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EDITORIAL POR TIAGO KRUSSE

A DESIGN MAGAZINE atingiu o seu primeiro ano de existência. Durante estes meses registamos alguns factos que nos enchem de orgulho. Temos um grupo fiel de seguidores, perto de 9 mil pessoas que nos acompanham pelas plataformas digitais onde marcamos presença. À data em que escrevo este editorial estavam oficializados 36 mil e 584 leitores e num ano ultrapassávamos a fasquia de 1 milhão e 500 mil visualizações das revistas. Num ano de intensa dedicação e abdicação pela revista, não somos indiferentes ao facto de sermos reconhecidos por cá e no estrangeiro como uma publicação de referência, escrita apenas em Português. Com alguma vaidade não fiquei indiferente ao reconhecimento da publicação e ao convite para membro do júri do iF concept design award 2012, embora não explícito, que pode muito bem derivar do trabalho produzido pela nossa pequena equipa. Uma equipa base composta por três pessoas e na qual o trabalho do Joel Costa e da Cátia Cunha, da Elementos À Solta, têm sido fundamental para o sucesso e para a continuidade das edições. Aos nossos colaboradores também, pois Rodrigo Costa, José Luís Saldanha, Ana Lopes e Francisco Vilaça que são muito para lá do que simples contribuidores. Uma palavra de apreço para José Luís Cavalheiro e Ana Teixeira Alves pelo excelente apoio na comunicação da revista por parte da NewsAbility. Já em 2012 o ArchDaily Basil contactou a DESIGN MAGAZINE e divulgou-a na sua plataforma. Registamos este tremendo abraço vindo do Brasil, notando que afinal o Português de Portugal é lido no Brasil e que o Português do Brasil é lido por cá. Sem dúvida um grande destaque que o sítio ArchDaily Brasil nos deu e ao qual se seguiu o convite para a publicação de um ensaio sobre arquitectura, publicado e divulgado recentemente. Não queremos deixar de agradecer também à Ordem dos Arquitectos, na sua Secção Regional do Sul, à Estratégia Urbana, aos fotógrafos João Morgado e FG+SG Fotografia de Arquitectura, à Taschen, à Uzina Books, aos arquitectos e designers por esse Mundo fora e a muitos mais agentes que nos apoiam e que continuam a acreditar no nosso trabalho, passando a palavra do que somos, por cá e no estrangeiro. Muito obrigado a todos Vós e sobretudo à minha família, pelo infinito apoio! tiago_krusse@netcabo.pt

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SUMÁRIO

OPINIÃO RODRIGO COSTA

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ENSAIO FRANCISCO VILAÇA

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INDIPOTROCHOID

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A ARTE DO CALÇADO

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CRITÉRIOS DEFINIDOS

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PERFIL DANILO OLIM

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ENTREVISTA RUI VASCO

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SARDINHA BEIJO POR LUÍS LEAL

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FOOD DESIGN POR JOSÉ AVILLEZ

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ENTREVISTA FLORET ARQUITECTURA

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VITRAHAUS

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EM ESTREMOZ

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CASA BALANCAL

76

MAXXI ROMA E A CRIATIVIDADE CONTEMPORÂNEA

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NA NORUEGA

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O ABRIGO

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LEITURAS

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design MAGAZINE

CRIADA EM 2011 PUBLICAÇÃO BIMESTRAL REGISTO DA ENTIDADE REGULADORA DA COMUNICAÇÃO 126124 FUNDADORES TIAGO KRUSSE JOEL COSTA EDITORA  ELEMENTOS À SOLTA - DESENVOVIMENTO DE PRODUTOS MULTIMÉDIA LDA RUA ADRIANO CORREIA OLIVEIRA, 153, 1B - 3880-316 OVAR - PORTUGAL NIPC: 508 654 858 www.elementosasolta.pt   DIRECTOR TIAGO KRUSSE tiago_krusse@netcabo.pt PRODUÇÃO GRÁFICA E PRODUÇÃO DIGITAL JOEL COSTA joel@elementosasolta.pt CÁTIA CUNHA catia@elementosasolta.pt COLABORADORES ANA LOPES (ROMA) FRANCISCO VILAÇA (ESTOCOLMO) JOSÉ LUÍS SALDANHA (LISBOA) RODRIGO COSTA (PORTO) FOTOGRAFIA JOÃO MORGADO – FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA RUI GONÇALVES MORENO FG+SG – FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA COMUNICAÇÃO NEWS ABILITY COMUNICAÇÃO ANA TEIXEIRA ALVES aalves@newsability.pt  

www.revistadesignmagazine.com www.facebook.com/revistadesignmagazine www.twitter.com/rdesignmagazine ESTA REVISTA NÃO ESTÁ REDIGIDA NOS TERMOS DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO ESTA REVISTA NÃO ESTÁ REDIGIDA NOS TERMOS DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO.

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http://www.designliege.be


PRÉMIOS iF 2013

O International Forum Design (iF), de Hanover, na Alemanha, está a comemorar a sua boda de diamante. Neste seu percurso pautado pela divulgação, promoção e sensibilização para o design em todo o Mundo, o iF está a divulgar a sua 60.ª edição dos prémios iF design, que decorrerá em 2013 e cujo prazo para a entrega de candidaturas está estipulado até o próximo dia 19 de Setembro de 2012. O concurso está aberto a produtores, agências e designers que poderão efectuar o registo através do sítio www.ifdesign.de Os prémios iF consagram as categorias de produto, comunicação e embalamento, criando uma competição aberta onde se juntam desde produtores de pequenos estúdios até as grandes empresas. São categorias distintas onde os concorrentes têm a possibilidade de evidenciar a sua cria| 008 |

tividade, com destaque para a inovação, funcionalidade e utilidade. Os projectos serão analisados e classificados por um jurado composto por diferentes profissionais ligados ao mundo do design. Ao nível do design de produto são compreendidas 16 categorias; no design de comunicação 7 e no design de embalamento 8. A apresentação dos iF gold awards decorrerá a 22 de Setembro de 2013, numa noite de gala que terá como palco o Museu BMW Welt, em Munique na Alemanha, que no dia seguinte será o espaço designado para albergar a exposição dos concorrentes premiados. Para mais informação sobre os prémios iF design 2013 basta aceder à ligação http://www.ifdesign.de/ index_e


http://www.cersai.it

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PAVILHÃO SERPENTINE COM CORTIÇA

FOTOGRAFIA: CORTESIA DA SERPENTINE GALLERY

Destacamos o envolvimento da Corticeira Amorim na 12ª edição do conceituado Serpentine’s Gallery Pavilion, em Londres, no Reino Unido. A construção do pavilhão de Verão da conhecida galeria é da autoria do escritório de arquitectura Herzog & de Meuron e participação do artista plástico Ai Weiwei. O conceito da estrutura de Herzog & de Meuron e Ai Weiwei é como um espaço de lazer em que a cortiça no interior e um espelho de água no telhado criam um conseguido dramatismo. O interior presta uma homenagem, de forma complexa, às fundações e áreas dos pavilhões anteriores. É uma peça de arquitectura fascinante e nela existem 108 peças de mobiliário de aglomerado expandido de cortiça, desenhado especificamente por Ai Weiwei e por Herzog e de Meuron. Foram utilizados um total de 80 m3 de cortiça. O resultado final no que ao uso da cortiça diz respeito é fruto de um trabalho de escultura manual, efectuado por técnicos da Amorim Isolamentos e a supervisão da equipa de arquitectos. O novo pavilhão pode ser visitado até ao dia 14 de Outubro do presente ano. É uma iniciativa cultural para a qual é estipulado um prazo máximo de seis meses em que cada arquitecto tem de erguer o seu pavilhão, desde o momento do convite ao dia inaugural. A iniciativa da Serpentine Gallery é singular no Mundo e consegue atrair uma média de 250 mil visitantes por ano. Para além de sensibilizar os públicos para os domínios da arquitectura e do design, o evento serve também o propósito de cada arquitecto convidado poder planear uma estrutura e revelar a sua arquitectónica, não só pelo

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lado da qualidade que o projecto apresenta mas também o cariz expressivo da obra. Este acontecimento, com mais de uma década, de 2000 a 2011, é uma iniciativa lançada pelos responsáveis da Serpentine Gallery. A direcção da galeria foi lançando convites a um leque de reputados arquitectos, para a construção de uma estrutura por ano. São conhecidos pelos pavilhões de Verão nos Jardins de Kesington e até ao momento foram da responsabilidade arquitectónica de Zaha Hadid, Daniel Libeskind, Toyo Ito, Oscar Niemeyer, MVRDV – de 2004 e nunca realizado, Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura com Cecil Balmond, Rem Koolhaas e Cecil Balmond, Olafur Eliasson e Kjetil Thorsen, Frank O. Gehry, SANAA e Jean Nouvel.


http://www.lisboadesignshow.fil.pt

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RENDA DE VIDRO MANUELA CASTRO MARTINS

