Revista 440Hz - Ed. 13

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440 Hz

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

FOGO NOS RACISTAS O PESO PRETO DOS PANTERAS



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SUMÁRIO 06 NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS 30 O APOCALIPSE DE VANESSA 32 NOVA AUTORA DE BEL 34 BLACK PANTERA PÕE FOGO NOS RASCISTAS 42 O LIBRETO DE ZUDZILLA 48 COLUNA SUSPECT DEVICE - HENRIKE BALIÚ 42 PEQUENO GUIA PARA OUVIR MÚSICA 58 ENCERRAMENTO - ERICO MALAGOLI

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EDITORIAL ARTE E VIOLÊNCIA A frase “Fogo nos Racistas!” pode te incomodar, mesmo que você não seja racista. É uma frase escrita para incomodar. Apesar de toda violência contra todas as populações que divergem do padrão eurocêntrico imposto, heteronormativo e masculino, essas pessoas são ensinadas que devem lutar sem lutar. Que resistir é lutar. Não, resistir é importante, mas resistir não é combater. “Ser uma pessoa melhor”, por vezes, é uma licença para o opressor continuar sendo uma pessoa melhor. Fazer uma edição cuja matéria de capa é sobre a banda Black Pantera, escrita pelo Lucas, significa dar destaque a uma banda com músicos negros com o texto escrito por um jornalista negro. Isso é resistência. Dar destaque ao discurso antirracista da banda, através do texto pungente do Lucas e a chamada “Fogo nos Racistas!”, é luta. Quando a resposta à violência é violenta, aqueles que esperam que a vítima receba a agressão calado, se chocam. Neste contexto, a violência é arte e a arte é violenta. Como alguns atos, que não têm pretensão artística, e se tornam arte. O chute de Eric Cantona em um torcedor fazendo uma saudação nazista ou a cabeçada de Zidane respondendo a um insulto racista em uma final de Copa do Mundo (e seu jogo de aposentadoria). É interessante como são sempre os que reagem que são punidos. Não mais! Se a liberdade do fascismo significa a impossibilidade da existência daquele que diverge, é necessário reagir e acabar com o fascismo, para todos possam existir em paz. Apenas com a extirpação do opressor, acabará a opressão. Volto sempre à Breton, com a certeza de que “a beleza será convulsiva, ou não será”, em resposta inexorável.

Fernando de Freitas

440 Hz Edição 13 - maio 2022 Diretora de Redação Ana Sniesko Editor-chefe Fernando de Freitas Assistente editorial Lucas Vieira Arte e diagramação Dupla Ideia Design Direção de arte: Camila Duarte Diagramação: Fernando de Freitas Revisão Luis Barbosa Colaboradores Anneliese Kappey, Carolina Vigna, Erico Malagoli, Ian Sniesko, Henrike Baliú Imagem da Sete77sete/ Divulgação A Revista 440Hz é uma publicação da Limone Comunicação Ltda.

São Paulo, SP contato@revista440hz.com.br

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Fotos: Marcos Hermes /Divulgação

NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

RATOS NA POLÍTICA

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m outubro de 2021 o Ratos de Porão comemorava exatos 40 anos enquanto gravava o um novo álbum, seu primeiro desde 2014. Neste meio tempo o Brasil passou por um processo de degradação política e social como não se via há décadas. Se por um lado o país nunca esteve perto de resolver seus problemas estruturais, estes últimos anos trouxeram de volta a fome, a inflação, as ameaças de rompimento com a democracia e, como se não bastasse, uma pandemia. O resultado de tudo isso foi “Necropolítica”, um álbum conceitual sobre a era Bolsonarista e a ascensão da extrema direita no país. A parte musical por sua vez traz uma revisitação do período crossover da banda no final da década de 1980, época igualmente marcada pela crise e desilusão. Assim como o punk brasileiro foi filho da repressão do regime militar e o hardcore nos EUA e Reino Unido são resultado das mazelas da era Reagan/Thatcher, o Brasil bolsonarista fertilizou o terreno para “Necropolítica” com o esterco repressivo produzido pelo gado verde-e-amarelo. A produção do disco ficou por conta da própria banda no estúdio Family Mob em São Paulo, durante outubro de 2021. A mixagem foi feita em janeiro de 2022 por Fernando Sanches no estúdio El Rocha.Necropolítica será lançado no Brasil em CD pelo selo Shinigami (compre aqui) e em vinil pela Fuzz On Discos, com pré-venda a partir desta sexta (13) e entrega a partir de 29 de julho: www.fuzzondiscos.com.br.

BANDA DOS CORAÇÕES PARTIDOS EM ‘CANÇÕES DE ÓDIO, RESSENTIMENTO E ABANDONO’

O quinteto sergipano A Banda dos Corações Partidos desconstrói e dilacera o amor no segundo disco ‘Canções de Ódio, Ressentimento e Abandono’. O título escancara em sons e palavras as muitas possibilidades do amor visceral, aquele amor íntimo, profundo e desnudo, apartado da aura romântica enquanto um fetiche da sociedade patriarcal. O álbum possui 12 canções, que ora é pesado com distorções, ora cadenciado por brasilidades, mas sempre conduzidos pelo vocal impactante e versátil de Diane Veloso. É um disco de indie rock, mas também é, no mesmo espaço e tempo, de música brasileira.

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Foto: Divulgação

“Chicão, brusquense, adulto, estudado na teoria, desestruturado na prática. Mãe superprotetora e pai ausente”, é assim que a banda catarinense Etílicos e Sedentos descreve o protagonista do álbum “Cronofobia”, já disponível nas principais plataformas digitais. O disco conceitual narra em dez faixas, a história de Francisco Xuaner - o Chicão - suas vivências, encantos e neuroses - inspirada na vida de alguns dos integrantes da banda e de seus amigos, criados no interior de Santa Catarina.“‘Cronofobia’ conta em primeira pessoa a vida desse personagem fictício, tendo como temática principal a passagem do tempo em sua vida, desde o nascimento até a fase adulta, num ambiente que compreende Brusque/SC, seus costumes e sua gente”, revela o baterista Juninho Tavares. Além de Tavares, a Etílicos e Sedentos, formada em 2006, é composta por Cleber de Limas (voz), Lucas Fischer (guitarra) e André Gomes (baixo). “Cronofobia” é o quinto álbum do grupo influenciado pelo rock nacional de Ira, Cazuza, Nação Zumbi, Arnaldo Antunes, Vivendo do Ócio, Legião Urbana e Raul Seixas.

Foto: Divulgação

ETÍLICOS E SEDENTOS LANÇA QUINTO ÁLBUM

SELO SLEEP TALES LANÇA LARGE, DE SOCRAB Já está disponível em todas as plataformas digitais o álbum “Large”, do guitarrista e produtor parisiense Socrab - Alexandre Barcos para quem o conhece fora do universo Lo-Fi. Ao escutar as onze faixas do disco, fica clara a paixão pela música que move o artista desde a infância. Ele se encantou pelas cordas aos 10 anos e, como Socrab, realiza inúmeros lançamentos individuais e colaborativos. “Para criar ‘Large’ busquei a natureza, especialmente o mar. Longas caminhadas pela orla são sempre muito inspiradoras. Então tentei transmitir sentimentos de calma e relaxamento, os mesmos que podemos sentir quando voltamos a focar em nós mesmos e no momento presente que, para mim, é o mais importante na vida”, conta. Sleep Tales é um selo de Lo-Fi focado em músicas para dormir melhor. Idealizado por Daniel Sander, conhecido pelo pseudônimo colours in the dark, o selo surgiu após o crescimento da playlist ‘lofi sleep, lofi rain’, criada durante a pandemia para auxiliar pessoas com insônia. Hoje a playlist é um sucesso mundial, com média de 40 milhões de streams por mês.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

IMPEMANENTE

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multiartista Isabel Nogueira, a frente do projeto Bel Medula, inicia a divulgação do quarto álbum, que chega ao mundo em junho sob o título de Abala Ladaia, com o single A Pedra e a Vidraça. Além de atuar na composição da música com Bel, luczan assina a edição e direção do videoclipe que estreia junto à faixa. Concebida durante a pandemia, a canção produzida pela dupla compositora, é regada por referências do big beat, movimento eletrônico fundado na capital inglesa no final dos anos 90, e chama para o debate vivências cotidianas assistidas sob o ponto de vista contemporâneo. A mixagem é de João Meirelles (BaianaSystem, Jadsa). “A música começou a partir de uma base sampleada de bateria e de riff criado com sintetizador. Na letra falamos sobre aprender com processos, impermanência e como as coisas se transformam. Todas estas experiências nos colocam na posição de entender quem a gente quer ser e como nos posicionamos no mundo que habitamos”, revela Bel.

BADI ASSAD MOSTRA A FORÇA DO INTERIOR EM “ETERNO”

Que bom seria se as paredes do nosso quarto nos protegessem de todos os medos e angústias. Mas, quão angustiante a vida poderia ser caso a chuva levasse com ela todas nossas certezas e confianças? Essa é a mensagem do mais novo single de Badi Assad: “Eterno”. A canção chega a todos aplicativos de música nesta quinta-feira e é o primeiro lançamento do álbum “Ilha” da cantora. Composto pela própria cantora e produzida por Márcio Arantes – conhecido por trabalhos com Maria Bethânia, Emicida e Mariana Aydar, com quem acaba de ganhar o Latin Grammy Awards –, o single pondera sobre as materialidades que não afetam nossas verdades mais íntimas. “A letra discorre sobre imagens, por exemplo, de uma casa, com suas paredes, janelas e portas, que, apesar de serem construídas para nos proteger, não podem nos proteger de nossos medos, saudades, inimigos, destinos. Assim como as chuvas, ventos e terremotos também não afetam o que trazemos em nosso íntimo como mágoas e alma”, explica. “Eterno” é o primeiro single do álbum “Ilha” que traz 8 canções inéditas de Badi Assad, em parceria com grandes nomes da música popular Brasileira como Alzira E, Lucina, Chico César, Simone Sou, Dani Black e Lívia Mattos.

QOBUZ DESEMBARCA NO BRASIL No ar desde 2007, a plataforma francesa oferece aos assinantes um áudio profissional, em Hi-Res “qualidade de áudio” (24-Bit a 192 kHz), para garantir uma qualidade de som ímpar. O catálogo conta com uma enorme variedade de gêneros musicais, incluindo jazz, música clássica, pop rock, folk, metal e outros estilos. Músicos nacionais também estão em destaque como um de seus principais diferenciais, para que os assinantes da plataforma possam explorar a rica cena musical brasileira. A boa notícia é que a plataforma oferece um teste gratuito por 1 mês. Vai lá! Acesse o site para mais informações.

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Fotos: Divulgação

BEL MEDULA


CRAMBERRY COM MELL

A cantora e compositora JUNE tem uma trajetória musical intensa para seus 22 anos de idade. Vencedora dos concursos “International Songwriting Competition”, ela compõe desde os 13 e aos 14 já havia lançado músicas de maneira independente. Um EP, alguns singles e duas premiações depois, ela embarcou para Nashville (EUA) para gravar “One not One” no estúdio Dark Horse Institute, por onde já passou Taylor Swift. Lançado durante a pandemia, o EP “One not One” apontou para uma nova fase da artista, que culmina em seu primeiro disco, “Crying for Attention”, em fase de produção.

Fotos: Divulgação/ Flávio Melgarejo

Depois de dois anos de colaboração a distância, Noel Hogan (guitarrista, co-fundador e compositor do The Cranberries) inaugura com a cantora brasileira Mell Peck um novo projeto: a dupla “The Puro”. “Prisão” é o nome do primeiro single lançado nas plataformas digitais: é uma música grandiosa, que junta os vocais suaves de Mell com as guitarras e pianos potentes de Hogan, e está sendo lançada em duas versões, tanto em português como inglês. A colaboração entre os dois surgiu depois que Noel descobriu os vídeos de Mell no YouTube. “Nós nos conhecemos e nas conversas surgiu a ideia de compor juntos. Noel me mandou uma música dele para eu escrever as letras, e eu estava tão animada que escrevi e gravei a música em dois dias. Desde então, nós não paramos, e as ideias estão sempre vindo. Sempre senti que tínhamos algo em comum”, conta. Noel e Mell estão ansiosos para tocar as músicas do The Puro ao vivo, e querem marcar shows no Brasil ainda em 2022. Prison é um lançamento da ForMusic Records.

ELETRICIDADE

OSESP NO SEU TOCA DISCOS

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp acaba de lançar mais um álbum da série A Música do Brasil, uma realização do selo Naxos Brasil com o Ministério das Relações Exteriores. O álbum Choros nº 2 / Flor de Tremembé é o segundo volume da primeira gravação integral dos Choros do compositor Camargo Guarnieri, e reúne as peças da série escritas para clarinete, viola, violoncelo e piano. Gravado na Sala São Paulo em 2019, regida por Roberto Tibiriçá e com participação dos solistas Ovanir Buosi (clarinete), Horácio Schaefer (viola) e Olga Kopylova (piano), integrantes da Orquestra, e de Matias de Oliveira Pinto (violoncelo), especialmente convidado para o projeto.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

O NOVO DO

ARCADE FIRE

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pós a recepção aclamada dos singles “The Lightning I, II” e “Unconditional I (Lookout Kid)”, o o Arcade Fire estreia o seu sexo álbum, “WE”, disponível em todas as plataformas. Produzido por Nigel Godrich, Win Butler e Régine, “WE” fez com que, paradoxalmente, “passássemos o maior tempo escrevendo ininterruptamente, provavelmente em toda as nossas vidas”, conta Win Butler. O novo trabalho aborda as forças que ameaçam nos afastar das pessoas que amamos e foi inspirado pela urgente necessidade de superá-las. A jornada catártica de “WE” segue um arco definido que vai da escuridão à luz ao longo de sete canções, divididas em dois lados distintos: o Lado “I”, que canaliza o medo e a solidão do isolamento e o Lado “WE”, que expressa a alegria e o poder da reconexão.

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O álbum compreende três projetos liderados por Taylor, Isaac e Zac Hanson, e marca os 30 anos da banda. Com um terço do álbum escrito e produzido por cada irmão: Taylor’s RED, Isaac’s GREEN, e Zac’s BLUE, RED GREEN BLUE está disponível agora em vinil, CD e digital em todas as plataformas. RED GREEN BLUE, foi produzido pela banda junto com o, Produtor/Engenheiro/Mixer Jim Scott e o Artista/Produtor David Garza (. Antes de seu lançamento os fãs tiveram um gostinho de três singles cada um apresentando cada irmão. Começando com o emotivo “Child At Heart” de Taylor, seguido pelo estrondoso country de Isaac “Write You A Song”, e finalmente o rock “Don’t Let Me Down”, de Zac. Cada música foi uma pista para as influências musicais únicas que compõem o projeto e foi acompanhada por vídeoclipes.

DE GRAÇA NA PRAÇA, EU ACHO GRAÇA

De Graça Na Praça, uma agenda quinzenal da Casa Rockambole com entrada gratuita e horário de início a partir das 18h, com classificação etária livre, é nova opção na capital paulista. Esse é mais um projeto da Casa Rockambole para agitar a cena independente e autoral de São Paulo, visando uma agenda quinzenal de shows com entrada gratuita e curadoria diversificada, para que o público do espaço tenha a oportunidade de conhecer novos artistas num horário mais cedo e sempre com caipirinha de limão em dobro no bar da Casa. “É aquele tipo de evento pro pessoal colar depois de um dia de trabalho ou num momento de ócio em casa. Dá pra ir e voltar de metrô, marcar um ‘happy hour’ com amigos, enfim, fazer da Casa Rockambole uma extensão musical e mais leve dentro da rotina da cidade”, reflete Cescon.

Fotos: Divulgação

Fotos: MAria José Govea / Divulgação

OS HANSON ADULTOS


HEINEKEN® APRESENTA A BIOSFERA, INSTALAÇÃO IMERSIVA QUE A SUSTENTABILIDADE

LUIZA TOLLER, CADÊ? Dando continuidade a uma sequência de lançamentos, Luisa Toller – integrante dos grupos Bolerinho e Meia Dúzia de 3 ou 4 – apresenta o clipe de “E você, cadê?”, faixa pertencente ao seu recém-lançado álbum de estreia “Mulher Bomba”. A artista passava um tempo no interior e bem conectada à natureza quando recebeu a partitura de Jonatan, o que explica o uso de metáforas como o céu, a chuva e a mata. A canção tem toada melancólica, seguindo o curso do disco: “cantar essa letra foi bem emocionante, afinal é uma das que fiz para meu pai, na época em que ele estava bem doente”, reflete. Luisa Toller e Jonatan Brasileiro têm em comum a influência de Tom Jobim, então nem foi preciso combinar que a estética iria por esse caminho. Luisa fez o arranjo da canção pensando em costurar voz e piano numa coisa só. Justamente por ser a única música do álbum em que está sozinha tocando e cantando, mostrando seu lado instrumentista, a faixa foi escolhida para ganhar videoclipe. “Acho muito importante mulheres instrumentistas estarem em evidência, também por isso fiz questão de chamar a Maria Cecília (bateria), Wanessa Dourado (violino), Júlia Tizumba (percussão) e Neila Kadhi (violão, bass synth e programação) para participarem das gravações do disco”, conta.

Patrocinadora oficial da primeira edição do MITA, a marca celebra o retorno aos grandes festivais após o lançamento da plataforma Green Your City, que reúne uma série de iniciativas que trazem o olhar da sustentabilidade para a vida noturna, cena cultural e para as relações com as cidades. Para o evento, a marca trouxe uma estrutura especial que vai estimulou conexões, experiências e novos conhecimentos sobre o meio ambiente, por meio de biomas de cada região: uma “selva urbana” com árvores, plantas e instalações artísticas relacionadas à natureza. A instalação foi desenvolvida em conjunto pela Heineken® com Atenas e o Floresta de Bolso.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS MARCHA, MAESTRO E FÉ

LETIERES LEITE & ORKESTRA EM

Foto /divulgação

A origem da cultura do Congo no Espírito Santo é inspiração para música “Marcha, Mastro e Fé’’, do instrumentista, compositor e produtor Arthur Navarro, acaba de chegar ao mundo. A faixa está presente no álbum “Fusão Ancestral”, uma parceria de Navarro com o músico e maestro indiano Kiranpal Singh que une elementos ocidentais e orientais estabelecendo diálogos harmônicos entre instrumentos de diferentes culturas e revelando notas de psicodelia nacional, música clássica indiana e congo . “A história relata que no século 18 o naufrágio de um navio que transportava pessoas escravizadas vindas da África levou sobreviventes até a costa da praia do Espírito Santo. Essas pessoas teriam trazido a cultura do Congo, amplamente difundida hoje no estado”, comenta Navarro. Baseado em batucada de tambores típicos, dança e cânticos diversos que homenageiam São Benedito, o Congo é uma manifestação festiva.

