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RELATÓRIO DE RISCOS GLOBAIS 2026

O mundo entra em 2026 diante de uma mudança estrutural no mapa dos riscos globais. Segundo o Relatório de Riscos Globais 2026, eventos climáticos extremos deixam de ser episódios isolados e passam a ocupar o centro das ameaças à estabilidade econômica, social e política do planeta. Ondas de calor prolongadas, secas severas, enchentes devastadoras e tempestades cada vez mais intensas se combinam a conflitos geopolíticos, crises energéticas e fragilidades institucionais, criando um cenário de instabilidade...

PANORAMA ATUAL DOS RISCOS GLOBAIS

O panorama atual revela que os riscos climáticos não operam de forma isolada. Eles se entrelaçam com desigualdades sociais, insegurança alimentar, crises sanitárias e fragilidade econômica, ampliando vulnerabilidades já existentes. O aumento da temperatura média global intensifica doenças, reduz a produtividade agrícola e pressiona cidades despreparadas para extremos climáticos cada vez mais frequentes. Bilhões de pessoas vivem hoje em contextos altamente expostos a esses riscos, especialmente em regiões...

O MUNDO NÃO ESTÁ PREPARADO PARA O CALOR EXTREMO

O avanço do aquecimento global expõe uma realidade alarmante: o planeta não está preparado para lidar com o calor extremo em escala massiva. Projeções indicam que até meados do século quase quatro bilhões de pessoas poderão viver sob condições térmicas consideradas perigosas para a saúde humana. Países tropicais enfrentarão aumento explosivo da demanda por refrigeração, enquanto regiões tradicionalmente frias sofrerão impactos severos por não possuírem...

O MUNDO DECLARA FALÊNCIA HÍDRICA

A humanidade entrou em uma era de falência hídrica, caracterizada pelo uso sistemático de mais água do que os ecossistemas conseguem repor. Bilhões de pessoas já vivem sob escassez severa de água por pelo menos parte do ano, enfrentando reservatórios secos, colapsos agrícolas, racionamentos e conflitos locais. A crise hídrica não se limita à falta de chuva: ela envolve degradação de aquíferos, destruição de áreas úmidas, poluição e gestão insustentável dos recursos. Com o avanço das mudanças climáticas, a água torna-se um dos principais...

AMAZÔNIA PODE PERDER

50% DA VAZÃO DOS

RIOS ATÉ 2040

Estudos indicam que a Amazônia enfrenta uma transformação hidrológica sem precedentes. A combinação entre aquecimento global, alteração no regime de chuvas e aumento da evapotranspiração pode reduzir drasticamente a vazão de rios estratégicos da bacia amazônica até 2040. Essa perda compromete a geração de energia hidrelétrica, a navegação, o abastecimento de água e a produção de alimentos. A segurança hídrica, energética e alimentar do Brasil...

O DESMATAMENTO ESTÁ SECANDO A FLORESTA AMAZÔNICA

O desmatamento histórico da Amazônia está alterando de forma acelerada o ciclo hidrológico da floresta. Pesquisas mostram que a remoção da cobertura vegetal reduz drasticamente a capacidade da região de gerar sua própria chuva, intensificando períodos de seca e elevando o risco de um ponto de não retorno ecológico. A floresta, que funciona como um sistema climático ativo, perde...

[09] 70ª Reunião do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) [12] Cúpula do Clima [18] Composto eficiente e reutilizável para capturar dióxido de carbono do ar [23] Primeiras evidências de produção de fogo [33] Tendências de 15 anos no armazenamento de carbono florestal em todo o mundo [37] Setor privado impulsionando a transição climática [39] Conhecimento indígena e financiamento direto são pilares da adaptação climática [41] China x Estados Unidos e o futuro climático [43] Resfriamento sustentável [46] Ecossistemas maduros demonstram forte adaptabilidade à seca em áreas áridas [50] Da ambição à implementação: cumprindo os compromissos com o oceano [53] Aumento na fotossíntese impulsionado pela terra, compensado pelos oceanos [57] O Ártico está se transformando mais rápido do que o esperado [64] Microplásticos nos oceanos podem distorcer a compreensão do ciclo do carbono

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Capa da 21ª edição do Relatório de Riscos Globais 2026, produzido exclusivamente pelo WEF – Fórum Econômico Mundial. Imagem da capa: Albert Badia Costa. Fonte: WEF Global Risks Report 2026

Desenvolvimento sustentavel

Em parceria com

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O sistema é alimentado com resíduos orgânicos

Bactérias decompõem o resíduo orgânico no biodigestor

O biogás é armazenado no reservatório de gás para ser usado em um fogão

O fertilizante líquido pode ser usado em jardins e plantações

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O QUE COLOCAR NO SISTEMA

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Em um ano, o sistema deixa de enviar 1 tonelada de resíduos orgânicos para aterros e impede a liberação de 6 toneladas de gases de efeito estufa (GEE) para atmosfera.

QUE NÃO COLOCAR NO SISTEMA

Resíduos de jardinagem, materiais não orgânicos (vidro, papel, plástico, metais). Resíduos de banheiro, produtos químicos em geral.

Relatório de Riscos Globais 2026

Ondas de calor, enchentes, secas prolongadas, tempestades violentas e oscilações bruscas de temperatura deixarão de ser eventos isolados para se tornarem o principal vetor de risco global nas próximas décadas. e passam a definir o risco global

Essa é a conclusão central do Relatório de Riscos Globais 2026, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, que projeta os eventos climáticos extremos como a maior ameaça ao planeta até 2036, superando conflitos geopolíticos, crises econômicas e instabilidades tecnológicas.

O relatório indica que a crise climática, hoje já presente no cotidiano de bilhões de pessoas, avançará rapidamente no ranking de ameaças globais.

Em apenas dez anos, os impactos diretos das mudanças no clima devem ocupar o primeiro lugar entre os riscos capazes de comprometer economias, desestruturar sociedades e pressionar sistemas políticos e de saúde pública. O dado não surge isolado: ele dialoga com evidências científicas acumuladas por organismos internacionais, universidades e centros de pesquisa ao redor do mundo.

Aquecimento global intensifica extremos, inclusive ondas de frio

Ao contrário do senso comum explorado por discursos negacionistas, episódios de frio intenso não contradizem o aquecimento global — eles o reforçam. Estudos publicados pela Nature Climate Change, mostram que a elevação da temperatura média do planeta altera padrões atmosféricos, redistribuindo massas de ar frio e quente de forma mais caótica.

Pesquisadores da Universidade de Exeter, da Universidade de Groningen e do Centro Canadense para Análise Climática explicam que o aquecimento acelerado do

Em 2026, o mundo está à beira de um precipício. A turbulência causada por guerras cinéticas, juntamente com o uso de armas econômicas para obter vantagem estratégica, continua a fragmentar as sociedades

Ártico enfraquece correntes atmosféricas que antes mantinham o frio concentrado na região polar.

Como resultado, ondas de frio mais intensas podem atingir a Europa e a América do Norte, mesmo em um planeta globalmente mais quente.

Os dados mostram que, desde os anos 1980, recordes de temperaturas máximas superam amplamente os de temperaturas mínimas em todas as regiões do mundo. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, vinculado à Organização das Nações Unidas, a Terra já aqueceu cerca de 1,1°C em relação ao período pré-industrial, tornando eventos extremos mais frequentes, intensos e imprevisíveis.

Fotos: Centro para Análise Climática, IPCC, Nature Climate Change, Raphael Luz / Agência Pará, Universidade de Groningen, Universidade de Exeter, WEF

Impactos diretos na saúde, na economia e na segurança alimentar

As consequências desse novo regime climático extrapolam o campo ambiental. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz indicam que extremos de temperatura elevam significativamente o risco de mortalidade, sobretudo entre idosos, crianças e populações vulneráveis. Ondas de calor aumentam casos de desidratação, hipertermia e doenças cardiovasculares, enquanto o frio extremo pode levar à hipotermia e colapsos respiratórios. Oscilações térmicas abruptas, cada vez mais comuns em cidades brasileiras e em todo o mundo, também agravam doenças circulatórias, infecciosas e respiratórias. Ao mesmo tempo, secas prolongadas e chuvas intensas comprometem a produção agrícola, elevam preços de alimentos e ampliam a insegurança alimentar. Estimativas da ONU apontam que até 3,6

globais classificados por gravidade, curto prazo (2 anos) e longo prazo (10 anos)

bilhões de pessoas vivem hoje em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas. Os oceanos, que absorvem grande parte do excesso de calor, tornam-se mais quentes e volumosos, acelerando o derretimento de geleiras e a elevação do nível do mar. Esse processo ameaça zonas costeiras densamente povoadas e ecossistemas inteiros, intensificando a perda de biodiversidade — outro risco que figura entre os três mais graves do relatório do Fórum Econômico Mundial.

Riscos

Mitigar e adaptar: o desafio político e social da próxima década

Diante desse cenário, especialistas apontam que enfrentar a crise climática exige uma combinação urgente de mitigação e adaptação. A mitigação envolve reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa por meio da transição energética, do fim do desmatamento e da substituição de combustíveis fósseis. Já a adaptação busca preparar cidades, sistemas produtivos e comunidades para conviver com impactos já inevitáveis. No Brasil, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional atua por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, alinhada ao Marco de Sendai, fortalecendo a resiliência de municípios frente a enchentes, secas e deslizamentos. A segurança hídrica tornou-se eixo central dessa estratégia, com investimentos em irrigação eficiente, gestão da água e convivência com o semiárido.

Regiões e densidades populacionais expostas a calor sem precedentes em diferentes níveis de aquecimento global. Cerca de 3,6 bilhões de pessoas vivem hoje em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas

a , b , Regiões expostas a calor sem precedentes (MAT ≥ 29 °C) sobrepostas à densidade populacional (número em uma célula de grade de ~100 km2)

para um mundo de 9,5 bilhões (SSP2, 2070) sob aquecimento global de 2,7 °C ( a ) e aquecimento global de 1,5 °C ( b ).

Clima quente e temperaturas extremas: riscos para a saúde

No setor privado, empresas como a Neoenergia vêm ampliando investimentos em fontes renováveis, descarbonização de frotas e eficiência energética, alinhando-se às metas do Acordo de Paris. Embora iniciativas corporativas sejam relevantes, especialistas alertam que ações individuais e empresariais só terão impacto real se acompanhadas de políticas públicas robustas e cooperação internacional.

A realização da COP30 em Belém, em 2025, marca um momento simbólico: pela primeira vez, a maior conferência climática do planeta ocorreu na Amazônia, epicentro de decisões que definirão o futuro climático global.

A cidade de Belém cidade já está no centro das discussões sobre mudanças climáticas desde os preparativos para a COP30, nosso clima passou a apresentar e conviver no céu, com grandes quantidades de nuvens ( acho que que são as cirrus) ocasionando forte calor nesses últimos meses. Como comprova a bela

Para exemplificar, aqui em Belém, estamos convivendo nesses últimos meses com um Calor acima do normal para essa época, por causa com impactos climáticos, muito fáceis de ser observado. É só olhar para o céu e observar que a quantidade de nuvens está muito maior. É uma das causas do aumento do calor...

O alerta é claro: eventos extremos não são mais projeções distantes, mas sinais de um presente que exige respostas imediatas.

Para enfrentar a crise climática, é necessária uma combinação urgente de mitigação e adaptação
foto de Raphael Luz / Agência Pará
Extremos, mudanças abruptas e gestão de riscos

O mundo não está preparado para o calor extremo

Quase 3,8 bilhões de pessoas poderão enfrentar ondas de calor extremas até 2050 e, embora os países tropicais sejam os mais afetados, as regiões mais frias também precisarão se adaptar

Os cientistas mostram no estudo, um conjunto de dados global de graus-dia de aquecimento (GDA) e graus-dia de resfriamento (GDR) para três níveis de aumento da temperatura média global acima das condições pré-industriais — 1,0 °C (2006–2016), 1,5 °C e 2,0 °C — independentemente das trajetórias que levam a esses cenários de aquecimento. O conjunto de dados compreende 30 mapas em grade (resolução de 0,883° × 0,556°) que caracterizam a variabilidade climática por meio de cinco métricas estatísticas por variável e cenário ao longo de um período representativo de 10 anos. O conjunto de dados revela um declínio generalizado nos GDA e um aumento acentuado e não linear nos GDR, com as mudanças mais significativas na intensidade climática e nas necessidades de adaptação surgindo no início da trajetória de aquecimento. Além disso, utilizando o cenário intermediário da Via Socioeconômica Compartilhada 2-4.5 como referência, o conjunto de dados indica que a população exposta a condições de calor extremo (superiores a 3.000 CDDs) deverá quase dobrar caso o limite de 2,0 °C seja atingido,

passando de 23% (1,54 bilhão de pessoas) em 2010 para 41% (3,79 bilhões) em 2050, com as maiores populações afetadas projetadas na Índia, Nigéria, Indonésia, Bangladesh, Paquistão e Filipinas. Este conjunto de dados HDD-CDD fornece uma base sólida para a integração de informações climáticas no planejamento da sustentabilidade e nas políticas de desenvolvimento.

A demanda por refrigeração au-

mas também em nações de clima frio

mentará drasticamente em países gigantes como Brasil, Indonésia e Nigéria, onde centenas de milhões de pessoas não têm ar-condicionado ou outros meios de combater o calor. Mas mesmo um aumento moderado nos dias mais quentes poderia ter um “impacto severo” em países não acostumados a tais condições, como Canadá, Rússia e Finlândia, disseram cientistas da Universidade de Oxford.

Graus - dia históricos
As mudanças climáticas podem fazer com que bilhões de pessoas enfrentem calor extremo em todo o mundo até 2050, principalmente em países mais pobres,

Gráficos de projeções climáticas e populacionais com base nos Shared Socioeconomic Pathways (SSPs) do IPCC

“Perigosamente despreparados”

Aumento da temperatura global: O gráfico superior esquerdo mostra que o aquecimento global varia de 1,5°C a mais de 4°C até 2100, dependendo do cenário de emissões, em relação aos níveis pré-industriais. Cenários de emissão: Os cenários SSP1-1.9 e SSP1-2.6 visam limitar o aquecimento abaixo de 2°C, enquanto o SSP58.5 prevê o maior aquecimento.

Projeções populacionais: O gráfico superior direito mostra que a população mundial pode atingir um pico e depois diminuir (SSP1, SSP5) ou continuar a crescer significativamente (SSP3).

Impactos de aquecimento: Os gráficos inferiores (c e d) ilustram como diferentes níveis de aquecimento (1,5°C e 2,0°C) podem alterar a distribuição populacional em relação aos dias de aquecimento (CDDs) e dias de resfriamento (HDDs), indicando aumento da exposição ao calor extremo.

Sudão do Sul,

Em um novo estudo, eles analisaram diferentes cenários de aquecimento global para projetar com que frequência as pessoas no futuro poderão experimentar temperaturas consideradas desconfortavelmente quentes ou frias.

Eles descobriram que “a população que enfrenta condições de calor extremo deverá quase dobrar” até 2050, caso as temperaturas médias globais subam 2°C acima dos níveis pré-industriais. Mas a maior parte do impacto será sentida nesta década, à medida que o mundo se aproxima rapidamente da

Africa e

registraram o maior aumento em temperaturas perigosamente altas

marca de 1,5°C, disse Jesus Lizana, o autor principal do estudo. “A principal conclusão disso é que a necessidade de adaptação ao calor extremo é mais urgente do que se pensava anteriormente”, disse Lizana, cientista ambiental.

“Novas infraestruturas, como sistemas de ar condicionado sustentáveis ou resfriamento passivo, precisam ser construídas nos próximos anos para garantir que as pessoas consigam lidar com o calor perigoso”.

A exposição prolongada ao calor extremo pode sobrecarregar os sistemas natu-

3,79 bilhões de pessoas em todo o mundo poderão estar expostas a calor extremo até meados do século

rais de resfriamento do corpo, causando sintomas que variam de tonturas e dores de cabeça à falência de órgãos e morte.

É frequentemente chamada de assassina silenciosa porque a maioria das mortes por calor ocorre gradualmente, à medida que as altas temperaturas e outros fatores ambientais atuam em conjunto para comprometer o termostato interno do corpo.As mudanças climáticas estão tornando as ondas de calor mais longas e intensas, e o acesso ao resfriamento — especialmente ao ar condicionado — será vital no futuro.

O estudo na Nature Sustainability, projetou que 3,79 bilhões de pessoas em todo o mundo poderão estar expostas a calor extremo até meados do século.

Isso aumentaria drasticamente a demanda de energia para refrigeração em países em desenvolvimento, onde as consequências para a saúde seriam mais graves. Índia, Filipinas e Bangladesh estariam entre as populações mais afetadas.

