MARCOS HENRIQUE TOTTI NUNES

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UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL

RETRATOS DE UM FOTÓGRAFO – POR TRÁS DAS LENTES DE JOÃO CALDAS

Marcos Henrique Totti Nunes 15245179 – 8°A

SÃO PAULO 2018


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UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL

Retratos de um Fotógrafo: Por trás da Fotografia de João Caldas

Marcos Henrique Totti Nunes RGM: 15245179/ 8ºA

Relatório de Fundamentação Teórica e Metodológica apresentado ao Curso de Ensino Superior de Bacharelado em Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul. Sob orientação do Prof. Ms. Luiz Lázaro.

SÃO PAULO 2018


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Resumo O presente trabalho discute os procedimentos, a formação e critérios do trabalho da Fotografia para teatro, lançando mão do recurso do jornalismo literário para estudar a trajetória de vida do fotógrafo João Caldas, principal representante deste segmento da Fotografia. O fotógrafo teve de passar por uma formação científica específica, desde um curso à distância até trabalhos práticos de fotografia que o levaram a expor seu trabalho em uma exposição dentro de um teatro, fazendo assim com que fosse chamado a atuar como fotógrafo de palco no Centro Cultural São Paulo, jornal Folha de São Paulo e em produtoras de espetáculos profissionais. Fora isso praticou sua fotografia em congressos como o de Campos do Jordão e fotografou para o Hospital Oswaldo Cruz para abastecer apostilas de medicina que careciam de imagens específicas. Através de conversas informais, os relatos elcuidam a paixão do fotógrafo por formatos específicos de espetáculos dramáticos e musicais, seu procedimento que tem por príncipio a descrição em executar seu trabalho dentro de uma sala de teatro – lançando mão, inclusive, de um artefato que inibe o som do clique de sua câmera e de vestir roupas escuras para se camuflar por entre a plateia e não atrapalhar o elenco da peça, nem o público que a assiste. Importante ressaltar que Caldas foi incentivado desde pequeno a ser consumidor de arte como o Teatro, que hoje fotografa, concertos musicais e cinema. Em específico, o cinema fez parte de sua vida integralmente, na juventude, o despertando para a fotografia de cinema, da mesma maneira que para a fotografia de palco posteriormente. Caldas, por uma questão social, inicialmente se formou em Engenharia para depois prestar os estudos em cinema na ECA-SP. João mostra-se sempre muito generoso em receber a equipe que utiliza de seus serviços de fotógrafo em seu estúdio, como produtores, diretores e elenco e isto se mostra retribuído com a liberdade que lhe é dada em dirigir as poses dos atores e atrizes e escolha de luzes específicas para transmitir a ambientação que o espetáculo precisa; João é sempre descrito por seus amigos como muito humilde e cortez. O livro alterna fotografias do autor e de João Caldas, com textos que contam a trajetória de convivência entre autor e entrevistado, passando por imprevistos e procedimentos profissionais organizados por João Caldas em seus trabalhos.


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Sumário 1.Introdução .................................................................................................... pág. 6 2.Objetivos ...................................................................................................... pág. 8 3.Problema ...................................................................................................... pág. 9 4.Justificativa ................................................................................................ pág. 10 5.Plano Estratégico ....................................................................................... pág. 11 6.Referencial Teórico.................................................................................... pág. 13 7.Referências Bibliográficas ......................................................................... pág. 17 8.Cronograma ............................................................................................... pág. 18 9.Cronograma Geral...................................................................................... pág. 19 10.Orçamento ................................................................................................ pág. 20 11.Apêndices................................................................................................. pág. 21 12.Anexos ..................................................................................................... pág. 98


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1. INTRODUÇÃO

O projeto em questão apresentará o tema Fotografia, mais precisamente a Fotografia para Teatro como forma de especialização do mercado e seus raros profissionais; como se dá a congruência das áreas da Fotografia e da Arte e sua simbiose com o registro jornalístico. Para este projeto foi levantado o problema que questiona a diferença entre a Fotografia artística e a Fotografia para Teatro, já que cada qual apresenta suas peculiaridades, técnicas e critérios, interessasse em saber quais suas posições no momento criativo e tomadas de decisões para foco, ângulo, escolha de poses a capturar, dentre outras; como isto revela a identidade de cada um destes segmentos. A importância deste projeto está em não somente fazer um levantamento qualitativo e didático de cada vertente fotográfica, mas, através da ênfase e do destaque de cada um de seus aspectos criativos, mostrar como se posicionam em atividade no momento do registro do cenário apresentado, o valor de sua presença no jornalismo e no mercado fotográfico, discutir a autoria dos elementos visuais da cena teatral registrada – diretor, ator ou fotógrafo, maneiras de se aprimorar a visão para este segmento e trazer, por meio de contato e relatos de profissionais do nicho, o devido respeito a esta função e até chamar a atenção para que estudantes da área se interesse por esta especialização, devido a carência de estudos neste assunto. A respeito de correntes teóricas, o projeto lançará mão da Teoria Crítica de Walter Benjamin que estuda a reprodutibilidade técnica da obra de arte e a destruição de sua aura e o culto da imagem por conta disso. Buscar-se-á traçar um paralelo sutil com esta corrente e outros teóricos, porém, da área da Fotografia e Artes Visuais em si como a didática de Michael Freeman, da área de Artes Cênicas como os estudos d’O Tablado de Maria Clara Machado, utilizando o texto do diretor americano Edwin Wilson a respeito dos critérios de escolha da composição estética da cena que um diretor de teatro deve se utilizar e de fotógrafos especializados em registro de palco como Bob Sousa. Os objetivos que se espera alcançar com este trabalho são promover a consciência da comunidade científica a respeito deste grupo de profissionais que registram a cena cultural de São Paulo e sua contribuição para conservar a memória nacional de nosso teatro; argumentar de maneira clara e convincente ao explicar os critérios de cada profissional da Fotografia; identificar, ainda que subjetivamente, a


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responsabilidade deste profissional para com a comunidade artística e produzir referências bibliográficas na área da Fotografia, Artes Visuais e Artes Cênicas.


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2.DESCRIÇÃO DOS OBJETIVOS

Objetivo Geral: - Conscientizar a comunidade científica sobre a importância do profissional que fotografa a cena cultural de São Paulo, atentando para seu repertório necessário e afinidade com a área das Artes Cênicas.

Objetivos Específicos: - Argumentar de maneira clara e convincente sobre o profissional de fotografia e sobre suas escolhas na hora de registrar a cena cultural. - Identificar de maneira técnica e subjetiva a responsabilidade do profissional da fotografia para palco. - Produzir referências bibliográficas na área de Fotografia e Artes Cênicas voltadas para a atividade jornalística e literária.


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3.PROBLEMATIZAÇÃO E HIPÓTESES

Problema: Qual a diferença entre a Fotografia Artística e Fotografia de Palco?

Hipóteses: H1: Por estar associada ao Fotojornalismo, a Fotografia para Teatro tem como base contar a história daquela peça, em questão, através dos registros feitos pelo fotógrafo; funcionado mais como foto de divulgação, sem perder o caráter estético do olhar fotográfico sobre aquela obra cênica.

H2: A Fotografia Dinâmica é um tipo de registro (fotográfico) estético e provocador – tomandopor base a explicação do fotógrafo dinâmico David Backstead – por ser uma espécie de manifestação artística, dando liberdade na composição escolhida pelo autor. Já a Fotografia para Teatro registra a cena do espetáculo, a qual melhor diz algo sobre o enredo da peça, a performance do ator e os elementos cênicos como figurino, iluminação e cenário.

H3: O trabalho do fotógrafo é uma parceria entre o diretor do espetáculo que ele registra e do ator que o encena. O cenário, iluminação e posicionamento dos atores foram previamente estipulados pelo diretor, o gestual pode ser alterado empiricamente pelo ator no momento da apresentação – identificando a sua parcela de responsabilidade na autoria deste gestual, porém, o fotógrafo é quem vai adequar, segundo seu olhar e técnica adquiridos com o hábito de fotografar, a imagem que registrará, por sua vez.


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4.JUSTIFICATIVA

Não há referências dentro da área de Artes Visuais, Fotografia e Artes Cênicas que estudem a fundo teórico e empírico esta vertente imagética. Reitera-se também que a pessoa do fotógrafo João Caldas não foi pesquisada e profissionalmente exposta a respeito de seu mercado de atuação, vertente escolhida dentro do mesmo e por ser dinâmico, vítima de boatos especulativos a seu respeito e seu procedimento em trabalho – sempre enaltecendo o fotógrafo; por conta disso, toma-se a liberdade de escolhê-lo como personagem e esclarecer sua figura e procedimento em trabalho. Pretende-se socialmente, aproximar a figura do fotógrafo do público leitor; criar referências bibliográficas, contribuindo para o aprendizado de suas áreas semânticas; desmistificar a fotografia e a fotografia especializada em registro de palco – e o mesmo aplica-se à área das Artes Cênicas e sua glamourização. Utilizar da linguagem literária para traçar o perfil de um personagem, também da área artística e promover uma ideia editorial diferente poderá incentivar outros estudantes igualmente interessados na produção de livroreportagem, servindo de motivação para a ousadia no procedimento coerente de uma execução jornalística e literária. Almeja-se publicar o produto não somente como conclusão dos estudos em jornalismo, mas, como produto do mercado editorial, contribuindo para o meio literário, promovendo a figura do fotógrafo João Caldas, seu meio de atuação profissional e pessoal, além de criar uma credibilidade para que outras edições sejam executadas com diferentes personagens da mesma área artística ou congruentes.


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5.PLANO ESTRATÉGICO

Descrição do produto:

Periodicidade Edição Única.

Formato O livro fotográfico alterna textos de conversas do autor com João Caldas, descrevendo a trajetória do fotógrafo desde a adolescência, formação acadêmica e prática profissional; tudo através da linguagem do jornalismo literário e alternado com entrevistas pingue-pongue. Ilustrado com fotos de João e do autor para a identidade visual do livro.

Recursos Gráficos O livro contém a mescla de fotografias em meio aos textos e fotografias em páginas duplas buscando o descanso visual e gráfico; ao mesmo tempo, lança-se mão de algumas páginas sem fotografias para valorizar a visão do autor por meio do recurso literário e não somente de uma imagem pronta. Os capítulos foram intitulados “cena”s para criar a relação com o universo tratado em questão que é o teatro.

Estratégias para definição de layout 

Quantidade de páginas: Cento e cinqüenta e três páginas.

Número de Capítulos: Vinte e um capítulos e vinte e três subtítulos.

Utilização de imagens ou ilustrações: Cento e dezesseis fotografias.

Recursos de edição: Ferramentas de edição fotográficas do smartphone (iPhone 6s) e do aplicativo Lightroom para as fotografias e recursos do próprio In Design para edição de texto e layout gráfico.


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Público-Alvo O produto busca aproximar a figura de João Caldas do grande público e lança mão de episódios banais de sua vida para traçar o perfil de indivíduo comum para isso e de detalhes nos relatos de momentos em que exercia a profissão de fotógrafo. Os estudantes e profissionais de fotografia, teatro e comunicação também são principais destinatários deste material, por conta da pouca bibliografia produzida dentro da área específica Fotografia para Teatro.

Técnicas Lançando mão dos recursos literários o texto foi escrito buscando mesclar a descrição narrativa e jornalística com a estrutura de diálogos muito utilizada em entrevistas pingue-pongue – recurso que se assemelha ao registro de diálogo em dramaturgia, relacionando propositalmente a uma estrutura visual de roteiro de teatro (universo retratado). As imagens foram captadas se utilizando de recursos básicos de fotografia, ajuste de foco, percepção de melhor ângulo em decorrência da luz, conhecimento em composições fotográficas como as de simetria. Algumas fotografias contaram com o uso de uma lente especial para a câmera utilizada, cedida pelo próprio fotógrafo João Caldas.


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6.REFERENCIAL TEÓRICO

Para amparar teoricamente o objeto de pesquisa deste presente trabalho, faz-se necessário conhecer os critérios de composição do fotógrafo e a dinâmica da captação imagética. Sobre os critérios de fotografia e escolhas criativas de captura de imagem nos remetemos ao autor Roland Barthes e sua obra A Câmara Clara, na qual se revela que a natureza da Fotografia é a pose, tratando-a como uma intenção da leitura daquela imagem: “Ao olhar uma foto, incluo fatalmente em meu olhar o pensamento desse instante, por mais breve que seja, no qual uma coisa real se encontrou imóvel diante do olho e aí permaneceu para sempre”. (BARTHES, 1984, p.117). Há uma leitura que se pode fazer de que há uma liberdade na fotografia em interferir naquele cenário que se apresenta como, por exemplo, a construção de uma pose, desde a articulação das posições de objetos inanimados para um catálogo até uma direção do fotógrafo para os modelos que ele irá fotografar. Caberia, segundo Barthes (1984), ao fotógrafo escolher, submeter o seu espetáculo – no caso, o da fotografia – ao que ele chama de código civilizado das ilusões perfeitas ou afrontar nela o despertar da intratável realidade. Salvo isto, o autor acima dá certa inclinação ao pensamento de que há uma responsabilidade significativa do fotógrafo na autoria da imagem. A respeito deste tópico, o fotógrafo Michael Freeman em O Olho do Fotógrafo nos atenta para a diferença técnica em compor uma fotografia no quadro (enquadramento) como ela deveria ser e compor antecipadamente um corte ou extensão do quadro. Segundo Freeman (2012, p.9) [...] nessa fotografia tradicional, que tem em vista a composição final no momento do disparo, o quadro desempenha um papel dinâmico, talvez até mais do que na pintura. A razão é que enquanto uma pintura é feita a partir do nada, originada da percepção e imaginação, o processo da fotografia é o de seleção de cenas e eventos reais. O autor ainda utiliza para a palavra “enquadramento” o termo “palco”, dizendo que nele é que as imagens evoluem em fotografias muito ativas e rápidas, como na fotografia de rua.


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O que porá uma motivação para discussão de critérios de composição será a afirmativa de Michael Freeman (2012, p.9) em que diz Se o assunto é estático, como uma paisagem, é fácil despender tempo suficiente estudando e avaliando o quadro. Com assuntos ativos, porém, não há esse tempo de carência. Normalmente, é preciso tomar decisões quanto à composição, sejam quais forem, em menos tempo do que é preciso para que sejam reconhecidas como tais.

Resguardando sempre que para isso o fotógrafo vai depender de duas coisas: o conhecimento dos princípios do design e da experiência que vem praticando em tirar fotografias regularmente. As duas combinam-se para formar o modo como o fotógrafo vê as coisas; esta última frase gera o questionamento para chegarmos na delimitação de nosso tema – a fotografia de palco. A respeito da discussão de composição cênica, ou seja, a estética de uma cena de um espetáculo teatral, recorremos ao artigo de Rubens Fernandes Junior Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP). Em seu artigo publicado na página de seu blog autoral Icônica, em 2010, intitulado Teatro e Fotografia, discute a relação do fotógrafo que registra a cena do espetáculo com a estética do encenador daquela obra. Retoma uma discussão que teve com o fotógrafo, na qual Farkas se posiciona dizendo que “o fotógrafo de teatro registra cenas pré-visualizadas pelo diretor do espetáculo. Ou seja, diante de uma imagem teatral, incluindo aqui ópera e dança, estamos sob o domínio da luz e da ação dramática já planejada por alguém, e não propriamente buscando o acaso ou alguma eventual singularidade de uma performance. Aparentemente, isso coloca em cheque a possibilidade de haver algum trabalho criativo na fotografia teatral”. (FERNANDES JUNIOR, 2010). O autor em questão promove este debate que ele mesmo não procura responder, pois, encontra mais problemáticas que respostas; uma delas seria “será que cabe pensar numa espécie de co-autoria, numa parceria entre um diretor que constrói obra e um fotógrafo que escolhe um instante-síntese?”. (Ibid., 2010). Em A Fotografia como tradução da cena teatral, artigo do fotógrafo Bob Sousa, publicado no portal da SP Escola de Teatro do Governo do Estado, em 2017, por conta


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de ter realizado uma exposição em 2013 em que trabalhou como fotógrafo de palco, lêse que a fotografia traduz também a cultura de quem está fotografando, sua ideologia e o período histórico em que vive; desta maneira, se traduz o espetáculo pela visão do fotógrafo-narrador. (SOUSA, 2017). Bob Sousa concilia as duas autorias, o que seria uma possibilidade de resposta para problemática de Rubens Fernandes Junior em seu artigo, dizendo que “cabe ao artista das lentes estabelecer uma relação dialógica entre a obra cênica e a linguagem fotográfica, aliando, ao seu “modo de ver”, técnica, sensibilidade e respeito à montagem”. (Ibid., 2017).

