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www.violetaskaterock.com.br


A forma como as pessoas são vistas no mundo de hoje cada vez mais ajuda a definir o quanto de sucesso você vai ter no seu meio: é praticamente imperativo saber aliar o talento com a imagem gerada. Alice Caymmi, mesmo que quisesse, não teve como escapar disso. A herdeira de uma nobre dinastia da MPB lançou o seu segundo disco, “Rainha dos Raios”, exalando um forte cheiro de sucesso no ar. Nos palcos, sua forte presença cênica e algumas polêmicas se tornaram um prato perfeito para alimentar a imagem de uma cantora que está começando a construir uma bombástica carreira.

RODA #5

Numa conversa com o fotógrafo carioca Bruno Veiga sobre uma possível matéria, descobri que ele estava lançando um novo ensaio chamado “Facebook Series”, publicado aqui, que vai direto ao encontro dessa percepção do quanto é importante e, às vezes obsessivo, gerenciar bem a sua imagem. Ser aceito, admirado e até invejado é parte integrante desse coquetel nem sempre saudável. O artista gaúcho Rafael Dambros consegue, através das suas inseparáveis canetas esferográficas, um resultado tão impressionante que deixaria qualquer imagem bem perto do desejado por todos, perfeição e realismo extremo pulam de suas telas. Já o Brainfeeder, selo independente da Califórnia, como nos conta o jornalista Carlos Albuquerque, vem desde 2008 construindo uma imagem precursora e inovadora no cenário da música atual. Qual será a imagem dos empresários do mundo artístico? O jornalista e exempresário Marcelo Guapyassú faz uma crônica a respeito e o cantor Ed Motta mostra um pouco da sua faceta de produtor. Tem também a seção Display com novidades. Tudo isso e muito mais para ajudar você a formar sua opinião a nosso respeito. Espero que goste e divulgue. Afinal, quem não está interessado em ser bem-visto?

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EDITORIAL

BOB COTRIM . EDITOR DE CONTEÚDO


CARLOS ALBUQUERQUE

Sonho antigo da redação da Roda, Calbuque, como também é conhecido, além de ser uma das opiniões mais respeitadas no meio do jornalismo musical, sempre mostrou espírito de equipe quando, nas peladas que disputava e era eleito o melhor em campo, dizia: “Quando ganha, ganha todo mundo, quando perde, perdem todos”. A equipe do Segundo Caderno de O Globo, onde ele bate uma bolinha há mais de duas décadas, já se acostumou com essa modéstia. Calbuque conta para nós qual é a do selo Brainfeeder.

BRUNO VEIGA

Desde moleque, quando a mãe mexia nos equipamentos fotográficos, Bruno sabia que de alguma forma a fotografia iria fazer parte da sua vida. Fotógrafo com uma longa e elogiada carreira, acompanhou de perto todas as mudanças que a tecnologia impôs ao meio e às nossas vidas. Foi pensando nisso que um dia, olhando para os brinquedos da pequena Helena, sua filha, teve a ideia de produzir um ensaio que questionasse o quanto de verdade e de mentira existe na imagem dos perfis das redes sociais.

MARCELO GUAPYASSÚ

Marcelo Guapyassú é carioca, formado em jornalismo, produtor e empresário artístico. Criou o selo musical T-REC, escreveu o livro “Eu Quero Rock”n Roll!”, foi diretor de eventos do Citibank Hall e atualmente possui dois bares com música ao vivo na Lapa – RJ.

IVAN COSTA

Começou na publicidade e enveredou pelo jornalismo musical nos quatro cantos do mundo. Sua doutrina segue os caminhos de Brian (Wilson & Ferry), Peter (Gabriel & Tosh), Joe (Ramone & Strummer). Adora ouvir rádio organicamente (invariavelmente música e futebol) mas, na falta de pilhas, não dispensa um podcast. Adorava ir na geral do Maracanã para ver de perto as peripécias de Cafuringa. Nesta edição, Ivan bateu um papo com Ed Motta e sentou-se à mesa para um banquete.

MAURO ST. CECÍLIA

Esse poeta carioca ganhou o prêmio literário Stanislaw Ponte Preta em 1994. Além dos livros de poesia, publicou seu primeiro romance, “Cão de Cabelo”, em 2007. Sua frutífera parceria musical com Roberto Frejat deixou na ponta da língua do Brasil o sucesso “Por Você”. Autor teatral e cronista do Jornal do Brasil até 2010, Mauro, que está lançando o livro “A Sombra do Faquir”, destila um pouco dessa poesia nas nossas páginas.

BRUNO COSENTINO

É cantor e compositor e, em 2012, lançou o disco “A Eletrônica e Musical Figuração das Coisas”, com a banda Isadora. Integrante do Baile Primitivo, desenvolve o projeto “Singles”, em que reúne artistas plásticos, músicos e produtores em torno da composição de uma canção de seu repertório. Nessa edição, são dele os Pitacos Valvulados, que redime os Racionais de qualquer irracionalidade, desde que seja por amor.

LUIZ STEIN

Música, artes plásticas, televisão, cinema, teatro, literatura, cerimônia de abertura de Jogos Pan Americanos. Para onde você olhar nos últimos 30 anos, o traço e a criatividade de Luiz Stein estão lá, inconfundíveis. O “enfant terrible” da arte visual brasileira resolveu dividir com os leitores da Roda imagens que de alguma forma chamam sua atenção. Imagens que falam por si só, com frente e verso.

MARCELO D’ALMEIDA

Ele não é cabeludo e não usa camiseta preta, mas isso não significa que ele não goste de um som pesado e, muito menos, que não saiba a importância das cores no mundo em que a gente vive. Conhecedor profundo de tudo que diz respeito à Holanda, adora dar um rolé de skate por aí ouvindo Pixies. Nesta edição, ele nos conta de verdade o que acontece quando a Nação Zumbi sobe num palco.

COLABORADORES


Revista Roda #5 outubro 2014

Editor de Conteúdo . Bob Cotrim bobcotrim@revistaroda.com.br Editor de Imagem . Daryan Dornelles daryandornelles@revistaroda.com.br Editor de Arte . Tello Gemmal tellogemmal@revistaroda.com.br

RODA #5

Colaboraram nessa edição Bruno Cosentino, Bruno Veiga, Carlos Albuquerque, Ivan Costa, Karen Tribuzy, Luiz Stein, Marcelo D’Almeida, Marcelo Guapyassú, Mauro Sta. Cecília, Stefano Martini.

RODA . CONTATO Para enviar comentários, sugestões e críticas contato@revistaroda.com.br RODA . PUBLICIDADE comercial@revistaroda.com.br RODA . REDAÇÃO Para enviar sugestões e material para review redacao@revistaroda.com.br RODA . WEB www.revistaroda.com.br RODA . SOCIAL Coordenador de Redes Sociais . Alexandre Florez redesocial@revistaroda.com.br FACEBOOK.com/revistaroda Projeto Gráfico Ofício21

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EXPEDIENTE

Todos os artigos assinados e fotografias são de responsabilidade única de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da revista.


...é música


#5

EDITORIAL ENTREVISTA . ALICE CAYMMI 3x4 . RAFAEL DAMBROS NO ESTÚDIO . ED MOTTA MATÉRIA . CARLOS ALBUQUERQUE FOTOGRAFIA . BRUNO VEIGA MATÉRIA . BANQUETE SÓ LETRA . MAURO STA. CECÍLIA CRÔNICA . MARCELO GUAPYASSÚ FRENTE VERSO . LUIZ STEIN PITACOS VALVULADOS . BRUNO COSENTINO DISPLAY . FAIXA A FAIXA DISPLAY . DISCOS DISPLAY . LIVROS DISPLAY . PALCO DISPLAY . CINEMA

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arte . Rafael Dambros


RODA #5

Alice Caymmi

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Engana-se quem pensa que o sobrenome Caymmi é o carimbo para uma personalidade serena e contemplativa. Ao ficar alguns minutos na companhia de Alice, uma carioca de 24 anos, logo de cara percebe-se a volúpia e a intensidade que a filha de Danilo e Simone - sobrinha de Nana e Dori e, lógico, neta de Dorival - carrega nas palavras, nas ideias e na vida . Como não poderia deixar de ser, a moça cresceu num ambiente totalmente musical e, talvez um pouco intimidada pela história artística da familia, começou a se expressar primeiramente através das artes plásticas e cênicas. Alice também adorava dançar e desde pequena defendia muito bem seus pontos de vista, tanto que a faculdade de Direito ocupou um espaço em sua vida, mas por pouco tempo. Toda essa busca acabou cessando quando ela descobriu seu jeito de se expressar musicalmente. Depois de um primeiro disco que passou meio despercebido, Alice foi atrás da sua identidade, se juntou ao produtor musical Diogo Strauzs e burilou o novo trabalho durante três anos. No meio desse trajeto, arranjou tempo para carnavalizar o repertório do avô no bem-sucedido espetáculo “Dorivália”. Mas foi só seu segundo CD, “Rainha dos Raios”, chegar ao mercado que qualquer incerteza em relação ao seu talento foi varrida para longe. Nessa entrevista, ela nos fala sobre o orgulho de ter sangue Caymmi nas veias e da grande responsabilidade que veio como herança. Com sua chegada explosiva e elogiada no mundo da música, deixa bem claro que as semelhanças artísticas com a família param por aí. A coroa e o manto ainda estão por vir, mas o cetro Alice já exibe em seus shows: trata-se de um fuzil AK-47 dourado, munido de muita musicalidade e apontado para aqueles que ainda duvidam do seu reinado.

