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Ă€ ESPERA DE UM MILAGRE. Colabore conosco, divulgue sua marca e espalhe desassossegos. revistadesassossegos@gmail.com

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SUMÁRIO 20 5 6 12 14

EDITORIAL

OLHOS SOBRE A TELA

RAULSEIXISMO SEM FIM por José Aparicio da Silva

CONTRARREGRA

SER JOVEM NO BRASIL DE HOJE por Kelem Ghellere Rosso

AGOUROS DA ÁGORA

SOBRE RACISMO ANTINEGRO, OUTDOORS E UMBIGO

por Fernando de Sá Moreira

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GAZETAS

OS ESTUDANTES E A POLÍTICA DAS OCUPAÇÕES por Mateus Henrique Alves de Oliveira

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MIL FACES SECRETAS

CONVITE À POESIA por Daniel José Gonçalves

LENTE DE AUMENTO

A ÚLTIMA PÁGINA por André J. Schneider

PALAVRAS MAIORES

DESVENDANDO OS INSTITUTOS FEDERAIS: IDENTIDADE E OBJETIVOS por Eliezer Pacheco

DESASSOSSEGOS

ENTREVISTA com Wander Wildner

ÓCIOS

ASTRO-APAGADO

por João Anzanello Carrascoza


Revista Desassossegos: Absurdemos a vida, de leste a oeste Publicação Semestral. V. 3, n. 2, 2019. ISSN 2595-6566 Comissão editorial Daniel José Gonçalves

Professor - Instituto Federal do Paraná, Campus Telêmaco Borba

José Aparicio da Silva

Professor - Instituto Federal do Paraná, Campus Pinhais

Mayco A. Martins Delavy Professor - SEED-PR

Arte da capa Dyego Marçal sobre a obra Segunda Classe, de Tarsila do Amaral. Projeto gráfico e diagramação Dyego Marçal Ilustrações Ana Káthia Silva dos Santos

Estudante do Ensino Médio Integrado - IFPR Campus Telêmaco Borba

Laila Souza

Estudante do Ensino Médio Integrado - IFPR Campus Pinhais

Olivia da Silva Marsola

Estudante do Ensino Médio, Colégio Estadual Guido Arzua Curitiba-PR

Editor Instituto Federal do Paraná - Campus Telêmaco Borba Rodovia PR 160 - Km 19,5, Jardim Bandeirantes CEP 84269-090 Telêmaco Borba - PR Contato revistadesassossegos@gmail.com (42) 98424-3225 Envie seu artigo, crítica ou sugestão. Venda proibida. Distribuição gratuita.

Ilustração:

Laila Souza

Os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do Instituto Federal do Paraná. A reprodução parcial dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria.


Editorial

N

unca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti. John Donne, poeta espiritualista inglês, fez esse alerta no século XVII, numa obra denominada Devoções para ocasiões emergentes. Ele chamava a atenção para o fato de que a humanidade está interligada de alguma forma com tudo o que há no mundo. E que, portanto, qualquer mal que acometesse um de nossos semelhantes, ou seja, qualquer uma das partes desse todo, por ínfima que pudesse parecer, seria um mal causado a nós mesmos. O sino é o anúncio do fim - ele dobra por nós. O mundo do lucro a qualquer custo nos tem levado a ignorar esse alerta secular, um alerta que rompe os limites da espiritualidade e se encaixa em qualquer visão de mundo minimamente solidária. De acordo com Leonardo Boff, co-existimos, vivemos com, em relação a, apesar de nosso crescente isolamento social, marca do individualismo que nos faz modernos, e do antropocentrismo que nos afasta da natureza. Somos muitos, de várias cores, credos e regiões, mas compartilhamos o mesmo espaço. Dessa forma, cada brasa que queima a floresta, queima parte de nós. Cada fome que se alimenta de uma vida, se alimenta de uma parte de nós. Cada sujeito que tem a possibilidade do próprio desenvolvimento tolhida pela cultura do lucro e da manutenção de privilégios de determinadas classes sociais, é a ignorância que se instala em nós. Cada

palavra lançada em preconceito para outrem, atinge a toda humanidade. É preciso fomentar a imaginação, pois ela é sempre grávida de possibilidades. Entretanto, para isso é preciso, também, combater o obscurantismo, que parece querer cobrir todo pensamento livre com as cinzas do preconceito e da mentira. Há muitos focos de incêndio espalhados por aí... Pensando nisso, preparamos este terceiro volume. Ele pretende nos sensibilizar para o presente e futuro, relembrando traços do passado que podem nos servir de guia. José Aparicio da Silva examina a obra de Raul Seixas, buscando mostrar a contemporaneidade desse artista que ilumina diversos problemas sociais, políticos e existenciais. Sylvio Passos, amigo de Raulzito, também nos conta um pouco de sua experiência ao lado do Maluco Beleza. Wander Wildner, outro representante da música, fala, em entrevista, sobre sua obra e a função do ser humano no universo. O racismo é o tema do artigo de Fernando de Sá Moreira, que explora sua incidência em discursos aparentemente antirracistas. André J. Schneider nos convida a desvendar e desmistificar a Amazônia, propondo que nos aproximemos deste lugar e de seus habitantes para melhor compreendê-los. Convite também é a tônica do artigo de Daniel José Gonçalves, que trata de poesia como insubordinação. Um dos idealizadores dos Institutos Federais, Eliezer Pacheco, discorre sobre a criação dos IFs e seus

objetivos, mostrando os desafios e potencialidades da proposta para a constituição de um país mais inclusivo. Tema semelhante é o de Mateus Henrique Alves de Oliveira, que trata das ocupações das escolas em 2016, sob a ótica de quando era estudante secundarista. Kelem Ghellere Rosso dialoga com estes dois últimos artigos debatendo as condições dos jovens no Brasil de hoje. Neste volume também temos uma novidade: uma coluna voltada à publicação de textos artísticos, como contos, poemas, fotografias, entre outros, que recebeu o nome de Ócios, numa referência ao termo latino Otium, que aliava o ócio à produção intelectual. E para inaugurar a coluna Ócios, o escritor paulista, autor de mais de 34 livros publicados, João Anzanello Carrascoza, nos brinda com um conto inédito que aborda o cenário particular de luz e sombra que carregamos. Ana Káthia Silva dos Santos mais uma vez contribuiu conosco com ilustração, acompanhada por Laila Souza e Olivia da Silva Marsola, todas estudantes do Ensino Médio. Como asseverou nosso pai Bernardo Soares, “mover-se é viver”. Então, não fiquemos parados, dispersemos a fumaça e compartilhemos a vida, engravidando o futuro com possibilidades. Bons desassossegos.

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RAULSEIXISMO

SEM FIM por José Aparicio da Silva

“É difícil ser livre, cumpádi, mas a gente faz uma força danada.” Raul Seixas

E

m uma conversa informal, alguns meses atrás, ouvi de uma pessoa jovem que as músicas do Raul Seixas estão ultrapassadas, “coisas de velho”, e que esse culto ao Raul é demodê. Ora, mal sabe ela que o próprio Raul já lhe dera a resposta em uma de suas letras: “os homens passam e as músicas ficam”. Basta uma rápida busca em repositórios de artigos cientí-

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ficos, monografias, dissertações e teses que nos deparamos com inúmeros trabalhos sobre sua carreira musical e possíveis relações com a atualidade. Vale relembrar um pouco de sua trajetória, influência artística e política, observando que a teoria acadêmica não é a única forma de se obter criticidade e que, sim, a música de Raul pode ser ponto de partida

para reflexões acerca da realidade social e da produção do conhecimento contemporâneas. Raul era contestador. Nesse quesito pode se fazer uma alusão à teoria de Norbert Elias, em seu Processo civilizador, quando reflete que é necessário desnaturalizar o mundo, porque aquilo que temos como natural, bom ou verdadeiro pode não ser bem assim.

Fotografia de Lorena Pedroso. - Acervo particular José Aparício Silva

OLHOS SOBRE A TELA


endidos pelo povo. Fato é que Raul nunca quis pertencer a esse grupo, tinha um certo desprezo por essa intelectualidade da MPB e da Bossa Nova. Cantou: “Acredite que eu não tenho nada a ver com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira…” e “No teatro Vila Velha, velho conceito de moral, ‘bosta’ nova pra universitário, gente fina intelectual” como forma de manifestar esse desgosto. Raulzito fez, sim, canções implicitamente de protesto à Ditadura que merecem ser destaque, tais como Mosca na Sopa, Super-heróis, Aluga-se, Dentadura Postiça, Sapato 36, Metamorfose Ambulante, Abre-te Sésamo, entre outras. Não sabemos se não foram entendidas ou passaram despercebidas pela censura, mas por ter uma raiz popular, certamente não foram legitimadas pela elite intelectual. Ultimamente, é fato, algumas de suas canções aparecem timidamente nos livros didáticos, ora para pensar numa sociedade alternativa, com trechos da canção de mesmo nome, no caso da História, ora numa exemplificação da teoria da solidariedade orgânica de Èmile Durkheim, em Sociologia, com a música O dia em que a terra parou, para justificar a divisão social do trabalho. Olhos sobre a tela deste volume sugere o filme O Início, o fim e o meio, realizado pelo cineasta Walter Carvalho, com roteiro de Leonardo Gudel, de 2012. O filme em formato documentário traz o artista Raul Seixas em seus diferentes estágios. Etapas de sucesso na carreira, as parcerias nas composições, os desarranjos com as gravadoras, o abandono dos palcos, a conturbada relação com as drogas e, por fim, a volta aos palcos com Marcelo Nova até a sua precoce morte em 1989. Nessa obra é possível perceber as razões de Raul ser tido como mito, não somente pelo acaso de

Olhos sobre a tela

Essa “desnaturalização” aparece como marca Raulseixista - só o leitor ter a curiosidade de ouvir. Raul contestou a família tradicional em Quando você crescer; o casamento monogâmico em A maçã; refletiu sobre o trabalho nas músicas Você, Meu amigo Pedro e É fim de mês; refutou a ciência como detentora da verdade em Todo mundo explica; contrariou a obrigatoriedade do serviço militar em Mamãe eu não queria; desnaturalizou a narrativa religiosa em Judas, O messias indeciso, Ave Maria da rua e As aventuras de Raul Seixas na cidade Thor; duvidou com ironia da verdade histórica nas canções Há dez mil anos atrás e Al Capone; foi cético em relação à política em Cambalache; e defendeu o amor livre nas faixas Medo da chuva, A lei e Baby. Todos esses questionamentos são progressistas não só para a sua época, mas também atualmente, dadas as polêmicas tratadas nos seus enredos. Em sua música, que ele mesmo definia como Raulseixismo, também foi inovador, uma vez que não se restringia a apenas um estilo musical. Raul compôs valsas, sambas, tangos; misturou rock com baião; foi da balada romântica ao bolero; da pegada country a uma espécie de pré-rap brasileiro, como em Ouro de Tolo e Metrô Linha 743; e, assim, cantando em vários ritmos, atingia as camadas mais populares. Muito se fala sobre as músicas de protesto da MPB no contexto da Ditadura Militar brasileira (1964-1985), porém quase não se menciona o cantor/compositor Raul Seixas. Mas qual é o conceito de popular dessa sigla? Se ser popular é aproximar-se da população em geral, então nesse caso Raul o fez com maestria, muito mais do que Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros, que eram e ainda são pouco compre-