Pontuando suas características essenciais, o produto que se pretende realizar é um livro reportagem, optando pela linguagem da entrevista perfil. O formato em questão procura alcançar a simbiose existente nas trocas, diferenças e proximidades entre o jornalismo e a literatura, construindo um texto movido pelo amor que ambos cultivam pela palavra impressa; porém, traçando uma linha tênue entre a maneira de se construir uma biografia e uma boa história aos moldes da literatura. Literattura, segundo Alex Galeno, advém do latim litterata, que está relacionado a caracteres ou escritos impressos (cf. GALENO, 2002, p.102). A relação entre jornalismo e literatura apresenta proximidade não só em seu significado semântico. No sentido prático, Clóvis Rossi compara o jornalismo a uma batalha pela conquista da atenção de seu público (cf. ROSSI, 2002, p.7). Assim como na literatura, a palavra torna-se o principal recurso que caracteriza a ação do jornalismo para atingir seu alvo. A atenção do leitor e a palavra escrita justificam esta união, que encontra seu marco, a partir do momento em que narrar torna-se essencial, tanto para o fazer jornalístico, quanto para a literatura. Partindo deste pressuposto, reitera-se que a entrevista perfil será publicada em um livro reportagem – produto que será executado – trazendo o cotidiano e vida de João Caldas; seus momentos mais banais até os mais significativos serão traduzidos em formato de ensaio original fotográfico e texto na linguagem new journalism. Seu exemplo será uma maneira de aproximar o fotógrafo e o mercado em que atua ao público, criando referências bibliográficas na área da Fotografia e Artes Visuais sobre o assunto e despertando a memória cultural e nacional na área de Artes Cênicas. A apuração se dará em acompanhar o dia a dia de João Caldas e relatar ao público no


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formato literário todas as informações com ilustrações de suas fotografias a respeito do momento descrito no livro. O personagem é João Caldas, formou-se em engenharia (FAAP-82) e cinema (ECA-82) e fotografa profissionalmente desde 1982, quando realizou os primeiros trabalhos de teatro e dança para o Idart (Departamento de Informação e Documentação Artística, criado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo). Entre 1985 e 1987, trabalhou na Folha de S.Paulo como repórter fotográfico. Depois disso, por meio do seu próprio estúdio, tem fotografado para inúmeros grupos, atores, produtores e diretores de teatro. Também colaborou com o Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo; fez trabalhos para o Teatro Popular do SESI; fotografa regularmente para o Teatro Escola Célia Helena, Casa do Teatro e Teatro Imprensa; e fotografou os últimos musicais montados em São Paulo pela CIE Brasil (hoje Time4fun) e os musicais dirigidos por Jorge Takla. Na dança, tem colaborado com a São Paulo Companhia de Dança. Um dos poucos profissionais expressivos desta linguagem fotográfica – inclusive no âmbito nacional. Por conta de uma entrevista trazer sempre o inesperado, diferentes sensações, percepções do ambiente e dos procedimentos cotidianos do entrevistado não há uma estimativa precisa e justa para se fazer quanto ao número de páginas deste produto. A desenvoltura do personagem, a interpretação do jornalista, suas referências literárias e o material todo apurado em palavra são uma matéria-prima subjetiva e imensurável antes de sua produção.


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7.REFERÊNCIAS ALMEIDA, D. B. L. de. Icons of contemporary childhood: a visual and lexicogrammatical investigation of toy advertisements. Tese (Doutorado em Letras/Inglês) - Programa de Pós-Graduação em Letras/Inglês e Literatura Correspondente, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. BARTHES, Roland. A Câmara Clara: Notas sobre a Fotografia. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984. 185 p. BUITONI, Dulcília Helena Schroeder. Fotografia e jornalismo – da prata ao pixel: discussões sobre o real. Líbero, São Paulo, ano 10, n.20, p.103-111, dez. 2007. FRASER, Tom, BANKS, Adam. O Guia completo da Cor. 2. ed. São Paulo : Editora Senac, 2007. n.p. FREEMAN, Michael. O Olho do Fotógrafo. s. ed. Porto Alegre: Editora Bookman, 2012. 192 p. GALENO, Alex e DE CASTRO, Gustavo (org). Jornalismo e literatura: A sedução da palavra. São Paulo: Escrituras Editora, 2002. (Coleção Ensaios Transversais). GIACOMELLI, Ivan Luiz. Critérios de Noticiabilidade e o Fotojornalismo.s.ed. s.n.t.,2008. 36 p. JUNIOR, Rubens Fernandes. Teatro e Fotografia. Icônica, 2017. Disponível em: <http://www.iconica.com.br/site/teatro-e-fotografia/>. Acesso em: 11 mai.2018. PINHEIRO, Lenise. Fotografia de Palco. 2. ed. São Paulo: Edições SESC, 2016. n.p. ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. São Paulo: Brasiliense, 2002. n.p. SOUSA, Bob. A fotografia como tradução da cena teatral. SP Escola de Teatro, 2017. Disponível em: <http://www.spescoladeteatro.org.br/coluna/fotografia-como-traducaoda-cena-teatral>. Acesso em: 11 mai.2018. WILSON, Edwin. O Diretor. In: TABLADO, O. Cadernos de Teatro 81. Rio de Janeiro: Publicação d’O Tablado patrocinada pelo Serviço Nacional de Teatro – DAC – FUNARTE, órgão do Ministério de Educação e Cultural, 1979. cap. 1, p. 1-6.


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8.CRONOGRAMA

ATIVIDADES FEV MAR ABR MAI JUN JUL Pesquisa do X X X X Tema Pesquisa X X X X Bibliográfica Relatório de Fundamentação Teórico Apresentação e discussão dos Dados do Relatório Apuração da Bibliografia Redação do texto Diagramação X da Capa Entrega do Relatório de Fundamentação Teórico

AGO SET OUT NOV DEZ

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X

X X

X


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9.CRONOGRAMA GERAL

ATIVIDADES

AGO

SET

OUT

NOV

X

X

X

X

e X

X

X

X

das X

X

X

X

X

X

X

X

Contato decisivo com X João Caldas Finalização

de

Pauta X

para os encontros Entrevista Perfil Apresentação discussão

dos

Dados

com o Orientador Decupagem informações Redação do Livro Diagramação da Capa

X

Entrega do Livro para

X

Gráfica Finalização do Produto Entrega do Produto

X

X X

DEZ


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10.ORÇAMENTO

ITEM

QUANTIDADE

VALOR

VALOR

UNITÁRIO

TOTAL

(em média) Capa dura

1

60,00

180,00

Exemplar

1

316,00

1.580,00

Uber para o estúdio

1

56,18

168,54

2,00

976,00

1

4,00

120,00

1

4,00

120,00

1

0,40

70,4

1

400

8.800,00

personalizada

Passagens de metrô 1 e ônibus Salgados da universidade Capuccino da universidade Xérox na universidade Fotos originais de Caldas TOTAL

12.014,94


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11.APÊNDICES

Diário de Campo

O seguinte projeto contou com mais conquistas do que frustrações; a começar pelo primeiro contato que foi feito com João Caldas através do chat do Instagram, no qual se mostrou muito generoso e empolgado em ajudar o projeto, oferecendo seu número de contato, endereço e dispondo-se a encontros nos horários que eu achasse necessário – desde que acertado em comunidade com as partes.

O primeiro encontro contou com um pequeno atraso por conta de morar distante do estúdio de João e estar chovendo, algo que complicou ainda mais a minha organização pelo provável atraso do sistema de transporte público da região; para minha segurança, peguei um Uber que me daria pelo próprio aplicativo uma estimativa mais segura de tempo de deslocamento até o destino.

Ao chegar no estúdio, fui bem recebido por João que logo me ofereceu água enquanto aquecia a cafeteria para nos preparar um café. As perguntas da pauta foram respondidas de maneira muito fluida, pois, o ambiente favorecia para que João ficasse à vontade, afinal, era o seu local de trabalho de muitos anos. Dá pra se notar que no início, Caldas estava nervoso por conta da minha possível expectativa no projeto e na figura dele, porém, desmistifiquei a ideia de que criaria qualquer glamour em cima de sua pessoa e profissão e que a banalidade era o principal elemento a se mostrar na perfil para aproximar sua figura do pública e sua vertente fotográfica.

João me recebeu três vezes em estúdio e me convidou para assistir a uma única peça com ele por conta de agendas. Talvez esta foi a maior dificuldade encontrada, por João fazer parte de um circuito profissional e é principalmente solicitado por figurões do mercado teatral, a sua agenda restringia qualquer participação minha no processo de observação e registro fotográfico do seu exercício de profissão; dependeu muito do perfil de alguns diretores e algumas produções para que me deixassem participar do momento de ensaio com João Calda, embora ele sempre me convidasse e fazia o pedido de maneira a me revelar como inofensivo ao processo da produção em questão.


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Uma das poucas vezes em que pude estar com João em um ensaio foi na sessão fotográfica do espetáculo Num Lago Dourado que teria ali sendo fotografados Ary Fontoura e Cléo Ventura, dois atores consagrados e que possuem uma superproteção por parte de assessorias, contratos e da própria equipe de produção . Porém, João pediu permissão pra produtora e assim me liberaram para estar com o elenco e produção no estúdio de João e tirar as fotos do bastidor da sessão.

O elenco e equipe me receberam muito bem e os atores Ary e Cléo interagiram comigo, brincaram, me incluíam nas piadas de quebra-gelo daquele processo de fotos; em particular com João, Ary conversou conosco e desabafou sobre a situação política e social do Rio de Janeiro, por ser morador de lá também e me tratou como íntimo e da equipe.

Tive muita aceitação da irmã de João também, Alda Caldas que de pronto aceitou marcar um encontro e se mostrou muito solicita e generoso em seus relatos, em nenhum momento se sentiu incomodada.

A decupagem do material foi cruel justamente por conta da generosidade dos entrevistados; ao ligar o gravador todos se mostraram abertos e confortáveis, o que me gerou matérias de duas horas e meia de áudio. Decupar tudo isso foi sofrido por eliminar textos interessantes, mas que não agregariam para a visão do projeto e angulação do tema.

Transcrições

Marcos: Uma figura histórica que eu encontrei que espelhava essa semelhança do que você faz hoje pela fotografia de Teatro, especificamente, em São Paulo – como é o seu caso - seria o ator Fredi Kleeman.

João: Ah, o Fredi pra mim é uma referência. Eu conheci o Fredi Kleeman.

João: Eu sempre fui muito tímido, né? Quieto, tímido e tal. Então, eu não tive coragem de pra “clube de teatro” e tal... Mas, aí a minha irmã que já tinha uma câmera, porque naquela época


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queria fazer Publicidade, me emprestava aquela câmera e eu resolvi ter um hobby que era A FOTOGRAFIA. Que eu acho que pra uma pessoa que é Tímida é superinteressante. É uma coisa que você faz sozinho, quieto, o fato de estar atrás da câmera te deixa meio escondido... Então, pra um tímido é muito bom “a fotografia”.

João: Ele (Albano) foi meio meu padrinho nessa coisa de Teatro. E o Fredi (Kleeman) só era o diretor lá. A gente nem conhecia muito. Só via ele na piscina com o charutão dele. Então, eu não tive um contato pessoal com ele. Inclusive, depois eu fui saber que ele era fotógrafo e além de fotógrafo, ele era ator, né? Então, isso proporcionou a ele ter um acesso ao grupo (de Teatro). Porque ele pertencia aquele grupo. Isso é uma coisa que eu falo pra todo mundo: Pra qualquer foto que você vai fazer, pra qualquer assunto que você vai fotografar, se você conhecer aquele assunto e fizer parte daquele grupo (universo, em questão), com certeza as suas fotos sairão diferentes e melhores. Ah, saem mais verdadeiras porque você conhece o que está fotografando, né?! Com essa entradaque o João teve pelo Albano, frequentar o teatro Amador e ensaios, Caldas começou a efetivamente fotografar o que dizia respeito àquele universo. João: Claro, numa escala muito pequena; porque filme (fotográfico) naquela época era muito caro... Então, era muito limitado. Pouco tempo depois, o próprio Albano começou a dar algumas chances nos teatros profissionais que ele fazia. João Albano estava na E.A.D. (Escola de Artes Dramáticas), em seguida começou a fazer uma peça profissional no Bixiga, num teatro bem pequenininho. E isso, João conta que foi lhe dando uma brecha, uma entrada boa no meio teatral.

João: Logo que eu entrei na faculdade, eu fui convocado pra fazer os exames pra fazer CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) que é bem mais tranquilo, você sai Oficial da Reserva, é meio período. Não é aquela coisa de ser da polícia do Exército, marchar... Você faz isso também, mas se tem aulas, é uma coisa pequena, é elite mesmo. Tem uma formação legal, mas de qualquer forma você ficava lá, tinha que entrar em forma às seis da manhã e saía às duas da tarde, sábado e domingo – um sim e um não – você tirava a guarda, ficar de guarda vinte e quatro horas; aquelas coisas que todo mundo da vida militar faz. Mas, foram dez meses e depois em julho, nas férias, tem um estágio que você faz no interior pra você daí, instruir a tropa, você vira um orientador, dá aula e sair pra reserva como segundo tenente.


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Uma experiência legal... Na época foi meio sofrido, porque era uma época militar e não era bem visto ficar com aquele cabelo... Hoje, você usa esse cabelo retinho dos lados; mas, naquela época, não podia ter barba, nada. Então, fiquei de lado, meio isoladão.

João: Foi um dos anos que eu mais fui ao cinema na minha vida. Porque toda a tarde eu ia ao cinema. Eu trabalhava só meio período, das 06h às 14h. Então, o resto da tarde eu tava livre. Não tava fazendo faculdade. O Cinema foi sempre uma paixão. Aí, quando entrei na Engenharia de novo, eu falei “Ah, não... Quero não. Quero faculdade de CINEMA”.

Aí, eu fui prestar ECA (Escola de Comunicação e Artes), consegui entrar na ECA pra fazer Cinema. E a minha ideia principal era que eu queria ser Fotógrafo de Cinema. João: Foi um musical, na época, muito radical. Era bem “underground”, música do Arrigo Barnabé. E aí, me falaram “vamos, lá! Fotografa pra gente!”. Era a história do Clara Crocodilo. Aquela história de submundo... Não lembro exatamente o roteiro, mas... Tinha o “Clara Crocodilo fugiu, Clara Crocodilo escapuliu”, era uma coisa assim... Bem underground mesmo.

João: Fazia muita foto de ensaio, depois a gente fez uma exposição no saguão do teatro, que ela conseguiu as ampliações, com patrocínio, né? Então, eu me lembro que até na época eu fiz 700 fotos. Que na época era uma coisa maluca fazer vinte, trinta filmes de um espetáculo.

