTRATÉGICA A primavera chegou e com ela não vieram só flores. A mobilização social que pedia a revogação do Decreto 9.147/2017 cresceu e obrigou o governo a rever a mancada ambiental de tentar extinguir a Renca. Para isso, usou a pouca sensatez que lhe restava para revogá-lo por meio de outro decreto 40  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

(9.159), publicado no Diário Oficial da União em 26 de setembro. Em nota publicada no Ministério de Minas e Energia, o governo federal afirmou que era necessário mais debate sobre o tema, mas sem informar a data prevista para isso. O texto também ressaltou que “as razões que levaram a propor a adoção do Decreto com a extinção da reserva permanecem presentes”. Um sinal claro de que a tentativa de extinguir a reserva e abrir caminho para a mineração no local está apenas em stand by. A jornalista Miriam Leitão, em uma de suas colunas recentes em “O Globo”, sintetizou bem o sentimento dos brasileiros em relação a essa polêmica da reserva: “Ao desistir de extinguir a Renca, o governo disse que houve uma ‘incompreensão geral da sociedade’. Não é verdade. Todo mundo entendeu muito bem e isso é que foi um problema para o governo. Como apenas uma parte pequena do território de Renca estava fora das áreas de conservação, o que ficou claro é que o fim da reserva mineral era o começo do desmonte das reservas ambientais da região”. SAIBA MAIS

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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

FOTO: YANGUAS WIKIPEDIA

“Não existe compatibilidade entre floresta e mineração. O governo trata o assunto como se riqueza mineral desse em árvore, como fruta. Não tem como ter atividade mineral sem derrubar amplas áreas de floresta. Há quem diga, ‘mas pode reflorestar’. Minha resposta é de que a Floresta Amazônica é implacável. Desmatada, ela vira deserto. Se você derrubar uma árvore, não tem condição alguma de recuperar a biodiversidade, porque ela é única. Tentaram adocicar o decreto para engambelar a sociedade e a comunidade internacional. Tentaram fazer um arremedo. Este novo decreto apenas estabelece critérios para a atividade mineral. Só que esses critérios já estão em lei. Então não tem novidade. A única coisa que fica patente, é de que o governo quer autorizar mineração na floresta.” Randolfe Rodrigues, senador (Rede Sustentabilidade), em entrevista ao Estadão “Vergonha! Estão leiloando nossa Amazônia! Não podemos destruir nossas áreas protegidas em prol de interesses privados.” Gisele Bündchen, modelo e ativista ambiental

“A liberação da atividade minerária neste local colocará em risco diversas áreas protegidas, podendo causar impactos irreversíveis ao meio ambiente e aos povos da região. Além da exploração demográfica, desmatamento, perda da biodiversidade e comprometimento dos recursos hídricos, haverá acirramento dos conflitos fundiários e ameaça a povos indígenas e populações tradicionais.” Maurício Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

O que diz a sociedade “A decisão de Temer desconsidera os graves riscos e impactos da mineração nos processos de ocupação da Amazônia, que já fizeram surgir em outras ocasiões uma descontrolada e avassaladora frente de migração, desmatamento, violência, contaminação dos recursos hídricos e degradação social. O governo Dilma-Temer tem promovido desde o início inimagináveis retrocessos ambientais. Promoveram a cultura da impunidade, concedendo anistia a criminosos ambientais, reduziram limites de unidades de conservação, enfraqueceram o Ministério do Meio Ambiente e apoiaram iniciativas legislativas de redução da proteção ambiental. O que está em jogo neste momento não é só a governança socioambiental, mas a agenda da dignidade do Brasil.” Marina Silva, ex-ministra de Meio Ambiente

“Convoco a todos os brasileiros a dizerem NÃO ao abrandamento da proteção da Amazônia, seja por decreto, medida provisória, projeto de lei ou o que for. Não estamos de acordo com o fatiamento da Amazônia para exploração. Essa é a nossa floresta, nossa água, nossa vida – nosso planeta.” Elba Ramalho, cantora

“Vamos nos unir pela nossa #AMAZÔNIA! Não consigo acreditar em tamanha regressão e falta de respeito com a nossa natureza! Não posso acreditar que regredir seja uma opção! Vamos lutar pela nossa Amazônia!” Giovanna Ewbank, atriz e apresentadora


FOTO: ISABEL CLAVELIN / ONU MULHERES

“Não temos muito o que comemorar. O Brasil anda em crise, vivemos tempos instáveis e agora nem o meio ambiente está seguro. Se há alguns anos celebrávamos a diminuição do desmatamento na Amazônia, hoje estamos preocupados com o futuro da floresta. Especialistas em meio ambiente são unânimes em afirmar que a medida causará um impacto negativo na região. Segundo eles, o desmatamento vai ser mais intenso, haverá mais queimadas e mais poluição nos rios, tribos indígenas podem ter suas integridades ameaçadas, além de ter conflitos por terras. Precisamos defender a Amazônia!” Marina Ruy Barbosa, atriz

A pauta indígena é a pauta da floresta e do planeta, porque as terras indígenas protegem a vida. Não aceitamos retrocessos, não aceitamos redução de Unidades de Conservação, não aceitamos massacres.” Sônia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil

“A tentativa de Temer de destruir a Renca foi apenas o começo de um ataque coordenado contra a Amazônia. Mas não descansaremos até que nossa floresta sagrada fique livre e que os ruralistas desistam de trocá-la por lucro. Já somos 1,5 milhão de vozes juntas – e quanto mais esses corruptos atacarem a Amazônia, mais fortes nos tornaremos.” Diego Casaes, coordenador de campanhas da Avaaz

“A Amazônia somos todos nós! Precisamos de todos para defender a floresta. Quando faltar água, quando faltar vida, nenhum dinheiro vai nos salvar.” Daiara Tukano, indígena

FOTO: REPRODUÇÃO FACEBOOK

FOTOS: DIVULGAÇÃO

“Sempre esteve claro o desastre que seria se Temer assumisse a Presidência, mas é impressionante a capacidade destrutiva dessa figura nefasta! Uma notícia horrível atrás da outra. Decisões criminosas se sucedem numa progressão geométrica. Vai dar trabalho, e vai levar muito tempo para desfazer todo esse desserviço prestado por este indivíduo denunciado pela Procuradoria Geral da República e que já deveria ter sido retirado de lá.” Thiago Lacerda, ator

“Quanta notícia difícil de engolir. Brincando com o nosso patrimônio. Que grande absurdo. Tem que ter um basta.” Ivete Sangalo, cantora

“A Amazônia não é só biodiversidade: a sociocultura da região é muito rica também. Além disso, a floresta presta um importante serviço hidrológico, influenciando no regime de chuvas do país. Em escala global, colabora com o clima ao compensar emissões de carbono.” Ane Alencar, diretora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam)

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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

O que continua em jogo HISTÓRICO FLORESTA Nacional de Jamanxim, que integra parte da Renca, já arrasada pelo desmatamento e pela criação de gado

A Reserva Nacional do Cobre e Associados foi criada por decreto durante o governo do presidente João Figueiredo, em 28 de fevereiro de 1984, no apagar das luzes do regime militar, e compreende grande parte da divisa dos estados do Pará e Amapá. ÁREAS PROTEGIDAS No território compreendido pela Renca, estão presentes atualmente sete Unidades de Conservação (UCs): sendo três de Proteção Integral (Estação Ecológica do Jari; 2.271 km2; Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, 38.464,64 km2; Reserva Biológica de Maicuru, 11.517,60 km2) e quatro de Uso Sustentável (Reserva Extrativista Rio Cajari, 5.018 km2; Floresta Estadual do Paru, 36.219, 14 km2; Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, 8.061 km2; Floresta Estadual do Amapá, 23.694 km2), além de duas Terras Indígenas (Paru D’Oeste, 11.957,85 km2; e Waiãpi, 5.430 km2). Com exceção da Floresta Estadual do Paru, onde é possível mineração em zona definida em plano de manejo, em todas as outras áreas a atividade minerária não é permitida.

FOTO: RODRIGO BALÉIA / GREENPEACE

EXCLUSIVIDADE MINERAL A partir da aprovação do decreto de criação da Renca, a pesquisa mineral e, por ventura, qualquer extração econômica de cobre e minerais associados, tornou-se exclusividade da Companhia Brasileira de Recursos Minerais (CPRM – Serviço Geológico Brasileiro) e empresas autorizadas pela mesma. Na prática, desde o decreto, pouco se realizou de pesquisa mineral de detalhe na área. Os primeiros estudos geológicos disponíveis datam da década de 1970, período de substanciais investimentos à pesquisa mineral em âmbito global, que marca inclusive a descoberta da Província Mineral de Carajás, situada na região sudeste do estado do Pará. PROCESSOS MINERÁRIOS Consulta à base de dados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), considerando os fundamentos da portaria MME Nº 128, indica que existem 28 títulos (autorizações de pesquisa e concessões de lavra) outorgados na Renca. Tais processos abrangem uma área de 2.499,3 km2 , o que equivale a uma área inferior ao menor muniXX  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017


A TRAGÉDIA AMAZÔNICA

cípio brasileiro, Santa Cruz de Minas, situado no estado de Minas Gerais, com cerca de 2.860 km2. Entretanto, grande parte deles apresentam pedido de desistência protocolizado junto ao DNPM.

primeiros indícios das ocorrências minerais no âmbito da Renca resultam da garimpagem iniciada na década de 1970 e comprovada por estudos geológicos posteriores.

GEOLOGIA Em 2001, a CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais – Serviço Geológico do Brasil) efetuou um mapeamento geológico da Renca. Anterior a ele, já era de conhecimento do setor mineral a existência de zonas, que se assemelham a corredores, com ocorrências de manganês, cobre, ouro, ferro, entre outros minérios na área. As rochas que hospedam essa mineralização apresentam idades arqueanas, similares às mais antigas da Terra, com mais de 2,5 bilhões de anos, e foram afetadas por movimentos tectônicos (choques/aumento de temperatura das rochas) em diferentes períodos geológicos. Tais características presentes na gênese de depósitos minerais de grandes proporções ao redor do mundo, sugerem um potencial correlacionado a grandes províncias minerais como Carajás e Tapajós. Os

RISCOS AMBIENTAIS Mesmo que o governo federal afirme que a mineração não será permitida na área, a preocupação é que a presença de mineradoras nas partes legalmente abertas à atividade atraiam garimpeiros ilegais. Além disso, o surgimento de grandes projetos de mineração provocam migração populacional, que acaba pressionando a região de floresta. Possível contaminação de corpos d’água por substâncias utilizadas ou decorrentes da mineração também podem impactar outras áreas das unidades de conservação protegidas, incluindo de terras indígenas, cujos ocupantes dependem exclusivamente da floresta para sobreviver. Fonte: “Relatório Técnico 2017 – Renca: Situação Legal dos Direitos Minerários da Reserva Nacional do Cobre”.

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SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  45


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AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

Garimpar ou minerar? Clóvis Torres (*) FOTOS: EVANDRO FIÚZA

“O que houve com a Renca foi um desconhecimento generalizado. Ela é nada mais que uma norma expedida em 1985 para se preservar o recurso natural ali existente para exploração futura. Não tem nada a ver com a questão ambiental ou indígena. Como em qualquer outro local, a mineração precisa cumprir a legislação, fazer tudo normal. E se já é parque florestal ou terra indígena, não pode fazer mineração, ponto. Tudo, enfim, passa pelo processo de licenciamento ambiental. Os governos federal, estadual e municipal, todos nós sabemos, não têm recursos para policiar, dar segurança pública aos seus próprios cidadãos. Imagine, então, fiscalizarem a atividade ilegal de garimpeiros naquela região? A intenção primeira, e oficial, era abrir a Renca para que o cobre pudesse ser explorado. Claro, respeitando todos os limites ambientais que a lei impõe. E, através disso, com empresas mais organizadas, trazendo inclusive investidores estrangeiros, poder dar maior segurança ambiental e sustentabilidade para as Unidades de Conservação (UCs). E, desta forma, preservar o meio ambiente para a posteridade. A sustentabilidade é, hoje, uma questão global. A preservação ambiental e a situação das populações tradicionais são foco e fazem parte dessa preocupação maior. Mas, infelizmente, há muita coisa errada que se propaga com muita facilidade, em especial na internet. Houve uma forte reação pública, sim. E isso é importante. O governo se propôs, então, a parar e explicar, para depois voltar ao tema com mais ob- CLÓVIS Torres: "É muito melhor minerar na Renca de forma responsável e sustentável do que não minerar e deixar jetividade, quando houver um conhecimento mais acontecer o que de degradação continua ocorrendo ali" fluido talvez, do que significa a Renca e como se está planejando a exploração mineral naquele território. Não tenho a menor dúvida. É muito melhor mi- resto foi devastado e queimado para dar lugar às nerar na Renca de forma responsável e sustentável atividades do setor agropecuário. Ou virou alvo do que não minerar e deixar acontecer o que de de madeireiros ilegais. degradação continua ocorrendo ali. A mineração sustentável e bem fiscalizada, invesHoje, quando você visita a Floresta Nacional tida e aplicada, enfim, é muito melhor do que deide Carajás, pode até olhar via satélite, é a única xar uma área como a Renca à sua própria sorte.” área verde preservada no sul do Pará, pela Vale. (*) Diretor-executivo da Vale É uma contrapartida graças e pela mineração. O 46  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017


“Não tem que desmatar mais para o setor crescer” Bia Fonte Nova

redacao@revistaecologico.com.br

FERNANDO Coura: "Pra que desviar recursos para áreas conflituosas de preservação ambiental e de indígenas na Amazônia, se já temos uma indústria mineral instalada nas Minas Gerais?"

