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REDES SOCIAIS OU JORNALISMO: REVELAMOS QUEM INFORMOU MAIS NAS ELEIÇÕES

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Janeiro, fevereiro, março e abril de 2019

Elas em ação

Os desafios da inserção das mulheres no mercado audiovisual brasileiro

Em apuros Saiba como as empresas gerenciam suas crises

O MUNDO DE BEZOS Por que o homem mais rico do mundo decidiu investir no mercado de comunicação – e já lucra com isso


´ CASPER ISSN 2446-4910

FUNDAÇÃO CÁSPER LÍBERO PRESIDENTE Paulo Camarda SUPERINTENDENTE GERAL Sérgio Felipe dos Santos

FACULDADE CÁSPER LÍBERO DIRETOR Carlos Costa REVISTA CÁSPER NÚCLEO EDITORIAL DE REVISTAS COORDENADORA DE ENSINO DE JORNALISMO Helena Jacob EDITOR-CHEFE Eduardo Nunomura EDITORAS Paula Leal Mascaro e Rafaela Bonilla CONSELHO EDITORIAL Helena Jacob, José Eugenio de Oliveira Menezes, Joubert Brito, Marcelo Rodrigues, Patrícia Salvatori, Roberto D’Ugo e Sonia Castino REPORTAGEM Henrique Artuni, Larissa Basilio, Luana Jimenez, Paula Leal Mascaro, Pedro Garcia, Rafaela Bonilla e Thiago Bio COLABORADORES Camila Garcia, Fabio Ciquini, Lorena Alves, Luís Mauro Sá Martino, Michelle Prazeres e Thaís Chaves EDITORA DE ARTE E FOTOGRAFIA Luana Jimenez PROJETO GRÁFICO Giulia Gamba DIAGRAMAÇÃO Henrique Artuni, Larissa Basilio e Luana Jimenez REVISÃO Pedro Garcia e Thiago Bio NÚCLEO EDITORIAL DE REVISTAS Avenida Paulista, 900 – 5º andar 01310-940 – São Paulo – SP (11) 3170-5874/5814 revistacasper@casperlibero.edu.br revistacasper.casperlibero.edu.br

COMO EXPLICAR 2019 Para muitos jovens, inclusive os calouros que agora ingressam em uma nova e inspiradora jornada universitária, as eleições do ano passado representaram os primeiros votos de suas vidas. Pesquisas acadêmicas nas Ciências da Comunicação e Ciência Política já estão sendo feitas em busca de explicações sobre a influência das redes sociais nos resultados das urnas. E ninguém melhor que os mais novos para falar quando o assunto é Facebook, Twitter, Instagram e WhatsApp. A presente edição da revista CÁSPER, publicação que tem como missão discutir os principais temas comunicacionais da atualidade, traz um conjunto de reportagens exploratórias sobre a política e também sobre o ambiente digital. Os repórteres Larissa Basilio e Pedro Garcia, por exemplo, foram desafiados a descobrir como foi possível se informar com ou sem redes sociais durante a campanha eleitoral. As intrigantes descobertas dessa experiência da dupla podem ser conferidas a partir da página 10. À primeira vista, a reportagem de capa sobre o dono da Amazon poderia soar distante das nossas preocupações editoriais. Mas as movimentações de Jeff Bezos, o homem mais rico do planeta, com empresas de comunicação devem ser observadas de perto e por todos nós. O que as gigantes tecnológicas mais desejam é ter acesso a nossos dados e informações pessoais e, a partir deles, gerar novos negócios. O segmento do audiovisual, com plataformas como Netflix, HBO e Amazon Prime, já faz isso muito bem, captando a atenção de milhões de pessoas diariamente e lucrando bilhões de dólares. O jornalismo com o Washington Post, comprado por Bezos, começa a adentrar nesse universo e a dica é acompanhar e estudar como a informação está sendo trabalhada por um dos mais tradicionais jornais do mundo, como recomenda a editora Paula Leal Mascaro, que foi fundo na apuração deste perfil. Uma vez finalizada a edição, bastante plural e diversificada, ficamos com a boa impressão de ter lançado algumas luzes no que está por vir. E, para muitos de nós, 2019 é um ano que vai precisar de muitas explicações. Esperamos ter contribuído para o bom debate. Boa leitura!

EDUARDO NUNOMURA

Editor-chefe

CAPA Luana Jimenez. Foto: Divulgação IMPRESSÃO E ACABAMENTO Mundial Gráfica 3

Se não houver um © explicitado, você pode CC • julho janeiro • fevereiro • março •adaptar abril e distribuir os conteúdos maio • junho •copiar, agosto 20172019 BY desta revista, desde que atribua créditos

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SUMÁRIO

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:: POR ONDE ANDA ::

Ex-casperiano vira diretor de planejamento da Agência África e conta como chegou lá

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NAS ELEIÇÕES

A informação circulou melhor na imprensa tradicional ou nas redes sociais?

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POLÍTICA NAS MÍDIAS

Uma análise sobre a força do Whatsapp

:: GIRO PELO MUNDO ::

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Jeff Bezos decola no mercado de comunicação

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janeiro • fevereiro • março • abril 2019

CRISE

Como as empresas gerenciam problemas

Por dentro da lógica da Netflix

Qual teórico da comunicação é você?

REPORTAGEM DE CAPA: POR DENTRO DA AMAZON

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:: BITS & BYTES ::

INFOGRÁFICO

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:: FEITO À MÃO ::

O universo dos games gira 137 bilhões de dólares; Brasil é destaque

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20 MULHERES NO AUDIOVISUAL

A difícil inserção de diretoras e roteiristas brasileiras no setor que permanece predominantemente masculino

30 Espaços coletivos e bacanas para trabalhar COCRIAÇÃO

PROGRAMADORAS

Conheça o trio de mulheres que ajudou o Google a esquadrinhar a campanha presidencial

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26 :: POR CONTA PRÓPRIA ::

Dá para fazer vídeos com baixo orçamento e criatividade

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CASPERIANAS

Kondzilla, rei do funk, abre o jogo

:: NA ESTANTE ::

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62 :: PARA ENTENDER MAIS ::

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PORTFÓLIO

Cristiano Mascaro e José Bassit fotografando na Paulista... e de celular

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POR ONDE ANDA

Do Capão Redondo para Cannes ::PUBLICIDADE:: Rafael Camilo, casperiano, conquista espaço em uma das maiores agências de publicidade do Brasil

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RAFAELA BONILLA

ara cursar Publicidade e Propaganda na Cásper Líbero, Rafael Camilo tinha de matar um leão por dia. Morador do Capão Redondo, cruzava a cidade para estudar à noite. Sempre chegava tarde em casa. “Era um exercício de paciência”, lembra. Mas a recompensa surgiu já no primeiro ano da Cásper, com um estágio no planejamento da Fischer América, como designer de apresentações. Em 2009, conquistou um emprego de assistente em planejamento na Giovanni Draft FCB. Quatro anos depois, foi para o Festival de Cannes para receber o prêmio Young Lion de Planejamento, para jovens de até 30 anos, por seu trabalho como supervisor da F/Nazca Saatchi & Saatchi. Lá, atendia clientes como Google, Trident e revista Glamour. Em seguida, foi para a Leo Burnett Taylor Made para trabalhar com a Fiat. Voltou para F/Nazca em 2016 como diretor de Planejamento, área que estuda e identifica tendências do consumiGIOVANNI dor. Logo recebeu um convite para DRAFT o mesmo cargo na equipe África FCB para cuidar da conta principal, do Itaú. Preocupado em trazer para a agência um olhar mais diverso, humano e rico, ele fundou em 2018 um comitê de diversiF-NAZCA dade. “Minha trajetória é muito privilegiada, mas não quero que minha história seja única”, diz. (Rafaela LEO Bonilla) BURNETT

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Logo em seu primeiro estágio, Camilo se encantou pela área de planejamento. “É o maestro dentro da agência”, explica janeiro • fevereiro • março • abril 2019

F-NAZCA

ÁFRICA


FEITO À MÃO

por Luana Jimenez

De olho no jogo ::MUNDO GAMER:: Brasil é o maior país da América Latina em número de jogadores de games, segundo estudo da Newzoo de 2018 POR RAFAELA BONILLA

de brasileiros são gamers

DISPOSITIVOS MÓVEIS

CONSOLE

em itens no jogo ou bens virtuais

PC

Jogos para dispositivos móveis vêm crescendo 25,5% por ano

de dólares faturados

mercado de jogos do mundo

(milhões de jogadores)

é a franquia mais assistida

deles jogam eSports

800 600

1,5 bilhão de dólares 75,7 milhões de jogadores

400

de dólares

300

de jogadores 44% da população

3,1 bilhões de dólares 32,8 milhões de jogadores

200 100 80

de dólares

5,6 bilhões de dólares 28,9 milhões de jogadores

60 40

de jogadores de dólares

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de jogadores no mundo

de jogadores 1

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de dólares é o faturamento 40

(bilhões de dólares)


MÍDIA

JORNALISMO OU Para responder a essa questão, dois jornalistas da CÁSPER vivem uma semana totalmente dentro ou fora das redes sociais, com ou sem jornais, na véspera do primeiro turno das eleições Uma dúvida paira no ar: o jornalismo perdeu relevância nas últimas eleições? O eleitor está deixando de ser leitor de notícias para virar um mero consumidor de memes e informações (muitas delas falsas) nas redes sociais? Dois repórteres da CÁSPER decidiram investigar esse assunto sob uma perspectiva diferente. Na semana anterior ao primeiro turno de 2018, cada um abandonou seu hábito de consumo midiático preferido e se informou exclusivamente pela plataforma que não conhecia bem. Larissa Basilio, assumidamente viciada em Twitter, desinstalou os apps de redes sociais e passou a consumir os sites noticiosos. A lista que ela montou tinha veículos como Folha de S.Paulo, G1, Guardian, New York Times, El País Brasil, Liberatión e Le Monde. Pedro Garcia, um usuário acidental do Facebook e Instagram, teve de aprender como tuitar e seguir pessoas nesta rede. Mas, leitor frequente da imprensa, ele inventou um jeito de se adaptar em relação à falta de informações que costumava receber. O relato dessa experiência segue abaixo:

POR LARISSA BASILIO E PEDRO GARCIA SEGUNDA, 1º DE OUTUBRO 14:00 Hora de começar a experiência. Deletei os aplicativos de jornalismo, como El País, Nexo e BBC News, cancelei as newsletters e notificações e comecei a turbinar as redes sociais. Para abrir uma conta no Twitter tive de pedir ajuda à Larissa. Comecei seguindo os perfis dos principais candidatos à Presidência e os dos veículos midiáticos. Me empolguei e segui até a Ana Maria Braga. 14:10 Me tornei um ratinho de laboratório sem redes sociais. Talvez não saiba muito bem lidar com a ausência das redes. Mas todos os aplicativos que tinha viraram pó. Avisei meus amigos e familiares que estaria disponível apenas via e-mail, ligação telefônica ou SMS. Em pouco tempo, já estava mais tranquila. Imaginei a semana como um projeto detox. 15:30 Está difícil se acostumar com o feed do Twitter. São poucas imagens e muita informação textual descone-

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AS REGRAS DO JOGO

HENRIQUE ARTUNI

REDES SOCIAIS? 1. O participante com acesso exclusivo a notícias deverá excluir do seu celular todos os aplicativos de redes sociais; 2. O participante responsável por não utilizar rede social deverá informar aos amigos, parentes e conhecidos que a comunicação durante a semana da experiência será feita apenas via ligação, e-mail ou envio de SMS; 3. Caso algum link de notícia ou reportagem apareça no feed do participante com acesso exclusivo às redes sociais não poderá ser lido; 4. O participante sem acesso aos aplicativos de notícias deve cancelar todas as notificações de veículos jornalísticos, assim como as newsletters e também os aplicativos de notícias no celular; 5. O participante com acesso exclusivo às redes sociais não pode assistir telejornais ou ouvir podcasts e rádios jornalísticas.

xa. É engraçado e meio confuso. Os desfiles da Semana de Moda de Paris acontecem nesta semana. Queria tanto poder acompanhar o noticiário de moda... 19:10 Todos estão comentando algo sobre o (Antonio) Palocci. Mas pelas redes não consegui entender o que aconteceu. Só sei que ele soltou algumas informações. O noticiário, como no G1, dizia que seria divulgada uma lista de nomes da delação de Palocci, e o nome de Lula estaria nela. 20:25 Em uma das aulas na Cásper, o tema era A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord. E que ironia, a abordagem tratava do assunto nas redes sociais. 20:40 Deus abençoe o Liberátion. Já que não tenho redes sociais, estou lendo um texto sobre a imigração. Me abri para outros veículos (e outras línguas!). Com as redes, talvez estaria vendo algum stories ou post do Instagram.

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REPRODUÇÃO

As eleições foram marcadas por um clima de polarização e manifestações de ódio entre os eleitores

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QUARTA, 3 DE OUTUBRO 09:35 Saiu uma declaração no perfil do Ciro Gomes comentando que as manifestações do #EleNão foram um erro. Muita gente comentou isso nas redes sociais, inclusive apoiadores dele.

11:50 Acordei mais cedo, com várias notificações de jornais. G1, Folha, BBC Mundo, Le Monde, Libération, NY Times. Estou em um relacionamento sério com as notícias. Enquanto escrevia uma matéria, meus únicos momentos de distração envolviam o aplicativo da Folha e do El País. 14:20 Uma amiga me contou uma história de que a Lindsay Lohan saiu gritando em árabe com crianças falando para elas fugirem do tráfico humano. Não posso nem entrar em sites de fofoca para confirmar isso. Que raiva. 15:30 Conversando com o Pedro, descobri que sei coisas sobre o Prêmio Nobel que ele não sabe. Aliás, sei mais do que ele sobre muitas coisas. Esquisito. Me sinto muito informada. Apelei até para os podcasts e vídeos de veículos de comunicação. 18:50 Estou resolvendo um trabalho com meu grupo de amigas, tive que mandar SMS para uma delas para marcarmos um ponto de encontro. Bateu uma sensação de impotência e, para meu amigo, eu era tão comunicativa quanto uma vovozinha. Anotei tudo o que discutimos num bloquinho, e não no celular como de costume. REPRODUÇÃO

TERÇA, 2 DE OUTUBRO 12:45 Estou no transporte público, indo até a Cásper. Geralmente, meus olhos estariam no Twitter e no Instagram. É a primeira vez que sinto falta das redes sociais. Parece que falta algo para complementar o caminho. Em contrapartida, li algumas manchetes da Folha de S.Paulo sobre as eleições e escutei o áudio de uma entrevista que fiz com uma atenção reforçada. Sem a vida virtual, estou mais focada. 13:20 Substitui os horários em que costumava consumir jornalismo por entretenimento. Pela manhã, fiquei nas redes sociais; no almoço assisti a uma série em vez do noticiário. A minha Netflix está mais em dia do que nunca. No metrô, parei de ouvir podcasts que falam de jornalismo e estou só com os de amenidades. De noite, mais Netflix e uma passada nas timelines. 20:25 Minhas professoras voltaram a comentar do Palocci e ainda não sei bem o que rolou. 21:40 Estou escrevendo uma reportagem sobre educação popular para um trabalho da Faculdade e pre-

ciso achar alguns dados gerais. É bem mais complicado encontrar esse tipo de informação sem entrar em sites noticiosos. Recorri ao IBGE e ao Ministério de Educação. Também avisei ao meu grupo para me ajudar nessa tarefa de clipagem de notícias. 23:20 Como era esperado, não fazia a menor ideia do que as pessoas estavam comentando sobre alguns acontecimentos políticos nas redes sociais. Me senti meio perdida. Enquanto esperava meu pai na estação do metrô, comecei a sentir falta do WhatsApp e do Twitter. Hoje conversei com minha prima pelo SMS, tirando as teias de aranha e a poeira desse recurso que não usava com frequência desde 2013. Ela estranhou. Também uso as mensagens para falar com meu pai e, quando é mais urgente, apelo para as ligações. Viva 2006! Meu foco realmente melhorou, apesar do pouco tempo sem as redes. 23:40 Cheguei em casa louca para ver o debate de governadores de São Paulo. Mas todas as piadinhas ou sacadas que pensava ficavam limitadas à minha cabeça ou, no máximo, direcionadas ao meu pai que via o debate comigo. Uma notificação de política surge no meu celular. Abri com a mesma gana de quem espera uma resposta de um crush. Era a pesquisa Datafolha. Uma coisa que causa certo incômodo é a dificuldade em me comunicar com meu namorado. É estranho não conversar com ele ou com amigos em tempo real. Estamos tentando utilizar o Hangout, mas acho pouco eficaz. Cheguei em casa e fui assistir ao programa MasterChef, na TV Bandeirantes. Acompanhei o debate de governadores pelos tuítes de quem estava comentando. Nada muito relevante.

Na semana das eleições, o Facebook lançou uma ferramenta de vídeos em formato stories com informações sobre os candidatos


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22:15 As fake news estão rolando soltas no WhatsApp e Facebook, nos grupos dos apoiadores dos candidatos. Mas tenho bem mais facilidade de encontrá-las entre os eleitores do Jair Bolsonaro. São coisas como “Haddad vai legalizar a pedofilia” e “organizações americanas confirmam que o PT é uma organização criminosa”. Que saudade daquela fake news de que o mundo iria acabar em 2012. QUINTA, 4 DE OUTUBRO 12:15 Parei um tempo para reparar nas correntes de WhatsApp e nos grupos de Facebook. Logo cedo recebi uma mensagem com uma lista com empresas que apoiam o Bolsonaro e era para boicotar as marcas. Também me enviaram correntes falando bem do Ciro Gomes, mas de um jeito bem debochado e cheio de emojis. Nos grupos do Facebook rolam comentários básicos sobre os candidatos e campanhas para subir hashtags. 13:15 Dá um apertinho no peito saber que estou completamente perdida em relação ao pensamento das pessoas nas redes sociais. É definitivamente estranho. Sinto que sei muito sobre tudo, mas não como isso afeta aos meus amigos e pessoas ao redor. 20:35 O Facebook lançou vídeos em formatos de stories com os candidatos à Presidência, ao governo estadual e ao Senado. É como se fosse um horário político mais informal. Não tem nada de novo para quem já conhecia as propostas, mas pareceu uma iniciativa bacana. 22:00 Saí mais cedo da Cásper, então acompanhei o debate entre presidenciáveis na TV Globo desde o início. Me senti plena. Diferenteme do debate para governador, no qual me senti meio irritada por não poder comentar nas redes sociais, nesse fiquei mais tranquila e mais atenta também. 23:15 Cheguei em casa e minha mãe estava assistindo ao debate eleitoral. Fiquei com vontade de assistir também, já que seria o último. Fui assistir a um filme na Netflix.