Manuela Castro Martins nasce em Alcobaça, em 1964. Vai viver para o Porto no final de década de 70, aí conclui a sua licenciatura em direito entregando-se por uns anos à advocacia. A par com o exercício da profissão, desenvolve estudos e conhecimentos que lhe permitem o arranque de uma série de trabalhos em vidro fundido. A tradição familiar, por parte da mãe, de trabalho feito em renda deixou-lhe sempre um estímulo para o artesanato. Talvez por nunca ter conseguido interiorizar a técnica de rendilhar revelada pela sua mãe, Manuela Castro Martins viu, possivelmente, no trabalho em vidro uma nova forma para superar a incapacidade de manusear as malhas. A manufactura do vidro torna-se uma realidade na sua vida, com a aprendizagem pessoal de técnicas e de ensinamentos que lhe permitem garantir a qualidade das peças finais. A investigação profunda que levou a cabo certamente que a levaram aos métodos da fabricação de vidro que, nas poucas produções artesanais que ainda sobrevivem, ainda passam pela fusão das matérias-primas em cadinho. E no bom historial do artesanato português, para além da faiança e da cerâmica, a arte dos vidreiros da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis ainda fazem parte da memória viva desta arte. Este é um trabalho que também recupera essa tradição e importância do artesanato. O trabalho de Manuela Castro Martins integra-se na vidraria artística na qual países como a Alemanha, República Checa e Suécia também têm bons produtores. A par de exposições individuais e colectivas, a artista portuguesa | 012 |

tem vindo a produzir um conjunto de peças artísticas concebidas como troféus ou como elementos de decoração para a hotelaria. Esta actividade, para além da paixão pessoal, é reveladora de uma capacidade para aprender e fazer preservar a autenticidade da boa tradição artesanal. Os trabalhos de Manuela Castro Martins revelam já a mestria de quem sabe trabalhar com os materiais e utensílios, bem como um apurado sentido estético com o qual exerce fascínio através da originalidade das suas peças. www.manuelacastromartins.com


http://www.ceranor.exponor.pt/bydesignceranor.aspx

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SEDUÇÕES VÁRIAS

A Think Global Taste Local (TGTL) é uma marca portuguesa orientada para a exportação de produtos de gastronomia, quase na sua totalidade, 90%, de especialidades nacionais. À qualidade gastronómica dos produtos, sobre a consultadoria do chefe Nuno Mendes, a marca aliou um forte conceito de comunicação. O responsável pela criatividade e imagem da marca é o designer Guilherme Jardim que ao fim de um ano trouxe à TGTL a distinção de 4 prémios de design e conceito, pela colecção Limited Edition de 3 azeites, entre os quais um Red Dot e um Pentawards. A missão da comunicação é a sua capacidade de promover as regiões, a cultura e a origem dos produtos associando-lhes arte e design. E foi um trabalho de equipa liderado por Guilherme Jardim, que encetou convites a diferentes designers tendo como objectivo a ilustração de embalagens de distintos produtos. Na embalagem dos azeites o trabalho de ilustração de Mário Belém incidiu sobre os Descobrimentos, integrando elementos como as caravelas ou o escudo. A designer espanhola Mar Hernandez desenhou uma bailarina sevilhana para designar a origem espanhola do azeite, e Mauro Donatis sintetizou a alegria do carnaval de Vezena para a proveniência italiana. Por este intermédio há uma comunicação compreensível para a origem do país de cada produto. A marca tem dado continuidade a | 014 |

esta forma de comunicar e mais recentemente convidou novos designers, Hélder Oliveira e Fábio Chino, que deram origem as ilustrações para vinhos e para rebuçados. Para além de um cuidado posicionamento no mercado nacional, a TGTL iniciou um processo de lançamento no estrangeiro, partindo à conquista do mercado inglês, norte-americano, brasileiro e chinês. Gostámos desta associação que a marca faz à arte, música, design, fotografia e outras formas de expressão cultural que servem bons promotores das regiões e seus produtores. www.tgtl.org


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OPINIÃO POR RODRIGO COSTA

NÃO, NÃO ERA A MINHA CRIADA DE QUARTO … Chegou-me a informação de que encarnação existe. Como não pedi nada, não estava a ver, na altura, a que encarnação se referia. Porém, querendo sossegar a impaciência, procurei saber — até porque associavam à estória a felicidade. A partir daí, então, quis confirmar se eram duas ou uma só; a primeira, a Encarnação — pelo sim, pelo não, lancei mão da maiúscula —; e a outra, a segunda, a Felicidade, se seria ou não o heterónimo ou o pseudónimo da que deu origem a tudo isto… Precipitei-me, confundi tudo, sem graves consequências, é verdade, mas como se poderá ver! Contrariamente ao que supus, não há qualquer mulher metida no assunto. Até mesmo por ser uma questão de espírito, mais do que de corpo; e o sexo, ou o género — como se preferir —, em tal estado, e que eu saiba, pouco conta, apesar de desconhecer como é que os espíritos se reproduzem. Sim, tratava-se, afinal, da vida… e da morte. Da vida depois da morte. De outra vida, depois da anterior… Ou seja, uma espécie de oportunidade devolvida; a chance, definitiva, para quantos — segundo a ideia — tenham tido uma primeira, madrasta, do tipo que mais vale esquecer. Tornara-se visível e compreensível a relação entre a felicidade e a encarnação; deduzindo-se e concluindo-se, por conseguinte, que a primeira é a condição única, necessária e suficiente, que justifica a segunda. E penso, inclusive, que, desde agora e imediatamente, devo tratar a encarnação e a felicidade como uma só, porque não vale a pena dividir-se o que é, destinadamente, uno… Também eu costumava dizer que quem não viveu, vivesse!, mas o pressuposto tombou pela base, mesmo antes do aparecimento do Michio Kaku, o físico teórico — não um vendedor de cofres para células estaminais — que, em plena palestra na Campus Party, augurou ou mesmo prometeu a perfeição, a saúde total e, deduzo eu, a felicidade obrigatória. Não é uma invenção, aviso, mas a procura, sofisticada, de atingir estados de que outras espécies, afastadas da civilização, sempre desfrutaram, pelo simples facto de se aceitaram tal como são, sem reclamações ou manifestações de qualquer género, nem sequer procurando ou ensaiando | 016 |

pratos especiais. São assim… e pronto! O progresso, para tais criaturas, resume-se à vida de todos os dias, que não se repetem, mesmo que, ao humano, pareçam iguais. Que diabo! Como é que eles conseguem isso, sem usar óculos; sem tomar cápsulas que scaneiam; sem fazer análises... e sem ter, disponíveis, os montes de informação que nos... desinformam e nos adoecem?... Talvez por se aceitarem como simples máquinas perfeitas em interacção com contextos perfeitos, ainda que em permanente e natural reformulação. Sem tecto, sem televisão nem internet. E, importante, sem aulas de nutricionismo, de maternidade e de sexo... Que puta de situação a nossa! Uma vergonha à-parte. A última verdade, portanto, é que, quem não viveu, quem não desfrutou, quem não ousou, não terá perdido, absolutamente, tudo. É o próprio primeiro-Ministro, Passos Coelho — espécie de alma perdida e reencarnada lá donde não se conhece —, quem, tirando partido da conjuntura, alerta para a felicidade do desemprego e a mobilidade dos funcionários públicos, como oportunidades que não terão tido na outra vida, porque a felicidade nem sempre acontece nos momentos de paz e de fartura; surge, como se percebe, e muitas vezes, do interior da miséria. O próprio Primeiro — e ministros seguintes, naturalmente — não teria a felicidade de conhecer o País, de o calcorrear — de avião, de comboio, de barco e de carro, com motorista próprio — e de ter a oportunidade que lhe caiu em mãos, se o antecessor e os antecessores não tivessem aproveitado as suas próprias oportunidades e a mobilidade pelo País que levaram à desgraça. Sem homens à vista — sem figuras com estatura, com passado, com experiência, com conhecimento; adultos e probos, ao menos —, desempregado, as oportunidades e a mobilidade deparar-se-iam, logicamente, a Passos Coelho e a quantos, no desemprego e na mediocridade, se veriam aflitos, se Portugal não fosse este jardim de leviandades que acompanha algum do Atlântico, ao longo da costa... O presente e o futuro são promissores, porque as notícias continuam negras; querendo dizer que, mais tarde ou mais cedo, Passos vai acabar desempregado, e vai descobrir outras oportunidades — que já estarão em agenda.


E, concomitantemente, outras viagens poderá fazer, com tudo pago; até porque a grande oportunidade é a de que desfruta e lhe assegura o futuro: o desemprego, as oportunidades, as deslocações e o conhecimento de terras de que nunca cuidou. E para acabar — como diria João Villaret —, a peça principal, a carta comovente; aquele menino reencarnado das profundezas da relva poupada às toupeiras e às minhocas, mas esmagada e humedecida pela emoção do recado — que pai seria capaz de tal judiaria a um filho, se não acreditasse na reencarnação e no ridículo como oportunidade?!... Para ser sincero, eu próprio espero ser reencarnado — se for inevitável — num céu azul profundo que não impeça as

transparências; um recanto qualquer, longe daqui, onde, mesmo que não haja Deus nem o habitem os anjos, não cheguem, sequer, notícias desta merda… Porque, meus Caros, Portugal assemelha-se ao reino dos espíritos que se perderam e não lobrigam saída; com o destino enrodilhado nas travessuras, porque os deuses que o governam são imberbes demónios, dos quais são credoras a honestidade e a inteligência. Talvez isto não passe do purgatório, essa ilha entalada entre o céu e o inferno, porque a felicidade não pode ser banalizada… www.rodrigo-costa.net | 017 |


ENSAIO POR FRANCISCO VILAÇA

O areal estende-se delicado perante mim, até lá bem longe onde se enrola no mar. Uma brisa ligeira embala-lhe a alma e expurga a solidão de quem não sonha para um não longínquo, trocista e impiedoso deserto. Jaz a memória sempre presente de um passado constantemente recordado pela voz açucarada de Alá, que tão bem ajuda as crianças na sua sesta, libera quem consigo carrega a dor do pecado e do erro e tão eloquentemente me traz à memória… quem sou. No ar, vive a vibração colorida dos aromas que as especiarias carregam em si e nos fazem crer que afinal o dia de amanhã não é assim tão diferente do dia de hoje e nada como degustá-lo a seu tempo, porque o tempo é impossível parar, mas não será menos verdade que a sombra do tempo é uma vida por viver, que se inquieta pelo que tarde ou nunca vai chegar. Com a menta no trago do chá borbulhante, é-me devolvida a frescura que o calor me rouba, numa ambígua sintonia que me vai abrindo os olhos com a subtileza de tudo aquilo que não precisa de pedir licença para entrar. Sinto-me mais próximo de entender o porquê, de todos os dias da sua quiçá ignóbil existência, os “camelos” navegarem felizes o infinito areal marroquino, como parcelas de um Universo reticente em conformar-se com a revolta das parabólicas Marraquexianas, dos computadores e sobretudo, do frenesim citadino. Aos meus queridos amigos Paulo Arraiano e Nuno Coelho que lá encontraram uma importante parte de si mesmos e deixam a vida fluir dia-a-dia, sem nunca deixar de procurar.

