Plurais n.º 6

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Plurais 06 JULHO | SETEMBRO 2021



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PRIMEIRO PLANO

Associativismo popular de Loures

08 LADO B

Ín dice

Espaço A

12 ROSTOS

AOPIC – Associação Operária de Promoção Intercultural

24 OPINIÃO

Luís Bom

28 RADAR

Centro Cultural de Loures

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O movimento associativo em tempo de pandemia


Associativismo, uma realidade carregada de futuro


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Historicamente o associativismo popular tem assumido uma importância crucial na vida das comunidades e na satisfação imediata das suas necessidades no domínio da cultura, do desporto, do lazer e da coesão social. A democratização do acesso à cultura e ao desporto, e muito do que se alcança no âmbito da prevenção de problemas sociais, não seriam realidade se o Movimento Associativo Popular não existisse. O País deve-lhe muito. Em Loures, desde há muito reconhecemos o importante papel desempenhado pelo Movimento Associativo e creio mesmo podermos afirmar que o fazemos com algum pioneirismo. Relembremos alguns factos. As coletividades contam, desde a década de oitenta do século passado, com o apoio de ”técnicos de zona” e de “Plano”, na relação com a sua Câmara Municipal e que prestam apoio direto à sua atividade. A criação do Espaço A, em 2017, constituiu uma peça importante da evolução verificada nos últimos anos, a par do funcionamento regular do Conselho Municipal do Associativismo e do Portal do Movimento Associativo, que conta atualmente com 211 associações registadas. Para aprofundarmos o conhecimento da realidade associativa local concretizamos, em 2019, o estudo sobre o Movimento Associativo no Concelho de Loures, publicado em 2020. Este estudo vai permitir-nos melhorar o desenho e acerto das políticas públicas e assim preparar o futuro. Por outro lado, mas não menos importante, nos últimos anos foram reforçados de forma muito significativa os recursos financeiros e materiais para apoio à atividade das associações.

Mas não nos contentamos com o que foi já alcançado. É necessário fazer mais e melhor. É necessário agir, agora. Está neste momento em fase de preparação a proposta de Estatuto de Associação de Interesse Municipal, que contamos submeter à aprovação dos órgãos municipais dentro em breve. Há quase ano e meio que vivemos um tempo atribulado e muito desafiante para o associativismo. Impõe-se, nestes tempos de pandemia que levaram à suspensão das atividades desenvolvidas pelas nossas coletividades, demonstrar que é seguro voltar. É sob este lema que preparamos uma campanha de divulgação do Movimento Associativo e da oferta regular que proporciona. Queremos contribuir não só para que os sócios e os praticantes regressem às atividades promovidas pelas coletividades, mas também para que mais pessoas se interessem e aproximem da diversificada oferta cultural e desportiva que todos pretendemos retomar. Mais do que nunca importa valorizar e apoiar o associativismo. Ele é fundamental para uma sociedade com valores, mais democrática, menos desigual e mais humana. Em Loures, temos muito orgulho nas associações que desenvolvem o seu trabalho no Concelho e naqueles que, generosa e desinteressadamente, dão o seu tempo, o seu talento e muito da sua vida às associações, em prol do bem-estar das populações. Paulo Piteira Vice-presidente da Câmara Municipal de Loures


PRIMEIRO PLANO

Associativismo

de Loures


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Acompanhando os desafios colocados às sociedades contemporâneas, o mosaico associativo de Loures, composto hoje por cerca de 200 associações com diferentes histórias, objetivos e atividades, reconfigurou-se, mas continua a desempenhar um papel fundamental para a população e para o concelho. A ideia de que o associativismo popular de Loures “mudou face ao que era, mas não enfrenta uma crise” é uma das conclusões do estudo Movimento Associativo Popular no Concelho de Loures – 2019, realizado pela Câmara Municipal de Loures em parceria com o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) – ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa, e com a Associação de Colectividades do Concelho de Loures. “O associativismo hoje, pelo menos no concelho de Loures, é uma realidade viva e dinâmica. Muito diversificada, quer quanto aos objetos, quer quanto às atividades e aos protagonistas. É assim diferente do que foi há 50, 100 ou mais anos. Até do que foi há 30, 20 ou 10 anos. E assim teria de ser, porque se assim não fosse, é porque tinha definhado, esclerosado e tenderia a desaparecer”, lê-se no posfácio do estudo, da autoria de Luís Capucha e Nuno Nunes, do CIES/ISCTE.

Vitalidade e dinâmica

Essa transformação resulta clara ao comparar os resultados deste documento com os de um outro – O Associativismo em Loures. Retrato das Associações Locais em Atividades Culturais, Recreativas e Desportivas – promovido pela Autarquia em 1990. De lá para cá, desapareceram algumas associações, mas outras nasceram ou, tendo âmbito de ação nacional ou regional, escolheram instalar-se no concelho. O saldo global é positivo, ficando assim demonstradas a “vitalidade e dinâmica” do movimento associativo do concelho, às quais, como se refere no estudo mais recente, “não será certamente alheia a política de incentivo ao movimento associativo popular que a Câmara Municipal de Loures tem vindo a prosseguir”.