João: E esse processo foi muito intenso!

Porque lá, a diretora era muito conhecida, conhecia muitos contatos, então... Conseguiu ir pra Campos do Jordão, ficar lá 10 dias ensaiando a peça “full time”, dormindo no teatro, fazer o elenco dormir no palco, o elenco todo comia no teatro; era uma vivência intensiva pra ensaios esse espetáculo, e eu fotografando o tempo todo, fazendo parte daquele grupo. Isso foi uma coisa que me marcou muito. Pensei “Não, é isso aqui que eu vou fazer agora! É o Teatro! É a Fotografia!”. Saíram três, quatro casamentos do Clara Crocodilo. Teve uma vivência assim, enorme. Sabe? Acho que naquela época, dava pra fazer isso, né? As pessoas ficavam um mês só fazendo ensaio, ensaio, ensaiando e trabalhando.


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João: E esse espetáculo foi muito marcante na época e muito polêmico. Esse tipo de linguagem, as pessoas nuas, o corpo sujo, bem underground, assim... Foi uma coisa...! Tinha gente que saía na metade odiando, tinha gente que ia cinco, seis vezes, adorava o espetáculo. Tenho o pôster, até isso eu fiz. Quer ver que legal? O José Rubens Siqueira (cenógrafo, figurinista, diretor de arte de todo o espetáculo) era o designer na época. Eu fazia todas as fotos, então ele disse “eu quero uma coisa de outdoor, com pedaços de imagens de todos os outdoors da época, rasgados”. Aí, ele colou tudo e fez a imagem desse crocodilo que saía do outdoor. A gente fotografou isso finalizado e fizemos o cartaz. Não tinha photoshop. Aí, teve uma exposição grande no Maria Della Costa (Teatro) e com essa exposição as minhas fotos tiveram visibilidade; e a partir daí que eu considero que eu virei fotógrafo profissional e de teatro. É até a primeira foto que ta aqui no livro (“Teatros”).

João: Então, eu considero isso o começo de tudo mesmo. Primeiro cartaz de teatro, com crédito “João Caldas”. Foi muito marcante pra mim isso. Foi muito determinante pra eu resolver no teatro. Primeiro, meu irmão ator, que me deu uma entrada boa em teatro. Depois comecei a seguir com esses diretores, funciona quase como um parceiro e ele vai te chamando pra fotografar o trabalho dele. Aí, você vai indo, né? Continuo até hoje fazendo teatro. Clara Crocodilo considero um marco zero, assim, pra mim! Primeira grande que deu visibilidade pro teatro, pra ir pra jornal. Não sei se você sabe, lá no Centro Cultural tem um arquivo multimeios. Antigamente chamava IDART e esse arquivo são pesquisadores de teatro que na época faziam o trabalho de documentação do que tava acontecendo na cidade. E aí, me conheceram e convidaram pra trabalhar no Centro Cultural de São Paulo como fotógrafo de teatro, artes plásticas e dança pro arquivo que tem lá até hoje.

João: Então, diretores, cenógrafos, atores tinham todo um acompanhamento para a produção desses arquivos. Também, consegui ver várias peças. Aí eu embalei com essa coisa de conseguir trabalhar em fotografia para teatro. Eu gosto de ir na peça durante a temporada, com gente assistindo. Que é diferente! Isso é uma coisa que eu aprendi no Centro Cultural. Quando você fotografa com o público, a energia é outra. Você faz um “puta” ensaio geral, mas no dia que tem a plateia, é diferente. Pode ser uma coisa muito sutil, mas, na foto fica evidente. Nunca estive no palco, mas, quando tem público... Você sabe, é outro gás! É outra energia! É uma troca e tal. Isso foi critério e


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obrigação do Centro Cultural. As fotos tinham que ser fotografadas durante uma apresentação com plateia. Inclusive na época, tinha um problema muito complicado do ruído da câmera. Porque as câmeras eram muito barulhentas, na época tinham atores e atrizes que não permitiam. Às vezes, tinham que passar um pedaço da peça só pro fotógrafo. Outros já permitiam. Aí um amigo me falou de um abafador.

João: E aquilo você clicava, sumia o som da câmera. Um abafador! Aí, usava aquilo várias vezes. Acabei fazendo pra várias pessoas, “olha um pra você...” pra já ir replicando pra outras pessoas. Hoje em dia, já tem câmeras bem silenciosas. Essa que eu uso atualmente é uma Canon muito boa. Mas, na época, era terrível.

João: A Folha de São Paulo, eu comecei a fazer uns freelas; eram uns freelas engraçados. Não me lembro qual que foi a edição, mas, acho que foi um amigo que falou assim “Ah, estão precisando de fotógrafo lá... Você faz foto com câmera seis por seis?”. Aí eu “faço!”. Não tinha feito nada! Aí, corria pros amigos, pedia a câmera emprestada...

João: Tipo uns catálogos femininos... Aqueles jornaizinhos que vêm à parte. Tinha o jornal do carro, aqueles que vinham no meio dos jornais. Naquela época, tinha o “Suplemento Mulher”, tipo o Suplemento Feminino que tem no Estadão. Então as pautas eram assim: de maquiagem, de cabelo, ovo de páscoa, melhor pra dar de presente... Isso não era o pessoal do Teatro que fazia; isso era o freelancer que tinha que fotografar. Com isso eu comecei a fazer um freelancer lá com esse Suplemento que é outro tipo de fotografia, luz de estúdio. Aí comecei a fazer foto de carro, alugava estúdio, me virava...! Não importava como fazer, vamo fazer. Mas assim, o que eu fazia com segurança era Teatro.

João: Consegui entrar porque na época, teve uma abertura no jornal pros fotógrafos, fizeram uma seleção e eu já fazia freela lá; isso também me ajudou. Eu consegui entrar com mais cinco ou seis fotógrafos novos. Na época, foi o Tavinho Frias, era um cara que gostava de Teatro... Não tive intimidade com ele, nem nada; mas, quando ele morreu, eu fiquei muito triste. Consegui ficar três anos. Mas, não era a minha praia. O dia a dia muito longo. João: Sempre que dava, aí eles me encaminhavam pras pautas da “Ilustrada”. Depois que eu fiquei contratado lá, eu fazia o que tinha que fazer. Fotógrafo tinha uma editoria e ia atrás,


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“Política”, “Esporte”... Tinha um fotógrafo, quem tá na vez vai. A gente tem a chance de fazer de tudo. Mas sempre que dava, ia ter uma peça, “manda o João que tá mais em casa de fazer”. Pela Folha, eu fotografei muito mais Teatro. Era pauta semanal. É um pouco diferente o trabalho dela. Como vai em muito mais peças, ela trabalha menos profundamente cada peça. Diferente de você vir aqui no estúdio, antes da peça, fotografar, conhecer.

Marcos: Como a Noviça (Rebelde), né?

João: A Noviça eu fiz. Com esses musicais, acontece que são dois fotógrafos. O Jairo que faz isso em estúdio, que são os olhos de todos os lançamentos. Os cartazes, a marca divulgada, né? Depois eu vou e faço as Fotos de Cena. Que são coisas muito trabalhosas, sofisticadas, que exigem todo um cuidado. E eu ainda vou pro palco fazer esses cartazes, alguns ensaios... Em produções menores, às vezes eu improviso. Tá divulgando, a peça precisa de fotos... Então, os atores posam e depois a gente começa a fazer a peça em cartaz.

Marcos: Quando você falou que não poderíamos conversar na semana passada porque iria fotografar o Annie, quase que eu falei “me leva junto”! João: Nossa, eu fui lá seis vezes...Eu até enjoei do Annie. – Depois de risos, completa –É porque o Musical já é outra história.

Marcos: Qual a diferença de você fotografar um musical?

João: Eles têm uma exigência muito grande. Eu comecei a fazer musical... Nossa, o primeiro que eu fiz de cara, foi a primeira montagem de A Bela e a Fera.

João: Foi o segundo musical que os americanos trouxeram pro Brasil. Veio por aquela empresa CIE mexicana, antes da Time For Fun. Eles traziam muitos técnicos de fora, muita gente de fora. Os Miseráveis acho que foi o primeiro, depois foi A Bela e a Fera. Então eles tinham um cuidado com os técnicos brasileiros.

João: O americano. É interessante como eles trabalham. Tudo muito organizado, muito marcado e como é uma franquia esses musicais, as fotos também têm que acompanhar um padrão. Então, você não pode criar muito. Pouquíssimo, assim. Você tem que fazer a cena


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daquele jeito, naquele momento... Em muitas cenas, a gente começou a fazer foto posada, naquela época. Porque algumas cenas da Bela e a Fera, como aquela cena das canecas do Gaston...

João: Então, isso só faz posado. É padrão fazer posadas essas grandes cenas com muita gente. Então, eles marcam um dia com todo o elenco, monta aqui, monta ali o cenário...

Marcos: Pra aqueles programas?

João: Pra aqueles Programas de Luxo.

João: Aquela cena da Bela e a Fera, do Jantar que saem os fogos, sabe? Entra as duas champagnes e sai fogos... Aquilo também foi posado! A gente fazia em cena, mas pro padrão Programa de Luxo, página dupla, é muito difícil porque uma hora, um tá escondido atrás de outro, então, a gente faz com o elenco todo montado, duas cargas daqueles fogos, da fumaça... E naquela época, era com filme, na transição. Porque foi 2000, né? Ah, não, foi 2002 porque já tinha um pouquinho da tecnologia digital, mas as câmeras ainda eram novas, aí não dava pra fazer aquelas impressões gigantes, a gente fazia tudo com filme, filme grande... Posada, “clack”! Posada, “clack” e fazia todo esse barulho. Mas, as fotos eram aprovadas por eles... Depois, eu fiz O Rei Leão que já era digital, mas, pra você ter uma ideia... Eles me deixavam livres, falavam “olha, faz o que você quiser, agora, nós vamos fazer essas cenas e tal...”. E aí, o que ia ser aprovado pra ser utilizado tanto em imprensa, quanto programa, tanto divulgação, deviam ter umas sete pessoas olhando as fotos no Laptop do diretor. Era: a Diretora, Diretor, o cara do Marketing, Peruqueiro, Maquiagem, Iluminador e Figurinista.

João: O orçamento do musical também é diferente. É bem melhor. Não por conta da demanda, mas porque as fotos são mais utilizadas do que num outro espetáculo. Por exemplo, o valor da fotografia tem muito a ver com a utilização dela. Então, você vai fazer uma peça, o musical vai ficar seis meses, aí, eles vão fazer um programa de luxo que nem esse aqui...

João: Essas fotos, a gente fez posado e é igualzinha a cena. Eles fazem com a intenção. Qual a diferença dessa foto posada e não posada? Esses dois atores, em cena, um poderia estar atrás desse e este estar meio escondido aqui... E ás vezes, você consegue mexer um pouquinho na


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luz; não que você mude o desenho da luz, mas aumentar a intensidade geral só da foto, na hora do clique posado. Mas, é exatamente assim! São todas posadas porque o produtor queria mostrar o tamanho do espetáculo e tudo... E eles fizeram tanto esse espetáculo que eles posam muito bem, né?

Marcos: Isso ajuda também?!

João: Ajuda! O elenco é bárbaro. O elenco de musical, eles são muito disciplinados.

João: Na Pequena Sereia, a gente fez foto de cena e foto posada, também. E o legal foi que no programa eles misturaram. Nesse primeiro programa da Bela e a Fera, eu fiquei muito feliz que eu consegui colocar UMA foto de cena. Eu consegui, eu consegui! Era uma que, por acaso, a Fera tava lá no balcão e ela tá com a mão assim, abaixo do peito, abrindo o gesto dramático e tá meio borradinha a foto, por conta do movimento. E eles colocaram essa foto.

Marcos: Eu tenho, na memória, de ver essa foto...

João: E ela tá no Programa de Luxo! Foi o meu desafio!

Marcos: Questão de honra, né?

João: Questão de honra!

João: Mas, dá pra por bastante foto de cena...

Marcos: Dependendo da produtora também, né? Se tem muita influência dos americanos ou não.

João: Pois, é! Essa montagem do Annie , eles tiveram que respeitar bem o roteiro. E o Annie, por exemplo, no meu gosto, ele é muito americano. Então, assim, ele é antigo e americano. Fala de uma época antiga do americano, tem uma coisa social, mas, sempre enaltecendo o milionário com a menina pobre. Senti uns incômodos, assim, em algumas cenas... Fica meio... Quase... Como se diz...? Piegas! Quase! Algumas cenas... Depois, o pessoal da produção, do


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figurino, eles perguntam pra mim “João, você gostou mesmo?”. Eu falo “Não, gostei muito! MAS... A coisa do americano antigo de época não me agrada”. Mas, assim, o elenco... As crianças são espetaculares. As menininhas são assim – João faz o gesto de ficar de boca aberta. Realmente, parecem que foram produzidas na casa de Bibi Ferreira com um toque de Maria Callas. Se deixar curtindo na água, a receita resultará em uma promissora agilidade e performance digna de Claudia Raia. A não ser que a Cultura sofra cortes, aí cortando as pernas, não teremos Raia. Termos Billy – Eliot.

São três elencos de crianças! São sete meninas em cenas, então eles têm 21 meninas! Pra cada papel tem três meninas. Porque criança tem um limite que pode trabalhar tantas vezes por semana e tem o horário. Três elencos! Também teve isso, eu tive que fotografar pras três, com os três elencos de crianças. Por isso que eu já fui seis vezes, cada dia foi com um, né? Tem que ter as três meninas que fazem a Annie. Porque você vai fazer o programa, você vai ter que por umas... Pelo menos, uma foto de cada uma, né? E os elencos é legal aparecer todo mundo. Não são substitutas, são ALTERNANTES. É diferente.

Mas, o espetáculo tem algumas coisas assim... A figurinista me fala que o próprio Miguel (Falabella) queria mudar algumas coisas, mas ele tava meio amarrado. Porque ele tem um contrato e tudo... Já O Homem de La Mancha, não! Ele foi completamente livre... E A Pequena Sereia você assistiu?

Marcos: Não consegui assistir.

João: Veio a diretora americana pra cá. Eles têm outra política, em cada país, eles colocam o jeitinho do lugar...! Então, tem uma das músicas lá que puseram em ritmo de samba, o papel do Tiago (Abravanel) que é o Sebastião tem o sotaque nordestino; a americana veio pra fazer isso! A diretora americana. Ela deu um toque brasileiro. Nada exagerado, mas, sabe...? Aí, você assiste e se encanta, cara! É muito bom! A melhor personagem é a polvo... Marcos: Ah, a Úrsula!

João: A Úrsula! A Andrezza (Massei)! Espetacular! Melhor coisa do espetáculo! O papel dela... É a melhor coisa que ela fez na vida dela...! Muito boa atriz, né? Sempre! Mas, a Úrsula... É...! Bom, a Fabi (Bang) também...! Muito bom! Muito bom!


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E assim, veio a diretora americana, mas o cenário é brasileiro... Tem as diretrizes e tudo mais, mas... Agora, O Fantasma da Ópera já vem...

Marcos: Você fotografou essa?

João: Dessa vez não, eu fotografei o primeiro!

Marcos: O Fantasma é mais franquia do que a Disney, né?

João: O Fantasma era super franquia! Nossa...! Super franquia...!

Marcos: Como foi a experiência do Fantasma?