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INDIPOTROCHOID TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: INDIPOTROCHOID – JOÃO PEREIRA DE SOUSA

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Foi há cerca de dois anos que João Pereira de Sousa e Nieves Valle, ambos arquitectos, criaram as raízes da marca Indipotrochoid. Foi numa temporada em Madrid que ambos decidiram preencher o tempo livre dedicando-se ao desenho e à produção de peças originais feitas em origami, a arte japonesa de dobrar o papel. E assim foram criando um conjunto diversificado de peças seriadas e únicas, todas elas em papel e produzidas à mão. A marca Indipotrochoid nasce com a missão de desenhar e de produzir objectos originais feitos à mão, utilizando como matéria-prima o papel e seus derivados. A produção abrange distintos segmentos que passam pela joalharia de papel, objectos de decoração, acessórios pessoais e estacionário. Destacamos neste artigo a série “Leva o Porto”, uma colecção de azulejos de papel para usar como acessórios pessoais. A colecção é comporta por 12 pares de brincos e quatro colares, representando uma selecção da riqueza gráfica presente na azulejaria dispersa pela cidade do Porto. No texto descritivo da marca, que nos foi fornecido, os arquitectos salientam a presença de uma diversidade de azulejos que integram inúmeros edifícios na cidade, definindo-se como elementos importantes não só do ponto de vista decorativo mas também pela sua carga artística e artesanal. A dupla procedeu então a um levantamento de exemplos para chegarem a uma selecção final, partindo depois para o desenho e produção de papéis originais, que funcionassem também como um reflexo das estações do ano. A finalização da série completou-se pelo fabrico de caixas com os mesmos padrões e cuja utilidade ultrapassou a função de embalar uma vez que a elas poderão ser dadas outros usos. O trabalho de João Pereira de Sousa e Nieves Valle com a marca Indipotrochoid foi reconhecido recentemente na quarta edição da POPs 2012, organizada pelo Museu de Serralves, na qual foram finalistas. Para além destas boas aventuras pelo imaginário gráfico da azulejaria tradicional portuguesa, os arquitectos para além de exerceram a actividade de forma autónoma deram surgimento ao VÖSA studio, que centra a sua atividade na produção de visualizações de arquitectura e objectos de design.

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A ARTE DO CALÇADO TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: CORTESIA DA SHOES CLOSET

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Modelo Brick Sapato de calcanheira descida com três tiras debruadas no peito do pé. Elástico lateral revestido a pele na segunda e terceira tira. Salto de 9,5 cm com plataforma de 2,5 cm. Sola de couro com injeccão de TPU. Forro e exterior em pele.

Foi assente no conhecimento da manufactura de calçado e na experiência de um contacto directo com os consumidores, que os irmãos Miguel Marques e Helena Amante Oliveira decidiram criar, em 2011, a marca Shoes Closet. O conhecimento na manufactura de calçado advém duma tradição familiar, por experiência em fábricas de típicas botas alentejanas, a que se juntou um percurso de comércio de calçado de rua, em Lisboa, que trouxe uma percepção do tipo de consumidores e seus hábitos de consumo. A esta experiência profissional e de vida, Miguel e Helena juntam um currículo académico que reforça e complementa o conhecimento e os valores que entregam à sua marca. Com o curso de gestão e engenharia industrial, do ISCTE, Miguel Marques quis alargar o campo da sua actividade profissional tendo para isso abraçado consultadoria nas áreas de inovação e estratégia, formação em vertentes do empreendedorismo, gestão de projectos e direcção financeira. O caminho de Helena Amante Oliveira começa pela gestão, no ISCTE, numa licenciatura que inclui estudos na República Checa e em França. Esta vontade de perceber os mercados e de ter um contacto com a economia real, levam-na a fazer um acompanhamento de feiras no estrangeiro, onde foi inteirando-se das novidades no sector do calçado. Ao terminar o estágio INOV Contacto, na Suíça – área de marketing, Helena decide apostar num mestrado

em branding e design de moda, no IADE. Desde então, dedica-se a tempo inteiro ao design de calçado, pondo em prática não só os seus conhecimentos como também gerindo as inúmeras influências que foi absorvendo para imaginas um conceito próprio de calçado. A Shoes Closet arranca com uma missão bem definida e os seus criadores designam os valores primordiais para a marca. Apostam no conhecimento e nas qualidades técnicas para imprimir uma produção de calçado consistente, focando a atenção na qualidade do trabalho, selecção dos materiais, preocupação nos detalhes e a garantia de conforto. A componente artesanal e o selo feito em Portugal são desde logo compreendidos. Perceber a reação dos consumidores no uso dos sapatos permite-lhes aferir não só questões de tendências e estéticas, mas sobretudo apurar a optimização dos sapatos ao nível do conforto e da elegância. A capacidade de inovar é outro elemento que têm presentes, nunca com o intuito de apenas ser diferente mas sim cientes de que é sempre possível melhorar, evoluir ao nível dos conceitos e estar atento às exigências dos consumidores. Levar a marca para mercados estrangeiros é também uma estratégia, apostando em feiras e eventos do sector, onde dão a conhecer as suas colecções. www.shoes-closet.net | 025 |


CRITÉRIOS DEFINIDOS TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: CORTESIA DA APÍCULA

A Apicula é uma empresa de design de comunicação e produto, criada por Hugo Araújo e Vera Oliveira em 2010. Foi numa licenciatura em novas tecnologias da comunicação, em Aveiro, que o destino desta dupla começou a ser traçado. A escolha do nome, Apicula, é desde logo propositado e tem como finalidade a impressão de uma vertente ligada à natureza, a uma postura vincadamente orientada para a defesa de um ambiente sustentável e para uma produção sempre consciente dos aspectos relacionados com a escolha dos materiais. Os objectivos traçados influenciam consequentemente a forma de operar da Apicula, que orienta a sua actividade para o reaproveitamento de materiais que são escolhidos para criar novos objectos e que todo esse processo resulte no menor impacto possível no meio ambiente. Conscientes dos valores do bom design, nos aspectos ligados à durabilidade dos produtos e aos processos inovadores de produção, Hugo Araújo e Vera Oliveira abraçam ainda a missão de promover o design nacional no estrangeiro sem esquecer de estimular os consumidores a observarem como os seus actos de consumo podem e devem contribuir para a preservação do meio ambiente. A actividade da Apicula é focada no design de comunicação e no design de produto. Ao nível da comunicação há toda uma postura que se reflecte na escolha de papel reciclado, produtos certificados e na cortiça. Em termos de impressão a dupla criativa selecionou uma gráfica com um certificado ambiental e as tintas escolhidas têm uma base vegetal. Há uma preocupação bem definida a que se junta também a procura de mais e novas soluções, através de pesquisa de outros materiais. No design de produto o atelier foca as suas prioridades na produção de mobiliário, criando peças estruturadas em materiais reciclados, certifi| 026 |

cados ou fazendo reaproveitamento de desperdícios. Os produtos da Apicula, de 2012 e 2011, revelam a honestidade da toda a missão e as suas linhas evidenciam uma meritória atitude a que se alia uma abordagem conceptual discreta. Destacámos a mesa “Claws”, de 2012, uma mesa de centro da colecção “Cork Love”, de 2012, e a garrafeira “Cellaret”, de 2011. A “Claws” é composta por ripas de madeira encontradas no lixo e utiliza um verniz de certificado europeu com rótulo ecológico. A mesa de centro engloba jornais antigos, cortiça e aros de duas rodas de bicicleta. A garrafeira foi estruturada em contraplacado reciclável e o design teve a preocupação relativamente ao seu uso por pessoas de mobilidade reduzida, tendo dado especial atenção à altura do produto e à facilidade de abertura. Com um percurso pequeno mas seguro, Hugo Araújo e Vera Oliveira levaram este ano a Apicula à feira Clerkenwell Design Week, em Londres, juntando-se assim a outros criativos portugueses que formaram um colectivo que encetou uma parceria com Colour Design Concept, um agente e distribuidor de design português na capital inglesa que trabalha com criativos firmados a par dos emergentes. www.apicula.com.pt