POR BOB COTRIM FOTOS . DARYAN DORNELLES


É impossível não perceber que você cresceu num ambiente musical, concorda? Verdade, sempre teve muita música em casa. Meu pai tinha estúdio dentro de casa, era comum ver músicos e amigos artistas entrando, saindo e trazendo sempre novidades. Para mim foi maravilhoso crescer num ambiente desses. Você lembra qual o seu primeiro envolvimento com música ou com esse ambiente musical? Eu lembro que tinha o disco de um musical que meu pai colocava, chamado “Les Demoiselles de Rochefort”, com trilha do Michel Legrand. Era um disco duplo e eu lembro que, sempre que meu pai escutava esse disco, eu tinha vontade de dançar. Essa é uma lembrança muito marcante para mim. Por que dançar e não cantar? Eu fui, ao longo do tempo, descobrindo a minha alma de artista, isso num sentido mais amplo, porque o canto é uma coisa que todos nós sabemos, a gente nasce com esse instrumento. Mas eu acho

que a minha abordagem nessa época era muito mais lúdica, eu adorava artes plásticas, poesia, música e, no fundo, queria era dizer alguma coisa, mas não sabia direito ainda como canalizar. Existia dentro de casa alguma cobrança em relação a esse seu interesse pelas artes? Nunca, sempre tive liberdade para ir na direção que eu quisesse, fosse artística ou não. Tanto que eu fui cursar Direito com todo apoio, e olha que nem todos na minha família tiveram essa liberdade. Ou nem todos se deram essa liberdade. Isso significa que você teve que lutar por essa liberdade em algum momento? Fazer Direito eu acho que tem tudo a ver com isso, no sentido de que eu defendo muito bem as minhas ideias. Mas o que me libertou mesmo foi não esperar por nenhum tipo de aprovação da minha família, não criar expectativas, fazer o meu negócio do meu jeito, não pedir opinião de ninguém antes de terminar o disco. Esse disco “Rainha dos Raios” teve muito pouca opinião e os poucos

que deram não sabiam muito bem o que dizer. Eu e o meu produtor, Diogo Strausz, abrimos um outro caminho na nossa cabeça e o seguimos na tentativa de não nos deixar contaminar. Ele nem escutou as outras versões, tudo para fazer exatamente do nosso jeito. Comigo sempre foi meio assim. Mas isso não é abrir mão de opiniões relevantes e abalizadas dentro de casa e opiniões que iriam contribuir no seu processo criativo? De verdade, isso nunca aconteceu com música. Você pode desenhar escondido, escrever escondido, mas cantar escondido é difícil, o som invade todas as coisas. Então, de alguma forma, eles participavam. E sempre tiveram cuidado de me proteger da opinião deles. Isso foi fundamental. Na adolescência, que tipo de música você curtia, quais as maiores referências e de que forma isso está presente hoje em dia na música que você faz? Eu ouvia muita música eletrônica, rock e, claro, muita MPB, que é a minha

“Eu não acredito em originalidade,

eu acredito em compilação e colagens de referências, o que é chamado de plágio no fundo é pouca referência para uma obra”


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“É importante sair da MPBzona, que se valoriza de um jeito exagerado, de querer se manter, como se estivesse acima dos outros gêneros” escola afetiva. Mas uma cantora que pirou a minha cabeça foi a Bjork, a minha visão sobre música mudou. Eu descobri que pouco interessa o meu gosto musical, muitos artistas ainda não entenderam isso, o que você gosta ou não pouco importa para o tipo de arte que você faz, isso abre um leque muito maior de possibilidades artísticas, o não preceito. É importante sair da MPBzona, que se valoriza de um jeito exagerado, de querer se manter, como se estivesse acima dos outros gêneros. Eu nunca quis esse compromisso, apesar dele me ser dado em alguns momentos. Esse compromisso, em alguns momentos imposto como você diz, não fez você pensar em tomar outro rumo na vida? Acho que a faculdade de Direito é um pouco disso, mas eu sou muito inquieta, larguei em menos de um ano e fui fazer teatro. Eu achava que para fazer música de um jeito diferente eu tinha que experimentar outras coisas. Depois desse período, os leques se abriram. Eu percebi que um projeto musical pode ter várias possibilidades e linguagens. A minha geração tem que ir nessa direção com mais força, se arriscar mais, pagar para ver.

Essa atitude artística não é o que se chama de originalidade? Eu não acredito em originalidade, eu acredito em compilação e colagens de referências, o que é chamado de plágio no fundo é pouca referência para uma obra. Nesse aspecto, eu acho que a gente às vezes respeita demais certas coisas. Ao montar o repertório de “Rainha dos Raios” você desrespeitou muita coisa? Tudo foi meio aleatório, eu sentei com o Diogo e a cada semana trazia uma sugestão para ver se funcionava. Acabou que todas funcionaram, eu sugeria e ele embarcava comigo sem medo, sem aquele receio que assola o cenário musical. Toda a minha geração também é um pouco neta do Dorival Caymmi, todos de alguma forma têm essa herança musical, a única diferença é que eu tenho que fazer análise por conta disso e eles não. O repertório tem Paulo Coelho, Caetano Veloso, Björk, mas chama bastante a atenção uma parceria sua com Michael Sullivan. Como aconteceu? Sou fã de carteirinha. Sullivan é um daqueles compositores de mão cheia

que, quando colocam a mão em algo, sempre sai coisa boa. Foi um prazer trabalhar com ele em “Meu Recado”. Algumas pessoas não entenderam você gravar a música “Homem”, do Caetano Veloso. Como você viu isso? Uns reclamaram que a música era machista, outros falaram que era uma crítica ou que eu estava criticando. Para acabar com a polêmica, eu escrevi o seguinte: fica o benefício da dúvida. Não é preciso chegar a nenhuma conclusão, é para ficarem incomodados mesmo. Quanto tempo você levou para produzir esse novo trabalho? Começamos a produzir o “Rainha dos Raios” há um ano e meio, ele teve uma pausa grande porque o show “Dorivália” (espetáculo em que Alice apresenta as músicas do avô Dorival Caymmi em ritmo de axé), um projeto em homenagem ao meu vô, deu supercerto. Era centenário dele e eu resolvi investir mais tempo do que o planejado. No final das contas, apesar de serem projetos distintos, eles tinham em comum a liberdade. Foi essa liberdade que eu levei para o “Rainha dos Raios”.


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Do primeiro para o segundo disco, o que mudou? Absolutamente tudo. Minha voz mudou, minha maneira de agir na vida mudou, meu corpo mudou, minha vida amorosa mudou, a necessidade louca que eu tinha de compor sumiu. No início bateu um desespero, mas eu percebi que era assim mesmo, percebi que o próximo disco não seria autoral. As opiniões alheias deixaram de fazer sentido. Foi nesse período que eu aprendi a ser eu mesma. Isso quer dizer que às vezes eu sou menina, às vezes eu sou uma velha. Eu acho que isso confunde um pouco as pessoas e artisticamente isso é muito bom. Mas isso não te obriga a estar em constante movimento? Sim, mas isso é quase uma necessidade. Eu atualmente estou ouvindo tudo que você possa imaginar, de funk a música búlgara. Sou inquieta demais, as ideias não param de surgir na minha cabeça e aí eu tenho que usar um filtro para decidir o que fazer. Deve ser insuportável para quem está do meu lado. O engraçado nisso tudo é que a imagem que a família Caymmi sempre passou foi de muita serenidade artística e pessoal, chegando às raias da contemplação, você não acha? É que as pessoas não conhecem de verdade a minha família. Meu pai e minha tia Nana são inquietos tanto quanto eu, e o meu avô trabalhava pra caramba, essa coisa contemplativa era ele criando, na real a cabeça dele estava sempre a mil por hora. Seu Dorival nunca parou de trabalhar e ouvir o que estava acontecendo na música, não tinha essa de preguiça, não, ele sustentou a família numa época em que se viajava pra cima


“Aqui é território contaminado quando se trata de cantoras, é um negócio excessivo, é overdose, o Brasil vai morrer de overdose” e pra baixo de teco-teco, de trem pelo mundo inteiro, era punk, ficava semanas sem conseguir contato com a minha vó, ele não parava. Eu passei uma semana agitada por conta do lançamento do disco e estou aqui cansadinha, imagina o seu Dorival naqueles anos. Preguiçoso coisa nenhuma.

Não é pessimista da sua parte achar que a crítica vai ser ruim? Eu tinha certeza que ia ter crítico falando que o trabalho estava uma bosta, a minha cabeça estava pensando assim: “Eles vão atacar o disco, mas eu vou defender isso até o fim”. Quando a crítica boa chegou, eu não acreditei.