MOACIR DE TODOS

OS SANTOS

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Orkestra Rumpilezz, formada nos idos de 2006, acaba de lançar ‘Moacir de Todos os Santos’ (Rocinante), o último álbum gravado sob a batuta do seu fundador. O disco já está em todas as plataformas digitais e nas principais lojas de LPs do Brasil. Na esteira, o canal Arte 1 exibe um documentário inédito, com farto material bem editado ao longo de 25 minutos, sobre a gravação do álbum. O filme, que contará com algumas reprises, foi dirigido por João Atala, Michael Atallah e Sylvio Fraga e traz depoimentos diversos, entre eles do saudoso e genial maestro baiano. Letieres partiu abruptamente em outubro último, aos 61 anos, quando o álbum estava sendo mixado. O repertório contempla sete dos dez temas de ‘Coisas’ (1965), estreia fonográfica do maestro, compositor, arranjador e multiinstrumentista pernambucano Moacir Santos (1926-2006). Raul de Souza (1934-2021) toca o seu magnífico trombone na “Coisa nº 4” e Caetano Veloso participa da faixa “Nanã - Coisa nº 5” (parceria de Moacir com Mário Telles), cantando em inglês, segunda língua de Moacir, que morou por décadas na Califórnia

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JOÃO SUPLICY APRESENTA SAMBLUES

Perto de comemorar 25 anos de carreira e através do seu peculiar violão, por vezes distorcido, onde mescla influências tanto do Afro-Samba e da Bossa-nova como do Blues e do Rock, João Suplicy promove uma fusão de gêneros de forma instigante. Assim é Samblues, projeto lançado com a cantora Bruna Black no Teatro Flávio Império. Samblues tem três EPs e terminará em um disco inteiro. Embora ambos tenham sua origem como consequência da diáspora africana, o samba e o blues são estilos bem distintos musicalmente, além de servirem de matrizes pra grande parte da música popular. O álbum completo SAMBLUES, formado pelos três EPs e mais uma faixa inédita, será lançado no segundo semestre de 2022..


ZECA VELOSO CANTA O INTERIOR EM “O SOPRO DO FOLE”

POLAROIDS

Criada numa tarde de jam, a letra de “Polaroids” é mais uma composição que nasce da parceria Betina e Dinho (Boogarins) e traz o feat do Boogarins. Primeira produção do músico, feita em parceria com Diogo Valentino e co-produção da própria, a faixa, que já está nas plataformas digitais, narra a dinâmica desta troca assumindo o mergulho no outro e a vontade de conhecê-lo, de apreciar e se comover com o outro a ponto de até exagerar como cantado em “eu quero ir fundo furtar com do teu sentir”. “É uma oportunidade e um privilégio poder dividir meu som com essas pessoas das quais sou fã, fazer de uma forma livre e com tanta sintonia como é compor com o Dinho é um exercício de troca para vida, poder ouvir dele o que funciona com aquela frase que escrevi e também por falar o que penso, o que sinto. Se um dia escolhi fazer música foi por conta dessa verdade nua e crua que se choca com a verdade do outro, dessa dança das subjetividades que só o fazer da arte traz”, comenta Betina. A música traz Dinho na guitarra, Ynaiã no beat e Fefel no synth, além das participações especiais de Bonifrate no baixo e Jojo Augusto da Silva (Tagua Tagua/Filipe Catto) na guitarra.

Fotos Divulgação

Assim como o fole, que, em um instrumento musical, mantém o fluxo constante de ar, permitindo a emissão dos sons, Zeca Veloso refresca as nuances do interior e circula entre diferentes perspectivas a partir da música que vem de lá em “O Sopro do Fole”, canção que já está disponível em todas as plataformas digitais. Homenageando a arte e os costumes, ele narra uma conversa do campo para a cidade, do interior para o litoral. A faixa é a primeira de seu álbum de estreia. Escrita por Zeca Veloso com inspiração na guarânia sertaneja e nas músicas caipiras que sua tia Maria Bethânia canta, a canção tem dois momentos: Bethânia emprestou sua indiscutível interpretação à composição e gravou a primeira versão da música para o álbum “Noturno”, de 2021. A inspiração transbordou e Zeca completou “O Sopro do Fole” com uma segunda parte, que traz mais do interior, além de celebrar a música de nomes como a saudosa Marília Mendonça e João Gomes.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

RETRATO DA VIOLÊNCIA O

retrato duro da violência urbana leva o cantor e compositor carioca Marvin Maciel a lançar o single inédito “Não tem celular no céu”, nas principais plataformas digitais. O artista busca nessa faixa alertar toda a população de uma situação alarmante que envolve morte por bala perdida, cujos alvos são pretos e pardos. As dores dessa violência cruel e realista trazem elementos ideais do pop rock, hip hop, soul music e MPB, que trarão um ritmo dançante e intenso do começo ao fim, de modo a trazer uma sonoridade de altíssima qualidade, descrevendo qualquer indivíduo que sai de sua casa para trabalhar ou para se divertir, sem saber se volta bem. “É uma música que faz você pensar sobre a importância da vida já tão banalizada por tantos, te chama para refletir e lutar por um bem maior, a própria vida”, conta.

Cada momento tem a sua preciosidade. E isso fica ainda mais evidente quando estamos ao lado das pessoas mais próximas, como os amigos, os amores e os familiares. É com essa perspectiva que Duzi divulga o single Um Tanto Surreal. A faixa conta com duas participações especiais: Isa Salles (Scatolove e ex-The Voice Brasil) e Daniel Moreira (Chico e o Mar). Um Tanto Surreal combina o dream pop com a brasilidade à medida que referencia Julio Secchin e mistura a jovialidade nostálgica dos sintetizadores com o violão de nylon. Para chegar nessa sonoridade, Duzi contou com o suporte de dois membros da banda Amen Jr. Gabriel Eubank, gravou a bateria e programou os beats. Enquanto isso, Bezebra, gravou as linhas de guitarra e co-produziu a faixa. “Sempre fui viciado em vivenciar tudo dessa forma ao lado dos meus amigos. Isso me trouxe momentos tão bons e singulares, que parece que foram mentira. A ideia dessa música é fazer com que as pessoas percebam que a felicidade e os momentos mais incríveis podem estar no dia a dia ao lado das pessoas que nós amamos”, comenta.

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Fotos: Divulgação

DUZI REÚNE ISA SALLES (SCATOLOVE) E DANIEL MOREIRA (CHICO E O MAR) EM NOVO SINGLE


MARISA MONTE: FELIZ ALEGRE E FORTE Na noite de estreia do show no Rio de Janeiro, no dia 19 de maio, Marisa Monte lançou “Feliz, Alegre e Forte”, a última canção do álbum “Portas”. “Quando saiu o álbum ´Portas´, guardei essa música para lançar no palco, cantando ao vivo, na estreia da turnê, no Rio de Janeiro. A estreia no Rio foi adiada e a música ficou guardada. Finalmente cheguei feliz, alegre e forte na minha cidade para cantar a música pela primeira vez do jeito que imaginei”, diz Marisa.

FORÇA DA FLORESTHÁ

RICARDO KALILI LANÇA OBRA O LIVRO DO CANTOR Por que um show nos emociona tanto e outro não? O que um cantor deve fazer para impressionar e prender a atenção da plateia? O que é um bom cantor? Como lidar com a inibição? Cantar é arte ou entretenimento? Como dar os primeiros passos no mercado? Essas são algumas das questões abordadas em O Livro do Cantor – De amadores a profissionais, publicação que acaba de ser lançada por Ricardo Kalili, em formato físico e digital. Aprender na prática pode levar muito tempo, e assim, muitos cantores desistem da carreira ou se desestimulam nesse caminho. Pensando nisso, o autor trata de assuntos que são fundamentais para quem ainda é iniciante ou mesmo para quem já está nos palcos mas ainda enfrenta medos, inseguranças ou tem dúvidas em algumas fases de seu trabalho. Também reforça que não se pode focar os estudos apenas em técnica vocal, mas também é necessário estudar performance e interpretação.

Fotos: Patrícia Soransso Divulgação

O duo capixaba de indie-pop e música brasileira contemporânea A Transe completa o ciclo de seu EP visual, “Chorey”. Tendo já apresentado ao público a hipnótica faixa-título, com participação da dupla Borabaez, e o single Taróloga Pessimista com Sintomas de Ansiedade, a dupla estreia “Pela Cidade”, terceiro single-clipe que fecha a trilogia. Diante de todo o caos político, social, sanitário e mental vivido mundialmente e, sobretudo nos últimos anos, nacionalmente, “Pela Cidade” foi composta buscando uma esperança na coletividade. De forma poética, a música nos convida a sonhar com um amanhã mais terno. A faixa é uma parceria de Francesca Pera, Fernando Zorzal e Flora Miguel. A composição conjunta aconteceu a partir de uma corrente de e-mails que Gabriela Terra (My Magical Glowing Lens) enviou para Francesca. A premissa era de que cada pessoa que recebesse o recado enviasse um poema ou uma música para outra pessoa, de modo a amortizar, com arte, o duro momento de isolamento físico que atravessou o ano de 2020. “A partir dessa provocação, fomos trocando música e poema com a Flora, que já acompanha a jornada da Transe faz anos, e a composição surgiu”.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

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celebrado quarteto de LA Warpaint retorna com Radiate Like This, seu primeiro álbum completo em seis anos, que já está nas plataformas digitais. “Champion”, a primeira faixa a ser lançada do disco. “Ser um campeão para si mesmo e para os outros”, diz a banda sobre a nova faixa. “Estamos todos juntos nisso, a vida é muito curta para não buscar a excelência em tudo o que fazemos”. Nos seis anos desde o muito elogiado Heads Upde 2016, as quatro membras do Warpaints foram viver a vida. A banda fará seu retorno ao vivo com uma série de shows no Reino Unido e na Europa nesta primavera, com datas globais a seguir.

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THE KOOKS ECOANDO NO ESCURO

Os pioneiros do indie-pop britânico The Kooks anunciam seu sexto álbum de estúdio, ‘10 TRACKS TO ECHO IN THE DARK’, que será lançado em 22 de julho pela Lonely Cat / AWAL Recordings e é uma evolução de som novo e com toque eletrônico de seu som icônico. Há também uma nova abordagem para lançar o álbum; o disco será lançado em três partes, as duas primeiras consistindo em lançamentos de EP de 3 faixas e a parte final adicionando mais quatro faixas ao lançamento do álbum completo. O primeiro EP, ‘CONNECTION - ECHO IN THE DARK PART 1’ já está em todas as plataformas digitais. “Na pandemia, tive um bom tempo para examinar nossos álbuns e me sentir orgulhoso e sortudo. Este álbum é um verdadeiro obrigado aos nossos fãs por nos acompanharem por tanto tempo, esperamos que gostem.”

Foto: Divulgação

WARPAINT RADIANTE


JOHNNY MONSTER LANÇA FUTURO PERPLEXO

O cantor e compositor paulista Johnny Monster traz ao mundo o seu novo álbum, Futuro Perplexo. O projeto é o trabalho mais diverso de Johnny até agora: ao longo das 11 faixas inéditas do disco, o cantor transita por diferentes estilos do rock e aborda diversos temas atuais, sempre com uma sensibilidade pop que demonstra a experiência e maestria de Johnny como compositor. O cantor já havia compartilhado singles antecipando o trabalho, que evidenciaram a variedade sonora do projeto, com o pop rock oitentista de “Pra Lembrar de Você” o rock acústico de “Onde Deveria Estar”, e o punk de “Saída de Emergência”, que agora estão disponíveis ao lado das outras faixas do projeto. Como destaque, a faixa “Yin Yang” é uma canção pop-rock, com estética psicodélica que lembra Beatles e brit-pop

Fotos:so Caru Leão /Divulgação

CANTO DA CIDADE O primeiro livro do Matheus Krempel, vocalista e guitarrista da banda de punk pock santista, The Bombers, já está no mundo. O livro foi contemplado pela lei Aldir Blanc (Prêmio Célio Nori), junto a outras obras de diversos setores da cultura da cidade de Santos. Escrito de forma autobiográfica e inteiramente focado nos primeiros treze anos do artista e a sua banda, a história conta os primeiros passos do grupo, desde a sua improvável formação, em Santos no ano de 1995, suas primeiras conquistas, o deslumbre e os erros cometidos ao longo do processo. “Quando escrevi este livro busquei mostrar todas as cabeçadas que dei ao longo do caminho e compartilhar experiências de uma forma que inspire outros artistas a seguirem em frente, apesar dos perrengues” explica o autor. A boa notícia é que você pode baixar gratuitamente aqui

DEBUT DE AURORA VÊNUS Após diferentes projetos, Christian Caffi, Walisson Costa , Yohannan Thomas e Nico Di Sousa formam Aurora Vênus, nascida em Gama-DF. Inspirados nos discos ressurgidos das décadas de 60/70, transitam entre o Rock, o atual Neo-tropicalismo e o Psicodélico. Aurora Vênus traz em seu primeiro álbum as influências renascidas e até escondidas, nas décadas de 1960-70. De olho no passado, com o corpo no presente e a mente no futuro, trazem as misturas sonoras da nostalgia e do agora, a realidade. Gravado, mixado, masterizado e produzido por Gustavo Halfeld, na Casacajá em 2020.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

Fotos: Eric Mulet/ Divulgação

BOAS NOVAS DE PAULO MALHEIROS

PARIS 1993 A

Sony Music lança o álbum “Live à Paris 1993”, da eterna estrela cabo-verdiana Cesária Évora. Gravado no Olympia Theatre, em Paris, naquele ano, o material chega pela primeira vez às plataformas digitais. Cesária Évora – Cize, carinhosamente apelidada - nasceu em 27 de agosto de 1941, em Mindelo, Cabo Verde. Sua voz brilhante e charme físico logo foram notados, mas a esperança de uma carreira como cantora permaneceu não realizada. Um grupo de mulheres cabo-verdianas e a cantora Bana a levaram a Lisboa para gravar algumas faixas, mas as gravações não conseguiram chamar a atenção de um produtor. Em 1988, um jovem francês de origem cabo-verdiana a convidou a Paris para gravar um disco. Aos 47 anos, ela não tinha nada a perder. Sem nunca ter ido à Paris, ela concordou. No dia 23 de setembro de 2011, a artista anunciou sua aposentadoria e em 17 de dezembro, partiu, em sua cidade natal, Mindelo, deixando um eterno legado.

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Após uma carreira extensa acompanhando diversos artistas, o trombonista, arranjador e compositor Paulo Malheiros lança Boas Novas, seu disco de estreia como solista em seu instrumento. Ao lado de Edinho Sant’Anna (piano), Thiago Alves (baixo) e Paulinho Vicente (bateria), Paulo (trombone) apresenta nesse projeto sete faixas autorais, gravadas com todos os instrumentos na mesma sala de estúdio. O álbum está em todas as plataformas digitais. Com uma sonoridade orgânica e sem os modernos efeitos de edição, o trabalho se destaca pelo improviso do grupo. Foi gravado no Sucursal Estúdio (SP) nos dias 30 e 31 de agosto de 2021, captado por Thiago Babalu, mixado por Alexandre Mihanovich e masterizado por Janjão Vasconcelos.

TÍCIA PEDE LICENÇA CANTANDO A CAPITAL BAIANA EM “SALCITY”

“Salcity”, novo lançamento da cantora e compositora Tícia, é uma faixa produzida por Rafael Tudesco e Felipe Pomar, que ganhou cenas sob a direção de Rafael Ramos. O clipe retrata a capital baiana de forma autêntica, exatamente com o olhar da artista, cria da Cidade Baixa e um dos nomes mais promissores da cena contemporânea soteropolitana. A música chega através do selo Batekoo com distribuição da Altafonte. Em Salcity, Tícia esbanja talento e beleza, passeia com seu timbre suave pelos versos e pede licença saudando os orixás. Exú se faz presente inclusive nos degraus da Sagrada Colina do Bonfim e o som traz claves do pagodão que a gente já se mexe já nos primeiros segundos.


CARNAVAL DA VINGANÇA DE CHINAINA

MARIANNA FERRARI LANÇA VIDEOCLIPE DE “A FLOR”

Marianna Ferrari estreou em janeiro do último ano com seu EP “Oi”, trabalho que deu vida a faixa “A Flor”, que um ano depois ganha videoclipe com direção da multiartista mocoquense Anná. A valsa, que lembra música circense, conta com acordeon e detalhes da bateria e percussão, fatores que juntos ajudam na criação desse ambiente, hora lúdico, hora cômico. Dentro do clássico 4x4, em uma marcha, a música também é inspirada na música cubana, onde um refrão se repete em coro e voz solo. O conjunto de referências diversas faz jus à carreira musical inusitada de Marianna. Ela começou com uma banda de rock japonês, que serviu de pontapé para seus estudos em canto lírico aos 14 anos. “Cantei em coros, madrigais, solo e comecei a compor pouco depois, aos 19”, conta a artista. “Lancei meu primeiro EP após o processo de 10 anos compondo e amadurecendo as músicas - e a mim mesma, claro”, completa. Este EP, gravado no início da pandemia, no estúdio Pratápolis com a produção musical da própria cantora e do Jonas Tatit, manteve “A Flor” aguardando o momento certo para ganhar vídeo.