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José Aparicio da Silva é professor do Instituto Federal do Paraná - IFPR

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Ale Frata © O Baú do Raul 2015 IRRC

Olhos sobre a tela

sua morte, mas sim pela sua postura desregrada social e politicamente que o fazia ter muitos seguidores. Em 115 minutos de exibição, o filme apresenta uma síntese da vida pessoal e artística de Raul Seixas. Um anárquico sonhador, como se declarava, que queria construir uma sociedade alternativa onde só vigorasse uma lei, a de que tudo é permitido. Faze o que tu queres, há de ser tudo da lei não por acaso é o subtítulo do filme e seria o lema de Anarkilópolis, a sua idealizada “cidade de cabeça pra baixo”, onde poeticamente “a gente faz do teto um capacho” - sem dúvida, uma belíssima metáfora à tomada de poder. Neste ano de 2019, no dia 21 de agosto, completaram-se 30 anos da morte desse ídolo e assistir a esse filme pode ser o princípio para se conhecer a história que o mitifica. Sim! Raul ainda é atual, não é demodê, por isso está sempre presente nas rodas de conversa, sejam elas em salas de aula ou nos botequins. Raul Seixas tem que ser o Início… e o meio, porque seu fim ainda está por vir, pois parece que já consigo ouvir ao fundo de alguma plateia algumas pessoas gritando: Toca Rauuul!

“O Raul não abraçou uma única causa, não é como o mundo hoje que está muito polarizado.”

A

migo, fã e divulgador sobre a vida, a obra e o legado da obra de Raul Seixas, de Raulzito, e sua banda, a Putos Sylvio Passos conversou BRothes Band. com a Desassossegos


Não, não… Um dos fatores que acredito que faz com que o Raul continue a cada ano que passa, mesmo já há trinta anos da morte dele, aglutinando principalmente jovens a cada ano que passa, é justamente porque a música do Raul, além da atemporalidade e da pluralidade, tem essa coisa do jovem, ela foi sempre foi direcionada para o público jovem. Quando eu falo de jovem, eu não estou falando de idade cronológica, não, falo de pessoas de almas jovens, de espírito jovem, e isso cabe em qualquer faixa etária, principalmente estes dentro da cronologia biológica. O jovem é a única coisa que se renova o tempo todo, os velhos envelhecem e morrem, e essa mecânica dos jovens no planeta Terra todo é a única coisa que vem se renovando a cada nova geração, sempre há uma nova geração de jovens, enfim. Mas a música do Raul continua super atual, super moderna e super consumida por essa galera mais antenada, porque os conceitos, as ideias do Raul, não aparecem em outros segmentos musicais, sejam eles quais forem. Os mais populares ou até as músicas mais bem elaboradas, eruditas e tal, não carregam em si essas ideias de liberdade, conceitos filosóficos, enfim. Então, Raul continua muito atual e super é consumido e venerado por essa galera mais jovem aí. No meio intelectual não se discute sobre a qualidade literária das canções da MPB e seu papel como “voz do povo”, especialmente nos anos 1970. Mas as canções de Raul Seixas

não dialogavam melhor com as pessoas neste contexto? Exatamente isso! O Raul... a proposta dele era uma proposta para o povo, música popular, mas com conteúdo nada popular. O Raul falava de coisas complexas, temas complexos de maneira popular e o próprio povo absorvia essas coisas sem saber exatamente do que Raul estava falando, a profundeza, a profundidade dos temas, das coisas abordadas pelo Raul. Me parece que as pessoas têm essas… as pessoas todas, principalmente as massas (claro que Raul é absorvido e continua até hoje por outras camadas da sociedade, as que têm mais acesso a informações, a estudos e tal), mas esse povo mais humilde, que é o que mais consome Raul, essas questões todas existem dentro dessas pessoas, elas não sabem como lidar com isso, não sabem nem o que estão fazendo… é muito comum, você vê a pessoa discutir sobre determinada coisa, até tem um discurso bacana, e ela não sabe de repente que está filosofando. Jung chamava isso de “inconsciente coletivo”, tem a “sincronicidade”, enfim, tem uma série de elementos mais acadêmicos que acho que traduzem melhor isso. E Raul tem uma máxima que fala: é pena eu não ser burro, não sofria tanto. Eu acho que essa massa que consome Raul tem isso, sabe? Poxa, o cara não está falando bobagem nas músicas, por mais simples que as músicas possam parecer - algumas delas, uma letra simples, um tema simples -, aquilo é de uma profundidade, de questões principalmente existenciais, filosóficas, e aí entra para o campo da religião... é muito amplo, é como eu falei, a obra de Raul é pluralística. A pluralidade é foda nos textos do Raul, porque ele bebia em todas as fontes. O Raul não abraçou uma única causa, não é

como o mundo hoje que está muito polarizado. Raul nunca foi polarizado em momento algum, sempre foi muito amplo, muito aberto a tudo e a todos, e pegava temas, trabalhava aqueles temas e devolvia através de músicas e essas músicas eram principalmente direcionadas às grandes massas, mesmo que essas massas não compreendessem totalmente aquilo que Raulzito estava dizendo. Eu digo até que ele tinha meio que um laboratório de um professor maluco, um feiticeiro, e ali fazia as suas misturas nos tubos de ensaio, que seriam suas músicas, e jogava pela janela para ver o que ia acontecer… uma brincadeirinha.

Olhos sobre a tela

Desassossegos: Sylvio, você que percorre o Brasil divulgando o trabalho de Raul Seixas, como você definiria a relação de Raul com os jovens atualmente? As ideias de Raul já estão demodê?

O que você acha que mais desassossegaria Raul atualmente? Outra pergunta interessante.... (eu estou falando isso, é uma visão muito pessoal dada minha convivência com ele, tive o privilégio de ficar quase uma década, foram oito anos e o oito também é um número interessante, porque quando deitado vira o símbolo do infinito) Tudo desassossegava o Raul, a vida inteira dele era o olhar para o mundo, ver as coisas do mundo e tentar compreender as coisas do mundo. E esse desconforto do observador acabava gerando textos, não só música. O Raul tem muitos textos longos divagando sobre várias coisas do mundo, desde a música pop a física quântica... atualmente, sei lá, terra plana, enfim, esses temas todos, de certa forma, seriam grandes fontes para o Raul desenvolver suas ideias e seus textos. E principalmente a questão política atual, principalmente aqui no Brasil, falando num olhar mais para o povo brasileiro, o que que virou o Brasil. De trinta anos para cá, quanta coisa mudou nesse país? Então, essa

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Acervo particular Sylvio Passos

questão polarizada do país e do povo brasileiro, atualmente, seria um grande desassossego para o Raul. De certo modo, você convive com Raul até hoje. Como é conviver com Raul por tanto tempo? Qual é o impacto dele na sua vida?

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Eu entrei na vida do Raul, do cidadão Raul Seixas - Raul Santos Seixas -, do artista Raul Seixas... Eu estava com dezessete aninhos de idade, era um garotinho que não me dava muito bem com a turma da minha idade no colégio, me parecia que eu estava fora do eixo, do tempo das conversas, eu achava tudo aquilo uma chateação. Desde garoto sempre

fui atrás das pessoas muito mais velhas, buscava alguma coisa com elas. Então eu tinha pontos de vistas que eram muito diferentes, me chamavam até de antiquado. Imagina um rapaz de dezessete anos antiquado! Como assim? Eu era moderninho, até, cabeludinho do rock and roll, e alguns amigos do colégio até falavam “pô, mas o rock and roll já morreu, o negócio hoje…” era outra coisa, nem sei, era discoteque na época, talvez... Enfim, então na minha convivência com Raul, ali no primeiro momento, nos primeiros trinta dias, vou colocar assim, eu tinha esse distanciamento, eu era simplesmente um garotinho diante do seu ídolo, e isso se diluiu muito rápido, muito rapidamente tudo aquilo me passou a ser uma coisa muito normal, porque eu

estava ali vivendo com Raul cotidianamente. Eu realmente vivo com Raul. São duas figuras, eu separo isso. Quer dizer: o artista, essa pessoa, essa coisa idealizada que o brasileiro, o Brasil inteiro consome, que está na mídia, está nos jornais, está nas revistas, está na televisão, está no teatro, está no cinema, está em todos os lugares, está nos palcos do Brasil esse não morreu nunca, com esse eu convivo diariamente. Inclusive nos meus shows, claro, antes que me peçam “Toca Raul!”, a gente já tem um repertório onde incluímos, além das nossas músicas próprias, as músicas do Raul também, claro! Então a convivência com o personagem, com o ídolo, com a coisa idealizada - esse está comigo o tempo todo. Eu sinto falta do meu amigo, do cidadão com CIC,


