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EDITORIAL

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EXPEDIENTE Coordenadora: Larissa Wilson | laricotinha@msn.com Capa: Renato Medeiros e Larissa Wilson Projeto Gráfico: Renato Medeiros Diagramação: Cynthia Ferreira, Larissa Wilson e Renato Medeiros Revisão: Anderson Santos, Klyvia Lima, Shuellen Peixoto e Bruno Martins Colaboradores: Anderson Santos | anddavidg@hotmail.com Anny Rochelly | annyrochelly@bol.com.br Bruno Martins | brunomartinsgr@yahoo.com.br Camilla Cahet | millacahet@hotmail.com

Cynthia Ferreira | cynthia_jornalista@yahoo.com.br Isaac Moraes | isaacferreira7@oi.com.br Luciana Justino | lucianajustino-cs@hotmail.com Klyvia Lima | klyvia.lima@yahoo.com.br Marcos Filipe Sousa | marcosfilipe.sousa@gmail.com Pei Fang Fon | peifangfon@yahoo.com.br Renato Medeiros | re_nato88@hotmail.com Salomão Miranda | salommbr@yahoo.com.br Shuellen Peixoto | shupeixoto@yahoo.com.br Victor Guerra | skintger@msn.com Professor Orientador: Antônio Freitas | afrf@decos.ufal.br


Shuellen Peixoto e Victor Guerra Com colaboração de Anderson Santos

Um dos maiores especialistas em comunicação sindical no Brasil, o ítalo-brasileiro Vito Gianotti nos apresenta as possibilidades e dificuldades de uma área pouco conhecida por estudantes e profissionais de comunicação.

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s sindicatos brasileiros passaram por dois momentos importantes na história da República. Primeiro foi o período chamado de “populista”, a partir do Governo Vargas e que durou até o golpe da Ditadura Militar, em que os sindicatos entraram em acordo com a maioria dos governos presidenciais que se estabeleceram. O outro período começou ainda no final da década de 1970, com as greves nas indústrias automobilísticas, com destaque para os metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Foi no que se chamou de “neosindicalismo” que surgiu, por exemplo, o atual presidente do País, Luiz Inácio Lula da Silva e seu Partido dos Trabalhadores (PT), ainda enquanto esquerda radical. Esse mesmo Governo foi o responsável por uma das maiores crises da esquerda no Brasil, fazendo com que mesmo os sindicatos se calassem na dúvida se ele seria de esquerda ou se seguiria o rumo neoliberal dos seus predecessores. Como qualquer ato que vai de encontro ao que os poderosos julgam certo, as atitudes de sindicatos são mostradas na grande mídia, no mínimo, como baderna. Para dar uma resposta rápida à sociedade e como forma de conscientizar os trabalhadores em prol de uma causa, seja a de aumento salarial ou a de uma revolução social, é que se apresenta com importância o desenvolvimento da comunicação sindical. Para falar sobre isso, a Bula entrevistou um dos maiores especialistas do assunto. Nascido na Itália, mas radicado no Brasil, o escritor Vito Gianotti nos fala sobre como surgiu o seu interesse no assunto e as dificuldades encontradas nessa área da comunicação tão pouco conhecida, e até renegada, pelos estudantes e profissionais da área. Gianotti, apesar de nunca ter cursado Jornalismo, faz parte do Núcleo Piratininga de Comunicação (RJ) e tem alguns livros sobre o assunto.

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.bula| Como surgiu o interesse pela comunicação sindical? Vito Gianotti| A luta dos metalúrgicos na minha fábrica era muito grande. Era um espaço político e tanto porque eram milhares de pessoas, então eu tinha curiosidade. Tinha a prática de escrever, de ler e tinha como objetivo atingir os colegas construindo boletins, jornais que a gente fazia para poder divulgar nossas idéias. Eu fazia os boletins porque a gente queria divulgar nossas idéias, queria transmitir aos metalúrgicos e arrastar os companheiros para a luta. E a gente fazia isso através de inúmeras 'comunicaçõezinhas' evidentemente proibidas. Mas então eu criei esta paixão por fazer boletins, jornais etc. criei na prática e por necessidade. A gente direcionou muito do nosso esforço na linguagem para poder atingir os companheiros e na maneira de apresentar nossos materiais. Assim, na formação não sou jornalista, mas fiz tantos milhares de jornais. Fui metalúrgico por cinco anos sempre trabalhando no pátio da A comunicação fábrica para sobreviver e atuando na luta contra a sindical não tem ditadura e na luta por uma nova sociedade, que o meu grupo, o meu bloco, nós acreditamos que é a nada de neutra. Ela declara o que socialista. .bula| O que é comunicação sindical e qual a sua importância? VG| É a comunicação feita para os trabalhadores, com os trabalhadores, com muito trabalho. É uma comunicação especializada, que tem objetivo declarado de passar informação dos trabalhadores para cada setor da fábrica. A comunicação sindical não tem nada de neutra. Ela declara o que diz, do lugar que diz o trabalhador, que é lutar contra uma classe X, que são os donos das empresas.A comunicação dos trabalhadores, a comunicação sindical ela tem um problema que é que chega indiferentemente seja para o trabalhador que quer ler aquele jornal e para o outro trabalhador que não está nem aí. Agora, por isso que não podemos esquecer de fazê-lo dentro de uma linguagem atrativa. Porque é muito fácil, de fato, ler um jornal da grande mídia, da mídia burguesa, da mídia empresarial e comercial. É um jornal que é vendido em bancas é comprado por quem quer ler. Já o jornal sindical, dos trabalhadores, não é para quem quer ler, é para quem os militantes, os dirigentes querem que leiam, quer dizer, há uma diferença muito grande nisso.

sindical que explica, que dialoga, que conversa com os companheiros sobre determinados projetos lá, determinadas idéias, propostas, até o jornal que se espera. Vai do panfleto, do boletim, do mosquitinho pequenininho, cartilha, caderno, livros, para você ver os escritos. Passando por todos os instrumentos: o rádio - rádioweb hoje em dia -, televisão, carro de som, vários instrumentos diferentes. Acompanhado do suporte televisão ainda tem os vídeos, DVD's etc. Não podemos esquecer da comunicação via rede de Internet, que vai desde a página de Internet ao boletim eletrônico, que é um tremendo instrumento de comunicação, até os espaços que hoje a internet oferece. Temos que utilizar tudo que tem de atual, no caso da rede de Internet. Então, tem uma coisa também, o setor de boné, camiseta, faixa, cartazes, outdoor. Todos esses meios de comunicação de forma geral fazem parte da comunicação sindical. A comunicação sindical não está restrita só ao jornal sindical.

.bula| Qual o meio que possui maior inserção na base? VG| Da comunicação sindical, o outdoor é o último. Falo isso porque muita gente se ilude, vê o outdoor da grande mídia empresarial. Claro que diz, do lugar que o outdoor tem a sua função, mas é no final da diz o trabalhador, linha, pode ser usado três instrumentos antes do que é lutar outdoor, qual que vem antes dele? O jornal. O contra uma jornal é aquela publicação que sai todo jorno [dia]. classe X, que são O Brasil já teve oito jornais sindicais diários. Em os donos das 1990, quando do auge da imprensa sindical. Hoje só temos o jornal do Sindicato dos Metalúrgicos empresas. de São Bernardo, que gira 60 mil todo o dia, só para São Paulo, e o jornal dos Bancários de Salvador, que publica em torno de 10 mil diariamente. Hoje o jornal é o grande inimigo. Qual é a realidade hoje? O jornal é geral. Há muitos sindicatos sem jornal. Para mim o jornal é o meu principal meio. É um forte meio para poder divulgar nossas idéias, para disputar a hegemonia na sociedade. O importante é que os jornais não sejam espaçados na sua freqüência. Afinal, alguns têm um jornal semanal, outros quinzenal, outros mensal e outros têm a idéia absurda do Ipiranga, jornal que não tem prazo para sair. Jornal que sai com dois, três meses, não serve para nada! Cadê a prioridade, a luta diária dos trabalhadores que deveria se divulgar?

.bula| Como o jornal sindical deve ser construído? VG| Jornal do sindicato não é só política do sindicato. Mas eu tô falando sindicato que imagino o geral, o global. O sindicato de esquerda; esquerda para mim significa jornais sindicais que têm uma perspectiva de luta dos trabalhadores, que vai além do imediato econômico. As primeiras ações são o

.bula| Quais as mídias trabalhadas no jornalismo sindical? VG| Quando se fala em comunicação sindical, fala-se logo em jornal sindical, o jornal do sindicato. Só que a comunicação sindical é muito mais. Vai desde o boca-a-boca do militante

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salário, o bebedouro, as condições de trabalho, melhorar tal coisa. O jornalista nesse limite, nesse patamar de luta puramente economicista, puramente edificatória, são jornais com umbigo, são jornais que cuidam só dos interesses imediatos dos trabalhadores. Na minha visão, um jornal de um sindicato que esteja no grande bojo da perspectiva socialista, esses jornais têm que apontar para outra sociedade, para outra proposta, ou seja, são jornais que têm dificuldades devido a todas as idéias presentes na sociedade. Como é que o jornal sindical vai entrar para a disputa política da sociedade? Ele não vai substituir outros jornais alternativos, não A comunicação vai substituir jornais partidários, mas vai no sindical no Brasil mesmo sentido de jornais socialistas, de acordo teve o seu auge no final dos anos com esse modo de sociedade.

sindicato porque não conseguiu passar num teste da grande mídia, claro é um incompetente, um fracassado, um babaca. Agora, para mim um jornalista sindical tem que ser um ótimo jornalista. Pronto para receber qualquer emprego na grande mídia e, além disso, ter a capacidade numa outra área ainda mais difícil que é escrever para quem não está interessado em ler. Escrever para quem não está nem aí com o seu jornal. Ou seja, o jornalista sindical tem que ser capaz de fazer um ótimo jornal em todos os sentidos.

.bula| Quais esses sentidos que o jornalista tem que se preocupar? VG| Tem que ter a capacidade de fazer um ótimo jornal no ponto de vista de um projeto editorial e 70, começo dos gráfico para cativar, para seduzir aquele leitor que não está interessado em ler, seduzi-lo na leitura anos 90 e se para fazer com que leia, se interesse, e para depois, expandiu e continuou até a quem sabe, ele siga as idéias, as propostas do eleição de Lula. jornal. Então, o jornal sindical tem que ter um projeto editorial e gráfico muito bonito, muito Substituiu a atrativo, muito chamativo, senão o destino do imprensa jornal sindical é aquele: receber uma olhadinha do alternativa no trabalhador e ser jogado no lixo ou no meio da Brasil no final da rua. Somos um povo de cultura oral e visual, década de 70. A somos um povo que não lê nada! O Brasil é um imprensa dos países no mundo que menos lê. Mas, mesmo alternativa de sendo um povo de não-leitores, nós estamos 150 jornais que fazendo jornal. Então, nosso jornal tem que ser tão bonito como o Fantástico, o Jornal Nacional. Por foram isso, imagens, espaço tranqüilo, matéria curta e produzidos depois toda a tragédia que é a linguagem. durante a

.bula| Em relação à estrutura... VG| Faço um exemplo com um jornal de oito páginas, semanal. É a realidade, vamos dizer, ideal para a maioria dos sindicatos. Um jornal de oito páginas, na minha opinião, precisa ter, no mínimo, cinco páginas que trate do umbigo sim, dos interesses da categoria imediatos, diretos: o salário, as condições de trabalho, o plano de carreira, o horário de trabalho.Afinal, tudo que é coisa concreta, imediata, palpável, tocável, assim você pode contabilizar. Isso é o grosso, a primeira parte do jornal. O trabalhador quer ver coisas concretas da sua categoria no seu jornal sindical. Mas, e o resto? Tem que tratar de todos os assuntos que estão presentes na sociedade. Dá para fazer a disputa ideológica, política, de informação com o jornal da sua cidade. O jornal ditadura militar. sindical tem que tratar das outras categorias, tem Todo mundo já que dar informações e tem que falar de outros ouviu falar do movimentos sociais.Tem que falar do movimento Pasquim, dos sem-terra, do movimento dos sem-teto, Movimento, porque o trabalhador há de reconhecer como da sua classe. Tem que falar do conjunto dos Opinião, do jornal trabalhadores, enquanto classe, e não se Nós Mulheres... restringir a sua categoria, limitada, restrita. Essa imprensa Segundo lugar, tem que falar além da sua cidade, alternativa além do seu município, além do seu estado, no morreu a partir caso do trabalhador como um todo. Mas tem que de 1980. falar para poder dar condição de classe, uma luta conjunta.Tem que falar de todos os assuntos que dizem respeito às lutas dos trabalhadores. E em outros grandes temas, eu diria, tem que falar do conjunto da vida dos trabalhadores. .bula| Quais as características do jornalista da área sindical? VG| Esse negócio de visão de um jornalista sindical que é um jornalista falido, é aquele que não conseguiu estar na grande imprensa, na mídia comercial.Vai para o jornal sindical porque é um jornalzinho de segunda categoria, eu tenho uma visão absolutamente diferente. Dizer que caiu no