O novo EP do músico, cantor e compositor Chinaina (nome artístico do pernambucano Flávio Augusto Câmara, que até pouco tempo atrás assinava como China), já está disponível nas principais plataformas digitais através do selo Pedra Onze. O repertório mescla músicas inéditas e regravações de duas de suas composições mais conhecidas. “Carnaval da Vingança” é o sexto trabalho solo de Chinaina e combina duas de suas referências seminais: o frevo e o hardcore. O som que irrompe dos alto-falantes catapulta o ouvinte direto para o meio da folia do carnaval pernambucano. A atmosfera festiva é contagiante. Mérito da produção, conduzida com propriedade pelo próprio artista, frequentador assíduo das festas de rua de sua cidade natal, Olinda, e que sempre observou aquele peculiar conjunto de regras e atitudes carnavalescas sob uma ótica moldada desde cedo pelo punk rock. E as novidades não param por aí: está confirmada a segunda temporada de “Caça Joia”, série na qual o apresentador Chinaina promove uma busca frenética por talentos musicais da cena independente brasileira. A primeira temporada, dirigida por Pamella Gachido e produzida pela Pedra Onze, está disponível no Globoplay e no Canal Futura.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS DÓDÓIDÓI DE LABAQ

MARGARETH MENEZES

LANÇA TERRA AFÉFÉ

É

Foto /divulgação

Tempos depois de seu último lançamento, Larissa emerge com DÓIDÓIDÓI, uma canção desenhada com o seu já familiar pop-br-flertando-com-experimental. O que traz de novo após o gap de silêncio fica claro já nos primeiros segundos, os jogos com espaços e linguagens foram pensados para expor suas vivências e perspectivas de artista inquiete, com acidez e inventividade envoltas em violões sampleados e voz doce. “Falar de dor dançando um pop estranho”, era a idéia. Antagonismos e ironias em toda a extensão do projeto, Labaq acolhe sua alma DIY como forma de mergulho ainda mais profundo em si, “ao conceber, dirigir e produzir existe uma conexão diferente com a obra, é uma entrega intensa a que eu experimento hoje com o meu trabalho”, conta. “DÓIDÓIDÓI”, que tem produção musical de Labaq e visualizer em co-direção com Ana Viotti, já está no mundo e terá tour de promoção em Portugal, passando por Porto, Lisboa, Vila Real, Leiria, Braga e Mêda.

de uma manifestação da natureza, da fluidez mística do movimento dos ventos, que vem a inspiração de “Terra Aféfé”, novo single de Margareth Menezes que já está em todas as plataformas musicais, e conta com a parceria de Carlinhos Brown. A música, composta e produzida em parceria com Carlinhos Brown, é uma ode à feminilidade ancestral, uma exaltação ao lugar da mulher na formação da humanidade e um chamado a Iansã, orixá dos ventos e tempestades. “Foi incrível a maneira como essa música chegou pra nós. Ela nasceu de um movimento de vento, uma imagem que vi e mandei pra Brown. Ele se admirou com aquilo e imediatamente começamos essa troca para compor. Quando estamos juntos é muito interessante a ligação energética que temos e que não é de agora. Nos conhecemos desde o começo de nossas carreiras e somos parceiros desde então. “Terra Aféfé” vem como um grande presente que estou recebendo, mais uma vez”, conta Margareth Menezes. Entre as curiosidades que envolvem a concepção da música, Margareth destaca uma ‘mística inusitada’. Ao nomeá-la, Brown a chamou de “Terra Aféfé”, que seria uma terra cheia de ventos. Mais tarde, já com a música pronta e em pesquisas mais aprofundadas, os artistas vieram a descobrir que esse lugar, a Terra Afefé, realmente existe. “É uma comunidade localizada em Ibicoara, na Chapada Diamantina, aqui na Bahia. Um lugar que trabalha arte, ecologia, ancestralidade e conexão com o corpo. Os mistérios estão aí e a inspiração está no ar”, explica a artista.

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INA MAGDALA SE INSPIRA NO PERÍODO RENASCENTISTA

“Chiaroscuro” é o quarto single que Ina lança pelo selo Alma Music, sucedendo “Meu Lar Tupiniquim”, que saiu em todas plataformas de música em dezembro de 2021 e já conta com mais de de 500 mil plays nas plataformas digitais. O nome da faixa vem da palavra italiana que significa “luz e sombra” e é uma técnica de pintura instituída no período renascentista do século XV. A artista utiliza a expressão em sua composição para falar sobre a dualidade de sentimentos que as emoções causam no íntimo do ser. O videoclipe, que acompanha o lançamento da canção, também já está disponível.


EP DE ESTREIA DA BANDA PIAUIENSE NAVEGANTES E AS ÁGUAS DE YNAÊ

TIMBRES E TEMPEROS

Dois dos compositores mais atuantes da região norte do Brasil se uniram a mais expressiva voz amazônica atualmente para lançar um disco que apresenta ao mundo, a riqueza da cultura do Amapá. Assim é Timbres e Temperos, o primeiro álbum de canções inéditas do trio formado pelo violonista, compositor e cantor Enrico Di Miceli, pelo poeta, escritor e também cantor, Joãozinho Gomes e pela cantora Patrícia Bastos e que acaba de chegar nas plataformas. O nome do álbum é uma homenagem à dupla de compositoras, cantoras, percussionistas, violonistas e violeiras Luli & Lucina, que em 1986 lançou o vinil Timbres Temperos. “Sou parceiro de Lulhi e Lucina desde de 1982, com elas escrevi centenas de canções; as meninas me ensinaram a ser o artista que hoje sou. Termos feito com que o nosso CD fosse homônimo do vinil Timbres Temperos, delas, foi uma forma de agradecê-las”, conta Joãozinho. E Enrico completa, “quando assisti pela primeira vez o show de Luhli e Lucina, em 1982, eu senti que algo mudaria no meu modo de compor música popular. Penso que entre a nossa música, há pontos de encontros rítmicos e literários, mas também vejo algumas diferenças, já que nos tambores de Luhli e Lucina se reportam mais ao sagrado, e, os nossos tambores, mais ao festivo”.

Fotos Divulgação

Depois do lançamento do ótimo primeiro single “Mangata”, que ganhou destaque em algumas playlists bem legais de sites de cultura do Brasil, chegou a hora de conhecer o primeiro EP homônimo do grupo piauiense Navegantes e as águas de Ynaê. O grupo formado em 2018 na cidade de Teresina, mescla jovens artistas com nomes mais experientes da cena local, criando uma sonoridade rica que mistura elementos regionais, da MPB, sonoridades africanas, pop, rock e psicodelia, que podem ser conferidos nas 4 faixas deste EP. “A expressão que deu nome à nossa canção significa o reflexo da lua na água do mar, retrato esse vislumbrado pela letra da canção, que oferece ao orixá do mar, Iemanjá”, explica Dayse Bezerra, co-autora da canção e guitarrista do grupo.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

UM DEVOTO A

música “Dança das Almas” foi apresentada há 16 anos pela banda pernambucana Devotos no encerramento do álbum “Flores com Espinhos para o Rei”, lançado em 2006. Em 2022, a música ganha a voz de Chico César, acompanhado por Cannibal (baixo e voz), Neilton Carvalho (guitarra) e Celo Brown (bateria) para o primeiro álbum inédito de reggae da banda. Desde 2000, a lendária Devotos tem a atitude diferenciada de convidar músicos com propósitos e lutas igualitárias a ideologia da banda e que faz revolução com a arte. “No nosso meio não é muito comum trazer artistas de outra área. Convidamos o Chico, por toda a sua militância nas suas atitudes e letras que compõe. Prezamos muito pessoas como ele”, comenta o vocalista Cannibal.

O FIM DO CHIADO

Um dos maiores desafios do colecionador de discos é encontrar bons LPs em estado de conservação, sem arranhões e com bom áudio. Sobre os arranhões, não há muito o que ser feito. Já em relação a audibilidade, a HRL Discos tem uma solução interessante. A empresa oferece a higienização, recuperação e limpeza dos vinis, eliminando a sujeira responsável pelos chiados e estalos durante a execução das músicas. “Alguns colecionadores irão dizer que o charme de se ouvir um disco de vinil está nos estalos e chiados. Sou obrigado a discordar dessa teoria. Quem não quer escutar sua música preferida com um som limpo e cristalino, que é proporcionado pelos LPs?”, questiona Alexandre Carvalho, sócio da HRL Discos. O processo é dividido em três etapas. Na primeira delas, os discos são higienizados com água corrente e detergente neutro, que tiram a sujeira e gordura mais superficiais. Na segunda etapa, os discos passam por duas sessões com água na temperatura de 35 graus em uma máquina de ultrassom. Nesse momento são eliminadas as sujeiras mais difíceis de serem removidas, deixando o LP com aspecto brilhante, e dependendo da qualidade dele, quase sem chiados ou estalos. Um ganho de qualidade que pode variar de 50 a 100%. E finalizando o procedimento, o vinil passa por uma limpeza a vácuo na Okki Nokki (ou PHK, similar brasileira), que retira possíveis impurezas e deixa o LP com brilho de novo.

DISNEY AGORA EM LO-FI O álbum digital “Lofi Minnie: Focus” apresenta pela primeira vez as canções favoritas de Minnie Mouse em versões Lo-fi (abreviado do inglês low fidelity, baixa qualidade em português), produzidas pelos principais artistas do gênero. Com raízes no hip hop, house e jazz, Lo-fi é um estilo musical tranquilo que ajuda a gerar concentração para trabalhar, estudar, meditar e relaxar, por exemplo. “Lofi Minnie: Focus” (#LofiMinnieFocus) conta com clássicos da Disney como “Hakuna Matata” (O REI LEÃO), “Into the Unknown” (FROZEN 2), “A Whole New World” (ALADDIN), entre outros. O álbum está disponível nas principais plataformas de streaming de música e no canal oficial da Disney Music VEVO no Youtube.

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Fotos: Divulgação

CHICO CÉSAR


ELETRICIDADE

O SLEEP TALES, selo de Lo-Fi carioca criado recentemente e que já nasceu como o terceiro maior do mundo, acaba de lançar uma nova compilação de inéditas do lo-fi mundial, reunindo 20 faixas de artistas de diferentes países e de grandezas diversas. O lançamento da “Cozy Dreams” (“Sonhos Aconchegantes” em bom português), uma compilação especial com 20 inéditas de artistas de tamanhos variados do mundo inteiro, que atraem de 700 a 2 milhões de ouvintes mensais. Será o primeiro lançamento do selo carioca após firmar uma promissora parceria com a ADA, distribuidora internacional do Warner Music Group. “Escolhemos as faixas a partir das vibes. Queríamos levar o ouvinte a um estado de sono, com elementos fantasiosos, depois conduzí-lo a um sono agradável, até finalizar de forma mais feliz, para começar o dia se sentindo bem. Pensamos numa ordem musical que relaxasse e despertasse com ares de felicidade”, conta Daniel Sander, fundador do Sleep Tales e artista do Lo-Fi, conhecido pelo pseudônimo colours in the dark.

O clipe de “Do Outro Lado (Mantra Tornado Grito)”, música que tem participação do português Murais e é uma parceria de composição entre Bemti, Murais e o pernambucano Barro. A faixa faz parte do disco “Logo Ali” (Natura Musical), escolhido pela APCA como um dos melhores álbuns de 2021 e que já ultrapassou meio milhão de plays apenas no Spotify. “Logo Ali” saiu em vinil (nas cores laranja translúcido e preto) pelo selo Bolachão Discos. Parceiro do mineiro em “Do Outro Lado”, Murais (Hélio Morais) é membro da emblemática banda portuguesa Linda Martini, uma das atrações do Rock in Rio Lisboa deste ano.

Fotos: Divulgação/

PRA RELAXAR

ESTREIA NAVEGANTES E AS ÁGUAS DE YNAÊ

Depois do lançamento do ótimo primeiro single “Mangata”, que ganhou destaque em algumas playlists bem legais de sites de cultura do Brasil, chegou a hora de conhecer o primeiro EP homônimo do grupo piauiense Navegantes e as águas de Ynaê. O grupo formado em 2018 na cidade de Teresina, mescla jovens artistas com nomes mais experientes da cena local, criando uma sonoridade rica que mistura elementos regionais, da MPB, sonoridades africanas, pop, rock e psicodelia, que podem ser conferidos nas 4 faixas deste EP. “A expressão que deu nome à nossa canção significa o reflexo da lua na água do mar, retrato esse vislumbrado pela letra da canção, que oferece ao orixá do mar, Iemanjá”, explica Dayse Bezerra, co-autora da canção e guitarrista do grupo.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

elle and Sebastian lançou novo single, “Young and Stupid”, retirado de seu próximo álbum A Bit Of Previous, que será lançado pela Matador. A música, um brilhante hino à passagem do tempo, é acompanhada por um lyric video que tem acesso irrestrito aos respectivos álbuns de fotos da família dos membros da banda. O ator Jon Hamm (Mad Men, Baby Driver) disse: “Em 2015 no Bonnaroo, Belle e Sebastian convidaram Zach Galifianakis e eu para o palco durante o set para jogar gummy bears na boca um do outro. Então Stuart entrou na brincadeira e exigiu um também. Foi dramático, estúpido e feito com estilo e graça. Sei que posso falar por Zach quando digo ‘quero agradecê-los pela inclusão de nós em seu show.’ Sei que o público estava simplesmente confuso, mas estávamos absolutamente encantados. Por favor, aproveitem este novo álbum com um ursinho de goma de sua escolha e pensem com carinho em todos nós.”

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A famigerada ‘experiência musical’ de bandas e artistas, com acúmulo de anos de trabalho na música, pode e deve ir além dos palcos ou no que se escuta num CD ou vinil. Melhor ainda é quando aprendizados e atalhos são compartilhados, aliás, um dos tantos pontos de partida para três integrantes da influente CPM 22 – Badauí, Phil Fargnoli e Ali Zaher – criarem a Repetente Records, um selo discográfico inicialmente focado em rock, punk rock e street punk.A Repetente Records surge para fortalecer o rock/punk rock em parceria com uma das maiores distribuidoras de música digital do mundo, a inglesa Ditto. O selo foi oficialmente lançado no dia 20 de abril, em São Paulo capital. A gênese e a história do CPM 22 têm tudo a ver com a Repetente Records: banda e selo são formados por pessoas apaixonadas por música, sempre dispostos a experimentar e desbravar o novo.

MOTOSERRA

Motosserra é formada pela paraibana Olga Costa e a mineira Maria Caram, um duo virtual que leva muito a sério a ideia do Faça Você Mesmo e do Vai com medo mesmo. Com uma mistura de punk, riot grrrl, experimental, spoken word e muita vontade de colocar música no mundo, projeto apresenta seu primeiro clipe para canção “AmaZona”. Lançada originalmente na playlist do blog Hominis Canidae e no depois no bandcamp da dupla. Enquanto Olga transformava o desmatamento da Amazônia em poesia, Maria tentava transformar em música o sentido de farsa. Foi o encontro dessas 2 tentativas com o desejo de arriscar que deu origem a “AmaZona”, primeiro single do que se tornou o duo Motosserra, provando que tilts e glitchs podem ser mais importantes para um encontro frutífero que uma conexão de internet estável.

Fotos: Divulgação

A VOLTA DE BELLE & SEBASTIAN B

Fotos: Hollie Fernando/ Divulgação

MÚSICOS DO CPM22 LANÇAM A GRAVADORA REPETENTE RECORDS


NASI E OS SPOILER, OU COMO O WOLVERINE AINDA TEM LENHA PRA QUEIMAR

SUPERSTIÇÃO Nascida no interior do Brasil e radicada em Sheffield, Inglaterra, a cantora/ compositora/criadora visual Alissic lança seu novo single, “Superstitious”, pelo Ministry Of Sound. O novo single nos dá mais uma amostra do belo e estranho mundo que a Alissic criou em torno de si mesma, e vem com o acompanhamento visual perfeito para imaginar esse mundo. Filmado na Isle Of Dogs, região de Londres, o vídeo evoca uma atmosfera onírica e assombrada, que remete ao clássico filme de terror ‘Nosferatu’, lançado em 1922. Alissic e Oli Sykes trabalharam na direção criativa ao lado dos diretores Frank Fieber (Mimi Webb, Headie One) e Reuben Bastienne Lewis (King Krule, Joy Crookes). O vídeo já está no Youtube. “Superstitious”, é um exemplar perfeito do alt-pop e a primeira música da artista a incluir vocais em português, seu idioma nativo. A faixa foi escrita em parceria com seu marido Oli Sykes (Bring Me The Horizon) e Dan Lancaster, e é a continuação de “Piano”, single lançado no ano passado. Alissic conta: “Ela me faz sentir acolhida e em casa, com sua influência latinoamericana. A sonoridade ampla e exuberante no pré-refrão dá uma vibe muito etérea à música. Dá a sensação de estar criando um feitiço; quando se fala sobre intuição feminina significa que a pessoa está sintonizada consigo mesma e com o universo, e eu queria refletir isso no som”.

Nasi e o trio Os Spoilers disponibilizam em todas as plataformas digitais o EP de estreia do projeto. O trabalho autointitulado apresenta seis faixas – quatro inéditas e duas regravações - com influências de diferentes vertentes do rock inglês de todos os tempos, do punk rock ao britpop. As quatro canções inéditas foram compostas durante a pandemia e refletem as preocupações políticas e existenciais de nossa época. “Na América do Sul”, primeiro single lançado, aborda o conflituoso cenário político brasileiro e do continente latino-americano e conta com a participação especial de Steve White (Style Council e Paul Weller) na bateria. Com influências de bandas como Stooges, de Iggy Pop, e Sex Pistols, “Spoilers” une instrumental intenso e letra direta. É um punk rock que caiu como uma luva na voz de Nasi. “Essa música é o retrato de uma angústia e uma raiva procurando vazão pra explodir. Como fã do movimento Mod e punk, a música carrega isso: é uma bomba atômica e vai explodir no próximo suspiro, tirando tudo e todos do lugar”, conta Daniel Tessler, autor da música.

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Fotos: Caru Leão /Divulgação

NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS

PLEBE DESOLADA

O

s veteranos da Plebe Rude lançaram mais um single da série “Evolução”, um trabalho temático, divido em duas etapas, que narra o desenvolvimento do homem desde os primórdios. A faixa “A Quieta Desolação” faz parte do “Evolução, Volume 2” e conta com a participação da cantora mirim Ana Carolina Floriano, que participou recentemente do programa The Voice Kids. A artista de 13 anos já havia feito uma parceria com a Plebe Rude na canção “Nova Fronteira” do álbum “Evolução, Volume 1”, lançado em 2019. “Sentimos que a voz dela casou perfeitamente com as músicas. Foi o diretor de ‘Evolução, O Musical’, cuja produção fora interrompida pela pandemia, Jarbas Homem de Mello, que indicou vários nomes e nos encantamos com a Ana Carolina Floriano”, revela o vocalista Philippe Seabra. A Plebe Rude ainda tem alguns planos para este ano, e a volta definitiva aos palcos é um deles. “Queremos voltar a estrada depois desses dois anos de pandemia, lançar o volume 2 de Evolução e preparar um DVD ao vivo acústico”. Os fãs da banda agradecem!

UANA E O CHARME DE “SONHEI COM VOCÊ”

Começando um novo capítulo de sua carreira, a cantora pernambucana UANA trouxe ao mundo o single “Sonhei com você”, uma música que chega nas plataformas digitais prometendo embalar pistas e aquecer os ouvidos mais atentos aos estilos sonoros do momento. Flertando com o brega e bregafunk, com beats mais eletrônicos e elementos do funk carioca, “Sonhei com você” narra um sonho confuso da autora com um ex-amor enquanto acaba acordando ao lado de outro. A composição é uma parceria entre UANA e Aida Polimeni, mesma dupla que escreveu “Mapa Astral”, o primeiro single da artista em uma fase mais pop e próxima do R&B. A música faz parte do EP Vidro Fumê, com incentivo da Lei Aldir Blanc, em parceria com a Fábrica Music.

