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EDITORIAL

Rumo ao Ocidente Foto: Divulgação A imprensa ocidental costuma dar mais espaço a um espirro de um príncipe-herdeiro britânico, do que às profundas transformações culturais, políticas e econômicas em andamento na China. Desde que, em 1986, culminando mudanças políticas anteriores, o Partido Comunista chinês abandonou o materialismo histórico e adotou a tese da “construção de uma civilização espiritual socialista”, muita água correu sob as pontes do rio Yang-tsê. Começou, então, a experiência única do “socialismo com características chinesas”, isto é, uma economia aberta com sistema político fechado. Hoje, o “Reino do Meio”, com 1,2 bilhão de habitantes, marchando celeremente rumo a uma “ocidentalização,” mas mantendo valores e práticas tradicionais, alcançando notáveis estágios de prosperidade ao lado de mazelas sociais típicas das nações capitalistas, constitui-se num claro enigma: que papel representará o gigante asiático neste novo século? A pergunta torna-se particularmente dramática no momento em que os Estados Unidos da América do Norte emergem como potência hegemônica mundial e como tal vêm se comportando. Cidade de Zhuhai, novo pólo de Já no começo do século 20, o filósofo e esteta norte-americano desenvolvimento, ao sul da China Ernst Fenollosa, que foi professor de Filosofia na Universidade de Tóquio e curador de Arte Oriental do Museu de Belas Artes de Boston, vaticinou com notável intuição: “o problema chinês de per se já é tão vasto que nenhuma nação pode se permitir ignorá-lo”. É o que fazemos nesta edição, por meio de entrevistas com sinólogos, depoimentos de repórteres que lá estiveram, resenha de livros e uma exposição sobre as relações culturais Brasil-China. Outro tema que procuramos aprofundar, neste mês em que se realiza no Rio mais uma Bienal do Livro, é a questão do baixíssimo índice de leitura no Brasil. E ouvindo escritores, professores, livreiros e editores, detectamos um terrível círculo vicioso que faz com que sejamos lamentavelmente um país de poucas letras. Ao leitor, o resultado desse esforço de oferecer material atual, consistente e aprofundado, no grau esperado de uma revista dedicada aos temas culturais em sua multidisciplinaridade.

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Foto: Hans Manteufell

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CONTEÚDO

» 14 A leitura no Brasil

Foto: Reprodução

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Evans, o ex-rei de Hollywood

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CONVERSA

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08 Robert Evans conta como produziu O Poderoso

60 Ações e textos de Rubem Braga, o vermelho,

Chefªo e O BebŒ de Rosemary

no Recife Faulkner e o homem que está condenado a ser livre O entrelaçamento de poesia e teoria em Mário Chamie Poema de César Leal sobre a guerra

ESPECIAL 14 Os problemas da leitura no Brasil e o futuro do livro

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CINEMA

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Documentário capta sensibilidade do pianista Nelson Freire Marcélia Cartaxo dirige seu primeiro filme

do Iraque »

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TEATRO 40 Raul Cortez mostra que é ator completo em

do convencional A apropriação do maracatu pelas classes mais altas »

CAPA 48 A silenciosa transformação cultural e econômica da China Continente maio 2003

MEMÓRIA 84 O jornalista negro que era contra o abolicionismo

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COMPORTAMENTO 88 A presença dos jovens no tráfico das drogas

qualquer circunstância »

MÚSICA 78 Elomar escreve roteiro cinematográfico longe

HISTÓRIA 37 Lawrence da Arábia está na origem da criação

FILOSOFIA 73 Ortega e Gasset: a necessidade de se repensar

26 As teses filosóficas por trás de Matrix

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LITERATURA

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PRETO NO BRANCO 94 Quando o jornalismo torna-se uma vítima da guerra


Foto: Divulgação

CONTEÚDO

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Foto: Liu Jin/AFP

» 30

O piano de Nelson Freire no cinema

» 40

Raul Cortez, ator total

» 48

Foto: U. Dettmar/Folha Imagem

A nova China

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Colunas »

CONTRAPONTO|Carlos Alberto Fernandes 07 Comportamento dos americanos atualiza idéias de Marx

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MARCO ZERO|Alberto da Cunha Melo 24 Duas formas de crime organizado no universo da cultura

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TRADUZIR-SE|Ferreira Gullar 44 Gestos de rebeldia não costumam ir além do efeito momentâneo

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SABORES PERNAMBUCANOS|Mª Lecticia Monteiro Cavalcanti 74 O português, o índio e o negro em nossa culinária

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ENTREMEZ|Ronaldo Correia de Brito 86 A América de Whitman já não merece o canto do seu poeta

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DIÁRIO DE UMA VÍBORA|Joel Silveira 93 Seria João Cabral de Melo Neto um neurótico?

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ÚLTIMAS PALAVRAS|Rivaldo Paiva 96 Tudo que fica para a história é dívida que nunca se paga

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CRÉDITOS

Companhia Editora de Pernambuco – CEPE Presidente Marcelo Maciel Diretor Financeiro Diretor Industrial Altino Cadena Rui Loepert

Continente Multicultural

Conselho Editorial Presidente: Marcelo Maciel Conselheiros: César Leal, Edson Nery da Fonseca, Francisco Bandeira de Mello, Francisco Brennand, Joaquim de Arruda Falcão, José Paulo Cavalcanti Filho, Leonardo Dantas Silva, Manuel Correia de Andrade, Marcus Accioly Diretor Geral Carlos Fernandes Editores Executivos Homero Fonseca e Marco Polo Assistente de Edição Isabelle Câmara Arte Luiz Arrais e Gilvan Felisberto Ilustrações Zenival Edição de Imagens Nélio Chiappetta Revisão Maria Helena Pôrto Secretária Tereza Veras Colaboradores Alberto da Cunha Melo, Alexandre Figueirôa, Carol Almeida, César Leal, Daniel Piza, Fábio Lucas, Felipe Porciúncula, Fernando Monteiro, Ferreira Gullar, Joel Silveira, Kleber Mendonça Filho, Luciano Trigo, Marcelo Abreu, Maria Alice Amorim, Maria Lectícia Cavalcanti, Mariana Camarotti, Nelson Saldanha, Rivaldo Paiva, Rodrigo Carrero, Rodrigo Petrônio, Ronaldo Correia Brito Gerente Gráfico Samuel Mudo Gerente Comercial Alexandre Monteiro Equipe de Produção Ana Cláudia Alencar, Douglas Rocha, Claúdio Manoel, Elizabete Correia, Eliseu Barosa, Emmanuel Larré, Geraldo Sant’Ana, Joselma Firmino, Júlio Gonçalves, Lígia Régis, Mauro Lopes, Paulo Modesto, Roberto Bandeira e Sílvio Mafra Continente Multicultural é uma publicação mensal da Companhia Editora de Pernambuco Circulação, assinaturas, redação, publicidade, administração e correspondência: Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife/PE – CEP 50100-140 de 2ª a 6ª das 8h às 17h30 – Fone: 0800 81 1201 – Ligação gratuita Assinaturas: 3217-2524 ; assinaturas@continentemulticultural.com.br Redação: 3217.2533 ; fax: 3222.4130 ; redacao@continentemulticultural.com.br Editor: editor@continentemulticultural.com.br Diretor: diretor@continentemulticultural.com.br Webmaster: webmaster@continentemulticultural.com.br Tiragem: 10.000 Impressão: CEPE Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 Companhia Editora de Pernambuco ISSN 1518-5095 Apoio: Governo do Estado de Pernambuco Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da revista

Continente maio 2003

Maio Ano 03 | 2003 Foto: Divulgação

O que é mangue, afinal? Somente o excesso de apego — vício ilusório de nossos corações idiossincráticos — poderia explicar reações de tão extremada paixão ao meu artigo “O Movimento Mangue Beat e a Morte de Deus” (Continente Multicultural, Março / 2003 ). Não surpreende. Diz-se que o senhor de engenho considerava uma tremenda afronta o escravo preto ( e sujo ) aparecer na sua majestosa varanda. Aliás, no quesito “lamúrias” meus colegas Fred 04 e Renato L — “Todo poder às ruas” — (Continente Multicultural — abril / 2003) não ficam atrás, o que é, de certa forma, alentador. Sinal de que não fui abandonado à deriva ( e sozinho! ), no barco dos “amargurados e revoltados”, como sugeriu o jornalista Marcelo Pereira em sua coluna Rec-beat do Jornal do Commercio. Melhor assim. Em que pesem nossas diferenças, fica patente a necessidade de irmos todos à luta. Zeroquatro e Renato L também cometem alguns equívocos no artigo que escreveram — “Todo poder às ruas” — em resposta ao meu. Senão vejamos. Em primeiro lugar, fica a grande questão: o que é “mangue,” afinal??? O “chip antipadronização” leva a tudo e a todos para o mesmo balaio? Ou seja, Lia de Itamaracá, Sá Grama, Comadre Fulozinha, Textículos de Mary, os Ambrósios, DJ Dolores, tudo isso é mangue? Se, como eles próprios disseram, “não há quase nada em comum entre as sonoridades de tais artistas”, então o que é “mangue” afinal? Um rótulo como Benetton, que serve para a camisa e o carro de Fórmula 1? Da mesma forma, é “exclusividade” do mangue todo o poder que vem das ruas, seja ele o Alto José do Pinho, Peixinhos ou os Quatro Cantos de Olinda? Parece fora de dúvida que o mangue tenha sido o propulsor de toda essa recente e saudável agitação, mas (in)felizmente essa paternidade não é fruto que se reivindique monogâmico. A cria das ruas e seu poder inerente já estavam lá, muito antes do mangue fazer sua história. Por fim, o fato de alguns músicos ligados à cena terem participado do meu disco, não quer dizer nada.Todos os que convidei são, sem dúvida, músicos de excelente calibre, mas não haveria razão para que se recusassem a gravar ao lado de um cantor, também ele da melhor estirpe. Vale lembrar que também estiveram presentes no referido CD — o Astrolábio — músicos da cena jazz, do movimento Armorial e até da vertente clássica. Fui ao encontro do mangue, como fui ao de outras expressões estéticas, não para me mimetizar, como se carecesse de identidade ou buscasse uma suposta forma de abrigo, mas antes para, com a graça irremovível de quem se quer incondicionalmente livre, poder voar mais alto. Geraldo Maia — Recife — PE


CARTAS Frevo Não fiquei surpreso ao ler, na revista Continente Documento número 7, a matéria assinada por Adriana Dória Matos “Carnaval é como um rio”.Afirma a jornalista que no livro Brincantes (que não está na bibliografia), segundo pesquisa de Leonardo Dantas, a palavra frevo já existia no ano de 1907. Na verdade, muitas das informações do pesquisador Leonardo Dantas Silva são de minha pesquisa, inclusive esta que trata do aparecimento da palavra Frevo em 1907. Na Antologia do Carnaval do Recife (Mário Souto Maior e Leonardo Dantas Silva), no estudo introdutório escrito por Leonardo, há esta informação: “que o vocábulo frevo já se encontrava presente em 1907, segundo demonstra Evandro Rabello, em artigo sobre Osvaldo Almeida”. Para quem não sabe, Osvaldo Almeida foi um jornalista que atuou em jornais recifenses. Muita gente acredita e divulga que foi ele quem batizou com o nome de frevo a importante música recifense. Mas não foi, segundo a minha exaustiva pesquisa. Evandro Rabello — Recife — PE Ótima A revista Continente é ótima. Vocês estão de parabéns por suas excelentes publicações, mostrando a cultura de nosso imenso Brasil! Alexandre Evangelista da Silva — por email Importante Muito importante a coluna de Carlos Fernandes (“Contraponto”, edição de janeiro) que aborda a importância e influência da cultura na nossa sociedade, coincidindo com o tema da 3ª Bienal da UNE, que aborda principalmente a cultura popular, retomando o verdadeiro valor da nossa riqueza cultural. Marcos Antonio Tenório — Recife — PE Excelente Parabenizo o excelente trabalho desta equipe de redação para com a cultura de Pernambuco, através dos trabalhos apresentados na Revista Continente, Valéria Moraes — Recife — PE Consumidora Gostaria de parabenizar a Revista Continente pelas excelentes matérias. Sou consumidora delas. Fernanda Souza — Recife — PE Espetáculo Gostaria de parabenizar toda equipe da Continente por este espetáculo de revista, que nos prestigia a cada edição, com ricas informações e fotos de extrema qualidade. Só tenho elogios! Seria de fundamental importância a divulgação não só em nosso país, como lá fora. Gostaria de acrescentar que tenho enviado edições para amigos no Canadá e Espanha.

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Conceição Cavalcanti — Recife — PE

redacao@continentemulticultural.com.br

Pêsames Nunca vi tanto espaço perdido pra tamanha asneira (artigo “O movimento manguebeat e a morte de Deus”, edição de março). E olha que nem escuto o tal de manguebeat. Meus pêsames, Geraldo Mala. Rogério Andrade — por e-mail

Revista Continente: Rua Coelho Leite, 530 Santo Amaro, Recife-PE CEP 50100-140

Completa Sei que todos vocês da revista devem estar cansados de receber elogios. No entanto, acredito que faz bem parabenizar um trabalho muito bom! A revista é realmente excelente e completa! Sem preconceito, aborda os diferentes tipos de cultura! Desejo o maior sucesso, sempre! Tatiana — por e-mail Impecável Gostaria de parabenizar a revista pela sua qualidade, pelo seu conteúdo, enfim, por ela inteira. Realmente, ela é impecável e é, sem dúvida, motivo de orgulho para qualquer pernambucano. Flávia Roberta de G. do Nascimento — Recife — PE Os esquecidos Neste imenso país de meu Deus, aparecem milhares de artistas com suas obras e poucas delas são deles próprios. Na Continente, foi explorada no texto “O silêncio dos usurpados “ (edição de março) a exclusão dos verdadeiros artistas; não quero aqui desmerecer Luís Gonzaga, por tudo que fez pela verdadeira música sertaneja, quero, sim, falar dos compositores que foram esquecidos ou que nunca apareceram na mídia. Quando se comentou sobre o absolutismo supremo do intérprete que se apodera de tudo que canta, exemplo claro foi a pergunta: “Você ouviu a última música de Elba Ramalho”? Quando procuramos a música “Aconchego” (de Nando Cordel e Dominguinhos), nunca a achamos com o nome do compositor, e sim, com referência a Elba Ramalho. Quando procuramos a música “Ouro Puro” (de Niceas Drummond — que ninguém sabe quem foi ou o que fez para a música popular brasileira), achamos também referência a Elba Ramalho. Não quero desmerecer também Elba Ramalho pelo seu trabalho e luta para chegar onde chegou, mas quero saber da mídia, das gravadoras, de todos que fazem a música popular, quem foram e o que fizeram Zé Dantas, Humberto Teixeira, Zé Marcolino, Zé Mikilis, Niceas Drummond e tantos outros que são os verdadeiros “Reis” da música, e que ficaram esquecidos no labirinto do tempo. José Henrique Vespasiano Borges — Recife — PE Lacuna Parabenizo pela qualidade da Revista, que

Redação: 81 3217-2533 – 81 3222-4130 fone/fax

vem preencher uma lacuna no meio editorial de Pernambuco e do Brasil. Sonia Maria Leite Cortez — Recife Perfil Quero parabenizá-los pelo excelente trabalho que realizam nessa batalha heróica, que é editar uma revista de perfil multicultural em nosso país. Parabéns, mesmo!!! André Frank — Recife — PE Beleza Tenho 29 anos,estou no 7º período do curso de Letras e moro na cidade de Arcoverde.Gostaria de parabenizar a equipe da Continente pela excelente matéria da edição da Continente Documento nº6, sobre “A Poesia Popular do Nordeste” e os comentários esclarecedores dos poetas Ésio Rafael e Wílson Freire, sobre a Arte do Repente. Causou-me grande satisfação ler uma revista séria e preocupada em desmistificar a idéia de que o Nordeste é somente seco e triste. Parabéns! Espero ler outras reportagens com tamanha beleza. Edson Roberto — Arcoverde — Pe. Cor A Revista Continente existe. Agora, uma revista cultural, um gol de placa! Precisávamos de uma leitura mais contundente sobre as diversas culturas; avaliarmos a vida dos grandes escritores, escultores, dos artistas que expõem o belo, o sentido do mundo das artes. Assuntos que constroem a imagem da vida. Chega do sensacionalismo, da exploração humana, da desgraça, da miséria em troca do lucro... A vida parece ter cor. E esta cor está na Continente Multicultural. Almésio Nascimento — por e-mail Liêdo Maranhão Conheci O homem o sexo e a miséria, ou o homem é sacana (Matéria “O escriba dos excluídos”, edição de abril), na época de faculdade. A julgar pela matéria que acabei de ler, vejo que pensei que que o autor estivesse em outra! Se ele continua entre nós, que venha abraçar as prostitutas da Tobias Barreto etc., etc., etc. José Souza — Recife — PE Errata A atriz retratada na matéria “Hipérion”, na edição de março, é Regina Cel e não Karl Lacte. Continente maio 2003

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CONTRAPONTO

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Carlos Alberto Fernandes

Bush ressuscita Marx As forças que movem a História são os fatores econômicos e tecnológicos

A guerra do Iraque veio materializar idéias, há muito dominantes na cultura republicana americana, representadas por um liberalismo econômico neo-conservador que incorpora um capitalismo desumano e predatório. Essas idéias são acompanhadas de manifestações de ódio e de medo, inspiradas pelo 11 de setembro onde os fins justificam quaisquer meios, como descrevia Nicolau Maquiavel nas folhas lúcidas de O Príncipe. Confrontando esse comportamento, vê-se o ressurgimento das idéias de Karl Marx quando defendia que as forças que moviam a história eram os fatores econômicos e tecnológicos, onde se inclui, nestes últimos, a indústria bélica (ávida por investimentos e gastos). Para Marx, a luta e a violência aparecem como essência da história. A mudança e o progresso históricos são resultados do confronto de classes que representam os interesses econômicos conflitantes. Nessa peleja, os esforços individuais dos oprimidos significam muito pouco. A história da humanidade deve, portanto, ser estudada e considerada sempre em relação à indústria e à tecnologia para a produção de bens. O modo de produção dos bens e a distribuição da riqueza explicam as mudanças históricas e constituem a base de toda a cultura de uma nação. Tendo chegado ao poder numa eleição polêmica, o Presidente Bush tem invertido a ordem legal em diversos episódios de seu Governo; seja para afrontar países nas relações comerciais ou multilaterais, seja para ferir a ética de preservação ambiental ou beneficiar grupos e setores econômicos com a diminuição de impostos e concessão de subsídios, contrariando todas as premissas do liberalismo econômico, historicamente pregadas pelos americanos como dogmas para a comunidade internacional. Diz-se ainda que, por trás das invasões do Iraque, estão os interesses das companhias de petróleo anglo-americanas, a ordem financeira internacional e a estratégia de dominação geopolítica do governo republicano. Internamente, essas ações se inspiram nas pressões dos grupos neo-conservadores, em função dos sofríveis índices de crescimento econômico e na proximidade das eleições presidenciais. Diante disso, fica também explícito que, como advertia Marx, a classe dotada de poder econômico também controla o Estado.

Nesse sentido, por analogia, a nação que controla a produção/tecnologia também tem o poder de controlar a produção mental, na medida que as idéias da classe dominante tornam-se predominantes na comunidade internacional, a exemplo do Consenso de Washington, enfeixado de teses liberais conservadoras mas, com uma omissão plena da responsabilidade social. O capitalismo, com sua sociedade de consumo, nascido da união entre a revolução industrial e a revolução moral protestante, tinha como objetivo trazer felicidade para as pessoas. Na realidade o que se vê é esse ideário produzindo a barbárie. Jogando na sarjeta séculos de cultura humanitária. Produzindo cadáveres, vítimas de bombas e das Ilustração: Zenival lutas ensandecidas pelo poder. Esse comportamento imperialista dos americanos, tendo como pretexto o terrorismo, torna atuais as teses de Marx, na medida que contraria as teses liberais do Estado Mínimo, considerando que os oprimidos ficariam à mingua de um poder moderador que só o Estado poderia exercer. As liberdades individuais — que já caem por terra — não podem sobreviver ao aumento da marginalização política das nações e aos discursos imperiais embutidos nas políticas unilaterais. A felicidade, pelo menos para a periferia, vai demorar um pouco. Esse capitalismo idolatrado pelas elites conservadoras republicanas, além das muitas mazelas sociais, incluindo a violência urbana, nos traz aflições como o tédio, a inveja e a competição predatória, o medo do desemprego para os que estão empregados e, simplesmente, o medo, para os milhões que não conseguem emprego. A humanidade tem que compreender que o centro da história é o homem, em sua dimensão total, o indivíduo que vive num mundo real que está longe de ser ideal. A história, não é só o espírito aspirando a auto-realização, mas pessoas humanas que devem cumprir seu potencial humano. Esse capitalismo, que produz guerras para sobreviver e manter a hegemonia do poder, produz,como defendia o próprio Marx, um outro tipo de pobreza: a pobreza do espírito humano. Pobreza pior não há. Carlos Alberto Fernandes - Diretor Geral da Revista Continente Multicultural.

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CONVERSA Foto: Reprodução

O pai do bebê de Rosemary Em entrevista exclusiva, Robert Evans conta como produziu os clássicos O Bebê de Rosemary, O Poderoso Chefão e sucessos de público como Love Story Kleber Mendonça Filho O produtor e ex-rei de Hollywood, Robert Evans, 73 anos, tem aquela voz de uísque-nicotina, provável resultado de um milhão de doses on the rocks e quantidade de cigarro nos pulmões e garganta suficiente para intoxicar a população de Los Angeles durante um dia inteiro. Conversar com Evans comprova a idéia recorrente de que o cinema faz parte do nosso estofo cultural e pessoal. Foi ele quem considerou Roman Polanski uma aposta interessante para dirigir produção sua, O Bebê de Rosemary (1967). Deu a Francis Coppola a Continente maio 2003

Foto: Mychele Daniau/AFP

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CONVERSA

“Hoje em dia, os estúdios oportunidade de fazer O Poderoso Chefão 1 e 2; tirou o estúdio Paramount do buraco com o melodrama Love Story e casou com a estrela do filme, Ali McGraw. É são conduzidos por considerado um dos grandes responsáveis pela última grande fase de Hollywood, meninos formados em fase que inclui ainda Chinatown, produzido por ele e dirigido por Polanski. Para administração. Não quem esteve num topo como esse, o único caminho possível era descer. Filmes são lembrados como se fossem organismos vivos e é sempre intrigante sabem o que é um filme, conhecer pessoalmente os responsáveis por esses filmes. O ponto de interesse é conhecem apenas exatamente a distância que existe entre o cinema e o real. No caso de Evans, a fórmulas. Quando sugeri sensação é forte, pois fica difícil separar cinema de realidade. Ele esteve no Festival o nome de Polanski para do Rio BR, no final do ano passado, promovendo o documentário The Kid Stays in the Picture (O Garoto Fica no Filme, tradução literal), de Nanette Burnstein e Brett dirigir O Bebê de Morgen, relato em primeira pessoa sobre sua vida e cinema. O filme celebra seus Rosemary, o dono da altos com a mesma honestidade que examina seus baixos. Paramount disse: Você É um registro pessoal, adaptado do seu livro de mesmo título transformado em áudio book. É narrado pela voz já gasta dessa figura, o mesmo material do áudio book, quer que um polaco faça que se abre com a frase, creditada ao próprio Evans, “toda história tem três lados: o esse filme?" meu, o seu e a verdade; e ninguém está mentindo. Memórias compartilhadas servem a cada parte individualmente”. Esse produtor visionário, responsável por mesclar perfeitamente lucro com arte, no final dos anos 60 e início dos 70, é um poço de idéias que nos ajudam a entender os mecanismos básicos do cinema americano, as mazelas da fama e do ego, a máquina cruel e bem azeitada de Hollywood. Evans não é apenas um velho produtor, é um personagem cinematográfico. Vendo-o andar com certa dificuldade (sofreu derrame há dois anos) na área da piscina no Copacabana Palace, vem à mente Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1951), crônica amarga sobre Hollywood que Billy Wilder imortalizou. Ali, a atriz do cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson) vive de glórias passadas dentro de uma mansão, mundo artificial que ela ordenou que parasse no tempo. Ao ouvir gente de festival referir-se a Evans como “aquele velho”, comentando maldosamente a estranha cor da sua pele — resultado de anos de bronzeamento artificial — e me soltarem a informação de que nenhum jornalista, que cobria o evento, interessou-se em entrevistá-lo, a lembrança de Desmond é inevitável. Discreto, na piscina do Copa em 2002, Evans foi “descoberto” na piscina do hotel Beverly Hills, na década de 50. Era um bonito e rico vendedor de lingerie, início de carreira emblemático

Cartazes de Chinatown e O Poderoso Chefªo, ambos produzidos por Robert Evans (na página ao lado, tendo ao fundo o cartaz de outra produção sua, O BebŒ de Rosemary)

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Foto: RV/AFP

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10 CONVERSA

“O tipo de filme, que fazem hoje para o público jovem, tem como bíblia, histórias em quadrinhos, daí você tira. Quando um gibi vira bíblia numa indústria, podemos imaginar o estado dessa indústria. Além disso, naquela época eu ganhava pouco, daí não me importava se perderia, ou não, o emprego” Fotos: Photos 12/AFP

Evans deu um baile em Coppola: “Você tem um épico nas mãos. O que você me mostrou é só uma novela. Vá trabalhar!”

Continente maio 2003

para alguém que sempre teve ao seu lado as mais belas mulheres de sua época. Virou ator e chegou a trabalhar como astro numa grande produção do não menos lendário produtor Darryl F Zanuck (da 20th Century Fox), O Sol Também se Levanta (The Sun Also Rises, 1957), de Henry King, no papel do toureiro Pedro Romero. Durante as filmagens, a atuação de Evans era tão madeiriça que Ernest Hemingway (autor do romance homônimo), os atores Tyrone Power, Ava Gardner e Eddie Albert pediram a cabeça do jovem canastrão num abaixo-assinado. Zanuck analisou a situação, viu copiões de cenas com Evans e respondeu bravamente: The kid stays in the picture!!. Evans abandonou a tentativa de estrelato e, nos anos 60, foi chamado para assumir a direção da Paramount, do conglomerado Gulf + Western, que estava à beira da falência. Transformou o estúdio numa casa de força, com estratégias consideradas incomuns de produção, como dar carta branca ao então desconhecido Polanski e ordenar que Coppola acrescentasse uma hora à primeira versão de duas horas de O Poderoso Chefão. Deu um baile em Coppola, esbravejando: “Você tem um épico de três horas nas mãos, Francis. O que acabou de me mostrar é uma novela de duas horas. Vá trabalhar!” Sua imersão em O Poderoso Chefão custou-lhe seu casamento com McGraw, esquecida por ele no Texas durante as filmagens de Os Implacáveis (The Getaway, 1972), de Sam Peckinpah. Evans descobriu tarde demais que sua esposa passara a dormir no trailer de Steve McQueen, astro do filme e o maior nome do cinema comercial na época. Evans narra o episódio com dor e pesar no documentário, dizendo ter ouvido de McGraw, ao telefone, a seguinte resposta ao seu pedido tardio de visitá-la no Texas: “Você perdeu esse vôo já faz muito tempo, Bob”. Evans continuou na Paramount nos anos 70, produzindo thrillers de qualidade como Maratona da Morte (Marathon Man, 1976), de John Schlessinger, e Domingo Negro (Black Sunday, 1977), de John Frankenheimer, até seu contrato ser cancelado depois de ser preso numa operação do FBI, que utilizou Evans como isca, durante uma negociação para a compra de grande quantidade de cocaína, em 1981. Sua carreira entrou em rápido declínio. Cotton Club, produção sua dirigida por Francis Coppola, foi um desastre de bilheteria. Ao sentar numa das mesas externas do Copacabana, Evans, de boné e usando um dos seus notórios 150 pares de óculos escuros, pergunta: Como é que a gente começa?. Eu respondi: “Não sei, acho que com um elogio verdadeiro”. Por que tantos filmes importantes num período tão rico no cinema americano?” Bom começo. Porque as coisas não eram tão caras. Hoje em dia, os estúdios são administrados por meninos formados em administração de empresas ou direito. Não sabem o que é um filme, conhecem apenas fórmulas. Quando eu sugeri o nome de Roman Polanski para a direção de O Bebê de Rosemary, o então dono da Paramount disse: “Você quer que um polaco faça esse filme?” Depois de uma semana de filmagem,


CONVERSA 11 » Roman estava atrasando as filmagens. Tive que me impor e é aí que vem essa sensação de que não há muito o que perder. Poderíamos ter saído eu e ele. Sou e sempre fui um rebelde. Não há mais rebeldes hoje na indústria, hoje é tudo uma corporação, é a preocupação da manhã de segunda-feira, quando todos querem saber qual foi a renda do final de semana. Não há mais programação, mas sim uma lavagem gigante. Eu tenho pena dos diretores jovens hoje, com filmes sendo lançados em quatro mil cinemas. Isso não é comércio, é exploração. Eu não saberia fazer um filme sobre ETs que saem do ouvido de uma pessoa; se soubesse estaria rico. O tipo de filme, que fazem hoje para o público jovem, tem como bíblia, histórias em quadrinhos, daí você tira. Quando um gibi vira bíblia numa indústria, podemos imaginar o estado dessa indústria. Além disso, naquela época eu ganhava pouco, daí não me importar se perderia, ou não, o emprego. Hoje, todos são supergratificados, daí ninguém querer perder o emprego. Eu arrisquei meu emprego mais vezes do que penteava o cabelo. “Vocês não querem fazer O Poderoso Chefão? Aqui está a minha demissão”. “Não querem fazer Love Story? Me demito”. Na época, O Chefão custou seis milhões de dólares, custaria mais de 100 milhões hoje em dia. Chinatown custou três milhões, duzentos e cinquenta mil dólares. Esse seria o salário de Faye Dunaway hoje. Fiz um filme de que gosto muito, foi escrito por um surfista e dirigido por um homem que apreciava LSD na sua dieta diária (Hal Ashby). Tinha uma mulher de 80 anos de idade e um garoto de 18 anos de idade, nos papéis de Harold & Maude (Ensina-me a Viver). Ninguém filmaria isso hoje, num estúdio, se todo o dinheiro estivesse disponível. Ninguém iria distribuir o filme. É um mundo diferente, que avança e você é obrigado a avançar também. Se ficar parado, levam você lá para trás, e isso vai do trabalho às suas relações no amor. Quando eu tinha a sua idade, achava que nada poderia me deter, e estava errado. O que lhe deteve? Tensão, ego, uma vida louca de dia e de noite. Acho que regras foram feitas para serem quebradas, e quebrei todas elas. O resultado disso veio recentemente, três derrames que me ensinaram muita coisa. Nada como um derrame para te dar um novo ângulo para ver a sua vida. Qual sua idéia principal de como um filme deve ser? O cinema americano é o único produto fabricado nos EUA que é número 1 em todos os países onde é vendido no mundo. Nunca tirei esse pensamento da cabeça ao fazer filmes. É muita responsabilidade. Nos anos 50, Darryl Zanuck me disse: “Menino, se você quiser ser um produtor, faça filmes que, em duas horas, façam o público rir e chorar. Aí, terá sucesso. São filmes que privilegiam “como você está” ao invés de “onde aquilo está”. Acredito na celebração do indivíduo, e ninguém é mais “indivíduo”. É preciso sentir o cheiro da emoção e provocar lágrimas honestas, provocar o riso.

Evans também produziu filmes alternativos, como Ensina-me a viver (no alto) ao lado do noir sofisticado Chinatown (acima)

“O cinema americano é o único produto fabricado nos EUA que é número 1 em todos os países onde é vendido no mundo. Nunca tirei esse pensamento da cabeça ao fazer filmes. Darryl Zanuck me disse: Faça filmes que, em duas horas, façam o público rir e chorar. Aí, terá sucesso”

Como produtor, dava importância à palavra da crítica?