A mudança mais significativa nos “ graus-dia de resfriamento “ — temperaturas suficientemente altas para exigir refrigeração, como ar condicionado ou ventiladores — foi projetada para países tropicais ou equatoriais, particularmente na África.

Nigéria,
Laos,
Brasil

Mais quente onde as populações são maiores

O Dr. Jesus Lizana, Professor Associado de Ciências da Engenharia em Oxford, afirmou que a pesquisa destaca uma grande discrepância entre as médias nacionais e os locais onde as pessoas realmente vivem.

“Projeta-se que a Índia, a Nigéria, a Indonésia, Bangladesh, o Paquistão e as Filipinas tenham as maiores populações vivendo sob calor extremo, com mais de 3.000 graus-dia de resfriamento (GDR)”, explicou Lizana. “Nessas regiões, a média ponderada pela área do país pode ser menor, mas a maioria da população reside em áreas onde o GDR ultrapassa 3.000”.

Os graus-dia de resfriamento (GDRs) são uma métrica climática padrão usada para estimar quanta energia é necessária para manter ambientes internos em temperaturas seguras. Um aumento nos GDRs indica uma necessidade crescente de ar condicionado e outras medidas de resfriamento.

Segundo o estudo, países como a Nigéria poderiam registrar um aumento de 16% nos graus-dia de resfriamento entre um cenário de aquecimento global de 1 grau Celsius — correspondente aproximadamente ao período de 2006 a 2016 — e um cenário de aquecimento global de 2 graus Celsius. O Brasil poderia ter um aumento de 20%, enquanto Uganda e Laos poderiam apresentar aumentos em torno de 25%.

“Simplificando, as pessoas mais desfavorecidas são as que mais sofrerão com essa tendência de dias cada vez

mais quentes, como mostra nosso estudo”, disse a cientista climática urbana e coautora da pesquisa, Radhika Khosla. Mas os países mais ricos, em climas tradicionalmente mais frios, também “enfrentam um grande problema — mesmo que muitos ainda não se deem

conta disso”, acrescentou ela.

Países como Canadá, Rússia e Finlândia podem sofrer quedas acentuadas nos “graus-dia de aquecimento” — temperaturas baixas o suficiente para exigir aquecimento interno — em um cenário de 2°C.

Mas mesmo um aumento moderado nas temperaturas mais altas seria sentido de forma mais aguda em países que não foram projetados para suportar o calor, disseram os autores.

Nesses países, as casas e os edifícios são geralmente construídos para maximizar a entrada de luz solar e reduzir a ventilação, e o transporte público funciona sem ar condicionado.

Lizana afirmou que alguns países de clima frio podem observar uma queda nas contas de aquecimento, mas que, com o tempo, essa economia provavelmente será compensada pelos custos de refrigeração, inclusive na Europa, onde o ar-condicionado ainda é raro.

“Os países mais ricos não podem se acomodar e presumir que tudo ficará bem –em muitos casos, eles estão perigosamente despreparados para as dificuldades que virão nos próximos anos”, disse ele.

A demanda por refrigeração aumentará drasticamente em países gigantes como Brasil, Indonésia e Nigéria

O mundo declara falência hídrica

Em um novo relatório, cientistas da Universidade das Nações

Unidas alertam que o mundo entrou em uma era de falência hídrica , na qual o uso excessivo de água e as condições de seca deixaram bilhões de pessoas vivendo além de seus recursos hídricos anuais e esgotando suas reservas de água

Bahram/Middle East Images/AFP via Getty Images, CNN, Demissew Bizuwerk/UNICEF, Ekrem07, 2023, Wikimedia Commons, NASA, Per-Anders Pettersson/Getty Images, PNUD Maldivas 2021, Robyn Beck/AFP via Getty Images

Omundo está agora usando tanta água doce em meio às consequências das alterações climáticas que entrou numa era de falência hídrica , com muitas regiões já incapazes de recuperar das frequentes escassez de água.

Cerca de 4 bilhões de pessoas – quase metade da população mundial – vivem com grave escassez de água por pelo menos um mês por ano , sem acesso a água suficiente para suprir todas as suas necessidades. Muitas outras pessoas estão sentindo as consequências do déficit hídrico: reservatórios secos, cidades afundando, quebras de safra, racionamento de água e incêndios florestais e tempestades de poeira mais frequentes em regiões que sofrem com a seca.

Os sinais de crise hídrica estão por toda parte, desde Teerã , onde as secas e o uso insustentável da água esgotaram os reservatórios dos quais a capital iraniana depende, aumentando as tensões políticas, até os EUA , onde a demanda por água ultrapassou a oferta no Rio Colorado , uma fonte crucial de água potável e irrigação para sete estados.

A falência hídrica não é apenas uma metáfora para a escassez de água.

É uma condição crônica que se desenvolve quando um local usa mais água do que a natureza consegue repor de forma confiável e quando os danos aos recursos naturais que armazenam e filtram essa água, como aquíferos e zonas úmidas, tornam-se difíceis de reverter.

As secas dificultaram o acesso à água para o gado e levaram à desnutrição generalizada em algumas regiões da Etiópia nos últimos anos. Em 2022, o UNICEF estimou que até 600 mil crianças precisariam de tratamento para desnutrição grave
Moradores aguardavam para coletar água perto da Cidade do Cabo, África do Sul, em fevereiro de 2018, enquanto a seca levava a cidade à beira do “Dia Zero”, quando os suprimentos de água se esgotariam

Um novo estudo que liderei com o Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas conclui que o mundo já ultrapassou a fase das crises hídricas temporárias. Muitos sistemas hídricos naturais não conseguem mais retornar às suas condições históricas. Esses sistemas encontram-se em estado de colapso – falência hídrica.

Como é a falência por água na vida real

Em casos de falência financeira, os primeiros sinais de alerta costumam parecer administráveis: atrasos em pagamentos, empréstimos e a venda de bens que você esperava conservar. Mas então a espiral se fecha.

A falência por inundação apresenta estágios semelhantes. Inicialmente, extraímos um pouco mais de água subterrânea durante os anos de seca. Usamos bombas maiores e poços mais profundos. Transferimos água de uma bacia para outra. Drenamos pântanos e retificamos rios para abrir espaço para fazendas e cidades. Então, os custos ocultos aparecem. Os lagos diminuem ano após ano. Os poços precisam ser mais profundos.

Rios que antes corriam o ano todo tornam-se sazonais . A água salgada infiltra-se nos aquíferos perto da costa. O próprio solo começa a afundar. Essa última, a subsidência, muitas vezes surpreende as pessoas. Mas é um sinal de esgotamento hídrico. Quando a água subterrânea é bombeada em excesso , a estrutura subterrânea, que retém água quase como uma esponja, pode entrar em colapso. Na Cidade do México , o solo está afundando cerca de 25 centímetros por ano. Uma vez que os poros se compactam, não podem ser simplesmente preenchidos novamente.

O relatório Global Water Bankruptcy, publicado em 20 de janeiro de 2026, documenta a abrangência desse problema. A extração de água subterrânea contribuiu para o significativo afundamento do solo em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados (2,3 milhões de milhas quadradas), incluindo áreas urbanas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Jacarta , Bangkok e Cidade de Ho Chi Minh estão entre os exemplos mais conhecidos na Ásia.

A agricultura é a maior consumidora de água do mundo, responsável por cerca de 70% da extração global de água doce . Quando uma região entra em crise hídrica, a agricultura torna-se mais difícil e mais cara. Os agricultores perdem empregos, as tensões aumentam e a se-

Na Califórnia, uma seca severa e a escassez de água obrigaram alguns agricultores, em 2021, a remover culturas que exigem muita irrigação, incluindo amendoeiras
Como o Mar de Aral encolheu de 2000 a 2011. Ele já teve um formato mais próximo ao oval, cobrindo as áreas de cor clara até a década de 1980, mas o uso excessivo para a agricultura por diversos países o reduziu
Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, explicando o conceito de “falência hídrica”. TVRI World

gurança nacional pode ser ameaçada. Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão concentradas em áreas onde o armazenamento de água já está diminuindo ou instável. Mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de terras agrícolas irrigadas estão sob estresse hídrico alto ou muito alto. Isso ameaça a estabilidade do abastecimento de alimentos em todo o mundo. À medida que as temperaturas globais aumentam , as secas também estão se tornando mais frequentes e intensas. Mais de 1,8 bilhão de pessoas – quase 1 em cada 4 seres humanos – enfrentaram condições de seca em diferentes momentos entre 2022 e 2023.

O mundo está preparado para lidar com os riscos à segurança nacional relacionados à água? ASSISTA o VÍDEO EM: www.youtu.be/pWDoe7PVNrw

A margem exposta da barragem de Latyan mostra níveis de água significativamente baixos perto de Teerã, em 10 de novembro de 2025. O reservatório, que abastece parte da capital com água potável, sofreu um declínio acentuado devido à seca prolongada e ao aumento da demanda na região

Esses números se traduzem em problemas reais: aumento dos preços dos alimentos, escassez de energia hidrelétrica, riscos à saúde, desemprego, pressões migratórias , agitação social e conflitos.

Como chegamos a esta situação?

Todos os anos, a natureza fornece água para cada região, através da chuva e da neve. Pense nisso como uma conta bancária. Essa é a quantidade de água que recebemos anualmente para usar e compartilhar com a natureza.

Quando a demanda aumenta, podemos recorrer às nossas economias. Extraímos mais água subterrânea do que será reposta. Roubamos a parcela de água necessária à natureza e, no processo, drenamos áreas úmidas. Isso pode funcionar por um tempo, assim como o endividamento pode financiar um estilo de vida perdulário por um período.

Os índices gerais de risco hídrico refletem o valor agregado da quantidade de água, da qualidade da água e dos riscos regulatórios e de reputação relacionados ao abastecimento de água. Valores mais altos indicam maiores riscos relacionados à água

Essas fontes de água de longo prazo estão desaparecendo. O mundo perdeu mais de 4,1 milhões de quilômetros quadrados de áreas úmidas naturais em cinco décadas. As áreas úmidas não apenas armazenam água, como também a filtram, amortecem inundações e sustentam plantas e animais selvagens.

A qualidade da água também está piorando. A poluição, a intrusão de água salgada e a salinização do solo podem resultar em água muito suja e salgada para uso, contribuindo para a escassez de água.

As mudanças climáticas estão agravando a situação , reduzindo a precipitação em muitas áreas do mundo. O aquecimento global aumenta a demanda de água para as plantações e a necessidade de eletricidade para bombear mais água. Também causa o derretimento das geleiras que armazenam água doce.

Apesar desses problemas, as nações continuam aumentando a captação de água para sustentar a expansão das cidades, das terras agrícolas, das indústrias e, agora, dos centros de dados.

Nem todas as bacias hidrográficas e nações estão em situação de escassez hídrica, mas as bacias estão interligadas por meio do comércio, da migração, do clima e de outros elementos-chave da natureza. A escassez hídrica em uma área exercerá mais pressão sobre outras e poderá aumentar as tensões locais e internacionais.

O que pode ser feito?

A falência financeira termina com a transformação dos gastos.

A falência relacionada à água exige a mesma abordagem:

• Estancar a hemorragia: O primeiro passo é admitir que o balanço está desequilibrado. Isso significa estabelecer limites de uso de água que reflitam a quantidade de água realmente disponível, em vez de simplesmente perfurar poços mais profundos e transferir o ônus para o futuro.

• Proteja o capital natural – não apenas a água: Proteger zonas úmidas, restaurar rios , reconstruir a saúde do solo e gerir a recarga de águas subterrâneas não são apenas medidas desejáveis. São essenciais para manter o abastecimento de água saudável, assim como um clima estável.

• Use menos, mas faça-o de forma justa: Gerir a procura de água tornou-se inevitável em muitos locais, mas os planos de falência hídrica que cortam o abastecimento aos mais pobres enquanto protegem os mais poderosos irão falhar. As abordagens sérias incluem proteções sociais, apoio aos agricultores na transição para culturas e sistemas menos intensivos em água e investimento na eficiência hídrica .

• Meça o que importa: Muitos países ainda gerenciam a água com informações parciais. O sensoriamento remoto por satélite pode monitorar o abastecimento e as tendências hídricas, além de fornecer alertas precoces sobre o esgotamento das águas subterrâneas, subsidência do solo, perda de áreas úmidas, recuo de geleiras e declínio da qualidade da água.

• Planeje para menos água: A parte mais difícil da falência é psicológica. Ela nos força a abandonar antigos padrões. A falência hídrica exige a reformulação de cidades, sistemas alimentares e economias para vivermos dentro de novos limites, antes que esses limites se tornem ainda mais restritivos.

Assim como nas finanças, a falência pode representar uma virada no consumo de água. A humanidade pode continuar gastando como se a natureza oferecesse crédito ilimitado, ou pode aprender a viver dentro de seus recursos hídricos.

[*] Diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas
Em pequenos estados insulares como as Maldivas, a subida do nível do mar ameaça o abastecimento de água quando a água salgada invade os aquíferos subterrâneos, danificando os poços

Amazônia pode perder 50% da vazão de rios até 2040

Os rios Juruá, Purus, Tapajós e Xingu – todos afluentes da margem direita do Rio Amazonas, terão vazão mais intensas e impactadas, devido as mudanças climáticas associadas ao aquecimento global

Fotos: ANA,Reprodução, Norte Energia, UFRGS

As mudanças climáticas, agravadas pelo aquecimento global, vão afetar a segurança energética do Brasil. A conclusão faz parte do estudo “Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil”, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que aponta redução média nas vazões dos rios de todo o país até 2040. A região amazônica será a mais afetada, com queda de até 50%, seguida das regiões Norte e Nordeste, que, na média, terão um recuo de até 40%. O estudo aponta ainda que as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste deverão ter reduções de até 10%. De acordo com o levantamento, a redução na vazão dos rios é causada pelo aumento da temperatura, pela alteração no regime de chuvas e pelo crescimento da evapotranspiração, quando há perda de água do solo e da vegetação para a atmosfera, intensificada pelo calor.

Segundo especialistas, o volume de chuvas impacta diretamente a vazão média dos rios e, por consequência, a geração de energia das hidrelétricas, que hoje somam 43,7% da capacidade instalada, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema (ONS).

“Sendo as hidrelétricas a principal

matriz energética do Brasil, impactos nesse setor são preocupantes, já que os prejuízos decorrentes podem inviabilizar projetos existentes e planejados, caso não sejam consideradas as projeções climáticas”, traz um dos trechos do estudo.

No geral, o levantamento aponta que as mudanças climáticas podem impactar, de alguma forma, 90% da potência instalada e planejada das hidrelétricas do país, com a redução das vazões médias afluentes. “No Brasil, de forma especial, a segurança hídrica está diretamente relacionada à segurança energética e alimentar, visto que grande parte da energia é produzida em usinas hidrelétricas e o país se posiciona como um dos maiores produtores de alimentos do planeta”, destaca o estudo.

A ANA e UFRGS alertam para a região Norte. “Dentre os empreendimentos existentes, os maiores impactos se concentram nas usinas com maior potência instalada, a maioria delas localizada na bacia amazônica”, diz o estudo. O levantamento aponta que os impactos na vazão serão mais intensos nos rios Juruá, Purus, Tapajós e Xingu, todos afluentes do Rio Amazonas. “Enquanto a precipitação pode reduzir entre 10% e 15% na região, a vazão média pode diminuir até 50% nas bacias dos rios Xingu, Juruá e Purus”, exemplifica o estudo.

O Xingu conta com a usina de Belo Monte, uma das maiores do mundo.

“A água é o elemento mais sensível e imediato por meio do qual os impactos das mudanças climáticas se manifestam”, diz o documento. O levantamento lembra que pode ocorrer aumento do

Bacia de drenagem da Amazônia com o rio Amazonas em destaque e os rios Juruá, Purus, Tapajós e Xingu
Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA)

grau de intermitência (rios totalmente secos em períodos do ano) na Região

Nordeste. “Além disso, espera-se um aumento (de até dois meses) na duração

de períodos de escassez hídrica, quando a vazão disponível no rio é menor que a atualmente utilizada como referência no planejamento dos usos da água”, aponta. O estudo lembra ainda que não há apenas impacto na geração de energia elétrica. A mudança no regime de chuvas vai afetar em cheio a agricultura. O levantamento aponta que 90% da agricultura atualmente é irrigada por pivôs. O estudo cita impactos ainda em 10% do cultivo de arroz e em 90% do cultivo de sequeiro (algo que depende da chuva para a agricultura, sem irrigação). “O aumento da frequência e intensidade dos extremos, associado às mudanças climáticas, evidencia que gerir a água de forma sustentável e adaptativa não é apenas uma medida técnica, mas uma necessidade estratégica para garantir segurança hídrica, alimentar, energética e ambiental no Brasil”.