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.bula| Por que a linguagem é uma tragédia? VG| A linguagem é uma tragédia para os nossos jornais porque muitas vezes nós [jornalistas] escrevemos numa linguagem que os 'normais' não entendem. Cada ano que ele passou na escola, ele aprendeu quatro ou cinco palavras que os 'normais' não conhecem. Quem são os normais? São aqueles em que o nível de leitura de jornais é de 5%, cinco não, 4,5 consomem jornal diário. Mais de 70% da população nunca leu, um livro não sabe se come ou se bebe. Essa é a tragédia. E daí que estamos fazendo o jornal para esse público. Claro que para o público que lê não há problema. Nós temos que ter consciência que a linguagem utilizada tem que ser algo que seja compreensível, inteligível para quem tem terceiro grau, para quem não tem nenhuma prática de leitura, de estudo. É totalmente possível. .bula| Qual o panorama da comunicação sindical brasileira? Dentro desse contexto, quais os maiores problemas encontrados? VG| A comunicação sindical no Brasil teve o seu auge no final dos anos 70, começo dos anos 90 e se expandiu e continuou


sindical devem ser utilizados em momentos de lutas mais intensas, como em greves ou demais manifestações? Até mesmo para fazer uma contraposição à grande mídia. VG| Não é nos momentos de greve que tem que fazer essa contraposição. É sempre! Não podemos nos iludir que vamos se contrapor

até a eleição de Lula. Substituiu a imprensa alternativa no Brasil no final da década de 70. A imprensa alternativa de 150 jornais que foram produzidos durante a ditadura militar. Todo mundo já ouviu falar do Pasquim, Movimento, Opinião, do jornal Nós Mulheres... Essa imprensa alternativa morreu a partir de 1980. Quem tomou o lugar dela, infelizmente, não foi a imprensa partidária. Nossos partidos de esquerda, infelizmente, não foram capazes de produzir um jornal político, um jornal de grande circulação. Não foi por falta de dinheiro, absolutamente. Na minha opinião, foi por falta de uma visão política de ficar mendigando na mídia burguesa, na mídia dos inimigos. Mendigando espaço para poder divulgar nossas idéias. Isso é ridículo! Claro que a mídia empresarial nos dá um espaço mínimo, para

mostrar que é democrática, que ela ouve os vários lados. Dá um espaçozinho e te bombardeia com toneladas e toneladas, enxurradas de artigos, opiniões. Primeira idéia: nós nos iludimos com a mídia burguesa. Segunda: não tivemos a visão. Nós não tivemos quem? Toda a nossa esquerda. A esquerda sindical, partidária; todos os partidos de esquerda. Não conseguimos nos unificar em torno da produção de um jornal alternativo de esquerda, vendido em banca. Um não, dois, três. Eu não acredito que vai existir nunca um jornal de esquerda com todo o segmento da esquerda. Nunca! Mas eu não quero que exista. Não quero que exista partido único.

.bula| Como os meios de comunicação

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naquele momento, isso é ilusão. Essa contraposição tem que ser constante. A mídia empresarial tem lado, o lado dos empresários, o lado dos donos, têm interesses políticos claros. É toda, totalmente, absolutamente dirigida. Quer dizer, a grande mídia, veja bem, toda a grande mídia defende a Monsanto [produtora de sementes transgênicas]. Toda a grande mídia defende a Aracruz [Celulose].Toda a grande mídia defende a privatização da Vale do Rio Doce. Toda a grande mídia defende a privatização da Petrobras. Claro, tá na dela. São empresários e empresários querem o projeto neoliberal, o capitalismo mais escrachado. Acabou. Agora, não é no momento da greve que nós vamos conseguir fazer a cabeça dos trabalhadores, influenciar, dialogar, conversar com os trabalhadores. Sim, pode ser o momento de auge. Meu amigo, no momento de luta você pode ter quatro, cinco, seis emissões de jornais diários. Pode, sim. Mas isso é um momento orgástico. Mas antes do orgasmo tem um monte de coisas, tem um monte de preparações. O que importa é o conjunto. A imprensa sindical tem um papel diário, constante, por isso a minha fórmula é muito clara: é jornal diário. Não dá para fazer jornal diário ainda, faz um boletim eletrônico diário. Não custa nada!


Anderson Santos

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que mais ouvimos é que o dia 04 de novembro de 2008 marcará a história da humanidade. Neste dia, 66% da população “votante” dos Estados Unidos foi às urnas e com ampla vantagem elegeu o primeiro presidente negro da história do país. Há quase vinte anos atrás os Estados Unidos “alimentavam” com armas o Iraque de Saddam Hussein contra o Irã na Guerra do Golfo. Décadas depois, seu presidente resolve inventar uma estória gigantesca, com muita ficção, para que o mundo inteiro aceitasse ou participasse de uma corrida maluca até garantir seu enforcamento. Mas, em meio a tanta esperança, em plena “revolução democrática” (Arnaldo Jabor), porque citar algo que só lembra o passado? Ah, você pode pensar:“para demonstrar que, como disse o próprio Obama, 'a hora da mudança chegou à América'. A era Bush chegou ao fim”. Engano vosso. De forma superficial, Barack e Saddam têm, ao menos, uma coisa em comum: ambos possuem o sobrenome Hussein e representam povos segregados na histórica estadunidense, os negros e os árabes. Para um, a resposta foi o enforcamento; para o outro, a aclamação mundial. Calma, ávidos defensores do

democrata, não cairemos no discurso desesperado mccaniano e dizer também que Obama tem ligações com algum terrorista. A questão que os une é a facilidade do pessoal lá de cima, os desenvolvidos Estados Unidos, de armar simples mortais, seja através de armas ou de um poder político e confiança antes inimaginável. Exageros aos montes aparecem agora. Os míseros onze anos de política de Barack o fizeram chegar ao posto mais importante do mundo. Um negro chegando ao maior posto do mundo, seria a prova de que “a vitória está ao alcance de todos” (Jornal Nacional). Porém, quem faz parte desse todos? Obama vem de origem familiar pobre, é verdade, mas tem ao seu lado o arsenal de um dos maiores partidos políticos do mundo: um lado da polaridade eleitoral americana- os Democratas- que estão longe de ser um partido que sempre defendeu a igualdade entre os povos. Mas isso é o partido, não o sujeito, certo? Então vamos à parte prática: quais são as propostas de Barack Hussein Obama Jr. que possam gerar uma transformação real para a população, nesta incluindo o mundo inteiro, afoito pela sua vitória? Tirar as tropas do Iraque daqui a cinco, seis meses, modifica a

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vida dos quenianos que tanto vibraram com a sua eleição? Acho que não. Os estadunidenses não votariam em Obama, em plena grande crise econômica, se ele pensasse em dividir com os demais países as riquezas que tanto tentam demonstrar. Não só os votos dos negros e dos desempregados deram-lhe a diferença de mais que o dobro de delegados em relação ao seu adversário. A elite também o escolheu e nós, brasileiros, sabemos muito bem o quão é importante o apoio dessas elites. Perguntem aos banqueiros do Lula. Falando no presidente brasileiro, uma relação pertinente. Brito Júnior, no programa de variedades em que trabalha, afirmou que o resultado eleitoral era a realização do sonho de Martin Lutter King, da união entre brancos e negros, “a chegada dos negros ao poder”. Quer dizer que o Lula no poder, é o operariado no poder? Aproveitem para perguntar isso também aos banqueiros dele. Não há dúvidas que Barack H u s s e i n O b a m a J r. q u e b r a paradigmas ao ser alguém de cor negra se tornando presidente de uma das nações com imenso apartheid social. Assim como não haverá dúvidas, isso o futuro nos dirá, a quem as suas decisões realmente servirão. Perguntem aos b a n q u e i ro s , d e s t a v e z a o s americanos.


Shuellen Peixoto

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os últimos meses os jornais estão recheados de notícias sobre a economia mundial, notícias estas que têm assustando a todos.Trata-se da falada e assoladora Crise Financeira! Muitos economistas têm afirmado que esta é a maior crise dos últimos anos, há quem afirme que é ainda maior que a crise de 1929. Como não podia ser diferente, o país que é o centro da economia mundial, os Estados Unidos, tem sofrido graves conseqüências. O american way of life não é mais tão encantador quanto já fora um dia.As taxas de desemprego neste país estão cada vez mais altas, chegam a média de 6,5 %, é a mais alta taxa dos últimos anos. A média de dívidas do cidadão norte-americano é de 139% da sua renda. Já endividadas, muitas pessoas ainda correm o risco de perder seus empregos ou ter seus salários rebaixados, o que é permitido pela legislação do país. Além da redução dos direitos trabalhistas, os países atingidos (sim, porque a crise é mundial, por mais que se queira negar, não atinge só os Estados Unidos) reduzem também a atividade industrial, há uma queda no consumo, férias coletivas, redução das exportações etc. A crise norte-americana atingiu também o mercado imobiliário, com a baixa nas vendas e a desvalorização é possível ver as pessoas indo às ruas vender casas, atos que remetem a feiras livres facilmente encontradas em países subdesenvolvidos. As bolsas de valores têm operado em constante queda, os maiores bancos do mundo estão em ameaça de falência constantes. Chegando a ser necessária a aprovação de um pacote de salvamento dos bancos pelo governo norte-americano, de trilhões de dólares, que não conseguiu resolver muita coisa. É bom ressaltar que com menos que isso, poderíamos acabar com a fome no mundo, mas, óbvio, o mais importante é salvar os grandes bancos da falência. Apesar das constantes tentativas do Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, em negar que a crise chegaria ao Brasil, a exemplo de afirmações como “A crise dos EUA não atravessou o Atlântico, por isso não chegou ao Brasil” (talvez nosso amado presidente deva estudar um pouco mais de geografia...), sim, a crise chegou.A economia brasileira já apresenta sinais de desaceleração. O primeiro mercado brasileiro a ser atingido foi o automobilístico, que vinha batendo recordes de produção e vendas. Em outubro, o setor já apresentou redução de 11% nas vendas em relação a setembro. A produção já começou a diminuir. Grandes empresas do setor automotivo, como General Motors, Fiat, Ford,Volkswagen e Scania, já anunciaram férias coletivas, redução de produção e suspensão de investimentos, o que afetará milhares de trabalhadores brasileiros. Para quem ainda nutria alguma esperança de que Lula governa em prol da classe trabalhadora, a crise trouxe a prova cabal do contrário. O Governo brasileiro também já anunciou um “super” pacote de salvamento dos bancos e empresas privadas. O principal ponto do pacote está na Medida Provisória 443. Ela permite que os principais bancos estatais, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal comprem ações de instituições em dificuldades. Qualquer semelhança com a medida recentemente adotada pelo governo britânico para salvar os bancos da Inglaterra não é mera coincidência. Este desespero em aprovar pacotes de salvamento dos bancos pelos governos mostra a gravidade desta crise econômica, que é muito profunda e tem a ver com a própria lógica do capitalismo. Em 1929, na Grande Crise, o movimento operário levantou a cabeça, fez grandes greves que serviram, inclusive, para criar um movimento sindical forte. É assustador para a burguesia que explosões sociais e sindicais voltem à tona, em um momento de tão grave crise financeira. Sabe-se que um novo levante da classe trabalhadora norte-americana ou, pior, mundial, pode abalar os alicerces do sistema capitalista. Neste momento, nada mais atual do que os escritos de Karl Marx há mais de 150 anos, no qual ele afirmava “Agora nós temos a possibilidade. A revolução proletária só será possível na esteira de uma soberba crise econômica. Uma é tão certa quanto a outra.” . Esperamos que sim!

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A maior parte dos portadores de TOC está ciente de suas obsessões, no entanto é difícil se desvencilhar delas.