Em depoimento à colunista Raquel Faria, do jornal “O Tempo”, o ex-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e dirigente do Sindiextra, José Fernando Coura, foi contundente ao criticar a decisão federal de extinguir a Renca para aumentar a produção mineral no país. “Não tem que desmatar mais para o nosso setor crescer” – disse ele, indignado com a opção feita em Brasília (DF) de

privilegiar a mineração na Floresta Amazônica e desprezar o estado de Minas Gerais, a mais antiga província mineral do país. Conforme registrou Raquel, o líder minerador morou por 10 anos naquela região amazônica ainda coberta por florestas e habitadas por índios, onde trabalhou no Projeto Jari. Coura tem base, portanto, para considerar absurda qualquer exploração mineral ali: “Pra que desviar recursos para áreas conflituosas de preservação ambiental e de indígenas se já temos uma indústria mineral instalada no território mineiro para se desenvolver?”. Na sua visão, o Brasil deveria investir na infraestrutura e produtividade das operações já existentes, em Minas e outros estados, antes de sair abrindo novas minas, ainda mais na Amazônia. Coura lembrou que serão necessários muitos anos e recursos para extrair na Renca a produção da mineira Samarco, que poderia estar gerando US$ 3 bilhões/ano em exportações e permanece parada já há quase dois anos, desde o acidente da Barragem do Fundão, em Mariana. Apontou mais à colunista: “A prioridade deveria ser a solução do caso Samarco. Que se puna quem tiver de ser punido, que se definam os danos a reparar e as exigências a cumprir. Mas a empresa tem que voltar a operar todo o seu potencial” – ele defendeu, lembrando que há vários outros projetos minerários de vulto esperando investimento no estado, tanto para a expansão de minas já existentes como para abertura de novas frentes. O Projeto Apolo, da Vale, em Caeté, aguarda há anos no papel. No entanto, até hoje o governo federal não fez “nenhum gesto para Minas. Até hoje o presidente Temer não se dignou a visitar, conhecer as nossas Minas Gerais do país”. Desde que deixou a presidência do Ibram, cargo que ocupou por cinco anos consecutivos em Brasília, Fernando Coura vem cumprindo sua promessa de unir, de maneira sustentável, a indústria mineral de Minas em defesa do setor e da economia do estado: “Deixei de ser brasileiro e voltei a ser mineiro” - concluiu, em tom de desafio. Sua posse recente, em BH, reconduzido ao cargo de presidente do Sindiextra, teve a presença de praticamente todos os empresários da mineração e da imprensa especializada.

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SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  47


AMAZÔNIA X MINERAÇÃO

FOTO: CRISTIANO COSTA/GREENPEACE

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ARTISTAS e ambientalistas se reuniram em Brasília para protestar contra o retrocesso nas leis ambientais do país

Sangue verde O novo ambientalismo e seus 1,5 milhão de manifestantes Mexeu com a Amazônia, mexeu com o Brasil e o mundo. Os retrocessos ambientais que ameaçam a soberania da maior floresta tropical do planeta provocaram uma onda de manifestações sem precedentes. E despertou algo que parecia – atenção, parecia – estar adormecido: o ambientalismo. Ele não morreu e agora voltou mais forte e organizado do que nunca. Na luta contra a violência aos recursos naturais que o país vem vivenciando, ambientalistas e intelectuais ganharam a força e o alcance das redes sociais e também de aliados de peso. Unidos no Movimento 342amazonia.org (em alusão ao número de deputados necessários para aprovar qualquer projeto no Congresso), vários artistas brasileiros levantaram suas vozes contra o Decreto 9.147/2017 48  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

e saíram em defesa da Amazônia e da proteção da Renca. Em 13 de setembro, o grupo que reuniu personalidades, como as atrizes Christiane Torloni, Suzana Vieira, Arlete Salles, Victor Fasano, Alessandra Negrini e os músicos Tico Santa Cruz, Maria Gadú e Rappin Hood, protestou no Salão Verde da Câmara contra o decreto. Na ocasião, entregaram a ele abaixo-assinado com mais de 1,5 milhão de assinaturas em defesa do bioma. “O que está envolvido aqui não é só a Amazônia: é o Brasil, suas leis, transparência, gestos contra a corrupção e a ganância. Pedimos respeito, pedimos, mais do que tudo, afeto, e pedimos ação, para que isso não passe”, destacou a também ativista Christiane Torloni. 


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“É a água que dá à planta o milagre da flor.” THIAGO DE MELLO, poeta amazonense

MINAS RUMO AO

FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA ENCARTE ESPECIAL (5)


ENCARTE ESPECIAL FIEMG (5)

FOTO: DIVULGAÇÃO

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A PRAÇA CHEIA DE

ÁGUA

Projeto “Minas no Caminho das Águas” alerta a sociedade sobre como cuidar do mais importante recurso natural do planeta

A

PRESENÇAS AZUIS: Odorico Araújo, Filipe e Patrícia Boson, Olavo Machado e Adair Evangelista 52  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

Praça da Liberdade, símbolo da capital mineira, amanheceu mais azul no último dia sete de outubro. E totalmente lúdica, com diversas e gratuitas atividades para conscientizar e mobilizar os seus frequentadores sobre o debate que acontecerá no “8º Fórum Mundial da Água”, em março de 2018, em Brasília (DF). Durante o evento na capital, funcionários da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), em parceria com a Prefeitura de BH, o Governo do Estado e a Rede Globo Minas, receberam e informavam as pessoas sobre a importância de se preservar a água. Todos trajavam camisetas azuis, em alusão ao movimento “Minas no Caminho das Águas”, projeto de preparação para o evento mundial. O presidente do Sistema Fiemg, Olavo Machado, prestigiou as atividades: “Elas são necessárias e têm todo o nosso apoio. Nós, industriais, que usamos água sobrema-


MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018 neira nos nossos empreendimentos, sabemos da importância de conscientizarmos não só os empresários, mas toda a população. É a única maneira que temos para preservarmos este recurso precioso às futuras gerações”. O evento foi bastante concorrido. Uma das atividades que mais fizeram sucesso foi o “Espaço Viva”, um túnel de educação ambiental, em forma de tenda, onde as pessoas puderam conhecer e experimentar as diversas variações climáticas influenciadas por diferentes níveis de poluição. A estudante de Gastronomia, Raissa Silva, compareceu à praça com o namorado. “Afinal, esse é um assunto de interesse de todos nós, que merece a nossa atenção diariamente. A preservação da água é um trabalho diário”, frisou, agradecida pela oportunidade. A ORQUESTRA de Câmara Sesiminas, sob a regência do maestro Marco Antônio Drumond, abriu o evento FOTOS: SEBASTIÃO JACINTO JR.

FAEMG HÍDRICA Também por oferecer petiscos, sucos de legumes, frutas e outros produtos saudáveis “da roça” ou orgânicos, o estande do Sistema Faemg (www.sistemafaemg.org.br) chamou a atenção dos frequentadores. A começar por um enorme banner de um homem do campo com os dizeres: “Produtor rural também é produtor de água”. Através de várias cartilhas explicativas, apanhadas avidamente pelas pessoas, foi mostrado que “é no meio rural que grande parte das águas da chuva retorna aos lençóis freáticos e reabastece os rios. Com treinamento e muito trabalho são eles, os homens do campo, quem têm a missão de garantir a saúde do solo e da água, principais aliados da produção agrícola”. Folhetos do Senar Minas sobre cursos de recuperação e proteção de nascentes também deram o seu recado: “Recuperar a capacidade de uma nascente é só um dos passos para garantir água de qualidade. É necessário ter atenção ao entorno do olho d’água para conter a erosão e garantir a área necessária para a recarga hídrica. O objetivo maior é devolver as condições naturais favoráveis à reestruturação maior da vida”.

HOMEM do campo: mensagem ecológica se contrapõe a preconceito contra o setor SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  53


ENCARTE ESPECIAL FIEMG (5) FOTO: WEBER COUTINHO

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A LAGOA CHEIA DE

ESPERANÇA Bia Fonte Nova

redacao@revistaecologico.com.br

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FOTO: POLLYANNA MALINIAK / ALMG

B

elo Horizonte foi selecionada para ser anfitriã do evento preparatório para o 8º Fórum Mundial da Água, que acontecerá pela primeira vez no Brasil e no Hemisfério Sul, em março de 2018. Depois da programação especial de atividades e discussões sobre o tema água realizada no início de outubro pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), em parceria com a Fiemg e o Governo de Minas, agora é a vez de apresentar os bons exemplos que a capital mineira levará para o Fórum. Em março deste ano, a PBH já havia apresentado o resultado do trabalho de recuperação da qualidade da água da Lagoa da Pampulha. Na ocasião, foi anunciado que as metas estabelecidas para execução da primeira etapa dos serviços, que correspondem ao enquadramento da lagoa nos padrões de Classe 3, conforme resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o que permite, por exemplo, atividades como pesca e iatismo, foram alcançadas no fim de dezembro de 2016. Em entrevista à Ecológico, o diretor de Gestão de Águas Urbanas da Secretaria de Obras e Infraestrutura da PBH, Ricardo Aroeira, fala com otimismo das ações de despoluição e recuperação ambiental da Pampulha. Engenheiro sanitarista respeitado e funcionário de carreira da PBH desde 1993, ele garante que a capital mineira deve se orgulhar do legado ambiental e hídrico construído ao longo dos últimos anos, inclusive no que se refere a políticas públicas voltadas para melhoria do acesso ao saneamento e também de maior participação social. Confira:

RICARDO AROEIRA: "BH é uma cidade privilegiada"


MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018 Qual é hoje a realidade ambiental e hídrica da Lagoa da Pampulha? Estamos na segunda etapa de um contrato de 24 meses que se estende até março do ano que vem. Até lá, a empresa contratada tem a obrigação de manter a lagoa no padrão Classe 3 e, assim como na primeira fase, a aferição da qualidade da água é feita a cada trimestre. Concluímos o segundo trimestre de apuração dessa etapa de manutenção e, felizmente, até aqui o trabalho continua exitoso.

A que setor da PBH cabe definir tais regulamentações? Em ambos os casos, dependeremos de regulamentações cuja atribuição não cabe à Secretaria de Obras, mas sim à Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Acredito que o primeiro grande desafio - e também a prioridade do momento - é atender ao anseio da população de BH, no sentido de termos uma Pampulha ambientalmente adequada para a cidade. Isso, claro, dentro dos parâmetros que se espera para um lago urbano, ou seja, cuja qualidade de água seja

De que tipo? Oscilações que são consideradas normais e têm interferência direta sobre a qualidade da água, como o longo período de estiagem que enfrentamos até o fim de setembro. Foram mais de 100 dias sem cair uma gota de chuva em BH. A estiagem provoca aumento considerável da concentração de poluentes na Pampulha. Com menos água, há menos diluição e isso aumenta o nosso desafio de manter a qualidade da água equilibrada. No período chuvoso, a situação se repete, em função do fenômeno que chamamos de poluição difusa, que é o carreamento de toda sorte de poluentes, contaminantes, lixo e sedimentos para os tributários e, consequentemente, para a própria lagoa. Segundo dados da Sudecap, responsável pela limpeza do espelho d’água, são recolhidas diariamente cerca de 10 toneladas de lixo, durante o período de estiagem, e até 20 toneladas, no chuvoso.

Esse acúmulo de lixo na Pampulha é problema que se arrasta há anos. A população tem sua parcela de culpa e a manutenção/melhoria da qualidade da água também envolve metas sob a responsabilidade da Copasa. Qual é a situação atual? Infelizmente, boa parte da população não colabora. É preciso que todos nós, cidadãos, reconheçamos que também temos um papel a cumprir nesse processo de recuperação ambiental e hídrica da lagoa. É importante ressaltar ainda que 60% da bacia hidrográfica da Pampulha pertence ao município de Contagem. Atualmente, temos grande convergência de interesse e de ações tanto em parceria com a Prefeitura vizinha quanto com a Copasa, que é a concessionária responsável pelo esgotamento sanitário nos dois municípios. Do ponto de vista da infraestrutura, o esforço da Copasa tem se concentrado na expansão dos serviços de coleta e tratamento, evitando que os esgotos cheguem à lagoa. O trabalho da PBH envolve algum projeto ou ação de

FOTO: ADÃO DE SOUZA / PBH

Há possibilidade de a PBH liberar a prática de esportes e pesca na Pampulha até março, quando será realizado o 8º Fórum Mundial da Água, em caráter especial para o evento? O fato de a Classe 3 permitir a prática de determinadas atividades não significa que todas elas serão liberadas ou sejam viáveis diante da realidade da Pampulha. Em relação à liberação da pesca, por exemplo, isso dependeria de análises da qualidade sanitária do pescado. No caso de esportes náuticos, seria preciso definir raios de percurso para eventuais passeios turísticos de barco, além de horários, quem vai explorar o serviço, etc.

compatível com o turismo de lazer contemplativo, que não exale maus odores e esteja livre de assoreamento/acúmulo de sedimentos, etc. Atualmente, estamos numa etapa na qual ainda percebemos muitas oscilações de qualidade da água.

VESTIMENTA hídrica: Praça da Estação foi iluminada de azul para dar sorte, visibilidade e deixar um legado para a cidade na preparação para o Fórum SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  55


comunicação e educação ambiental? Sim. Finalizamos uma licitação e, em breve, assinaremos contrato com uma empresa que será responsável por implementar um plano de comunicação social e educação ambiental na Bacia da Pampulha. A ideia é criarmos canais e ferramentas de diálogo e conscientização efetivas, para que poder público e população possam caminhar juntos, na mesma direção. Sabemos que cada segmento tem o seu papel nesse processo de recuperação e de cuidado com a lagoa. O aporte financeiro, que envolve investimentos de cerca de R$ 30 milhões é obviamente essencial, mas não resolve sozinho a questão. Manter a qualidade de um lago urbano, como a Pampulha, é desafio permanente. Ela precisa ser cuidada como cuidamos das nossas casas, pois depende de ações de limpeza, manutenção e investimentos na ampliação dos sistemas de esgotamento sanitário que terão de ser mantidos para sempre. E em relação ao Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte (Drenurbs), lançado em 2001? Alguns especialistas e ambientalistas criticam a PBH por priorizar intervenções meramente sanitárias ou de drenagem, em detrimento da recuperação ambiental e paisagística dos cursos d’água da capital. Tais críticas não procedem. Aliás, no mais recente Plano Municipal de Saneamento, criamos inclusive um indicador relativo à qualidade da intervenção feita nos cursos d’água de BH, batizado de Índice de Tratamento de Fundo de Vale (ITFV). Esse indicador hoje é de 0,76% e comprova que, na prática e com base em dados coletados entre 2008 e 2016, 76% das intervenções e obras em córregos, ribeirões etc. não envolveram canalização. Essa prática só é 56  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

MINAS RUMO AO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA 2018

FOTO: RODRIGO CLEMENTE / PBH

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ENCARTE ESPECIAL FIEMG (5)

AÇÕES de despoluição da Pampulha precisam ser acompanhadas de maior conscientização popular em relação ao lixo

adotada em situações excepcionalíssimas, em áreas onde há ocupação já consolidada e muito adensada ou que representem risco para a população ribeirinha, por exemplo. Acredito que tão ou mais expressivo que esse percentual de 76% é o período em que a coleta dos dados foi feita. Não estou, portanto, defendendo aqui a atual administração. Mas apresentando números atestando que, ao longo dos últimos oito anos, nas diferentes gestões que se sucederam, a PBH interveio e atuou em total consonância com as diretrizes do Drenurbs. Considera que BH tem dado bons exemplos e pode contribuir para o sucesso do 8º Fórum Mundial da Água, ano que vem? Sem dúvida. BH é uma cidade privilegiada, sobretudo do ponto de vista da gestão das águas urbanas. Sou servidor de carreira da PBH desde 1993 e tive a oportunidade de assistir e participar da implementação de uma sólida política de saneamento e de melhoria da qualidade ambiental e hídrica da capital, que envolveu importantes avanços. Entre eles, a

criação de um Conselho Municipal de Saneamento (Comusa), que foi regulamentado em 2003. Ele conta com a participação de representantes da sociedade civil e se reúne mensalmente para deliberar sobre questões importantes para a cidade, a exemplo das discussões mensais que também mantemos com a Copasa. É prazeroso e gratificante fazer parte desse trabalho. Olho para trás e me alegro com os avanços e conquistas. Ao pensar no futuro, sinto entusiasmo e esperança, porque sei que bons frutos ainda serão colhidos, como resultado de anos de coerência e trabalho, somados à adoção de novas tecnologias e ideias das nossas equipes. Felizmente, a PBH tem uma equipe de técnicos competentes e absolutamente comprometidos com o que fazem. Essa expertise praticamente elimina nossa dependência de consultorias externas, pois fica entranhada e agrega cada dia mais valor, conhecimento e experiência ao que fazemos no serviço público.  SAIBA MAIS www.fiemg.com.br

Na próxima edição, confira a cobertura completa do seminário “Minas no Caminho das Águas”.