Com os eventos climáticos extremos se tornando cada vez mais frequentes, o estudo lembra também do grande volume de chuvas em curto período de tempo. As projeções mostram aumentos na chuva máxima em todos os centros urbanos, com a região Sul indicando alta entre 5% e 25%, enquanto as regiões Norte e Nordeste “indicam as maiores projeções de alteração”, com aumento de pelo menos 40% na chuva máxima de um dia.

Os mapas do Setor Estratégico representam a síntese visual dos componentes de risco climático sobre a água no Brasil, permitindo identificar padrões territoriais, sobreposições críticas e regiões com maior necessidade de adaptação. A navegação pelos mapas é interativa, e pode ser feita por bacia hidrográfica, estado ou microrregião.

Ao clicar sobre cada unidade territorial, o usuário acessa os dados dos indicadores utilizados na avaliação e a classificação final de risco.

Os mapas são apresentados em três horizontes de tempo (2030/2050/2070) e dois cenários climáticos: Otimista e Pessimista.

Setor Estratégico de Recursos Hídricos: mapas de risco
Mapa sobre cenário de redução na disponibilidade hídrica até 2040

O desmatamento está secando a floresta amazônica

Mais rápido do que se pensava anteriormente, o desmatamento histórico impulsiona um forte declínio das chuvas em toda a bacia amazônica meridional do sul

Representação esquemática dos processos atmosféricos e da superfície terrestre responsáveis pelo enfraquecimento das interações entre a terra e o clima, devido ao desmatamento em larga escala na bacia amazônica meridional

Afloresta amazônica sofreu recentemente uma perda substancial de cobertura florestal induzida pela ação humana. No entanto, a extensão em que esse desmatamento histórico alterou a precipitação regional observada por meio do transporte inter-regional de umidade atmosférica permanece incerta. Aqui, combinamos observações de satélite e um modelo de rastreamento de umidade atmosférica para quantificar esses efeitos de retroalimentação nas últimas quatro décadas (1980-2019). Identificamos uma tendência contrastante de aumento no norte e diminuição no sul da precipitação observada na bacia amazônica. A acentuada redução na precipitação na bacia sul da Amazônia chega a 3,9-5,4 mm ano ¹, resultando em um declínio de 8-11% na precipitação anual durante o período de observação.

e 2020 (direita), com base nas classificações da Coleção MapBiomas 6.0

Descobrimos que essa redução na precipitação está relacionada principalmente (52-72%) ao desmatamento generalizado na bacia sul e em regiões a montante, na América do Sul. O desmatamento suprime substancialmente a umidade proveniente das florestas, aumenta a estabilidade atmosférica e o

fluxo de umidade, levando à redução da precipitação. Constatamos também que os modelos climáticos subestimam substancialmente a sensibilidade da precipitação ao desmatamento, o que implica que a floresta amazônica corre o risco de sofrer grandes perdas muito mais cedo do que se previa anteriormente.

Distribuição espacial da cobertura florestal e não florestal na Amazônia Legal Brasileira (ALB) em 1985 (esquerda)

Distribuição espacial da precipitação média anual (unidades: mm por ano) na Bacia Amazônica durante o período de 1980 a 2022. As médias foram calculadas utilizando o conjunto de dados CHIRPS. A Bacia Amazônica está delimitada em preto

O desmatamento está tendo um efeito mais devastador na floresta amazônica do que os dados anteriores sugeriam. Além de destruir grandes extensões de árvores, ele também prejudica a capacidade da região de gerar sua própria chuva. De acordo com um novo estudo na Nature, a Amazônia pode atingir um ponto crítico e sofrer um declínio florestal significativo (onde grandes áreas da floresta secam e se transformam em savana) mais cedo do que se pensava.

A floresta amazônica é um dos lugares mais úmidos do planeta, e parte da razão para isso é que ela cria sua própria chuva. Cada árvore na floresta tropical funciona como um canudo gigante, puxando água do solo e liberando-a no ar através de suas folhas. Essa umidade eventualmente forma nuvens, que então despejam a chuva de volta na floresta. Quando as árvores são removidas, esse ciclo natural é interrompido. O ar perde sua fonte de umidade, então há menos formação de nuvens e, consequentemente, muito menos chuva.

Já se sabia há muito tempo que a Amazônia estava ficando mais seca, mas os pesquisadores queriam descobrir se o desmatamento causado pela ação humana era o principal fator, em vez das mudanças climáticas em geral.

A floresta amazônica é um dos lugares mais úmidos do planeta, e parte da razão para isso é que ela cria sua própria chuva

Floresta tropical mais seca

Para encontrar a resposta, eles combinaram 40 anos de dados de satélite sobre precipitação e cobertura florestal com um sofisticado modelo atmosférico que rastreia como a umidade se move pelo ar.

Os resultados revelaram uma marcante divisão norte-sul. Enquanto a Amazônia setentrional geralmente apresenta aumento das chuvas, a Amazônia meridional, onde ocorre a maior parte da exploração madeireira, sofre uma redução anual de 8% a 11% na precipitação. Segundo os autores do estudo, entre 52% e 72% dessa seca está diretamente ligada ao desmatamento. Eles afirmam que suas descobertas comprovam que a perda de árvores é uma das principais causas da diminuição das chuvas: “Nossa análise baseada em dados... atribui a acentuada queda recente na precipitação observada à perda em larga escala da cobertura florestal, corroborando, portanto, fortemente estudos de modelagem anteriores sobre a morte da floresta amazônica induzida pelo desmatamento”.

Percentagem de perda florestal, células de grade de 28 × 28 km atingindo o limiar crítico, uso/cobertura da terra e redução da precipitação

até

a)
2019. b) Simulação para 2050 para SEG e c) WEG. No total, 28 células de grade × 28 km atingindo o limiar crítico de perda florestal: d) até 2019. e) Simulação para 2050 para
SEG. f) Cenário WEG. Uso/cobertura da terra: g) até 2019, h) simulação para 2050 para SEG i) e WEG. Redução da precipitação: j) até 2019. Simulação para 2050 para k) SEG e l) WEG.
Imagem de árvores da floresta tropical próximas ao lençol freático, capturada na bacia hidrográfica de uma área de pesquisa na Reserva das Cuieiras, nos arredores de Manaus

Salvem as árvores

Essa descoberta pinta um quadro alarmante. A equipe de pesquisa constatou que os modelos climáticos padrão têm subestimado o impacto do desmatamento sobre as chuvas em até 50%.

Eles enfatizam que, como a precipitação é determinada pelas próprias árvores, a solução reside em protegê-las. Escrevem: “A redução do desmatamento, combinada com o reflorestamento extensivo, poderia compensar o risco de uma grande mortandade na Amazônia causada pelas mudanças climáticas, ou pelo menos elevar o limiar do aquecimento global que poderia desencadear danos irreversíveis à floresta”.

Na floresta amazônica a precipitação é determinada pelas próprias árvores, a solução é protegê-las

Floresta inundada para flagrar a formação de uma floresta fantasma

Cientistas enviaram inundações com força de furacão para uma flo resta em Maryland para descobrir o que eventos climáticos extremos e a elevação do nível do mar significam para as florestas costeiras. Eis o que eles descobriram.

Em uma floresta de baixa altitude no Centro de Pesquisa Ambiental Smithsonian (SERC), uma equipe de cientistas está silenciosamente prevendo o futuro. Durante três verões, eles inundaram a floresta com breves dilúvios de água doce e salgada. Estão simulando as fortes chuvas e as ondas de tempestade esperadas à medida que eventos climáticos extremos atingem a Costa Leste. Sua missão: descobrir por que as tempestades podem estressar as florestas e quanto estresse uma floresta pode suportar antes de começar a se transformar em uma floresta fantasma.

Neste outono, eles divulgaram os resultados iniciais em um novo estudo publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências. Indícios de uma floresta desaparecendo podem surgir em apenas dois anos.

E a transformação começa no subsolo, no solo.

“Esses sistemas podem começar a mudar mesmo antes que você consiga perceber as mudanças”, disse Pat Megonigal, biogeoquímico e cientista sênior do SERC que ajudou a criar o projeto.

Mas se os cientistas souberem quais são os primeiros sinais de alerta, terão uma chance maior de ajudar algumas florestas antes que seja

tarde demais, de acordo com Peter Regier, autor principal e cientista da Terra no Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico (PNNL).

O cientista da Terra do PNNL, Peter Regier (à esquerda), coleta uma amostra de gás do solo com o então pós-doutorando Wei Huang, do Laboratório Nacional de Oak Ridge, na floresta TEMPEST
Centro de Pesquisa Ambiental Smithsonian (SERC)

“Podemos deixar de reagir às árvores mortas e passar a adotar estratégias proativas de restauração e resiliência para florestas em risco de inundação, à medida que o nível do mar sobe e as tempestades se intensificam”, disse Regier.

Fabricando uma TEMPESTADE

O projeto se chama TEMPEST. É a abreviação de “Manipulação do Ecossistema Terrestre para Sondar os Efeitos dos Tratamentos de Tempestades”. Em outras palavras, é um experimento meteorológico em tempo real que abrange uma área muito extensa — não o tipo de experimento confinado a um laboratório. Faz parte de um projeto ainda maior chamado COMPASS-FME , que visa prever transformações em

A biogeoquímica Pat Megonigal (à esquerda), do SERC, com Rick Smith, da Global Aquatic Research, organização que projetou e construiu o sistema de distribuição de água para o projeto TEMPEST A biogeoquímica Pat Megonigal (à esquerda), do SERC, com Rick Smith, da Global Aquatic Research, organização que projetou e construiu o sistema de distribuição de água para o projeto TEMPEST

COMPASS-FME: Observações Costeiras, Mecanismos e Previsões. Sistemas e Escalas – Campo, Medições e Experimentos

O projeto COMPASS-FME: Observações Costeiras, Mecanismos e Previsões em Diferentes Sistemas e Escalas - Medições e Experimentos de Campo visa compreender como as interações entre água, solos, sedimentos e plantas impulsionam os fluxos e transformações de carbono e nutrientes na interface costeira

toda a zona costeira. Isso inclui prever o destino das florestas costeiras.

“Elas estabilizam as paisagens”, disse Vanessa Bailey, co-líder do projeto e cientista da Terra no PNNL. “Esses sistemas radiculares são realmente importantes para impedir a erosão do solo. Em algum momento, quando a floresta morre, toda aquela camada superficial do solo se torna altamente erodível.”

No entanto, as melhores previsões das ciências da Terra atualmente não possuem muitas informações sobre florestas fantasmas, muito menos sobre como serão os primeiros sinais de alerta. Para fazer previsões melhores, os cientistas precisam de dados melhores.

“Um dos nossos colegas perguntou: e se inundássemos uma floresta? E se simulássemos completamente um evento de inundação de grandes proporções?”, disse Bailey.

Em 2020, quando muitos outros projetos foram interrompidos devido à pandemia, a equipe do TEMPEST começou a preparar o terreno. Eles dividiram a floresta do SERC em duas parcelas de 2.000 metros quadrados, uma para testar água doce e outra para testar água salgada. Linhas de irrigação estreitas e pretas cruzam cada parcela, com cerca de 200 sensores presos às árvores e enterrados no solo.

Durante as cheias, as linhas de irrigação enviam centenas de aspersores ao longo do solo da floresta. Próximo dali, outra parcela de floresta de 2.000 metros quadrados permanece intacta para comparação. A equipe também coletou muitos dados de referência sobre como era a floresta antes das cheias.

Tubos de irrigação pretos na parcela TEMPEST

O experimento começou no verão de 2022. Durante um único dia, eles inundaram uma área florestal com 80.000 galões de água doce e a área vizinha com 80.000 galões de água salgada do rio Rhode, um afluente da baía de Chesapeake. Isso equivale a cerca de 15 centímetros de água adicionados em todo o experimento — aproximadamente o mesmo nível de chuva que o furacão Sandy despejou em Annapolis em 2012.

“A equipe se dedicou completamente”, disse Anya Hopple, ex-pós-doutoranda do PNNL que trabalhou no projeto TEMPEST desde o início.

“As pessoas acordavam antes do amanhecer para medir como as árvores estavam reagindo, realizavam levantamentos de resistividade 24 horas por dia, acampavam no local e monitoravam as flutuações de gases de efeito estufa por dias e semanas depois”.

No ano seguinte, repetiram o processo por dois dias consecutivos. (Em 2024, realizaram o experimento por três dias consecutivos, mas esses dados não foram incluídos no estudo recente.)

Em 2025, deram um descanso à floresta. Planejam retomar as atividades no próximo verão.

técnica da SERC, Alice Stearns (à esquerda), e a

O novo estudo apresentou resultados do segundo ano do experimento TEMPEST, quando a equipe realizou dois eventos de inundação consecutivos. Sinais de alerta precoce no solo surgiram

(a); fotos da profundidade da zona radicular primária (∼0–30 cm) e do método de instalação das parcelas de exclusão (b); e diagrama dos quatro diferentes tratamentos experimentais (c). As legendas indicam os componentes subterrâneos e o método de instalação de cada tratamento e são abreviadas como R: raiz e rizosfera, M: hifas micorrízicas, S: heterótrofos do solo, U: não perturbado, D: perturbado. O método de instalação da subparcela (0,5 m²) é ilustrado por “trincheiras retangulares” posicionadas em ambos os lados dos esquemas do monólito de solo e é interpretado como RMSU: sem trincheiras retangulares = não perturbado, tratamento controle; MSD: trincheira aberta, malha de 45 μm instalada e preenchida = tratamento de exclusão de raízes; SD: trincheira aberta, malha de 1 μm instalada e preenchida = tratamento de exclusão de raízes e hifas micorrízicas; e RMSD: trincheira aberta e preenchida = tratamento de impacto do método de exclusão

quase imediatamente. As inundações por água salgada apresentaram alguns dos impactos mais extremos. Do ponto de vista da floresta, uma inundação por água salgada não é tão diferente de uma seca, segundo Megonigal.

“O sal tende a privar a árvore de água”, disse Megonigal. “Isso dificulta a absorção de água do solo pela árvore”. Os efeitos da inundação com água salgada duraram mais do que a equipe esperava. A condutividade do solo — um método para estimar a salinidade do solo — aumentou mais de 19 vezes durante a inundação. Cinco dias depois, o solo ainda não havia se recuperado. A condutividade do solo permanecia mais de 10 vezes maior do que antes.

Os níveis de oxigênio no solo também diminuíram, embora tenham se recuperado mais rapidamente. No segundo dia de inundação, ambos os terrenos apresentavam níveis de oxigênio inferiores a 1% do normal. Contudo, três dias após o término da inundação, os níveis de oxigênio haviam retornado a quase os níveis pré-inundação.

Mas a perda de oxigênio teve um efeito mais sutil e persistente. Na área com água doce, bolsões isolados de solo permaneceram sem oxigênio mesmo depois que os níveis de oxigênio em outras áreas do solo se recuperaram. Embora as árvores liberem oxigênio pelas folhas, elas também precisam do oxigênio do ar do solo ao redor de suas raízes para respirar. “Quando você inunda o solo e o isola da atmosfera, essas raízes ficam vulneráveis e acabam sufocadas”, disse Megonigal.

Vista aérea do local de estudo e visão geral do delineamento experimental em blocos
A
cientista da Terra do PNNL, Kendalynn Morris, coletam amostras de solo na floresta TEMPEST
Floresta Fantasma Subterrânea

Fantasmas nas Árvores

Em última análise, o surgimento de uma floresta fantasma depende das árvores. Três espécies dominam a floresta TEMPEST: faia, bordo-vermelho e tulipeiro. E cada espécie teve uma reação diferente à inundação.

Os cientistas mediram a saúde das árvores através do fluxo de seiva, ou seja, a velocidade com que a água se move através delas. É um pouco como medir o pulso de uma árvore.

“Assim como o pulso ou a frequência cardíaca de uma pessoa indicam algo sobre seu estado de saúde, a velocidade com que a água se move pela árvore também indica algo sobre sua saúde”, disse Megonigal. “E se essa velocidade começar a diminuir, significa que algo está errado”.

faias demonstraram

tanto

Enquanto isso, os bordos vermelhos e as tulipeiras apresentaram uma redução na circulação da seiva. As tulipeiras foram as mais afetadas, especialmente na área com água salgada. Ainda mais impressionante, as folhas das tulipeiras na área com água salgada ficaram marrons cerca de dois meses antes, no outono, do que as outras árvores.

“Detectar declínios específicos de cada espécie no fluxo de seiva logo após o nosso segundo ano de tratamentos de inundação foi mais cedo do que prevíamos”, disse Regier. “Isso definitivamente destaca o quão limitado é o nosso conhecimento sobre os limiares de mortalidade para florestas costeiras que sofrem inundações.”

Saber que algumas árvores são mais resistentes pode ajudar os gestores a prever quais florestas costeiras podem ser salvas ou quais árvores plantar em futuras restaurações florestais ou plantações de madeira.