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PERFIL DANILO OLIM

Nascido no Funchal e a viver no continente, Danilo Olim licenciou-se em design de equipamento e arquitectura, estando neste momento a terminar um mestrado em arquitectura. Há seis anos atrás fundou a DAAO Concepts, um atelier vocacionado para a arquitectura e o design. O atelier lançou no final do ano de 2010 a colecção de mobiliário #, uma série de objectos pensados para o uso quotidiano e com o propósito de fugir a uma produção banal. A filosofia do atelier assenta numa criatividade capaz de inovar e complementar as necessidades da vivência quotidiana actual. Para Danilo Olim a colecção DAAO orienta-se para a utilização e a finalidade a que se destina. Ao nível conceptual estão dispensados artifícios ou formas apenas apelativas do ponto vista estético. Há essa convicção de que a função gera a forma e que o propósito do desenho está para além da graciosidade do mesmo. Com uma abordagem clara sobre o design que faz, Danilo Olim realça a importância de criar afinidades entre o objecto e o espaço que ele irá integrar. Há uma preocupação com as complementaridades, com a harmonia e por conseguinte com a optimização da funcionalidade num espaço específico. É o rigor no projecto que permite planear e formular um conjunto de soluções que depois se encaixam como pormenores de um todo. A ergonomia ou a proporcionalidade encontrada para estruturar os produtos são, entre outros aspectos ligados à transposição da criatividade, elementos sempre tidos em consideração. A beleza do objecto resulta pois dessa capacidade de se afirmar pela sua utilidade e conforto. Ao nível dos materiais, a selecção do atelier tem incidido sobretudo em fibras de madeira, talvez pelas suas qualidades de manuseamento, transformação, performance, inovação e variedade de densidades. O trabalho de Danilo Olim e da DAAO Concepts, para além de confirmar o bom design, tem-se afirmado ao nível de vendas, conquista de mercado e percepção como marca. O atelier participou na 4 edição do concurso POP’s – Projectos Originais Portugueses, de 2012, um evento organizado pelo Museu de Arte Contemporânea da Serralves. Dos três produtos apresentados, a placa com prateleiras #17 ganhou o prémio na categoria de mobiliário.

www.daaofurnituredesign.com

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ENTREVISTA RUI VASCO POR TIAGO KRUSSE

Onde é que obteve a licenciatura em design industrial? Na Universidade Anáhuac, México Norte, em 2009. Em que ano arrancou a Popalipana? Em Agosto de 2010 na Cidade do México. Quantas pessoas fazem parte da equipa? Sou essencialmente eu, apoiando-me em fabricantes e especialistas externos em áreas como o marketing ou a contabilidade. Que percepção do design existe por parte dos consumidores mexicanos? O conceito de design como tal ainda é relativamente novo, terá 15 anos e não está bem adquirido. O México sendo um país com abundância de recursos e com mão-de-obra barata tornou o designer com um perfil preponderantemente de fabricante. Actualmente e existindo um conceito mais generalizado do design, este é bastante idealista e pouco acessível. No presente mercado mexicano, globalizado e aberto, as empresas nacionais que durante anos não investiram no design como eixo fundamental do negócio, competem agora com empresas internacionais que, conscientes dessa importância, apresentam produtos eficientes e acessíveis. Esta situação torna necessário e cada vez mais evidente que o investimento em inovação e criatividade é fundamental. Como é que a empresa criou o seu próprio espaço? Que estratégias e que metas foram traçadas? Popalipana é uma marca “chata”, no sentido de que gosta de desafiar o status quo, descobrir os seus próprios processos e criar os seus métodos. Procura romper com a ideia antiquada de design, gerando um exercício cognitivo com os usuários e fomentando um conceito único e pessoal de design. A partir desta filosofia começámos a ganhar um lugar no mercado. Em resumo, Popalipana é uma marca irreverente, actual e global. Quais as oportunidades e as desvantagens de estarem no país em que trabalham? As oportunidades são muitas. É um excelente momento

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“Creio que a instabilidade presente em todas as esferas da vida no México, dá lugar ao surgimento de uma óptica selectiva carregada de ironia... uma faceta interessantíssima do meu ponto de vista.”

para “educar” o consumidor mexicano, demonstrando-lhe que realmente o design abrange todos os campos. Existem muitos recursos e gente com uma rica e diversa cultura de técnicas artesanais únicas, herdadas através de gerações. Creio que a instabilidade presente em todas as esferas da vida no México, dá lugar ao surgimento de uma óptica selectiva carregada de ironia... uma faceta interessantíssima do meu ponto de vista. Quanto às desvantagens creio que são fundamentalmente fruto de uma barreira mental. Não existe uma grande ética de trabalho, o que ocasionalmente dificulta a produção de vanguarda. Evita-se produzir o que é fora do comum e da realidade do quotidiano. Que distinção fazem entre design e artesanato? Penso que têm em comum a criação, diferenciando-se o design através da extensa procura de um conceito, para eventualmente dar forma ao produto avançando de uma perspetiva funcional que corresponde a uma problemática determinada. As criações artesanais são elaboradas manualmente através de artes e ofícios, sendo objetos altamente narrativos acerca da história, costumes, tradições e crenças de determinado núcleo social. Quais expectativas na vossa vinda ao Lisboa Design Show? Estou particularmente ansioso e curioso em relação à reacção do público aos produtos que vou divulgar. Na realidade, é um desafio pessoal.

oferecer é uma perspectiva nova, diferente do convencional. Entender que todos participamos num mundo com maior abertura, é um ponto crucial. Creio que os designers estão obrigados a criar objetos altamente comunicativos que possam ser entendidos em diferentes contextos. Existem mais oportunidades para vingar ou a globalização dos mercados aglutina os pequenos produtores? Penso que os pequenos produtores têm áreas de oportunidade privilegiadas. A pequena produção é um trunfo a favor, já que os produtos adquirem um carácter exclusivo e pessoal. É um luxo que as grandes corporações dificilmente têm ao seu alcance. A globalização definitivamente ajuda a comunicar esta vantagem. Quais são as suas referências em termos de criatividade? Gosto de partir de coisas comuns que se vêem quotidianamente. Penso que tudo o que nos rodeia pode ser motivo de inspiração, mas tem que existir o conhecimento que seja capaz para ligar os pontos de uma maneira que o produto final faça sentido. www.popalipana.com

Quais são hoje as exigências para um designer que quer vender os seus produtos e dar a conhecer o seu trabalho? Estou convencido que o mais valioso que um designer pode | 039 |


SARDINHA BEIJO POR LUÍS LEAL

Nascido em Lisboa, em 1963, Luís Leal cursou na Sociedade Nacional de Belas Artes e AR.CO. No início da década de 80 enceta um conjunto de trabalhos de desenho tendo como propósito a sua aplicação em cerâmica, em concreto painéis de azulejos e loiça. Ciente das suas capacidades criativas aventurou-se em projectos distintos como a ilustração para imprensa, livros e publicidade. Ao nível do design gráfico destacam-se trabalhos de paginação de livros, catálogos e cartazes. Talvez pela qualidade do grafismo e do fascínio criado em torno das suas criações, Luís Leal adquire o seu espaço pela experiência e pela forma com | 040 |


que lida com os elementos estéticos nos seus trabalhos. Essas ferramentas abrem-lhe espaço também para captar trabalhos interiorismo, concepção de expositores para feiras, congressos e outros tipos de eventos. Para lá da utilidade e da procura das melhores soluções como designer, as artes plásticas fazem parte de uma paixão exercida desde muito cedo, partir 1983, através de participações em exposições colectivas. Este ano por ocasião das festas de Lisboa, Luís Leal teve a vontade de desenhar uma sardinha que sintetiza-se uma das presenças marcantes e habituais dos ar-

raiais: o beijo. E esta manifestação de felicidade, amor, paixão encontra-se por entre as letras das canções, quadras populares e efectiva-se de forma notória nos bailaricos. Era Voltaire que dizia que todos nós deveríamos preocupar-nos com o facto de vivermos felizes. E este beijo é um reflexo dos bons momentos da vida que podem ser motivados pelo Santo António, o Santo Padroeiro dos Namorados ou o Santo Casamenteiro. E assim, para Luís Leal, “lá vai surgindo o beijo, quem sabe anunciando um futuro e a continuação das tradições e das festas de Lisboa!” | 041 |


FOOD DESIGN POR JOSÉ AVILLEZ

BACALHAU À BRÁS Ingredientes 400g de bacalhau 500g de batata 6 ovos 3 colheres de sopa de Azeite Virgem 3 cebolas 1 dente de alho Salsa Sal e pimenta Azeitonas Azeite para fritar Preparação Retire a pele e as espinhas ao bacalhau previamente demolhado. Desfie o bacalhau e reserve. Descasque as batatas e corte em palha. Frite as batatas em azeite quente até alourarem. Reserve. Corte o alho e as cebolas em rodelas finas e refogue lentamente em azeite virgem, em lume médio, num tacho de fundo espesso, até a cebola estar cozida e transparente. Junte o bacalhau desfiado e mexa para que fique bem envolvido com a cebola e o azeite. Junte as batatas ao bacalhau e acrescente os ovos batidos com salsa picada e temperados com sal e pimenta. Mexa continuamente até que o ovo se torne cremoso. Salpique com salsa picada e junte as azeitonas. Sirva de imediato. www.joseavillez.pt

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ENTREVISTA FLORET ARQUITECTURA