Preservação ambiental. Um investimento com retorno garantido.

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1 As Áreas Protegidas do Minas-Rio (1)

NO CORAÇÃO

DO INTENDENTE Revitalização de trilhas de acesso às duas principais cachoeiras do Parque Estadual Serra do Intendente potencializa o ecoturismo na região de Conceição do Mato Dentro (MG) Fernanda Mann

redacao@revistaecologico.com.br

A

Não é a primeira vez que a região recebe investimentos para melhorar a infraestrutura das áreas preservadas. Antes do Tabuleiro, as trilhas da cachoeira Rabo de Cavalo também foram revitalizadas pela empresa para trazer mais segurança aos visitantes. Foi o que a Revista Ecológico conferiu ao percorrer os caminhos que levam a essas duas maravilhas naturais do Parque Estadual Serra do Intendente. Convidamos você, caro leitor, a fazer esta caminhada conosco:

FOTO: RAFAEL DOS REIS PEREIRA

FOTO: FERNANDA MANN

belíssima cachoeira do Tabuleiro, queda d’água mais alta de Minas Gerais e terceira em altura do Brasil, com 273 metros, já se prepara para ficar ainda mais acessível ao público. Por meio da implantação e revitalização de trilhas ecológicas, a Anglo American, responsável pelo Projeto Minas-Rio, vem contribuindo para fortalecer a vocação ecoturística local, principalmente de Conceição do Mato Dentro, aliando conscientização e preservação ambiental.

TRILHA rumo à mais alta cachoeira de Minas: mais segurança 58  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017


CACHOEIRA do Tabuleiro, um dos pontos mais visitados do Espinhaço, e seus 273 metros de queda livre: eleita duas vezes seguidas pelo Guia Quatro Rodas como a mais bonita do Brasil, sua altura equivale a um prédio de 91 andares

JULHO DE 2017 | ECOLÓGICO  XX


O LAGO na parte baixa da cachoeira Rabo de Cavalo: acesso fácil

FOTOS: FERNANDA MANN

1 As Áreas Protegidas do Minas-Rio (1) As duas quedas d’água se projetam contra o escuro paredão de pedras. E são tão altas que nos fazem deitar no chão, relaxar o corpo e desfrutar com calma do contraste exuberante das águas cristalinas, que se misturam às múltiplas cores da vegetação e da fauna local. As cachoeiras são bastante conhecidas e procuradas pelos amantes da natureza. A solução para os trechos sinuosos e desafiadores para caminhantes despreparados foi apresentada pela Anglo American como parte de medidas de compensação ambiental. Um exemplo é a implantação de estruturas integradas à mata. No caminho para a cachoeira Rabo de Cavalo, as novas escadas e corrimãos de madeira possibilitam um caminhar descansado e despretencioso, enquanto os mirantes instalados convidam a momentos de contemplação e relaxamento. Erosões e grandes desníveis no solo receberam pequenas pontes e caminhos de pedra foram estruturados nos cursos d’água para garantir uma chegada tranquila à cachoeira. Josimar Gomes, analista ambiental da empresa, nos acompanhou no passeio pela trilha recentemente inaugurada. Ele conta que sua mãe, de 70 anos, percorreu todo o caminho após as reformas, assim como seu filho de um ano e quatro meses, que agora pode acompanhar toda a família no passeio. “Aumentar a segurança de quem quer fazer essas rotas contribui para que as pessoas venham visitar a região com mais frequência, aumentando assim a conscientização ambiental”, afirma. As melhorias proporcionaram aos visitantes uma aventura mais segura e cuidadosa pelo parque, principalmente nas caminhadas mais longas e difíceis, como a rota até a cachoeira do Tabuleiro. Nessas trilhas, cujas obras de revitalização seguem a todo vapor e a conclusão está prevista para novembro deste ano, temos como companhia uma vegetação predominante de campos rupestres, capões de Mata Atlântica e espécies do Cerrado. Imperdível!

FIQUE POR DENTRO

O Parque Estadual Serra do Intendente é aberto ao público diariamente das 8h às 17h, sendo a entrada somente autorizada em condições climáticas favoráveis. A taxa de visitação é de R$ 10 por pessoa e o limite diário de visitantes ao parque é de 200 turistas. Esportes de aventura, como o rapel, a escalada, o slackline, o base jump, entre outros, são permitidos mediante autorização prévia e checagem da capacidade técnica do praticante. Não é permitida a entrada de animais domésticos no parque. Para mais informações, ligue (31) 3868-2878.

IMPORTÂNCIA NATURAL O Parque Estadual da Serra do Intendente, juntamente com o Parque Nacional da Serra do Cipó e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Morro da Pedreira, formam um corredor contínuo de Unidades de Conservação na Serra do Espinhaço. E isso reforça a importância do trabalho desenvolvido pelas iniciativas pública e privada na sua preservação, uma vez que esta é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), desde 2005, como “Reserva Mundial da Biosfera”. A Serra é formada por um complexo geossistema rupestre, com formações típicas e paisagens de altitude que, em determinadas épocas do ano, desabrocham em espetaculares campos floridos. Constitui, ainda, uma região que favorece o endemismo por oferecer diversidade de climas e microambientes, além de agregar características de dois hot spots de biodiversidade: Mata Atlântica e Cerrado. Não raro são desco-


AS TRILHAS que levam à Cachoeira Rabo de Cavalo já foram revitalizadas e abertas ao público

bertas novas espécies de ocorrência restrita, em função desse conjunto de características ambientais. BIODIVERSIDADE RARA No Intendente, a raridade de algumas espécies requer atenção especial, por conta de sua importância biológica e risco de extinção. Das 166 espécies de anfíbios e répteis com ocorrência potencial registradas para a área de estudo, pelo menos 18 espécies de anfíbios e quatro de répteis são endêmicas da porção sul do Espinhaço mineiro, incluindo três lagartos e uma serpente. A maior proporção de espécies ameaçadas registradas é de ordem

carnívora. Por serem predadoras, apresentam baixas densidades populacionais e grande necessidade de espaço, fazendo com que sejam mais suscetíveis à fragmentação e à destruição de seus hábitats. Além de serem frequentemente vítimas de fazendeiros e proprietários de terra. Para a categoria “Vulnerável” foram identificadas no parque nove espécies em âmbito estadual, 11 em âmbito nacional e quatro, mundial. Destacam-se também cinco classificadas como “Perigo de Extinção” para o estado e uma em âmbito nacional e global; e duas espécies consideradas de “Maior Risco” pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Inter-

nacional para a Conservação da Natureza (IUCN). SERVIÇOS AMBIENTAIS O parque também presta uma infinidade de serviços ambientais à sociedade. Tem um papel de extrema importância na conservação das nascentes da bacia do Rio Doce, que abastece milhões de usuários e é fundamental para a conservação das nascentes do Rio São Francisco. As águas do parque e sua área de drenagem estão localizadas na vertente leste do Espinhaço, a qual abrange a bacia do alto do Santo Antônio, segundo maior rio da bacia do Doce. Praticamente toda ela está inserida no bioma Mata Atlântica, cuja forSET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  61


FOTO: FERNANDA MANN

1 As Áreas Protegidas do Minas-Rio (1) FLORA exuberante no Intendente

mação florestal encontra-se reduzida para menos de 8% de sua área original. Atualmente, os maiores remanescentes florestais existentes na bacia se encontram nas cabeceiras, principalmente em áreas elevadas da Serra do Espinhaço, como pode ser observado na cabeceira do Rio Santo Antônio. TESOURO PRESERVADO Para a preservação do Intendente, a Anglo American também vem investindo na aquisição, regularização e mobilização de terras. Ao todo, a empresa já adquiriu dois mil hectares para futura doação ao órgão gestor do local, o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Já regularizou e destinou ainda mais de 100 hectares para a Unidade de Conservação do Monumento Natural da Serra da Ferrugem. O parque está inserido nos distritos de Tabuleiro e Itacolomi, no municí62  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

Serra do Intendente

pio de Conceição do Mato Dentro, e tem 13,5 mil hectares. Também guarda outras maravilhas, como as cachoeiras do Zé Cornicha, da Roda, da Fumaça, do Roncador I e II e a do Peixe Tolo, localizada no cânion de mesmo nome. Além delas, há outras centenas de pequenas quedas que

movimentam os córregos existentes. Corredeiras e piscinas naturais, comuns graças ao relevo acidentado, compõem um cenário de beleza ímpar com suas águas cor de caramelo. No momento, o acesso à cachoeira do Tabuleiro está fechado em razão das outras melhorias que continuam sendo feitas pela Anglo American. Mas isso não impede você, caro leitor, sua família e seus amigos de já irem se organizando e preparando as malas, pois o tempo voa e a Serra espera sua visita. Já as trilhas que levam à cachoeira Rabo de Cavalo estão abertas. Aproveite! Nada melhor do que poder usufruir, com respeito e cuidado, desse tesouro que está preservado bem perto de nós. 

SAIBA MAIS

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GESTÃO & TI

ROBERTO FRANCISCO DE SOUZA (*) redacao@revistaecologico.com.br

STAR TREK

Q

uem hoje não sente o tempo e o espaço deslocarem-se à sua volta? Tudo é novo, quase nada compreendemos. A história começa em 1965, quando o químico Gordon Moore escreve: “A complexidade para custos mínimos de componentes tem aumentado a uma taxa de aproximadamente dois para um a cada ano. Certamente, a curto prazo, não se pode esperar que esta taxa permaneça, se não aumentar. A longo prazo, a taxa de aumento é um pouco mais incerta, embora não haja razão para acreditar que não vai permanecer quase constante durante pelo menos 10 anos”. Moore era fundador da Intel e tinha 36 anos. Hoje tem 88 e não consta que tenha desejado formular uma lei sobre o futuro da informática de sã consciência, mas acabou por fazê-lo. E, tendo feito - olha que sua lei vale ainda hoje -, em julho de 2015 a IBM deu sinais de que vai estender sua validade por mais um tempo. Mas não se engane ou pense que a Lei de Moore era mesmo dele ou, sendo mais exato um pouco, disesse respeito só a chips de computador. Na biologia, há um conceito de crescimento biológico exponencial que diz assim: “Quando a disponibilidade de recursos é ilimitada no hábitat, a população de um organismo que vive no hábitat cresce de forma exponencial ou geométrica”. Tudo cresce hoje exponencialmente, de populações a debates sobre política e sexualidade, amplificado pelas revoluções de nossa história. De verdade, não gosto do termo “Revolução Industrial”. Primeiro, porque há mais revoluções significativas na história da humanidade que ficaram menores diante da técnica. Segundo, porque chamá-la de “industrial” é trocar a causa pelo efeito. Foram, na verdade, revoluções do conforto ou

das facilidades humanas. Mostro isso na tabela abaixo. Repare na quinta coluna. O que há de comum entre as três primeiras revoluções do conforto (pode chamá-las “industriais” se quiser...) e que na quarta é diferente? As três primeiras revolucionaram coisas que nós compreendíamos. O que fazíamos antes, continuamos a fazer, só que muito mais rápido e de forma mais global. Nesta última, estamos revolucionando o futuro! Por mais que nossa capacidade de projetar o futuro tenha nos tornado diferentes das outras espécies, podemos apenas projetá-lo, não o certificar. Pela primeira vez na história da humanidade estamos fazendo algo que nunca fizemos e cujo resultado não será óbvio. Desta vez, tememos o futuro que estamos construindo tanto quanto o bendizemos. Tememos o que os destinatários dessa inteligência, algoritmos não biológicos, poderão fazer com a tal inteligência que dermos a eles. Estamos “deslocados” em um mundo que não compreendemos mais! É por isso que precisamos conversar, reunirmo-nos em torno da fogueira digital que se tornou a internet e entender o novo mundo à nossa volta. Quem compreender primeiro, terá vantagens. É possível que nós descubramos que há limites, que “para o homem não existe nada melhor do que comer, beber e se alegrar no trabalho que realiza. (Eclesiastes 2:24)”. Ou não: talvez descubramos que podemos mais, não que possamos mais que Deus, o “Antes”, como gosto de chamá-Lo, mas que, exatamente por causa Dele e em respeito a Ele, qualquer que seja a forma que tome, seguiremos em frente “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. 

Revolução do conforto

Aproximado em que ocorreu

Tempo decorrido

Tecnologia fundamental

O que principalmente revolucionou

1

1860

200000

Vapor

Viajamos e tecemos mais depressa com locomotivas, navios e teares a vapor

2

1900

40

Energia elétrica e petróleo

Viajamos e tecemos mais rápido ainda. Iluminamos e aquecemos casas e cidades

l Conheça o artigo original de Moore

3

1969

69

Internet

Comunicamo-nos mais e com todo o mundo

l Como a biologia também pode ser exponencial

38

Computação cognitiva

ICIT, 3D. Transferimos inteligência e conhecimento para as “coisas” a nosso serviço

l Faça esta reflexão com Yuval Noah

4

2007

63  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

TECH NOTES

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goo.gl/KM mFbC goo.gl/2368M8

(*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arbórea Instituto.