A equipe do projeto TEMPEST já está se preparando para o próximo verão de inundações em 2026. Idealmente, os pesquisadores esperam que o experimento dure uma década inteira. Isso porque, em um ambiente tão longevo quanto uma floresta, dois anos de dados geralmente não contam toda a história. “Sabemos que os ecossistemas não se comportam de forma linear”, disse Bailey.

“A questão é: as respostas que observamos vão diminuir gradualmente ou vão atingir um limiar que levará todo o ecossistema a um estado diferente?

[*]Centro de Pesquisa Ambiental Smithsonian

Pat Megonigal, diretora associada de pesquisa do Centro de Pesquisa Ambiental Smithsonian em Edgewater, Maryland, examina plantas entre as linhas de irrigação onde cientistas estudam os impactos da elevação do nível do mar nas florestas
Árvores de tulipeiro na área de inundação com água salgada no outono de 2024. As folhas do tulipeiro ficaram marrons e caíram semanas antes do que as de outras árvores após a inundação com água salgada
As
maior resiliência. Seu fluxo de seiva aumentou
em inundações de água doce quanto de água salgada

Recifes de coral orquestram o clima da Terra por 250 milhões de anos

Regimes de soterramento de carbonatos, o clima meso-cenozóico e a expansão do nanoplancton

Nosso novo estudo, publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Proceedings of the National Academy of Sciences), mostra que os recifes ajudaram a regular o clima e a vida na Terra por mais de 250 milhões de anos. Elas interligam geologia, química e biologia em um grande ciclo de retroalimentação planetária. E sua ascensão e queda ao longo de centenas de milhões de anos definiram o ritmo da recuperação de choques passados de dióxido de carbono, trazendo lições vitais para os dias de hoje.

Ao longo de sua longa história, o clima da Terra oscilou entre períodos quentes e frios. Essas mudanças refletem a forma como o dióxido de carbono entra e sai da atmosfera, já que mais carbono no ar significa temperaturas mais altas. Grande parte disso ocorre por meio de reações químicas em terra e pelo soterramento de minerais carbonáticos no oceano. Um elemento fundamental desse equilíbrio é a alcalinidade oceânica. Isso descreve a capacidade do oceano de neutralizar ácidos e absorver dióxido de carbono.

Para investigar como os recifes influenciaram esse processo, usamos reconstruções da geografia antiga, dos sistemas fluviais e do clima, e então executamos modelos computacionais até o Período Triássico – cerca de 250 a 200 milhões de anos atrás. Foi nessa época que surgiram os primeiros dinossauros. Essas ferramentas revelaram que os recifes influenciaram a velocidade com que a Terra se recuperou de grandes liberações de dióxido de carbono. Descobrimos que a Terra alterna entre dois modos principais, dependendo do estado dos recifes de coral.

Fotos: Greenpeace International, Institut des Sciences de la Terre, Jody Webster, PNAS, Université Grenoble Alpes , Universidade de Sydney
Recifes também moldaram o planeta

Modelagem da habitabilidade de carbonatos em águas quentes ao longo do tempo

Instantâneos da distribuição geográfica desde o Triássico a partir de modelos macroecológicos de conjunto [modelagem de distribuição de espécies. Os mapas de distribuição de habitats adequados são ponderados pela concordância do modelo de conjunto. Observações paleontológicas de recifes antigos [estrelas brancas, Banco de Dados PaleoReef PARED de determinadas

idades geológicas foram migradas espacialmente para suas localizações antigas, dentro dos limites de suas posições nas plataformas continentais com base em paleolinhas costeiras e reconstruções de inundações continentais. Áreas integradas latitudinal e longitudinalmente de regiões habitáveis (intervalos de 0,5 ° ) são mostradas acima e à direita de cada mapa

Evolução latitudinal e temporal da habitabilidade de carbonatos de águas quentes durante o Meso-Cenozoico [modelo de conjunto de distribuição de espécies

( A ) Estimativas paleolatitudinais (intervalos de 1 ° ) da área de habitat ambientalmente adequada, com base em reconstruções tectônicas de placas, batimétricas e climáticas com base na reconstrução de p CO2 de Foster et al.. Observações paleontológicas de recifes antigos [círculos brancos, Banco de Dados de Paleorecifes (PARED)foram migradas espacialmente para suas latitudes antigas e agrupadas por estágios geológicos. Isocontornos de áreas de habitat adequadas (linhas tracejadas) são fornecidos a cada 200.000 km2. ( B ) Deslocamentos paleolatitudinais nos centroides de habitats adequados para carbonatos de águas quentes sob dois cenários de p CO2 [Foster et al. e

O primeiro modo ocorre quando as plataformas tropicais (áreas continentais rasas e submersas em latitudes tropicais) são amplas e os recifes prosperam. Isso faz com que o carbonato de cálcio – o composto químico que constrói os corais – se acumule em mares rasos. O cálcio torna a água mais alcalina,

CO2 suavizado. As mudanças paleolatitudinais no centroide dos habitats adequados são calculadas globalmente e as curvas para cada cenário de p CO2 são codificadas por cores com base nas áreas de habitat adequadas. O centroide representa a paleolatitude média da área de habitat adequada. Os centroides também são calculados para cada hemisfério com base nas áreas de habitat adequadas do Norte (azul marinho) e do sul (azul claro). Todos os cálculos dos centroides são realizados com pesos proporcionais à área de cada célula adequada para levar em conta a área variável da célula com a latitude. Triássico (Tr), Jurássico (J), Cretáceo (K), Paleógeno (Pg) e Neogeno (Ng).

então, quando fica retido nos corais, o oceano se torna menos alcalino. Com menor alcalinidade, o oceano perde parte de sua capacidade de absorver dióxido de carbono. Consequentemente, quando os níveis de carbono aumentam devido a eventos como erupções vulcânicas, a atmosfera pode levar centenas

de milhares de anos para se recuperar. O segundo estágio ocorre quando mudanças climáticas, queda do nível do mar ou movimentos tectônicos restringem os habitats rasos, fazendo com que os recifes diminuam ou desapareçam. O cálcio então se acumula nas profundezas do oceano, tornando-o mais alcalino. Isso

Habitabilidade e produtividade de carbonatos de águas quentes

( A ) Área de habitat adequada prevista pelo modelo em intervalos de tempo correspondentes (total, magenta) e preservada atualmente [reconstruída usando o modelo de placa PALEOMAP, vermelho. Previsões de modelos alternativos são fornecidas para comparação: JO22 é modelado usando o algoritmo Maxent; PO19 modela a área das plataformas carbonáticas do Cretáceo com base em lógica fuzzy; PO20 corresponde a áreas marinhas rasas disponíveis para a deposição de carbonato nerítico do Cretáceo. As outras duas tendências [KI03 e WA02 são derivadas da análise de litofácies

paleogeográficas. ( B ) Potencial máximo de produtividade (curva magenta tracejada fina) a partir da área de habitat adequada modelada (curva magenta, painel A ); Produtividade real (curva magenta espessa), limitada pelo Ca2 + máximo e influxo de fontes hidrotermais, fluviais e de águas subterrâneas (curva tracejada preta). ( C ) Comparação da produtividade de carbonato (taxa máxima de acumulação limitada pelo influxo máximo de cálcio) com previsões de modelos alternativos (PO20) e observações [DU19, SK03. Triássico (Tr), Jurássico (J), Cretáceo (K), Paleógeno (Pg) e Neógeno (Ng).

significa que o oceano pode absorver dióxido de carbono mais rapidamente. Dependendo do modo em que se encontra, a Terra responderá de maneira muito diferente ao mesmo aumento nos níveis de carbono atmosférico.

Nas fases em que os recifes predominam, a recuperação é mais lenta porque os mares rasos retêm os minerais dissolvidos, conhecidos como íons, que

ajudariam o oceano a absorver carbono. Nas fases em que os recifes entram em colapso, a recuperação acelera porque o sistema de amortecimento do oceano é mais forte e consegue absorver melhor

Regimes limitados pela habitabilidade e alcalinidade e suas implicações na profundidade de compensação de carbonatos e na regulação climática do Meso-Cenozoico

A conexão com o plâncton

( A ) Regime limitado pela habitabilidade. Quando os habitats neríticos são restritos, os íons de cálcio saturam a coluna d’água, a profundidade de compensação de carbonatos (PCC) aumenta e a precipitação de carbonatos em águas profundas também aumenta. Este regime está associado ao aumento do soterramento de carbonatos em águas profundas e à redução relativa do CO2 atmosférico.. ( B ) Regime limitado pela alcalinidade. Quando a contribuição da alcalinidade proveniente do intemperismo e das fontes hidrotermais é baixa, a disponibilidade de íons carbonato torna-se o fator limitante. A precipitação nerítica reduz a alcalinidade, a PCC diminui e os carbonatos em águas profundas se dissolvem, enfraquecendo o tamponamento oceânico e permitindo o acúmulo transitório de CO2 atmosférico. ( C ) Regimes limitados pela habitabilidade e pela alcalinidade (verde e laranja, respectivamente)

o dióxido de carbono. Esses períodos alternados ocorrem há mais de 250 milhões de anos. Eles moldaram os ritmos climáticos e influenciaram a evolução da vida marinha. www.bit.ly/3YCVsU1

identificados pelo excesso de habitabilidade, ou seja, a diferença entre o potencial máximo de produtividade dos carbonatos de águas rasas e o Ca 2+ e influxo. Regimes limitados pela habitabilidade e pela alcalinidade correspondem a períodos de tempo mais frios e mais quentes do que a média, e o excesso de habitabilidade correlaciona-se com as temperaturas atmosféricas médias globais e com as temperaturas da superfície do mar em baixas latitudes ( coeficientes de correlação de Pearson (r) e Spearman destacam várias fases da dinâmica evolutiva de algas pelágicas calcificantes que correspondem a regimes limitados pela habitabilidade e pela alcalinidade. Armazenamento de carbono carbonático sedimentar em águas profundas desde o Cretáceo Inferior (120 Ma até o presente) e CCD global modelado. Triássico (Tr), Jurássico (J), Cretáceo (K), Paleógeno (Pg) e Neogeno (Ng).

Mapeamento da adequação do habitat dos recifes de coral nos últimos 250 milhões de anos.

Mas isso não é tudo o que acontece quando os recifes colapsam.

Quando os íons de cálcio e carbonato se deslocam dos mares costeiros para o oceano aberto, os nutrientes os acompanham. Isso impulsiona o crescimento do plâncton.

Essas minúsculas algas absorvem carbono próximo à superfície e o levam para o fundo do oceano quando morrem, onde fica retido nos sedimentos das profundezas.

O registro fóssil mostra que mais tipos novos de plâncton evoluíram em períodos de colapso dos recifes.

Em contraste, em fases de predominância dos recifes, a mudança evolutiva foi mais lenta devido à menor disponibilidade de nutrientes para o plâncton no oceano aberto. Em essência, o surgimento e o declínio

O oceano tem

dos recifes ajudaram a ditar o ritmo da evolução biológica dos oceanos. E esse impacto biológico tornou ainda mais evidente a influência dos recifes no ciclo do carbono e no clima global.

Uma mensagem de um passado remoto

Hoje, a humanidade está adicionando dióxido de carbono à atmosfera a uma taxa comparável a algumas das maiores perturbações de carbono da história da Terra. Ao mesmo tempo, os recifes de

de

e

coral estão diminuindo devido ao aquecimento, à acidificação e à poluição.

Se a atual perda de recifes espelha eventos antigos de colapso de recifes, o cálcio e os carbonatos podem migrar novamente para as profundezas do oceano. Em teoria, isso poderia fortalecer a absorção de dióxido de carbono a longo prazo. Mas isso só ocorreria após uma perda ecológica catastrófica. A principal lição é que a Terra se recuperará, mas não em escalas de tempo humanas. A recuperação geológica leva de milhares a centenas de milhares de anos.

[*] Professor associado, Escola de Geociências, Universidade de Sydney [**] Pesquisador de ciências da terra, Centre national de la recherche scientifique (CNRS) [***] Université Grenoble Alpes, Institut des Sciences de la Terre, Centre National de la Recherche Scientifique [****] Université Grenoble Alpes, Institut des Sciences de la Terre, Centre National de la Recherche Scientifique Em The Conversation

diminuído sua capacidade
sequestrar
armazenar carbono e os recifes de coral estão diminuindo devido ao aquecimento global, à acidificação e à poluição

As mudanças climáticas na indústria global de frutos do mar

As mudanças climáticas ameaçam a indústria global de frutos do mar. Elas adicionam e amplificam uma complexa rede interligada de riscos físicos, econômicos, financeiros e sistêmicos

APlanet Tracker demonstrou a materialidade financeira das mudanças climáticas para a indústria de frutos do mar em pesquisas anteriores, incluindo In Hot Water (atum da Indonésia), Pollockonomics (EUA/Rússia, polaca do Alasca) e Fishful Thinking (pesca em águas distantes na China). Esses riscos impactam tanto a aquicultura quanto a pesca extrativa. Suas manifestações físicas, econômicas e financeiras se propagam pelas cadeias de valor, afetando economias, meios de subsistência, estruturas sociais, segurança alimentar e geopolítica. Esses riscos impulsionados pelo clima são agravados por outros fatores de perda de biodiversidade no contexto de uma crescente demanda por frutos do mar. A saúde da indústria de frutos do mar depende da produtividade oceânica, da abundância de espécies e da estabilidade do ecossistema. As mudanças climáticas estão pressionando esses recursos naturais, colocando em risco

Anomalias globais da temperatura média anual da superfície do mar em relação à média de 1961-1990 (conjunto de dados HadSST41850-2024, em graus Celsius). As faixas mostram os anos mais quentes em vermelho e os anos mais frios em azul. Acredita-se que o pico de temperatura em 1945 seja devido a um viés introduzido por uma mudança na técnica de amostragem durante a Segunda Guerra Mundial.

os investimentos financeiros na economia de frutos do mar. Suas manifestações físicas, econômicas e financeiras se propagam pelas cadeias de valor e afetam economias, meios de subsistência, estruturas sociais, segurança alimentar e geopolítica. Investimentos em adaptação são necessários.

de

do

da

Estrutura deste relatório

Este relatório ilustra a urgência de mitigar e se adaptar aos impactos das mudanças climáticas, caracterizando as diferentes maneiras pelas quais as mudanças climáticas afetam financeiramente empresas, governos, comunidades e investimentos na indústria de frutos do mar.

Primeiramente, apresentamos os principais riscos para a produção de frutos do mar, ilustrados por estudos de caso que demonstram como esses riscos já estão se materializando. Em seguida, discutimos seu impacto na economia em geral e no sistema financeiro. Demonstramos então como os riscos físicos podem se traduzir em riscos financeiros, descrevendo como as mudanças em variáveis físicas, como temperatura da água do mar, salinidade ou prevalência de doenças, podem impactar a lucratividade. Concluímos mostrando como os investimentos em adaptação podem mitigar esses riscos.

A indústria
frutos
mar depende
produtividade oceânica, da abundância de espécies e da estabilidade do ecossistema

Ao longo deste relatório, usamos o termo “indústria de frutos do mar” para nos referirmos à pesca industrial e à aquicultura, bem como às etapas subsequentes da cadeia de suprimentos (processamento, atacado, armazenamento e varejo).

As referências a “produtores de frutos do mar” abrangem apenas a pesca e a aquicultura. Uma descrição financeira da indústria de frutos do mar pode ser encontrada aqui.

Embora os riscos climáticos também impactem a pesca não industrial e a aquicultura, este relatório se concentra na indústria de frutos do mar, nas instituições financeiras e nos governos envolvidos em seu financiamento e gestão. Retivemos apenas os riscos relacionados às mudanças climáticas que se originam no oceano. Questões como interrupções no abastecimento de água doce ou na disponibilidade de ração à base de ingredientes terrestres não são abordadas neste relatório.

• Isso demonstra que a indústria de frutos do mar é significativamente afetada pelas mudanças climáticas, com perdas na receita da pesca que podem chegar a US$ 15 bilhões até 2050 em cenários de altas emissões, enquanto os investimentos em adaptação permanecem mínimos.

• Apresenta uma tipologia de 83 riscos decorrentes das mudanças climáticas para a indústria de frutos do mar, demonstrando, por meio de estudos de caso, que muitos desses riscos já estão destruindo bilhões de dólares em valor financeiro.

• Mapeia os caminhos pelos quais os riscos físicos se transformam em riscos financeiros.

• Argumenta que variáveis biofísicas como a temperatura do mar, eventos climáticos extremos ou biomassa de peixes são fatores-chave para o desempenho financeiro presente e futuro.

A organização sem fins lucrativos Planet Tracker, sediada em Londres, divulgou um relatório que descreve como os efeitos das mudanças climáticas, incluindo o aquecimento dos oceanos, a acidificação e a alteração das correntes marítimas, ameaçam a indústria

global de frutos do mar. Segundo o estudo, se as emissões permanecerem altas e os investimentos baixos, as perdas na receita da pesca poderão chegar a US$ 15 bilhões anualmente até 2050.

