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www.violetaskaterock.nuvemshop.com.br


RODA #7

Há um bom tempo estávamos de olho na trajetória da cantora Thais Gulin. Numa época em que vale tudo por cinco minutos de fama, nos chamou a atenção a elegância que ela vem tendo na condução de sua carreira. Nestas páginas, a artista conta um pouco da vida, dos palcos e da escolha de não permitir que nada fique maior do que seu trabalho. Quem vê as criações de Dalmo Roger Ferreira não imagina que boa parte da sua inspiração pinta quando ele está desbravando as ruas em cima do skate: essas e outras informações sobre seu trabalho também estão nesta edição. Assim como o ensaio fotográfico “Periscope”, o passaporte que José Diniz nos oferece para embarcar em sua viagem em preto e branco, muito bem granulada, diga-se de passagem. De combustível para fazer a Roda girar tem ainda a Marina Lima, simples como fogo, a fantástica fábrica do artista plástico Barrão, a trilha certa de Lucas Vasconcellos e o primeiro piano de que se tem notícia. Entre em nosso ritmo, confira tudo, aproveite ao máximo e compartilhe. A equipe agradece.

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EDITORIAL

BOB COTRIM . EDITOR


EDU MONTEIRO

Depois dos ensaios de moda, Edu Monteiro volta a girar a Roda conosco e é dele a curadoria do ensaio fotográfico desta edição. Empolgado com a função, ele abre o seu leque de contatos e apresenta pra gente o trabalho do grande fotógrafo José Diniz. Edu é gaúcho, formado em Jornalismo pela Unisinos. Atualmente, é um dos sócios do badalado estúdio carioca Fotonauta.

JUAN DIAS

Ao chegar na antiga Fábrica Bhering, na Zona Portuária do Rio, onde fica o ateliê do artista plástico Barrão, Juan logo observou que uma gigantesca claraboia no teto iria proporcionar o tipo de luz perfeita para as fotos. Através de detalhes como esse Juan alimenta a sua paixão pela fotografia, que começou cedo.

ALEX GOMES

Nosso cronista bissexto é professor e músico por vocação, jornalista por opção e empresário do setor da construção civil por necessidade. Já foi repórter de TV, porteiro de hotel, corretor de imóveis, vendedor de motocicletas, fotógrafo e caixa de banco. Atualmente, além de não largar a sua bike, finaliza a trilha sonora de um musical para o teatro.

LUCIANA WERNER

Além de passear com seus cachorros, ela também adora sair pelo mundo. Em sua última viagem ao Velho Continente, encontrou na “Galeria dell’Accademia”, em Florença, uma ala totalmente dedicada à música que merecia um registro. Formada pela PUC do Rio, Lu fez bodas de prata em jornalismo e já trabalhou nos principais veículos cariocas. Hoje, é editora de cultura do Jornal O Dia.

JOSÉ DINIZ

Nascido em Niterói, Diniz estudou fotografia na Universidade Cândido Mendes no Rio de Janeiro. Em 2013, seu portfólio foi publicado pela British Journal of Photography. No ano anterior, ele já tinha abocanhado o prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte (Fundação Nacional de Arte, Ministério da Cultura), com o projeto Maresia. O ensaio “Periscope” é o debut do fotógrafo nas páginas da Roda.

DAN TORRES

Nascido, Daniel James Edward, esse inglês filho de mãe brasileira aportou no Brasil em 2003 e desde então vem soltando a voz por aqui. Mais conhecido como Dan Torres, se destacou gravando mais de dez músicas para novelas da Rede Globo. Ele nos conta como e por que não foi nada fácil abdicar de Beatles, Michael Jackson, Stevie Wonder e Oasis na escolha do seu disco marcante.

MARCIO BULK

Banquete servido e devidamente degustado, é hora de dar pitacos. Uma pane no computer obrigou Marcio a escrever todo o texto em seu smartphone. O sufoco foi grande, segundo ele. Realmente digitar pitacos pra lá de valvulados e com mais de duas laudas numa telinha não deve ser mole, mas depois de ler a coluna todos entenderão aquela máxima de que os fins (nesse caso) justificam os meios.

IVAN COSTA

Ao ser escalado para fazer o “No estúdio com...” o artista plástico carioca Barrão, bateu aquele pânico. Afinal, ele coleciona inúmeras peças de vidro e louça e, quando pequeno, o jornalista era chamado por sua mãe de Ivan, O Terrível. No fim, deu tudo certo e nada foi quebrado. Ele ainda aproveitou esta edição para traçar um perfil bacana do músico Lucas Vasconcellos, que prepara mais uma decolagem em seu voo solo.

LUIZ STEIN

Stein retirou de cima da sua mesa de trabalho a imagem que ilustra a coluna dessa edição. Uma imagem vermelha como ela só, capaz de alterar até o nome do santo. O artista gráfico bem que tentou colocar o preto na frente ou no verso, para que a sua felicidade fosse completa, mas foi voto vencido.

COLABORADORES


Revista Roda #7 junho 2015

Editor de Conteúdo . Bob Cotrim bobcotrim@revistaroda.com.br Editor de Imagem . Daryan Dornelles daryandornelles@revistaroda.com.br Editor de Arte . Tello Gemmal tellogemmal@revistaroda.com.br

RODA #7

Colaboraram nessa edição Ana Rovati, Marcelo D’Almeida, Paulo Mancini e Rodrigo Amaral.

RODA . CONTATO Para enviar comentários, sugestões e críticas contato@revistaroda.com.br RODA . PUBLICIDADE comercial@revistaroda.com.br RODA . REDAÇÃO Para enviar sugestões e material para review redacao@revistaroda.com.br RODA . WEB www.revistaroda.com.br RODA . SOCIAL Coordenador de Redes Sociais . Alexandre Florez redesocial@revistaroda.com.br FACEBOOK.com/revistaroda

Projeto Gráfico Ofício21

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EXPEDIENTE

Todos os artigos assinados e fotografias são de responsabilidade única de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.


...ĂŠ fotografia


EDITORIAL

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ENTREVISTA . THAIS GULIN 3x4 . ROGER DALMO FERREIRA POR AÍ... FOTOGRAFIA . JOSÉ DINIZ NO ESTÚDIO COM . BARRÃO PERFIL . LUCAS VASCONCELLOS MUITO PRAZER! . MARINA LIMA SÓ LETRA . KARINA BUHR PITACOS VALVULADOS . MARCIO BULK CRÔNICA . O ESTUDO E O ESTÚDIO MUSICAL FRENTE VERSO . LUIZ STEIN +++DISPLAY+++

arte . Dalmo Roger Ferreira

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RODA #7

POR BOB COTRIM FOTOS . DARYAN DORNELLES

Thais Gulin

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Nascida em Curitiba e carioca por vocação, Thais Gulin sempre gostou de esportes: passou sua infância entre a ginástica olímpica, o hipismo e cavalos. Mesmo

assim,

sempre

arrumava

um tempinho para exibir seus dotes artísticos em frente ao espelho, fosse cantando ou atuando. Cresceu, amadureceu e resolveu realizar o sonho de morar em Paris. Foi lá no Velho Continente que tomou importantes resoluções: assim que voltasse ao Brasil, por exemplo, concluiria o curso de Administração de Empresas, para alegria dos pais. Mas seu caminho profissional já estava escolhido lá atrás, nos tempos de criança, em frente ao espelho. Ela chegou ao Rio, chamou atenção nos palcos como atriz, só que seus espetáculos musicais insistiam em ser um sucesso. Veio o primeiro disco e as críticas foram as melhores possíveis. O segundo, além de firmar seu nome entre as grandes revelações musicais, serviu para que ela cantasse a plenos pulmões sua paixão pela cidade e por um carioca em especial. Agora, prestes a lançar seu terceiro álbum, Thais continua dando saltos mortais nas horas vagas, além de ensaiar uma volta aos palcos.


Como foi a sua infância em Curitiba? Eu fui filha única durante oito anos e passava muito tempo sozinha. Isso dá muita vazão à loucura, eu costumava ficar sozinha brincando com um órgão que minha mãe tinha e lembro bastante de uma bateria feita de panelas, em que eu tocava aquela música: “Era um garoto que, como eu, amava os Beatles...”. Eu passava as tardes cantando em frente ao espelho. Tem alguma música desse período que tenha te marcado? “O Caderno”, do Toquinho, me marcou muito, e eu adorava cantar “Onde Está o Dinheiro” e “Banho de Cheiro”, que a Gal Costa e a Elba Ramalho gravaram, respectivamente. Você já se arriscava a compor alguma coisa nesse período? Eu fazia algumas coisas no órgão, sem muita pretensão, pois achava que não eram realmente boas. Mas a primeira composição mesmo falava sobre um elefante que morava no céu. Engraçado que eu consigo enxergar hoje em dia um caminho parecido ao dessa fase.

Lembro de estar ensaiando uma música para um programa no Canal Brasil e, no meio do canto, comecei a dançar de forma intuitiva e o arranjo acabou sendo feito em cima disso. Muitas das minhas ideias musicais surgem a partir de situações bem despretensiosas. Esse talento musical de alguma forma te ajudou a ter destaque em algum contexto na sua adolescência? Pelo contrário, isso era uma coisa quase secreta. Esse destaque se deu em função dos esportes, meus pais tinham mais ligação com isso. A música acabou ganhando um espaço maior quando eu tinha uns 17 anos. A prática esportiva teve um papel importante na sua formação? Ainda bebê eu já fazia natação, com sete anos comecei a praticar hipismo, aos dez eu competia no atletismo do colégio. E tem a ginástica olímpica, que faço até hoje. O mais legal nisso tudo é que não existia nenhuma cobrança, meus pais sempre levaram em consideração o meu gosto e o meu prazer.

Engraçado que todos esses esportes exigem força física. Algum motivo especial? Eu simplesmente adoro, deve ser estranho imaginar uma cantora que nas horas vagas fica por aí dando mortais, mas, de verdade, nunca tive paciência para nada muito light, isso me faz pensar melhor. É uma atividade que me deixa mais feliz, endorfinada. Com toda essa energia, a sua adolescência foi um problema para os seus pais? Eu nunca fui muito estudiosa, mas sempre tirei boas notas. Gostava das aulas de arte e da educação física. Lembro de jogar xadrez pelo colégio, pois era um hobby que eu tinha com meu pai ao fim do jantar. A matemática é fundamental para o jogo e absolutamente musical. Como assim? Tem um poema do Leminski, que eu musiquei, que fala assim: “Quem dera eu fosse um músico que só tocasse os clássicos, a plateia chorando e eu contando os compassos”. É bem isso.