João: Ah, a mesma coisa que o da Disney, né? Bem rígido. Mas, aí eles já tavam mais tranquilos... Mas, era uma coisa super marcada, assim! “Essa foto pode... Essa foto é assim...”. Aquela do barquinho, tá até aí no livro (TEATROS) fizemos ela posada porque não tem como... O Fantasma é muito escuro! Espetáculo bem escuro! Mas também consegui uma foto no programa que logo que começa o espetáculo assim, que ele vende o candelabro, você viu? Ele vende o candelabro, aí começa e saem os fogos do palco e aí o lustre sobe, assim... Eu peguei aquela foto e eles puseram no programa! Também consegui!

João: Ah, eu fico super feliz quando eu consigo emplacar uma foto que eles não esperam, né? Mas, aí eles já estão bem tranquilos, os gringos, né? Super acostumados com o meu trabalho. Fica bom, fica bom...

Marcos: Você tem o maior carinho por esse musical ,né?

João: Ah, esse foi a melhor coisa que o Atelier já fez. Agora, eles vão fazer o Billy Elliot. Eu não vi fora, mas quem viu, diz que é bárbaro. É uma história legal, né? Com certeza que eles vão achar três meninos que cantem, que dancem aquela coisa absurda... E olha, tem vários musicais em cartaz!


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João: Essa é uma maneira de que vem muito trabalho pra mim...! Ás vezes, os atores me conhecem, ás vezes, os diretores, os produtores e a assessoria de imprensa. Você vai formando tua rede de contatos assim, né? Porque aí, eu consigo manter um ritmo de trabalho bom com foto de teatro por conta disso, assim, de fazer esses contatos. Tenho alguns diretores amigos, parceiros... Porque, ás vezes, bom... Como é que você monta um elenco, uma peça, uma produção, né? Você contrata – acho - que o profissional que você gosta você confia... E acho que principalmente, os que não te dão trabalho nem problema, né? Ás vezes, o cara é super talentoso, o iluminador é genial, fantástico, mas, o cara é difícil. Em contraponto ao que é bárbaro e tranquilo de trabalhar! Então, eu tenho essa coisa de ser bem tranquilo, eu me adapto às condições, eu não sou muito de reclamar, ficar esperando... “Não, não tá bom”, se não tem luz, eu me viro com o que tem! Então, isso, também facilita você ser chamado, né?

João: E não sei preço. Preço tá muito ruim o de teatro. A parte de grana tá bem complicado. E agora, tem muita gente fazendo... Como se diz...? Na resistência, o pessoal tá dizendo. Esse moço (Perí Carpigiani), por exemplo, tá fazendo com a grana dele, uma vez por semana nas quartas de Setembro. É um monólogo, no qual ele dança, canta, faz tudo...! Não sei bem o quê que é. A gente fez umas fotos aqui no estúdio e foi super legal, deu super certo. E amanhã, eu vou lá. Amanhã é a estreia dele, se quiser ir lá... Não sei bem como vai ser. Eu vou lá pra ver e já fotografar. Que é uma coisa que eu gosto também, de chegar na surpresa. Porque eu assisto ao espetáculo quase que inteiro fotografando; eu vou buscando, vou me surpreendendo... Dá umas fotos legais, assim...

João: Depois, às vezes tem que voltar porque errou algum momento, eu tô no lugar errado... Isso acontece muito. Quando eu tô num palco, numa sala de teatro, eu escolho o lugar... Se tem plateia – se for ensaio, não. Se for ensaio, eu fico à vontade. Mas, eu sempre procuro um lugar estratégico. E hoje, eu uso as lentes zoom porque são várias lentes numa lente só. Então, se você tá longe, você enquadra. Você consegue fazer o todo e detalhe sem ficar trocando, o tempo todo, de lente. Então, isso dá uma dinâmica muito boa. Então, se eu tenho chance de fazer um espetáculo, eu vou ficar no meio, aqui! Agora, se eu tenho mais chances, eu começa a explorar as laterais, as diagonais... Que também dá umas coisas muito legais. Você consegue na luz, sobrepostos, passagem, atores – um na frente e outro atrás, tudo isso vai dando uma dinâmica legal pras fotos, né? Deixar aquela foto mais interessante.


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Porque tem alguns diretores que montam as cenas perfeitas pra fotografar. Porque acho que isso faz parte da direção, né? Você compõe a história, o ator, a interpretação, mas, também uma Imagem daquilo que você tá fazendo no palco, né? Então, tem diretores que, Nossa Senhora, não precisa fazer nada, o cara te mostra fotos assim... Um equilíbrio, o ator aqui, a luz ali, tudo compõe... Muito legal!

Você vai acostumando com alguns diretores que são incríveis pra fotografar: Marcio Aurélio, Gabriel Vilela, Jorge Takla... Os espetáculos têm um visual! Agora, um monólogo, é muito legal fazer, também. É o oposto disso aqui, né – aponta para o programa de luxo do Homem de La Mancha.

Marcos: A gente chegou, justamente, mo ponto em que eu queria. Houve uma conversa do jornalista Rubens Fernandes Junior- Jornalista, curador e crítico de fotografia, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP- com o fotógrafo Thomaz Farkas, e ele recordava este encontro, enquanto analisava um fotógrafo que registrava a montagem de Policarpo Quaresma, de Antunes filho.

João: Ah, esse caso é famoso!

Marcos: O que houve foi que Rubens conversou com Thomaz Farkas sobre a fotografia de teatro. No trecho de seu artigo ele descreve: “Sua posição sobre este gênero de fotografia sempre foi muito clara: o fotógrafo de teatro registra cenas pré-visualizadas pelo diretor do espetáculo. Ou seja, diante de uma imagem teatral, incluindo aqui ópera e dança, estamos sob o domínio da luz e da ação dramática já planejada por alguém, e não propriamente buscando o acaso ou alguma eventual singularidade de uma performance. Aparentemente, isso coloca em cheque a possibilidade de haver algum trabalho criativo na fotografia teatral.” Analisando isso, Farkas, de certa maneira, tira a autoria do fotógrafo e agora dispensa numa tríade que seria: Diretor, Ator e Fotógrafo. Pergunto a João, o que ele acha. Quem seria o autor da imagem?


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João: Autor da Imagem é sempre o Fotógrafo! Mas, tem grandes diferenças entre os fotógrafos de teatro. Então, por exemplo, a minha formação de fotografar teatro ficou muito marcada pela época em que eu trabalhei no Centro Cultural, na área de documentação. Então, eu tenho alguns “padrões” que ficaram comigo. Então, eu não consigo NÃO fotografar o palco totalmente aberto; eu acho importante você mostrar o todo, né? Acho que foi por conta disso, porque, na época do Centro Cultural, era pra você ver a concepção da cena, do diretor, do cenário, a luz, tudo!

Então, as fotografias de teatro eu considero caretas, quadradinhas, assim. Por outro lado, elas são muito apreciadas pelo pessoal de teatro, pelos diretores, porque eles nunca se veem em cena. Então, quando eles se veem na foto que eu faço, eles gostam muito porque eles estão se vendo de outro ângulo, né? Não conseguem se ver, estando em cena. Eles estão no palco, mas não sabem que tem esse cara atrás, o cenário assim atrás... Então, quem que é o autor, né...? O autor da Imagem é o fotógrafo. O autor da cena, da composição é o Diretor. É um conjunto de autorias, não sei se dá pra definir assim...

Agora, já tem fotógrafos que reinterpretam e olham de outro jeito. Talvez, a Lenise Pinheiro tenha mais essa característica. As fotos dela, se você olhar, você sente o clima do teatro. Já viu as coisas dela?

Marcos: Pouco.

João: Deixa-me pegar um livro dela, ela tem vários... Olha, bem diferente do meu... Talvez, a capa, eu escolhi essa foto porque eu adoro mãos! Uma coisa que eu gosto são mãos! Inclusive essa mão aqui você deve saber de quem que é, é da... Ela é da Cia do Elevador, é da Carolina Fabre. A gente tem umas coisas em comum, por exemplo, isso aqui, olha... É a primeira foto dela. A minha última...

Nossa, agora, que eu vi essa coincidência... A primeira dela ser igual a última minha... Mas isso aqui é uma coisa que eu sempre fiz questão de colocar que é padrão Centro Cultural, as fotos estão todas identificadas; tem o elenco que aparece na foto, nome e data da peça. Então fica uma coisa de documento mesmo. Quem tá na foto, a peça, o autor, o diretor, todas as fotos estão super identificadas. Mas isso aqui eu não tinha visto... A fila de poltronas aqui, a fila de poltronas ali... Tem algumas coisas em comum e tem outras completamente diferentes.


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João: Essa foto tem uma história bem legal, ela ficou guardada há anos... Não mostrava pra ninguém.

Marcos: Sério? Foi só para o livro? João: É, eu pensei “um dia, eu vou usar essa foto”. Essa foto aqui , o Paulo Autran estava fazendo Visitando Sr. Green e teve a troca do Cássio (Scapin) pelo Dan Stulbach e eu fui fazer um ensaio com eles. Fui num dia de peça, numa sexta-feira, só que eu fui à tarde, eles fizeram a peça, troca um ator com outro e tal... E depois, à noite, ia ter a peça com o Dan (Stulbach) estreando. Pensei, “ah vou ficar aqui no teatro e já façoa estreia dele, pra já ter dele de cena e tudo mais”, já tinha feito dele posado. O Paulo Autran tinha o hábito de, antes de começar a peça, tirar uma sonequinha no cenário, já vestido com a roupa da peça... Umas oito, oito e quinze, oito e vinte dar uma cochiladinha. Eu saí lá do camarim e falei “vou ficar lá fora”. E vejo ele dormindo lá... “Ih, caramba”, saí de fininho, assim... “Putz, será que eu tiro uma foto...? Será...?”. Aí, Tic-tic-tic-tic! Pronto, saí. Tem várias dele assim. E guardei; acho que nem ele, em vida, chegou a ver essa foto. Nunca publiquei, não sou muito de publicar em Instagram e essas coisas. Sou muito quieto. E aí, surgiu a oportunidade de fechar o livro com essa foto dele dormindo em cena. Uma curiosidade porque eu não sabia disso. Mas, isso aqui... – Fazendo menção às poltronas de Lenise e às suas.

João: Mas, você abre em qualquer outra página... Olha o Otavinho (Otavio Frias Filho ), Caraca!

João: Puta que pariu...!

Marcos: Haha! Isso que eu ia falar, as coisas estão se cruzando...!

João: Exatamente... Bom, ela era amiga pessoal dele, imagina...! Amiga pessoal, íntima, assim...! Trabalhou lá muito tempo... Mas, ela tem um jeito de fotografar bem diferente. Ela pega muito detalhe. Talvez tenha peças que eu tenha feito e que ela também tenha feito. Mas, ela tem outro tipo de foto. Mais detalhes. E a minha seja... Ah, não sei, a minha talvez seja mias careta mesmo! Foto abertona, quadradona assim... Mas, são dois olhares bem diferentes de teatro.


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Agora, quando você escolhe foto pra um livro, é muito complicado porque o que você põe e o que você deixa de colocar...? Quem vai entrar, quem não vai... Eu tive muito problema pra começar a fazer isso. Tive até que fazer terapia pra começar a mexer nas fotos... Haha! Pânico, assim...! Porque eu sou muito suspeito, muito parcial com as minhas fotos. Então, a primeira escolhida que eu dei tinha umas 700 fotos. Aí o editor disse “Não, você tá louco...”. Se bem que o da Lenise deve ter umas 400 fotos, esse aqui deve ter umas cento e poucas... “Não, porque é muita coisa e que não sei o quê!?”. Então pra você ir cortando, pra você ir diminuindo é uma dificuldade. Aí a designer gráfica foi escolhendo foto que combinava com foto pra compor a página, né?! Então se são duas fotos de mão, vamos pôr as duas juntas. “Então cai essa, mas essa fica!”. As peças não têm nada a ver uma com a outra, datas diferentes, mas, o desenho da página foi por isso! Essa aqui por exemplo é uma sequência de fotos da mesma peça da Marisa Orth, na qual ela quebrava o espelho. Mas, aí eu conhecia a peça, fui umas duas, três vezes, pus a câmera lá e programei “tic-tic-tic”! Aí, você consegue fazer isso, né?! Isso aqui é completamente imprevisível, né? Teve um dia, inclusive, que ela não acertou o espelho! Ela fez a cena, jogou o cinzeiro e ela não acertou o espelho. Ela pegou o cinzeiro depois, jogou e acertou. Porque acontece, né? Por mais que seja grande, esteja perto, você pode... Errar o gol no pênalti. Haha!

Foi um filtro bem rigoroso, né?! Mas, você vê que a Adriana põe sempre fotos que tenham algo em comum, né?! Esse aqui é o meu irmão!

Marcos: Ah, seu irmão? João: É meu irmão. Tem duas dele; o irmão a gente sempre põe duas... Hahah! Mas, são olhares diferentes, as quantidades de fotos, a edição do livro, são coisas bem diferentes. Ela fotografa muito mais teatro que eu, por conta dessa coisa da Folha; talvez ela vá umas cinco vezes por semana em teatro, pra fotografar. Assim, semana passada eu fui cinco vezes, mas, fui ao mesmo espetáculo. Então, são trabalhos diferentes. Ela tem a pauta que ela tem que produzir pra Folha, pro Blog dela, eles têm que alimentar o Blog e tudo. Normalmente, eu faço as peças que me chamam pra fazer, contrato. Eu vou no ensaio, vou uma vez, depois vou outra vez, acaba sendo diferente. O olhar dela é mais ousado. Mas, ela tem um acervo gigantesco.


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Marcos: Você que existe muito fotógrafo que por conta de estar fotografando pega dessa função que ele está exercendo e lhe dá uma soberba, às vezes, pra ele e de incomodar o público? “Ah, não tem como, porque eu tô fotografando...!”.

João: Às vezes, tem...! Tem acontecido e já aconteceu no SESC. O SESC agora, tá limitando muito quando a gente vai fotografar. “Não, fotógrafo agora, só pode ficar lá na última fila!”. Porque já aconteceu de um ou outro colega, sem esse preparo, sem esse cuidado interferiu no público. Realmente, atrapalha o público, muito. Na época que não tinha silenciador, essas coisas, até nisso o Centro Cultural tinha esse cuidado; fotografava umas cenas muito delicadas, a gente ia falar com os pesquisadores “Hmm, essa cena acho que não dá pra fazer”. Tá aquele silêncio, aquela emoção e aí vem você e “clack,clack”... Não vai dar! “Então, tudo bem! Essa a gente não faz”. Abria mão do registro pra não incomodar. A gente sempre orientava “Espera aquela hora que ele tá falando”, porque isso é uma coisa que eu aprendi também, o ator tá falando ou teve alguma mudança de cena, aí é um momento bom de você clicar. Depois que eu usei o Abafador, então... Nossa, muito bom! Adorava quando saía do espetáculo e o pessoal falava “Pô, João! Você tava aí, fotografando?” e eu “Tava!”. “Nossa, não te vi...!”, me dava a maior alegria.

Marcos: Alguma vez você já deixou escapar um barulhinho de câmera?

João: Algumas atrizes como a Beatriz Segall, a própria Fernanda Montenegro não deixavam fotografar, preferiam passar cenas pra eu poder ter algumas fotos. A Beatriz Segall já chegou a passar assim: Vamos passar algumas cenas assim? Porque durante eu não quero que fotografe porque me incomoda. Aí, eu “Ok, não tem problema”. Mas, uma vez eu fui fazer a Walderez de Barros, era uma peça chamada Madame Blavatsky. Eu fui, o Centro Cultural mandava uma carta avisando e eles da peça autorizavam e aí, no meio da peça, veio alguém da produção e – bate no próprio ombro , aí, ela saiu de cena num momento e “Fala pra ele parar de me fotografar! Tá me enchendo!”. Aí, eu parei e tudo mais. Depois, eu me encontrei com ela, hoje, a gente é amigo e eu brinco com ela “Não vai me tirar, hoje, de cena não, de novo, hein?!”. Essa peça aqui – mostra no seu livro as fotos. Essas foram a que eu consegui, em 1985. Essa foi a hora que ela pediu pra eu parar no meio.