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Foto: Divulgação

O duo El Negro traz a cidade natal, Porto Alegre, como cenário do novo single ‘Não Deixe o Sol Esperar’, uma música essencialmente de riffs e uma, aliás, duas baterias que dão a cadência blues rock percussiva da canção. ‘Não Deixe o Sol Esperar’, o quinto single do próximo disco, chega às principais plataformas de streaming pelo selo Toca Discos, com distribuição da Altafonte. A música busca trazer memórias daquele cenário para ambientar uma história cotidiana. Na letra, os personagens são inclusive situados em espaços reais. É um resgate que faz todo o sentido para Leandro Schirmer (bateria) e Mumu (vocal/guitarra), que já vivenciaram muitas coisas bacanas entre aquelas ruas, sentimentos estes que carregam o single de veracidade e paixão. O diferencial de ‘Não Deixe o Sol Esperar’ em relação a todas as outras músicas já criadas pelo El Negro é o uso de duas baterias, algo inspirado na música Four Sticks, do Led Zeppelin (canção que John Bonham gravou com duas baquetas em cada mão) e na banda do lendário James Brown, que utilizava até três bateristas em suas apresentações ao vivo.

Foto: Divulgação

EL NEGRO COM MUITO BATERIA

CAOS POLITICO PELO OLHAR D’OS ROUCOS JFormado em 2020 por Noel Rouco (guitarra e voz), Rodrigo Luminatti (baixo e voz) e Guto Gonzalez (bateria), Os Roucos lançaram o quarto single, intitulado “Brasil 2000”. “A música foi composta e gravada logo após as manifestações de caráter golpista, promovidas pelo presidente da república no dia 7 de setembro de 2021”, revela o guitarrista Noel. De acordo com o músico, a faixa aborda o sentimento de angústia e impotência frente à destruição ambiental, social, econômica, sanitária, educacional e cultural, sem precedentes na história recente do Brasil. Por outro lado, Noel conta que “Brasil 2000” também aborda a importância da resiliência. “É necessário nos mantermos unidos nesse momento caótico que estamos vivendo. A música sublinha o contraste da perspectiva para o futuro nos dias de hoje, em relação a um passado recente: a sensação que temos é que nos foi tirado até a possibilidade de sonhar com dias melhores”, completa.

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NOTÍCIAS E LANÇAMENTOS THAMI LANÇA PRIMEIRO EP AUTORAL E FEAT COM TASSIA REIS

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Foto /divulgação

MAÍRA GARRIDO CONTRA O ÓDIO

Embora inicialmente tenha começado na dança, profissão pela qual se dedicou durante 20 anos, Thami depois mudou. Em 2018 veio o ‘clique’ e a artista voltou suas atenções para o canto. No último ano lançou cinco singles, sendo o último “Chega de esperar”, parceria com a cantora paulistana Tassia Reis. A música abre o EP “Nua”, que traz mais três canções inéditas, todas de autoria de Thami, e já está nas plataformas digitais. “Acho que no processo de construção da obra eu evoluí como pessoa, como compositora e artista. De certa forma, transformei o meu redor também. Meu EP fala de amor, fala de dor, fala de silêncio e fala de atitude. Mostra quem eu fui e quem não mais quero ser. Mostra quem me tornei e quem almejo alcançar. NUA fala através da música de uma mulher potente e decidida”, comenta a artista.

aíra Garrido trouxe ao mundo a faixa “Pode Amar” ao lado de Juliana Linhares, acompanhada de um visualizer disponível no canal do YouTube da cantora. Em meio a discursos de ódio, o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, essa nova música vem como forma de clamor contra esses ataques, mostrando a importância de cada vez mais minorias ocuparem espaços e se fazerem visíveis. “Essa música é sobre variedade de afetos, é sobre se permitir sentir num mundo onde ser sentimental tem muitas vezes uma conotação negativa, é sobre estar alinhado de corpo, alma e mente com a nossa essência original pulsante do universo, que é o amor. Acredito piamente que o melhor caminho para que estejamos cada vez mais fortalecidos é o diálogo, a empatia e a nossa união como um povo que luta pelos mesmos direitos e ideais. Também sei que ainda vamos enfrentar muitas turbulências até que nossos direitos, enquanto pessoas LGBTs, sejam realmente estabelecidos e naturalizados, é por isso que representatividade é muito importante. Precisamos ver pessoas LGBTs, pretas, gordas, mulheres no topo! E, acho que o mais importante disso, o amor é a força motriz no mundo”, conta Maíra.As cantoras se conheceram na faculdade onde nutrem desde então uma admiração mútua. “Maíra tem uma voz poderosa, é potente, criativa, fico feliz demais em somar com ela numa canção que fala de algo que eu também acredito. Como sapatão, é sempre importante pra mim fortalecer o coro da liberdade e do amor. Viva Maíra!”, afirma Juliana. A canção “Pode Amar” foi composta por Maíra em 2017 e não só fará parte do próximo EP da artista que está previsto para ser lançado ainda esse ano, como também dá nome ao projeto.

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TIMTIM POR TIMTIM

Depois de lançar três singles e um videoclipe em 2021, a cantora e compositora Marcela Brandão chega às plataformas com música nova. Trata-se da canção autoral Tim Tim, que tem produção musical e arranjo assinados pelo pianista Bruno Piazza, e sai pelo Selim de Música. A letra fala de decepção, de rompimento, de coração partido, de quebra de sentimentos. Fala de alguém que coloca maquiagem, olha para frente para se reestruturar nas emoções. Marcela usa a metáfora do palhaço na composição, que tem o sorriso pintado no rosto, muitas vezes camuflando o que realmente sente. A compositora revela que Tim Tim foi inspirada em Valsa dos Clowns (de Chico Buarque e Edu Lobo), interpretada por Jane Duboc em O Grande Circo Místico, cuja letra diz que “o palhaço é um charlatão (...) que comove toda arquibancada com tanta agonia”. E ela afirma: “a canção nasceu em um contexto de tristeza, quando rimos para o mundo com o coração quebrado, como o palhaço da canção de Edu e Chico”.


Michael Pipoquinha lançou, no Bandcamp, Um Novo Tom, seu quarto disco. Nas plataformas digitais, o artista lançou o single Momento Sagrado. Em homenagem ao seu filho, Tom, o álbum do selo Umbilical tem a direção artística de Thiago Almeida, captação de áudio, mixagem e masterização de Magí Batalla, produção musical do próprio Pipoquinha e a produção executiva de Cleanto Neto. Um Novo Tom é o projeto mais pessoal do contrabaixista, com uma estética mais moderna, construída junto com Thiago Almeida, um músico que se identifica bastante com o som de grandes jazzistas contemporâneos. Apesar de ser um disco de ousadia harmônica e transgressão rítmica, Michael traz um lirismo muito forte. “Esse disco é o resultado de muita informação, da mistura das minhas referências, e da liberdade. Cada um tem uma cor, um cheiro. É assim com a música”, define Pipoquinha. E completa, “O nascimento de meu filho, Tom, é também uma inspiração pra mim, eu tinha que fazer o melhor pra isso dar certo. E também fazer o meu melhor como ser humano”.

SPOTIFY EXPANDE A FERRAMENTA MATCH O Spotify anunciou a expansão da ferramenta Match (Blend), que combina o melhor dos recursos de personalização do Spotify e a funcionalidade de playlist colaborativa em uma playlist compartilhada. São dois novos recursos que oferecem aos usuários ainda mais formas de se conectarem por meio da música com seus amigos, familiares e até mesmo os seus artistas favoritos. Atualizado diariamente, Match é uma maneira fácil e instantânea de se conectar - tornando as experiências de áudio compartilhadas quase tão simples como apertar o play. Anteriormente, com a ferramenta, os usuários podiam criar uma playlist com um amigo ou membro da família por vez mas, agora podem: - Criar uma playlist Match com até 10 pessoas, tendo uma playlist personalizada ao seu estilo musical. - Mesclar uma playlist com alguns de seus artistas favoritos, como Xamã, BTS, Charli XCX, Kacey Musgraves, Lauv, Megan Thee Stallion, Mimi Webb, Tai Verdes e mais.

Fotos Divulgação

MICHAEL PIPOQUINHA EM UM NOVO TOM

Agora, você e alguns de seus artistas favoritos podem mesclar seus gostos musicais em uma playlist compartilhada feita só para você. Os usuários receberão um card de compartilhamento gerado automaticamente pela plataforma, mostrando suas pontuações de correspondência de gosto. Os cards permitirão que você veja o seu Match suas preferências em comparação - com o artista, criados para serem compartilhados diretamente no Instagram, Facebook, Snapchat ou Twitter.

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ÁLBUM

E S P I L A C O P A E C O DO

Por Fernando de Freitas

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Foto Vanessa Curci /divulgação

N

a primeira metade dos anos 90, a cena musical paulistana era mais uma vez efervescente. Em um apartamento na Heitor Penteado, viviam Chico Cesar e Zeca Baleiro, que, entre trabalhos aqui e ali, tocavam na noite da zona oeste paulistana. Ainda, naquele tempo, a Vila Madalena guardava o romantismo boêmio e não era difícil encontrá-los por lá, tocando ou confraternizando, na companhia de Vanessa Bumagny. O Brasil vivia um rescaldo da eleição (e impeachment) de Fernando Collor e uma certa esperança de estabilidade monetária e política. Era um momento em que parecíamos viver um país agridoce. Essa sensação marcou a geração e permeou os melhores trabalhos do trio, que seguiu carreiras entremeadas e independentes. Entre as desilusões e esperanças, Vanessa lança o álbum “Cinema Apocalipse”, que traduz um novo momento de sentimento agridoce ao que vivemos e a faixa que quase dá título ao álbum, “Cinema Ilusão”, tem a participação dos amigos.

OS PLANOS ATRAVESSADOS

Com a intenção de manter certa perio-

dicidade de 5 ou 6 anos entre cada álbum, Vanessa estreou “De Papel” (2003); na sequência lançou “Pétala por Pétala” (2009), com produção assinada por Zeca Baleiro, e “O Segundo Sexo” (2014); então, entre 2019 e 2020, era o momento de lançar mais um álbum. Compositora contumaz, Vanessa conta ter mais de 300 canções e a escolha de um repertório começa pelo resgate destas músicas e o encontro com um tema. Porém, nem sempre foi assim, ela conta que demorou muito para se legitimar como compositora, o que aconteceu no período

que viveu em Barcelona. “Cinema Ilusão” daria nome ao projeto, uma canção de desamor com tons de otimismo. Porém, durante o processo do álbum sobreveio a pandemia de Covid-19 que passou a marcar o trabalho. Tendo planejado o lançamento de um álbum para 2020, com a pandemia veio a mudança de planos. “Eu pensei: não vou lançar um álbum na pandemia, vou lançar, no máximo, um single, um disco, um álbum, não tenho coragem”. O trabalho passou a ter novo cronograma e passou a chamar “Cinema Apocalipse”, com uma referência à “Canção para Ninar o Apocalipse”. Essa tensão entre a ilusão e o apocalipse se torna, no trabalho de Vanessa, o distanciamento em relação à câmera de cinema, e ela, a diretora que escolhe cada enquadramento destas crônicas do absurdo que invadem o retrato cotidiano. Conta Vanessa que confiou em suas sensações. “Pode ser uma teoria sem embasamento nenhum, mas acho que as pessoas estavam ouvindo muita música, mas ouvindo com uma certa cautela”.

SEM AMARRAS OU COMPROMISSOS

“Cinema Apocalipse” é álbum que transparece liberdade. Ainda que seus laços com Chico César e Zeca Baleiro estejam presentes, as parcerias de Vanessa vão mais longe e incluem canções com Luiz Tatit e Fernanda Takai, por quem ela não esconde sua admiração. O beat eletrônico tem um lugar especial na obra, tanto que ele abre o álbum com “Tudo Está Bem” e “Ousadia”, mas os instrumentos orgânicos reaparecem em seguida, nas faixas seguintes até o retorno do beat. Esse jogo dá ao conjunto uma certa contradição sonora, que é complementar. É em aparentes paradoxos que forma o sabor agridoce delicado de Vanessa, entre o prazer e a estupefação. Se com os amigos de longa data, a sonoridade remonta ao trabalho em conjunto, em que a oposição das vozes se faz presente, há também uma sensação de complementaridade. Com Fernanda Takai, o flerte é completamente diferente, os timbres são nuances, embora a maciez de Takai

seja inconfundível. Na realidade, a melodia de voz faz contraste com a sonoridade eletrônica. Esses elementos traziam ao álbum um caráter que apresentava novidades e, para isso, Vanessa queria um momento em que as pessoas estivessem mais abertas para o mundo. Mas essas possibilidades sempre parecem estar mitigadas, com a chance de não acontecer, diante das necessidades de testagem de equipe e o fantasma de novas ondas. Porém, mesmo assim Vanessa conseguiu lançar o trabalho em uma noite no SESC.

O QUE OUÇO É MINHA VIDA

Em uma noite típica do outono paulistano, Vanessa se apresentou no lançamento do livro da jornalista Flora Miguel. Uma apresentação intimista de voz e violão em uma pequena livraria e café na entrada da Vila Madalena para um público selecionado. Ao terminar a primeira canção, um homem exclamou: “que voz linda! Eu sou cego, o que eu ouço é a minha vida!”, o que pode ser uma excelente metáfora acidental para o próprio trabalho da cantora e compositora. A vida, ou melhor, a potencialidade do viver é a marca mais característica deste álbum, como se a paralização das atividades fizesse Vanessa cantar sua ânsia de viver. A faixa “Fome de Tudo” talvez seja o exemplo mais pungente desta escolha, o amor que ela buscava ao conceber a obra se materializa em sua voz neste chamado à vida. Nesta simbiose entre público e artista, esta faz do cantar a sua vida e isso reflete no público que, ao ouvi-la, encontra a plenitude da relação. Sobrevém a potência das canções. Esta potência se marca na dicotomia aparente entre as faixas “Cinema Ilusão” e “Canção de Ninar o Apocalipse”, mas não se encerra apenas nestas faixas. Em um momento em que o obscurantismo está tão forte, o trabalho de Vanessa Bumagny representa um posicionamento não panfletário, mas absolutamente político, sobre a necessidade da arte em nossas vidas.

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ATENÇÃO!

L A C I S U M A R O AUR

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Por Fernando de Freitas

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Foto Adila Regattieri/divulgação

a canção se faz o poema e do poema, a canção. Para ser mais abrangente, da poesia se faz a música e da música, a poesia. Existe um elemento metalinguístico inexplicável capaz de fazer com que a sucessão de sons (tons ou semitons) nos remeta a sensações, memórias e afetividades que estão no campo do sentimento, do subjetivo. É na plena consciência deste processo que Bel Aurora apresenta seu EP Mulher ao Mar.

As fronteiras entre a obra poética, sua apresentação sonora e a composição musical são permeáveis em experimentalismo contido. O cantar e o declamar são separados pelo fundo instrumental. A palavra é apresentada quase crua sobre melodias diretas, porém de riqueza imagética. “Sempre enxerguei as letras de músicas mais como poemas, e me esforço um tanto para as minhas composições poderem se sustentar como poemas, mesmo quando se tira a música delas. Acho que a poesia é uma espinha dorsal das artes, ela é perpétua. Me fascina muito. Então eu comecei a testar essas inserções poéticas entre faixas, ou os poemas como movimentos dentro das músicas”, diz a compositora. São, formalmente, 4 canções e 3 poemas, que, em 15 minutos e 34 segun-

dos, Bel Aurora apresenta em sua estreia e que nos fazem esperar pelo primeiro álbum, Metanoia, previsto para o primeiro semestre de 2022, com produção de Guilherme Kastrup. “Esse EP é uma viagem curta. Ele me apresenta como artista, tem uma sonoridade mais seca, mais limpa. Mas ele é genuíno e acho que, com ele, quero alcançar os corações de pessoas que se sentiram perdidas como eu, que elas se sintam menos sozinhas”. Bel Aurora é a alcunha encontrada por Isabel Chaib Moreau, de apenas 24 anos, para este novo velejar na carreira, que passa por um processo de mergulho em si mesma e de autocura, após a tormenta que foram os anos de 2016 e 2017. “Eu estava indo morar sozinha e tinha rompido com meu primeiro grande amor. Nessa época, estava refletindo muito sobre o meu processo de autonomia e sobre como eu ia elaborar as violências que tinham me atravessado até aquele ponto. Fui estudar justiça restaurativa, passei por momentos fortes nos coletivos em que eu militava, passei por essa quebra de confiança com o espaço da minha faculdade, estava tentando me virar com a música e gerir o espaço em que eu morava”, relata Bel. A artista cursava Letras na USP e deu uma pausa nos estudos para se dedicar ao trabalho musical. A insegurança que sentia ao transitar pelo

campus veio após uma agressão sexual que sofreu em 2017 de um homem que também a ameaçou. Bel trata do assunto no poema que aparece na faixa que fecha o disco, “Sabor seu/Onde não quero estar”. “O poema ‘Sabor Seu’ foi um poema que surgiu de um processo de entender que eu tinha sofrido uma agressão sexual e a música ‘Onde não Quero Estar’ surgiu de um processo de entender que eu tinha sofrido uma agressão mental. Foram compostos em momentos diferentes. “Onde não Quero Estar” é a música mais antiga desse repertório, eu compus quando tinha 16 anos. Era uma música que eu tinha um pouco de vergonha de mostrar no começo, porque achava ela muito “juvenil”, mas, aos poucos, fui conseguindo mostrar para as pessoas. Aí, nessas situações de mostrar as pessoas, fui testando misturar esse poema com essa música e surgiu esse medley possível que figura no EP. Eu acho que é uma das faixas que as pessoas mais tendem a gostar” acredita Bel. Bel transparece sua afinidade com a arte enquanto linguagem e não o inverso. A obra transcende a forma e conversa desde um detalhe, como os brincos de origami, às fotografias, trabalhando os elementos imagéticos desconstruídos de sua música ao cerne de sua apresentação em forma sonora. O importante é que Bel tem algo a dizer e sabe como fazer isso.

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” ! O H L A R A C O É O Ã “PADR Fotos: Ariela Bueno /Divulgação

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Por Lucas Vieira

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Fotos Sete77sete / Divulgação

urante uma festa, o baixista mineiro Chaene Gama ouviu uma canção sertaneja que trazia uma ideia preconceituosa em sua letra: “A coisa tá feia, a coisa tá preta”. Na cabeça do músico, a frase racista se transformou. “Eu pensei: ‘Porra, não! A coisa tá linda, a coisa tá preta! A gente é preto e é lindo pra caralho, não tem essa que só existe um padrão de beleza’”.