A organização afirmou que as mudanças climáticas amplificam uma complexa rede interligada de riscos físicos, econômicos, financeiros e sistêmicos, impactando tanto a aquicultura quanto a pesca extrativa. Suas manifestações físicas, econômicas e financeiras se propagam pelas cadeias de valor e afetam economias, meios de subsistência, estruturas sociais, segurança alimentar e geopolítica.

Mudança na localização do centro populacional de peixes no final do século em comparação com 2000–2010, por bacia
Índice de risco climático para a vida marinha

A Planet Tracker é um think tank financeiro (organização que cria e dissemina conhecimento sobre os mais variados temas) que fornece análises para alinhar os mercados de capitais aos limites planetários. Seu estudo apresenta uma tipologia de 83 riscos impulsionados pelas mudanças climáticas para a indústria de frutos do mar, demonstrando, por meio de estudos de caso, que muitos desses riscos já estão destruindo bilhões de dólares em valor financeiro.

O estudo também mapeia os caminhos pelos quais os riscos físicos se transformam em riscos financeiros e argumenta que variáveis biofísicas, como a temperatura do mar, eventos climáticos extremos ou biomassa de peixes, são fatores-chave para o desempenho financeiro presente e futuro.

O estudo observa que o aquecimento das águas já está alterando a distribuição das espécies, causando proliferação de algas e águas-vivas, acidificação dos oceanos e desoxigenação. Por exemplo, espécies de águas quentes, como o robalo e a anchova, migraram para áreas ao redor do Reino Unido que antes seriam consideradas frias demais para elas ou para suas presas.

Outras espécies, como o bacalhau, o tamboril e a solha, migraram para águas mais profundas e latitudes mais altas para se manterem em tempera-

O aquecimento dos oceanos, a acidificação e a alteração das correntes marítimas, ameaçam a indústria global de frutos do mar

Efeitos em cascata das mudanças climáticas sobre os peixes e a pesca

turas mais amenas. Por exemplo, o bacalhau do Atlântico, no Mar do Norte, é tradicionalmente encontrado a 200-300 metros abaixo do nível do mar, em águas com temperaturas de até 15°C, mas está

migrando para latitudes mais altas e águas mais profundas. “Até 2100”, diz o relatório, “a biomassa de espécies valiosas de água fria, como arenque, bacalhau e arinca, deverá diminuir entre 10% e 20% no

Mar do Norte, em cenários de aquecimento moderado”. Essas mudanças podem produzir uma série de efeitos, incluindo disputas sobre direitos de pesca, perda de empregos e questões geopolíticas.

Número mediano de perdas (vermelho) e ganhos (azul) de espécies locais na composição de espécies marinhas entre o início e o fim do século XXI sob o cenário RCP8.5

Inteligência artificial na reprodução do pirarucu

Técnicas de aprendizado de máquina (machine learning) foram utilizadas em 12 viveiros escavados na unidade da Embrapa no Tocantins para avaliar o comportamento reprodutivo da espécie. Os computadores foram treinados para distinguir os viveiros e identificar os animais... para abrirem portas para outras explorações da inteligência artificial na aquicultura

AEmbrapa Pesca e Aquicultura (TO) está utilizando inteligência artificial de forma inédita para estudar o comportamento reprodutivo do pirarucu (Arapaima gigas). A pesquisa, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), adapta técnicas já usadas na análise comportamental de roedores para a realidade da aquicultura. O objetivo é aumentar a previsibilidade da reprodução do maior peixe amazônico e abrir caminho para novas aplicações tecnológicas na criação.

Segundo o professor Cleiton Aguiar, da UFMG, projetos voltados a espécies nativas representam um avanço importante e colocam a pesquisa em posição pioneira no rastreamento automatizado de animais em sistemas de criação

O uso de IA na piscicultura ainda é muito recente no Brasil. A maior parte das pesquisas em inteligência artificial está concentrada em áreas como saúde, agronegócio de grãos, pecuária e estudos biomédicos. “Aplicações em piscicultura, especialmente com espécies nativas como o pirarucu, representam uma nova fronteira”, destaca o professor da UFMG Cleiton Aguiar, parceiro do projeto. Ele acrescenta que esse tipo de abordagem de rastreamento comportamental automatizado no País coloca o projeto em uma posição pioneira na integração de tecnologia de ponta com a produção aquícola.

Ao rastrear automaticamente os movimentos do pirarucu em gravações ininterruptas de vídeos, a IA possibilita mensurar comportamentos como deslocamento, tempo de atividade, interações e até detectar padrões relacionados ao estado de saúde ou ao ambiente de cultivo. Em vez de depender apenas da observação humana, que é limitada e subjetiva, a inteligência artificial gera dados quantitativos, contínuos e padronizados, facilitando o acompanhamento da produção e a tomada de decisões no manejo.

No caso da pesquisa da Embrapa, 12 câmeras foram instaladas em 12 viveiros escavados, filmando durante o período de luz solar, das 6h às 18h. A cada subida do pirarucu – que é um peixe de respiração aérea – a IA detecta e faz uma marcação com um ponto na imagem do viveiro.

“A máquina conta quantas vezes o pirarucu sobe e faz uma planilha de Excel com dia, hora e as coordenadas do viveiro onde houve a aparição do peixe”, explica Lucas Torati, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura “Mas antes de chegar

A pesquisa adapta técnicas já usadas na análise comportamental de roedores para a realidade da aquicultura
Fotos: Arquivo pessoal, Embrapa, OTCA, Siglia Souza, UFMG

a esse ponto há um longo caminho de aprendizado de máquina”, complementa.

O projeto é financiado com recursos do consórcio de pesquisa internacional Aquavitae, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (FAPT) e de emenda parlamentar do senador do Tocantins, Eduardo Gomes.

Redes neurais profundas

O modelo adota treinamento de redes neurais profundas para que a máquina consiga identificar automaticamente a subida do pirarucu na superfície.

Primeiro, são marcados os quatro cantos do viveiro e onde o peixe aparece na superfície. Isso é feito para várias imagens e, na sequência, a rede é treinada para aprender o que é um pedaço do peixe e o que é um canto do viveiro.

“É como treinar um cérebro virtual, a partir de cerca de 200 quadros. Essa técnica de aprendizado de máquina, ou machine learning, faz com que ela consiga analisar os vídeos com base nos padrões ensinados, que são os viveiros e as partes do corpo dos peixes (cabeça, tronco e cauda)”, explica Torati.

Ele acrescenta que durante esse trabalho de aprendizado de máquina, deve-se levar em conta ias variações climáticas e de luminosidade dos viveiros para que a máquina consiga fazer a análise das imagens em todas as condições. “Para isso, é necessário utilizar imagens com diferentes condições de incidência luminosa (manhã, sol do meio-dia e entardecer) e quadros em diferentes condições climáticas (sol nublado, chuva, céu aberto).

É um treinamento longo e minucioso para que a máquina possa depois analisar vídeos em todas essas condições”, pontua o pesquisador. Segundo o professor da UFMG, as redes neurais profun-

São marcados os quatro cantos do viveiro e onde o peixe aparece na superfície. Isso é feito para várias imagens e, na sequência, a rede é treinada para aprender o que é um pedaço do peixe e o que é um canto do viveiro

das (deep neural networks) são modelos computacionais inspirados no funcionamento do cérebro, compostos por várias camadas de processamento que permitem aprender representações complexas a partir de dados. “No contexto do projeto, essas redes são treinadas com vídeos do pirarucu: primeiro, um conjunto de imagens é anotado manualmente (marcando pontos de interesse no corpo do peixe) e, em seguida, a rede aprende a reconhecer automaticamente esses pontos em novos vídeos”, afirma o professor. Ele observa ainda que esse processo é feito com o auxílio do software open source DeepLabCut (DLC), uma ferramenta

Pesquisador Lucas Torati segurando um pirarucu
Redes neurais profundas (deep neural networks) são modelos computacionais inspirados no funcionamento do cérebro

de aprendizado profundo amplamente utilizada para rastreamento de animais. “Assim, a rede vai ficando cada vez mais precisa em identificar e acompanhar o movimento dos peixes em diferentes condições”, reforça Aguiar.

No Laboratório de Neurociências Comportamental e Molecular (LANEC) da UFMG, a inteligência artificial é utilizada, principalmente, para análise de sinais neurofisiológicos e de comportamento em roedores. Nesse contexto, o DLC tem a função de rastrear movimentos dos ratos durante tarefas de aprendizagem.

Os estudos contam com a colaboração da engenheira e doutoranda Natália Martínez, do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFMG.

A mesma ferramenta está sendo usada para o monitoramento do pirarucu. A diferença principal está no objeto de estudo e na conjuntura: em roedores, o foco é compreender os mecanismos de formação de memória e aprendizagem utilizando ratos como modelos animais, enquanto na piscicultura a IA é empregada para monitorar padrões comportamentais dos animais na superfície da água que possam refletir de alguma forma o seu bem-estar, crescimento e comportamento reprodutivo, com impacto direto na produção e manejo sustentável.

Detecção precoce de alevinos

Na pesquisa da Embrapa, a ideia é mapear a formação do ninho formado

pelo casal de pirarucus. Esse momento é crucial para os produtores, que preferem recolher os alevinos o mais cedo possível. “Após a implantação de hormônio nos peixes, eles se reproduzem e foram o ninho para que a fêmea possa depositar ovos, a serem fertilizados pelo macho”, esclarece Torati.

Na sequência, há um comportamento típico da espécie, que é o do cuidado parental, em que o macho e a fêmea ficam sempre no mesmo lugar.

Outro sinal é que o casal não busca mais comida. Com a inteligência artificial será possível identificar o momento exato em que esse processo

O objetivo é aumentar a previsibilidade da reprodução do maior peixe amazônico e abrir caminho para novas aplicações tecnológicas na criação

acontece, de forma precoce.

“Se fosse possível, a coleta de ovos recém-fertilizados, certamente, aumentaria a taxa de sobrevivência. Geralmente, os produtores têm uma perda de milhares de alevinos, pela demora em retirá-los do viveiro”, ressalta o pesquisador.

Aplicações de IA na aquicultura

O uso de IA na aquicultura não se restringe a estudos de reprodução do pirarucu. Os resultados obtidos nessa pesquisa abrem portas para outros tipos de explorações científicas com a espécie, como, por exemplo, avaliar como fatores relacionados à temperatura da água e á quantidade de oxigênio e de amônia podem interferir na frequência de respiração do pirarucu. Também será possível pesquisar qual é o período em que o pirarucu é mais ativo, o quão estressado o peixe fica após o manejo, durante a biometria; será possível pesquisar o reflexo de cada doença no comportamento do peixe, entre outras aplicações.

“A IA também permite monitorar a eficiência alimentar e o consumo de comida dos peixes, de forma automática, sem necessidade de contagem manual. Quem sabe, em um futuro próximo, consigamos calcular automaticamente a biomassa desses animais (saber o quanto engordaram) a partir da biometria por meio de fotos propiciada pela inteligência artificial. Isso minimizaria muito o estresse e todo o trabalho de manejo de um peixe que pode chegar a mais de 100 quilos”, projeta Torati.

A rede aprende a reconhecer automaticamente esses pontos em vídeos do pirarucu, afirma o professor
Alevino de pirarucu

Prováveis implicações para a futura elevação do nível do mar

Cientistas perfuraram até o fundo da Cúpula de Prudhoe, na Groenlândia, com 488 metros de profundidade, e descobriram que ela desapareceu há 7.000 anos, no início do Holoceno, derretendo as temperaturas próximas do que se prevê que alcançaremos até o final do século

Parte da camada de gelo da Groenlândia derreteu completamente há cerca de 7.000 anos, a temperaturas próximas às previstas para o final deste século, e isso pode ter grandes implicações para a futura elevação do nível do mar, de acordo com um novo estudo.

A Cúpula de Prudhoe, atualmente uma calota de gelo com 500 metros de espessura que cobre 2.500 quilômetros quadrados do noroeste da Groenlândia, derreteu sob as temperaturas mais quentes do início do Holoceno, expondo os sedimentos abaixo dela.

Como temperaturas semelhantes são previstas para o final do século, isso poderá levar a uma perda significativa de gelo ao longo do tempo. A camada de gelo da Groenlândia, atualmente a maior contribuinte individual para a elevação do nível do mar, adicionaria 7,3 metros (24 pés) ao nível médio global do mar se todo o seu gelo derretesse.

Fotos: Jason Briner, Joerg Schaefer, Universidade de Buffalo, Universidade de Columbia
Variação da altura de gelo da Groenlândia
Os cientistas perfuraram o solo até atingir a rocha matriz sob a Cúpula de Prudhoe, na camada de gelo da Groenlândia, para descobrir quando a região esteve livre de gelo pela última vez

“Quando tudo o que você vê é gelo em todas as direções, pensar que esse gelo pode ter desaparecido no passado geológico recente e que poderá desaparecer novamente no futuro é realmente algo que nos faz sentir humildes”, disse o autor principal, Caleb Walcott-George , geólogo da Universidade de Kentucky. Após o fim da última era glacial , há cerca de 11.700 anos, as temperaturas na Groenlândia subiram para níveis superiores às médias atuais, levando ao derretimento generalizado do gelo. No entanto, os efeitos da mudança climática na extensão da camada de gelo são difíceis de determinar, uma vez que grande parte das evidências que apontam para a cobertura de gelo — ou a sua ausência — durante o Holoceno está enterrada sob o gelo existente atualmente.

No novo estudo, publicado na recentemente (5 de janeiro) na Nature, cientistas perfuraram a Cúpula de Prudhoe para coletar sedimentos debaixo da camada de gelo. Em seguida, usaram luz infravermelha para medir por quanto tempo os sedimentos ficaram enterrados sob a cúpula sem serem expostos à luz solar.

A equipe descobriu que o sedimento foi exposto à luz solar pela última vez há cerca de 7.100 anos. Isso significa que o

gelo deve ter derretido completamente nesse período para expor a poeira e as rochas abaixo. As assinaturas químicas na coluna de gelo sugerem que nenhum resquício de gelo era da última era glacial e que a cúpula derreteu e se reformou completamente nos anos seguintes.

As temperaturas de verão eram de

3 a 6 graus Celsius (5,4 a 10,8 graus Fahrenheit) mais quentes no início e no meio do Holoceno do que são agora. Os principais modelos climáticos, como o CMIP6, preveem que, até 2100, as temperaturas de verão poderão subir para valores semelhantes. Esse aquecimento poderá ter um grande impacto na cama-

Jason Briner, professor da Universidade de Buffalo e co-líder do projeto, destacou que o derretimento da geleira Prudhoe Dome ocorreu durante um período conhecido pela estabilidade climática, quando os humanos estavam começando a desenvolver a agricultura e a civilização. Ele enfatizou que, se o aquecimento natural e moderado daquela época causou um recuo de longo prazo da calota polar, as atuais mudanças climáticas provocadas pela ação humana poderiam causar seu derretimento novamente.

A calota de gelo Prudhoe Dome, na Groenlândia, desapareceu completamente há apenas 7.000 anos

da de gelo da Groenlândia, escreveram os pesquisadores no estudo.

Mas ainda não está claro por quanto tempo as temperaturas tiveram que permanecer tão altas para derreter completamente o gelo da Cúpula de Prudhoe. Limitar o aquecimento futuro pode ajudar a conter o derretimento da camada de gelo, escreveram os pesquisadores.

A perfuração estendeu-se por mais de 488 metros (1.600 pés) no gelo para atingir o leito rochoso abaixo

O início do Holoceno “é uma época conhecida pela estabilidade climática, quando os humanos começaram a desenvolver práticas agrícolas e a dar passos em direção à civilização.

Portanto, para que as mudanças climáticas naturais e amenas daquela época tenham derretido a Cúpula de Prudhoe e a mantido retraída por potencialmente milhares de anos, pode ser apenas uma questão de tempo até que ela comece a se desprender novamente devido às mudanças climáticas induzidas pelo homem”, disse Jason Briner , geólogo e paleoclimatologista da Universidade de Buffalo e coautor do estudo, em comunicado

Amostras adicionais de gelo coletadas em outras partes da Groenlândia podem ajudar a mapear o quanto a camada de gelo recuou durante o período mais quente do Holoceno, fornecendo uma melhor compreensão de como ela

O painel superior mostra as áreas que atendem aos requisitos de perfuração (mostradas em vermelho) no noroeste da Groenlândia. A camada de gelo da Groenlândia é representada em azul claro, e as linhas de voo da Operação IceBridge (OIB) da NASA são mostradas como linhas finas marrons. O painel inferior mostra o radar da OIB do Domo de Prudhoe ao longo de A–A′, com topografia, o leito da camada de gelo e a superfície da camada de gelo a partir de dados de radar coletados em 2017; o refletor no meio da camada de gelo é o múltiplo da superfície. Topografia e batimetria do mapa base de Morlighem et al

Cientistas perfuraram quase três quilômetros de profundidade através do topo da camada de gelo da Groenlândia (ponto branco, à esquerda) para atingir o leito rochoso. Isótopos encontrados na rocha indicam que este local e a maior parte da Groenlândia estavam praticamente livres de gelo (à direita) durante o passado geológico recente. (Ilustração de Schaefer et al., 2016)

poderá reagir no futuro e como o nível do mar poderá subir como consequência. “Temos modelos numéricos muito confiáveis que podem prever a taxa de derretimento, mas também queremos dados observacionais reais que possam nos dizer, de forma inequívoca, que uma determinada quantidade de aquecimento no passado levou ao desaparecimento de uma determinada quantidade de gelo”, disse Briner.