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Ah, as câmeras eram barulhentas, você puxava o dispositivo assim “cleck” e aí “CleckCleck”. Era complicado.

Marcos: E o teatro que ajuda pra propagar esse som, né? Tem toda a acústica.

João: Não, super...! O público já reclamou... E isso até quando veio o Abafador e aí, acabou. Aí, foi uma maravilha.

Marcos: Mas, como foi que o público te abordou? João: Aí, não percebe! Uns até perguntam, o quê que é isso? É uma almofada...? Você enfia a câmera e realmente parece que você tá com um travesseiro na cara e abafa bem o ruído. João: Agora, sempre que eu posso, quando eu sou da produção, eu falo “ Me chama pro ensaio geral, antes de ser com público! Me dá um toque, eu vou lá! Nem que não esteja cem por cento pronto!”. É bom pra eu conhecer o espetáculo, pra eu tentar algumas fotos e saem coisas muito boas no ensaio geral. Ensaio geral que pode até ter uns convidados, uns amigos... Mas, é um ensaio geral, eu posso me deslocar, posso mexer, sempre com cuidado; não é porque é ensaio que eu vou desmoralizar, né?! E agora tem umas lentes novas que eu tô experimentando...

João: Meu pai que me estimulou isso muito, desde pequeno. A gente ia nos concertos do Municipal, domingos de manhã. Concertos pra juventude, ver Eleazar de Carvalho, isso desde os doze, treze anos... Domingo, onze horas da manhã ele fazia um concerto didático e apresentava a orquestra, os instrumentos... Uma coisa pra estimular o público jovem e meu pai gostava, então, a gente ia muito. O Teatro Municipal pra mim é o teatro que eu mais adoro, é um teatro fantástico, assim!

Depois que eu consegui ir como fotógrafo, conhecer o teatro inteiro, os bastidores, fotografar de todos os ângulos, aí... É muito emocionante estar no Municipal pra mim. Eu encontrei meu amigo do Abafador lá. Eu não lembro, antes, como é que eu fazia.Às vezes, a gente arriscava, o elenco todo tava sabendo, E o público, já tive algumas reclamações.

João: Tanto é que eu nunca ia aos sábados fotografar porque o público de sábado ainda é aquele que vai ao teatro, muitas vezes, como programa social, evento. “Preciso fazer alguma


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coisa cultural, então vou ao teatro!”. Então, sábado, raramente eu vou fotografar teatro. Ainda mais teatrão, com publicozão, SESC, tudo... Prefiro ir durante semana, sexta, domingo... Domingo é legal o dia porque é o último dia da semana, então é o dia que o espetáculo tá mais quente, assim! Tá mais a mil por hora. Tem um pouco essa variação. Acho que todos os dias, eles fazem bem, mas... No domingo, não sei, às vezes dá uma energia boa.

Hoje em dia, você faz sexta, sábado e domingo, tem espetáculo que é só sábado e domingo. O Pousada Refúgio do Pedro Granato, eles estão fazendo só às terças; uma loucura eles fazerem só uma vez por semana. E é um espetáculo todo lá em cima, assim. Então, é louco pra entrar um dia a mil, sair a mil, pra depois só fazer na outra semana. Então, não tinha uma regra de como eu fazia sem o Abafador, mais de evitar por conta do público, aos sábados. Já cheguei fazer atrás das cortinas, sem abafador, as óperas. Mas isso foi poucas vezes, porque era ópera e eu não fazia muito. Concerto de música é uma coisa meio árida de fotografar porque não acontece muita coisa; você faz um registro ou outro, na Sala São Paulo, assim. Mas, é pouca coisa, com muito cuidado, quando a música tá muito alta...! Porque não é uma coisa que você precisa fotografar o tempo inteiro, se não, as fotos ficam muito parecidas.

E agora, essas câmeras têm um clique mais silencioso que é muito bom e as novas, zero ruído! Que eu ainda não acostumei porque é uma câmera que o visor dela é um monitor de vídeo; não são esses que o que você olha é o que você tá vendo na lente, né? Então, eu preciso me acostumar com aquele visor digital, parece que você tá olhando uma tevêzinha mesmo.

É uma questão de costume. Mas, essas aí, estão me atendendo muito bem, em termos de barulho não tenho tido problema.

E os novos fotógrafos que estão aparecendo e que têm me procurado pra fazer o workshop e tal, alguns já copiaram o abafador pra poder fazer igual e eu falei “olha, replica isso aí, porque é importante!”. E a gente sempre enfatiza os cuidados, “vai sempre todo de preto”, pra ficar meio invisível no teatro, né? “Não fica andando”, “Se vai se deslocar, ainda assim ,só, fora da plateia”, discretamente, né? Mas, nunca passa no meio, de jeito nenhum.

Geralmente, eu faço assim, porque são ângulos diferentes. Aí eu tiro uma foto do fundo; quando dá, eu faço uma foto da primeira fila, também. É outra coisa. E aí dá uma foto de um


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lado e outra vista pelo outro lado. Aí, você tem todos os ângulos. É bem legal a diferença que dá em cada posição.

Alguns espetáculos dão pra fazer da primeira fila, uns infantis, público mais descontraído... No SESI, teatro popular, às vezes... Tem um público mais tranquilo, então, você fica mais solto. Agora, se eu tô na plateia e tem público, senta a pessoa do meu lado eu digo: “Olha, tô aqui, produção me chamou, vou fazer umas fotos, se eu tiver incomodando, você me fala... Me desculpe o transtorno, qualquer coisa... Pode me falar, se eu tiver atrapalhando, eu paro”. É legal esse diálogo. Porque você incomoda, a pessoa pagou ingresso e você tá lá “tec-tec-tec”. É chato, né?! A maioria das pessoas fala: “Não, imagina! Faz o teu trabalho”. Mas, já aconteceu de gente reclamar. A gente para, não tem problema. Mudo de lugar, até.

Marcos: Mas, aí nesse caso, a produção te pagou pra fazer a foto, você incomodou. E como é que faz? Vai em outro dia?

João: Vai em outro dia. Ou numa outra sessão. É que nunca tem um dia que eu tenha que ir... Isso é o legal do teatro. No jornal diário, é diferente. No jornal, você tem que ir e voltar com alguma foto. Teatro não; eu fiz o Annie, terça, quarta, quinta, sexta e sábado. Então, eu tô editando. Provavelmente na terça e quarta, eles vão começar a me ligar. Porque o espetáculo já estreou, as fotos de estúdio que o Jairo fez, estão servindo de divulgação, eles fizeram uma coletiva de imprensa, na qual eles passam duas cenas ou três e aí todo mundo fotografa e filma, uns cinquenta caras de jornal, revista, blog, internet, revista de hotel, todo mundo! É aberto. Coletiva. Então, as minhas fotos acabam não tendo essa demanda tão urgente de você precisar entregar no dia seguinte. A não ser que tenha uma pauta, precise da foto pra essa semana, aí, a gente vara a noite, edita e manda. Mas, eu nem uso laptop, engraçado. Aquela coisa de ir lá fotografar, o pessoal já quer ver e já escolher, ainda não precisei disso. Essa pressão da demanda. Mas tive que chegar, descarregar e já editar, no dia seguinte de manhã, varar uma noite fazendo isso, pra mim não tem problema. Mas não é uma rotina, de jeito nenhum. É bem excepcional.


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DIA 2

João: Ele fica assim, do lado acompanhando, dirigindo tudo, os maquiadores... Só não pega na câmera, né, Andreia?! Mas ele fala, “olha clica aqui assim...”. Ele realmente dirige tudo! João: Ela foi registrar com o celular a maquiagem e aí o Gabriel disse “Olha, ninguém vai tirar foto com o celular, a gente chamou um profissional. Só ele vai fotografar, hoje, em respeito a ele; eu não quero esse trabalho nas redes, antes da hora. Depois que tudo terminar, aí você registra”. Porque ela tem que registrar cada ator e anotar o que foi feito, com qual produto, quanta quantidade porque depois ela faz um memorial pra cada ator se maquiar sozinho.

João: O legal disso é fotografar teatro e o que está por trás do teatro; porque teatro não é só que você tá vendo ali, né? Você sabe... Você estudou, você trabalhou, montou peça, você sabe o trabalho que dá...! O espectador não tem a menor idéia do trabalho que dá.

Andreia: É, esse é o Frateschi.

João: Bom dia... Sim...

Andreia: Esse, no caso, foi o Wagner Freire que faz a iluminação.

João: Isso...!

Marcos: Que coisa linda...!

Andreia: Esses são os detalhes que a gente fez...

João: Isso, eu já tô, há doze, dias tentando que alguém venha aqui. Eu tenho dois produtos Vivo, dois estão no meu CPF, um é negócio e o outro é residencial... Vocês não conseguem achar o meu endereço comercial?! E já é...


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João: Não, mas, pera um pouco...! Deixa eu explicar, ontem, quando eu liguei pela vigésima quarta vez, eu conferi, chequei, reconfirmei o endereço com a atendente... Eu tenho o número da OS, eu sei que são Vivo Base 1, Vivo Base 2, falei várias vezes que era Vivo Base 1, ela falou “confirmado, rua Vanderlei, número tal”, aí ele chega e vai na minha casa?! Ou seja, é uma falha de comunicação interna numa empresa de comunicação. O problema é DE VOCÊS. Eu quero que o técnico venha no endereço certo... Você desloca ele, ele tá a um quilômetro daqui pra cá, não tem o menor problema. Eu preciso ser atendido, eu to há doze dias sem a minha fibra aqui na empresa.

Andreia: Essa é uma foto posada. Passaram uma cena...

João: Não, eu não vou ligar! Não vou ligar! Você me faz outra ordem de serviço, eu não agüento mais ligar. (Pausa) Então por que você me ligou? Você me ligou pra confirmar... Não foi f... Sim, sim, sim...

Andreia: Nossa, esse pessoal da Vivo é muito embaçado...!

João: O erro é de vocês! Por que é que eu tenho que fazer isso de novo?

Andreia: A gente tá há doze dias sem internet!

João: Mas, por que EU tenho, se o erro é de vocês?

Andreia: O plano do João e o meu já estourou, o de celular...

João: Ele tá lá há uma hora parado, ele já teria vindo e resolvido o meu problema. Ou seja, me desculpa falar, mas, é uma ineficiência, uma burrice, uma ignorância que é sem tamanho isso. Como é que vocês resolvem isso? Você tá me ligando pra não me falar nada, você me fez perder uma hora esperando. (Pausa) Eu já fiz isso várias vezes e você não me acham... Como é que vocês não me encontram no sistema de vocês? (Pausa) Mas, tá errado! Eu já liguei dezoito vezes, mas ninguém acerta. Me dá outro número que não esses dois... Outro! Eu já liguei pra esses dois, eu quero outra opção! (Anotando) Legal. (Pausa). Tá okay.


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Desliga o celular. Sem responder o “Obrigado e tenha um bom dia”, já que de nada lhe foram útil ao ponto de ser grato e ter um bom dia mantendo as cruciais circunstâncias que ferem seu trabalho seria difícil.

João: Nossa, que irritação! Me desculpa!

Marcos: Imagina! Eu conheço as peças também...

João: Doze dias esperando!

Marcos: Sei bem como é que são...

João: E tem que ligar de novo. Começar tudo de novo...

Andreia: Aquele processo tudo de novo de ligar, pra marcar, pra vir aqui um dia?

João: É... Faz parte do dia a dia do fotógrafo, haha!

João: Que saco!

Marcos: A Andreia tava me falando... Doze dias?

João: Desde o dia sete de setembro... Rompeu a fibra na rua, eles não vêm! Eu tenho dois endereços, casa e aqui, eles vão na minha casa, vão na minha casa... O telefone é daqui, eles vão na minha casa. Eles não conseguem me achar. O cara tá na minha casa, agora! Tá lá há uma hora e quinze esperando! Agora, era só pra me avisar que ela vai liberar o técnico, eu falei pôrr...

João: Já dava pra ele ter vindo aqui resolver... (Pausa) Eu não sei mais o que fazer! (Pausa e me olha) Vou pegar uma água pra gente, Haha! (Saindo diz) É muita irritação, Nossa Senhora...

Marcos: Complicado, né? Compromete todo o trabalho de vocês, né?


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Andreia: Sim, sim... Porque a gente trabalha com isso, né? Deve ter um monte de e-mails, alguém pedindo alguma coisa e não tem condições de a gente... Eu acho que tem autorização, um monte de autorização pedindo, mas, a gente fica parada, né? Não tem... Não tem o que fazer.

Marcos: Caramba...

Andreia: Cancelar e tentar outra! Acho que seria mais fácil. Se tivesse cancelado e vindo outra empresa e colocado a internet, acho que tava funcionando. Marcos: Já, tranquilo.

Andreia: Porque, meu, a Vivo... Foi boa. No passado, assim, sabe? Quando tinha concorrência, ela era boa, era eficiente, uma das melhores. Mas, agora... Lamentável. Marcos: E não é a primeira vez que dá esse problema...?!

Andreia: Assim... Que eles não resolvem, é a primeira vez! Né? Sempre, às vezes, dá uns problemas, mas, eles vêm... O técnico vem e acaba resolvendo rápido. Mas, é a primeira vez que eles estão com esse problema de não achar no sistema o endereço daqui.

Marcos: Desde que você trabalha com o João, é a Vivo que a internet do estúdio?

Andreia: Era Telefônica, né? Antes, era a Telefônica e aí, virou essa bosta. Me desculpa, Hahah!

Marcos: Haha! Tudo bem!

Andreia: Mas, eu também tô tendo um problema com a Vivo... Eu comprei um celular pelo site da Vivo, né? E o celular veio com problema...quando eu peguei o celular e mexi, eu vi que ele tava com problema.

Andreia: Aí, eu fui lá na loja da Vivo reclamar e aí disseram que o problema não é deles. Eu sou cliente deles, há mais de dez anos, comprei um celular na própria loja, no site, pela troca de pontos...você tem desconto, tudo bem e aí eu fui lá e falei que o celular veio com problema.


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João: Me dá dez minutinhos, eu vou ligar lá de baixo e já subo, haha!

Marcos: Tá bom, imagina! Haha!

João: Vou ver se ele ainda vem hoje! Haha!

Marcos: Ah, tá jóia! Haha! Andreia: Aí, eles falaram “Não, o problema não é nosso. Você tem que procurar a assistência técnica da Sony”. Aí, eu falei “Escuta, Tudo bem, eu procuro a assistência técnica da Sony... Só que eu comprei um aparelho pra usar o serviço de vocês, comprei na loja de vocês, vocês me mandam um aparelho... Não é que o aparelho deu problema depois de um mês, dois meses... Ele veio com problema! Eu não consegui ligar, quando ligava, ele desligava sozinho e aí, eu venho aqui e você me fala que o problema não é de vocês? Tudo bem que a Sony mandou um aparelho com problema, só que vocês compraram um aparelho com problema, me venderam e agora, o problema é o meu? Háh! Eu que tenho que resolver?”. Não é muito mais fácil dizer “não, vamos trocar... Realmente o aparelho veio com problema...” e trocar o aparelho? Aí, não resolveu. Tive que ir na assistência técnica da Sony que é lá perto do aeroporto, longe pra caramba, na Alameda dos Japurus, Japuru, sei lá... Deixar o celular, já tá mais de uma semana e eu também tô sem celular!