Raul Seixas sempre definiu a música dele como Raulseixismo. Mas como você a definiria para as pessoas hoje em dia? Olha, eu continuaria definindo como Raulseixismo, não tem como mudar... o cristianismo vai ser cristianismo forever… Raulseixismo também vai ser Raulseixismo forever... Eu acho que é isso, não tem outra maneira de definir. A música do Raul é uma música Raulseixista… como a minha música, eu chamo de Sylviopacismo, porque não

tem nada a ver com tudo que existe por aí, ela é única, singular... então, continuaria definindo ela para as pessoas como “que tipo de música é essa?”, é o Raulseixismo. Na parte autoral da Putos BRothers Band, quais elementos do Raul vocês fazem permanecer? Deixa eu te falar: Putos BRothers Band... o BR de BRothers é sempre maiúsculo, faço questão de sempre avisar isso, porque esse BR quer dizer Brasil, os irmãos brasileiros - BRothers. O nome Putos BRothers surgiu... o próprio nome já tem uma coisa de Raul. Esse nome Putos BRothers, na contra capa do último álbum com Raul e Marcelo Nova, A panela do diabo, na contra capa está escrito ali embaixo assim: “produzido pelos putos brothers: Nova, Calazans, Seixas e Schmidt”. Foi dali que eu tirei o nome da banda Putos BRothers, aí coloquei um BR sempre maiúsculo no BRothers para fazer uma referência ao Brasil. Como eu fui cria do Raul, posso dizer isso com muita segurança, eu escrevo boa parte das músicas, os textos são meus... com Araújo e Passos, nós somos assim, eu brinco até, eu falo “somos os novos Erasmo e Carlos, Sullivan e Massadas, Page e Plant, Jagger e Richards, Lennon e McCartney, Seixas e Coelho, Araújo e Passos”. Eu e o Agnaldo, guitarra e voz da banda Putos BRothers, temos uma química bacana, a gente consegue pegar uns elementos, trabalhar essas ideias, como ele também é Maçom, então a gente trabalha muito essas coisas, evitando falar bobagens em nossas músicas, entendeu? Por mais “tosquinhas” que elas possam parecer, não são. Todas as letras têm

ali uma razão de serem compostas, de serem cantadas, seja uma questão política, seja uma questão filosófica, seja o que for, a gente trabalha todos os temas. É essa grande influência do Raul sobre a gente: não fazer um único ritmo musical, a gente tem viola caipira nas nossas músicas, tem instrumentos exóticos e as letras a gente se preocupa muito em falar coisas bacanas, letras que sejam de estímulo à pessoa como um Tente outra vez, músicas com um certo otimismo, com certo ar de revolta, a gente ousa falar alguns palavrões em algumas músicas… o nome da nossa banda... nós temos problemas com o nome, alguns lugares não nos contratam porque chama Putos BRothers, acham que é palavrão... mas aí Camisa de Vênus, Velhas Virgens, tem outras bandas brasileiras com nomes assim, eles nunca mudaram e nós temos uma razão, não é um nome gratuito. Putos BRothers Band é uma banda de pessoas que estão revoltadas. Em alguns lugares do Brasil, a palavra “puto” tem um significado diferente do que para a gente aqui em São Paulo. Puto em São Paulo é uma pessoa revoltada, uma pessoa que não está satisfeita. Eu estive fazendo uma turnê pelo Rio Grande do Sul, já puto lá é homossexual, então fica complicado, tem que explicar para as pessoas. Eu lembro que alguns gaúchos me ajudaram a explicar melhor, falaram “bah! mas aqui no Rio Grande também fala-se puto da cara, né!?”, que é uma pessoa que está com raiva. É isso, todo mundo na banda é fã do Raul, além de serem fãs de outros ídolos brasileiros e estrangeiros, e a gente carrega tanto na linha melódica como nas composições, nos textos, muita coisa do Raul, a influência talvez fique até evidente em alguns casos.

Olhos sobre a tela

RG, sabe?, o indivíduo, a pessoa, o meu amigo de verdade, e esse eu já não tenho mais a convivência com ele, morreu faz trinta anos. De certa forma, essa convivência com o que é o imaginário, o que é o artista, o que é idealizado pelo público... eu vejo, falam tanta coisa sobre ele que não tem absolutamente nada a ver com ele... mas dentro do mito cabem essas coisas, o mito já não tem mais uma coisa definida, e dentro do mito cabe absolutamente tudo. Conviver com esse é legal, supre um pouco a falta do cidadão, do Raulzito. Sabe, dividir um churrasco com ele, dividir uma cerveja, dividir um copo de coca-cola ou café da manhã, um almoço, a janta, viagens, palcos, camarim, enfim, eu acho que é isso... O impacto na minha vida... difícil falar porque ainda me é... impacto? Rapaz, eu não tenho como sair mais disso, é como uma vez Maçom, sempre Maçom, uma vez Rosa Cruz, sempre Rosa Cruz, uma vez Raulseixista, sempre Raulseixista... e eu tenho o privilégio, tive o privilégio de ter essa convivência mais estreita com ele. Então, o impacto na minha vida é o impacto profundo, no melhor sentido possível.

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CONTRARREGRA

SER JOVEM NO BRASIL DE HOJE por Kelem Ghellere Rosso

“ELES VENCERAM E O SINAL ESTÁ FECHADO PRA NÓS, QUE SOMOS JOVENS.” Belchior,

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er jovem virou imperativo de uns tempos pra cá. Envelhecer, ninguém quer. Os motivos são muitos. O primeiro que poderíamos mencionar é o apelo mercadológico, aquela história que conhecemos de uma indústria da beleza lucrando loucamente com o medo que as pessoas têm de parecerem ser o que realmente são. Na tentativa de en-

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ganar a idade, vemos algumas aberrações. Melhor tomar cuidado. Mas também tem aqueles que não aceitam envelhecer por outros motivos. É um fenômeno diferente, é quando alguém se olha no espelho e não se identifica com as linhas de expressão, rugas, a pele flácida e cabelos brancos que ali se mostram. Como se o reflexo estivesse distorcido, não

condizente com o que se sente. Nesses casos, olhar-se no espelho é um susto! “Opa! Esse sou eu? Mas me sinto tão jovem, mente aberta, tantos planos pela frente!”. Pois é. Se a gente continuar por esse caminho, podemos até pensar que ser jovem é um “estado de espírito”, como se costumou dizer. Relativizou-se tanto o que é ser jovem que até parece que esquecemos da exis-

josephredfield_pixabay

Como nossos pais


Quando o tema é mundo do trabalho e suas recentes transformações, a questão juvenil coloca-se como um desafio: os jovens estão entre os que mais sofrem com o desemprego. Ainda mais quando falamos de um sistema econômico que está mundialmente em crise e os prognósticos vão de mal a pior. Como exemplo, em 2016, os jovens, juntamente com as mulheres, foram os que mais perderam empregos no país, de acordo com dados do IPEA, de 2017. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), conforme seu relatório “Panorama Trabalhista”, de 2018, confirma o cenário: os jovens são os mais impactados no âmbito social e pelos desastres na economia. Na América Latina, o desemprego entre 14 e 24 anos gira em torno de 25%. Mesmo quando conseguem um emprego, o que preocupa são as suas condições. Para essa região, há cálculos que estimam que a informalidade atinge de 70% a 80% dos jovens empregados. Um cenário assustador para o jovem que busca seu primeiro emprego ou que quer apenas ter o mínimo de dignidade. Situação que se agrava com as recentes reformas aprovadas desde 2016, como a trabalhista, que isenta o empregador de qualquer responsabilidade com seguridade social do empregado, e a reforma da previdência, já aprovada na Câmara de Deputados, que simboliza o fim da era da aposentadoria. Sem estabilidade, sem remuneração fixa, sem direitos trabalhistas. A juventude de hoje pode ser uma geração que não usufruirá tão cedo de direitos – palavra em extinção. Mais uma vez na nossa história, o sinal está fechado para eles que são jovens. Um paradoxo da juventude: se de um lado, enquanto padrão estético e “sensação”, é tão valorizado, por outro, o jovem real é desconsiderado e invisibilizado. “O jovem no

Brasil nunca é levado a sério”, já dizia Chorão do Charlie Brown Jr. Mas eles são maiores que isso. Mostram seus dramas, suas alegrias, seus questionamentos, sua revolta, porque ocupam escolas, ocupam mídias, ocupam ruas, ocupam palcos. Posicionam-se diante do desafio. Enfrentam. A história desse país também tem inúmeros marcos de contestação juvenil e ainda terá muitos outros.

Contrarregra

tência de pessoas que são jovens de verdade, que vivem uma condição juvenil concreta, não uma “sensação”. Os jovens-jovens, os jovens-mesmo, eles existem, e com as problemáticas próprias de quem está passando por essa fase da vida, que são diversas, porque assim também são as suas formas de viver essa juventude. No entanto, o pouco que se sabe sobre esse indivíduo segue o padrão de jovem que é masculino, branco, de classe média e urbano. Onde estão aqueles que não fazem parte desse restrito grupo? Como são vistos pela sociedade? Quando são ouvidos? São ouvidos? Imagine um jovem indígena, ou da periferia, de classe média com filhos, que vive no campo ou no Norte do país... Hoje, um mundo desconhecido para os “adultos”. Esses são os “jovens-problema”, representação reforçada pelas manchetes de jornais. Mas se alguém quiser conhecê-los melhor, dizem que eles costumam se aglomerar em frente às escolas, porque muitos deles estudam. Quem tiver interesse em observar como agem, como se vestem e se relacionam, também pode se postar diante de uma “balada”, é assim que eles chamam aqueles lugares pra ir à noite se divertir. Mas esses são os lugares mais típicos quando se fala em jovens. Há lugares que para encontrá-los é preciso um olhar mais apurado e interessado. Esse lugar é o trabalho. Basta circular pelas praças de alimentação dos shoppings, ir aos supermercados, restaurantes, observar nas ruas com suas bikes fazendo entregas por meio dos aplicativos, que lá estarão eles. Para ser mais simples, estão ocupando aqueles postos mais precários e instáveis.

Kelem Ghellere Rosso é professora do Instituto Federal do Paraná - IFPR.

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SOBRE RACISMO ANTINEGRO, OUTDOOR E UMBIGO por Fernando de Sá Moreira

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á certas pessoas brancas que gastam realmente bastante energia para anunciar publicamente o quanto elas não são racistas. Basta vir à tona um episódio ou um debate sobre racismo que elas tomam logo a palavra e propagandeiam: “eu não sou racista...”, ou então, “eu não tenho problemas com negros”, ou ainda, “sou uma pessoa que admira muito os negros”. Não é raro que o discurso comece com desejos de um mundo mais justo e com mais equidade: “para mim, esse negócio de racismo é uma idiotice e tem que acabar”. Gostaria que essas pessoas gastassem tanta energia combatendo o racismo, quanto gastam em alardear que não são racistas. Não estou falando, por certo, dos sujeitos brancos que assumem de fato uma postura e um compromisso antirracista. Tampouco estou preocupado agora em falar sobre aquele caso típico de indivíduos de cuja boca sai a todo momento a frase “não sou racista, mas...”, completada por uma ideia estupidamente racista logo a seguir.