Alice Caymmi veio para acabar com essa imagem definitivamente? A minha família não pode ser uma questão, se eu tivesse medo da tradição da família e do que eu tenho que corresponder eu não fazia nada. Eu sou a terceira geração de artistas, é uma responsabilidade mas não pode ser uma questão. Foi essa consciência que me libertou.

Essa repercussão positiva pode influir no seu processo de trabalho a partir de agora? Eu agora só penso que o próximo projeto tem que ser melhor, mas não quero criar expectativas. Esse cavalo branco lindo está passando na minha frente, mas eu prefiro não subir nele, não quero cair do cavalo. Isso é um jeito de me proteger.

Mas essa responsabilidade do sobrenome que você citou não cria uma expectativa no mercado? Eu prefiro não pensar nisso e fazer o trabalho do meu jeito, sem criar expectativas. É claro que, quando você lança um disco, o normal é você esperar uma crítica horrorosa e não foi o caso. O disco foi superbem recebido, na verdade até agora a ficha não caiu, eu não esperava toda essa aprovação e generosidade das pessoas.

Como lidar com essas intensidades todas em cima do palco? O show segue a mesma linha do disco? O trabalho em cima do palco vai se transformando de um jeito muito louco para a minha banda, no disco existe uma estrutura certinha com umas programações que eu não pude caotizar muito, mas cada show é um negócio de louco, cada plateia vê uma coisa diferente. Às vezes eu percebo que é hora de fazer uma certa música a capela, pois o momento pede aquilo. A gente sente isso, quando o povo quer dançar,

quer tomar uma cerveja ou quer chorar. Tirando sua Tia Nana, quais cantoras influenciaram o seu canto? Minha tia Nana é inevitável por causa do timbre, está no nosso DNA. Mas a minha maior influência como intérprete é a Billie Holiday, é a cantora que eu mais ouço e admiro. O seu canto me toca profundamente e chego a chorar com as suas interpretações. Num “país de cantoras” não é estranho você citar uma cantora estrangeira? Aqui é território contaminado quando se trata de cantoras, é um negócio excessivo, é overdose, o Brasil vai morrer de overdose. A gente tem grandes cantoras, mas a minha geração nasceu falando inglês e o contato mais direto com a música americana sempre existiu. Mas quem me apresentou a Billie Holiday foi o meu pai. Quando pequena, a gente ia pro sítio da família em Pequeri, no interior de Minas, e ele colocava essa fita no gravador do carro. Mas desde pequena você conseguia absorver o trabalho da Billie Holiday? Na verdade eu não suportava, chegava a imitar ela de irritação (nesse momento Alice imita Billie com perfeição). Só que, tempos depois, o amadurecimento


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emocional chega e a nossa memória afetiva está lá intacta. Comecei a me interessar pela música e principalmente pela história de vida dela, não tem “voz” que não venha acompanhada de uma história e a dela é rica. A Maysa, que está presente nesse novo disco, é um bom exemplo disso, uma força da natureza, intensidade e verdade, isso me atrai muito. Voz e corpos que se transformam, engordam e emagrecem aos olhos do público, são pessoas em movimento constante. Você está valorizando a “verdade pessoal” como linguagem artística, mas a “mentira” não faz parte do show business? A mentira é fundamental. Outro dia eu fui cantar o “Acalanto”, do meu vô, com um arranjo semelhante ao original para uma plateia grande e, quando eu fui passar o som, tive uma crise de choro que não me deixava cantar. Na hora de fazer para o público, segurei e transferi todo aquele sentimento. Arte é um artifício, cantoras como a Elis, como a Cássia levaram essas verdades ao extremo. A Elis chegava ao ponto de não conseguir terminar as canções, ela foi acima de tudo uma grande mulher, era genial cantando e pensando. Ela sempre brigou pelas suas ideias musicais num meio machista pra cacete. Dentro de um estúdio você tem que brigar para impor as suas ideias com a diferença de que o “brother” deles não precisa fazer isso. Tem produtor que simplesmente não te ouve, acha que mulher é incapaz de fazer um arranjo. Quem mais sofre nessas situações são as cantoras que têm marido na banda.

Na sua vida pessoal você também tem que brigar para impor as suas ideias, sua relação com os homens fora do palco também vai nessa direção? Segundo a psicopedagoga do meu colégio, eu sempre tive problemas com autoridade. A vida emocional está uma droga, mas na vida profissional está dando tudo certo. Acho que dá um medo danado, não é toda cantora que passa por isso, cada uma tem a sua história, é que o meu trabalho é muito hann!! (som de coisa pesada e forte) e isso assusta um pouco. E nem acho que no meu caso é machismo, é difícil mesmo, outro dia eu vi uma entrevista da Marina Abramovic (renomada artista plástica Sérvia) em que ela dizia que ninguém a aturava e que isso não tinha a ver com machismo. O antídoto para tudo isso seria a “Alice bélica” que sobe no palco munida de um fuzil AK-47? “Rainha do Raios”é um disco que fala da violência, ele é armado. O Guga Ferraz (artista plástico que produziu o fuzil dourado de isopor que Alice utiliza no show) foi influenciado pelo desfile de armas que tem nos bailes funk, onde um cara entra com um fuzil gigante dourado e, atrás, vêm outros com armas menores até chegar nas crianças carregando os cartuchos com as balas. Isso é a alegoria da violência e ela é tão presente que eu não me importo muito se as pessoas acham que isso é uma incitação à violência. O fato é que isso está no meu subconsciente e no de todas as pessoas que moram aqui. Aquilo ali é só a representação de uma mulher forte e fálica em cima de um palco. Se eu fosse

francesa, provavelmente não seria um fuzil, mas aqui no Rio é normal. A minha geração foi permeada pelos bailes funk, pelos desfiles de metralhadoras e pela morte. Eu tive amigo meu morrendo subindo o morro, eu tive amigo meu sendo torturado por traficantes. A polícia passa em Copacabana de carro com os seus fuzis para fora da janela, ele é uma parte do nosso cotidiano. Eu não quero essa violência, mas é assim. Essa atitude e personalidade forte é o motivo da Alice Caymmi não estar relacionada a nenhuma turma ou movimento musical recentes? Achar um DJ na noite e perceber o potencial dele como produtor é a banana que eu dei para tudo isso. Foi aí que eu encontrei o meu segundo disco, eu estou cheia dessa ideia de turma, é uma estética se repetindo. A nova cena de São Paulo ou a nova cena do Rio de Janeiro. Nããoo! Muito obrigado. Então você nem ouve esses artistas? Pelo contrário, eu ouço e gosto muito, são grandes artistas, mas acho importante olhar para os lados, senão isso acaba se transformando numa espécie de selo de aprovação, exatamente como acontecia nas gravadoras. Tem muita gente boa e talentosa como o Diogo Strauss fora do mercado por causa dessas panelas. Eu não preciso de panelas, eu já tenho um clã.


“A polícia passa em Copacabana de carro com os seus fuzis para fora da janela, ele é uma parte do nosso cotidiano. Eu não quero essa violência, mas é assim” Alice Caymmi no palco foto . Karen Tribuzy


RODA #5

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3x4 RAFAEL DAMBROS

Nome: Rafael Dambros Data de nascimento: 21/07/1983 Cidade onde nasceu: Caxias do Sul (RS) Cidade onde cresceu: Caxias do Sul e Rio de Janeiro Cidade onde vive: Caxias do Sul Uma cor: Todos os tons de azul Um trabalho de alguém da sua área que te marcou: Os retratos de Juan Francisco Casas Principais ferramentas de trabalho: Papel, caneta BIC, telas, cavaletes, tinta acrílica, pincéis e café Qual o lugar em que gostaria de ver o seu trabalho exposto: Europa, especialmente Holanda Quem voce convidaria para ser seu modelo vivo: Qualquer desconhecido que aceite ficar nu Quem voce gostaria que fizesse um retrato seu: Toulouse-Lautrec Se voce pudesse levar somente uma imagem para Marte: Uma fotografia da Terra


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Em que momento da sua vida você se decidiu por este caminho profissional? Meu sonho era ser paleontólogo. Desde criança pensava muito nisso, minha vida eram os dinossauros. Artes nunca fora uma opção. Na adolescência, meu pai me inscreveu em diversos cursos, como inglês, espanhol e desenho artístico. Todos os cursos que eu gostaria de fazer, cedo ou tarde, ele me matriculava neles. Foi no curso de desenho artístico que descobri a paixão por desenho e, consequentemente, pelas artes. Já na escola, trocava alguns desenhos por lanches e vendia outros para meus professores, e na escolha do vestibular eu ia seguir com meu plano de ser paleontólogo, porém não encontrei o curso e lembrei dos desenhos. Creio que esse foi o momento em que decidi seguir este caminho inteiramente. Matriculeime no curso de Licenciatura Plena em Educação Artística e sigo com as artes desde então, mas acompanho todos os documentários da Discovery sobre a pré-história. Houve alguma mudança radical no seu trabalho durante essa trajetória? A temática do meu trabalho sempre foi focada no corpo humano, inicialmente com retratos, depois partindo para questões sentimentais e, atualmente, o erótico se faz muito presente. Porém, com minha experiência como professor e como pintor de arte na Rede Record, no Rio de Janeiro, experimentei muitas técnicas de desenho e pintura. No período da faculdade, distorci as formas chegando ao expressionismo e afins. Mas sempre focado no desenho. Até mesmo minhas pinturas são totalmente baseadas nos elementos básicos do desenho.