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a lista dos distúrbios psiquiátricos mais freqüentemente encontrados, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ocupa a quarta posição, atingindo pelo menos 2% da população mundial. Quem sofre de TOC carrega consigo um determinado leque de pensamentos e rituais que consomem tempo e afetam as atividades do dia-a-dia.A doença mantém o cérebro envolvido profundamente em uma necessidade a qual deve ser cumprida à risca no intuito de aliviar sensações como ansiedade, nojo ou desconforto. Estima-se que 400 milhões de brasileiros são portadores de TOC. Movidas pela vergonha, muitas vítimas ainda escondem a enfermidade por reconhecerem que seus hábitos não possuem sentido algum. O fato de não obter sucesso na luta contra certo tipo de pensamento é motivo de sofrimento para quem sofre do transtorno. Mais graves ainda são os casos de TOC sem crítica - ou TOC sem insight – onde o tratamento é mais complicado, pois o indivíduo não reconhece em si as obsessões e as compulsões. Os temas obsessivos são variados, visto que surgem a partir de um conjunto de idéias, imagens, medos ou preocupações aparentemente sem significados para os portadores do TOC. As manias mais freqüentes são as de limpeza e contaminação (por sujeira e doenças), verificação, pensamentos religiosos, sexuais, obsessões com simetria e com colecionismo. Já as compulsões são comportamentos repetitivos que ocorrem em resposta, ou não, a uma obsessão.As mais comuns são as de limpeza e lavagem, verificação, contagem, ordenação e arranjo, rezar e colecionar.

estrelado pelo ator norte-americano Jack Nicholson. Na trama ele vive o escritor Menvin Udall, freqüentador assíduo de um restaurante que faz questão de sentar na mesma mesa e ser atendido pela mesma garçonete todos os dias. Suas manias incluem carregar consigo seus próprios talheres e a relutância em pisar no rejunte entre duas lajotas, pois pensava que isso podia lhe trazer grande azar. Outra produção cinematográfica que faz alusão ao transtorno é o filme O Aviador (2004), dirigido por Martin Scorsese. Interpretado por Leonardo di Caprio, Howard Hughes é um jovem milionário que investe na indústria do cinema e é apaixonado por aviação.Apesar da carreira bem sucedida, o aviador passa a perder o controle de si mesmo por conta de seu transtorno obsessivo-compulsivo. Lavar as mãos até sangrar, repetir centenas de vezes a mesma frase são algumas de suas obsessões retratadas no filme. O caso mais recente de TOC no mundo dos famosos é o do jogador de futebol inglês, David Beckham. Em rede nacional, ele admitiu sofrer do transtorno que o faz obcecado por simetria. A doença o obriga a pôr os objetos em linha reta ou em pares. Ele organiza as garrafas de refrigerante na geladeira simetricamente. Se o jogador percebe que existem três garrafas, por exemplo, ele esconde uma delas dentro de um armário para que fique fora do seu campo de visão. No Brasil, algumas personalidades já sofreram com o distúrbio, como o cantor Roberto Carlos. Seu pavor a cor marrom, a obsessão pelo azul e outras manias como entrar e sair pela mesma porta são conhecidas nacionalmente. O cantor chegou ao ponto de excluir do seu repertório uma das suas músicas mais consagradas, como “Quero que tudo vá para o inferno”, para não ter que pronunciar palavras que ele julgava relacionadas ao mal.A ciência fez com que o Rei desse conta de que ele não era supersticioso mas sim, vítima de TOC. Luciana Vendramini é outro exemplo de quem conseguiu controlar as compulsões e retornar à vida normal. No auge da doença, a ex-paquita ficou quatro anos sem

TOC e a mídia Nota-se que hoje em dia a divulgação sobre o TOC nos veículos de comunicação tem crescido, abrindo espaços para esclarecimentos e discussões sobre o assunto.A abordagem sobre a doença foi parar nas salas de cinema em 1997, com o filme Melhor é Impossível,

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Cynthia Ferreira


praticamente sair de casa. Em entrevista a ISTOÉ,Vendramini relatou que chegou a permanecer dez horas embaixo do chuveiro, provocando feridas em todo o corpo.“Foi um inferno, morte em vida. Se na minha mente se abrisse o ciclo de que para desligar a água quente do chuveiro eu tinha de ouvir o barulho de um lápis caindo, enquanto não ouvisse mentalmente esse barulho eu não fechava a t o r n e i r a . Ninguém conseguia me tirar dali”, desabafou.

TOC ou não? Eli Aquino

De acordo com a doutora Jussara Melo Vieira, especialista em Psiquiatria e perita clínica-geral do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), os sintomas obsessivos são comuns na população em geral. Organizar as roupas conforme a cor de cada peça, verificar mais de uma vez se a porta está realmente trancada, entre outros rituais, podem até se revelar como métodos produtivos e práticos. São manifestações aceitáveis que não causam sofrimento e não geram incômodo algum.“O TOC em si só afeta a vida de uma pessoa que só chega ao trabalho caminhando em uma determinada linha da calçada por pensar que algo de mal irá acontecer se aquilo não for feito”. Para a psicóloga e professora do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac), Kátia Regina Silva, o tratamento psicoterápico é fundamental. “Nós enquanto psicólogos recomendamos a psicoterapia. Os médicos, por sua vez, também recomendam o uso de determinados medicamentos, dependendo dos sintomas”, argumenta. A associação entre duas as modalidades (terapia cognitivocomportamental (TCC) e medicamentos - geralmente os antidepressivos e ansiolíticos) apresenta resultados satisfatórios na grande maioria dos casos. Visite o site da Associação de Portadores de Síndrome de Tourette,Tiques e Transtorno Obsessivo Compulsivo ( A s t oc ) : www.astoc.org.br para obter maiores informações sobre a doença. O site também fornece informações sobre onde procurar tratamento, seja na rede de saúde pública ou particular.

Cartilha alerta para uso excessivo de ervas medicinais.

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uem nunca na vida indicou algum chazinho para uma dor na cabeça, uma tontura ou até mesmo curar um resfriado? O velho chá recomendado por nossas mães e avós é alvo de estudo para que se saiba aproveitar o que a natureza oferece de melhor. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população utiliza remédios naturais ou faz uso da chamada medicina popular para tratar doenças. O que pouco se discute, no entanto, são os riscos da ingestão excessiva das infusões preparadas com ervas, que podem ir de uma dor de cabeça a danos em órgãos vitais. A falta de conhecimento da população em relação ao tema chamou a atenção do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de

Marcos Filipe Sousa Botucatu, que baseado em análises, preparou uma cartilha para alertar sobre os principais efeitos colaterais das ervas mais consumidas no país. Um dos objetivos dos pesquisadores é fazer com que a população saiba como tirar melhor proveito dos princípios ativos das plantas. Como exemplo, cita o urucum, que tem propriedades antioxidantes conhecidas, mas que, se levado à fervura, libera toxinas. Eles explicam que para utilizá-lo com segurança, é preciso deixá-lo em água fria por um tempo. Outro fator importante, quase sempre desconsiderado por quem busca os chás para tratamento, é a forma como a erva foi plantada. É preciso analisar o tipo de solo, fator que interfere, assim como o uso de agrotóxicos e a época de colheita. Também é preciso saber se é melhor usar a erva seca ou fresca, as folhas ou as flores. No Centro de Maceió e em algumas partes da periferia é comum vermos barracas de

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vendedores de ervas, para as mais diferentes situações. É pensando no controle e no uso terapêutico dessas plantas que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pretende lançar para consulta pública uma lista com 51 espécies de plantas que poderão ser comercializadas como er vas medicinais. A resolução regulamentará a notificação de espécies vegetais, com indicações terapêuticas baseadas na literatura científica. Como, até o momento, as ervas para chás comercializadas no país são regulamentadas como alimentos, não podem apresentar indicações terapêuticas nas embalagens. Aqui em Alagoas ainda não há estudos específicos sobre o assunto, mas um dos objetivos da Anvisa é fazer um elo com as vigilâncias s a n i t á r i a s , u n i ve r s i d a d e s e secretarias de saúde para que sejam feitos estudos específicos em cada local, visto que existem plantas que são encontradas em algumas partes do país e não em outras.


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Klyvia Lima

SOCIEDADE E COMPORTAMENTO

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atricinha, pseudo-intelectual, comunista, emo... Não importa se você se enquadre ou não dentro destas “categorias”. A própria sociedade já o faz por você. Esta característica da humanidade – que às vezes de humana não tem nada - de rotular e subjugar umas às outras existe e persiste há muito tempo, resultando em absurdos preconceitos que infelizmente se tornam mais comum a cada dia que passa, além de contribuir quase que totalmente para a formação de uma sociedade hipócrita e retrógrada. Entender esta necessidade que as pessoas têm de enquadrar umas às outras em algum estereótipo (seja ele social, econômico, religioso, ou até mesmo físico) é deveras complicado, e eu diria que é até um tanto quanto subjetivo. Cada um é criado e educado de acordo com os valores e crenças que nos são passados por hierarquia pela nossa família, e por mais que nos seja ensinado que o mundo é um só, que todos somos iguais e tudo isso que já estamos cansados de saber, não cedemos à tentação e estamos sempre aptos a julgamentos precipitados, o que é lamentável. Entretanto, é inegável o fato de que é muito mais simples para nós analisarmos uma pessoa à primeira vista sem nos importarmos muito com os pormenores (atitudes, comportamento etc.) da mesma e seu interior. Afinal, nem sempre se dispõe de tempo (ou interesse) necessário para se conhecer a fundo uma pessoa, até porque às vezes temos coisas muito mais importantes a fazer do que nos dar ao trabalho de conversar com pessoas desconhecidas, e é justamente a í que se torna mais cômodo tirar conclusões baseadas num primeiro contato dos olhos. Neste ponto, a aparência é um ponto chave para julgamentos e pré-concepções: por se tratar de uma espécie de “cartão de visita” personificado, ela é a primeira coisa que nos chama atenção, dando

margem para nossas primeiras impressões. É também através dela que as pessoas são classificadas como belas, feias e tantas outras desinências estéticas, e de uma forma ou de outra até o nosso caráter é julgado, sem muitas vezes ter importância o fato de sermos algo que está além do que as aparências possam mostrar. E o resultado disso são os tantos rótulos que a sociedade faz questão de criar, o que é assaz inútil, visto somos superiores qualquer julgamento infundado. Sinto que viver neste mundo hipócrita, sujo e superficial não deveria me surpreender nem me indignar, mas continuo achando tudo isto lamentável. A preocupação excessiva em ser aceito e mostrar aos outros algo que você quer que pensem que você seja nada mais é do que uma praga, a qual estamos todos sujeitos, e pelo andar da carruagem, isto não vai acabar nunca. Ou pelo menos não enquanto tomemos consciência do que realmente importa é o que somos. Julgar, observar e rotular são características inerentes a todos nós. Porém, é importante tomar conhecimento de que estas atitudes não são muito coerentes e nem devem ser motivo de orgulho para ninguém, pois mais vale conhecer e respeitar as pessoas pelo que elas realmente são, e não por meras aparências físicas ou por valores absurdos que a sociedade coloca como imprescindíveis. Essa conscientização talvez seja o ponto chave para tentar sanar este infortúnio da humanidade: não dá para salvar ao mundo, mas pelo menos, já é um grande passo para sermos cidadãos mais humanos, sérios e mais preocupados com problemas mais relevantes e menos superficiais.


Anny Rochelly

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deve aos recentes concursos que estão sendo realizados pela Ufal e que trazem bibliotecários concursados para o ambiente. Os concursados se concentram na área administrativa e da Tecnologia da Informação, o que não é o suficiente Larissa Wilson para o funcionamento pleno da BC. É óbvio que a carência de funcionários efetivos ainda é muito grande, mas as necessidades estão sendo supridas aos poucos, principalmente com a ajuda dos bolsistas. Estes últimos chegam a somar 52. O número ainda é bem maior que o dos funcionários efetivos, segundo a diretora. Os bolsistas realizam atividades básicas como serviço ao usuário e tratamento técnico do acervo e contam com o auxílio financeiro da bolsa-trabalho oferecida pela Pró-Reitoria Estudantil (Proest).

Biblioteca Central (BC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) é um ponto de encontro entre os alunos. Ela se configura como um elemento essencial dentro do cenário acadêmico por ser um setor que alunos de todos os cursos freqüentam com assiduidade. A facilidade no empréstimo de livros, o ambiente propício para o estudo e a diversidade de títulos, tanto com fins acadêmicos como com fins de lazer, são aspectos que são considerados no momento em que os alunos falam sobre a BC. Por tudo isto, é importante entender o funcionamento interno da instituição, assim como sua atual situação no ambiente universitário. Para falar sobre o assunto, ninguém melhor do que a diretora do Sistema de Biblioteca da Ufal, a bibliotecária Cristiane Cyrino Estevão Oliveira (38). Cristiane é formada em Biblioteconomia na Ufal e está na direção da Biblioteca desde 2005.

Projeto de automação Panorama geral Desde que Cristiane Cyrino assumiu o posto, o sistema de automação da Ufal começou a ser implantado e, segundo a diretora, até hoje não foi concluído. O objetivo da automação é que todo o acervo esteja inserido no sistema até o final do ano que vem.A dificuldade em registrar todos os títulos se deve ao fato de que, a cada ano, inúmeros livros estão sendo adquiridos por causa do aumento da verba destinada à aquisição de títulos novos. Isso exige uma maior atenção em relação a estes mesmos livros, ao passo em que os antigos são deixados para um registro no futuro. A estimativa é de que os livros antigos sejam catalogados até o segundo semestre de 2009. Segundo Cristiane, o aumento da verba destinada à aquisição de títulos novos é um avanço. De 1996 até 2003, a verba destinada para este fim era mínima, quase que inexistente. Já a partir de 2005, essa verba recebeu um acréscimo de cerca de 100 mil reais a cada ano: passou de R$ 350 mil em 2005 para R$ 450 mil em 2006, logo depois de R$ 450 mil para R$ 550 mil em 2007 e espera-se cerca de R$ 650 mil este ano. Portanto, os títulos novos vêm superando os antigos progressivamente.