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12 CONVERSA

Evans produziu Love Story para conquistar a desconhecida Ali McGraw (na foto ao lado de Ryan O'Neal). Depois de virar estrela, ela trocou-o por Steve McQueen, maior nome do cinema comercial da época

Sempre. Hoje, a crítica me parece redundante. O que pode ser dito de um filme que é lançado em quatro mil cinemas? Na minha época, um grande lançamento como O Chefão entrava em 40 cinemas, isso quando não eram quatro salas. A palavra da crítica era importante na construção da imagem do filme ao longo da sua carreira. Posso lhe dizer também que a reação que tenho tido por The Kid Stays in The Picture é a melhor da minha carreira desde Chinatown. Ressenti-me algumas vezes das mais duras, claro, adotei naturalmente as positivas. Aprendi muito com as críticas sérias, negativas ou positivas. Sou convidado para dar palestras e seminários em universidades como UCLA (Universidade da Califórnia Los Anges) e USC (Universidade do Sul da Califórnia) e sempre falo da importância da crítica, não apenas no cinema, mas em tudo, em qualquer indústria. Qual a sua relação com os filmes que fez? Como vê O Poderoso Chefão, depois de tanto tempo? São filmes e sei que viraram propriedades das pessoas, isso é belo. Veja Love Story, por exemplo, o maior afrodisíaco que o mundo já viu. Depois desse filme (“sobre um casal apaixonado, e ela morre de leucemia”), houve um surto de gravidez no mundo todo; essa informação é estatística, as pessoas sentiam-se tocadas e passavam a pensar na possibilidade de perder os seus amados e amadas. Eu viajava de Londres a Paris, Roma e Atenas, Tóquio e Hong Kong observando os jovens nas filas ao redor dos quarteirões. Rapazes levavam uma menina diferente a cada noite para ver o filme! Foi uma emoção para mim ver o mesmo cara repetindo o filme com meninas diferentes! Foi o filme que salvou a Paramount. Por dólar gasto e dólar arrecadado, acho que ainda é o maior lucro do estúdio. Custou menos de dois milhões de dólares e arrecadou 200 milhões. Arthur Hiller só dirigiu o filme para tapar buraco, ele nem gostava da história. Eu fiz o filme para poder conhecer a menina (McGraw), que trouxe a história para o estúdio. Fiz o filme para

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CONVERSA 13 agarrá-la, nunca escondi isso de ninguém, nem dela. Nunca achei O Chefão tão violento como disseram ser. E O Chefão? Um filme maior, mais prestigiado. O estúdio não achava que seria mais popular do que Love Story. O Chefão foi baseado num livro, o livro de Love Story foi escrito durante as filmagens! Coisas de Hollywood. Terminou sendo best seller de capa dura! O Chefão é uma ópera e tinha uma brutalidade operística. Ao mesmo tempo, era real. Quando Marlon Brando morre, as pessoas se emocionam, é um patriarca carregado de história. Você chora por um criminoso assassino. Foi o primeiro “filme de máfia” que virou um grande sucesso. Desde então, nenhum outro “filme de máfia” atingiu sucesso semelhante. Os filmes de Scorsese certamente têm sucesso de crítica, mas não de público, e isso explica-se pelo fato de não serem óperas. É também um dos exemplos mais felizes que já tive o prazer de poder me envolver, profissionalmente, nas categorias direção, atuação e escrita. O Bebê de Rosemary? Roman Polanski é o melhor diretor com quem já tive o prazer de trabalhar. Envolvi-me em 300 filmes, e ele é o número 1. É um polaco gigante, não obstante o seu problema de altura. Fizemos Rosemary e Chinatown juntos. Faz filmes sem efeitos especiais, como Rosemary, apenas com o poder do cinema, do silêncio. E lhe digo isso porque nem sei muito bem sobre o que é Chinatown, mas sei que é um grande filme. Qual sua reação ao saber que queriam transformar sua vida num filme, se sua vida, de qualquer forma, é toda uma série de filmes? Eu disse “tudo bem”, mas que faria questão de ganhar pelos direitos. Além de ganhar dinheiro de graça, eu achei que eles não conseguiriam fazer nada de muito bom. Não queria uma vitrine, uma puxada de saco. Quando vi o filme, fiquei me contorcendo de dor na alma. Todos os meus grandes erros de vida estavam lá. Comecei a ver que isso poderia ser uma inspiração para muita gente, porque eu sou capaz de voltar a ser enfocado, de estar novamente dentro do enquadramento. O filme me fez ver que não tenho paciência nenhuma de ouvir gente mais jovem reclamando que não consegue mais voltar ao que era, jovens que se sentem por baixo. Não é um filme sobre a indústria do cinema, é um filme sobre aparecer, sobre ser visto pela câmera. Como vê a recepção ao filme? Não importa a altura ou a largura dos ombros do homem. A espessura da pele é sempre a mesma, fina. Esse filme é especial para mim porque esse filme sou eu. Cada coisa que você faz com amor tem parte importante de você, mas esse aqui é a minha pessoa e a minha vida. E ver que as pessoas se emocionam e talvez até aprendam alguma coisa com os meus erros e a minha vida é algo que me deixa atônito, feliz. Esses últimos seis meses têm sido tão emocionantes quanto épocas da minha vida que considerava o topo da minha carreira. Tudo isso ficou muito claro nas minhas viagens com o filme, de Sundance a Chicago e Nova York. Em Cannes, tivemos uma ovação de 15 minutos, uma das maiores recepções que já tive em toda a minha carreira. E isso ocorre quando sou já um septuagenário. É alucinógeno sentir-se tão alto a essa altura.

Robert Evans atrás das câmeras. Para ele, toda história tem três lados: “O meu, o seu e a verdade”

Kleber Mendonça Filho é crítico de cinema..

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Um país de poucas

letras

Um círculo vicioso, formado por vários e complexos fatores, faz com que o Brasil tenha poucos leitores de livros Rodrigo Carrero

Nos últimos dez anos, os brasileiros seguem comemorando a queda crescente dos índices de analfabetismo. Entre 1991 e 2001, pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam que a taxa de analfabetismo caiu de 20,1% para 13,6% da população. Tudo isso levaria a crer que o Brasil estaria, finalmente, próximo de se tornar um país de leitores. Mas, na prática, isso não vem acontecendo. Os hábitos de leitura do brasileiro médio estão mudando — se muito — a uma velocidade infinitamente mais lenta. E o mercado editorial passa por um período recessivo que vem se revelando muito complexo para todos os profissionais envolvidos com o livro como material de trabalho: editores, escritores, distribuidores, críticos e livreiros. Os números não mentem. A última pesquisa de fôlego, realizada para identificar o perfil do leitor nacional, Retrato da Leitura no Brasil, divulgada em dezembro de 2001, envolvendo 5.980 entrevistas em 46 cidades, deixa claro que existe, sim, um grande potencial de crescimento do mercado editorial brasileiro. A pesquisa, patrocinada em conjunto por Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), Câmara Brasileira do Livro (CBL), Associação Brasileira dos Editores de Livros e Associação Brasileira dos Fabricantes de Papel e Celulose, mostra que o público de leitores, no Brasil, chega a 26 milhões de pessoas. Esse número é equivalente aos leitores somados de Espanha e Portugal, ou 11% a mais do que os leitores existentes na França. Um índice desses deveria ser motivo de comemorações. Pois não é. A rigor, esse total representa apenas 30% dos 86 milhões de leitores em potencial (pessoas com mais de 14 anos, que são alfabetizadas, segundo os dados do IBGE) existentes no país. Pior: dos 26 milhões de pessoas que afirmam Continente maio 2003


Foto: Hans Manteufell

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se interessar pela literatura, apenas 17,2 milhões têm acesso efetivo ao livro; nada menos do que nove milhões de pessoas não lêem porque não têm dinheiro para gastar com livros, ou moram em cidades onde não existem livrarias e bibliotecas. Entre os que vivem nos grandes centros metropolitanos, o problema é outro. Somente 12 milhões de brasileiros estavam lendo no momento da pesquisa. Esse segmento alega falta de tempo e dinheiro para isso. São índices desconcertantes. “Existem dois Brasis convivendo num mesmo espaço. Uma elite sofisticada, com índices de leitura semelhantes aos do Primeiro Mundo, e um grande contingente de pessoas mal alfabetizadas, que não lêem pelos mais diversos motivos”, analisa o diretor comercial da editora Summus, José Henrique Grossi. “Os problemas são muitos. Se individualmente se mostram complexos, no conjunto formam uma barreira muito difícil, que somente será vencida com a conjugação de esforços de toda a cadeia produtiva. O livro interessa e atinge apenas uma pequena faixa da população, portanto, as tiragens são baixas, o custo unitário é alto, vende pouco, as tiragens continuam baixas. A produção se elitiza, pouca gente lê, as tiragens são baixas, o custo unitário é alto, e assim por diante”, resume o vicepresidente da CBL, Marino Lobello. O atual presidente do SNEL e dono da editora que leva seu sobrenome, Paulo Rocco, tenta resumir os motivos dessa estagnação do mercado editorial em duas expressões: baixa escolaridade e pequeno poder aquisitivo. “Os problemas do Brasil afetam diretamente o mercado editorial; o problema da leitura está diretamente ligado à realidade socioeconômica do Brasil. Pobreza e analfabetismo são duas chagas reais. A população só vai ler mais quando tiver acesso a boas escolas e mais empregos”, aposta. A análise dos dados da pesquisa nacional, comparada aos índices exibidos por França e Estados Unidos — os dois países que lideram as estatísticas de leitura no planeta — desnuda essa dupla face do mercado editorial. Os 17,2 milhões de leitores existentes hoje no Brasil lêem, em média, seis livros por ano (a taxa fica entre sete e nove, na França). Esse índice é comemorado pelos editores, mas todos sabem que as taxas poderiam ser maiores. José Henrique Grossi lembra, por exemplo, os nove milhões de leitores potenciais que não têm acesso ao livro. “Temos uma demanda reprimida que poderia ser rapidamente alcançada, mas ainda não conseguimos atender a esse público”, lamenta. O SNEL e a CBL calculam que poderiam dobrar o faturamento do setor — de R$ 2,2 para R$ 4 bilhões anuais — se conseguissem tornar o livro atraente para esse setor da população.

O negócio do livro Do ponto de vista editorial, o problema é complexo. Em 2001, dados da CBL mostram que foram vendidos 299 milhões de livros no Brasil. Dez anos antes, esse número era de 290 milhões. Estagnação? Sim e não. Houve grandes mudanças, embora pareçam imperceptíveis. Em 1990, 22.490 novos títulos chegaram às livrarias nacionais. Em 2001, esse número quase dobrou, estacionando em 40.900 lançamentos. O editor Samuel Leon, sócio da Iluminuras, acredita que isso reflete uma estratégia praticada pelas grandes livrarias: o livro novo é usado como capital de giro. “O livro fica nas prateleiras durante três meses, depois é devolvido à editora e sai de catálogo. O leitor não Continente maio 2003

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Bibliotecas são absolutamente fundamentais. Afinal, o brasileiro médio não tem dinheiro para comprar livros, que é um artigo considerado supérfluo.

Antônio Torres, escritor

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o encontra mais. A loja não possui espaço físico para guardar muitos livros, por isso faz um pedido de poucos exemplares. A ela, interessa apenas o livro recém-lançado”, reflete Leon. A questão da mídia é outra faceta do problema. Com tantos lançamentos chegando ao mercado, as revistas, jornais e cadernos especializados em literatura — outro segmento que vive uma crise perpétua — não têm espaço para resenhar tudo. “A falta de veículos especializados na discussão do livro como produto rentável, tanto econômica quanto intelectualmente, faz parte do rol de problemas vividos pelo mercado editorial como um todo”, atesta Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho (PR). Se poucos livros ganham resenhas, menos ainda ilustram anúncios publicitários. “Os jornais brasileiros estão repletos de propagandas de revendedoras de automóveis, mas a publicidade do livro é muito rara”, ironiza a professora de Teoria da Literatura da UFPE, Luzilá Gonçalves. Na realidade, o mercado editorial não investe na publicidade. Editoras raramente anunciam nos jornais, e livrarias também dispensam esse luxo. Mesmo as grandes megalivrarias (como Saraiva, Sodiler ou Cultura, por exemplo) preferem investir em outros meios, como a Internet. O fenômeno das megalivrarias, aliás, merece uma pausa especial para reflexão. Surgidas na década de 1990, elas provocaram um abalo no mercado editorial e atiraram as pequenas lojas para um nicho de mercado minúsculo.”Grandes redes são boas, pois estão em todo lugar. E são ruins, por terem o máximo de lojas com o mínimo de estoque e oferta”, alerta

o presidente da União Brasileira dos Escritores, Cláudio Willer. A concorrência com as megalivrarias tem obrigado os livreiros a recorrer a estratégias diferentes para não naufragarem. “As pequenas livrarias precisam buscar um público cada vez mais segmentado, atendendo a assuntos específicos, além de investir na qualidade do atendimento, com vendedores que conheçam os livros”, afirma Pietro Wagner, proprietário da pequena livraria Kriterion, especializada em literatura, artes e filosofia e localizada num dos bairros mais tradicionais do Recife. “A pequena livraria precisa se especializar em atender o leitor que mora no próprio bairro. Precisa ter catálogo e acervo que ele não encontra na megalivraria”, reflete Lameck Araújo, dono da recém-inaugurada Pernambooks, no bairro da Boa Vista, no Recife. Araújo, aliás, afirma que a segmentação é um caminho trilhado também pelos distribuidores regionais. Responsável pela distribuição de dezoito editoras nacionais, nos nove Estados do Nordeste, Lameck confirma a grande crise por que passam as pequenas livrarias da região. “Tenho 300 livrarias nordestinas cadastradas, mas negocio com apenas 85 delas. As demais estão inadimplentes, portanto fica difícil fazer negócio. Até mesmo os livreiros que pagam em dia enfrentam dificuldades, porque as megalivrarias os atiraram na crise” diz, sem rodeios. A própria distribuidora regional enfrenta problemas, pois não fornece livros para as grandes livrarias, que compram em grande quantidade, diretamente

Maurício Coutinho/Divulgação

É evidente que o papel da literatura é outro no mundo contemporâneo e é evidente também que esse papel é menor do que há 100 anos. Mas a literatura vê suas possibilidades ampliadas a partir das conexões com a cultura da imagem.

Ângela Prysthon, professora de comunicação

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Foto: Léo Caldas/Titular

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Em centenas de cidades do interior não existe uma única livraria ou biblioteca

Distribuição, o ponto fraco

A distribuição é nosso calcanhar de Aquiles, pois existem pouquíssimas livrarias no Brasil. As características do mercado, com a valorização excessiva dos lançamentos, são um reflexo dessa situação.

Paulo Rocco, editor

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A precária rede de distribuição brasileira é, na verdade, um dos aspectos do mercado editorial que mais preocupa os especialistas. “A distribuição é nosso calcanhar de Aquiles, pois existem pouquíssimas livrarias no Brasil. As características do mercado, com a valorização excessiva dos lançamentos, são um reflexo dessa situação”, explica Paulo Rocco. Além disso, a falta de livrarias e a escassez de bibliotecas públicas emperram o crescimento do mercado. Não é demais lembrar que nove milhões de brasileiros poderiam estar lendo, se tivessem acesso aos livros. Boa parte deles permanece longe do livro por falta de poder aquisitivo, mas outra dessa fatia do mercado simplesmente mora em cidades onde as livrarias e bibliotecas não existem. Os dados da CBL mostram que existe, no Brasil de hoje, um total de 2.008 livrarias, a maior parte delas concentradas nas Divulgação

às editoras, e organizam redes de distribuição autônomas. Com isso, a vendagem de livros caiu brutalmente no Nordeste. Lameck e Tiago Coutinho, os dois homens responsáveis pela distribuição na região, garantem que vendem apenas entre 100 e 200 exemplares de um lançamento, cuja tiragem média gira em torno de três mil cópias. “São tantos lançamentos que as livrarias pedem um ou dois livros de cada autor, pois preferem investir na quantidade de títulos”, explica Tiago. O baixo número é confirmado pelo escritor Raimundo Carrero, vencedor do mais prestigiado prêmio brasileiro, o Jabuti, em 2000. “Meu livro Sombra Severa é adotado nos vestibulares do Recife há cinco anos, e até hoje não vendeu nem seis mil exemplares”, atesta.


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Enquanto se constroem ou reformam prédios públicos – bibliotecas muitas vezes belas –, esquecem de comprar e, sobretudo, de atualizar os acervos com regularidade.

Affonso Romano de Sant'Anna, escritor

regiões metropolitanas, em volta das capitais. O número de bibliotecas públicas chega a 4,8 mil, a maioria em cidades de grande e médio porte. Como o Brasil possui, segundo o IBGE, 5.507 municípios, a conclusão é simples: há centenas de cidades onde os possíveis leitores não encontram sequer um local onde possam alugar — ou comprar — livros. “Bibliotecas são fundamentais. Afinal, o brasileiro médio não tem dinheiro para comprar livros, que é um artigo considerado supérfluo”, argumenta o escritor carioca Antônio Torres. “A biblioteca pública desempenha papel fundamental na popularização do livro. Ela significa o livro gratuito na mão do povo, simboliza o acesso efetivo do público de baixo poder aquisitivo ao hábito da leitura”, escreveu o ex-secretário do Livro e da Leitura do Ministério da Cultura, Ottaviano de Fiore di Cropani. O escritor Affonso Romano de Sant'Anna, que dirigiu a Fundação Biblioteca Nacional durante seis anos, é um árduo defensor dessa linha de raciocínio, e faz uma autocrítica.”Não existe no Brasil um projeto de política do livro e da leitura, a médio e longo prazo, embora durante seis anos eu tenha lutado por isto. Foi tudo sempre descontínuo”, admite. Para Sant'Anna, contudo, a centralização administrativa vem piorando a situação. “Quando dirigi a FBN, lancei o projeto Biblioteca Ano 2000, que consistia em unir três partes de um triângulo: o livro, a leitura e a biblioteca. Criamos um programa de incentivo à leitura, o Proler, que se instalou em centenas de cidades; criamos o Sistema Nacional de Bibliotecas, que reuniu mais de três mil delas e fazia reuniões municipais, estaduais e nacionais. Mas essas ações acabaram esvaziadas, em prol de uma política que acumulava poder em Brasília”, diz Affonso, sem meias palavras. Affonso também defende a tese de que ocupantes de cargos executivos no Brasil estão pouco ou nada interessados em ações educacionais de base, que costumam ter pouca visibilidade. Por isso, enquanto constroem ou reformam prédios públicos – bibliotecas muitas vezes belas –, esquecem de comprar e, sobretudo, de atualizar os acervos. “Não encontrei um governador, nem um só prefeito que tinha posto em seus orçamentos dinheiro para compra de livros para suas bibliotecas. Às vezes faziam prédios, mas paravam por aí. Inaugurar uma biblioteca dá votos, mas equipá-la com livros não”, dispara. Nesse ponto, os editores se unem para exigir mais participação governamental no processo de compra dos livros. “O poder público precisa ampliar o número de bibliotecas com um acervo mínimo de novos lançamentos, o que poderia resolver, de uma só vez, dois graves problemas: esse ato aumentaria a tiragem dos livros, com a conseqüente redução de seu custo unitário nas livrarias, e ampliaria o acesso da população aos livros” avalia Marino Lobello. José Henrique Grossi compara a situação brasileiro ao mercado editorial da França, considerado modelo: “Ao todo, 20% dos livros franceses são comprados pelas bibliotecas, enquanto no Brasil esse percentual é menor do que 1%”, exemplifica.

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Os jornais brasileiros estão repletos de propagandas de revendedoras de automóveis, mas a publicidade do livro é muito rara.

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Luzilá Gonçalves, escritora e professora de Teoria da Literatura da UFPE

Paradoxo e prazer A pesquisa Retrato da Leitura no Brasil revela números bastante expressivos sobre um paradoxo. Embora uma parcela de 60 milhões de brasileiros letrados revele não ter tempo, dinheiro ou vontade de ler livros, 89% deles reconhecem que a leitura é importante. Mais ainda: pretendem incentivar os filhos – as gerações futuras – a efetivamente ler. O romancista Raimundo Carrero é enfático: “A maioria das pessoas associa mentalmente o livro a um castigo; cinema e televisão, ao contrário, representam a diversão. É difícil remover essa barreira mental de um adulto. A forma de apresentar as crianças à leitura é que está errada. É preciso mostrar que livros oferecem prazer”, garante. Coincidência ou não, esse é um dos pontos que a pesquisa enfatiza com mais veemência: a necessidade de uma reforma educacional. “A sociedade deve estar preparada para cumprir um papel na formação de nossas crianças e adolescentes. O livro deve ser visto primeiramente e antes de tudo como uma opção de lazer. Nesse sentido, a leitura não tem que disputar espaço com outros meios de informação e entretenimento, mas conviver e se complementar com essas alternativas”, adverte Marino Lobello, da CBL. Tudo isso significa, claro, investir prioritariamente nas crianças e adolescentes. Os números da pesquisa mostram, de fato, que isso vem ocorrendo, mesmo que de forma tímida. Entre as idades de 14 e 19 anos, 45% dos brasileiros afirmam que lêem regularmente, um índice que cai progressivamente, à medida que aumenta a idade dos pesquisados; apenas 24% mantêm o hábito quando passam dos 40 anos. “Os índices de permanência e aprovação nas escolas públicas aumentaram muito nos últimos dez anos. A percepção de muitos editores é que teremos um futuro promissor, quando essa geração que hoje é adolescente virar adulta”, arrisca José Henrique Grossi. Essa posição, porém, não é unânime. O livrei ro Pietro Continente maio 2003

Wagner, por exemplo, acredita que os fatos de os jovens lerem mais não significa que eles adquiriram o hábito da leitura. Para Pietro, a juventude tem tendência natural a repetir os hábitos dos pais. Por isso, fica preocupado ao notar que os programas de incentivo à leitura têm apenas crianças e adolescentes como público-alvo. “O filho até pode ler, mas como não vê o pai lendo, acaba perdendo o hábito mais tarde. Percebo que a maioria esmagadora do público jovem que freqüenta a Kriterion tem pais que são leitores compulsivos”, constata. O próprio Ottaviano De Fiore, que exercia o cargo de secretário de Livro e Leitura até dezembro último, aponta outro fator complicador: parte dos jovens alfabetizados não consegue compreender frases longas, embora decifre o significado isolado das palavras. “Saber ler não é suficiente para ter-se familiaridade ou convívio permanente com a leitura. Todos os povos civilizados se caracterizam por possuírem uma massa crítica de leitores ativos, isto é, gente que desde criança adquiriu o hábito da leitura e todos os dias manipula com facilidade uma grande quantidade de informação escrita”, explica. Isso é fato: um levantamento feito pelo Instituto Paulo Montenegro (o braço sem fins lucrativos do Ibope) mostra que 76% das pessoas alfabetizadas no Brasil não conseguem compreender textos mais longos do que simples notas curtas de jornais. Essa camada da população se enquadra na categoria de “analfabetos funcionais”, que passou a ser usada pela Unesco, desde 1978, como um novo índice para medir a eficácia do aprendizado da leitura. Os “analfabetos funcionais”são pessoas que sabem ler e escrever de forma limitada e não conseguem utilizar essa capacidade no cotidiano. Esse problema, de fato, se revela um dos pontos centrais do problema da leitura no Brasil: o país tem menos analfabetos, mas parte desses novos alfabetizados não faz mais do que assinar o próprio nome e ler frases curtas. “A quantidade e qualidade do investimento público nesse campo é um tema político, em favor do qual a sociedade deve ser sensibilizada e mobilizada, pois definirá o futuro do país”, defende Cláudio Willer, da UBE.


Foto: Hans Manteufell

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O futuro da leitura As perspectivas para os próximos anos não são boas – e há muita gente que se mostra pessimista diante do futuro do livro. “Creio que a literatura vai passar, pelo século 21, pelo mesmo processo que a música erudita viveu no século 19: um progressivo esquecimento pelas parcelas mais largas da sociedade. Daqui a cem anos, só um grupo muito restrito de pessoas vai estar lendo”, acredita o escritor Raimundo Carrero. O motivo dessa previsão sombria, para Carrero, não é complicado. Ele acredita que a cultura ocidental, atualmente, se apóia em suportes de comunicação orais e/ou visuais, como a televisão e o cinema. “O ato de ver é natural do ser humano. Não precisamos pensar nem fazer qualquer esforço para ver. Já ler não é natural, exige que se pare, pense, reflita. Ninguém quer mais fazer isso”, lamenta. O crítico literário Harold Bloom, professor das universidades de Yale e New York, usa sua verve polêmica para ir direto ao ponto. “Tem havido uma enorme diminuição da leitura, em parte por causa da crítica politicamente correta, em parte porque é muito mais difícil para as pessoas lerem, quando são criadas na ‘tela’ – a televisão, computador e fil-

mes”, diz. Bloom tem uma resposta pronta para esse tipo de raciocínio: “Não existe apenas um modo de ler bem, mas existe uma razão precípua por que ler. Nos dias de hoje, a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria?”, reflete, logo no início do best seller Como e Por Que Ler. Será, então, que a sabedoria encontra-se apenas nos livros? A coordenadora do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco, Angela Prysthon, não pensa assim. “É evidente que o papel da literatura é outro no mundo contemporâneo e é evidente também que esse papel é menor do que há 100 anos. Por outro lado, a literatura vê suas possibilidades ampliadas a partir das conexões com a cultura da imagem. Não é sensato ser pessimista ou fatalista e achar que a literatura morreu. A literatura teve que mudar, simplesmente. E de fato, o papel da tela (do computador, do cinema, da televisão), e das promiscuidades e espontaneidades propiciadas pela tela, tem aspectos positivos e negativos”, acredita. Esse tipo de raciocínio encontra algum paralelo nos textos de Marshall McLuhan, um dos teóricos mais polêmicos da Continente maio 2003


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Ilustração: Luiz Arrais

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Tem havido uma enorme diminuição da leitura, em parte por causa da crítica politicamente correta, em parte porque é muito mais difícil para as pessoas lerem, quando são criadas na 'tela' - a televisão, computador e filmes.

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Harold Bloom, crítico

É preciso estimular a leitura nas escolas, o estudo da literatura, da filosofia, estimular o pensamento – porque é pensando e para pensar que se lê. José Castelo, escritor

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chamada ‘cultura da imagem’. Em Visão, Som e Fúria, escrito em 1954, ele defende abertamente a superioridade cultural do rádio e da televisão sobre o livro. “O livro impresso, de repente, liquidou com dois mil anos de cultura manuscrita. Criou o estudante solitário. Estabeleceu o predomínio da interpretação particular sobre o debate público”, escreve o criador da famosa expressão “aldeia global”. Ele imagina que a cultura escrita sempre estimulou o aprendizado mecânico, ao contrário da dialética do aprendizado oral. Resta-nos perguntar: e será que a televisão ou o cinema realmente têm ajudado os estudantes a refletir, pensar por si mesmos e entrar em debates com os colegas? E a Internet, um meio de comunicação relativamente novo, que veio alterar o panorama da ‘cultura da tela’ bem no meio da década de 1990? Grande parte dos profissionais, que lidam com o hábito de leitura, acredita que, após um certo período em que era vista como inimiga em potencial do livro, a Internet hoje pode se configurar como uma aliada – e isso de duas formas diferentes. Primeiro, a maior parte das informações disponibilizadas pela rede de computadores está, atualmente, no formato escrito. “Essa enxurrada de textos bons e gratuitos, disponíveis pela Internet, está aumentando o número de leitores”, aposta o escritor e tradutor Marcos Santarrita, “viciado” compulsivo em e-books – ele afirma que já baixou uma quantidade suficiente para ler nas próximas três vidas. Por outro lado, a Internet também está afetando o mercado editorial através dos sítios de venda de livros, como o popular Submarino, cujas vendas cresceram em 63% em 2002. Embora estatisticamente essas vendas respondam por apenas 3% das vendas globais, a própria pesquisa Retrato da Leitura no Brasil constatou que até mesmo os leitores das classes D e C – os mais pobres – já recorrem à rede de computadores para comprar livros; muitas vezes, volumes que não estão disponíveis nas livrarias mais próximas, que mantêm estoques baixos. “A Internet não deve mais ser vista como uma ameaça, mas como aliada, tanto nas facilidades para a distribuição de livros quanto no ato de agregar mais leitores, devido ao suporte escrito”, define Paulo Rocco, do SNEL. Com toda essa malha de fatores que se somam para agravar a recessão do mercado editorial brasileiro, é natural que a perspectiva para o futuro da leitura não seja das mais animadoras. Para o escritor José Castello, a palavra final na questão precisa ser dada pelos governos federal, estadual e municipal, através da elaboração efetiva de programas educacionais. “É preciso estimular a leitura nas escolas, o estudo da literatura, da filosofia, estimular o pensamento — porque é pensando, e para pensar, que se lê”, define. Rodrigo Carrero é jornalista


Leituras sobre a leitura Três livros recentes abordam questões relacionadas ao livro, com enfoques e épocas diferentes O negócio do livro - Responsável pela publicação de escritores do porte de Norman Mailer, Philip Roth e Gore Vidal, o editor Jason Epstein é uma legenda no mundo editorial americano. Neste livro, ele dá um valioso testemunho sobre as engrenagens dessa indústria e expõe idéias claras sobre a crise, os impasses e os desafios brotados das grandes fusões, novas tecnologias, surgimento das redes de livrarias, Internet e outros aspectos atuais. Apesar de reconhecer a gravidade e

seriedade dos problemas, Epstein acredita que a Web será uma aliada na difusão do livro e que as editoras pequenas e criativas terão seu espaço. “A este respeito, existem fortes motivos para otimismo” — conclui o velho e legendário editor.

A leitura rarefeita - Abordagem diferente é a de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, que enfocam com escrita leve e pesquisa séria a história literária do Brasil, dos princípios da nossa formação de nação periférica até final do século 19, quando se verificam a relativa profissionalização do escritor, o fortalecimento de um mercado editorial escolar e infantil, o aumento do número de escolas e o acirramento da discussão

sobre uma língua brasileira. É um apanhado erudito e prazeroso, capaz de trazer luz para nossa situação atual. As autoras também publicaram A formação da leitura no Brasil e O preço da leitura.

O livro e a leitura na Lei Federal de Incentivo - Aqui, temos um material de caráter essencialmente pragmático, com selo de qualidade. Trata-se de uma apresentação de uma série de projetos editoriais incentivados, representando uma amostra representativa de empreendimentos de importância literária e iconográfica que trafegaram, com sucesso, pelos corredores da burocracia dos incentivos federais. Seu público-alvo são os interessados em editar com patrocínio da Lei Rouanet. É um guia para os que necessitam de patrocínio financeiro para iniciativas culturais. A apresentação gráfica do livro é primorosa. “O livro e a leitura na lei federal de incentivo” Cristina Ramalho Metalivros, São Paulo, 2002 144 páginas, R$ 40,00.

O negócio do livro - Passado, presente e futuro do mercado editorial Jason Epstein Editora Record, Rio de Janeiro, 2002 170 páginas, R$ 23,00.

A leitura rarefeita - Leitura e livro no Brasil Marisa Lajolo e Regina Zilberman Editora Atica, São Paulo, 2002 144 páginas, 25,00.


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ZERO

Alberto da Cunha Melo

Açulando os piratas contra as multinacionais Piratas e grandes gravadoras são duas formas de crime organizado no universo da cultura

Começo com uma citação de alguém, do meu Estado, que vive metido neste negócio perigoso que é a cultura, o Fred 04, jornalista e vocalista da Banda Mundo Livre S.A., cujo último disco faz parte de negociações com gravadoras da Espanha, França, Itália, Portugal e Estados Unidos. Disse o menino Fred: “as gravadoras não só estão em pânico com a retração do mercado, como sentem pavor do crescimento da Internet.” Elas, as grandes gravadoras, perderam também metade do mercado, porque a produção pirata de CDs já está em 53% do produto distribuído, significando dizer que, para cada CD produzido legalmente, outro CD falsificado é colocado na mão do consumidor. Que elas vão para o inferno! E vou dizer por quê. As grandes gravadoras de discos fazem parte do que se convencionou chamar de a grande indústria cultural. O termo indústria cultural é uma contradição em termos, porque arte, artesanato e folclore (que são os conteúdos intrínsecos do conceito restritivo de cultura a que nos estamos referindo), são produção cultural e não reprodução em série do produto cultural, visando somente ao lucro, como é o caso, por exemplo, de gravadoras como a Warner Music do Brasil, EMI, BMG, e Sony Music, que acabaram de aumentar o preço dos CDs de R$25, em média, para R$29, quando o salário mínimo acaba de ser aumentado de R$200 para R$240. Mas, o que dizem essas gravadoras a quem justifica o crescimento da produção pirata de CDs ao preço extorsivo do mercado (diga-se, de passagem, que já comprei e compro, de vez em quando, um CD pirata por apenas R$5,00, menos de US$2, ao câmbio atual)? Que o preço do CD, no Brasil, estaria muito abaixo do que é praticado em outros países. Argumentavam, no ano 2000, que, enquanto o preço médio do disquinho, em nosso país, não passava de US$4,93, ele custava US$8,22, nos EUA, US$8,28 na Inglaterra e US$8,49, na Argentina. Mas, ao aumentarem, agora, o CD para R$29, com o dólar acima de R$3, realmente o CD brasileiro está acima de US$9. Eu não acredito nos argumentos, nem nos números de uma indústria espúria e corrupta como a do disco. As grandes gravadoras, principalmente as multinacionais, com metástases no Brasil, pagam algo em torno de US$20 mil mensais às grandes redes de rádio, para impor uma nova “música” no mercado. É sempre uma porcaria, que bloqueia a formação do bom gosto musical. Mascaram a propina, em todo o país, com o nome de “verba promocional” como denunciou Fred 04. Esse câncer que apodrece o tecido cultural brasileiro tem como cúmplices as redes de rádio e de TV, jamais comprometidas com o aperfeiçoamento cultural e estético do povo brasileiro, e que são uns lixos fantasiados de alta tecnologia.

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Ilustração: Zenival

MARCO ZERO 25

Se, como andam dizendo, a indústria fonográfica brasileira chegou ao fundo do poço, que este seja o mais profundo e ela desapareça de vez. Quem mexe com a cultura deve ter um compromisso moral ou espiritual com o país, porque não se pode brincar com o gosto estético de uma nação, não se pode impunemente formar um público de imbecis. Na verdade, a grande indústria fonográfica, no Ocidente, virou uma espécie mutante, de crime organizado, tanto quanto o da pirataria combatida pelo presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), Paulo Rosa. As gravadoras pouco estão se lixando para a qualidade artística do que reproduzem e enfiam lixo cultural de goela adentro na população. Querem somente o que chamam de produto de massa, isto é, algo parecido com bolo fecal. Enquanto o mercado fonográfico anda apavorado com a produção pirata e as matrizes das grandes gravadoras começam a substituir seus representantes no Brasil, ainda bem que o pessoal, comprometido com a ética e com a qualidade artística, cada vez mais amplia o número de gravadoras independentes. A crise das multinacionais talvez abra um claro para a produção do que há de melhor, e ainda escondido, na música popular brasileira. Em recente entrevista, o presidente da recém-criada Associação Brasileira de Música Independente (ABMI), Pena Shmidt, revelou que as produtoras independentes “geram muitos resultados com pouco dinheiro”, porque, segundo ele, predomina o critério de qualidade, de valorização de “novos e bons artistas”. Que os independentes se afirmem e as piratas afundem, cada vez mais, as multinacionais. Alberto da Cunha Melo é jornalista, sociólogo e poeta.