Empregos, segurança e educação foram temas do debate para governador

SEXTA, 5 DE OUTUBRO 10:30 No Twitter e no Facebook, muitas pessoas elogiavam a fala de Guilherme Boulos condenando a ditadura militar. E muitos diziam que queriam votar nele, mas não iam de verdade. Apareceu também no meu feed um post sobre o primeiro beijo gay na Malhação, com o vídeo da cena. Nas redes sociais, vi algumas pessoas felizes e outras revoltadas. 14:00 Fiz um amigo baixar o Hangout. Fiquei muito feliz. 15:00 Descobri que o beijo gay na Malhação tinha acontecido na quarta-feira. A quantidade de comentários homofóbicos era maior no Youtube do que no Facebook.

“Me sinto sozinha no mundo. Não saber o que as pessoas pensam me deixa mais tensa com as eleições”

SÁBADO, 6 DE OUTUBRO 09:20 Estou indo para minha aula de francês e não sei nada sobre o que estão falando nos grupos de WhatsApp. Mas acordei com medo, afinal, é véspera do primeiro turno. Ainda assim sigo na boa sem as redes sociais. 11:45 Acordei com muita ressaca e fui olhar as redes sociais. Só tinha política, o que é compreensível. Mas confesso que queria uns memes despretensiosos para poder me distrair e esquecer a dor de cabeça e enjoo. 14:40 Estou em casa com meus pais e meu namorado. Conversei pouco com outras pessoas da família, mas liguei para minha tia. Me sinto sozinha no mundo. Não saber o que as pessoas pensam me deixa mais tensa com as eleições. DOMINGO, 7 DE OUTUBRO 09:00 Estou um pouco tenso sobre como vou saber o que está acontecendo só com as redes sociais. 10:00 Já acordei feliz (e tensa também!) porque é dia de eleição. Os aplicativos já estavam notificando quais políticos tinham votado. Nada muito relevante, apenas coisas como “trocaram X urnas”. Mas sigo firme e forte colada no aplicativo da Folha de S.Paulo. 11:45 Os filhos do Bolsonaro, Eduardo e Flavio, tuitaram sobre um

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REPRODUÇÃO

Os memes sintetizaram com humor momentos das eleições, divertindo usuários na internet

vídeo afirmando que a urna se autocompleta. Muitos eleitores do candidato estão comentando no Twitter e no Facebook também. 12:30 Estou na casa do meu namorado acompanhando as eleições pela Globo News. As pessoas da família dele comentavam sobre correntes de WhatsApp. Estou perdida. 18:05 O Estado do Acre ainda está votando, e as apurações das urnas não começaram. Começam a chegar no WhatsApp muitas fotos que mesários tiraram sobre os votos nas urnas. Não dá para saber o que está acontecendo. A única coisa é que, na maioria dos Estados, Bolsonaro está em primeiro. 19:10 Chama na apuração! Estou acompanhando, ao vivo, a Band News, além de estar atualizando o site da Folha loucamente. O jornal Nexo liberou seus conteúdos sobre política para todos, então também estou olhando. 20:40 Muitos veículos compartilham a apuração das urnas constantemente no Twitter, tanto nos perfis da mídia independente quanto nos da tradicional. Achei que estaria me-

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nos informado e mais ansioso nessa hora, mas funciona acompanhar tudo em tempo real. Como são basicamente dados, não sinto falta de mais nada além do que está no feed. Troquei alguns e-mails com o Pedro para falarmos sobre a apuração. Foi esquisito, mas importante. Não sei o que meus amigos estão pensando sobre as eleições, se estão tristes, como estão reagindo com os resultados. 23:00 No Facebook, todos estão colocando filtros sobre seus posicionamentos políticos. SEGUNDA, 8 DE OUTUBRO 09:00 Há muitas notificações no meu celular. A cobertura da eleição rende muito conteúdo e análise jornalística. O que mais me surpreendeu é a repercussão dos resultados e a projeção para o segundo turno. Estou ansiosa pra ver o que acontece nas redes, falta pouco para o fim. 11:30 Vi uma enxurrada de gente mudando as fotos de perfis com filtros para Bolsonaro ou Haddad. Na minha bolha, mil vezes contra o candidato do PSL.

14:00 Estou aliviado que a experiência acabou. É engraçado voltar a saber do que aconteceu por notificações e não ter que procurar no Twitter. Aliás, acho que Twitter nunca mais. Vou ler tudo o que deixei salvo no Facebook. Nas redes, tudo era divulgado muito rápido e atingia um número considerável de pessoas. Fiquei com a sensação de estar informado, mas não em profundidade. Acabou, é tetra! Ao reconectar com as redes sociais, recebi muitas notificações. Socorro! Voltei a me sentir um pouco mais completa, mas com medo do que comentavam sobre a vitória de Bolsonaro. Agora, após a experiência, tentarei ler as conversas dos grupos e ver as notificações. Acho que não conseguirei acompanhar. Nos sites e aplicativos jornalísticos, li notícias em profundidade, pluralidade de fontes e as vozes de especialistas. Mas senti que faltava algo. Por mais que vasculhasse os aplicativos e veículos em busca de informação, não podia compartilhar ou saber o que a “opinião pública” estava dizendo.@


ASSESSORIA MANUELA D’ÁVILA; BANKSY; DAVID B. YOUNG; DIVULGAÇÃO; JOÃO HENRIQUE/JOVEM PAN; MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL; MICHEL VADON; PETE SOUZA/WHITE HOUSE; REPRODUÇÃO; ROBERTO STUCKERT FILHO/PR; ROQUE DE SÁ/AGÊNCIA SENADO; SENADO FEDERAL; TÂNIA RÊGO/AGENCIA BRASIL

REDES SOCIAIS

DEMOCRACIA EM RISCO? A eleição de Jair Bolsonaro revela a perda da influência da TV em paralelo ao crescimento das redes sociais sobre a opinião pública, projetando um futuro desconhecido

POR RAFAELA BONILLA

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O que acontece com um país quando as relações sociais perdem seus mediadores tradicionais, como a imprensa, e prevalece o discurso contra as instituições? O Brasil está prestes a descobrir essa realidade com a ascensão de Jair Bolsonaro. Entre o primeiro e o segundo turnos das eleições, o ex-casperiano Leandro Beguoci, diretor da Nova Escola e fellow do curso de Empreendedorismo em Jornalismo, do Centro Tow-Knight, em Nova York, postou no Facebook “textões” para tratar da estratégia do líder popular de direita. Mais que isso, ele entrou em grupos extremistas conservadores para compreender o fenômeno em curso. A seguir, uma entrevista em que Beguoci desenvolve melhor esses argumentos. TOMAS ARTUZZI/NOVA ESCOLA

Para Leandro Beguoci, será um problema se a sociedade parar de ver valor na liberdade de expressão

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Nas últimas eleições, pequenos partidos, com pouco tempo de televisão e menos verba de campanha, elegeram mais candidatos do que grandes partidos. Bolsonaro e o Partido Social Liberal (PSL) são o melhor exemplo. Como explicar o que aconteceu? Leandro Beguoci: Em 2018, a eleição foi digital. Foi a primeira vez que ficou provado que é possível ganhar a Presidência da República sem TV, que era uma premissa que orientava todo o sistema partidário. Essa campanha mostrou, que se tiver uma estratégia de internet bem montada, é possível ter um resultado eleitoral gigantesco. A primeira eleição em que se começou a falar de internet foi em 2008, quando Obama usou o YouTube. A eleição do Jair Bolsonaro, do PSL, não se explica por um fator só. Primeiro, é preciso reconhecer que o Brasil está passando por uma série de problemas. Bolsonaro foi bem sucedido porque conseguiu se mostrar como a solução mais viável. E também convenceu a população que grande parte desses problemas era consequencia do PT e aglutinou um sentimento ali. Ele juntou os golpes profundamente antipetistas, os votos de quem desejava mudança e os de gente muito preconceituosa. Na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e na decisão do Brexit, as redes sociais tiveram grande influência. Quais foram as diferenças da utilização delas na forma que Bolsonaro se elegeu? LB: Todos eles têm uma insatisfação generalizada contra as elites políticas e econômicas e uma sensação de que as pessoas comuns não são ouvidas. É um sentimento que hoje é capitalizado pela direita populista, como comenta Stevie Bannon, assessor do Trump. Isso só conseguiu ser feito utilizando a comunicação direta, as redes sociais. No caso da Inglaterra e dos Estados Unidos, foi tudo feito com a segmentação via Facebook, e no Brasil, via WhatsApp. O WhatsApp é usado por 125 milhões de pessoas no


Brasil, 60% da população brasileira. Se você pensar no raio de alcance, é muita gente que pode ser impactada. A produção e a disseminação de notícias falsas e conteúdo duvidoso foram evidentes na eleição de Trump e Brexit. E, de certa maneira, podiam ser rastreáveis. Já no Brasil, a utilização em massa do WhatsApp faz com que as mensagens sejam mais difíceis de serem rastreadas. Isso pode ser um risco para a democracia? LB: É um risco. O papel do jornalista em uma sociedade democrática ocidental é mediar os debates públicos e fortalecer a sociedade civil. É pressuposto o debate público e aberto. No final dos anos 1990, quando a internet surgiu, houve uma forte crítica ao papel da mídia como mediadora. E, ao mesmo tempo, as pessoas foram migrando dos veículos de comunicação tradicional para as plataformas digitais. Com isso, a confiança também migrou. As pessoas passaram a acreditar naquilo que veem no Facebook, no Twitter ou no Whats. Porque aquilo é transmitido por pessoas iguais a ela. Pouca gente nesses países conhece um jornalista, e este passou a ser visto como parte das elites que contribui para o mal estar geral. A grande questão do Whats é que ele não é público. Então não é um debate que dá para ver claramente o que está acontecendo. Hoje é impossível regular essa plataforma. Tenta falar para a sua tia que ela não pode enviar uma mensagem para 50 pessoas. O Whats é companhia para muita gente, é negócio para muita gente, não é só uma esfera de debate público. As pessoas se preocupam com a democracia de dois em dois anos, mas se importam com os negócios e os amigos todos os dias. Então, se você tratar o Whats como um perigo, não terá ressonância popular, vai criar mais resistência e não vai dar para pensar na solução. Quando a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, re-

velou que Jair Bolsonaro recebeu apoio de empresários para disseminar mensagens via WhatsApp, com uso de caixa dois, houveram duras críticas e as pessoas que votariam nele não acreditaram. Como gerar confiança na sociedade por parte do jornalismo? LB: Um debate público feito indiscriminadamente por todos de qualquer jeito não é um bom caminho. Tem pessoas que estudam para serem mediadoras, no caso jornalistas. Se o jornalismo se contenta apenas em publicar, hoje é insuficiente. Publicar é só começo do trabalho, o resto é conversar e se engajar com as pessoas. Quem vem com raiva não aguenta dois tweets de resposta. Mas o caso da Patrícia foi muito grave. Uma coisa é criticar a imprensa e outra coisa foi o ataque feito contra a Patricia. Foi um atentado muito grande contra a liberdade de expressão e as instituições do jornalismo. Foi um ataque a ela e à Folha. A Folha tem tentado dialogar, e eu conheço a Patrícia e imagino que ela também estaria disposta. Mas a força foi muito grande. Bolsonaro não participou dos debates jornalísticos e realizou toda sua campanha em redes sociais e em grupos fechados. Ele acaba desafiando a legitimidade das eleições? LB: Não, acho que é o direito do candidato fazer a campanha do modo que ele quiser. O que eu acho é que ele coloca uma questão que a gente não está acostumado. O Bolsonaro se elegeu contra as instituições de mediação na sociedade civil. Contra os veículos de comunicação, contra os partidos, contra os movimentos sociais. Se aceitasse ir aos debates, dar as entrevistas, ele não estaria sendo coerente com a história que está contando. Ele é muito incoerente em algumas declarações, mas é muito consistente no método. Se topasse ser mediado pela imprensa, daria um tiro no próprio pé, estaria aceitando regras que não quer se submeter. Entretanto, acho ruim

para a democracia que ele não tenha feito isso. Por que acredito em instituições de mediações. Ele é um perigo para a liberdade de expressão? LB: Depende. O quanto a sociedade está preparada para discutir com um candidato que desafia as instituições que fazem debate? Os Estados Unidos não estão conseguindo fazer isso. Trump dispara uma novidade polêmica por dia, e isso atrapalha as organizações de mediações que ficam perdidas, criando uma cacofonia gigante. Se a sociedade parar de ver valor na liberdade de expressão, isso será um grande problema. Se a longo prazo a confusão midiática for tão grande e a confiança nas instituições sofrer uma erosão gigantesca, aí fica mais fácil traçar leis que restringem a liberdade de expressão. Porque as pessoas param de ver um valor disso, como foi o caso da Venezuela de Hugo Chávez. Ou também se as pessoas passarem a ter medo de se expressar, porque não será necessário ter uma legislação específica para restringir a liberdade de expressão. Qual é o futuro na maneira de fazer eleições e debates? LB: Tem muitos cenários possíveis. Podem ocorrer extremos, desde uma cacofonia imensa, onde a eleição seja toda realizada via WhatsApp, até uma procura das pessoas pelas instituições de mediação. Bolsonaro foi hábil em não mostrar um futuro para as pessoas, porque isso implica em um compromisso. Hoje temos que ser muito mais analíticos do que entrar na agenda que Bolsonaro propõe. Temos que entendê-lo para pensarmos como reagir. Se formos reagir a tudo, ninguém aguenta. Estamos caminhando onde a discussão está dividida em realidades subjetivas que sobrepõem a realidade política comum. E isso é grave. Cada um tem sua verdade, e não está disposto a ouvir o outro. Então por que ter debate? @

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INTERNET

<HTML> É DAS MINAS Um trio de mulheres foi responsável pela criação do site Na Busca do Candidato, iniciativa do Google para desvendar as eleições brasileiras de 2018 POR RAFAELA BONILLA

CAROL CAVALEIRO

REPRODUÇÃO

MILHARES DE MULHERES SAÍRAM ÀS RUAS em todo o País para dizer #EleNão, um movimento que nasceu primeiro nas redes sociais. O grupo do Facebook Mulheres contra Bolsonaro, contendo mais de dois milhões de membros repercutiu tanto que acabou sendo invadido por apoiadores do então presidenciável. Para muitos, aquele 29 de setembro, uma semana antes do primeiro turno, tinha tudo para reverter a tendência nas pesquisas eleitorais, que indicavam vitória do candidato que elas abominavam. Mas três mulheres do Rio de Janeiro, sentadas diante de seus computadores e trabalhando com uma profusão de dados e números, já pressentiam que um outro cenário estava por vir. A convite do Google Brasil, a designer Carol Cavaleiro e as programadoras Thais Viana e Tainá Simões desenvolveram o site Na Busca do Candidato, que procurou desvendar as eleições brasileiras de 2018 a partir das pesquisas feitas no buscador. Qualquer um que consultasse, por curiosidade, o Google Trends teria visto que, de cada dez consultas dos usuários, sete eram relacionadas a “Jair Bolsonaro” e três a “Fer-

A figura acima reproduz o site Na Busca do Candidato, cuja arquitetura é apresentada ao lado

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PELO SITE NA BUSCA PELO CANDIDATO, que faz parte de um programa do Google para combater as fake news e promover melhorias no mercado jornalístico para o ambiente digital, descobre-se que as pesquisas relacionadas a Bolsonaro eram de palavras-chave como “Jornal Nacional”, “Presidente” ou “Facebook”. Inofensivas, portanto. Para Haddad (PT), o resultado era outro: “Quem é”, “Vira Réu” e “Bolsonaro”. No primeiro turno, Ciro Gomes surgia em pesquisas contrapostas a “corrupção”, “Geraldo Alckmin” e, novamente, “Bolsonaro”. No segundo turno, orbitavam em torno de Bolsonaro apenas os nomes de “Lula” e “Ciro Gomes”, enquanto de Haddad apareciam esses mesmos políticos e os de outros oito nomes, incluindo “Temer”, “Katia Abreu” e “Álvaro Dias”. Uma interpretação possível é que o presidenciável do PSL conseguiu fugir da esfera política, identificando-se como o antilulismo, enquanto o do PT era atrelado ao universo político-eleitoral.

TIAGO DIAS

MARIANA BITTEN

MARCELO CARNAVAL

nando Haddad”. Mas as três profissionais tiveram acesso privilegiado à base de dados da gigante tecnológica e puderam, assim, ir mais a fundo no mapeamento de tendências. Entre o primeiro e o segundo turnos, elas tiveram quase certeza da vitória de Bolsonaro (PSL). “Estávamos prontas para colocar esse resultado no ar”, lembra Tainá. “Era um resultado bem esperado pela gente”, completa Thais. O que as pessoas pesquisam na internet serve de indicador de tendências, mas não é isso o que define o voto. Um fato de última hora, por exemplo, poderia mudar o resultado das urnas. Mas como Bolsonaro, candidato à Presidência em 2018, se recusou a participar dos debates e optou por uma campanha ostensiva nas redes sociais, Carol arrisca uma outra explicação para a ascensão do líder de direita. “O que a gente julgava antes que era determinante para a vitória de um candidato, hoje não é mais. Essa eleição provou isso”, diz. O Google Trends trabalha com uma amostra aleatória de buscas e as classifica em uma escala de 0 a 100. Quanto maior esse número, mais interesse pelo candidato. Enxergar além do óbvio é o que fez o trabalho desse trio ser extraordinário.

