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ANO 2 NÚMERO 5 Julho de 2013

o m s i n a i r a ieta t d e a d Vegis os impactoassaúde? Qua tariana n vege

Minimalismo

Greenmeeting

Biogás

Histórias de pessoas que resolveram simplificar a vida

As metas na área de sustentabilidade que os países devem cumprir

Vale a pena investir na transformação do lixo em energia no Brasil?


Carta ao leitor Olá, leitor!

E Ano 2 Número 5 Julho de 2013 Editoração gráfica: Beatriz Aguiar Rosângela Menezes Arte: Beatriz Aguiar Rosângela Menezes Colaboladores: Allan Gomes Beatriz Aguiar Laís Souza Edição: Rosângela Menezes Capa: Rosângela Menezes Foto: Dorota Kaszczyszyn/ SXC Contato: rosangela@brasil21.net @ revistabrasil21 Anúncios: comercial@brasil21.net Cx. Postal 11611 CEP: 71200-980 Brasília-DF Publicação trimestral - distribuição gratuita Tiragem: 1000 exemplares Brasil 21 on-line www.brasil21.net

m julho de 2012 a revista Brasil 21 lançava o seu primeiro número, a matéria especial de estreia colocava em pauta a mobilidade urbana e os impactos da Lei Nº 12.587, que estimula a utilização de transportes alternativos e a expansão do sistema de transporte público. Um ano depois, o país enfrenta os mesmos problemas com engarrafamento, ônibus lotados e insegurança para ciclistas e pedestres. No dia 1º de julho, uma estudante da Universidade Federal de Santa Catarina foi atropelada por um ônibus pouco antes de chegar ao campus de bicicleta. Três dias depois outro ciclista foi atropelado, também por um ônibus, na cidade do Rio de Janeiro. Nesta edição, a Brasil 21 traz histórias de pessoas que simplificaram a vida e trocaram o carro, gastos desnecessários com cartão de crédito e uma vida agitada por uma rotina mais simples e que se adaptasse a filosofia do Menos é mais. A matéria de capa é sobre os benefícios e os cuidados que uma dieta vegetariana deve ter. Hoje, no Brasil, existem 15,2 milhões de vegetarianos, a maioria deles reside no sudeste, porém, a cidade de Fortaleza, no Ceará, é a que possui maior concentração de vegetarianos, quando se considera a densidade demográfica. A nossa editora foi até Brasília para o XII Encontro Verde das Américas para conferir o que mudou desde a Rio +20 e quais as metas que os países devem cumprir até a próxima reunião da ONU, no ano de 2015. A entrevista é com o empresário catarinense Heitor Blum Thiago, que criou um projeto inovador que recicla e destina corretamente 60 toneladas de lixo eletrônico por mês, na cidade de Florianópolis. Boa leitura!

Equipe Brasil 21


Foto: TMarina Avila/sxc

Foto: Divulgação

Sumário 4

EM FOCO

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ECONOMIA

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Os principais assuntos debatidos durante o XII Encontro Verde das Américas

Cresce o número de pessoas que reduzem o ritmo de vida para viver melhor com menos

CAPA Quais os benefícios e os cuidados que devem ser tomados numa dieta vegetariana

ENTREVISTA Heitor Blum Thiago: “Vocês produzem muito lixo eletrônico e o CDI pode ajudar a diminuir este impacto ambiental”

ENERGIA O passo a passo da transformação do lixo doméstico em energia eletrica


EM FOCO

XII Encontro Verde das Américas O evento teve como tema “Sustentabilidade“ e aconteceu nos dias 21 e 22 de Maio, no Museu Nacional, em Brasília

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Por: Rosângela Menezes

uando o relógio marcou 20 minutos de atraso um senhor sentado na fileira da frente começou a bater palmas e foi seguido por estudantes, professores e trabalhadores, interessados nos temas discutidos no XIII Encontro Verde das Américas. As palmas eram uma exigência para que a solenidade, que ocorreu no Museu Nacional da Répública e reuniu chanceleres, embaixadores, pesquisadores, ministros e secretários do governo, nos dias 21 e 22 de maio, não demorasse para começar. Quase um ano depois da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida também como Rio+20, o Greemeetting teve como foco a sustentabilidade. As lideranças nacionais e internacionais discutiram formas de como conquistar o desenvolvimento econômico de forma a causar menos impacto no meio ambiente. O debate resultou na Carta Verde das Américas, que foi publicada em 5 de junho, dia do Meio Ambiente. Fernando Coimbra, chefe da assessoria do Ministério do Meio Ambiente ressaltou que o momento é histórico, pois a Rio +20 lançou metas e permitiu que os países debatessem qual o melhor caminho para se chegar a um modelo de desenvolvimento sustentável, que trarão bons resultados até o ano de 2015. “Ficou muito claro que temos que dar ênfase a erradicação da pobreza e promover um modelo estrutural de consumo sustentável que reduza os gases do efeito estufa”. O secretário de Meio Ambiente do Governo do Distrito Federal destacou a importância de disponibilizar um legado melhor do que foi deixado. “É preciso agir localmente, mas pensar de forma global”. Carlos Ugo Santander, Doutor em estudos comparados sobre a América Latina presidiu a primeira mesa de discussão e lembrou que, quando se fala em desenvolvimento sustentável fica claro o papel importante do Estado, das Organizações não-governamentais, dos movimentos sociais e da sociedade civil, mas os grupos vulneráveis, a parcela afetada com os desastres ambientais costumam ser esquecidos, como se não fizessem parte da 4