“desde pequena eu tinha uma coisa

com a cidade, meu tio conta que com 5 anos eu já falava com convicção que, quando eu crescesse, iria ser atriz e morar no Rio de Janeiro”


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“estava tudo muito relacionado ao amor e à paixão pela cidade, era enorme o que eu estava sentindo”


Ao olhar para um piano e fazer uma música, você percebe que existe ali um tipo de raciocínio que acompanha a inspiração. Mas a Thais adolescente não aprontou nenhuma vez? Eu era meio tímida nas relações humanas, eu tive uma turma na Hípica, de quatro meninas, e somos amigas até hoje. Eu não era do tipo descolada que ficava com todo mundo, eu era mais das ideias, aquela que esperava os pais viajarem para dar uma festa ou de colocar todo mundo escondido dentro do Santana que meu pai tinha para dar um rolé pela cidade. Contando essas coisas, parece que você teve muita liberdade no seu início de vida, não? Engraçado, eu acho que não tive tanto assim, talvez porque o que eu realmente quisesse fazer estivesse de alguma forma distante. Essa sensação de liberdade plena só apareceu de verdade aos 17 anos, quando eu comecei a cantar. Tinha uma vizinha minha que tocava violão e um dia eu tomei coragem e resolvi perguntar onde ela estudava. No dia seguinte eu já estava na escola, aprendendo a tocar e a cantar. Eu tenho a impressão de começar a viver de verdade a partir daí. A música sempre te preencheu plenamente ou você experimentou atuar de outras formas? O teatro também entrou nessa época. Eu achava música e teatro a mesma coisa, significavam a minha existência. Eu demorei muito para diferenciar um do outro. Até porque eu recebia elogios em ambas atividades, eu cheguei a

ganhar prêmio de melhor atriz. A minha percepção no teatro era mais concreta, porque o teatro é mais grupo. Na música você é mais solitária, tem que resolver praticamente tudo. Isso virou um dilema para você em algum momento? Como foi lidar nessa idade com essa situação? Nessa época eu estava no segundo ano da faculdade de Administração de Empresas. Aí eu resolvi trancar a matrícula e realizar um outro sonho meu, que era morar um ano na Europa. Essa distância da minha família foi fundamental para que eu me encontrasse. Nesse tempo, eu morei um pouco na França, depois fui para a Bélgica e acabei também ficando um tempo na Inglaterra, onde estudei teatro em Manchester. Na volta para o Brasil, o que você fez com todas essas resoluções? Bom, primeiro eu concluí o curso de Administração, mas continuei fazendo teatro, tanto que a minha primeira peça profissional aconteceu no último período de faculdade. Apesar de ter sido uma ótima aluna, no curso eu era conhecida como cantora e atriz. Como o Rio de Janeiro entrou na sua vida? A minha mãe e minha avó são cariocas, eu só tinha ido ao Rio uma vez, com 16 anos. Meu pai não gostava muito que eu fosse. Mas desde pequena eu tinha uma coisa com a cidade, meu tio conta que com 5 anos eu já falava com convicção que, quando eu crescesse, iria ser atriz e morar no Rio de Janeiro. Assim que você chegou na cidade,

o que você fez? Quando minha mãe se separou do meu pai, ela veio para o Rio com as minhas duas irmãs mais novas e foi morar na Barra da Tijuca. Eu, quando cheguei, fui para o Leblon, então a gente não tinha muito contato. Procurei o Teatro Tablado e fui recebida pela Guida Vianna, atriz e professora de interpretação, que em dois meses me indicou para uma peça. Mas você chegou a parar com a música nesse momento? Não, de jeito nenhum, o diretor musical dessa minha primeira peça me ajudou a gravar uma demo tape e as coisas começaram a andar paralelamente. Eu fazia meus shows e trabalhava no teatro com pessoas bacanas como o Augusto Boal. Em 2005, fiz com o Paulo Betti o espetáculo “Canção Brasileira”, e já estava começando a gravar o meu primeiro disco. Como pintou o momento de decidir entre a música e o teatro? Os meus shows começaram a encher, dar muita repercussão, e a música acabou ganhando mais espaço, eu meio que fui levada nessa direção. Em 2007, quando lancei meu primeiro disco, que trazia o meu nome no título, tive a convicção definitiva de que estava no caminho certo. O seu segundo álbum, chamado “ôÔÔôôÔôÔ”, era bem diferente do seu primeiro trabalho. Qual o motivo? Quando eu terminei o primeiro, eu já tinha certeza do que eu não queria para o segundo. Comecei a esboçar a cara dele a partir do repertório. A primeira música foi “Cinema Americano”, do Rodrigo Bitencourt. Aí, logo em seguida,


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compus “Horas Cariocas” e “ôÔÔôôÔôÔ”. Completou com a chegada da música do Chico (Buarque), “Se eu Soubesse”. Estava tudo muito relacionado ao amor e à paixão pela cidade, era enorme o que eu estava sentindo. Ele é um álbum que tem instrumentos de samba com sonoridade carioca, mas não chega a ser um disco de samba. Você hoje se sente mais carioca do que curitibana? Eu nasci em Curitiba e amo o Rio de Janeiro, mas verdadeiramente não me sinto de nenhum lugar. A capa desse disco sou eu fincando uma bandeira no Arpoador, como se fosse a conquista de um território. Apesar de no disco você homenagear a cidade, esse álbum aponta para uma Thais romântica e apaixonada. Num determinado momento, a repercussão disso chegou, inclusive, a ficar maior que o próprio trabalho. Como você lidou com isso? A essência desse álbum é a mistura do amor com o amor pelo Rio, e esses amores eram apenas canais de inspiração. Mas eu não pretendia fazer um disco romântico. O novo trabalho deve sair no segundo semestre de 2015. Conta um pouco do que vem por aí? Eu já tenho uma ideia bem clara do que eu quero com esse álbum. Começo a gravar o primeiro single em breve, chamei o BNegão para cantar um rap em “Walk on The Wild Side”, do Lou Reed, que eu vou regravar. Essa música representa bem o meu atual estado de espírito, que eu ainda não entendi racionalmente.


Desde criança sou fascinada com esses personagens meio marginais, como prostitutas, transexuais e travestis, tem alguma conexão forte nisso. É uma espécie de encontro da tristeza com a liberdade. Eu acho lindo. Mas o repertório já está montado? Eu vou lançar esse primeiro single acompanhado de um clipe e vou continuar montando o álbum. Já compus três músicas e estou recebendo e ouvindo um monte de composições. Nesse disco eu me sinto mais livre até para gravar uma música que eu ame e que talvez as pessoas detestem. Você já gravou nos seus discos compositores como Zé Ramalho, Chico Buarque e Tom Zé, entre outros. Esse próximo será mais autoral? Não necessariamente. Estou ouvindo tudo que eu posso para selecionar, tem um amigo meu de Recife que fez um roteiro de cinema e quis me mostrar as músicas que ele fez para a trilha. Ele não é músico e nunca tinha feito música na vida. Eu fiquei tão apaixonada por uma das canções que ele me mostrou que pedi para ele tocar umas 15 vezes seguidas. Música é assim, se bater, não importa quem escreveu.


Thais Gulin no palco foto . Rodrigo Amaral


“chamei o BNegão para cantar um rap em “Walk on The Wild Side”, do Lou Reed, que eu vou regravar. Essa música representa bem o meu atual estado de espírito” Depois de um início de carreira no teatro muito elogiado, de ter trabalhado com diretores como Augusto Boal, ainda tem vontade de voltar a atuar como atriz? Sim, como eu te disse, as duas coisas sempre caminharam muito próximas na minha vida, adoraria receber um convite para participar de um projeto bacana, seja no teatro, no cinema ou na televisão. Tem planos de ser mãe? Sempre ouvi a seguinte frase da minha mãe: “Tomara que você tenha uma filha igual”. Eu era uma criança muito criativa, com planos infalíveis e perigosos, do tipo pular de paraquedas. Até os meus 14 anos eu parecia um molequinho, vivia de bermudão e camisetão, dei muito trabalho para ela. Então eu tenho um pouco de medo disso, mas no fundo eu acho que vou ser uma mãe muito maneira, daquelas que sabem conseguir proteger sem tolher a liberdade. Você foi sempre muito discreta em relação ao seus relacionamentos. Por quê? Eu sou assim, sempre fui, desde cedo sempre gostei de deixar um mistério em

relação às outras pessoas. Você escolhe poucos amigos para contar a sua vida pessoal, não faz sentido explanar isso para todo mundo. Num determinado momento, eu parei de dar entrevistas, que foi uma coisa corajosa, porque eu precisava saber para onde eu estava indo, onde isso iria dar. Essa é a minha escolha.

Thais Gulin em cena, dirigida por Augusto Boal foto . divulgação


RODA #7

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3x4 DALMO ROGER FERREIRA

Nome: Dalmo Roger Ferreira Data de nascimento: 19/09/1977 Cidade onde nasceu: Belo Horizonte Cidade onde cresceu: Belo Horizonte e Vitória Cidade onde vive: Rio de Janeiro e Vitória Uma cor: Preto e branco Um trabalho de alguém na sua área que te marcou: Marcelo Gandini Principais ferramentas de trabalho: Tintas, pincéis, canetas, penas e meu computador Qual o lugar em que gostaria de ver o seu trabalho exposto? Qualquer lugar em que eu pudesse compartilhá-lo com meus amigos Quem você convidaria para ser seu modelo vivo? O mundo Quem você gostaria que fizesse um retrato seu? Um pintor fantástico chamado Huemerson Leal Se você pudesse levar só uma imagem para Marte, qual seria? Uma foto dos meus filhos, Henry e Vicente


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Em que momento da sua vida você se decidiu por este caminho profissional? A minha carreira profissional começa como programador, mas as artes entraram na minha vida de maneira substancial quando comecei a andar de skateboard, em 1988. Algumas pessoas da minha família sempre me direcionaram a produzir, me oferecendo ferramentas e informações. Acredito que a pesquisa de imagem e a produção de peças gráficas estão inseridas na minha vida desde muito novo. Houve alguma mudança radical no seu trabalho durante essa trajetória? Em 2009, eu voltei a trabalhar com engenharia, principalmente dentro do mercado de telecom. A falta de tempo para produzir certamente influenciou muito nessa trajetória. Cada momento livre era um motivo para tentar produzir cada vez mais. Gosto muito de pinturas, ilustrações e desenhos. A pesquisa audiovisual é uma constante na minha vida. Quais são as suas maiores influências? A maior influência desde pequeno foi minha avó Vandir Rodrigues Leite, mas existem amigos que me convidam e trabalham comigo constantemente. Seria impossível colocar os nomes dentro dessa entrevista, pois são muitas pessoas. Vou citar os que estão mais próximos agora, como Felipe Mecenas, Gustavo Senna, Alexandre Barcelos, Arthur Navarro, Huemerson Leal, João Marcelo, Felipe Távora, Wilson Domingues, Alex Carvalho. O dia a dia é muito corrido, mas muitos desses eu acompanho na vida. Outros, pela internet. Seus trabalhos são desenvolvidos dentro de uma técnica especifica ou você se utiliza de todos os recursos disponíveis em prol da sua arte? O meu trabalho é baseado basicamente em skateboard. Tudo que eu faço é


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motivado por ele, foi o carrinho que me deu essas guias para seguir na minha produção. Eu vivo observando a rua e admirando as mudanças diárias do meio urbano. A pesquisa começa com a palavra “rua” e acaba seguindo pela pesquisa proprioceptiva da modalidade e suas variantes. Os pincéis possuem quatro rodas e se movem bem rápido em todas as direções.

Qual o papel da tecnologia na concepção e resultado na sua arte? Os computadores aparecem com uma frequência grande na minha pesquisa audiovisual, mas nos processos de pinturas, ilustrações e desenhos, muito pouco. Eles acabam adentrando a minha pesquisa audiovisual. O analógico costuma se misturar nos meus processos digitais.