POR TIAGO KRUSSE Quando é que decidiram abrir o estúdio de arquitectura? Conclui a licenciatura em 2000 e em simultâneo com o trabalho que realizava em gabinetes/empresas da área, comecei a elaborar projectos por conta própria. Em 2004, com o acréscimo de trabalho, resolvi dedicar-me a cem por cento aos meus próprios projectos e abrir a minha própria oficina de arquitectura. A partir daí, depois de dado o passo mais difícil, eu e o David Afonso, em 2007 formalizámos a entidade empresarial “Floret Arquitetura”. Até essa data trabalhávamos segundo uma espécie regime de sociedade informal com amigos e parceiros ocasionais. Foi uma decisão para a qual fomos empurrados pelas circunstâncias, pelo volume de trabalho e pela necessidade de formalizar procedimentos. No entanto, ainda hoje trabalhamos muito numa lógica de rede informal com outros gabinetes e outras especialidades, em função das exigências de cada projecto. Quais foram as orientações estratégicas que definiram a missão da empresa? Em primeiro lugar, a reabilitação urbana. Eu tirei o curso na Universidade Lusíada e como no último ano temos a possibilidade de escolher uma área, escolhi reabilitação. Entretanto, na Faculdade de Engenharia do Porto, tirei uma pós-graduação em reabilitação de edifícios para aprofundar a formação inicial. A parceria com o David também influencia muito a estratégia da empresa. Ele é formado em Filosofia, mas tem uma pós-graduação em Estudos Locais e Regionais e está a concluir outra em Cidades e Culturas Urbanas. Digamos que a orientação estratégica da empresa faz-se em função das nossas inclinações naturais e afinidades académicas. Pode parecer estranha esta mistura, mas as coisas acabam por funcionar muito bem e a nossa oficina acaba por ter outras valências o que faz com que o processo de reabilitação seja mais completo ou pelo menos pensado de uma forma mais abrangente. Em segundo lugar, a arquitectura sustentável constitui o outro eixo da nossa estratégia. Para além dos serviços de assessoria do sistema LiderA e do enquadramento de soluções ambientalmente aceitáveis nos nossos projectos, temos vindo a desenvolver uma parceria com a Quercus a partir da qual

comissariamos as Jornadas de Arquitectura Sustentável que já tiveram duas edições, estando a terceira na forja. Pretendemos no futuro próximo disponibilizar cada vez mais soluções que cruzem os dois eixos estratégicos da empresa: reabilitação urbana e ambiente. Como conquistaram o vosso espaço e o mercado de trabalho? Nos primeiros tempos sentíamo-nos muito sozinhos. A reabilitação urbana era um sector com pouca dinâmica, completamente adossado à esfera encomenda pública. Ora, o nosso território situava-se precisamente fora desta esfera, pelo que tivemos de ir criando o nosso próprio mercado. Aos nossos clientes – sobretudo pequenos proprietários tínhamos de os seduzir para que estes adoptassem soluções que não se reduzissem, na melhor das hipóteses, ao fachadismo. Em 2005 dá-se um momento de viragem. A lei das Sociedades de Reabilitação Urbana, aprovada no ano anterior, introduz, pelo menos no Porto, uma nova dinâmica no mercado, acelerando a procura privada. Entretanto, tivemos a oportunidade de levar a cabo uma série de documentos de base para Documentos Estratégicos de intervenção em alguns quarteirões no Centro Histórico/Baixa, o que, para nós, foi muito importante, na medida em que nos permitiu pôr em prática muito daquilo para que nos tínhamos vindo a preparar nos últimos anos. Entretanto, o mercado de trabalho foi surgindo naturalmente. Se, por exemplo, googlarmos o termo “reabilitação urbana” só podemos ficar boquiabertos com a evolução dos resultados de pesquisa: em 2004 rondava um milhar de resultados, mas em 2011 “reabilitação urbana” já aparece com mais de 39 mil resultados! Se isto não é a emergência de um mercado, então não sei o que é. Outro aspecto determinante, pelo menos eu gosto de pensar que é determinante, é a localização do gabinete. A partir do momento que definimos o nosso mercado, procurámos a única localização coerente: o Centro Histórico / Baixa do Porto. Fomos experimentando várias localizações (rua da Fábrica, Miguel Bombarda, Aliados) e actualmente estamos no Bairro da Sé. Acho que neste ramo tem de haver obrigatoriamente uma dose de proselitismo e até mesmo de voluntarismo. Como poderia propor-me a fazer reabilita| 045 |


FOTOGRAFIA DE RODRIGO PEIXOTO

ção urbana e ao mesmo tempo pôr-me de fora do processo? É por isso que o espaço do atelier fica em pleno Centro Histórico do Porto e por aí vai ficar. Dentro em breve vamos mudar mas continuaremos na Sé, na rua de Entreparedes. Começámos também por elaborar diários de obra, que são autênticas histórias da obra, com o objetivo de partilhar de informação e a divulgar aquilo que nós consideramos uma boa obra de reabilitação. Estes diários deram-nos alguma maturidade e mostram sem qualquer receio o que temos feito. Sem dúvida que os diários são já uma marca do nosso atelier e tem-nos trazido alguns clientes que já nos pedem, inclusive, um diário de obra. | 046 |

O grande Porto tem vindo a evoluir, nestes últimos 12 anos, de uma forma consertada e articulada? Trata-se de um crescimento anárquico da mancha urbana ou faz parte de uma visão integrada no sentido de dotar a cidade de maiores multifuncionalidades? O facto de não existir uma política de concertação intermunicipal não significa necessariamente anarquia. A cidade segue sempre alguma lógica mesmo que esta não seja evidente. Existe uma dispersão da mancha urbana mas parece-me que esta se estrutura em tornos de três variáveis: os centros urbanos pré-existentes que continuam a ter um certo efeito de polarização; os acessos rodoviários e


“O Metro do Porto é referido por alguns comentadores como um mau exemplo, mas será, porventura, um dos poucos exemplos de um projecto que foi feito de forma articulada e que foi sem dúvida um elemento crucial no desenvolvimento do grande Porto nos últimos 12 anos.” o processo de litoralização. Num mundo ideal deveríamos neste momento a tentar reconcentrar a mancha urbana e controlar o excesso de população no litoral. Como não estamos num mundo ideal podemos ir tentando concertar esforços para evitar o desperdício. O Metro do Porto é referido por alguns comentadores como um mau exemplo, mas será, porventura, um dos poucos exemplos de um projecto que foi feito de forma articulada e que foi sem dúvida um elemento crucial no desenvolvimento do grande Porto nos últimos 12 anos. No futuro seria bom se se desenvolvessem outras parcerias intermunicipais. Por exemplo: Gaia e Porto poderiam ter uma gestão conjunta das suas áreas históricas com a definição de uma estratégia comum. Quem vem de fora nem se apercebe de que se trata de duas cidades distintas… Como é que avaliam a política e a estratégia de reabilitação urbana levada a cabo pela Câmara Municipal do Porto? A Câmara Municipal do Porto foi a primeira a abraçar a lei das SRUs em 2004 e a criar a Porto Vivo Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense e nesse aspecto foi sem dúvida uma mais-valia para a cidade que precisa urgentemente de uma estratégia de reabilitação urbana concertada. No entanto, há muito para reflectir. Acredito que algumas das decisões tomadas, se tivessem que ser tomadas noutras circunstâncias acabariam por não acontecer. Parece-me que, mais tarde ou mais cedo, a estratégia de reabilitação terá de ser repensada e redirecionada para os pequenos investidores. Os decisores políticos terão de fazer uso de muita imaginação para encontrar não um, mas vários modelos alternativos de intervenção e financiamento. Há uma sociedade civil desperta e com vontade de agir. Talvez fosse boa ideia começar a escutá-la. O problema maior, quanto a mim, não tem a ver com este ou aquele executivo em particular, mas com essa verdadeira mania nacional de descontinuar os projectos onde se investiu tanto e onde se gerou tanto conhecimento. O CRUARB e FDZHP tinham uma razão de ser e, quanto a mim, desempenhavam um papel perfeitamente compatível com a SRU, são estruturas complementares. Um dado certo é que a SRU não veio ocupar este espaço. E nem podia porque o

papel para o qual está vocacionada é outro. A cidade do Porto precisa de facto de mais pontes? Pontes não, mas uma ponte pedonal facilitaria a ligação Porto-Gaia. Em todo o caso, não se trata de uma urgência. Acho perfeitamente despropositado discutir pontes, teleféricos e outros trampolins, quando ainda temos o essencial por resolver. Enquanto a Sé, por exemplo, não estiver toda reabilitada tudo o resto é irrelevante. Sabendo que o apoio à reabilitação urbana por parte do poder político é quase inexistente e estando ciente do bloqueamento ao crédito por parte da banca, em que moldes é que se consegue fazer esse trabalho? Não há soluções milagrosas. O atelier trabalha essencialmente com o cliente privado, que já vem com uma ideia muito trabalhada do que pretende e com alguma capacidade financeira para o fazer, embora sempre muito reduzida. É preciso uma gestão muito cuidada de todo o processo de forma a reduzir no custo final da obra, uma vez que a capacidade financeira é muito menor e sem a ajuda da banca torna-se complicado. Temos de ser cada vez mais criativos na forma como desenhamos e projectamos para com processos construtivos e materiais mais acessíveis se consiga obter bons resultados. Reabilitar exige não só um maior investimento financeiro como também um maior conhecimento técnico por parte de quem o executa. Há de facto rigor e exigência na reabilitação que tem vindo a ser feita nestes últimos tempos em Portugal? Não concordo completamente com a afirmação. Reabilitar não tem de necessariamente ter um maior investimento financeiro. A reabilitação propriamente dita, que recupera materiais, técnicas construtivas, que não faz uma demolição completa de um edifício existente não é mais cara, não pode ser mais cara se estamos a aproveitar o existente. É preciso realmente perceber isso e começar a reabilitar-se bem. É claro que a reabilitação envolve outras valências que a obra de raiz não tem, como por exemplo a localização dos edifícios em centros históricos em ruas pouco acessíveis. Mas por isso mesmo é preciso fazer um pro-