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Pintura sobre tela - Ana Káthia Silva dos Santos

AGOUROS DA ÁGORA


A – Você viu o caso daquela mulher negra que foi acusada de um crime injustamente e ficou presa por puro racismo? B – Nossa, isso é horrível! Eu não sou racista, porque o que vale para mim é o caráter da pessoa. Eu não sou racista e fulano (o amigo negro) sabe bem disso. É uma pena que as pessoas sejam tão preconceituosas, mas eu... Pronto. O centro do debate agora já virou a pessoa B e como ela é o exemplo, por

excelência, de como não ser racista. Isso acontece uma vez; no outro dia acontece de novo; aí mais uma vez; e mais outra. E vamos vendo um carrossel de justificativas do porquê a pessoa B é o (a) “Sr (a) Superei-O-Racismo”. E o que tem aí de ação antirracista concreta? E de olhar verdadeiro para as pessoas que são alvo do racismo? E de entendimento do fenômeno do racismo e suas causas? Nada ou quase nada. Tudo se passa como se esse sujeito branco sentisse a necessidade de construir uma muralha de proteção, feita de justificativas prévias para se defender de uma possível acusação contra ele que, a princípio, ninguém fez. A acusação de que ele também pode ser racista. Agora, construída sua proteção, a tarefa de desconstruir as estruturas racistas que organizam nossa vida em sociedade fica para as outras pessoas. Isso porque toda sua energia foi gasta na construção daquela muralha, ou melhor, daquele outdoor que não cessa de propagandear uma imagem de alvura moral, que, ao mesmo tempo, esconde o sujeito branco, ofusca a questão do racismo e blinda o sujeito de assumir qualquer responsabilidade na luta antirracista. Olha que loucura! Mesmo quando o tema em debate é uma pessoa negra vítima de racismo, esse indivíduo branco faz questão de chamar a atenção para si e para sua pretensa superioridade moral. Além disso, não há em sua fala nenhum convite à ação, pelo menos nenhum que diga respeito à sua própria ação. O mais próximo disso é um convite à ação das outras pessoas ao seu redor, negras ou brancas: um convite a que elas se espelhem nele (na verdade, na imagem que ele pintou de si no outdoor). Ele mesmo nada mais precisa fazer, pois já “superou o racismo”. A gente poderia ainda entrar em diversas questões sobre racismo em relacionamentos de afeto e amizade; sobre o fato de não

bastar ter pessoas negras entre seus amigos e amigas, parceiros e parceiras sexuais, esposos e esposas; sobre a necessidade de constituir uma luta antirracista coletiva; sobre estratégias de enfrentamento e identificação de atitudes discriminatórias e estruturas de exclusão e silenciamento. É muito tema e pouco tempo para quem quer olhar, de fato, para um problema tal como o racismo. Mas, enfim, por ora, gostaria apenas de deixar um recado: – Sr. e Sra. “Superei-O-Racismo”, a luta antirracista vai muito além de sua inação, de suas máscaras e de seus umbigos.

Agouros da Ágora

Minha questão hoje é outra. Estou pensando aqui especialmente em indivíduos que, embora nada façam para empreender o desmonte do racismo em nossa sociedade, se apressam em anunciar circunstâncias que supostamente os livrariam de serem racistas. Normalmente, esta circunstância é a ideia de que eles não fazem certas coisas ou têm proximidade/afetividade em relação a uma pessoa negra. A base de sua fala é aqui: “não sou racista, porque...”. Não nos deixemos enganar, a frase aqui não é um problema. Também não o é a intenção de dizer os porquês de uma opinião que foi emitida. O que desperta desconfiança são as circunstâncias em que a frase é enunciada e as razões usadas como justificativa. Chama a atenção a necessidade de alguns indivíduos em “limpar sua barra”. A preocupação central de não compartilhar a responsabilidade de se lutar contra o racismo, mas meramente de se livrar o peso moral de talvez ser identificado como alguém racista. Mais do que isso: trata-se de roubar a atenção para si. Repare como alguns indivíduos brancos, tão logo alguém traz para o debate um caso de racismo, direcionam a conversa para o quanto eles não são racistas, para a ideia de que eles estão acima de tudo aquilo, abandonando imediatamente qualquer olhar para o sujeito negro que foi alvo do racismo.

Fernando de Sá Moreira é professor da Universidade Federal Fluminense - UFF.

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Nita_pexels

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Acervo Comunidade Facebook OCUPA CEP


OS ESTUDANTES E A POLÍTICA DAS OCUPAÇÕES

Gazetas

GAZETAS

por Mateus Henrique Alves de Oliveira

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m 2016, numa noite de sexta-feira (se bem me lembro), foram divulgadas mensagens no grupo de WhatsApp da minha turma, anunciando que se iniciava a ocupação do Colégio Estadual do Paraná. E com teor urgente, outras mensagens de meus colegas se seguiram. Nenhuma delas dizia, de fato, o que estava acontecendo. Talvez todos estivessem esperando o repasse de outras mensagens, ou talvez estivessem apenas tão perdidos quanto eu. “Ocupação” - o que diabos se queria dizer com isto?, pensei. Alunos ocupando um colégio. Não era isso o que deveria acontecer? Tem criança que não é aluno e que não ocupa nem escola nem colégio - ocupa a rua, noite e dia. Nada mais justo e sensato que uma palavra ocupar um texto; um texto ocupar um livro; e uma criança, um aluno, ocupar um colégio. Mas descobri que não se tratava de sentar nas cadeiras e abrir os ca-

dernos (o que comumente se fazia). Talvez subir nas cadeiras ou, talvez, anotar nos cadernos uma frase que não estava sendo dita ou escrita na lousa por professores. Uma frase, para mim, inédita: “É a ocupação! Vamos ocupar o Colégio Estadual do Paraná!”. Eu não poderia dizer que isso se assemelhava àqueles dados, escritos no nosso quadro, sobre o século em que “Fulano de Tal”, levado por tais e tais coisas, assassinou “Príncipe Rodoviano” e causou uma guerra histórica que não se sabe quantas vidas levou; e também não diria que o sentido tinha o mesmo peso significativo que conhecer as diferenças cruciais entre as plantas angiospermas e gimnospermas. Mais ainda, além da História e da Biologia, o Português não me deixava mentir: para que, afinal, tantos tipos de substantivo, predicado, verbos transitivos e locuções adverbiais? Palavras não são coisas que nos dizem algo? E aquilo, de fato, nos dizia o quê? Não me parecia que pudesse ser

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Acervo particular Mateus Henrique. Out\2016

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algo a lembrar depois de um certo tempo – às vezes, lembrava-se no tempo máximo de três dias após uma prova, e depois o conceito era soterrado na memória, atirado ao esquecimento. Mas aquela mensagem estudantil, com significado de algo que eu ainda não entendia, marcou o início de uma ponte entre dois mundos: um elo entre a teoria e a prática. Naquela noite, ocupei a cabeça. Dias depois, a cabeça me ocupou. Os estudantes atuavam contra aquilo que estava sobre a cabeça de todos nós, a “PEC do Teto”, oficialmente chamada de “PEC 241” e depois de “PEC 55”, e a Reforma do Ensino Médio – esta que veio em formato de Medida Provisória, a “MP 746”. “Vai cair”, uns previam. “Vai nos esmagar”, deduziam outros. “Vetem a PEC do Teto e esta reforma medonha”, soava o coro estudantil. E eu, por precaução e insegurança, dizia absolutamente nada. Todos os filmes que assisti, sempre tentei entendê-los da mesma forma: ficando calado. A ocupação era como um filme. Muita gente assistia: uma parte na própria sala de cinema, cheia da sensibilidade que permitem os seus acessórios, e uma outra porção através da pirataria, com uma imagem e som mais depravado.

Contudo, diante de tantas críticas e tantos críticos - nem sempre críticos de cinema -, de tanto movimento e movimentação, garganta e argumentação, a política aconteceu. Fez-se política, e a política pairou no ar do Estadual. Este mesmo ar invadiu os pulmões estudantis; ocupou-os de súbito, sem tempo de qualquer reação. Ao expirar, retornando para fora um sentimento político, cheio de nós e de nós mesmos, foi que soubemos de uma das grandes sacadas da vida, uma sacada que dizia assim: meu amigo, você não sabe de nada, mas parta para aprender. Nesse momento, tornei-me parteiro e foi então que parti. Parti para “dar à luz” e “parir” o conhecimento, como prenunciava a maiêutica socrática. Em outras palavras, eu percebi que estava entendendo era nada mesmo e resolvi questionar qualquer coisa que me parecesse pertinente de ser questionada - tudo. A partir dali, eu aprendia um pouco do que significava ser cidadão, embora, por questão de idade (16 anos), ainda não o fosse de forma oficial. Inegavelmente, porém, meus olhos políticos estavam abertos. E eu enxergava uma luz tão forte, tão branca e cheia de possibilidades, que me comparava a um recém-

-nascido, com um novo mundo à sua frente. É claro que, por questões de dignidade e proposição teórica, direi que minha experiência podia ser melhor comparada à percepção de um prisioneiro que se libertou. Talvez aquele mesmo desafortunado que o filósofo grego Platão (428 a.C - 347 a.C) descreveu em sua alegoria da caverna, na obra intitulada A República (380 a.C). Eu, um acorrentado dentro de uma caverna, soltei-me de alguma forma. Tomei noção da ignorância que me acorrentava e pus-me a correr para fora. Naturalmente, tendo vivido boa parte da vida na escuridão, a luz do lado de fora fez doer e cegar os meus olhos por alguns instantes, gerando com eficiência uma confusão. Mas, afinal, todos sabemos que a verdade dói e o saber incomoda, e às vezes mais aos outros do que a nós mesmos. Assim, eu segui. Não posso dizer que continuei sozinho na caminhada, é verdade. Pesquisar sobre vários assuntos me levou a um lugar que se deita sobre várias coisas. Uma parte específica da internet. Um site. E, mais precisamente, o Youtube, a maior plataforma de vídeos já criada. Lugar digital onde pessoas reais pegam seus celulares, suas câmeras, e gravam a si mesmos abordando os mais diversos te-


a tomar tais exaustivas atitudes. Assim também é na política de um país. “A ocupação no IFNMG, Campus Arinos, nos possibilitou conhecimento acerca da política, bem como o funcionamento da máquina pública e os direitos e deveres de cada cidadão”, relatou o estudante Daniel Rodrigues Martins, de Arinos - MG.*

Da necessidade de entender o contexto em que vivia, durante as manifestações dos estudantes, foi que me senti impelido a correr atrás de coisas com as quais não estava acostumado a lidar. Poderia assistir pela televisão quantos protestos fossem, mas participar de um deles trouxe à tona um sentimento de cola, de estar verdadeiramente integrado a algo importante, que faria diferença. A mudança, como se vê pelos resultados de 2016, pode não ser objetiva, mas não significa que tenha sido uma causa sem valor. “Responsabilidade é a primeira coisa observada no período das ocupações. Os alunos mostraram sua autonomia e a capacidade de resolver seus problemas”, disse uma estudante secundarista de Ponta Grossa - PR.*

É subjetivamente que de fato mudamos, e, nesse sentido, foi um ganho imenso, tanto em nós quanto na qualidade das escolhas políticas que faremos futuramente. Se bem pensado e discutido em cima dessas e de muitas outras experiências com movimentos políticos, o sistema educacional poderá, cada vez mais, propor uma forma de educação que vá além da maioria enfadonha de assuntos teóricos que vigoram em nossas bases educacionais. Como destacou a estudante Bruna Camargo, de Ponta Grossa: “tivemos um crescimento enorme, de forma que não aconteceria com aulas normais, pois

essas permitem pouco (ou nenhum) espaço para discussões”*. É preciso abrir a conversa e expor aos jovens a necessidade de uma mentalidade política que não seja partidária e cravada no culto a personalidades ou no ensejo à profissão político-representativa, mas uma mentalidade de cidadão político, aquele que descobre o seu lugar na “pólis” e passa a agir, também, em função dela, visando o bem-estar coletivo. Sabemos que um movimento estudantil atiça muitas paixões, tanto as boas quanto as ruins, mas não nos esqueçamos de que a mente também pode ficar atiçada, ou, melhor dizendo, ocupada de uma necessidade curiosa, potente e irreversível, de conhecer.