Larissa Wilson

A Biblioteca Central apresenta o seguinte horário de funcionamento: de segunda à sexta-feira das 7h às 22h e das 8h às 14h aos sábados. O quadro de funcionários da Biblioteca é um ponto que está evoluindo com o passar do tempo, especialmente quanto à problemática da grande quantidade de prestadores de serviço no local. Se antes o número chegava a 25, hoje o quadro é de 15 prestadores. Isso se

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Larissa Wilson

Bibliotecas setoriais

Sugestão de livros novos

A Biblioteca Central da Ufal é a única que não é considerada setorial.Todas as outras, inclusive nos pólos de Arapiraca, Palmeira dos Índios, Penedo e Viçosa, são consideradas setoriais. Em Maceió, existem quatro bibliotecas setoriais: a Biblioteca Setorial do Mestrado de Letras, a Biblioteca Setorial de Matemática, a Biblioteca Setorial de Química e a Biblioteca Setorial de Física. Fora do campus AC Simões, são três as Bibliotecas Setoriais: a do Centro de Ciências Agrárias (CECA), localizada no Campus Delza Gitaí, na BR-104; a do Centro de Ciências Biológicas (CCBI), localizada na Praça Afrânio Jorge, Centro; e a do Espaço Cultural, localizada na Praça Sinimbu. Já no pólo de Arapiraca, são onze os cursos ofertados: Administração, Agronomia, Arquitetura, Biologia Licenciatura, Ciência da Computação, Educação Física Licenciatura, Enfermagem, Física Licenciatura, Matemática Licenciatura, Química Licenciatura, Zootecnia. Em Palmeira dos Índios, são dois os cursos: Serviço Social e Psicologia. Em Penedo, também são dois:Turismo e Engenharia de Pesca. Já em Viçosa, só há um curso ofertado, o de MedicinaVeterinária. De acordo com Cristiane Cyrino, os cursos são selecionados em conformidade com a realidade de cada região e, no caso de Penedo, os cursos são novos, pois em Maceió ainda não existem. Em relação aos critérios de seleção para um curso ter uma biblioteca setorial, a diretora fala que não é tão fácil ser aprovado. Precisa seguir todo um processo: primeiro, o curso deve ter uma quantidade mínima de acervo próprio; segundo, a unidade deve ser responsável pela estrutura física, pelos equipamentos, pelos recursos humanos etc.; terceiro, o pedido deve ser feito pela unidade e aprovado pelo Conselho Universitário (Consuni / Ufal). Segundo ela, a tendência que se observa nas setoriais existentes é que elas estão, aos poucos, se incorporando às centrais por meio do deslocamento dos livros das unidades para a Biblioteca Central.

Para beneficiar o maior número possível de alunos, a Biblioteca Central já há algum tempo disponibiliza em seu Sistema a sugestão online de livros. Este ano, a sugestão foi antecipada para novembro e deve se estender até março, o que deverá agilizar o processo de aquisição de livros e ainda o registro dos títulos antigos. Nos anos anteriores, as sugestões eram abertas logo no início do ano, em janeiro, e o processo de compra durava quase até o final do ano. Já para as compras de 2009, as sugestões foram antecipadas.Alunos, funcionários e professores dos campus de Maceió, os do interior e das bibliotecas setoriais já podem registrar os seus pedidos acessando o sistema da Ufal. Segundo Cristiane Cyrino, as sugestões de livros são muito importantes para a atualização do acervo da Biblioteca Central. Em 2005, por exemplo, 1200 sugestões de títulos foram registradas. Já em 2007, cerca de 5000 sugestões de títulos foram feitas, o que comprova o sucesso na implantação do sistema e o aumento da participação da comunidade acadêmica no desenvolvimento da Universidade. “É muito importante que os alunos participem dessa construção da Biblioteca Central, pois nós estamos tentando atender os pedidos na medida do possível. Mesmo que não seja o número pedido, compramos menos exemplares, mas estamos fazendo o melhor para satisfazer todos os cursos. Como a verba para a aquisição vem aumentando, precisamos de mais sugestões a fim de aproveitarmos o dinheiro totalmente”, afirma a entrevistada. Os cursos que mais pedem livros, segundo a diretora, são os de Direito e Arquitetura, com cerca de 500 pedidos num único período de sugestão, ao passo que existem alguns cursos que só sugerem dois livros no mesmo período.

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Bruno Martins

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e abril de 2007 para cá, muita coisa aconteceu no ambiente das universidades federais. Um decreto que mudaria para sempre a educação superior no Brasil ia se apresentando aos poucos: o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Atrelado ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Reuni promete a ampliação das vagas, além de um melhor aproveitamento da estrutura física e dos recursos humanos das universidades. Até aí parece tudo lindo, não acham? Analisemos aos poucos as propostas e aí você pode tirar suas conclusões. O aumento de vagas vem acompanhado de uma manutenção no número de professores. Os concursos são feitos mais para preencher carências do que para a ampliação do quadro de docentes. A média atual de aluno por professor chega a 12. Com o Reuni, este número deve aumentar para 18. Não dá para pensar nessa proposta sem considerar que já temos muitos cursos defasados e que um aumento de proporção só parece uma forma de sucatear as universidades. A aluna de Comunicação Social, habilitada em Jornalismo, e que faz parte da coordenação geral da gestão do DCEUfal "Amanhã vai ser outro dia!", Shuellen Peixoto, acredita que com este programa "a universidade vai sendo transformada em grandes escolões profissionalizantes para que o governo possa propagandear que conseguiu formar milhares de profissionais e colocar mais pessoas na universidade".A maior prova disso é o primeiro parágrafo do primeiro artigo do Decreto que diz: "o programa tem como meta global a elevação gradual da taxa de conclusão média dos cursos de graduação presenciais para noventa por cento". Ou seja, as universidades que já aderiram assumirão esse compromisso de formar noventa por cento dos alunos aprovados em seus vestibulares.

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Outro problema é a forma como o projeto foi aprovado em diversas universidades. No caso da Ufal e do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes (ICHCA), que agrega o curso de Jornalismo, a aprovação deveria ter vindo por votação do colegiado de cada curso que faz parte do órgão; caso a maioria decidisse pela adesão ao programa, esse seria o voto do diretor do instituto no Conselho Universitário (Consuni). Mas não foi isso o que ocorreu. O diretor, à época, passou por cima das instâncias acadêmicas e votou a favor do Reuni. Para mostrar que essa realidade está chegando, já no vestibular deste ano o curso de Jornalismo teve suas vagas dobradas e ao invés de uma turma ingressar na universidade, serão duas. Isso sem falar que o quadro de professores não será ampliado. Além destes problemas, a adesão de cada instituto ou faculdade ao projeto no Consuni foi extremamente conturbada. Os alunos que eram contra protestaram pacificamente; entretanto, foram tratados como criminosos.Alguns deles vêm sofrendo processos dentro e fora do âmbito acadêmico, com a possibilidade de serem jubilados ou até presos. Shuellen, que faz parte deste grupo de estudantes que responde a processo, argumenta. "A reitoria vem aplicando um processo de criminalização dos lutadores que se colocam contra o Reuni. Esta é uma batalha que o DCE pretende travar também. Não podemos deixar que os estudantes sejam tratados como criminosos por lutarem por educação de qualidade". Ficam algumas perguntas: se o Reuni é um programa que vem apenas trazer benefícios à educação do país, por que tanta problemática para colocá-lo em funcionamento? Por que se passa por cima do debate dentro da instância da universidade para que o projeto seja aprovado? Por que um estudante que luta por uma educação melhor para o seu país é tratado como criminoso e sofre processos? A reforma universitária tão desejada desde o governo FHC parece ter chegado. As informações estão aí. Tirem as suas conclusões e nunca deixem de discuti-las com a sociedade.


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Texto: Larissa Wilson Fotos: Larissa Wilson & Pei Fang Fon

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m meio a tumultuada vida urbama, uma realidade pouco conhecida pelos habitantes da cidade de Maceió revela-se pelas lentes da máquina fotográfica. Uma mistura de surrealismo com uma essência bucolica, mais a destreza do olhar, é o que encontramos no ensaio fotográfico “À sombra do silvestre”. A calmaria do Parque Municipal de Maceió, localizado no bairro de Bebedouro, torna-se presente dentro de cada obeservador. Uma sensação de paz e melancolia é provocada primeiramente. A escolha pelo preto e branco tornam as fotografias mais impactantes e leves ao mesmo tempo, sem contar a riqueza dos sutis tons de cinza que se destacam, subvertendo as cores. Nesse instante, a riqueza da natureza remete o olhar para caminhos não vistos antes. O uso da contra-luz foi essencial para a valorização das formas.A beleza do contorno das folhas e da silhueta dos troncos transformam as fotografias em verdadeiras estampas.A luminosidade natural possibilita um tom acinzentado, pálido, que sugere um ar de melancolia e paz. A falta de cor torna a imagem registrada mais distante do olhar (colorido), proporcionando ao observador um entendimento que vai além da realidade. Pois, diferente da fotografia colorida, a fotografia em preto e branco transmite as nuances sutis das mudanças de tons, instigando a imaginação de quem vê. O aproveitamento da luz e da sombra foram bastante explorados. O pedacinho da Mata Atlântica foi retratado em detalhes nas fotografias; detalhes esses que na maioria das vezes passam despercebidos, mas que são encantadores quando observados em suas particularidades. As marcas nas folhagens provocadas pelo tempo ganham uma nova interpretação. O emaranhado de galhos e troncos compõe o abstrato. Outra característica marcante nas fotografias foi a escolha do próprio tema, que remete ao bucolismo. A natureza intócavel e o clima silvestre encantam pela tamanha simplicidade. As imagens podem ser consideradas como pequenas molduras da vida simples, fazendo um verdadeiro contraste com a realidade revelada a quilômentros dali. À sombra do silvestre é um ensaio fotográfico que tenta despertar o olhar humano para a preciosidade da natureza e para todas as pequenas coisas que estão inseridas na conturbada rotina vivida nos centros urbanos.


Larissa Wilson

Pei Fang Fon

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Pei Fang Fon


Larissa Wilson

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esde que o homem descobriu que era possível registrar imagens sem usar as técnicas mais artesanais, como a pintura, houve uma necessidade de fazer algo diferente. No entanto, o pictorialismo, iniciado na França, tinha grande influência para a geração que nascia a partir dali. No fim do século XIX já eram vistas as primeiras fotografias, que vieram a contragosto de muitos que lhe atribuíam à imitação da pintura ou até crenças populares de retenção de alma. Entretanto, é sabido que hoje este meio tornou-se o mais “democrático” de exposição de idéias e novas tendências. Neste mesmo anseio de novas descobertas, crescia o sentimento de buscar parâmetros opostos aos que já existiam e as discussões sobre a fotografia aumentavam conforme a sua utilidade. A veracidade que é dada a esta nova arte tinha um peso muito maior do que se podia prevê e hoje se tomou outros rumos que vão além da percepção humana.

uma nova fase para a fotografia estavam nascendo. Tudo começou na “Loja do Gomes”, de Antônio Gomes de Oliveira e Lourival Bastos Cordeiro. As reuniões aconteciam geralmente no final da tarde e houve uma necessidade de ampliar o que se discutia. E assim, criou-se o fotoclubismo. A princípio, toda a base ainda era do pictorialismo, o que foi se modificando de acordo com a visão modernista de cada integrante que compunha o FCCB. Um dos grandes nomes é o de José Yalenti, que utilizou das formas da geometrização para transformar os conceitos antigos e mostrar que era possível criar novos moldes para as imagens, de forma a não mais se ater ao passado. Outro nome de grande destaque é o de Thomas Farkas, que fez uso da contraluz na maioria das suas fotos e ângulos de tomada que favoreciam diversas interpretações. Mais um fotógrafo que não deve ser esquecido é German Lorca, que, assim como Farkas, usou a contraluz para obter suas criações, mas teve enorme destaque na publicidade. Para a fotografia é satisfatório enxergar o que não é visível ao olhar humano comum, seja através de outros métodos ou até da sua forma mais radical, o fotograma – que consiste em não usar o aparelho fotográfico, a recusa deste elemento em obter formas apenas com a sensibilidade do papel para a impressão

FCCB Um grupo no Brasil fez grande sucesso ao lançar conceitos e maneiras de fotografar: o Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB) é um dos grandes expoentes quando se fala na fotografia. Desde a sua fundação em 1939, em São Paulo, as perspectivas de

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Larissa Wilson

da foto pela luz. Muitos disseram que isso é loucura, no entanto, é válido como mais uma ferramenta. Contudo, pode o fotoclubismo ser considerado como arte? O conceito desta é bastante abrangente. Voltar ao início seria desgastante e a vontade da vez era mudar. Se arte é mudança, então, o fotograma é arte.