Thais Viana, Carol Cavaleiro e Tainá Simões integram a inédita equipe feminina de programação para o projeto do Google

Com um candidato que se elegeu utilizando falas misóginas e ofensivas para grupos minoritários, é preocupante notar que as principais buscas no Google sobre as candidatas mulheres, como a vice de Haddad, Manuela D’Ávila, e a candidata a presidente Marina Silva (Rede), eram voltadas a assuntos como casamento e vazamento de nudes. Houve um grande número de buscas por “Manu nua”. Já as dos homens eram voltadas a questões de envolvimento em casos de corrupção. “A curiosidade e as pesquisas do brasileiro tinham muito a ver com o machismo”, relembra Thais. O convite de Marco Túlio Pires, líder do Google News Lab Brasil, às três mulheres veio em boa hora, porque traz à tona uma outra questão relevante nos dias de hoje. O setor de tecnologia é um dos mais desiguais em questão de gênero. Segundo o Relatório da Unesco de 2018, apenas 17% dos programadores no Brasil são mulheres. Não é de se estranhar que é a primeira vez que Carol, Thais e Tainá trabalham em uma equipe completamente feminina. “Isso é uma novidade que não vai se repetir tão cedo”, comenta a programadora Thais. Ela é presidente do Pyladies Brasil, um grupo que incentiva a participação das mulheres na área tecnológica. Segundo ela, as meninas a partir dos 12 anos, diferentemente dos meninos, são desestimuladas e afastadas da programação. O que acontecia no passado com o “futebol é de menino” vem se repetindo no ambiente digital. Tainá é formada no curso de Design e sentiu diferença quando iniciou com programação no ano de 2012. Ela achava o ambiente intimidador e só depois de seis anos trabalhando na área é que contou com a companhia de outra programadora. “Rola uma desconfiança sobre seu potencial”, explica ela. “Não é tão simples chegar em uma reunião onde você é a figura que está levando a voz da tecnologia e é mulher e negra”. Hoje as três estão em posição de liderança nas suas respectivas empresas e em seus projetos e comentam que desta maneira fica mais fácil lutar pelo movimento. “Desistir não é uma palavra no nosso vocabulário”, alerta Thais. @

CÁSPER

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AUDIOVISUAL

ELAS GRITAM

FELIPE CARDOSO/METRÓPOLES

AÇÃO

Pela primeira vez desde o início do Festival de Brasília de Cinema, a participação das mulheres supera o de homens na mostra

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A participação da mulher no setor audiovisual ainda não reflete a formação da sociedade brasileira, em que mais da metade da população é feminina. Movimentos sociais e editais afirmativos pretendem mudar essa realidade POR PAULA LEAL MASCARO

PENSE NO ÚLTIMO FILME que assistiu no cinema. Tente lembrar das personagens femininas e faça as seguintes perguntas: ao longo da história é possível identificar duas personagens que tenham nome? Em ao menos uma cena elas conversam entre si? Esse papo não tinha a ver com homem? Refaça as questões acima pensando no grande filme de sua vida. As chances de não se conseguir cumprir os três requisitos juntos, não importa a obra cinematográfica, são enormes. O teste foi criado em 1987 pela cartunista norte-americana Allison Bechdel e nasceu como uma tirinha de humor sem maiores pretensões. A ideia era ironizar a forma como as mulheres eram representadas nos filmes de Hollywood. Mais de 30 anos se passaram e o teste de Bechdel, como ficou conhecido, continua chocando pela forma como escancara o papel secundário que as mulheres ocupam no cinema. “O público não aguenta mais mulher sendo escadinha para homem”, desabafa a diretora Beatriz Seigner, que lançou no ano passado Los Silencios no Festival de Cannes, na França. Não é de hoje que o mundo audiovisual orbita em torno do planeta homem. Desde 1995, oito em cada dez longa-metragens brasileiros foram dirigidos por eles. Certa vez, a diretora Dandara Ferreira foi ignorada durante uma reunião de negócios. E por uma mulher. Em vez de se dirigir a ela, uma produtora passou a tratar os assuntos do projeto diretamente com o fotógrafo. Incomodado com a situação, ele chamou a atenção da interlocutora. “A diretora é ela”, apontou. Mesmo tendo no currículo a série documental O Nome dela é Gal, sobre a cantora Gal Costa, na qual ela foi idealizadora e diretora, Dandara afirma que situações preconceituosas como a que vivenciou sejam mais comuns do que se imagina. “Já aconteceu de mexerem no meu material na ilha de edição antes de mim. E se você reclama dizem que você está nervosa. É questão de respeito”, diz. Foi em 1930 que, pela primeira vez, uma mulher dirigiu um longa

CÁSPER

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IVAN ABUJAMRA

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Dandara Ferreira, diretora da série documental O nome dela é Gal, sobre a cantora Gal Costa e exibida no canal HBO, conta que já sofreu preconceito por ser mulher no mercado audiovisual janeiro • fevereiro • março • abril 2019


no cinema brasileiro, O Mistério do Dominó Preto, de Cléo Verberena. Naquela época, a mulher ainda era vista como a “rainha do lar”. Ela não tinha direito ao voto e o homem podia pedir anulação do casamento caso descobrisse que a companheira não havia se casado virgem. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou. Depois de lutas por reconhecimento de direitos, revolução sexual e sutiãs queimados em praça pública, as mulheres se inseriram no mercado de trabalho e conquistaram espaços em meios que eram dominados por homens. O mercado audiovisual foi um deles. Muitas começaram como produtoras dos filmes dos maridos, que eram diretores. Mas logo entenderam que era possível exercer protagonismo e dirigir seus próprios longas com liberdade e autonomia. Fazia sentido, uma vez que o setor estava em franca ascensão e abria diversas oportunidades para todos os gêneros. Desde que a política de cotas pela Lei 12.485/11 foi criada, obrigando a programação da TV a veicular maior oferta de conteúdo brasileiro, o setor cresce em ritmo chinês, cerca de 10% ao ano. Mas a composição das equipes em um set de filmagem ainda está longe de refletir a realidade da sociedade brasileira, em que mais da metade da população é de mulheres. “O ambiente audiovisual ainda é muito masculino. Uma das vantagens de ter uma mulher como diretora é que ela acaba contratando outras mulheres na produção, e isso contribui para a diversidade”, diz Beatriz Seigner. Se a representatividade feminina ainda é baixa no setor e a ótica masculina continua imperando nas produções brasileiras, qual é o impacto da participação da mulher no mercado audiovisual? Para a diretora e roteirista Anna Lucchese, que dirigiu o documentário Identidade Cotidiana, há um olhar individual, que é sem-

pre maior que tudo e não depende de gênero. “Mas eu, como mulher, vou trazer minhas peculiaridades influenciadas por coisas que cercam o universo feminino”. A representação da nudez, por exemplo, geralmente é retratada com corpos femininos. Mas haverá jeitos diferentes de expô-la, se for um diretor ou uma diretora. “Mesmo que uma mulher utilize esse recurso, o sentido da narrativa é outro, é mais no sentido de libertação, de estar enfrentando algo que para ela é difícil”, afirma.

namorado Lindemberg Alves, de 21 anos, e morta cinco dias depois. A diretora critica a maneira como a imprensa, muitas vezes sensacionalista, naturaliza a violência contra a mulher e trata os crimes de feminicídio de forma muito romantizada, como se fossem cometidos por amor. Não basta às mulheres do audiovisual terem uma boa ideia, quebrar paradigmas, conquistar credibilidade no mercado, trabalhar duro e repelir o assédio. Para planejar e colocar de pé um longa é preciso grana e dependendo do projeto, muita grana. E, nesse recorte, as mulheres também levam a pior. Meu Passado Me Condena, filme com maior bilheteria no país dirigido por uma mulher, foi filmado dentro de um cruzeiro entre o Brasil e a Itália e custou 3,6 milhões de reais, um valor modesto se comparado, por exemplo, a Tropa de Elite (11 milhões de reais). Parte dessa desigualdade se deve à lógica do setor. O Fundo Setorial Audiovisual (FSA) é uma alternativa para profissionais que buscam financiamento para os projetos. Mas os critérios de acesso às verbas são muitas vezes excludentes e não estimulam a diversidade nas produções. Roberto Lima, ex-diretor da Agência Nacional do Cinema (Ancine), acredita que os critérios de acesso ao FSA impactam na baixa participação da mulher no mercado. “É uma condição histórica que precisa ser combatida”, diz. No clima da série Black Mirror, no episódio Queda Livre, em que as pessoas avaliam e são avaliadas o tempo todo por suas atitudes e as melhores notas dão direito a benefícios, o FSA divulgou uma lista de diretores que receberam uma pontuação de 0 a 10, de acordo com uma série de critérios. Estar bem posicionado nessa lista significa que os projetos desses profissionais terão mais chances de receber investimentos do fundo. Cri-

“Já aconteceu de mexerem no meu material na ilha de edição antes de mim. E se você reclama dizem que você está nervosa. É questão de respeito”

DANDARA FERREIRA Há oito anos no mercado e diretora do documentário Quem matou Eloá?, Lívia Perez afirma que a diversidade é importante para agregar outras perspectivas de vida. “Meus filmes trazem meu olhar, da mulher que eu sou, e acho importante marcar esse ponto de vista, que é do outro. Porque a mulher ainda é o outro”, reflete. Mas ressalta que é preciso ter cuidado para não estereotipar e segmentar os gêneros, sob pena de “essencializar o olhar feminino”. Em Quem matou Eloá?, de 2008, Lívia discute a cobertura da mídia no crime praticado contra a jovem de 15 anos, Eloá Pimentel, feita refém pelo

CÁSPER

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e acaba sendo veiculado na TV. E se vai para a TV, não tem contagem de resultado comercial para Ancine”, explica Lívia Perez. Outro agravante é que as obras de curta-metragem também não pontuam. Logo, os gêneros em que as mulheres exercem maior protagonismo são os menos levados em conta pelos critérios do FSA.

MAFÊ LUZIVOTTO

DIVULGAÇÃO

Anna Lucchese fez especialização em direção cinematográfica em Barcelona em 2007. Keyci Martins mora em São Luis (MA) e assina a direção do curta Pelas Entranhas, em fase de produção

ticada por profissionais do mercado, a iniciativa gerou polêmica. “Acaba sendo uma avaliação subjetiva”, afirma Dandara. Lívia acredita que a lista é equivocada e que grandes cineastas receberam notas baixas. Um dos parâmetros utilizados pelo fundo é a avaliação comercial das obras. E é aí que reside um dos entraves que dificultam o acesso das mulheres às verbas do fundo setorial. Segundo levantamento da CÁSPER, a participação feminina no mercado se concentra em gêneros como curta-metragens e documentários, com custos mais baixos de produção. Para se ter uma ideia, do total de documentários da pesquisa divulgada pela Ancine de filmes brasileiros lançados entre 1995 e 2018, cerca de 20% são dirigidos por mulheres. Já no gênero ficção, esse número cai para 13% do total de títulos. Para efeitos de pontuação, a Ancine desconsidera a contagem de público em festivais, mostras alternativas e cineclubes. Mas os gêneros com maior participação feminina costumam circular em espaços alternativos. “Documentário não entra muito no circuito comercial por conta do gargalo no sistema de distribuição que temos no Brasil

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EM 8 DE SETEMBRO DE 2018, as mulheres do audiovisual deram mais um grito a favor da igualdade de gêneros. Nesse dia, elas aproveitaram o Festival Mato-grossense Tudo Sobre Mulheres, que ocorreu na Chapada dos Guimarães, para divulgar uma carta aberta em prol de ações para causas femininas. No documento, as mulheres se posicionaram contra medidas adotadas pelo setor que “contribuem para a manutenção de um sistema excludente, que não representa a diversidade cultural, ambiental, econômica e ecológica do Brasil continental”. Para a roteirista Keyci Martins, uma das signatárias, a carta torna público o desejo por um mercado mais equilibrado e sensível às demandas das mulheres. “Há um descompasso entre a mulher moderna e a representada na tela. E isso é algo inclusive que nós, mulheres, ainda estamos aprendendo. Passamos tanto tempo ouvindo e vendo o que os outros pensam a nosso respeito que até desconstruir isso dá trabalho”, diz a profissional. A inclusão feminina no cinema já é uma causa global. No Festival de Cannes de 2018, 82 mulheres protestaram a favor da igualdade salarial. Aproveitaram o gancho e incluíram na pauta a queixa de que em 71 anos de festival, só 82 mulheres (o número de participantes foi proposital) foram indicadas em comparação às mais de 1.600 obras dirigidas por homens presentes nas listas anuais de seleção. O júri foi composto predominantemente por mulheres e a bandeira contra o assédio também foi levantada. A iniciativa foi organizada pelo grupo francês 50/50 para 2020, que tem a missão de buscar paridade racial e entre gêneros no cinema, em parceria com a Fundação Time’s Up, criada após os casos de assédio do produtor norte-americano Harvey Weinstein. Aliás, os escândalos envolvendo o premiado produtor ensejou o movimento surgido nas redes sociais chamado #MeToo, em solidariedade às vítimas dos abusos. Nos Estados Unidos, ações inclusivas como a Inclusion Rider permitem aos atores e atrizes exigirem em contrato que a equipe de elenco e produção de uma obra seja formada por mais mulheres, mais negros ou outras minorias. No cenário brasileiro, iniciativas que contemplam editais afirmativos e disponibilizam cotas ou uma pontuação extra para cada mulher na função de roteiro, produção, direção e direção de fotografia são algumas práticas que o setor tem adotado para equalizar a questão. Em março de 2018, o FSA lançou o primeiro edital a incluir cotas de gênero e raça em sua avaliação. Apesar dos números ainda não refletirem os impactos dessas políticas de inserção, já é possível perceber que a mulher ampliou sua


O ‘GIRL POWER’ NO AUDIOVISUAL

Com base nos dados do Observatório da Ancine, levantamos como as realizadoras vêm conquistando seu espaço no setor

LEGENDA Diretora Público Ranking Renda

POR PAULA LEAL MASCARO E RAFAELA BONILLA

AS BILHETERIAS TOP 5 DIRIGIDAS POR MULHERES

Meu Passado Me Condena Júlia Rezende 3.140.771 22º lugar

Meu Passado Me Condena 2 Júlia Rezende 2.639.935 29º lugar

Xuxa Requebra Tizuka Yamasaki 2.074.461 47º lugar

A LISTA POLÊMICA

ARRECADAÇÃO

Dos 86 diretores que tiraram nota 10 de acordo com o edital da Ancine:

10,3%

74 são homens 12 mulheres

SOS Mulheres ao Mar Cris D’Amato 1.776.579 53º lugar

É Fada! Cris D’Amato 1.722.069 55º lugar

é a receita arrecadada por elas em comparação aos homens (2014-2018)

PRODUÇÃO

Dream team: Tizuka Yamasaki, Tania Miguelina Lamarca, Susan Kate Lund, Sandra Werneck Tavares de Souza, Rosane Svartman, Lais Bodanzky, Julia Salles de Rezende, Flavia Mello Moraes de Oliveira, Fabrizia Gontijo Alves Pinto, Eliana Fonseca, Cristiane D’Amato, Carla Camurati

15,1% é o percentual de títulos que são dirigidos por mulheres (2014-2018)

Em 1995, o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati, faturou 6,4 milhões de reais, 44% da arrecadação geral do ano

ELAS SÃO A MAIORIA NOS DOCUMENTÁRIOS Como anda a participação da mulher para cada gênero

O Processo

Maria Augusta Ramos, 2018 R$ 909.529,31 8º lugar no gênero documentário 65.214

DOCUMENTÁRIO

21,1%

participação no cenário artístico nacional. Pela primeira vez desde 1965, diretoras mulheres são a maioria no evento do setor mais antigo do País, o Festival de Cinema de Brasília, realizado em setembro de 2018. A diretora e roteirista Anna Lucchese afirma que o fortalecimento de movimentos em apoio e inclusão da mulher des-

Que horas ela volta?

Anna Muylaert, 2015 R$ 6,9 milhões 101º lugar no gênero ficção 493.568

pertou a atenção para o tema. “Não era uma coisa que eu me preocupava a um tempo atrás. Pensava só nas histórias. Mais recentemente é que comecei a me preocupar com essa narrativa de incluir mais mulheres, trazer personagens femininos complexos”, afirma. Para a produtora Keyci Martins, que dirigiu o curta Bodas

FICÇÃO

13,6% ANIMAÇÃO

7,1%

de Papel, foram feitos avanços para maior representatividade da mulher no setor. “Acredito na força coletiva, e não no segregacionismo. Acho que tem espaço para todos nós, mas é necessário entender quais são essas problemáticas, refletir a respeito das diferenças de oportunidade e acesso aos recursos”, defende. @

CÁSPER

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POR CONTA PRÓPRIA

SUBCHAPÉU

Título da matéria

LUANA JIMENEZ

::OLHO:: Esse é o olho

Em novembro de 2016, eles se uniram para contar as histórias de clientes com causas sociais e, logo nos primeiros sete meses de parceria, faturaram 400 mil reais. A Social Docs, de Marcelo Douek e Henry Grazinoli, é uma produtora e agência focada em atender unicamente instituições não lucrativas com projetos sociais. O trabalho da dupla consiste emAinda elaborar Produzir uma obra audiovisual não é um bicho-papão. mais vídeos, infográficos ou qualquer outra técnica de comunicação em diferense seguir os passos propostos por Marco Vale e Sabina Anzuategui, tes plataformas. meio Líbero do storytelling, Marcelo e Henry ajudam as instiprofessores da Por Cásper tuições a difundir seus ideais e alcançar seus objetivos. Para os que não POR PEDRO GARCIA podem arcar com os custos, a Social Docs oferece workshops ensinando alguns conceitos e práticas de seus trabalhos a preços mais acessíveis: uma maneira de repassar os conhecimentos e continuar ajudando os projetos sociais. (Guto Martini)

Pense em uma ideia cujo desenvolvimento seja prático. Significa ter menos atores e locais de filmagem, o que barateia e facilita a produção. Conheça bem o público. Entenda as suas referências, linguagens, os gêneros e o tipo de conteúdo que consomem. Será que preferem obras seriadas ou curtas? 26

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Teste sempre. Produza e não espere a película ficar inteiramente pronta. Use a internet para testar partes do filme. Pode ser que a ideia inicial não funcione.

