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Um apólogo Machado de Assis

˘ Editora


Um ap贸logo Machado de Assis


Um apólogo Machado de Assis

Rio de Janeiro | 2011

˘ Editora


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ F871z Assis, Machado de, 1839-1908 Um apólogo / Machado de Assis. - Rio de Janeiro: Editora, 2010. 32p.; 12 x 18 cm, il. ISBN 978-85-00-000000 1. Literatura brasileira. I. Agulha. II. Linha. III. Título. 09-4742

CDD: 028.5 CDU: 087.5

Orientação: Paula Esteves e Cesar Netto Design de capa, projeto gráfico e editoração eletrônica: Renata Vidal da Cunha

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Impresso no Brasil

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Direitos exclusivos desta edição reservados pela EDITORA LTDA. R. Ernesto Nazareth 51 - Rio de Janeiro, RJ - 20550-210 Tel.: 55 21 8679 2110 - E-mail: renatavidaldesign@gmail.com

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ISBN 978-85-00-000000

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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DIREITOS REPROGRÁFICOS

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EDITORA AFILIADA


Às linhas, às agulhas e aos alfinetes também.


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda Ž—›˜•ŠŠǰȱ™Š›Šȱꗐ’›ȱšžŽȱŸŠ•Žȱ alguma cousa neste mundo?


— Deixe-me, senhora.


— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.


— Que cabeça, senhora? A senhora não é Š•ę—ŽŽ, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.


— Mas você é orgulhosa. — Decerto que sou. — Mas por quê?

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— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

ȣ– ȣ– ȣ– ȣ– ȣ– ȣ– ȣ– ȣ– ȣ– ȣ–


— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?


— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...


— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando... — Também os batedores vão adiante do imperador. — Você é imperador?


— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho ˜‹œŒž›˜ȱŽȱǗꖘǯȱ Eu é que prendo, ligo, ajunto...


Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.


Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linhaǰȱŽ—ę˜žȱŠȱ•’—‘Šȱ—Šȱagulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:


— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...


A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, ŽȱꌘžȱŽœ™Ž›Š—˜ȱ˜ȱbaile.


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Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessรกrio. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaรงava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:


— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.


Parece que a agulha não disse nada; –Šœȱž–ȱŠ•ę—ŽŽǰȱŽȱŒŠ‹Ž³Šȱ›Š—Žȱ Žȱ—¨˜ȱ–Ž—˜›ȱŽ¡™Ž›’¹—Œ’Šǰȱ–ž›–ž›˜žȱ ¥ȱ™˜‹›ŽȱŠž•‘ŠDZȱ

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Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Lutou para subir socialmente abastecendo-se de superioridade intelectual. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras. Sua extensa obra constitui-se de 9 romances e peças teatrais, 200 contos, 5 coletâneas de poemas e sonetos, e mais de 600 crônicas. Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil. Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. É considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.


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Este livro foi composto na tipologia Palatino Linotype, em corpo 16/30, e impresso em papel couchĂŠ 120g/m2 no Bureau Power Image.

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