Da militância contra todos os preconceitos e da quebra de padrões nasceram os principais temas das músicas de Ascensão, terceiro disco da banda mineira Black Pantera, que conta também com os músicos Charles Gama (guitarra e voz) e Rodrigo “Pancho” (bateria) em sua formação. Obra que se destaca justamente por ser preta, linda e fora dos padrões, Ascensão teve seu primeiro single disponibilizado em janeiro. “Padrão É o Caralho” tem discurso direto e a sonoridade mistura o punk com diferentes vertentes do heavy metal, fazendo com que o Black Pantera não se enquadre em nenhum rótulo. É uma proposta musical de esquerda, a favor das minorias, defendida por um power trio em que todos os músicos são negros, algo muito incomum no universo do metal no Brasil. A partir dessas ideias, o trio criou uma letra em que incentiva seu público à aceitação - “Sinta-se bem, não seja escravo de um espelho” - e questiona os padrões eurocêntricos da sociedade: “Em um mundo de vaidades, quem decide o que é feio?”. Ainda confrontando tradições e o embranquecimento da história, protesta na última estrofe: “Jesus não era branco, não era ariano! A vida começou no continente africano!”.

AO R T S O M A R E T N A P BLACK DE ROCK A D N A B A M U E D PODER NOVO O N S E Õ R D A P S O FORA D DISCO ASCENSÃO

Já em “Estandarte”, gravada com a banda Tuyo, falam abertamente sobre todas as formas de amor - “O amor é aquilo que faz, ele não diferencia os iguais. Quais são as cores da bandeira, quais são as cores do amor? - e contra a hipocrisia: “Saíram do armário, assumiram o preconceito, em nome da família, em nome do respeito”. O grupo comenta sobre a música: “Não é nosso lugar de fala, mas a gente vê que essas pessoas também sofrem apenas por existir e querem ser livres. Lembro que um fã mandou uma mensagem dizendo que a gente deveria ter uma música LGBTQIA+ e dissemos para ele aguardar que ela já estava gravada”. Da mesma forma, o fato de morarem em Uberaba soma-se aos pontos fora da curva. Segundo os músicos, não há vontade de sair do interior de Minas Gerais para morar no eixo Rio - São Paulo. Inclusive na faixa “Não Fode o meu Rolê”, em que voltam ao tema da igualdade (“Não vem nos rotular, não vem nos enquadrar, são todos iguais sim”), celebram Parque São Geraldo, Conexão Leblon e Coreinha, localidades da cidade em que se criaram.

FOGO NOS RACISTAS

O racismo vivenciado pelos negros desde o começo da vida, apareceu logo em um dos primeiros shows do Black Pantera. “Eu lembro que a gente foi tocar em um festival aqui na região e, quando estávamos pegando nosso equipamento, um metaleiro nos viu e falou: ‘Vish, vai virar pagode agora?’. Nós fizemos o melhor show da noite e o cara depois apareceu pedindo desculpas, porque sabia que a gente tinha ouvido o comentário. A nossa resposta foi que a gente não esperava menos desse tipo de pessoa preconceituosa”, relembra Chaene. Outro momento em que o racismo foi muito agressivo para a banda aconteceu na Itália, na mesma viagem em que a banda se apresentou

no festival Download 2017, em Paris. “Fomos os únicos parados em um posto de gasolina. Os policiais começaram a perguntar o que a gente estava fazendo, pediram passaporte, procuraram drogas. Quando falamos que éramos músicos brasileiros, revistaram a van inteira e, como não acharam nada, disseram que os pneus não estavam em condições para que seguíssemos viagem. Fomos obrigados a pagar um guincho de 500 euros e eles ficaram lá rindo e tirando onda, o racismo foi visível”, relembram os membros em entrevista ao canal WikiMetal, no YouTube. As situações de preconceito vividas diariamente serviram de inspiração para o trio compor “Fogo nos Racistas”, canção lançada como segundo single de Ascensão. A banda chama atenção para o combate aos intolerantes, que não aceitam os negros em lugar de destaque na sociedade - “Eu sei, nossa simples existência já é uma afronta, os demônios em você não aguentam ver outro preto que desponta”. Sucesso no YouTube, o clipe da canção é carregado de simbologias e já nos primeiros segundos, a frase de Malcolm X - uma das maiores influências do movimento pelos direitos dos negros em todo o mundo - dá clareza ao discurso da música em poucas palavras: “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”. Ogum, orixá do fogo, do metal e da guerra também aparece no clipe, representado após os membros do Black Pantera realizarem uma consultoria sobre como incluí-lo no clipe de forma respeitosa com as religiões de matriz africana. Outra personagem importante do clipe é Madalena Giordano, mulher negra que foi submetida ao trabalho escravo desde a infância e, em 2020, foi resgatada aos 46 anos. Madá, como é chamada pelos amigos, também vive em Uberaba e foi apresentada a Chaene em um show que o baixista realizava na cidade: “Eu estava tocando e me perguntaram

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CAPA

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todos os dias. O lance que eu vejo é que, por enquanto, a gente tá lutando só por igualdade, equidade. Se fosse por vingança o bicho pegava, porque os declarados negros e pardos no país são maioria. Mas aqui no Brasil não é como os EUA, onde a galera quebra delegacia e vai pra cima. Por enquanto a história é literal: denuncia os caras, faz eles serem presos e faz essas pessoas terem medo. Tão matando os irmãos, tão matando as irmãs e isso é sério. Quem ouve e critica a ideia dessa música é porque tem medo mesmo”. É exatamente olhando para o racismo dentro do universo do heavy metal que o Black Pantera se posiciona como resistência, para mostrar que o lugar do preconceito é no lixo. “Existem muitos reacionários, mas nosso público só cresce, então o som chega a mais pessoas e é isso que a gente quer: ocupar todos os espaços e quebrar barreiras, para que aqueles que lutam contra o preconceito cheguem junto. A gente quer ver mais bandas pretas, bandas de mulheres, bandas LGBTQIA+”, afirmam. E não é só pelo universo do rock e do metal que o Black Pantera gosta de transitar. Para os músicos, estar em festivais com artistas de gêneros musicais completamente diferentes também é importante, conforme revelam: “É incrível tocar em Belém tendo a Pabllo Vittar, o Baco Exu do Blues e um artista regional no mesmo dia. A gente ouve as pessoas dizerem que nunca se sentiram representadas em um show de rock e se sentem assim no nosso. Ouvir que somos necessários transformou a gente. A banda hoje é maior que nós, passamos a estudar e ler mais por conta disso”, conta Chaene, que revela estar lendo o livro “O Quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista”, do autor negro Abdias do Nascimento. Com essa postura, a banda também conquistou fãs que desempenham papéis de destaque na luta pelos di-

reitos dos negros no Brasil. Um deles é Silvio de Almeida, advogado, filósofo e professor universitário que também atua como presidente do Instituto Luiz Gama. “A gente conversa muito pelo WhatsApp, ele separa coisas para a gente ler”, revelam os músicos. Outra fã assumida é Luana Genót, fundadora e diretora executiva do Instituto Identidades do Brasil: “Ela fala que escuta nosso som quase todo dia, gosta muito de ‘Padrão é o Caralho’. É uma pessoa incrível, nossa madrinha. Graças a ela que vamos para o Rock in Rio, ela promoveu o encontro que gerou nosso convite para o Palco Sunset”. Assim, sabendo que o racismo está diariamente na jornada do Black Pantera, os integrantes fazem questão de ressaltar que a origem do rock é negra e que é preciso lembrar dessa história: “Tem gente que replica racismo e isso precisa mudar. Se as pessoas soubessem a história do rock’n’roll, seria diferente. Não adianta só falar de Beatles e Elvis, tem a Sister Rosetta Tharpe, por exemplo, e o Death, que surgiu antes do Ramones na história do punk. Existiu gente preta na criação, no cerne de todo o rolê. Uma banda de pretos incomoda”.

UMA BANDA EM ASCENSÃO

Ascensão é o terceiro disco do Black Pantera, antecedido por Black Pantera Project (2015) e Agressão (2018). A história da banda começa com o guitarrista e vocalista Charles Gama que, cansado de tocar versões de músicas famosas na noite (fazendo até um cover de Michael Jackson), resolveu montar um projeto autoral. O músico foi desacreditado pelos amigos, que não achavam ser possível um trabalho de composições próprias fazer sucesso em uma cena marcada pelo pop-rock e pelo sertanejo. Convicto, começou a fazer as músicas que integrariam o repertório inicial do seu projeto.

Fotos Sete77sete / Divulgação

se eu a conhecia. Chamei a Madá até o palco e a apresentei ao público. Quando ela fez sua festa de um ano de liberdade eu fui convidado. Foi nesse evento que a convidei para participar do nosso clipe e ela aceitou na hora”. O baixista acrescenta: “a maior forma de resistência é uma mulher preta. Aquela mulher é a personificação do que é resistir. Hoje ela tenta aproveitar a vida, sorri, faz natação, bebe, dança, gosta de música, de ver as bandas. Ela merecia tudo de bom, viver 150 anos para compensar tudo que ela passou. Viva a Madá”. Assim como a presença de Madalena Giordano, a força da mulher negra está estampada na capa de Ascensão. A imagem foi captada pelo fotógrafo Victor Balde em Moçambique e apresenta as modelos Ana Francisco e Carolina Antônio em releitura de fotografia de Giovanni Marrozzini para a série “Nouvelle semence” (2010). A arte em breve estará disponível nas versões físicas do álbum, que foram lançado em CD e LP. Ainda que seja uma obra para provocar reflexão, sua agressividade gera também estranhamentos e preocupações. “Eu estava na casa da minha mãe um dia e um brother passou, disse que adorou o som, mas que seria bom a gente fazer uma nota dizendo para não botar fogo em ninguém. Tive que explicar que o fogo é exclusão dos racistas da sociedade, é colocá-los em seu lugar. Nós pretos já estamos cansados de ter que explicar tudo com o racismo tão estruturado na sociedade. Se você assiste a um noticiário, lê um jornal, vê a quantidade de notícias sobre negros e casais gays que sofrem violência todos os dias. Então, a violência do título da nossa música não é nada perto do que a gente sofre todos os dias”, comenta Charles. Chaene conta que seu pai também fez um questionamento, preocupado: “Meu pai uma vez perguntou se a gente não tem medo, ainda mais vendo células neonazistas crescendo


Inclusive Chaene, irmão do guitarrista, também não acreditava no projeto até conhecer as músicas, já no dia da gravação. O baixista relembra: “Eu não queria participar nem emprestar meu baixo. Mas nossa mãe insistiu e eu disse pro meu irmão que só iria pro estúdio depois que as guias estivessem prontas, achei que ia gravar tudo de uma vez só. Pensei que seria um trem de dois, três acordes, e na hora que ouvi aquele som cheio de nuances, baterias pesadas, eu falei: ‘Pô, Charlim, que coisa é essa?’ e ele respondeu: “É meu som, fi!”. A música sempre esteve presente na vida de Charles e Chaene. Quando eram crianças, o pai dos músicos trabalhou na área de eventos, excursionando com artistas e trazendo o universo musical para perto dos filhos. A mãe também teve importância fundamental na cultura dos artistas. Trabalhadora doméstica, trazia para a dupla os quadrinhos doados das casas em que trabalhava. A

família tinha um gosto musical variado. Entre os LPs que ouviam estavam obras de Michael Jackson, Queen, James Brown e Metallica. Da mesma forma, a cultura pop tem grande espaço na vida dos mineiros. Além de mostrar sua geladeira cheia de adesivos de personagens como Deadpool e Darth Vader - além de um “Fora Bozo”, que o baixista faz questão de destacar -, Chaene revela que tanto ele quanto o irmão são fãs da TV Manchete, extinto canal televisivo que tem espaço cativo no coração das crianças das décadas de 1980 e 1990, pela programação que incluía animes e tokusatsus como Cavaleiros do Zodíaco, Shurato, Changeman e Black Kamen Rider - esse último, o favorito do músico, que ainda guarda um boneco de época que ganhou de presente da mãe. Esse gosto do Black Pantera pela cultura pop fica claro também nas músicas de Ascensão. “Anti Vida” é baseada na equação de mesmo nome

presente na mitologia dos quadrinhos da DC Comics. Segundo a ficção, a fórmula procurada por Darkseid, vilão das histórias da Liga da Justiça, dá ao seu usuário a capacidade de controlar todas as formas de vida sencientes do universo, destruindo todas as suas vontades. Chaene usou o conceito para fazer uma crítica à situação política do Brasil, ao governo Bolsonaro e ao negacionismo tão presente durante a pandemia. “A equação anti-vida tira a vontade de viver das pessoas, transformando-as em zumbis. É uma crítica a esse desgoverno, em que vivemos entre luto e luta, com esses negacionistas que são piores que o vírus”. O último integrante a entrar no grupo, Rodrigo “Pancho”, também não acreditou de cara no projeto autoral de Charles. A amizade deles teve início na cena musical de Uberaba, onde começou sua carreira tocando percussão em grupos de samba. Ao lado de Chaene, tocou na banda


CAPA B4, em que criou um entrosamento com o baixista que seria fundamental para o power trio. Atualmente, também tocam juntos com diversos artistas de forró e outros gêneros como freelancers, quando não têm nenhum compromisso do Black Pantera agendado. Após se recusar a gravar o primeiro EP do Black Pantera, o baterista pirou ao ouvir as duas primeiras músicas depois de prontas, e ficou doido para participar do grupo. “Ele zicou tanto que o primeiro batera quis sair e o segundo não deu conta. Só aí que rolou de ele entrar na banda”, conta Chaene. Rodrigo compõe o visual da banda utilizando uma máscara da série La Casa de Papel. Considerado um rebelde por seu trabalho surrealista no começo do século XX, o pintor espanhol Salvador Dalí empresta seu rosto para o disfarce utilizado pelos

personagens da obra, que realizam um assalto como ato de resistência contra o sistema. Em um ensaio, o baterista chegou com o adereço. Havia passado em uma loja para comprar uma fantasia para o filho, viu o disfarce entre os produtos e gostou. “No começo, muita gente via aquele cara mascarado no palco e não sabia que era o Rodrigo. Foi assim que nasceu o personagem Pancho que, para ele, é um alter ego. Ele diz que a máscara é como um elmo, ele veste e se sente pronto pra guerra. Ele fica gigante”, conta Chaene. A princípio, o nome do personagem, “Pancho”, agradava a Rodrigo esteticamente. Porém, uma descoberta inusitada fez com que a alcunha adquirisse um motivo espiritual. Os colegas de banda revelam que um dia perguntaram ao baterista que, se surpreendeu com a coincidência: “esse nome é por causa do seu avô?

Ele também tinha o apelido de ‘Pancho’”. Assim como os personagens de La Casa de Papel, o Black Pantera também tem sua forma de protestar contra o sistema capitalista e a opressão social em Ascensão. Em “Evilcred”, canção inspirada nos baixos poderosos do Fishobone, dos primeiros anos do Red Hot Chilli Peppers e no peso do funk metal, a banda critica os bancos: “Todo brasileiro é fodido, endividado. O pobre tem que dividir as compras, financiar, e o sistema só lucra com isso”, comentam. Também sobre a situação política e econômica do Brasil, a canção “Revolução É o Caos” surgiu de um riff de guitarra de Charles, com letra feita em parceria com Chaene. O som é direto, pesado, e nas palavras do guitarrista “fala sobre a sociedade atual, a gente joga na cara tudo que está acontecendo e como as pessoas estão


Fotos Sete77sete / Divulgação

lidando. Para mudar vai ser preciso uma revolução que só pode ser caótica. A gente enxerga o caos de várias formas, como a votação nas urnas e o caos diário do pai que sai para trabalhar e sofre várias humilhações em seu cotidiano, por exemplo”. O baixista complementa: “Parte também da questão abolicionista, foram muitas batalhas para libertar os negros, nossa liberdade floresceu do sangue desses negros e de diversas outras batalhas, pelo direito das mulheres também, por exemplo. Tem horas que a gente precisa ser mais Malcolm X do que Luther King. É uma letra brutal, pode ser que, depois que a galera ouvir essa música, passe a querer usá-la em alguma manifestação”. Olhando para o Brasil, o trio lamenta: “A banda está evoluindo, mas parece que as coisas no país foram só piorando”. A situação política do país também foi a inspiração para “Delírio Coletivo”, que trás muitos protestos contra o presidente Bolsonaro: “Foi uma canção que saiu rápida, com letra do Chaene. É um questionamento sobre como um cara desses pode chegar ao poder sendo negacionista, racista e preconceituoso, matando mais de 600 mil pessoas com suas atitudes na pandemia. Se a gente pegar o que tá rolando no Brasil agora vai precisar de mais de 10 anos para mudar. Então, se ele foi eleito pela maioria, tá todo mundo louco, vivendo um delírio coletivo”. Ao fazer uma análise da banda chegando ao terceiro disco, Charles reconhece que o primeiro disco soa mais inocente - “apesar do seu poder de fogo” -, que o entrosamento melhorou em Agressão e que agora o power trio encontra-se mais maduro. “Como músico, melhorei bastante. Canto melhor, sei controlar os agudos e graves da minha voz. Tocar com o Chaene e o Rodrigo é muito bom, eu pensava muito em power chord e os caras têm essa coisa de tocar tudo, se pedir para tocar xaxado eles tocam”.