Comece com uma câmera DSLR, microfone direcional, refletor e iluminação de três pontos. Seja criativo, o que pode significar improvisar. Isopor e papel alumínio podem virar um bom refletor e a luz natural sempre ajuda.

Fique de olhos nos editais, festivais universitários (como o da Universidade Federal Fluminense) ou mesmo busque por patrocínio para conseguir um financiamento. Os grupos de Facebook ajudam muito a viabilizar o projeto.

Filme pronto, é hora de exibi-lo. Se a qualidade final for boa, invista nos festivais. Mas não descarte plataformas como Youtube e Vimeo, que são uma boa alternativa para divulgar o trabalho e colocá-lo em contato com seu público.

Quem encabeça o projeto tem de ser versátil. Quanto mais souber realizar diferentes partes da produção, melhor se sairá. Isso reduz as pessoas da equipe, diminui custos e facilita o trabalho.

CÁSPER

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REPRODUÇÃO

C U LT U R A

A MÁQUINA COREANA

O improvável k-pop desbanca ídolos musicais americanos e vira um produto midiático para exportação POR LUANA JIMENEZ PELO SEGUNDO ANO consecutivo, o grupo sul-coreano BTS ganhou em 2018 o prêmio Top Social Artist da premiação Billboard Music Awards, deixando para trás grandes nomes da música pop como Justin Bieber, Demi Lovato e Ariana Grande. Suas músicas polvilham o Billboard Hot 100, ranking semanal com as músicas mais tocadas. A reportagem de capa da edição internacional da revista Time chamou-os de “líderes da próxima geração” (next generation leaders, em inglês). E não é de graça: o k-pop (korean pop, pop sul-coreano) atua não somente como um estilo musical, mas também como um fenômeno cultural que abrange o globo inteiro, apoiando-se nas redes sociais e em um rígido sistema de produção industrial. Para muitos, é impossível não associar o k-pop ao clipe Gangnam Style, do cantor PSY, uma sátira non-sense

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de 2012 e o primeiro vídeo no mundo a ultrapassar a marca do um bilhão de visualizações no YouTube. Hoje, supera os 3,2 bilhões de acessos. O estouro de Gangnam Style lançou holofotes para outros grupos do gênero. O sucesso se explica por ser um exemplo perfeito da indústria cultural, que trata da capitalização da produção artística em massa. É, em mesma quantidade, produto e cultura. Produto por ser feito com uma fórmula específica, que calcula cada mínimo detalhe da produção, desde a cor do cabelo do artista até o conceito que o grupo passa e o público que busca atingir. Cultura porque mobiliza uma faixa significativa da sociedade, gera engajamento, identidade e determina um modo de vida. O k-pop não surgiu do nada. Essa fórmula de planejamento prévio e calculado pode ser observada em outras áreas, como na decisão crucial tomada

pelo governo sul-coreano e pelos empresários do país na década de 1990 de investir e voltar a produção nacional para o setor de alta-tecnologia e tecnologias da informação. Em 1980, o PIB per capita do Brasil era mais que o dobro do da Coreia do Sul, de 2,2 mil dólares; hoje, o sul-coreano tem um PIB per capita de 40 mil dólares, mais que o dobro do brasileiro. Eles criaram gigantes como Samsung, LG e Hyundai. A ideia de formar uma nação global tinha de passar também pela área cultural, e o k-pop tinha tudo para se tornar um produto de exportação. Foi um casamento perfeito. A indústria tecnológica nasceu de mãos dadas com o crescimento da internet. O próprio grupo BTS surgiu em meio ao ápice do Twitter, em 2013. Chegamos num ponto que é quase saboroso dizer que o k-pop está engolindo a música norte-americana, o que


OS IDENTIFICADORES

Há certos traços típicos do k-pop que cada artista carrega. Embora todos os membros cantem e dancem, cada integrante possui uma posição designada no grupo que dita pelo o que ele é responsável primariamente ROUPAS SEGUEM O TEMA DO ÁLBUM QUE ESTÃO PROMOVENDO, QUE É GUIADO POR UM CONCEITO

MAQUIAGEM FORTE TANTO NOS GRUPOS DE GAROTAS COMO NOS DE GAROTOS

LÍDER: Atua como uma espécie de representante da banda, falando em entrevistas e sendo responsável por cuidar dos membros

AULAS DE LÍNGUA, UMA VEZ QUE MUITOS DOS IDOLS SÃO ESTRANGEIROS, E MESMO OS COREANOS ESTUDAM OUTRAS LÍNGUAS PARA PROMOVER INTERNACIONALMENTE

SEM NAMORO, PRINCIPALMENTE NO COMEÇO DA CARREIRA

provoca estranhamentos nas mídias brasileira e internacional que têm dificuldade de compreender o fenômeno. “Em seu próprio nome, temos korean pop. Pop é algo norte-americano, ponto. Então estamos trabalhando com um produto simbólico que se apropria e mistura elementos de uma cultura ocidental – roupa, cabelo, formação, a ideia da boyband, que é uma coisa mega ocidental, mega norte-americana – que serão retrabalhados na Coreia, ganhando uma cor local. A partir daí, o pop volta para o Ocidente com essa roupagem nova”, explica o professor Luís Mauro Sá Martino, da Cásper Líbero. Portanto, o k-pop ganhar da cultura pop americana era um caminho lógico. “Você está vencendo a cultura pop americana com a cultura pop americana, claro, apresentada de uma outra maneira, mas ainda com o circuito muito parecido”, diz Martino. O k-pop é menos um gênero musical e mais um gênero audiovisual. Conseguimos estabelecer um padrão de estilo que salta aos olhos. Porém, em termos artísticos é praticamente inclassificável. É possível reconhecer uma música de rock, reggae ou bossa nova já nos primeiros acordes. No k-pop, é raro encontrar uma música que seja 100% pop ou 100% eletrônica. Não dá para dizer que um grupo musical sul-coreano seja definido por um dado estilo. Cada álbum lançado segue um conceito que apresenta es-

VISUAIS: Membros considerados mais bonitos e que agregam valor estético ao grupo, que ficarão no centro dos ensaios fotográficos, são contratados para comerciais e afins

DANÇARINOS: Ficam na frente das coreografias e têm destaque nas danças

A “FACE” DO GRUPO: O membro que é mais conhecido pelo público e serve para conquistar fãs, estando também no centro das fotos e recebendo mais tempo de tela nos vídeos das músicas

MAKNAE: termo japonês que designa o membro mais novo do grupo

RAPPERS: Guiam as partes de rap nas músicas por possuírem melhor técnica

LUANA JIMENEZ

HABILIDADES DE DANÇA PARA UMA COREOGRAFIA IMPECÁVEL E SINCRONIZADA

VOCALISTAS: São os que possuem as melhores habilidades de canto e têm as maiores partes das músicas

tilo próprio, e cada música faz uma mistura de gêneros (com trechos de rock, pop, eletrônica, R&B) e estilos calculadamente dosados e medidos para alcançar o sucesso, com influências de todas as partes do mundo. Já visualmente, cada vídeo ou performance vai apresentar uma coreografia impecável, uma paleta de cores definida, um estilo homogêneo nas roupas dos integrantes. É certo também que os integrantes de um grupo vão passar por um processo de treinamento que pode durar meses ou anos. Tudo isso para aperfeiçoar suas habilidades de canto, dança e línguas, para que quando sejam escolhidos pelas suas agências para fazer parte de uma banda, sejam já a pedra lapidada e pronta para ser comercializada. Mas o k-pop nasceu de uma forma natural. Em 11 de abril de 1992, o grupo Seo Taiji & Boys se apresentou pela primeira vez em um programa de talentos e foi completamente rechaçado pelos jurados. Naquele ano, só havia dois canais de televisão, e as músicas eram – e de certa forma ainda são – dependentes da mídia. O estilo em vigência era o que é chamado de “músi-

ca saudável”, hinos patrióticos disfarçados de música pop encomendados pelo governo sul-coreano. Quando Seo Taiji e seu grupo apareceram com um ritmo explosivo e letras sobre a insatisfação da juventude, foi uma quebra na narrativa construída até então. A música que cantaram (Nan Arayo, que em português significa “Eu sei”) foi um tremendo sucesso de vendas. A partir desse momento, começa de fato a trajetória do k-pop, dividida em três gerações: a primeira deu início à cultura dos fandoms, na qual foram criadas as três maiores agências musicais que dominam o mercado musical coreano (SM, YG e JYP Entertainment); a segunda, nos anos 2000, responsável por globalizar o gênero com as primeiras turnês internacionais; e a terceira, que estamos agora, apoiada principalmente nas redes sociais e no engajamento facilitado com as comunidades de fãs, vem tomando espaço no mercado mundial, mobilizando em 2017 cerca de 18 trilhões de wons para a economia coreana. O valor é equivalente a mais ou menos 70 bilhões de reais, segundo reportagem da BBC. @

CÁSPER

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DIVULGAÇÃO

EMPREENDEDORISMO

CRIAÇÃO COLETIVA Cresce o número de espaços que oferecem coworking em grandes cidades brasileiras POR LARISSA BASILIO IMAGINE UM ESPAÇO mais livre onde é possível encontrar profissionais independentes e trabalhando em projetos sem o isolamento do home office ou as distrações e os perigos dos espaços públicos. Isso já é uma realidade que está tomando conta das capitais brasileiras. Esses locais são chamados espaços de cocriação, ou coworking, expressão originária do inglês. Com algumas opções de utilização gratuitas e outras pagas, essa ideia está ligada a uma nova dinâmica de pessoas que trabalham por engajamento e de forma mais aberta e colaborativa. Esses espaços surgiram para repensar o ambiente de trabalho tradicional e também para atender à expansão dos freelancers e das startups. Parte do princípio que diferentes ca-

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beças unidas em um só ambiente buscam soluções de problemas por meio da construção de respostas conjuntas, incentivando desafios e melhorias. Nos espaços de cocriação, os profissionais encontram ambientes projetados para o trabalho autônomo e oportunidades de interagir com pessoas de diversas áreas para ampliar a rede de contatos, o networking. A maioria desses lugares, por serem novos, é bem estruturada para receber clientes, com custos menores do que costumeiramente se encontra ao alugar uma sala comercial. Estima-se que existam, no mundo inteiro, mais de 4.000 locais do tipo em funcionamento. No Brasil, o número supera uma centena deles, concentrados em sua maioria no eixo Rio-São Paulo.

CASA GALPÃO www.casagalpao.com.br Localizada na Vila Mariana, perto do metrô Ana Rosa, a Casa Galpão abriga salas para acomodar pequenas empresas e profissionais independentes em espaços de cocriação, além de possuir áreas de convivência. Para trabalhar na Casa, é preciso pagar uma mensalidade: as estações custam 500,00 reais por mês, e 55,00 reais por dia, enquanto as salas 1.700,00 reais por mês. O lugar também recebe eventos e workshops, no galpão e para eventos, é cobrado preço por hora. Em junho do ano passado, sediou a Publika, feira de arte impressa e de publicações independentes, além de receber costumeiramente uma feira de trocas de roupas.


GOOGLE CAMPUS SÃO PAULO campus.co/sao-paulo Localizado a um quarteirão da Avenida Paulista, no metrô Brigadeiro, o espaço foi criado pelo Google em 2017. No mundo, são sete espaços como esse. O prédio do Campus São Paulo fica aberto das 9 às 19 horas, de segunda a sexta-feira, e tem seis andares. Dois deles são liberados para os membros do Campus (a inscrição é gratuita pelo site). No local, que conta com Wi-Fi, sem custos, e um café, é possível postar e encontrar oportunidades no mural, acessar o terraço, a área de jogos, a área do silêncio e usar cabines para ligações e videochamadas. Entre os 1º e 3º andares, existe um espaço reservado às startups participantes dos programas do Campus. Há ainda um Family Lounge, para quem vai trabalhar acompanhado de crianças pequenas. ELIANE FRANCO

DIVULGAÇÃ

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RED BULL STATION redbullstation.com.br Inaugurado em 2013, o espaço da Red Bull está localizado na antiga subsede de energia elétrica da Companhia Light, na Praça da Bandeira, prédio tombado em 2002 como patrimônio histórico de São Paulo. O local abriga programas permanentes de residências e ocupações artísticas. De tempos em tempos, ocorrem shows e feiras, como a Feira Polvo, em maio de 2018. É um espaço frequentado por artistas e admiradores da cultura underground. O local está separado em cinco níveis e oferece estúdio de música, cafeteria e Galeria Transitória para os artistas residentes. É possível usar do Wi-Fi gratuito, utilizar a biblioteca e aproveitar o fim de tarde no terraço. A entrada é gratuita e o funcionamento ocorre de terça a sexta-feira, no horário das 11 às 20 horas e sábado, com expediente reduzido, das 11 às 19 horas. DIVULGAÇÃO

HOUSE OF WORK houseofall.co/work No bairro de Pinheiros, ao lado da Avenida Faria Lima, fica o House of Work. Esse lugar é um dos produtos da House of All, uma espécie de companhia que oferece diversos serviços de aluguel de espaços, cada um com uma finalidade. A House of Work - espaço de coworking da marca, possui salas privativas ou para equipes, além de benefícios para assinantes. Para testar o serviço, é oferecido um dia grátis no ambiente. A partir de 750 reais mensais ou uma diária a 45 reais.

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LAB OI FUTURO www.oifuturo.org.br/ O Lab Oi Futuro, no Rio de Janeiro, é um espaço de coworking que foca na economia criativa e em negócios de impacto social. O local, aberto em abril de 2018, possui laboratórios de experimentação sonora e musical, inovação social e estúdio de som e imagem. O espaço também foi pensado para proporcionar um diálogo direto com o Centro Cultural Oi Futuro e contará com chamadas nacionais para residências artísticas no espaço e aceleração de startups de impacto social. O Lab Oi Futuro oferecerá, por meio de editais públicos, estúdios de som, estações de trabalho, salas de ensaio e reuniões, ateliê criativo, lounge e auditório. Para se inscrever, é necessário acompanhar os editais pelo site. CÁSPER 31


PERFIL

DE OLHO NAS

MÍDIAS

Jeff Bezos transformou uma livraria virtual em um império de tecnologia e inovação e agora investe em empresas de comunicação POR PAULA LEAL MASCARO

Investir pesado na produção de conteúdo parece ir na contramão da cultura de que hoje tudo na internet é de graça. Exceto, obviamente, se esse investidor se chamar Jeff Bezos. E não é porque se trata do homem mais rico do mundo, com uma fortuna avaliada em 158 bilhões de dólares e que ganha 432 milhões de dólares todos os dias. O dono da Amazon fez de uma startup que, em 1995, começou vendendo livros se tornar hoje uma das duas companhias globais que ultrapassam um trilhão de dólares em valor de mercado. Jogar dinheiro pela janela está fora de cogitação. Então quando, seis anos atrás, o empresário investiu 250 milhões de dólares para comprar o Washington Post, muitos ficaram surpresos. O jornal, que operava no vermelho, se tornou um negócio lucrativo. Há dois anos, a Amazon Prime Video, serviço concorrente da Netflix, recebeu 4,5 bilhões de dólares para investir na produção de conteúdo próprio e na compra de séries e filmes licenciados. O primeiro grande sucesso da Amazon Studios foi o filme Manchester à Beira Mar, de 2016, vencedor de dois Oscars e a primeira produção de streaming a romper a tradição dos grandes estúdios cinematográficos. Por que e como o mercado de comunicação entrou no radar do bilionário é algo que merece nossa atenção. Certamente, Bezos está mais perto de nós do que possamos imaginar. 32

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STEVE JURVETSON/COMMONS

O homem mais rico do planeta é casado com a escritora MacKenzie Bezos, tem quatro filhos e mora em Seattle, EUA, onde fica a sede da Amazon

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O Post criou ainda outras soluções inovadoras, do uso de softwares como a Natural Language Generation (NLG), que escreve notícias sem interferência humana, até os bots (robôs) para interagir com o público. Nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, o bot Heliograf realizava a cobertura e postava no Twitter do veículo. Em janeiro de 2018, no aniversário de 140 anos do Washington Post, o jornal comemorava o segundo ano consecutivo de rentabilidade e o crescimento das assinaturas digitais, triplicado desde 2017. Aprender com a empresa que mais investe em pesquisa e desenvolvimento do mundo (em 2017 foram 23 bilhões de dólares) pode ensinar os profissionais da área a driblarem a má fase que vive a comunicação, evitando cenários como o da Editora Abril, que encerrou em 2018 a publicação de dezenas de revistas. “A Amazon trabalha conteúdo como serviço, e nós sempre trabalhamos conteúdo como conteúdo”, compara Sbarai. NADA PARECE TÃO VISTOSO no universo da Amazon quanto o Prime, um clube de fidelidade lançado em 2005 nos Estados Unidos, que oferece benefícios para os assinantes como frete grátis, descontos e envios de encomendas em até duas horas. Por 13 dólares mensais, os mais de 100 milhões de assinantes podem consumir o acervo completo do Prime Video, concorrente da Netflix, além de armazenamento de fotos e reprodução ilimitada com o Prime Music. Esse seleto clube de apaixonados pela Amazon ajudou a colocar a empresa na terceira posição de streaming mais popular do mundo, atrás do Spotify e da Apple. O que as pessoas talvez não saibam é que a comunidade Prime nutre a empresa-mãe do varejo com informações valiosas capazes de mapear, prever e induzir os hábitos de consumo dos assinantes. À revista Forbes, Bezos explicou que o Prime é fundamental para conectar todos os serviços na com-

panhia, mas “ele não pode ser um negócio autônomo porque está completamente associado à nossa oferta ao consumidor”. A interconectividade dos produtos da Amazon é poderosa. Para assistir aos conteúdos do Prime, a empresa desenvolveu o Fire TV, um dispositivo que se conecta a TV para transmitir streaming de conteúdos e pode ser acionado com a assistente de voz, Alexa, também da Amazon. A lição da Amazon no mercado de comunicação é a de que não basta produzir e até mesmo entregar um conteúdo de qualidade. Jed Hartman, diretor do Washington Post, contou à Reuters que a empresa investe pesado na produção de vídeos e que tem hoje um estúdio do tamanho de uma pequena companhia de TV a cabo, com cerca de cem funcionários. Para ele, é preciso entender quais são as histórias que mais engajam, em que dispositivo elas serão consumidas ou quantos segundos demora para carregar um site. O conteúdo é valioso, mas a forma também importa. Aos 54 anos, Bezos acumula fortuna equivalente a ganhar oito vezes o maior prêmio individual da Mega Sena, de 205,3 milhões de reais em 2015. É o suficiente para comprar 50 jatinhos da Embraer e 200 Ferraris modelo 812 Superfast por dia. Ver alguém com tanto dinheiro pode levar REPRODUÇÃO