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temática socio-ambiental. Para ele, o desenvolvimento sustentável é muito importante no contexto da globalização e da internacionalização da economia em que se evidencia as assimetrias, principalmente, no campo econômico e que afeta de forma direta essa população vunerável. Exemplo Mineiro: Danilo Vieira Júnior, Secretário de Estado Adjunto de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, falou sobre o exemplo mineiro do licenciamento ambiental para o desenvolvimento sustentável, que ocorre em três etapas: licença prévia- viabilidade se ele pode ou não ser construído na região; licença de instalação - onde é analisado o projeto executivo e licença de operação, para verificar se tudo o que foi acordado foi cumprido para poder liberar a construção do empreendimento. O licenciamento ambiental em Minas Gerais até 2004 era realizado na Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), Instituto Estadual de Florestas e Instituto Mineiro de Gestão de Águas. Mas em 2007 houve uma descentralização do modelo. As licenças que antes eram tramitadas apenas em Belo Horizonte, passaram a ser solicitadas em nove estruturas regionais, que estão subdividas em 42 núcleos de regularização. A ideia é levar a licença ambiental para perto do problema, pois foi criado colegiados formados por moradores da região, que entendiam das particularidades do local para definir se o licenciamento é viável ou não. Além disso, no modelo mineiro a equipe que trabalha nos processos de licenciamento ambiental atua de forma integrada, o engenheiro entende do trabalho do advogado, que entende do trabalho do zootecnista. “A ideia é acabar com a figura do dono do processo, de forma que se uma pessoa fique doente ou tire férias, o trabalho não é interrompido. É uma forma de dar continuidade, pois várias pessoas entendem das etapas envolvidas no processo”, declarou Vieira Junior. O secretário ressalta ainda que “acredita no modelo participativo, pois só conhecendo o ponto de vista de todas as pessoas envolvidas para que tenhamos um licenciamento ambiental de qualidade”. Inovação- Alon Lavi, embaixador de Israel, falou sobre a forma com que o país utiliza a inovação e a tecnologia para alcançar o caminho da sustentabilidade. Ele destacou que esse investimento é importante, pois os recursos naturais da região é limitado. A saída para o problema foi criar políticas públicas em empreendedorismo, educação e reforçar o compromisso assumido nas reuniões promovidas pela ONU. Um dos destaque é na área de Energia renovável e fotovoltáica. Hoje, 90% dos lares de Israel têm painéis solares e os prédios de até cinco andares são obrigados a a utilizados no telhado, inclusive novas células foram fabricadas com captação de energia dos dois lados para alimentar o mercado. Além disso, as células fotovoltáicas são vendidas a preço acessível de forma que seja interessante para o consumidor utilizar a energia solar para alimentar suas casas. “”Nós não temos petróleo, então tentamos ser autossuficientes utilizando células fotovoltaícas”, destacou.

A saída é aliar capital natural e financeiro

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ex-ministro de Estado de Meio Ambiente do Governo Brasileiro , José Carlos Carvalho falou sobre as metas de sustentabilidade na Rio + 20 e como o acordo firmado na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, é um passo para um mundo mais justo e próspero. José Carlos Carvalho ressaltou que o momento é expressivo, pois os países têm postergado a fixação de metas para cumprir uma plataforma de sustentabilidade no plano internacional. Mas, durante a Rio +20, quando ninguém mais acreditava numa solução, conseguiu-se um acordo para estabelecer a partir de 2015, objetivos e metas de sustentabilidade para enfrentar as pressões climáticas, a proteção da biodiversidade e dos oceanos. Ele destacou ainda a importância do capital natural, pois não é possível repetir o erro do passado e apenas se preocupar em organizar o capital financeiro vinculado ao trabalho. Hoje, é necessário harmonizar o capital financeiro, o trabalho e o capital natural. “Nós sabemos que a economia não funciona sem os insumos que extrai da natureza e nós temos trabalhado sem valorizar o capital natural, eu quero destacar a importância do capital natural, principalmente, quando discutimos a América Latina”. Diante desse cenário, o ex-ministro declarou que o mundo está vivendo um momento especial, pois desde o protocolo de Kyoto não se conseguia emplacar metas no plano global, e mesmo assim, os acordos assumidos não foram cumpridos. “O ano de 2015 tornou-se um ano emblemático, quase cabalístico, pois a Organização das Nações Unidas tem mandato para reduzir os gases do efeito estufa e estabelecer metas para implementar a sustentabilidade de fato” Julho 2013

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Foto: Klaus Bernpaintner/sxc

Proteção dos rios foi incluída na agenda estratégica da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica