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O associativismo hoje, pelo menos no concelho de Loures, é uma realidade viva e dinâmica.”


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Na obra Movimento Associativo Popular no Concelho de Loures – 2019, que incluiu a aplicação de inquéritos por questionário a 141 associações, ficam também patentes algumas das dificuldades com que estas se debatem no seu quotidiano: ausência de apoios da administração central e carências de tesouraria, inadequação das instalações e questões relacionadas com recursos humanos, nomeadamente a falta de formadores e de técnicos, mas também de voluntários disponíveis para integrar os órgãos sociais. Com este diagnóstico, cientificamente sustentado, é possível, como refere o presidente da Câmara Municipal de Loures, Bernardino Soares, “conhecer melhor a realidade concelhia”, o que permitirá “fazer mais e melhor”, através de uma avaliação e orientação daquelas que têm sido as estratégias de intervenção no terreno. No horizonte paira, no entanto, uma dúvida à qual só o tempo permitirá dar resposta: irá o movimento associativo voltar a dar provas da capacidade de adaptação que demonstrou ao longo dos tempos, e conseguir ultrapassar os desafios colocados pela pandemia de Covid-19?


LADO B

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Criado em 2017, o Espaço A é um gabinete da Câmara Municipal de Loures que procura dar resposta a um conjunto de necessidades do movimento associativo do concelho.

Espaço Procurado pelas associações não tanto para resolver problemas do dia a dia, mas para tratar de situações mais específicas, nomeadamente de âmbito jurídico, fiscal, ou para o desenvolvimento de candidaturas a programas de financiamento e formação de dirigentes. A ideia, de acordo com o coordenador do gabinete, Luís Gomes, “é municiar os dirigentes de um conjunto de competências e informação em áreas específicas”. Por outro lado, adianta, “tentamos reagir o mais rapidamente possível a dar as respostas e somos facilitadores na relação com os vários serviços da Autarquia”. A funcionar na Casa do Adro, junto à Igreja Matriz de Loures, o Espaço A tem uma equipa fixa, coadjuvada com vários interlocutores no seio da Câmara Municipal, com quem o gabinete faz a articulação sempre que necessário. “Temos um jurista, um fiscalista, alguém ligado aos licenciamentos e às obras, entre outros. No fundo, tentamos ser facilitadores nas situações em que as associações, quando têm um problema, não sabem muito bem por onde começar. O espaço A pretende auxiliar a ação fundamental do Departamento de Cultura, Desporto e Juventude junto das associações”, nota Luís Gomes. Além deste serviço, mais direto junto dos dirigentes associativos, cabe também ao


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Nos últimos anos nasceram muito mais associações do que as que fecharam, o que prova que as coletividades são organismos resilientes.”


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Espaço A a gestão do Portal do Movimento Associativo, um site dedicado às questões associativas, com duas vertentes principais: uma para dirigentes associativos e outra para o público em geral. Nele poderá encontrar que tipo de associações existem perto do seu local de residência, ficar a par das mais recentes iniciativas e consultar todo o tipo de informação útil às direções das coletividades. Em simultâneo, o gabinete de apoio ao movimento associativo edita, regularmente, uma folha informativa que é enviada para todas as associações. “As folhas informativas têm essencialmente alertas sobre questões fiscais, mudanças na lei em todos os aspetos que têm a ver com a vida das associações e também as informações da própria atividade da Câmara, relacionadas com as coletividades ou, por exemplo, candidaturas a programas de financiamento externas à Autarquia”, lembra o coordenador. Paralelamente às folhas informativas, são editados cadernos temáticos, com uma periodicidade de dois por ano. O Espaço A disponibiliza ainda uma sala para reuniões e o designado ‘espaço de armário’ para aquelas associações que não dispõem de sede nem de local para guardar o seu espólio documental. A cedência do auditório da Casa do Adro, para reuniões mais alargadas, também é possível.

Resiliência das associações

“Nos últimos anos nasceram muito mais associações do que as que fecharam, o que prova que as coletividades são organismos resilientes”, afirma Luís Gomes. “Neste momento lidamos com uma vertente do movimento associativo que vem já numa segunda linha de necessidades, que não as infraestruturas básicas das populações, o que é ótimo, e está relacionado com a evolução da nossa sociedade. Na maioria dos casos, é para que haja teatro, desporto, música. Nisso, o movimento associativo tem um papel essencial. São a escola. Era impossível ter a prática de atividades culturais e desportivas sem o movimento associativo.”


ROSTOS

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Nós não somos só de onde nascemos, somos também de onde


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Criada no seio de uma comunidade onde os imigrantes predominam, a Associação Operária de Promoção Intercultural (AOPIC) surge em 2020, em plena pandemia de Covid-19, na Quinta do Mocho, em Sacavém.