O coautor do estudo, Joerg Schaefer, professor de pesquisa no Observatório da Terra Lamont-Doherty da Universidade de Columbia, acrescentou que as descobertas ajudarão a mostrar quais partes da camada de gelo da Groenlândia são mais vulneráveis — o que é crucial para prever a elevação do nível do mar local. “Este novo campo científico fornece essas informações por meio de observações diretas e representa uma mudança radical em termos de previsão do derretimento do gelo”, afirmou em comunicado.

Área da operação IceBridge na Cúpula de Prudhoe, no noroeste da Groenlândia

Deltas fluviais da Terra — incluindo o Nilo e o Amazonas — estão afundando mais rápido do que o nível global do mar está subindo

O estudo revela quais atividades conduzidas por humanos são os principais impulsionadores. Os resultados podem ajudar as comunidades que residem em deltas a priorizar melhor as intervenções locais imediatas, juntamente com os esforços de adaptação climática

Nature, Ohenhen et al., Nature, 2026, Universidade da Califórnia-Irvine, Virginia Tec

Subsidência do solo em deltas fluviais globais. A taxa média de subsidência do solo para 40 deltas, conforme avaliado neste estudo. Cada círculo é codificado por cores de acordo com a respectiva taxa média de subsidência do solo para cada delta. O tamanho do círculo representa a porcentagem da área do delta que está sofrendo subsidência mais rapidamente do que a elevação do nível do mar (ENM). A taxa de ENM para cada região é exibida como um gradiente de cores em toda a bacia hidrográfica do delta (observe que os limites da bacia hidrográfica não representam a extensão da exposição à ENM). Adaptado de Ohenhen et al., Nature, 2026.

Os deltas do mundo abrigam centenas de milhões de pessoas, mas há um problema: uma nova pesquisa da Uni-

versidade da Califórnia, Irvine, mostra que esses deltas estão afundando. Até agora, não estava claro qual era a taxa de perda de elevação dos deltas, ou o que es-

tava causando a subsidência, mas em um novo estudo publicado na Nature, cientistas relatam que a subsidência do solo causada por humanos é a principal culpada.

Fotos:

O financiamento foi fornecido pela NASA e pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

“Nosso estudo fornece as primeiras observações de subsidência em alta resolução em toda a extensão de 40 grandes sistemas deltaicos, revelando não apenas onde a terra está afundando, mas também quantificando o quanto”, disse Leonard Ohenhen, professor de ciências do sistema terrestre da UC Irvine e principal autor do estudo. “Também quantificamos as contribuições relativas de fatores humanos específicos: extração de água subterrânea, escassez de sedimentos e urbanização nesses deltas, o que nos permite identificar o principal fator de afundamento”.

A equipe descobriu que, em todos os deltas, a terra está afundando a uma taxa média que varia de menos de um milímetro por ano em deltas como o Delta do Fraser, no Canadá, a mais de um centímetro por ano no Delta do Rio Amarelo, na China, com muitas áreas deltaicas afundando a uma taxa mais que o dobro da taxa global de elevação do nível do mar.

Em regiões costeiras e deltaicas ao redor do mundo, a falta de medições de alta resolução das mudanças de elevação tem dificultado, há muito tempo, os esforços para distinguir a gravidade da subsidência do solo e da elevação do nível do mar.

Utilizando dados de radar de satélite, a equipe de Ohenhen mediu a perda de elevação da superfície em 40 deltas. A análise revelou que, em 35% deles, a extração de água subterrânea por humanos é o principal fator de subsidência do solo.

“O predomínio da subsidência sobre a elevação do nível do mar foi mais generalizado do que o previsto, e em todos os deltas que monitoramos, pelo menos uma parte está afundando mais rápido do que a superfície do mar está subindo”, disse Ohenhen.

“Embora isso afete menos de um por cento da área em deltas como o do Rio Grande, em outros como o Mekong, o Chao Phraya e o Nilo, vastas áreas que abrangem grande parte da área do delta estão afundando mais rápido do que as taxas atuais de elevação do nível do mar”.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o delta do rio Mississippi tem um longo histórico documentado de subsidência, e a nova análise confirma que essa tendência permanece acentuada.

Em todos os deltas, a terra está afundando
Utilizando dados obtidos por satélite, Leonard Ohenhen mapeou toda a Costa Leste para demonstrar como a inclusão da subsidência do solo revela que muitas áreas são mais vulneráveis a inundações e erosão do que se pensava anteriormente
O Delta do Amazonas é um dos 18 dos 40 maiores deltas do mundo que estão afundando mais rápido do que as taxas atuais de elevação do nível do mar

a , Proporção de cada delta exposta a diferentes taxas de subsidência. Observe que apenas as áreas de subsidência são representadas em cada barra, e as áreas de elevação dentro de cada delta são omitidas para enfatizar a extensão da perda de elevação. b – m , Mapas espaciais das taxas de VLM para os deltas do Fraser (Canadá) ( b ), Mississippi (EUA) ( c ), Paraná (Argentina) ( d ), Níger (Nigéria) ( e ), Nilo (Egito) ( f ), Pó (Itália) ( g ), Ganges-Brahmaputra (Índia-Bangladesh) ( h ), Chao Phraya (Tailândia) ( i ), Mekong (Vietnã)

“O Delta do Mississippi está afundando a uma taxa média de 3,3 milímetros por ano, em comparação com a elevação do nível do

( j ), Rio Vermelho (Vietnã) ( k ), Rio das Pérolas (China) ( l ) e Rio Amarelo (China) ( m ). Valores positivos de VLM (tons verde-púrpura) sugerem elevação ou ganho de altitude, enquanto valores negativos de VLM (tons amarelo-laranja-vermelho) indicam subsidência do solo. Os mapas espaciais de VLM para os outros 28 deltas são mostrados nas Figuras de Dados Estendidos 2 a 4. A imagem de fundo em b a m é da Esri, com ruas escuras. Barras de escala: 5 km ( b ); 50 km ( c , f , h , j ); 20 km ( d , e , i , k , l , m ); 10 km ( g ).

mar na costa do Golfo do México, de 7,3 milímetros por ano – embora áreas substanciais estejam afundando mais rapidamente do

que essa elevação local do nível do mar, em algumas áreas mais de 89 milímetros (3,5 polegadas) por década”, disse Ohenhen.

Padrão espacial de VLM (movimento vertical do nível do mar), em deltas globais

máxima de afundamento superior a 30 milímetros por ano

“Esses padrões reforçam as preocupações contínuas com a perda de terras na costa da Louisiana, tanto por terra quanto pelo mar”.

Embora a subsidência do solo domine frequentemente a exposição atual na maioria dos deltas, a elevação do nível do mar impulsionada pelas mudanças climáticas continua sendo uma ameaça fundamental a longo prazo. O derretimento do gelo polar e o aquecimento das temperaturas oceânicas estão causando atualmente uma elevação global do nível do mar de quatro milímetros por ano – uma taxa que deverá acelerar ao longo do próximo século.

Ohenhen explicou como as descobertas devem ajudar as populações que habitam regiões deltaicas a priorizar melhor as medidas de mitigação e a escolher estratégias de adaptação.

“Esses resultados oferecem às comunidades do delta uma visão mais clara de uma ameaça adicional, que pode causar maior exposição a inundações, e essa clareza sobre o perigo que enfrentam é fundamental”, disse Ohenhen.

Fatores antropogênicos que impulsionam a subsidência do solo e a perda de altitude em deltas globais

a , Gráfico de bolhas mostrando a relação entre as taxas de VLM e os fatores antropogênicos em deltas. O gráfico mostra a taxa de VLM (mm ano⁻¹ ) em função da taxa de GWS (mm ano⁻¹ ) . As cores das bolhas representam a variação do fluxo de sedimentos (%), em que valores positivos (cores azuis) indicam aumento na oferta de sedimentos devido a atividades humanas (e, portanto, maior potencial para ganho de elevação e compensação da perda de elevação induzida pela subsidência), enquanto

valores negativos (cores amarelo-laranja-vermelho) indicam uma diminuição na disponibilidade de sedimentos. O tamanho da bolha indica a variação da fração urbana (%), com círculos maiores representando uma maior expansão urbana ao longo do século XXI. A linha tracejada representa o ajuste de regressão linear múltipla (MLR). Consulte a Figura Suplementar 8 para relações individuais entre cada fator antropogênico e a VLM. b , Gráfico ternário das taxas de subsidência com os escores nLIME.

Mais da metade da área medida no delta do Mississippi está afundando a uma taxa superior a quatro milímetros por ano, com uma taxa

Fatores antropogênicos que impulsionam a subsidência do solo e a perda de altitude em deltas globais

a , Gráfico de bolhas comparando a elevação do nível do mar geocêntrica (absoluta) (mm ano⁻¹ ) e a subsidência do solo (mm ano⁻¹ ) em 40 deltas. Deltas em que as taxas de subsidência excedem a elevação do nível do mar geocêntrica ficam à direita da linha 1:1, enquanto aqueles em que a elevação do nível do mar geocêntrica excede a subsidência ficam à esquerda. As cores das bolhas indicam a população total do delta, variando de menos de 100.000 (cores mais claras) a mais de 100 milhões (cores mais escuras).

O tamanho da bolha representa a porcentagem da população que vive em áreas de delta que sofrem subsidência mais rapidamente do que a elevação do nível do mar ge-

“Se a terra está afundando mais rápido do que o nível do mar está subindo, então os investimentos em gestão de águas subterrâneas, recuperação de sedimentos e infraestrutura resiliente se tornam as maneiras mais imediatas e

ocêntrica. b , Igual a a , mas considerando apenas a população que vive em altitudes abaixo de 1 m. Observe que os deltas dos rios Brantas e Amarelo têm valores maiores que 15 mm ano⁻¹ e não estão representados no gráfico para maior clareza visual. c , Gráficos de barras comparando a variação das taxas de subsidência do solo, a elevação do nível do mar contemporânea e a projetada para 30 deltas representativos. A taxa máxima de subsidência é calculada como a mediana das 50 taxas mais altas para evitar vieses decorrentes de valores extremos isolados. A linha vertical tracejada mostra a taxa máxima projetada de elevação do nível do mar para 2100 em todos os deltas.

eficazes de reduzir a exposição”. Entre os colaboradores estão Manoochehr Shirzaei e Susanna Werth da Virginia Tech, Jim Davis e Austin Chadwick da Universidade Columbia, Robert Nicholls da Universidade de East Anglia e da Universidade de Sou -

thampton, na Inglaterra, Philip Minderhoud da Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen, na Holanda, e Julius Oelsmann da Universidade Tulane. O financiamento foi fornecido pela NASA e pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Tecnologia ultrassônica do MIT extrai água potável do ar em minutos

Um novo método ultrassônico acelera drasticamente a recuperação de água de materiais de captação de ar

Pesquisadores do MIT descobriram uma maneira de usar as vibrações mecânicas das ondas sonoras para liberar moléculas de água de um meio de armazenamento. Essa inovação acelera significativamente o processo de coleta de água potável a partir do ar.

Desde tintas especiais a aerogéis esponjosos , até materiais com as maiores áreas de superfície conhecidas , cientistas de todo o mundo estão trabalhando arduamente para encontrar maneiras de extrair água do ar que nos rodeia.

Mesmo em climas muito secos, o ar que respiramos contém água, e encontrar uma maneira de captá-la poderia fornecer uma fonte de água potável para milhões de pessoas, mesmo que elas não tenham acesso a fontes de água doce ou abastecimento municipal.

O problema com muitos dos conceitos atuais de captação de água é que, uma vez que um material absorve água do ar, é necessário aplicar calor para evaporar a água desse material e condensá-la novamente para uso como água potável.

“Qualquer material que seja muito bom em capturar água não quer se separar dessa água”, diz Sevetlana Boriskina, do MIT. “Então você precisa investir muita energia e horas preciosas para extrair a água do material”.

Pesquisadores do MIT têm tentado eliminar esse processo que consome muita energia, como vimos no início deste ano com seu coletor passivo de água , que coleta água em um material semelhante a plástico bolha e usa o calor do sol para evaporá-la. Embora isso elimine a necessidade de aplicar uma fonte de energia ao sistema, pode levar algum tempo para que todo o processo se complete e forneça água potável limpa.

Fotos: Ikra Iftekhar, MIT
Dois protótipos do dispositivo ultrassônico, sendo que o da direita mostra a água que ele removeu em apenas alguns minutos
Cientistas de todo o mundo estão trabalhando arduamente para encontrar maneiras de extrair água do ar que nos rodeia.
Sevetlana Boriskina, do MIT

Agora, Borinska – a principal cientista pesquisadora do Departamento de Engenharia Mecânica do MIT – e uma nova equipe de pesquisadores desenvolveram uma maneira inovadora – e muito mais rápida – de liberar a água presa no ar: ondas sonoras. Os pesquisadores desenvolveram um atuador ultrassônico totalmente novo, com formato semelhante a uma placa plana. Em seguida, colocaram um material de coleta de água previamente testado e saturado em seu centro. Depois, ligaram o atuador e direcionaram ondas ultrassônicas ao material, ondas essas que se propagam em frequências superiores a 20 quilohertz (20.000 ciclos por segundo).

O resultado foi que toda a água contida no material foi expelida em forma de gotículas em apenas dois a sete minutos. O design da placa permitiu que essas gotículas fossem canalizadas por bicos e pingassem em uma área de coleta. Você pode ver como tudo funciona na visualização a seguir. “Com ultrassom, podemos quebrar com precisão as ligações fracas entre as moléculas de água e os locais onde elas estão alojadas”, diz o primeiro autor do estudo, Ikra Iftekhar Shuvo.

“É como se a água estivesse dançando com as ondas, e essa perturbação direcionada cria um impulso que libera as moléculas de água, e podemos vê-las se desprenderem em gotículas.”

Segundo os pesquisadores, o dispositivo conseguiu liberar a água capturada a uma taxa 45 vezes mais eficiente do que usar o calor do Sol. Embora o atuador ultrassônico exija uma quantidade míni-

Tecnologia de captação de água atmosférica de alta eficiência. Assista o YouTube: www.youtube.com/watch?v=rX-A4WhYo0A

Shuvo e Boriskina projetaram um novo atuador ultrassônico para recuperar água de um material de coleta de água atmosférica. O coração do dispositivo é um anel de cerâmica plano que vibra quando uma tensão é aplicada

ma de energia para funcionar, a equipe afirma que essa eletricidade poderia ser fornecida por uma célula solar acoplada.

O potencial de diferentes partes do mundo nas quatro estações do ano para a captação de água atmosférica

(a) Ponto de orvalho em diferentes partes do mundo em janeiro de 2022.

(b) Abril (c) Julho (d) Outubro.

“A beleza deste dispositivo reside no fato de ser completamente complementar e poder ser um complemento para praticamente qualquer material absorvente”, afirma Boriskina. “Assim que o material estiver saturado, o atuador seria acionado brevemente, alimentado por uma célula solar, para expelir a água. O material estaria então pronto para coletar mais água, em múltiplos ciclos ao longo de um único dia.” Borsinka afirma que, após desenvolvimento adicional, o novo sistema poderia ser implementado como um sistema prático para uso doméstico, que utilizaria um material de rápida absorção e um atuador maior, aproximadamente do tamanho de uma janela, para extrair água potável gratuita do ar. “Tudo se resume à quantidade de água que conseguimos extrair por dia”, conclui ela. “Com o ultrassom, podemos recuperar a água rapidamente e repetir o ciclo várias vezes. Isso pode representar uma grande quantidade extraída por dia”.