O LONGO CAMINHO ATÉ O TOPO O caminho até Ascensão foi longo para o Black Pantera. Com as atividades da banda iniciadas em 2014, foi apenas em 2019 que deixaram de ser independentes - “Até então era só nóis por nóis”, relembra Chaene. Em busca de conquistar novos espaços, Charles enviou as músicas do trio para o Afropunk, projeto que incentiva e divulga a cultura negra através de seu site e, também, pelo festival que ocorre desde 2005 em diversos países como Estados Unidos, França e Brasil. Como quem joga uma garrafa ao mar, Charles não sabia se haveria um retorno relacionado ao link do Soundcloud enviado no inbox do Afropunk no Facebook. A resposta veio em forma de uma resenha sobre as quatro primeiras músicas do trio, publicada em 22 de dezembro de 2014 e assinada por Nathan Leigh. No texto, o colaborador do site diz: “A interação entre os membros aproveita ao máximo sua formação mínima. A banda é pura força da natureza, força mínima destrutiva”. A postagem da resenha nas redes sociais do projeto trouxe visibilidade internacional para o Black Pantera. Usuários de diversos países passaram a seguir a banda, o que fortaleceu a hipótese de o trio tocar fora do Brasil. Assim, em 2016, antes de se apresentarem em capitais brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os músicos mineiros fizeram seu primeiro show internacional, no festival Afropunk em Paris. No ano seguinte, voltaram à França para o Download, evento que também contou com Slayer, System of a Down e Green Day em seu line-up. Em 2018, foram aos Estados Unidos, onde também tocaram no Afropunk, em edição realizada no Brooklin, em Nova Iorque. Em momentos em que precisaram de investimentos, recorreram a rifas, financiamento coletivo e contaram com a ajuda de amigos e da família -

“O pai do Rodrigo chegou a parcelar nossas passagens em 12 vezes no cartão dele na primeira vez que fomos para a França, porque o cachê não cobria”, recordam. A história começa a mudar em 2018, ano de lançamento do segundo álbum, Agressão. Foi quando se apresentaram na Virada Cultural, em São Paulo, e se aproximaram de Adriano Zanetti, atual empresário da banda, que conseguiu que realizassem diversos shows entre os anos de 2018 e 2019. Entre as apresentações marcantes desse período, a banda destaca a abertura do show do Dead Fish, durante o lançamento do álbum “Ponto Cego” (2019). “A gente foi com tudo e a galera ficou impressionada. O Rafael [Ramos, diretor artístico da Deck Music] estava na plateia e nos procurou depois do show, disse que iria nos ligar e fechamos o contrato”, relembram. Tanto pela admiração como em forma de agradecimento, a banda convidou Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish, para participar de Ascensão. O músico participa da faixa “Dia do Fogo”, composição que critica as queimadas na Amazônia tendo como pano de fundo uma lenda indígena ianomâmi. Popularmente, 10 de agosto de 2019 ficou conhecido como Dia do Fogo, data em que produtores rurais do Norte do país teriam iniciado um movimento para incendiar áreas da maior floresta tropical do mundo. Com contrato assinado com a Deck, a banda lançou em 2020 o single “I Can’t Breathe”, em homenagem a George Floyd, negro estadunidense brutalmente assassinado pela polícia. No mesmo ano, lançaram o EP “Capítulo Negro”, em que trouxeram para o seu universo musical três composições de diferentes autores da música brasileira: “Identidade” (Jorge Aragão), “Todo Camburão Tem um pouco de Navio Negreiro” (Alexandre Meneses, Marcelo Lobato, Falcão, Marcelo Yuka e Nelson Meirelles) e “A Carne” (Seu Jorge,


Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti). A obra foi lançada também em formato de curta metragem, disponível no YouTube. A luta para conquistar espaço no mercado fonográfico está representada nas letras de Ascensão. Em “A Besta”, a banda fala sobre “botar os bichos pra fora”, conforme afirma Charles: “A besta é a gente, nós fazemos uma correria todos os dias que não é vista. Então, também é para dizer a quem não gosta que respeite, porque tem um trabalho ali que ninguém vê, e porque a gente passa por muita coisa”. Já em “Eles que Lutem”, o recado é empoderador: “Vão querer te dizer qual é o seu lugar, vão querer te convencer a não acreditar. É preciso entender, não vão te aceitar. Nada pode nos deter, eles que lutem!”. A cultura pop aparece mais uma vez nos versos da canção: “Não tem joia do infinito, não tem esfera do dragão, não tem gênio da lâmpada, não tem padrinho nem varinha de condão. Só existe a vontade de chegar”. Charles avalia o novo momento, com a banda fazendo parte de uma gravadora, como muito prazeroso: “A mudança é enorme. Antes éramos só nós três, agora existe uma equipe que rala muito, tudo aumentou. Nos sentimos orgulhosos de tudo que corremos atrás pra chegar nesse nível onde se facilita muitas coisas. Ter várias pessoas cuidando do nosso trabalho o engrandece muito, afinal não se trata apenas de criar músicas”.

DO ESTÚDIO PARA A ESTRADA

O repertório de Ascensão se estruturou no final de 2019 e os planos eram realizar uma turnê em Portugal com quatro shows e, na volta, gravar o novo disco no Rio de Janeiro. Porém, com a chegada da pandemia, em março daquele ano, a história mudou. Com o novo cenário, a banda passou a ensaiar menos, enfrentaram períodos de pouca perspectiva financeira

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- em que contaram com auxílio da gravadora -, e se encontraram, ainda que com pouca frequência, para o lançamento de “I Cant Breathe” e “Capítulo Negro”. Foi em outubro de 2020 que voltaram a se ver com regularidade, ainda tomando os cuidados necessários contra a Covid-19. Já com o repertório ensaiado, a banda viajou para o Rio de Janeiro para realizar as gravações. Ficaram hospedados no apartamento da Deck, na Barra da Tijuca, e só se deslocavam para ir até o estúdio. A ideia era que a gravação durasse duas semanas, porém, foi realizada em um tempo ainda menor: 13 dias.

O ritmo foi bastante intenso. Ao lado do produtor Rafael Ramos, a banda costumava chegar ao estúdio às 13 h e voltar para casa às 3 h da manhã. “No primeiro dia, o Rodrigo comprou 200 Salonpas, porque ele gravou por 12 horas e ainda faltavam oito guias para finalizar”, relembram os colegas. Chaene gravou as linhas de baixo em dois dias, com muitas repetições para encontrar o take perfeito. Charles revela que trabalhou com o mesmo vigor e contou com duas guitarras e um set de pedais incrível nas sessões. Apesar das gravações terem ocorrido em 2020, a banda decidiu que

Fotos Sete77sete / Divulgação

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só lançaria Ascensão quando a pandemia estivesse mais tranquila. O motivo foi que queriam poder levar o álbum para os palcos assim que fosse lançado: “A gente tinha noção de que não ia sair tão rápido, porque, quando terminamos de gravar, a pandemia cresceu ainda mais. A gente queria lançar como fez agora, podendo sair marcando shows a rodo, a galera agora está vacinada. Muitos artistas lançaram discos maravilhosos nesse período e perderam o timing dos shows, não queríamos que isso acontecesse”, revela Charles. A canção que abre o álbum, “Mosha”, foi feita, nas palavras da

banda, “para entrar com os dois pés na porta”. É uma das primeiras composições feitas em parceria pelos três membros do Black Pantera, construída para ser a abertura do disco desde que o riff surgiu. Além da energia, a canção fala sobre o mosh (transformado aqui no verbo “moshar”) ou mosh-pit, espaço comum em shows de metal e punk onde parte do público se reúne para dançar e curtir a apresentação entre empurrões, pulos e até saltos do palco para a plateia (o stage diving). A “arte de moshar” tem como origem considerada os shows da banda Bad Brains, uma

das grandes influências dos uberabenses, que gritava ao seu público, com sotaque jamaicano, a frase “mash it up” (em tradução livre, “batam uns contra os outros”). A canção é também uma declaração da saudade que o Black Pantera sentia dos palcos durante a pandemia. Com álbum lançado em 11 de março, a banda iniciou sua turnê dois dias depois, com show em Uberaba, que contou com abertura das bandas Ferpanozoi e Clandestinos, dois grupos conterrâneos de música autoral. Até a data de fechamento desta edição, a turnê contava com 12 apresentações marcadas, entre os estados de Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Entre os destaques da turnê, está o show que o Black Pantera irá realizar no festival Rock in Rio, em 2 de setembro. Abrindo o evento no Palco Sunset, o grupo dividirá a apresentação com o trio pernambucano Devotos, banda punk em atividade desde a década de 1980 que é uma lenda no underground brasileiro. O convite foi motivo de emoção para os dois grupos, que se preparam para esse momento histórico. Chaene conta: “A gente ligou pro Cannibal [baixista e vocalista do Devotos] e ele não acreditou, disse que era um sonho da vida dele tocar no Rock in Rio. Para a gente também é um sonho: duas bandas pretas de punk, em formato power trio, com ideologia parecida juntas. Nossas vozes vão ser as primeiras a serem ouvidas no festival e vamos nos apresentar no mesmo dia do Living Colour. O que a gente mais quer agora é tocar essas músicas e preparar esse show. Ascensão está chegando”.


RAP-ÓPERA

A L L I Z D U Z E D A D A N R O J A

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Por Fernando de Freitas

E

m arte nada (ou quase nada) é coincidência. Nada (ou quase nada) é por acaso. Mesmo quando não há intenção artística, existe o inconsciente trabalhando. As referências podem ser diretas ou indiretas com a mesma frequência que são literais ou metafóricas. E, quando uma imagem nos remete a outra, existe uma enorme chance de isso dizer mais sobre quem avalia a imagem do que sobre o artista em si.

A primeira vez que vi um retrato de Zudizilla, em seu semblante eu vi Jean-Michel Basquiat. O olhar altivo e penetrante. É um desafio lançado a todos que o encaram, é um homem negro dizendo: eu pertenço a todo lugar que eu quiser pertencer. Tentei esquecer a semelhança, vi nela sombras do meu próprio racismo. Porém, a referência insistiu em voltar, a ponto de ser necessário encarar. O artista novaiorquino foi (e ainda é) uma das maiores referências das artes plásticas dos últimos 40 anos. Esteve ligado a muitos nomes de destaque em sua carreira (tendo inclusive namorado Madonna antes do seu estrondoso sucesso), mas, entre eles, um precursor e um contemporâneo, Andy Warhol e Keith Hering. Como grafiteiro, foi notado sob o pseudônimo coletivo (na realidade uma dupla) de SAMO com versos disruptivos, mas foi sua linguagem visual que logo invadiu as galerias. No documentário “O Diário de Andy Warhol”, um de seus contemporâneos comenta “no mundo das artes plásticas daquele momento, só existia espaço para uma superestrela negra em Nova York”. Talvez por isso Basquiat mantivesse a postura desafiadora, sabia que, não fosse por isso, alguém logo arrancaria dele. Zudizilla começou no grafitti. Do grafitti estudou design. Era na lin-

guagem visual que investia suas fichas de uma carreira até que arriscou fazer versos. Como escritor ele é um designer, suas imagens e símbolos são bem trabalhados. Também fica claro em sua música a temática sobre seu lugar na sociedade que lhe nega pertencimento. Ainda que pareça carregado de ambivalência, Zudizilla parece ter claro que sua mera sobrevivência é pouco, ainda que um desafio à lógica que o exclui. O que ele quer é a experiência plena deste lugar, sem concessões. O olhar altivo é desafiador a quem quer tirá-lo da plenitude de sua vivência.

PELOTAS, O MUNDO E PELOTAS E O MUNDO Quem está ao norte do Rio Grande do Sul imagina sua população de bombachas. No imaginário popular, o Rio Grande do Sul é branco. Ainda que Lupicínio Rodrigues, um homem negro, tenha nascido em Porto Alegre (inclusive, compôs o hino do Grêmio) e conhecido no Brasil inteiro (era um dos ídolos de um jovem Caetano Veloso, que ouvia suas canções no autofalante da praça de Santo Amaro da Purificação, BA), imaginamos o gaúcho como um homem branco. Zudzilla sabe e trabalha bem esta visão reducionista. No curta-metragem que acompanha o álbum, “Vozes do Silêncio”, o questionamento sobre a existência (e a permissão para existir) do negro, da comunidade negra e da cultura negra são as premissas que se transformam em declarações pungentes de afirmação. Na realidade, este é o movimento que Zudizilla faz do Vol. 1 para o Vol. 2, do questionamento à afirmação. As dúvidas que podiam parecer personificadas no passado (e claro, representam o momento do rapper) se tornam afirmação coleti-

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RAP-ÓPERA va. A comunidade afirma o indivíduo e o indivíduo, a comunidade, em um movimento dialético que encontra resistência daqueles que não se interessam em validar um tampouco o outro. É desta tensão que a obra de Zudizilla se alimenta. Quando confrontado sobre o resultado que virá da conclusão de sua rap-ópera, no Vol. 3, o músico não se entrega, mas deixa escapar que a dissolução do conflito não virá, porém, a conclusão há de ser sua prevalência.

Foto: Leo Aversa / Divulgação

Mas é necessário um olhar minucioso para o homem em seu tempo e espaço. Pelotas é, se seguirmos a grande rota de cidades próximas ao nosso litoral, o que significa a maior parte da vida urbana do Brasil, o primeiro grande centro urbano do Sul (ou o último, se estivermos em fuga). O caminho desde o Chuí (uma cidade de entreposto, prioritariamente uruguaia) e até Porto Alegre é formado de paisagens ermas, formadas por pastos e plantações que chegam ao horizonte. Muita vida e pouquíssima presença humana. Mas Pelotas é uma cidade universitária. Ali se forma um microcosmo do mundo plural, que talvez faça a contraposição universalista ao regionalismo. A cultura universitária propõe o respeito e a convivência (com maior ou menor harmonia) entre a pluralidade regionalista, que é trazida de fora. Conta o Músico que a cidade “é muito peculiar e recebe muita influência do mundo, é uma cidade muito estranha” e, neste cenário, a riqueza proporcionou opções para um jovem com vontade de se expressar. “Mas não sabia como, passei por várias dinâmicas: passei pelo grafitti, pela pintura, escrevi durante muito tempo, até que me encontrei no rap”. O estilo se apresentou como ideal para Zudzilla, para produzir uma

música na qual ele não precisava de instrumentos de acompanhamento. “No começo, eu não tinha nem beat, eu rimava em cima dos raps gringos”. O que parece ser importante apontar é que o rapper deixa claro que a cidade de Pelotas permitiu que ele encontrasse sua própria identidade sem precisa se espelhar com os grandes centros. “Eu cheguei em São Paulo sem precisar procurar nada, eu já era eu mesmo”. E foi ao lançar o álbum “Faça a Coisa Certa” (título com referência direta ao filme de Spike Lee) que Zudzilla colocou no mundo “um grito de empretecimento” da cidade e do Rio Grande do Sul. O álbum foi escrito em cima dos estudos do rapper da literatura de autores como Jorge Amado e Lima Barreto sob o olhar deste Brasil “de 100 anos atrás com questões que me incomodam ainda hoje” e “ao colocar esse disco na rua, as pessoas passaram a cobrar de mim uma melhor postura como um homem preto”, conta e brinca: “eu joguei uma merda no ventilador e ela voltou para mim”. Em sua busca de se aprofundar na arte de artistas negros, Zudzilla se deparou com o álbum que lhe arrebatou, “O Corpo de uma Mulher”, de Luedji Luna. O mundo se abriu mais um pouco, no mesmo momento em que, pela primeira vez, passou um mês em São Paulo, durante 2016, em um projeto da Red Bull Station. Dividido entre sua origem e a necessidade de colocar sua arte para um público maior, surge o verso que dá nome a ZULU 1 (lançado em 2019): “de onde eu possa alcançar o céu sem precisar deixar o chão”. Na volta à cidade dois anos depois, em um trabalho com a Red Bull, conheceu Luedji pessoalmente.

LUEDJI E DAIO A primeira vez em que conversei com Zudzilla foi junto de Luedji Luna, no evento do lançamento de uma canção dela (com Marisol Mwaba), em que ele fazia uma participação. Marcou presença, durante a gravação para o 440Hz RadioShow, na Rádio Graviola, a presença do filho do casal, Daio. Além ter trazido alegria e leveza, o menino também permitiu ver os artistas sob um ângulo raro. A admiração de Zudzilla pela esposa é incontida. Ele se coloca muito rápido na condição de fã da cantora, para além do relacionamento profissional, que os fez se conhecerem para além de suas personas públicas. Também do relacionamento, vêm novas visões sobre a condição das pessoas negras no Brasil. “Lá no Sul, nós achamos que todo preto do resto do país está melhor que a gente, mas, quando eu vejo que a Luedji, uma mulher preta da Bahia, também sofreu racismo... É assim que ela me traz um novo panorama de pretitude no Brasil, o que, para mim, estava um pouco escondido e obscuro”. Conta o rapper que sua companheira o ajuda com leituras sobre o racismo que ele não tinha antes. “O racismo no Rio Grande do Sul é mais claro. Por exemplo, se o dono de um bar é racista, eu sei que ele é, eu sei quem é meu inimigo. Em São Paulo, se vou a um bar e não sou atendido, até eu entender que o dono é racista... é aí que entra Luedji, ela sempre tem um exemplo para me explicar o que ela quer dizer, a contribuição dela para mim é a mesma que ela dá para o público e eu tento passar isso na minha obra. Ela é uma grande potência e está preparada para ser uma grande potência”, complementa Zudizilla


sobre a relação entre ele e Luedji.“Ela teve pais que foram ativistas, eu mal tive pais e só via minha mãe aos sábados. São dinâmicas completamente diferentes, que, por um acaso da vida, a ancestralidade colocou no mesmo ponto” E é a mãe Zudzilla que abre o álbum, nesta conversa entre ser o filho longe do lar e o pai que conquista o mundo para seu filho que marca a obra. “Ser pai me trouxe uma maturidade, São Paulo me trouxe uma maturidade e eu posso me colocar nesse personagem, mas o Zulu talvez seja um personagem folclórico... Estou tentando escrever uma ópera, mas o personagem fala para todas as pessoas, embora ele fale muito de mim”. E complementa: “eu planejei o Volume 2 com uma maior maturidade, porém, eu não imaginava que teria um filho para me ajudar a corroborar essa poética. O Volume 1 é muito cheio de dúvidas, muito cheio de questões, questões de não saber se vai, se fica, se deixa, se continua. O segundo disco mantém uma relação de dualidade, mas não tem uma relação de dúvidas”. E explica mais “O disco de César a Cristo fala de relações de poder e de como alcançar esse poder. Eu tenho uma responsabilidade, na verdade uma com meu filho e outra com minha mãe, e eu preciso conseguir armas o mais rápido possível para que eu consiga sanar essa problemática, que não é minha, na verdade, mas recai sobre mim, para que, depois, que eu consiga sanar isso e possa viver”, deixando claro que ser um herói póstumo não faz sentido para ele. Assim, nessa dualidade, a única certeza é a busca de um objetivo “que pode ser alcançado pelo amor ou pela guerra, por isso trago a analogia de César a Cristo. Quando coloco isso, eu preciso pautar com as armas que tenho em mãos, que são a música e a arte”. Porém, essa relação não é pacífica, as escolhas da personagem

se refletem nas questões de Zudzilla, esta é sua obra com elementos mais comerciais, diz o rapper, sabendo que os sacrifícios para “salvar minha mãe e meu filho” são necessários, ainda que isso comprometa seu ideal de arte. Não é mera interpretação abstrata, isso está dito na segunda faixa do álbum e ele repete literalmente durante nossa conversa. “Eu tenho que entender que, em algum momento, terei que sabotar algo que tenho em mim para salvar minha

mãe e meu filho, é onde entra a parte de Cristo. Mas eu também tenho minha ambição, também tenho minha vontade de ser rei, de ter meu dinheiro. Tem que lembrar que nós viemos de uma realidade de escravatura, se você tirar a minha possibilidade de sonhar e ter ambição, ficarei absolutamente sem nada”. Nesta dicotomia, entre César e Cristo, guerra e amor, as dúvidas vão se dissolvendo, preparando para a resolução no terceiro volume da obra.