TODAS AS MANHÃS

DO MUNDO Documentarista brasileiro revela o amanhecer nos santuários naturais que ainda resistem no planeta, apesar dos desmandos do bicho homem Fernanda Mann

DU FOTO: REPERO

ÇÃO

S

er transportado para os mais belos lugares da Terra, desvendar as fantásticas inter-relações entre os seres vivos e, ainda, contemplar cada amanhecer como se fosse o único. É o que você, caro leitor, cara leitora, poderá encontrar no documentário “Todas as Manhãs do Mundo”, do diretor e cinegrafista Lawrence Wahba, que realizou uma expedição por santuários naturais de sete países, incluindo o Brasil. Foram mais de 400 horas de imagens captadas na natureza selvagem, cuidadosamente selecionadas para compor o documentário

64  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

de 90 minutos. O filme é narrado pelos atores Aílton Graça e Letícia Sabatella, que representam, respectivamente, dois narradores fictícios - o sol e a água. Impactados pelas imagens feitas por Wahba, os artistas descrevem, com sensibilidade, como a natureza se comporta quando recebe os primeiros raios solares. ESPETÁCULO DA VIDA Seja nas tantas variações de brancura do gelo do Ártico seja nas florestas submarinas de Kelp, no Equador, ou na savana africana, sol, água e animais vivem em constante harmonia. E revelam o espetáculo da vida (então escondido dos olhos humanos) que acontece diariamente sem esperar por espectadores.

FOTO: DIVULGAÇÃO

redacao@revistaecologico.com.br

LAWRENCE WAHBA em ação: 44 semanas em meio à natureza selvagem

É o que Wahba, que também já fez mais de três mil mergulhos em 33 países, e sua equipe conseguiram capturar com maestria durante as 44 semanas de filmagem. No documentário, a natu-

FOTO: MARCELO SKAF

1 NATUREZA SELVAGEM


AMANHECER no Ártico

ELE

Para saber mais, acesse www.lawrencewahba.com.br

reza nos proporciona outros deleites: é possível acompanhar a incrível jornada dos salmões ou uma baleia-cinzenta estimulando seus filhotes a se prepararem para uma das maiores migrações do planeta. Para registrar imagens assim também foi preciso muita paciência e respeito ao tempo da natureza. No caso do macaco bugio-de-mãos-vermelhas, espécie ameaçada de extinção no Amazonas, por exemplo, o documentarista passou 10 dias em uma plataforma, no alto das copas das árvores, em absoluto silêncio. O esforço foi recompensado com imagens de tirar o fôlego! “Nas águas doces do Pantanal, bichos temidos por todos, como jacarés, sucuris e piranhas, foram super dóceis com a equipe durante as filmagens”, revela Wahba. É como se eles entendessem a importância daquele trabalho para garantir sua preservação. O documentário também revela animais raros da natureza, como o lagarto-de-chifres, que se alimenta de formigas - elas, acredite, são sua fonte de água - e outras maravilhas como as paisagens da Indonésia, maior arquipéla-

go do mundo. Ele é formado por mais de 17.500 ilhas que abrigam a maior variedade de espécies da vida marinha do planeta. CONHECER PARA CUIDAR Para Wahba, o sentimento que fica, após tantas andanças e experiências, é que apesar da destruição causada pelo homem, felizmente ainda há muita natureza selvagem em nossa casa comum. Cada pedaço desses oásis de biodiversidade visitados pela equipe do documentarista reforçam ainda mais a importância de sensibilizar as pessoas, em especial as crianças, para o cuidado com a natureza. “O documentário é uma grande oportunidade para estimular essa conscientização. É um convite ao encantamento e também à reflexão. Na natureza, tudo se dá em um ciclo equilibrado, no qual vida e morte se completam. Um animal só mata o outro para sobreviver. Será que o homem vai aprender isso algum dia?”, questiona o diretor. O filme já foi exibido em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Luís e Fortaleza. Atualmente, está disponível na plataforma de TV paga Net, por meio do menu NOW, seção “Documentários/Lançamentos”. Vale a pena conferir! 

PREDADOR OU PRESA? Em seu livro “Dez anos em busca de grandes tubarões” (NLB Editora, 176 págs.), de 2006, Wahba narra as aventuras submarinas que viveu durante 10 anos e também chama atenção para a importância de se preservar as espécies. E desmitifica a agressividade relativa desses animais, que podem até mesmo aprender a “comer na mão” dos mergulhadores.

FOTO: REPRODUÇÃO

Lawrence Wahba pratica mergulho desde a infância e cursou faculdade de Cinema. Com 15 anos de carreira, participou de mais de 300 matérias de televisão e dirigiu 39 documentários, rodados em todos os continentes e exibidos em cerca de 100 países. Em 2013, foi um dos ganhadores do Emmy Awards pelo programa "América Selvagem", da NatGeo TV. Já esteve com mais de 40 espécies diferentes de tubarões, entre elas, as quatro consideradas mais perigosas: o grande tubarãobranco, o tigre, o cabeça-chata e o galha-branca-oceânico.

FOTO: TATIANA LOHMANN

QUEM É

A cada ano são registrados, em média, 80 ataques contra humanos no mundo todo, sendo apenas 25% deles fatais. Por outro lado, nesse mesmo intervalo de tempo, são mortos cerca de 100 milhões de tubarões e raias no planeta, ou seja, 273.932 por dia”, revela. Atualmente, o documentarista tem quatro projetos de documentários em fase de captação de recursos. Entre eles estão um sobre o Pantanal, para uma produtora inglesa independente, e outro projeto sobre a Ilha da Queimada Grande, em São Paulo, também conhecida como “Ilha das Cobras”. SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  65


1 AGRONEGÓCIO

CANA VERDE E LIVRE DO FOGO Com sistema anti-incêndio instalado no Triângulo Mineiro, Canacampo e Usina Santo Ângelo asseguram monitoramento inteligente, evitando danos à natureza e aumentando a segurança nas cidades e rodovias Luciana Morais e Fernanda Mann (fotos) (*) De Campo Florido e Pirajuba/MG redacao@revistaecologico.com.br

N

os canaviais de Campo Florido e Pirajuba, no Triângulo Mineiro, também brotam inovação e responsabilidade socioambiental. Líder na produção estadual de cana-de-açúcar e berço de 21 das 34 usinas sucroenergéticas de Minas Gerais, a região segue avançando e atenta à importância de investir em ações centradas no tripé da sustentabilidade. Um exemplo desse comprometimento é a instalação, em agosto, de um sistema inédito de monitoramento de incêndios na região, ferramenta que se traduz em benefícios e mais segurança tanto para a população vizinha quanto para o meio ambiente e os empresários do setor. A iniciativa, fruto de uma parceria entre a Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Campo Florido (Canacampo) e a

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Usina Santo Ângelo, totaliza investimentos de mais de R$ 1,1 milhão e foi instalada no lugar certo e na hora certa. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), este foi o agosto mais crítico dos últimos seis anos, com mais de duas mil ocorrências de incêndio em Minas. A região com maior número de focos, ao longo do ano, é exatamente a do Triângulo, seguida do Noroeste, Sul e Centro-Norte. O sistema monitora uma área de 100 mil hectares, o equivalente a três Belo Horizonte juntas. São 70 mil hectares plantados exclusivamente com cana e o restante ocupado por outras culturas, como milho e laranja, além de áreas de reserva natural e pastagens. Com tecnologia desenvolvida pela empresa Sintecsys, o sistema

conta com seis câmeras de última geração da Bosch, instaladas em torres estrategicamente posicionadas no campo e dotadas de zoom com raio de alcance de até 15 km. Além de gerar imagens de alta qualidade e em tempo real, elas detectam automaticamente os focos de fumaça, ajudando a reduzir o tempo médio de combate a incêndios. PERIGOSA COMBINAÇÃO O funcionamento da nova ferramenta é totalmente integrado. Com base no georreferenciamento das áreas plantadas e graças à precisão das câmeras, técnicos da Central de Controle – que funciona 24 horas, na sede da Canacampo, em Campo Florido – obtêm informações exatas sobre cada coordenada geográfica e, ao menor indício de fogo, acionam as brigadas de combate, que ficam


FOTOS: FERNANDA MANN

A CENTRAL DE CONTROLE funciona 24 horas, na sede da Canacampo, com monitoramento em tempo real

a postos em diferentes pontos da região, equipadas com caminhões-pipa. “Como sabemos, o tempo de resposta ao fogo em sua fase inicial é decisivo para o sucesso de qualquer operação anti-incêndio e crucial para evitar que as chamas se alastrem. Portanto, os benefícios de cunho social, ambiental e econômico dessa nova ferramenta de monitoramento que implantamos aqui são enormes”, pondera o presidente da Canacampo, Marcos Brunozzi. A começar pelo bem-estar e segurança nas cidades, rodovias e estradas vizinhas aos canaviais. Em especial nesta temporada do ano, quando a perigosa combinação de tempo seco, vento e fogo

costuma provocar graves acidentes, além de colocar em risco a vida e o patrimônio de moradores e produtores das comunidades, fazendas e usinas da região. Do ponto de vista da preservação ambiental não é diferente. “O fogo não respeita nada. Além de causar danos imensuráveis à biodiversidade – como a morte de animais e a destruição de matas ciliares e vegetação de veredas –, ele acarreta grandes perdas de produtividade e compromete toda a nossa logística, porque queima áreas colhidas onde a cana já brotou, a cana que ainda não está pronta para ser colhida e a plantada recentemente.” Quando as chamas atingem talhões (áreas de plantio) onde

a cana já emitiu o colmo (broto), por exemplo, é preciso roçar toda a lavoura e reiniciar o ciclo produtivo da estaca zero. “Isso sem contar o prejuízo com a perda do investimento feito na aplicação de adubos, herbicidas e maturadores, que contribuem para que tenhamos uma cana de melhor qualidade e mais rentável”, pondera Brunozzi. NOVA IMAGEM Produtor experiente, José Luiz Balardin, diretor-financeiro da Usina Santo Ângelo, com sede em Pirajuba, ressalta que boa parte dos incêndios ocorridos na região tem origem criminosa. Para ele, quando o assunto é conservação ambiental e prevenção ao fogo,

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RODRIGO PIAU, Marcos Brunozzi, José Luiz Balardin e Decriê Polastrine: investimento em tecnologia de ponta pela natureza e pelo bem-estar coletivo FOTO: LUIS PELIPE

“A Canacampo acredita, investe e trabalha diariamente com o manejo biológico em seus canaviais. Um dos destaques é o controle da broca da cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis) feita pela vespinha parasitoide Cotesia flavipes. Após o levantamento populacional nas áreas de plantio, o técnico define a liberação ou não da Cotesia. Hoje, nosso índice de infestação final está em torno de 2%, percentual considerado baixo. Registramos também resultados animadores no controle da cigarrinha (Mahanarva fimbriolata) pelo fungo Metarhizium. Outro manejo biológico em ascensão é o controle de nematoide (verme) por bactérias benéficas, que vem demostrando grande eficiência e, consequentemente, aumento de produtividade a cada safra.”

FOTO: FERNANDA MANN

1 AGRONEGÓCIO

RODRIGO PIAU, engenheiro agrônomo e coordenador agrícola da Canacampo

um dos desafios é a melhoria da imagem do setor sucroenergético – que responde por 17% do Produto Interno Bruto (PIB) mineiro – e , há anos, aboliu as queimadas como instrumento de manejo/ colheita da cana. “Infelizmente, a associação equivocada entre cana e fogo ainda permanece entre muitos. No entanto, faz tempo que o fogo deixou de ser uma solução e se transformou num sério problema para nós. Hoje, 100% da colheita aqui na região é mecanizada e um dos nossos diferenciais ambientais é exatamente a cana crua, ou seja, sem a tradicional queima na pré-colheita.” 68  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

COLHEITA NA REGIÃO do Triângulo é 100% mecanizada e tem como diferencial a cana crua, sem a tradicional queima na pré-colheita

Em tom de apelo, Balardin sintetiza o sentimento que impera entre a maioria dos empresários do segmento no Triângulo. “Não podemos mais conviver com o fogo. Trabalhamos numa terra de Cerrado e estamos a cada dia mais convictos de que as melhores soluções vêm da própria natureza. Respeitada, ela sempre trabalha a nosso favor.” Otimista, ele conclui: “A cana crua nos trouxe uma contribuição enorme. A palhada que fica no campo é uma verdadeira cai-

xa d’água a céu aberto: preserva a umidade do solo, potencializa a ação dos nutrientes, regula o microclima e, com isso, mantém a cana verde e forte até a chegada das chuvas. Vivemos da terra, de culturas que passam de pai para filhos e netos, e sabemos que um futuro sustentável depende da responsabilidade, da consciência e do cuidado que estamos tendo agora, no presente”. (*) As repórteres viajaram a convite da Siamig.


FOTO: ESTEVÃO LUIS PEREIRA LIMA

FIQUE POR DENTRO

LAGOA marginal do Rio Carinhanha na RPPN Vereda da Caraíba: água e beleza preservadas

l Maior produtor e exportador mundial de açúcar, o Brasil responde por cerca de 23% da produção global e 49% da exportação mundial, conforme dados de 2016. É ainda o segundo maior produtor de etanol, depois dos Estados Unidos. l O setor sucroenergético brasileiro tem papel decisivo na redução das emissões de gases de efeito estufa e deixou de emitir mais de 576 milhões de toneladas de CO2eq de abril de 2003 a março de 2017. Minas Gerais foi o terceiro maior produtor de cana-de-açúcar do Brasil na safra 2016/2017, atrás apenas de São Paulo e Goiás. l Vencedora do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza 2016”, a Associação das Indústrias Sucroenergéticas de MG (Siamig) engloba 39 empresas localizadas em 26 municípios, que plantam cana e produzem açúcar e energia limpa e renovável em 130 cidades canavieiras em Minas. Nos últimos 20 anos, a oferta de bioeletricidade pelo setor no Brasil evitou a emissão de 797 mil toneladas de CO2 na atmosfera, o equivalente ao plantio de 5,6 milhões de árvores nativas. Em 2015/16, o setor em MG evitou a emissão de 1,9 milhão de toneladas de gases do efeito estufa, que seria equivalente ao plantio de 13,3 milhões de árvores ao longo de 20 anos.

l A inspiração para implantação do sistema anti-incêndio surgiu a partir da experiência da Santo Ângelo no monitoramento de sua Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Vereda da Caraíba. Localizada em Bonito de Minas, na Região Norte, ela foi criada em 2008 e preserva 10,3 mil hectares, margeando os rios Gibão e Carinhanha, na Bacia do São Francisco. l A sala da Central de Controle antiincêndio foi “batizada” em homenagem ao promotor Carlos Alberto Valera – ex-titular da Coordenadoria Regional das Promotorias de Justiça de Meio Ambiente do Triângulo Mineiro e Baixo Rio Grande e atual coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado em Uberaba –, um dos principais defensores do desenvolvimento sustentável da região. l Em 20 de agosto, dias antes da visita da Ecológico à região, um incêndio iniciado às margens da MG-427, que liga Uberaba a Água Comprida e Conceição das Alagoas, atingiu canaviais próximos à hidrelétrica de Volta Grande. Segundo os Bombeiros, foi o maior incêndio em vegetação ocorrido na região, atingindo três mil hectares da usina, além de 12 fazendas.