Meu celular tá uma porcaria pra teclar, já tá meio velho e aí você fica nas mãos desses caras. Eles não resolvem o seu problema. O problema nunca é deles. Em casa, eu tenho a Net, ainda... A Vivo vive me ligando “não, vamos trocar... Você já é cliente pós-pago, tem internet, tem isso, tem aquilo.”. Não, muito obrigado. Não, a Vivo não dá. Se tivesse uma outra, já cancelaria tudo. É impressionante, cara, como que todos os serviços no Brasil, são péssimos... Prestação de serviço no Brasil é muito ruim. Pior que você sai de uma e cai em outra, né? Não muda muita coisa...

Marcos: Quando a empresa ruim compra outra, aí fica pior...!

Andreia: E aí, vai virando um cartel que você vai vendo que você tá na mão de um dois grupos só. Um grupo só. Então, você tem que aceitar, né?! A gente enquanto prestador de


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serviço tem que vender sua alma e um pouquinho mais pra pessoa confiar, né? Haha! A pessoa tem que confiar, você faz tudo certinho... Agora, essas grandes empresas destratam você, eu fico impressionada... Eu sei lá o que a gente precisa de fazer, se rebelar e dizer não vou ter mais. Haha! Ah...

Marcos: E presta serviço há tanto tempo pro estúdio, como é que não achou, né?

Andreia: É, essa linha o João tem há mais de trinta anos...

Marcos: E ele deixou aqui o livro do Vilela! Haha!

Andreia: Haha! Ah, é o Imaginai... Muito bacana esse livro, muito bem feito.

Marcos: Nossa, eu tava falando com o Audi (Rodrigo Audi, ator, diretor e professor)... Eu fui dirigido por ele lá no Célia, né?!

Andreia: Ah, ele fez alguns espetáculos. Acho que há dois espetáculos só que ele não fez com o Gabriel...

Marcos: Ele falava pra mim, na época que ele tava ainda reunindo fotos e de liberar foto...

Andreia: Pra esse livro, né? Marcos: Porque acho que tinha uma coisa de... Uma atriz e o marido da atriz não queria liberar...

Andreia: Ai, isso é uma encheção de saco...! Esse negócio de direito autoral, né, de direito de uso da imagem é do fotógrafo, né? A gente que libera o direito de uso da imagem; mas, a imagem, né... O direito da imagem do cara que foi fotografado é um pepino...! Falei quem era a atriz em questão e aí, pela reação de Andreia, fico sabendo que o marido da atriz é fotógrafo também.

Andreia: É um ogro, né? É um dinossauro...! Marcos: Hahah!


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Andreia: O Brasil tá ficando cada vez mais provinciano, né? As pessoas estão ficando provincianas... O Rio de Janeiro é provinciano. Às vezes, espetáculos de teatro aqui em São Paulo tem uma aceitação de um tipo, né? Que já é muito... Um país muito religioso... É arcaico, vamos falar a verdade, né? Precisa ter muita cultura, muito tempo de cultura pra ver se abre um pouco a mente... Mas, no Rio de Janeiro é pior! E é uma cidade que você olha, assim, de fora e você fala cidade maravilhosa, de gente bonita, gente na praia, super liberta... NADA. É muito, muito, muito provinciano. Tanto é que eles elegem evangélicos, né? Já, começa por aí... Não tô falando que é problema só de lá, é problema do Brasil inteiro... Pô, Crivella... O cara que embargou uma exposição...! Que país é esse?! E eles aceitam... Bom, não vamos entrar nessa coisa de política, né?! Mas, é um povo muito provinciano. Às vezes, a aceitação é completamente diferente daqui de São Paulo.Me lembro daquele espetáculo, foi com o Gianecchini e aquele Ricardo Tozzi... Eu me lembro deles falando no final do espetáculo, eles contavam realmente a aceitação de como que era em cada lugar. Fizeram a estreia em Portugal e eles falaram que era um povo muito mais aberto, aceita mais as coisas, e a reação que teve aqui em São Paulo e que teve no Rio de Janeiro – que foram completamente diferentes. Gente, como era o nome do espetáculo...?

Marcos: Os Guardas do Taj?

Andreia: Os Guardas do Taj! Não sei se você assistiu... E é uma história de amizade, né?! Só que quem não tem uma mente muito cabeça, acha que é uma história de homossexualidade, de amor, né? E é uma coisa que acontece na Índia, né? Estão construindo o Taj e é lei: Não pode olhar! Só a amada do príncipe que poderia olhar, né? E eu acho engraçado, os atores contando a história da aceitação que teve esse texto. E às vezes, a platéia ria de umas coisas que não era pra rir. Tipo, algumas falas assim, que não era engraçada, mas, a pessoa ria. Aí, em outras que eram pra rir mesmo, a pessoa ficava meio... Mas, foi bem legal. Aí, eu pensei, então que já comprovou o que eu já sabia. O que eu já imaginava, né, que é mesmo um povo provinciano.

Marcos: Não sabia que tinha essa resistência do Rio com aceitação de espetáculo...!

Andreia: Tem...! De aceitação... Até mesmo, como posso te falar...? É de aceitação mesmo, do novo! Aceitação de abrir a cabeça pra uma nova cultura... O Rio eu acho que é um povo mais religioso, mais fechado, assim! Não tá tão disposto a abrir tudo, a aceitar tudo! Na verdade, o Brasil é assim, né? Se a gente for comparar com outras, é assim. Mas, acho que o Rio de


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Janeiro é mais. Acho que o Rio de Janeiro é um pouquinho pior...! E teatro é isso, né? Abre-se a cortina, abre-se a caixinha preta, lá e tudo acontece. E aí cabe a você aceitar ou não, né?! Tem muito da restrição, né?! Por isso que os grandes musicais fazem sucesso, né? Porque são historinhas bonitas, historinhas gostosas, historinhas do bem... Bem Broadway, né?!

Marcos: O sonho americano, né?

Andreia: O Gabriel (Vilela) mesmo tem muitos espetáculos que ou você ama, ou odeia, né? Tem gente que adora e tem gente que não suporta. Acha muito barroco, acha muito... Ele tem essa linha do barroco mineiro que é sempre muito dramático, né?! Muito carregado, muito intenso. Acho que o único espetáculo do Gabriel que foi completamente clean, não tinha nem cenário, não tinha nem maquiagem, não tinha nada, foi aquele Salmo 91. Acho que foi lá em 2006, 2007 que teve... Esse espetáculo não tinha nada. Tanto que não era tão Gabriel Vilela, porque todos os espetáculos são assim... É muito figurino, muita maquiagem, tudo muito carregado...

Andreia: Oh, lá...! Já tá ligando, já! De novo! Marcos: Eu imagino o estresse por que... Vocês constroem uma credibilidade, uma reputação... Aí, justo com o Gabriel Vilela, enfrenta um problema desses.

Andreia: E fica esse jogo de empurra-empurra com essa Vivo. E o problema é na rua, não é nem aqui. É na rua. Rompeu o cabo na rua e conseguiu que o cara viesse, acho que no domingo. Só que a ordem estava para fazer o serviço interno e não externo. Olha a burocracia... Hahah! É uma incompetência, é tudo... E uma má vontade, acho que eles testam a gente.

Marcos: E que mal vai fazer o cara vir aqui e arrumar? Porque você não usar a internet fixa não vai economizar nada... Pelo contrário...

Andreia: É...! O serviço já tá pago, né?! Conversamos sobre a motivação de fazer o meu TCC e Andreia começou a explanar mais sobre João Caldas na Folha de São Paulo.


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Andreia: Ele trabalhou na Folha, né? Foi lá que ele começou com teatro, começou a cobrir as peças da Ilustrada. Aí, foi indo... Mas, começar mesmo ele começou com o irmão, né, no Clara Crocodilo... Deve ter contado essa história pra você...

Marcos: Contou...!

Andreia: Tem a história dele no Centro Cultural São Paulo, né? Eles têm o centro de pesquisa e hoje, a gente contribui também...! Porque eles tem um acervo lá, mas, acho que até noventa e nove, dois mil, eles tinham os teatros lá e eles contratavam os fotógrafos. Acho que a partir de dois mil, foi extinta essa divisão, então, só que aí eles têm documentada a história do teatro brasileiro até mais ou menos essa data e de lá pra cá, tá defasado. Só que aí, eles têm os contatos com os fotógrafos e a gente sempre alimenta o acervo, o multimeios deles lá. Recentemente, mesmo, em 2010,a gente acho que dez espetáculos que eles escolheram pra tombar, né, lá no Centro Cultural.

Andreia: Mas, que queria ter feito outra...! Talvez, jornalismo... Mas, eu sou péssima pra escrever. Tenho uma amiga que me disse “ah, isso você aprende... É técnica...” Mas, eu tenho sérios problemas com redação. E quando você lê texto de jornal, você que tem mesmo uma técnica, que tem um jeito de começar, de desenvolver, de organizar as idéias no papel. Andreia: E é gostoso esse projeto, né?! Eu acho que ensino de teatro deveria ser – não só do Teatro, mas do Direito, da Constituição – em todas as escolas. Tinha que entrar na grade curricular porque o Teatro liberta a pessoa. E não é só o Teatro, não é só a encenação! Meu, você aprende sobre corpo, aprende sobre projeção de voz, você aprende a se respeitar, aprende a pensar, aprende a respeitar o seu colega...! Eu acho que tinha que ser em todas as escolas isso, né?! Acho que a grande maioria dos problemas do Brasil de respeito e educação se resolveria com isso – com você conhecer, né?! Porque é uma arte coletiva, sem o seu amigo você não faz nada! Então, eu acho que a gente sairia dessa caixinha que a gente vive que sou só “Eu... Eu e a minha família...”, sabe um nepotismo...? Respeite seu colega, ele também vive, você precisa dele pra fazer as coisas! Eu acho que deveria ser em todas as escolas... Mas, é escola particular, né?

Marcos: Sim, escola particular!


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Andreia: É escola particular! E essas pessoas se tiverem chance também, mandam embora! Meu sobrinho mesmo, tá com um projeto aí, falando que quer ir embora pro Canadá. Falei “Olha, João, se fosse em outras épocas, eu falaria...”, porque ser imigrante, em outro país, é foda, né? A gente vê essa onda xenofóbica, em todo lugar...Até aqui no Brasil tem com os venezuelanos, o caos... “Mas, se fosse em outras épocas, eu falaria pra você pensar mais um pouco; mas, hoje, do jeito que o país tá também... Vai! Vai e seja feliz!” Mas, aí tem que largar tudo aqui, né?! Tá terminando a faculdade de Geografia, lá na USP, mas, aí, ele tá fazendo o que ele não quer... Porque ele quer esse negócio de... Fotografia, de Cinema, aí, acho que ele vai prestar pra audiovisuais na UNESP ou até mesmo, lá na USP. Mas, também tá com esse projeto de ir embora e sair do país. Eu falei “Poxa, Ivan, a gente tem que fazer o que a gente gosta, correr atrás do que a gente quer...”. Mas, essa are de Cultura, aqui no Brasil, é muito complicado. Você que é ator, você sabe... É muito complicado. Não é só o teatro, é em tudo! Tudo, tudo que você fala que é Arte... É “perfumaria”...! Tratado como perfumaria, tratado como supérfluo. Todo mundo acha que é e não dá valor, não dá incentivo. Aí “todo mundo é vagabundo”... Até pra minha mãe mesmo, quando eu falei que ia fazer o curso de Fotografia... “Fotografia...? Você não tem outra coisa pra fazer não? Fotografia...?”. Ainda, falava da Fotografia de Teatro , pior, né?! Hahah! “Não basta só ser Fotografia, tem que ser Fotografia de Teatro, ainda?”. Até gente que tá dentro de casa, que a gente sempre conversa, que a gente sabe como que é, né?! E tem já esse pensamento. Eu falei, “ah, João, termina a faculdade de Geografia...” Sei lá, mas, quando a gente gosta também das coisas, não tem como você falar, né?! Eu devia ser a primeira a falar “Não, vai atrás do que você gosta... Você quer ser ator? Corre atrás! Ah, tem que ter sorte... Então, reza pra ter sorte!” Haha! Pra você ter sorte, talento, vocação... Porque não basta você só querer, né? Se não, também, fica dando murro em ponta de faca...! Mas, é o país que a gente vive, né? Se pudesse voltar atrás e “ah, acho que escolhi o país errado!” pra ir lá e começar em outro... Hahah! Mas, não dá, né?!

Marcos: Não dá pra mudar o que já foi feito antes... Só se transformar o país em outro e agora! Mas, agora também, tá difícil...

Andreia: Vish... Com isso que tá aí? Ou continua do jeito que tá, ou piora...! A gente escolhe o menos pior, né?! Até o menos pior tá difícil! O João deve tá pendurado, lá, no telefone... Coitado...


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Andreia: Hoje em dia, a notícia é muito dinâmica, né? Realmente, se acontece alguma coisa, até você ligar pra pessoa chegar lá, tem que estar ali na rua... Hoje, qualquer um é jornalista, né? Qualquer um é fotógrafo... Porque hoje, precisa desse dinamismo, dessa velocidade, dessa rapidez da informação.

Marcos: E hoje em dia, pouco importa, né, a checagem da informação?!

Andreia: Se é verdade ou se não, né? Muito se discute as fakenews , né?!

Marcos: Está terrível, assim... O cara se dedica mais pra montar no site a mentira, do que realmente checar... Por causa do furo (de reportagem) né? O negócio do furo acho que piorou...

Andreia: E como que se checa, assim? É mais discernimento da pessoa, também, né?

Marcos: Ter discernimento... Tentar ver todos os lados pra ver se batem com a realidade, tem que ter coerência no texto...

Andreia: Fontes...

Marcos e Andreia: Fontes confiáveis...

Marcos: E tem uma coisa que... Os veículos conversam entre si, também, pra checar... Então, cria-se uma imagem de concorrência, ainda mais entre as emissoras de TV, mas... Tem que conversar. Porque, se não, você não checa nada...! É óbvio que um possa estar mais adiantado que o outro, mas, pra dar a base verdadeira da história, um grupo conversa com o outro!

Andreia: Mas, eu acho que essa fakenews existe, olha, desde os tablóides... Que eles ficavam inventando mentira de celebridades pra vender jornal, vender tablóide... Vender, né?! Agora, piorou um pouquinho, né?! Às vezes, eu tenho a sensação de que as pessoas estão perdendo um pouquinho do brio... Davergonha, sabe? Da essência do que é ser humano, sabe? Não tem aí... Igual esse Trump, esse Trump é um babaca, como assim...? Ele simplesmente não tá nem aí pra ninguém e acho que nem pro país dele. Tipo o Kiko (personagem do Chaves – achou que eu fosse escrever “Frederico”, né?!) que era dono da bola, aí cansou de brincar, catava a


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bola pra parar e “Parei! Não quero brincar mais!”, pegava a bola e ia embora? Haha! Esse cara não tá nem aí pra ninguém! Tá tudo doido, hoje em dia... O mundo tá doido. O que eu percebo, agora, é que tá tendo uma onda da extrema direita, tomando força mais e cada vez mais... E não é só nos Estados Unidos com esse Trump, não! É na Alemanha, na Rússia, a França ainda não porque elegeu o Macron e ele tenta apaziguar tudo,né? Mas tá meio que... Turquia, tudo, tudo. E tem a ala, também, dos ditadores na América do Sul, né?!

Andreia: Hoje, tem aqui no jornal... Eu achei uma coisa impressionante... Um povo morrendo de fome na Venezuela e o Nicolás Maduro em um dos restaurantes mais caros da Turquia. Segundo pesquisas que eles falam, assim, 99% da população da Argentina vive com menos de um dólar por dia. Isso é uma pobreza mesmo; por isso que tem essa onda de imigração e o cara lá, no maior restaurante... Aí você pensa se será que esse povo não faz nada? Só vê as coisas acontecerem? Também, é difícil, né?! E aí, não é só na Venezuela... A gente tem a Nicarágua que tá assim também... Mas, é político, né? A gente não sabe pra onde estamos indo... Estado de sítio...