Gazetas

mas e assuntos - às vezes, fazendo piada; às vezes, sendo a piada. Alguns com currículo digno; outros que só Deus sabe; e ainda outros aparentemente formados na “Academia Quase Verídica do Brasil Paralelo”, afirmando com convicção e veemência que uma coisa, contra todas as suas possibilidades, é igual a outra coisa, tal qual a cor branca é igual a cor preta, e o mar, em verdade, se trata de terra seca. É absurdo, mas não se precisa de muito. Bater forte na mesma tecla e produzir uma narrativa única gera resultado interessante. Talvez semelhante resultado a um instrumento musical estrondoso, parte de uma orquestra estrondosa, que cala o fraco som de uma conversa entre dois. Não se consegue escutar o que diz aquela tímida conversa paralela. E, nesse caso, isso pode significar a ocultação do que é contraponto, do contraditório, do diferente que faria diferença, mas que agora já não pode fazer. Afinal de contas, não se conversa em uma orquestra - e talvez o Youtube também não seja o melhor lugar para bater um bom papo. Fato é que encontrei o que procurava, depois de um tempo. Politizei-me e continuo, ainda, me politizando – para não enferrujar ao perder o costume. Não sou um político do nosso sistema representativo, e disso nem faço questão. Sou (ou, ao menos, tento ser) um homem político; um cidadão político. E, afinal, como se dá a politização? Parece-me que ela surge de uma necessidade, já que sem o “necessitar” existe um comodismo nas nossas ações, e assim igualmente em nossos pensamentos, caso não seja necessário o “pensar” (a reflexão). Um sujeito sem sede não costuma ir atrás de um copo com água; e, se não for uma necessidade que nós pensemos em um mundo melhor, é quase sempre preferível deixá-lo a cargo de quem esteja disposto

Mateus Henrique Alves de Oliveira é estudante de filosofia da Universidade Federal do Paraná - UFPR. *Os relatos foram tirados do livro #OcupaPR 2016: Memórias de Jovens Estudantes, organizado por Thiago Divardim, Adriane Sobanski e Maria Auxiliadora Schmidt. Curitiba: W.A. Editores, 2016. – 152 p.

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MIL FACES SECRETAS

CONVITE À POESIA por Daniel José Gonçalves

Vadie na relva comigo…. solte o nó da garganta, Nada de palavras música rima alguma…. nem bons-costumes ou sermões, nem mesmo os melhores, Só quero sua calma, o zunzum de sua voz valvulada. Walt Whitman, Folhas de Relva y pixaba dapix_ Wokan

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xiste certa mística em torno da ideia de poesia. Jorge Luis Borges identifica o nascimento da poesia com o primeiro som humano produzido intencionalmente para criar determinado significado. A ideia de que a poesia nasce com a palavra primordial corrobora a perspectiva que a identifica como detentora da palavra última. Um momento único em que palavra e objeto se confundiriam sem margens para reflexões. Para Carlos Drummond de Andrade, a poesia é participação, pois ela participa da vida das pessoas e dos ideais do

tempo presente, com um apetite sempre renovado e desconfiado sobre tudo, se aproximando e se distanciando da realidade para enxergar melhor seus contornos e idiossincrasias. Mas a poesia também é trabalho. João Cabral de Melo Neto recusava a possibilidade do sonho no fazer poético, entendendo que a poesia decorre do trabalho diligente do poeta diante de determinada matéria. Se se pergunta numa plateia como a poesia poderia ser definida, certamente a maioria optaria por dizer que poesia é sentimento. Isso para não falar daquelas situações em que dizemos, por exemplo, que uma frase

ou um pôr do sol é poético, ou sobre a diferença entre poema e poesia, um tema do qual os críticos, muito sabiamente, saem pela tangente, afirmando que o poema é obra, artefato, e a poesia, bem, digamos que a poesia é vida. Por isso, não é de se estranhar que a escritora americana Elizabeth Bishop, em uma de suas cartas, tenha dito: “sempre achei que escrevo poesia mais não escrevendo do que escrevendo.” Acrescentemos outro elemento: quem é esse sujeito que escreve tais textos e se diz poeta? Em torno dele se construíram mitos que o colocam entre a total inutilidade - um


sobretudo, assumir para si o dizer de tudo isso. Como coloca Henry Miller acerca do poeta francês Arthur Rimbaud, “a liberdade se acha ligada à diferenciação”. Tomar a palavra do poeta para si, nesse sentido, dá ao sujeito a liberdade de buscar sua própria voz e, portanto, buscar sua diferenciação. Atitude absolutamente revolucionária em qualquer tempo, em qualquer lugar. E ser diferente, é ser marginal. Se se está no centro, se é igual a todo mundo. Eis que a poesia está à margem dos estudos sobre literatura, são os livros menos lucrativos e com menores tiragens do mercado editorial, tem os menores espaços nas prateleiras das livrarias e bibliotecas, quase sempre num canto, difícil de achar, e foi vulgarizada muito facilmente como recadinhos moralizantes ou de autoajuda nas Redes Sociais. Mas por ser voz, a poesia é espaço de insubordinação e coragem, como defende o crítico Antonio Carlos Secchin. Insubordinação à língua, aos mitos, às convenções, à moral, à ordem, à literatura… Insubordinação erigida em metáforas, caminho próprio da mística poética, pois abre trilhas onde parecia haver apenas pavimentação. Coragem, porque se é marginal quando sua liberdade é estar preso ao questionamento das coisas, não se aliando a qualquer lado. Por isso, Drummond pôde virar às costas à Máquina do Mundo, que lhe queria revelar todos os segredos do céu e da terra; e Rimbaud injuriou a beleza, mesmo depois de tê-la feito sentar-se em seu colo; e Murilo Mendes revelou ter nascido para assistir ao fim do mundo; ou, ainda, Meimei Bastos tenha sido capaz de convocar seus cachos armados para combater injustiças; e Dante atravessou o inferno e o purgatório pelo fato de achar-se perdido no meio do caminho da vida. Há sempre um

“não” implícito na palavra do poeta, como aquele que aprendeu o Operário em Construção de Vinicius de Moraes. Mas, ainda assim, a palavra do poeta é sempre um convite. Aceitemos o convite. Neste espaço estamos todos convocados a falar, a levantar a voz, a ouvir e dizer, vadiando na melhor acepção da palavra. Daniel José Gonçalves é professor do Instituto Federal do Paraná - IFPR.

Mil Faces Secretas

vagabundo, afinal Platão o expulsou da República - ou o colocam num pedestal, no sublime, detentor do inexprimível e do insondável, devido à sua voz oracular e linguagem alta - portanto, aos poetas seria permitido dizer aquilo que o “homem comum” jamais saberia. Somente em territórios instáveis é possível levantar mitos. E essa instabilidade talvez torne a poesia carrasco e vítima de si mesma, aproximando e afastando leitores que a acham difícil demais, hermética, bobinha, chata ou até mesmo a compreendam como aquela voz que traduz um sentimento ou sensação que o sujeito não havia sequer nomeado. E talvez essa mesma mística faça com que muitas pessoas se entreguem à escrita de tais textos. Como professor, volta e meia atendo estudantes ansiosos para que eu leia seus poemas - aliás, eu mesmo já fui um desses estudantes ansiosos. E é fácil perceber: naqueles textos há uma entrega tão íntima e sensível que complica qualquer conselho. Eles ainda não aprenderam com Fernando Pessoa que o poeta não passa de um fingidor. O melhor conselho é sempre o mesmo, o qual, aliás, eu mesmo recebi: “leia poesia”. Sendo assim, arrisco uma nova definição: poesia é voz. Afinal, o que faz com que muitos, jovens ou não, a despeito de todas as possibilidades de entretenimento no mundo contemporâneo, ainda procurem a poesia? Arrisco a dizer que é ter uma voz. Ser ouvido acima da algaravia cotidiana. Posicionar-se para além dos ideais e ações rotineiros. Buscar dizer aquilo que sente do mundo, sejam injustiças, sejam sabores ou dissabores. Tomar para si o direito de ser ouvido e o direito de dizer. Explicar. Confessar. Revelar. Reclamar. Brigar. Gritar. Chorar. Convidar. Mas,

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LENTE DE AUMENTO

A ÚLTIMA PÁGINA por André J. Schneider

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uando meus amigos me lançaram o convite para escrever algo sobre a Amazônia, fiquei bastante angustiado frente ao desafio de descrever esta parte misteriosa do Brasil. Minha intenção é trazer algumas impres-