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Fotos: Divulgação

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As aventuras de Trinity (Carrie Anne-Moss), Morpheus (Lawrence Fishburne) e Neo (Keanu Reeves) transportam para a tela do cinema reflexões sobre a sociedade contemporânea


A filosofia de

Matrix

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Pensadores pós-modernos, e até Platão, estão por trás das lutas coreográficas e efeitos especiais do filme mais esperado de 2003 Rodrigo Carrero

Neo, um misto de hacker, traficante e profeta cibernético, caminha até a estante da sala e apanha um livro, aparentemente de forma aleatória. Não é um volume qualquer. O ato de abri-lo revela uma câmara falsa, um esconderijo para uma nova espécie de alucinógeno virtual, consumido por jovens clubbers que batem à porta do apartamento onde vive. Em meio às mais de 450 cenas que exigiram efeitos especiais, essa seqüência, presente logo no início do filme The Matrix (1999), pode parecer insignificante. Errado: a cena apresenta um dos momentos-chave para compreender o caldeirão cultural da mais influente obra de ficção científica dos anos 90. O universo de Matrix está de volta aos holofotes. O segundo capítulo da trilogia, que estréia no Brasil em 23 de maio, repete a mesma estratégia de “colcha de retalhos culturais”, responsável pela transformação do primeiro momento numa das obras mais cultuadas dos últimos tempos. O fenômeno Matrix ultrapassou as mais díspares fronteiras culturais. Nunca antes um filme de ação havia despertado o interesse de tribos urbanas tão distintas quanto filósofos e adolescentes viciados em videogame. O segredo desse múltiplo interesse parece estar no exótico coquetel de influências, misturadas num liquidificador virtual pelos irmãos norte-americanos Andy e Larry Wachowski. A dupla conseguiu reunir, em torno de uma trama coerente, elementos vindos das mais diferentes culturas. Referências populares e eruditas foram misturadas sem hierarquias. Tudo isso gerou um híbrido com características próprias. Mitologia greco-romana, referências bíblicas, zenbudismo, artes marciais, computação

gráfica, histórias em quadrinhos, música cyberpunk e literatura pulp (policial noir e ficção científica) foram reunidos numa colagem e embalados à base de couro negro e cintilante. Se a colcha de retalhos funcionou, porém, é porque foi erguida sob uma base sólida. E essa base, o alicerce do filme, está na filosofia. Os irmãos Wachowski conceberam o mundo de Matrix como uma materialização de um conjunto de conceitos filosóficos, abstratos e complicados demais para um público acostumado a uma dieta rasa de aventuras monocromáticas. As aventuras de Neo (Keanu Reeves), Morpheus (Lawrence Fishburne) e Trinity (Carrie Anne-Moss) transportam para a tela as reflexões sobre a sociedade contemporânea de pensadores do porte de Jean Baudrillard e Paul Virilio. Exatamente por isso, acabou sendo exaustivamente debatido nas universidades. Da semiótica à filosofia, da física quântica às tecnologias da informação, várias disciplinas encontraram reflexo em Matrix. O filme funciona, assim, como um espelho do multiculturalismo que envolve as comunidades internacionais. Impressionado com a miríade de diferentes interpretações para um produto da cultura de massa (“no filme, psicólogos vêem idéias de Lacan, filósofos e sociólogos encontram referências à Escola de Frankfurt, New Agers vêem uma crítica à globalização”), o filósofo esloveno Slavoj Zizek chegou a escrever, em dezembro de 1999, um artigo em que defende uma posição radical: o mundo de Matrix reflete exatamente aquilo que cada

Para o filósofo esloveno Slavoj Zizek, Matrix reflete aquilo que cada espectador deseja ver

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28 CINEMA

espectador deseja ver nele. O artigo de Zizek, The Two Sides of Perversion (ou Os Dois Lados da Perversão), é a maior estrela do livro The Matrix and the Philosophy, organizado por William Irwin. O professor de Filosofia segue o raciocínio do esloveno para classificar Matrix como uma aplicação cinematográfica do teste de Rorschach (exercício aplicado por psicólogos, para projeção de personalidades). “No filme, pensadores podem detectar as idéias da escola que preferirem: existencialismo, marxismo, feminismo, budismo, niilismo, pós-modernismo e muito mais”, escreve ele. O falso livro de Neo não deixa dúvidas a respeito da fonte primária onde os Wachowski foram buscar as idéias do filme. Trata-se de uma cópia em inglês de Simulations and Simulacra, um dos livros mais famosos do filósofo pós-moderno Jean Baudrillard, polêmico crítico da cibercultura. O volume não está nas mãos do ator Keanu Reeves por acaso. Afinal, o pensador francês revitalizou, através de especulações filosóficas que misturam conceitos da física e da semiótica, a noção de simulacro, na qual se estrutura toda a trama elaborada pelos Wachowski. Antes que os irmãos sejam taxados de pós-modernos, contudo, é necessário definir com precisão o significado de simulacro, o que implica em rastrear a verdadeira origem desse conceito. De fato, Baudrillard não o criou, apenas o adaptou à era do digital. O conceito de simulacro — uma cópia perfeita de algo que não existe — remete à civilização grega. O simulacro é o elo perdido que liga realidade e ilusão — esse sim, o verdadeiro tema do filme. O próprio Slavoj Zizek reconhece esse fato, quando afirma que a trama de Matrix reelabora a famosa “alegoria da caverna”, que Platão descreveu no Livro VII da República. Na alegoria, Platão imagina um homem que passou toda a sua vida acorrentado dentro de uma caverna escura. Ele fita uma parede, onde vê as sombras de seres humanos se movendo. Para o prisioneiro, as sombras são seres reais. Quando consegue escaContinente maio 2003

O pensador francês Jean Baudrillard - por sinal, ferrenho e polêmico crítico da cibercultura - revitalizou, através de especulações filosóficas que misturam conceitos da física e da semiótica, a noção de simulacro, na qual se estrutura toda a trama elaborada pelos irmãos Wachowski, autores de Matrix

Matrix despertou o interesse de filósofos, viciados em videogame, teólogos, fãs de revistas em quadrinhos, antropólogos e clubbers, estudiosos de Inteligência Artificial e praticantes de tae kwon do

par, já adulto, sai da caverna e vê pela primeira vez o mundo real. Ele reluta em acreditar que as sombras não passavam de uma ilusão, de um simulacro, uma falsificação da realidade. Como se pode perceber, Neo segue o mesmo caminho do prisioneiro da caverna de Platão. A realidade que aprendeu a reconhecer como tal nunca passou de um simulacro, de um sofisticado programa de computador elaborado por supercomputadores para fazer com que os seres humanos, em estado de coma eterno e aprisionados em uma espécie de gigantesco viveiro cibernético, sonhem indefinidamente. O que percebemos como realidade, de fato, não passaria de um sonho. Nesse ponto, surgem não apenas ecos das teorias psicológicas de Carl Jung e Jacques Lacan, mas sobretudo o princípio da Primeira Meditação de René Descartes: o que percebemos como um mundo, pode não ser mais do que uma ilusão. Os sonhos constituem uma porção generosa do filme original. O programa de computador que dá título à obra, a Matrix, possui a capacidade de emular a realidade através dos sonhos dos humanos escravizados. De fato, a Matrix simula a vida social de todos os habitantes do planeta, como um jogo The Sims em três dimensões, onde as pessoas podem se materializar fisicamente. A idéia surge como uma representação cinematográfica da metáfora elaborada por Baudrillard para a sociedade pós-moderna: uma comunidade que vive anestesiada, num estado que não passa de ilusão criada pela tecnologia. A interferência nociva da tecnologia defendida por Baudrillard encontra eco nos escritos de outro filósofo contemporâneo: Paul Virilio. Arquiteto, Virilio ataca o digital com a mesma ferocidade de Baudrillard, mas elabora uma teoria, no livro O Espaço Crítico (Editora 34), cujo foco principal está na noção de “falso dia eletrônico”: a percepção de que, diante da crescente digitalização que cerca o ser humano, não existem


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Neo habita duas dimensões diferentes, uma

barreiras de tempo e espaço. O homem pode estar virtualmente em qualquer lugar, a qualquer momento. É sempre dia, jamais noite — mas um falso dia. Um dia eletrônico. Na teoria de Virilio, a dimensão virtual é dominada pela velocidade. O filósofo acredita que as inovações tecnológicas produzidas pelas novas tecnologias vão rapidamente abolir a necessidade de uma dimensão orgânica, real, fazendo com que o ser humano acabe por permanecer 24 horas por dia conectado a uma rede — talvez a Internet do futuro — que, assim, provocaria a extinção, na prática, da necessidade de corpos físicos. Virilio chama esse momento de “apocalipse digital”. É uma teoria radical, mas nada ingênua: o matemático Ray Kurzweil, maior guru da inteligência artificial e autor do livro The Age of The Spiritual Machines (ou A Era das Máquinas Espirituais), já previu que o homem será capaz de fazer download da própria consciência antes do ano 2100. Seria algo como guardar as memórias em um disquete e instalá-lo em outro corpo (ou numa máquina) quando quiser. Em outras palavras, isso significaria a pedra filosofal medida em Bytes — a imortalidade do espírito. Há, obviamente, um caráter metafísico, quase religioso, em todas essas idéias. E ele está devidamente incorporado ao filme, que recicla tanto elementos da mitologia greco-romana quanto da Bíblia. Alguns filósofos contemporâneos abordam o problema de outros ângulos. David Harvey dedica um capítulo de seu Condição Pós-moderna (Editora Loyola) ao que chama de “compressão do espaço-tempo”: para ele, a evolução técnica dos meios de transporte e de comunicação foi abolindo, progressivamente, as distâncias físicas e temporais no mundo moderno. A Internet apresenta-se como o mais recente estágio dessa situação. Através dela, pode-se ter acesso a qualquer informação, em qualquer lugar, a qualquer momento. Muitos críticos da pós-

modernidade vêem essa situação de forma negativa. Fredric Jameson chama esse extermínio das fronteiras de tempo e espaço de “presente perpétuo”, uma espécie de nova dimensão, onde passado e futuro já não possuem linhas divisórias muito nítidas. Já Baudrillard, com a verve satírica que lhe é peculiar, denomina o paradoxo de “Crime Perfeito”. Para o francês, a realidade está sendo assassinada pela hiper-realidade, que não passa de um simulacro do real. Um dos maiores méritos da trilogia é a capacidade de inserir o espectador/leitor comum dentro desse debate acadêmico. Basta lembrar do capítulo inicial da trilogia: Neo, Morpheus e Trinity habitam duas dimensões diferentes, uma real e outra virtual. Eles têm a habilidade de se materializar dentro do software de simulação da realidade, em qualquer local ou instante, apenas com o uso da tecnologia — a mesma tecnologia que destruiu a natureza e as cidades; fez com que os supercomputadores dominassem o espaço exterior e escravizassem os humanos, obrigando os poucos rebeldes a habitar uma cidade pré-histórica localizada perto do núcleo do planeta. Ironicamente, foi a tecnologia — a grande vilã das teorias de Virilio e Baudrillard — que possibilitou o estabelecimento do universo de Matrix como a maior referência pop dos últimos anos. Os efeitos especiais que simulam o congelamento do tempo, através de uma técnica chamada bullet time, continuam a ser exaustivamente copiados em outras produções de Hollywood. Roupas de couro negro, óculos escuros transados, telefones celulares high tech, computadores turbinados, cortes de cabelo radicais e músicas cyberpunk estão apenas entre os incontáveis itens que se tornaram coqueluche mundial após a estréia da primeira parte da trilogia, em 1999. Tudo indica que a febre tecnológico-consumista, algo que tanto Virilio quanto Baudrillard criticam violentamente, promete voltar com força total após as estréias da segunda e da terceira parte (Matrix Revolutions, capítulo final da saga, chega ao Brasil em novembro). Rodrigo Carrero é jornalista. Continente maio 2003


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Fotos: Divulgação

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Diálogo

espontâneo

e elegante Na relação do piano de Nelson Freire com a câmera de João Moreira Salles nasce um documentário precioso Alexandre Figueirôa

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CINEMA 31 » Ao filmar Nelson Freire, um filme sobre um homem e sua música, Moreira Salles teve que vencer a timidez de um talento excepcional que foge do panteão das celebridades e grava pouco, preferindo dedicar-se aos concertos

Imagens de filmes sobre músicos — sejam eles documentários ou ficções — são em geral previsíveis e difíceis de não serem assim. No caso das obras documentais, concertos e ensaios entremeados por depoimentos do próprio artista, de críticos, outros músicos, amigos e parentes são, em geral, a matéria básica. Se o personagem for um pianista, a câmera esmera-se em flagrá-lo dando golpes fulminantes sobre o teclado e jogando o corpo para lá e para cá como se estivesse num navio em meio a uma tempestade. Nelson Freire, um filme sobre um homem e sua música, o delicado documentário de João Moreira Salles, rompe com estes clichês. Ao debruçarse sobre esse artista virtuoso e de renome internacional, mas discreto em sua glória, ele nos convida a apreciar o que de melhor um pianista pode nos oferecer: música executada com técnica exemplar e sensibilidade suficiente para emocionar, sem recorrer a artifícios capazes de transformar o músico num atleta olímpico. Assisti-lo é compreender que a música é feita de ruídos e pausas de silêncio. O realizador do polêmico Notícias de uma Guerra Particular (1999) e de séries memoráveis para a televisão como Japão, uma Viagem no Tempo (1985) e América (1989), desde garoto freqüentava os concertos de Nelson Freire no Teatro Municipal do Rio. Em 1999, Salles criou coragem e apresentouse a ele propondo a realização do documentário. Freire, apesar de ser considerado pela crítica mundial e por outros pianistas um talento excepcional, sempre se manteve distante do panteão das celebridades. Grava pouco e prefere dedicar-se aos recitais e concertos. Mesmo assim topou a proposta e de maio de 2000 a agosto de 2001 deixou-se acompanhar por Salles e sua equipe. Durante esse período, o cineasta pode compartilhar do cotidiano do que ele gentilmente classifica como um pianista “mineiro”, ou seja, homens que preferem falar mais de suas obras que de suas vidas privadas, incluindo Freire na mitologia dos escritores e dos políticos nascidos em Minas Gerais. Nelson Freire nasceu de fato no sul de Minas, em Boa Esperança, em 1944. Aos quatro anos já apresentava um talento excepcional e, graças a uma família tradicionalmente ligada à música, seus pais mudaram-se para o Rio de Janeiro para lhe dar uma melhor formação. Considerado menino-prodígio, aos doze anos destacou-se no primeiro Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro e ganhou uma bolsa do então presidente da República, Juscelino Kubitschek, para estudar na Áustria. Ao estrear em Viena impressionou professores ao executar a Sonata em fá sustenido menor, de Brahms. Com apenas quinze anos seu virtuosismo era reco-

nhecido, pois possuía uma concepção formal totalmente desenvolvida, riqueza de matizes, sabedoria da arte do toucher, inteligência profunda do fraseado e vitalidade rítmica. A partir daí, os prêmios sucederam-se e sua formação artística completou-se ouvindo Rachmaninoff, Horowitz, Rubinstein e Guiomar Novaes, por quem guarda uma profunda admiração. A amizade com a pianista argentina Martha Argerich, com quem mantém até hoje uma estreita ligação, foi outro elemento fundamental no seu crescimento. Sua carreira é marcada por apresentações como solista da Filarmônica de Berlim, Nova York, São Petersburgo e atualmente grava com exclusividade para a Decca, de Londres. Para nos apresentar esse artista, considerado um dos mais brilhantes pianistas de todos os tempos pelo Jornal do Brasil, pelo Le Monde e pela Time Magazine, João Moreira Salles preferiu, todavia, evitar a eloqüência retórica e a teatralização. Cercouo de outra maneira, compartilhou de sua intimidade e concentrou sua atenção no que ele chama de “elegância contida dos gestos”. A câmera de Salles conversa com Freire de maneira espontânea. Acompanha seus movimentos diários, flagra o momento crucial que antecede os concertos e recitais, o alívio depois das apresentações, e testemunha os seus ensaios, realizados sozinho ou com orquestra, como uma admiradora comovida, mas que em nenhum momento quer ir além do sentimento da relação cultivada pelo próprio artista com as peças musicais por ele executadas. O cineasta observa que, ao filmar Freire, era como se este lhe dissesse: “prestem atenção na música e não se deixem ludibriar pela performance,” e tentasse convencê-lo que “primeiro vem Schubert, Chopin ou Brahms, e só depois Nelson Freire”. Nasceu daí um filme precioso no qual o piano, a música e Freire dialogam entre si para nos mostrar os movimentos que norteiam a vida do artista, um homem que se revela encantado por Rita Hayworth, sente-se frustrado por não tocar seu instrumento com a mesma alegria do pianista de jazz, Errol Garner, e é capaz de criar até mesmo antipatia por um piano que não responde ao seu dedilhado com a intensidade por ele desejada. A tela transforma-se assim num palco muito mais amplo do que as salas de concerto. Os trinta e um blocos temáticos que compõem o filme, no entanto, chegam aos nossos olhos e ouvidos como prelúdios, pois foi na música que Salles organizou o sentido da sua narrativa. E nesse contexto, os trechos executados por Freire nos permitem usufruir sua habilidade com a mesma emoção de estarmos na primeira fila de um recital e ainda com direito ao bis depois dos créditos finais. Bravo! Continente maio 2003


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"Nos primeiros meses, ficávamos a uma certa distância. Com o tempo, pudemos nos aproximar. As filmagens de São Petersburgo são das últimas que fizemos. Você vai reparar que nela nós já estamos bem perto do Nelson, 'tomando liberdades', por assim dizer. Em certos momentos, a câmera está a um palmo dele"

Filmando com a partitura na mão Uma entrevista com João Moreira Salles, um documentarista que filma a ordem e a desordem do Brasil Nelson Freire foi filmado no Rio de Janeiro e São Paulo, na França, Bélgica e Rússia. Para os recitais e concertos foram utilizados de 4 a 16 canais de gravação. Tanto a captação do som quanto a mixagem foram realizados em sistema digital. O filme está sendo lançado agora em maio e o diretor João Moreira Salles, atualmente morando em Londres, respondeu por e-mail algumas questões propostas pela Continente Multicultural.

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33 Como foi a captação do som nos depoimentos do Nelson Freire, onde me parece que, devido ao seu recato, se buscou permitir ao pianista a maior liberdade e espontaneidade possível (o uso de legendas, por exemplo, denota esta intenção)? Tecnicamente, o som foi captado de maneira convencional, com um DAT. Éramos pouquíssimas pessoas na sala com o Nelson - além dele, apenas eu, o fotógrafo e o técnico de som. Tentei com isso diminuir ao máximo o desconforto do Nelson, uma pessoa extremamente tímida. Para ele, falar é muito, muito mais difícil do que tocar. Acompanhei o Nelson ao longo de dois anos (intermitentemente) e a entrevista foi feita de uma só vez, no último dia de filmagem. Ou seja: deixei Nelson acostumarse conosco, com a câmera, com o fato de estar sendo filmado, para só então pedir que respondesse a algumas perguntas olhando diretamente para a câmera. Filmar músicos ensaiando ou em concertos impõe alguns limites nas tomadas, enquadramentos, nesse sentido qual foi o maior desafio na realização deste documentário? As filmagens das apresentações são sempre muito pobres. A sala está cheia, não podemos fazer barulho, muito menos nos mexer. O filme foi rodado em película e cada chassis tem apenas 10 minutos de filme. Trocá-lo é complicado - faz barulho, exige movimentação e corre-corre. Por isso tudo, decidi privilegiar os ensaios. Neles, tínhamos liberdade para nos movimentar, correr, entrar no meio da orquestra. As imagens são muito mais interessantes. A dificuldade maior sempre foi saber para onde dirigir a câmera. Em alguns momentos, o piano do Nelson dialoga com, pelo menos, outros três instrumentos da orquestra. Nós só tínhamos duas câmeras.O que filmar? O que fará falta na edição? Filmávamos com uma partitura na mão, mas mesmo assim era difícil. Concertos geralmente são gravados com pelo menos oito câmeras. Quanto à concentração, a estratégia foi mais ou menos a mesma da entrevista. Nos primeiros meses, ficávamos a uma certa distância. Com o tempo, pudemos nos aproximar. As filmagens de São Petersburgo são das últimas que fizemos. Você vai reparar que nela nós já estamos bem perto do Nelson, “tomando liberdades”, por assim dizer. Em certos momentos, a câmera está a um palmo dele. A montagem por blocos temáticos foi uma opção préestabelecida, tendo como modelo de inspiração, por exemplo, pequenas peças musicais para um recital de piano, ou foi algo idealizado na medida em que as imagens foram sendo captadas, chegando-sse a conclusão de que esta seria a melhor maneira de montar o filme? Seria bacana se eu pudesse dizer que os blocos temáticos foram inspirados nas peças musicais de um recital - essa é uma idéia bem bonita. Mas infelizmente, não foi assim. Os blocos temáticos surgiram da minha vontade de fazer um filme de impressões, de pequenos vislumbres, e não de cronologias, de obrigações com a biografia e a cronologia. Inspirei-me num filme de ficção fabuloso chamado 32 Curtas Metragens Sobre Glenn Gould, dirigido pelo canadense François Girard. O Nelson Freire interferiu diretamente na escolha das peças musicais por ele executadas ou foi algo ocasional, de

João Moreira Salles (irmão do Walter) realizou o polêmico Notícias de uma Guerra Particular e a memorável série para a TV Japão, uma Viagem no Tempo

acordo com o que ele estava ensaiando durante o período da filmagem? As peças incluídas no filme fazem parte do repertório que ele executou ao longo do período em que o acompanhei. Com exceção de uma única sessão de filmagem na casa do Nelson, nenhuma música foi tocada exclusivamente para o documentário. A colocação do registro da filmagem do programa da TV francesa tem a intenção mais ampla de ironizar com o formato de reportagem jornalística para televisão, algo que em geral constrange os entrevistados — seja ele quem for — ou foi apenas um contraponto para realçar a personalidade de Nelson Freire, marcada pela timidez? Não, a seqüência da TV francesa não tem a intenção de fazer um comentário geral sobre a reportagem jornalística. Do meu ponto de vista, todos os eventos são singulares, ou seja, falam apenas de si mesmos. Aquilo aconteceu daquele jeito enquanto eu filmava; poderia ter acontecido de forma diferente — digamos: uma matéria bem feita realizada por um jornalista preparado. Caso o resultado fosse interessante, teria sido incluído no filme sem que, com isso, eu estivesse abonando o estado geral do jornalismo televisivo. Qual a sua expectativa na recepção deste documentário depois de trabalhar com temas mais “sensacionais” como o tráfico de drogas em Notícias de uma Guerra Particular e as igrejas pentecostais em Santa Cruz? Espero uma recepção mais serena, sem dúvida nenhuma. E torço para que as pessoas percebam que eu continuo falando do Brasil, só que de outro modo. Nelson Freire é o avesso de Notícias — o segundo fala da desordem, o primeiro da ordem. Ambas existem no Brasil. — Continente maio 2003

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Tempo

de partida

e de morte Fotos: Divulgação

Marcélia Cartaxo estréia como diretora, filmando história trágica que envolve mãe e filha no Sertão

Para Marcélia Cartaxo, o sertão da Paraíba parece um teatro grego, perfeito para ambientar Tempo de Ira, uma história de muito sonho e grande sacrifício

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“Ele é um gênio”. É com essas palavras que a atriz, e agora diretora, Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela e Madame Satã) se refere ao escritor Ronaldo Correia de Brito. Ela filmou junto com a produtora e co-diretora Gisella de Mello o curta-metragem Tempo de Ira, baseado no conto “Cícera Candóia”, que está no livro Faca, do escritor e médico cearense. Há muito tempo a atriz já conhecia o texto e tinha vontade de adaptá-lo. “Primeiramente eu pensei em fazer um monólogo, mas percebi que era uma história muito visual”, disse Cartaxo. O cinema foi o meio que ela encontrou para realizar seu desejo de estrear como diretora, mantendo-se fiel ao que idealizara. Tempo de Ira foi filmado nas cidades de Cabaceiras e Monteiro, na Paraíba, onde também foi rodado O Auto da Compadecida, de Guel Arraes. Conta a história de uma sertaneja, Ciça, interpretada pela própria Marcélia, que sonha em deixar a terra em que mora, mas por causa da mãe, uma velha reumática, não pode realizar seu desejo. A mãe não suportaria a longa viagem em pau-de-arara. Estabelecido o conflito entre partir e escapar da seca, ou ficar com a mãe inválida, toda a trama se encaminha para um desfecho trágico.


A idéia de filmar Tempo de Ira concretizou-se quando Marcélia Cartaxo apresentou o texto a Gisella de Mello, no período de gravação de Madame Satã. Conseguiram o patrocínio da Petrobrás e iniciaram os trabalhos. Segundo Gisella, a parte mais difícil foi adaptar a linguagem do conto à linguagem cinematográfica, “cada mídia tem suas especificidades”, ressalta. Para isso contaram com a ajuda do roteirista Marcelo Gomes, que já trabalhou em filmes como A Perna Cabeluda, Clandestina Felicidade e o próprio Madame Satã. O conto se passa num ambiente estritamente nordestino e sertanejo. Para não cair num regionalismo folclórico, mas ao mesmo tempo respeitar ao máximo as características regionais, o elenco e a equipe de produção, em boa parte, são nordestinos. “Seria ridículo trazer alguém para fazer sotaque”, destacou Gisella. O respeito à linguagem nordestina foi tão grande que a atriz cearense, Antonieta Noronha, teve “problema” com os mais puristas por ter um sotaque diferente. Uma história curiosa aconteceu quando ainda estavam à procura de uma locação para o filme. Segundo a própria Gisella, foi a “mão divina, como quase tudo no filme”, que intercedeu. Ao chegarem em Ribeira, distrito de Cabaceiras, indicado por cineastas paraibanos, elas encontraram um casarão em que residia uma senhora idosa, cuidada por uma sobrinha, exatamente como a história pedia. Conseguiram a autorização e filmaram durante quatro dias nesse ambiente. “Somos eterna-

mente gratas por isso”, disse Gisella. Os outros pontos de gravação foram o Cariri paraibano, e, perto dali, em municípios como Lajedo do Pai Mateus. De acordo com Gisella, mesmo o enredo tratando de uma tragédia familiar, o conflito de mãe e filha, foi preciso empenho para também se captar a atmosfera de uma pequena cidade do interior nordestino, de onde a maioria das pessoas fogem para tentar a sorte nas cidades grandes. Com o correr das filmagens, a população local se acostumava à equipe de produção e revelava as histórias de suas vidas, o que ajudou para o clima do filme. “Eles foram chegando e contando suas histórias. O que contavam dava para mais outro filme lindo”, comenta Gisella. O autor do texto original, Ronaldo Correia de Brito, gostou do resultado alcançado pelas diretoras. “Elas conseguem ser fiéis ao clima de tragédia do conto. O sertão da Paraíba parece um teatro grego”. O curta demorou a ser finalizado e quase não fica pronto a tempo de estrear no Festival de Cinema do Recife, o CinePE Audiovisual. “Foi um pouco como a mãe de Ciça. Você tem que se sacrificar e chegar ao fundo do poço para depois emergir”, desabafou Gisella. Alguns recursos do filme foram feitos na base da camaradagem, como é o exemplo de Otto, que vai assinar a trilha sonora. Depois do Festival do Recife, a intenção de Gisella de Mello e Marcélia Cartaxo é exibir o filme em praça pública, no Cariri paraibano: “Aí sim, vamos finalmente gozar desse sacrifício”.

A atriz e diretora (à esquerda) interpreta Ciça, uma sertaneja que sonha em deixar a terra onde mora, mas, por causa da mãe, uma velha reumática que não suportaria a longa viagem, não pode realizar seu desejo

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NASSAU ENTRA NA SÉTIMA ARTE O conde holandês Maurício de Nassau vai chegar às telas de cinema, em breve. A cineasta Sandra Ribeiro acaba de ter seu projeto, para o longa metragem de ficção sobre a vida de Nassau, aprovado pela lei de Incentivo à Cultura Municipal. No próximo ano, o roteiro, a captação de recursos e a pesquisa, que será feita no Brasil e na Holanda, devem ser concluídos e as filmagens iniciadas. Ainda não há definição do elenco, mas a cineasta afirma que o filme será feito em português, holandês e francês, e o ator que interpretar Nassau terá que falar francês. “O conde nunca aprendeu a falar português; ele falava em francês”, explica, justificando a provável escolha de um ator internacional para o papel. Segundo ela, seu interesse por Maurício de Nassau vem desde a infância, quando ouvia sua avó contar casos sobre os holandeses. “Depois que me formei em jor-

nalismo, fui eu quem começou a contar histórias”, diz. A cineasta estreou seu curta A Partida, baseado no conto de Osman Lins, no CinePE, em abril. A trama, estrelada por Geninha da Rosa Borges, Paulo Autran e Marcelo Lacerda, gira em torno do momento em que o próprio Osman Lins decidiu sair de casa. “Essa experiência foi um presente. Eu tive muita sorte com a equipe e com o elenco, que foi muito generoso comigo”, conta. Recentemente, o seu trabalho Ai d'eu Sodade, que tem no elenco Aramis Trindade e Zuleica Ferreira, recebeu um prêmio, no Japão, no Festival de Tóquio 2003. O vídeo conta a história de uma briga entre marido e mulher, em repente, baseada na música ABC do preguiçoso. O filme pernambucano concorreu com quase 3 mil vídeos inscritos, de 38 países, sendo 170 do Brasil. Acima, Paulo Autran, em A partida, de Sandra Ribeiro. Ao lado, Marcelo Lacerda.

FESTIVAIS DE CINEMA SAEM GANHANDO Os produtores e promotores de festivais de cinema do Brasil conseguiram uma vitória. É que, em abril, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, ligada ao Ministério da Cultura, atendeu à reivindicação dos organizadores de festivais, abrindo a oportunidade para que os patrocinadores desses eventos, através da Lei Rouanet, possam deduzir 100% do valor que investirem, no Imposto de Renda. Até então, quem patrocinasse os festivais poderia descontar, no máximo, 64% do total investido. A luta para aprovação dessa medida já durava três anos. Os representantes dos festivais já haviam conseguido anexar ao Continente maio 2003

texto da medida provisória que criou a Ancine, em 2001, uma referência a projetos de difusão audiovisual dentro da categoria, que permite o desconto de 100% do capital investido. O objetivo era abrir terreno para que essa facilidade chegasse aos festivais. A nova resolução deve beneficiar, principalmente, os festivais menores, fora do eixo Rio - São Paulo, aumentando a possibilidade de empresas locais investirem nos eventos. Além disso, essa medida pode incentivar a criação de novos festivais, ou os que são organizados longe dos centros urbanos.