Até que ponto essa “fidelidade a uma técnica” pode engessá-lo, artisticamente falando? Eu acredito que as pessoas que não estão diretamente envolvidas com o meio às vezes podem estranhar algumas coisas que fazemos, mas não sei se engessa algo no processo criativo e na leitura da pesquisa de imagem. Caso isso aconteça, deve ser parte do processo criativo, talvez alguma limitação minha ou até mesmo alguma limitação do observador. Eu sinceramente não penso muito nisso.

Quais são seus temas preferidos, aqueles que você mais gosta de trabalhar? Não sei responder essa pergunta. O meu tema preferido é a vida. A rua e skateboard... rsrs.

um trabalho isolado. O meio urbano me oferece de maneira livre tudo que eu preciso, desde os estudos de cores até as formas, que eu repito com uma certa frequência. Eles estão gravados e já fazem parte do total. Os fractais, as estruturas rizomáticas que o homem insiste em repetir nas construções, nas ruas, e os padrões que de alguma maneira fazem parte dessa tal geometria áurea que existe desde que o mundo é mundo. As informações nós já temos e me preocupo realmente em como harmonizá-las, organizálas e, em determinado ponto da pesquisa, desconstruí-las, se eu achar necessário.

De que forma você busca inspiração para compor os seus trabalhos? A base de todo e qualquer processo criativo é a abstração. A pesquisa autoral é bem livre e às vezes eu me organizo pelos caligramas que escrevo, mas isso depende se é uma série ou

A composição dos seus trabalhos convive de que forma com as suas outras atividades do dia a dia? A outra atividade do dia a dia é meu maior desafio. Eu desejo desconstruí-la a ponto de poder viver só de pinturas, ilustrações, vídeos e skateboarb. Na


verdade, gostaria de acreditar que um dia isso será possível. Enquanto isso não acontece, faço questão de trabalhar muito para comprar materiais, poder viajar e conhecer pessoas. Eu gosto muito de gente e acho que isso é por causa da minha origem mineira. Quais as formas não convencionais ou contemporâneas de arte que lhe chamam mais atenção no momento? Eu tirei da minha vida duas palavras que, sinceramente, acho que não possuem mais significado algum no mundo contemporâneo: conceito e tendência. Nos últimos anos, o grafite apareceu bastante e entrou nas galerias. O skateboard entrou nos museus. Algumas dessas instituições entraram de maneira benéfica dentro disso tudo. Os filtros precisam ser ligados e substituídos. Tem aquela velha frase que diz: “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempo em tempos, pelo mesmo motivo”. O processo de perceber o poder dessas mídias e ver nelas uma grande possibilidade de capitalizar também é algo a ser discutido. Isso tudo me chama atenção, faz pensar, discuto com meus amigos, mas o mundo está fervendo e as pessoas parecem não querer mais discutir muita coisa. Querem apenas o seu quinhão e não perder o pouco tempo que tem. Ninguém tem tempo para mais nada. Que outros artistas você acompanha com interesse? Brian Lotti, Klaus Bohms, Ray Barbee, Gabriel Dornelles, Tommy Guerrero, Ed Templeton, Fabiano Rodrigues, Marc Johnson, Will Dias, Renato Custódio, Akira Shiroma, Jason Lee, Don Pendleton, Marcello Gouvea, Waldemar Teixeira, Gustavo Senna, Jason Dill, Greg Hunt. Gente que não acaba mais! Arte e comércio podem conviver sem conflitos conceituais? Eu gostaria de evitar falar muito disso, pois é sempre uma conversa muito longa

que acaba não chegando a resultado nenhum. Mas um trabalho honesto, feito com amor, processo criativo verdadeiro, sem prejudicar ninguém, sem plágios, sem mentiras, deve ser bem remunerado e o mercado deve direcionar parte de sua atenção e recursos para que isso se faça verdadeiro. Eu acredito que deve ser assim em todas as áreas, por que não nas artes? Qual o preço da sua inspiração? Eu sei bem o preço de cada uma das minhas pinturas e um professor foi muito importante para que isso fosse entendido. Ele me ensinou primeiramente a colocar o valor das obras que eu não deveria vender, aquelas que são indispensáveis para que a seguinte aconteça. Alguns pontos são muito importantes para o desenvolvimento de um argumento de venda e esses eu discuto diretamente com os compradores. Conheci pessoas que me deram muito mais recebendo uma peça minha sem valor agregado algum do que algumas que pagaram um bom dinheiro por uma peça. Isso se deu também porque eu doei muito mais pinturas do que vendi. Quando eu completar 50 anos, essas pessoas vão ter que se virar para ir ao meu aniversário e cada uma levar a sua obra. Isso era um trato com o dono de cada uma que foi doada. O mercado e suas porções variacionais nos ensinam todo dia e isso deve ser percebido de maneira atenciosa por todos os artistas. Isso é muito importante para a continuidade do processo criativo de um pintor, ilustrador ou desenhista. Vender, saber o que vender e como vender. O valor da minha inspiração eu encontrei pela primeira vez quando, em uma ocasião, eu decidi não fazer uma venda. Foi um dia muito importante!


POR AÍ... RODA #7

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POR LUCIANA WERNER FOTOS . LUCIANA WERNER


Visitar Florença, na Itália, e não ir à Galeria dell’Accademia ver o David de Michelangelo, uma das obras mais conhecidas do mundo, é considerado quase que um sacrilégio. A escultura gigante do herói bíblico é realmente deslumbrante, uma perfeição de detalhes, e o lugar é repleto de outras belezas renascentistas e pré-renascentistas que fazem o passeio valer muito a pena. Mas, para quem gosta de música, existe um pedacinho da galeria que enriquece o programa com acordes especiais: o Museu de Instrumentos Musicais. A pequena área destinada a essa coleção deve ser explorada com olhos e ouvidos. Inaugurada em 2001, abriga cerca de 50 instrumentos da coleção privada do Grão-Ducado da Toscana - recolhidos a partir da segunda metade do século XVII -, doados ao Conservatório Luigi Cherubini e emprestados pela instituição à Galeria. Há harpas, violinos, violas, violoncelos, cravos, instrumentos de sopro e o primeiro piano-forte de que se tem notícia, peça que deu origem ao piano que conhecemos hoje. No Museu de Instrumentos Musicais fica também a seção multimídia da Galeria dell’Accademia. Através de computadores é possível ouvir os diferentes timbres dos instrumentos e ainda descobrir como foi o início da cena artística italiana – berço das artes em geral - através de um vídeo. Um dos destaques é uma autêntica viola Stradivari, a única no mundo atribuída a ele que ainda existe, perfeitamente conservada. Feita para os Médici, uma família que governou Florença por vários séculos, foi construída com as madeiras abeto e bordo e fazia parte de um quinteto de cordas. Elegante em suas formas, tem incrustações de madrepérola, marfim e ébano, além do brasão de armas dos Médici. Um violino e um violoncelo Stradivari também fazem parte dessa impressionante coleção.

PRIMEIROS ACORDES

Outra joia é o piano-forte atribuído a Bartolomeo Christofori, o mais antigo precursor do piano atual já encontrado. Igualmente criado para os Médici, o instrumento foi citado pela primeira vez em 1711, no “Giornale dei Litterati d’Italia”, através de uma matéria que anunciava sua apresentação em Florença.


BARTOLOMEO & STRADIVARI: DOIS GÊNIOS SONOROS Nascido em Pádua, em 1655, Bartolomeo Cristofori di Francesco era um construtor de cravos que desde criança adorava música e queria descobrir uma maneira de dar mais dinâmica aos sons, já que com o cravo isso não acontecia por conta de seu mecanismo de toque: nele, havia a possibilidade de tocar em vários registros e com a extensão do teclado até cinco oitavas, mas lhe faltavam nuances de fraco e forte. Em 1690, Bartolomeu mudou-se de Pádua para Florença a convite dos Médici. Trabalhando como músico e fabricante de instrumentos da corte toscana, ele apresentou seu primeiro cravo modificado em 1702 e, em 1709, seu primeiro piano nos moldes dos de hoje. O novo instrumento foi batizado de gravicembalo con piano e forte, nome que em português foi traduzido para cravo com piano e forte e, mais tarde, simplificada para pianoforte, pois possibilitava a execução de sons pianos (fracos) e fortes. Mais famoso do que o inventor do piano, Antonio Giacomo Stradivari nasceu em 1737. Há indícios de que o luthier italiano tenha sido discípulo de outro mestre na área, Amati, com quem aperfeiçoou a técnica de fabricar instrumentos de corda. A fase áurea de sua carreira foi entre 1700 e 1722, quando abandonou “amatizzato” (período em que fazia seus violinos parecidos com os da família Amati) e passou a seguir ideias e estilos próprios. Foi assim que atingiu o auge da sonoridade e construiu seus violinos mais famosos, como o Bets, de 1705, o Cremonese, de 1715, o Messiah e o Medici, ambos de 1716. Muitas das técnicas utilizadas por ele ainda não foram completamente desvendadas e há diversas teorias sobre a sonoridade de seus violinos. Uma delas diz que o segredo de seus instrumentos estava no verniz utilizado por ele, com cinzas vulcânicas que deixavam a madeira mais dura e a sonoridade, diferente. Outra afirma que ele selecionava madeiras de navios naufragados, mergulhadas na água salgada durante anos, o que as modificava também.

Na sequência: primeiro piano-forte Antonio Giacomo Stradivari viola Stradivari


...é música


PERISCOPE RODA #7


FOTOS . JOSÉ DINIZ


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RODA #7

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No estúdio com

Barrão


POR IVAN COSTA FOTOS . JUAN DIAS


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Quem entra no ateliê do artista plástico Barrão, dentro da antiga Fábrica Bhering, na Zona Portuária do Rio, costuma se surpreender com a organização impecável do lugar. Limpo, claro e recheado de peças de porcelana empilhadas milimetricamente nas estantes, o estúdio contrasta com o ar de abandono do prédio centenário. Percebe-se logo que é um ambiente em que a criação, mesmo que feita a partir da desconstrução, característica

marcante da obra do artista, precisa de uma certa ordem. Mas o curioso é que, produto do fim dos anos 70, Barrão sempre teve uma atitude quase punk em relação ao trabalho. A criação de cenários e adereços a partir de papelão e embalagens que ele notabilizou estava bem alinhada com a atitude do “faça você mesmo com aquilo que estiver disponível”. Era um momento de

transformação, de vital importância para o surgimento de artistas. “Tinha muita gente a fim de trabalhar e poder mostrar o resultado disso. A mudança da ditadura para um sistema mais democrático possibilitou que esse movimento dos anos 80 quebrasse com o modelo vigente e desse visibilidade para uma cena até então escondida. Muitos desses artistas conquistaram o mercado internacional e estão aí até hoje construindo sua obra”, analisa.