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Quais são as suas maiores influências? Acredito que minhas experiências pessoais são minhas maiores influências. O que senti, o que vivi e as pessoas que encontrei pelo caminho. A busca pela perfeição da técnica é sempre um grande motivador no caminho da perfeição. Artistas como Juan Francisco Casas e outros hiperrealistas me influenciam bastante.

pela televisão e nas salas de aula trouxe um mundo de técnicas novas que utilizo em diversos trabalhos. Acredito que o artista deva focar nos materiais que mais lhe agradam para sua produção, mas a experiência e o conhecimento de todas as possibilidades são de extrema importância especialmente para os novos artistas.

Seus trabalhos são desenvolvidos dentro de uma técnica especifica ou você se utiliza de todos os recursos disponíveis em prol da sua arte? Sou bastante “quadrado” em relação às técnicas que utilizo. No desenho, utilizei por muito tempo o nanquim e o lápis, mas me descobri com a caneta BIC e venho tentando aperfeiçoar esta técnica ao máximo. Experimentei utilizar canetas coloridas, mas acabo sempre preferindo o monocromático azul. Porém, intercalo no período de alguns meses o desenho e a pintura com tinta acrílica. Na pintura, busco criar texturas inspiradas nas retículas das histórias em quadrinhos antigas. Poderia facilmente criar essas texturas com diversos materiais, mas prefiro fazê-las manualmente com a tinta.

Qual o papel da tecnologia na concepção e resultado na sua arte? A tecnologia varia em grau de importância dentro da minha trajetória. Inicialmente, meus trabalhos partiam de imagens mentais e eu utilizava materiais básicos. Atualmente, em meus desenhos busco a perfeição realista, sendo assim utilizo máquinas fotográficas, fotocópias, photoshop e o que mais for necessário para perceber os detalhes da forma. Na pintura, a fotografia tem igual importância. Não procuro detalhar tanto estas, utilizo minha experiência técnica para tal, mas normalmente inicio o trabalho a partir de referências fotográficas. Para um resultado final bom, preciso de fotográfias excelentes, caso contrário a obra perde seu detalhamento.

Até que ponto essa “fidelidade a uma técnica” pode engessá-lo, artisticamente falando? O artista só fica engessado no momento em que perde sua curiosidade e deixa de produzir. As técnicas que utilizo são minha marca registrada e são perfeitas para expressar o que desejo. Porém, estou sempre aberto a novas experiências e já participei de trabalhos em conjunto com outros artistas, com grafite e cerâmica. Minha experiência

Quais são seus temas preferidos, aqueles que você mais gosta de trabalhar? Gosto do humano, especialmente as possibilidades do corpo. Trabalhei por muitos anos com a expressão e a representação da transformação sentimental do homem. Atualmente, o erotismo está muito mais presente, de forma positiva e negativa.


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Costuma trabalhar várias peças ao mesmo tempo ou prefere começar e terminar um projeto isoladamente? Uma coisa de cada vez. Às vezes, devido ao grande número de encomendas ou às novas turmas de desenho, matéria sobre a qual dou aulas em meu Atelier, sou obrigado a parar ou desacelerar, ou mesmo produzir duas coisas ao mesmo tempo. Fico muito angustiado com isto. Gosto de iniciar e terminar um único trabalho de cada vez, com algum tempo de intervalo entre as produções. Que outros artistas você acompanha com interesse? Leio muito sobre os mestres do passado e acompanho todas as produções do espanhol Juan Francisco Casas e do italiano Diego Koy. Acompanho também muitos artistas anônimos pelas redes sociais. São muitos artistas hiperrealistas espalhados pelo mundo que deixam meus trabalhos “no chinelo”.

Arte e comércio podem conviver sem conflitos conceituais? Dificilmente o artista consegue viver inteiramente da venda de suas obras, é preciso ter outras fontes de renda. O artista trabalha com ideias e conceitos, além da técnica, e isso pode ser empregado em diversas situações. Porém, a obra de arte, por ser um conjunto conceitual técnico, tem seu valor comercial também. Obviamente, existem obras de arte que devem ser consumidas apenas no plano intelectual, pois são inteiramente conceituais, e outras que podem e devem ser consumidas comercialmente. Acredito que o único motivo que leva uma obra a não ser comercializada é sua intenção original, afinal ela pode ter sido produzida sem este fim. Outras, por sua vez, são inteiramente comerciais, e outras, ainda, vagam pelos dois lados da moeda. Pelo que compreendo de arte, existem obras conceituais, comerciais, decorativas e as que mesclam isso tudo. Qual o preço da sua inspiração? A inspiração é fruto de todo o conhecimento adquirido. Ela surge em momentos específicos, unindo um pouco do que vi na semana passada, no mês passado e do que li 15 anos atrás. Sendo assim, minha inspiração tem o valor de toda a minha trajetória e estudo artístico. A arte é uma necessidade forte na minha vida, e fiz dela meu trabalho. A inspiração faz parte disso tudo e tem seu valor. Mas confesso que é muito difícil expressar em números esse valor. Acabo valorizando muito mais o reconhecimento e a apreciação do meu trabalho, do que o valor comercial posto nele.


RODA #5

No estúdio com

Ed Motta

POR IVAN COSTA FOTOS . DARYAN DORNELLES


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Ao entrar pela primeira vez no estúdio da Transamérica, em 1986, para gravar a demo tape de seu primeiro disco com a banda Conexão Japeri, Ed Motta talvez não imaginasse que começaria ali uma longa e profunda relação com esse universo. Os jamaicanos, segundo ele, sabiam como ninguém fazer o estúdio soar como um instrumento. Assim, esse encontro virou amor à primeira vista, tanto que ele lembra até hoje da primeira impressão: “Era uma mesa profissional da marca Harrisson, que, acho, foi parar no estúdio Nas Nuvens, do Liminha. Eu lembro de ficar olhando para os equipamentos que via nas revistas e não saber direito o que fazer.” O artista, que passa uma grande parte dos longos períodos que antecedem

o lançamento de um novo disco aprofundando e colocando em prática todo conhecimento adquirido nesses quase 30 anos de carreira, fez do estúdio particular instalado em seu apartamento, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, o local ideal para essas jornadas. Antes de chegar nesse estágio, ele lembra de ter comprado um pequeno gravador de oito canais, onde iniciou todo esse processo, “ Era um gravadorzinho que eu usava direto e, ali, começou a fissura de gravar e ficar mexendo nos arranjos até chegar no resultado que eu queria”. Perfeccionista e autodidata, Ed, que além de músico é um dos maiores colecionadores de discos do país, sempre estabeleceu uma relação muito

particular com esse ambiente. Em sua opinião, o trabalho de um produtor não pode gerar uma interferência na obra de um artista. Para ele, a estética do estúdio deve servir ao artista e não o contrário. “Admiro caras como Lee Perry, Jimi Page, Todd Rundgren, entre outros, porque eles conseguem extrair do estúdio apenas aquilo que vai contribuir para a musicalidade deles”, explica. Mas o divisor de águas na relação de Ed Motta com o estúdio ocorreu na hora em que ele conheceu o trabalho da banda americana Steely Dan. Ele simplesmente pirou com a excelência do resultado obtido por eles: “Foi um impacto muito grande, é impressionante como aqueles discos soavam, era tudo muito perfeito, uma sonoridade absurda. Daí eu comecei a


pesquisar e descobri a fissura deles com essa parte técnica dentro do estúdio. O produtor Elliot Scheiner e o engenheiro de som Roger Nichols completavam o time dentro do estúdio e o resultado era simplesmente espetacular. Então eu comecei a comprar livros, estudar sobre equipamentos. Nunca mais parei.” Observador atento do cenário musical, Ed lembra que a fase pós Sex Pistols na música foi pródiga em trabalhos consertados no estúdio: “Cara, o estúdio consegue fazer o baterista do U2 tocar. Nessa fase, o estúdio fazia maravilhas, apesar de que nem tudo é assim. Tipo The Jesus and Mary Chain, em que tudo é desafinado, meio fora de tempo, porque faz parte do negócio”. Quando perguntado sobre qual disco brasileiro considera um primor de produção, ele não titubeia e cita o disco da dupla Robson Jorge e Lincoln Olivette de 1982. “Esse disco sempre foi o meu norte, a minha maior influência nessa onda do perfeccionismo. Um outro que vai numa outra linha, mas não menos genial, é o segundo disco do baterista Edison Machado, chamado “Obras”, visceral na essência, não essa visceralidade de hoje em dia, quando colocam quatro garotos tocando (mal) punk rock e falam, uau!” Hoje, Ed é um dos caras mais minuciosos ao produzir um trabalho. Chega a perder a conta do tempo que leva em cima de uma só música, mas reconhece que às vezes o caminho é longo para chegar ao resultado pretendido. “Agradável é tomar vinho, ouvir um disco, mas fazer um disco é uma coisa muito difícil”, desabafa ele, que tem 12 álbuns de estúdio em sua carreira, dos quais produziu 11. Curiosamente, o único que não foi produzido por ele é exatamente aquele com maior vendagem, “Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins”, de 2000, produzido por Liminha. Ed tece considerações interessantes