OTCA busca novos investimentos

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Secretário Geral da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e embaixador do Suriname, Robby Dewnarain Ramlakhan, teve 20 minutos para falar sobre a importância das ações da OTCA na integração da Amazônia e explicou que quando se fala no tratado existem duas palavras sagradas: soberania e unanimidade. Os oito países (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela) assinaram o acordo em 3 de julho de 1978 com o objetivo de fortalecer a soberania e procurar o desenvolvimento sustentável da região amazônica, através do equilíbrio econômico, conservação do meio ambiente e redução das assimetrias entre os países. “Eu diria que o maior mérito do tratado é juntar oito países diferentes e levar em consideração as particularidades de cada um, por exemplo o Brasil é o país grande em território e economia, mas o Suriname é o menor país da América do Sul, com apenas meio milhão de habitantes”. O tratado conta com o apoio dos presidentes dos países amazônicos, mas não é um mecanismo de integração e sim um instrumento político e técnico que contribui para o fortalecimento do processo de intervenção sul-americana. As decisões são tomadas depois que todos os representantes dizem sim. “É um processo lento, muito demorado, mas é seguro e garante a união entre os oito países”. Em 2010, os países aprovaram uma nova agenda que inclui visão, missão, objetivos e estratégias da OTCA visando a conservação dos recursos naturais e renová-

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veis, e o desenvolvimento sustentável. Além disso tem uma abordagem temática: Floresta, recursos hídricos, monitoramento de animais ameaçados pelo comércio ilegal, uso sustentável da biodiversidade, gestão do conhecimento, áreas protegidas, causas indígenas, saúde, navegação e turismo. Recentemente foram incorporadas a inclusão social, combate à pobreza e maior aproximação com a sociedade civil. O embaixador explicou também que o recurso financeiro vem de fontes externas, fora da região amazônica. “De um lado nós queremos garantir a soberania dos países do tratado, mas por outro nós precisamos de investimento para colocar os projetos em prática”. Os países que mais contribuem com a OTCA são a Holanda e a Alemanha, em dezembro do ano passado eles estenderam o auxílio até 2017. “Cabe aos países membros da OTCA procurar financiamento alternativos de forma progressiva, para garantir a execução nossas atividades. A gente fala em soberania, mas precisa do dinheiro de países fora do tratado”. Atualmente, o tratado conseguiu apoio da Agência Nacional de Águas do Brasil para treinar especialistas para atuar em outros países. Além disso, o governo brasileiro através do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou um recurso de 12 milhões de dólares para a OTCA criar um projeto para monitorar o desmatamento na Região Amazônica. Outra conquista foi a doação de um terreno em Brasília para construir a sede do Tratado, que desde 78 está localizada em um hotel provisório.


ECONOMIA

Menos é Mais


MINIMALISMO

A arte de identificar o essencial Cada vez mais pessoas tem abandonado o ritmo de vida acelerado para viver com tranquilidade e qualidade de vida

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Por: Allan Gomes

rânsito caótico, extensas jornadas de trabalho, acúmulo de dinheiro para compra de supérfluos. Essas e outras características da sociedade contemporânea são tão presentes ao estilo de vida no século XXI, que muitas vezes age-se como se fossem características naturais do ser humano. Porém, é cada vez mais comum encontrar pessoas e até comunidades inteiras que negam a situação como normal e buscam formas alternativas de viver. Seja por um caminho espiritual, seja por desapego emocional ou até mesmo por contratempos materiais, pessoas se alinham à filosofias como a permacultura, o minimalismo ou simplesmente decidem viver melhor com menos. Movimentos e filosofias que pregam o desapego sempre foram uma constante na história, pois representam a necessidade do homem de se desligar - ou reconfigurar - de alguma forma dos ritmos impostos pela vida em sociedade. Essas ideias começaram com o filósofo grego Diogenes, de Sínope, que vivia em um barril para pregar o ideal cínico da autossuficiência, e vão até o socialismo utópico do século XIX, que busca criar substitutos para o dinheiro. Um dos movimentos contemporâneos, surgido nos anos 1970, é a Permacultura, criada pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren na década de 70, baseado no modo de vida integrado à natureza das comunidades aborígenes tradicionais

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da Austrália. O termo veio de permanent agriculture (agricultura permanente), e mais tarde se estendeu para significar permanent culture (cultura permanente). Segundo Mollison: “A proposta é uma filosofia de trabalhar com, e não contra a natureza; de observação prolongada e pensativa em vez de trabalho prolongado e impensado, e de olhar para plantas e animais em todas as suas funções, em vez de tratar qualquer área como um sistema único produto”. O ativista social e permacultor Victor Alexandre, há alguns anos segue os princípios da prática, e no fim de 2012 resolveu abrir o Espaco Uatumã, em Manaus (AM), para aplicar a filosofia. “A permacultura é um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana que sejam ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis”. Victor descreve os três pilares da permacultura como as linhas mestras de gerenciamento do espaço. O primeiro é o Cuidado com a Terra, uma provisão para que todos os sistemas de vida continuem e se multipliquem. Esse é princípio inicial porque sem uma terra saudável, os seres humanos não podem exercer suas qualidades. Em seguida, está o Cuidado com as Pessoas, uma prescrição para que as pessoas acessem os recursos necessários para sua existência. Por último, temos o Repartir os excedentes, em que a sociedade deveria se basear nos ecossistemas saudáveis e utilizar a saída de cada elemento para nutrir os outros. Outro movimento que agrega muitos adeptos de um estilo mais alternativo é o Minimalismo. Contando com centenas de blogs dedicados ao tema, o movimento prega que ser minimalista é se livrar do supérfluo para se concentrar no essencial. Uma das experiências minimalistas mais radicais e famosas é a do ex-empresário inglês Mark Boyle que, em 2008, decidiu renunciar ao dinheiro. No mesmo período em que Boyle tomou essa decisão, o mundo assistia a maior crise capitalista desde o crack da Bolsa de Nova York, em 1929, o que só reforçou a certeza do inglês de que era esse o caminho que deveria ser seguido. Ao contar para as pessoas próximas sobre sua decisão, a reação era a de que ele estava se preparando