Ele lembra que na década de 80 era dificílimo comprar um simples livro de arte. E conta que, recentemente, ao ver uma publicação com as obras do escultor inglês Anthony Caro, que ele conhecia bem, foi surpreendido com um novo olhar sobre o trabalho. Barrão hoje é adepto da ideia de que a obra de um artista está baseada num conceito único e que ele só vai arrumando maneiras diferentes de contar aquela mesma história: “São afirmações artísticas diferentes de um mesmo assunto, que vão surgindo ao longo do tempo.” Para conseguir produzir a seu contento, o artista conta que vai ao ateliê quase todo dia, pois considera o tipo de trabalho que faz bastante esquemático, já que envolve corte, colagem, exige tempo e acompanhamento constante do processo.“Essa minha construção exige rotina. Trabalho com um assistente, mas executo todas as etapas e tenho que tomar decisões o tempo inteiro. Apesar de trabalhar várias peças ao mesmo tempo, tem sempre uma que acaba me solicitando um pouco mais. Para perceber isso, é preciso que estar conectado”, garante. A cena brasileira de artes plásticas, que tem crescido substancialmente nos últimos anos, principalmente em São Paulo, chama a atenção em todo o mundo e está gerando um público cada vez mais interessado em consumir arte também como forma de investimento. As obras de Barrão têm estado presentes nas maiores feiras de arte do país e do mundo, representadas por duas

importantes galerias. Alguns trabalhos são bem significativos e marcantes para ele, como as duas batedeiras trepando, um marco em sua carreira. Desde 1995, o artista também faz parte do projeto multimídia “Chelpa Ferro”, junto com Luiz Zerbini e Sérgio Meckler, que ficou conhecido dentro e fora do Brasil graças às performances de improviso sonoro com projeções de vídeos abstratos no formato e nas cores. No momento, Barrão vem experimentando a utilização de novos materiais: o gesso e o isopor. “Há muito tempo venho trabalhando com louça. A utilização do isopor propicia um resultado bem interessante e mais rápido. No gesso, estou com o projeto de uma exposição em que tudo será no mesmo material, na mesma cor e

com a utilização de vários moldes. Hoje, finalmente, estou conseguindo achar um tempo no estúdio para essas experimentações tão importantes na concepção do tipo de trabalho que eu faço.” O artista conta que, recentemente, uma pequena obra parecida com as esculturas criadas por Mestre Vitalino um jogador de futebol -, se quebrou em seu ateliê. Num rompante, ele resolveu colar a peça, subvertendo sua construção original, e gostou muito do resultado. Então, perguntamos, o que aconteceria ele se tivesse a oportunidade de fazer uma intervenção numa clássica obra de arte da humanidade, o David de Michelangelo, por exemplo? Um sorriso maroto foi a única resposta.


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Da esquerda para a direita: CD Chelpa Ferro . 2012 Leitura dinâmica . 2011 Exposição Laura Marsiaj . 2006 A paciência do Coelho . 1989 Mulher Coca-Cola . 1987 Peixes . 2013 Entradas e Bandeiras . 2009


S RODA #7 RODA #1

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POR FULANO DE TAL FOTOS . CICRANO DE TAL


Sempre na Trilha O ano de 2015 está sendo bem intenso na vida do músico Lucas Vasconcellos. Prestes a lançar dois discos - o segundo álbum solo e um trabalho com o duo Letuce -, ele ainda encontra tempo para compor trilhas sonoras e participar do primeiro DVD da cantora Alice Caymmi. Apesar da pressa característica de quem tem muito a fazer, o músico ainda consegue ser um dos mais conscientes com relação à situação da atual cena musical, especialmente no Rio de Janeiro, cidade que escolheu para viver e desenvolver sua carreira. Quando saiu de Petrópolis há 15 anos e veio para o Rio, ele sabia que estava dando o passo certo em direção a sua escolha profissional. Filho de uma advogada que começou a vida como professora de piano, ele teve a companhia da música - parte da rotina de sua casa, com aulas ministradas

diariamente pela mãe - até o fim da adolescência. “Era parte da engrenagem, fazia parte da rotina ouvir música, ter instrumentos musicais por perto. Em Petrópolis, eu cheguei a tocar jazz em alguns lugares, acompanhar cantoras. Gravei minhas primeiras composições em estúdios de lá. Também dei muitas aulas de violão dos 15 aos 18 anos”, conta. A vinda para o Rio se deu por conta de um teste para músico da peça “Confissões de Adolescente”, de Maria Mariana, em que o diretor e pai da autora, Domingos de Oliveira, resolveu colocar quatro músicos em cena contracenando com as atrizes. “Foi por causa da peça que conheci o Bernardo Pauleira e o Rafael Rocha e daí nasceu o Binário, primeiro projeto musical que desenvolvi aqui no Rio”, relembra o músico.

Lucas Vasconcellos

POR IVAN COSTA FOTOS . DARYAN DORNELLES


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Em 2007, Lucas conheceu Letícia Novaes, com quem passou a dividir os palcos na Banda Letuce, que gerou dois discos com sucesso de crítica, e a vida, num casamento que durou até 2013. O fim da relação amorosa não impediu que a dupla continuasse muito afinada. “O que mudou foi o nosso estado civil. Porque, de resto, continuamos a trabalhar juntos e a compor, produzir discos (Letuce lança o terceiro disco esse ano) e fazer shows. Temos questões como em qualquer trabalho, mas somos amigos de verdade. E é um orgulho pra nós lutar por isso. Nos esforçarmos pra fazer o amor se modificar sem se perder, e é por isso que seguimos em frente.” Requisitado para produzir trilhas de filmes, espetáculos de dança e teatro, Lucas diz que esse trabalho é bem diferente do autoral: “ Na trilha sonora, trabalhamos por encomenda, como se fosse uma redação de colégio com tema determinado, é um trabalho em conjunto com o diretor que eu gosto bastante. Já na criação autoral, essa redação é como se fosse de tema livre, você precisa de mais subsídios para formatá-la.” Além da expectativa em relação aos novos trabalhos, Lucas faz questão de adotar um discurso bastante contundente quando o assunto é o atual panorama da cena musical no Rio de Janeiro. “Essa cidade nunca foi tão agressiva e cretina com novos artistas que estão tentando criar algo novo e revelador. O dinheiro existe, mas está sendo direcionado de forma equivocada. As leis de incentivo e os editais acabam contemplando artistas já estabelecidos no mercado em detrimento daqueles que

realmente precisariam deste tipo de apoio.” Ele enxerga na cena de música experimental um polo de resistência fundamental e diz que é nítido o descaso das políticas culturais da cidade em relação a esse nicho. Apesar da insatisfação com a situação, o músico cita a união das pessoas envolvidas como o principal motor na retomada de um cenário, que segundo ele, já foi mais benevolente com quem tenta criar algo novo. “Temos que criar uma nova cena de público e de artistas, um novo modelo em que o reconhecimento e o valor artístico não se dê apenas através de ter música na novela ou de precisar puxar o saco de quem já está estabelecido no mercado. Neste aspecto, tenho muito orgulho da geração da qual faço parte, pois estamos conscientes dessa realidade e buscamos caminhar na direção contrária, mesmo que tenhamos que ser mais pretensiosos para alcançar isso.” Lucas vê na arte uma ferramenta fundamental de transformação social e afirma que sua geração tenta dar uma banana para o status quo vigente que, segundo ele, só se interessa em fomentar arte preguiçosa e comprometida. “Compor, pra mim, é tentar virar a mesa, tentar a qualquer custo ser o mais irreverente possível com qualquer tendência, movimento ou lógica comercial dentro da música, sem medo de fazer diferente. Isso tem prós e contras, mas é o jeito com que a música me atravessa desde sempre. Às vezes um artista pode se engessar por achar que deve alguma coisa à sua trajetória ou às pessoas que gostam do seu trabalho. Eu busco a atenção de ouvintes que sejam tão sedentos de mudança e radicalismo quanto eu.”


AGORA...

Estilo . Elson Bemfeito Beleza . Amanda Schon Assistente de fotografia . Rogério Belorio

Segundo disco solo (ainda sem título)

Agradecimentos . Estudio Híbrido, Joana Passarelli, “Estilhaça”, terceiro disco da Letuce Folic, Escudero, Checklist, Aramis, Jorge Bischoff, Fill Sete

Trilha do longa metragem “Aspirantes” de Ives Rosenfeld

Composição e execução ao vivo da trilha do espetáculo “Mata-me de Prazer”, da dramaturga paulista Carolina Bianchi, com colaboração da escritora portuguesa Matilde Campilho Músico acompanhante na tour 2015 do DVD “Rainha Dos Raios”, de Alice Caymmi


MUITO PR RODA #7

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POR BOB COTRIM FOTO . PAULO MANCINI


RAZER! MARINA LIMA Numa década marcada pela excelência do canto feminino, como os anos setenta, a chegada ao mercado de uma nova cantora era sempre recebida com um certo tom de comparação. Pois foi justamente neste quesito que “Simples como Fogo” trouxe um diferencial em relação à maioria vigente: apresentava uma intérprete que era a compositora da maioria das canções do álbum e que cantava amores e desamores recheados de um não tão comum despudor para a época.

O disco começa com “Solidão”, uma dolorosa, mas linda composição de Dolores Duran, e continua nesse clima com “Muito”, de Caetano Veloso, e “Não há Cabeça”, escrita por Angela Ro Ro. A parceria duradoura com o irmão Antonio Cícero se faz presente, entre outras músicas, através dos sucessos radiofônicos “Transas de Amor” e “A Chave do Mundo”. “Literalmente Louca”, composta por Marina, Magda e Duda, é de uma sensualidade ímpar e representa fidedignamente o espírito carioca de namorar na sua orla.

Era o primeiro álbum de Marina e o primeiro de uma cantora pelo selo WEA. Isso talvez tenha proporcionado a dose certa de ousadia para arriscar e não seguir modelos pré-concebidos, como ela mesma declarou em seu livro “Mania de Ser”: “ Esse disco foi feito meio no susto. Quando você faz alguma coisa pela primeira vez é sempre uma sensação desconhecida. Acho que foi corajoso, difícil, porque não havia nada parecido no Brasil na época, e abriu um espaço.”

Pilotado por Gastão Lamounier e com direção artística de Mazola, o álbum arregimentou nos estúdios um verdadeiro dream team de músicos made in Brazil. Jamil Joanes no baixo, Paulinho Soledade nas guitarras, Picolé na bateria e Marcio Montarroyos nos metais. O toque pop e preciso nos teclados, que a cantora soube como poucos colocar em seus futuros trabalhos, já estava presente em “Simples como Fogo”, a cargo de Robson Jorge & Lincoln Olivetti. Um luxo só.