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Faltou um novo

Lawrence

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Fotos

no Iraque

O aventureiro inglês foi responsável pelo surgimento dos reinos do Iraque e da Transjordânia Fernando Monteiro

Bagdá era, para T. E. Lawrence, um dos “sete pilares da Sabedoria” — junto com mais seis cidades presentes no título da obra — prima (Seven Pillars of Wisdom) que ele escreveu com base nas suas anotações sobre a Revolta Árabe. Essa aventura se tornou conhecida do grande público através do livro filmado, em 1962, por Sir David Lean — com Peter O'Toole no papel de “Lawrence da Arábia”, apelido dado pelo jornalista Lowell Thomas ao agente de ligação e comandante de guerrilheiros, na região do Mar Vermelho e da antiga Mesopotâmia, entre 1916 e 1918. Se as datas parecem recuadas no tempo, as consequências dessa ação permanecem no noticiário: Lawrence foi responsável pelo surgimento do reino do Iraque, saído diretamente do compasso regulado por ele, sobre os mapas orientais do Foreign Office, como conselheiro plenipotenciário e figura-chave da Conferência do Cairo, convocada por Winston Churchill em 1921. Apesar disso, o famoso “aventureiro” ainda não foi mencionado o tanto que mereceria, nos comentários de fundo da atual guerra (que, talvez, já esteja próxima do fim,

quando o leitor estiver lendo este texto, escrito no começo de abril, dependendo do quanto Bagdá possa resistir às esmagadoras forças da coalizão anglo-americana). A urgência em relatar os bombardeios e choques de tropas, via satélite, até agora falou mais alto do que as tão menos estrondosas ressonâncias de acontecimentos antigos, que nem todos recordam, mas que estão na raiz dos conflitos em curso no Oriente Médio, mais uma vez sacudido pelo piscar dos mísseis na escuridão. Enquanto escrevo, é a ponte Allenby (nome do general superior imediato de Lawrence) que surge no noticiário - uma vez que ela é a via de passagem, agora, de muitos dos jovens mártires jordanianos, atraídos para o sacrifício em defesa da capital iraquiana. Talvez, nem eles se lembrem das batalhas sangrentas ali travadas, assim como das incruentas conferências dos políticos. Tanto umas como outras, no entanto, alteraram os destinos deles mesmos, no momento em que partem da antiga “Transjordânia” para lutar pelo Iraque, ambos criados no Egito — há oitenta e dois anos — como monarquias entregues a dois príncipes da família hachemita, que levantou as tribos em luta (sob o comando do mesmo T. E. Lawrence) contra os turcos aliados dos alemães, na Primeira Grande Guerra. Na última semana de março (a segunda do atual conflito), Saddam Hussein

O inglês T. E. Lawrence, conhecido como Lawrence da Arábia


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38 HISTÓRIA

Explosão na ferrovia de Hejaz durante ataque de sabotagem feito sob o comando do inglês

Wilfrid Scawen Blunt,um dos orientalistas da geração que trocava as confortáveis camas londrinas pelo chão rude das tendas no deserto Continente maio 2003

fez algo idêntico, quando percebeu o valor tático das tribos iraquianas, conclamadas à típica ação de guerrilha contra o avanço das tropas invasoras. O ditador poderia ter feito suas as palavras de ordem da Revolta Árabe de 1916, pois literalmente exortou as tribos “a golpearem em qualquer lugar, com determinação, sem esperar pela ordem dos comandantes”. Lawrence da Arábia teria aprovado — como o meio mais adequado, por sinal, de combater na região bem conhecida dos xeiques e guerreiros lançados em raids mortais contra as tropas regulares otomanas, conforme se acompanha nos Sete Pilares. Sob as ordens do inglês, eles investiram contra as linhas de abastecimento turcas, via estrada de ferro do Hedjaz (ainda mais longa do que a linha das tropas da coalizão, no primeiro avanço para Bagdá), tornada quase irrecuperável. Ainda hoje é possível encontrar, no deserto das proximidades de Amã e Medina, os restos de vagões e ferros retorcidos da antiga estrada, nos trechos pessoalmente dinamitados pelo herói vestido de beduíno — “El Aurens” — cuja atuação deixou marcas fundas na história na região. De onde veio o homem - Thomas Edward Lawrence (1888-1935) se formou naquele molde, de velha linhagem inglesa, dos “orientalistas” antigamente ouvidos para a definição da política dos gabinetes, para o Oriente. Alguns deles eram francos partidários do modelo colonialista, mas outros se mostraram sensíveis ao apelo nativo, ao anseio das colônias distantes. E um grupo ainda mais restrito fez da “Questão Oriental” algo vital nas suas vidas, meio sonho político e meio “visão de “estranhamento”, ou de libertação (espiritual) através da liberdade do Outro. É o que Lawrence confessa, logo na epígrafe do seu grande livro: Por isso tomei na mãos estas ondas de homens/ e a minha vontade eu inscrevi/ entre as estrelas, para ganhar-te a Liberdade/ o Solar de sete pilares/ que talvez brilhasse para mim/ em teus olhos, quando chegássemos. Quase todos saídos de Oxford, tais especialistas tomaram o caminho profissional da diplomacia, da arqueologia, da lite-

ratura e da cátedra, como eruditos de uma têmpera cuja receita hoje parece perdida, ou pelo menos substituída por pragmatismos sem imaginação, se não inteiramente estúpidos. Os ingleses de antes — e ainda da geração de Lawrence — eram, alguns deles, “sonhadores acordados”, dispostos a trocarem as confortáveis camas de Londres pelo chão rude das tendas, no deserto, e foi assim que seus nomes de fato se inscreveram “entre as estrelas” do céu oriental: Wilfrid Scawen Blunt, Richard Burton (não o ator de Cleópatra, mas o escritor e diplomata inglês que foi cônsul em Santos, na segunda metade do século 19), Charles Montagu Doughty, Ronald Storrs, David George Hogarth, Gertrude Bell e o próprio T. E. Lawrence foram alguns dos viajantes e orientalistas dessa estirpe, tornando-se autores obrigatórios da disciplina saída do limite dos estudos, para tentar redesenhar políticas e mapas modernos. Nas palavras de Edward W. Said, “cada um acreditava que a sua visão era individual, criada a partir de um encontro intensamente pessoal com a região, com o Islã e com os árabes e cada um deles exprimia um desprezo geral pelo conhecimento oficial sobre o Oriente”... De onde emergiu a situação - A política “descompressiva” do colonialismo no antigo Crescente Fértil — pelo menos no que diz respeito à visão britânica — iria partir da já citada conferência do Cairo, como encontro de especialistas convocados pelo Colonial Office, subordinado a um político novo e inquieto como Churchill se mostrou, no início da sua carreira. Por sugestão do venerável Wilfrid Blunt, ele chamou “Lawrence da Arábia” para atuar como “ministro plenipotenciário”, na conferência de 1921, entre orientalistas e altos funcionários civis e militares, britânicos e árabes. O objetivo era dar o “conserto que fosse possível” a alguns aspectos da “Questão Oriental” muito mal encaminhados durante a Conferência de Paz, em Versailles, dois anos antes. Em outras palavras: o que poderia ser feito para se conseguir, no Cairo, um mínimo cumprimento das promessas inglesas, feitas aos árabes revoltosos, representados


HISTÓRIA 39

Lawrence entrando em Damasco, em seu Rolls Royce, em outubro de 1918

pelo rei Hussein, Emir de Meca? A resposta veio a ser, como já foi dito, justamente a criação dos reinos do Iraque e da Transjordânia, confiados respectivamente ao príncipe Feisal — companheiro de batalhas de Lawrence — e ao seu irmão mais velho, o emir Abdullah. Filhos do velho Hussein, ambos eram aristocratas da família hachemita, descendente do profeta, e mais: aquela que dera o “aval” político (e religioso) para que as tribos do deserto se unissem às forças inglesas, cujo alto comando buscava abrir uma segunda frente, no Oriente, de modo a dividir tropas e esforços do Kaiser - aliado da Suprema Porta. Tal frente fora aberta e, em dois anos de guerrilhas e conquistas militares (e tomadas Jerusalém e Damasco), estava definida a vitória aliada nos dois fronts, com Allenby e Lawrence emergindo como heróis do Oriente. Ficava aberto, também, o caminho da paz e da prometida criação de um “grande país árabe”, o qual teria significado a existência, desde 1919, de uma nação aglutinadora dos povos de origem semita — no sentido mais amplo da palavra — e, portanto, sem fronteiras reclamadas, sem conflitos e sem um povo desalojado na Palestina (ferida aberta na carne do século 20, desde que Lord Balfour começou a “preparar o terreno” para um futuro Lar Nacional Judaico), por exemplo. Em vez disso, até a nobre família do rei Hussein se veria desalojada de Meca, em 1926, quando o trono hachemita foi usurpado, à força, pela tribo “estrangeira” de Ibn Saud, sultão do distante Neged. Isso aconteceu quando a exploração do petróleo começava a mudar a face da re-

gião, e este interesse é que parte para o uso do mapa interno — das disputas étnicas, territoriais e religiosas — para tornar cada vez mais lucrativa a desunião árabe. De outro modo, talvez não se possa entender o quanto Osama Bin Laden, por exemplo, odeia os ianques e ingleses patronos da família saudita sem nenhum direito legítimo ao trono da cidade santa dos muçulmanos (mas, pelo contrário, servil e submetida aos interesses políticos e econômicos ocidentais). O que fazem tropas norte-americanas estacionadas no coração da Arábia “Saudita” — com a permissão devidamente comprada dos descendentes de Saud — e, agora, o que pretendem os chefes supremos das tropas da “coalização” invasora do antigo reino hachemita? A “libertação” do Iraque? Alguém acredita nisso? E, se acredita, por acaso também acha que o perigoso pós-guerra irá permitir que um caipira texano siga no seu brinquedo de “xerife” a impor governos, com controle remoto, para toda uma região cuja complexidade nunca foi entendida pelo departamento de Estado? E George W. Bush e os “falcões” farão isso implantando, de maneira definitiva, a nova doutrina americana da pura força, como ameaça chantagista a la Capone? São perguntas demais ou de menos? E ainda: será que não faltou um “Lawrence” no Iraque, para tentar fazer prevalecer ao menos um dos pilares da Sabedoria contra a Brutalidade arrogante?... Fernando Monteiro é escritor e crítico de arte

Em primeiro plano o príncipe Feisal, companheiro de batalhas de Lawrence, a quem foi confiado o comando do recém-criado reino do Iraque Continente maio 2003


40 TEATRO Foto: Lenise Pinheiro/ Folha Imagem

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O ator em Rei Lear, uma montagem de alto risco, que, pelo sucesso, terminou marcando sua carreira


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Raul Cortez Personagem por inteiro

Filmando um novo longa com Fernanda Montenegro, Raul Cortez faz uma análise de sua atitude enquanto ator de tv, cinema e teatro Felipe Porciúncula “Ser fiel a si mesmo”. É assim que o ator Raul Cortez se auto-define. Estrela de primeira grandeza da dramaturgia brasileira, sua carreira de 46 anos espelha essa coerência que sempre buscou. Crítico do papel da televisão durante o regime militar, período em que preferiu atuar nos palcos na companhia dos consagrados Antunes Filho e José Celso Martinez Correia, hoje é um dos maiores ícones da telinha. “Transito com a mesma naturalidade na tevê, no cinema e no teatro, sem o menor problema. O que me interessa é acreditar no que estou fazendo”, afirma Cortez, que concedeu esta entrevista durante as filmagens do longa O outro lado da rua, do estreante Marcos Bernstein (roteirista do filme Central do Brasil), no qual contracena com Fernanda Montenegro. O segredo é o estilo requintado que ele dá a todos os seus personagens. “É importante que a emoção venha de dentro. Se você sente algo é preciso exteriorizá-lo fisicamente e compartilhá-lo com o público”, enfatiza Cortez. Talvez o maior desses personagens no teatro tenha sido

Continente . abril, 03


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Na sua volta ao cinema, depois de Lavoura Arcaica, Raul Cortez agora está ao lado de Fernanda Montenegro no longa O Outro Lado da Rua, numa co-produção com o canal franco-alemão Arte, que pela primeira vez financia uma película latino-americana em parceria com a Columbia Tristar o Rei Lear, de Shakespeare, montado em 2000, e que marcou definitivamente a sua carreira. “Fiz, graças a minha filha, a atriz Lígia Cortez. Ela convidou o diretor Ron Daniel (radicado na Inglaterra e que já dirigiu o Royal Shakespeare Company) para vir a São Paulo dar um workshop. Quando Daniel chegou ao Brasil, reencontramo-nos. Não o via desde a época do Teatro Oficina. Aí comecei a trocar idéias com ele sobre o texto. Sempre desejei muito fazê-lo, mas nunca achava que era o momento”, lembra Cortez. E continua: “Daniel aceitou dirigir, e o trabalho todo foi uma grande loucura, pois poderia ter sido um fiasco. Assumimos muitos riscos. Um espetáculo como esse é muito caro. Envolveu 40 pessoas, com um cenário arrojado e belíssimo. Temíamos, inclusive, como o público reagiria, por ter uma tradução mais erudita do texto, também do próprio Daniel. Porém, a receptividade foi muito boa e tivemos casa cheia durante toda a temporada. Outros companheiros que fizeram Rei Lear não foram tão felizes como eu fui”. Desde cedo Raul Cortez só tinha uma certeza, a de ser ator. “Sempre quis isso. Durante todo o tempo procurei transformar minha vocação em talento. Dei sorte, pois cada trabalho, que faço, é uma realização muito grande para mim”. Ainda estudante, contracenou com Gianfrancesco Guarnieri e a partir de meados dos anos 50, passou pelas mãos de grandes diretores como Zimbinski, Flávio Rangel, Antunes Filho e Zé Celso Martinez, além de ter feito vários trabalhos pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e a Companhia Teatral de Cacilda Becker. “Naquela época, fazer teatro era um ato revolucionário. Apesar de ter perdido dinheiro, durante muito tempo eu não quis fazer televisão e fui crítico dela quando era necessário ser”, diz. A sua entrada na TV Globo aconteceu em 1980, com a novela Água Viva, a convite de Roberto Talma, diretor da Globo. “Queria saber como era ser um produto de consumo. O país vivia um outro momento e a telenovela já pertencia ao dia-a-dia do público brasileiro, do qual eu não participava. Lembro-me de fazer uma turnê pelo Brasil, que teve pouca bilheteria pelo fato de as pessoas não me conhecerem da televisão”. Apesar do sucesso, a embalagem de rico, charmoso e conquistador não lhe aprisionou. O encontro com Benedito Ruy Barbosa e Luis Fernando Carvalho mudou esse cenário e ele foi convidado para protagonizar o Geremias Berdinazi, na novela O Rei do Gado, que obteve uma das maiores audiências Continente maio 2003

da história da tevê brasileira. “Graças a Deus que isso aconteceu. A partir dali, descobri que poderia ser tão bom ator na tevê como no teatro”. Tanto é que a saga dos italianos durou três novelas, todas sob a mesma direção de Carvalho. “Achei ótimo fazer esses personagens. Muita gente disse que isso ia comprometer minha carreira, como se só pudesse fazer um tipo de italiano. Ainda tive o privilégio de fazer no cinema Lavoura Arcaica, com o mesmo Luis Fernando Carvalho, o mais talentoso diretor deste país”. Um dos resultados desses trabalhos foi a repercussão internacional do seu nome fora do Brasil, mas nem isso tirou sua serenidade. “Eu sou um ator brasileiro. Se algum dia for convidado para trabalhar fora do país, terei o maior prazer, principalmente com diretores europeus, mas não vou procurar por isso. Gostaria de ser até mais do que sou, porque minha aparência e meu jeito de atuar não é tão brasileira”, conclui Cortez, que tem descendência espanhola. Na sua volta ao cinema, depois de Lavoura Arcaica, agora está ao lado de Fernanda Montenegro fazendo o bem-sucedido Camargo, no longa O outro lado da rua, numa co-produção com o canal franco-alemão Arte, que pela primeira vez financia uma película latino-americana, em parceria com a Columbia Tristar. O filme, que deve chegar às salas de projeção em abril de 2004, conta a história de uma mulher que vê pela janela um juiz aposentado aplicar uma injeção letal na sua esposa. Este homem é uma pessoa muito influente e, aparentemente, o crime é encoberto. A partir daí, começa a trama de mistério, encenado em Copacabana, onde muitos idosos procuram, ao invés de se ocupar com passeios pela praia, fazer denúncias anônimas como forma de proteger o bairro. “É muito difícil, pois o tempo todo existe uma dúvida entre a certeza de ele ter matado sua mulher, num ato de eutanásia, e as fantasias de Regina (vivida por Fernanda Montenegro) na sua solidão”, enfatiza Raul. A busca pela essência é o que o faz ser tão ímpar. Além das dezenas de trabalhos que realizou em tevê (20 novelas e 6 séries), teatro(66 peças) e cinema(28 filmes), já fez uma temporada de shows com grandes estrelas da música como Maysa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. De uns anos para cá resolveu construir uma trilogia de peças sobre as raízes ibéricas, já tendo feito Ah!Mérica(1985), na qual Raul Cortez interpreta ele próprio refletindo sobre a perda do sentimento sulamericano. O segundo espetáculo foi Um Certo Olhar: Pessoa e


Foto: U. Dettmar/ Folha Imagem

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Lorca (1999), em que Cortez encena os poemas de Fernando Pessoa e de Frederico Garcia Lorca, com a leitura particular do universo apresentada pelos autores. Para fechar a trilogia, será montada uma peça que até agora só tem o título definido. “Iria fazer Cartas de Mar e Ar, mas tive a sorte de encontrar dois jovens autores brasileiros: Mario Bortolotto e Fernando Bonassi e resolvi adaptar seu textos. Um deles é o monólogo Homos Erectus, de Bonassi” Esse trabalho deve começar a ser ensaiado em maio, com a direção de José Possi Neto. “Conhecemo-nos há três meses, quando ele viu uma outra peça minha que escrevi junto com o Victor Navas – meu parceiro atual em várias peças e roteiros –, em cartaz, chamada Três cigarros e a última lasanha, e gostou muito. Inicialmente eu ia adaptar um livro mas no meio do caminho ele me pediu um texto. Fiz, e ele topou” — comenta Bonassi. A peça trata de uma situação absurda: um sujeito, ao acordar, vê que aconteceu um fenômeno com ele: seu pênis ficou enorme. A partir desse instante, ele passa a ser adorado por todos. Só que esse estado lhe consome muita energia e ele envelhece rapidamente. “É a trajetória simbólica de um grande artista vaidoso”, sentencia Bonassi. O espetáculo acontece num grande banheiro de churrascaria e o monólogo começa quando o protagonista vai urinar e percebe a presença de alguém ao seu lado. “O Raul Cortez é muito generoso comigo e com a dramaturgia brasileira, porque vou dialogar com um público a que eu não tenho acesso normalmente. Admiro sua coragem, por colocar sua imagem pública em risco sem ter vergonha disso, além de apostar num desconhecido”, coloca Bonassi. A resposta para essa atitude pode estar no próprio Cortez, que se sente imbuído de uma missão de melhorar o mundo, a partir da sua capacidade de emocionar o público. Com sua voz firme e penetrante, ele se mostra sempre disposto a mergulhar, cada vez mais, no universo do outro, sem deixar de emprestar um pouco de si mesmo. Para ele, viver cada trabalho como se fosse único é parte do seu jeito de interpretar, e como o seu momento é cinematográfico, ele revela: “No cinema, a câmera capta no teu olho a alma do personagem, e o menos é o mais. Você tem que ser o personagem, sem excessos”. Felipe Porciúncula é jornalista.

Raul Cortez transita com competência pelo cinema, pela TV e pelos palcos, onde já fez de peças a shows

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44 TRADUZIR-SE Ferreira Gullar

A transgressão como valor A obra de Oiticica não será “um tesouro de criatividade” apenas porque pretendia contestar o establishment Fotos: divulgação

A obra surgiu da capa do suplemento literário do New York Times, com uma foto de Buñuel

John Cage teve seu livro Notations incluído no projeto

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A galeria Fortes Vilaça, de São Paulo, está exibindo um trabalho inédito de Hélio Oiticica, realizado em 1973, quando ele vivia em Nova York. Chama-se Cosmococa e consiste em cinco séries de fotos, cinco instalações, um pôster e um livro, tudo feito em colaboração com o cineasta Neville D’Almeida. Segundo afirmação do próprio Neville, a obra surgiu de uma página de jornal – a capa do suplemento literário do New York Times – que trazia uma foto grande de Luis Buñuel. Os dois então viram nisto uma “abertura sem precedentes da autoreferente cultura norte-americana para o estrangeiro” e decidiram compor “um arco de homenagens” a outras figuras também supostamente discriminadas pela imprensa americana: Jimi Hendrix, Yoko Ono, Marilyn Monroe e John Cage. A homenagem consistiu, basicamente, em enfeitar de cocaína as fotos dessas personalidades e com elas compor cinco instalações. O objetivo, ao que se deduz, era denunciar a estreiteza do establishment ianque. A cocaína funcionaria ali como a expressão da liberação total dos valores convencionais, que Hélio e Neville contestavam, drogando-se. Mas a obra não se limitava a essa contestação. O objetivo era criar uma nova expressão visual – intitulada por eles de “quasi-cinema” – e que consistia na projeção de fotos em slides “de modo a quebrar a tradicional postura do público diante da tela


TRADUZIR-SE 45 Marilyn Monroe foi também homenageada com os desenhos em cocaína

de projeção de um filme”. Assim, em vez do público se sentar em “rígidos assentos”(poltronas), acomodar-se-ia em colchões e redes. As projeções seriam feitas em várias paredes e, com isto, seria quebrada “a linearidade narrativa do cinema”. Conta Neville que ele e Hélio, então, conversavam muito sobre “a necessidade estética e espiritual de se libertarem do caminho do cinema convencional”. Chama a atenção este ponto, uma vez que Hélio Oiticica não era cineasta e Neville D'Almeida nunca mostrou em seus filmes – de feição realista – qualquer inquietação experimentalista. Seria então um “barato”daquele momento? De qualquer modo, Cosmococa, desgraçadamente, não teve oportunidade de mudar o establishment norte-americano, uma vez que ficou inédita até hoje, deixando assim intactas a sociedade capitalista e a arte cinematográfica, cujo público, para seu desconforto físico e espiritual, continua a sentar-se em poltronas, em vez de deitar-se em colchões. Mas quem sabe, agora, depois da exposição na Galeria Fortes Vilaça, as coisas mudem. A iniciativa da família Oiticica e da referida galeria de exibir o referido trabalho ajusta-se perfeitamente à ordem natural do mercado de arte, uma vez que qualquer coisa que leve o nome de Hélio Oiticica vale hoje uma pequena fortuna, o que parece em parte justificar o destaque dado pela imprensa paulista a um trabalho, sem dúvida alguma, secundário no conjunto da obra desse artista. Por isso, causa espécie o modo como é tratado o assunto pela crítica de arte Angélica Moraes que não hesita em afirmar tratar-se de “um tesouro de criatividade e testemunho de época”. Mas, ao mesmo tempo, ela se antecipa a supostos censores, advertindo-os contra “uma falsa denúncia (sic) de apologia das drogas”, o que implicaria em “cancelar o exercício de liberdade que a arte pressupõe”. Ela toma todo esse cuidado para ressalvar o fato de que o elemento essencial da referida obra é a cocaína. Mas não esta cocaína de hoje – apressa-se em esclarecer – “sinônimo de violência genocida”, mas sim a cocaína dos anos 70, que constituía o “paraíso artificial” de Hélio e Neville. Como se sabe que foi exatamente a difusão da droga, promovida por artistas famosos, naquela época, que contribuiu de maneira decisiva para a ampliação do tráfico em escala internacional, a sua apologia, feita pela obra agora exposta, tem que inevitavelmente ser vista como fruto de uma atitude equivocada, que via na cocaína a libertação do ser humano, quando ela iria traçar “a trilha de sangue” dos dias atuais, para usar a própria expressão da crítica paulista. Não resta dúvida que estas não são questões estéticas e que o trabalho de Hélio Oiticica não deve ser exaltado ou condenado em função disso. O que importa, na apreciação de qualquer obra de arte, é o que ela significa como expressão criadora, como elaboração formal e revelação de uma alguma coisa nova e essencial. Do mesmo modo que um poema de temática social não adquire qualidade estética apenas por defender causas justas, esta obra de Oiticica não será “um tesouro de criatividade” apenas porque pretendia contestar o establishment ou os valores burgueses. Valerá se, como elaboração da linguagem e dos valores esté-

ticos, alcançar o nível de expressão que define a obra de arte. Por isso, tanto será descabido negá-la por fazer a apologia da cocaína como exaltá-la por essa mesma razão. Todas as pessoas que têm algum conhecimento da história da arte sabem que, no curso do tempo, de tanto livro que foi escrito, de tanto quadro que foi pintado, de tanta peça que foi montada, com o objetivo de condenar ou exaltar certas idéias e valores ou anti-valores, só permaneceram aqueles que transcenderam a contingência do momento para conseguir expressar o permanente da experiência humana. Maquiar fotografias de seus ídolos com pó de coca pode conter em si alguma rebeldia – igual a ficar nu num museu naquela época – mas tais gestos, legítimos como exercício de liberdade individual, não costumam ir além do efeito momentâneo e limitado. A arte, como se sabe, sempre foi muito mais que isto. Sempre haverá alguém para argumentar que a época é outra e que hoje o que importa é o efêmero, que é afinal de contas a condição real da própria existência. Esta é um opção a ser feita. Poder-se-ia acrescentar que o caráter moderno do efêmero na arte está em perfeito acordo com o sistema econômico que rege a sociedade atual: para o capitalismo é fundamental que a geladeira, o carro, o fogão, o liqüidificador, durem o mínimo possível, a fim de que as fábricas continuem a produzir e o comércio a vender. A vontade de permanência, ao contrário, nasceu com o ser humano e foi ela que levou o homem a inventar os instrumentos reais (tecnologia) e simbólicos (arte) que o ajudam a manter-se vivo e construir a sua humanidade. Ferreira Gullar é poeta e crítico de arte Continente maio 2003


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48 CAPA

O enigma do século 21

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CHINA A China, com uma civilização milenar vivendo um processo acelerado de ocidentalização, é protagonista da geopolítica mundial neste século Fábio Lucas Um instrumento de orientação, um artefato de destruição, um utensílio de manipulação. Inventos do mesmo povo, crias da mesma cultura, promessas da mesma história. Faz muito tempo que os chineses nos deram a bússola, a pólvora e a porcelana. A maior população do planeta – cerca de 1,2 bilhão de pessoas, pelas mais recentes e difíceis contas – atravessou milênios e resolveu abrir as portas para o Ocidente nas últimas décadas, o que resultou na modernização do modo de vida e no aumento da renda per capita – e também na volta das desigualdades que o regime comunista se orgulhava de ter afastado. Depois da queda do Muro de Berlim e do declínio do bloco soviético, a China tem exercido um inegável fascínio nos ocidentais, mais do que já exercia. Pois com a hipertrofia do poder americano, imagina-se que somente os chineses teriam peso suficiente para equilibrar a balança geopolítica na Terra. Ao mesmo tempo, teme-se pelas conseqüências da disseminação ou da ampliação do modelo chinês de civilização bem-sucedida: liberdade econômica sem direitos, capitalismo sem democracia. Para onde os mandarins vão nos guiar? Que mundo ajudarão a moldar? Para quem nunca pisou em solo chinês, a percepção é de que a China está mudando numa velocidade jamais vista. A verdade é que a transição não foi tão drástica


Foto: Super Stock

CAPA 49 » assim. O professor Colin Mackerras, da Escola de Negócios Internacionais e Estudos Asiáticos da Universidade de Griffith, na Austrália, acredita que as mudanças mais profundas vêm se cristalizando ao longo dos últimos cem anos, tendo ganho relevo nos últimos 50 anos e acelerado, de fato, rumo à modernização nas duas últimas décadas. Por outro lado, há resistências em boa parte do território chinês, especialmente na área rural. A explicação disso, na avaliação do professor Mackerras, é que na China o peso da história é maior do que em outros países. E a história formou uma mentalidade que não se conquista facilmente. “O confucionismo, tradicional sistema de pensamento, agora está morto, mas sua influência nas hierarquias e nas atitudes do povo ainda é muito presente”, justifica. Consciência histórica - O que o australiano chama de influência, a professora Christine Dabat, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, prefere chamar de consciência. “A dimensão histórica está muito presente na mente dos chineses, ao contrário do que ocorre com os brasileiros”, compara Dabat. Para ela, o povo chinês possui uma noção segura de sua própria história, e pode ser o único com condições de rivalizar com o Ocidente neste aspecto. A idéia de que a China é um país fechado também é relativa, segundo Dabat, apropriada a uma perspectiva tipicamente ocidental. Na época dos Descobrimentos, por exemplo, os chineses fizeram expedições pela costa da África e por todo o Oceano Índico. A diferença era o propósito dessas viagens: apesar de, à maneira dos ocidentais, considerarem os nativos como bárbaros, os chineses não pretendiam firmar colônias e espalhar um império pelo mundo. A região ao sul foi de trocas constantes ao longo dos séculos e o chamado “Reino do Meio” não podia deixar de exercer sua força com a imensa fronteira que o cerca. Mesmo assim, a maior parte dos conflitos externos se deu sem a conotação colonizadora. Até porque a China, quase sempre, esteve às voltas com guerras dentro ou nas bordas de seu próprio território. O estrangeiro, para o chinês, não valia a pena. Era tido como bárbaro, até bem pouco tempo. A professora Dabat lembra que somente no século 19 é que embaixadores de outros países foram recebidos na Cidade Proibida. Para uma história milenar, é como se o lado de fora, até ontem, não existisse. De acordo com a professora da UFPE, a preferência de algumas dinastias pela diplomacia e o fato de que os britânicos se estabeleceram na China, utilizando armas inventadas pelos chineses, sem falar na estratégia da devastação social pelo ópio, demonstram que a opção militar para o chinês é antes defesa do que ataque. “As grandes civilizações consideram a guerra como uma declaração de incompetência”, comenta Dabat. Para ela, é evidente que os chineses jamais quiseram conquistar o mundo – e talvez por causa disso a China seja vista, pelo Ocidente, como fechada. Colin Mackerras, por sua vez, aponta uma relação milenar de amor e ódio entre os chineses e os ocidentais. O povo chinês, segundo ele, nutre uma grande admiração pelo atual estilo de vida consumista ocidental, mas permanece altamente nacionalista. O que não significa necessariamente um choque de civilizações, pondera Mackerras. “Acredito que o mundo esteja passando de fato por um choque desse tipo, mas ele é muito mais agudo entre o Ocidente e o Islã do que entre a China e o Ocidente ou entre a China e o Islã”, diz, fazendo questão de ressalvar que tal choque

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50 CAPA Foto: Arquivo pessoal

Há um sentimento contraditório em relação ao futuro da China. No horizonte, esperança e medo enchem os olhos ocidentais, cansados da hegemonia americana, de um lado, e arregalados com qualquer possibilidade de retrocesso das conquistas democráticas, de outro

Colin Mackerras: o poder chinês deve crescer e o americano, diminuir

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não se dá em todo lugar, tampouco é o que de mais importante está ocorrendo no mundo. “De toda forma, é um choque considerável, cujo alcance foi ampliado após os incidentes do 11 de setembro”. O nacionalismo pode ser fruto de um outro componente dominante na cultura chinesa: o sentimento de unidade, acompanhado de uma vontade cíclica de unificação. “O comum dos mortais, na China, pensa seu país dotado de uma unidade intrínseca, que pode sofrer, ao longo dessa imensa história, momentos passageiros de fragmentação”, destaca Christine Dabat. O movimento dialético em torno da unidade seria um traço peculiar dos chineses, cuja tradição foi aproveitada pelo maoísmo – doutrina comunista associada ao líder Mao Tse-Tung, que fundou a República Popular da China, em 1°. de outubro de 1949, e lançou a Revolução Cultural, em 1966, vindo a falecer dez anos depois. “Recompor a unidade, refazer o Estado, redistribuir a terra, tudo isso são princípios clássicos da historiografia chinesa, e foi o que Mao fez”, assinala Dabat. Tradição materialista - O fascínio pela unidade poderia remeter o raciocínio ocidental para o viés religioso, dentro de uma lógica de raiz monoteísta. Mas para o professor Colin Mackerras, da Universidade de Griffith, na Austrália, a religiosidade não desempenha um papel central na sociedade chinesa. “A China me parece muito materialista, com a maioria das pessoas mais preocupadas em ficar ricas e com as suas carreiras do que com religião”, afirma Mackerras, autor do New Cambridge Handbook of Contemporary China (Cambridge University). O sinólogo admite, contudo, um renascimento religioso ocorrido na China nos últimos 20 anos, originado, segundo ele, pelo vácuo deixado pela descrença na ideologia marxista. Além disso, num país tão grande, seria difícil não encontrar muitas variantes religiosas. Em algumas partes do país, igrejas de cristãos protestantes funcionam clandestinamente. No Tibet, o budismo é praticado abertamente, assim como o islamismo em regiões autônomas, como Xinjiang e Ningxia. “Visitei Xinjiang duas vezes na década de 90 e fiquei espantado com a força do islamismo por lá, entre as minorias”, conta Mackerras. E, de acordo com o professor, apesar do Partido Comunista tentar controlar as religiões, aquelas que estão fora de controle, como o Islã, tendem a ficar mais fortes do que as que são dominadas pelo partido. “Na China, a religião é temida pelo governo e não utilizada para manter o poder”, como se vê no Ocidente. “Nos casos em que o Partido acredita que os devotos usam a religião para atacar o Estado, a repressão é pesada”. Christine Dabat associa a repressão à tradição de unidade. “Para o dirigente chinês, qualquer força centrífuga é perigosa, porque pode levar a uma fragmentação”, admite. O problema é a dimensão real de cada “força centrífuga”, cuja ação tem provocado reações desproporcionais do poder chinês. Somente no século passado, durante o “Grande Salto para a Frente” e a “Revolução Cultural”, estima-se que morreram entre 50 e 100 milhões de pessoas. A repressão política faz um estranho par com o desenvolvimento econômico na terra dos mandarins. A partir de 1978, Deng Xiaoping pôs início à abertura na economia, que hoje se apresenta acentuada: nos últimos 10 anos, a China foi o país que mais cresceu no planeta. Em 2001, entrou para a Organização Mundial do Comércio (OMC). Em


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2002, o crescimento foi de 8% do PIB, que já é o sexto do mundo. Enquanto isso, a ditadura comunista continua e parece não se importar com a modernização. Pelo menos é o que se mostra. A professora da UFPE toca na ferida: “Os dirigentes chineses estão numa saia justa. Porque é uma contradição. A questão não é só abrir, é também modificar as regras internas. E desmontar a coletivização: em 20 anos foi desmontado tudo o que os comunistas construíram, do ponto de vista econômico, desde 1949”. Dabat lembra que a saudação mais comum, durante muito tempo, não era “bom dia”, e sim, “você comeu?” Até quando vai dar certo o “socialismo com características chinesas”, um modelo de alto teor de concentração política em que cresce a paixão pela propriedade privada e por valores individualistas? Até quando a terra – toda a terra, inclusive a das residências – será uma posse do Estado? Até quando irá a tolerância com o “capitalismo de guanxi” (guanxi quer dizer “relação”), onde o importante é ter boas ligações com a estrutura burocrática? E principalmente, à medida em que se eleva o grau de informação a respeito dos direitos e deveres democráticos, até quando os chineses aceitarão a repressão do regime? Há um sentimento contraditório em relação ao futuro da China. No horizonte, esperança e medo enchem os olhos ocidentais, cansados da hegemonia americana, de um lado, e

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Cerimônia de abertura do 3° Festival de Ópera de Pequim, dezembro de 2001

arregalados com qualquer possibilidade de retrocesso das conquistas democráticas, de outro. O sinólogo australiano aponta diversas alternativas, que podem trazer conseqüências diferentes para o mundo. Pode haver uma redução no ritmo de crescimento econômico, pondo o país em colapso e fragmentando novamente a gigantesca nação. Este é o cenário de instabilidade. No cenário da estabilidade, a economia continua crescendo e o país se torna cada vez mais um desafio ao poder americano. “Mas a situação mundial muda muito, e não se podem prever os efeitos que a guerra contra o terrorismo e a guerra do Iraque irão produzir no equilíbrio mundial”, alerta Mackerras. “Minha impressão é de que a China continuará crescendo, mas a uma velocidade mais lenta que nas últimas décadas.” O professor arrisca um palpite e revela um desejo: a curto prazo, a guerra contra o terrorismo aumentará a condição dos EUA como única superpotência. No entanto, essa mesma cruzada, a longo prazo, reduzirá a força política e econômica dos americanos, abrindo caminho para o poder chinês. “Eu não estarei vivo para ver, mas espero que a China esteja mais forte no meio deste século, e os EUA mais fracos”. Fábio Lucas é jornalista.