RAP-ÓPERA Não há dúvidas sobre a ambição de Zudzilla e de seu talento para conquistá-la. Porém, seu talento tem de desafiar uma lógica de mercado que Basquiat enfrentou, na década de 1980, no mercado das artes plásticas, a falta de espaço no establishment para os artistas negros. Para ir além do nicho, parece que “o mercado” (essa mão invisível que sabemos ser branca heterotop) escolhe “um negro por vez”, principalmente se ele passar por critérios de embranquecimento. (Os artistas que superam eventualmente essa barreira, não merecem qualquer descrédito por isso, o absurdo é existir a barreira, não aqueles que a ultrapassam). E parece que o objetivo do rapper não é ultrapassá-la, mas rompê-la. “O que eu abraço como rapper e MC é fazer um rap dessa grande nação, à parte dessa nação que a gente vive,

Conta, ainda, que ao chegar em São Paulo, anos atrás, se encontrou com Emicida em um evento e que, trocando algumas ideias, foi instado pelo colega: “E aí, vai ter Emicida no seu disco?”. E, para surpresa de todos que estavam ao seu redor, a resposta foi não. O disco estava pronto e, apesar da admiração, não era o momento de voltar atrás. “Se quiser pro volume 2 vai ser muito bem-vindo” - o que, de fato, aconteceu. Porém, a personalidade de Zudzilla se mostra tranquila em relação a sentir que a hora de se aproximar e de receber colaboração era mais proveitosa quando ele estivesse com seu trabalho mais estruturado. Porém, daquele momento em diante, a admiração que ele passou a sentir pelo colega apenas cresceu, ao conhecer seu espírito colaborativo e genero-

so. Da mesma forma, ele encontra o reconhecimento daqueles que o inspiraram a fazer rap e se considera pessoalmente mais próximo deles que dos artistas de sua geração. Porém, para sair do nicho, como rapper, Zudizilla precisa vencer a lógica mercadológica que joga contra ele e sobreviver-lhe. Voltando, mais uma vez à comparação com Basquiat, este venceu a lógica, mas não sobreviveu a ela. Porém, como já dito, o lugar de mártir não vai bem ao rapper. Nesse ponto cresce a expectativa para o Volume 3 da Obra, onde o encontro com a paz e o sucesso deve aparecer na conclusão dialética. Mas essa paz não parece estar moldada pelos padrões previamente estabelecidos, mas diante da realidade de um homem preto, “essa paz não pode ser condicionada pelo pensamento eurocentrista”.

Fotos Aline Onayale/ Divulgação

ALEA JACTA EST

para que a gente possa manter a juventude e a gente periférica sã, sadia e sem fome”.



COLUNA

T C E SUSP E C I V DE Por Henrike Baliú

I DE C E U Q S E , E Ã M E P DESCUL RA O F A R A P O IX L O R LEVA

De todos os lançamentos de 2021, o que me deixou mais ansioso, e na expectativa, foi o glorioso box set do clássico primeiro álbum de 1981 dos americanos The Replacements, “Sorry Ma, Forgot to Take out the Trash”, pela gravadora Rhino. O box, que me surpreendeu pelo cuidado e capricho, contém um LP e quatro CDs com o álbum remasterizado, faixas demo, outtakes, versões alternativas e um show inédito. O LP é uma versão alternativa do disco original. A coleção ainda conta com um livro de 24 páginas com fotos e a história da banda. Os Replacements nunca se consideraram uma banda punk, mas você certamente vai encontrar esse álbum em várias listas de “melhores discos punks americanos dos anos 80”. Bom, pelo menos ele está minha lista, lá no topo, entre os cinco melhores. Depois desse disco, soltaram o mini álbum “Stink”, com pérolas punks como “Fuck School”, o hino de qualquer garoto no ensino médio. Aliás, tenho um amigo que desencanou da escola após escutar essa música. Voltando aos Re-

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placements: entre 1981 e 1984, gravaram quatro discos pela independente Twin Tone. Em 1985, assinaram com a major Sire Records e, liderados pelo talentoso frontman Paul Westerberg, deixaram a sonoridade punk rock de lado, porém a atitude permaneceu com os integrantes até o fim. O lendário guitarrista, Bob Stinson, foi expulso da banda em 1986 e morreu em 1995. Acabaram em 1991, sem nunca terem alcançado o merecido sucesso. Hoje, são praticamente uma banda cult entre os apreciadores de um verdadeiro rock ‘n’ roll. O baixista, Tommy Stinson, irmão do Bob, tocou baixo com o Guns n’ Roses no final dos anos 90, enquanto Paul Westerberg seguiu uma interessante carreira solo. Se você quiser saber mais, indico o livro “Trouble Boys”, uma biografia surpreendente. Meu pai, Paulo Afonso, que apesar de ter seguido uma carreira militar e hoje ser Capitão de Mar-e-Guerra da Marinha do Brasil, é um grande fã de punk rock e teve a sorte de testemunhar um show do The Replacements quando

morávamos nos Estados Unidos. Quando eu era moleque, ele me gravou uma fita K7 com o primeiro álbum da banda. Eu escutava “I Hate Music”, “Customer”, e “Johnny’s Gonna Die” enquanto brincava com meus bonecos do G.I. Joe no quarto. Preferi que ele mesmo descrevesse a experiencia privilegiada de estar em um show do Replacements naquela época.

CRUISIN’ ANN ARBOR

Considero-me privilegiado, por ter residido, com minha esposa e nossos quatro filhos, entre 1982 e 1985, na bela cidade de Ann Arbor, localizada no estado de Michigan, nos EUA. A referida cidade, que dentro de dois anos deve


Imagens: Reprodução

completar 200 anos de existência, é sede da renomada Universidade de Michigan, da qual, durante o período acima citado, participei, pela Marinha do Brasil, como aluno de pós-graduação em engenharia nuclear, de um programa de estudos, que me demandou muita atividade intelectual e esforço mental. Com uma população por volta de 115 mil habitantes, dos quais aproximadamente 40 mil são estudantes da Universidade de Michigan, Ann Arbor possui uma atividade artística muito intensa, especialmente na área musical. O principal e maior teatro da cidade é o Hill Auditorium, construído em 1913, que pertence à universidade. Ali já se apresentaram não só grandes nomes da música clássica, como Rachmani-

noff, Leonard Bernstein e as orquestras filarmônicas de Viena e de Nova York, como também alguns dos principais expoentes da música popular internacional, como Elton John, Bruce Springsteen, Bob Marley and the Wailers, Ray Charles, Bob Dylan, The Grateful Dead, Lou Reed, Elvis Costelo, e muitos outros. Também pertencente à universidade, há uma arena, construída em 1967, normalmente utilizada para jogos de basquetebol, com capacidade para 12.707 pessoas, denominada Crisler Center, onde já se apresentaram, entre outros, Elvis Presley e John Lennon. Além do Michigan Theater, com 1.610 assentos, onde os Replacements se apresentaram por três vezes, a cidade também é famosa pela grande quantidade de bares e casas noturnas, com música ao vivo, onde costumeiramente atuam tanto artistas locais, como nomes expressivos da música norte-americana, como Ramones, REM, Bo Diddley, David Crosby etc. Por conta do meu necessário engajamento nas atividades acadêmicas, sobrava-me pouco tempo para o lazer, o qual eu aproveitava prioritariamente para estar e passear com a família, e para ouvir música, principalmente rock, que se tornara o meu gênero musical preferido desde quando eu tinha dez anos de idade. Devo dizer que, quando viajei para Ann Arbor, em agosto de 1982, eu já dispunha de mais de 1.200 LPs, a maioria de rock, os quais deixei no Brasil. No entanto, nas minhas duas primeiras semanas na cidade, antes do

início das aulas e das minhas atividades escolares, conheci as principais lojas de discos da cidade, e a que mais me interessou foi a Schoolkids’ Records, que os entendidos no assunto consideravam como uma das vinte melhores lojas de discos dos Estados Unidos. A partir de então, criei o hábito de, uma vez por semana, normalmente nos fins de tarde das sextas-feiras, antes de ir para casa, dar uma passada na Schoolkids’, para espairecer. Aproveitava para ver se havia chegado alguma novidade em termos de reedições de LPs de rock dos anos 50 ou 60. Com o tempo, fiz amizade com o dono da loja, Steve Bergman, e com alguns vendedores, os quais, sabendo também do meu interesse por bandas novas de rock, me indicavam alguns LPs de nomes que eu ainda não conhecia. Foi assim, e também por intuição, que adquiri discos dos Replacements, Hüsker Dü, Dogmatics, e outros grupos de rock. E foi também na Schoolkids’ Records que tomei conhecimento dos shows de música que haveria na cidade. O primeiro show em Ann Arbor a que pude comparecer, foi o da lenda do rock Bo Diddley, no Rick’s American Café, em 1983. Foi sensacional, e cheguei a obter um autógrafo dele. Depois desse, assisti a alguns espetáculos musicais no Hill Auditorium, com grandes nomes, como Ray Charles, Joan Baez, Elvis Costello e Lou Reed. No início da primavera de 1984, assisti a um show de David Crosby no Nectarine Ballroom, local este que


Foto: Shutterstock/André Luiz Moreira

anteriormente foi denominado Second Chance, no qual os Ramones haviam se apresentado algumas vezes. O último show a que assisti em Ann Arbor, e o mais impactante, foi do Replacements, no Joe’s Star Lounge, no domingo 2 de dezembro de 1984, a quinta apresentação da banda na cidade, e terceira deles no Joe’s Star Lounge. Na abertura, tocou uma banda local chamada Map of the World. Enquanto se apresentavam, os integrantes do Replacements circulavam pelo salão. Devo dizer que, convidado por um vendedor da Schoolkids’ que fazia parte de uma banda de ska local, denominada SLK, participei de uma roda de conversa com o guitarrista Bob Stinson, dos Replacements. Vale ressaltar que os Replacements, embora fossem de Minneapolis, no estado de Minessota, tinham criado um vínculo com Ann Arbor e com a Schoolkids’ Records, já que o vocalista da banda, Paul Westerberg, namorava uma moça que trabalhava lá. O repertório do show constou, principalmente, de faixas do LP “Let it Be”, que fora lançado pela Twin Tone em outubro daquele ano. As ótimas interpretações ao vivo do Replacements me fizeram crer que eu estava diante de uma banda que em breve alcançaria grande fama. Correspondendo às minhas expectativas, no ano seguinte eles foram contratados pela Sire Records e seus discos chegaram a ser vendidos no Brasil. Até pouco tempo, eu não conseguia entender por que o sucesso da banda ficou, de certo modo, limitado. Hoje, sei que foi por causa da pouca seriedade com que eles encararam suas obrigações profissionais, o que lamento que tenha ocorrido, diante do enorme potencial e talento que possuíam. Quanto ao Joe’s Star Lounge, bar que fora inaugurado em janeiro de 1982, suas atividades vieram a ser encerradas no dia 13 de abril de 1985, devido à especulação imobiliária.

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NOVAS AQUISIÇÕES

Como na última edição não consegui entregar minha coluna a tempo, algumas novas aquisições acumularam aqui. Então vou dar uma rápida passada por elas.

7 Seconds, “The Crew” LP, Trust Records – No começo dos anos 90, eu só saía de casa com meu fiel walkman da Sony. A fita que tocava sem parar no meu aparelho portátil era uma K7 com o “The Crew” de um lado e o primeiro álbum do Pennywise do outro. Devo ter escutado essa fita um milhão de vezes. Originalmente lançado em 1984, esse álbum ganhou uma edição remasterizada de luxo com um livro de 20 páginas. Hardcore americano anos 80 da melhor qualidade. A produção do disco não é das melhores, mas a energia compensa. Clássico absoluto.

Circle Jerks, “Group Sex” LP, Trust Records – E a gravadora Trust Records me surpreende com o relançamento do álbum de estreia da lendária banda Circle Jerks. Livro de 20 páginas, disco remasterizado com faixas bônus gravadas em um ensaio de

garagem, em 1980, fazem desse relançamento algo mais que especial. Em 1979, o vocalista Keith Morris gravou o maravilhoso EP “Nervous Breakdown” do Black Flag. No ano seguinte, saiu da banda e montou o Circle Jerks. “Group Sex” é absolutamente essencial em qualquer coleção. Talvez seja meu disco favorito do hardcore punk americano gravado nos anos 80 na ensolarada Califórnia. Ah, uma curiosidade, você sabe o que significa um circle jerk? Não? Então coloque no Google, faça um pequeno estoque de vaselina e divirta-se em casa com seus amigos nessa brincadeira saudável de autoconhecimento erótico.

The Clash, “Mohawk Revenge” – Imagina se pegassem o “Cut the Crap”, último álbum do The Clash, isolassem a voz do Joe Strummer e regravassem os instrumentos sem aqueles efeitos eletrônicos bizarros, que fazem do disco uma confusão sonora? Foi o que fizeram nesse bootleg que vale cada centavo investido. As músicas soam como deveriam ter sido gravadas na época, só guitarra, baixo e bateria. Preciso admitir que sou fã do “Cut The Crap” original, mas essa versão aqui é outro disco, está surpreendentemente bom demais! Foram prensadas apenas 500 cópias, então boa sorte em encontrar uma. 2 Minutos, “Valentin Alsina” LP, Universal Musica Argentina – No começo dos anos 90, o Fralda, na época baixista do Blind Pigs, namorava a Val, uma argentina que era minha vizinha.


Ela foi passar férias em Buenos Aires e trouxe uma fita K7 desse álbum para ele. Resultado: o Blind Pigs viciou em 2 Minutos! Na sua próxima visita à Argentina, a Val trouxe algumas cópias do CD para a banda toda. Cada integrante do Blind Pigs ganhou um. Lembro de escutar as últimas duas faixas, “Arrebato” e “Ya no Sos Igual” no repeat. Punk rock direto, melódico, perfeito, com letras sobre o dia a dia no bairro operário de Valentin Alsina. “Ya no Sos Igual” me pegou de jeito. A letra é sobre um amigo dos integrantes da banda, que cresceu com eles, jogando bola no campinho de terra, bebendo no bar da esquina, e hoje patrulha as ruas da cidade com um bigode e uma pistola 9 mm. Virou um agente policial. Tive dois amigos que também viraram policiais civis. Lembro de apresentar essa banda para o Badauí, vocalista do CPM 22, quando eles estavam começando, e logo depois os vi tocarem “Ya no Sos Igual” em um show em Barueri. Considero “Valentin Alsina” um dos grandes clássicos do punk rock dos anos 90. Durante anos ficava pensando que alguém poderia lançá-lo em vinil. Pois bem, os deuses fonográficos ouviram minhas preces e a Universal o lançou em versão remasterizada, edição limitada, apenas na Argentina. Compre, mesmo se estiver caro, dá seus pulos, vende uns discos que você não escuta mais para ter essa pérola na sua estante. Vale cada centavo. U.S. Bombs, “Road Case” LP, Slope Records – Por uma década, de 1996 a 2006, eu considerei a U.S. Bombs a melhor banda punk rock dos Estados Unidos. A banda era liderada por dois veteranos da cena: o vocalista Duane Peters, skatista velho de guerra, conhecido como “o mestre do desastre” e Kerry Martinez, ex-guitarrista da lendária banda hardcore Shaterred Fai-

th. Que dupla! A voz do Duane com a guitarra do Kerry era algo mágico, tipo Strummer/Jones ou Jagger/Richards. O Blind Pigs teve a honra de dividir o palco com eles algumas vezes e viajar de ônibus com a banda, quando visitaram o Brasil em 2006. O Duane Peters até subiu no palco do Hangar 110 para cantar comigo “White Man in Hammersmith Palais”, do The Clash. Que noite! Era uma quarta-feira se não me engano, e devia ter no máximo umas 50 pessoas no Hangar. Mas 2006 já era o começo do fim da banda. Eles tinham acabado de lançar o disco “We Are the Problem” e estavam com vários problemas internos. Um ano depois, a banda toda se demitiu enquanto estavam em turnê na Europa. Titio Doente Peters ficou sozinho, se afundou cada vez mais nas drogas, chegou a gravar alguns ótimos discos com seus projetos The Great Unwashed, DP Gunfight e Die Hunns, e virou apoiador do Donald Trump. Em 2017, a Slope Records assinou com o tio, que já estava bem mal de saúde, com perigo de perder um pé por causa de uma ferida que não cicatrizava enquanto delirava de drogas e anestésicos no Instagram. O cara montou uma nova banda, mas manteve o nome U.S. Bombs. Bom, para mim, U.S. Bombs era ele e Kerry. Apesar de ficar com um pé atrás, fiquei curioso para escutar o que ele iria aprontar. Dois singles foram lançados em vinil. Um com dois covers do The Clash, o que considero meio irônico, já que, se Joe Strummer estivesse vivo, seria totalmente anti-Trump, mas enfim, os covers são decentes, gostei. O single com duas inéditas ficou um pouco aquém do eu estava esperando, então quando saiu esse LP em 2018, nem dei muita atenção, afinal titio Doente Peters já tava bem gagá e com delírios de perseguição nas redes sociais. Mas resolvi dar uma chance pro cara que me trouxe tantas

alegrias sonoras um tempo atrás, mesmo ele tendo se tornado uma pessoa amarga, e comprei o LP esse ano. Olha, me desculpe os detratores do cara, mas esse disco é um soco na cara. Punk rock como apenas o mestre do desastre sabe fazer. E, se ser punk é incomodar até os próprios punks, então talvez não exista ninguém mais punk que a lenda viva Duane Peters. Que ele pare de falar besteira e grave mais discos assim.

Boots ‘n’ Booze, Graphic Novel, Vol. 2, Pirates Press Records – Na boa, olha só que ideia simplesmente genial: alguns veteranos da cena oi!/ punk/mod de Santa Cruz na Califórnia, resolveram escrever e desenhar uma graphic novel contando suas lembranças sobre a cena local no final dos anos 80/começo dos anos 90. E, para deixar tudo ainda mais interessante, cada volume vem com um compacto em vinil. O Volume 1 veio com um single ao vivo, inédito, do Swingin Utters. Esse volume vem com um single da banda de ska The Liquidators. Os editores me garantiram que o terceiro volume está a caminho! Não vacile! Um dos lançamentos mais originais e divertidos dos últimos anos para quem gosta de quadrinhos e street punk. The Slackers, “Redlight” LP, Pirates Press Records – Originalmente lançado em 1997, a Pirates Press Records fez um lindo trabalho nesse relançamento com um vinil 180 gramas que brilha no escuro. Ska para ninguém colocar defeito.