O Abstracionismo e o Fotograma Ser ou não ser arte? Eis a questão de muitos fotógrafos ligados ao tradicionalismo. O uso de aparelho para a captação da imagem.Ativar a sensibilidade do observador ao ver o produto. Interação com os objetos... Algumas práticas elaboradas contribuíram para a percepção mais avançada. O uso de imagens abstratas só aumentou a curiosidade dos que buscavam um novo olhar e meios para produzir sem a necessidade do aparelho fotográfico. Com esse desenvolvimento na pesquisa abstrata, a negação às técnicas tradicionais foi inevitável. No entanto, os mais conservadores mantiveram-se sem perder a objetividade. O prazer de ver o mundo com os próprios olhos sem a interferência de qualquer meio que facilite o enxergar apriorístico do homem era a sensação mais procurada. Apenas com a utilização da luz, do objeto e do papel fotográfico era possível obter formas, um novo entendimento, uma nova perspectiva de criação originada através da radicalização dos métodos mais usuais. O fotograma é uma característica única de não submissão ao aparelho. É a simples forma de ter uma imagem com a interferência da luz e na sensibilidade do papel. Esta foi a primeira prática dita fotografia que pôde ser registrada. Só depois é que ganhou reconhecimento e as técnicas foram aprimoradas. Mesmo com toda a esperança de construir um olhar diferente do que já existia, o fotograma se tornou repetitivo e o seu registro sem vida. A natureza por si só transmitia informações que poderiam ser captadas pelo olhar do fotógrafo consoante ao seu conhecimento. O fotograma apenas restringe ao campo da idéias, o que não traz uma reflexão real. Assim, os objetos, com forma ou não, permaneciam simbolicamente no entendimento confuso e solitário. Cultura e Sociedade A fotografia teve seu auge, principalmente na cidade de São Paulo, devido às grandes transformações econômicas que vivia o país com o pós-guerra. Com o crescimento financeiro, a iniciativa privada foi uma das peças chaves para o desenvolvimento cultural no Brasil. O Museu de São Paulo (MASP) é a prova deste período que contribuiu bastante para a difusão da fotografia no Estado. A produção do período estava nas mãos dos industriais paulistas que passaram a interferir na cultura, o que antes faziam os intelectuais e artistas. No Foto Cine Clube Brasileiro constava os industriais (Marcel Giró, Gaspar Gasparian e João Bizarro Nave Filho); juristas e advogados (Rubens Teixeira Scavone e Eduardo Salvatore); engenheiros (José Yalenti); arquitetos (Guilherme Malfatti); médicos (Alfio Trovato e Herros Cappello); bancários (Geraldo de Barros) e contadores (German Lorca). De certa forma, a contribuição da fotografia para os registros de um Brasil que muitos conhecem através da história vem para reforçar muitos acontecimentos que se tornaram importantes para a memória do país. Apesar de algumas restrições que ocorreram, tais fatos não foram o suficientes para apagar um passado de manchas e de glórias.

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Anderson Santos

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arde de sábado, 01 de novembro de2008. Pela primeira vez em sua história, o maior estádio de Alagoas recebe uma partida oficial de futebol feminino relativa a um torneio organizado pela CBF. O Cesmac/AL enfrentava o Lusaca, time da pequena cidade de Dias D'Ávila/BA, pela primeira fase da segunda edição da Copa do Brasil da modalidade. O que poderia ser um evento histórico, quase que passou despercebido devido aos problemas recorrentes ao futebol feminino. Para começar, o time do Cesmac só soube que iria disputar a Copa do Brasil doze dias antes da partida. Devido a isso teve que se juntar com outro time, o União Só Esporte, para montar o elenco a fim de treinar, quer dizer, tentar treinar. Foram apenas três treinos em uma semana, dois realizados no sábado anterior ao jogo e um no domingo, porque a faculdade não tem campo. Quase não conseguiam um. Além destes treinamentos, fizeram o “reconhecimento do gramado” do Estádio Rei Pelé na sexta-feira, onde ficaram concentradas para a partida que ocorreria no dia seguinte. Não obstante, segundo o que apuramos, a faculdade privada alagoana que dá o nome ao time apenas estampa o seu símbolo na camisa, pois em pouca coisa ajuda financeiramente. O time fora montado ao ficar com o que antes era do Dínamo, outro time de futebol feminino que duelava com o Esporte Clube Alagoas (ECA) o título de melhor equipe feminina de Alagoas no final da década de 90.

Possível irregularidade Para piorar a situação, segundo dona Esmeralda Tavares, tesoureira do ECA, o time alagoano, indicado pela segunda vez para representar o estado no torneio, não poderia ser escolhido porque não está inscrito na Federação Alagoana de Futebol (FAF), algo obrigatório para qualquer disputa oficial. Segundo dona Esmeralda, apenas três equipes estariam inscritas, das quais o ECA é o único a manter as mensalidades pagas. Sobre isto, o único torneio existente no Estado para a disputa do futebol feminino é organizado pelo Sesi e pela TV Gazeta. O último Campeonato Alagoano da modalidade ocorreu há já longínquos sete anos. A escolha foi feita pelo time ter vencido o Torneio Sesi/TV Gazeta, mesmo sem que ninguém soubesse que o título daria ao vencedor este direito. Partindo para a equilibrada disputa para o cargo de presidente da FAF realizada no ano passado, segundo a coordenadora do ECA, o time não votou em Gustavo Feijó, candidato eleito.Talvez esteja aí a perseguição ao time alagoano que mais venceu partidas e títulos no futebol feminino.

Futebol feminino alagoano estréia em torneio nacional cercado de problemas, reflexo da precária organização do esporte bretão no Estado.

Clima de jogo Apesar de a entrada ser franca, a divulgação via imprensa foi a mínima possível. Além do mais, no horário do jogo apenas uma entrada, a que dá acesso ao Museu dos Esportes, estava disponível para que os torcedores adentrassem. Nem parecia que teria um jogo de futebol no Estádio Rei Pelé. Mesmo assim, a partida teve um razoável público: cerca de cento e cinqüenta pessoas se acomodaram no setor de cadeiras especiais. A maioria dos quais eram familiares e amigos das jogadoras, incluindo algumas jogadoras de futebol e de futsal de outras equipes locais que muito gritaram para incentivar as colegas. Comparando com demais aspectos de uma partida de Série B, por exemplo, só existiam três policias fazendo a proteção no setor das arquibancadas. Os vendedores também apareceram, além de um carrinho de picolé e um de churrasquinho, um senhor vendia entre refrigerante, água e cerveja - algo que tem sua venda proibida nos estádios de futebol. No campo... O Cesmac venceu o Lusaca por 2X0, com gols de Carol no primeiro tempo e de Lidiane no segundo. O time de Dias D'Ávila (BA) perdeu um pênalti no primeiro tempo e depois disso só teve uma chance de gol. Enquanto que o Cesmac, só no segundo tempo teve cinco chances reais, com uma bola na trave. O time alagoano viajou de ônibus para a Bahia, onde na partida de volta perdeu por 2X0 e na decisão por pênaltis venceu por 4X3. Com esse resultado, o Cesmac fez a preliminar da partida entre CRB e Avaí pela Série B do Campeonato Brasileiro, ao enfrentar o Parnamirim, do Rio grande do Norte – jogo não concluído antes do fechamento desta edição. Mesmo o bom resultado não apaga as dificuldades encontradas, que não são apenas locais. Se os problemas que envolvem o futebol feminino nacional já são imensos, num Estado em que os times masculinos já não andam bem, a situação consegue ser ainda pior. Como nos disse dona Esmeralda no dia da entrevista publicada ao lado, “apoiar é uma coisa, ajudar é outra”. Até mesmo para que não vejamos mais promessas de incentivo após grandes resultados do time de Marta e cia.. Não façamos mais primeiras vezes, passemos ao passos seguintes.

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Na terra da melhor jogadora do mundo, a revista Bula entrevista D. Esmeralda, a maior incentivadora da prática do futebol feminino em Alagoas. Anderson Santos e Pei Fang Fon

futebol alagoano v i ve u m a d a s piores crises de sua história. Clubes com dívidas astronômicas, falta de estrutura e organização e, o ápice da crise, a interdição temporária do Estádio Rei Pelé no início de 2007. Para completar, após 15 anos na Série B do Campeonato Brasileiro, o CRB foi rebaixado. Se o masculino está assim, imaginem o futebol feminino que, mesmo após bons resultados, não recebe o apoio necessário ao seu desenvolvimento profissional aqui no Brasil. Em uma conversa agradável e simpática, a maceioense Esmeralda Tavares Sidrônio, a D. Esmeralda, é tesoureira do Esporte Clube Alagoas (ECA), único clube com time de futebol feminino inscrito na Federação Alagoana de Futebol (FAF). Com um currículo invejável a qualquer clube dito grande em Alagoas, o time que a família de D. Esmeralda gerencia já conquistou vários campeonatos, dentre eles um campeonato internacional, no ano de 2003 em Minas Gerais. Apesar de todas as dificuldades o time ainda resiste com o passar dos anos. A história desta senhora de 70 anos pelo futebol confunde-se com a sua vida e a revista Bula foi conferir suas opiniões, lembranças e indagações. D. Esmeralda fala sobre o seu interesse pelo futebol, principalmente o feminino, seu time do coração e revela suas descrenças e tristezas com o atual cenário esportivo em Alagoas.

.bula| Como surgiu o interesse pelo futebol, em especial, o feminino? D. Esmeralda| Comecei está com mais de vinte anos. As minhas filhas começaram no CRB, mas todos aqui em casa 'é' CSA. Deixamos o CSA de lado, pois já tinha um time feminino se formando. Imploraram para que elas fossem jogar no CRB, fizeram um campeonato e o CRB apanhou do Capela de 14 a zero e o CSA estava formando e já tinha a Dorinha, Noêmia e um monte de gente. Meu marido não queria, mas começamos a ver que minhas filhas tinham futebol e no CSA seriam reservas e como o CRB estava procurando jogadoras seria mais fácil para ser titular. E foi assim que começamos. Cinco anos no CRB, cinco anos no CSA, dois anos sozinhos e dez anos de ECA.

bula| O que significa a sigla do clube, ECA, e qual a função exercida atualmente no time? D.E| Esporte Clube Alagoas. Eu sou tesoureira de um time que não tem um tostão, presidente é o meu esposo, o vice é o meu filho, a minha filha é a volante do time e é a diretora social. O time tem uma diretoria completa, tem um conselho fiscal, tem uma parte deliberativa. .bula|Qual a diferença das jogadoras de antes para as de hoje? D.E| Antigamente as jogadoras eram mais controladas, as mulheres não bebiam da maneira que bebem hoje, não

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farravam’ da maneira de hoje, a filha saía de casa e avisava para onde ia. E quando estão jogando ficam perguntando onde vão beber depois do jogo, se já compraram as bebidas. Antigamente, terminava o jogo, pegavam suas chuteiras e iam para casa. .bula| Atualmente está acontecendo a Copa do Brasil de futebol feminino, por que o time do ECA não está participando e apenas o Cesmac como representante do Estado? D.E| O Cesmac nunca teve time de campo, começou no futebol de salão, parte daquelas meninas jogava no Dínamo. Queria fazer um campeonato alagoano para participar do brasileiro e não tinha time na federação. Junto com o meu filho corremos atrás de time para se filiar à federação. Daí, juntamos alguns times. Mas o Dínamo acabou e chegou uma pessoa do Cesmac, uma aluna de lá e que jogava salão, achou de pôr o patrocínio com o nome do Cesmac, mas nunca arcou com nada, ela era quem bancava tudo. Pegou amizade com as meninas do Dínamo que estavam jogando no time chamado Estrela. E agora o bendito do presidente da federação [Gustavo Feijó] achou por bem no ano passado e nesse colocar o Cesmac, sem ser filiado à federação. Não paga à federação e nunca passou na calçada, ele está pondo o time irregular na Copa do Brasil. Esse direito era nosso, há dez anos que somos federados, ele não tinha o direito de fazer isso, ele não mostrou o comprovante de que o Cesmac era filiado. Ele escolheu e têm duas versões: uma diz que o Cesmac chegou lá e disse que queria participar e outra, o Ronaldo Alves ligou para o meu filho dizendo que era para dar a vez para ele. São três times filiados: o ECA, o Lisbonense e o Grêmio, os dois últimos estão fora de atividade.

8x0. E no fim ganhou o jogo por W/O. A gente não sai para perder. .bula| E o que está acontecendo com o ECA que não tem ganhado títulos nos últimos anos? D. E| Está com três anos que não ganhamos em primeiro por trairagem, amizade e interesse pessoal, não estou condenando a instituição, não sei se eles estão sabendo disso. O Cesmac já me tirou jogadora no meio do campeonato prometendo meia bolsa na faculdade, diploma e outras coisas. Tiraram as melhores jogadoras O pessoal tem com promessas e no final não receberam nada, esse engano, a 'num' tinha nada escrito, e depois dispensaram, o gente não negócio é quebrar o time daqui. É esse o motivo treinou o time que não ganhamos há três anos, mas chegamos às da Marta, a finais.

gente jogou contra o time da Marta. Estávamos em um campeonato e não estávamos na mesma chave que a dela.Viemos encontrar o time dela no mata-mata. Sempre que o time não tinha jogo ficávamos olhando o jogo do time da Marta, que ganhava todos os jogos de goleada e nós .bula| Qual o sentido do atual presidente também.

da Federação Alagoana de Futebol (FAF) ter feito isso? D.E| Isso é o que o Gustavo Feijó fez, a raiva toda dele é que não votamos nele, muitos clubes aí votaram à custa de dinheiro e eu não quis um tostão nem quero. O meu time é regido pela minha diretoria, pela minha família, eu não quero ninguém mandando, nem dando voto, nem dizendo 'faça o que eu quero, eu comprei o seu voto'.