a respeito: “Dividir a minha música dentro de um estúdio com outra pessoa não foi uma coisa saudável, ter que negociar o tempo todo é complicado, as vivências pessoais e musicais são bastante diferentes. No meu caso, essa experiência serviu só para formatar o meu trabalho e adequá-lo ao que o mercado exige. Comercialmente foi bem sucedido, mas o resultado artístico para mim acabou ficando em segundo plano, tem efeitos no disco que, se você me perguntar, eu nem sei como foram parar ali.” Tanto conhecimento adquirido ao longo do tempo lhe deu a capacidade de simular, no computador e afins, a sonoridade que ele considera perfeita para o seu trabalho. Mesmo reconhecendo que os timbres não atingem a perfeição ideal, a plataforma se torna adequada para o que ele considera um dos elementos essenciais para sua música, o “high-definition”, um som absolutamente limpo. Ele, inclusive, brinca com isso quando diz: “Coitado de quem faz um estilo de música como o rock, onde a sujeira faz parte do negócio, e depende do Pro Tools”. Amante dos

equipamentos analógicos da década de 60 e 70, tem no seu estúdio uma câmara de eco alemã da marca Echolette, mas fala que hoje em dia já não tem tantos sonhos de consumo nessa área e que, se fosse para investir, os microfones, sem dúvida, seriam a prioridade. Ed Motta fala que sempre esteve aberto para trabalhar como produtor em discos de outros artistas, mas reconhece que sua personalidade forte e o seu jeito franco podem ter afastado esses convites por aqui. Em 2006, ele produziu na Inglaterra o segundo disco do grupo Jazzinho, chamado “Atlas”. “Essa foi uma grande oportunidade, o produtor executivo me deu carta branca para chamar alguns músicos que eu queria, como Max Midletton, que fez parte do Jeff Beck Group; Harry Beckett, um grande trompetista inglês. Enfim, foi uma experiência muito interessante.” Agora, ele vai ter que ficar um bom tempo longe do estúdio, pois está começando uma tour europeia de shows e só deve voltar para casa no fim de novembro. Quando chegar, adivinha para onde ele vai correr?


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C C´ E U LR T IE VB A NR DO O

POR CARLOS ALBUQUERQUE O Brainfeeder é, por definição, um selo para fazer a cabeça. Abrigando em seu elenco nomes tão diversos como o saudoso pianista de jazz Austin Peralta, o artista visual Strangeloop, o supremo baixista de funk Thundercat, o sensual r&b de Lapalux, as pinturas musicais de Teebs, a eletrônica barroca de Daedalus e o elegante soul de Taylor McFerrin (filho de Bobby), ele se firma, a cada lançamento, como uma das mais inovadoras marcas da atualidade. E no começo deste mês, ele vai esquentar com a chegada às lojas de “You’re dead”, novo álbum do seu criador, o visionário e genial produtor Flying Lotus. Com 19 faixas, participações de Herbie Hancock, Snoop Dogg, Kendrick Lamar, Miguel Atwood-Ferguson, o próprio Thundercat, e contando com ilustrações do craque do manga Shintario Kago, “You’re dead” é um trabalho à altura de um selo que cada vez mais se destaca num mercado instável e em constante transformação/ebulição como o da música. Fundado em 2008 por Flying Lotus, sobrinho de Alice Coltrane, o Brainfeeder

atua como um organismo, no qual todas as partes parecem unidas para mantêlo vivo e ativo. Assim, Strangeloop faz projeções para Lotus, que costuma tocar acompanhado por Thundercat, que produz Mono/Poly, que... As conexões não são aleatórias, já que o Brainfeeder é reflexo de um dos cenários mais instigantes da atualidade: a chamada “LA beat scene”, a cena beat de Los Angeles, que tem revolucionado as estruturas do hip-hop e da música eletrônica, de onde vêm quase todos esses nomes. Nem a dolorosa morte de Peralta - filho do lendário skatista Stacy Peralta, diretor dos documentários “Dogtown and Z-Boys” - em 2012, aos 22 anos, desmontou as engrenagens do selo, que mostrou-se radiante este ano, com novos lançamentos de Martin (“The air between words”), MatthewDavid (“In my world”) e McFerrin (“Early riser”). Num universo cada vez mais regido pelo shuffle e seus dedos nervosinhos, o Brainfeeder prende a atenção do ouvinte massageando sua cabeça com inúmeros toques de originalidade.


...ĂŠ fotografia


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FOTOS .

BRUNO VEIGA

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Está servido o Banquete O projeto “Banquete”, um EP sob a batuta de Cadu Tenório e Márcio Bulk, nasceu da iniciativa de ambos de criar um trabalho musical próprio. No início, a subversão de canções era um caminho a ser seguido, mas, ao se deparar com letras inéditas feitas por Bulk, Cadu não teve dúvidas da mudança de direção que o projeto tomaria: “Ele me enviou uma seleção de letras feitas por ele, pedindo opinião. A ideia, então, passou a ser elaborarmos juntos um trabalho do zero, ainda focado na reconstrução de canções, mas agora no entorno dessas letras que criavam uma narrativa própria, amarrando o trabalho como um todo.” conta ele. Para Márcio, era fundamental retomar uma linguagem mais passional e dramática (principalmente o sambacanção) que já fez parte do cancioneiro popular e que, hoje, é vista como algo datado e de mau gosto. “Tive a intenção de criar um elo entre essa linguagem e a de músicos e escritores que sempre me foram caros e que, a meu ver, dialogavam com questões pertinentes ao sambacanção: caso de Chico Buarque, Jards Macalé, Ana Cristina César e Caio Fernando Abreu”, explica Bulk. A concepção de “Banquete” sofreu a forte influência dos últimos três discos de Scott Walker, “Tilt”, “The Drift” e “Bisch Bosch”, e do controverso “Araçá Azul”, de Caetano Veloso. Trabalho de artistas como Serge Gainsbourg, Nico, Yoko Ono


e, principalmente, da cantora islandesa Bjork, também foram referências recorrentes. A proposta era de que os artistas convidados compusessem canções para voz e violão, utilizando as letras de Bulk como ponto de partida. Alice Caymmi, César Lacerda, Michele Leal, Bruno Cosentino e Lívia Nestrovski foram escolhidos para interpretarem essas canções nesse mesmo formato - voz e violão. O cantor César Lacerda diz ter recebido o convite com extrema felicidade: “Seria eu o único homem a cantar num disco somente de cantoras. Eu e Márcio já havíamos falado sobre a importância do canto feminino na orientação da minha carreira e na tradição de toda canção popular brasileira. Neste sentido, o convite carinhoso pareceu-me, também, repleto de uma escuta dedicada e de um percepção fina. Por fim, ainda tive a satisfação de ter uma canção minha em parceria com Bulk interpretada pela minha querida amiga e conterrânea Michele Leal. Certamente, uma das maiores cantoras dessa nova geração.”

POR IVAN COSTA FOTO . DARYAN DORNELLES

As letras de Márcio foram escritas originalmente nos anos 90, quando ele tinha a idade da maior parte dos músicos que integram o atual projeto. “Nesse período, cheguei a montar um trio de música eletrônica que não foi adiante e que tinha como intenção criar um diálogo entre o trip hop/experimental e o samba-canção, ideia que, de certa forma, permeou o ‘Banquete’.”conta ele. Após a escolha dos intérpretes, três compositores da nova geração foram convidados para musicá-las: Bruno Cosentino, Rafael Rocha (Tono) e César Lacerda.“Eles me entregaram suas versões, que foram enviadas para os intérpretes. Estes gravaram tendo como acompanhamento apenas o violão, sob a minha direção e a de Bruno Cosentino, no estúdio Audio Rebel” completa Márcio.


Mauro sta. Cecília ESSA CASA NÃO É MINHA Minha chave aqui não cabe desconheço a fechadura e a metragem desta sala. O teto não me diz nada o ar da cozinha é estranho. Claro que não é o meu quarto onde me deparo agora. Nunca dormi nesta cama, nem me sinto bem aqui depois de todos esses anos. Ser poeta não é opção é sina ou é maldição.

ELA A mulher loura, em pé no ponto de ônibus, tira da bolsa o esmalte vermelho e faz as unhas da mão enquanto o ônibus não chega. Ela não vai descansar. A palavra descanso não faz parte do dicionário de sua vida. Ela pode algum dia atingir quase o limite de suas forças. Mas ela dorme, recupera as forças e segue em frente. E esquece a palavra cansaço. Porque há muitos jovens que já nasceram cansados e andam cansados o dia inteiro. E porque depois há toda a eternidade que é um tempo que nem passa pela sua cabeça.

Só letra

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FLA X FLU Drummond ou João Cabral Caetano ou Chico

Anderson Silva ou Minotauro Pepê ou Rico

Mário ou Oswald

Pepeu ou Armandinho

A Sombra do Faquir Autor: Mauro Sta. Cecília Editora 7 Letras / 50 páginas

Selton ou Wagner

Cartola ou Nelson Cavaquinho Piquet ou Senna

Clarice ou Cecília

CLASSIFICADOS

Mônica ou Cebolinha

Troco três estrofes em estado semi-selvagem com pouco uso e bom potencial por uma chave de ouro inédita. Ainda leva de brinde dicionário de rimas sem a capa e com dedicatória.