para um apocalipse financeiro. Hoje, Boyule mora em um trailer velho no Sudoeste da Inglaterra, planta a própria comida e usa baterias solares para recarregar o celular e o notebook. Após o primeiro ano da experiência escreveu o livro “The Money less Man: a Year of Freeconomic Living” (O homem sem dinheiro: um ano vivendo na economia livre). Mesmo não acreditando que convencerá outras pessoas a seguirem sua opção, escreveu o “Manifesto sem Dinheiro”, mantém um site pessoal, colabora regularmente com o “Guardian” e dá palestras conclamando as pessoas a renunciar a um dos maiores pilares da civilização humana. Na Inglaterra, uma série de artigos para o jornal “The Guardian”, que o batizou de “o homem sem dinheiro”, fez dele uma celebridade. Nem todos os adeptos dessa mudança são tão radicais quanto Boyle. Na blogosfera dedicada ao tema, muitas pessoas descrevem suas experiências, compartilham métodos, e se estimulam a adotar práticas em suas vidas que aos poucos as ajudam a se livrar dos supérfluos. Um dos mais famosos é o “Busy woman strip cat” (http://busywomanstripycat.blogspot.com.br/), mantido pela bióloga marinha Rita Domingues, que mora em Portugal. O site documenta a jornada pessoal da autora no minimalismo e reúne também trajetórias de leitoras que compartilham suas experiências com o novo estilo de vida. Rita também é autora de dois livros digitais sobre o tema: Guia rápido para simplificar a vida e 100 dicas fáceis para organizar e simplificar a vida. A professora universitária Stéphanie Girão já teve um ritmo de trabalho intenso com uma carga horária acima das oito horas diárias e sem tempo para outras atividades, mas, mesmo com muitas dívidas, ela decidiu dar um basta. “Eu tinha acabado de me casar e estávamos pagando um carro, mobiliando a casa nova e meu ritmo de trabalho era exaustivo, dando aulas em vários lugares pra manter uma renda suficiente pra dar conta disso e atender às expectativas do relacionamento e da sociedade, mas a minha qualidade de vida não existia mais, além de estar com muitas dívidas acumuladas por conta dos gastos constantes com supérfluos”, revela Stéphanie. Hoje a professora universitária está divorciada e vive com menos de um terço da renda de antes, mas consegue manter as despesas com a casa de 120m² e o cuidado com os três gatos. “Me libertei da pressão sofrida e tenho muito mais tempo para atividades que me dão prazer”. Assim como Stéphanie, a bióloga Sâmia Amorim mudou seu ritmo de vida por conta do casamento, mas seguindo o sentido inverso: Sâmia deixou a vida acelerada que levava em Manaus para casar-se com seu companheiro atual em Alter do Chão, interior do Pará, e gerenciar um albergue. “Uma das principais diferenças é o consumismo. Quando morava em Manaus eu achava que precisava consumir muitas coisas, mas já consegui reduzir bastante. No ritmo de vida também houve mudanças, optei por um estilo mais simples e regenerador. Sinto que melhorei e muito, a minha qualidade de vida. Costumo dizer pros visitantes não colocarem o relógio para despertar, mas sim, deixarem os passarinhos fazerem esse papel. É o primeiro passo”.

Foto: Hunk L./sxc

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CAPA

SEM CARNE Entenda como o vegetarianismo se tornou um novo estilo de vida e se expandiu para um movimento social que protesta contra o uso de animais em pesquisas, na alimentação e no cotidiano. Texto: Beatriz Aguiar


Foto: Elvert Barnes/Flickr

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a década de 60, com a explosão do movimento de contracultura hippie e dos protestos contra a Guerra do Vietnã, os jovens da geração flower power começaram a contestar os valores tradicionais das famílias americanas, cultivando um estilo de vida ligado à natureza, às drogas, ao amor livre e a espiritualidade. Foi assim que se introduziu popularmente o vegetarianismo no Ocidente, embora já fosse apoiado muito antes por pensadores como Albert Einstein e Leonardo da Vinci. Em uma carta escrita para Hans Muehsam, em 30 de março de 1954, Einstein admitiu: “Sempre me pareceu que o homem não nasceu para ser um carnívoro”. Nos dias atuais, entretanto, a prática do vegetarianismo já se dissociou dos grupos de jovens

hippies para conquistar cada vez mais espaço entre diversas camadas da sociedade: Mike Tyson, Brad Pitt e Rodrigo Santoro são apenas algumas das celebridades que já aderiram aos novos hábitos alimentares. Entre a população brasileira, a prática do vegetarianismo também vem aumentando. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), 8% da população das principais cidades brasileiras é vegetariana - o que corresponde a 15,2 milhões de brasileiros no total -, sendo a incidência praticamente igual entre homens e mulheres. Entre as capitais, Fortaleza é a que ganha o título de maior população vegetariana em relação ao total demográfico, com 350 mil pessoas (14%). Em seguida, vem a cidade de São Paulo, com 792 mil pessoas (7%), e o Rio de Janeiro, com mais de 630 mil vegetarianos (10%).