.bula| E as conquistas que o ECA possui? D. E| Já jogamos em Recife, Dias D'Ávila na Bahia, Uberlândia, Ubá e em Poços de Caldas – 2006 –, em Minas Gerais, participamos de um torneio internacional que tinha time do Equador e do Chile. O primeiro jogo foi 14x0 e o segundo foi

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.bula| Mudando um pouco de assunto, indo para o seu time de coração, o CSA, se o Abel Duarte for efetivado? D. E| Se ele fizer o que ele prometeu, pôr aquela corja todinha para fora, que vive ali sugando o dinheiro do CSA, trabalhar e conseguir pessoas da qualidade dele pode ser que vá. Deixar aquelas pessoas só comendo e desviando dinheiro para tudo que é lado vai acabar com o time. Teve um tempo desses que o time ganhou um dinheiro aí e um diretor pediu emprestado e quando precisou estava na conta de um dos dirigentes. .bula| E as promessas com relação à CBF, desde a medalha de prata conseguida nas Olimpíadas de 2004? D. E| Teve dois e agora é a Copa do Brasil, já para não ter complicação, nem despesas, para não ter gasto demais. Dá aquele tantinho de ajuda, é mata-mata. E esse ano está pior, perdeu por dois gols em casa e não tem a próxima partida. .bula| Saindo de todas essas frustrações, dizem que a Marta já jogou no time da senhora. D. E| O pessoal tem esse engano, a gente não treinou o time da Marta, a gente jogou contra o time da Marta. Estávamos em um campeonato e não estávamos na mesma chave que a dela. Viemos encontrar o time dela no mata-mata. Sempre que o time não tinha jogo ficávamos olhando o jogo do time da Marta, que ganhava todos os jogos de goleada e nós também. O time da gente ganhou de seis ou oito a zero. Ela tinha quatorze anos e jogava com raça, com vontade, igualzinho ao que ela joga hoje. Na época o time dela era a Associação Nossa Senhora de Fátima de Santana do Ipanema. Lembro dela pequenininha e batendo no campo com raiva por ter perdido, desde aquele tamanho que ela mostrava vontade. Igualzinho a hoje.


Pei Fang Fon

C

aminhar, correr, pedalar. Estas são algumas das atividades conhecidas que são praticadas por qualquer pessoa e a qualquer hora e, geralmente, recomendadas pelos médicos como métodos alternativos de manter a forma física e, também, evitar algumas doenças oriundas ou agravadas pelo sedentarismo humano. Certamente você já viu algum grupo de jovens subindo muros ou árvores, na praia ou na praça, sozinho ou acompanhado e ficou impressionado com o que eles são capazes de fazer. Pois bem, uma nova prática está ganhando adeptos pela cidade de Maceió: o Le Parkour. Originado na França por David Belle, o seu maior expoente, ele não é um novo esporte, mas, para os seus praticantes, uma nova arte. Basicamente, o objetivo dos movimentos é superar os obstáculos que existem na cidade como um método de fuga - em caso de emergência - ou puro entretenimento. Mas é preciso estar concentrado para fazê-los, de forma a evitar acidentes, como em qualquer outro exercício físico.

Dentre os vários clãs do Le Parkour encontra-se o grupo “Ybianga”, que possui quinze integrantes, sendo três mulheres. Existente há mais de dois anos, a equipe vem crescendo em meio às dificuldades e à má informação das pessoas que julgam os traceurs/traceuse - nome atribuído aos praticantes - de vândalos do patrimônio público. Inclusive, algumas vezes já foram abordados pela Polícia, que achava que os artistas eram usuários de drogas por andarem em grupos e estarem em construções de casas ou apartamentos praticando a modalidade. A traceuse Ísis Felix lamenta bastante estes fatos, mas acredita no crescimento do Parkour e espera que mais garotas o pratiquem. Para ser um traceurs não é preciso muito: basta ter roupas leves e tênis esportivo. O Le Parkour é uma maneira de equilíbrio entre mente e corpo. Se ambos não estiverem unidos, o traceurs não será capaz de superar os medos que possam aparecer. Além disso, é uma boa opção para a juventude, que precisa extravasar suas emoções, sendo também uma forma saudável e simples de perder massa e ganhar músculos.

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Bruno Martins

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omos bombardeados quase todas as semanas com episódios violentos envolvendo torcedores, jogadores, técnicos e até repórteres. A atitude desses que participam de momentos tão deprimentes é obviamente condenável, mas já paramos para nos perguntar de onde vem tanta ignorância e desrespeito para com o outro? Sinto dizer que nunca vi uma discussão desse tipo na imprensa esportiva. O que pensar ao se ligar o rádio e escutar algo assim: “Vai começar o duelo no alçapão. Os adversários se posicionam cada um em seu lado esperando a autorização. Do meu lado esquerdo temos os bad boys que já venceram todos seus embates, do meu lado direito o saco de pancadas. Soltam-se rojões ao redor, o barulho é ensurdecedor. Começa a peleja. O artilheiro avança, se desvencilhando dos açougueiros. Agora restam apenas ele, o xerife e o arqueiro. Ele dispara um canhão do meio da rua que resvala no animal.A retaguarda solta um balaço para o outro lado onde os adversários batem cabeça, caindo desacordados em campo”. Perguntamo-nos: campo de futebol ou campo de batalha? Termos de violência são utilizados no linguajar futebolístico desde que o esporte começou a ser transmitido nos meios de comunicação de massa. Sempre que não se pode fazer presente ao evento, os fanáticos torcedores arrumam modos de acompanhar as partidas, seja pelo rádio, televisão e mais recentemente pela

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internet, utilizando os dois outros meios citados. Se os comentaristas, tão abalizados para falarem sobre o esporte, usam deste linguajar para articular com o espectador, por que nos surpreendemos com a pancadaria entre os torcedores já que dessa forma os comunicadores fazem certa apologia à violência? Além dos termos utilizados na hipotética narração no 2° parágrafo, o Dicionário Futebolês-Português de Luiz César Saraiva Feijó cita elementos lingüísticos ligados à violência e à guerra, tais como: apelar, arranca-toco, atropelar, blitz, bola venenosa, carrasco, cavalo, cruel, espião, estraçalhar, matador, morte súbita e patada atômica. Quer dizer, já temos um esporte de contato, onde entradas mais duras podem causar lesões nos jogadores e a imprensa ainda incute valores apelativos até em um chute forte. Falta um pouco mais de autocrítica aos profissionais da imprensa, não só brasileira. Daqui a algum tempo, alunos de jornalismo estarão na ativa e não deveriam herdar hábitos lingüísticos que corroboram com esse aspecto tão lamentável de um esporte capaz de grandes espetáculos, com uma grande carga emotiva e que com a paixão dos que gostam de acompanhá-lo. Para que se possa pedir paz nos estádios é preciso que termos violentos sejam banidos não só do futebol, como de todos os esportes. Isso não acontecendo. Endossar a paz é pura hipocrisia.


Renato Medeiros

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ão é incomum encontrar quem diga que a poesia visual não é poesia e nem mesmo arte. Mas, apesar de ser tão discriminada, desde o século passado esse fazer poético apresenta-se como o que há de mais experimental na poesia contemporânea. A poesia visual dispensa formas rígidas e elementos como a rima, a métrica ou a linearidade, para investir em diálogos com outras linguagens artísticas. Reflete o tempo todo sobre o signo e ultrapassa os limites do papel. É um processo de intersemiose. Permite-se circular por novos espaços, novas mídias e novos códigos. Talvez seja por isso que ela é tão mal vista, afinal, é uma arte transgressora, que muitas vezes incomoda a ordem de pensamento daqueles acostumados com situações mais convencionais. A poesia visual burla o sistema e desconstrói o estabelecido. Apresentar essa possibilidade poética é o assunto do livro Poesia Visual em Alagoas (Edufal), de Marta Emília de Souza e Silva, publicado em 2007 durante a III Bienal Nacional do Livro de Alagoas. Segundo a autora, a poesia visual “encontra-se hoje lado a lado com as poéticas tradi-

cionais, que se caracterizam pela presença fundamental do verso, do texto e do discurso.” Acrescenta que essas são tendências poéticas que hoje convivem e não se anulam, o que é característica da multifacetada e tão comentada pósmodernidade. A autora fundamenta sua obra a partir dos estudos do poeta e pesquisador Philadelpho Menezes, que elaborou as seguintes categorias poético-visuais: poema espacializado, poema figurativo, poema embalagem, poema caligráfico, poema colagem, poema processo, poema logogrâmico, poema funcional e poema concreto. Aqui vale observar que toda poesia concreta é visual, mas nem todo poema visual é concreto. Definitivamente, a poesia concreta é a mais conhecida das categorias poético-visuais e não é raro perceber que a poesia visual muitas vezes é considerada uma espécie de sinonímia da poesia concreta. Ainda com base em Philadelpho Menezes, a

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autora mapeou os artistas que produzem poesia visual em Alagoas seguindo a classificação: poema em que a visualidade está na forma gráfica da palavra; poema em que a visualidade está alheia à palavra; e poema em que a visualidade está em formas gráficas integradas à palavra. É na primeira classificação que se encontra o poema concreto, o que demonstra que a poesia visual vai bem mais além da poesia concreta. Marta Emília observou de perto as produções poéticas de artistas como Edgard Braga, Milton Rosendo, Marcos de Farias Costa, Wado, Beto Brito e até incluiu as fotomontagens de Jorge de Lima como uma investida no campo da experimentação e das artes visuais. Dessa maneira, a autora dá sua contribuição para formar um retrato da poesia visual no Brasil. O livro imprime a sensação de que vale a pena romper os limites bem definidos das várias linguagens artísticas para se deixar levar pela verdadeira amálgama que é a poesia visual.

Poesia visual em Alagoas, Marta Emília de Souza e Silva, Edufal, 2007, 130 páginas.


C

ético, tímido e recatado, o mineiro Carlos Drummond de Andrade deixou a cargo de seus versos a tradução do cotidiano e das coisas do mundo. Considerado por muitos o primeiro grande poeta pós-modernista, Drummond possuía uma compreensão exata das lacunas existentes entre o ser e parecer, que nas obras do autor transformava-se em instrumento particular do humor, sua característica principal. Massacrado pela própria consciência que o transformava em testemunha lúcida de si mesmo, o mineiro de Itabira utilizava de forma amarga e esteticamente requintada a ironia ao relatar as discrepâncias entre as convenções e a realidade da sociedade moderna. É através da procura pelo real, dos questionamentos e das negações que suas prosas traduzem a carência substancial das coisas e o transbordamento do desencanto do indivíduo. Na poesia dummondiana o existencial e a metafísica compõem a essência da escrita, que se apresenta de forma direta e crua, dispensando o uso da metáfora freqüentemente utilizada pelos poetas de sua geração. A estética em Drummond não procura sua alma fora da realidade, e sim busca no factual o núcleo de sua existência ao evidenciar aspectos banais do cotidiano que cada um carrega em seus ombros. Dedicar-se a leitura das obras de Drummond é se atirar em um universo encharcado de complexidades e paradoxos, que ao primeiro contato incomoda e confunde para posteriormente mostrar-se lógico e necessário. Foi na consciência da importância do contraditório, que Carlos Drummond de Andrade desenvolveu sua literatura, marcada pela análise de fatos do cotidiano e compreensão precisa da realidade.

Camilla Cahet

O

hábito da leitura não é popular entre os brasileiros. Entretanto, temos que levar em consideração que vivemos em um país subdesenvolvido com problemas maiores a serem administrados. A falta de leitura em nossa sociedade existe devido a mazelas mais profundas, como os alto índices de analfabetismo e o baixo salário, que muitas vezes não dá nem para suprir despesas básicas como a alimentação, quem dera com obras literárias. Diante deste panorama as bibliotecas e os alfarrábios (sebos) surgem com a missão de atrair leitores, tornando o hábito da leitura prazeroso e acessível a todos. Apesar da educação precária latente e da falta de orçamento da maioria dos brasileiros, contraditoriamente há no País um mercado para o escoamento das obras lançadas, que passam pelas livrarias e posteriormente pelos alfarrábios. Diante deste quadro, o mercado mundial movimenta bilhões por ano, produzindo 300 milhões de exemplares. Entretanto, o índice de leitura per capita no Brasil é de 4,7 livros por ano, que é um número ínfimo comparando com as quantidades de livros que uma criança dos países desenvolvidos lêem: cerca de 7 livros por ano. Os alfarrábios surgem como a primeira opção dos leitores por serem mais convidativos para os amantes da boa leitura, pois se despojam da formalidade e da “pomposidade” das livrarias, aparecendo

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como uma alternativa para o orçamento dos leitores. Segundo freqüentadores de alfarrábios, o ambiente é mais agradável que as lojas, pois há o prazer de procurar uma obra e negociar com o alfarrabista. Os clientes tentam levar a obra por um preço ainda mais acessível, além da possibilidade de encontrar obras raras que as livrarias não possuem. Os Alfarrábios e as livrarias estão se adaptando a modernidade, pois há os sebos e as lojas virtuais que propiciam a comodidade do leitor adquirir produtos que por ventura não tenham encontrado em suas cidades, ou até mesmo a falta de tempo dos clientes em visitar estes estabelecimentos. Segundo pesquisas Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Leitura, o nível de escolaridade entre as pessoas da faixa etária de 15 anos ou mais é de um ano de estudo e a cada ano esse nível escolar vem caindo. Esta pesquisa nos mostra que a leitura é um dos caminhos para a consolidação de uma sociedade mais consciente dos seus direitos e deveres, fazendo surgir cidadãos críticos.Não importa onde os livros sejam adquiridos. O que deve ser levado em consideração é que o seu conhecimento seja disseminado na sociedade e seja um poderoso agente transformador.