[*] Fonte: MIT

Carregadores de gelo fotografando as mudanças climáticas no rio Chadar congelado

Na região de Ladakh, no noroeste da Índia, as duas estradas que ligam as pequenas aldeias do Vale de Zanskar ao resto do país ficam fechadas, soterradas pela neve, a cada inverno. Do início de janeiro ao início de fevereiro, o rio se transforma em uma sólida camada de gelo, criando uma trilha natural emoldurada pelos imponentes picos do Himalaia e de Zanskar

Como a maioria das discussões sobre mudanças climáticas, o trabalho científico sobre a criosfera do Himalaia geralmente visa contribuir para a compreensão das mudanças climáticas em escala global. Narrativas abrangentes centradas nos impactos em larga escala e nas implicações globais das mudanças climáticas na região são comuns. Mas o que uma descrição das mudanças climáticas que diverge do discurso científico típico, que não se concentra em percebê-las como um fenômeno global, poderia implicar? No Himalaia, o conhecimento climático vai além dos dados científicos e das descobertas tecnológicas; ele está

As mudanças climáticas estão desestabilizando os padrões de congelamento do rio, e o desenvolvimento está trazendo turismo e recursos para esta região que permaneceu isolada por muito tempo. Atualmente, os principais praticantes da trilha de Chadar são turistas ricos em busca de aventura, e embora alguns habitantes de Zanskar ainda usem a estrada de gelo para acessar cidades vizinhas, uma nova rodovia pavimentada, parcialmente concluída , está mudando esse cenário.

Um ensaio fotográfico criado por Karine Gagné, professora associada do departamento de sociologia e antropologia da Universidade de Guelph, em Ontário, Canadá, examina a experiência corporal das mudanças climáticas para os carregadores de gelo no Chadar (“lençol” ou “cobertor” em hindi).

intrinsecamente ligado às experiências vividas pelas comunidades locais. No entanto, as narrativas mais específicas que esclarecem como as mudanças climáticas são vivenciadas e enfrentadas pelas comunidades da montanha muitas vezes permanecem visivelmente ausentes dessas discussões. Essas narrativas menos discutidas carregam um significado profundo, pois encapsulam as complexidades da vida cotidiana, refletindo os encontros diretos e as vulnerabilidades vivenciadas pelos indivíduos nessas comunidades. Elas também lançam luz sobre como o corpo atua como mediador das mudanças climáticas.

por *Isabel Norman, Estado do Planeta
Fotos: Jigmat Lundup, Tsultim Gyatso, Stanzin Angchuk, Stanzin Nizang
A travessia do rio Chadar no Vale de Zanskar, uma das aventuras mais desafiadoras e gratificantes do país

No Himalaia, o conhecimento climático vai além dos dados científicos e das descobertas tecnológicas; ele está intrinsecamente ligado às experiências vividas pelas comunidades locais

Durante séculos – entretanto, os habitantes locais encontraram uma solução alternativa: uma estrada de gelo formada pelo congelamento do rio Chadar. Uma jornada de uma semana em temperaturas congelantes os conecta ao mundo exterior. Um ensaio fotográfico colaborativo , “The Feel of Climate Change” (A Sensação da Mudança Climática), publicado na Current Anthropology, explora esse mundo dos carregadores de gelo no Chadar e como esse modo de vida ancestral está mudando rapidamente.

Carregadores se preparam para a caminhada do dia

Em regiões isoladas como o Vale de Zanskar, há poucos recursos ou financiamento para pesquisas científicas quantitativas sobre mudanças climáticas.

“Não existem pesquisas científicas sobre como o rio está congelando, como isso o afeta.

Portanto, não há outra maneira de falar sobre isso a não ser pela experiência das pessoas que vivem lá”, explicou Gagné, que trabalha na região há mais de uma década.

Para este projeto, ela reuniu fotos, entrevistas com carregadores e percepções de seu extenso trabalho de campo na região. “Adoro falar sobre este [ensaio fotográfico] porque, para mim, é muito diferente”, disse Gagné, “é algo que continua sendo diferente do formato rígido e escrito” da pesquisa antropológica típica. O ensaio fotográfico é um precursor de seu projeto maior em andamento, uma “etnografia gráfica” da região.

Em 2019, Gagné começou a distribuir câmeras para carregadores, guias e cozinheiros no Chadar, pedindo-lhes que fotografassem tudo em suas vidas, desde o rio congelado até suas passagens no gelo, passando por suas maneiras de cozinhar e dormir.

Guias e turistas percorrem o Chadar, coberto por uma camada de água, fenômeno que ocorre com o aumento repentino da temperatura

“Tenho interesse em compreender o trabalho deles e os desafios que enfrentam... mas também as coisas que eles próprios acham interessantes e gostariam de representar em imagens. Foi um processo muito aberto”, observou Gagné. O resultado foram milhares de fotos que documentam o dia a dia dos carregadores de gelo em um mundo em transformação.

Para este ensaio fotográfico, Gagné selecionou apenas 12 imagens, partindo de panoramas amplos da estrutura do acampamento e da geografia do rio, até detalhes mais íntimos dos desafios da travessia no gelo. Nesta foto inicial, fileiras de barracas laranja vibrantes se destacam contra os tons suaves de cinza e azul do cânion.

“Enquanto os turistas descansam em tendas no Chadar, os carregadores enfrentam condições mais difíceis, encontrando abrigo em cavernas para dor-

mir”, explica a legenda que acompanha a imagem. Com o aumento da acessibilidade da região nos últimos anos, o turismo também cresceu. As fotos fre-

quentemente refletem uma tensão em relação ao desenvolvimento, justapondo a presença humana à vastidão do rio. Aqui, uma massa de mochilas coloridas ocupa a maior parte do enquadramento. Não há rostos, apenas filas de carregadores esperando para atravessar um trecho desafiador.

“Lembra um pouco as fotos que vemos no Everest, com as pessoas todas juntas, não é?”, sugeriu Gagné.

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Cozinhando no acampamento após um longo dia de trekking em Chadar
Guias e turistas percorrem o Chadar, coberto por uma camada de água, fenômeno que ocorre com o aumento repentino da temperatura
Turistas e carregadores acampando às margens do rio Chadar congelado

que está acontecendo”, disse Gagné. A foto final, que mostra a preparação da refeição no acampamento, não está precisamente focada nem é tecnicamente perfeita. Mas tem um realismo cru. “Está cheio de fumaça, é difícil e está escuro”, disse Gagné, “representa realmente como é o trabalho de um cozinheiro.”

Diferentemente dos ensaios fotográficos antropológicos tradicionais, os carregadores aqui não são apenas fotógrafos, mas também foram fotografados. “O que [os carregadores] escolhem documentar seria inerentemente diferente do que um artista consagrado faria”, disse Lydia D. Pilcher, cineasta e professora adjunta da Escola de Clima da Universidade Columbia, em entrevista ao GlacierHub.

As fotos dos carregadores não são necessariamente uma representação artística da travessia do gelo, mas sim um vislumbre realista do seu dia a dia. Há uma necessidade de “valorizar essas perspectivas”, enfatizou Gagné. No Chadar, os carregadores se orientam tateando o gelo, percebendo sua profundidade e resistência. O gelo do rio se desloca, e partes do Chadar alternam rapidamente entre gelo e água — atravessar o rio congelado sempre foi difícil. Mas agora, o aumento das temperaturas está perturbando os padrões de congelamento do rio. Em 2024, o rio não congelou em nenhum momento, e os carregadores ficaram sem trabalho para a temporada.

Fazer trekking no Chadar exige dias longos e perigosos, passados ao ar li -

vre em temperaturas abaixo de zero. Como disse o carregador Stanzin Angchuk: “Quem sentiria falta deste trabalho?”. Mas, em uma região com poucas oportunidades de emprego, trabalhar no Chadar é uma questão de sobrevivência. É possível que a nova rodovia possa “impactar negativamente o charme do Chadar e o futuro do turismo”, afirmou Gagné. Parece que, em um trabalho que ninguém quer fazer, os carregadores veem seu sustento ameaçado tanto pelas mudanças climáticas quanto pelo desenvolvimento.

Comunidades montanhosas isoladas e empobrecidas, como o Vale de Zanskar, estão entre as mais afetadas pelas mudanças climáticas, des -

de os impactos do derretimento das geleiras até a necessidade de lidar com eventos climáticos extremos . No entanto, nesses lugares, as pessoas tendem a não perceber as mudanças climáticas por meio de dados ou estatísticas, explicou Gagné, mas sim por meio da experiência prática.

O ensaio fotográfico reflete isso. “O projeto trata dessa subjetividade radical da mudança climática, em oposição a essa objetividade absoluta”, continuou ela. “Estamos abordando a questão de um ângulo completamente diferente e falando abertamente sobre a mudança climática através da perspectiva de como ela pode ser uma experiência subjetiva e incorporada.”

O próprio rio é chamado de Chadar apenas quando está congelado (“chadar” é uma palavra em hindi que significa lençol ou cobertor). No restante do ano, o rio, quando flui livremente, é conhecido como Zanskar.

Assim, com o aquecimento do planeta e a interrupção do padrão de congelamento do rio, o próprio Chadar poderá deixar de existir. Em meio a essa incerteza, a obra de Gagné explora a sensação da mudança climática para os carregadores de gelo. Alterada pelo desenvolvimento, pelo turismo e pelo aquecimento global, a realidade da região está se transformando. Em um mundo percorrido pelo tato, o caminho a seguir é desconhecido.

[*] Em Notícias

Os guias batem no gelo com uma bengala: um som fraco indica gelo frágil, um som alto indica gelo resistente
Vista de cima, cinco carregadores atravessam um trecho perigoso, agarrados a uma corda
da Escola de Clima da Universidade Columbia

4.000 geleiras desaparecerão a cada ano até a década de 2050

Um estudo divulgado recentemente mostrou que milhares de geleiras desaparecerão a cada ano nas próximas décadas, restando apenas uma fração delas até o final do século, a menos que o aquecimento global seja controlado

De acordo com a pesquisa, a ação governamental em relação às mudanças climáticas poderá determinar se o mundo perderá 2.000 ou 4.000 geleiras anualmente até meados do século.

Uma pequena variação de alguns graus pode significar a diferença entre preservar quase metade das geleiras do mundo em 2100 ou menos de 10%.

“Nossos resultados reforçam a urgência de políticas climáticas ambiciosas”, afirmou no estudo publicado na Nature Climate Change e liderado pelo glaciologista Lander Van Tricht.

Os pesquisadores geralmente se concentram na perda de massa e área dos gigantes de gelo do mundo, mas Van Tricht e seus colegas se propuseram a determinar quantas geleiras individuais poderiam derreter anualmente neste século.

Fotos: Basemap / Natural Earth / Springer Nature / ETH Zurich/Cátedra de Glaciologia, Lander Van Tricht / ETH Zurich/Cátedra de Glaciologia, Mapa base do Natural Earth, Matthias Huss / ETH Zurich/Cátedra de Glaciologia, Nature Climate Change
Um funeral simbólico foi realizado nos Alpes Suíços em 2019 para lamentar o desaparecimento da geleira Pizol.
Escondida no interior da geleira Morteratsch, na Suíça, encontra-se uma grande caverna de gelo — um sinal impressionante, porém preocupante, da desintegração glacial em curso e acelerada, que leva à redução do número de geleiras nos Alpes e em todo o mundo

geleiras nos Alpes

a geleira Pizol – e isso está se tornando cada vez mais comum

Embora o derretimento de geleiras individuais menores possa ter menos impacto na elevação do nível do mar do que o de geleiras maiores, sua perda pode prejudicar significativamente o turismo ou a cultura local, disseram os cientistas.

Os gráficos de pizza mostram o número de geleiras que se espera que desapareçam em cada região global. O gradiente de cores indica quando essa perda está projetada para ocorrer: tons de vermelho denotam perda mais precoce e tons de amarelo representam perda mais tardia. As linhas tracejadas marcam os anos de 2050 e 2075. Para maior clareza, as cores são agrupadas em intervalos de cinco anos. No mapa-múndi central, a localização das geleiras na data do inventário é mostrada em azul. Os histogramas ao redor do mapa-múndi comparam o número e o tamanho das geleiras em 2025 (barras brancas) com as projeções para o ano de 2100 sob os mesmos quatro níveis de aquecimento global (barras coloridas). A altura de cada barra indica o número total de geleiras dentro do intervalo de tamanho correspondente. Uma linha preta sólida destaca a altura das barras brancas, representando a distribuição atual. O número de geleiras em 2025 (fonte preta) e 2100 (cores da Trajetória Socioeconômica Compartilhada - SSP) sob diferentes níveis de aquecimento está listado no canto superior direito de cada histograma

“O desaparecimento de cada geleira pode ter grandes impactos locais, mesmo que sua contribuição para o derretimento da neve seja pequena”, disse Van Tricht, da ETH Zurich e da Vrije Universiteit Brussel, a repórteres.

O coautor Matthias Huss, também glaciologista da ETH Zurich, participou em 2019 de um funeral simbólico para a geleira Pizol nos Alpes Suíços.

“A perda de geleiras de que estamos falando aqui é mais do que apenas uma preocupação científica. Ela realmente toca nossos corações”, disse ele.

Os cientistas examinaram os contornos de 211.490 geleiras, derivados de imagens de satélite de um banco de dados global, para determinar o ano em que o maior número delas desaparecerá — um conceito que denominaram “ pico de extinção das geleiras “.

Eles utilizaram modelos computacionais de geleiras sob diversos cenários

Extinção das geleiras no século XXI
Pequenas
estão desaparecendo completamente – como já aconteceu com

Sob condições de aquecimento extremo, até mesmo geleiras de tamanho médio, como a geleira do Ródano, encolhem drasticamente. Em 2100, dependendo do cenário de aquecimento global, apenas 20 geleiras poderão permanecer nos Alpes

de aquecimento diferentes — desde um mundo em que as temperaturas aumentam 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais até um em que aumentam 4°C. Atualmente, o mundo perde cerca de 1.000 geleiras por ano, mas o estudo alerta que esse ritmo tende a acelerar. O número de geleiras que desaparecem anualmente atingirá o pico de 2.000 em 2041, mesmo que o aquecimento seja limitado a 1,5°C — o limite que os países se comprometeram a buscar no âmbito do Acordo de Paris para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Nesse ritmo, restariam 95.957 geleiras em todo o planeta até 2100, ou pouco menos da metade. As Nações Unidas, no entanto, alertaram que o aquecimento está a caminho de ultrapassar 1,5°C nos próximos anos.

Com base em projeções que mostram um aumento de temperatura de 2,7°C sob políticas governamentais, cerca de 3.000 geleiras desapareceriam a cada ano entre 2040 e 2060, disseram os glaciologistas.

Em 2100, apenas uma em cada cinco geleiras, ou seja, 43.852, teria sobrevivido em um mundo com aquecimento de 2,7°C. No pior cenário possível, em que as temperaturas subam 4°C, até 4.000 geleiras desapareceriam a cada ano até meados da década de 2050. Apenas 9% das geleiras, ou seja, 18.288, permaneceriam até o final do século.

O momento em que ocorre o pico do desaparecimento das geleiras varia entre as regiões, dependendo de seu tamanho e localização.

Quase zero

Em áreas com predominância de geleiras menores, como os Alpes europeus e os Andes subtropicais, metade delas poderá desaparecer em duas décadas.

Em partes do mundo com geleiras maiores, como a Groenlândia e a periferia da Antártida, o pico do desaparecimento das geleiras ocorrerá mais tarde neste século. Os pesquisadores enfatizaram que, embora o desaparecimento das geleiras atinja o pico em todos os cenários, o ritmo só começa a diminuir porque restam menos geleiras e as maiores levam mais tempo para derreter.

Por exemplo, Van Tricht afirmou que a taxa de perda nos Alpes cairá para quase zero até o final do século “simplesmente porque quase não restam geleiras”.

Regiões montanhosas de baixa altitude na Europa Central, oeste do Canadá, Estados Unidos, Ásia Central e partes próximas ao Equador dos Andes e das cordilheiras africanas podem perder mais da metade de suas geleiras antes de 2040. O gráfico mostra o sentido horário: quanto mais escura a tonalidade, mais cedo ocorrerá a perda

Algas marinhas da Groenlândia armazenam carbono nas profundezas do oceano

Um estudo interdisciplinar confirma, pela primeira vez, as vias oceanográficas que transportam macroalgas flutuantes das águas costeiras do sudoeste da Groenlândia para reservatórios de carbono em águas profundas, desempenhando potencialmente um papel anteriormente desconhecido...

Um estudo interdisciplinar confirma, pela primeira vez, as vias oceanográficas que transportam macroalgas flutuantes das águas costeiras do sudoeste da Groenlândia para reservatórios de carbono em águas profundas, desempenhando potencialmente um papel pouco reconhecido no armazenamento global de carbono. O trabalho foi publicado na Science of The Total Environment. As macroalgas, ou algas marinhas (incluindo o kelp), são habitats costeiros altamente produtivos, capazes de absorver quantidades significativas de carbono atmosférico (CO₂).