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“A vivência em centros urbanos em contraponto com intervenções dispersas reduz a utilização dos transportes e as ligações trabalho-casa, aumentando a qualidade de vida das pessoas.” jecto criterioso com soluções à medida. É preciso encontrar a equipa de especialidades adequada para projecto e, sobretudo, separar o trigo do joio quando chega a hora de adjudicar a obra. É claro que tudo isto exige um grande trabalho de persuasão e de pedagogia junto do cliente… De que forma é possível conservar património e defender zonas históricas sem que isso bloqueie o rejuvenescimento da cidade? Isso é partir de uma premissa errada, que é a de a conservação do Património inibe a revitalização urbana. Não há qualquer evidência disso. Basta reparar nas muitas cidades europeias (e não só) que conseguiram conciliar património e vida urbana. Aliás, a questão coloca-se frequentemente num sentido inverso: como defender as zonas históricas sem cairmos na armadilha da gentrificação? Como preservar o património edificado sem produzir desigualdade social? Este sim, parece ser um desafio bem mais estimulante. Mas, sem entrarmos nestas questões e mantendo-nos apenas nas questões de carácter estritamente técnico-construtivo, diria que é preciso perceber realmente qual é a função que se adequa a cada edifício, este é um dos pontos mais importantes. Muitas vezes o proprietário detentor de um edifício julga que o edifício comporta mais do que realmente comporta. É necessário adequar a função ao edifício e não ao contrário. Conseguindo este compromisso conseguimos recuperar/conservar sem demolir a pré-existência e simultaneamente rejuvenescemos a cidade. A questão ambiental torna-se cada vez mais uma prioridade me diversas áreas da actividade humana. Como se conseguem criar novos códigos de sustentabilidade ambiental dentro das grandes cidades? A reabilitação é em si já um auxílio muito grande na questão ambiental. A reabilitação recupera e reaproveita materiais existentes logo racionaliza recursos, o transporte de materiais e aproveita solos já impermeabilizados. A vivência em centros urbanos em contraponto com intervenções dispersas reduz a utilização dos transportes e as ligações trabalho-casa, aumentando a qualidade de vida das pessoas. Mais do que novos códigos precisamos apenas de recuperar o velhinho código do bom senso. | 048 |

Sabemos do seu contributo e envolvimento para a criação da Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Protecção do Património. Quais vão ser os principais objectivos e iniciativas da associação para 2012 e 2013? A associação pretende acima de tudo promover e divulgar o conceito de reabilitação urbana como principal veículo para a salvaguarda da identidade e valorização do património construído, a redução das assimetrias sociais e a promoção da participação dos cidadãos. Pretende também colaborar na preservação do edificado de interesse histórico e patrimonial, assim como estudar, aperfeiçoar e divulgar as boas práticas da reabilitação urbana, apoiar a formação de técnicos e desenvolver o intercâmbio nacional e internacional de práticas, saberes e conhecimentos no campo da reabilitação e da proteção do património. As iniciativas podem agrupar-se em três grupos: tertúlias, formação e projetos. Em 2012 e 2013 e, como são os nossos primeiros dois anos, pretendemos iniciar com as tertúlias mensais, com a formação de técnicos em ambiente de obra e com a organização dos grupos de trabalhos para a execução dos projetos. Os projectos são processos mais a longo prazo, que posso referir como exemplo alguns: a criação de uma base de dados online que servirá de repositório de informação técnica, um grupo de trabalho para estudo da legislação no âmbito da reabilitação entre outros. Que balanço fazem da actividade e que tipo de desafios se vislumbram para os próximos anos? Para os próximos anos o objectivo é claro: estender o nosso trabalho a outras zonas do país. Um dos problemas da reabilitação é que ela exige uma elevada especialização. Neste momento, já me sinto suficiente familiarizada com os métodos construtivos do Porto e Norte de Portugal. Agora quero aprender mais sobre os métodos de outras regiões e até mesmo de outros países. Aliás, nasci em Minas Gerais e gostaria de um dia ter oportunidade de também trabalhar com o riquíssimo património urbano brasileiro. Para já, nos tempos mais próximos, vou concentrar a minha atenção na zona oriental da cidade do Porto. Uma zona sistematicamente esquecida mas que contém em si um enorme potencial de crescimento. Só precisa que olhem para ela com o devido respeito. www.floretarquitectura.com


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VITRAHAUS ARQUITECTURA: HERZOG & DE MEURON TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: IWAN BAAN

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No Vitra Campus, na Alemanha, os arquitectos Jacques Herzog e Pierre de Meuron criaram a VitraHaus, tendo como inspiração uma casa típica da região. O resultado são 12 casas fixas e ligadas a um espaço contínuo, que propícia uma visita ao historial da produção de objectos de design da marca Vitra para o ambiente doméstico. A Vitra foi fundada em 1950 em Weil am Rheim, na Alemanha, por Willy Fehlbaum que começa por concebê-la como uma companhia de mobiliário. O grande arranque da Vitra dá-se em 1957, como lançamento da sua primeira linha de mobiliário que contou com a criatividade especial de Charles e Ray Eames e George Nelson, ícones do design contemporâneo. Dez anos passados sobre esta primeira apresentação, a contribuição de um simpático dinamarquês, de seu nome Verner Panton, dá origem à apresentação da célebre e emblemática cadeira Panton. Desde essa altura até aos dias de hoje, a Vitra afirma-se como referência maior do mundo do design, tendo abraçado também neste seu historial todos os bons aspectos da boa construção, a arquitectura. Ao Vitra Campus, com suas arquitectónicas assinadas por Jean Prouvé, Richard Buckminster Fuller, Claes Oldenburg & Coosje van Breuggen, Nicolas Grimshaw, Frank Ghery, Tadao Ando, Zaha Hadid, Álvaro Siza, Jasper Morrinson e

SANAA – num total de 14 distintos edifícios e estruturas – juntou-se a VitraHaus, um projecto da dupla de arquitectura Herzog & de Meuron. Face à inexistência de um espaço adequado para apresentar a colecção para casa da Vitra, a companhia adjudicou o trabalho de construção da VitraHaus ao atelier dos arquitectos Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Os arquitectos referem-se a este específico projecto como um design “de escala doméstica”. Graças à sua implementação numa área mais exposta do empreendimento, este trabalho vem realçar a extraordinária reunião de arquitectura já presente mas assume o papel de marcar o Vitra Campus. Esta nova estrutura é implementada perto do Museu do Design Vitra, construção completa de Frank Ghery de 1989, e do Pavilhão de Conferências, construção completa de Tadao Ando de 1993. A amplitude do local escolhido para a construção da dupla Herzog & de Meuron, permitiu que esta nova estrutura ficasse a uma boa distância do Museu do Design e de outra estrutura adjacente, dando projecção e espaço ao típico campo de pomar da paisagem. O conceito da VitraHaus junta dois temas recorrentes no trabalho da dupla Herzog & de Meuron, o da casa típica e o da junção de volumes. O desígnio do edifício, com 5 pisos, é apresentar o mobiliário e os objectos para casa

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da marca Vitra. Olhando para as proporções e dimensões dos espaços interiores, todos os locais de exposição são semelhantes a uma disposição de uma residência familiar. Cada uma das casas, com as suas características próprias de disposição, foi concebida de forma a actuar como um elemento abstracto. Dessa maneira conseguiu-se criar no visitante o distanciamento da arquitectura presente, dando assim o total ênfase às peças expostas. Há algumas excepções, nomeadamente nas arestas de acabamento e na aparência estrutural dos volumes, que parece ter sido moldada pela força de uma máquina de prensar. Unidas num total de 5 pisos, em alguns locais com a generosidade de um pé direito com mais de 15 metros, as 12 casas apresentam as placas que se cruzam com as vincadas arestas, criando uma assemblage tridimensional. É como uma pilha de casas que num primeiro olhar nos dá a sensação de um cenário quase caótico. O exterior do edifício tem uma cor que não só unifica toda a estrutura como também lhe confere uma ligação à paisagem envolvente. Tal como uma pequena cidade erguendo-se ao céu em camadas de construção, a VitraHaus é o ponto de entrada do empreendimento. É por elevador que os visitantes chegam ao quarto piso, começando assim a visita ao universo dos produtos para casa da Vitra. Todo o percurso tem algo de labiríntico, que a cada recanto procura surpreender o visitante com distintas peças de mobiliário que vamos encontrando pelo caminho. Os enfiamentos para o exterior do edifício criam aquela boa sensação que temos em nossas casas. A VitraHaus comporta-se de maneiras distintas durante o dia. Sobre a luz natural, a estrutura integra-se na paisagem mas de uma forma marcante perante as outras construções presentes. De noite, a luz artificial que sai através das janelas daquelas 12 casas cria um efeito visual conseguido, não só por causar a impressão de que brilham por dentro mas também por permitir ver, do exterior, as peças de mobiliário, destacadas no seu interior. A VitraHaus é um espaço pensado para os amantes do design, dos menos aos mais conhecedores, como a leigos interessados em descobrir peças de variados propósitos e feitios, que nos informam da evolução do design ao longo de quase um século de produção industrial. Não podemos

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deixar de potenciar a vasta e selecta gama de produtos para casa, com as fascinantes ideias de criativos como Charles & Ray Eames, George Nelson, Isamu Noguchi, Jean Prouvé, Verner Panton, Maarten Van Severen, Ronan & Erwan Bouroullec, Antonio Citterio, Hella Jongerius, Alberto Meda ou Jasper Morrison. Não é um museu, é uma casa com bom design!