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The Slackers, “Love I Bring” single, Pirates Press Records – Quando a vida parecer não ter mais sentido, quando você estiver deprimido, toque essa música bem alta no seu aparelho de som. Uma parceria do The Slackers com o artista japonês Papa B, que canta as estrofes na sua língua natal. O resultado é bizarro, porém lindo. Confie em mim, ouça essa música, compre esse single. Você será uma pessoa mais feliz, garanto. The Slackers, “Windowland/I Almost Lost You” single duplo, Pirates Press Records – Mais um disco incrível da minha banda favorita de ska. São duas músicas em um picture disc de doze polegadas com a imagem impressa à laser no vinil, coisa de outro mundo. Lars Frederiksen, “To Victory” EP, Pirates Press Records – Quando o Lars não está em estúdio ou em turnê com o Rancid, ou com o Old Firm Casuals, ou com a banda alemã Stomper 98, ou com os ingleses do Last Resort, o cara não fica parado descansando ou coçando o saco. Ele não para! Nesse EP com cinco músicas, ele mostra como sua voz é poderosa e funciona muito bem em um disco solo que é quase um acústico, mas tem algumas guitarras elétricas aqui e ali. Essencial para fãs do Rancid.

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Grade 2, “Graveyard Island: Acoustic Sessions” EP, Pirates Press Records – Quando os ingleses do Grade 2 começaram a banda, logo se tornaram mascotes da cena street punk devido à idade do trio, formado por garotos adolescentes. Bom, os meninos cresceram e nesse EP, que aliás me surpreendeu, os caras mandam seis músicas acústicas boas demais. Olhando a contracapa do disco, vi que quatro delas tem o Tim Timebomb, do Rancid, como co-compositor. Tá explicado porque me surpreendi. Vou falar mais o quê? Tudo que o Tim toca vira ouro, o cara é o Midas do punk, e aqui nesse disco não foi diferente. Suzi Moon, “Call The Shots” EP, Pirates Press Records – Um dos discos que mais gostei da última leva que recebi da gravadora. Punk rock ‘n’ roll de primeira qualidade. As três músicas desse EP de estreia são mais grudentas que chiclete Ping-Pong no cabelo. Uma vez eu estava assistindo aula no Colégio Objetivo, mascando chiclete. Tinha uns quatro na boca, de tuti-fruti. A professora ainda não tinha percebido, senão ela teria me mandado cuspir no lixo. Aliás, que preconceito é esse que professor de escola tem com chiclete? Enfim, eu lá, me achando muito maneiro, fiz uma bola gigante, que acabou ficando maior do que eu esperava. Ela estourou na minha cara, o chiclete grudou todo no meu rosto. Fui mandado para a secretaria na hora. Bom, estou divagando demais, vamos voltar ao ótimo disco da senhorita Moon. A música de abertura, a minha favorita, já mostra que Suzi não está de brincadeira quando canta com sua voz rasgada: “There’s a special place in hell for you” (Tem um

lugar especial no inferno para você). A música mal acaba, a agulha entra na segunda faixa e Suzi afirma, de maneira enfática: “I’m not a man and I don’t give a damn” (não sou um homem e não estou nem aí). Para fechar o EP, a banda, que aliás toca muito, solta o recado: “You mean nothing to me!” (você não significa nada para mim). Amigos e amigas, se vocês gostam de rock ‘n’ roll de alta velocidade, preparem-se para entrar para o fã clube da Suzi Moon! Eu já fiz a minha carteirinha. Assista os videoclipes das três músicas no YouTube.

American Oi!, “Skinhead Anthems” LP, Comandante Records – Coletânea não recomendada para os fracos de coração. Talvez você nem consiga dormir direito após escutar essa tijolada sonora. Talvez você tenha que dormir com a luz acessa e tomar um calmante à base de maracujá para se acalmar e não ter pesadelos. Aqui é Oi! de verdade, bruto. São quatro bandas americanas de peso. Peso pesado. Patriot (de longe a melhor), Mob Mentality, Hardsell e Doug & The Slugz


com três músicas cada. E ainda vem com um poster muito bacana. Se você for um bom menino e limpar sempre o sangue, lama e mijo dos seus coturnos antes de entrar em casa, talvez sua mãe deixe você pendurar o pôster com fita crepe na parede do seu quarto. Esse LP foi uma parceria de cinco selos, mas ganhei a minha cópia da Comandante Records. Booze & Glory, “The Reggae Sessions Vol.2” EP, Pirates Press Records. Os ingleses do Booze & Glory tocaram aqui no Brasil uns anos atrás e depois voltaram para abrir o show do Dropkick Murphys. Nesse disco, eles transformam seus hits street punks em versões reggae muito bem executadas, com a ajuda das bandas de ska The Londonians e os poloneses da Vespa. Altamente recomendado. Música de festa. Festa boa. Procure também o volume 1. Strike First, “Wolves” LP, LSM Vinyl – O gênero street punk produz muita banda genérica, então é sempre uma grata surpresa quando cai em minhas mãos um LP como o de estreia dos americanos Strike First. Confesso que a capa ajudou. Uma arte chamativa sempre ajuda. O picture disc é lindo demais. De um lado é a arte da capa, do outro, uma foto antiga de um bombardeiro da Segunda Guerra Mundial atingido bem no nariz. O som é furioso, porém com melodia. E os caras ainda pegam “Bring it on Down”, do Oasis, e transformam ela em um hino punk rock. Se street punk é a sua praia, tá

aqui sua nova banda favorita. Sweat, “Gotta Give it up” LP, Pirates Press Records – Seria essa banda de Los Angeles a nova cara do hardcore? Vocal feminino, agressividade na medida certa e músicas rápidas fazem desse LP de estreia um verdadeiro presente para os fãs do gênero. The Gundown, “Dead End Alley” LP, Pirates Press Records – Punk rock direto da Catalunha, cantado em inglês. Adoro a arte desse LP, da capa até a cor do vinil. Design muito bem-feito, assim como as músicas aqui. Se você gosta de punk rock e quer escutar algo novo, esse LP é para você. A banda está na estrada há mais de uma década, vale a pena conhecer. Antes tarde do que nunca.

dela, “Gilded”, também produzido por Mr. Ness. La Muchacha, “La Sentada” single, Del Corazón Music – Mais um belo single de um dos meus selos favoritos. Na minha opinião, a melhor música está no lado B, “Ranchera Marijuanera”. Só sei que La Muchacha é colombiana, não sei mais nada sobre ela. Vou copiar parte do release da gravadora aqui: “sua música emana da longa tradição de dissidência como expressão de arte, e arte como expressão de vida”. Na boa, compre tudo que esse selo lançar, cada compacto é uma joia rara em vinil.

SESSÃO “NEM SÓ DE PUNK ROCK VIVE O HOMEM”: Jade Jackson, “Wilderness” LP, Anti – Segundo álbum da talentosa Jade Jackson, produzido por ninguém menos que Mike Ness, do Social Distortion. Country pop cantado com a alma. Ouça “Bottle it up” e saia cantarolando o refrão imediatamente. Meu filho de cinco anos faz isso. Toda vez que coloco essa música ele se anima e canta junto. Canta errado, mas canta. O menino tem bom gosto. A parte gráfica desse álbum também é um espetáculo. É quase um álbum duplo, mas o lado B não toca. Ao invés de faixas, ele tem umas flores e folhas desenhadas no vinil. Recomendo esse e o primeiro disco

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SAÚDE Por Fernando de Freitas

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R I V U O E D S A FORM

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A C I S Ú RM

Nestes últimos meses, eu resgatei e reformei o aparelho de som que meus pais compraram no ano do casamento deles, ou seja, 1974. Já próximos de comemorarmos suas bodas de ouro, eu tenho o prazer de ouvir as músicas que mais amo em caixas de 8O mhs que fazem parecer que o artista está em minha sala. Mas saibam, eu tolero alguns ruídos decorrentes da idade do aparelho.

SER VINTAGE É UMA OPÇÃO

Não se iluda, os aparelhos de antigamente não são necessariamente “melhores do que os de hoje”. Aliás, alguns componentes, com o tempo, precisam ser trocados e alguns ruídos tolerados. Existe uma tendencia de se cobrar caro por aparelhos antigos que não necessariamente são tão incríveis assim, então, muito cuidado! Esse meu aparelho é um Gradiente Lab74, casado com uma vitrola Garrard. A gradiente comprou a marca inglesa em um determinado momento de sua história e produziu algumas das melhores vitrolas de que se tem notícia no Brasil. Com o tempo, passaram a produzir aparelhos 3 em 1 com nome próprio, por vezes, com componentes mais baratos, e nem sempre sendo felizes. Aliás, sempre desconfie dos aparelhos fabricados na segunda metade dos anos 80 até a primeira metade dos anos 90. Mesmo marcas de renome escorregaram quando a produção era feita na Zona Franca de Manaus, outras eram até apelidadas de Certeza que Comprei Errado. A parte boa de não querer ser vintage, é que, se você tiver dinheiro, alguns aparelhos no mercado de vitrolas são realmente muito bons, eles trazem o melhor de uma tecnologia que foi desenvolvida por quase um século, com bons discos (novos ou antigos, limpos e em boas condições). Os amantes do som analógico sentem o coração aquecer. As vitrolas de malinha são bonitinhas e pegam bem com o crush, mas nada de fazer a “palestrinha vergonha” alheia das qualidades do som analógico quando você coloca um disco nela.

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TEC

SISTEMAS HÍBRIDOS

Presente em nossas vidas nas últimas décadas, bons aparelhos de home theater ( já em desuso na era do streaming) têm a vantagem de apresentarem uma combinação de receiver com excelentes amplificadores e caixas de som de grande qualidade. Esses sistemas contam com múltiplas entradas e permitem a conexão com o computador, BluRay/DVD/CD, receptores de streaming (como Google Chrome Cast) e até sua vitrola. Vale a pena lembrar que as vitrolas mais antigas não contam com um pré-amplificador, então, se o som ficar muito baixo, é possível que você tenha que gastar alguns trocados para adaptá-la. Por outro lado, os pickups mais atuais conversam muito bem com esses aparelhos. O contrário também pode trazer bons resultados. Aqui em casa, após testes, eu achei mais interessante colocar meu ChromeCast Audio no Gradiente Lab-74. A combinação do streaming de alta qualidade com um aparelho de som desses deu novas cores às músicas. Mas eu não tinha nenhuma reclamação a respeito do som que se reproduzia a partir de meu home theatre Sony (que conta com um excelente subwoofer Yamaha). Por sinal, eu prefiro ouvir meus CD’s (sim, eu guardo toda minha coleção, mas outro dia falo disso) a partir do meu aparelho de BluRay ligado no home theatre. Mas isso

só dá para saber testando e descobrindo nossa preferência pessoal.

PRATICIDADE DIGITAL

Você já escolheu seu serviço de streaming? Eu já testei todos os principais disponíveis no mercado (e até alguns meio alternativos). Eu adoro a praticidade de ter tudo à mão (contanto que eu tenha um acesso de qualidade à internet) e discordo de quem valoriza o romantismo de fazer descobertas em lojas de discos ou em círculos de amizade. Sim, era legal, mas acho um argumento elitista e segregacionista. Como produtor de conteúdo, meu prazer é ver aquilo que gosto ser admirado por mais gente tanto quanto possível e os artistas de que gosto tendo carreiras rentáveis. Quanto mais desconhecido, menos rentável é uma carreira. Se sua escolha for a diversidade absoluta (e não a qualidade sonora), não se avexe e aposte no próprio YouTube, é gratuito (se você aguentar os anúncios) e você encontrará tudo que um dia foi bootleg (gravações piratas e/ ou cópias não autorizadas). Por outro lado, se você estiver a fim de gastar mais um pouco para ter a mais alta fidelidade, você precisa conhecer o Tidal. Serviços como Spotify e Deezer se assemelham e têm bom custo-benefício, muda a interface. Se você lê a Revista 440Hz, provavelmente, você não ouve música no autofalante do celular (e se você faz isso,

continue lendo essa matéria). Apesar de possível, os graves se perdem e os agudos sobram quando usamos nossos smartphones sozinhos. Também devemos lembrar que distorção é (me perdoem os mais técnicos) resultado do volume saturado de um amplificador e, em um celular, melhor que seja seu autofalante, sempre vai distorcer a música sem nunca atingir um volume considerável. Eles simplesmente não são feitos para isso. Nos últimos meses, tive o privilégio de testar caixas de som Bluetooth de diversas marcas e modelos. A Philips tem diversos modelos interessantes, até uma linha de design vintage que, além de lindos, têm um bom som e são portáteis. O único problema (e não importa a marca) é que as caixas menores podem até preencher bem um ambiente e agradar uma boa reunião de amigos, mas o som se perde numa festa. Outro dispositivo interessante (e de muita qualidade) é a Echo Dot, da Amazon. Além das múltiplas funções (agenda, previsão do tempo, alarme) é divertidíssimo pedir uma música em voz alta e ela começar a tocar. Mas nem sempre ela acerta. Tenho duas, adoro, mas é necessário que a Echodot esteja sempre conectada na tomada (e obviamente à internet).

FONES DE OUVIDO

Acredito que, em todo o mercado, nada é tão diverso quanto os fones de ouvido. Ainda que exista uma tendencia comercial ao Bluetooth, os fones com fio não perdem espaço, uma vez que a latência e conexão podem ser uma questão para os aficionados. “Mas aqueles fones que vieram com o meu celular são uma porcaria, certo?”. Não necessariamente. Algumas marcas comercializaram excelentes fones com seus celulares e tablets - os fones originais da Apple são fenomenais. A questão entre os in-ears e over-ears também causa algum debate, mas o melhor é considerar a atividade que você irá ter com eles. Os over-ears podem ser bastante incômodos na academia, por exemplo, ou para quem usa óculos. Mas há algo que ninguém te fala, o fator closed back e open back (ou simplesmente fones abertos e fechados). A tendencia de mercado são os closed backs, uma vez que isolam melhor do ambiente externo e têm baixos bem definidos. Isso combina com ouvir música em fones em lugares públicos.


Porém, os fones open back garantem mais definição no som e, ao logo do tempo, agridem bem menos sua saúde auditiva. Em geral, são esses os fones usados por profissionais de áudio. Eu venho usando, no último ano, o AKG K414P, por seu excelente custo-benefício. Porém, ele é pouco confortável e razoavelmente frágil. Seu visual não é dos mais atraentes e se assemelha bastante aos fones dos primeiros walkmans dos anos 80. Vale a pena dizer que ele tem a melhor definição de som de um fone razoavelmente barato. Na outra ponta, temos fones como o Sennheiser HD400 que, além de extremamente confortável, é o melhor áudio que já tive num fone. A sensação é a de ouvirmos o som ambiente e não algo reproduzido em seu ouvido. Em termos de fones para profissionais que trabalham com áudio, é uma escolha sem erro. Mas se prepare, custa caro! Menção honrosa aos fones Bluetooth da Philips, tenho tanto os over-ears quanto in-ear, ambos com excelente conexão e som. Fazem bonito no quesito custo-benefício e são fones para conectar seu celular, ou até mesmo a Smart TV (se não quiser incomodar seu parceiro que está dormindo, por exemplo). Os in-ears ainda têm a vantagem de virem em estojo com bateria própria que garante uma carga a mais nos fones se você não puder achar uma tomada. Enfim, as escolhas mais variadas para os mais diferentes usos. Cabe a você pensar qual é a melhor para você ou, talvez, testar todas.


CAUSOS Por Érico Malagoli

De todas as questões que assolam a espécie humana desde o início dos tempos, mais importante do que saber “de onde viemos” ou “para onde vamos”, com certeza a mais importante e polêmica é: “A madeira influencia no timbre”? A resposta dessa pergunta que reverbera em todas as rodas de conversa onde tenha pelo menos um guitarrista, parece não existir, afinal de contas não há um consenso. E só não há um consenso porque os testes feitos até agora sempre estavam sujeitos a questionamentos, e mesmo que os argumentos fossem defendidos pelos envolvidos, nenhuma prova era suficiente diante da magia da madeira e décadas e mais décadas de seu reinado. Empresas de guitarras apareceram, músicos se formaram e artesões se desenvolveram repetindo a mesma história como um mantra, portanto quem poderia se opor? Bom, eu e mais alguns tentaram e, verdade seja dita, conseguimos demonstrar “a verdade” para uma boa parte das pessoas, que a madeira tem sim uma influência no timbre da guitarra, mas bem pequena. Muito pequena, aliás e bem atrás de outros componentes da guitarra como cordas, potenciômetros e, principalmente, captadores. O que mais seria necessário para que a outra parte, a dos “não convencidos” também pudessem olhar para cima? Digo, aceitar que a influência deste composto orgânico no som de uma guitarra maciça está mais no psicológico? Quando as esperanças já me faltavam, um YouTuber chamado Jim Lill decidiu fazer um vídeo para demonstrar quais os componentes da guitarra realmente importavam para o timbre. Ao assistir esse vídeo, me empolguei tanto que também fiz um vídeo, mas de react ao vídeo original. A sequência demonstra uma verdadeira epopeia em busca do responsável pelo

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timbre da guitarra, muito interessante. Põe peça, retira braço, troca captador, regula captador... sempre comparando uma guitarra de renome (Tom Anderson no caso) com uma “Partscaster” feita por ele mesmo com peças baratas. No desenrolar do vídeo, Jim vai destruindo alguns conceitos e focando no resultado, até que... ele elimina o corpo e o braço da guitarra. Sim, entre duas bancadas de sua garagem, ele montou uma guitarra somente com a ponte de telecaster com captador fixa em uma das bancadas e as tarraxas presas na outra, respeitando a distancia certa entre nut e ponte e deixando as cordas suspensas no ar. Uma verdadeira “air guitar”, como ele mesmo diz no vídeo. O resultado é impressionante pois não dá para dizer que aquela guitarra sem corpo ou braço, não soa como uma guitarra. Mesmo que se perceba alguma diferença, não há corpo, não há madeira. Se o teste chega a esse ponto e não encontra grandes diferenças sonoras, o que dizer de uma guitarra feita com alder comparada com outra feita em cedro, ambas com corpos e braços de madeira? Veja que me refiro somente ao timbre e não a outras questões mais práticas ou de custo que realmente contam a favor da madeira. Enfim, para mim aquele vídeo era a tese da vida, o carimbo final, a prova incontestável de que...(em meio a meus pensamentos paro para ler um comentário em uma postagem aonde estava o meu vídeo de react): - “Como assim não tem madeira??? Vocês estão loucos??? E a madeira da bancada???” ...desliguei meu computador e fui dormir... nem todos estão preparados para as respostas das grandes questões da humanidade.


COXIA Anneliese Kappey

Ana Sniesko Erico Malagoli

Camila Duarte Fernando de Freitas

Henrike Balíú Ian Sniesko

Luis Barbosa

AFINADA PARA QUEM GOSTA DE MÚSICA

Lucas Vieira

440 Hz