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FOTO: FERNANDA MANN

1 AGRONEGÓCIO

Corredor ecológico e reciclagem de água

A USINA SANTO ÂNGELO, em Pirajuba, mantém 1.568 hectares protegidos e já plantou mais de 300 mil mudas de árvores nativas para recompor a paisagem natural

Localizada em Pirajuba, no Baixo Rio Grande, a Usina Santo Ângelo tem 33 anos de história. As estimativas para este ano incluem a produção de 3,2 milhões de toneladas de cana e a fabricação de 282,6 mil toneladas de açúcar, além de 76,5 mil m3 de etanol, sendo 39 mil m3 hidratado (vendido diretamente nas bombas) e 37,5 mil m3 anidro (usado na mistura com a gasolina). Mista, a usina também atua no segmento de geração de energia limpa e renovável, a partir da queima de bagaço da cana. A previsão para 2017 é chegar a 160 mil MW/h, com 57,6 mil deles destinados ao seu abastecimento interno. A conservação de nascentes e de florestas, em consórcio com as áreas de cultivo de cana, é prioridade na empresa. Atualmente, 1.568 hectares são protegidos sob a forma de corredor 70  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

ecológico e Área de Preservação Permanente (APP), graças a um trabalho iniciado em 2004 e que contabiliza o plantio de 300 mil mudas de espécies do Cerrado, tais como pequi, ipê e aroeira. Com a criação do corredor ecológico e o incremento das ações de reflorestamento, a presença de animais no campo vem aumentando. “Dias atrás, nosso engenheiro ambiental avistou uma onça-parda ao passar de carro por uma de nossas áreas. Canários, mutuns e sucuris também são comuns aqui”, relata o coordenador ambiental da usina, Decriê Polastrine. VINHAÇA REAPROVEITADA Abastecida por três poços artesianos, a Santo Ângelo segue empenhada em melhorar também sua performance hídrica. No Centro de Manutenção Preventiva (CMP), uma estação de tratamento de água (ETA), inaugu-

rada em 2011, e um conjunto de canaletas e caixas separadoras de água/óleo asseguram a reciclagem mensal de 5.400 m³, usados na limpeza e lubrificação da frota de mais de 100 veículos da usina, entre carros, caminhões e implementos agrícolas. A vinhaça, efluente líquido gerado na destilação do álcool, também é reaproveitada. Seu destino é a fertirrigação dos canaviais, contribuindo para a reposição de potássio e de outros nutrientes no solo. “Temos ainda um sistema de recuperação do vapor resultante do processo de cozimento do caldo da cana (condensado), que retorna ao processo e nos assegura uma economia de 200 mil litros de água por hora”, conclui Polastrine.  SAIBA MAIS

www.siamig.com.br www.canacampotechshow.com.br www.usangelo.com.br


1 EMPRESA & AMBIENTE

O RETORNO DA SAMAMBAIA AO SUMIDOURO AGRADECIDO Vale, Ministério Público e Iepha restauram e devolvem à visitação pública a fazenda-símbolo do Parque Estadual do Sumidouro

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que, onde se situam a Gruta da Lapinha e o Museu Peter Lund, suas principais atrações abertas à visitação pública. Na sua fundação, a Fazenda Samambaia era usada para atividades agropecuárias. Mas foi comprada, em 1964, pela ex-Minerações Brasileiras Reunidas (MBR) como parte de uma jazida de calcário. A mineradora foi FOTOS: DIVULGAÇÃO IEF

F

oi na manhã de seis de outubro, em Pedro Leopoldo (MG), que o Instituto Estadual de Florestas (IEF) recebeu de volta a histórica e simpática Fazenda Samambaia, integrante do Parque Estadual do Sumidouro, totalmente restaurada pela Vale Mineração, na Região Cárstica de Minas. Por meio de um acordo também assinado com o Ministério Público Estadual (MPMG) e o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), a empresa investiu R$ 13 milhões na restauração dessa memória rural ainda viva e testemunha do final do século XIX. Constituída por sede, curral, pátio de ordenha, moinho d’água, pontes e aqueduto, a velha e nova Samambaia tem 500 hectares, o que corresponde a um quarto da área total do par-

João Paulo Sarmento (IEF) e Lúcio Cavalli (Vale) oficializam a parceria

posteriormente adquirida pela Vale, o que explica a parceria. Esse sentimento de pertencimento e interligação, tal como acontece no meio ambiente natural, foi lembrado pelo diretor de Desenvolvimento de Ferrosos da Vale, Lúcio Cavalli: “Se ajudamos na preservação e restauração desse patrimônio agora revigorado, como um legado extremamente positivo para a gestão ambiental no Estado, é porque aqui vivemos, aqui trabalhamos e aqui criamos nossos filhos. Somos todos parte da comunidade”, frisou. Também participaram do evento o gerente do parque, Rogério Tavares, e a presidente do Iepha, Michele Arroyo. SAIBA MAIS

www.iepha.mg.gov.br www.vale.com


1 VOCÊ SABIA?

No embalo do mês da árvore e da florida primavera, vale a pena conhecer características e curiosidades sobre a espécie que faz do Brasil a única nação do planeta com nome de árvore! Confira:

HISTÓRIA

Em mais de 500 anos desde o descobrimento e dentre todas as madeiras da flora brasileira, o pau-brasil é a de maior importância histórica. Originária da Mata Atlântica e ameaçada de extinção, em razão da intensa exploração sofrida ao longo do tempo, o nome científico da espécie é Caesalpinia echinata Lam. Porém, recentemente os botânicos mudaram para Paubrasilia echinata. O Dia Nacional do Pau-brasil é comemorado em três de maio.

FOTO: NANA BRASIL

TURISMO

O Parque Nacional do Pau-Brasil, localizado em Porto Seguro (BA), acaba de ser aberto ao lazer e ao turismo. Criado em 1999, o acesso à unidade era até então restrito a grupos de pesquisa. Seu centro de visitantes abriga uma exposição sobre a história do parque, o encontro de civilizações que ocorreu na região, as comunidades locais e a riqueza da biodiversidade na Costa do Descobrimento. Em seus 19 mil hectares, há trilhas, cachoeiras e animais ameaçados de extinção, como a onça-pintada (Panthera onca).

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PAISAGISMO

As sementes, em formato elíptico, têm tom marrom-claro e germinam em cinco dias após a semeadura. Cada fruto produz, em média, cinco sementes. Atualmente, a espécie é usada no paisagismo de parques e praças, onde atinge aproximadamente 12 metros de altura. Suas flores amarelo-ouro, com quatro pétalas amarelas e uma pétala estandarte de cor vermelho-púrpura, têm leve perfume que lembra o de jasmim e formam cachos que desabrocham em setembro/outubro.

VIOLINO

Sua madeira é pesada, resistente e compacta. É também conhecido como ibirapitanga que, em tupi, significa madeira vermelha, devido à presença do pigmento dessa cor em seu caule, sendo usada pela indústria de tinturaria, na construção naval, na marcenaria de luxo e na confecção de arcos de violino.

O pau-brasil também é o centro de um novo alerta contra o desmatamento da Mata Atlântica. A campanha é liderada pelo Instituto Terra – por meio de uma campanha criada pela agência J. Walter Thompson – e tem parceria com o músico alemão Bartholomäus Traubeck. Ele desenvolveu uma tecnologia para extrair música de ranhuras e sulcos de um disco de pau-brasil. Em Sinfonia do Adeus, Traubeck optou por usar o som do piano para traduzir os dados extraídos em uma melodia dramática. Além de chamar atenção para o problema, o projeto pretende mobilizar pessoas e empresas a doarem recursos para as ações de reflorestamento desenvolvidas pelo instituto mineiro, com sede em Aimorés e criado pelo casal Lélia Wanick e Sebastião Salgado. Clique e ouça a música: www.sinfoniadoadeus.com.br SAIBA MAIS

https://docslide.com.br/download/link/ pau-brasil-2007-francismar Colaboração: Shoey Kanashiro, do Instituto de Botânica/Jardim Botânico de SP.

FOTOS: SHUTTERSTOCK

MÚSICA


1

NATUREZA MEDICINAL

MARCOS GUIÃO (*) redacao@revistaecologico.com.br

ARTEMÍSIA

DAS MULHERES

D

ARTEMÍSIA Artemisia vulgaris

FOTO: MARCOS GUIÃO

epois de quase uma hora de caminhada debaixo de um céu carregado de nuvens e uma eventual lubrina, me dei com a casa de Maria do Céu escondida dentro de um capão de mata que enfeita a baixada em derredor do Córrego Limoeiro. Na latição da cachorrada ela surgiu na varanda e já se deslindrou em afetos e mimos do tipo de mãe recebendo filho apartado. Seu rosto corado e enfeitado pelos olhos negros e sorriso aberto dava conta da alegria e da acolhida sincera da qual me fazia sentir um seu. Pois a coisa ali só deu seu começo e no contínuo fui conduzido até a cozinha, enquanto respondia à perguntação sobre meus meninos, minha mulher, o roçado e um ou outro amigo comum. Nem bem me sentei no pesado banco situado debaixo da janela, surgiu como por encanto um café fumegante enquanto as quitandas foram saltando de latas e vasilhas escondidas por todo canto. Aquilo sim era uma acolhida. Relaxado, fui esticando conversa atoamente, até que surgiu na porta uma mucinha nova, de olhar

avexado e delicadas mãos que procuravam um lugar de alento, sem sucesso. Apresentada, fiquei sabendo se tratar de Marinalva, filha mais nova de Zé Pequeno, que tava por ali uns dias na buscação de conforto para seus males femininos. Essa coisa de doente se mudar pra casa de Maria do Céu na cata de tratamento era fato continuado, mas num quis encabular a mocinha e esperei ela se desgarrar pra assuntar melhor o que tava se passando. Maria já tava com o almoço adiantado e enquanto ia mexendo numa panela ou outra, deu de me contar o ocorrido. - Pois óia que cumadre Cleonice teve aqui pra me dá conta dos ocorridos com Marinalva nos últimos tempos. De pocos mês pra cá ela deu de arruinar os sentidos, foi ficando descabeceada, numa nervusia sem base. Muito nova, as regras dela se deram de consumir, a barriga danificada com muita cólica, as tripa dilorida e por aí se vai. Cleonice, que é madrinha, vendo esse desconforto todo deu ponto de trazer ela pra cá e agora ela já se vai se aprumando. Daqui uns dias já mando ela pra trás, gasta poco tempo. Indaguei qual foi o tratamento adotado pra resolver essa tanteira de queixas. - A principal é a artemísia (Artemisia vulgaris), essa plantinha pratiada que se vê aí no derredor da horta. O chá inté que é ruim, mas é bão demais de resultado. Enquanto ela enxugava as mãos sentada num canto da cozinha, seu olhar vagueou na fumaça do fogão e deu de falar manso. - Tenho levado ela pra tumá uns banhos no córgo pra esparicê, saí um poco dessa cisma. A vida é uma lindeza, um milagre que abre suas cortina todo dia e a gente num põe reparo. Tem que se abrir os zói pra se vê o assombro que é um céu estrelado, a alegria das flô com a chegada dessa chuvadinha, a combinação das cor das pena dos passarim... Ali ela ficou um tempo e eu nem me mexi pra num bulir com tamanho encantamento de suas palavras. Mais uma vez aprendi na simplicidade daquela situação que cuidar é muito mais que só dar um remédio. Inté a próxima lua!  (*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.

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outubro

e novembro M eses pa ra lem bra rque to do dia ĂŠ dia de se cuida r.


1 MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO (M&A)

OS ALIADOS DA RESPONSABILIDADE SOCIAL Carolina Proietti Imura (*)

redacao@revistaecologico.com.br

E

m tempos de recursos escassos e problemas complexos, a necessidade de ser mais assertivo nos investimentos, nas estratégias e desenhos de políticas ou projetos sociais torna-se ainda mais relevante. É aí que entram em cena o monitoramento e a avaliação, possibilitando acompanhar processos e resultados, corrigir rumos e tomar melhores decisões, além de prestar contas à sociedade sobre os benefícios alcançados. Não existe um único método ou formato para realizar o monitoramento e a avaliação de uma política, programa ou projeto; as metodologias variam de acordo com a natureza da 76  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

intervenção, o tema, os grupos envolvidos e também os recursos (humanos, materiais e tecnológicos) e capacidades das instituições responsáveis por implementar as iniciativas.