Paula ou Hortênsia

Titãs ou Paralamas

João Gilberto ou Tom Jobim Chacrinha ou Sílvio Santos Maysa ou Elis FHC ou Lula

Antonio Cicero ou Waly Renato Russo ou Cazuza

Mundo Livre ou Nação Zumbi. Escolhas erguem muros espessos no caminho.


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O Ovo e a Galinha

POR MARCELO GUAPYASSÚ

...ou a arte de como empresários e artistas surgiram e convivem

Na história mais remota da arte, na moda, no esporte, em diversas outras profissões, atravessando séculos, enfim, empresários existem e se tornaram primordiais para seus clientes. Mesmo que - no caso dos artistas - a nova ordem imponha que abdiquem um tanto de sua lendária doideira e da própria criação artística para, ao menos, se inteirar e ajudar a gerenciar e propagar seu trabalho, uma vez que não se cruza a barreira do amadorismo nem se desenvolve uma carreira bem sucedida sem eles. Managers, marchands, agentes, produtores, head hunters... Seja que título tenha em seu segmento, empresário é fundamental. Desde o surgimento dos primeiros talentos, são como o ovo e a galinha: não se sabe ao certo o que veio primeiro. Numa comparação mais que centenária, porém na mesma toada, Mozart tinha empresário igualzinho ao Neymar! Sim! Exatamente como Neymar, Mozart tinha na figura de seu pai o seu empresário. Dois gênios! Detalhe é que estou me referindo a esses dois pais, viu? Detectaram ainda muito cedo o brilho de pequenos diamantes e lapidaram, burilaram, trabalharam duro para que seus pupilos viessem a se tornar mais que pedras preciosas, verdadeiras estrelas interplanetárias dentro e fora de seus universos. Outro exemplo nesse sentido seria o pop star Michael Jackson, só que nesse caso o pai do cara controlava demais sua vida como um todo, quase o escravizava,

não deixava que ele fizesse nada além de dançar e cantar. Foco total! O resultado final, todos nós sabemos: megassucesso profissional e desastre pessoal. Em outra medida, mas da mesma forma, temos Sandy e Jr., para citar casos de artistas feitos em casa. Muitos são ou foram como pais de seus pupilos, como Manoel Poladian, Guilherme Araújo, Brian Epstein e Andrew Loog Oldham - para citar apenas alguns dos mais emblemáticos. Verdadeiros artistas esses caras! Manoel Poladian se notabilizou como grande promotor de shows nacionais e internacionais, mas também geriu a carreira de muitos artistas brasileiros renomados e estourados. Guilherme Araújo rodou a baiana, e muito, para fazer de Gal, Caetano, Gil e Bethania o que conhecemos hoje! Brian Epstein e Andrew Loog Oldham simplesmente trocaram as primeiras fraldas dos pimpolhos que viriam a ser conhecidos como The Beatles e Rolling Stones! Faço uso de alguns termos e dou uma conotação paternal ao me referir a esses nomes e sua relação com seus artistas porque essa fase inicial é crucial, demanda tempo, dinheiro, pulso, controle e uma certa forma paternal mesmo. As vezes até ditatorial, por que não dizer. Mas, falando musicalmente, do show business, digamos assim, escoltando um empresário artístico geralmente encontramos a figura do produtor. Chamemos esse herói de produtor

executivo, para não usarmos a alcunha de “faz tudo”, que, no final das contas, é o que ele faz mesmo! E qual seria a diferença entre esses dois? O produtor seria um gerente de logística, ou seja, o responsável por fazer a agenda do artista funcionar, impedindo atrasos ou falta a compromissos. Isso inclui o controle dos ensaios, do calendário de shows, da escolha do figurino, do horário dos vôos, etc... Normalmente este mesmo produtor cuida da produção executiva dos discos - forma carinhosa pela qual serão chamadas para sempre as criações fonográficas. Nesse caso, o produtor executivo estará subordinado a outro produtor, o produtor musical, que vem a ser o responsável por dar forma final ao trabalho, ou seja, arranjo, mixagem, masterização, a roupa que as canções vestirão. O empresário é o cérebro do time: pensa a carreira, elabora a turnê, ajuda a escolher repertório, a escolher o produtor musical, definir o cachê de seus shows, negociar com gravadoras. Ele comanda o espetáculo. Só que, quando a torneira escangalha na casa do artista, se ele esquece a carteira em casa, o pneu de seu carro fura, perde a hora de pegar o filho na escola ou qualquer outro problema básico na vida de qualquer mortal, ele vai ligar para o produtor e, se este não for achado, vai sobrar para o empresário resolver. E não tem conversa! Ou tem. Afinal, artistas são sedutores por natureza... Mas além do personal manager, aquele empresário que cria, cuida e gerencia a carreira de um artista, há outra figura importantíssima: a do empresário que realiza os eventos, que monta a turnê desses artistas. Este último caso seria como um revendedor autorizado, porque ele deve ter a capacidade de arranjar o local para o artista tocar, promover o show, cuidar de hospedagem, transporte, alimentação e etc. No exterior, esse profissional é chamado de book manager. Muitos se descobriram empresários por acaso ou por força das circunstâncias, como aquela fera de aparência tímida


que ao deixar a carreira de atriz e se casar com uma estrela da MPB se revelou uma empresária artística de mão cheia e pulso firme!? Não é que a menina tinha tino para a coisa?! Nunca, na vida e na obra, Caetano Veloso alcançou tanto sucesso de público, mídia e retorno financeiro quanto a partir do momento que Paula Lavigne assumiu a gestão de sua carreira. A moça deslanchou nessa nova empreitada, se mostrou à vontade nessa função e ainda enveredou por outras áreas, como cinema e TV. Uma de suas mais recorrentes parceiras é Monique Gardenberg, que idealizou e transformou em realidade um dos festivais de música mais importantes que já existiram em nossas terras, nos brindou com apresentações ao vivo de alguns dos principais artistas do jazz mundial. Monique também tem uma história bacana e bem sucedida com um nome consagrado de nossa música. Ela foi empresária de Djavan no início de sua carreira. Voltando o disco ao começo, ou melhor, à era clássica da música, em que só havia o próprio artista para se vender, a sua presença, seu show, empresários negociavam com mecenas, ricos empresários, Reis, Rainhas, Imperadores... Em seguida vieram as vendas das canções e seus copyrights, as editoras e as onipresentes e mastodônticas gravadoras, que quase entraram em extinção com o advento da internet. Hoje, vende-se show, música, CD, LP, DVD, T-shirt, acessórios mil. O cantor também ataca de ator, garoto propaganda, apresentador de programa. Hoje, ouvese e, principalmente, vê-se o artista. Trabalha-se a sua imagem. Mas nada é tão crucial quanto a própria música, as canções, o repertório de um artista. O cara pode ter o maior carisma, o melhor empresário, viver na mídia, cantar e tocar muito, mas se as escolhas musicais não forem adequadas as coisas não acontecem ou deixam de acontecer, a carreira não decola, uma turnê fracassa. Um bom empresário ajuda muito seus artistas nessa área. Um cantor pode ficar momentaneamente “cego” e não enxergar que nem sempre a música que ama tocar e cantar pode não ser a que melhor se adapte a ele. E muitas vezes cabe e esse empresário a difícil missão de conscientizar o artista. Um empresário investe muito em um artista quando ele está em início de carreira, por isso seus percentuais sobre as vendas são maiores, podem chegar a 50% dos rendimentos. Um nome consagrado repassa, em média, de dez a 20% de seus rendimentos. Mas de onde vêm os empresários? Como aprendem seu ofício? Até bem pouco tempo, eles se formavam por boa vontade, disposição, paixão, cara de pau... Há bem pouco tempo é que surgiram cursos e materiais didáticos referentes a essa atividade; para eles, academicismo é algo recente. Empresário sempre foi uma vocação, um destino, uma sina. Há uma piada que ouvi algumas vezes de que o sujeito tenta ser tudo na vida e, se não dá certo em nada, vira produtor artístico. Caso seja realmente bom, é promovido a empresário. Maldade... Fui empresário de forjar o talento, de administrar o talento já existente, de recolocar o artista no mercado. Explico: Produzi e vendi o primeiro CD da banda Detonautas, ainda desconhecida. Administrei a carreira de artistas e grupos já estabelecidos, como Boca Livre, Flavio Venturini, Os Cariocas, Joyce, Sandra de Sá, Sá & Guarabyra, Zé Renato e recoloquei - neste caso, perdão pela falsa modéstia - Lobão no mercado. Pois o encontrei sentado na encruzilhada de sua carreira, quando ele mesmo não sabia mais ao certo que rumo tomar. Queria abandonar a vida de roqueiro bem sucedido que tocava para multidões de jovens em estádios para se transformar em um artista meio bossa nova e MPB bem sucedido na medida que pagasse o aluguel e um bom vinho que podia até ser tomado em companhia de sua nova e bem mais reduzida plateia. Só que uma vez posto um produto na prateleira não é fácil conseguir mostrar ao público que, por exemplo, um lustra-móvel agora é um molho barbecue. Tarefa difícil. Mas eu segui meu rumo e Lobão o dele, nos desconstruindo, reconstruindo, sobrevivendo e, sempre que possível, tomando um belo vinho!