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EM ESTREMOZ ARQUITECTURA: PEDRO MATOS GAMEIRO TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: FG+SG FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA

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Em termos de registo histórico, a povoação de Estremoz é antiga e a existência de vestígios arqueológicos de um povoado romano provam isso mesmo. O Castelo, fundado por D. Afonso III, é um dos mais importantes monumentos da cidade, a par das recuperadas ruinas do antigo Palácio Real, transformadas numa conhecida pousada, e a Capela de Santa Isabel. Esta bela cidade do distrito de Évora tem merecida reputação mundial por ser região de bons mármores, sendo a sua exploração feita em Estremoz, Borba, Vila Viçosa e também em Beja. São os verdadeiros e melhores mármores produzidos no país, com uma reputação que ultrapassa fronteiras. Estremoz tinha por volta de 1965, segundos dados estatísticos da altura, cerca de 10 mil e 500 habitantes, e já no final da primeira década deste século estima-se uma população com perto de 9 mil habitantes. Entre as actividades de cariz industrial são referidas a moagem, oleícola, farinação, mármores e as louças de barro. Esta casa, a 3 quilómetros de Estremoz, com uma área coberta de 400 m2, está localizada num lugar rural onde se encontram habitações, estruturas de apoio às actividades agrícolas, uma caminho ladeado por muros de pedra, um pequeno vale com uma linha de água e um olival sem condições viáveis para exploração. São os valores de um território onde o olival, marco da paisagem portuguesa, e as vistas para Estremoz nos entregam dados da construção humana ao longo dos séculos. E é nesta relação do Homem com este meio, que a construção da casa, parece-nos, pretendeu implantar-se no espaço e retirar dele todas | 068 |

as mais-valias com o seu enquadramento na paisagem, na satisfação retirada da proximidade com a natureza e no seu enfiamento para o perfil de Estremoz. As vistas sobre o castelo da cidade são referidas na memória descritiva do projecto, pelo seu interesse com o enfiamento e em que a “Torre de Menagem constitui-se como referência irrecusável”. O atelier liderado pelo arquitecto Pedro Matos Gameiro expressa que gerou-se um “desenho a partir de um claustro, com o qual se estabiliza e formaliza a implantação da casa, dando-lhe sentido e intencionalidade. Através dele são encenadas, formalmente, as transições, culminando o percurso no mencionado ponto de vista sobre o Castelo de Estremoz, junto ao tanque.” A forma quadrangular deste claustro, com as suas galerias cobertas para o pátio produz um contraste geométrico com os volumes em torno dele, que colocam em evidência, pelos seus limites recortados, as diferentes anatomias do terreno. Na vertente a Sul há um trajecto longo em forma de muro que “termina num volume que toca o limite do terreno marcando a pausa e gerando a sombra que anuncia a entrada e o início do percurso de acesso.” Gostámos da forma como esta casa abraça o terreno, como se dispõe nele, resguardando-se e abrindo-se para a paisagem, para o ambiente que a rodeia. Parece-nos existir uma clara intenção de fruir o todo que é o seu enquadramento, para contemplar e evolução deste território específico quer pela sua vertente natural como pela humana. Integrada como continuidade e não como ruptura.


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CASA BALANCAL PROJECTO: MSB ARQUITECTOS TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: CORTESIA MSB ARQUITECTOS

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O atelier MSB Arquitectos prossegue a sua linha de pensamento sobre a construção, procurando criar harmonias do edificado com o lugar e definindo soluções que reduzem os impactos na paisagem. A Casa Balancal, localizada sobre a cidade do Funchal, na Madeira, encontra-se num terreno com uma boa inclinação e rodeado de outras construções. O projecto, concluído em 2010, encontra-se num lote com 2 mil m2 e tem uma área construída de 910 m2. As opções formais implementadas tiveram em linha de conta não só as caraterísticas do terreno e sua envolvente edificada como também definiram uma disposição que trouxesse privacidade. Sobre estes aspectos a memória descritiva do projecto esclarece que “a cota de soleira e as restantes cotas de implantação foram implementadas de modo a gerir a relação com os edifícios circundantes, tendo mesmo esta relação definido a disposição, e grande parte das opções formais desta moradia.” As diferentes volumetrias encontradas foram pensadas para estabelecer um programa que retira de cada cota, com os seus diferentes pisos, as melhores soluções em termos de exposição solar, aproveitamento das vistas, privacidade face às cons-

truções circundantes e o melhor aproveitamento das áreas não construídas. Devido às diferenças de alturas encontradas no lote, os arquitectos definiram uma rampa que estivesse em sintonia com as linhas e as direcções da construção. Houve também a necessidade de erguer muros de suporte “nos quais se distribuíram áreas habitáveis, para que estes transmitissem alguma animação e se tornassem parte integrante do projecto.” Foi com naturalidade que os arquitectos preservaram a vista privilegiada da casa sobre o Funchal. São vários os teóricos da arquitectura que defendem que mar e céu não são paisagem, mas não há dúvidas que as vistas sobre o mar e para o céu são mais-valias desta casa. Isto porque para além da vista sobre a paisagem em volta do Funchal, criam uma visão panorâmica de grande profundidade. As áreas ajardinadas criadas, que se estendem pela totalidade do terreno, contribuem para uma atmosfera paisagística mais equilibrada e complementam a ideia de que é sempre possível construir e ao mesmo tempo dar um contributo para o ambiente.

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MAXXI ROMA E A CRIATIVIDADE CONTEMPORÂNEA ARQUITECTURA: ZAHA HADID ARCHITECTS TEXTO: ANA LOPES FOTOGRAFIA: HÉLÈNE BINET

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Roma teve de esperar até 2010 para poder finalmente ter um Museu de Arte Contemporânea que fizesse jus a tanto tempo de espera. Mas talvez tenha sido pelo melhor, pois um outro museu poderia não estar tão bem equipado, tanto em termos de instalações, como em termos de exposições. Embora este grande edifício branco, de linhas modernas não se enquadre totalmente na pacata zona residencial de prédios antigos de Flaminio, a verdade é que assim que se trespassam os portões do MAXXI, a Roma barulhenta, quente, e confusa deixa de existir. E aí, todo o espaço do museu envolve o visitante numa calma harmonia, onde interior e exterior se conjugam na perfeição. O MAXXI foi projectado pela Zaha Hadid Architects, e inaugurado somente 12 anos depois de o concurso internacional ter sido anunciado. O mais marcante no edifício é o seu aspecto futurista, numa mistura de cimento, vidro e alumínio, onde as cores brancas, preto e cinzento predominam. O edifício é uma composição de pequenos blocos interlaçados, que se intersectam e se empilham em ângulos diferentes; no interior o espaço é marcado por paredes de linhas sinuosas, inclinadas até - um pouco à semelhança do Guggenheim de Nova Iorque – onde está sempre visível a famosa escada preta que percorre o interior do museu. O interior assemelha-se muito pouco aos museus tradicionais de salas quadradas: aqui é a exposição que se adequa às curvas e às sobreposições de corredores, escadas e paredes de vidro, e não o contrário. Juntando isto à perfeita simbiose entre luz a natural e artificial neste espaço amplo, largo e bem iluminado, fica-se com uma clara sensação que o edifício é, por si só, uma obra de arte, contemporânea, claro está. Mas não é só pelo seu aspecto que o MAXXI se apresenta como um projecto contemporâneo. Como complemento aos tradicionais métodos de informação – placards e flyers -, o museu recorre ao vídeo, computadores tácteis e à MAXXI App, onde é possível descarregar para o telemóvel QR Codes com toda a informação sobre as peças expostas. Aparte, o MAXXI tem ainda algo que um turista em Roma muito preza e que, incrivelmente, é difícil de encontrar: informações e legendas em inglês. O MAXXI é composto por dois museus distintos, o ‘MAXXI Arte’ e o ‘MAXXI Architettura’. Até ao final do mês de Julho

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é possível encontrar no MAXXI Architettura a exposição YAP, Young Architects Program, sendo que em Julho o Museu apresentará uma exposição sobre performances de vários artistas italianos, seguindo-se, em Outubro, uma exposição dedicada a Le Corbusier. Os 29.000m2 do MAXXI englobam ainda um auditório, uma biblioteca especializada em arte e arquitectura, um centro de pesquisa, uma livraria, uma cafetaria, um restaurante, um palco exterior para eventos e um jardim, que aos fins-de-semana se enche de crianças que aproveitam o espaço para brincar. Afinal, talvez tenha mesmo valido a pena esperar tanto tempo.