ANDRÉ REIS: benefícios

Por exemplo, em um projeto que acontece em comunidades ribeirinhas do Vale do Jequitinhonha, talvez seja mais difícil utilizar sistemas de monitoramento que envolvam muitos aparatos tecnológicos. Por outro lado, a capacidade tecnológica de alguns povos indígenas no Amazonas pode favorecer o uso de sistemas de monitoramento mais complexos. No estado de Minas Gerais, para mapear famílias em situação de pobreza em áreas distantes de centros urbanos, a Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social tem utilizado imagens por satélite, estratégia que vem se mostrando mais eficaz do que recenseamentos.


que as práticas de monitoramento trazem, ainda há muita resistência em implementá-las, talvez porque no caso das políticas públicas esse termo esteja associado ao controle sobre os recursos utilizados e prazos cumpridos. Como se monitoramento fosse simplesmente uma fiscalização, com o intuito de checar irregularidades. De fato, essas são informações importantes e devem ser consideradas em um processo de monitoramento, mas não são as únicas variáveis a se considerar. Em um projeto que prevê a capacitação de mulheres que vivem no sertão, por exemplo, é preciso saber quantas estão conseguindo comparecer às aulas; onde vivem; que dificuldades enfrentam no transporte até o local do curso. Ao final do projeto, ter um bom banco de dados com todas as informações sobre estas mulheres, que possibilite o acompanhamento do que elas realizaram depois da intervenção, também é muito importante. Sem monitoramento, os processos avaliativos ficam

prejudicados, afinal necessitam de informações que nem sempre são fáceis de rastrear ao término de um projeto ou política. No caso do monitoramento que vem sendo implementado nos balcões de atendimento em Belo Horizonte, o secretário André Reis destaca que outro benefício é a possibilidade de redistribuir os serviços de acordo com as demandas e capacidades de cada equipamento. Outro exemplo de monitoramento foi o realizado para os programas de educação profissional dos estados de Minas Gerais e São Paulo, o PEP e VENCE, respectivamente. Com a adoção de técnicas qualitativas e quantitativas associadas a um sistema de gestão da informação online, foi possível acompanhar os grandes marcos de execução dos programas, como matrículas, frequência e desempenho dos alunos, infraestrutura das escolas, pagamentos, entre outros. O monitoramento possibilitou adequações como a inclusão/exclusão de cursos e escolas, ações para controle da qualidade dos FOTOS: GERALDO DOS ANJOS

MONITORAR NÃO É FISCALIZAR Assim como o diagnóstico e o planejamento são peças-chave de qualquer iniciativa - é preciso saber o que se quer atingir; como; quem será responsável por qual ação - também é preciso monitorar se o que foi planejado está sendo colocado em prática, ou quais obstáculos aparecem no meio do caminho. Isso evita que apenas ao final de um projeto perceba-se que as estratégias utilizadas não contribuíram para atingir o resultado esperado. As estratégias de acompanhamento sistemático também ampliam o comprometimento das equipes com o trabalho, valorizando as ações de cada setor da organização, e também contribuem para uma melhor percepção dos beneficiários sobre o serviço ofertado. “No município de Belo Horizonte, que vem implementando o monitoramento dos balcões de atendimento ao público, os cidadãos identificam imediatamente as melhoras”, comenta o secretário de Planejamento da prefeitura, André Reis. Apesar de todos os benefícios

SET/OUT DE 2017 | ECOLÓGICO  77


1 MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO (M&A) cursos ofertados e até a adequação dos pagamentos realizados pelos governos às escolas. O SENTIDO DA AVALIAÇÃO Se a palavra monitoramento já gera resistências, avaliação é outro termo ainda mal visto ou, pelo menos, temido por boa parte das pessoas. Muitas vezes, associa-se avaliação a uma punição, a apontar os dedos e jogar luzes sobre erros e deficiências. Esta é uma visão distorcida, afinal o interesse maior de um processo avaliativo é identificar os resultados alcançados e procurar compreender, dentre as mudanças identificadas, aquelas que foram realmente causadas por determinada intervenção social. Esse processo nem sempre é simples, como comenta a Gerente de Planejamento Socioambiental da Vale, Flávia Soares. Em projetos com maior duração, que já nascem com uma concepção mais assertiva e que preveem uma duração suficiente para que se observem mudanças em indicadores de saúde, educação ou geração de renda, ela aponta “que é mais fácil ter clareza sobre os resultados esperados e de que forma a intervenção planejada levará a estas mudanças”. Já nos casos de projetos executados para

WESLEY MATHEUS: cautela 78  ECOLÓGICO | SET/OUT DE 2017

EXEMPLO de tecnologia usada para monitoramento de projetos de remoção e reassentamento de famílias

cumprir as condicionantes de um licenciamento ambiental, como os prazos são menores, os esforços de avaliação são mais complexos, para possibilitar que se compreenda qual foi de fato a contribuição do projeto nas mudanças observadas em determinada comunidade. QUEM DEVE CUIDAR DO MONITORAMENTO E DA AVALIAÇÃO? Idealmente, o monitoramento e a avaliação devem fazer parte do cotidiano e dos processos de instituições e empresas. Mas nem

FLÁVIA SOARES: intervenção

sempre há recursos - humanos ou técnicos - para realizar este trabalho, que pode então ficar a cargo de consultorias especializadas. Sobretudo no caso da avaliação, é importante garantir um olhar externo, mais isento, para aquilo que está sendo avaliado. Isso pode gerar resistências entre as equipes envolvidas em determinados projetos, pois podem sentir-se vigiadas, avaliadas em sua capacidade de trabalho. Por outro lado, a contribuição externa pode ser vista como uma oportunidade de aprendizado, crescimento e melhoria daquilo que está sendo realizado. No caso do monitoramento feito por agentes externos, é uma maneira de garantir que alguém esteja cuidando das ações de monitoramento mesmo quando os profissionais executores estão ocupados com as tarefas do projeto a ponto de não conseguirem realizar momentos de parada e reflexão. Outro desafio para a adoção de uma cultura de monitoramento e avaliação é a produção de dados e informações. Sem eles, é


FOTOS: GERALDO DOS ANJOS

SAIBA

MAIS

Estreitando o diálogo sobre M&A

O EVENTO "Diálogos Transversais" foi realizado no Guaja Café-Coworking, em BH

muito difícil fazer qualquer tipo de análise ou acompanhamento. Estes dados e informações nem sempre devem ser sofisticados, complexos, mas é importante que haja alguma maneira de produzi-los, centralizá-los e analisá-los. Mais uma vez, o apoio de pessoas externas, seja na produção de indicadores, sistemas de acompanhamento, ou seja, no aconselhamento sobre as melhores práticas e métodos

Ainda que o monitoramento e a avaliação se complementem, eles podem acontecer em momentos diferentes de um projeto, política ou intervenção social. O ideal é que o monitoramento seja iniciado assim que o projeto sair do papel

de monitoramento e avaliação, é crucial. Como destaca o coordenador de M&A da Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social de Minas Gerais, Wesley Matheus, é preciso cautela, pois vivemos numa era de valorização dos dados, mas o importante mesmo é dar conta de aspectos mais simples: garantir que sejam produzidos bons dados, de qualidade, que tenham sentido para quem utilizará a informação. DIFERENTES MOMENTOS Ainda que o monitoramento e a avaliação se complementem, eles podem acontecer em momentos diferentes de um projeto, política ou intervenção social. O ideal é que o monitoramento seja iniciado assim que o projeto sair do papel. Já a avaliação pode acontecer antes do projeto começar (para revelar como estava determinada situação antes da intervenção), durante (intermediária), e/ou depois, para identificar resultados e impactos. No citado exemplo das políticas de oferta pública de cursos técnicos, os dados da avalia-

Recentemente Belo Horizonte foi palco de mais uma edição do evento "Diálogos Transversais," que reúne organizações sociais, empresas e instituições públicas para trocar experiências sobre monitoramento e avaliação. O encontro tem o DNA da Herkenhoff & Prates, empresa que há mais de 30 anos realiza consultorias com foco no monitoramento e avaliação de projetos e políticas públicas em diversas áreas. Nos últimos anos, a equipe desta consultoria vem buscando fortalecer a agenda de monitoramento e avaliação no estado de Minas Gerais. Promovendo intercâmbios de conhecimento, aproximando-se da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação; e, dessa forma, contribuindo para que M&A façam cada vez mais parte das práticas das instituições. O evento contou com o apoio do Clear Latino Americano e da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação. Na data foram compartilhadas as experiências da Vale, do Governo do Estado de Minas Gerais, da Prefeitura de BH, da Universidade Federal de Ouro Preto, da sociedade civil (blogs Leis e Números) e da própria Herkenhoff & Prates. Para saber mais, acesse hpconsultores.com.br.

ção do programa de Minas Gerais foram utilizados para desenhar o programa do estado de São Paulo, que já planejou, desde o começo, seu processo de monitoramento e avaliação.  *Consultora da Herkenhoff & Prates e diretora da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação (RBMA).

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INFORME PUBLICITÁRIO

COOPERAÇÃO TÉCNICA entre a Emater e o Instituto Espinhaço vai potencializar ações voltadas para a conservação de solos e de nascentes FOTO: ALFEU TRANCOSO

MAIS ÁGUA E VERDE

NO ESPINHAÇO Em parceria com o Instituto Espinhaço, projeto "Plantando o Futuro" inaugura viveiro de mudas em Gouveia, na Região Central de Minas, firma convênio com a Emater e também com mais duas prefeituras mineiras

N

ovas parcerias e importantes ações de mobilização social e educação ambiental foram alguns dos frutos colhidos durante as comemorações do “Dia da Árvore”, cuja programação se estendeu por diferentes cidades de Minas Gerais. Entre os dias 15 e 25 de setembro passado, oficinas, palestras, diálogos participativos, plantios de novas mudas e apresentações de vídeos foram realizados em diferentes cidades mineiras pelo “Projeto Plantando o Futuro – Semeando Florestas, Colhendo Águas na

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Serra do Espinhaço”, em parceria com o Instituto Espinhaço, ONG sem fins lucrativos com atuação em prol da conservação da biodiversidade e do desenvolvimento socioambiental. Entre as atividades realizadas, merece destaque a inauguração, em 22 de setembro, de um viveiro de mudas, no município de Gouveia, na Região Central do Estado. O novo espaço é destinado a atender ao “Plantando o Futuro”, projeto coordenado pela Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig),

tendo como meta promover, até dezembro de 2018, o plantio de 30 milhões de árvores, além de recuperar 40 mil nascentes, 6 mil hectares de mata ciliar e outros 2 mil hectares de áreas degradadas, em todos os 17 Territórios de Desenvolvimento mineiros. O viveiro de Gouveia tem capacidade de produção de 400 mil mudas/ano, assegurando o suporte e a logística necessários para se chegar às três milhões de novas mudas que o instituto vai plantar nos 61 municípios integrantes da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço,


COOPERAÇÃO É AMPLIADA Outro viveiro do projeto “Plantando o Futuro” em pleno funcionamento, também na Região Central do Estado, é o de Itabira. Lá, cerca de um milhão e 500 mil mudas nativas já estão prontas e serão usadas em plantios iniciados agora no mês de outubro, aproveitando a chegada do período de chuvas em Minas Gerais. Os plantios são feitos pelas equipes do próprio Instituto Espinhaço, que também são responsáveis pela prévia mobilização e orientação de pequenos produtores rurais, por meio de visitas às propriedades. Ao aderir ao projeto, cada proprietário assina um termo de anuência e de corresponsabilidade na manutenção das mudas plantadas em suas terras. Atualmente, o Instituto Espinhaço mantém dez equipes de mobilização atuando em campo, em diferentes frentes de trabalho na região da Serra do Espinhaço. Antes de

FOTO: DIVULGAÇÃO/PLANTANDO O FUTURO

tombada como patrimônio natural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 2005. Durante as atividades em Gouveia, foi feita ainda uma ação de plantio urbano de 250 novas mudas de espécies nativas da rica flora do Espinhaço, em parceria com a comunidade local e a Prefeitura, além de uma apresentação sobre o Plantando o Futuro e a promoção de ações vinculadas à divulgação dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), preconizados pela ONU e que abrangem temas como água e mudanças do clima. Na manhã do dia 22 de setembro, foi realizado outro plantio de mudas de espécies nativas. O local escolhido foi o entorno da Escola Municipal José Aniceto Costa, no município de Conceição do Mato Dentro, iniciativa que contou com a participação de mais de 150 crianças do ensino fundamental, além de representantes da Prefeitura e das comunidades vizinhas.

VIVEIRO construído em Itabira (MG): o “Plantando o Futuro” vai viabilizar a recuperação de 40 mil nascentes e o plantio de 30 milhões de mudas de árvores de diversas espécies até dezembro de 2018 iniciar as ações em cada cidade, o Instituto assina termos de cooperação técnica com as respectivas prefeituras que, por sua vez, envolvem seus servidores da área ambiental, incentivando e fortalecendo o processo de mobilização e conscientização dos produtores e das comunidades rurais. Com o apoio da Codemig e do Instituto Espinhaço, todas as propriedades participantes também estão em dia com o Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento previsto no novo Código Florestal Brasileiro. Seu objetivo é integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais, compondo a base de dados para o controle, o monitoramento, o planejamento ambiental e econômico, bem como para a recuperação florestal de áreas desmatadas. COOPERAÇÃO É AMPLIADA As comemorações do “Dia da Árvore” também resultaram na assinatura de dois novos termos

de cooperação técnica com as seguintes prefeituras: a de Santana do Riacho e a de Ouro Branco. No dia 21 de setembro, o destaque da programação foi a assinatura, em Belo Horizonte, de um acordo de cooperação entre a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater) e o Instituto Espinhaço, que estará em vigor pelos próximos quatro anos. Com a implementação de ações sinérgicas ao “Plantando o Futuro”, o propósito das duas instituições é unir e potencializar esforços em ações ambientais que a Emater já desenvolve, como a conservação de solo e de nascentes. Por meio da produção de mudas de espécies nativas, a iniciativa contribui ainda com o compromisso internacional assumido pelo Brasil, no âmbito do Acordo de Paris, de recuperar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. SAIBA MAIS

www.codemig.com.br www.plantandoofuturo.mg.gov.br

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FOTO: JOSÉ REYNALDO DA FONSECA

INFORME PUBLICITÁRIO

Fomento à regularidade ambiental Decreto nº 47.246 permite o pagamento de multas ambientais com descontos sobre juros e correções Minas Gerais deu mais um passo em prol do meio ambiente. Agora, trata-se da adesão ao programa de pagamento incentivado, possível por meio do Decreto nº 47.246, que visa à quitação de débitos oriundos de autos de infração lavrados até 31 de dezembro de 2014 junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), ao Instituto Esta-

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dual de Florestas (IEF) e ao Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). A iniciativa vai fomentar a regularidade perante os órgãos ambientais, propiciando aos autuados por infrações ambientais descontos progressivos, à medida que se reduz o número de parcelas, para ficarem em dia com o meio ambiente. O programa de incentivo consistirá no pagamento à vista ou parcelado, com reduções dos acrésci-

mos, e funciona da seguinte forma: o crédito não tributário existente em 31 de dezembro de 2014 poderá ser pago com 90% de desconto se pago à vista; 80%, se pago em duas parcelas iguais e sucessivas; 70%, se quitado em três parcelas iguais e sucessivas; 60% de desconto se pago em quatro parcelas iguais e sucessivas; 50% de desconto em cinco parcelas iguais e sucessivas; e 25%, se pago


PARCELAMENTOS A data limite para manifestar interesse é 30 de novembro, devendo o autuado efetuar o pagamento à vista ou da entrada do parcelamento até esta data. Se o montante do crédito depender de apuração, que deverá ser concluída até 28 de fevereiro, o prazo para pagamento à vista ou da entrada prévia do parcelamento será de trinta dias contados da data da intimação do resultado da apuração. Se o pagamento do crédito não tributário for feito em parcelas, serão aplicados juros equivalentes à Taxa Selic, acumulada mensalmente e calculada a partir do mês subsequente à data do pedido de ingresso no programa, ou, caso a taxa Selic ainda não tenha sido divulgada, juros equivalentes a 1%, relativamente ao mês em que o pagamento for efetuado. Para os parcelamentos acima de 36 meses, será exigido o ofereci-