Ano de lançamento . 1979 Produção . Gastão Lamounier Direção Artística . Mazola Direção de Produção . Guti Direção Musical . Marina Lima Arranjos de Base . Robson Jorge Arranjos de Orquestra . Lincoln Olivetti Participação Especial . Sérgio Dias Gravado nos Estúdios Transamérica - RJ . 1978/1979 Foto de Capa . Antonio Guerreiro Faixas: Transas de Amor, A Chave do Mundo, Tão Fácil, Memória Fora de Hora . Marina Lima e Antonio Cícero Maneira de ser . Marina Lima Literalmente Louca . Marina Lima, Magda e Duda Solidão . Dolores Duran Revolta . Moraes Moreira Não há Cabeça . Angela Ro Ro Muito . Caetano Veloso Músicos: Marina (Voz e Violão) / Picolé (Bateria) / Jamil Joanes (baixo) / Paulinho Soledade (Guitarra) / Robson Jorge (Piano, Oberheim e Moog) / Lincoln Olivetti (Oberheim e Moog) / Chiquinho (Acordeon) / Sidinho (Percussão) / Marcio Montarroyos e Ricardo Silvio (Metais) / Cordas (WEA) / Marina Lima, Ana Lucia, Paulinho Soledade e Gastão Lamounier (Vocais) Participação Especial: Paulo Cézar (Baixo) / Paulinho Braga (Bateria) / Arthur Verocay (Violão)


SEM VOLTA eu sabia exatamente o que precisava fazer eu só não tinha a alegria necessária aí saí de mim e quando voltei não pude entrar Encanto nenhum inventei uma ilusão e vivi nela já não posso mais viver nela nem em canto nenhum

TUA APATIA Mulher, tua apatia te mata.

Não queira de graça o que nem você dá pra você, mulhe

Não basta pra ficar tranquila não chegar na última hon

O que você vai fazer vai dizer o que vai acontecer co

Só letra

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er.

nra

om você.

Karina Buhr

VELA E NAVALHA Enquanto você escorrega te peço nada te desejo um centro de ouro que o teu cavalo sele que no teu caminho vele navalha todos os malfazeres do mundo

Desperdiçando Rima Karina Buhr Editora Rocco Fabrica 231

fazendo corte profundo como a unha na serra dura areia clara terra escura cortando a unha postiça a isca vai ser testemunha dela parte e não atiça se volta volátil inteiriça pela sua língua roliça

SEM VOLTA Acintura o cinto vestido todo dormido, passado e vermelho todo plissado, alvejado e manchado das horas queridas distraídas sentindo quase insegura e moída diante de tamanho luxo mas no fluxo, parelha de sangue, o mesmo vermelho animal de mangue na sua saia borrada por baixo que ninguém fora ela vê aproveitou sempre, à mercê do tempo e aguenta tudo o que crê


PItaCOS valVUlaDOS POR MARCIO BULK

RODA #7

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cidade... purgatório... do caos Desculpe, Fausto, mas, ultimamente, anda complicado encontrar maravilhas e belezas por aqui. Sendo sincero, purgatório é pinto. Está mais pra Hell de Janeiro mesmo. Bagulho pesado. Entropia hardcore chamuscaste. Principalmente para quem vive de música. Esta cidade sempre foi meio bizarra, saca? E agora, está mais. Todo mundo elogia os novos tempos, os “milagres” tecnológicos, a possibilidade de fazer em casa seu disquinho e sair por aí divulgando, sem depender de gravadoras, jornais e tals. Bem, quer dizer, ok, há um porrilhão de músicos fazendo trabalhos incríveis (e outros nem tanto) por aí. Mas cadê o retorno?! Já faz algum tempo que São Paulo conseguiu criar uma estrutura minimamente satisfatória para não sofrer de forma tão brutal com esse tipo de problema. Jovens (e

talentosos) artistas + casas de shows alternativas + apoio dos principais jornais da cidade + presença maciça em blogs e redes sociais + apoio da Rádio Cultura e da TV Cultura + leis de incentivo + circuito Sesc + um público curioso e numericamente considerável... Tudo isso possibilitou que a cena se desenvolvesse. Mesmo assim, não são muitos os artistas que conseguem sobreviver apenas com sua música. Mas essa foi e vem sendo uma grande fórmula para a promoção de trabalhos que teriam pouquíssimas chances de serem absorvidos pelo atual recorte das grandes midias. Mas, e o Rio? Ah, o Rio... dos ingredientes dessa receita (nem um pouco mágica) que citei acima, o único que temos aos borbotões é o primeiro: gente talentosa... e só. Casas de show que acolham o nosso trabalho? Audio Rebel, hã Audio Rebel... hã Sérgio Porto... Circo Voador (se tivermos muita sorte) e... cabô! Ok, há projetos ótimos no Oi Futuro Ipanema (“Levada”, “Veraneio”, “Palavras Cruzadas”, etc.), mas, talvez por sua dinâmica vinculada a editais e por seu recorte amplo, o espaço não seja visto como um importante polo propagador

dessa cena. E há os jornais. Ooops! Sejamos sinceros: só há um jornal na cidade, O Globo. E ponto final. Um jornal que está atrelado a uma rede de TV e a uma gravadora (vejam só!). Desenhando: fica difícil dar as caras por lá se você não fizer os requisitos da nossa querida única mídia. Ah, e você, paulistano, que reclama de ter somente a Folha e o Estadão?! O Rio não é pra principiantes, mermão! Fora isso, lembre-se, o objetivo principal de um jornal é lucrar e não informar (desculpe se destruí seus sonhos, foi mal). Ou seja, é muito complicado lançar um disco independente tendo que competir com o Padre Fábio de Melo ou o Thiaguinho. Afinal, quem você acha que atrairá mais patrocinadores para o jornal? O maluquinho que faz um som estranho, sem assessoria, sem nada, ou o padre-galã que aparece em horário nobre na TV? É claro que um ou outro jornalista se esforça para dar algum espaço, mas com a onda de demissões promovidas pelas grandes empresas de informação, o melhor é não cutucar a onça com vara curta e o que o mestre mandar faremos todos. Quanto aos blogs, existem alguns bem interessantes e de produção reconhecida, mas... como viver disso? Como mantê-los? Como resenhar discos, shows e tudo mais sendo obrigado a acordar às cinco da matina para trampar (normalmente em profissões que pouco dialogam com a arte)? Uma hora a coisa cansa, Brazil. Até porque, mesmo a internet e as redes sociais sendo


importantíssimas, o que se tem visto ultimamente é uma sucessão de imbróglios. Basta analisar a quantidade de confirmações de um evento no Facebook e o seu público real. Ou seja, fãs virtuais permanecendo assim, virtuais. O Rio também carece de programas de rádio e de TV. Temos os inestimáveis “Faro MPB” e o “Geleia Moderna”, mas nem preciso dizer o quanto os esforços (hercúleos) desses dois programas ainda são insuficientes para fazer os artistas circularem de fato. Definitivamente, tanto a esfera municipal quanto a estadual trabalham muito pouco em favor dos músicos daqui: leis de incentivo minguadas e disputadíssimas, espaços extremamente burocratizados onde a propina costuma ser a moeda corrente e festivais que... bem... compare a line-up da Virada Cultural Paulista com a do Viradão Carioca. Imagino que a conta bancária do Luan Santanna esteja bem feliz $$$$ com o carinho que o nosso

prefeito tem pelo artista. Dá raivinha, né? E como! Mas pra que ninguém diga que essa coluna está muito baixo astral, há luz no fim do túnel! Sim! Alguns festivais e projetos de pequeno porte vêm se esforçando para contribuir com a produção local, caso do Bulha, Dobradinhas e Outros Tais, Quintavant e Gancho. E há os Sescs! Há algum tempo os Sescs cariocas tornaram-se uma importante força para a renovação da música contemporânea na cidade. Aos poucos, vêm abrindo espaço para esses (já não tão) novos nomes. É importante destacar que boa parte dessa movimentação é feita na unidade da Tijuca que, em parceria com o coletivo Norte Comum, vem desenvolvendo importantes trabalhos. Afinal uma notícia boa, não é mesmo? Ufa! Glória. Mas acabou aqui, infelizmente. Porque agora chegamos ao ponto mais nevrálgico: o público. Estou cansado de ouvir que se um artista não “dá certo” é porque seu trabalho é fraco, ou pior, que falta algum elemento mais popular para que se destaque. Paratudo!!!!!! Imagino que você tenha lido a respeito da última pesquisa promovida pela Federação do Comércio do Rio de Janeiro: 55% dos brasileiros não fizeram nenhuma atividade cultural em 2014. E a culpa recai sobre quem? O artista?!! A tonga da mironga do kabuletê!

Afinal, qual a função da arte? Qual é a força motriz de um artista? Deixando de lado se estamos falando de música, artes plásticas, artes cênicas ou coisa que o valha, o fato é que a arte tem por objetivo criticar, desestabilizar, transcender o pensamento corrente. Tocar na ferida. Mesmo! “Porque você faz arte?” “Porque algo me incomoda”. Essa poderia ser uma boa resposta. Partindo dessa premissa, cabe ao público tomar conhecimento do nosso trabalho, entendê-lo, aceitálo ou rejeitá-lo. Assim como cabe ao Estado e aos meios de comunicação tornarem-se os mediadores desse diálogo. Entretanto, essa não é bem a realidade que encontramos no Rio. Desculpe, Globo; desculpe, prefeito; desculpe, governador; mas não somos sabão em pó, refrigerante ou abajur, e justamente por isso, queremos e temos o direito de termos o nosso espaço, garantido, com orgulho, pela própria essência do nosso oficio. Sem subornos, sem joguetes, sem Mefistófeles. Obs: e nada de fazer referência a Duchamp ou Warhol, você entendeu o recado.


O estudo e o estúdio musical

POR ALEX GOMES

RODA #7

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Era uma vez um tempo onde o conhecimento acumulado estava limitado aos livros escritos à mão. Eram oferecidos no Ocidente pelos padres católicos aos senhores feudais, que também possuíam guardado todo o conjunto de instrumentos e partituras da arte musical da Europa na alta Idade Média. Fazer contas e anotar histórias, pintar retratos ou construir casas, armas e navios eram privilégios de artesãos e sábios que passavam quase em segredo somente aos parentes, em guildas, as lições profissionais valoradas pela nobreza feudal. Tradição oral e livros artesanais era o que havia de mídia para postar seus conteúdos. Até que um alemão chamado João, de sobrenome Guttenberg, lançou com a sua bíblia impressa uma nova mídia - a prensa de tipos móveis - capaz de tornar qualquer pessoa que soubesse ler alemão um ser humano tão poderoso quanto um padre católico, naqueles dias obscuros. A transformação dos livros jamais parou. Todo conhecimento foi lentamente se tornando popular, todas as artes, decifradas, as escolas se multiplicaram, enfim, cem anos depois, veio a Renascença e acabou-se a Idade Média. Revolução bem mais rápida estamos vivendo desde que Tim Berns-Lee resolveu um código-fonte capaz de interligar todos os computadores pessoais do mundo, o protocolo HTTP, início da Internet, em 1989. Cada um de nós já sabe o que fez a Rede contra ou a favor de suas profissões e relações

sociais. Eu vou escrever da minha experiência antes e depois, enquanto comento outras coisas. Solidário a todos os outros profissionais, só posso dizer que estamos no mesmo barco, terminando nossas carreiras em mar revolto. Mas alguns barcos podem dar na costa de um paraíso, é bom lembrar. Em primeiríssimo lugar, o s antecedentes. Houve uma onda de demissões em massa nos anos 90 nas áreas de criatividade tipo arquitetura, publicidade e jornalismo, tempos de downsizing por conta do primeiro impacto tecnológico do Personal Computer, o PC, no Terceiro Mundo. Entre outras duzentas e doze consequências, teve muita gente voltando para a música com as novidades virtuais em garagens e produtoras indies. Nascia o novo mercado independente, a trama virtual. Eu me demiti do jornalismo e voltei a dar aulas de música, hábito e profissão informal desde os 15 anos de idade. O Brasil confirmava mais uma vez com o MangueBeat e “Ana Júlia” dos Hermanos - gravada pelo Beatle George - a sua vocação de exportar novidades com fundo musical do Primeiro Mundo rejuvenescido. O amálgama nacional se repetindo. Tudo isso influenciou aquela geração de adolescidos de classe média a desejar mais uma vez a vida de música, sem saber o que é a vida de músico. O estudo musical ainda não havia mudado o muito que mudou. Desde os anos 50, prevaleceu no mercado a importância dos diplomas oficiais nas universidades onde a música