Foto: Cedrus/Deviantart

Na foto acima, um manifestante defende o veganismo na Market Street, em São Francisco, Estados Unidos. Ao lado direito, um cartaz do site veganactivist.net, com os dizeres “humanos também são feitos de carne”

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Embora o número de vegetarianos seja maior na faixa de idade dos 65 ao 75 anos (10%), o vegetarianismo também vem ganhando popularidade entre os mais jovens. É o caso da estudante curitibana Giulia Pucci, de 21 anos, que parou de comer carne desde que seu namorado foi diagnosticado com colite, uma infecção no intestino grosso (cólon) causada pelo consumo de carne. “Meu objetivo é ser vegana, infelizmente não tenho dinheiro nem tempo para poder me alimentar tão bem quanto deveria”, explica. Para os mais jovens, o maior problema em aderir ao vegetarianismo pode ser depender da família na hora das refeições, ou não ter estabilidade financeira para sustentar os novos hábitos alimentares. “Existe uma dificuldade muito grande em achar alimentos que não contenham carne. Quase ninguém pensa nos vegetarianos. Os veganos então, quase não podem comer

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fora de casa”, conta o curitibano Fernando Osinski, ultrassonografista industrial de 23 anos. Para ele, o vegetarianismo é uma prática nobre e coerente. “Hoje, motivos não faltam para eu manter minha dieta: o principal deles é o amor e respeito aos animais, ao planeta e aos seres humanos”, completa. Muito além de parar de comer carne, o vegetarianismo simboliza, para 1% da população brasileira, um novo estilo de vida. Esses são conhecidos como veganos: pessoas que não ingerem carne ou qualquer alimento de origem animal, como mel, ovos e leite. Além disso, os veganos evitam usar produtos que envolvam o uso e a exploração de animais, sejam roupas de couro, lã ou seda. Os medicamentos, cosméticos ou produtos de higiene que tenham sido testados em animais também são deixados de lado. Mas muitos podem se perguntar: sem carne e alimentos de origem animal, o


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PRÓS E CONTRAS DO CONSUMO DE CARNE

que pode ser ingerido, afinal? “Uma das melhores coisas que o veganismo me ensinou é que existem milhares de possibilidades pra um alimento que normalmente a sociedade onívora nem reconhece”, conta Yvanna Guimarães, professora de 23 anos e vegana desde 2006. O importante é conhecer os nutrientes dos alimentos de origem animal e substituí-los em uma dieta balanceada. Saúde - Ao contrário do que se imagina, uma alimentação sem carne pode fornecer todos os aminoácidos necessários ao ser humano em ótimas quantidades. “Estudos vem demonstrando que o vegetarianismo pode ser um hábito alimentar saudável quando bem orientado”, explica a nutricionista Débora Rieger Venske, doutoranda em Bioquímida pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela relembra que a dieta vegetariana estrita e vegana não apresenta fontes nutricionais de vitamina B12, que deve ser conseguida por meio de alimentos

ajudam na digestão, no intestino e na circulação; # Vegetarianos com dieta inadequada podem ter palidez, fraqueza e perder peso; # A proteína encontrada nas carnes provoca sensação de saciedade e disposição; # Comer 340 g de peixe por semana pode reduzir em 36% o risco de morte por doença do coração; # As carnes são ricas em proteína, zinco, ferro e vitamina B12;

fortificados ou suplementos. No caso da dieta ovolactovegetariana, os índices de ferro, zinco e ômega-3 também exigem atenção. Com o acompanhamento médico devido, a dieta vegetariana pode ser adotada até mesmo na infância ou em período de gravidez. “Na gestação a dieta ovolactovegetariana é capaz de assegurar um aporte nutricional adequado durante a gravidez e amamentação, mas é necessário uma atenção particular à dieta vegetariana pura”, comenta Venske. De acordo com estudos da Associação Dietética Americana (American Dietetic Association), a população vegetariana tem 31% menos de chances de sofrer cardiopatias, 50% a menos de sofrer diabetes, 88% a menos de câncer de intestino grosso e 54% a menos de câncer de próstata. Além disso, os vegetarianos têm menores Índices de Massa Corporal (IMC) devido ao maior planejamento e cuidado com a própria alimentação. “Eu me sinto leve sendo vegetariana.

Foto: Equality/Flickr

# 11% das mortes de homens e 16% dos óbitos de mulheres poderiam ser adiados com a redução do consumo de carne vermelha; # Vegetais são ricos em substâncias antioxidantes, que regulam a imunidade e previnem câncer; # Dietas vegetarianas planejadas são saudáveis em termos nutricionais; # Vegetais são fonte de vitaminas e sais minerais,

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Foto: UggBoyUggGirl/Flickr

Manifestante participa de marcha pelos direitos dos animais na Dame Street, Dublin, capital da Irlanda, em agosto de 2012. No cartaz, acima da foto do tigre, pode-se ler “parem com o sofrimento nos circos”. Logo atrás, um manifestante segura um cartaz com os dizeres “quando o assunto é direito dos animais, como você se posiciona?”.