FOTOS: SHUTERSTOCK/IMAGENS ILUSTRATIVAS

em seis ou até sessenta parcelas iguais e sucessivas. Os benefícios não se aplicam ao crédito não tributário objeto de ação penal por crime ambiental. Para aderir ao plano e obter os benefícios, o autuado interessado deverá preencher o requerimento disponibilizado no endereço eletrônico na internet: regularize. meioambiente.mg.gov.br. Caso queira parcelar a dívida, o requerimento de parcelamento deverá ser apresentado a uma das unidades dos órgãos a que esteja circunscrito e se vincule o crédito não tributário, seja Semad, Feam, IEF ou Igam. Para pagamento da parcela será emitido um Documento de Arrecadação Estadual (DAE), disponibilizado pela Secretaria de Estado de Fazenda em seu endereço eletrônico na internet. Os que possuírem créditos estaduais não tributários inscritos em dívida ativa deverão protocolar o interesse junto à Advocacia-Geral do Estado (AGE).

mento de fiança, seguro garantia, garantia hipotecária ou carta de fiança. O valor de cada parcela não poderá ser inferior a R$ 500, salvo deferimento da autoridade competente. As parcelas serão iguais e sucessivas, com data de vencimento no último dia dos meses subsequentes ao do vencimento da primeira parcela. O pagamento da entrada prévia será indispensável para efetivação do parcelamento. O montante a parcelar corresponderá ao somatório dos valores do crédito não tributário e dos juros, monetariamente atualizados, se for o caso, deduzida, em cada rubrica, a importância recolhida a título de entrada prévia. Se o autuado possuir mais de uma autuação ou Processo Administrativo do Crédito Estadual (PACE) objeto do pedido de parcelamento, o valor a ser parcelado será o somatório de todos eles. Para os créditos não tributários que se encontrem em fase administrativa ou já inscritos na dívida ativa, os parcelamentos serão distintos. Caso haja desistência ou revogação do parcelamento, todos os ônus legais e a restauração dos valores das multas que tenham

sido reduzidas serão imediatamente reconstituídos do saldo devedor, abatida a importância já recolhida. Importante observar que o parcelamento será revogado caso haja inobservância de qualquer das exigências estabelecidas nos arts. 3º a 5º do Decreto; atraso por prazo superior a 90 dias no pagamento de parcela do principal ou dos honorários advocatícios; a desconstituição da garantia a que se refere o inciso II do art. 5º e nova autuação pelo mesmo fato ocorrida após a data da homologação do ingresso no programa. 

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ESTANTE VERDE

O MUNDO BELO E OCULTO DAS ÁRVORES Elas se comunicam, mantêm relacionamentos, formam famílias, são competidoras e sabem se defender de agressores. Também cuidam dos filhos doentes, podem ser solitárias ou se desenvolverem apenas em comunidade. Há quem acredite que as árvores são seres inanimados, mas, verdade seja dita, elas têm muito mais características comuns aos humanos do que pensamos. É o que mostra o livro “A vida secreta das árvores”, do engenheiro florestal alemão Peter Wohlleben, lançado recentemente pela editora Sextante no Brasil. Logo no começo de sua carreira, Peter passou a organizar treinamentos de sobrevivência e atividades turísticas pela floresta de Hümmel, cidade localizada no oeste da Alemanha. O contato direto com as árvores e a curiosidade dos turistas o levaram a olhá-las não apenas como fonte de lucro, mas como seres inestimáveis. Entre as diversas descobertas de Peter, há o fato de elas se comunicarem por meio de odores, uma espécie de “linguagem aromática secreta”, e também de manterem uma “amizade” com os fungos. Classificados pelo autor como “a internet da floresta”, eles formam uma espécie de rede de troca de alimentos e têm uma relação com as

árvores que pode durar séculos. No livro, Peter também mostra como elas se deslocam: “A solução está na transição entre as gerações. Toda árvore passa a vida fixada onde a semente criou raízes. No entanto, ela se reproduz, e no curto período em que os embriões estão nas sementes, eles são livres. Assim que a semente cai da árvore, sua viagem começa”. “A vida secreta das árvores” nos indica que, além de a biologia das espécies ser fascinante, ainda há tempo para fortalecermos nossa relação com o mundo vegetal. Principalmente, se ainda estivermos dispostos a viver de forma equilibrada no planeta.

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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A VIDA SECRETA DAS ÁRVORES Peter Wohlleben - 224 págs. / R$ 29,90 Editora Sextante - avidasecretadasarvores.com.br

O SÉCULO DA ESCASSEZ Marussia Whately e Maura Campanili 120 págs. / R$ 29,90 Editora Claro Enigma www.companhiadasletras.com.br

ESCONDIDA Jean-Claude Alphen 72 págs. / R$ 42 Edições SM www.edicoessm.com.br

O problema da escassez de água não é um fenômeno recente nem localizado. Boa parte dos rios está poluída; a indústria, a agricultura e as hidrelétricas consomem grandes quantidades de água; e a distribuição irregular no território pode acentuar conflitos políticos e comerciais à medida que a água se torna um bem cada vez mais raro. O livro apresenta os principais conceitos sobre o tema, mostra dados estatísticos com foco no território brasileiro e aponta caminhos possíveis para evitar o colapso no abastecimento.

Atrás de um arbusto, uma menina assiste a um curioso desfile de animais selvagens: zebras, girafas, rinoceronte, guepardo... Mas o que, à primeira vista, parece a savana africana, logo se revela um jogo divertido de esconde-esconde entre duas crianças e um cachorro. A ausência de palavras e o conjunto inusitado de ilustrações (que embaralham as fronteiras entre realidade e fantasia) fazem de “Escondida” um convite para contemplar, refletir e recriar as impressionantes cenas de espera, observação e movimento que surgem página a página.

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FOTO: DIVULGAÇÃO-SECOM/TO

Nº 49


1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - ÓLEOS ESSENCIAIS

Em Minas Gerais, pesquisas da Epamig atestam a eficácia da aplicação de óleos e extratos vegetais no controle de pragas em diferentes culturas. Na Ufla, estudo em fase inicial prevê seu uso no desenvolvimento de novos larvicidas naturais Luciana Morais

redacao@revistaecologico.com.br

O

s aromas permeiam o ima- Afins (Abifra), 42 empresas forginário e o dia a dia da necem insumos para as cadeias humanidade há séculos. produtoras de cosméticos, saOs egípcios usavam material aro- neantes, alimentos e bebidas. Amplamente usados na agrimático no processo de mumificação dos corpos, na cosmética e cultura como fungicidas, bactena medicina. Chineses, indianos, ricidas e inseticidas, esses óleos hebreus, árabes, gregos e roma- também são foco de inúmeras nos, todos eles, povos civilizados pesquisas sobre sua ação antie primitivos, se valeram no de- tumoral, antiparasitária e ancorrer da história das essências tioxidante. Além das aplicações de plantas aromáticas também industriais, por meio especialna culinária e em cerimônias e ri- mente dos perfumes, são empretuais religiosos. gados ainda em terapias alterNos dias atuais, tais substâncias nativas, como a aromaterapia. Nesse caso, seu objetivo é de origem natural, conhecireequilibrar disdas como essência, óleo funções físicas, essencial ou etéreo, continuam se desemocionais e Essência: tacando graças às energéticas, por óleo essencial diluído em meio de basuas nobres caracóleo vegetal ou mineral; nhos, na mistuterísticas. Segundo líquido volátil e sem ra com cremes, dados da Associaviscosidade que se extrai em loções de ção Brasileira da de certos vegetais. Indústria de Óleos massagem, em Essenciais, Produtos vaporizadores e difusores de aroQuímicos Aromáticos, mas para ambiente. Fragrâncias, Aromas e

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CHEIRO E SABOR Voláteis ou etéreos, os óleos essenciais estão presentes em várias plantas e têm como características básicas o cheiro e o sabor. Embora sejam insolúveis em água, conseguem conferir odor à mesma, constituindo os hidrolatos (água floral) e tornando-se uma importante fonte de aromatizantes em perfumaria e especiarias. Na alimentação, são usados para dar sabor, a exemplo da canela, do cravo-da-índia, do limão, do gengibre, da menta, do tomilho e da manjerona. As essências apresentam também atividades farmacológicas, entre elas antissépticas, anti-inflamatórias e antimicrobianas, muito usadas na medicina popular, para a fabricação de medicamentos e na cosmética. Para quem tem cabelos finos e que demoram a crescer, por exemplo, podem ajudar no fortalecimento e no desenvolvimento dos fios. Isso porque penetram


FOTO: DIVULGAÇÃO

ENTENDA MELHOR

l O papel dos óleos essenciais está relacionado à sua volatilidade, pois, por meio dessa característica, agem como sinais de comunicação química com o reino vegetal e como arma de defesa contra o reino animal. l Têm funções ecológicas, especialmente como inibidores da germinação, além de atuar na proteção contra predadores e na atração de polinizadores. Exemplo disso são as espécies conhecidas como trombeteira ou dama-da-noite, que exalam forte aroma à noite e podem atrair morcegos e mariposas. l Algumas espécies de eucalipto e a losna (ou absinto), por sua vez, geram efeito inibitório na germinação de sementes por meio de seus óleos, de forma que outras plantas são totalmente inibidas de se desenvolver num raio de um a até dois metros delas (alelopatia). SISTEMA para extração de óleos essenciais Hidrodestilação, no Laboratório de Química da Ufla

profundamente nos folículos do cabelo, melhorando a circulação sanguínea, estimulando e normalizando o funcionamento das glândulas sebáceas. Conforme dados da Terra Flor, empresa especializada em aromaterapia, com sede em Alto Paraíso de Goiás (GO), um dos óleos essenciais mais indicados para tratamento capilar é o de laranja-amarga (Citrus aurantium), conhecido como óleo da tonificação. Atua na fluidez do sangue e tem propriedade anticoagulante, contribuindo para reduzir tanto a perda quanto a fragilidade dos fios. É, ainda, aliado no tratamento da caspa e da seborreia, fatores que levam à oleosidade e à queda excessiva dos cabelos. SONO TRANQUILO Através de seus aromas, os óleos essenciais estimulam a

oxigenação e a circulação sanguínea, o que contribui, entre outros fatores, para um sono mais tranquilo e reparador. Isso acontece porque eles têm em sua composição substâncias como o acetato de linalila, que funciona como calmante natural, devolvendo a tranquilidade e ajudando no equilíbrio emocional. Entre as essências mais usadas para combater a insônia estão a de lavanda-francesa (Lavandula dentata) e a de manjerona (Origanum majorana). A primeira promove um

l Estudos indicam que a toxicidade de alguns componentes dos óleos voláteis constitui uma proteção contra predadores e agentes infestantes. O mentol e a mentona são inibidores do crescimento de vários tipos de larvas. Já os vapores do citronelal (usado pelas formigas) e α-pineno (utilizado pelos cupins e encontrado em óleos de muitas espécies, em especial do pinheiro) podem causar irritação em um predador e fazê-lo desistir do ataque.

sono reparador, enquanto a segunda é eficaz em casos de falta de sono frequente. Outra reconhecida função dos óleos essenciais é a sua capacidade de repelir insetos. O óleo de citronela (Cymbopogon winterianus) é um dos mais potentes repelentes. Pode ser usado diretamente em difusores de aromas ou misturado a produtos de limpeza. É comum também a queima de vela de citronela para afastar mosquitos e outros insetos de ambientes domésticos e locais de trabalho e de lazer.

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1 ECOLÓGICO NAS ESCOLAS - ÓLEOS ESSENCIAIS

FIQUE POR DENTRO l Conforme dados do Sebrae, a produção de óleos essenciais no Brasil, de forma comercial significativa, teve início no começo do século 20, com base no extrativismo de essências nativas, principalmente do pau-rosa (Aniba rosaeodora). l A partir de 1940, devido à crescente demanda das indústrias do Ocidente, que se viram privadas de suas tradicionais fontes de suprimento em virtude da Segunda Guerra Mundial, a produção nacional passou a ser feita de forma mais organizada, com a introdução de outras culturas para obtenção de óleos, tais como menta, laranja, canela, sassafrás, eucalipto, capim-limão e patchouli, voltadas sobretudo para o mercado externo. l Nas décadas seguintes, empresas internacionais do segmento de perfumes, cosméticos, produtos farmacêuticos e alimentares passaram a se instalar no Brasil, contribuindo para o desenvolvimento do mercado interno. Atualmente, o Brasil produz cerca de 3% do óleo essencial que consome.

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Volátil:

l Em Minas Gerais, pesquisas da Empresa de Pesquisa Agropecuária (Epamig) e de universidades atestam a eficácia da aplicação de óleos e extratos vegetais no controle de pragas em diferentes culturas. Um processo ecologicamente saudável, seguro e mais barato, se comparado ao uso de pesticidas químicos.

característica dada a substâncias que, sem a presença de calor, evaporam.

l Entre os estudos vale citar o extrato do caroço do abacate, que se mostrou eficiente contra duas pragas: a podridão parda do pêssego e a podridão amarga da maçã. A Epamig também tem iniciativas bemsucedidas de adição de óleos essenciais em produtos de panificação, assegurando o aumento da vida útil de prateleira dos alimentos e a manutenção de suas características de sabor, sem uso de aditivos químicos. FONTES/PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Abifra, Epamig, Fapemig, Sebrae, Terra Flor e Ufla.


FOTO: DIVULGAÇÃO

TRÊS PERGUNTAS PARA...