Andreia: Ele te falou um pouquinho de como ele arquiva?

Marcos: Não...

Andreia: A gente faz um arquivo, então, armazena tudo em HD externo! A gente tem um monte de HD externo, sempre espelhado porque isso aqui pra dar problema é fácil, né? E pra você perder isso aqui, a gente perde TUDO. Tudo MESMO. Inclusive a confiança (risos). Então, a gente sempre deixa dois HDs e como que a gente acha? A gente tem um banco de dados de teatro aqui no computador.

Andreia Olha, o digital começou em 2013, então, começou a se fotografar mais em digital. A gente sempre coloca o nome do espetáculo, a direção, aonde ele tá arquivado... Por exemplo, aqui tá no HD-16, mais DVD... O ano, que tipo de foto que foi feita, se foi divulgação, se foi cena ou se tem os dois, cena e divulgação , se é teatro, teatro infantil ou teatro musical, ou se é dança – a gente faz muita coisa de dança – e algumas observações... Algum tipo de observação, então, se é musical, que peça teve continuação, se foi – por exemplo – com Elias Andreato que é um cara que a gente sempre trabalha bastante, então


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pede pra filtrar “Elias Andreato” e aí já acha tudo que tá relacionado com o Elias, com o Fagundes... Poucas observações que a gente acha viável colocar. Tem todos os espetáculos que a gente fotografou e o mais importante é onde está arquivado porque, às vezes, ele tem algumas editoras que pede foto, né, pra impressão em livro didático e aí pede, sei lá, uma foto do Decifra-te , aí você fica “Putz, o que é Decifra-te?”... Porque o João fotografa muito! Tem muito teatro rolando... Aí, a gente vem aqui nesse banco, pede pra fazer o filtro, escreve o que a gente quer, ele filtra e aí a gente sabe em qual HD que tem! O HD que tá no armário com os números... Porque daqui a seis meses, sete meses, essa peça do Gabriel (Vilela) já vai ser antiga, já vai ter passado, então tem que etiquetar bem pra saber em qual HD estará... Se alguém pede alguma foto, a gente tem que saber onde tá...!

Os negativos são a mesma coisa...

Andreia: A gente tem os nomes das peças de A-Z, aí, quando a gente precisa de algum, pelo menos não está,assim... Sumido, né? Porque são trinta e tantos anos de carreira fotografando teatro. Então, tem na pasta qual o espetáculo, qual o filme de câmera, são meios por onde a gente pode achar também. E isso aqui não acaba nunca, não deteriora. Até onde a gente sabe, não vai estragar. Agora, o HD a gente já não sabe... Porque já teve o CD, o DVD, agora, estamos no HD e agora, tem isso aqui, né? (Diz levantando um pen-drive) e tem 64 GB. E a gente não sabe como armazenar... Porque HD também dá problema. Tecnologia sempre dá, então a gente sempre deixa espelhado, deu problema em um, a gente sempre tem uma chance de achar no outro. Tem essas conversas de armazenar em nuvem, né? Que funciona, mas, esse é ainda um serviço muito caro... E como a gente vai armazenar tudo isso? Só de HD são quarenta, quarenta dois, quarenta e três HDs de 2 TB, 3 TB. Não sei se teria como armazenar... O ideal que o João fala é que o projeto dele é fazer uma edição, por exemplo, dos negativos, né? Vai pegar todos os espetáculos que ele fotografou e fazer aquela edição das melhores fotos, sabe? Aí, sim, edita umas vinte fotos de cada espetáculo e aí de tudo que ele já fez você ter umas vinte fotos de cada espetáculo... E aí, sim, armazenar essas...!

Marcos: Uau, acho que nem o Centro Cultural consegue...


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Andreia: Consegue, consegue... E fora o projeto dele ter um banco mesmo, um site dele, mas, de ser um banco de pesquisa. Espetáculo tal, tá lá com a ficha técnica, onde foi estreia, ter uma seleção de foto bacana dele... O banco de dados é alimentado sempre que João fotografa uma peça nova e arquiva, em um novo HD, todos os novos cliques. Há muitos pedidos de atores, produtoras, editoras e alunos que são fotografados pelo João.

Andreia: É uma responsabilidade muito grande, né? Que a gente tem... Imagina, você vai fazer o espetáculo, fotografa e... A gente nunca deixa pra ser o último dia, uma única chance que você tem pra fotografar... Mas, às vezes, não tem como! As apresentações da Casa do Teatro são uma vez só e imagina se a gente perde isso. Porque aquilo só vai acontecer uma vez, não vai acontecer de novo... Foi aquele momento e não tem como voltar. Imagina se o HD dá problema, queima o arquivo, apaga o cartão... Uma dor de cabeça! Por isso que quando tem que fazer muita foto assim, a gente fica até um pouco estressado! Fazer backup, liberar cartão, depois fazer foto de novo... Esse trabalho do Vilela, o João fica super estressado! E olha que ele tem, oh, tempo... Tem carreira, faz isso quase que com os pés nas costas, só que não é bem assim, né? Só que não... Ele fica super ansioso, fica super nervoso de perder, dar pau... Às vezes, eu falo,“Mas, João, você faz isso há quase trinta anos...”, aí ele me fala “Mas, o dia em que eu parar de ficar preocupado, vai perder a graça! O dia em que eu achar normal, vai perder a graça!”.

Andreia: No Rei Leão (musical), acho que foi uma foto do João que foi a primeira foto que o diretor artístico do espetáculo aprovou sendo uma foto de cena pra ir pro programa. Assim, no mundo. Foi uma foto dele. Porque todas as outras, em todos os lugares onde o Rei Leão é montado, tem de ser aquele padrão de foto (posada) e quem dirige é o dono do espetáculo original, é o mesmo aqui, na Argentina, na Suíça, se for montado. E ele dirige a foto! Ele chega a pegar no fotógrafo e falar “é aqui!”. Os detalhes são cirúrgicos nas produção da Disney. E teve uma foto do João que foi pro programa que não era foto posada. Vou te mostrar o programa, vem cá!

Marcos: O hospital foi no Exército?

João: O hospital foi do... Eu tava fazendo faculdade de engenharia. Em 75, entrei; em 76, o exército; em 77, fiz a faculdade de engenharia e em 78, fiz outro vestibular pra fazer cinema


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na ECA e lá, eu conheci Maurício Simonetti, que é um baita fotógrafo, e ele trabalhava no Hospital Oswaldo Cruz, como fotógrafo! Porque os médicos, lá do Hospital, no instituto de radioterapia, eles contratavam fotógrafo três vezes por semana, meio período, era de segunda, quarta e sexta à tarde... Pra reproduzir os livros, fotografar as chapas de raio-X – naquela época, acho que não tinha nem ressonância. Depois começou a ter tomografia – e também, fotografar algumas cirurgias porque medicina tá sempre em pesquisa, evolução, então... Não tinha muita tecnologia, então, tinha uma cuidado de documentar tudo isso e também, de dar aulas! Cada caso virava um conteúdo de aula, então tudo isso tinha que ter um documento fotográfico e de vídeo. O Maurício trabalhava, a gente ficou amigo... Aí, ele falou “Oh, João, tô indo trabalhar na Agência F4”, que foi uma agência de fotografia importantíssima de Jornalismo, só tem fera... “Eu vou ser laboratorista lá na Agência, você não quer ficar lá no meu lugar?”... Pô...! Haha! Aí, eu consegui o meu primeiro emprego de fotógrafo, carteira registrada... Isso foi também em 80... 89/80...! No Hospital Oswaldo Cruz! E eu trabalhei lá, acho que três anos e pouco... Na verdade, a gente fazia muita reprodução, eles tinham câmera e fazia gravação em vídeo, fotografava os pacientes e lá, teria que ter uma revelação porque naquela época, não tinha o Power Point! Então, eles faziam os slides com texto e aquele fundo azul. Aquilo que a gente faz hoje no Power Point, fundo azul/vermelho... Aquilo era um processo fotográfico chamado kodalite de alto contraste que a gente punha na câmera! Rebobinava, punha na câmera, fotografava os textos que os caras escreviam – já tinha computador e impressora, colocava aquilo em slides e eles davam aula! Às vezes, fotografava gráfico, raio-X, pra eles darem a aula no congresso e tal... E paralelo a isso, como era só três vezes por semana, dava pra fazer outras coisas, ir na faculdade, né? Dava pra fazer tudo...! Aí, logo na sequência, fui pro Centro Cultural e saí do Hospital. Louco, né? Porque foi tudo perto... Morava no Paraíso, o Oswaldo Cruz era ali, o Centro cultural era ali... Então fiquei sempre naquela região muitos anos...!

Marcos: Então, foi o Takla que te colocou no mundo dos musicais...

João: Foi tudo indicação mesmo... Eu fiz um espetáculo pro Centro Cultural... Poxa, eu não lembro como eu conheci o Takla... Acho que alguém me indicou, ele chegou a fazer um espetáculo que era até com a Walderez de Barros... Outro espetáculo, que não aquele da primeira vez fotografando-a... Era uma direção, que até o cenário e o figurino era do Charles


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Möeller – que hoje é diretor, trabalhava com o (Jorge) Takla, tava começando, “João, você tem que conhecer esse garoto, é um talento, sabe tudo...”. Poxa, como era a peça...? Bom, a luz do Takla, os cenários, nossa... A foto eu tinha impressa, uma foto da Walderez com cinco, seis atores... E eu fiz esse trabalho pro Takla. A gente se afinou bem, ele gostou do trabalho, então, sempre que pode me chama! E aí, quando a CIE veio pro Brasil pra montar os musicais, contrataram ele pra ser diretor artístico da CIE, diretor de Teatro. Porque a CIE, antes da Time For Fun, é igual a Time For Fun: Teatro, Shows, Eventos... A T4F é uma cópia d CIE, só que brasileira. Então, ele era tipo um curador do que a CIE ia trazer, como ia trazer, cuidava dessa parte... O link das produções americanas de teatro musical pro Brasil. Todo musical, tem um diretor residente e na época, era a Tânia Nardini, que era coreógrafa e hoje, tá dirigindo Chicago, em Paris... A Tânia é espetacular... Disputadíssima em países, na Broadway... Aprendeu aqui, tá no mundo. E ela trabalhou com o Takla como diretora residente e agora, tá dirigindo esses musicais sozinha, no mundo, onde chamam ela...! Uma diretora que fica durante toda a temporada pra substituição e ela assiste pra manter a qualidade. Uma coisa que se foi ver sábado, daqui uma semana tem que estar igualzinho. Se trocar alguém, tem que estar igual! Então, a ideia é essa desses musicais... Mas, aí o Takla se arriscou e falou “Vamos trazer o fotógrafo” e o primeiro que ele trouxe foi Os Miseráveis, quem fez foi uma fotógrafa de música que foi chamada, a Lúcia... Não vou saber o nome completo, também, mas... Colega também, parceira... Depois, pro Fantasma, eu que fiz! Aí, fiz uma sequência... Primeiro foi o A Bela e a Fera, depois foi O Fantasma da Ópera, depois teve Chicago, A Família Addams... Aí teve teatro (dramático), fizeram algumas peças de teatro... Teve uma com o Lázaro Ramos e a Taís Araújo... E até hoje o Takla me chama pra fazer as óperas dele... My Fair Lady, eu fiz as duas... O West Side Story, as peças da Marília, Chanel, Master Class... O Takla é um cara bacana! Depois, o Takla recebe todo mundo na casa dele, faz um jantar... O Takla é muito sofisticado. O Takla nasceu na Síria, não sei se é de Damasco ou se é de Beirute... E foi educado, formado, em Paris...! Tem formação erudita tipo, desde jovem, assim... Entende de Ópera como ninguém. O cara que fala francês, inglês muito bem! Dizem que é difícil trabalhar pela rigidez, tipo Gabriel Vilela... O Gabriel Vilela é duro...

Marcos: E o Takla põe isso no meio operístico e musical...?

João: É...! Dizem que é uma pessoa difícil, eu nunca tive problema com ele...


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Marcos: É uma coisa de ator, né?

João: De ator, diretor, muita gente briga, sai... Como no Gabriel, né? Muita gente bate frente, corta relação, fica de mal pro resto da vida, isso acontece. Eu como fotógrafo transito muito por fora mesmo, né? Eu vou faço as fotos e saio. Mas, a gente se dá muito bem... O Takla... E ele confiou em mim, então, eu tenho acompanhado bastante coisa dele! Essa coisa de trabalhar com os gringos em musical tem um lado legal, você atende a uma demanda de alto qualidade, mas ao mesmo tempo, tem que obedecer a um padrão que no mundo inteiro, as fotos não têm a cara do fotógrafo, as fotos têm a cara do espetáculo! Agora, com o Atelier de Cultura está acontecendo uma coisa curiosa, eles estão querendo evitar fotos posadas. Então vamos ver se vai dar certo... Receberam as fotos e o cara do programa deve estar louco porque mandei 1.800 fotos pra ele, o programa tem 50 fotos, geralmente. Mas, como são 3 elencos, 3 meninas, eu fui quatro vezes, então pra ter cada vez um elenco de criança. Ia ser legal porque seria o meu primeiro programa totalmente feito com foto de cena. Mas, não sei... Acho difícil.

DIA 3 Alda: Então, o negócio da câmera... Eu tinha máquina fotográfica e eu sou ciumenta com as minhas coisas, ainda mais máquina fotográfica... E na época, era aquela manual, analógica. Então, tinha que tomar o maior cuidado com as lentes, trocar as lentes, guardar direitinho... E ele era meio garoto, meio criança... Né?

Marcos: Haha! Alda: Mas, aí... Ele era cuidadoso, sempre foi cuidadoso... Aí ele “Não, me empresta sua máquina porque eu vou fazer uma viagem...”. Aí eu falei “Olha lá, hein! Eu empresto, mas tem que voltar exatamente igual...”. Daí, ele levou, cuidou direito, super cuidadoso. A câmera subutilizada, na verdade era superprotegida e a viagem para Campos do Jordão teve sucesso com a câmera da irmã de João.


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Alda: E ganhou um prêmio com essa foto que ele mandou pra um concurso do Banco do Brasil que era do calendário... Não me lembro exatamente o quê que era... E ganhou! Daí, então, eu já relaxei, já deixei usar a máquina à vontade... Mas, aí quando a gente ia viajar, eu fotografava, ele fotografava... E as minhas fotos – eu não tenho nenhum compromisso né – a gente fazia tudo em slide... Mandava revelar lá com os profissionais que ele já trabalhava no jornal, aí ficava montando... Eu gostava dessa coisa! Mas, eu não tinha nenhum problema de mostrar as minhas fotos, então, todo mundo via as minhas fotos e as dele, não! “Porque não, porque eu tenho que ver... Porque eu vou fazer uma seleção...”, ai... (Revira os olhos pra cima).

Marcos: Haha...

Alda: Claro que as dele eram muito melhores que as minhas, óbvio! Mas enfim... Foi assim...

Marcos: E ele sempre foi muito tímido? Desde sempre?

Alda: Sempre... Não é uma questão de ser muito fechado, ele é uma pessoa... Elegante, eu acho... (E levanta um gesto simbólico de etiqueta com a mão). Eu tenho dois irmãos. Um é todo descolado, pimenta, já vai falando, é animado, conta piada (Renato Caldas) e ele é todo sério, quase formal... Então, todas as minhas amigas acham ele super cavalheiro, elegante, chique! E outro é mais despojado!

Marcos: O Renato é mais aberto?