FRENTE

OSREV POR LUIZ STEIN


Coleção HQ - nº 4 O Desenho Passo a Passo Editora Ebal - 1977


PItaCOS valVUlaDOS

POR BRUNO COSENTINO

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Racionais irracionais Na última sexta-feira, os Racionais MC’s se apresentaram pela primeira vez na Zona Sul do Rio de Janeiro, num evento chamado “Menina Leblon”. Nada mais contrário a um grupo cuja aversão agressiva aos playboys é conhecida. Acontece que, de uns anos pra cá, os manos vêm fazendo shows em festa de gente rica em São Paulo; Mano Brown protagonizou um comercial da Nike; Edi Rock foi divulgar seu disco solo na TV Globo. Uma coisa chama a atenção: parece que eles estão ali sempre a contragosto. Em vídeo disponível na Internet, Luciano Huck pega Edi Rock no hotel e, a bordo da sua carroça estilizada, puxa o saco dos Racionais, mas recebe de volta um sorriso de escárnio de Edi Rock, que não consegue disfarçar em nenhum momento a cara de contrariado (como se estivesse sendo forçado àquilo). Mano Brown, por sua vez, se justifica dizendo que cobrou um valor alto para participar do comercial e pegou toda a grana para investir na Blue House, casa onde produzem artistas da “música negra” brasileira. Nas festas de playboy, a mesma coisa: entram no palco tarde da noite, alteram as

letras, fazem um show mais curto, cantam de má vontade. A pergunta é: por que fazem, então? Se aceitam voluntariamente os convites, por que estão sempre contrariados? Não seria melhor bancar a decisão? O argumento de Brown é que, se a grana que entra é revertida para o coletivo, eles estão abertos à negociação. Porém, a negociação é dura, claro! Afinal, nunca pediram nada pra ninguém e, depois de tantas negativas, estão numa posição privilegiada para barganhar. Segundo Brown, todas as decisões são deliberadas em “família”, isto é, entre as pessoas que compõem o grande grupo dos Racionais: produtores, músicos, amigos, respeitando, contudo, as opções individuais. Se Brown quer usar tênis Nike, ele usa; se Edi Rock quer ir ao Caldeirão, ele vai. Mesmo que um e outro não compartilhem da mesma opinião. Brown diz no programa Roda Viva que, se existe uma pessoa contraditória, essa pessoa é ele mesmo.

O momento de enfrentar o mercado é crucial - e pode ser fatal - na vida do artista. A maioria se dá mal. A música essencialmente nada tem a ver com o mercado. Obedecem inclusive a duas lógicas irreconciliáveis. A racionalidade econômica é padronizadora, a racionalidade do artista é singular, libertadora (e por isso contestadora do status quo). Na década de 60, época em que os artistas da MPB eram joguetes de festival da canção (o diretor da Record, Paulinho de Machado, disse que pensava os festivais como espetáculos de luta livre: “tinha o mocinho, o vilão, a heroína, entre outros.”), a tensão entre as duas lógicas veio à tona, criando inclusive um racha, como é sabido, entre a MPB e a Jovem Guarda. Os tropicalistas se colocaram no meio e passaram para a história como aqueles que conseguiram superar tal impasse. Superar o impasse significou, nesse caso, agir dentro da estrutura do mercado


bloc estampado nos jornais. Com isso, procura passar a imagem do homem complexo, dividido, oblíquo.

(gravadoras, rádio, televisão) de modo crítico, assumindo uma postura contraditória mas ativa. Na véspera de Natal, por exemplo, Caetano chegou a cantar “Noite Feliz” na televisão apontando uma arma para a cabeça. Acontece que o tempo passou e a lógica de mercado triunfou, não deixando margem de manobra. Hoje, ela vive seu esplendor no mundo intangível do capital financeiro, onde os objetos desapareceram, inclusive os discos de música. Os Racionais surgiram já nessa época. Talvez por isso, não precisaram enfrentar o bicho grande, porque, como se diz no jargão do mercado, já possuíam um público consumidor, composto por “um milhão de manos” das periferias de São Paulo. Criaram um mercado próprio: gravação, comercialização, shows, etc. Hoje, consagrados, ensaiam uma abertura para o mercadão. Querem colher o fruto do seu trabalho. O risco, como sempre, é o da captura. E eles estão cientes disso. Um show para playboys num evento chamado “Menina Leblon” apesar da categoria “classe social” não servir de nada para pensar a música - contém o risco de tirar a potência dos Racionais, que não

podem ser facilmente dissociados de uma ideologia e de um contexto socioeconômico específicos. E é justamente isso que sempre restringiu suas possibilidades de trabalho (diferentemente do samba, o “rap é compromisso”, já dizia Sabotage). O que querem agora, então, é ampliar o mercado. Só que tal abertura, como não poderia deixar de ser, é motivo de tensão máxima. Os Racionais são hoje sujeitos cindidos. Tomam uma decisão de modo consciente e, no entanto, a fazem a contragosto; postura que poderia parecer frouxa (de quem não está convencido de sua decisão), mas que revela a complexidade de suas personalidades, pois assumem as contradições e as levam às últimas consequências: o próprio ato. Afinal, parece que eles precisam enfrentar o mercado. Essa posição contraditória já foi ocupada na música brasileira por Caetano Veloso. Suas declarações movediças, somadas a sua inteligência e a sua personalidade pública exuberante, sempre foram uma afronta ao senso comum. Nos últimos anos, no entanto, parece mais uma caricatura de si mesmo. Em suas entrevistas, não pode faltar uma ou outra frase obscura, acompanhada de uma lista de nomes postos em combinação insólita - uma fórmula que já perdeu o efeito. Não há mais tensão, mas evasão. Com o álibi do personagem camaleônico, troca de opinião ao sabor do vento. Foi assim com o #procure saber. Ele sempre está, mas não está. Sempre é levado não sabe muito bem onde, por quem ou por quê. Foi assim quando apareceu vestido de black

Mas como eu posso acreditar nisso se tudo parece mais uma estratégia de autopromoção ou um instrumento para assegurar a manutenção de certos privilégios dele e dos seus? Assim, ao mesmo tempo que defende indignado a irmã Maria Bethânia contra a imprensa que lhe censurou o uso de dinheiro público para financiar a produção de vídeos com leituras de poemas, se entrega a uma docilidade senil (e faz o desserviço de utilizar sua coluna num jornal de grande circulação) ao afirmar sem vergonha que, apesar de todos os problemas relacionados à Copa do Mundo, o que ele quer mesmo é “ser feliz”. Como se alguém pudesse ser realmente feliz enquanto milhares de pessoas pobres têm suas casas destruídas a marretadas pelo Estado com o objetivo de aumentar o lucro de empresários e políticos. O homem contraditório, que contém em si multidões (como disse o poeta Walt Whitman), faz ganhar vulto a dimensão política, isto é, um espaço de conflito em que nada está definido de antemão, porque tudo está em disputa; e que - utopia (abaixo a rational choice!) - o bem do coletivo prevalece ao individual. A luta do artista não é somente contra o mercado, mas contra qualquer tipo de convenção que lhe seja empurrada goela abaixo. No fim, não tem jeito, o jogo vai estar sempre perdido. Só não pode ser de sete. Mano Brown está agora gravando canções de amor para o seu disco solo, “Boogie Naipe”. Nada de anormal para quem cresceu ouvindo Marvin Gaye, Jorge Ben e Guilherme Arantes. Assim como a música, o amor (ainda) não é privilégio de classe; e até as meninas do Leblon são capazes de amar.


...ĂŠ arte


Display

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1 – Bote ao Contrário É uma canção que foi composta nesse esquema de canção brega, antiga, samba-canção, mas que depois, na hora do estúdio, colocamos um arranjo mais soul, mais funk. O tom e o surdo usados na bateria dessa gravação são da bateria que o grupo usou embaixo d’ água no clipe de 66. 2- O Cinza Tem o lance dos contrastes, que aparece no disco inteiro. A parte bem rock ‘n’ roll com calma, que mistura esse refrão Tame Impala com a parte calma, com melodias que acabam soando mais Pink Floyd. O Terno - O Terno Gravado, mixado e produzido por O Terno e Gui Jesus Toledo. Lançamento independente Distribuição do CD: Tratore Prensagem em vinil: Selo RISCO e Selo 180

Faixa a Faixa

POR TIM BERNARDES

3 – Ai, Ai, Como Eu Me Iludo Um pop Etta James/Lulu Santos tocado com timbre vintage. 4 –Quando Estamos Todos Dormindo Uma música que a gente já tocava na época dos shows do 66, mas que a gente nunca tinha gravado.Tem a letra psicodélica e o arranjo vai seguindo a viagem da letra. Tem a participação do Jeneci tocando um órgão farfisa. 5 – Eu Confesso Mais uma música que é a gente zoando a gente mesmo. No estúdio, a gente tirou uns timbres de bateria bem grave, bem sequinho e que tem a ver com o “Abbey Road” do Beatles.