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sões históricas de alguns autores e ao final algumas indicações de leitura e filme para que você, leitor, descubra, conheça e sintetize a importância dessa região tão inóspita do Brasil e do mundo. Historicamente a Amazônia foi a região onde aventureiros procuravam,

com um pouco de sorte e juízo, enriquecer em pouco tempo. Para outros, foi uma região de enclausuramento do mundo, onde os ecos da civilização chegavam muito difusamente, lugar de estradas líquidas, de febres perigosas e vida bárbara. Dos ciclos da borracha


herdamos a era do ouro branco e do coronelismo de barranco, época em que foi “povoado” o interior do Amazonas e que provocou uma enorme desigualdade social que tem reflexos contemporâneos, ou seja, temos uma capital “rica e europeizada” e os seringais bárbaros e escravocratas. Para conhecer um pouco mais dessa dinâmica histórica, sugiro que assistam ao filme A Selva, com direção de Leonel Viera. Quem e como se vive nessa parte do Brasil? Um dos maiores romancistas que viveram na Amazônia, Ferreira de Castro, descreveu uma bela síntese daquilo que podemos chamar de cultura regional. “Era sempre uma barraca coberta de folhas de palmeira e de soalho erguido um ou dois metros acima da terra, fixando-se em estacas, para que a água do rio, nas grandes enchentes, passasse por baixo sem atingir corpos e haveres naquele isolamento profundo. Ao lado, um Girau – estrado onde sorriam, dentro de velhas latas, humildes plantas floridas. Um mamoeiro, duas ou três touças de bananeiras, as vezes uns metros de mandiocal, uma canoa balouçando-se no porto – e mais nada.” Assim vivia e vive o caboclo da Amazônia. Para muitos aventureiros, exploradores e colonizadores, a Amazônia era um mundo à parte, terra embrionária, geradora de assombros. Uma representação que insiste na ideia de que essa é uma parte da terra ainda em formação, portanto, em desordem e assim não preparada para receber a civilização. Para isso é necessário domesticá-la. Diminuir gradativamente seu enorme descompasso com

o desenvolvimento técnico que passou a se constituir no padrão principal das nações modernas. A Amazônia apresenta-se em um estágio primitivo de evolução, vivendo próxima ao estado de natureza e à margem da história. A descrição mais fantástica vem de Euclides da Cunha que também andou por esses lados. Depois de escrever Os Sertões, ele se aventurou pela Amazônia e escreveu Amazônia: um paraíso perdido, e é nele que encontramos a seguinte passagem: “subi para o convés, de onde, com olhos ardidos da insônia, vi, pela primeira vez, o Amazonas. Salteou-me, afinal, a comoção que eu não sentira. A própria superfície lisa e barrenta era muito outra. Porque o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas, lembrava (ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênesis”. Enquanto o presente texto era gestado, a Amazônia estava protagonizando uma das maiores crises ambientais desta década. Se Euclides da Cunha percebeu que na Amazônia estava a última página no Gênesis que Deus deixou aos homens para finalizarem, parece-nos que estamos inserindo alguns garranchos sujos e irracionais nas sagradas escrituras. É triste pensar que Deus nos tenha delegado uma missão tão nobre e que nossa contribuição será destruir essa obra da criação e com ela nos destruir. Estamos literalmente no começo do fim da última página do Gênesis. André J. Schneider é professor do Instituto Federal do Amazonas - IFAM.

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Acervo IFPR Campus Foz do Iguaรงu

PALAVRAS MAIORES

DESVENDANDO OS INSTITUTOS FEDERAIS: IDENTIDADE E OBJETIVOS por Eliezer Pacheco

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formação da sociedade brasileira foi marcada, principalmente, por três elementos essenciais: a escravidão, o déficit democrático e a ausência de Projetos Nacionais consistentes. Em nossos 519 anos de história, durante 388 anos todo o trabalho produtivo foi exercido por escravos trazidos à força da África ou seus descendentes. Esta é a raiz de uma elite perversa, preconceituosa, antidemocrática e de uma sociedade marcada pelo preconceito e pela exclusão. Em nossa história tivemos apenas 47 anos de Estado Democrático de Direito e, mesmo estes, com enormes limitações. Por isto, a falta de uma cultura democrática permeia todos os segmentos da sociedade brasileira com inevitáveis consequências sobre nossa vida política. Por último, as classes dominantes nunca se preocuparam em elaborar um Projeto Nacional, de Estado, penalizando o país com a descontinuidade e a falta de projetos de longo alcance. Lula foi quem mais se aproximou da tentativa de um Projeto Nacional, alicerçado no Desenvolvimento com Inclusão, Democracia e Soberania, coisas absolutamente inéditas em nossa trajetória. Isto diferenciou seu governo de todos os anteriores e provocou a hostilidade das classes dominantes que sempre tiveram na exclusão, no ódio aos excluídos, no autoritarismo e na submissão aos interesses internacionais suas características principais. São as raízes de nossa história que configuraram elites tão perversas, antide-

mocráticas e antinacionais, contrárias a qualquer política que invertesse esta lógica. Na educação, apenas as Universidades receberam alguma atenção, pois eram destinadas aos filhos destas elites. Como o projeto Lulo-Petista não previa rupturas com a ordem estabelecida (nem havia correlação de forças para isto), sua aposta foi na educação e na distribuição de renda. O orçamento do MEC passa de 16 bi para quase 100 bi, com a premissa de que “educação não é despesa, mas investimento”. Uma série de políticas de expansão são implementadas: • 18 novas Universidades multicampi; • O REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades) dobra o número de vagas e multiplica os campi das Universidades já existentes; • A UAB (Universidade Aberta) através da EAD oferta 60 mil vagas; • A Plataforma Paulo Freire abre a possibilidade de formação para professores já em atividade; • O Ciência sem Fronteiras abre a possibilidade de formação no exterior para milhares de jovens; • O ENEM e as políticas de quotas democratizam o acesso à Universidade; • O PROUNI abre cerca de um milhão de vagas para estudantes pobres nas Universidades Privadas; • O SINAES (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior) estabelece um sistema moderno e sofisticado de avaliação, sepultando o famigerado Provão;

• A PROVA BRASIL permitiu visualizar o desempenho de todas as escolas públicas do país; • Os Institutos Federais revolucionam a Educação Profissional e Tecnológica, criando em três anos 214 novas unidades; • O FUNDEB injeta 4 bi na Educação Básica. Os resultados de políticas educacionais só serão perceptíveis num período de aproximadamente 20 anos, se não sofrerem soluções de continuidade, mas não seria exagero afirmar que Lula assentou as bases para um novo ciclo de desenvolvimento em nosso país, pois apostar na educação significa apostar no desenvolvimento das forças produtivas de um país, além de sua capacidade de possibilitar a mobilidade social. Os Institutos representam não apenas uma extraordinária expansão da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), mas o estabelecimento de novos paradigmas fundados na Politecnia. Para a consolidação dos Institutos Federais (IFs) é indispensável a compreensão de sua natureza e de sua Proposta Político-Pedagógica. De forma objetiva, quase esquemática, procuramos fazer uma síntese destes aspectos, objetivando sua disseminação e assimilação, pelos protagonistas desta proposta ousada e inovadora. Os IFs são uma institucionalidade inédita em nossa estrutura educacional, original na medida em que não se inspira em nenhum modelo nacional ou estrangeiro, criada pela Lei 11.892/2008. Tem como objetivos atuar na formação inicial, no ensino

Palavras Maiores

INTRODUÇÃO

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Palavras Maiores

médio integrado à formação profissional, na graduação, preferencialmente, tecnológica e na pós-graduação. Entretanto, estas diferentes modalidades têm de dialogar entre si, procurando estabelecer itinerários formativos, possibilitando reduzir as barreiras entre níveis e modalidades, que dificultam a continuidade da formação dos educandos, especialmente os oriundos das classes trabalhadoras e excluídos. Preconizam a atuação junto aos territórios e populações com vulnerabilidade social, objetivando integrá-las à cidadania e aos processos de desenvolvimento com inclusão. Sob o ponto de vista legal, está no mesmo nível das universidades, entretanto, rompendo com a matriz “UNIVERSIDADE/ ESCOLA TÉCNICA”, que estabelece uma hierarquia de saberes vinculada a hierarquia das classes sociais: Universidade para as classes e camadas privilegiadas e escola técnica para os trabalhadores. Não é, por consequência, nem Universidade, nem Escola Técnica, mas uma outra e inédita institucionalidade. Aquilo que Paulo Freire chamava de “inédito viável”.

I) PRINCIPAIS OBJETIVOS DOS IFs

1) Oferta de uma educação pública, democrática, de qualidade e gratuita, que sirva de referência a outras escolas públicas, especialmente de ensino médio; 2) Através de itinerários formativos, possibilitar às classes e camadas sociais historicamente excluídas a progressão de seus estudos e a redução de barreiras entre os níveis e modalidades de ensino;

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3) Trabalhar Ensino, Pesquisa e Extensão articuladamente com a realidade socioeconômica e as necessidades do território onde está inserido (territorialidade). O território é o ponto de partida e de chegada. Ensino libertador, pesquisa produtora de novos conhecimentos tecnológicos passíveis de serem transformados em extensão e extensão que ajude a transformar a vida das pessoas; 4) Estabelecer, através de uma educação democrática, uma cultura democrática. A construção da Lei 11.892 (29/12/2008) já adotou uma metodologia democrática, sendo definida coletivamente com os dirigentes dos CEFETs, Agrotécnicas e Escolas Técnicas vinculadas às Universidades. Passou pelo debate sobre o número de institutos, a localização das reitorias e dos campi, a definição dos cursos a serem ofertados através de discussão com as comunidades e a livre adesão dos CEFETs, Agrotécnicas e vinculadas às Universidades. Eleições diretas, paritárias e uninominais para os dirigentes e autonomia dos campi. Há, portanto, uma cultura democrática no DNA dos IFs. Uma instituição democrática teria que, necessariamente, ser constituída de forma democrática; 5) Criar uma cultura de atuação em Rede, como forma e estrutura de funcionamento e organização, interagindo e laborativamente “construindo a trama de suas ações tendo como fios as demandas de desenvolvimento socioeconômico e o desenvolvimento social” (PACHECO, 2011, p. 57). Opõe-se, desta forma, à cultura isolacionista e individualista muito forte na universidade clássica;

6) Vertebrar o Ensino Médio em nosso país, estabelecendo vínculos com as escolas públicas, especialmente as de Ensino Médio, compartilhando espaços, equipamentos e contribuindo na formação de docentes. As licenciaturas têm um papel central, neste objetivo; 7) Estabelecer vínculos com os Movimentos Sociais, por reconhecer neles fontes de conhecimentos através de sua práxis; 8) Estabelecer vínculos com as comunidades onde os campi estão localizados, participando da vida destas e contribuindo para o enfrentamento e solução de seus problemas; 9) Implementar a Certificação de saberes não formais adquiridos ao longo da vida, podendo, inclusive, acreditar outras instituições para a mesma tarefa.