“É mais fácil inventar o futuro do que prevê-lo”. Essa frase, atribuída ao computólogo Alan Kay, traduz com perfeição a filosofia da Amazon. Era assim que, em um anúncio, a iniciante empresa buscava candidatos para uma vaga de programador. O emprego consistia em trabalhar na garagem da casa de seu fundador, bem ao estilo das startups do Vale do Silício. Mas Jeff Bezos nasceu para transformar o varejo da mesma forma que Henry Ford revolucionou a indústria automotiva. Seu império global se estende para áreas como a corrida espacial e a inteligência artificial e não para de crescer. A Amazon virou uma incubadora de empresas de tecnologia e inovação. E o que não pode ser criado, porque já foi desenvolvido, é comprado e incorporado. É possível que no momento em que você lê esta revista, ele esteja fazendo isso. Quando a Amazon já era um império interplanetário, Bezos decidiu comprar o Washington Post. Especialistas ouvidos pela CÁSPER são unânimes em afirmar que, após a aquisição do jornal, o Post deixou de ser apenas um veículo de mídia tradicional para se tornar também uma empresa de tecnologia. Em 2015, o ambiente da redação já tinha ares de renovação tecnológica – havia 47 desenvolvedores, 220 engenheiros e mais de 100 jornalistas especializados no ambiente digital. “Temos pela primeira vez um homem que sabe ganhar dinheiro na internet dono de empresas de mídia”, diz o jornalista Rafael Sbarai, professor de empreendedorismo digital e estudioso da Amazon. Munido de um time multidisciplinar, o CEO da Amazon detectou que faltava ao Post um bom publicador digital para o jornalismo. Assim surgiu o Arc, uma plataforma de publicação mais interativa que permite edição de textos em tempo real e faz aquilo que se espera da tecnologia: facilita o dia a dia. E, por tabela, gera renda. Sbarai estima que a plataforma movimente uma receita anual de 100 milhões de dólares. O Boston Globe é um dos compradores do Arc.

Jeff Bezos foi considerado a pessoa do ano pela revista Time em 1999


O SHOPPING DIGITAL Em 1995, Bezos inaugura sua livraria virtual. O primeiro livro vendido na história da Amazon, Conceitos de Fluidos e Analogias Criativas, de Douglas Hofstadter, foi comprado por um engenheiro da computação em meados daquele ano. No primeiro mês de funcionamento, a Amazon já recebeu pedidos de todos os 50 estados dos EUA, além de outros 45 países. Em 1998, incluiu em sua lista CDs, DVDs, brinquedos e eletrônicos. No final da década de 1990, já era possível encontrar mais de 125 mil álbuns de 60 gêneros musicais. O nome Amazon foi inspirado no rio Amazonas. “Ele não é apenas o maior rio do mundo; é muitas vezes maior que o segundo maior rio”, segundo Bezos.

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BIBLIOTECA VIRTUAL O leitor de livros digitais foi lançado em 2007 utilizando uma tecnologia de tinta digital, ideal para leituras prolongadas. Quando teve a ideia de criar o Kindle, Bezos teria dito ao executivo do departamento de livros físicos: “Seu trabalho é acabar com seu próprio negócio”. Na esteira dos e-readers, a Amazon comprou o Audible, serviço que permite ouvir audiolivros e o Goodreads, uma rede social para recomendação e resenha de livros. Ainda, lançou o serviço do Kindle Digital Publishing (KDP), permitindo aos autores publicar seus livros na loja do Kindle e concedendo royalties de 70% nas vendas aos escritores.

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Império da comunicação

DE VOLTA AO JOGO

CLUBE DE VANTAGENS O Prime é um clube de fidelidade com benefícios para os assinantes como frete grátis, descontos especiais e envios de encomendas que podem chegar em até duas horas, dependendo do local. O Prime Video, serviço de streaming da Amazon e concorrente direto da Netflix, oferece filmes, séries e documentários mediante o pagamento de uma assinatura mensal. Também são oferecidos conteúdos originais como a série The Man in the High Castle, produzida pela Amazon Studios. Já o Twitch é uma plataforma online de vídeos usada para a exibição ao vivo de partidas de games, comprada pela Amazon em 2014 por 970 milhões de dólares.

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A compra do Post por 250 milhões de dólares em 2013 transformou a tradicional empresa de mídia em um polo de tecnologia e inovação. Iniciativas como a criação de uma plataforma customizada para edição de textos (Arc) e o uso de softwares como a Natural Language Generation (NLG), que escreve notícias sozinho, sem interferência humana, são alguns exemplos da adequação do jornal à realidade digital. Em 2018, o Post foi eleito uma das dez empresas mais inovadoras do mundo pela revista Fast Company.

PARA PUBLICAR O Arc é uma plataforma interativa de publicação digital de textos criada pelos engenheiros e desenvolvedores do Washington Post, em parceria com os jornalistas e editores do jornal. Ferramentas como Wordpress e Medium são concorrentes diretos mas não são dedicadas ao jornalismo como o Arc. Estima-se uma receita de 100 milhões de dólares por ano com a comercialização do produto. Além do Post, veículos como o Boston Globe e o El País utilizam o Arc.

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O pesadelo da concorrência REPRODUÇÃO

Amazon.com Empresa no valor de

US$ 993.000.000.000 Jeff Bezos abandonou o emprego no mercado financeiro de Wall Street para abrir a Amazon. No último trimestre, a empresa norte-americana teve lucro recorde de 2,5 bilhões de dólares — mais que o dobro em relação à expectativa dos analistas de Wall Street. Só para ilustrar, caso um investidor tivesse comprado uma única ação em 1997, no valor de 18 dólares, teria agora mais de 22 mil no bolso.

Amazon Web Services (AWS) Serviço que comercializa infraestrutura de computação na nuvem. Instagram e Netflix alugam espaço nos computadores da Amazon para armazenamento de dados.

Zappos

Alexa / Echo

A Amazon adquire em 2009 a varejista online de sapatos, roupas e acessórios. A aquisição foi estratégica para a Amazon, que já tinha sua própria marca online de sapatos, a Endless.com, mas que não tinha decolado.

Assistente virtual da Amazon que permite aos usuários interagirem com mais de 15 mil aplicativos por meio de comandos de voz. O Echo é uma caixa de som inteligente que usa a assistente virtual Alexa.

Whole Foods Market Em 2017, a Amazon adquiriu a rede de supermercados com foco em produtos saudáveis, o Whole Foods, por 13,7 bilhões de dólares.

Kiva System

Blue Origin

PillPack

Amazon Go

Por 775 milhões de dólares, a Amazon compra a Kiva, fabricante de robôs utilizados em centros de distribuição, reduzindo custos com mão de obra e agilizando o serviço.

A empresa espacial de Bezos quer colocar seu primeiro foguete, batizado de New Glenn, em órbita até 2020. A companhia é concorrente da SpaceX, do bilionário Elon Musk.

Em 2018, a Amazon compra o serviço de entregas em domicílio de medicamentos. A área da saúde já representa quase 20% do PIB norte-americano.

O novo conceito de loja física da Amazon não tem filas nem atendentes. A compra é feita via aplicativo no celular, sem necessidade de passar pelo caixa, desde que o cliente tenha uma conta na Amazon.


A AMAZON CHEGOU TÍMIDA no Brasil em 2011, com o serviço AWS. Em dezembro de 2012, introduziu a venda de livros digitais. O consultor Felipe Scherer diz acreditar que a empresa pode contribuir para disseminar ainda mais a cultura de compras online. Só que a política de descontos oferecida pela Amazon estrangula as margens de lucro das livrarias. A Fnac encerrou as atividades no ano

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a acreditar que o bilionário nascido em Albuquerque era simplesmente um predestinado. A realidade é que ele reunia todas as características para se tornar um fracassado em vez de um improvável vencedor. No início da febre das empresas dotcom, em meados dos anos 1990, ele decidiu vender livros, empresa que logo se converteu em um grande marketplace - um portal para comercializar produtos de terceiros. A Amazon transformava concorrentes em parceiros, estabelecendo a maior relação ganha-ganha digital do planeta. Hoje, a cada dólar gasto no comércio eletrônico nos Estados Unidos, 50 centavos se destinam a engordar os cofres da empresa de Bezos. Mas quando a bolha da internet estourou, nos anos 2000, a Amazon registrou prejuízo de 1,4 bilhão de dólares e foi apontada como a empresa que mais perdeu dinheiro. Operou no vermelho por quase uma década. “Bezos foi paciente e aceitou sacrificar as margens de lucro em nome do longo prazo”, diz Felipe Scherer, sócio e consultor da Innoscience, consultoria em Gestão da Inovação. Fez muita diferença a compreensão de que as ferramentas de gerenciamento de estoque e distribuição e os algoritmos de recomendação de produtos, fundamentais para o sucesso do negócio principal, poderiam se tornar negócios autônomos. É o caso da Amazon Web Services (AWS), serviço de computação na nuvem. Esta solução que nasceu para armazenar os dados da gigante do varejo tem como clientes Pinterest, Instagram e Netflix. Entre os clientes brasileiros, estão startups como Nubank e Guia Bolso.

A Amazon possui frota aérea própria para agilizar a entrega de produtos

passado. A Livraria Cultura entrou com pedido de recuperação judicial em outubro. A Saraiva fechou 20 lojas e com uma dívida de mais de 485 milhões de reais pediu recuperação judicial no mês seguinte. Seria injusto atribuir à Amazon a crise dessas empresas físicas. Mas qualquer segmento, quando chacoalhado pela força da gigante, sofre um processo batizado de “apocalipse do varejo”. Algumas não aguentam o tranco e fecham as portas. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com a rede de brinquedos Toys R Us e as lojas de departamento Sears. Bezos já foi acusado de burlar a legislação antitruste, ao aumentar o grau de dependência de varejistas que precisam cada vez mais da Amazon para sobreviver no mercado online. O presidente norte-americano Donald Trump declarou guerra à gigante de tecnologia ao acusar Bezos de não pagar impostos e causar o fechamento de lojas por todo país. Outro risco desse processo é a concentração do poder e do dinheiro nas mãos de poucos. Somadas, Amazon, Apple, Alphabet (Google), Microsoft e Facebook valem 3,7 trilhões de dólares no ranking global da Forbes, divulgado em junho – maior que o PIB brasileiro, de 2,1 trilhões de dólares. A Amazon, ao monitorar por mais de 20 anos o que as pessoas mais leem, assistem e compram, é proprietária de uma infinidade de informações digitais. Empresas de comunicação sempre tiveram bancos de dados, mas

jamais souberam fazer bom proveito deles. Glen Weyl, pesquisador da Microsoft Research e autor do livro Radical Market (editora Princeton University Press) defende que esses dados deveriam ser propriedade de cada um de nós e que façamos o que bem entender com eles: dar de graça ou vender a quem oferecer o melhor preço. A chanceler alemã Angela Merkel anunciou que pretende criar um imposto sobre os dados. No Brasil, foi aprovada a nova Lei de Proteção de Dados, em agosto de 2018, inspirada na regulamentação da União Europeia. Mas essas iniciativas nem de longe arranham a força das gigantes tecnológicas. Para Rafael Sbarai, a Amazon vai se consolidar e permanecer como a empresa mais valiosa do mundo pelos próximos dez anos. “Acredito que ela irá invadir o mercado de publicidade digital e abocanhar parte da receita hoje dividida entre o Facebook e o Google”, aposta. Felipe Scherer visualiza uma política de incorporação de inteligência artificial ainda mais agressiva da companhia. Em outubro, a companhia elegeu a Colômbia para sediar seu primeiro centro de serviços da América do Sul, na capital Bogotá. Um mês depois, a Amazon anunciou suas novas sedes: uma em Nova York e outra em Arlington, norte da Virginia. Um investimento de cinco bilhões de dólares e a geração de 50 mil postos de trabalho. O CEO da Amazon, como se vê, não para de investir em novas empresas, tecnologias disruptivas e inovação. @

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MERCADO

OS NOVOS EMPREGOS Conheça as profissões em alta na área de Comunicação e o que é preciso para aproveitar as novas tendências do mercado

POR PAULA LEAL MASCARO E RAFAELA BONILLA

LUANA JIMENEZ

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$ GERENTE DE MARKETING DIGITAL >4.600 REAIS É o profissional responsável por implementar e fazer a gestão da estratégia digital de uma empresa. De acordo com Marcelo Rosa, gerente de marketing do canal ESPN, esse profissional “terá foco em todas as ativações por meio da internet” e deverá identificar as novas oportunidades de produtos, serviços, informações e soluções por meio do digital.

GERENTE DE SEO >4.800 REAIS Marcelo Rosa explica que esse profissional tem a responsabilidade de otimizar páginas de sites para que fiquem melhor posicionadas nos mecanismos de busca na internet como Google e Yahoo, sobretudo por meio da definição de recursos, estratégias e palavras-chave. Os sites de busca mudam as regras, de tempos em tempos, e elas podem restringir o tráfego do site. O papel desse profissional é estudá-las constantemente para aumentar o desempenho.

USER EXPERIENCE >4.800 REAIS É importante para a marca a experiência do cliente com o produto, aplicativo ou software. O profissional de UX é responsável por garantir que o design projetado atenda às necessidades do usuário. Conhecimentos como Semiótica, psicologia e design são cruciais para exercer o cargo, explica Euripedes Magalhães, líder UX.

COORDENADOR DE INBOUND MARKETING >4.900 REAIS Por dia, 20 mil novos sites são criados na internet. Como fazer com que o usuário acesse o site da empresa e se interesse pelo conteúdo ou produto? Segundo a jornalista Carolina Peres o cargo consiste em criar estratégias que ajudem na publicidade online e gerem resultados para a empresa. Ela dá a dica:“É necessário dominar as ferramentas de automação, bem como conhecimento em relacionamento humano”.

$$$ $$ JORNALISTA DE BRANDED CONTENT >5.000 REAIS Trabalhar com branded content, o equivalente a conteúdo de marcas, significa que o foco do especialista será voltado na geração de conteúdo customizado para as empresas. Para a diretora Mariana Mello, do estúdio Alma Content, esse profissional utiliza filtros de relevância para criar narrativas que sejam úteis para a empresa que tenha a intenção em se conectar com determinado público. “Tem a ver com conectar ideias e fazer a mensagem acontecer”, explica a diretora.

GERENTE DE LINK BUILDER >6.000 REAIS Carolina Peres comenta que esse ramo é “o futuro para empresas que querem investir em autoridade de marca”. O link building é visto como uma evolução da assessoria de imprensa no ambiente digital. Assemelha-se ao analista de SEO, uma vez que um dos objetivos é ajudar sites a ficarem bem posicionados no Google e em outros sites de busca. Também tem o objetivo em inserir links da empresa em blogs e portais com autoridade para aumentar a visibilidade e reputação da marca.

ARQUITETO DE INFORMAÇÃO >6.000 REAIS Profissionais de comunicação que quiserem trabalhar nessa área multidisciplinar precisam aprender a organizar e estruturar websites, intranets, comunidades online e softwares. O objetivo é dar melhor navegabilidade e usabilidade aos usuários. O IA (da sigla em inglês, information architecture) tem a função de auxiliar as pessoas a encontrarem o que elas estão procurando. De bibliotecas a empresas de computação digital, agências de publicidade e de comunicação web, são algumas opções a serem exploradas pelo arquiteto da informação.

GERENTE ANALISTA DE BUSINESS INTELLIGENCE >12.300 REAIS O profissional de Business Intelligence (BI) precisa conhecer de gestão de negócios, gostar de tecnologia, saber trabalhar com dados e ter pensamento lógico. Marcelo Rosa explica que ele será responsável por transformar as fontes de informação em relatórios organizados para ajudar na tomada de decisões dos executivos de uma empresa. Além de ter visão estratégica de negócio, o analista de BI acompanha pesquisas de tendências de mercado e as inovações tecnológicas e precisa ter noções sobre segurança da informação.

JORNALISTA DE DADOS N/I A utilização de dados para apurar e redigir matérias sempre fez parte da rotina do jornalista. Porém, a introdução de ferramentas digitais abriu possibilidades para o profissional minerar dados e melhorar seus conteúdos. Isso demanda noções de matemática e estatística, técnicas de visualização de informação e boas práticas no desenvolvimento de aplicativos de notícias. Para o jornalista do Estadão Daniel Bramatti, “é importante saber usar determinados softwares de análise e de visualização de dados. Saber programar é um plus muito importante, mas não um requisito absolutamente necessário”.

CREATIVE PRODUCER N/I Participar da criação de produtos audiovisuais do começo ao fim, isso é possível? Para o profissional de produção criativa, essa é a tendência. Ivan Teixeira, profissional da área e produtor de filmes como Lisbela e o Prisioneiro, afirma que a demanda é grande para essa área promissora. O produtor criativo desenvolve o conteúdo audiovisual levando em consideração as demandas do mercado e do público. É responsável por cuidar das fases de criação, produção e entrega do produto.