6 – Brazil É essa crítica da visão dos gringos sobre o Brasil e que, no estúdio, não tem um solo, tem um coro que é algo que rola no “Pet Sounds”, do Beach Boys, que, em vez de ter um solo, a harmonia vai andando, desenvolvendo, desenvolvendo, e aí volta. 7 – Pela Metade Também é uma música que a gente já tocava em shows e que a gente foi gravar só agora. É uma que as pessoas já conheciam, mas que em estúdio a gente pôde dar um capricho maior. 8 – Vanguarda Outra que a gente já tocava nos shows e que, por isso, a gente gravou como tocava e a mixagem foi a parte mais

imagem . Irmãs Fridman e Willy Biondani

criativa no processo de estúdio. Pudemos colocar efeitos, a gente ficou bem livre pra mixar a música de um jeito bem maluco. 9 – Quando Eu Me Aposentar Foi uma música que entrou na última hora pro disco. Eu mostrei pros meninos no estúdio, eles curtiram e foram tocando juntos. Foi soando legal e a gente se animou e gravou. Uma das minhas músicas favoritas do disco. 10 – Medo do Medo Uma que foi bem legal, pois deu pra deixar a música totalmente no clima da letra. E ainda tem a participação do Tom Zé. Deu um grau de ter mais um personagem assustador dentro da letra. Ela é bem canção progressiva.

11 – Eu Vou Ter Saudades Baladão sincero que a gente resolveu gravar bem no esquema de balada clássica, pra não ficar nos timbres de canção de amor anos 2000. Ela fica naquela onda de canção amor pop, mas pop tipo Rolling Stones, Beatles. 12 – Desaparecido É essa história doida que a gente fez no esquema que tem o baixo e bateria de um lado do microfone, o piano do outro e a voz vai contando a história. Nesse meio vão entrando as participações do Gabriel Milliet e do André Vac, do Memórias de um Caramujo, fazendo uma espécie de mini orquestra. Eles tocaram flautas, sax e rabecas e isso vai floreando a história do menino.


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Discos GAL COSTA GAL 1969 Polysom O ano de 1969 foi especial para os fãs de Gal Costa. Ela colocou no mercado dois discos que catapultaram de vez o nome da baiana para o topo do universo da música brasileira. O segundo deles, “Gal”, é uma verdadeira viagem psicodélica, pilotada pelo Maestro Rogério Duprat e incinerada pelas guitarras lisérgicas de Lanny Gordin. Composto por nove faixas que vão de Roberto & Erasmo (“Meu nome é Gal”) a Caetano (“Cinema Olympia”), passando por Gil (“Cultura e Civilização”) e Jorge Ben (“Tuareg”), mostra uma Gal que se joga com perfeição na direção do rock e da soul music. Sem dúvida, é o trabalho mais impactante de sua carreira, que soa moderno até hoje. Essa versão caprichada, em vinil, que a Polysom coloca novamente no mercado, é uma oportunidade perfeita para você viajar nesse disco clássico da MPB. Simplesmente obrigatório.

TIÊ ESMERALDAS Warner Music

A sinceridade é, sem sombra de dúvida, uma característica marcante neste terceiro trabalho da cantora e compositora. Gestado a quatro mãos por Adriano Cintra e Jesse Harris, “Esmeraldas” deixa transparecer um amadurecimento pessoal e artístico. Com David Byrne, velho conhecido de várias cantoras brasileiras, ela compôs e interpreta a bonita “All Around You”. Seja na música citada, na temática singela de “Máquina de Lavar” ou nos arranjos das canções “Par de Ases” e “Esmeraldas”, Tiê parece estar encontrando o mapa da mina. Este disco tem tudo para ser apenas a primeira pedra preciosa em seu caminho.


Livros A POLÍTICA ARTIFICIAL DO DESIGN Victor Margolin Editora Civilização Brasileira

Uma coletânea de ensaios de um dos pioneiros no estudo do design. Margolin oferece o que há de mais moderno em relação ao pensamento da prática do design para os dias de hoje, analisa o trabalho de alguns profissionais-chaves na área, a entrada das tecnologias avançadas no processo de criação, os problemas com sustentabilidade. O autor chama atenção para a necessidade da integração do design com o cotidiano e a importância que deve ser dada ao usuário.

ROBERT PLANT – UMA VIDA Paul Rees Editora Leya

Com mais de quatro décadas dedicadas à música, Robert Plant talvez seja o personagem mais endeusado e imitado da história do rock. Digo personagem porque a preocupação do jornalista Paul Rees é exatamente traçar um paralelo entre o homem e o cantor que enfeitiçou gerações de fãs pelo mundo afora. Desde a sua infância em Midlands (Inglaterra) até os dias de hoje, essa biografia não autorizada é o relato mais completo de uma quarta parte da maior e mais cultuada banda de rock pesado de todos os tempos. Rees nos mostra que o fim do Led Zeppelin não foi suficiente para interromper a trajetória de sucesso que Plant também obteve com a sua carreira solo. Uma história de glórias, tragédias e loucuras, mas também de muita dignidade artística. *EQUIPE RODA


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Palco foto . Marcelo D’Almeida

NAÇÃO ZUMBI 19/09/2014 FUNDIÇÃO PROGRESSO RIO DE JANEIRO Qual é a banda que fica sete anos adormecida e acorda com o som surdo, seco e afetuoso do trovão que anuncia a tempestade? Qual é a banda que passa todo esse tempo sem um disco de inéditas e ressurge no palco como se dele não tivesse descido? Qual é a banda que corta o seu público ao meio com uma melodia de faca afiada e frases de uma tonelada? A Fundição Progresso lotada foi o cenário perfeito para a banda desfilar sua mistura poderosa de tambores e guitarras (é só uma guitarra, eu sei, mas são muitas!). A abertura não poderia ter sido mais bem escolhida, “Foi de Amor”, uma das mais fortes do novo disco, era só a pequena amostra do que viria na sequência. “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” no meio do set levou ao êxtase a horda faminta de homens-caranguejo, possuídos pela música nascida dos mangues do Recife, e que hoje veste a roupa moderna do pop-rock-industrial para desfilar bonita mundo afora. Em vários momentos do show, você fica com a nítida sensação que grande parte das músicas foi escrita para Lúcio Maia entrar com a sua guitarra suave e precisa, ou suingada e grooventa. Du Peixe se movia pelo palco como um tímido puxador de maracatu, parecendo respeitar o espaço imaginário ocupado por aquele que vai sempre estar junto deles. Nota alta para a iluminação do show, que elevou ainda mais a temperatura do lugar. Já o som, em alguns momentos, ficou abaixo do que a animação do público pedia. Para fechar em grande estilo, “Quando a Maré Encher” sacudiu tudo mais uma vez e mandou todos pra casa com a certeza de que valeu a espera... todas as respostas estavam ali... e viva a Nação Zumbi! POR MARCELO D’ALMEIDA


Cinema Ao ver o ator Chadwick Boseman, que interpreta o cantor James Brown em sua cinebiografia, caminhando de forma suave e quase flutuando pelo corredor que leva ao palco no fim do filme, bate aquela certeza de que o desafio monumental de incorporar Mr. Dynamite havia sido cumprido com êxito. Mas do que os gestos ou a fala quase idêntica, aquele andar único e suingado era a medida perfeita para avaliar o alcance do seu trabalho de composição. A história por si só é extremamente rica e cinematográfica, mas a “possessão”do “padrinho do soul” era simplesmente a maior dificuldade por que iria passar o filme dirigido com habilidade por Tate Taylor. Com produção de Mick Jagger, (que aparece representado numa cena do filme, com a cara de pânico que ficou ao ter que fechar uma apresentação aberta por Brown em plenos anos 60), o filme sobre o cantor, um dos artistas mais imitados da música até hoje, copiado por ninguém menos que Michael Jackson e Prince (só para ficar nos geniais), precisava indiscutivelmente de uma atuação a sua altura. A infância miserável e violenta não podia ser suficiente para tirar James de seu destino, como mostra a cena em que a prostituta responsável por sua criação (ele foi abandonado pelos pais) fala isso com muita convicção.

POR BOB COTRIM

Ao ser preso pela polícia depois de um roubo, vai parar num reformatório onde conhece Bobby Bird, aquele que seria um dos principais responsáveis pela mudança de direção na sua vida. Os números musicais viram o cenário ideal para o excelente elenco desfilar seus dotes artísticos, principalmente Chadwick, fenomenal dançando. Está tudo ali contado, o inicio com os “The Flames”, os casamentos, a glória e os inúmeros problemas vividos por este artista cativante e imprescindível na construção da história da música do século 20. Chamá-lo de “pai do soul e do funk” é pouco para quem foi, acima de tudo, o “rei do ritmo”. FICHA TÉCNICA: James Brown / Get on up Drama Musical / 139 min Direção: Tate Taylor Elenco: Chadwick Boseman, Nelsan Ellis, Dan AykroYd e Jill Scott. Lançamento no Brasil: fevereiro de 2015

cantor, guitarrista, compositor e produtor - soundcloud.com/rabujah

JAMES BROWN (GET ON UP) Universal Pictures - 2014


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RODA #5  

#música #arte #fotografia Edição #5 © OUT 2014

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