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No começo, era por rejeitar a carne mes- ção animal: histórico, implicações éticas e mo. Hoje, eu vejo o bem que o vegetaria- caracterização como crime ambiental”, os nismo pode fazer”, conta a engenheira autores definem a criação de animais para civil Bruna Pereira, de 23 anos. Bruna é usos acadêmicos como uma “crueldade vegetariana desde os 5 anos de idade, e vi- consentida”, que prejudica os seres humasita uma endocrinologista a cada 4 meses nos e perpetua um erro metodológico. Tal para regular a sua dieta. Quando criança, linha de raciocínio é seguida por aqueles Bruna tinha anemia, o que superou com a que se opõem radicalmente ao sacrifício adoção de uma dieta vegetariana balance- de ratos e cachorros em aulas de fisiologia ada. “Se tornar vegetariano não acontece e anatomia. do dia para a noite, leva um tempo. Mas Mas a indústria alimentícia também vale muito a pena”, confessa. chama a atenção dos ativistas ambientais. Ciência e indústria- O uso de animais De acordo com dados do IBGE/2012, foem pesquisas científicas e na produção de ram abatidos cerca de 27,4 milhões de sualimentos para as grandes indústrias tam- ínos, 3,96 bilhões de frangos e 22,9 bovibém vem gerando protestos nos no Brasil ao longo do no mundo inteiro. A People ano passado. Além disso, A pecuária é for the Ethical Treatment of o país também é o maior Animals (PETA) é uma ONG exportador de carne boviresponsável por defensora dos direitos dos na do mundo desde 2008, 60% a 80% do animais, criada em 1980, e e, segundo estatísticas do conta atualmente com mais Ministério da Agricultura, desmatamento de 3 milhões de associados. o mercado exportador de Promovendo a liberação total ilegal na Amazônia carne bovina tende a cresdos animais, a PETA é contra cer 2,15% ao ano, acompao consumo de carne ou denhado do crescimento esrivados de animais, e contra zoológicos, timado de 3,64% nas exportações de carne circos, caça, pesca ou mesmo a criação de aves. Em contrapartida, a ex-secretária de animais de estimação. Além disso, a e atual ministra do Meio Ambiente, IzaONG se opõe totalmente ao uso de ani- bella Teixeira, afirmou já em 2009 que a mais em pesquisas científicas. Para Laerte pecuária era responsável por 60% a 80% Fernando Levai, promotor de justiça de do desmatamento ilegal na Amazônia. São José dos Campos (SP), e a advogada No mundo todo, existem grupos proVânia Rall Daró, o uso de animais como testando por melhores condições salariais, instrumentos para o ensino das aulas de direitos humanos, igualdade de gênero e fisiologia ou anatomia nas universidades liberdade de expressão. Talvez protestar é caracterizado como uma tortura institu- seja mesmo o novo fenômeno do século cionalizada. Em seu artigo, “Experimenta- XXI.


Heitor Blum Thiago ENTREVISTA

Projeto ajuda a diminuir o impacto do lixo eletrônico

A Reciclatec iniciou como uma recuperadora de computadores e hoje promove a inclusão digital, no município de Florianópolis

Foto: Divulgação

Por: Laís Souza

O empresário Heitor Blum Thiago, implementou um programa que destina corretamente 60 toneladas de lixo eletrônico por mês

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m 2013, o Brasil passou a produzir um milhão de toneladas de lixo eletrônico por ano. É o país líder na produção desse tipo de descarte, por habitante, entre as sociedades emergentes. Os equipamentos possuem materiais tóxicos para saúde como o cádmio e chumbo e representam um risco enorme para quem manipula diretamente o lixo. Além disso, essas substâncias infiltram na terra e podem contaminar lençóis freáticos. Os outros componentes de eletrônicos como o plástico que são jogados no lixão demoram centenas de anos para se decompor. O vidro é por tempo indeterminado.

A Lei Federal N° 12.3055, referente à Política Nacional de Resíduos Sólidos no Brasil, foi promulgada em agosto de 2010 e criou uma série de regras e orientações sobre como deve ser o descarte dos materiais eletroeletrônicos, entre outros. Em Florianópolis, o presidente executivo do Comitê para Democratização da Informática de Santa Catarina (CDI-SC), Heitor Blum Thiago, implementou um projeto para coletar lixo eletrônico de informática, recuperar o que for possível deste material para a produção de computadores e acessórios para a inclusão digital e garantir o destino correto do resto do descarte. São 60 toneladas por mês que, se não fosse pelo projeto Reciclatec, iriam para o lixo comum. Julho 2013