O papel das macroalgas no armazenamento de carbono

Estudos anteriores estimaram que, globalmente, de 4 a 44 teragramas (1 Tg = um milhão de toneladas métricas)

Imagens multiespectrais de alta resolução do satélite Sentinel-2 revelaram quase 8.000 manchas de macroalgas flutuantes na plataforma continental da Groenlândia, confirmando a presença generalizada de macroalgas em alto-mar

[A] Localização de tapetes flutuantes de macroalgas, codificados por cores de acordo com o mês. Também são mostradas as áreas de cobertura combinadas das imagens do Sentinel-2 e a isóbata de 1000 m (linha preta tracejada). Índice de

algas flutuantes [B] e imagem em cores reais [C] do Sentinel-2 de 19 de agosto de 2020, mostrando o maior tapete individual de macroalgas flutuantes detectado, com uma área de 221.900 m². O detalhe em [B] mostra a localização do tapete.

Fotos: Ciência do Ambiente Total, Daniel F. Carlson, K. Filbee-Dexter, Science of The Total Environment (2026)
Imagem subaquática mostrando Saccharina latiissima (alga marinha de folha longa) e Fucus (pequenas frondes ramificadas).

por ano de carbono derivado de macroalgas podem atingir profundidades de 200 m, onde podem ser sequestrados por pelo menos 100 anos. No entanto, a contribuição das macroalgas para o armazenamento de carbono a longo prazo tem sido difícil de quantificar com certeza devido a problemas como: a ampla gama de propriedades das macroalgas que precisam ser consideradas; a complexidade das interações com os processos físicos de transporte oceanográfico; e a falta de evidências científicas sobre os deslocamentos e transformações das macroalgas desprendidas após deixarem as costas rochosas.

Métodos e resultados do estudo

Para suprir essa lacuna de conhecimento, a equipe de estudo, coliderada pelo Instituto Leibniz de Pesquisa do Mar Báltico Warnemünde e pelo Helmholtz-Zentrum Hereon, na Alemanha, e envolvendo cientistas do Laboratório Marinho de Plymouth, da Universidade de Exeter, de Portugal, da Arábia Saudita e da Dinamarca, utilizou uma combinação de imagens de satélite, rastreamento de derivados oceânicos, modelagem numérica e análises avançadas de turbulência para demonstrar que extensas camadas de macroalgas podem viajar centenas de quilômetros mar adentro.

Eventualmente, essas camadas podem afundar a grandes profundidades, onde seu carbono orgânico pode ser armazenado a longo prazo.

Macroalgas costeiras da Groenlândia. que podem viajar centenas de quilômetros mar adentro. Eventualmente, essas camadas podem afundar a grandes profundidades, onde seu carbono orgânico pode ser armazenado a longo prazo
Infográfico sobre o transporte de macroalgas na Groenlândia

Variações no estado hídrico foliar e tolerância à seca de espécies de árvores dominantes que crescem em florestas tropicais multi-idade florestais

A) Talo de alga gigante (Macrocystis pyrifera); B) estrutura típica de comunidade de floresta de alga gigante, incluindo o

Dados de 305 dispositivos de monitoramento oceanográfico, que flutuam na superfície para investigar as correntes oceânicas rastreando sua localização, e modelos de simulação numérica mostraram que as correntes oceânicas podem transportar macroalgas flutuantes das zonas costeiras para águas mais profundas em escalas de tempo ecológicas (em média de 12 a 64 dias), frequentemente antes que ocorra a ruptura estrutural.

sub-bosque de algas e a biodiversidade associada; e C) Rotas das algas gigante da floresta de algas para o mar profundo

Essas descobertas foram corroboradas pela análise de mais de 1.300 imagens multiespectrais de alta resolução do satélite Sentinel-2 , por meio de um serviço operado pelo programa Copernicus da UE. Essas imagens revelaram quase 8.000 manchas de macroalgas flutuantes na plataforma continental da Groenlândia e no Mar do Labrador adjacente, confirmando a presença generalizada de macroalgas em alto-mar.

Modelos oceânicos tridimensionais altamente detalhados, utilizando técnicas de Simulação de Grandes Vórtices (LES), revelaram ainda que a convecção oceânica profunda no inverno, onde a mistura vertical vigorosa é impulsionada pelo resfriamento das águas superficiais, pode submergir macroalgas flutuantes a grandes profundidades. Sob a alta pressão encontrada nessas águas oceânicas mais profundas, as estruturas de flutu-

na Tailândia

Histogramas dos tempos de residência das trajetórias do Programa Global de Derivadores da NOAA na plataforma continental do sudoeste da Groenlândia

[A] e no Mar do Labrador [B]. As localizações das travessias do Programa Global de Derivadores da NOAA da plataforma continental para o Mar do Labrador são codificadas por cores de acordo com o mês [C] e o número total de travessias por mês [D].

abilidade dentro das algas colapsam, fazendo com que afundem e transportem carbono para as profundezas do oceano.

O autor principal, Dr. Daniel Carlson, do Instituto Leibniz de Pesquisa do Mar Báltico em Warnemünde, comentou sobre o estudo: “Nosso estudo destaca não apenas a importância das macroalgas no ciclo do carbono oceânico, mas também o papel crucial da colaboração científica internacional e do apoio a conjuntos de dados de longo prazo e de acesso aberto. As avaliações observacionais do transporte de macroalgas em locais remotos e desafiadores, como a plataforma continental do sudoeste da Groenlândia e o Mar do Labrador, só foram possíveis graças às imagens do satélite Sentinel-2, fornecidas pelo programa Copernicus da Europa, e aos dados do Programa Global de Deriva, mantido pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA)”.

“O apoio contínuo a esses conjuntos de dados, e a outros semelhantes, ajudará a capacitar uma comunidade científica sem fronteiras — que, em nosso caso, incluiu cientistas de instituições em 8 países — para se unir na resolução de problemas em escala planetária que são vastos demais para qualquer nação enfrentar sozinha”.

A professora Ana Queirós, ecologista marinha especializada em mudanças climáticas e líder da área de mudanças climáticas no Laboratório Marinho de Plymouth, acrescentou: “Este estudo fornece mais uma prova irrefutável de que o carbono das algas marinhas provavelmente acaba em sumidouros de águas profundas, ao identificar os processos físicos oceânicos que conectam a produção costeira com o sequestro de carbono em águas profundas”.

“Nossas descobertas ilustram uma correia transportadora oceânica tangível que conecta florestas costeiras de macroalgas prósperas com o reser-

vatório de carbono do oceano profundo. Reconhecer essas vias naturais de transporte e mistura aprimora nossa compreensão do papel vital das macroalgas no ciclo do carbono da Terra”.

“Esses chamados ‘sumidouros de carbono’ são rotas naturais no oceano que retêm carbono, impedindo sua liberação na atmosfera, onde as emissões excessivas de dióxido de carbono causadas pela atividade humana estão aquecendo nosso planeta. Este estudo, portanto, reforça a visão de que as algas marinhas contribuem de forma importante para a regulação do nosso sistema climático”.

Groenlândia como estudo de caso e pesquisas futuras

O sudoeste da Groenlândia foi selecionado como área de estudo de caso por oferecer uma localização ideal para testar as premissas subjacentes às estimativas de exportação de macroalgas das áreas costeiras para o mar profundo.

A região possui abundância de macroalgas em seu litoral rochoso, sendo que a espécie dominante de alga marrom flutua quando desprendida. Outros estudos confirmaram que o DNA ambiental (eDNA) dos sedimentos identificou macroalgas em sedimentos que se estendem desde áreas costeiras rasas até 1460 m de profundidade e 350 km da costa.

A prevalência de macroalgas na Groenlândia e nos sedimentos da plataforma continental, talude e águas profundas do Ártico, com predominância de algas pardas, tem sido mantida por milênios, documentando que a exportação de macroalgas da Groenlândia contribui para o sequestro de carbono a longo prazo no Ártico.

Para estudos futuros, a equipe recomenda um estudo interdisciplinar em larga escala para observar os três processos principais que resultam na exportação de macroalgas flutuantes de fontes costeiras para potenciais sumidouros no Mar do Labrador: desprendimento; exportação para o mar aberto por correntes superficiais; exportação vertical.

Para atingir esse objetivo, é necessário determinar experimentalmente a longevidade em flutuação e a velocidade de ascensão das principais espécies de macroalgas flutuantes, bem como suas velocidades de afundamento após o colapso das estruturas de flutuação. Da mesma forma, a profundidade em

Avaliações observacionais do transporte de macroalgas em locais remotos e desafiadores

[A] Trajetórias de 30 derivadores Hereon no Mar do Labrador. Os derivadores foram lançados no final de agosto de 2022 e registraram suas posições por aproximadamente 75 dias. [B] Os derivadores foram inicialmente arrastados por vórtices de mesoescala, onde permaneceram durante os primeiros 24 dias. [C] Após deixarem os vórtices, os derivadores foram transportados para sudeste, exibindo também comportamentos de looping. Os ‘X’ pretos e os círculos vermelhos denotam os pontos inicial e final, respectivamente, das trajetórias consideradas.

O aquecimento da água do mar e a redução do crescimento do gelo marinho, devido ao aumento da temperatura global

Têm um impacto significativo no ecossistema ártico, favorecendo o crescimento de algas marinhas ou macroalgas em áreas costeiras. Sabe-se que as macroal -

gas produzem maior biomassa orgânica anualmente, o que pode contribuir para os estoques de carbono dos fiordes árticos.

Vias oceanográficas transportam macroalgas flutuantes das águas costeiras do sudoeste da Groenlândia para reservatórios de carbono em águas profundas, desempenhando potencialmente um papel pouco reconhecido no armazenamento global de carbono.

que ocorre o colapso da estrutura de flutuação deve ser determinada para desenvolver parametrizações confiáveis para a exportação vertical. De forma geral, o estudo conclui que a proteção e a restauração de florestas de macroalgas costeiras em todo o mundo podem trazer benefícios climáticos significativos que vão muito além da linha costeira, reforçando a necessidade de proteger os ecossistemas de águas profundas que recebem esse carbono, bem como o papel de ambas as áreas na regulação do clima do nosso planeta.

O estudo conclui que a proteção e a restauração de florestas de macroalgas costeiras em todo o mundo podem trazer benefícios climáticos significativos que vão muito além da linha costeira, reforçando a necessidade de proteger os ecossistemas de águas profundas

Pequenos desmatamentos de florestas tropicais são os principais causadores pela perda de carbono

Pequenas clareiras persistentes em florestas úmidas impulsionam a perda de biomassa em florestas tropicais

Ao pensar na destruição das florestas tropicais da Terra, uma imagem familiar pode vir à mente: incêndios ou motosserras devastando enormes extensões da Amazônia, liberando massas de dióxido de carbono que contribuem para o aquecimento global

Mas novas pesquisas sugerem que o desmatamento em uma escala muito menor é igualmente prejudicial para o clima, reduzindo drasticamente a capacidade das florestas tropicais de absorver carbono da atmosfera.

Esses atos de destruição florestal mais

Mudanças no carbono florestal tropical global, mostrando ganhos, perdas e mudanças líquidas cumulativas de carbono em diferentes regiões e tipos de distúrbios.

(a e b) ilustram as áreas de maior ganho e perda bruta de carbono acima do solo (AGC) nas Américas, África e Ásia, com destaque para a Amazônia e a Indonésia; (c) mostra que, embora algumas áreas tenham ganhos, grandes regiões tropicais, como partes da Amazônia e do Sudeste Asiático, apresentam perda líquida de carbono; (d) comparam a recuperação da AGC ao longo do tempo após diferentes distúrbios (incêndios, degradação, novo crescimento) na Amazônia e na Indonésia, indicando diferentes taxas de recuperação; (e) resume as mudanças cumulativas de carbono por continente, mostrando que, no geral, as perdas superam os ganhos, resultando em um balanço líquido negativo global

Fotos: Global Forest Watch, LSCE, Nature, Unsplash/CC0 Domínio Público
Desmatamento de menos de dois hectares responsável por 56% das perdas de carbono

silenciosos e de menor escala “são responsáveis pela maior parte das perdas de carbono observadas nos últimos 30 anos” nas florestas tropicais do mundo, afirmou o cientista francês Philippe Ciais.

Em um novo estudo, Ciais e outros pesquisadores descobriram que o desmatamento de menos de dois hectares representava uma pequena fração do desmatamento tropical, mas era responsável por 56% das perdas de carbono desses importantes sumidouros de carbono.

Essas descobertas destacaram o impacto climático “desproporcional” do desmatamento tropical em pequena escala e exigiram uma revisão das políticas, afirmou o estudo publicado na Nature, recentemente.

Isso ressaltou a importância de combater o desmatamento em nível local, onde o flagelo pode passar despercebido, ofuscado pela destruição maior e mais espetacular em pontos críticos mais conhecidos, como a Amazônia.

As florestas tropicais são um componente chave do sistema terrestre. Área: 1750 milhões de hectares (11,7% da superfície terrestre) - Reservatório total de carbono vegetal: 320 Pg C (52,0% carbono vegetal, 40% carbono atmosférico) - Florestas Tropicais

As florestas tropicais contêm metade do carbono armazenado nas árvores do mundo, desempenhando um papel essencial na retenção de carbono que retém calor na atmosfera, causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis pela humanidade. Mas são elas que estão mais ameaçadas pelo desma-

tamento ou pela degradação parcial causada por incêndios, ou para dar lugar à agricultura, à exploração madeireira ou à mineração.

Segundo seu último relatório anual, o observatório Global Forest Watch estima que o equivalente a 18 campos de futebol por minuto de floresta tropical foram destruídos em 2024.

Globalmente, as florestas tropicais contribuíram com as maiores remoções e emissões de carbono. Dois terços do sumidouro global de carbono florestal foram compensados pelo desmatamento tropical

A equipe internacional de pesquisadores responsável pelo estudo utilizou dados de observações por satélite para examinar o desmatamento em zonas tropicais desde 1990.

O método deles se baseia em pesquisas anteriores, levando em consideração o crescimento de novas árvores na equação. Isso ocorre quando as árvores têm a oportunidade de se regenerar após o desmatamento, representando um ganho de carbono.

Embora um incêndio de grandes proporções possa reduzir vastas extensões de floresta a cinzas, o impacto no carbono é compensado a longo prazo, à medida que a vegetação exuberante cresce novamente. Por outro lado, o desmatamento em pequena escala muitas vezes representa uma mudança permanente, já que a terra desmatada é transformada em fazendas, estradas e vilas.

Isso ocorreu particularmente na Amazônia, mas agora está concentrado principalmente em países em desenvolvimento ricos em florestas no Sudeste Asiático e na África, segundo o estudo.

Floresta tropical destruídas em 2024, segundo o relatório anual do observatório Global Forest Watch
Secundárias: Dinâmica de Distúrbios e Recuperação

(a) mostra as classes de tamanho de mancha dominante (em hectares) em células de grade de 1° em todo o mundo; (b) detalha o ganho e a perda de carbono (PgC) em diferentes classes de tamanho de mancha, com a perda líquida predominante em manchas maiores; O

A conclusão foi que essas áreas perderam mais carbono do que absorveram nos últimos trinta anos. Por outro lado, as florestas tropicais secas localizadas na periferia dessas regiões mais úmidas alcançaram um balanço de carbono neutro, pois se beneficiaram em parte da regeneração pós-incêndio. Isso ressaltou a importância de permitir que as florestas se regenerem após a destruição e mostrou que as perdas de carbono não são “inexoráveis”, disse Ciais, pesquisador do Laboratório de Ciências Climá-

Distribuição espacial e as estatísticas de distúrbios de terra, como fogo e desmatamento, e seus impactos cumulativos nas mudanças de carbono e área em diferentes tamanhos de manchas de distúrbio

gráfico inferior (b) compara a área (Mha) de diferentes tipos de distúrbio (fogo, desmatamento, etc.) entre as classes de tamanho.Tipos de distúrbio: Os distúrbios de fogo e degradação são os tipos mais comuns, especialmente em manchas de tamanho maior.

ticas e Ambientais (LSCE) da França.

“Se conseguíssemos agir para reduzir significativamente as atividades relacionadas à degradação e ao desmatamento, as florestas poderiam se regenerar muito rapidamente e, assim, passar de fonte a sumidouro de carbono”, disse Ciais aos jornalistas.

Para muitas nações subdesenvolvidas, é simplesmente mais lucrativo desmatar do que proteger as florestas, e romper com esse modelo econômico perverso tem se mostrado difícil. Essa questão

foi destacada na COP 30 - cúpula climática da ONU realizada em novembro em Belém, no Brasil, onde os anfitriões lançaram um fundo de investimento destinado a recompensar financeiramente os países em desenvolvimento que mantêm suas florestas tropicais intactas. As políticas de combate ao desmatamento devem levar em consideração a realidade dos agricultores no terreno e buscar fornecer fontes adicionais de renda para que o desmatamento não seja necessário, disse Ciais.

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