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Âť

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Os novos ricos

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do planeta Foto: Liu Jin/AFP

A China, hoje: nas avenidas reluzentes do novo capitalismo ainda impera a censura do partido único Marcelo Abreu

Quem decidir procurar a velha China das bicicletas e do zhong shan fu, o uniforme azul abotoado até o pescoço, usado por homens e mulheres, vai ter de se esforçar muito para achar. O mais provável neste início de século 21 é encontrar muitos automóveis e motos nas largas avenidas das cidades chinesas, pessoas falando ao celular, usando roupas de modelo ocidental e fazendo compras. Muitas compras. A avenida Jianguomen é a principal vitrine do desenvolvimento de Pequim dos últimos anos. É lá que o novo capitalismo emergente se estabeleceu em prédios reluzentes, de arquitetura pósmoderna. O estilo de construção mais utilizado na nova Pequim incorpora motivos orientais a elementos como o vidro e o concreto do estilo internacional. São edifícios de aparência pesada e gosto duvidoso. Personificam a estética de um país descaradamente nouveau riche. Esses prédios abrigam hotéis de luxo, galerias sofisticadas e lojas de departamentos. Mesmo a tradicional Loja da Amizade, antigo empório comunista, onde a comunidade estrangeira fazia compras com moeda forte no passado, agora se sofisticou e virou uma sortida loja de departamentos e supermercado, aberto para todos. A rua Wangfujing, próxima à Cidade Proibida (o maior monumento da dinastia Ming), virou também outro centro de consumo de nível mundial. Nessa rua de pedestres foram instaladas grandes e luxuosas lojas de departamentos e butiques, todas freqüentadas pela numerosa classe média surgida nos últimos anos. Em torno do centro de Pequim, grandes avenidas perimetrais e viadutos acolhem um trânsito cada vez mais intenso de automóveis que transitam velozmente, à noite, sob o brilho dos anúncios de neon. A toda hora caminhões transitam levando material de construção. É como se o progresso nunca pudesse parar, nem num sábado à noite, numa cidade onde já funcionam 49 lanchonetes McDonald’s. Quando se olha Pequim do alto de um edifício, o que se vê é um imensa cidade em construção, com arranha-céus subindo como cogumelos, uma versão high-tech da Nova York dos anos 30. Com seus 11 milhões de habitantes, Pequim pulsa ao ritmo das caixas registradoras. O que acontece na capital é seguido de perto em outras grandes cidades do leste e do sul da China, onde mora boa parte da população do país: Cantão, Shenzhen, Xangai, Xi'an e até na remota Hohhot, capital da República Autônoma da Mongólia Interior, passam por processo semelhante. Como um país de 1, 3 bilhões de pessoas conseguiu em pouco mais de duas décadas se transformar de maneira tão intensa? “Socialismo com características chinesas”, afirmou no

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discurso de posse, em março último, Hu Jintao, o novo presidente da China, usando um eufemismo para evitar a igualmente polêmica expressão “socialismo de mercado”. Um livreto da Xinhua, a editora oficial do regime, diz que “a República Popular da China é um país socialista de ditadura democrática (sic) popular, dirigida pela classe trabalhadora e baseada na aliança operário-camponesa”. A verdade é que, excetuando a palavra “ditadura”, um passeio pela Pequim dos dias de hoje – ou pelo centro de qualquer metrópole chinesa – não nos mostra exatamente essa aliança proletária. Pelo contrário. O que fica evidente é uma economia de característica cada vez mais burguesa, que cresce a taxas impressionantes. Uma economia pujante que incorpora milhões ao consumo todos os anos. Nova economia - A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) representou um degrau importante na escalada rumo ao status de potência econômica internacional. Foi o ponto alto de um processo iniciado em 1978, quando Deng Xiao Ping assumiu a secretaria geral do PCC e iniciou a instalação de zonas econômicas especiais, abrindo a economia a investimentos estrangeiros. Hoje, das 500 principais empresas multinacionais do mundo, mais de 300 têm investimentos no país. O economista Fred Hu escreveu na edição asiática do Wall Street Journal que a entrada na OMC representa muito mais do que o corte de tarifas. “Foi uma revolução na mentalidade nacional, encerrando a tendência para o isolamento que existia há séculos no Reino do Centro.” Mas numa economia que vem crescendo a taxas de quase 10 por cento ao ano, ao longo de mais de uma década, o desenvolvimento econômico parece não combinar com o controle total do Partido Comunista. A sexta maior economia do mundo, a que detém o maior mercado em potencial, ainda é uma ditadura de partido único. Em março deste ano houve uma transição pacífica de poder. O presidente Jiang Zemin, de 76 anos, deu lugar a Hu Jintao. No cargo de primeiro-ministro, Zhu Rongji, de 74 anos, abriu espaço para Wen Jiabao. Jiang Zemin mantém o controle das Forças Armadas através da Comissão de Defesa Nacional. Hu e Wen são homens do sistema, quadros de confiança dos antigos dirigentes. Os dois “jovens” líderes – ambos na faixa dos 60 anos – prometeram mudanças graduais na economia e no controle da imprensa. Mas reafirmaram seu compromisso com, acima de tudo, a estabilidade política que favorece o crescimento econômico. A chegada do capitalismo trouxe problemas sociais bem visíveis como desemprego, aumento da criminalidade e o esquecimento de regiões no oeste do país, que não foram beneficiadas diretamente pelos investimentos estrangeiros. Centenas de milhões de pessoas ainda levam uma vida muito dura no campo e nos vilarejos. Outros milhões vivem em Continente maio 2003

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Miss Mundo 2001, Agbani Darego da Nigéria, em traje típico da Imperatriz da dinastia Qing, em maio de 2002

Agora o capital restaura os prédios de aparência severa, dando uma merecida mão de tinta na arquitetura antiga e aproveitando os espaços abertos nas cidades para a construção de arranha-céus empresariais e grandes blocos de apartamentos de luxo para os novos ricos


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Fogos de artifício marcam a comemoração dos 5 anos de retorno de Hong Kong à Pátria

dormitórios, na periferia das grandes cidades, trabalhando sob condições precárias em fábricas que exportam bugingangas para o resto do mundo. Se o crescimento econômico ainda não é para todos, argumenta o governo, a cada ano milhões de pessoas são incorporadas ao mercado consumidor. Onde mais no mundo isso está acontecendo na mesma proporção? Linha oficial - O grande drama de uma sociedade que a cada ano sofistica seu consumo é a falta de liberdade política. Em poucos lugares do mundo a informação é tão controlada como na China. O jornal China Daily, uma tradução para o inglês do Remin Ribao (Diário do Povo, órgão oficial do PC) é um bom exemplo. Circula matinalmente em tamanho superstandard e em cores. É um jornal bem feito e aparentemente agradável. Mas sua receita de reportagens, que expressam apenas a versão oficial dos acontecimentos, é angustiante para quem quer se informar com independência. Lembra um boletim que trata de encontros diplomáticos dos dirigentes, das conquistas do socialismo de mercado e dos preparativos para a esperada Olimpíada de 2008, em Pequim. Na televisão, a China Central Television (CCTV) tem uma dezena de canais abertos com programação diferente. Mas nenhum deles traz debates sobre os problemas nacionais. Além

de noticiários oficiais e programas de auditório, há filmes, em geral, épicos da história antiga chinesa. Discute-se, nos meios acadêmicos internacionais, até quando o governo chinês vai conseguir manter o modelo de liberdade econômica e ditadura política. A China ainda é muito burocrática. Nos hotéis, uma simples troca de dinheiro pode levar 15 minutos, vários carimbos e mobilizar a atenção de seis ou sete atendentes simultaneamente. Uma experiência que nos lembra o terror da explosão populacional. Parece sempre haver cinco vezes mais pessoas envolvidas em atividades que, no Ocidente, uma só conseguiria realizar. Tradição e mudança - Em Pequim, o regime comunista destruiu grande parte da cidade original, ao abrir largas avenidas majestosas nos anos 50 e 60. O melhor exemplo da arquitetura do período encontra-se em torno da Praça da Paz Celestial, com o Grande Palácio do Povo (sede do Legislativo), o Museu da Revolução e o enorme Mausoléu de Mao Tsé-Tung. Recentemente, os automóveis da bonança econômica ocuparam as avenidas, escanteando as bicicletas para a vias locais, na beira das calçadas. Agora o capital restaura os prédios de aparência severa, dando uma merecida mão de tinta na arquitetura antiga e aproveitando os espaços abertos, na ampla cidade, para a construção de arranha-céus empresariais e grandes blocos de apartamentos de luxo para os novos ricos. Mas muita coisa permanece inalterada. Milhares de prédios residenciais continuam degradados. Nas ruelas, que dão acesso aos hutongs (as tradicionais aglomerações de residências tradicionais chinesas), tem florescido um intenso comércio de alimentos e restaurantes. Andando por essas ruelas, a impressão que dá é que todo chinês abriu o seu próprio negócio. Quem não pode alugar espaço em um arranha-céu, vende alguma coisa, na porta de casa mesmo. Na área da música pop é cada vez maior a influência de bandas de adolescentes de Hong Kong e Taiwan. O mundo das passarelas já entrou no país e modelos e estilistas são entrevistados na TV. Algumas tendências da moda se evidenciam entre os mais jovens, mas não atingem toda a população. A Internet tem sido controlada pelo governo e muitos cyber-cafés, extremamente populares no resto da Ásia capitalista, têm sido fechados pelo governo. Esporadicamente, dirigentes do PC ainda vêm a público condenar certas características da cultura ocidental. Marcelo Abreu é jornalista. Continente maio 2003


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A pauta do século Jornalista narra suas impressões pessoais de viagem à "Nova China"

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“Viajei à China em outubro de 2001, a convite do governo chinês, como jornalista ocidental, para conhecer a província de Sichuan, perto da fronteira com o Tibet. Eles estavam interessados em propagar para o mundo ‘O grande salto para o desenvolvimento’ daquela província do oeste. Negociei, então, conhecer outras cidades e regiões”. Desembarquei, num vôo via EUA, poucas semanas após o 11 de setembro. De cara, defrontei-me com uma postura, diante do atentado terrorista, bastante diferente da daqui do Brasil, onde temos o costume de “importar crises”. Para eles, isso era problema dos americanos. Uma atitude de independência, oposta à nossa de colonizados culturais. Já por aí senti o muito que temos de aprender com a enigmática China. O primeiro paradoxo que observei na “nova China” é a estreita relação entre a economia chinesa e a economia americana. É uma intrincada interdependência. Por meio de joint venture uma quantidade enorme de multinacionais americanas está presente na China, em associação com capitais chineses. É impossível imaginar uma guerra econômica entre China e Estados Unidos. Já no campo político, as duas nações representam o inverso. Os EUA, no campo interno, são um exemplo de democracia, enquanto no campo externo se converteram num império tirânico, como aliás acontece com todos os impérios. Já a China, que não pratica a democracia interna, defende relações internacionais democráticas, necessárias ao seu próprio crescimento. Quando retornei, a imagem mais marcante, que trouxe comigo, foi a da visibilidade da prosperidade chinesa. É uma loucura! Cidades inteiras parecem canteiros de obras. A sensação que você sente é que ao passar pela manhã por uma rua é uma coisa, quando passa à tarde, já é outra, já há um novo prédio ali. Xangai está toda cortada por viadutos que não existiam há apenas cinco anos. E é uma arquitetura ultramoderna. Da parte velha de Xangai, observar o sky line da outra margem do rio Pudong, onde estão as construções futuristas de grandes empresas e organizações, é um espetáculo incrível. Deng Chiao Ping foi um gênio. Ele fez o contrário de Gorbatchev na União Soviética. Abriu a economia e manteve firmemente o controle político. Na Rússia, abriram primeiro a política e mantiveram a economia estatal, e deu no que deu. Deng Chiao Ping, que conduziu as reformas na China, criou a frase: “Enriquecer é glorioso”. E os chineses embarcaram totalmente nesse lema. Agora, para

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A imagem mais marcante, que trouxe comigo, foi a da visibilidade da prosperidade chinesa. É uma loucura! Cidades inteiras parecem canteiros de obras. A sensação que você sente é que ao passar pela manhã por uma rua é uma coisa, quando passa à tarde, já é outra, já há um novo prédio ali fazer carreira, participar do sistema, é preciso ser filiado ao Partido Comunista. É uma coisa curiosa: para ser empresário na China tem que ser do Partido Comunista. Até os capitalistas estrangeiros para se estabelecerem lá têm que se filiar. Foi cunhado um neologismo para abrigar os capitalistas: as “Forças progressistas da produção”. Pude perceber um certo cinismo, talvez pragmatismo, em relação a isso. Quando perguntava aos intérpretes por que eram filiados ao Partido Comunista, ao contrário do que vi antes em outros países, eles não usam qualquer pretexto ideológico. Vão direto ao que interessa: “Sou filiado porque preciso do emprego. Sou filiado para fazer carreira”. Não escondem o motivo. Fiquei fascinado com o país, com sua enorme vitalidade econômica. Encontrei um chinês que morava antes em São Paulo e está agora com uma churrascaria-rodízio em Xangai. Ele me disse: há 20 anos São Paulo não cresce. Xangai já superou São Paulo. O crescimento contínuo de 10% ao ano é chocante. Confunde-se muito, chinês com japonês, mas são povos muito diferentes. O chinês não tem aquela contenção do japonês, é mais descontraído, tem uma relação mais próxima com o próprio corpo, são maiores, mais elásticos. São completamente diferentes. Como repórter, são essas algumas conclusões que tirei, depois de 25 dias na China. É pouco tempo. Como jornalista, a gente tem que chegar a algumas conclusões, apressadas ou não. Considero que essa experiência foi só um desafio. Eu adoraria passar uns dois anos como correspondente na China, para desvendar o seu enigma. O que aconteceria, por exemplo, se eles adotassem o modelo de democracia ocidental? Eles estão atualmente empenhados na maior abertura para o estrangeiro. Mas, na história chinesa essa relação é cíclica, esquizofrênica: ora abre, ora fecha, e assim sucessivamente. São um bilhão e 200 milhões de habitantes. Havia 500 milhões abaixo da linha da pobreza. As reformas já incorporaram 250 milhões. Não vi pobres nas cidades. Deve haver pobreza no interior, mas eles evitaram nos mostrar. De todo modo, é algo colossal o que está acontecendo ali. Milhões e milhões entrando na sociedade de consumo. Um gigante se abrindo cada vez mais nas relações internacionais. O que vai acontecer? Eis uma pauta interessantíssima.” Pedro Bial viajou à China como enviado especial da Rede Globo Continente maio 2003


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Olhares femininos de dentro da China Escritoras desvendam uma China dual, onde as mulheres vivem realidades muito diversas Homero Fonseca Sexo, drogas e rock’n’roll. E além disso, arranha-céus, minissaias, computadores, hackers, jazz, telefone celular, pintores malucos, automóveis importados, vinhos, cigarros, lojas de departamentos, torres de TV, anúncios de néon, cabelos despenteados, ar condicionado, festas retrô, outdoors comerciais, multinacionais, executivos estrangeiros, latas de coca-cola, vernissages. Esses ingredientes estão no romance Xangai Baby, da escritora Wei Hui, uma típica representante da “nova mulher chinesa”, isto é, a geração nascida nos anos 70 e que, nas asas das profundas mudanças políticas e econômicas, protagoniza agora a revolução social e sexual que balançou o Ocidente a partir de 1968. Xinran (acima) faz relatos Romance de inegáveis qualidades literárias, lembran- pungentes da condição feminina. do um pouco o estilo sensual de Erica Jong, mas abor- Wei Hui (ao lado) focaliza a revolução sexual dando com mais densidade o drama urbano de uma Xangai cosmopolita, com tudo de positivo e negativo que esse termo pode implicar, este quarto livro da bela romancista terminou por ser proibido pelas autoridades e teve 40 mil exemplares queimados em praça pública. Seu universo é o da classe média em ascensão econômica, social e cultural, com seus dramas existenciais, tendo como pano de fundo uma sociedade de consumo, onde afloram vestígios da antiga ordem comunista e das mais arraigadas tradições orientais. Significativamente, muitos dos seus personagens jovens, a exemplo da vida real, adotam nomes americanos, como Dick, e apelidos como Madonna. Poetas, músicos, filósofos, psicanalistas ocidentais são citados em profusão, revelando uma larga abertura ao exterior. Completamente diferente é o livro As boas mulheres da China, da jornalista Xinran, durante oito anos âncora do mais popular programa feminino do rádio chinês, e que consiste nos depoimentos de 14 mulheres de classes sociais diferentes e das várias regiões chinesas. Nos relatos pungentes, ao estilo de fábulas, Xinran desvenda um mundo oculto de sofrimento, medo, violência, preconceito, ignorância e opressão. Saindo do foco da parte “moderna” da China, a jornalista, que se exilou em Londres para poder publicar seu livro, desvenda a coexistência de uma China pobre e atrasada, onde as mulheres são a primeira e maior vítima. O relato das mães de Tangshan, cidade onde, em 1976, morreram 300 mil pessoas vítimas de um terremoto, compõe algumas das mais comoventes páginas já escritas. A leitura dessas duas escritoras, para além da fruição estética, enriquece o conhecimento do que se passa no País que será em breve um dos protagonistas da cena mundial. Homero Fonseca é editor-executivo da Continente As boas mulheres chineses - Xinran - Companhia das Letras, São Paulo, 2002. 281 páginas, R$ 35,00. Xangai Baby - Wei Hui - Editora Globo, Rio de Janeiro, 2002. 358 páginas, R$ 39,00.

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Brasil - China: reatando antigos contatos Há indícios de que chineses estiveram aqui muito antes de Cabral. Agora, relações culturais e econômicas tomam impulso Carol Almeida primeiro efeito da filosofia de união que irá intensificar as analogias econômicas entre os dois países, provocando, assim, um laço de conhecimento cultural, até então, nunca experimentado por ambas as nações. Ambos são países em desenvolvimento, que estão projetando prioridades na área científico-tecnológica e comercial. Esses dois pólos de atividade estão, aos poucos, harmonizando interesses financeiros e, por conseqüência, incentivando pontes que ligam a milenar cultura chinesa com a jovem memória cultural brasileira. Em outras palavras, o fato dos dois países terem lançado em 1999 um satélite no espaço (e este ano lançarão outro em conjunto) e do comércio entre Brasil e China ter aumentado quase 300%, nos últimos três anos, colaboram diretamente para que empresas como a BrasilConnects invistam pesado em exposições como a que está hoje aberta em São Paulo. A BrasilConnects, antes chamada de Associação Brasil +500, é a primeira instituição nacional a apostar nessa simbiose cultural, sendo ela resultado da incipiente relação tecnológica e comercial sino-brasileira. O próprio presidente da empresa, o banqueiro Edemar Cid Ferreira, tem interesses claros em investir no mercado chinês. Nada melhor então do que começar um diálogo promovendo os valores culturais da China no Brasil, e vice-versa. O projeto, que é resultado do IV Programa de Cooperação Cultural Bilateral entre os dois países, assinado em novembro de 2001 pelo Ministério das Relações Exteriores, prevê uma grande exposição do Brasil na China, para o próximo ano. Pensa-se em fazer algo na área da ecologia, levando peças, por exemplo, da arte plumária brasileira até Pequim. O projeto está em fase de planejamento. A princípio, o plano é levar mais daqui para lá, do que o movimento contrário. De modo que, além das exposições promovidas pela BrasilConnects, a China, a partir de agora, deverá receber uma carga maior de informações sobre o Brasil. Carol Almeida é jornalista Fotos: Reprodução

China e Brasil: a diferença entre a idade oficial das duas civilizações é tão grande que, em um plano concreto, é como se a China fosse avó do Brasil. Isso, na linha da cronologia histórica, equivale a milhares de anos. No entanto, estudos feitos, recentemente, indicam que, muito antes do Brasil ser assim chamado pelos “titulares descobridores” do Novo Mundo, já havia contato entre chineses e índios brasileiros pré-colonizados. O pesquisador Zhou Shixiu, coordenador-adjunto do Programa China-Ásia-Brasil da Universidade Cândido Mendes (RJ) e único chinês a lecionar no Brasil assuntos relativos ao intercâmbio entre os dois países, explica que, entre os séculos 4 e 5 depois de Cristo, houve um possível primeiro contato entre chineses e brasileiros, documentados por um budista que, em seus escritos, cita um beija-flor que, de acordo com Shixiu, teria sido achado possivelmente no Brasil. Nos primeiros anos de colonização, houve um intercâmbio mais intenso entre o comércio sino-brasileiro e esse foi motivado porque Macau, cidade chinesa próxima a Hong Kong, também era colônia portuguesa. De modo que a rota comercial terminava, em algum momento, proporcionando esse contato, já registrado no livro Novo Mundo nos Trópicos, de Gilberto Freyre. “Encontrei relíquias chinesas do começo do século 18 espalhados em vários lugares do Brasil”, diz o professor Shixiu. O pesquisador acredita que os dois países “têm muito que trocar”. O fato é que as diferenças entre Brasil e China tendem cada vez mais a justificar uma aproximação cultural entre os dois países. De fevereiro de 2003 até este mês, em São Paulo, foi aberta a primeira via para que se crie uma rede de estradas culturais entre esses dois “continentes”. A megaexposição China: Guerreiros de Xi'an e os Tesouros da Cidade Proibida, realizada durante esse tempo no prédio da Oca, representou tão somente a maior mostra de peças chinesas já realizada em qualquer país fora da própria China. Mas, antes de simbolizar um grande evento cultural, a mostra é o

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“Como passam anos! Ultimamente têm passado muitos anos.” Assim disse o cronista, certa vez. Anos têm passado. E lá se vão 90 desde que nasceu Rubem Braga, escritor que se utilizava de assuntos à sua volta, de coisas simples, para fazer as melhores crônicas já escritas na literatura brasileira. Como diria o poeta Manuel Bandeira, “Braga é o estilista cuja melhor performance ocorre sempre por escassez de assunto. Aí começa ele com o puxa-puxa, em que espreme na crônica as gotas de certa inefável poesia que é só dele.” Rubem nasceu em Cachoeiro do Itaperimim, Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913. Morreu em dezembro de 1990, no Rio, numa cobertura em Ipanema com pomares de mangueiras e pitangueiras. Lá também mantinha reuniões que marcaram uma geração de escritores. Morou em várias cidades brasileiras, sempre se engajando em jornais e revistas para publicar crônicas diárias. Ainda moço, começou escrevendo para o Diário da Tarde, de Belo Horizonte. Trabalhou também no Recife, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde passou a maior parte de sua vida. Acompanhou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Publicou crônicas e livro a respeito. Viajou pela América do Sul, Europa, África e, de lá, também mandava crônicas para serem publicadas no Brasil. Advogado por formação e jornalista por vocação, Rubem criou um estilo só seu: uma prosa simples, coloquial, mas com lirismo nas entrelinhas. A repetição de palavras dava cadência a seus textos, com uma pontuação precisa como poucos. Usava o ponto e vírgula como ninguém. Ao se referir a um interlocutor, que por vezes era um amigo, um político ou até personagem imaginário, aproximava-se do leitor. Ele popularizou a crônica e a colocou num nível até então não alcançado na literatura brasileira. Rubem contava o que lhe acontecia, divagava idéias, sentimentos e elucubrações. Xingava pelas páginas dos jornais. Outras vezes contava as indignações de um jovem estudante ou já de um intelectual que freqüentava Jean-Paul Sartre, Manuel Bandeira, entrevistava Fidel Castro e era admirado por toda uma geração. Trocava cartas com Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Otto Lara Rezende e Moacir Werneck de Castro, para citar alguns. Depois as publicava em jornais. Mas era de Fernando Sabino, amigo de longas datas e também com quem trocava cartas, que vinha uma das maiores admirações. Com ele e Otto Lara Rezende fundou, em 1967, a Editora Sabiá, primeira a publicar no Brasil escritores como Gabriel García Márquez, Pablo Neruda e Jorge Luis Borges. Braga e Sabino costumavam referirem-se um ao outro nas crônicas, travando longas discussões. Entusiasmado pela escrita, Rubem criticava a burocracia de títulos, legendas e correção de provas de páginas comum às redações. Criticava também a mania de dedicar largos espaços às más notícias. “Oh, a dosagem dos adjetivos, as pequeninas fórmulas tradicionais de cada jornal, as chapas tão estimáveis. Os jornais noticiam tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida.”

O poeta da crônica Nas comemorações pelos 90 anos de nascimento de Rubem Braga, emergem novas facetas do grande cronista brasileiro Mariana Camarotti

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Foto: SĂŠrgio Tomisaki/ Folha Imagem


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Rubem, o vermelho, no Recife

O ano era de 1935. No Brasil, os tempos eram da ditadura de Getúlio Vargas, da política dos integralistas, da influência do nazi-fascismo europeu e do imperialismo americano. Eram também os tempos de Carlos Prestes, da Aliança Nacional Libertadora (ANL), dos grandes comícios e da força dos sindicatos. E estava no Recife ninguém menos que Rubem Braga, engajadíssimo entre os comunistas, em discussões que varavam as noites pelos bares do centro da cidade. Era jovem, estudante de Direito, com apenas 22 anos. Ajudou a fundar a Folha do Povo e para ela escrevia crônicas combativas e desbravadoras, sem pudor nas palavras. Era contra o regime vigente e o entreguismo do país. Rubem estava de um lado: o lado dos excluídos, dos que moravam em mocambos, dos sem oportunidades, o lado da maioria. O ideal de uma geração transpirava pela sua máquina de escrever e tomava as ruas estampado em manchetes. Foi no Recife, essa cidade de tradição revolucionária, intelectual e cultural, que se viu um Rubem Braga único. Nada de lembranças da infância, histórias de desencontros amorosos ou belas paisagens. As crônicas escritas por ele, naquela época, eram um tapa na cara de quem as lesse, um sacolejo na consciência. Os textos de Rubem publicados na Folha ganhavam destaque na capa, com manchetes de ponta a ponta, ou ocupavam lugar privilegiado na página três, a segunda mais valorizada. Algumas delas começavam na capa e continuavam nas páginas seguintes. São poucos os textos escritos no Recife e que mais tarde foram publicados em livros. Foi no dia 20 de julho de 1935 que Rubem publicou Luto da família Silva, célebre crônica que trata do enterro do corpo de João da Silva em uma vala comum. O jovem escritor se coloca como um dos milhões de brasileiros joões da silva. Ao longo Continente maio 2003

da história, como ele mesmo diz, os joões foram índios, negros, imigrantes, mestiços, retirantes. Todos enterrados na vala comum da história. “Nossa família, João, vai mal na política”, diz ele, citando os sobrenomes que detinham o poder da época. Como se antevisse os tempos de hoje, ele conclui: “(...) Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.” Esse texto integraria o seu primeiro livro, O conde e o passarinho, lançado um ano depois. Rubem criticava a conivência do governo com os donos de usinas de Pernambuco. “É preciso insistir sobre a significação da homenagem que os usineiros e gordos comerciantes promovem ao Secretário Chefe da Polícia (...) Não podia ser de outro jeito. O integralista, em Pernambuco, tem que ser lacaio do usineiro, porque em todo o Brasil o integralista é, queira ou não, um lacaio do ricaço. Sendo lacaio do usineiro, o integralista é lacaio do imperialismo, porque o interesse dos mandões nacionais e dos mandões imperialistas são idênticos.” E continua: “Ainda não estamos no fascismo rasgado! Calma cidadãos! Os governos ainda não deixaram de dizer que isto aqui é uma democracia.” A Folha do Povo era um jornal vermelho, de apoio declarado à ANL. A manchete de sua primeira edição dizia: “Luiz Carlos Prestes a todo o povo do Brasil.” Funcionou de 9 de julho a 21 de novembro de 1935, quando explodiu a Intentona Comunista. O jornal sucumbiu junto com o movimento. A redação funcionava no Recife Antigo, um local de efervescência intelectual naqueles tempos. Já a gráfica estava localizada na rua Diário de Pernambuco, no bairro de Santo Antônio. Além dos assuntos locais, a Folha trazia matérias de São Paulo e Rio de Janeiro. Mobilizações na Alemanha, União Soviética, Colômbia, Cuba e México eram recorrentes no noticiário. Em vez de fotos, raras nos jornais da época, havia alguns desenhos satirizando Hitler e Plínio Salgado. Apesar de a linha editorial ser deflagradamente política, o jornal dedicava um espaço diário à coluna Da cerca, tratando de notícias de futebol. Um exemplar avulso custava 200 réis e estampava anúncios da Farmácia Arraial, da loja de costura Casa Tic-tac, da Livraria Imperatriz, do Café Montana e das Casas Africanas, onde se vendia de tudo. O Recife da época era o de intelectuais que freqüentavam o bairro e o mercado de São José. Era o Recife de Gilberto Freyre, quando ainda era esquerdista e às vésperas de lançar Casa Grande & Senzala. Era também o de Josué de Castro, com seus estudos sobre a fome e sobre a importância do caranguejo no mangue para a sobrevivência dos miseráveis. Rubem convivia tanto com Gilberto Freyre como com Josué de Castro, e ambos


LITERATURA 63 » publicavam artigos na Folha do Povo. Para o jornal escreviam ainda Moacir Werneck de Castro, Brasil Gerson, Pedro Mota Lima, Di Cavalcanti e Sodré Viana. Uma das crônicas de Rubem comemorava a primeira aula dada pelo amigo Gilberto Freyre na Faculdade de Direito do Recife. Algumas vezes assistia a filmes no cinema e escrevia sobre eles de maneira genial. Outras vezes tratava do apartheid cultural entre pobres e ricos. Durante vários dias, Rubem dedicou espaços no jornal para discutir a apresentação de Bidu Saião no Teatro Santa Isabel, aberta apenas aos abastados. Populares, interessados, se aproximaram das janelas do teatro, que prontamente foram fechadas sob a desculpa de uma correnteza de ar. “Arte é, hoje, um odioso privilégio de classe. Ninguém pode dizer que não. Isso é odioso e triste e não dá prejuízo só à massa. Dá prejuízo igual à arte.” Antes de trabalhar para a Folha do Povo, Rubem Braga escreveu para o Diario de Pernambuco, uma publicação dos Diários Associados. Assim como as demais publicações de Assis Chateaubriand, o Diário era assumidamente getulista. Inexplicavelmente, o jovem escritor emplacava suas crônicas esquerdistas. Foi lá que ele publicou “O cidadão de Liffre”, uma bela crítica à forma “nojenta” de fazer política. Depois ele assumiu a chefia da página policial do Diário, de onde saiu para fundar a Folha. No contato pessoal, Rubem Braga era contido. Tanto que era apontado como chato pela maioria dos conhecidos. Desleixado nos trajes e despreocupado em ganhar dinheiro, era um homem de poucas palavras. “Pessoalmente era um chato, não conversava com ninguém. Eu tinha a impressão de que ele era um superdotado, que não via graça no que falavam os outros”, conta o jornalista Ronildo Maia Leite, que tomou algumas com o cronista. “Mas escrevendo era brilhante”, completa. O historiador e geógrafo Manoel Correia de Andrade, superintendente do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, tem na lembrança os tempos em que conviveu com Rubem. “Era um comunista de carteirinha, costumava dizer que os bons ventos vinham do leste (onde estava a União Soviética)”, lembra. Rubem Braga passou no Recife cerca de seis meses. Levado pelos ventos da descoberta e da liberdade, deixou a cidade em setembro. Em 79, voltaria a publicar na capital pernambucana. Dessa vez o seu único livro de poesias, intitulado Livro de Versos. A publicação foi da Edições Pirata, uma editora independente que lançava novos escritores na praça. O cronista famoso achou interessante a proposta e ofereceu poesias suas como forma de apoiar a editora.