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NA NORUEGA ARQUITECTURA: REIULF RAMSTAD ARCHITECTS TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: CORTESIA REIULF RAMSTAD ARCHITECTS

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Em sintonia com a abertura oficial desta infraestrutura turística norueguesa, um projecto do atelier Reiulf Ramstad Architects, divulgamos esta impressionante obra iniciada em 2005. Estamos perante um pavilhão de montanha, com um restaurante e uma galeria, que está localizado em Trollstigen, na costa ocidental da Noruega, numa passagem caracterizada pelos fiordes profundos. Face à severidade climatérica da região, os arquitectos escolheram o aço e o betão para melhor corresponderem em termos de resistência e durabilidade. Num lote com um tamanho de 600 mil m2, uma área construída com cerca de 1750 m2, esta obra só pode ser realizada ao longo dos seus anos de construção durante o período de Verão. Este novo percurso turístico, que integra um plano nacional de oferta nesta indústria, foi pensado para retirar as melhores panorâmicas de um lugar fortemente marcado pelo dramatismo da paisagem natural. O projecto veio abrir um caminho para a descoberta de um lugar até então inacessível, não só pela adversidade das condições climatéricas como pela dureza do território. Cria-se assim um espa| 102 |

ço para que os visitantes possam gozar o cenário único, através do pavilhão de montanha com o seu restaurante e galeria mas sobretudo pela criação de barreiras fluviais, quedas de água, pontes, plataformas, mobiliário de exterior e abertura de caminhos para locais onde o campo de visão tem uma maior amplitude sobre o cenário. Todos estes elementos construtivos foram como que moldados na paisagem, tornando a visita com um carácter ainda mais íntimo. A intervenção arquitectónica, revelando o seu espírito, esteve mais centrada na necessidade de passar como discreta e com o propósito de surpreender os visitantes a cada novo posto de observação. O programa é caracterizado pela clara distinção entre percursos e infraestruturas construídos e paisagem natural. Olhando para a água como elemento e sua dinâmica no local e juntando-lhe o caráter estático da rocha, surgiram as ideias para criar uma funcionalidade construtiva que melhor permitisse a captação e a impressão do carácter espacial único do lugar. Servir o visitante respeitando a natureza.


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O ABRIGO PROJECTO: GABRIELA GOMES ARQUITECTURA: SÉRGIO BESSA TEXTO: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: JOÃO MORGADO – FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA

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A artista portuense Gabriela Gomes, licenciada em artes plásticas na Escola Superior de Belas Artes do Porto e com uma pós-graduação em design industrial na Escola Superior de Arte e Design de Matosinhos, projectou o “Shelter byGG”, com arquitectura de Sérgio Bessa, para a programação da Capital Europeia da Cultura, a decorrer em Guimarães. O abrigo é uma estrutura para habitar composta por um quarto duplo e uma casa de banho. O desígnio deste projecto é proporcionar dormida numa construção colocada num espaço público. O conceito de Gabriela Gomes segue uma linha do seu trabalho enquanto artista plástica, a conversão de objectos escultóricos num produto de design com utilidade para a vida quotidiana. Na memória descritiva do abrigo, a artista salienta que estamos perante um “objecto experimental que cruza a escultura, o design e a arquitectura, desafiando novas experiências de espaço e questionando relações de fruição artística e de habitação”. Nós diríamos que é como um ninho para pessoas. A estrutura itinerante, para lá de proporcionar uma vivência inovadora e fora do expectável para um espaço de | 114 |

alojamento, manifesta sobretudo que é uma construção assente num conjunto bem definido de soluções ligadas às componentes da ecologia, da sustentabilidade e da mobilidade. Ao nível da selecção de materiais de construção, a utilização de matérias não poluentes e recicláveis como a cortiça, o aglomerado expandido de cortiça ou a madeira dão resposta à preocupação de uma gestão consciente e equilibrada dos recursos materiais. Também no seu aspecto da sustentabilidade e na necessária consciência de que é fundamental diminuir o desperdício energético, não só na organização do processo de construção e na selecção dos materiais mas igualmente na boa gestão dos recursos de energia da estrutura, ela integra o uso de painéis fotovoltaicos e uma iluminação assente na tecnologia do díodo emissor de luz, conhecido por LED. É um produto que expressa de forma clara a sua utilidade e as mais-valias dos seus propósitos, quer pela vertente artística, pelo conceito arquitectónico e os critérios de design. Gostámos da sua componente escultórica bem como o grafismo de interiores. As reflexões sobre as fronteiras do design, da arquitectura e da arte têm sido recorrentes ao longo dos séculos, no


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caso do design sendo mais recente. No campo da arquitectura a definição da disciplina é antiga e fala na arte de edificar, tendo alguns grandes pensadores considerado que ela é “a mais completa das formas de arte”. Já no campo do design houve no início do século passado uma corrente filosófica e política que defendeu uma integração da componente artística na produção. Já nas reflexões de Dieter Rams é expresso que o design nunca deve ser uma obra de arte. A nós parece-nos que não deve existir uma rigidez de conceitos, até porque a liberdade dos seres tem de ser vista de um ponto-de-vista evolutivo isto é, na capacidade dos seres se superarem nas suas capacidades e por conseguinte na forma como se relacionam entre si. Essa evolução das sociedades depende tanto dos valores éticos como do desenvolvimento das ciências e das técnicas. Já aquilo que consideramos como o mais na arte, na arquitectura ou no design, julgamos que é sempre aquele factor subjectivo que deriva mais do espírito de quem cria do que das fórmulas em que assentam a maioria das materializações de ideias ou conceitos. E haverá alguma fórmula que possa traduzir o porquê das afinidades? www.shelterbygg.com | 116 |


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LEITURAS

A edição de “Renovação da Praça do Toural, Alameda de São Dâmaso e Rua de Santo António, Guimarães, 2010-2012” resulta de um longo trabalho planeado e coordenado por Nuno Miguel Borges, um profissional de comunicação e de marketing que trabalha as áreas do design, arquitectura e vinhos. É um livro que conta com o apoio da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura e da ACA Engenharia. A decisão de assumir a edição desta obra, em Março de 2010, surge depois de Nuno Miguel Borges ter definido os objectivos de um trabalho que no final pudesse reflectir uma abordagem pouco usual ao tema e um registo fiel de todo um plano de arquitectura e urbanismo operado numa zona emblemática da histórica cidade de Guimarães. Para além de efectuar uma espécie de cronologia fotográfica da intervenção, o desígnio do livro também passa por uma aposta numa linguagem universal, acessível, que transmite ao leitor a origem das ideias, o processo criativo e seus bastidores chegando à tomada de decisões. Destaque para um texto da autoria de António Amaro das Neves, que produz uma síntese histórica do Toural nos últimos onze séculos. A importância de seis entrevistas conduzidas por Nuno Miguel Borges, das quais destacamos a efectuada a Maria Manuel Oliveira, a coordenadora de todo este projecto global de arquitectura. E foi num trabalho de equipa que Nuno Miguel Borges apostou, chamando até si a mais-valia da fotografia de Rita Burmester e o design gráfico de João Faria. O registo fotográfico, com um total de 272 imagens selecionadas, foi efectuado ao longo de dois anos com o propósito de retratar as fases da intervenção. É singular a forma como ele foi vendo a reformulação do espaço e a sua interacção com outros factores da vida quotidiana que ocorreram durante esse período específico da obra. O editor quis também retirar a impressão do olhar de Rita Burmester, abrindo assim liberdade a uma impressão mais lata do que a mera reportagem fotográfica. Já a contribuição de João Faria dá ao livro um design depurado, elegante e harmonioso. Foge ao ruído exagerado de certos grafismos, procura tornar o mais confortável a leitura da sequência da narrativa definida e, sobretudo, consegue ter o seu próprio cunho. O livro, numa edição bilingue, Português/Inglês, está colocado à venda em Portugal como no estrangeiro e também pode ser adquirido em www.nunomiguelborges.com

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Information Graphics Sandra Rendgen e Ed. Julius Wiedemann Taschen Distribuição: Caracter Editora

O poster de Nigel Holmes, incluído neste álbum Information Graphics, dá-nos algumas pistas sobre o que estimula a produção de design de gráficos informativos. O desejo de instruir, explicar, clarificar ou encontrar significado para os dados para depois difundi-los de uma forma para que o maior número de pessoas possa entender. E explicita também que há outros factores que estimulam este tipo de informação, nomeadamente aqueles relacionados com assuntos de dinheiro e poder. E no passar destes últimos 100 anos existiram diversas formas de apresentar estes grafismos, havendo desde registos muito ilustrativos do início do século passado, passando por uma sensibilidade mais modernista ou chegando aos códigos da cor, que na sua grande maioria se revelaram contraproducentes para o objectivo de uma transmissão clara de informação. E na abordagem académica à produção de gráficos informativos há duas tendências. Uma defende a total proibição na utilização de imagens e a outra expressa que uma bem elaborada combinação entre imagens e dados pode ajudar à difusão da informação por uma mais vasta audiência. Em Information Graphics percebemos diversas formas que foram encontradas por designers com o intuito de tornar possível a estruturação de vastos dados de informação num gráfico, tornando essa pesquisa de dados num objecto mais compreensível para o público em geral. Uns mais discretos ou outros mais artísticos, notamos em todos eles esse desígnio de tornar informação complexa em algo mais acessível de compreensão. Se há casos de uma maior riqueza gráfica, causadora até de algum ruído e por conseguinte de desconforto visual, há tabelas e mapas que pela objectividade na organização dos elementos nos deixam logo por dentro do que se pretende informar. Dividido por quatro secções de informações gráficas – localização, tempo, categoria e hierarquia, este álbum espelha bem como a cada década que passa vai sendo mais difícil organizar dados num gráfico. Pensamos que não deriva apenas de um maior conhecimento de elementos que até então não eram contabilizados ou por causa de uma evolução tecnológica que o Homem não tem conseguido acompanhar. Esta dificuldade resulta da certeza que temos que só conhecemos um pouco da realidade. Há um lado muito político na produção de gráficos, primeiro é importante perceber para quem é importante traçar estes gráficos e depois entender se a informação produzida nesses moldes não é uma forma de criar estereótipos sobre diferentes realidades, dando um ar que se está a aprofundar na análise dos dados recolhidos. A informação, o conhecimento e a comunicação entrelaçadas num elemento gráfico que, bem ou mal elaborado, exerce sempre o seu poder e fascínio. | 121 |


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DESIGN MAGAZINE 6 – JULHO/AGOSTO 2012