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Fotos: Divulgação

Brasil 21- Quando começou o Projeto Reciclatec? ? Heitor Blum Thiago - O projeto iniciou no dia 25 de dezembro de 2010. Antes disso se fazia um trabalho muito amador, com voluntários que recuperavam equipamentos doados, em casa, principalmente, por bancos. Nós contratamos funcionários para começar o programa Reciclatec e alugamos um galpão em parceria com uma série de empresas tecnológicas. A proposta que o CDI apresentou era “Vocês estão produzindo muito lixo eletrônico e o CDI pode ajudar a diminuir este impacto ambiental”. Elas toparam. B.21- O que é o projeto Reciclatec? Qual é o seu principal objetivo? H.B.T.- O projeto Reciclatec foi a solução para uma demanda do CDI. Para promover a inclusão digital, é necessários computadores. Começou como um centro de recuperação de informática, o CERTEC. É um galpão que está instalado no município da Palhoça (SC), próximo a Florianópolis e da BR-101. Divulgamos através de campanhas, palestras e uma série de ações para que a sociedade soubesse da existência do programa, que ele tem o objetivo da inclusão digital e da parte ambiental. Nós aproveitamos, em media, 15% do material que a gente recebe, os outros 85% é feito um desmanche. O Alumínio, o ferro, a fonte, as placas... Tudo é destinado a um parceiro que comprova a certificação ambiental que vai utilizar na sua linha de produção. B.21- Como funciona o trabalho no Reciclatec? H.B.T.- Ele é um complexo que começa num centro de reciclagem. Lá tem técnicos para fazer a triagem dos equipamentos e recuperar o possível para inclusão digital. Outras pessoas fazem o desmanche 16

e a separação do material. De lá são administrados os 20 postos de coletas. Provavelmente, nos próximos dois meses, vamos duplicar o número de postos. B.21- Vocês recebem apenas lixo eletrônico? H.B.T.- De informática: monitor computador, impressora, mouse, teclado, roteador... Porque isso é que nos serve para inclusão digital.

Nós aproveitamos, em media, 15% do material que a gente recebe, os outros 85% é feito um desmanche. B.21- Com quantos parceiros vocês trabalham? H.B.T.- São mais de 10 indústrias que ultilizam o material e o desmonta como matéria prima. B.21- Vocês trabalham em parcerias com empresas para pegar o descarte eletrônico delas. Como funciona? Com quem vocês trabalham? H.B.T.- Quase todas as grandes empresas de Santa Catarina, sejam elas privadas ou públicas, são parceiras do CDI. Umas 100 pelo menos. Se você pegar, por exemplo, Blumenau tem a Hering, a Senior, a WK, a Benner. Aqui em Florianópolis tem o Tribunal de Justiça, o Tribunal Regional Eleitoral Eleitoral, as Secretarias do Estado, o Centro de Informática e Informação de Santa Catarina, a Dígitro, a Nexxera... Todas fornecem o que não utilizam mais de material de informática para o CDI. B.21- Onde estão os postos do CDI? H.B.T.- Estão em supermercados,

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shopping centers, lojas de informática e empresas também. Lugares de alta circulação. Agora nós vamos instalar oito postos de coleta nos centros de atendimento ao cidadão, os CIACS, no máximo em 30 dias. B.21- Quem são esses parceiros? H.B.T.- Que compra o plástico, é uma aqui de Santa Catarina. No caso da placa é uma empresa de São Paulo que exporta para a Bélgica, onde ela processada. Há poucos lugares no mundo que processam placas para tirar o metal precioso. Um deles é a Bélgica mas não passa de 3 ou 4 indústrias pois é necessário milhões de toneladas para você retirar o metal precioso que justifique a sua linha de produção. É a matéria prima desse parceiro. B.21- Qual o impacto ambiental deste lixo eletrônico de informática? H.B.T.- Diferente do lixo orgânico e outros tipos de descarte como papel e plástico, o lixo eletrônico é altamente tóxico e prejudicial à saúde da população. Tem consequências bem graves se nós descartarmos o material eletrônico num terreno baldio em um mangue. A penetração deste material nos lençóis freáticos causa problemas de saúde à população. Nós temos o evento Cidade Melhor em que nós nos preocupamos em transmitir a mensagem sobre o prejuízo que faz, não só ao ambiente, mas a saúde também. B.21- O que é este projeto “Cidade Melhor”? H.B.T.- O Cidade Melhor reúne diversas instituições de florianópolis que estão preocupadas com a saúde ambiental da cidade. Nós temos o FloripaAmanhã, OAB Cidadã, a Câmara de dirigentes Lojistas de Florianópolis...Todos se reúnem em um espaço público. último foi feito na Avenida Beiramar.


Foto: YugoBoss/Deviantart

ENERGIA

O lixo que vira energia Em todo o mundo, países vem investindo em novas formas de produção de energia elétrica a partir do lixo, o que ressuscita o antigo debate sobre sustentabilidade

E

Texto: Beatriz Aguiar

m diversos países, o problema do lixo já se converteu em uma solução inteligente para a produção de energia. Existem, no mundo, 1.483 usinas térmicas - ou seja, usinas que queimam o lixo para produzir energia sendo que 800 delas se encontram

somente no Japão. O bloco europeu vem em segundo lugar, com 452 usinas, e em terceiro, a China, com 100. No Brasil, a cidade de São Paulo foi a primeira a aproveitar o biogás como fonte de energia. Uma forma alternativa de produzir energia a partir de lixo, o biogás é resultado da decomposição de dejetos orgânicos, como restos de comida ou resíduos de origem animal e vegetal, que produzem metano durante a decomposição - um dos famosos gases estufa. A produção dos dois aterros da capital, Bandeirantes e São João, corresponde a mais de 2% de toda a energia elétrica consumida em São Paulo, além de gerar lucro ao município por meio da venda de créditos de carbono. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, considerando os 56 maiores aterros do país, o biogás acumulado poderia abastecer com energia elétrica a população do município do Rio de Janeiro.