O ca ara ang guejo e o pobre (Crônica de Rubem Braga inédita em livro)

José Lins do Rego é agora o maior romancista brasileiro. Já estão vendendo o seu último romance, O moleque Ricardo. O livro conta histórias antigas de greves e brigas de operários e operárias no Recife, quando o sr. Joaquim Pimenta era homem de prestígio no meio do povo desorganizado. O preto Ricardo nasce em um engenho, trabalha de pãozeiro no Recife e depois da greve, no fim do romance, é mandado para Fernando de Noronha. Mas agora eu não vou fazer crítica ao livro. Quero só chamar a atenção para a parte do romance passada nos mocambos. Aquilo me faz lembrar o que um companheiro pernambucano me falava outro dia sobre o papel sociológico do caranguejo. O caranguejo, para grande parte da população dos mocambos, é uma garantia contra a morte. É a comida de quem não tem comida. O pobre se defende no caranguejo. O caranguejo é o patrício do pobre. A lama é a pátria do caranguejo, do pobre, do urubu e do porco... Os estudantes que estão aprendendo ecologia com o prof. Gilberto Freyre deviam estudar direito essas relações do caranguejo com os pobres do Recife. O salário miserável que o pobre do Recife recebe não dá para ele se alimentar e alimentar a família. Dá para ele comer alguma coisa que não alimenta quase nada. E o salário miserável nem sempre existe. O número de desempregados nos mocambos é cada dia maior. A miséria é cada vez mais negra para o povo dos mocambos. Eu não estou falando isso apoiado em estatísticas. O governo ainda não levantou estatísticas da miséria. Isso, para o governo, é um assunto feio, coisa que não vale a pena falar. Estou falando pelo o que ouço diariamente da gente dos mocambos que traz à Folha do Povo as suas queixas e as suas revoltas. É do testemunho desses homens sacrificados que me sirvo. As famílias sem pão vivem atrás dos caranguejos. Onde há muito caranguejo a fome é tapeada com certa facilidade. O caranguejo é amigo do pobre. Mas que espécie de amigo! Porque na verdade esse amigo do pobre é aliado do rico... Senhores, o povo da lama está cansado de caranguejo. Ele sabe que além do caranguejo existe vida. Ele não se contenta mais com o caranguejo. Ele quer também a vida. Nestas horas de opressão e miséria, o caranguejo é amigo do pobre. O pobre também é amigo do caranguejo. Ele deixará o caranguejo em paz, ele sairá da lama, pátria do caranguejo. E virá para a terra de onde foi expulso, para a terra que é sua. E os caranguejos viverão em paz em seus mangues fétidos... Folha do Povo, Recife 22/08/1935 Continente maio 2003


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Intérprete de um mundo em crise Fotos: Reprodução

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Nova tradução de Palmeiras selvagens mostra o vigor e a inventidade da prosa de William Faulkner, um dos pilares da literatura americana moderna Luciano Trigo

“Entre a dor e o nada, escolherei a dor”. Extraída do romance Palmeiras selvagens e citada em diversos contextos – inclusive no filme Acossado, de Jean-Luc Godard – a frase sintetiza a visão de mundo de William Faulkner, um dos pilares da moderna literatura americana. Lançado em 1939, Palmeiras selvagens está sendo publicado no Brasil em nova tradução. Já definido como uma “sinfonia de libertação, entrega e danação, auto-sacrificio e sobrevivência”– o que sublinha o seu caráter musical – o romance será a primeira de uma série de reedições do “escritor do Mississipi”; os próximos títulos programados são O som e a fúria e Luz em agosto. Mestre do romance psicológico, Faulkner entrelaça em Palmeiras selvagens duas histórias independentes, em capítulos intercalados, que se iluminam reciprocamente ao retratar indivíduos em conflito com a natureza, com as convenções sociais e com seus próprios desejos. Indivíduos esmagados tanto por ameaças externas quanto pelos igualmente perigosos sabotadores internos que cada um carrega dentro de si, movem-se numa paisagem complexa, de condições extremas, tanto no nível social quanto no psíquico. Tomado pela inquietação moral, Faulkner mostra o homem confrontado com situações-limite, que provocam sentimentos de perda e abandono e impõem decisões e compromissos definitivos. Na primeira história, uma mulher casada e com filhos joga tudo para o alto para viver um grande amor, com conseqüências trágicas; na segunda, um presidiário arrisca a vida para salvar uma desconhecida, durante uma cheia do rio Mississipi, em 1927. Numa e noutra, os protagonistas são escravos de impulsos irracionais, que conduzem inevitavelmente ao sofrimento e colocam em xeque a noção de livre-arbítrio – a mensagem da segunda história, na qual o presidiário disputa com o próprio rio Mississipi o lugar de protagonista, é que a liberdade pode ser mais opressiva que qualquer prisão. Faulkner pertence à geração de escritores americanos que emergiu na década de 1920 e teve um impacto brutal em toda a literatura mundial – a geração de Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e John dos Passos, marcada pelo sentimento de desilusão e decadência do pós-guerra – sentimento que, aliás, ajuda a explicar o êxodo em massa dessa “geração perdida” para Paris, e que foi o motor de experimentações inéditas com a linguagem do romance. A contingência da Primeira Guerra foi essencial para a expressão literária dessa geração: Faulkner não chegou a ser ferido no front, como Hemingway (que transformou este episódio numa metáfora da dor e da desorientação humanas), mas serviu no corpo de ambulâncias na Europa (como Cummings e Edmund Wilson) e alimentou a lenda de que foi piloto na França. Mas não era preciso participar de uma batalha para sentir aquele momento de crise como um ponto crucial de transformação, que marcava de forma radical a separação de gerações e o início de uma nova e conturbada era no mundo. Este choque com uma realidade brutal implicou a necessidade de contestar os valores de cidade do interior presentes na formação de Faulkner, bem como as idéias heróicas da guerra e da cultura. Todas essas transformações se refletiram, naturalmente, na sua linguagem literária, já que a prosa então corrente se tornara impotente para dar conta da nova situação do homem no mundo: formas de expressão originais se faziam urgentes. Foi nesse contexto que surgiu o romance do pós-guerra na década de 1920, que tematizava justamente a ruptura com o passado e a tradição. É o caso específico do primeiro romance de Faulkner, Soldier’s pay (1926), no qual um soldado ferido volta para casa e descobre que os valores e costumes de Continente maio 2003


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66 LITERATURA sua comunidade já não lhe servem mais. Nos anos 30 e 40, quando escreveu seus melhores romances, Faulkner se consolidou como o escritor do inconformismo e da inocência perdida. Antecipando os existencialistas no diagnóstico do sentimento de absurdo provocado pela cisão entre a natureza e a cultura, Faulkner afirmou que o homem está condenado a ser livre. Para ele, contudo, a causa profunda da angústia do homem moderno reside em seu distanciamento do passado e da natureza, por meio do progresso: ao desprender-se de seu passado, o indivíduo está na verdade renegando aquilo que ele tem de mais essencial. Por isso o esvaziamento da natureza é um tema caro ao escritor, que traz vivas dentro de si a nostalgia do passado rural e a resistência às imposições da modernidade. Para captar essa nova consciência, era necessário um novo estilo de literatura, que correspondesse a um novo estilo de vida. Tão importantes quanto as inovações temáticas foram as radicais rupturas formais provocadas por esse colapso cultural: Faulkner ajudou a fixar as bases de um pós-realismo em que se dissipavam a narrativa linear e a cronologia, estabelecendo uma descontinuidade entre o enredo e a psicologia dos personagens. As inovações foram diversas, incluindo a incorporação de recursos da reportagem à ficção, as técnicas de fluxo da consciência e colagem, os cortes rápidos que remetiam ao cinema e eram reflexo da velocidade das mudanças, da sensação de movimento constante e da conseqüente perda de raízes na vida urbana. A linguagem mais dura e inventiva era expressão de uma nova desordem, individual e coletiva. Assim, em O som e a fúria (1929), essa confusão temporal e histórica é capturada por uma narrativa descontínua e polifônica, marcada por longos monólogos interiores que trazem diferentes versões de uma mesma realidade. Todas essas preocupações formais associam Faulkner aos maiores inventores da prosa do século 20, como James Joyce, Marcel Proust e Virginia Woolf. Enquanto agonizo (1930) é ainda mais radical: nada menos que 59 monólogos interiores se interligam relatando um suicídio, num panorama amargo da condição humana. Neste sentido, toda a saga de Yoknapatawpha, o microcosmo pessoal de Faulkner – um vilarejo mississipiano inventado pelo escritor que serve de cenário para vários de seus romances – constitui um grande épico moderno, no qual a investigação da alma humana acompanha a busca de uma nova coerência no Continente maio 2003

O microcosmo pessoal

mundo. Definida como “3.800 quilômetros qua- de Faulkner constitui um drados de histórias que grande épico moderno, no se cruzam, teia de dinas- qual a investigação da tias e genealogias, taras e alma humana acompanha crimes, histórias e contaa busca de uma nova dores de histórias”, Yoknapatawpha aparece pela coerência no mundo primeira vez em Sartoris, ambicioso romance de 1929. Trata-se de uma comunidade de conflitos – entre passado e presente, entre virilidade e intelecto, entre um mundo regido por questões práticas e a vida interior. Luz em agosto (1932) e Absalão, Absalão! (1936) retomam os temas da terra maldita, das tragédias e crimes, da desorientação psíquica do homem moderno. Em Palmeiras selvagens, mais que em outros romances, fica explicitada a profunda ligação do escritor com o Sul dos Estados Unidos. Faulkner saiu poucas vezes da região do Mississipi - suas viagens mais importantes foram a Hollywood, onde escreveu roteiros para ganhar dinheiro (ele sequer assistia aos filmes que escreveu) e a Estocolmo, para receber o Nobel de Literatura, em 1949. A sociedade sulista serve particularmente aos objetivos de Faulkner por ser um lugar de contrastes, de convívio entre a elegância e a moral conservadoras com o gosto pela caça, os conflitos raciais e as disputas familiares e políticas. A região é igualmente marcada pelas tradições românticas, pela celebração do heroísmo e do cavalheirismo, pelas instituições arcaicas, pela rígida estrutura racial e de classes, pela resistência à industrialização e ao progresso. Honra, compaixão e sacrifício são temas explorados no livro, que assinalam o comprometimento de Faulkner com uma visão da literatura como uma forma de redenção. O escritor acreditava que o lapso moderno é temporário e que o homem dispõe de poderes de resistência que o salvarão. A permanência da obra de Faulkner se deve não somente às suas inovações formais, que foram muitas e valiosas, tendo influenciado mais de uma geração; mas também ao profundo caráter humanístico de sua obra, à sua incansável pesquisa dos fatores que determinam a felicidade e a dor, ou mesmo a vida e a morte dos homens.

Luciano Trigo é jornalista.

Palmeiras selvagens, de William Faulkner. Tradução de Newton Goldman e Rodrigo Lacerda. Editora Cosac & Naify, 296 páginas, R$37.


Foto: Isabela Vargas/AE

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A palavrapoema e a poesia em movimento A liberdade, em Mário Chamie, é responsável pela sua criação poética, extremamente particular, cujo itinerário formal pode ser visto em consonância com o título de um de seus livros: é um objeto selvagem que tenta escapar a todas as classificações Rodrigo Petronio

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Conversar com Mário Chamie é uma forma privilegiada de pensar questões fundamentais da arte moderna e da poesia em geral, com todo conteúdo crítico e reflexivo que essa atividade exige. Protagonista do movimento Práxis, lançado em 1959, desde o começo de seu trabalho literário Chamie tem demonstrado interesse pelas questões relativas ao Modernismo brasileiro e a seus desdobramentos. Entretanto, sua leitura desse momento histórico, dispersa em sua obra crítica e ensaística (Intertexto, A Linguagem Virtual e A Transgressão do Texto, entre outros) e concretizada em todo seu percurso poético, sempre se guiou por uma saudável heterodoxia, lançando mão, para tanto, de abordagens dialógicas do fenômeno moderno que não redundassem em uma visão excludente da poesia e na eleição de poucos procedimentos técnicos como condição sine qua non para a arte. Nisso consiste basicamente a generosidade intelectual de Chamie, que dá sustentação à sua obra crítica, fazendo dela um exercício inclusivo de várias tendências artísticas advindas da Semana de 22. Partilhando da idéia de que o Modernismo brasileiro é um “feixe de possibilidades” que tinha em vista justamente criticar o próprio caráter de escola e de movimento que predominava na arte, e que ele “não sabia o que queria, mas sabia o que não queria”, a própria obra de Chamie parece nos conduzir a esse leque de caminhos possíveis. A começar pelo fato de trabalhar a linguagem poética em vários níveis, que abrangem desde o seu aspecto mais telúrico e religioso, dos ditos e frases feitas da fala cotidiana (os dictemas), onde Chamie descobre um material rico e elástico para a elaboração de Lavra Lavra, por exemplo, até a ordem serial dos enunciados que compõem o lado mais urbano de sua poética, cujo estopim se dá com o livro Indústria. Há, porém, uma relação inextricável entre esses dois movimentos de uma mesma sinfonia, e que articula a visão do campo e a da cidade. Isso se dá porque Chamie não concebe a linguagem poética como um fim em si mesmo, não se restringe “ao uso exterior de técnicas e expedientes”. Ao contrário, ao invés de apenas “manipular a linguagem” em busca de efeitos imanentes de sentido, Chamie tenta penetrar “no corpo das palavras que a constituem, recriando-as poeContinente maio 2003

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ticamente”. É essa recriação interna do verbo que levanta e redimensiona “as significações possíveis do mundo objetivo, em suas manifestações cotidianas, históricas e existenciais”. É essa a essência de sua liberdade criadora, já que sua poesia passa à larga das camisas de força ideológicas gregárias, a que se reduziu boa parte da arte advinda dos movimentos de vanguarda. Essa liberdade, em Chamie, é responsável pela sua criação poética, extremamente particular, cujo itinerário formal pode ser visto em consonância com o título de um de seus livros: é um objeto selvagem que tenta escapar a todas as classificações. Segundo Chamie, boa parte dos equívocos de diversas tendências da poesia moderna posteriores ao Modernismo se devem a dois fatores iniciais. O primeiro é uma confusão existente entre a “emulação” e “a competência criativa”, fato do qual resulta “um acúmulo de tributos e de pagas tributárias”. Nesse diapasão, os poetas estariam mais preocupados em se filiar a certas tendências ou certos autores mais ou menos hegemônicos do que em um diálogo maduro com a tradição. O segundo fator, e talvez o mais grave, está ligado a uma concepção mimética pobre da arte. Isso teria levado os artistas a pensarem a poesia como uma mera “fatalidade reprodutiva”, e assim a querer questionar a essência mesma de seus procedimentos e de sua razão de ser, como se a arte e as técnicas em questão tivessem se esgotado. O interessante da trajetória poética de Chamie é que ele soube lidar com um fenômeno tão complexo como a industrialização, por exemplo, e as implicações que a máquina traria para a nossa vida simbólica e social, sem contudo resvalar em armadilhas tecnicistas e evolucionistas dessa espécie. Para o poeta, quem age assim, se esquece que “em meio à clássica antinomia Natureza versus Cultura, a arte imita-se a si mesma”. Por isso, “a mimese artística transforma, no tempo e no espaço, todos os dados da realidade (avião, pirâmide do Egito, desejo de amar ou o pico do Himalaia) em pretextos de sua criação transfiguradora”. Assim, é impossível pensar em morte da arte, e até obtuso propor a questão, já que sempre haverá esse elemento transfigurador, e negá-lo redundaria em um empobrecimento do mundo, daí em diante reduzido a uma concepção mecânica de técnicas que se sobrepõem a técnicas, se matando e anulando reciprocamente. É nesse núcleo de transfiguração que seu trabalho ensaístico e crítico vai também concentrar suas forças. Esse trabalho tem várias faces, mas todas se articulam em torno de um eixo comum, que é o dialogismo. A visão dialógica da história é o que permite a Chamie ver as obras não como uma sucessão de etapas ou como uma pasmaceira trans-histórica e um vale-tudo, onde todas as coisas se liguem entre si. Conforme o autor, em seus ensaios ele “lida e persegue o diálogo que atualiza no tempo posterior presente a perspectiva futura de tempos anteriores passados”. Em outras palavras, Chamie vê na tradição in fieri, em movimento, o próprio presente em erupção, o que transforma o passado em algo que ainda está em vias de se realizar plenamente. Em seu novo livro de estudos literários, Caminhos da Carta, isso se dá por meio da análise do percurso da carta de Pero Vaz de Caminha, no qual o autor aborda as sucessivas leituras desse documento clássico, a partir da antropofagia de Oswald de Andrade, e suas reinterpretações de Montaigne, Rousseau e Freud. Não se trata de uma historiografia no sentido estrito do termo, porque Chamie está interessado nas ressonâncias do pensamento selvagem descrito na dita Continente maio 2003

Guerras de amor Guerra de amor não tem portas nem janelas para falas diplomáticas. Em suas trincheiras abertas, há a palavra catártica, a estratégia de flechas e pedras em forma de batalhas. Na estratégia da palavra, há gestos e falácias, tiros e caprichos em forma de metralha; há penas e martírios, venenos e suspiros entre risos e facadas. Em cena aberta dessa guerra paraplégica, toda estratégia é precária; toda carícia tépida se esbarra em portas e janelas da mulher que se congela e se disfarça. Em guerras de amor, não há falas diplomáticas; nem a palavra catártica soletra a sua seqüela na mulher em pé de guerra, seja Laura, Beatriz ou doce Ofélia. Poeta maldito Sou o poeta maldito. Tudo o que digo e repito desdito e é negado. Mas nem por ser maldito e poeta, sou um poeta coitado; pois se é desdito e renegado tudo o que hoje digo, tudo o que agora falo amanhã será lembrado. O poeta assim ouvido diz bem o que é pensado: repensa o dito desdito e de poeta maldito faz o dito bem-amado: o dito que pensa e renova o seu futuro presente no seu futuro passado. Sou o poeta maldito. Tudo o que hoje digo


LITERATURA carta que ainda ecoam nos dias de hoje e na nossa formação. Profecia do passado e reminiscências do que ainda está por vir, é esse foco dialógico, aberto a todas as possibilidades virtuais de um mesmo evento, que dá complexidade e riqueza à sua obra, e também se espelha na sua poesia, em especial neste novo Horizonte de Esgrimas. Criado a partir de um eixo metafórico, que consiste na prática da esgrima (disputa), ele se “materializa na esgrima do tempo contra a pedra”, que representaria a disputa do próprio homem consigo mesmo, a fim de atingir a permanência. Esse eixo de metáforas é o que dá elasticidade temática ao livro, que se transforma no palco e na arena onde se encenarão lutas de amor, disputas religiosas, incompatibilidades e contrastes amorosos, rivalidades de egos, crenças individuais, doutrinas filosóficas e devoções místicas, em um torvelinho de conceitos cujos protagonistas se mostram em um espaço supra-histórico. Caronte, Santo Agostinho, Momo, Sileno, Mansa Mussa, Midas, Lutero e Calvino, entre tantos outros, são alguns dos personagens que nos acenam desse horizonte de esgrimas de Chamie. Ao mesmo tempo, esse horizonte é povoado pelo “surdo embate das coisas” e pelo “sopro do princípio heraclitiano”, aquele que nos dá a impressão “de que em tudo há um devir constante, uma mutação contínua” e nos faz suspeitar “que nada é o que parece ser”. Assim, lançando mão de uma abordagem dialógica, e ao propor uma análise da história e das obras literárias que seja um acorde que “conjugue autor, obra e leitor”, Chamie entra na virtualidade do Sentido, e nele move as engrenagens do tempo, querendo com isso superar as separações ilusórias existentes entre passado, presente e futuro, e demolir o velho mito positivista da busca de uma verdade essencial que anteceda a construção localizada de quem lê e de onde se lê o passado. Na mesma proporção, o poeta Chamie usa esses recursos para a sua fabulação, e cria com ela o que se poderia chamar, à maneira de paródia, um horizonte de eventos, todos agenciados pela inteligência poética, e fora dos quais somos todos reféns e joguetes do acaso e do absurdo. E assim demonstra mais uma vez que a poesia continua sendo a melhor espada contra a falta de sentido do mundo. Rodrigo Petronio é escritor, autor de História Natural e Transversal do Tempo

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será sempre o meu legado. Antes, depois e durante, fui o futuro passado. Sou o futuro presente de tudo que agora falo. Bendito ou mal-amado, digo e repito constante a todo poeta coitado: sou a verdade do escárnio que celebra o seu ditado e renega o celebrado. Hipóteses de um eterno retorno Que viagem viagem de ida e volta? Se o começo recomeça pelo fim e o fio de uma história, o retorno é sempre o rio que se enrosca em outro rio que derrama e se deforma. O que retorna na paixão que se desmancha a perda, é a escória: é a rosa que renasce e se arrebenta contra o vaso que entorna sobre a hora da desforra. Nada se retoma do nada que se afoga e se arremessa para o fundo das promessas de água morna. da água desse nada que transborda o retorno do consolo em hora morta. Que viagem viagem de ida e volta? Quem retorna da partida? Quem de volta nesta vida não retoma em sua porta sua rosa renascida?

SERVIÇO Caminhos da Carta - Ensaio/Crítica - Editora FUNPEC - 300 pág. R$30,00 Horizonte de Esgrimas - Poesia - Editora FUNPEC - 200 pág. R$ 25,00

Poemas do livro Horizonte de Esgrimas de Mário Chamie

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70 POESIA

Ode quase bíblica César Leal

POETAS, é preciso falar a Gog, príncipe de Mosoc e de Tuball podres estão os frutos da vinha de Baal - Hamon e eis que é chegado o tempo do Dragão anunciado pelos profetas Cantemos a copiosa luz dos corações e a paz, a paz cantemos. que não há beleza nos monumentos em chamas, em mulheres evaporadas no vórtice das bombas apocalíticas nos esqueletos cobertos de sono e cal Cantemos a paz das longitudes altíssimas. a paz querida pelas mães e meninos e poetas que todos desejam viver e amar Não cantemos a paz armada, ofertada pelos canhões, pelos tanques e foguetes balísticos, that false peace That masquerades between earthquakes, of seas Deceives in the silence between earthquakes, or the lull Between atomic bombs Ai de nós! Os barbitúricos já não limitam o desespero da Terra Montanhas se povoam de centauros e por toda a paisagem noturna há bazucas, morteiros e canhões desafiando as estrelas com suas bocas de ferro. Cantemos a paz, não cantemos a paz de cinzas – que é triste – a paz dos mausoléus, a paz ofertada pelo Dragão aos meninos de Hiroshima e Nagasaki

Continente maio 2003

... peace is the pull Towards the motion of tree, star and stone, The contented rhythm of the child at the nipple The moment of surrender after union. Poetas, perdoai as rudes notas deste canto: - é que meu coração registra um pranto escuro, o compassivo pranto das mães cujos filhos foram soprados na guerra como lâmpadas. Choram e não lhes ofereço o mistério do meu canto porque os olhos são portas por onde saem fluindo da memória os recordos mais tristes. Deixai-as chorar os filhos sacrificados a um século de bronze, pleno de asas, motores e disparos. Que retornando aos meus abrigos secretos como quem foge aos punhos de um bombardeio Ouço o estalar das granadas em minhas arquiteturas cardíacas. Cantemos a paz, aspera Tum positis mitescent saecula belils , a paz longínqua das estrelas, o vôo do sol erguido sobre o porto o lento crescimento dos arbustos a luz descida nas montanhas mas não louvemos a paz dos Rosemberg carbonizados na elétrica tortura É preciso crer na paz - tranqüila em sua esperança altiva em sua vontade.


POESIA 71

A quasi - biblical ode Tradução: Esman Dias

Come, poets, we must speak to Gog, prince of Meshech and Tubal. Rotten is the fruit of the vineyard of Baal - Hamon. Behold! The time of the Dragon is come as prophesied. Let us sing the copious light of hearts aflame and unto Peace, to Peace let us sing for there is no beauty in monuments burning down no beauty in women vaporised in the vortex of apocalyptic bombs no beauty in skeletons covered with sleep and lime Let us sing the peace of distant heights The peace mothers and children and poets have wanted They all want to live and to love Let us not sing in praise of armed peace such as the one offered by cannons, by tanks, by ballistic missiles, that false peace that masquerades between the troughs of seas, Deceives in the silence between earthquakes, or the lull Between atomic bombs Alas! No longer are tranquillisers able to hold the despair of the Earth The Mountains are trodden by centaurs And all around the nocturnal landscape Cannons, bazookas, mortars Challenge the stars with their brazen muzzles Let us sing unto to Peace, let us not Sing the peace of ashes, which is sad, The peace of mausoleums, the peace Offered by the dragon To the children of Nagasaki and Hiroshima. ... peace is the pull

Towards the motion of tree, star and stone, The contented rhythm of the child at the nipple The moment of surrender after union. Forgive me, poets, for the sour notes of this song: My heart retains now the dark weeping The compassionate weeping of those mothers Whose children were blown out by War like candles. They weep and I cannot offer them the solace of the song My eyes are gates The most sad remembrances flow through them Let them weep for their children Who were sacrificed to an age of Bronze Full of sound and engines, full of wings For I upon returning to my secret shelter Like one who flees the first of bombardment I hear the busting of grenades Resound through the arches of my heart Let us sing unto Peace, aspera Tum positis mitescent saecula belils, the distant peace of the stars, The flight of the sun over the harbour, The everlasting growth of the underbrush, The light descending from the mountains O, let us sing Not in praise of the peace Of the Rosemberg Carbonised in eletric torture In peace we must believe - So quiet in its hope in its will, so proud.

César Leal é poeta e ensaista

Continente maio 2003


72 LITERATURA

FUTEBOL, NEGRITUDE E SOCIOLOGIA Existem livros importantes, desimportantes e fundamentais. Este último é o caso de O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho (jornalista, pernambucano, radicado no Rio, irmão de Nélson Rodrigues, nome do estádio do Maracanã). Embora pouco editado (1947, 1964, 1994), é um livro fundamental, não apenas por ser pioneiro na abordagem de um tema (futebol e negritude) de profunda relação com nossa identidade nacional, mas por assumir uma postura afinada com as cor-

rentes sociológicas, culturalistas, vis-à-vis às teorias racistas prevalecentes nas primeiras décadas do século passado (a exemplo de Gilberto Freyre, que assina o prefácio da 1ª edição, onde destaca a importância do ensaio para o estudo sociológico da ascensão do negro e do mulato na sociedade brasileira). Agora, 55 anos depois, ao ser lançada a 4ª edição, a historiografia do futebol brasileiro avançou bastante e alguns postulados de Mario Filho são postos em questão. Alguns novos pesquisadores (como Ronaldo He-

lal, Antonio Jorge Soares e Hugo Lovisolo) criticam, sobretudo, a “leitura única” que se faz do livro, mas realçam sua importância como guia de pesquisa. Ao se tratar do tema, não há como não se referenciar no livro, recheado de informações básicas e escrito num estilo saboroso, como na narrativa do episódio emblemático do jogador Robson, do Fluminense, que diante de um colega enfurecido com um casal negro e bêbado, intercedeu por eles, afirmando: “Não faz isso, Orlando. Eu já fui preto e sei o que é isso”.

CRÔNICA-FICÇÃO DO RIO

ROMANCE DELÍRICO EM GOTAS

A MÍDIA, A CULTURA E O PODER

Marques Rebelo tem sido colocado, com Machado de Assis, Lima Barreto e Manuel Antônio de Almeida, na linhagem dos romancistas cuja obra, para além da qualidade literária intrínseca, compõe um painel social de sua época, com o agradável sabor da crônica. Lançado original em 1935, o romance Marafa foi saudado como obra-prima pelo pouco derramado Otto Maria Carpeaux. Malandros, prostitutas, burocratas, mocinhas suburbanas, trabalhadores honestos são personagens imersos no cotidiano de uma cidade recém-industrializada, falando em seus linguajares característicos e vivendo uma realidade que os acolhe e degrada.

Encrenca é o sexto livro de Manuel Carlos Karam, catarinense de 56 anos, residente (desde 1966) em Curitiba. É um romance instigante, labiríntico, de estilo inovador. Como afirma Nélson de Oliveira na apresentação, é “história sobre ladrões de diálogos, sobre transmissores de pranto” e por aí vai. À certa altura, o personagem engendra: “Diante da porta aberta, engendrando, tomei algumas decisões, uma delas foi que deveria engendrar sentado”... Há cidades com nomes como Relva e Baires, jazz e automóveis, concurso de sílabas, um prego fincado num tronco freqüentador do bar About. Para Wilson Martins, Karam “é homem para quem as palavras têm existência própria e arbitrária”.

Organizado por Denis de Moraes, professor de comunicação da Universidade Federal Fluminense, Por uma outra comunicação, cujo título não omite seu engajamento diante da realidade da mídia, da globalização e do poder, reúne 18 ensaios de acadêmicos de nacionalidades diferentes, abordando, por vários ângulos, as indústrias culturais e sua influência direta na configuração dos imaginários sociais. Muniz Sodré, René Dreifuss, Naomi Klein, Ignácio Ramonet, Edgard Morin e José Arbex Jr., entre outros, traçam um diagnóstico das complexas relações entre mídia, ideologia e economia, e apontam para alternativas que levem a uma nova agenda social em comunicação, com ênfase na inclusão e na pluralidade.

Marafa - Marques Rebelo - Editora Nova Fronteira, 220 páginas, R$ 28,00.

Encrenca - Manoel Carlos Karam - Ateliê Editorial, 160 páginas, R$ 20,00.

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O negro no futebol brasileiro - Mário Filho Editora Mauad, 344 páginas, R$ 30,00.

Por uma outra comunicação - Denis de Moraes (organizador) - Editora Record, 416 páginas, R$ 38,00.


sou Ortega. Passou e não passou, e aí está como são as coisas da história: passam, permanecem, e sem passar não permanecem. Para compreender aquela época, a de Ortega, temos de revê-la como um todo: a transição para o século vinte, a belle-époque e seus valores, o expressionismo, o abalo sofrido pelo capitalismo em 1929, a Primeira Guerra, a Revolução Russa, a presença de filosofias conflitantes. Ortega aproveitou de Pinder e de Ottokar Lorenz a idéia de gerações: ela servia às inquietações de seu tempo, pois oferecia uma visão da história como um quadro atravessado por sucessivas zonas “de datas”. Eu diria também: por ondas de datas (uma vez ouvi de um certo historiador que não acreditava em gerações, nem tampouco em sociologia do conhecimento: acho que não o haviam informado devidamente sobre as duas coisas). O século vinte reuniu outras crises às que acima mencionamos. Veio a Segunda Guerra, e as próprias filosofias entraram em crise. Os homens vêm sendo cercados pela descrença e pelo radicalismo, ambas as coisas negação do relativismo que Ortega preconizava. O relativismo como perspectivismo, como avesso do niilismo e do jacobinismo. O perspectivismo como autocrítica doutrinária tanto para as idéias como para as crenças, para empregar duas expressões caras ao próprio Ortega. E hoje vivemos a exacerbação daquelas duas coisas, a descrença e o radicalismo, que de certo modo resultam das crises do mundo moderno. A descrença que se revela na própria exaltação do dinheiro e do êxito; o radicalismo que rompe e derruba todos os limites — os éticos inclusive — e que leva os homens e os países (os governos) à insanidade e à embriaguez do poder.

Repensar

Neste ano de 2003 completam-se setenta anos de Em torno a Galileu, de Ortega e Gasset. Na verdade, setenta anos do curso com esse título, ministrado em 1933, em Madrid: parte do conteúdo foi publicada no volume Esquema das Crises, em 1942, e o restante no volume V, nas Obras Completas, em 1947. Considero interessante, neste país (e nesta região) em que tantas datas comemoráveis passam em branco, assinalar, com a referência àquele curso, a necessidade de repensar várias coisas. Entre estas, a própria figura de Ortega, e com ela a idéia de geração, tão própria de sua filosofia; e a partir daí, o próprio hábito de celebrar eventos culturais, peculiar aos chamados grandes centros (o que é sinônimo de “cidades populosas”), onde a continuidade da vida intelectual e acadêmica favorece e inclui estas coisas. Lembra Ortega que as gerações que viveram mais ou menos entre 1550 e 1650 construíram o pensamento moderno, pondo de lado a teologia escolástica e entronizando a razão e a ciência (depois o mestre espanhol estudaria, inclusive em A Rebelião das Massas, a influência dos exageros racionalistas e cientificistas sobre as crises sociais contemporâneas). Para Ortega, as gerações não correspondem a datas demarcadas, mas a “zonas de datas”, níveis de vida histórica: como a vida humana não é biológica, mas biográfica, e o homem a elabora justamente com o fato de viver, a intensidade e a trepidação de certas épocas (ou trechos de épocas) favoreceram especialmente as mudanças históricas. Para Ortega, Galileu Galilei protagonizou, com sua atitude intelectual, o início da chamada Idade Moderna. Ele e outros, Descartes inclusive, teriam vivido a crise da transição à modernidade, comparável (acrescenta o pensador espanhol) à vivida em seu próprio tempo — inícios do século vinte — em termos de modernidade (hoje complicada pelas alusões a uma coisa chamada “pós-modernidade”). Não se limitava Ortega, deste modo, a mencionar a época galileana como exemplo da relevância da idéia de geração para o entendimento da estrutura da história: trouxe para a experiência vital de seu tempo (o de seus coetâneos e contemporâneos) a mesma forma de entender as coisas. Passou a época de Ortega. Pas-

Nelson Saldanha é escritor.