II) FUNDAMENTOS QUE ESTRUTURAM A AÇÃO DOS IFs  

1) A VERTICALIDADE, que extrapola a simples oferta simultânea de cursos em diferentes níveis, em organizar os conteúdos curriculares de forma a permitir um diálogo fecundo e diverso entre as formações de diferentes níveis e modalidades. Implica na implantação de fluxos que permitam a construção de itinerários formativos entre os cursos da EPT; 2) A TRANSVERSALIDADE, diz respeito ao diálogo entre educação e tecnologia. Este é o elemento transversal presente no Ensino, na Pesquisa e na


3) A TERRITORIALIDADE, trata do compromisso com o desenvolvimento soberano sustentável e inclusivo de seu território de atuação. O IF e o Campus são parte de um território e protagonistas do mesmo.

III) PRINCIPAIS REFERÊNCIAS TEÓRICAS QUE ORIENTAM A PROPOSTA DOS IFs

Os IFs foram uma construção coletiva, coordenada pela SETEC/MEC, sob a direção maior do ministro Fernando Haddad. Participaram todos os dirigentes dos CEFETs, Agrotécnicas, Escolas Técnicas vinculadas às universidades, especialistas e pensadores da EPT. Sua referência básica é Marx, com sua concepção de Educação Integral, vinculando-a ao mundo do trabalho e à importância deste na construção do conhecimento, a POLITECNIA. Marx procura demonstrar a indissociabilidade entre teoria e prática, tendo por objeto interpretar o mundo e transformá-lo em benefício dos trabalhadores. Nesta linha, os educadores soviéticos do período revolucionário, Pistrak, Makarenko e Vigotski, foram importantes por terem sido os teóricos da primeira experiência de uma educação voltada aos trabalhadores. Entre os brasileiros, Paulo Freire é sempre uma influência marcante, quando se pensa numa proposta pedagógica progressista, assim como Anísio

Teixeira, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes. Entre os contemporâneos, Demerval Saviani, Gaudêncio Frigotto, Lucilia Machado, Jaqueline Moll, Roseli Caldart, Marise Ramos e Maria Ciavatta foram leituras e/ou diálogos permanentes e importantes.

IV) PRINCÍPIOS EDUCATIVOS NORTEADORES, NA CRIAÇÃO DOS IFs

1) A FORMAÇÃO HUMANA INTEGRAL, que trata de superar a divisão dos seres humanos entre os que pensam e os que trabalham, produzida pela divisão social do trabalho. Objetiva formar o cidadão capaz de compreender os processos produtivos e qual o seu papel nestes processos, incluindo as relações sociais estabelecidas a partir daí. Estas relações ocorrem dentro de um determinado processo histórico, onde o trabalho em busca das necessidades materiais e subjetivas, possibilita ao ser humano construir novos conhecimentos. A formação humana omnilateral inclui o trabalho, a ciência, a cultura e a educação esportiva ou física. A educação humanística é parte inseparável da educação técnica e tecnológica, em todos os campos em que se dá a preparação para o trabalho.  A Educação Integral é princípio educativo básico e identidade fundante dos IFs. Supera a Educação tradicional que propõe educação geral de qualidade para as classes dominantes e formação profissional para os trabalhadores, separando teoria e prática, ciência e tecnolo-

gia, pensar e fazer. O Ensino Médio Integrado (EMEI) é a expressão curricular da Educação Integral, possibilitando uma formação que contemple todas as dimensões do ser humano, não fragmentando a compreensão dos fenômenos naturais e sociais, articulando os currículos com as práticas sociais, superando a simples aquisição de habilidades instrumentais, sem a compreensão de seu papel no processo produtivo. Busca superar a contradição entre trabalho intelectual (teoria/ciência) e trabalho manual (técnica/ execução). Busca usar condições para que o educando seja capaz de produzir ciência, tecnologia e arte, integrando o saber acadêmico com o saber popular.

Palavras Maiores

Extensão, entendendo a organização da EPT por eixos tecnológicos. Envolve também o diálogo entre disciplinas, cursos, diferentes campi, Institutos e com a sociedade, objeto central de toda a ação educativa;

2) O TRABALHO ENQUANTO PRINCÍPIO EDUCATIVO, parte indissolúvel da formação Humana Integral, busca superar a dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, incorporando a dimensão intelectual ao trabalho produtivo. O objetivo é formar trabalhadores capazes de serem dirigentes. Ao se envolver no processo produtivo, o homem desenvolve sua compreensão das relações sociais do mundo. O currículo integrado organiza o conhecimento e desenvolve o processo de ensino–aprendizagem de modo a que os conceitos sejam apreendidos como parte de um sistema de relação de uma totalidade concreta que se pretende explicar/compreender. O trabalho torna o homem um ser singular que, ao exercê-lo buscando sua subsistência, encontra nele uma fonte de descobertas, conhecimento e de desenvolvimento das forças produtivas, elemento dinamizador

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Palavras Maiores

das transformações econômicas, sociais e políticas. Enquanto fonte de conhecimentos, ele permite compreender os processos geradores do mesmo, a divisão social, a formação das classes, a apropriação e desapropriação dos saberes, assim como das riquezas produzidas coletivamente, mas apropriadas privadamente. Só o trabalho consegue vincular o Plano da Necessidade com o Plano da Liberdade. O trabalho alienado é um produto do capitalismo.   3) A PRÁTICA SOCIAL COMO FONTE DE CONHECIMENTOS, o conhecimento não é produzido pela especulação teórica, nem pela simples percepção, mas pela prática refletida e, posteriormente, transformada em teoria. O conhecimento está vinculado à natureza social do homem e seu desenvolvimento histórico, ou seja, à prática social, e lutas entre as classes e camadas sociais e a sua inserção no processo produtivo. Todo o conhecimento tem um olhar ideológico e este é determinado pela posição do indivíduo na estrutura de classes da sociedade. A prática social envolve, além da atividade produtiva, a luta social, a vida política, a vida cultural e científica e demais atividades da vida em sociedade. O dimensionamento de qualquer teoria ou conhecimento só é possível através do contato com o mundo real, da prática social. Entretanto, através da prática se tem apenas a percepção das coisas, o aspecto fenomenológico, as partes em separado, as relações e aspectos externos, sem condições de elaborar conceitos. Na medida em que a

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prática social se aprofunda, se formulam os conceitos. Estes traduzem na teoria a essência, a totalidade das coisas e suas relações internas, superando a simples percepção, a simples aparência, o empírico. Isto chama-se conhecimento lógico. Estas duas fases do processo de construção do conhecimento são igualmente importantes, embora qualitativamente deferentes. “Nossa prática prova que percebido não pode ser imediatamente compreendido e que somente o que é compreendido pode ser mais profundamente percebido” (ZIZEK, 2008, p. 70). Na sociedade escravista seria impossível desvendar as leis das sociedades feudal ou capitalista, porque estas formações econômico-sociais ainda não tinham surgido, sendo impossível a prática social que possibilitasse este conhecimento. Este é inseparável da experiência direta. Entretanto, desta resulta a elaboração teórica, transformando conhecimento perceptivo, empírico, em conhecimento científico. Nem a prática nem a teoria podem, isoladamente, produzir conhecimento. Tanto o empirismo como o academicismo são insuficientes para a compreensão da realidade e dos fenômenos sociais ou políticos. Nos meios acadêmicos, muitas vezes, se pensa que através da abstração teórica ou no isolamento dos gabinetes e laboratórios se pode produzir conhecimento. Este academicismo é muito forte em alguns programas de pós-graduação de nossas universidades, impactando na formação dos docentes que vem trabalhar nos IFs, os quais, algumas vezes, tentam reproduzir uma cultura academicista, incompatível com a natureza dos Institutos. O problema é que esta cultura academicista vem acompanhada de uma ideologia pequeno-burguesa, indivi-

dualista, onde a preocupação central é com sua carreira solo, secundarizando o projeto institucional e seu compromisso social. Este processo que ocorreu nas universidades tem que ser evitado pelos IFs.

V) ALGUNS DESAFIOS PARA OS IFs 1) Enfrentar o novo, com o novo sendo criativos, ousados e inovadores; 2) Consolidar sua institucionalidade, definindo conceitualmente o que é um IF, para além da definição legal; 3) Entender o significado de Educação Integral, Ensino Médio Integrado, Formação Humana Omnilateral, Politécnia; 4) Ensino, pesquisa e extensão, enquanto atividades integradas, coletivas e participativas, presentes em todos os níveis; 5) Criar um novo tipo de licenciatura, unindo teoria e prática, presente nas atividade de todos os níveis de ensino do IF; 6) Integração com a sociedade, através de seus projetos e da criação de tecnologias sociais; 7) Relação com as demais redes públicas, especialmente as de Educação Básica; 8) Atuação em Rede; 9) Certificação de saberes não formais; 10) Manter e ampliar a qualidade;


IFPR Campus Telêmaco Borba

11) Democratizar o acesso e cuidar da permanência; 12) Confrontar a hostilidade dos governos conservadores e neoliberais. Os IFs são a mais ousada e criativa política educacional já experimentada em nosso país. É o que se aproxima daquilo que Freire chama de “Inédito Viável”. Fruto de um debate democrático, envolvendo os CEFETs, Escolas Técnicas vinculadas às Universidades e Agrotécnicas Federais, coordenado pela SETEC/MEC e pelo ministro Fernando Haddad, os IFs se tornaram a mais importante iniciativa governamental da história educacional brasileira. Este debate foi intenso, mas conduzido pelo firme propósito de construir uma nova institucionalidade, comprometida com os trabalhadores, os excluídos e com um Projeto de Nação Soberana e Inclusiva, rompendo com o elitismo das políticas historicamente implementadas no país. Estranhamente, as maiores resistências vieram das entidades sindicais, ANDES e SINASEFE, que, apesar de uma retórica de esquerda, assumiam uma postura conservadora. Naturalmente, tudo isso foi possível porque estávamos em um governo que passou a investir pesadamente na educação, não faltando recursos para estas políticas. O orçamento para

o MEC, em 2003, era de R$ 18,1 bi, pulando para R$ 54,2 bi em 2010 - quase triplicou em oito anos do governo Lula. Se considerarmos até 2016, ano do golpe contra a presidenta Dilma, chegamos a R$ 100 bi. Nunca a educação brasileira foi tão priorizada. Hoje, os IFs, em apenas 10 anos, se constituíram numa referência de qualidade em todas as regiões do país, chegando a mais de 600 unidades. Eles são a síntese de uma história da Rede Federal, de mais de século, que somou a experiência da REDE com uma criatividade inovadora, capaz de constituir uma nova institucionalidade, inédita em todo o mundo, que se expandiu extraordinariamente sem perder a qualidade. Cabe um registro também aos então dirigentes da Rede Federal que, na sua esmagadora maioria, aderiram à proposta dos IFs e foram protagonistas na sua construção. Devemos todos sermos orgulhosos desta política, pois ela foi uma obra coletiva, realizada em um período de grande apoio governamental à educação brasileira.