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ROGÉRIO ALVES

COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL

COMO RESOLVER? O gerenciamento de crise vira rotina dentro da política comunicacional das empresas e o antídoto para manter a reputação da marca POR THIAGO BIO TRÊS ANOS SE PASSARAM, muitos outros se passarão e o nome Samarco será sempre lembrado pelo maior desastre ambiental do País. Em novembro de 2015, 43 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro vazaram da barragem de Fundão, no subdistrito mineiro de Bento Rodrigues. O tsunami de lama foi proporcional a dez Lagoas

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Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, matou 19 pessoas, contaminou o Rio Doce, tirou o trabalho de pescadores e dizimou animais e plantas por onde passou. Na página Samarco Mineração, do Facebook, a empresa brasileira é dura e constantemente criticada, embora já se note alguns perfis que defendem a retomada da extração do minério. Mas quais lições podem ser extraídas sobre a comunicação empresarial adotada pela Samarco nesse trágico episódio? Em situações como essa, a luz vermelha que se acende dentro das companhias responde pelo nome de “gerenciamento de crise”. Pouco adiantou a atitude do diretor-presidente da empresa, Ricardo Vescovi, de informar em vídeo que um plano emergencial de barragens havia sido acionado, horas depois que a tragédia ocorreu. O desastre foi parar, por meses, em todo o noticiário do País

e do mundo. Especialistas ouvidos e entrevistados pela revista CÁSPER afirmam que a gestão de crise da mineradora teve um acúmulo de falhas, como a demora para solucionar o problema, não assumir a culpa pelo rompimento (tratando-o como um acidente de causas naturais) e não enfatizar quais seriam as melhorias para evitar novas tragédias. Uma fundação de nome Renova foi criada para fazer as reparações sociais e ambientais em torno de Mariana, a cidade onde fica sediada a barragem de Fundão. A estratégia consegue, ao mesmo tempo, tirar do fogo cruzado do noticiário o nome da Samarco e também das mantenedoras, as multinacionais Vale do Rio Doce e BHP Billiton. Do ponto de vista econômico, o departamento financeiro agradece. Em 6 de novembro de 2015, a ação ordinária da Vale S.A. era cotada a 15,67 reais e a com-


dores de opinião precisam conseguir as informações e, se não for fornecido algo na ânsia de dar o furo jornalístico, não é improvável que divulgarão rumores. Cabe ao profissional de relações públicas ou de jornalismo enfrentar essa situação munindo os repórteres de informação constante, uma espécie de rotina própria. A NÃO SER NOS CASOS das tragédias, a maioria das crises não surge repentinamente. Quando os primeiros sinais aparecem, se o departamento de comunicação não detectá-los rapidamente, a situação só tende a piorar. “Um plano de gerenciamento de crise consiste em mapear os pontos fortes, situações negativas, possibilidades de geração de crise que você tem den-

tro de uma organização. Você faz um diagnóstico e analisa todos os telhados de vidro”, explica a relações públicas, consultora e pesquisadora de mídias sociais Carolina Terra. A ideia é evitar surpresas. Nesse mapeamento, é possível levantar quem são as pessoas aptas a lidar com e, em cada circunstância, o que pode ser decisivo na hora de vir a público. Na maioria das vezes, as melhores escolhas recaem sobre o presidente, o assessor jurídico ou o representante do departamento de comunicação. Um documento formulado pela empresa, que descreve os processos que uma marca seguirá para responder a uma situação crítica, serve como um roteiro ou, ainda, como um kit de primeiros socorros a ser utili-

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panhia valia 84 bilhões de reais em valor de mercado. Em janeiro de 2016, caiu para 9,03 reais, mas exatos três anos depois do rompimento, já em 2018, a ação valia 57,39 reais e a Vale ultrapassava os 307 bilhões de reais — muito pela valorização do minério de ferro no mercado mundial. Em comunicado oficial, a empresa informou que até setembro de 2018 as indenizações somaram 1,2 bilhão de reais. Mas diante das cifras astronômicas acima permanece a sensação de impunidade gerada pela demora no pagamento às vítimas e por até hoje não ter havido uma única condenação na Justiça. O que o caso da Samarco ensina é que a comunicação não pode ser vista como uma variável menor dentro de uma empresa. Ela é estratégica e, embora aparentemente possa ser criticada pela opinião pública, quando bem executada, ajuda em outras frentes do negócio. Um outro caso emblemático que serve de exemplo é o da empresa Johnson & Johnson. Em 1982, sete pessoas foram envenenadas com cianeto após ingerir cápsulas de Tylenol Extra-Forte. O remédio representava 35% do mercado norte-americano de analgésicos. Virou manchete dos principais jornais e noticiários. “A primeira decisão de relações públicas, tomada imediatamente com apoio total da direção da empresa, foi cooperar inteiramente com os veículos de comunicação”, relatou à imprensa o então vice-presidente de RP da J&J, Lawrence G. Foster. O veneno pedia ação rápida: formaram um comitê de crise, explicaram aos jornalistas o ocorrido, investiram na propaganda de uma nova e mais segura marca e recolheram 31 milhões de frascos de Tylenol no país (um prejuízo de 50 milhões de dólares). Em crises envolvendo pessoas, as empresas costumam recorrer à imprensa para informar e, muitas vezes, reduzir os danos à imagem da marca. Os jornalistas são vistos como os responsáveis por colocar a marca novamente na boca do povo, seja para o bem ou para o mal. É consenso no gerenciamento de crise que os forma-

NÃO EM MINHA LOJA A Starbucks enfrentou a fúria das redes sociais quando, em maio de 2018, um gerente expulsou dois homens negros de uma de suas lojas. Policiais foram acionados e os clientes, levados algemados, permanecendo em custódia por oito horas. “Por que chamaram eles?”, protestaram em vídeos virais outros consumidores. A sangria era tão grande que o CEO da empresa, Kevin Johnson, reconheceu o erro pelo YouTube. “Isso não é quem somos e não é quem devemos ser”, explicou. Como parte do gerenciamento da crise, a empresa fechou por um dia as suas mais de 8 mil lojas para treinar 175 mil funcionários. E todos os novos contratados também deverão passar por esse treinamento.

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zado pelo comitê. O objetivo final é sempre evitar danos ou minimizá-los. O plano determina ainda os critérios de classificação de uma crise, estabelece bandeiras para detectar sinais de alerta precoce de qualquer situação em potencial, fornece uma lista de contatos-chave de emergência e identifica procedimentos para responder a ela. Os representantes escolhidos pela empresa estarão preparados e treinados, podendo ser acionados com rapidez, 24 horas por dia, sete dias por semana, não importa onde estiverem. O plano de gerenciamento de crise faz parte do processo de preparação para o pior. É nele que será estabelecido um porta-voz para a empresa. Um porta-voz inexperiente é uma bomba-relógio para a marca. Para que uma pessoa seja capaz de enfrentar uma situação crítica, normalmente no papel de uma liderança da companhia, ela precisa ter amplo conheci-

mento. “O maior inimigo da crise é o tempo”, afirma Sergio Andreucci, professor de Relações Públicas da Cásper Líbero. Ele enfatiza a importância dos treinamentos antes do surgimento da crise. Tudo pode acontecer e não há tempo para se preparar: quando se tem um plano de crise pronto e um comitê estruturado, existe uma resposta mais resistente contra a crise. PREPARAR OS PORTA-VOZES já virou rotina para a maioria das grandes empresas. O media training, também conhecido como treinamento de imprensa, ensina os representantes elencados pela empresa a se relacionarem com jornalistas por meio de simulações de casos. Por um lado, o media training ajuda a organização. Por outro, complica o trabalho dos jornalistas, que terão mais dificuldade em arrancar respostas espontâneas do entrevistado. Nes-

se tipo de treinamento, são ensinadas dicas práticas de como se portar diante dos microfones dos repórteres. Confiança e credibilidade são essenciais: uma pausa prolongada pode, por exemplo, levantar a dúvida sobre a segurança das respostas, que devem sempre parecer naturais e publicáveis para os jornalistas. A mensagem da organização deve ser reforçada, mas, às vezes, a discrição pode ser uma estratégia mais conveniente. A parte crucial, principalmente em meio a uma crise, é não mentir. A verdade é considerada o antídoto pelo gerenciamento da situação delicada. Jornalistas, assim como clientes e usuários, são especialistas em detectar mentiras. Numa pesquisa na internet, e sempre há quem esteja livre para fazer isso, pode-se pesquisar a fundo uma história, o que envolve a verificação do fato e conversas com outras pessoas. “Principalmente em

SEM APRENDIZADO

DENIS GUSTAVO

VALTER CAMPANATO/ABR

Em outubro de 1996, um avião da TAM Linhas Aéreas (hoje Latam) decola do Aeroporto de Congonhas e em 24 segundos cai sobre casas do bairro do Jabaquara. Morrem 96 passageiros e tripulantes, além de três pessoas em solo. Em julho de 1997, uma explosão dentro de um outro voo da empresa abre um buraco na fuselagem e ejeta o cliente da poltrona 18D. Dez anos depois, também em Congonhas, um avião da companhia não consegue frear na hora do pouso e atinge o prédio da TAM Express, matando 199 pessoas. Em 1996, a empresa não parou de operar, atendeu as famílias das vítimas, concedeu uma coletiva menos de quatro horas após o acidente, suspendeu todas as peças publicitárias e apurou rapidamente as causas. No ano seguinte, realizou entrevistas em frente ao avião que explodiu para atenuar a crise — e os repórteres. Já em 2007, a TAM errou ao demorar na liberação de pronunciamentos e no atendimento aos familiares dos envolvidos no acidente.

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“HÁ UM TEMPO ATRÁS, a gente dizia que a organização tinha que responder a uma crise, no máximo, em 24 horas. Hoje, em tempos de mídias sociais, 24 horas é uma eternidade”, alerta Andreucci. Com a popularização de sites, blogs e contas nas redes sociais que alegam oferecer conteúdo informativo, fica fácil o usuário cair em uma armadilha. Grandes empresários e empresas são vítimas das fake news, que fazem com que o serviço de gerenciamento de crise se torne ainda mais necessário. “Depois que as redes sociais vieram, a paz acabou”, brinca o professor da Cásper Líbero. Para controlar a disseminação desses boatos dentro das organizações, é preciso mostrar e comprovar a verdade. Usam-se documentos, posicionamentos, entrevistas e abrem-se as portas da empresa como métodos para manter a transparência. Marina Barbieri, criadora do blog “Deu Ruim”, que trata sobre comportamento e relacionamento, recebeu um e-mail em fevereiro de 2018 de uma representante da comunicação da marca italiana de cadernos de nota Moleskine. A empresa pedia que o nome da marca, usado em um dos textos do site da blogueira, fosse trocado por estar sendo mencionado como sinônimo de categoria (como acontece com Gillette ou Post-it). Marina logo postou em suas redes o ocorrido. A Moleskine, insistiu no erro, pedindo a retirada do post. O tema chegou a ocupar as primeiras posições dos trending topics do Twitter na época. “Parece um case fictício de como não agir”, escreveu uma usuária. A tecnologia permitiu o engajamento cívico, dando direito a todas

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tempos de mídias sociais, ser transparente é o melhor caminho. Se você, como organização, não for transparente, o usuário vai ser por você”, comenta Carolina. A máxima que deve nortear o esforço do gerenciamento de crise nas suas três etapas (preparação, resposta e recuperação) é “a verdade acima de tudo”. Mentiras geram rumores e boatos, uma crise nova.

AS ‘FAKE’ LARVAS No início de 2017, o youtuber João Marcos Oliveira postou um vídeo no Facebook com algumas amigas, alegando terem encontrado larvas em uma garrafa de Catuaba com açaí. “Gente, não tomem mais Catuaba”, dizem os jovens. A peça chegou a quase duas milhões de visualizações. Como resposta, a empresa rebateu com um post pedindo desculpas e explicando que as “larvinhas” eram, na verdade, sedimentos da fruta que não se dissolveram por completo. Em seguida, convidou o grupo para conhecer a fábrica da bebida. O influencer postou uma retratação. Para não deixar dúvidas, a Catuaba ainda criou uma vídeo-aula com o gerente de controle de qualidade ensinando o processo de produção da bebida.

as pessoas participarem do debate público, independentemente de onde estejam ou do grupo de interesse em que atuem. E isso torna o gerenciamento de crise mais complexo e multifacetado. A dica, caso surja uma crise nas redes, é eliminar o foco do problema o mais rápido possível, combatê-la na mesma mídia social onde apareceu, reconhecer o erro e levar a conversa para o privado quando ficar fora de controle. Essa é uma das razões para que as empresas se voltem para dentro delas próprias. O público interno, o trabalhador que conhece os bastidores do negócio, deve ser tratado como um aliado. Ele é quem vai defender a marca do problema. “No caso da

Petrobras, durante a Operação Lava Jato, eles trabalharam muito com a comunicação interna”, lembra a professora Tânia Pinto, da Cásper Líbero. Quem defendia a Petrobras eram os seus funcionários, que sabiam o que estava acontecendo e quais seriam os próximos passos da empresa. Se o próprio empregado não acredita na reputação do lugar em que trabalha, quem acreditará? Gerenciar a crise, nesse cenário, será enxugar gelo. Funcionários, orgãos oficiais, governos e ONGs representam a empresa para além da institutição. Todos são parceiros em potencial que podem ser acionados e desempenhar um papel fundamental no gerenciamento de crise. @

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GIRO PELO MUNDO NOVAS INICIATIVAS

A arena digital

:: EM TESTE :: Robôs como âncoras jornalísticos já estão no ar na China, enquanto o tema da manipulação de notícias continua em alta. Na publicidade online, dá para gastar melhor

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À esquerda, o jornalista Zhang Zao de carne e osso, e à direita a sua versão digital

O ÂNCORA DO FUTURO Seguem os esforços para substituir os humanos pelas máquinas na comunicação. A Xinhua, agência de notícias oficial do governo chinês, mostrou o primeiro âncora de inteligência artificial do mundo, criado em parceria com o mecanismo de busca Sogou.com. Baseado na aparência real do

jornalista Zhang Zao, o robô imita suas expressões, movimentos da boca e anuncia as notícias com uma voz muito artificial. De acordo com a Xinhua, o “novato” disponível 24 horas por dia logo mais entrará em ação no site e nas mídias sociais, aumentando a eficiência de produção das notícias. (Henrique Artuni)

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A HORA CERTA DE ANUNCIAR O profissional de marketing não está sabendo lucrar. Esta é a conclusão da pesquisa realizada pela Empresa Singular depois de analisar 300 bilhões de propagandas e contabilizar 1,1 bilhão de dólares de gastos em marketing. A partir da análise desses dados, a consultoria descobriu que a taxa de cliques (CTR) cresce acima do normal no meses de novembro e dezembro. Durante o ano, os dez dias de melhores retornos de propagandas online ocorrem entre as datas de Black Friday, Ação de Graças e Natal, nos Estados Unidos. Anunciar em janeiro é, praticamente, jogar dinheiro fora, se o objetivo for vender alguma coisa. Mas mesmo nos meses de grande interesse do consumidor, o relatório ensina que é preciso ser flexível conforme o tipo de produto. A venda de games se concentra no final de dezembro, enquanto a de pacotes de viagens explode em novembro. (Rafaela Bonilla)

O INIMIGO EM COMUM Na Malásia, às vésperas da votação geral em 2018, foi aprovada, pelo Parlamento local, uma lei que prevê multa e prisão para quem compartilha fake news. A lei já teve vítimas, a corte condenou um dinamarquês a uma semana na prisão e o multou em 10 mil ringgit, o equivalente a 8.800 reais. Os projetos contra a disseminação de notícias falsas não são novidade. Na Alemanha, em 2017, foi adotada uma lei contra a publicação, em redes sociais, de conteúdo com discursos de ódio, pornografia infantil, assuntos relacionados com o terrorismo e informações falsas. Na França, dois projetos em discussão buscam impedir a chamada “manipulação da informação” durante o período eleitoral e, no Quênia, uma lei foi aprovada contra crimes cibernéticos e notícias falsas. Se a moda pega no Brasil… (Larissa Basilio)


BITS & BYTES

Não é conspiração ::ALGORITMOS:: Os mecanismos da Netflix para influenciar suas escolhas POR HENRIQUE ARTUNI

A Netflix “governa” hoje mais de 100 milhões de usuários. Se fosse um país, seria o 13º mais populoso do mundo. Numa democracia digital, cada um deles pode assistir a qualquer série ou filme. É isso o que eles querem que você acredite. Mas a sofisticação do algoritmo do serviço de streaming faz com que, muitas vezes, o espectador veja uma produção sem nem mesmo ter vontade. O usuário leva em torno de

1,8 s

para decidir por um filme

As imagens de capa influenciam

82%

OS OLHOS QUE TUDO VEEM

Centenas de pessoas são pagas para classificar os conteúdos da Netflix com tags, palavras-chave que indicam gênero, elenco, público-alvo, até detalhes específicos, como o perfil dos personagens, se há um casal, um policial corrupto, humor negro ou cenas fortes. Ao mesmo tempo, a plataforma monitora quando um espectador desiste da série ou de um filme, dias e horas que mais acessa o serviço, se aceita as recomendações, etc.

O PODER DA IMAGEM

Para tornar as recomendações mais atrativas, a Netflix troca a imagem de capa de um filme ou série com base nas preferências do usuário. Stranger Things, por exemplo, tem nove imagens diferentes. A figura de um casal adolescente pode ser mais atraente que a das crianças que protagonizam a trama dependendo do público. Tipografia e cores também ajudam na hora da escolha. Já as produções próprias sempre ganham mais destaque.

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das escolhas

TODOS OS PEDAÇOS DO CÉREBRO

Cada ação do usuário é registrada por meio de uma estrutura de quase 700 microserviços que conversam entre si por meio de uma API (interface de programação de aplicações). Eles catalogam tudo o que assistiu, identificam a qualidade dos vídeos que sua conexão suporta, preparam as melhores recomendações e realizam a cobrança. Curiosamente, esses bilhões de dados da Netflix são mantidos pelos servidores da rival Amazon – nada como um acordo de cavalheiros entre duas gigantes para garantir a concorrência justa.

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QUAL COMUNICÓLOGO É VOCÊ?

Concorde ou discorde das perguntas ou afirmações abaixo até encontrar um teórico para chamar de seu

POR LARISSA BASILIO E RAFAELA BONILLA

GRAÇAS AO WHATSAPP,

NÃO

Você sabe qual é sua casa em Hogwarts?