Alda: Uhum... E eles são super diferentes nesse ponto! Não é uma timidez, assim, de ter vergonha, é uma timidez de ser mais quieto... Eu acho que às vezes, eu sou até mais tímida que ele. Agora um pouco menos, mas já fui mais... Primeiro ficar vendo o que tá rolando e depois, eu vou me manifestar. E ele era um pouco assim. Por isso que ele tem esse olhar... De observar. Um olhar diferente pra foto que é super importante.

Marcos: Você começou fazendo Publicidade. Você ganhou a câmera ou a comprou?

Alda: Eu ganhei do meu pai que tinha uma câmera ou ele tinha de alguém, eu não sei... Não me lembro direito, mas ele me deu. Era uma câmera já usada, super boa, uma Canon...


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Marcos: Pra fazer o curso de publicidade...

Alda: Não. O curso que eu fazia, que era na FAAP, tinha as câmeras lá...! A escola disponibilizava as câmeras e a gente podia pegar – era um máximo, na época porque tinha até grua pra fazer cinema! Todas as câmeras, laboratório, tudo à disposição. Era só assinar o livro e depois devolvia!

Marcos: Então, essa câmera, você pediu pro seu pai? Alda: Não, não pedi não! Não sei se ele ganhou, comprou... Aí, eu vi que tava joga lá e “posso usar a câmera?” e ele “pode, pode usar pra você”. Eu gostava de fotografar e ainda gosto.

Marcos: Como começou o seu gosto pela fotografia?

Alda: Eu sou muito observadora, também! Então, eu gosto de registrar coisas diferentes, coisas cotidianas, assim... Por exemplo, numa viagem, eu gosto de fotografar as pessoas, o jeito, as roupas, algumas comidas, alguns tipos de costumes como o jeito em que se põe a comida, entendeu? Detalhes, assim... Mais até do que paisagem, porque paisagem é a coisa mais fácil! Todo mundo tá vendo! Então, eu gosto dos detalhes... Quando eu fazia propaganda, eu gostava também das coisas pequenas assim, foco no detalhe. Mas, eu sou amadora, né... É que eu importante o detalhe. É o que faz a diferença.

Marcos: Em teatro você ia desde pequena com seu pai...?

Alda: Ia. Meu pai levava, nós três, assim, no teatro direto. Todo domingo, a gente ia ou no cinema, ou no teatro, filme infantil, peça infantil... Muitas! Todas! Quando eu fui a teatro de adulto, eu tinha onze, doze anos... Eu fui ver My Fair Lady e eu achei um máximo, me senti super importante, que era com a Bibi Ferreira. Eu fiquei encantada porque o teatro era lindo, as pessoas arrumadas, teatro de gente grande... Me sentindo o máximo.

Marcos: Foram os três pro My Fair Lady?


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Alda: Não, eles eram muito pequenos...! Eu tenho quatro anos de diferença do João. Eu tinha onze, eles tinham oito, nove. Muito pequenos pra mandar pro teatro adulto. Mas, a gente sempre ia, assim... Meu pai tinha essa coisa de levar as crianças todas em programa de adulto pra gente aprender. Levava em museu, levava em teatro, recomendava peça, estimulava a gente a ver peça.

Marcos: Seu pai trabalhava com quê?

Alda: Meu pai? Era advogado, trabalhava com comércio exterior. Nada a ver com a área. Mas, ele sempre gostou muito de teatro. Minha mãe era dona de casa. Ele gostava tanto de teatro que ele colecionava os programas, ele tinha uma pilha de programas de teatro que a gente doou... Não sei se o João que doou pro Museu do Teatro, Casa de Cultura... Que tem um acervo de teatro! Coisas raras, assim... Eu não vou jogar fora isso, né? Não sei nem se ele já doou, só sei que ficou com ele (João). E queria encaminhar pra algum lugar que desce valor; pra não jogar fora e nem vender por papel...! Então, meu pai, gostava muito e a gente aprendeu a gostar de teatro. Marcos: Então, nunca teve nenhuma resistência do seu pai pro Renato virar ator...?

Alda: Imagina! Nada...

Marcos: Seu pai devia ser bem cabeça aberta, tranquilão...

Alda: Ele era! Super! Super moderno! Muito moderno...

Marcos: Você são de família católica... E ele casou-se com uma judia... Você sabe como ele conheceu a esposa dele...?

Alda: Hmm... Não sei exatamente... Mas, eu lembro que eu fui numa festa de uma amiga em comum e ela tava lá! Aí ele falou “Tá vendo aquela moça ali?”, aí eu “Tô”... “Tô um pouco afim dela...”. Aí eu “Ah, é?!”,aí eu “Não, mas... Não sei quem ela é...”, aí ele “Ah, ela amiga da fulana da amiga da dona da casa...” e eu “Ah, tá! Boa sorte, lá...”.

Marcos: O João chegou a ser meio namorador?


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Alda: Ah, mas é tudo nas discrição, assim...

Marcos: Sempre muito reservado...

Alda: Sempre uma de cada vez... Era uma coisa normal, assim...!

Marcos: No colégio também, sempre muito aplicado?

Alda: Ele era muito estudioso, estudava no São Luís... Depois, a gente começou a ver que ele não gostava muito (risos) de estudar lá e sempre achava muito careta... O colégio era só de menino, então, não absorvia nada... Colégio de padre ele tem um pouco de restrições... Mas, era bom aluno. Nunca deu problema pra minha mãe.

Marcos: Uma criança muito tranquila... Era mais de ficar dentro de casa ou de brincar na rua?

Alda: Olha, naquela época, a gente brincava muito na rua, era muito bom! Não era que nem hoje. A gente morava numa casa perto de uma vila, então, todas as crianças da vila brincavam do lado, assim... Então, a gente tava sempre brincando, assim... Não tinha muita preocupação; era uma coisa da mãe fica na ponta do pé e chamar pra almoçar e a gente pulava o muro, a janela... Janela não tinha grade... Teve uma vez, que os meus pais foram viajar e como eu gosto muito de cozinhar, naquela época, já cozinhava, então eu quis fazer uma comida pra todo mundo, assim... Fazer uma receita! Aí, tinham uns amigos deles, assim, tudo homem, garotão... Comeram a comida toda! Aí, depois, a gente ia sair... Eu já tinha carro e ia levar os dois pra alguma viagem, algum fim de semana que eles iam... Eu sei que iam viajar. Pra você ver como as coisas eram tranquilas, teve uma hora que eu falei “Vamo embora! Tá tarde! Vão chegar atrasado e não sei o quê...”. Aí, não saíram e eu “Vou esperar no carro, tá muita confusão!”. E meus pais tavam viajando, só nós três em casa. Eles saíram, pegaram as coisas, voltaram, enfiaram no carro, saí correndo de carro pra deixá-los pra pegar um ônibus que ia sair pra viagem, tinha uma coisa de hora marcada... Larguei eles lá, voltei pra casa e quando eu voltei, a porta estava aberta. E eu estava sozinha; meus pais não estavam, eles não estavam e não tinha celular na época. “Ai, Meu Deus, caramba!”. Isso tudo escuro e a porta aberta total... E a casa não tinha um jardim na frente, era quase que direto na rua e eu fiquei pensando se entrava ou não entrava... Será que tem alguém


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aí, será que alguém entrou... Como tava tudo escuro, eu entrei um pouco, acendi a luz, joguei a minha bolsa... Fiz um barulho, assim, pra ver se alguém se manifestava, NADA. Não aconteceu nada e eles esqueceram a porta aberta... Simples assim e não aconteceu nada. A porta aberta para a rua! Não é que era a lateral... Não! Era a porta da frente! Escancarada e pronto. Eu fiquei quieta, não contei pra ninguém... Dei uma chamada neles e eles “Cara, mas como assim? Mas, esqueci? É? Não lembro...!”. Hahah...

Marcos: Não lembro que eu esqueci...! Haha...

Alda: Então, era muito tranquilo, a gente não tinha problema. Outros tempos...

Marcos: Você se lembra de mais histórias entre vocês? Alda: A gente viajou bastante, curtiu meus pais... Outro dia mesmo, a gente lembrou que fomos pro Egito e ele queria fotografar o camelo e eu falei que queria andar no camelo... E aí, eu subi no camelo e ele foi fotografando...! Os egípcios são muito chatos, eles atormentam a gente num grau... E o João nunca sai do sério, tá sempre “Não, tá tudo bem...!” e nesse dia ele ficou uma fera...! Ele ficava “SAI DAQUI!” e eu ficava olhando assim, “deve ser grave o negócio...!”. Porque os caras queriam dinheiro pela foto e pelo camelo... Então, eles não deixam tirar foto do camelo, a não ser que você pague mais! Então, caímos num golpe total... Aí, o cara não queria abaixar o camelo pra eu descer... E ele ficou mais bravo ainda, nossa... Nossa... Uma fera! A gente lembrou disso outro dia, rindo... Gente chata, sabe? Gente chata... Sei lá, eu ia pular do camelo – naquela época, eu até podia! Fazia acrobacias... No máximo torcer o pé! Se fosse hoje, eu morria...! Isso foi em 1980, a gente tinha uns trinta anos...! Agora, foi divertido; mas, na hora, foi chato, assim! Eles são muito chatos! Porque a gente sabe que se viaja, tem um monte de gente pedindo coisa, vendendo coisa nos países mais pobres – Aqui é assim, né? Compra isso, compra aquilo, dá um dinheiro, compra uma bala, compra um pano de prato... Aqui, a gente tá acostumado com isso, mas, lá... É num grau que o cara fica encostando em você, pegando em você até comprar...! Quando a gente tá quieto, então, irrita... Ele gosta de quando a gente viaja, até hoje, tá todo mundo junto, todo mundo bem, ele vira e “vou dar uma volta!”. Ele quer ir sozinho! É um momento dele e tá tudo certo. Não é porque você falou alguma coisa, ou ele tá de saco cheio do lugar, não... É assim! A gente já sabe que tem um dia ou umas horas em que ele vai andar sozinho... Só olhar, pra fotografar, no tempo


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dele, no ritmo dele e isso sempre foi assim. A gente viajava com a família, sempre tinha isso. Meu pai era super tranquilo com isso e falava “Não, tudo bem... A gente não precisa ficar aqui o dia inteiro, todo mundo, viagem inteira.”. Então, “eu vou ali, você quer ir comigo? Vamos! Se não, a gente se encontra mais tarde ou pra almoçar, ou pra jantar, enfim...” No fim do dia, a gente se encontra e é bom! A gente conta coisas, né? Que você viu, que eu não vi...!

Alda: E quando ele tá no teatro fotografando, mesmo que você esteja do lado dele, fica na sua! Deixa ele! Porque ele não tá ali... Ainda que seja uma coisa sensacional e você que falar “você viu aquela parte?”... Não. Se você vai ao teatro com ele, no dia que ele tá fotografando, é como se você fosse ao teatro sozinho. Tudo bem, entendeu? Porque ele fica super concentrado ali... Aí, as pessoas pegam celular e falam e ele só fala bem depois, não tem comunicação na peça, nem durante, nem depois...! É um processo criativo, né? Não é técnica. É processo. Porque fotografar coisas é mais técnico, você pode conversar e falar “Olha, o café...”, “Vamos colocar essa luz, o que você acha?”. É outra interação. Quando eu trabalhava, também, em Propaganda, a gente trabalhava em estúdio falando também, conversando, é outro processo. No teatro, quando tem pessoas interagindo, é uma história acontecendo, o clima... Tem que entrar naquilo, se não, não resulta!

Marcos: Você é tia coruja?

Alda: Ah, super...! Sempre que dá, eu corujo! Sempre fui tia coruja de todos os meus sobrinhos... Desde o primeiro sobrinho. O Renato teve o primeiro filho (de todos os irmãos), então primeiro neto, primeiro sobrinho, tudo é dele! Eu sou madrinha... Imagina, eu deixava de sair pra ficar com ele! Me convidavam e eu “Ah, tem um jantar na sua casa, tudo ok... Passa pra me pegar tal hora”, tava tudo combinado... Na hora que eu ia sair, ele “buábuá”... “Não creio... Oh, vou chegar mais tarde!”. Esperava ele dormir e aí, eu ia. Tranquilo, magina...! Com os do João, eu não fiquei muito de tomar conta porque a minha já era maior, já tinha outras coisas, outra cabeça... Mas, a gente sempre se deu super bem! Eles têm uma avó materna super presente, então, muito mais presente que a minha mãe era... Não tem uma passagem tão marcante com eles que eu me lembre... É uma família que se dá bem, sabe? Os primos se dão bem, é legal. Minha mãe faleceu com 91 anos, há três anos.


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Marcos: Tinha uma afinidade dela maior com um de vocês do que com outro? Alda: Ah, eu sempre falava e ficava amolando ela assim “Seu filhinho querido falou, tudo bem...!”.

Marcos: Era o João?

Alda: É!

Marcos: Hahah!

Alda: Ela dizia que não, mas... Eu achava que sim! Por ele ser assim, elegante, comportado, conciliador...Era mais fácil dela lidar...! Porque comigo ela não tinha muita paciência e com o Renato menos ainda... Mas, com ele... Né...? Aí, eu ficava enchendo o saco... Não por nada, mas, só pra encher mesmo...!

Marcos: Mas, porque que com vocês dois não tinha muita paciência? Alda: Porque a gente contestava...! “Você tá maluca que eu vou fazer isso... Não vou!”, aí o Renato “Quê? Não vou...!”. O João tinha mais tato. Sempre foi apaziguador. Nunca teve briga, briga! Eram aquelas implicâncias, sabe, de morar junto? Haha... A gente falava “Ah, eu não vou fazer isso” e ele “Tá, deixa que eu vou...!”. Tanto que ele foi o último a sair de casa. Nem sei quanto tempo que ele ficou lá, porque eu desencanei... Eu saí pra ter o meu espaço mesmo. Eu ia, almoçava, convivia, visitava, mas, do dia a dia da casa, eu não sabia nada...! Mas, ele ficou mais tempo morando lá com a minha mãe.

Marcos: Ele só saiu quando casou...?

Alda: Eu acho que sim...! Ele morava um pouco no estúdio e tava sempre em casa.

Marcos: É programa da família assistir o Renato, então?


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Alda: Ah, quando tem estreia da família, todo mundo vai...! Imagina... Meu pai sempre foi ver todas as peças! Era óbvio. Fazia parte da família ir nos eventos de neto, meu pai ia em tudo, era óbvio que ia...!

Marcos: Qual era o nome dos seus pais? Alda: Meu pai era o mesmo nome do João – Caldas Filho. E o meu (risos) era o mesmo da minha mãe, Alda Caldas.

Marcos: Olha...

Alda: Família criativa. (Exibiu-me um sorriso de ironia) Hahah.

Marcos: Hahah!

Alda: Tive muitos momentos cruciais, mas ele é uma pessoa que eu sei que eu posso contar! Se eu tiver num aperto, eu falo “meu, aconteceu isso. O que você acha que eu faço?”, ele conversa. “Vamos ver o que podemos fazer pra resolver”. A gente sempre se dá muito bem, os três e sempre tem aquela coisa de que é difícil irmão, as pessoas são diferentes. Mas, a gente não tem esse problema, nem com as minhas cunhadas e elas são super diferentes. Então, tranquilo, assim! É uma coisa rara, assim... Acho raro. A gente consegue conversar, discordar, se entender, na boa...! Então, eu acho que se eu tiver um problema, ele não vai quebrar a casa; ele vai “pô, meu... Porque você fez isso? Porque não pensou nisso e naquilo...?”, mas, tranquilo. Vai tentar me ajudar de uma forma ou outra!


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12.ANEXOS Fotos de JoĂŁo Caldas:


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