é lecionada, para licenciatura de professor, pós-graduações teóricas ou profissões variadas, instrumentistas, maestros, copistas, pesquisadores, produtores, profissões de muito estudo dito clássico, de alcance total na música. Mas não há tantos assim. Uma recente lei exigindo estudo musical nas escolas públicas, com professores formados em universidades, está capengando por falta de mão de obra. Os rendimentos de um músico médio no Brasil são aviltantes pelo tamanho da preparação. Raramente alguém consegue passar no vestibular de música se não tiver estudado em conservatórios musicais, um tipo de escola particular ou pública que leva entre seis e oito anos para formação, uma espécie de ensino médio apenas para música. E depois de passar no gargalo da facu fica cinco anos estudando – e muitas vezes trabalhando - antes de se formar. A maioria se torna professor e/ou músico de orquestra e/ou assistente de produção musical e/ou muda de profissão. Os melhores ou mais impacientes fogem para o exterior. A situação formal da música é muito parecida com a do futebol: somos os melhores do mundo, mas sofremos por isso, por tantos talentos quase gratuitos. O sol brilha para todos, mas a sombra é só de alguns. No campo mais popular do ensino musical há dois grandes grupos de ensino, os formais e os informais. Conservatórios são muitos, quase todos formais. Cursos alternativos e preparatórios profissionais são

poucos e apenas nas grandes capitais, porém muito informais, sem diplomas reconhecidos. Eles empregam também os formandos ou músicos reconhecidos por mérito. E há também os informais professores particulares - como eu - que atendem muitos adolescentes interessados em formação paralela à escola, tipo aprender futebol e pintura a pedido dos pais e deles mesmos. E terceira idade. Para terminar essa minha localização no campo e começar a explicar como vi a mudança que virá a seguir, preciso explicar o Brasil musical muito além das escolas de classes médias novas ou velhas, formais ou piratas, concentradas nas cidades mais ricas ou nem tanto. Pelo Brasil afora existem centenas de milhares de sociedades musicais, grupos folclóricos, artesãos de instrumentos, igrejas, terreiros, festas populares e bandas de músicas produzindo a riqueza maior, uma verdadeira floresta amazônica de melodias, ritmos e harmonias de instrumentos e vozes. Os professores quase sempre são mestres antigos e as aulas, gratuitas. Não teve um gringo na história que saísse desapontado com o que ouviu nos interiores nacionais. E desse ambiente saem grandes talentos brasileiros aqui e no exterior. É a fonte. Pronto, agora vamos falar dessa revolução na educação musical que está em curso em todas as classes. Veio o novo milênio, logo depois, acho que 2003, uns garotos em Palo Alto resolveram criar um site que hospedava vídeos livremente, qualquer vídeo, um


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gato miando servia, seu pai levando tombo. E todos viraram produtores de TV nos seus personal computers and palmcams. YouTube-se. Um a da s pri me i ra s uti l i da de s megacompartilhadas no YouTube foi ensinar a tocar músicas populares no violão e no teclado. Entre os primeiros canais já havia tutoriais de harmonia, de escalas, grade de acordes. Escolas surgiram, métodos foram publicados sem registro, quem tinha DVD com aula publicou. Uma década passou e isso não vai acabar nunca. Eu estava tentando legalizar um método, para criar um modelo de negócio para curso visando franchising. Sonho meu. Os alunos sumiram num primeiro m om ento , na fa i xa a do l e sce nte principalmente, por volta de 2008 a 2012. Como sou polímata, um sujeito com inúmeras atividades, fui cuidar de outras coisas. Não sou tão polímata quanto o mais conhecido deles, Leonardo da Vinci, aquele da Mona Lisa. Além de pintar moças de sorriso maroto, era também arquiteto, tradutor, desenhista, inventor, poeta. Sou um micropolímata, digamos. Eu só pude voltar com o curso em 2013, “terceirizado” em escolas, focando na prática de grupos, porque o YouTube é um professor pessoal, mas não forma grupos de estudo, cada um aprende e tem que fazer em grupo a tal da harmonia funcionar. E também com centenas de milhares de jovens tocando a mesma coisa aprendida no mesmo lugar, os professores serão sempre procurados para criar excelência, continuidade, oferecer caminhos variados, mostrar muito além que uns tutoriais em vídeos de sete minutos. Ensinar a convivência musical. Tenho ouvido de amigos professores

na CIGAM e na Pró-Arte, escolas formais no Rio, que os cursos continuam prosperando, que há novos alunos – nova classe média - dispostos a sonhar com a vida de música e sabendo mais sobre a limitada vida de músico. Afinal as redes sociais também revelam a realidade dos artistas profissionais aos admiradores e concorrentes neste limitado mercado de bons rendimentos. Todos sabem de todos. Fica tudo mais real do que aquela obsessão da velha mídia em sacrificar tudo para chegar ao topo, vencer na vida, enricar com a música. Ou seja, igual a tudo na vida, as mudanças dramáticas precisam de tempo para adaptação. O caminho mais lento do estudo musical para o estúdio musical ainda vai passar pelos mestres e professores, formados na vida ou na cátedra. Mas as lições também mudam. O caminho mais rápido pertence à indústria cultural, não depende do artista nem do mestre. É a peneira, como no futebol. Ensinar o aluno a se conhecer e não se perder em meio a tantas propostas e direções de vida que hoje existem. Ensinar a decidir melhor sobre o tempo que gasta, com tantas opções. Treinar foco e concentração e humildade e resiliência. A usar bem os recursos e não se perder em ilusões passageiras da indústria de consumo de massa, mas sem negá-la como empregadora e fonte de renda. São algumas das lições que aprendi nos últimos e dolorosos anos. Mas o principal para mim é sempre viver o momento. Em tempos de tanta desarmonia, viver entre músicos é uma dádiva social. Estamos bem cotados nessa emergente sociedade alternativa, que despreza os excessos físicos e financeiros, mas idolatra os valores da arte. Mestres e músicos, somos o futuro.


...ĂŠ arte


FRENTE

OSREV POR LUIZ STALIN


STALIN Coleção “Homens do Mundo” . nº 3 Cia. Editora Leitura . 1945


RODA #7

Disp


play

Faixa a Faixa Discos Vitrola Download

DVD / Blu-Ray Na Tela Palco Livros Play


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Faixa a Faixa

POR BRUNO COSENTINO

1. TARDE É uma canção bem curta. Ela e “Amor a quanto obriga”, quando as compus, pretendia que fossem uma só; os acordes são os mesmos, a temática também, mas não deu. Escolhi então colocá-las juntas na forma de dístico; acaba uma e começa a outra. A guitarra do Arto Lindsay funciona como uma lâmina cortando a beleza da canção. É pra soar como uma pessoa atravessando a outra, duas existências querendo o impossível e doloroso de se tornar uma.

4. SEM PECADO Nessa canção, quis que tivesse a acentuação no segundo tempo do compasso, para dar essa síncope nuclear, concentrada do surdo de primeira. Muniz Sodré escreveu um livro maravilhoso falando da síncope do samba. O que acontece é que o tempo forte do compasso fica vazio e temos a necessidade de preenchê-lo com o corpo. Essa canção fala justamente desse espaço vazio - interdito - querendo ser preenchido pelos corpos.

2. AMOR A QUANTO OBRIGA A temática é a mesma de “Tarde”: a ferida de amar e ser amado. Acredito que essa seja uma revelação religiosa sem Deus, porque se revela o que nós somos não a partir da solidão, mas a partir da outra pessoa. A canção traz imagens do Rio de Janeiro, a rocha do Pão de Açúcar que parece um monolito à minha frente, a entrada da Baía de Guanabara, lugares que costumo frequentar.

5. DUAS PÉTALAS VERMELHAS Ela fala muito do aqui agora, da relação com o lugar e o momento. A cidade estava no verão, todos transpiravam muito, com sal no ar e no corpo. Tem na letra o rio (a cidade, mas também o fluxo de água doce) e aquela coisa do Heráclito de que não se pode banhar duas vezes em águas repetidas. Marcos Lobato gravou as guitarras; ele tem uma combinação muito rara de lirismo e acentuação rítmica que eu amo! Adoro o vocalzinho no final!

3. PRECISO APRENDER A NÃO SER É uma canção mais raivosa, um “chega pra lá”. O título é um diálogo com a canção do Marcos Valle e também com a resposta do Gilberto Gil a ela (e a minha desdizendo as duas). Tem essa coisa bonita que não sei de onde vem que é a “saudade de não sei quem”, uma saudade primordial, a melancolia em estado puro; uma melancolia que se parece com a neblina do Rio. Por isso, embora suave (que é sua característica), não deixa de ser profunda, como tudo o que é verdadeiro.

6. RESPIRA Estava no vagão do metrô e não sei por que, mas depois percebi isso em outras músicas e também as pessoas me contavam, rola uma tensão sexual nos trens (não posso nem imaginar o motivo). Eu não curto tanto essa música, mas gosto da sacada da letra e adoro o verso “podemos morrer pela cintura”, que remete à metáfora do orgasmo como pequena morte.


7. POR QUE Essa canção é a única do disco que não é minha, é do Otto; desde que a ouvi, fiquei com ela na cabeça como uma canção de melodia e letra bem bonitas. Tem esse início que acho uma obra prima, “por que você me quer assim triste e traiçoeiro, se eu posso dividir meu corpo e meu amor?” 8. PRA QUE PERDER TEMPO Sinto que quando brigo com minha mulher é como se isso fosse se somando subjetivamente no total de nossa vida juntos como momentos ruins. Então fico brincando com isso, gozar a vida e gozar do orgasmo. Tem de forma mais evidente a relação do orgasmo com a morte. A guitarra do Pitter Rocha com uma afinação africana oriental é a cereja do bolo. 9. ESTE LUGAR Fiz esta canção a partir de uma conversa na grama do Aterro sob o sol. Existiam ali

do lado umas palmeiras que dão flor de cinquenta em cinquenta anos e morrem em seguida. Ela estava dando flor na época. Depois de um tempo, passei por lá e vi que o tronco da palmeira estava caído, sem a copa. Ela representa bem o que gostaria de alcançar com o disco: canções simples, que entram fácil na cabeça das pessoas, mas com algum grão (alguma aspereza) que as retenha por um tempo mais demorado que a descartabilidade do mercado de hits. 10. DOIS Esta canção é uma grande interrogação, entre outras que existem no disco, sobre a possibilidade de se viver junto. Acredito que essas perguntas devem nos rondar sempre, porque são elas que vão fazer a gente seguir sempre lúcido. É muito fácil se enganar e cair na armadilha do casamento feliz. Como diz Odair José: “Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. E precisamos gozá-los.