Salomão Miranda

J

á se passaram alguns anos desde o dia em que pela primeira vez lembro ter ouvido alguma coisa de Cartola. Não foram acordes vindos de um cavaquinho ou o arranjo de um trombone que eu ouvi neste dia. Foram as palavras do meu Tio Deildo, que, com Tio Bento, nas farras em feriados com a família reunida, iniciaram-me no mundo da música, mesmo sem necessariamente querer. As farras musicais sempre foram presentes. Eram eles tocando, bebendo e cantando, e eu brincando de escondeesconde com meus primos. E num dia de reunião como os costumeiros, lembro que Tio Deildo conversava com meu primo Cláudio sobre compositores. Eu ainda não era iniciado nesse negócio de MPB não. Sempre gostei de música brasileira, mas MPB e samba para mim eram coisas dos mais velhos. Nesta época, andava às voltas com meu cavaquinho, suando para aprender os acordes e as batidas das músicas dos grupos de pagode. É, gostava mesmo é de um Karametade, Desejos, Katinguelê e meu preferido: Soweto! Pois é... mas meu tio conversava com meu primo sobre canções e disse com admiração:“Partindo para o lado romântico, lírico da música, não existe composição mais magistral do que As rosas não falam, de Cartola: Queixo-me às rosas, que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti. E depois de citar estes versos,Tio Deildo balançava as mãos e expressava gestualmente a empolgação de estar citando palavras tão belas compostas por um homem que conseguiu apenas terminar o primário. Lembro de outro dia em que o mesmo Tio Deildo me apresentou Cordas de Aço, que é uma conversa lamuriosa entre Cartola e o seu violão. Ai, essas cordas de aço / Este minúsculo braço / Do violão que os dedos meus acariciam / Ai, esse bojo perfeito / Que trago junto ao meu peito / Só você, violão, compreende porque / Perdi toda alegria; ouvi didaticamente estes versos, com meu tio apontando para o violão, como que explicando a canção.

Agora me recordo de um CD que comprei numa data comemorativa para um amor de tempos idos. Era Beth Carvalho Canta Cartola. E numa das conversas do fim do namoro, a moça me disse:“Será que eu fiquei fria, como na música?”. Ela se referia a Acontece: Esquece nosso amor, vê se esquece / Porque tudo no mundo acontece / E acontece que já não sei mais amar / Vai chorar, vai sofrer / E você não merece / Mas isso acontece / Acontece que meu coração ficou frio / E nosso ninho de amor está vazio / Se eu ainda pudesse fingir que te amo / Ai, se eu pudesse / Mas não quero, não devo fazêlo / Isso não acontece. E agora, passados alguns anos desde meu contato inicial com o universo cartolesco, comemoramos os 100 anos de Agenor de Oliveira, o Cartola. E se a Radiobrás dedicasse uma semana de homenagens ao nosso querido Cartola? Por uma semana, no horário d'A Voz do Brasil, ouviríamos letras poéticas e belas melodias, ao invés da briga eterna “governo versus oposição”. Ou então, melhor ainda: que se baixasse uma medida provisória obrigando as rádios a veicularem, durante um dia inteiro, em todas as cidades do Brasil, uma programação exclusivamente dedicada a Cartola. Seria uma homenagem ousada e merecida. Além do mais, seria um dia inteirinho, eu disse 24 horas ininterruptas, sem Calcinha Preta e Calypso! Brincadeiras à parte, o fato é que Cartola foi sagaz em perceber agruras e alegrias da alma humana, entrando para a história da música brasileira como expoente. E eu, com meus vinte e poucos anos, sigo levando seu nome adiante, ainda mais agora, cada vez mais conhecedor da obra do mestre, acompanhado de meu cavaquinho, chorando melodiosamente As rosas não falam. É, Cartola. De fato as rosas não falam, mas se falassem estariam reclamando para si perfume próprio, negando que são ladras do aroma de tua amada. E aí encontrarias outra forma de engrandecer o poder de tua musa, tomando emprestado quiçá a luz de uma estrela ou o dulçor das águas de um rio. Mas te expressarias. Magistralmente!

O

homem é um grande mistério, seja pelas inúmeras facetas da nossa natureza que se estendem pelo planeta, ou pelo grande abismo desconhecido do nosso ser, que nos surpreende dia após dia.Tal mistério pode ser encontrado especialmente em algumas pessoas que têm a capacidade de, por meio de atos concretos, fazer bem a seus semelhantes. Esse altruísmo pode se manifestar através da solidariedade por uma ajuda material, de oportunidades ou de algum canal de ligação que essa pessoa tenha com o divino, trazendo alguma centelha da beleza grandiosa do universo para alimentar nossas razões e emoções; é o que acontece com a música de Hermeto Pascoal. Alagoano de Olho D'água criado em Lagoa da Canoa, foi em contato com a natureza da Terra das Lagoas que Hermeto começou a entender a sua capacidade de se reinventar usando melodias e sons retirados do ambiente, como matéria prima para construir sua arte. A sagacidade em utilizar tais materiais, como um grande alquimista da música, lhe deu a compreensão geral da força melódica presente no universo, onde desde a festa do sábado a noite até a rotina sufocante da segunda-feira a música está presente, tanto quanto a própria vida.

Isaac Moraes

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CRÔNICA

E foi em razão desse estudo natural que Hermeto sempre focou em seu caminho, na sua trilha cheia de incertezas, ainda hoje também presentes na alma e na história de tantos nordestinos seus irmãos, o que realmente queria de todo o coração: fazer música, cantar seu povo, sua terra; seja em outras terras ou para onde puder levar sua arte. Deseja fazer o bem com seu ofício. As festas de casamento no interior de Alagoas onde se apresentava com seus oito baixos ao lado de seu irmão, as rádios por onde passou, as mudanças de cidades, de países e os grupos dos quais participou dizem um pouco da integridade desse artista; sua trajetória e os discos que dela nasceram revelam bastante da preocupação de Hermeto com a qualidade estética e plural de seu trabalho e o respeito pela arte que sempre teve. Mantendo-se fiel à sua regionalidade mesmo explorando ritmos diferentes, instrumentos diversos, formas inúmeras de realização de som e tudo desaguando em música brasileira, tão certo como os

rios desembocam no mar. É compositor, arranjador, instrumentista, cantor, e um solidário em sua profissão, possuindo a grandeza de perceber e ajudar novos talentos, dando-lhes a oportunidade de fazer uma música de qualidade e aprender direta e indiretamente com a sua genialidade e com sua generosidade. Hermeto Pascoal é uma grande colcha de retalhos musicais, e sua figura albina, que lembra a imagem do criador nos antigos afrescos das catedrais européias, passa a força e a segurança de quem tem muito mais a mostrar e ainda mais a surpreender. Hermeto é um exemplo do tal mistério humano já citado, é a incógnita revelada da Música Popular Brasileira, um sonoro rio alagoano se espalhando no imenso mar do mundo musical, uma natureza de melodias e sons, como aquela que até hoje embeleza o seu estado natal e que também conta, pela sua extensa diversidade, a história da música do menino que por ela passeava.

Camilla Cahet

V

oltando para casa outro dia percebi algo que só sentimos naqueles frívolos momentos de nostalgia. Não é que sou nostálgica, até porque não sou dada a sentimentalismos piegas. Porém, notei, olhando para o frio cimento daquelas calçadas, que a minha rua já não é a mesma. Não consegui detectar vozes de criança, nem as queixas das senhoras sentadas em seus batentes. Meu rosto também já não corta o velho e faceiro vento que todas as manhãs se encarregava de desfazer os caprichados penteados que minha avó me fazia. Não há pipas enroladas nos postes, como também não existem amarelinhas desenhadas no chão. Nada é como antes. E, resumida a ausência de elementos que compuseram a minha infância, senti algo que há muito não sentia: saudade. A mesma saudade que Aurélio define como "Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta" arrebatame agora. Não é que minha rua esteja distante, ainda resido no mesmo endereço de quando criança. No entanto, tudo nela me parece estrangeiro. Não reconheço nos

antigos rostos os mesmos sorrisos, nos mesmos pés as mesmas pegadas; os 'bons dias' de agora (tão cordiais) antes se traduzia em 'vamos brincar'. Só as árvores, estas sim ainda trazem as marcas de paixonites infantis, que algumas vezes, de tão puras, nunca foram reveladas. Todavia, a rua permanece no mesmo lugar, ainda prevalece a maioria das portas e janelas, mas, extinguiram sua essência e sua alma. Extinguiram sua vida. Os pés, que quando pequenos saltitavam nas calçadas, hoje correm apressados, assim como os meus, antes magoados por teimarem em andar descalços. Hoje, fitando os meus olhos por entre os frios muros, me recordo de brincadeiras, cujas crianças dessa nova geração já não se interessam. Os elásticos, bolas, pipas e bambolês cederam espaço aos computadores. Antes também havia os aparatos tecnológicos, porém, esses não usurpavam nosso incessante desejo de viver plenamente. Poucas coisas eram capazes de disputar a alegria que sentíamos em

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estarmos na rua brincando, livre como toda criança verdadeiramente é. Não sei ao certo o motivo dessa reflexão acerca de minha rua. Talvez porque o tempo passou rápido demais, impedindo-me de observar lentamente essas brutais transformações. O tempo que, quando criança, parecia não andar, hoje insiste em voar. Tudo em minha pequena rua mudou: o perfil das crianças e dos velhos, as cores das casas, os tamanhos das calçadas antes mais largas -, o tom azul do céu... Porém, ainda reside em mim a lembrança dessa personagem indispensável de minha infância, minha rua.


Bruno Martins

S

e você ia passando a vista pelas páginas desta revista e parou ao ler o título desta crônica achando estranho que na editoria de esportes estivesse um texto religioso, não é bem assim. Ou talvez seja, depende do ponto de vista. Como nosso país é um Estado laico, não vou tentar impingir minha ideologia religiosa em ninguém. Contarei apenas uma história de um daqueles rapazes que vivem na periferia das grandes cidades e que, sem sorte, teria ficado à margem, como muitos de seus amigos de infância. Jesus é o nosso personagem principal. Não o tão famoso Cristo, mas apenas Jesus Santos da Silva, um nome tão comum que qualquer pessoa diria que ele é apenas mais um no meio da multidão. Este rapaz nasceu na periferia de uma capital do Nordeste do Brasil, filho de pais católicos que colocaram o nome do Salvador na esperança de o filho ter mais sucesso que eles. O pai, gari, ganha apenas um salário mínimo, e a mãe, uma mera lavadeira de roupa. Jesus foi crescendo no pequeno barraco da família, ia para a escola quando conseguiam inscrevê-lo em alguma instituição do estado ou do município. Sua única diversão era jogar bola com os amigos no seu tempo livre, o que acontecia bastante (já que nem

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CRÔNICA

televisão eles tinham). Jesus sonhava ser um atacante, marcar muitos gols e chegar à seleção brasileira. Mas quem já jogou pelada na rua, em campos de areia e quadras improvisadas, sabe que não existe posição fixa. Há um revezamento natural para que todos passem pela fatídica posição de goleiro. Veja o que o escritor uruguaio e torcedor do Nacional de Montevidéu, Eduardo Galeano, fala sobre essa ingloriosa posição em seu livro Futebol ao sol e à sombra: “dizem que onde ele pisa, nunca mais cresce a grama. (...) Os outros jogadores podem errar feio uma vez, muitas vezes, mas se redimem com um drible certeiro espetacular, um passe magistral, um tiro certeiro. Ele, não. A multidão não perdoa o goleiro. (...) Com uma só falha o goleiro arruína uma partida ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e o condena à desgraça eterna”. Pois bem, num desses jogos em um campo de areia perto de sua casa, quando tinha 17 anos, Jesus foi para o gol. O ônibus do maior time de futebol do estado - que tinha as cores azul e branco - que se dirigia para o estádio da capital para treinar, quebra na frente do modesto campo. Enquanto os mecânicos trabalham no conserto do veículo, os jogadores e a comissão técnica resolvem assistir o jogo pela janela. Jesus já havia atuado no gol, mas vendo a platéia ilustre que o assistia, sentiu que era a sua chance. O único problema é que na divisão dos times, ficou no mais medíocre deles. O revezamento dos goleiros era a cada gol. Sua equipe perdia por 2x1. Só que time ruim tende a ser muito mais atacado, e foi aí que Jesus se destacou, agarrou como nunca. Bola chutada no ângulo, lá estava ele colocando para escanteio; bola rasteira, tirava com os pés; chute no meio do gol, encaixava com perfeição; e quando seu corpo não ajudava na defesa, a trave estava ali para ajudar. A essa altura do jogo, o ônibus estava pronto para continuar viagem, porém o preparador de goleiros já estava na beira do campo sem acreditar no que via. Nos minutos finais, a equipe de Jesus ainda consegue empatar o jogo em um contra-ataque, terminando a partida no placar de 2x2. Passadas as emoções, os companheiros levantam o goleiro milagroso e começam a gritar: “só Jesus salva! Só Jesus salva! Só Jesus salva!” Ao ser colocado no chão e cumprimentado por todos, o presidente do clube pergunta se ele quer jogar pela agremiação como goleiro. Jesus aceita, torna-se um dos maiores goleiros do Nordeste e sai, depois de cinco anos de carreira, para um grande time paulista. Mas isso já é outra história.