A descrença e o radicalismo que hoje cercam os homens são a negação do relativismo que Ortega preconizava

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Ortega

FILOSOFIA

As gerações não correspondem a datas demarcadas, mas a "zonas de datas", níveis de vida histórica Nelson Saldanha


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74 SABORES

PERNAMBUCANOS

Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti

Nossas três cozinhas "Cada época da história modifica o fogão e cada povo come segundo seu caráter e sua alma. Antes, talvez, que seu estômago. Condessa de Pardo Bazan

Continente maio 2003

Uma jovem macaca se acostumou a mergulhar batata-doce, antes de comer, nas águas de um pequeno rio. Para limpar a areia e tornar a raiz mais tenra. Depois fez o mesmo com outros alimentos. Cientistas que estudavam esse grupo de primatas, na pequena ilha japonesa de Koshima, ficaram intrigados. Sobretudo porque o hábito acabou imitado por outras macacas, que ensinaram o ritual a seus próprios filhos. Em seguida experimentaram a água do mar. E tanto apreciaram esse gosto novo que decidiram abandonar o rio. Vivendo, então, perto das praias. Assim como esses macacos de Koshima, também os homens aprenderam a reproduzir suas boas relações com os alimentos e o meio ambiente. Durante milhares de anos se alimentaram apenas de raízes, frutas, folhas e grãos. Depois incorporaram carnes a essa dieta. No inicio cruas. Mas logo perceberam que as carnes de animais mortos, encontradas depois de incêndios, eram mastigadas mais facilmente, eram digeridas mais rapidamente e sobretudo eram muito mais saborosas. Assim foi até que conseguiram dominar o fogo. E com ele passaram a preparar quase todos os alimentos. Não foi diferente no Brasil. Também aqui nossa culinária foi nascendo aos poucos. Como nosso caráter e nossa alma. Misturando a sensibilidade do português, a inquietação do índio e o travo resignado do africano. Unindo três cozinhas bem diferentes. A cozinha de nossos índios era composta de carne, peixe, legumes, ervas, milho, muita mandioca e alguns poucos grãos. Folhas não. A essas folhas chamavam “cumbari”, comida de brincadeira – leve, sem sabor, sem sustança. As mais de 900 tribos comiam o que a terra lhes podia oferecer. Nas regiões perto do mar e dos rios – peixes, ostras, mexilhões, amêijoas, cernambis. Mais para o interior – animais das florestas, frutos e raízes. Nas regiões sertanejas – mandioca, farinhas, milho e fubá. Eram então 5 milhões de índios, vivendo em território razoavelmente determinado. Não se deslocavam à procura de alimentos, salvo raríssimas exceções – como no tempo do caju ou da pesca de alguns peixes. Colhiam as frutas, mas não as plantavam. Conheciam o fogo e sabiam acendê-lo, pela fricção de varas – que o choque pelo sílex veio só com os portugueses. Esse fogo era usado para aquecimento de ocas, como instrumento de defesa ou no preparo da comida. Assavam carnes e peixes no moquém – espetos paralelos, sobre a brasa, precursores dos churrascos de hoje. Como tempero usavam pimenta. Às vezes pura. Às vezes numa mistura com sal a que chamavam “ionquet” – colocada diretamente na boca, junto às carnes. Raramente cozinhavam os alimentos na água. Quando o faziam, era em vasilhames de cerâmica. Não conheciam fritura – técnica aprendida só bem depois, com os portugueses, que usavam para isso óleos vegetais (de oliva) e gordura animal. O doce em sua cultura vinha do mel de abelha. Consumido puro, como simples gulodice. Ou misturado a raízes e frutas, no preparo de bebidas fermentadas – como alué, açuí e tiquira. Além do cauim, claro. A cozinha dos escravos não conseguiu, por aqui, reproduzir inteiramente os sabores da terra distante. Era, com todas as limitações da condição social a que estavam reduzidos, uma culinária de senzala. A partir de meados do século 16, e por mais dois séculos, 3 milhões e 700 mil negros chegaram por aqui. Os de Pernambuco vindos,


SABORES PERNAMBUCANOS 75 » Foto: Reprodução

A Cozinheira, de Peter Cornelisz Van Ryck, cerca de 1628

todos, de Angola. Aos poucos foi diminuindo a população indígena, enquanto aumentava a população negra. Sobretudo porque o estágio cultural desses negros era superior ao do indígena em quase tudo – agricultura, mineração, criação de animais. No artesanato usavam madeira, ferro e cerâmica. Na culinária também. Dominavam técnicas de cocção, grelhados, assados, evaporados e defumados. Conservavam as carnes com sal, pimenta e ervas aromáticas. Para eles caça era ofício, orgulho e divertimento. Caçar conferia dignidade ao congo (caçador). Faziam pirões e farinhas de sorgo. Da fécula faziam papas. E usavam muito arroz. Preferiam o alimento dissolvido – até porque, en-

quanto na casa grande se esfregava os dentes com “tiara magna”, restava aos escravos apenas alho. Era comum, para esses escravos, chegar aos 40 anos sem um dente na boca. Tudo como consta no Trattado Único da Constituição Pestilencial de Pernambuco do médico Joam Ferreyra da Rosa, provavelmente a primeira referência bibliográfica (1653) da nossa alimentação. Como os índios, também esses escravos não conheciam frituras. E bebidas só fermentadas – feitas de palmeira (dendê), sorgo e mel de abelha. Alambique não, que isso é coisa de europeu. Apesar de todas as limitações, uma série de novas receitas foi nascendo – jacuba, rapadura ou comidas de milho (e coco) – como canjicas, mungunzás, angus e pamonhas. Faltando só dizer que comida de escravo era sobretudo de alegria. Comer acabava sendo um momento de festa, em meio a tanto sofrimento. Misturando, na mesa, essa comida à cantoria, dança, batuque, crenças e saudades. A cozinha portuguesa tentou reproduzir, por aqui, os ambientes de sua terra distante. Trouxeram curral, quintal e horta. Com tudo que nossos índios nunca haviam visto. No curral – boi, porco domesticado, carneiro, bode, pombo, pato, ganso. Mais galinha e, com ela, a grande novidade alimentar que foi o ovo. Cão também – sem dúvida, o animal doméstico mais disputado por nossos índios. No quintal – cidra, limão, laranja, lima, melão, melancia, maçã, figo. Na horta – acelga, alface, berinjela, Continente maio 2003


SABORES PERNAMBUCANOS Foto: Léo Caldas/ Titular

Foto: Acervo CEPE

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cenoura, coentro, cebolinho, couve. As seBOLO CABANO nhoras portuguesas trouxeram com elas suas cozinhas, tais e quais eram em PortuINGREDIENTES: gal. Com chaminés francesas, fogões, fumeiros, pesados tachos de cobre, caldeirões, 2 cocos alguidares, potes. Mas tiveram aqui que fa1 xícara de água zer grandes adaptações. Primeiro dividin3 ovos do a beira do fogão, democraticamente, 5 gemas com negras e índias. Depois aprendendo ½ kg de açúcar com os índios que, nesse nosso clima tropi½ kg de farinha de trigo cal, o melhor lugar para colocar a cozinha era mesmo fora das casas. Embaixo de PREPARO: “puxados”. Com o que acabaram reproduRaspe os cocos e, com a água, retire o leite. zindo quase integralmente, meio sem Bata, muito bem, os ovos inteiros e as gemas. Junte açúcar, leite de querer, a cozinha indígena – com “jirau” ( coco e trigo. Misture cuidadosamente. espécie de mesa com varas de madeira que Coloque a massa em forma bem untada e asse em forno quente. servia para cortar e limpar as carnes e, também, para guardar alimentos) e “trempe” (tripé de pedra ou ferro onde se apoiavam os panelões no fogo). Ainda adotando utensílios que os brasileiras, se fez do fino equilíbrio entre as cozinhas indígena, europeus não conheciam – panelas de barro, colher de pau, africana e portuguesa. “Nunca se deixou alagar pela banha de pilões, urupemas, cuias, cabaças, ralador de coco. E, sobretudo, tartaruga nem pelo azeite de dendê”, como disse Gilberto tiveram que se adaptar aos ingredientes da terra. Esquecendo Freyre. Com características distintas e muito bem definidas – maçã, pêra, pêssego, amêndoas, pinhões, cravo, canela e gen- uma no sertão, outra no agreste, mais uma na mata e outra do gibre. E adotando novos produtos como castanha, amendoim, mar. Mas todas formando, em seu conjunto, o retrato de uma coco, milho, mandioca. Além das frutas tropicais – caju, goiaba, cozinha que é simples, generosa, autêntica, refinada, irredenta, araçá, banana, mangaba, cajá. Tudo que a mão da cozinheira forte e afirmativa como nosso povo. portuguesa foi aperfeiçoando e tornando mais requintado. Maria Lecticia Cavalcanti é professora. Assim foi sendo formada, aos poucos, a culinária pernambucana. Porque ela, talvez mais que qualquer outra em terras Continente maio 2003


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78 MÚSICA

Entrincheirado no alto Sertão, compositor produz roteiro de filme sobre um cantador, diz que compõe para o porvir e desanca quixotescamente o “colonialismo cultural”. Mariana Oliveira

Elomar

O compositor, que completa 30 anos de carreira, quer criar uma escola de música

O trovador que esbraveja Continente maio 2003


MÚSICA 79 » Acervo da Rádio Universitária Foto: Divulgação

Formado em arquitetura e urbanismo, mas vivendo Desencantado com o merisolado entre cabras e bodes no Sertão baiano, o compositor cado cultural, o cantador afirElomar (Figueira de Mello) comemora 30 anos de lança- ma que sua obra não está denmento do seu primeiro disco – Das barrancas do rio Gavião, tro dos clichês e do modismo. expressando velhas queixas e trabalhando em novos proje- “Minha música é muito séria. tos. Aos 65 anos, recluso há décadas numa fazenda em Vi- Hoje em dia qualquer pessoa tória da Conquista, ele reclama do colonialismo cultural na publica um livro, grava um música popular brasileira, das dificuldades em gravar (“mi- disco. Quando o poeta voltar a nhas óperas e sinfonias exigem orquestra e um inves- ser respeitado, eu vou poder timento de não menos de R$ 150 mil”) e da vida nas cida- publicar e gravar minhas odes (“estão caminhando para um colapso, para o apodreci- bras. Já é uma alegria compor mento total”). Mas não desiste e continua produzindo a e deixar na partitura. Quando as gerações do porvir chegarem, todo vapor. elas vão encontrar”, comenta. Com efeito, avesso ao sucesso Seu novo campo de interesse é o cinema e a literatura, midiático, Elomar não grava há quase dez anos e faz poucos interligados à temática central de sua obra: o universo do shows, ou melhor, concertos, como ele prefere chamar suas cancioneiro do Sertão nordestino. Ele está escrevendo o apresentações. Já tocou na Alemanha e na Martinica, mas não roteiro de Sertanílias – Romance de Cavalaria, a ser publicado gosta muito de se apresentar para o público internacional. “Não ainda este ano em formato de livro. Segundo ele, o enredo é tenho interesse em cantar para um povo que não entende o que uma proposta nova, que foge dos padrões convencionais do eu estou falando”, justifica. Em 2003, ele deve fazer um conmodelo americano, com heróis e vilões. certo em Portugal, onde vai buscar re“Existe o anti-herói, o antiestrela. No ”Minha música é muito séria. cursos para um projeto que pretende meu roteiro não tem uma gota de san- Hoje em dia qualquer pessoa criar uma escola de música, no Sertão gue, nem um beijo. É 20% realidade e baiano. publica um livro, grava um 80% ficção”, explica o cantador. Seus primeiros registros começaram disco. Quando o poeta voltar O filme começa como documena acontecer quando ele foi a Salvador, a ser respeitado eu vou poder tário em que o próprio Elomar é entrepara fazer o ginásio e a universidade. Foi publicar e gravar minhas vistado por jornalistas. A partir daí, a quando ele pôde aprofundar seus coobras. Já é uma alegria ficção surge com seu personagem cennhecimentos da música brasileira e ibétral, Sertano, que começa uma longa compor e deixar na partitura" rica dos séculos 13, 14 e 15. viagem. Segundo Elomar, “Sertanílias “Estruturei minha obra na matriz tem um texto muito denso, muito fecundo. Muita gente vai da música da alta idade média, barroca, renascentista e na nossa ficar voando, vai passar batido. Existem cenas que só vai sertaneja”, define. As influências vieram de todas as partes: dos entender quem for culto e conhecer história medieval”, avi- clássicos seresteiros do Brasil, dos poetas Castro Alves, sa, sem modéstia. Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, do tango argentino Contudo, as chances do roteiro ser filmado são muito de Carlos Gardel, do romantismo de Chopin. “Mas minha pequenas. “Nem em sonho. Seria preciso cerca de R$ 10 grande influência vem dos salmos do rei David”, salienta. milhões para gravar todas as tomadas, inclusive as que se Radical, quando se fala em influência estrangeira, Elomar passam em Portugal”, revela. A única maneira de conhecer permanece alinhado entre os que praticam a resistência cula história do personagem Sertano será o livro, que será tural: “Sou contra tudo que envolve a cultura alienígena, introlançado graças à insistência de muitos amigos do trovador. missora, que vem destruir nosso processo cultural tão sofrido. Esse não é o único roteiro que ele guarda em sua fazenda. Nós temos tanta diversidade cultural que devíamos emprestar Ao longo de uma carreira de mais de 40 anos, já escreveu para essas nações que pretendem exportar cultura para nós”, Casa dos Sete Candeeiros e Os Vaqueiros, entre outros. conclui. Perguntado sobre o movimento manguebeat, que não Essa postura, algo quixotesca, também pode ser detec- conhece muito bem, não hesita em classificá-lo de “alienante” tada em relação à obra musical de Elomar. Autor de cen- por mesclar valores americanos ao universo da periferia do tenas de peças – canções, cantigas, cantorias – espalhadas Recife. Quanto à axé music, apesar de achar uma “boa porem 16 discos gravados, nos últimos anos o compositor caria”, Elomar vê nela uma característica positiva: “Essa embrenhou-se cada vez mais nas raízes eruditas do cancio- música sufocou o processo cultural da Bahia, que é muito crianeiro sertanejo, criando uma dezena de “óperas sertanejas”. tiva. Mas é uma resistência. O rock não entra na Bahia porque Com 18 horas de músicas inéditas, que dariam para muitos os tambores dos negros não deixam de tocar”, sentencia com discos, não há nenhuma perspectiva de gravação. “Para seu jeito inconfundível de menestrel ranzinza. gravar um CD meu é preciso um grande investimento”, Mariana Oliveira é jornalista. argumenta. Continente maio 2003


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80 MÚSICA

Foto: Alcione Ferreira/ DP

Música do maracatu rural, ou de baque solto, é uma das manifestações populares tradicionais, apropriadas por artistas de classes mais altas Maria Alice Amorim

O samba da moda Mestre Salustiano é o nome mais conhecido

im or m eA lic aA ari :M to Fo

Desde seus primórdios, poesia, canto e dança se misturam nas manifestações lúdicas e ritualísticas da humanidade. Continua não sendo diferente. No maracatu de baque solto, por exemplo, a sambada, ou, ainda, o ensaio de barraca são ponto alto dessa característica poético-musical e coreográfica. Também não é novidade a apropriação, ou releitura, por classes economicamente mais altas, de aspectos tradicionais recorrentes na cultura popular. Pois bem, nos últimos dez anos, está tão na moda conhecer e cantar samba de maracatu que a gravação do gênero tem proliferado rapidamente. Embora o modismo traga lá as suas diferenças, isto não é mau para os mestres de maracatu, que estão adorando ouvir a própria voz em CD, adorando divulgar a reserva pessoal de poesia, adorando expandir o número de admiradores. O mestre João Paulo, que gosta de ser chamado o papa do maracatu, está com dois discos na praça (de 2001 e 2003), e felicíssimo com isso. Ele é de Nazaré da Mata, terra considerada berço dos maracatus rurais, e espécie de Monte Parnaso dos mestres tiradores de loas. Visto mesmo como uma autoridade no campo do improviso, João Paulo goza da reputação de excelente poeta, em meio a tradicionais apreciadores desse tipo de poesia, no ambiente rural da cana-de-açúcar. Zé Galdino, que é violeiro, mestre de ciranda e de maracatu, também fez um disco, entretanto não o fez sozinho. Canta com Barachinha, outro mestre nazareno, primo de João Paulo, ambos de uma família de muitos poetas. Os campeões da sambada, lançado no final do ano passado, Não há gravação que substitua é o título do CD, em que procuram recriar um desafio entre dois mestres, que é exatamente o que acontece entre eles, quando decidem o prazer de estar ali, diante de enfrentar-se numa noite de samba, no período de setembro a fevereiro, dois poetas (na sambada), ou durante os preparativos do carnaval seguinte. Isto, sem falar nos discos- de um poeta (no ensaio), coletânea, como os que colocam os mestres Salustiano e Zé Duda acompanhando a fluência cantando os gêneros poéticos de maracatu: marcha, galope, samba imagética dos bons curto e samba comprido. Integrantes do manguebeat – a exemplo de um dos fundadores do sambadores, envolvendo-se com movimento, o DJ Dolores – têm contribuído para que a poesia dos a torcida que se forma em torno mestres de maracatu seja o samba da moda. No CD Contraditório?, do dos mestres Continente maio 2003


Foto: Alexandre Gondim/ DP

DJ Dolores: contribuição para que a poesia do maracatu rural seja o samba da moda

DJ Dolores e Orchestra Santa Massa, lançado no ano passado, Maciel Salustiano (filho do Mestre Salu, do maracatu Piaba de Ouro) se espalha na faixa Samba de Dez Linhas, cantando toada de baque solto e tocando rabeca, coisas que aprendeu em família. A banda Mestre Ambrósio, cujos integrantes têm tido um convívio sistemático com a cultura popular da Zona da Mata Norte pernambucana, divulga já no primeiro CD, de 1995, versos típicos dos mestres de maracatu. Se Zé Limeira sambasse maracatu é poema em seis linhas, de Siba Veloso, cantado por ele mesmo, e tocado com alguns dos instrumentos usados por um terno de maracatu (na faixa, a percussão tem gonguê, cuíca, mineiro, bombo, caixa). Igualmente em 2002, Siba colocou no mercado o trabalho solo, Fuloresta do Samba, com o qual oferece composições bem pernambucanas, em ritmo de ciranda e samba de maracatu. A poesia do maracatu rural contém elementos formais de uma ancestralidade que se perde no tempo. É herdeira de traços de poéticas da oralidade, dentre elas as de expressão galego-portuguesa. Além de seguir os cânones formais da poesia popular rimada e metrificada – os principais tipos de estrofe utilizados são quadra, sextilha e décima, com rima semelhante à da poesia de

Zé Duda: cantando todos os ritmos do maracatu

MÚSICA 81 » Foto: Maria Alice Amorim

Zé Galdino gravou Campeões da Sambada

viola e de cordel –, está incluída, assim como os versos dos violeiros, na tradição do improviso. Portanto, não há gravação que substitua o prazer de estar ali, diante de dois poetas (na sambada), ou de um poeta (no ensaio), acompanhando a fluência imagética dos bons sambadores, envolvendo-se com a torcida que se forma em torno dos mestres. Bem diferente de quando o poeta entra no estúdio, que já vai com todos os versos preparados. Além disso, bebe-se poesia durante uma noite inteira, e é natural que haja um crescendo, que os melhores versos se sucedam nessa farra poética que se prolonga até o sol raiar. Ressalte-se, ainda, que a ambiência não se restringe a uma torcida, tampouco estática. O terno, composto de percussão e sopro, incita à dança, dança guerreira, viril, e ao mesmo tempo, sutil e sofisticada. As mulheres rodopiam, balançam-se individualmente. Os homens dançam como se estivessem lutando, de dois em dois, ou em pequenos grupos; a arma de guerra é um bastão de madeira. Os saltos sobre o outro parecem um bote. Há passos frenéticos, que exigem firmeza e agilidade nas pernas. É uma festa dionisíaca, onde a bebida sagrada é a cachaça, a famosa pinga. O mestre e os músicos ocupam um local de destaque e, ao mesmo tempo, oferecem um pedaço de rua ou terreiro para que os dançarinos possam se esbaldar. Esse espetáculo, esse envolvimento com a comunidade, uma gravação de disco não dá a conhecer, é claro. Imaginar apenas, também não confere o vigor da festa. Para o mestre, estar num estúdio é também uma experiência diferente da que está acostumado a enfrentar, que é estar diante de admiradores, num ambiente propício à emulação poética. Portanto, não é de estranhar que todos os que entraram num estúdio para gravar CD (e não são muitos, contam-se nos dedos de uma mão) admitam que os versos gravados são preparados em casa. No ambiente fechado da gravação, sem platéia e com horário a cumprir, o poeta “dribla” o ouvinte que ama o improviso, e consegue alegrá-lo, embora com um samba preparado, conhecido como “balaio”. Isto não desonra o talento; é, entretanto, como foi dito, uma experiência diferente. O calor do improviso se esvai, mas a força da metáfora é quem vai dizer se o poeta é bom mesmo. Maria Alice Amorim é jornalista.

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82 MÚSICA

O VIOLÃO PERNAMBUCANO DE HENRIQUE ANNES Violão Pernambucano é o nome do novo disco do violonista e professor do Conservatório Pernambucano Henrique Annes. O CD reúne composições próprias e traz participação especial de grandes nomes da música instrumental brasileira, como Altamiro Carrilho, que toca flauta no choro Mesclado. Outra participação do disco é do clarinetista Paulo Sérgio Santos na faixa Lembranças de Gravatá. Todas as músicas são solos de violão, criadas pelo próprio Annes, exceto as chamadas de “regionais”, produzidas por Maurício Carrilho, que é homenageado em Choro para Maurício Carrilho. Esse é o décimo segundo disco da carreira de Annes e o sexto lançado pela gravadora Kuarup. O repertório é basicamente formado por choros, valsas e música erudita, esta na série de três Prelúdios. O disco abre com quatro solos dançantes, as Caribeanas. Henrique Annes já planeja outro disco para o final do ano. Em junho ele começará uma turnê pelo interior de Per-

nambuco (Caruaru, Garanhuns, Arcoverde e Petrolina), promovida pelo Sesc. Para o segundo semestre, ele está agendando a apresentação do Concerto de Arranjuez, para violão e orquestra, com a Sinfônica do Recife. Henrique Annes já teve seu trabalho elogiado por grandes nomes do violão brasileiro, como Raphael Rabello e o novato Yamandú Costa. Violão Pernambucano, Henrique Annes Preço: R$20,00 pelo site da gravadora Kuarup www.kuarup.com.br

DE VOLTA AOS ANOS 70 No final de 1973, quatro jovens de Pernambuco começaram a tocar rock juntos. Zaldo Rocha, João Maurício, Thales Silveira e Paulo Daniel fizeram seu primeiro show profissional em outubro do ano seguinte, no Colégio Padre Abranches, já com o nome de Aratanha Azul. Com seu rocão típico dos anos 70, a banda logo ganhou um grande número de fãs. Em janeiro de 79, entretanto, ao mesmo tempo em que lançava um compacto duplo, a banda encerrava sua carreira. Agora, 24 anos depois, a turma se reuniu outra vez em estúdio e lança o CD De volta à Terra, apenas para comprovar que talento nunca lhe faltou. O repertório é o mesmo dos antigos shows, com algumas atualizações das letras e a inclusão de recursos eletrônicos, inexistentes naquele tempo. Mas os arranjos – tão bons quanto as letras e as melodias – permanecem na mesma linha e seguem a levada dos Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin, as melhores bandas daquele período. O disco abre com o rock que lhe dá título – e que tem versos como “lábios multicoloridos chupam meu juízo, lambem minha dor” – e encerra com Engatilhado, provavelmente o mais endiaContinente maio 2003

brado e estimulante, dizendo “desligue o celular, não pense mais em nada/ se ligue na explosão da galera alucinada”. Mas passa por momentos mais líricos em Como os aviões e momentos mais “tronchos” (como se dizia na época) em músicas como Sangue roxo e Creme de abacaxi. Todas as letras, músicas e arranjos são dos componentes da banda, que também se responsabilizam pelo instrumental e os vocais. Apenas não participa o baterista do grupo original, Paulo Daniel, envolvido em projeto solo, mas que foi competentemente substituído por Ebel Perrelli. O show de lançamento do CD deverá ocorrer no dia 6 de junho, no Armazém 14, no Recife Antigo. Contatos com a banda podem ser feitos pelo celular (81) 9111.9809 ou pelo e-mail tsilveira@nlink.com.br. A propósito, Aratanha vem do tupi guarani: ara - arara, e tanha – dente. Ao pé da letra, dente de arara. Mas, para a turma, Aratanha Azul é um pássaro.


Fotos: Reprodução

MEMÓRIA 83 »

Multidão aclamando a assinatura da Lei Áurea, em 1888

A história marrom

do

Corsário

Foi pesquisando sobre jornais e revistas do longo reinado de D. Pedro II que deparei com a incrível figura de Apulco de Castro. Se alguém o houvesse criado como figura de ficção, talvez viesse a ser acusado de exagero no perfil desse personagem em atividade como “jornalista”, na última década do Império, quando o país vivia os anos inquietos da causa abolicionista, e a questão ameaçava separar o Brasil em pelo menos dois pedaços. Homem de cor, nascido provavelmente de escrava e senhor, sabe-se muito pouco das suas origens, embora se possa deduzir que recebeu alguma educação — e a alforria — do paipatrão, tendo se tornado cidadão livre, como José do Patrocínio e alguns outros. Patrocínio, todos sabem, manteve o espírito sempre revoltado e viria a se tornar a voz suprema contra o regime escravocrata, mas Apulco não: este se emancipou negro de alma branca, achava “natural” o cativeiro e, como jornalista, fundou O Corsário — um pequeno jornal de quatro pági-

nas — para protestar, entre outras, contra a libertação dos seus irmãos de cor. Ainda está para ser escrita a história do pasquim e do seu fundador. Desaforado e cheio de veneno, Corsário superava as doses de afoiteza de O Carbonário, O Tagarela, O Diabrete e outros jornais (se é que merecem esse nome) em circulação nos últimos anos do Império, entregue a um monarca senil e sua corte de conselheiros espertíssimos. Entre todas as “folhas independentes”, o jornal de Apulco, circulando dia sim, dia não, foi o de êxito mais imediato, pelo grau de escândalos amplificados nas poucas páginas de formato pequeno, impressas de qualquer jeito, com pressa e sem escrúpulos de atacar (como atacou) um Machado de Assis, um Capistrano de Abreu, um Taunay. O Corsário dava acolhida a toda sorte de intrigas, não respeitava a vida privada de quem quer que fosse e agredia literatos, políticos, militares e jornalistas com quem Apulco de

Se alguém tivesse criado Apulco de Castro como figura de ficção, talvez viesse a ser acusado de exagerado Fernando Monteiro

Continente maio 2003


» 84 MEMÓRIA Castro se indispunha por qualquer motivo. Era lido por todo mundo — embora todos negassem ser “leitores do Corsário”. Vendido a quarenta réis o exemplar, logo se esgotava a boa tiragem. Ernesto Matoso, contemporâneo de Apulco, deixou um testemunho do que acontecia com o jornal, no seu livro Cousas do meu tempo: “Todo mundo dizia dele mal e envergonhava-se de dizer que o lia; entretanto, tinha ele enorme tiragem. Na rua, quando apareciam os vendedores, pouca gente tinha a coragem de comprá-lo publicamente; todos fingiam não se aperceber mesmo de que o estavam apregoando, passavam como que distraídos pelos primeiros vendedores, mas adiante, em lugar menos concorrido, entravam no corredor de entrada de qualquer casa e aí compravam o Corsário, que cuidadosamente dobravam no bolso, para ler quando estivessem a sós, e saíam desse corredor minutos depois do vendedor de jornais. Curiosa predileção pelo escândalo! Quando alguém, em palestra, ousava referir-se a alguma notícia dada pelo Corsário, todos diziam como que indignados: — “Pois você lê o Corsário? Fiz sempre de si melhor juízo”... A verdade, porém, é que todos o liam, na sua grande maioria, às escondidas, mas liam-no sempre”. O sucesso do “lixo de Apulco” pode ser medido pela iniciativa de imitá-lo até no título, como o fez o descarado jornalista Cabral Pinheiro, quando fundou o Corsário Júnior em 1882. Logicamente, provocou a ira e o protesto, justificados, de Apulco de Castro, e ambos os jornais passaram a se atacar mutuamente, até a morte trágica do fundador do primeiro Corsário não superado por nenhum imitador menos ou mais “marrom” (como chamamos hoje), na imprensa brasileira. A verdade é que o jornal inspirado por Apulco, era, digamos, inimitável. Ele chama José do Patrocínio de “o preto cínico”, acusando-o de vigarista, aventureiro e espertalhão, que arrecadava dinheiro para a causa abolicionista, apenas para ter o pretexto de encher os bolsos com as somas desviadas, para o cofre particular da sua casa. Nada mais indigno poderia ser escrito contra a ação de Patrocínio, desfigurada em favor das posições dos senhores escravagistas, que Apulco apoiava. Por mais estranho que pareça, O Corsário conseguia ser ao mesmo tempo contra a Abolição e a favor da República, na cabeça confusa do seu proprietário e editor. Apulco chama Pedro II de “o rei Bobeche”, referindo-se ao impeContinente maio 2003

Homem de cor, nascido de escrava e senhor, Apulco recebeu alforria e educação, tendo fundado o jornal O Corsário, no qual se posicionava contra a libertação dos escravos, atacando violentamente outro negro alforriado, José do Patrocínio

rador neste tom: “O rei foi para Minas. Que felicidade! Ao menos vamos ficar livres daquele idiota. O que irá fazer aquele maluco na pátria de Tiradentes? A maior parte da população mineira, que só tem visto a cara de Pedro Banana em moedas de vintém, muito se há de admirar ao olhar aquela planta exótica, aquele perfeito tipo de judas em sábado de aleluia”. E mais adiante, espuma de tinta: “Esse safardana, esse miserável, esse malvado tenta ser santo, quando é um criminoso, que a justiça humana devia, merecidamente, condenar a sofrer a pena que o glorioso Tiradentes sofreu imerecidamente!” Depõe a favor do velho imperador que um tal “jornalista” pudesse ter a sua folha livre para atacá-lo em tais termos. Outros se indignavam, entretanto, e assim é que Ruy Barbosa aparece para chamar o pasquim da rua de São Pedro de “oficina de prostituição” e “lupanar servido por prelos”. A primeira tentativa de calar O Corsário foi amena: uma tentativa — da parte do ministro da Justiça do gabinete Saraiva — de comprar o jornal, ainda em 1881. Manuel Pinto de Souza Dantas oferece dez contos de réis pelo Corsário, mas Apulco recusa e sofre algumas retaliações: a polícia faz uma “visita” às suas oficinas. Mesmo sendo o tempo dos liberais, o que Apulco publicava passava dos limites, nos ataques e na linguagem mais que atrevida. Os governos sucessivos — de Martinho de Campos e do Visconde de Paranaguá — sofrem o pão que o diabo amassou nas páginas do Corsário, e este só vai sofrer a verdadeira retaliação, que andava pedindo, na pessoa de Aureliano de Sousa Coutinho Júnior, filho do Visconde de Sepetiba, o famoso “Pele de Anta”. Segundo as denúncias impressas por Apulco, o “Pele de Anta Júnior” (apelido que põe em letra de forma) prendera — e estava querendo “deportar” — alguns dos seus colaboradores, além de mandar seus esbirros “em assalto à tipografia do jornal”. De fato, este fica oito meses sem circular... mas, quando volta, traz um dístico que desafia ministros & polícia: O CORSÁRIO — Orgão de moralização social — Atacado, saqueado e incendiado pelo governo liberal, sendo ministro da justica..., etc”. Nas páginas internas, a mesma antiga virulência nas notas sociais: “Ontem saiu da toca o superlativamente safado delegado de Polícia Sá Vale, etc., etc”.


MEMÓRIA 85 O pasquim duraria até outubro de 1883, atacando em todas as direções e causando um temor que Afonso de Taunay deixou registrado na sua correspondência. Mais de quarenta anos depois, ele agradece uma referência em livro de Capistrano de Abreu, e confessa: “Ao abri-lo, vi logo a página em que tão amável se mostrou a meu respeito. Não posso deixar de agradecer-lhe; mas, em 81 ou 82, Apulco de Castro, durante um ano inteiro, me seringou trissemanalmente no Corsário, e desde então a primeira impressão sentida, ao ver meu nome em letra de forma, é desagradável”. Só a morte calou Apulco de Castro. Violenta, ela veio pelo motivo bem reles da acolhida — paga, evidentemente — que deu ele, na seção “a pedidos”, à cobrança de uma dívida de bar. A nota foi posta no Corsário pelo dono de um botequim da rua da Quitanda, cobrando débito de certo oficial do 1º Regimento de Cavalaria Ligeira. O devedor não compareceu para saldar a dívida e então saiu uma segunda nota, assim redigida: “1º Regimento de Cavalaria — O safardana do oficial desse corpo ainda não se moveu a fim de pagar ao taverneiro da rua da Quitanda. Nem o Sr. comandante, para quem apelou o credor, dignou-se de dar qualquer providência a fim de salvaguardar a dignidade da corporação de que é chefe. O Sr. ajudante-general também não procurou saber qual é o oficial do 1º Regimento de Cavalaria Ligeira que caloteia taverneiros...” Em resultado, formou-se um movimento de revolta, no Regimento, contra O Corsário e seu editor, tendo este procurado obter garantias de vida justamente no seio da polícia, que o odiava. Apulco de Castro foi lá denunciar que uns grupos hostis andavam cercando a sua redação (agora na rua São José, 52), de tocaia. Que socorrro ele podia esperar? O delegado de plantão, na Chefatura de Polícia da rua do Lavradio, Dr. Macedo de Aguiar, é franco e irônico, quando lhe responde: “O que quer o senhor que eu faça? Posso mandar guardá-lo por um ou dois homens... mas será o bastante? Creio que não, pois o senhor mesmo diz que é ameaçado por um regimento inteiro.” Apulco foi atacado, afinal, por um grupo de “pessoas à paisana”, no dia 25 de outubro de 1883, em plena rua do Lavradio, ao voltar da Chefatura para o jornal, na companhia do capitão Ávila (ajudante de ordens de Manoel da Fonseca Costa, Visconde da Gávea), disposto a protegê-lo. Iam ambos num fiacre, à luz do dia, quando o tal grupo se acercou do

carro, obrigando-o a frear, para ferir com tiros e punhaladas o malprotegido verrineiro. O tal capitão Ávila parece que ainda esboçou algum “gesto de defesa”, mas recebeu “uma paulada” e logo se aquietou, enquanto os assassinos cumpriam a rápida tarefa de eliminar o mais incômodo jornalista então em atividade no Rio de Janeiro. A polícia não prendeu um só dos atacantes, sequer identificados no decorrer das “investigações”, logo encerradas pela Polícia, aliviada com o trágico fim do pasquineiro.