AMARELO Bruno Cosentino 2015 Independente

imagem . Ana Rovati


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Discos LENINE CARBONO Universal

Fruto do amadurecimento artístico de Lenine, “Carbono” pode ser considerado uma síntese do que ultimamente vem movendo o artista. Produzido em conjunto com Bruno Giorgi e Jr. Tostoi, o cantor e compositor consegue boa química ao acrescentar novos ingredientes em seu caldeirão musical, como Carlos Posada, Vinicius Calderoni, Nação Zumbi e Orkestra Rumpilezz, entre outros. O resultado obtido nas canções “Cupim de Ferro” e “À Meia Noite dos Tambores Luminosos” é o exemplo de como pode ser benéfico esse tipo de combustão. Lenine se mostra, cada vez mais, um especialista em combinar sons e conceitos.

VIRGINIA RODRIGUES MAMA KALUNGA Casa de Fulö e Rumos Itaú

É inevitável ouvir esse novo trabalho da cantora e não se emocionar com a simplicidade e a força de seu canto. Com um forte DNA afro, o repertório encontra aqui nuances até então ignoradas para composições de Moacir Santos e Paulinho da Viola. Produzido por Sebastian Notini e Tiganá Santana, “Mama Kalunga” percorre com autoridade territórios africanos, cubanos e latino-americanos que, apesar de distantes geograficamente, parecem vizinhos na sonoridade. A atriz Ruth de Souza, uma precursora na construção de uma identidade artística autenticamente negra em nosso país, participa de uma das faixas, declamando um texto nesse belo trabalho de Virginia Rodrigues.


CLARA MORENO SAMBA ESQUEMA NOVO de novo Biscoito Fino

A escolha de recriar “Samba Esquema Novo”, marco inicial da carreira de Jorge Ben (sem o Jor ainda) por Clara Moreno soa, no mínimo, corajoso. O projeto idealizado pela própria Clara - com produção dela junto com Paulo Malheiros e Luis Paulo Serafim - tem a dura missão de tentar acrescentar algo novo nas canções personalíssimas na voz de Ben. A faixa “Vem Morena”, com a participação de Simoninha nos vocais, é um bom momento dessa tentativa. A releitura do álbum ajuda a perpetuar a obra de um dos mais representativos artistas brasileiros.

ANTÓNIO ZAMBUJO RUA DA EMENDA Som Livre

Depois do belo e celebrado “Quinto”, seu último álbum de estúdio, o cantor português está de volta com “Rua da Emenda”. Além dos compositores mais presentes na sua trajetória, Antonio desta vez nos brinda com pérolas que passam por Noel Rosa, Jorge Drexler e Serge Gainsbourg, transcendendo línguas e territórios. Zambujo confirma neste trabalho a capacidade que o seu doce canto tem de tornar próximo qualquer repertório de suas raízes lusitanas.


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PÉLICO EUFORIA Independente

Euforia, nome do terceiro trabalho do cantor e compositor Pélico, poderia ser perfeitamente uma senha para a viagem solar e oitentista que a audição do disco é capaz de proporcionar. Referente sem ser saudosista, é certeiro ao misturar as influências (boas) desse período fértil da musica popular brasileira com o globalizado som contemporâneo. “Sobrenatural”, “Olha Só” , “Vaidoso” e “Repousar” são pilulas de uma beleza rara, mas é acompanhado apenas por um cello em “Meu amigo Zé” que Pélico mostra o quanto menos pode ser mais.

ORQUESTRA DE SOPROS PRO ARTE FESTEJO Projeto Flautistas da Pro Arte

Formada há dez anos, a Orquestra de Sopros Pro Arte desenvolve um trabalho significativo no terreno da formação de novos músicos. Neste segundo CD, Luiz Potter e Claudia Ernest Dias procuraram dar ao projeto uma direção que contemplasse o repertório mais significativo na trajetória de estudo do grupo. Com composições que vão de Milton Nascimento e Tom Jobim a Guinga, um destaque para a participação de Gilberto Gil, João Bosco e Egberto Gismonti na gravação de suas obras que, ao longo do tempo, sempre estiveram presentes no projeto.


DAVI MORAES E MORAES MOREIRA NOSSA PARCERIA Deckdisc

Quando aquele garotinho subiu ao palco do Rock in Rio em 1985, tocando que nem gente grande ao lado do pai, estava nascendo ali uma parceria duradoura. Passados 30 anos, Moraes e Davi mostram que continuam muito afinados. Em “Nossa Parceria”, são 10 faixas, sendo oito inéditas, em que a dupla passeia com desenvoltura por uma sonoridade bem conhecida dos fãs de Moreira. Ouvidos atentos na regravação do samba-canção “Bahia Oi Bahia”, no característico frevo “Quando Acaba o Carnaval” e no bandolim inspirado da instrumental “Chorinho Pra Noé”.

ALAÍDE NEGÃO SENOIDE SENSUAL Deckdisc

Os sons vindos do Norte já há algum tempo vêm conquistando ouvidos na parte baixa do país. Considerada uma das grandes revelações atuais dessa vertente, a banda Alaídenegão, oriunda de Manaus, dispara seu primeiro trabalho fonográfico, chamado “Senoide Sensual”. Produzido por Rafael Ramos, o álbum traz 14 faixas assinadas pelo grupo, que transitam por guitarradas e sons indígenas sem perder de vista referências tradicionais como carimbó, maracatu, Bob Marley e Tim Maia. Energético e calórico como uma deliciosa tigela de Açaí. *EQUIPE RODA


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POR BOB COTRIM

Vitrola

WALTER FRANCO Revolver (1975) Polysom

LADO A 1. Eu te amei como pude (Feito gente) 2. Eternamente

Digno representante de um dos períodos mais férteis da música popular brasileira, o álbum “Revolver”, de Walter Franco, lançado em 1975 e agora relançado na coleção “Clássicos em Vinil” pela Polysom, deixa em muitos ouvintes a sensação de que a obra desse artista até hoje não ocupa o lugar merecido em nossa antologia musical. A pluralidade das 14 faixas do disco agora pode ser saboreada em toda a sua plenitude e qualidade do formato 180 gramas. A música “Feito gente” abre o Lado A no melhor estilo rock’n’roll e prossegue no gênero com um tom bem progressivo em “Eternamente”. Os efeitos musicais lisérgicos, tão comuns na época, estão expostos na bela canção “Cena Maravilhosa”. Walter e esse álbum já antecipavam para muitos o que mais tarde viria a ser chamada de Vanguarda Paulista. Sinergia clássica entre palavras e sons. Pode aumentar o volume.

3. Mamãe d’água 4. Partir do alto / Animal sentimental 5. Pensamento 6. Toque frágil

LADO B 1. Nothing 2. Arte e manha 3. Apesar de tudo é muito leve 4. Cachorro babucho 5. Bumbo do mundo 6. Pirâmides


POR MARCELO D’ALMEIDA

Download

http://deckdisc.com.br/wado-1977/

WADO 1977 (2015) Deckdisc

1. Lar 2. Cadafalso (feat. Lucas Silveira) 3. Deita (feat. Samul Úria) 4. Galo (feat. Graciela Maria) 5. Condensa 6. Mundo Hostil (feat. Gonzalo Deniz) 7. Menino Velho 8. Sombras 9. Palavra Escondida (feat. Marcelo Camelo) 10. Um Lindo Dia de Sol

Com uma pegada bem mais rock’n’roll, Wado está de volta com “1977”, mantendo aquela desenvoltura que lhe é bem peculiar. Ao longo da sua carreira, o artista vem provando que independentemente da estética adotada, ele sempre parece estar muito à vontade. Lucas Silveira, do Fresno, o músico português Samuel Úria e a mexicana Graciela Maria acrescentam o molho de gêneros e ritmos adequados ao som do álbum, que conta ainda com a participação de Marcelo Camelo em “Palavra Escondida”, bela parceria dele com Zeca Baleiro. Ao findar a audição das 10 faixas, produzidas por ele mesmo, fica a sensação de que Wado avançou mais alguns degraus na sua subida.


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POR MARCELO D’ALMEIDA

DVD . Blu-Ray

BAÚ DO RAUL 25 ANOS SEM RAUL SEIXAS (VÁRIOS) Som Livre Baú do Raul é um projeto que já tem mais de 20 anos. Nessas décadas, passou por metamorfoses que lapidaram ainda mais as homenagens ao cantor, que nunca serão demais. Gravado no ano passado na Fundição Progresso, o DVD sai agora com o que de melhor aconteceu no palco. São 18 canções que passeiam pela carreira do músico e dão uma boa ideia de como as músicas continuam pungentes e atuais. Com direção musical de Arnaldo Brandão, a noite conseguiu reunir expoentes de várias gerações e gêneros, o que permitiu ver a obra de Raul sob outras perspectivas. Os Panteras, primeira banda de Seixas, reunidos depois de 46 anos, acompanhados por Edy Star e Jerry Adriani, tocaram “Você Ainda Pode Sonhar” e “Sessão das 10”, dando ao público presente uma boa ideia do início da carreira do roqueiro baiano. Luis Carlini, Digão e o duo Philipe Seabra e Clemente seguiram na linha do bom e velho rock. Já Gabriel Moura preferiu enveredar por outro ritmo com “Há Dez Mil Anos Atrás”. O último parceiro de estúdio de Raul, Marcelo Nova, que não podia ficar de fora, abalou as estruturas em “Rock’n’roll” e “Século XXI”, esta última presente nos bons extras do DVD. Destaques especiais para as duas únicas mulheres presentes, Kika Seixas, ex-mulher que fez a direção artística, e para a cantora Ana Cañas, que soltou a voz no pot-pourri de “Medo da Chuva” com “Metamorfose Ambulante”, acompanhada “apenas” por uma pequena parede de guitarras que deixou ainda mais eloquente a mensagem do Maluco Beleza e a certeza do quanto ele faz falta. Que venham outras homenagens.


Na Tela

O que fazer quando você precisa contar a história de alguém conhecido, que se confunde com a sua, e conseguir que o equilíbrio entre a reverência e a narrativa documental não comprometam o resultado final? Esse tom reverenciador que acabou conduzindo o processo de filmagem do documentário “Esse é o Início do Fim da Nossa Vida”, sobre a banda carioca Los Hermanos, tirou da atriz e diretora Maria Ribeiro a oportunidade, única até agora, de contar de forma mais contundente uma das trajetórias mais interessantes na história recente da música brasileira. Fã declarada, Maria tenta usar toda a sua cumplicidade emocional para mostrar uma importância que já é conhecida e notória. Não é exagero nenhum quando Maria chama de sua a história da banda. Afinal, todos nós crescemos com uma trilha sonora particular e essa é uma banda que pode se orgulhar de fazer parte do inconsciente coletivo de toda uma

POR IVAN COSTA

geração. O documentário consegue captar com competência a forma apaixonada e até messiânica que as enormes plateias demonstram toda vez que os quatro integrantes se reúnem para os esporádicos shows. Aspectos particulares e íntimos que serviriam para formar um quadro mais realista das relações entre Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina acabam não sendo explorados, provavelmente devido à notória aversão que Camelo e Amarante, porta-vozes do grupo, sempre demonstraram em relação à exposição. Componentes mais reveladores certamente fariam com que o filme agradasse não só aos fãs - até porque esses não precisam de muito para demonstrar satisfação quando o assunto é a banda. Como a separação do grupo nunca é definitiva, quem sabe Maria não se anima e produz uma outra sequência, dessa vez para um público maior.