Literatura e entretenimento podem muito bem se misturar

Você fica chateado quando todo mundo descobre uma banda (ou filme) que só você conhecia?

Textão sobre política? Obrigado, prefiro posts com catioros fofíneos

Saí das redes, me sinto plena

Sai pra lá com esse Platão, gosto de ler bestsellers

WIK

WIK

I COMMON

I COMMONS

S

TOPHER MICHEL CH

RIS

THE

“Se é arte, não é para as massas; se é para as massas, não é arte” (Arnold Schoenberg, compositor austríaco)

APPLEMARK

Você faz testes para saber quem é você nas séries?

OPEN UNIVER SIT Y

É muito triste quando eu faço um post e ninguém comenta nada

STUART HALL

ANDREW KEEN

ADORNO E HORKHEIMER

HAROLD LASSWELL

MARSHALL MCLUHAN

A mídia e a comunicação fazem parte de uma mistura da nossa identidade cultural, como gênero, classe e etnia.

O ambiente digital é o fim da cultura. É um espaço para opiniões rasas, discursos de ódio e falsas relações sociais.

A indústria cultural é o fim da cultura, é manipulação disfarçada de informação. Só a alta cultura pode resolver essa situação.

A comunicação é fundamental no processo democrático, mas também pode ser usada para manipulação.

Os meios de comunicação são extensões do ser humano. Apuram os sentidos e mostram uma realidade nova.

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Qual é o seu match perfeito na comunicação? Com essa questão em mente, elaboramos um infográfico descontraído para que saiba quem é o teórico que vale uma curtida. A partir de perguntas elaboradas pelo professor da Cásper Luís Mauro Sá Martino, que tem início com uma pergunta pessoal (“Graças

ao WhatsApp, meu crush virou mozão?”) o leitor pode avançar no fluxograma, concordando (pelas linhas verdes) ou discordando (pelas vermelhas). Em um mundo já totalmente influenciado pelas redes sociais, esse teste revela que o universo pop e as Teorias de Comunicação têm muito em comum.

MEU CRUSH VIROU MOZÃO?

SIM Nosso mundo é uma mistura de Black Mirror com House of Cards?

Nada como ver um unboxing no Youtube para deixar meu dia melhor

Você se sente vigiado nas redes sociais?

Já conheci amizades verdadeiras em redes sociais

“Esse teste eh mto dhr.” Você entendeu essa frase?

Não curti a ideia, mas se todo mundo escolher, estou nessa

Machuquei o pé jogando rugby. Vou ver no Google como cura isso Chorei quando o Mufasa, pai do Simba, foi morto pelo Scar no Rei Leão

ELL

E

VA RI

TE

HIE BASSOUL S SOP

R E P R O D U ÇÃ O

I COMMONS WIK

NO

IVES ELIS ARCH AB ET

H

Não concorda comigo? Dou ban

WIKI COMMONS

Aff, concordei só para eles pararem de falar

P

WALTER BENJAMIN

PIERRE LÉVY

MARTÍNBARBERO

NOELLENEUMANN

JULIA KRISTEVA

A reprodução da obra de arte retira sua “aura” de exclusividade, mas é possível se divertir. A arte pode ser algo político.

A Internet é uma gigantesca inteligência coletiva, que modificou para melhor nossa relação com a realidade.

A mídia não possui uma capacidade total de manipulação. Cada pessoa cria sentidos e interpretações diferentes.

Para você, a mídia tem o poder de mudar opiniões e convencer pessoas ou, pelo menos, fazê-las ficar em silêncio.

A linguagem é uma mistura sem fim de referências. Não há cultura pura e essas misturas são bem-vindas.

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PORTFÓLIO

12 MILHÕES DE Dois grandes nomes da fotografia brasileira encaram o convite para uma exposição de fotos utilizando apenas um celular nas mãos POR PAULA LEAL MASCARO E RAFAELA BONILLA CRISTIANO MASCARO

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PIXELS

Se um pixel é a menor parte de uma imagem, imagine 3.000px x 4.000px e teremos como resultante uma explosão de 12 milhões de pixels que formam a imagem desta banca de revistas, captada com um celular

NO BRASIL, já há mais de 220 milhões de aparelhos celulares em funcionamento de acordo com a Fundação Getulio Vargas. Quando foi criado na década de 1970, o dispositivo móvel era pesado, grande e custava uma fábula. Hoje, os smartphones, com preços acessíveis, se transformaram em verdadeiros computadores portáteis. Às vezes, esquece-se até que ele sirva para fazer ligações telefônicas. Virou um sinônimo de praticidade e conectividade. E também um gadget de primeira hora na era da fotografia digital. Com um celular nas mãos, um prato de comida pode virar trending topic. Uma cena engraçada pode viralizar. Os selfies tomaram as ruas e redefiniram o enquadramento das imagens. E foi a partir da observação do aumento do número de fotografias com smartphones que começou um movimento para estimular a arte fotográfica e visual feita com esses aparelhos. Foto mobile, iphoneografia, fotografia móvel, mobgrafia, estes são alguns dos neologismos criados para batizar as imagens capturadas por celulares. Os fotógrafos brasileiros Ricardo Rojas e Cadu Lemos, atentos à dinâmica do mercado visual global, criaram a marca MObgraphia, assim mesmo, escrita com “ph”, para desenvolver e promover a prática no País. Para Rojas, o conceito “é o de ser um movimento democrático, inclusivo e divertido”. Em abril de 2018, ocorreu em São Paulo o MObgraphia Mobile Photo Festival, evento que reuniu profissionais da área e trouxe expo-

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A foto superior foi o primeiro clique que Mascaro fez para a exposição. Foi nesse flagrante que percebeu a possibilidade de tirar fotos expressivas usando o celular. Ele procurou fugir do cenário típico da Avenida Paulista fechada aos domingos, focando no cotidiano urbano. “A mistura de coisas [nas fotos] me dá a ideia de cidade”, explica

CRISTIANO MASCARO CRISTIANO MASCARO

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sições e oficinas gratuitas de fotografia com smartphones. Uma das mostras, realizada na Biblioteca Mário de Andrade e com curadoria do fotógrafo Marcelo Greco, chamou a atenção ao desafiar Cristiano Mascaro e José Bassit, dois grandes nomes das câmeras analógicas. Cristiano Mascaro é um arquiteto apaixonado por fotografia. Conhecido por registrar cenas do universo arquitetônico das cidades, sempre com uma câmera profissional a tiracolo, recebeu o Prêmio Internacional de Fotografia Eugène Atget e é autor dos livros A cidade (1979); Luzes da Cidade (1996), O Patrimônio Construído (2002) e Cidades Reveladas (2006). O paulista José Bassit é fotojornalista e publicou o livro Imagens Fiéis (2003), sobre a religião e a fé do povo brasileiro. Suas obras integram os acervos de Instituições como a Pinacoteca do Estado e o Museu de Arte de São Paulo. Os dois profissionais aceitaram a proposta do festival e partiram com o celular em mãos para um dos lugares mais emblemáticos da capital paulista, a Avenida Paulista. O objetivo era registrar as cenas que mais traduzem o Brasil do século XXI. Bassit conta que foi a primeira vez que fotografou com um smartphone. “Tinha alguma resistência com a ferramenta”, confessa. Ele também lembra que no começo errou bastante até conseguir boas imagens. “A câmera do celular fica num lugar super incômodo, bem onde você coloca a mão para segurar o aparelho. Meu dedo saiu em várias fotos”, diverte-se.


JOSÉ BASSIT

CRISTIANO MASCARO

Bassit optou por fotografar aos finais de semana. “Todos os ETs do planeta baixam na Paulista”, brinca sobre a foto do lado direito. Abaixo, o registro de um ato em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018. O fotógrafo conta que a cena tem um valor simbólico forte. ”Para fotografar momentos como esse, é preciso paciência e também sorte”, diz JOSÉ BASSIT

Enquadrar uma imagem com um celular nas mãos é bem diferente de usar uma câmera profissional com recursos de regulagem de foco, luz e velocidade. Bassit explica que, ao usar um equipamento como sua Canon 5D, o visor funciona como uma moldura, fechando o quadro da imagem. Já com o celular, a imagem é reproduzida na tela, o que dificulta o enquadramento e pode gerar distração. Mascaro conta que já fotografava com seu aparelho, mas sem grandes pretensões. Para os dois experientes fotógrafos, uma das vantagens em clicar com um celular é poder flanar pelas ruas e ficar praticamente invisível enquanto fotografa. “Deixei de ser aquela pessoa inconveniente e suspeita, vítima dos seguranças de plantão”, desabafa Mascaro. O fotógrafo Bassit, que tem um viés mais documental em seus trabalhos, aproveitou a sensação de invisibilidade do celular para mostrar a inserção do ser humano dentro do contexto urbano. “Quem sabe daqui a alguns anos as pessoas vão olhar minhas fotos e falar: nossa, as pessoas andavam assim na rua?”, afirma. Mascaro optou por registrar o cenário do entardecer na Paulista e acredita que o fotógrafo pode fazer fotos boas independente do equipamento. “O artista é o mesmo, mas vai precisar ter atitudes diferentes”, diz. Sobre a questão da popularização da fotografia, os dois não encaram como algo ruim. Para o fotógrafo arquiteto, o celular deu uma liberdade enorme para as pessoas. Quanto mais pessoas têm acesso à fotografia, mais elas educam o olhar. “Não precisa ser difícil para ser bacana”, defende Mascaro. Se Mascaro tem alguma dica para tirar boas fotografias com um celular? Ele é enfático: “Dicas? Por favor, senhores portadores de um celular, olhem o mundo à sua volta, há coisas interessantes para serem registradas. Cenas muito mais surpreendentes do que aquele pouco provável charme de um selfie. Ah, e deixem o pau de selfie em casa”, aconselha. Anotaram? @

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ELE É O ‘TROFÉU DO ANO’

Com mais de 40 milhões de inscritos, Kondzilla é dono da maior produtora de música funk no Brasil POR RAFAELA BONILLA

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Da periferia do Guarujá, litoral sul paulista, à ostentação do mundo funk. Essa jornada teve início quando o produtor audiovisual KondZilla usou o dinheiro do seguro da morte da mãe para comprar uma câmera e produzir videoclipes. Hoje já é o terceiro maior canal de Youtube do mundo. Em 2019, chegará na Netflix o último grande projeto do Konrad Dantas (seu nome de batismo): uma série sobre funk, periferia e religião. Em agosto, ele veio à Cásper para falar com os alunos. Qual é o segredo para transformar o funk em um produto audiovisual e criar um canal de sucesso? Konrad Dantas: Se eu soubesse o segredo talvez contaria. Lá atrás, a gente identificou o nosso público e nos dedicamos a ele. Era um público onde muitos realizadores tinham preconceito. Hoje, é mais fácil com a audiência, a curadoria e as plataformas digitais que temos, e desperta novos interesses em investidores. Mas, quando começamos, ninguém queria trabalhar com esse gênero musical. E não foi uma sacada trabalhar no digital. Foi o único recurso que a gente teve. Queremos impactar o maior número de pessoas que a gente conseguir. Sobre o mercado audiovisual, o que tem feito que agrada o público? KD: A gente trabalha com o sonho. Existe o sonho do que você gostaria de viver e a gente trabalha muito com isso. A gente relata, registra, retrata o que as pessoas ali do nosso target [público-alvo] vivem ou querem.

O seu compromisso é falar com o jovem de favela? KD: No começo você pensa muito em você mesmo, em como viver mais confortável e ter uma vida melhor. Depois que acaba conquistando isso, enxerga que as coisas materiais não são o que te fazem feliz e vê a responsabilidade que tem com outras famílias, da audiência que está gerando e da mensagem que está entregando. A partir daí, o foco muda e começa a pensar no coletivo. Hoje em dia as comunidades LGBTs, feministas e negras têm ganhado força. Como isso impacta no audiovisual que produz? KD: Não impacta tanto assim, porque justamente nosso target é outro.

palavrão. Não filmamos com mulher de lingerie ou de biquíni. E eu acho que isso já é um baita avanço. É muito fácil criticar a gente por objetificação da mulher. Vocês não fazem ideia da briga que a gente compra com o mercado, com a indústria do funk e até dentro da nossa própria companhia por não aceitar fazer esse tipo de trabalho. Eu venho buscando me posicionar de uma maneira diferente, mas a estrutura é muito grande. Não é fácil, mesmo sendo dono da companhia. Acontece de culpabilizar apenas o funk, certo? Por que acontece isso? KD: É porque o funk é marginal. O funk nasceu à margem da sociedade, à margem do mundo ideal. Então é mais fácil criticar. Como um comunicador que inova na área, um influenciador, que conselho daria aos alunos? KD: Não ficar se lamentando se foi privilegiado ou não. Chega um momento na sua carreira que não interessa se foi alfabetizado em duas línguas, morou fora do país ou se não teve recursos. O conteúdo audiovisual não tem bula para falar por que ficou ruim. Deu play no audiovisual, tem que ficar bom.

O movimento feminista, que está conquistando espaço nas discussões, criticam alguns pontos em vídeos de funk, como mulheres rebolando e utilizando pouca roupa. Como o Kondzilla vê essa discussão? KD: Como um aprendizado, né? A gente faz diversos tipos de trabalhos, tanto para meus artistas quanto para os que são de outras companhias. Não temos o total controle, mas tentamos fazer dentro do que cabe a nós. Hoje não filmamos nada que incita violência, que tenha arma ou

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Há pouco tempo você lançou uma marca de roupas. Tem ainda uma gravadora e produtora e também é empresário de artistas. Pretende migrar para outras áreas?

KD: O sonho tem que ser uma etapa, não uma meta. A partir do momento que vai conquistando as coisas, você vai ampliando os seus outros sonhos. Eu queria ser um canal do Youtube, me tornei. Queria fazer uma marca de roupa, já fiz. E agora o que faço? Tudo o que puder fazer para expandir meu propósito de impactar o jovem de favela, eu vou fazer. Não vou medir esforços.

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Hora de debater A Semana da Comunicação da Cásper Líbero recebeu, na última semana de agosto, profissionais para discutir os desafios de mercado

VIVRE LA DIFFÉRENCE Marie Naudascher e Sonia Blota falaram de suas experiências como correspondentes na cobertura internacional. Enquanto Marie, parisiense de nascença, atua há nove anos no Brasil, Sonia ficou na França trabalhando pela Rede Bandeirantes por

sete. A jornalista francesa saiu de seu país aos 23 anos. A escolha se deu pelo fato de o Brasil manter boas relações diplomáticas com a França. Hoje, trabalha como repórter freelancer para veículos francófonos. Uma das primeiras dificuldades que Sonia

Blota sentiu ao começar a trabalhar em Paris foi a diferença de fuso horário entre os dois países, de cinco horas. “Na verdade, a vida pessoal é que fica na berlinda. Mas é aquela história: quem está na chuva é para se molhar”, comenta. (Thiago Bio)

ELA FAZ ACONTECER

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A casperiana Luiza Conde, formada em 2011, é diretora de arte do MasterChef Brasil, um dos maiores êxitos da TV Bandeirantes. A sua principal função é a de dirigir o departamento responsável por costurar o visual do projeto, a paleta de cores, a cenografia e até os figurinos. Foi nesta área, aliás, que tudo começou para ela, ao iniciar a carreira no departamento de figurinos do SBT. A jovem também trabalhou antes como freelancer em curtas e longas metragens, como no filme As Boas Maneiras, e até em um episódio da série Black Mirror filmado no Brasil. Luiza contou que um bom diretor de arte deve ter uma boa bagagem artística e, sobretudo, saber lidar com os dos desafios dos sets de gravação, nos quais erros em pequenos detalhes podem ser fatais para a cadeia produtiva. (Henrique Artuni)

Cena do filme As Boas Maneiras, na qual Luiza Conde foi assistente de arte

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ESTÚDIO DE ANIMAÇÃO

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Depois de mais de 20 anos trabalhando com a Turma da Mônica em áreas como desenho, animação e roteiros, Dario e Elizabeth Bentancour decidiram criar suas próprias obras para dialogar com um público que conhecem bem: as crianças. O SuperToons, fundado em 2008, é o responsável do maior sucesso recente dos desenhos animados infantis brasileiros: O Diário de Mika. A série conta a história de uma menina de 4 anos que inventa e protagoniza aventuras que refletem os desafios do cotidiano. O desenho foi exibido nos canais de televisão da Disney em mais de 130 países e indicado ao Emmy Kids Awards 2017. O casal lembrou da responsabilidade de produzir desenhos infantis e como é preciso inovar constantemente para atingir o público. “O segredo é o roteiro. Mesmo que o desenho seja maravilhoso, o que realmente prende é uma boa história”, recomenda Elizabeth. (H.A.)


CENTRO DE EVENTOS

PRÊMIO CÁSPER Os Trabalhos de Conclusão de Curso escolhidos como os melhores de 2017. JORNALISMO: Edifício Joelma - O Legado das Cinzas (Documentário) Alunos: Gabriella Lima, Luisa Panza, Mônica Pirrongelli, Stela Zeferino. Orientador: Pedro Ortiz PUBLICIDADE E PROPAGANDA: Agência Torus – Cliente Hearts Bleed Blue Alunos: Bruno De Pauw, Carolina Simonetti, Daniel Luiz Gamaliel, Igor Gonçalves, Luis Lagoa, Marina Valentim, Sylvia De Noce, Victor Azenha. Orientador: Marcelo Rosa RÁDIO, TV E INTERNET: Música pra Quem? Alunas: Letícia Espíndola e Gabriela Henriques. Orientadora: Tatiana Ferraz RELAÇÕES PÚBLICAS: Agência Clio Comunicação - Cliente Museu da Casa Brasileira Alunos: Beatriz Novais da Silva, Frances de Abreu Barreto, Loryene Sayumi Nakahara, Marcela Alves de Sousa. Orientadora: Else Lemos MONOGRAFIA*: Comunicação humanitária e de proteção aos direitos humanos na sociedade do espetáculo Aluna: Isabela Ospital. Orientadora: Ethel Pereira CIDADANIA* Cidade dos afetos (Reportagem Multimídia) Alunas: Isadora Pinheiro, Claudia Ratti e Nathalia Parra. Orientadora: Michelle Prazeres * 1º lugar entre todos os cursos

INCLUIR NA E PELA COMUNICAÇÃO Pessoas portadoras de deficiência sofrem com a exclusão social, mas narrativas acessíveis podem fazer diferença. Significa que um texto, um vídeo ou um áudio precisa ser compreendido por todos, tenham eles síndrome de Down, não enxerguem ou não escutem. “A comunicação acessível é o melhor caminho. Seja para a comunicação, seja para a educação”, cobra a consultora educacional Aline Santos. No debate na Cásper, ela dividiu a mesa com Renato Godoy e Rodolfo Araújo, casperianos

de formação. Godoy é assessor de relações governamentais do Instituto Alana, enquanto Araújo trabalha no Todos Pela Educação (TPE), como diretor de mobilização. O TPE é uma instituição que assegura o direito à educação básica de qualidade a partir de um ensino inclusivo. Já o Instituto Alana tem como um dos seus objetivos a erradicação da propaganda voltada ao público infantil. O tema foi a inspiração para as redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2014. (T.B.)

