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QUE PAÍS É ESSE? 13 de agosto de 2011

*José Renato Auler renatoauler@bol.com.br

De acordo com a sociologia, uma sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, que interagem entre si, constituindo uma comunidade organizada. Organizada? O modo como faço meu trabalho é o modo como vivo minha vida?

Estamos reclamando do Lula? Do Serra? Da Dilma? Da segurança? Da saúde? Da educação? Do congresso? Bolsa de negociação de interesses? Dos vereadores? Assistentes sociais?

Brasileiro reclama de quê? A sociedade é assim:

Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado. Compra produtos piratas com a plena consciência de que são piratas. Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe das empresas onde trabalha. Comercializa objetos doados em campanhas de catástrofes. Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda para pagar menos imposto. Dirige após consumir bebida alcoólica. Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem.


Espalha mesas, churrasqueira nas calçadas. Estaciona em vagas exclusivas para deficientes. Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas. Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA. Falsifica tudo, tudo mesmo... Só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado. Freqüenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho. Fala no celular enquanto dirige. Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas. Faz gato da energia elétrica, de água e da TV a cabo. Leva das empresas onde trabalha pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis, como se isso não fosse roubo. Muda a cor da pele para ingressar na universidade por meio do sistema de cotas. Para em filas duplas, triplas em frente às escolas. Pega atestados médicos sem estar doente, só para faltar ao trabalho. Quando viaja a serviço pela empresa, se o almoço custou R$10,00 pede nota fiscal de R$20,00. Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve. Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem.

Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos. Saqueia cargas de veículos acidentados nas rodovias. Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração. Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca. Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, gasolina, camisa fora de moda, calça de fundo de estoque, sapatos, conta a pagar, caixa de cerveja, consulta médica, laqueadura de trompa, colchão, promessa de emprego e até dentadura. Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento. Viola a lei do silêncio.


Não consigo entender por que o povo quer que os políticos sejam honestos. As pessoas escandalizam-se com a farra das passagens aéreas, das viagens para fazer cursos piratas em Fortaleza, Porto Seguro e Foz do Iguaçu, do intercâmbio cultural em Blumenau, no “oktoberfest”, do abuso de poder e do desvio de recursos. Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo ou não? Brasileiro reclama de quê, afinal? Para termos políticos honestos, primeiro necessitamos de uma sociedade coerente com sua própria postura ética. É a mais pura verdade, isso que é o pior! A sociedade está tão podre quanto a política. Tem gente que não têm espelho em casa. Deve estar imaginando que ainda está dormindo no berço esplêndido. Brasileiro precisa ler mais, estudar efetivamente, precisa aprender para depois ensinar ou cobrar dos outros uma postura ética. A decisão lastreia-se na informação, mas brota da sabedoria e da transparência.


O modo com vivemos é muito diferente daquele como deveríamos viver. Desprezamos o que se faz corretamente, ignoramos o que se faz errado e nos prendemos ao que deveria ser feito. Desta forma, ajudamos a arruinar o processo social e não aprendemos a defendê-lo a partir dos conceitos da ética. Para Maquiavel (1469-1527) “não é a intenção que valida um ato, mas seu resultado”. A educação/formação é um objetivo a ser perseguido a vida inteira. O sucesso requer constante aquisição de conhecimento e habilidade para se competir num mundo de mudanças aceleradas. Portanto, o que falta a este País não é um portfólio de leis, mas vergonha na cara, regada de condutas éticas e sustentáveis. A construção de novas unidades escolares ou de novas faculdades não resolve plenamente as dificuldades mais prementes da educação. A capacitação dos docentes e a valorização do seu trabalho, mediante o pagamento de um salário justo em relação à importância do mesmo, são elementos prioritários na inovação e na melhoria do processo educacional.A partir disso, experimentar-se-á o surgimento de uma sociedade eticamente comprometida com as consequências de seus próprios atos na relação do bem-estar social.

Começando por nós mesmos, torna-se necessário adotar concepções, sentimentos, comportamentos e práticas de convivência capazes de alterar a existência humana para melhor. Nós mesmos somos os responsáveis e os beneficiados pela superação das praticas obsoletas, que não condizem com as necessidades reais da população. Toda e qualquer mudança deve ser fruto da avaliação e reavaliação constante, tanto em termos cognitivos e afetivos, quanto da prática institucionalizada. A constante pergunta pelo que é certo ou é errado e a opção pelo correto ajudam a desencadear a quebra de paradigmas e o estabelecimento de novos modelos normativos.

Apregoa-se muito a necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos, mas esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores (educados, éticos, dignos, honestos,

responsáveis)

para

o

nosso

planeta,

por

meio

dos

nossos

exemplos. Amigos! A mudança deve começar dentro de nós, de nossas casas, de nossos valores, de nossas atitudes!


Num país gerido por vários Tiriricas melhorados e mantido por um povo sem noção de seus próprios atos, haja Randap para pulverizar tanta erva daninha! Que país é esse, onde é preciso catar a dedo quem pode dar exemplos éticos, dignos, saudáveis e transparentes? Valorizar a ética é necessário na relação do ser humano consigo mesmo, com o seu semelhante, com a sociedade na qual está inserido e na interação com o meio ambiente. Por enquanto, parece que a coisa está pela morte. É lamentável que na hora de votar tenhamos sido obrigados escolher o „menos pior‟ dos candidatos. Em meio a tudo isso, onde estou eu? Às vezes, sinto-me como um idiota, que anseia por mudanças, que ainda sonha com uma nação repleta de políticos honestos, comprometidos com a ética e a implementação de normas dignas que realmente possibilitem a transformação da essência da sociedade. Caso isso não aconteça, creio que vamos pagar por nossa omissão. Percebo que a sociedade tomou sua mamadeira misturada com boa noite Cinderela quando criança e ainda não acordou para os dias de hoje! A coisa mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direção na qual nos movemos. Ainda há tempo para mudar! É preciso socializar o conhecimento para democratizar o poder, fomentar a própria concepção da integralização sistêmica. A reforma política nasce na sociedade, por que ela é a essência da transformação. Daí, sim, pode surgir uma nova relação entre o capital, o trabalho e a sociedade. O povo precisa saber até onde quer ir e também até onde não quer ir. Esse processo é ver o fato completo além de seus detalhes. Para obter algo que você nunca teve, precisa fazer algo que nunca fez. Para exigir é preciso dar exemplo. Segundo Chico Xavier, ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas todos podem recomeçar e fazer um novo fim.

*Mestre em Contabilidade Gerencial, professor de Gestão Estratégica de Cursos e Estágios e coordenador de Estágios e Projetos da Faculdade Castelo Branco.


ÉTICA  

Comportamento

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