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comem carne e muito pouco vegetal. “O que eu sei, através das orientações que ouvi dos meus lamas, é que quando as pessoas estão muito instáveis emocionalmente devem se alimentar muitas vezes por dia e comer comidas que sustentem mais, como leite e ovos, por exemplo, pois elas assentam os ventos nos canais sutis onde a energia do corpo circula”, diz Candida Bastos, do Odsal Ling, Centro de Budismo Tibetano em São Paulo. “Em algumas práticas espirituais se recomenda que não se coma depois do meio-dia, e que as refeições sejam leves, sem condimentos brancos, do tipo cebola e alho, e sem a ingestão de proteína animal. Entretanto essa orientação é dada em determinadas práticas e também em alguns votos monásticos”, completa ela.

Candomblé No Candomblé, comer é um ritual sagrado, é agradar aos deuses. Quem nos explica um pouco é Lucia Helena Corrêa, cantora e seguidora do Candomblé: “Os yorubás viviam (algumas tribos ainda vivem) do plantio do inhame (isu), milho (àgbado), feijão (ewa), quiabo (ilá) e mandioca (paki). E, para garantir a colheita farta, mas também em sinal de agradecimento pelo que lhes chega à mesa, eles oferecem aos orixás parte da refeição que contém esses alimentos, e que também se definem como comidas secas (livres do sangue ou qualquer bebida)”. “Quando a oferenda (ebó) leva um pedido de socorro (maleme), o 'sacrifício', imposto ao filho de santo, é abster-se de comer os alimentos oferecidos. Às vezes, apenas por algum tempo, outras vezes, para sempre”, diz ela. “Depende da gravidade da situação. O mesmo acontece no caso dos rituais de limpeza com alimentos.

O filho de Obaluê que usar pipoca (flores), elemento de Obaluaê/Umulu para passar no corpo e, assim, libertar-se de alguma doença, dificilmente poderá voltar a comer pipoca. Alguns, no dia do orixá de cabeça (coroa), evitam comer alimentos que Ele coma, em sinal de respeito”.

Jejum A ausência de comida em algumas religiões é tão importante quanto o próprio alimento. O jejum é utilizado por vários povos, desde sempre, por vários motivos diferentes. O próprio Catolicismo mantém a tradição de se jejuar em algumas datas importantes. “O Cristianismo herdou muito do Judaísmo quanto a este assunto”, diz o Pe. Casimiro Irala, de Salvador. “Mas nem tudo, porque o próprio Cristo selecionou, ficou com algumas coisas e deixou outras. Cristo não comia carne de porco, mas liberou isso a seus seguidores. Ele começou seu apostolado jejuando, e, quando tentado pelo demônio a transformar pedras em pães, respondeu que 'Nem só de pão vive o homem, e sim de toda a palavra que sai da boca de Deus'”, conta o Pe. Irala. Segundo ele, antes se jejuava por doze horas antes de se comungar. Atualmente há um jejum simbólico de uma hora – e, em se tratando de bebidas alcoólicas, de três horas. “Hoje, essa história de não se comer carne em dias específicos, de se fazer jejum, tudo isso foi relativizado. A importância está na penitência real, mais do que na material. As pessoas sempre trataram de driblar as leis, deixando, por exemplo, de comer carne no dia de abstenção deste alimento e abusando do peixe. O próprio Jesus disse que o importante é o espírito com o qual se jejua, os impulsos interiores, os motivos de amor. É isso que importa”, sintetiza o padre.

EDIÇÃO 81 [SETEMBRO 08]

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Pará+ 81  
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Olhar Amazônida

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