LOS HERMANOS – ESSE É O INÍCIO DO FIM DA NOSSA VIDA COPACABANA FILMES 2015

DOCUMENTÁRIO MUSICAL / 85 MIN DIREÇÃO : MARIA RIBEIRO


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Palco JUDAS PRIEST 23/04/2015 VIVO RIO RIO DE JANEIRO

Devidamente aquecido pela ótima apresentação do Accept, que o antecedeu, o Judas Priest subiu ao palco do Vivo Rio com a responsabilidade de manter a numerosa plateia no clima. Nada complicado para uma banda que está na estrada há tanto tempo e que pode se dar o luxo de deixar alguns sucessos fora do setlist da noite. Rejuvenescido com a entrada do ótimo guitarrista Richie Faulkner, o Judas mostrou por que ainda é um dos preferidos entre os amantes da nobre e barulhenta arte - o heavy metal. O ótimo e recente trabalho de estúdio, “Redeemer Of Souls”, muito mais pungente ao vivo, foi representado através de quatro músicas. Destaque para a ótima “Halls Of Valhalla”, que faz a guitarra de Faulkner rivalizar com os agudos de Halford. Aliás, falar do Priest é falar de Rob Halford, uma personalidade que se confunde com a imagem da banda. Mesmo com o peso da idade, ele ainda consegue fazer ouvintes amadores em show do Judas ficarem alguns dias com um zumbido contínuo nos tímpanos. “Breaking the Law”, “Electric Eyes”, “Painkiller”, “Living After Midnight” e “Hell Bent For Leather” - esta última com direito à tradicional Harley Davidson no palco - são momentos do show em que a euforia da plateia se confunde com a resistente vitalidade da banda, elementos fundamentais para o Judas Priest continuar na estrada por muitos anos ainda. POR MARCELO D’ALMEIDA


ROBERT PLANT 25/03/2015 CITYBANK HALL RIO DE JANEIRO

Na sua segunda passagem pelo Brasil em menos de três anos, o cantor Robert Plant parecia já se sentir totalmente à vontade. Ao se dirigir ao público carioca na sua primeira intervenção da noite, não deixou por menos. Em meio aos elogios já tão comuns à cidade, falou com propriedade sobre a loucura do trânsito no Rio de Janeiro. Essa intimidade com o público e o entrosamento com sua atual banda, a “Sensational Space Shifters”, fizeram desse show, diferentemente do último realizado aqui, uma bela oportunidade de entrar na atmosfera do Led Zeppelin. Além do fiel e tradicional público que sempre o acompanha, os inúmeros garotos que vestiam a camisa da banda-ícone dos anos 70 puderam ter uma pequena amostra de como soava ao vivo, num lugar menor e com a acústica perfeita, o repertório matador de Led. Foram sete composições no total, incluindo “Going to California”, “Black Dog” e “The Lemon Song”. A mistura étnica de sons e ritmos que Plant vem privilegiando nos últimos anos de sua carreira solo funciona muito bem no palco. As guitarras de Justin Adams e Liam Tyson, combinadas aos efeitos do multi-instrumentista africano Juldeh Camara, proporcionam um ambiente sonoro perfeito para o cantor mostrar um pouco do que é capaz sem a companhia do fiel escudeiro Jimmy Page. Destaques para “Tin Pan Vallley” e “Little Maggie”. O final, claro!, não poderia ser outro: “Rock and Roll” ao estilo Zeppelin, para delírio da garotada presente e para perpetuar ainda mais a idolatria pela velha guarda. O mito ainda resiste. POR BOB COTRIM fotos . divulgação


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Livros

EU, S.A. GENE SIMMONS Editora Rocco / Fábrica 231

A possibilidade da banda Kiss continuar eternamente na ativa, independentemente de quem esteja por trás das quatro famosas máscaras, dá bem o tom de como Gene Simmons e seu parceiro Paul Stanley foram capazes de criar um dos negócios mais lucrativos da indústria de entretenimento dos EUA, sem data de validade. O livro que o baixista linguarudo acaba de lançar é a oportunidade perfeita de se conhecer um pouco da contribuição que esse israelense naturalizado americano injetou no buzines da banda. A fanfarronice de Gene e a capacidade do Kiss em se vender (nos dois sentidos) sempre foram elementos cruciais na trajetória do conjunto. Ele sempre alardeou aos quatro cantos do planeta que o Kiss era a maior banda de rock do mundo. Depois de mais de 40 anos, os mais de 100 milhões de álbuns vendidos e os milhares de licenciamentos com produtos não deixam a menor dúvida: ele é o cara. Essa controversa e polêmica faceta de Simmons conduz a narrativa de “Eu S.A.”, onde ele enumera os 13 princípios básicos para você alcançar o topo, “uma montanha de dinheiro”, como ele mesmo gosta de dizer. O livro é uma espécie de manual do sucesso, feito com bastante senso de humor e muita sinceridade.


*EQUIPE RODA

MEMÓRIAS DE UM LEGIONÁRIO DADO VILLA-LOBOS / FELIPE DEMIER / ROMULO MATTOS Editora Mauad X

Ao resolver contar a sua versão para a saga, até hoje inigualável, da Legião Urbana no cenário musical brasileiro, o guitarrista Dado Villa-Lobos percorre um caminho nem tão conhecido pelos fãs, uma ótima oportunidade para se entender melhor o fenômeno musical que foi a banda e, principalmente, a personalidade complexa de Renato Russo. Durante dois anos, o músico fez uma espécie de regressão espiritual ao lado a mulher, Fernanda Villa-Lobos, e dos amigos Felipe Damier e Romulo Mattos. Tudo para conseguir contar um pouco da história de sua vida que, por conta da carreira diplomática do pai, o levou a morar em várias partes do mundo. Até aportar por um longo tempo em Brasília berço de bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude - e conhecer seus futuros companheiros de estrada. “Memórias de um Legionário” é um relato honesto de tudo que foi vivido pelos integrantes do conjunto nos anos em que a Legião estava na ativa. Um documento precioso para contextualizar a real participação de todos os envolvidos, mas principalmente a de Dado Villa-Lobos e a do baterista Marcelo Bonfá, na formação e consolidação do grupo e no legado por ele deixado.


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Play Escrever sobre um disco marcante da minha vida parecia ser uma tarefa fácil. Um minuto depois de ter concordado em fazer, percebi que justamente a parte mais difícil seria saber qual disco escolher! Depois de 36 anos de uma vida apaixonada pela música, o leque de opções era muito vasto. Comecei o processo de analisar as canções que me acompanharam nessa trajetória, lembrando como tinham impactado a minha vida. Foi bom demais recordar tantos momentos bons, mas logo vi que teria que estabelecer uns critérios para me ajudar a tomar a decisão final. Meu primeiro impulso foi pensar em algo do Michael Jackson. Como tantas crianças dos anos 80, fui inspirado pela música dele, certamente meu primeiro ídolo musical. Lembro claramente na escola todos discutindo qual era a letra certa de “Smooth Criminal”, do disco “Bad”. Como fã, fui pesquisar mais sobre seu trabalho e conheci “Thriller”, “Off The Wall” e as músicas do “The Jackson 5”. Podia ter escolhido qualquer um desses CDs, mas foi difícil demais saber qual! Tive o mesmo problema com a obra do “The Beatles”. Como um bom britânico, a banda fez parte da minha vida inteira. Aprendi “Yesterday” e “Hey Jude” em aulas de música na escola. Alguns anos atrás fui assistir ao show do Paul

POR DAN TORRES músico, cantor e compositor

McCartney aqui no Brasil e delirei com as três horas de hits, um atrás do outro. Na saída do estádio, conversando com os amigos, começamos a lembrar das canções que ele não tinha tocado. Daria mais alguns shows inteiros! Portanto, tentar escolher um disco do “The Beatles” também foi algo que eu não consegui fazer! Pensando como fã, percebi que tinha varias opções que eu podia escolher. Trabalhos de Stevie Wonder, Marvin Gaye, James Taylor, John Mayer, entre tantos outros, mas voltei a focar no assunto, “um disco marcante”! Não necessariamente o melhor nem o “mais marcante”. Comecei então a pensar em qual seria o “por que” da minha escolha para ver se isso me ajudaria a decidir! Cheguei a considerar “What’s The Story Morning Glory”, do Oasis, ou “The Score”, da banda The Fugees, dois discos que me lembram muito da minha adolescência, a época em que comecei a ter certeza de que queria seguir uma carreira na música, e também “The Miseducation of Lauryn Hill”, um álbum que eu escutava direto sem pular de faixa. Mas, depois de todas as avaliações, optei por “Acoustic Soul”, da cantora India Arie. Eu tinha vinte e poucos anos e já tinha certeza que o meu futuro seria


INDIA ARIE . Acoustic Soul . 2001

investindo profissionalmente na música. Trabalhava numa loja de CDs para ganhar dinheiro enquanto corria atrás do meu sonho. Foi lá que eu conheci o trabalho da India Arie. Um dia, um dos funcionários colocou um CD para tocar na loja e, no final do expediente, percebi que as canções não saíam da minha cabeça. Todo dia, andando pela loja, eu esperava o momento do CD voltar a tocar, cada vez conhecendo mais e mais. Quando recebi meu primeiro salário, não pensei duas vezes: comprei o CD e comecei a estudar o disco. O que chamou primeiro a minha atenção foi o titulo “Acoustic Soul”. Estava começando a me aprofundar na arte de compor e o nome resumia tudo que eu queria fazer. As letras de suas músicas deixavam evidente um sentimento profundo da compositora. Ela estava cantando sua verdade, abrindo o seu coração para o mundo, e eu, como ouvinte, me conectei com isso imediatamente. O que mais me impressionava era que ela conseguia dizer tudo que ela queria dizer, usando exatamente as palavras que ela queria usar, mas sempre dentro da forma da canção e com melodias bonitas. Muitas vezes, os compositores precisam adaptar uma melodia ou mexer na forma da música para encaixar exatamente o que querem dizer, mas no caso dela tudo andava junto em perfeita harmonia. É comum a gente gostar de uma ou outra canção num álbum, mas é difícil encontrar um disco que a gente goste da primeira à ultima canção. Com “Acoustic Soul” foi assim. Realmente, o disco foi uma inspiração para mim na época. Serviu como exemplo do tipo de artista que eu queria ser e, com certeza, me ajudou a ser um compositor melhor. A relação entre um artista e seu ouvinte é algo difícil de explicar ou entender. Como são criados esses laços? Por que algumas pessoas se identificam com algumas canções e outras não? Não sei responder, mas também não sei se preciso de uma explicação! Acredito que seja mais uma das coisas mágicas que a música nos proporciona.


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RODA #7  

#música #arte #fotografia Edição #7 © JUN 2015

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