OBRAS CITADAS: PACHECO, Eliezer. Institutos Federais. Uma Revolução na Educação Profissional e Tecnológica. São Paulo: Fundação Santillana/Moderna, 2011. ZIZEK. Slavoj. Apresenta Mao: Sobre Prática e a Contradição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Eliezer Pacheco é um dos idealizadores e criadores dos Institutos Federais - IF’s.

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DESASSOSSEGOS

ENTREVISTA

com Wander Wildner

Desassossegos - Você parece uma pessoa que está sempre em movimento, como diz uma de suas canções “está sempre pronto pra partir”. O que mais te desassossega atualmente?

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Sim, sou uma pessoa que está sempre em movimento, porque isso é inerente ao ser humano. O ser humano deve estar sempre

Foto de Fernanda Chemale - Acervo particular de Wander Wildner

W

ander Wildner é um artista independente, nos diversos sentidos da palavra, quando colocada no contexto de arte, produção e divulgação. Mas, principalmente, naquele mais importante, que coloca o sujeito como livre de qualquer sujeição, senhor das próprias escolhas. Por essa razão, sua carreira solo, que conta com 12 álbuns até agora, é diversificada e ousada, porque desafia qualquer rótulo. Punk rock, pop rock, brega...? Não importa! Irônica, romântica, reflexiva, crítica, escarnecedora, perplexa, inquieta… Sim, isso sim, e às vezes tudo junto e misturado. Ex-vocalista de uma das bandas mais influentes do punk rock nacional, Os Replicantes, Wander Wildner é dono de uma carreira de 30 e tantos anos, com dezenas de álbuns lançados. A voz de Surfista calhorda, Papel de mau e Problemas gentilmente conversou por e-mail com Desassossegos, no final do ano de 2018. Aqui, o artista e a pessoa se revelam em comunhão com a ideia de criação como expressão do sujeito no momento presente, livre de amarras, rótulos ou compromissos políticos.

“O ser humano deve estar sempre criando alguma coisa, essa é a função dele no universo.”

criando alguma coisa, essa é a função dele no universo. Se ele não criar nada, ele não é humano, é uma pedra. Não crio por desassossego, crio por gosto e por necessidade. Na sua trajetória, suas letras sempre chamaram atenção pela forma objetiva de ver e levar a vida, seja no uso da ironia na crítica, seja no tratamento de temas como o amor e o cotidiano. Essas são características muito

presentes nas músicas mais populares e também nas chamadas “bregas”. Até que ponto o punk tem a ver com esse estilo mais “povão”? E pensando em influência, se compararmos os anos 80 com a atualidade, o punk e o rock se afastaram do “povão” ou foram engolidos pela indústria da música? As músicas que crio têm a ver com o momento que estou vivendo. As músicas que


Considerando que você fez parte do momento histórico mais efervescente do punk nacional com Os Replicantes, como você enxerga o espaço desse rock de protesto na atualidade? Os Replicantes sempre fizeram e fazem punk rock, diferente de ser punk. Nas duas épocas em que participei dos Replicantes, nós fazíamos músicas que mostravam nossa visão de mundo no estilo punk rock, nada além disso. Hoje, eu apenas crio músicas, gravo, lanço e faço shows, essa é minha forma de me relacionar com as pessoas, e só absorvo o que me faz bem, sem gastar energia com protestos. Em seu mais recente trabalho “De gritar me cansei rouco e ao pensar no mundo me vi louco” encontramos um Wander mais suave melodicamente, mas ainda perplexo e inquieto. Em termos de ideias, no que o processo de composição desse disco se parece com o que Wander Wildner fazia no passado? Uma vez punk sempre punk ou os tempos mudaram e você encontrou nova forma de expressão artística? Na verdade, meu trabalho mais recente são os 5 singles que já lancei esse ano, após o álbum De gritar me cansei rouco e ao pensar no mundo eu me vi louco, que estão no meu site https://wanderwildner.bandcamp.com/. Esses singles fazem parte do disco que vou lançar no início de 2019. No disco de 2018, nenhuma música foi composta por mim, é um disco de intérprete. Não sou nem nunca fui punk, apenas fiz punk rock. Como disse antes, minha for-

ma de interpretar tem a ver com o momento que estou vivendo quando faço o álbum. Suas canções são carregadas de ironias e contrastes e, por essa razão, acabam por ser mais expressivas. Em maio de 2017, em São Paulo, você foi protagonista de uma polêmica numa de suas apresentações, em que foi acusado de machista e racista. A seu ver, quais seriam as fronteiras entre a liberdade de expressão e a reeducação para situações que achávamos “normais”? O “politicamente correto” pode ser uma armadilha para compositores?

Desassossegos

criei no passado tinham a ver com como eu vivia no passado. Estou sempre me transformando, então, hoje, crio músicas que têm a ver com como estou vivendo agora. Não tem nada a ver com punk ou povão, tem a ver somente comigo e minha relação com o universo.

Fui acusado por um dono de bar num post pós show. Logo em seguida eu disse que tinha sido um mal entendido, que não sou racista nem machista. Ele retirou o post. Mas as pessoas, que não estavam no local, se deixaram levar pela situação e me julgaram e me acusaram. Uma pena. Mas foi um aprendizado, pois serviu para eu perceber como as pessoas, na sua maioria, no Brasil, estão sendo enganadas pela mídia, pelo poder. A fronteira hoje e sempre é demarcada pelo conhecimento. Por quanto e por qual conhecimento você adquire. Você é um artista bastante produtivo e independente. São mais de 30 anos de carreira e mais de 17 álbuns lançados. Você considera que o advento da Internet e das Redes de fato democratizaram a produção artística? Quais os desafios e vantagens para se manter uma produção independente e de qualidade por tanto tempo como você faz? A internet é uma ferramenta eficaz hoje em dia e sempre surgirão novas ferramentas. Sigo criando música enquanto essa fonte fornecer subsídios. Mas, além de música, crio várias outras coisas durante o meu dia. Coisas que fazem eu ser quem eu sou e viver como vivo.

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òcios

Astro-apagado

João Anzanello Carrascoza

Q

Ilustração Olivia da Silva Marsola

uando ela apareceu, eu resplandecia como nunca, era o dono de quase tudo ali, minhas botas sorviam as terras que eu pisava, eu as arrastava comigo como raízes, por alqueires-e-alqueires, minhas mãos abraçavam o céu, e nele eu ordenava o tom de azul, a configuração das nuvens, a hora da tempestade. Mas, abaixo das minhas camadas, não havia sol nenhum, eu vivia a miséria de estar-preso não ao mundo dos outros, mas ao meu-mesmo, à mentira-máxima que me cabia, como o cinto-de-couro-grosso que eu usava, a fivela no primeiro-furo, a segurar, milagrosamente, a barriga-exuberante. Nos meus olhos, igual o dedo que chama, comanda, obriga, capaz de fazer todos se ajoelharem à minha frente, capaz de extirpar a verdade grudada ao silêncio ou oculta sob a roupa das palavras, nos meus olhos tão verdes, que até as folhas-das-árvores invejavam, nos meus olhos tão-seguros-de-si, ela, já na primeira ancoragem, viu na luz que emitiam o meu pedido-de-socorro. Desde o instante em que ela apareceu, como se egressa do nada, e disposta a tudo, eu soube que não vinha pelo meu gado, pelas minhas lavouras, pelos meus tratores, pela minha usina de álcool-e-açúcar, vinha simplesmente por vir, certa da minha avidez de moenda, da lâmina em brasa do meu desejo, do saara que as patas dos meus cavalos semeavam, vinha simplesmente pela minha (contraditória) natureza. E vinha não para me salvar, que eu era e seria, tanto quanto ela, um condenado, vinha

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òcios como a agulha-da-bússola vem ao imã, a água-doce ao rochedo, o osso-do-ombro à cruz. Quando ela entrou na casa-grande, quase sem tocar os degraus da escada, como se erguida pela música das esferas, o assoalho da sala – maculado com o barro de meus passos e o ferro de minhas esporas –, abriu-se feito um oceano aos seus pés, humildes e pequenos na sandália rasteira; os tapetes se enrolaram, vermelhos, a um canto dos cômodos, já sem serventia; as fotos dos meus erros amarelaram nos porta-retratos sobre os móveis; as janelas, às avessas, mostraram à paisagem lá fora a vida que dentro vicejava; os espelhos multiplicaram, em seu caminhar pelos corredores, o meu rosto de espanto. A sua chegada me acendeu uma fogueira, a sua voz me deu fome de canção, o seu corpo ao passar regava o meu olhar seco, os seus lábios cerziam a minha carne rasgada, a sua língua serpenteava pela minha pele – enquanto eu batia a cabeça na quina da razão! –, a sua boca de café me tomava de assalto com beijos inesperados de manhã, os seus gestos me lançavam entre a fé e o milagre. Quando ela apareceu, a água-da-nascente começou a ter sede da minha garganta, os meus ouvidos rugiam quando a espada de sua voz se desembainhava do silêncio. Movediça se tornava a areia que eu percorria com as pedras dos meus pés, abertas se tornavam as rosas que eu colhia com os espinhos de minhas mãos, quando ela apareceu. O seu jeito-fugidio passou a durar em mim o dia todo, o mundo queria me viver, eu precisava de cada uma de suas partículas que esvoaçavam, como poeira, à luz-do-sol, quando ela apareceu. Quando ela apareceu – e, em pouco tempo, alargou os meus estreitos –, eu já havia desistido de ouvir nas ondas do mar no meu sangue,

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òcios

eu queria continuar me esgotando às minhas margens, eu só admitia a inundação dos meus desertos. Quando ela apareceu, eu deixei de mastigar, grão-a-grão, a minha vontade de exílio, eu retrocedi um passo e saí do fogo em que me afogava, eu me transformei na tarde anterior à noite que eu era, eu não mais velei o sono das belas-adormecidas nem saltei do meu cavalo de príncipe-desencantado; eu voltei, de repente, a me sentir um menino, mirando o voo dos pássaros, quando ela apareceu. Quando ela apareceu, o universo-se-refez-em-meu-ser, com todos os seus astros, as suas constelações e as suas nebulosas. Mas um dia – era o destino – ela-desapareceu. João Anzanello Carrascoza é escritor.

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Revista Desassossegos vol 3  

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