CRÔNICA

A

h, a infância... Parece que foi ontem que eu vivia tranquilamente uma das melhores fases da minha vida, onde a única preocupação era com as tarefas difíceis de matemática, ou as dezenas de capitais brasileiras a decorar em geografia... Tenho, de certa forma, pena das crianças de hoje em dia. O mundo está cada vez menos habitável, as pessoas cada vez menos sem tempo e a infância, esta definitivamente não tem a mesma graça de antes. Às vezes fico pensando, se eu que sou totalmente “conservadora” ou se foi o mundo que mudou drasticamente. Quando eu era criança, as coisas pareciam ser menos difíceis, as pessoas mais amáveis e pacientes... Até o tempo parecia ser mais extenso, e tudo parecia se resolver como num passe de mágica. Atualmente não é bem assim, muito pelo contrário. O caos reina, todo mundo parece não ter tempo mais para nada, e a busca pela sobrevivência diante do mundo capitalista nos torna seres frios e sem maiores expectativas de vida, o que de fato não é algo do que possamos nos orgulhar. O imediatismo das coisas, a globalização e a desmoralização dos valores foram os grandes responsáveis por tamanha mudança que tenho notado nas crianças de hoje. Os pequenos parecem miniaturas dos adultos, sempre correndo contra o tempo para tentar dar contar de tudo, se isolando em seu próprio mundo. A educação mudou, os valores mudaram... Parece que ser respeitoso e honesto são traços de caráter totalmente obsoletos. É como dizem, “o mundo é dos espertos”, e quem não se englobar dentro desta assertiva é considerado como bobo, ou insignificante, desmerecendo toda e qualquer posição digna no globo. Na minha época, falar palavrão ou responder ironicamente a pai e mãe era uma afronta sem tamanho. Havia o respeito pelo mais velho, a educação, o receio de machucar o próximo. As brincadeiras eram mais saudáveis, dinâmicas, as amizades pareciam mais verdadeiras. Atualmente, as crianças parecem ter mais amigos virtuais do que reais, as relações estão mais frias e distantes, e os sentimentos... Esses são os mais afetados com isso, definitivamente. Há quem diga que essa “nova geração” é normal, que o mundo é assim mesmo. Eu só posso lamentar e torcer para que isso mude. Para que nossas crianças aprendam o real sentido da vida, os devidos valores, a respeitar o próximo. Pode ser uma postura um tanto quanto ingênua, mas acredito piamente que o mundo está em colapso pela ausência destes valores, e que nunca é tarde para aprendermos e fazermos deste um mundo menos medíocre e vazio. Enfim, nunca é tarde para sonhar. Espero que as gerações que estão por vir não esqueçam o significado disso.

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Larissa Wilson

medida que crescemos, começamos a ter a impressão de que as horas se passam depressa e que um dia não é mais suficiente para realizarmos todos os nossos afazeres. Quando crescemos, o tempo passa a ser um motivo de preocupação, são poucos os compromissos que não possuem hora marcada e são muitas as vezes que chegamos atrasados. É algo simples e complicado ao mesmo tempo. Percebemos que dependemos do tempo e que se resolvemos parar, o tempo continua e nos deixa para trás. O tic-tac dos ponteiros é constante, mas quase nunca temos tempo para escutá-lo. E, dessa mesma forma, não prestamos atenção em muitas coisas simples e belas do nosso dia-a-dia. Não sentimos o doce da vida, uma vez que caímos na rotina e ficamos presos a ela. O interessante é que tudo isso não é novidade. Sempre nos deparamos com situações que nos levam a analisar nossa vida e perceber o quanto tediosa ela se torna, porém, mesmo possuindo essa lucidez, insistimos em continuar na mesma. Somos persistentes quando o assunto é mudança. E é por conta dessa correria que transformamos nosso dia, que esquecemos simplesmente de viver. Ficamos aprisionados às datas comemorativas, à previsão do tempo, ao relógio, a regras banais, a pudores, e deixamos de realizar nossas vontades e desejos. Ignoramos o ato de “sair da rotina” e conformamo-nos em fazer parte de momentos pré-fabricados. Presos em um tempo singular, porém em ritmos diversos, buscando a felicidade em caminhos infelizes, encontrando o que se quer nos desencontros, e desejando voltar à infância para esquecer-se das obrigações. É o modo que encontramos para sobreviver na abstração de um tempo que nunca pára.

À


CRÔNICA

Pei Fang Fon Após meses pude encontrar o caminho de volta e estou retirando todas as marcas que ainda há em mim e todo este tempo perdida, só agora consegui enxergar o que não conseguia: A diferença. Percebo que estive lutando por algo que não é para mim. Que não faz o menor sentido estar ao lado do que não tem parte comigo. Como não pude ver isso? O questionamento veio agora, caiu de pára-quedas para me salvar, junto com ele um bote e um par de r e mos para navegar em novas águas. Não é muito comum estar com alguém que não tem os mesmo pensamentos e atitudes que as suas. Como é engraçado perceber isso depois de tanto tempo!!! Sempre estive pronta para estar onde quer que fosse, para percorrer o caminho que fosse traçado, trilhar novos rumos. Não tenho tempo para brincar de futuro. Tenho pressa.Todos os meus planos foram junto com o naufrágio. Agora tenho que reconstruir tudo para um novo ideal e creio que não demorará. Fico a lamentar que terei de fazer tudo novamente, refazer os meus sonhos, reconquistar a minha confiança perante as pessoas, sair da minha sombria maneira de sentir algo pelo outro, retirar a frieza que encobre o meu coração e tentar aquecê-lo, construir o que sempre quis ter na vida. Estou pronta, basta alguém que me complete de verdade. Incompreendida, enganada e cega. Nunca pensei que uma pessoa pudesse me afetar tanto. Bem vinda ao mundo dos mortais. Cai do meu mundo para viver na ingratidão e na desumanidade das ações do homem. Acordei de um sonho que pensei que não acabaria. Agora viverei como estava e com mais dois motivos para seguir em frente e não olhar mais para trás. Só espero que da próxima vez consiga identificar antes que aconteça uma tragédia. Pois bem, bem vinda ao mundo real. Saí da minha fantasia para encarar a realidade e só ganhei desprezo apesar de inúmeros sentimentos novos que nasceram em mim, nem tudo foi uma catástrofe como poderia ser.Tenho lá os meus ganhos e estes ficarão no meu mundo fantástico longe das péssimas influências deste mundo. Agradeço. Estou voltando para a terra firme e nessas águas não quero estar. Nunca mais. Isso é tudo!

I

magine-se estando em uma embarcação, navegando em águas tranqüilas, é quase impossível saber o que pode acontecer ou o que está a sua frente devido ao comodismo de toda calmaria que é vista instantaneamente; sem tribulações com o mar; sem as revoltas do tempo; sem qualquer dano na estrutura física; não há possibilidade de prevê as próximas horas adiante. No imaginário é um momento para descansar e curtir o que pode ser proporcionado. Estive como esta embarcação por alguns meses. Não me queixava das rachaduras que foram criadas nesse período; todas as situações tempestuosas não me abalavam; as discussões não me faziam tão mal como poderia ser. Ou seja, estava muito bem, caminhando em uma mansidão e buscando a bonança diante de tantas dificuldades. Como nunca previ nada, apenas imaginava um futuro grandioso, não me dei conta que uma tempestade estava se formando além do horizonte, quando ela chegou não tive como conter, naufraguei diante da turbulência dos meus sentimentos. Sem encontrar um refúgio ou um lugar que me abrigasse permaneci no mar da desilusão em busca de respostas para compreender o que houve de errado, o motivo pelo qual não foi registrado ou alertado nos meus sentidos que aquilo fosse acontecer. Por muitas semanas estive sozinha e decepcionada comigo mesma por não ter feito nada e que neste momento não tendo muito que fazer. Esperar por ajuda seria o suficiente, mas naquela hora não acabava por completo toda a angústia que sentia. Bebi de várias águas: da incompreensão ao engano, da infelicidade ao incapaz, da rejeição ao completo marasmo. Busquei em lugares incompreendidos que mal sabia que existia. Passei a familiarizar mais com estes lugares na tentativa de sair da minha monótona situação.

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P. S. Eu te amo, Dir. Richard LaGravanese, 2007

Pouco antes de morrer por causa de uma doença, um homem prepara uma série de cartas para a sua esposa, que passa a recebê-las durante um ano. Com Hilary Swank e Lisa Kudrow.

Sim, Vanessa da Mata, 2007

A cada disco, Vanessa da Mata prova que é a renovação da MPB. Esse terceiro álbum traz sucessos como “Amado” e “Boa Sorte/Good Luck”, música que conta com a participação do cantor Ben Harper.

Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet, Dir. Tim Burton, 2007

O mais recente filme de Tim Burtun conta a história de vingança de um homem que foi mandado à prisão injustamente. Claro que Johnny Depp está novamente no elenco.

Safe Trip Home, Dido, 2008

Depois de um hiato de quase cinco anos, Dido está de volta com seu terceiro disco. Novamente traz canções calmas e intimistas, como “Look No Further”. E o primeiro single, “Don’t Believe in Love” já está no ar.

Ensaio sobre a cegueira, Dir. Fernando Meirelles, 2008

O caos se instala em uma cidade após uma inusitada epidemia de cegueira. Adaptação do livro homônimo do escritor português José Saramago, o filme tem como diretor o brasileiro Fernando Meirelles e conta com Gael García Bernal, Julianne Moore e Alice Braga no elenco. Um dos mais aguardados filmes de 2008. Piaf: um hino ao amor, Dir. Olivier Dahan, 2007.

Filme vencedor de dois Oscars, conta a história da conturbada vida de Edith Piaf, uma das mais famosas cantoras francesas, dona de clássicos como “La Vie en Rose”,“Hymne à L’amour”,“Milord” e “Non, Je Ne Regrette Rien”. Encarnação do demônio, José Mojica Marins, 2008

Zé do Caixão está de volta! Depois de longos anos, finalmente José Mojica Marins - criador do personagem, ator e diretor - terminou sua trilogia, iniciada em 1964 com o filme “À meia-noite levarei a sua alma”. Mesmo com uma grande estrutura de filmagem e produção, Zé do Caixão continua trash.

Onde Brilhem os Olhos Seus, Fernanda Takai, 2007

Fernanda Takai faz u m a b e l a homenagem à MPB em seu primeiro disco solo, que traz versões de músicas já interpretadas pela cantora Nara Leão. Vale a pena conferir o trabalho que a vocalista do Pato Fu realizou em músicas como “Insensatez”,“Diz que fui por aí”,“Lindonéia” e “Com açúcar, com afeto”.

A Revolução dos Bichos, George Orwell, Companhia das Letras, 152 páginas

Um dos mais conhecidos l i v ro s d o e s c r i t o r George Orwell, autor do também clássico 1984. A Revolução dos Bichos é uma fábula que critica os sistemas totalitários que se espalharam pelo mundo no século XX. Dicionário Futebolês Português, Luiz César Saraiva Feijó, Ed. Francisco Alves, 2006

Inúmeros termos e expressões do futebol brasileiro. Comentários sobre seu uso, origem, curiosidades de todos os tipo e explicações sobre os fenômenos da língua, localizados na gíria do futebol.

Terra, Mariza, 2008

Mais recente disco da cantora moçambicana que atualmente é uma das fadistas mais expressivas de P o r t u g a l . Destaque para a música “Já me deixou”.

Game Mirror’s Edge, 2008

Prestes a ser lançado para PC, Playstation 3 e XBOX, o jogo Mirror's Edge coloca você no controle de Faith, uma mensageira que transporta dados confidenciais e é perseguida por um crime que não cometeu. Para fugir e se manter viva ela se utiliza do Le parkour.

Fotografia e Antropologia, Rosane de Andrade, Estação Liberdade, 132 páginas

Ótimo para quem procura conhecer um pouco da história da fotografia. A autora ainda faz uma comparação do pensamento de importantes críticos dessa arte, levando o leitor a uma reflexão da responsabilidade do fotógrafo.

Blogs Amálgama (www.amalgama.blog.br)

Girafolândia (www.girafolandia.blogspot.com)

PorTrás do Gol (br.oleole.com/blogs/por-tras-do-gol)

Blog doTorero (blogdotorero.blog.uol.com.br)

Terra: o planeta e seus interessados (terrainteressados.blogspot.com)

Revista Bula | 02  

Revista opinativa de variedades produzida por um coletivo de amigos jornalistas de Maceió, Alagoas.

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