Para 2020, o cenário é ainda mais abrangente: o total de energia produzida a partir do biogás poderia abastecer 8,8 milhões de pessoas. Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública, a produção dos 22 aterros que geram biogás já é suficiente, na atualidade, para suprir as necessidades energéticas de 1,67 milhão de pessoas. Em um país que produz diariamente 182.728 toneladas de lixo, pode-se dizer que a produção de energia a partir de resíduos é uma verdadeira mina de ouro. No Rio de Janeiro, somente o protótipo da Usina Verde, que produz energia a partir da combustão do lixo, custou cerca de R$50 milhões. Sediada no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, a Usina Verde poderia produzir, em plena carga, energia para abastecer 15 mil residências. Além disso, a cada tonelada de resíduo queimado pela usina, saem

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A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PRNS) sancionada em 2010, prevê a eliminação total dos lixões no país, incentiva a reciclagem e a produção de biogás, além de estipular metas para a criação de práticas sustentáveis no Brasil 120 quilos de material carbonizado, ou cinzas, que podem ser aproveitadas na composição do asfalto ou na pavimentação de cidades, ocupando somente 12% da área final de todo o lixo não queimado. Criada em 2004, próxima ao Hospital Universitário, a Usina Verde recebe 30 toneladas de resíduos sólidos por dia, originados do aterro sanitário da Comlurb, no Caju. A usina destrói termicamente os gases poluentes produzidos na incineração de lixo urbano, liberando na atmosfera somente vapor de água e de CO2, que não 18

causam danos ambientais.Mas segundo o auditor ambiental catarinense, Henry Henkels, a geração de energia a partir do lixo envolve investimentos altos. “ Na verdade ainda está tudo na fase de pré-projeto, todos se adaptando a lei de Residuos Sólidos Urbanos, mas a maioria dos municipios tem dificuldade em se adaptar e a coisa vai devagar”, explica. Incentivos - A Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada em 2010, define metas e regras para auxiliar na eliminação de lixões e na redução da produção de resíduos. A intenção é fornecer incentivos para a criação de práticas mais sustentáveis nos municípios brasileiros. Desde 2007, o Ministério do Meio Ambiente apoia os Planos Estaduais de Gestão Integrada de Resíduos Urbanos, com o objetivo de organizar a gestão de resíduos sólidos no Brasil. Entre as ações previstas, estão a eliminação dos lixões, o uso de tecnologia para a recuperação do metano - gás gerado na decomposição do lixo, e que pode ser reaproveitado energeticamente por meio das usinas de biogás - , a compostagem e a reciclagem. O Plano Nacional de Mudanças do Clima, aliás, prevê o aumento de reciclagem dos resíduos sóli-

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dos para 20% até 2015. Com tantas iniciativas, os indicativos apontam para o crescimento de práticas sustentáveis no Brasil, mas as tentativas ainda esbarram na burocracia. “Outro problema de usinas de geração de energia a partir de lixo é sua gestão. Normalmente o poder publico não é indicado para gerir isso... aí teria que transferir para cooperativas ou PPPs, mas no fim entregam pra iniciativa privada”, explica Henry Henkels. As Parcerias Público-Privadas (PPP) são contratos de prestação de obras ou serviços com um valor acima de R$ 20 milhões e duração mínima de 5 anos, estipulado entre uma empresa privada e o governo federal, estadual ou municipal. As soluções não parecem satisfatórias, pois as próprias cooperativas podem ter problemas de auto-gestão e as empresas privadas ainda receiam em investir no ramo, que pode não gerar retorno imediato. Até então, as prefeituras optavam pela solução mais barata e destinavam os resíduos aos lixões, sem qualquer tratamento higiênico ou separação de materiais, o que acarretava em diversos problemas ambientais, como a contaminação do lençol freático. Hoje, com a aplicação da PNRS, a escolha recai sobre a segunda opção mais barata, que é a instalação de aterros


Embora seja o ideal, a reciclagem e triagem dos resíduos sólidos acaba sendo mais cara, o que faz com que as iniciativas nesse ramo ainda sejam incipientes. Apesar disso, o setor já movimenta R$ 12 bilhões ao ano. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil perde cerca de R$ 8 bilhões anualmente por deixar de reciclar os resíduos aproveitáveis, mas que são encaminhados para lixões ou aterros sem centrais de triagem. Mas os números indicam que o Brasil tem reciclado mais lixo nos últimos anos. Segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), o volume de lixo reciclado passou de 5 milhões de toneladas em 2003 para 7,1 milhões em 2008. Ainda assim, o serviço anda em falta, e só abrange 8% dos municípios brasileiros. Diante da nova legislação, o Ministério do Meio Ambiente espera renovar o cenário da reciclagem e do reaproveitamento de resíduos sólidos no território brasileiro, mas as soluções podem vir lentamente. Para tanto, o poder público terá que investir e coordenar mais atividades com catadores, associaações e cooperativas. Julho 2013 www.brasil21.net

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Revista brasil 21 #5  

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