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Jornalismo Empreendedor Quando uma iniciativa jornalística faz diferença? Em meio às mudanças estruturais dentro e fora das redações, é vital localizar o que pode estar apontando para o futuro. É com esse objetivo que a empresa social PonteAponte e a Faculdade Cásper Líbero se uniram para criar o Prêmio Jornalista de Impacto, procurando ampliar a cobertura da imprensa sobre o tema. O PonteAponte busca selecionar e avaliar projetos significativos na sociedade e também potencializar os atores desse ecossistema. Com inscrições abertas até 31 de janeiro, é aberto a alunos, jornalistas formados e iniciativas em contextos periféricos e comunitárias de jornalismo no campo de investimento e negócios de impacto. Em cada uma das quatro categorias previstas, haverá uma prêmio de 3,5 mil reais. Mais informações em https://www.premiojornalistadeimpacto.com.br/. (Paula Leal Mascaro)

O Congresso de RP A Faculdade Cásper Líbero receberá o Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp). O Abrapcorp já está na sua 13a edição. O evento ocorrerá entre os dias 6 e 9 de maio. O tema será “Comunicação, Opinião Pública e Organizações”. Nele serão discutidos assuntos que englobam desde as redes sociais, política, organizações até questões

Nos dias 5, 6 e 7 de novembro ocorreu o 15º Fórum de Pesquisa na Cásper Líbero. O evento foi organizado pelo Centro Interdisciplinar de Pesquisa (CIP) e contou com apresentações de alunos e professores pesquisadores. O evento, aberto para o público interno e externo, foi uma oportunidade para que discentes e docentes apresentassem os projetos em andamento. Os trabalhos abarcam os mais diversos ramos das teorias da Comunicação, como fotojornalismo, sociedade do espetáculo e estudos culturais. O coordenador do CIP, Eric de Carvalho, ressalta a importância do Fórum como um momento de troca de conhecimento. “O fazer da pesquisa é coletivo”, afirma Carvalho. Também destaca o valor de fazer pesquisa e ter um espaço voltado para a iniciação científica em instituições de ensino. “O desenvolvimento está sempre ligado à pesquisa. Pesquisando você está desenvolvendo soluções que tangem, no nosso caso, a comunicação”, conclui. (Pedro Garcia)

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CARLA CRISTINA

Conhecimento exposto

sobre territorialidade e fronteiras. O evento é organizado em parceria com a Coordenadoria de Relações Públicas e será aberto para os estudantes dos quatro cursos da Faculdade e profissionais da área de comunicação. A convidada internacional Alexis Wichowski, professora da Universidade de Columbia (EUA), está confirmada para a abertura do evento. (Rafaela Bonilla)


SUMIRAM OS MONUMENTOS São Paulo teria 1.474 monumentos espalhados pela cidade. Mas pelo menos 25% deles não estão onde deveriam estar. Simplesmente sumiram, foram roubados ou encontrados destruídos. É o caso da placa do marco zero da Paulista, que comemora seus cem anos de existência, de paradeiro ainda desconhecido, mas que consta na lista do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura paulistana. O endereço seria na frente do Edifício Gazeta, mas no local atualmente não há nada. A descoberta surpreendeu o professor da Cásper Líbero João Alexandre Peschanski, um dos editores da Wikipedia no Brasil. “Não sabia a proporção, mas hoje está bem claro”, diz. O desaparecimento de monumentos poderia passar despercebido dos paulistanos não fosse o trabalho desenvolvido por Peschanski, que desde 2014 utiliza a enciclopédia colaborativa, universal e multilíngue em sala de aula. Os alunos dos cursos de Jorna-

lismo, Rádio, TV e Internet e Relações Públicas são encarregados em produzir e atualizar verbetes, contribuindo para a difusão do conhecimento. No caso dos monumentos, embora a lista do DPH informasse a existência de 1.474 monumentos, os estudantes conseguiram localizar 1.102 desde 2017, quando o projeto foi iniciado. Uma vez fotografados, Peschanski aproveita as coordenadas geográficas salvas nas informações de cada foto e, com isso, cria um mapa dinâmico, adicionando outros dados, como a data de criação e a autoria do monumento. O projeto faz parte de uma iniciativa maior, chamada GLAM-Wiki, dedicado a melhorar a cobertura da Wikipédia em temas relacionados à arte e cultura. Em outra parceria com o DPH e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), o professor e seus alunos levantaram os bens tombados

da capital paulistana, como a Vila Maria Zélia, o Moinho Matarazzo e o Parque do Trote, entre outros locais. O trabalho resultou em 361 verbetes, com 3.304 fotografias, e que pode render ainda a criação de um guia turístico colaborativo. Peschanski, cientista político, explora o formato da enciclopédia como instrumento pedagógico em projetos variados, multidisciplinares e relevantes. É o caso da parceria com a Comissão Nacional da Verdade, que ajudou a tornar públicos os relatórios dos desaparecidos durante a ditadura militar, com o Museu Paulista, conhecido por Museu do Ipiranga, na criação de verbetes e versões audíveis das obras de arte para deficientes visuais, e outro sobre as eleições municipais de São Paulo de 2016. (R.B.)

Para ter acesso aos monumentos e ao mapa dinâmico, acesse bit.ly/ MapaMonumentosdeSãoPaulo RODRIGO TETSUO

GIULIA PALERMO CÁSPER


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ASPERIANAS ARQUIVO

40 anos de resistência POR LORENA ALVES E THAÍS CHAVES* Há anos, o estatuto que regulariza o Centro Acadêmico Vladimir Herzog estava inativo. A entidade existe desde 1978. Por quê? Quem a fundou? Essas foram as questões que pairavam sob as mentes dos estudantes da Cásper Líbero. Admitida a necessidade por nós, da gestão de 2018, de realizar uma celebração de 40 anos, pudemos, durante o processo de pesquisa e produção, responder a essas perguntas. Descobrimos fatos inusitados e percebemos que aprender sobre nossa história como entidade também era saber mais sobre a história da Cásper Líbero e da comunicação brasileira, nossa presença na história do movimento estudantil e, principalmente, nas lutas que nos guiaram como nação à redemocratização. Nossa curiosidade aumentou quando José Hamilton Ribeiro, repórter de guerra que estudou na Cásper na década de 1950, nos confidenciou, em 2018, que presidiu o Diretório Acadêmico Cásper Líbero, entidade anterior à criação do CAVH. Durante nossa semana de celebração, contamos com Osvaldo Higa, que estudou na Cásper durante o período de extinção do Diretório Acadêmico, fechada pelo diretor da época - era 1977, auge do AI-5. Um ano depois, nossa entidade estudantil surgiu, e foi consenso entre os alunos que se chamasse Vladimir Herzog, em homenagem ao jornalista e professor da ECA-USP que havia sido assassinado 3 anos antes no DOI-CODI. Escolhemos os dias 17 a 21 de setembro para uma semana de memória, celebração e reflexão, que teve o objetivo de reunir o simbolismo de Herzog às atuais discussões políticas e de comunicação, 58

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partindo do ideal de que não há como haver jornalismo e comunicação sem reconhecer quem lutou por nosso passado e nossas profissões. Assim, foi também uma semana de discussão, política e ativismo. Produzimos a exposição De Vladimir Herzog ao CAVH: Lutas e Legados, com fotografias que recebemos de Rivaldo Novaes, um dos fundadores do CAVH, e documentos do Instituto Vladimir Herzog e da biblioteca da Faculdade. Descobrimos que em décadas anteriores, o nosso espaço de resistência foi polo de manifestações artísticas, como a banda Língua de Trapo que realizava shows para e com os alunos no quinto andar, que sempre foi espaço de organizações políticas e partidárias. Os grupos disputavam a gestão do CAVH e muitos compunham o movimento estudantil brasileiro. Nos documentos, vimos estudantes muito ativos com os congressos da UNE e as pautas vigentes na sociedade brasileira. Em um ano como 2018, em que o presidente eleito deslegitima a luta popular, dos estudantes e pela democracia, tendo dito até que “Vladimir Herzog não foi assassinado, mas se suicidou” e a ascensão de grupos que compactuam com esta visão política, organizar uma semana que celebra 40 anos de uma entidade estudantil que representa essas lutas simboliza o quanto nossa existência e resistência são e devem ser contínuas. Viva o Centro Acadêmico Vladimir Herzog! Viva o movimento estudantil! * Presidentas do Centro Acadêmico Vladimir Herzog e estudantes de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero


NA ESTANTE

Para acalentar os desassossegos da pesquisa em comunicação Métodos de Pesquisa em Comunicação. Luís Mauro Sá Martino. 320 págs, 70 reais. Editora Vozes, 2018.

Professora, por onde eu começo? Meu tema é relevante? Como escrevo meu projeto? Estes teóricos são os melhores? Posso publicar meu artigo quando terminar? Como funcionam os congressos? Estou inseguro com a minha escrita acadêmica...são tantas as inquietações de alunos e alunas quando começam a vida de pesquisadores! Em Métodos de Pesquisa em Comunicação: projetos, ideias, práticas, o professor da Cásper Líbero Luís Mauro Sá Martino organiza alguns destes desassossegos, tecendo diálogos e apontando caminhos de possibilidades. Ainda que uma primeira impressão possa sugerir que se trata de um ‘Guia Prático’, o livro é, na verdade, um desmanual. O olhar sensível de Martino dá conta de abarcar os principais momentos do processo de pesquisa, que faz por meio de um fio invisível que vai construindo tessituras de afeto com o leitor. Isso se dá, porque o livro é inspirado em episódios vividos por Martino na sala de aula e em suas orientações, como ele mesmo explica. A obra pulsa. Na primeira parte do livro, sobre a pesquisa em comunicação, o autor apoia uma reflexão sobre os primeiros passos de uma pesquisa. Na segunda parte, sobre o projeto de pesquisa, apresenta orientações preciosas sobre questões práticas, como a escolha do tema, o universo do orçamento, do cronograma e das referências. Na terceira parte da obra, sobre os tipos de pesquisa, fala das qualitativas e as quantitativas. Na quarta, sobre os métodos para conseguir dados. Em seguida, na quinta, explica as possíveis formas de análise de dados. Na sexta parte do livro, aborda a escrita acadêmica. E na parte sete, a vida acadêmica, discorrendo sobre as etapas da jornada, os eventos, as revistas e publicações, a relação de orientação, as bancas, as publicações, os orçamentos; e organiza dicas de como apresentar trabalhos e estudos.

Em um item especialmente relevante em contexto de aceleração social, Martino traz uma análise sobre como organizar o tempo de pesquisa em uma reflexão para além do cronograma, que nos provoca a pensar sobre saúde mental e ritmo de vida de quem se propõe a viver a sua pesquisa. Na oitava e última parte do livro, o autor se concentra na ética da pesquisa em comunicação, abordando a responsabilidade do pesquisador e episódios de plágio. Martino afirma que seu livro não é uma tentativa de “pensamento original”, nem de conclusão absoluta ou “definições fechadas” sobre a pesquisa no campo. Na apresentação e ao final de cada capítulo, ele honra as obras de referência na área e faz jus ao espírito gregário e colaborativo que evoca. Com sua humanidade e generosidade, Martino publicou uma obra que é um excelente guia para iniciar e nutrir aquelas boas conversas entre alunos e professores que originam os bons projetos de pesquisa em Comunicação. Um trabalho atual, para a afirmação da importância da pesquisa na área e para o agenciamento de novos pesquisadores e pesquisadoras, interessados em se conectar com este universo por meio de relações significativas, afetivas e sensíveis com o que já foi vivido por um Mestre que tem bastante a ensinar. (Michelle Prazeres)

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Um painel imagético Em A carta, o abismo e o beijo, Baitello reflete sobre a disseminação de imagens Conta a narrativa mítica da Odisseia que Proteu possuia dons oraculares, o que atraia uma legião de curiosos que desejavam saber os acontecimentos vindouros de suas vidas. Quando os humanos se aproximavam do sábio oracular, ele sagazmente desaparecia ou metamorfoseava-se continuaA Carta, o Abismo, o Beijo. mente em aparências Norval Baitello Junior, 136 págs., PAULUS Editora, 2018, monstruosas. Para que 42 reais Proteu revelasse o porvir, era necessário agarrá-lo persistentemente e não soltar, tal como o fez Menelau. Em certos aspectos, o ato de pensar sobre as imagens na contemporaneidade é um agarrar-se a Proteu. É saber que sua dimensão estética é fugidia e que, para mirar suas camadas simbólicas profundas, é preciso antes vislumbrar suas fendas crepusculares do que percorrer sua superficialidade luminosa. Para compreender a imagem, é preciso estar atado a ela e seus amA intenção da imagem bientes de dismediática não é estética. seminação. No recente Sua ação pretende A carta, o abisdesencadear o vetor de movimento oposto ao da mo, o beijo, Norval Baitello fruição” Junior propõe justamente um atar-se às imagens que transitam entre os ambientes artísticos e mediáticos. Na obra, o comunicólogo e professor

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do programa de Pós-GraEsta é a marca do em mediático contemporâneo, duação Comunicação a marca de uma nova e Semiótica transcendência, o apaga- da PUC São mento dos rastro e seu ge- Paulo, envererador, o corpo” da por esses ambientes e suas imagens renunciando aos esquematismos de análise e escritas professorais tão comuns em obras do gênero. Estilisticamente, o autor reafirma sua verve poética lançando mão de uma escrita concisa e com alto potencial imagético, alinhavando conteúdo e forma da obra sem perder o rigor acadêmico necessário a um livro do gênero. O autor segue pistas específicas para a investigação, como mandam as cartilhas acadêmicas, mas para o leitor abrem-se distintos caminhos: é possível iniciar a leitura pelos últimos capítulos combinando movimentos de aproximação com os iniciais sem prejuízo. As combinações são caleidoscópicas e a relação entre A roda imagem e a textos apresenroda da vida, em virtual tados em evensimbiose, constroem a tos acadêmicos, publicados aparência de cândido. em catálogos Mas sabemos que são de exposição artimanhas da virtualidade” ou mesmo conversa do autor com seus mestres e suas memórias compõem um profundo painel imagético. Como Menelau que se agarra a Proteu, Baitello agarra-se às imagens e seus ambientes de exponibilidade e instiga-nos a pensar as abissalidades da imagem, seus simbolismos arcaicos e (por que não?) suas pistas oraculares. (Camila Garcia e Fabio Ciquini)


O aprender pela crítica Formação em Jornalismo: da prospecção dos acontecimentos à edição. Bruno Souza Leal (org.), 94 págs, Editora UFMG, 2018, 29 reais

Apresentar as etapas de produção da notícia em uma perspectiva crítica, que entende o jornalismo em suas dimensões éticas e sociais: essa é a proposta de Formação em Jornalismo: Da prospecção dos acontecimentos à edição, organizado por Bruno Souza Leal e escrito por professoras e professores do curso de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais. Não é a primeira incursão dos autores no tema: uma parte já havia publicado Para entender o jornalismo, pela editora mineira Autêntica, em 2014. Formação em Jornalismo segue a trilha com uma temática diferente: apresentar e discutir a prática do jornalismo, desde o planejamento de pautas, a pesquisa de dados e apuração, tema dos três primeiros capítulos, até um detalhamento de

entrevistas, a edição e a produção de texto, nos seguintes. Nascido da experiência de ensino das autoras e autores, Formação em Jornalismo traz algumas das marcas da sala de aula, no melhor sentido da palavra. Há uma preocupação em equilibrar teorias, reflexões e exemplos, seguindo, em linhas gerais, a dinâmica de uma conversa em aula. Não faltam, nesse sentido, convites à participação e envolvimento das leitoras e leitores. Isso fica visível, por exemplo, na estrutura dos capítulos. Quase todos começam com um tipo de quadro, resumindo alguns dos conceitos e pontos-chave do tema, permitindo uma consulta rápida aos tópicos principais. Em seguida, a parte principal detalha o assunto com exemplos e, em alguns casos,

desenvolvimentos teóricos. No final, um conjunto de perguntas, intitulado “Provocações”, amplia a discussão com questionamentos endereçados às leitoras e aos leitores, sugerindo a análise e interpretação de situações práticas. Não faltam questões conceituais: o primeiro capítulo traz um panorama do ensino e formação de jornalistas, enquanto o último discute questões e problemas éticos. Nesse sentido, embora dirigido a estudantes, o livro também pode contribuir com a atividade de professoras e professores na elaboração de planos de ensino e aulas, na medida em que a distribuição do conteúdo parece também se organizar como um curso ou planejamento de disciplinas em cursos de graduação. (Luís Mauro Sá Martino)

A obra, gestada na Universidade Federal de Minas Gerais, equilibra trocas, reflexões e exemplos sobre a prática do jornalismo

FOCA LISBOA/UFMG


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Os antiviralizadores A jornalista Patrícia Teixeira mostra a importância de ter uma comunicação digital efetiva e um plano de gestão de crise nas mídias sociais para sustentar uma empresa no ambiente online


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REVISTA CÁSPER #26  

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