MARIA DAS GRAÇAS CARDOSO

Pós-doutora em Óleos Essenciais pela Universidade de Lisboa, coordenadora do Laboratório de Óleos Essenciais e professora-titular do Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras (Ufla)

PESQUISA É DESTAQUE Desde a sua criação, em 1996, quais têm sido as principais linhas de pesquisas desenvolvidas pelo laboratório que a senhora coordena? Além da orientação a alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, nosso foco é extrair, caracterizar e quantificar quimicamente óleos essenciais de várias partes de diferentes plantas, bem como pesquisar as atividades biológicas desses compostos. Temos várias dissertações, teses e projetos aprovados por órgãos de fomento, tais como Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapemig) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), com foco em suas atividades fungicidas, bactericidas e inseticidas, e atuamos em conjunto com pesquisadores dos departamentos de Química, Ciência dos Alimentos, Entomologia e Fitopatologia da Ufla. Atualmente, em parceria com pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal de Alfenas, desenvolvemos estudos sobre a ação desses óleos sobre o Trypanosoma cruzi (parasita da Doença de Chagas) e como antitumorais. Quais os processos mais usados no Brasil para a

Nós apoiamos essa ideia!

extração dos óleos essenciais? Há várias técnicas, sendo a destilação por arraste a vapor e a hidrodestilação as mais empregadas. Na extração de óleos de frutos cítricos, tais como laranja, limão, tangerina e outros, emprega-se a prensagem (mesma técnica empregada para óleos fixos e comestíveis, como soja, arroz, canola, etc). Existem também outras técnicas como a extração supercrítica, muito empregada na indústria. Vocês também desenvolvem um estudo sobre o combate ao Aedes Aegypti... Sim. Em parceira com a professora Joziana Muniz Barçante, do Departamento de Medicina da Ufla, a pesquisa com óleos essenciais sobre o Culex (pernilongo) e o Aedes Aegypti (transmissor da dengue) vem sendo desenvolvida. Estão sendo testados os mais diferentes óleos essenciais e seus componentes majoritários visando ao desenvolvimento de novos larvicidas naturais, com espectro de ação sobre esses insetos. O objetivo é encontrar nos óleos essenciais e nos seus constituintes substâncias que venham a ser empregadas como protótipos para novos fármacos. 

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1ENSAIO FOTOGRÁFICO

UM OLHAR SOBRE

CEREJEIRAS Fernanda Mann

redacao@revistaecologico.com.br

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oana Moreira é uma fotógrafa que tem a natureza como inspiração. E essa paixão por registrar as belezas naturais encontrou um ponto comum entre o Brasil e o “país do sol nascente”, do outro lado do mundo: a conexão, nas montanhas de Minas, com as cerejeiras originárias do Japão. Conhecida como “sakurá”, essa espécie comum em regiões frias também viceja no Morro do Chapéu, condomínio vergel de Nova Lima (MG). E ilustra sua recente exposição, intitulada “Hanami/Mbotyra epiak: um olhar sobre flores”, na Casa Fiat de Cultura, na capital mineira. A inspiração para esse trabalho ganhou força quando Joana conheceu o senhor Haruji Miura, hoje com 90 anos. Filho de japoneses e nascido no Brasil, ele vive no Morro do Chapéu, onde planta e gosta de espalhar, para a vizinhança, sementes de cerejeirasdo-Japão (Prunus serrulata). Como relata a fotógrafa: “Certa vez, comecei a fotografar as cerejeiras do meu condomínio. Quando ouvi as notícias sobre ele, que morava a menos de 15 km de minha casa, entrei em contato para um chá.

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HARUJI MIURA, o semeador de cerejeiras

Ao chegar lá, fiquei emocionada com aquele cenário. Não conseguia parar de fotografar e contemplar tamanha beleza. A ideia de um exposição nascia ali, naquele instante”. Na sua ótica, as cerejeiras sinalizam a confluência da tradição e paisagismo japonês com a nossa cultura e estética urbana. Confira, a seguir, a beleza dessas flores made in Minas:


FOTOS: JOANA MOREIRA

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1ENSAIO FOTOGRÁFICO

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ELA

O amor da belohorizontina Joana Moreira pela fotografia nasceu ainda na infância. Aos nove anos, ganhou uma câmera de presente do pai. Com 17, durante intercâmbio na Austrália, descobriu que podia trocar a disciplina de matemática por fotografia. Em época de câmeras analógicas também aprendeu a revelar, imprimir e fez sua primeira exposição, “Cores da Bahia”, em 2000. Um ano depois, lançou o livro “Dos Habanas”, em parceria com o poeta cubano Felipe Chibas. Suas flores decoram todas as cabanas da premiada Pousada de Engenho, nas Serras Gaúchas, e também já coloriram cardápios de conhecidos restaurantes da capital mineira.

FOTO: LEO LARA

FOTOS: JOANA MOREIRA

QUEM É

Contato: joanamoreirafinart@gmail.com

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MEMÓRIA ILUMINADA

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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TRANSCENDER é preciso: "um psicólogo" no campo de concentração

O SENTIDO DA VIDA SEGUNDO

VIKTOR FRANKL

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Eloah Rodrigues

redacao@revistaecologico.com.br

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i k t o r Frankl nasceu na Áustria, em 1905. Tornou-se médico psiquiatra e, após árdua experiência como prisioneiro em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, fundou a escola de logoterapia. Autor do best-seller “Em Busca de Sentido”, já na sua 41ª edição, ele defende que sua teoria se diferenciava da psicanálise por seu caráter menos retrospectivo e introspectivo. Ou seja, a logoterapia (termo que se origina do grego “logos” e significa “sentido”) nos orienta a pensar no futuro. Está voltada para o sentido de nossas vidas e da própria existência humana. Para Frankl, essa busca é a “principal força motivadora no ser humano”. Ele defende a todo momento que “a vida está repleta de oportunidades para dotá-la de sentido”. E que, portanto, depende de nós mesmos, de nossa força de vida interior, não nos resignarmos perante a superação do que parece insuportável. Sugere que tanto a felicidade quanto o sofrimento são intransferíveis. E, dessa forma, o que sentimos, ou melhor, o encaminhamento que damos aos nossos sentimentos e ações, depende única e exclusivamente de cada um de nós. E não do outro. O médico-escritor chega a enumerar formas através das quais evidencia-se o sentido na vida de uma pessoa. Nos ajuda a enfrentar nossas dificuldades, citando, por exemplo, o filósofo Espinoza: “A emoção que é sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que dela formamos uma ideia clara e nítida”. Conheça, a seguir, um pouco das ideias de Frankl. E se permita, também, refletir e valorizar os motivos que lhe fazem viver, levantar da cama todos os dias e superar os obstáculos que se impõem e que necessariamente fazem parte, e transformam, as nossas vidas. Boa leitura!

l DA DIGNIDADE “Em princípio, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira no que lhe acabará sendo, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou uma pessoa, que também ali permanece sendo ser humano e conserva sua dignidade.” “Sempre e em toda parte, a pessoa está colocada diante da decisão de transformar sua situação de mero sofrimento numa realização interior de valores.” l DO APOIO INTERIOR “A observação psicológica dos reclusos, no campo de concentração, revelou que somente sucumbe às influências do ambiente no campo, em sua evolução de caráter, aquele que entregou os pontos espiritual e humanamente. Mas somente entregava os pontos aquele que não tinha mais em que se segurar interiormente! Em que deveria e poderia consistir esse apoio interior? Eis a nossa questão.” l DO TEMPO “No campo de concentração, um dia demora mais que uma semana! Tão paradoxal era essa percepção estranha do tempo.” “Quem não consegue mais acreditar no futuro – seu futuro – está perdido no campo de concentração. Sem futuro, tal pessoa perde o apoio espiritual, sucumbe interiormente e decai física e psiquicamente.” l DO HUMOR “Também o humor constitui uma arma da alma na luta por sua autopreservação. Afinal, é sabido que dificilmente haverá algo na existência humana tão apto como o humor pra criar distância e permitir que a pessoa se coloque acima da situação, mesmo que somente por alguns segundos.” l DA DEPRESSÃO “A apatia é um mecanismo necessário de autoproteção da psiquê. Reduz-se a percepção da realidade.” “Cada um de nós temia aquele momento em que se manifestava pela primeira vez essa crise - não em si próprio, pois então já teria sido indiferente, e sim em seus amigos.” “Geralmente essa crise se configurava da seguinte maneira: a pessoa em questão, certo dia, ficava simplesmente deitada em seu barracão, e ninguém conseguia persuadi-la a botar a roupa, ir ao lavatório ou mesmo a se apresentar na formatura de chamada. Nada mais surtia efeito, nada lhe metia medo. “O sujeito simplesmente ficava deitado, não se mexia, e quando uma doença provocava essa crise, a pessoa se negava inclusive a ser transportada para o ambulatório ou tomar

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MEMÓRIA ILUMINADA – VIKTOR FRANKL qualquer medida em prol de si mesma. Ela entrega os pontos! Fica deitada até nas próprias fezes ou urina, pois nada mais lhe interessa.”

“Quem tem um porquê enfrenta qualquer como.”

“Eles carecem da consciência de um sentido pelo qual valesse a pena viver. Sentem-se perseguidos pela experiência de seu vazio interior, de um vazio dentro de si mesmos; estão presos na situação que tenho chamado de vazio existencial.” l DA MALDADE E BONDADE “Como é possível que pessoas de carne e osso cheguem a inflingir tamanho sofrimento a outros seres humanos?” “Lembro-me que, um dia, um capataz (não prisioneiro) furtivamente me passou um pedaço de pão. Eu sabia que ele só podia tê-lo poupado de seu desjejum. O que me abalou a ponto de derramar lágrimas não foi aquele pedaço de pão em si, e sim o afeto humano que esse homem me ofereceu naquela ocasião, a palavra e o olhar humanos que acompanharam a oferta...” “De tudo isso podemos aprender que existem sobre a terra duas ‘raças’ humanas e realmente apenas essas duas: a raça das pessoas direitas e a das pessoas torpes. Ambas estão amplamente difundidas. Insinuam-se e infiltram-se em todos os grupos: não há grupo constituído exclusivamente de pessoas decentes, nem unicamente de pessoas torpes. Neste sentido, não existe grupo de ‘raça pura’, e assim também havia uns e outros sujeitos decentes no corpo de guarda.”

se repete. Em cada situação a pessoa é chamada a assumir outra atitude.” “Aquilo que viveste nenhum poder do mundo tirará. Aquilo que realizamos na plenitude da nossa vida passada, na abundância de suas experiências, essa riqueza interior nada nem ninguém nos podem tirar.”

l DA FORÇA “Quem conhece as estreitas relações existentes entre o estado emocional de uma pessoa e as condições de imunidade do organismo compreenderá os efeitos fatais que poderá ter a súbita entrega ao desespero e ao desânimo.” “Toda tentativa de restabelecer interiormente as pessoas no campo de concentração pressupõe que consigamos orientá-las para um alvo no futuro.” l DO HORIZONTE “Viver não significa outra coisa se não arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.” “Nenhum ser humano e nenhum destino podem ser comparados com outros; nenhuma situação

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l DO SER HUMANO “O ser humano é o ser que sempre decide o que ele é.” “O ser que inventou as câmaras de gás é também aquele ser que entrou nelas ereto e com uma oração nos lábios.” l DA LIBERTAÇÃO “Começamos por aquele ponto em nosso relato em que, após dias da mais intensa expectativa, tremulava certa manhã a bandeira branca no portão do campo. Essa altíssima tensão psíquica foi sucedida por uma distensão interior total. Quem pensa que nossa alegria foi geral está redondamente enganado.” “Damos os primeiros passos em direção à natureza e entramos para a liberdade. ‘Para a liberdade’, vamos dizendo e o repetimos várias vezes em pensamento; mas simplesmente não se consegue apreendê-lo.


Em tantos anos de sonhos e de saudades, o termo ‘liberdade’ ficara muito gasto. Seu conceito perdera os contornos.” “À noitinha, quando voltam a se reunir os companheiros em seu velho barracão, um chega para o outro e lhe pergunta às escondidas: ‘Digame uma coisa: você chegou a ficar contente hoje?’. O outro responde: ‘Para ser franco, não!’. E fica todo envergonhado, porque não sabe que com todos é assim. Literalmente desaprendemos o sentido da alegria.” “Principalmente no caso de pessoas com natureza mais primitiva, podia-se observar muitas delas, durante essa fase psicológica, que em sua atitude psíquica continuavam vivendo sob a condição do poder e da violência, só que, uma vez libertas, agora pensavam ser sua vez de usar o poder e a liberdade de forma arbitrária, desenfreada e irrefletida.” “Se antes eram objetos do poder, da violência, da arbitrariedade e da injustiça, essas pessoas agora viravam sujeitos dentro das mesmas categorias.” “Somente aos poucos se consegue levar essas pessoas a reencontrar a verdade, tão trivial, de que ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça.” “A liberdade está em perigo de degenerar, transformando-se em mera arbitrariedade, a menos que seja vivida em termos de responsabilidade.” l DO SENTIDO “Eu sabia que num comando de trabalho eu me acabaria dentro de pouquíssimo tempo. Já que iria morrer, então eu queria que minha morte tivesse sentido.” “A gente é tomado pelo desejo profundo de ficar sozinho consigo mesmo e com os próprios pensamentos, pela saudade de um lugar de recolhimento e solidão.” “Inerente ao sofrimento, há uma conquista, que é uma conquista interior. A liberdade espiritual do ser humano, a qual não lhe pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido.” l DO DESTINO “Pela maneira com que uma pessoa assume seu destino inevitável, assumindo com esse destino todo o sofrimento que lhe impõe, revela-se, mesmo nas mais difíceis situações, mesmo no último minuto de sua vida, uma abundância de

“Fiquemos alerta, alerta em duplo sentido. Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.”

possibilidades de dar sentido à existência.” “O que o ser humano realmente precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente. O que ele necessita não é a descarga de tensão a qualquer custo, mas antes o desafio de um sentido em potencial à espera de seu cumprimento.” “Cada um tem sua própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma tarefa concreta, que está a exigir realização.”

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MEMÓRIA ILUMINADA – VIKTOR FRANKL

“O ser humano que inventou as câmaras de gás é também aquele ser que entrou nelas ereto e com uma oração nos lábios.”

l DO AMOR “Amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo da sua personalidade.” l DA VIDA E DO VIVER “À vida ela somente pode responder sendo responsável. Assim, a logoterapia vê na responsabilidade a essência propriamente dita da existência humana.” “Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora.” l DAS ESCOLHAS “O ser humano tem dentro de si várias potencialidades; qual será concretizada depende de decisões e não de condições.” l DO INVERTER A PERGUNTA “O que se faz necessário aqui é uma reviravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida. Precisamos aprender e também ensinar às pessoas

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em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida. Mas, sim, exclusivamente o que a vida espera de nós.” l DA REALIZAÇÃO “Ao declarar que o ser humano é uma criatura responsável e precisa realizar o sentido potencial da sua vida, quero salientar que o verdadeiro sentido da vida deve ser descoberto no mundo, e não dentro da pessoa humana ou de sua psiquê, como se fosse um sistema fechado. Chamei essa característica constitutiva de ‘a autotranscedência da existência humana’.” “A autorrealização só é possível como um efeito colateral da autotranscedência.” l DO ESQUECER “Quanto mais a pessoa esquecer de si mesma, mais humana será e mais se realizará.”  SAIBA MAIS

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