Em destaque, única imagem do mulato Apulco de Castro. Abaixo, cena de seu assassinato, a tiros e punhaladas, por um grupo “à paisana” que não foi identificado


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86 ENTREMEZ Ronaldo Correia de Brito com ilustração de Zenival

A espada

ea

cruz

Agora, a platéia vê o circo sem sair de casa. Comendo pipoca e tomando coca-cola, ela pode assistir a Bagdá sendo massacrada

Na minha cidade, havia uma biblioteca municipal mantida em convênio com a diocese, de poucos livros, quase todos ruins. Refugos de bibliotecas particulares, aquilo que não se quer guardar porque não presta e só ocupa espaço. Mas livros são sempre livros e num país de analfabetos, jogá-los fora é quase crime. A bibliotecária pertencia à Congregação Mariana e usava uma fita azul no pescoço, com medalhas e escapulários de Nossa Senhora. Como os clientes eram raríssimos, ela ocupava o tempo rezando ou fazendo crochê, deixando que o tempo, a poeira e as traças cuidassem do resto. Foi no meio dessas prateleiras rudes e livros carcomidos que eu tive a primeira idéia de uma biblioteca. Entre as muitas preciosidades, uma se destacava: a coleção dos Grandes Romances do Cristianismo. Li todos. O livro que me impressionou mais foi Perseguidores e Mártires. Em quase quinhentas páginas se contava como foram mortos centenas de cristãos, queimados em fornos, cozinhados em azeite, arrancados os olhos, devorados por leões e tigres no Coliseu, crucificados, afogados e apedrejados. Um verdadeiro tratado das perversidades humanas, carregado nas cores para enfatizar a coragem e santidade dos primeiros cristãos. A bibliotecária percebia o meu horror e fascínio por aquela carnificina e dava jeito de encontrar mais histórias escabrosas para eu ler. O que não era capaz de fantasiar, lendo os livros, o cinema da época, pródigo no mesmo tema, completava com imagens. E haja palácios romanos com filas de cristãos amarrados em postes, ardendo em chamas, e mais crucificados, e santinhas devoradas por leões e tigres, tudo pela justa causa da fé. Minha sensibilidade infantil ficou irremediavelmente marcada. Dez anos de psicanálise não conseguiram reverter o estrago. Comparados aos violentos filmes americanos de hoje, todos esses dramalhões históricos são “água-com-açúcar”. Dá pena e vontade de rir. Um único filme da “sessão da tarde” vale por cem desses “filminhos” de mártires. Mais que mudança de tempo e estilos, o que aconteceu foi uma banalização da violência. Uma cena reproduzida por Fellini, em Amarcord, uma platéia de italianos chorando ao assistir A Espada e a Cruz, é inconcebível nos dias de hoje. Mergulhando nas minhas leituras, eu me perguntava por que milhares de Continente maio 2003


ENTREMEZ 87

pessoas se reuniam no Coliseu romano para ver pessoas sendo trucidadas das formas mais cruéis. Não compreendia como Roma se arvorava em centro cultural do mundo, povo mais civilizado da terra, chamando de bárbaros os que estavam além das suas fronteiras. Consolava-me dizendo: “O mundo em que vivo é outro e, felizmente, o homem contemporâneo é bem melhor. Ele já não se entrega ao prazer da violência pura, nem se deleita com o sofrimento dos semelhantes”. Eu era muito jovem e faltavame uma qualidade que só adquiri bem mais tarde: discernimento. A história recente tem provado que fui otimista demais, acreditando que os homens e as nações evoluíram para melhor. Que os mecanismos engendrados em Roma para mostrar a força e o poder do império, mantendo hipnotizada a grande massa, fazem parte do passado. Existem outros mecanismos, com o mesmo fim. Agora, a platéia vê o circo sem sair de casa. Confortavelmente sentada, comendo pipoca e tomando coca-cola, ela pode assistir a Bagdá sendo bombardeada e massacrada. Pode ver multidões de famintos pelas ruas de cidades destruídas, crianças queimadas, prisioneiros feridos e humilhados, tudo em nome do direito dos mais poderosos. Estados Unidos e Inglaterra, nações que se assemelham ao Império Romano pelos fumos de poder e glória, têm mostrado o novo circo aos seis bilhões de habitantes do planeta, através da televisão. Como no Coliseu dos filmes americanos de terceira categoria, é o imperador Bush quem levanta ou baixa o dedo, condenando e salvando vítimas, enquanto o sicário inglês, Tony Blair, traz a taça de vinho para o brinde. Mas algo mudou. Em Roma, poucos ficavam fora do circo. A voz do filósofo Cícero, protestando contra a barbárie, era solitária. A turba romana levantava os dedos pedindo clemência para o gladiador condenado, sobre cujo peito pairava uma espada. Cabia ao supremo imperador decidir sobre sua vida ou morte. Ainda é o imperador Bush, apoiado por setenta por cento dos patrícios americanos, quem decide até quando a espada entrará no peito dos iraquianos e de todos os cidadãos do mundo. Mas a vítima não é mais passiva. Ela reage contra a vontade do inimigo. E nisso não está sozinha. Do lado de fora do Coliseu americano há milhões protestando, de todas as formas. Pessoas para quem a América tornou-se bárbara. A gloriosa América de Whitman, com o seu sonho de democracia e fraternidade, já não merece o canto do seu mais ilustre poeta:

Fora com os temas de guerra! Fora com a própria guerra! Saia de minha vista repugnada para não voltar mais aquele espetáculo de cadáveres enegrecidos e mutilados! Aquele inferno indescritível e recoberto de sangue bom para tigres selvagens ou lobos de línguas ávidas, não para seres humanos dotados de raciocínio! Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor.


o ã ç a r o C

88 COMPORTAMENTO

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Foto: Renata Mello/ Tyba

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Em tempos de sucesso dos filmes Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que mostra como o tráfico de drogas se instalou na favela homônima, e Carandiru, de Hector Babenco, que conta a trajetória de sobrevida e morte de dezenas de indivíduos, ali esquecidos por não mais interessarem à sociedade; de ícones da arquitetura carioca serem metralhados durante o dia ou a madrugada, ou de fuga em massa da Febem de Franco da Rocha, São Paulo, o cidadão brasileiro assiste (sobressaltado) às narrativas inconclusas da violência brasileira, especialmente da praticada pelos jovens. Na contramão das explicações insatisfatórias, chega ao mercado literário, através da editora Fiocruz, Nem soldados nem inocentes — Juventude e tráfico de drogas no Rio de Janeiro (199 p.), dos cientistas sociais Otávio Cruz Neto, Marcelo Rasga Moreira e Luiz Fernando Mazzei Sucena. O livro detém-se muito mais nas motivações psicossociais dos adolescentes para inserção no universo do tráfico de drogas — baseadas em depoimentos colhidos no Sistema Aplicado de Proteção, criado pelo governo estadual para retirar os jovens do tráfico e garantir sua ressocialização — do que na omissão histórico-política que favorece as contradições socioeconômicas. Mas dá a sua contribuição quando descortina o século XX e suscita uma contundente reflexão: “se é verdade que nos últimos cem anos a humanidade vivenciou um desenvolvimento tecnológico sem


COMPORTAMENTO 89 » Foto: Rogério Reis/ Tyba

precedentes, materializando antigas aspirações que nunca tinham passado da esfera do mito e do sobrenatural, não é menos correto afirmar que os mecanismos de produção, distribuição e apropriação dessa tecnologia transformaramse em instrumento de pressão política e opressão social, concorrendo de forma vital para uma globalizante disseminação da miséria e da exclusão”. Para traçar essa linha histórica, os autores revisitam Donga, Lima Barreto e Aluísio de Azevedo, que relatam o modo de formação das favelas cariocas e dão uma radiografia do lugar: O samba não veio do morro, ele foi para o morro... ele apareceu na Cidade Nova. Cidade Nova é Senador Pompeu, Travessa do Bom Jardim, Largo do Depósito, Saúde, Barão de São Félix, rua do Sabão, rua do Costa... e no Centro tinha a rua da Alfândega e a rua do Hospício (atual Buenos Aires). Aquela parte ali, de onde é a Rio Branco para cá, ali era tudo negro, tudo africano que morava ali, baianos... aí se formou tudo. (Donga). Assim começa a se definir o Rio de Janeiro de hoje, num contorno geopolítico que traduz o projeto dos “higienistas” Francisco Pereira Passos e Oswaldo Cruz, promotores de uma “limpeza” urbana que pretendia modernizar a cidade, adequando-a em beleza aos moldes parisienses. Ao mesmo tempo em que construía grandes prédios, botava abaixo os cortiços, levando essa população para os morros, onde começou a construir barracos tão ou mais insalubres — o termo favela é trazido da Bahia pelas tropas egressas da Guerra de Canudos, que se apropriaram do Morro da Providência e ao redor das suas residências construíram os barracos. Rapidamente o povo estabeleceu uma relação metonímica, passando a chamar o Providência de “Morro da Favela”. Começam, então, a ocorrer vários crimes nesses locais, que em nada se diferenciavam dos ocorridos no resto da cidade. No entanto, o preconceito originado da escravidão e fortalecido pela “reforma urbana” sobe os degraus do estereótipo, levando à associação direta local-crimes. Nesse contexto, o juiz de menores do Rio de Janeiro, Mello Matos, cria o

Contraste social modelo da “limpeza urbana” promovida no Rio de Janeiro é adotado em todo o país

Código de Menores do Brasil. Começa aí uma trajetória político-social que põe crianças e adolescentes como objetos de tutela do Estado, acentuando o estigma de que a população pobre, além de merecer cuidados, deve ser alvo do receio da classe dominante. Tal paradigma começou a ser rompido com o advento do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente, lei de 1990 que garante a prioridade absoluta a crianças e adolescentes e os enxerga como sujeitos de direitos. Mas são apenas doze anos de Estatuto contra 500 da formação de um povo que sempre estabeleceu relações baseadas no poder, na competitividade e na discriminação; permeada de contradições e arbitrariedades. Instigados por essas incômodas situações, os argumentos arrolados pelos autores — que incluem dados estatísticos, depoimentos de 88 jovens sobre a vida no tráfico e as implicações do uso das drogas na saúde dos adolescentes, relatadas no capítulo “Coração de bandido é na sola do pé” — provocam a compreensão de que a questão do jovem envolvido com o tráfico não pode ser analisada de forma estanque, como se fosse um mero fenômeno de fim de século, a ser resolvido somente com a intensificação da repressão: é um problema estrutural, contextualizado nas relações sociais e econômicas. Mas fica o questionamento: qual o plano de distribuição da obra? Como ela pode contribuir para minimizar a intolerância aos jovens agentes, que são, sobretudo, vítimas de violência? Que caminhos ela vai percorrer para contribuir com a formulação e a efetividade das políticas públicas voltadas para este público? Continente maio 2003


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90 COMPORTAMENTO

Nem heróis nem bandidos - A vida no tráfico em Pernambuco “Todos nós temos medo de morrer; seja nas mãos de um colega, de um inimigo ou da polícia. Tenho vontade de sair, mas pra quem entra, não há caminho de volta”, R., 17 anos Foto: Miriam Fichtner/ Tyba

C. tem 17 anos e está cumprindo medida socioeducativa de internação, num dos Centros de Atendimento Socioeducativo da FUNDAC — Fundação da Criança e do Adolescente. Entrou para o tráfico aos dez, fugindo de casa, empurrado pela violência paterna. “Aos nove anos eu comecei a pedir dinheiro nos sinais, obrigado por ele. Caso não levasse a grana para casa, era espancado”. C. conheceu as drogas, através do pai. “Minha primeira lombra foi com a massa dele. Já usei tudo: cola, aranha, verniz, éter, Rivotril, Rupinol, Gardenal, Diazepan (antidepressivo), crack, maconha, coca”. E ressalta: “Crack é bom porque dá disposição para matar e roubar”. Foi gerente de boca de fumo. “Vendia maconha prensada, rende mais e a lombra é melhor”, afirma. Atuava numa das favelas do centro do Recife. “Tinha de tudo: moto, drogas, ‘brega’, dinheiro, andava com uma tremenda draga na cinta, uísque, tirava o piercing com banho de gato e transportava o cuspe com a nega que eu quisesse; pra que mudar?”, reflete. E analisa: “Sei que caí nessa por causa do meu pai. Se tivesse outras oportunidades, talvez estivesse estudando, levando uma vida decente”. Mas revela seu grande sonho: “Queria morar no Rio, traficar nas favelas cariocas”. Já F., 18 anos, teve uma trajetória diferente. Estudante das melhores escolas de classe média alta da zona sul do Recife, conheceu as drogas aos 15, nas olimpíadas do colégio, através dos colegas. Tornou-se usuário de maconha e crack. Do uso para o tráfico, ele diz, foi um Continente maio 2003

Jovens envolvidos no movimento do tráfico exibem

pulo. As brigas dentro de casa o levaram a abandonar a vida com os pais apartamento de três quartos na Região Metropolitana do Recife, carro na garagem, futuro promissor — e ir morar numa boca, numa favela da zona sul do Recife com os amigos envolvidos no movimento. “Era muito divertido, nunca tive vontade de sair: dinheiro, gafieira, mulher, bebida, droga fácil...”. Da favela da zona sul, decidiu ir morar noutra favela na zona norte da RMR. “Aí comecei a assaltar. Fui apreendido e minha mãe conseguiu um habeas corpus para que eu fizesse tratamento contra o uso das drogas. Saí e fiquei sob medida de Liberdade Assistida, na casa dos meus pais. Mas decidi voltar a morar com os meus amigos. Fui baleado num tiroteio e estou aqui (num Centro da FUNDAC) por descumprimento da medida”. F. não consegue compreender por que entrou nessa vida. Hoje recebe visita dos pais, que tentam encurtar seu tempo no Centro. Bernadete dos Santos, assistente social da equipe que acompanha o seu desenvolvimento, na perspectiva da ressocialização, ainda não conseguiu chegar às suas motivações para entrada no universo das drogas. O que se sabe é que ele começou a tomar bebidas alcoólicas aos 13 anos, com o conhecimento dos pais, que também só descobriram seu envolvimento com as drogas depois de dois anos de uso. Atrair jovens para o tráfico é uma estratégia comumente utilizada: ao


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Mudando a cena - “Você foi salvo pelo teatro”, disse um dos juízes da infância e juventude do Recife, durante uma audiência, a um adolescente, então sob medida de internação. B. fez aulas de teatro, artes plásticas, comunicação, percussão e participou da elaboração de um livreto que contém uma releitura do ECA, enquanto estava na FUNDAC. O juiz citado reconheceu-o de suas apresentações num dos teatros do Recife. A arte pode significar um processo de autoconhecimento e de descoberta de habilidades, talentos e vocações, dando ao jovem a condição de responsabilizarse pelas ações cometidas e de trilhar os caminhos da auto-estima e da autonomia do sujeito, despertando a capacidade de situar-se, narrar-se e se colocar

como autor e porta-voz de sua própria história. “A arte é uma forma de acionar a própria realidade pela via da sensibilidade. Ela é importante porque dá ao adolescente, infrator ou não, a oportunidade do contato artístico, seja pelo fazer ou pela fruição. Na hora em que ele se expressa, objetiva a sua subjetividade, se conhece melhor. E se compreendendo, ele tem melhores condições de conviver socialmente”, considera Antônio Carlos. A experiência de J., 17 anos, comprova. Também sob medida socioeducativa de internação, envolveu-se com o tráfico aos dez, tendo conhecido as drogas bem cedo, dentro de casa: “Minha mãe me ofereceu um cigarro aos seis anos e meu pai me deu cachaça aos sete. Quando bebi por conta própria, levei uma surra”. Segundo ele, a vida no movimento parecia brincadeira: “Levar bala, sair correndo, dando pinote, era o mesmo que brincar num parque de diversões. Quanto mais acontecia, mais queria novidade e adrenalina”. Hoje, J. reconhece que perdeu muito tempo, que se tivesse tido chances, poderia ser diferente. “Mas vai ser diferente. Quando sair daqui, só quero trabalhar, fazer tapeçaria com a minha família”. Onde está interno, J. é vocalista da banda de forró, locutor da rádio comunitária e estudante do ensino fundamental. “Estou aprendendo a ser melhor. A arte fez com que eu me enxergasse de outra forma: sempre achei que só podia ser bandido, mas agora vejo que posso ser artista, artesão... posso ser um cidadão”.

Foto: Márcio Fernandes/ Folha Imagem

incluí-los, a organização posiciona-os no front dos combates; no lugar de risco e de maior vulnerabilidade — passando a usufruir do seu trabalho, o anonimato e a vida burguesa. Com os jovens é feito um pacto: ficar à frente do movimento para, caso a justiça os enxergue, assumirem a responsabilidade — para eles cabe uma medida socioeducativa (prevista no ECA) que varia de seis meses a no máximo três anos, enquanto no código penal tráfico é considerado crime hediondo. Esse mercado nasceu sem a participação dos jovens, mas necessita dela para se reproduzir. Tal envolvimento esconde os setores mais rentáveis, como importação, refino, transporte, lavagem e reinvestimento do dinheiro. Em contraponto ao mercado de trabalho formal, que os expulsa ou não os acolhe, dá oportunidade ao exercício do seu protagonismo. É uma possibilidade imediatista de consumo, de status, de relacionamentos múltiplos, de poder e de expressão da sua rebeldia, mas especialmente, de afirmação da sua frágil e confusa identidade pessoal e social. “Temos diante de nós, não um infrator, que por circunstâncias é um adolescente, mas um adolescente que, por circunstâncias, é um infrator”. Quem assegura é Antônio Carlos Gomes da Costa, educador e diretor-presidente da Modus Faciendi, instituição de planejamento e apoio a ações educativas.

O crack, segundo depoimentos, “é bom porque dá disposição para matar e roubar

Glossário Aranha - comprimido de Artane (antidepressivo) Boca de fumo - ponto de venda da droga Lombra - Torpor, tontura; designa os efeitos da droga Massa - maconha prensada Movimento - estrutura do tráfico Medida socioeducativa - medidas aplicadas pelos juízes, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, aos adolescentes autores de atos infracionais. Existem seis tipos, que variam de acordo com a gravidade do ato cometido: advertência, prestação de serviços à comunidade, reparação do dano, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Tirar o piercing com banho de gato - sexo oral Transportar o cuspe - beijo de língua Tremenda draga na cinta - arma de calibre de alta potência na cintura

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DIÁRIO DE UMA VÍBORA 93 » Joel Silveira

O dia em que o poeta João Cabral me perguntou: “você me acha neurótico?” A imbatível dorzinha de cabeça acompanhava João Cabral desde a adolescência Ilustração: Zenival

Nossa conversa já dura uma hora e João Cabral de Melo Neto ainda não tomou uma só aspirina. Estou prestes a manifestar a minha estranheza a respeito quando ele se levanta e diz que vai lá dentro buscar um copo d'água. Volta com o copo pela metade, tira do bolsinho interior do paletó um envelope, dele destaca um comprimido e engole rápido. Pergunto quantas aspirinas ele atualmente toma por dia. “Agora só de quatro em quatro horas”. Anos atrás, lembro-me bem, era de duas em duas. E houve mesmo uma época em que o poeta consumia um analgésico atrás do outro, numa espécie de compulsão, como quem mastiga amendoim. A imbatível dorzinha de cabeça acompanhava João Cabral desde a adolescência. Dezenas de exames e radiografias tentaram inutilmente localizar e identificar o mal : – “Minha cabeça e partes vizinhas – incluindo garganta e nariz – já foram fotografados em todos os ângulos e esmiuçados nos mínimos detalhes. Não adiantou. A dorzinha resiste bravamente à ciência e aos remédios – escondendo dos doutores o motivo por que dói. E por que dói – eu mesmo me pergunto. Creio que se trata de uma manifestação de fundo neurótico.Você me acha neurótico?”. Não, eu não achava. Nada em João Cabral lembrava um neurótico – ou o que se entende que seja um. Era mansa a fala do poeta, os gestos parcos, atenção total ao que lhe diziam. Tudo, em suma, a compor o retrato de um homem excepcionalmente bem-educado e senhor de si. Vez por outra, um franzir da testa larga, poderosa, era indício de uma certa tensão impaciente – motivada talvez pela dorzinha que feriu mais fundo, por um ruído mais contundente ou mesmo, quem sabe, por uma pergunta mais idiota do repórter. Joel Silveira é jornalista e escritor Continente maio 2003


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PRETO NO BRANCO

Vastos interesses e coberturas imperfeitas põem em questão o papel da imprensa que, na ocupação do Iraque, foi uma das primeiras vítimas Daniel Piza

AS BAIXAS NO FRONT JORNALÍSTICO Um dos mais atingidos pelo bombardeio sobre o Iraque foi o jornalismo. Infelizmente, com 12 jornalistas mortos em 20 dias, essa metáfora é de mau gosto. Mas o fato é que a cobertura da imprensa não foi apenas parcial (de ambos os lados), mas confusa, contraditória, comprometida. Um dos jornalistas mortos, por exemplo, era Michael Kelly, ex-garoto de ouro da imprensa americana, editor das revistas New Republic e Atlantic Monthly e da revista virtual Slate e colunista do Washington Post. Kelly estava embedded, integrado às tropas americanas, e morreu num acidente de jipe, conduzido por um soldado. Naturalmente, deveria imaginar que, acolhido pelos militares de seu país, teria acesso mais amplo e seguro ao teatro de operações. Sua morte é que terminou sendo um símbolo dramático. O que predominou nas três semanas de guerra foram os mal-entendidos, as versões incompatíveis sobre fatos, não raro, menores. Primeiro vinha a notícia de que uma cidade tinha sido tomada, em seguida o desmentido, mais para a frente a nova confirmação, só que com detalhes significativos. No plano mais aberto, de um lado se dizia que o avanço seria cirúrgico, linear e brevíssimo; de outro, que o Iraque seria o novo Vietnã, que os americanos e ingleses iriam enfrentar resistência heróica no labirinto de Bagdá. Do mesmo modo, de um lado se imaginou que armas químicas e, quiçá, nucleares, seriam utilizadas, como se Saddam fosse passar tal atestado; de outro, esqueceu-se de que a principal questão era o possível apoio dele às redes terroristas. Muitos ocidentais começaram a acompanhar o noticiário pelas TVs do Oriente Médio, como a Al-Jazeera, sediada em Qatar, indignados que estavam com o comportamento submisso da mídia americana. Alguns sites como o Arts & Letters Daily criaram um espaço fixo para links com a imprensa dos países muçulmanos. Isso porque redes como a Fox News, a BBC e muitas mais, além dos sites, evitavam colocar no ar imagens de vítimas civis e de prisioneiros americanos. Também a imprensa escrita fez o possível para moderar o horror da guerra. Nos EUA, 70% apoiaram a invasão de Bush. Mas em todo o mundo a média de oposição era superior a 80%, mesmo nas Continente maio 2003

Na maioria das vezes, o jornalista já nem consegue discernir o que é reportagem e resenha, e o que é estar cooptado por sua fonte de informação. Ele já mata sua independência dentro de si mesmo

aliadas Inglaterra e Espanha. E essa audiência se sentiu alienada da verdade. Não que a imprensa européia ou árabe também não tivesse baixo nível de esclarecimento sobre a realidade em curso. Mais interessada em denunciar as mortes e os ferimentos de civis, sobretudo crianças, e em fantasiar a respeito dos poderes de resistência bélica e popular do Iraque, foi obrigada a encarar a realidade da supremacia americana e cenas como a da população local festejando a derrubada da estátua do ditador, no centro da capital. Se a maior parte da mídia americana quis reduzir a guerra a um videogame, com aquelas imagens distantes da chuva de bombas sobre Bagdá, que teria sido seguida por um avanço por terra cheio de bravura militar e adesão iraquiana, a maior parte da mídia internacional ficou perdida em meio a relatos díspares e supôs que o desenlace fosse apenas um genocídio ou muitos meses de luta. Mas a situação da imprensa americana é a primeira que deve ser discutida. Afinal, trata-se de uma imprensa que sempre prezou pela liberdade de expressão, pela ausência de censura ou mesmo autocensura, e que tem uma tradição de correspondentes e analistas de guerra que incluem nomes como Ernest Hemingway, John Hershey e I.F. Stone, entre muitos outros. É


PRETO NO BRANCO claro que o jornalismo, como expressão da sociedade, não enxerga tudo, e um exemplo óbvio é sua demora em perceber o lamaçal que era o Vietnã. Mas, em pouco tempo, jornalistas como Seymour Hersh, além de Stone, começaram a denunciar as mentiras e atrocidades como o massacre de My Lai. O mesmo Seymour Hersh continua na ativa, brilhando com reportagens sobre o comportamento do governo Bush II, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Mas a publicação onde elas têm saído, a revista The New Yorker — onde a célebre reportagem de Hershey sobre Hiroshima saiu em 1946 —, viveu um episódio constrangedor na guerra com o Iraque. O editor, David Remnick, um excelente repórter, autor de livros importantes sobre a derrocada soviética (A Tumba de Lênin) e o ídolo muçulmano do boxe Muhammad Ali, vetou cartuns de ninguém menos que Art Spiegelman, o grande criador de Maus, HQ sobre o nazismo, e vetou com pretexto patriótico. É claro que há outras exceções, além de Hersh. Quem pensa que a grande imprensa americana apoiou em bloco a invasão do Iraque está enganado. O tradicional e influente The New York Times, por exemplo, foi incisivo em seus editoriais: foi contrário a uma guerra cuja urgência estava mal explicada e mal sustentada e cujos riscos para a estabilidade mundial seriam evidentes. Mas o tom geral não foi esse, e sobretudo na mídia eletrônica. Nem todos os canais de TV chegaram ao extremo do Fox News, que “garantiu” que a coalizão havia encontrado uma fábrica de armas químicas no sul do Iraque e depois foi obrigada a se corrigir. Porém, a regra era pintar um quadro favorável, de legitimidade, quando não de salvação moral, para a guerra de Bush II. Parte do problema está naturalmente no patriotismo populista que acompanha os EUA desde sempre. É preciso repetir: 70% da população americana apoiou a guerra. Mas a mídia não é porta-voz da maioria, assim como não deve estar a serviço da classe governante. E isto, que foi o mais freqüente, é a outra parte do problema. Os processos econômicos e sociais das últimas décadas deram uma dimensão aos meios de comunicação que nem eles mesmos sonhavam. E essa dimensão também é política. Com a chegada da tal Era Digital, os grupos de mídia entraram numa corrida do ouro. Fusões e expansões decolaram. Time, Warner e AOL formaram um conglomerado gigante. Empresas de outros setores, como a fabricante de água francesa Vivendi, lançaram tentáculos vorazes para o setor de entretenimento. Grupos que unem editoras, gravadoras, produtoras de cinema, rádios, portais e empresas de informática se formaram na Alemanha, na Inglaterra, na Espanha, na Venezuela, no Brasil. O admirável mundo novo para os investidores era o do infotainment, a mistura de informação e entretenimento. Isso não significa necessariamente que a independência jornalística se torna impraticável; no entanto, sua prática perdeu terreno. Os motivos são óbvios. Primeiro, cobra-se da imprensa um resultado econômico a todo custo. Não por acaso, no mesmo período as descobertas de notícias forjadas e matérias com-

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pradas — em publicações de prestígio e popularidade como a revista Newsweek — se multiplicaram. Segundo, expõe-se a empresa jornalística ao lobbismo, aos jogos de influência políticos e corporativos, e ai daquela que contrariar os interesses de seus acionistas. E, terceiro e não menos importante, a confusão entre texto jornalístico e press-release só faz mal ao jornalismo. A Miramax, digamos, vai estrear um filme cuja estrela é Leonardo DiCaprio. Agenda centenas de entrevistas de 10 minutos com ele para jornalistas do mundo inteiro. Fica de olho no que eles vão escrever em seguida, até mesmo para usar nos cartazes promocionais. E, na vez seguinte, boicotam aqueles que não se comportaram bem... Tire daqui qualquer sugestão conspiratória. Esse escambo, como o jabá na mídia brasileira, é usual e real. Mas não é exatamente imposto na maioria das vezes. Na maioria das vezes, o jornalista já nem consegue discernir o que é reportagem e resenha e o que é estar cooptado por sua fonte de informação. Ele já mata sua independência dentro de si mesmo. Nem por isso o risco não é maior nesta era de mega-empresas midiáticas. O jornalismo está embedded num processo ainda mais vasto e complexo, do qual tem tido pouca consciência. Bom jornalismo, sim, continua a se fazer em vários cantos. Na guerra, por razões óbvias, viu-se mais nitidamente que esses cantos andam perdendo a voz. Entre a distorção dos fatos e o maniqueísmo das opiniões, muitas foram as derrotas. Que se medite sobre elas. Daniel Piza, jornalista e escritor, é colunista de O Estado de S.Paulo.

Com a chegada da tal Era Digital, os grupos de mídia entraram numa corrida do ouro. Grupos que unem editoras, gravadoras, produtoras de cinema, rádios, portais e empresas de informática se formaram em todo o mundo

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ÚLTIMAS PALAVRAS

Rivaldo Paiva

Só sei que foi assim... Todo mundo se apega a toda e qualquer informação

Ninguém pára pra pensar se foram verdade, ou não, os fatos anunciados ou mostrados nos noticiários jornalísticos. Apenas acredita passivamente. Os acontecimentos são explosivos, por isso tornam-se verdadeiros, às vezes, pelo resto de nossas vidas. Não quero me referir à ficção das leituras das Aventuras de Pinóquio, da Alice no País das Maravilhas, de Carrol, dos centeios daquele jovem que os apanhava, dos cães de Baskervilles, nem das cidadelas arcabuzadas de Cronin. Todo mundo se apega a toda e qualquer informação, seja pelo rádio, jornal ou televisão, quando não se prefere o boca-aboca do povo nas esquinas e quinas dos dominós ou das sinucas chulacas das palhoças de chambaris e sarapatéis. Tudo que fica para a história é dívida que nunca se paga. A curiosidade não mata, mas maltrata. Que acham, caros leitores, de enveredarmos por um teste intrigante? Hitler suicidou-se mesmo, ou não? Tem monstro no Lago Ness? Será que o homem chegou e pisou realmente na Lua? A televisão mostrou, dizem, ao vivo, em 1969, e encantou os terrestres com tal proeza – Neil Armstrong deu um pulo para a fama do homem, e assim, um pequeno grande passo para a humanidade. Por que nunca mais voltaram lá, construíram uma filial da Nasa em solo lunar e dali alçaram outros vôos em mais descobertas planetárias? Não precisariam, por certo, da estação MIR pairando no espaço, não é verdade? Os homenzinhos, verdes ou não, vindos do espaço baixaram suas ogivas interplanetárias para as bandas dos desertos de Roxwell, foram capturados, examinados por PHDs cientistas; energizados e operados por exigentes médicos – experts da Nasa – e foi tudo que a gente sabe. Tais os vistos e denunciados em Varginha. O Papa João Paulo I – aquele risonho e bonachão, que

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quaisquer povos do planeta aprenderam a admirar – morreu de um enfarto ou talvez de alguma comida estragada? Nunca e jamais saberemos o que ocasionou seu passamento. Jânio Quadros renunciou à Presidência da República Federativa do Brasil e nenhum dos historiadores ou amigos íntimos e familiares, até hoje, explicou, com clareza insofismável, aquele ato estapafúrdio que paralisou a Nação. A morte do presidente John Kennedy virou livro, cinema, pesquisa dos especuladores dos furos jornalísticos dos célebres repórteres, free lancers e focas – anchos por um lugar na galeria dos Pulitzers e Oscars, au le soleil de Cannes ou às luas de noitadas às mesas dos cassinos de Las Vegas. E assim, quem matou o jovem presidente dos Estados Unidos da América? Quem mandou? Quem lucrou?... O nosso presidente Castelo Branco, então ex, morreu a bordo de um teco-teco explodido sob o sol caliente do Ceará do Sobral, às serras do Baturité – falam que o jatinho da Força Aérea brasileira, em teste, passara bem juntinho do avião em que ele estava, provocando uma desestabilização dos flaps e lemes. Como foi mesmo? Tal o Chicó de Ariano da Compadecida de todos os autos – Só sei que foi assim. Seu substituto, o general Costa e Silva, teve um “piticó” – que noticiaram como derrame, de repente – todavia, por conseguinte, forçou um triunvirato de generais cascas grossas, que resultou no Médici, reforçando uma repressão sem igual no Brasil. E então?... Aí está! Uma boa reflexão para os meus renitentes leitores. E depois vêm os elitistas de plantão, ou não, dar boas-vindas ao combate à fome pregado pelo presidente eleito Lula, de cá, fingidos boêmios das eras de incertezas das inflações, taxações e coisa e tal. A incerteza vem de muito, muito longe. Rivaldo Paiva é diretor geral do Suplemento Cultural.


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Continente #029 - O enigma chinês  

A nova China em face da hegemonia dos EUA num mundo de incertezas.

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A nova China em face da hegemonia dos EUA num mundo de incertezas.

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