Kedy Santos Presidente da AOPIC

Uma associação que, segundo o seu presidente, Kedy Santos, pretende “ajudar a debelar, de forma assertiva e justa, os problemas dos imigrantes em Portugal, ao nível das condições laborais”, utilizando a arte, a cultura e o desporto como meios para chegar às pessoas. Para isso é fundamental informar os imigrantes sobre os seus direitos e deveres no país que os acolhe, mas também criar parcerias com entidades e personalidades de referência, nas mais diversas áreas. Pessoas que “encontraram forma de se fazer ouvir, trazendo a cultura das suas origens para a comunidade portuguesa”, sem com isso deixar de lado a cultura portuguesa. “Nós, os imigrantes, somos fruto das nossas origens, mas também do sítio que nos acolhe. Não somos só de onde nascemos, somos também de onde vivemos”, lembrou Kedy, também ele imigrante de origem são-tomense. Carlos Serrano, secretário da AOPIC, também vê na cultura uma forma eficaz de chegar às pessoas. “Temos tido muita sorte com as personalidades que temos conseguido atrair, o que demonstra que estamos no caminho certo. Estamos a encontrar o nosso espaço para sermos cada vez mais uma voz ativa nesta área.” De origem brasileira, Carlos lembra que “o associativismo imigrante é muito forte” e que um dos objetivos da AOPIC é criar pontes e parcerias com outras associações, que já trabalham no terreno, para que, juntos, “possamos trazer para o debate público questões relacionadas com as condições de vida dos imigrantes”, nomeadamente as questões laborais. “Sabemos que boas condições de trabalho, revertem-se sempre em boas condições de habitação e saúde”, afirmou.


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Ajudar a encontrar as melhores ferramentas

A grande maioria dos imigrantes chega a Portugal sem conhecer os seus direitos, e esse desconhecimento, aliado ao medo de não conseguirem trabalho, faz com que muitas vezes se sujeitem a trabalhar sem exigir os seus direitos. “Elucidar os operários imigrantes sobre os seus direitos e deveres mas, acima de tudo ajudá-los a encontrar as melhores ferramentas e mecanismos para se integrarem no país e no emprego” é um dos grandes objetivos da AOPIC, afirmou o presidente, reiterando que é muito importante “os imigrantes terem as suas vidas protegidas do ponto de vista contratual”, uma vez que isso também vai ajudar a criar uma economia mais justa e sustentada, que contribua para o desenvolvimento do país. Para a AOPIC é fundamental combater a ideia de que os imigrantes vêm para tirar algo aos portugueses. É preciso mostrar e reconhecer a importância e a riqueza que estas comunidades trazem ao país. E, por isso, é preciso assegurar que os imigrantes tenham o reconhecimento e o retorno daquilo que dão à sociedade, como qualquer outro trabalhador. E para garantir que esta temática é alvo de reflexão e debate nas mais altas instâncias, a AOPIC conta com um conjunto de pessoas e entidades que quiseram abraçar esta causa, ‘dando a cara’ e juntando-se à associação na realização de atividades


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que pretendem chamar a atenção para esta temática. Uma das primeiras ações práticas levadas a cabo pela Associação decorreu em dezembro de 2020, quando estiveram a distribuir bolos-rei e materiais informativos sobre o direito ao subsídio de Natal, aos trabalhadores de uma construtora. Carlos recorda que “muitos desconheciam esse direito ou sentiam-se fragilizados para o exigir”. E esse é também o papel da AOPIC, que tem a decorrer uma petição online, para enviar à Assembleia da República, em que exige o cumprimento do código do trabalho também para os trabalhadores imigrantes. Uma petição assinada por diversas personalidades imigrantes da sociedade portuguesa, nomeadamente das áreas da cultura e da música.

Iniciativas culturais e parcerias

No âmbito das iniciativas culturais que a associação pretende promover, o destaque vai para a adaptação da ópera Porgy and Bess, de 1935, escrita por imigrantes judeus do Leste, e que retratou a vida dos negros americanos em plena época da segregação racial. Um projeto que está a ser preparado com o maestro António Saiote e o escritor e letrista Carlos Tê, e que pretende contar, na primeira pessoa, as histórias das diversas comunidades imigrantes na Área Metropolitana de Lisboa,


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É preciso mostrar e reconhecer a importância e a riqueza que estas comunidades

trazem ao país.”


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chamando a atenção para as suas condições de vida e de trabalho. As parcerias com os sindicatos, nomeadamente das áreas em que predominam os trabalhadores imigrantes, são outra vertente importante do trabalho da AOPIC. Carlos reitera a ideia de que “a associação não pretende substituir-se aos sindicatos, mas sim trabalhar em parceria”, até porque se tem verificado que as instituições sindicais têm tido cada vez mais dificuldades em chegar aos trabalhadores, acabando a associação por fazer a ponte entre os trabalhadores e os sindicatos. Um trabalho que tem vindo a ser desenvolvido ‘passo a passo’, e que aproveitou o período da pandemia, que não possibilitava ações no terreno, para cimentar as suas bases, mas também para angariar consultores e parcerias. “Estamos numa fase de semear para depois colher”, afirmou Carlos. Um percurso que tem contado, desde a primeira hora, com o apoio da Câmara Municipal de Loures, que “tem sido um parceiro fundamental, abrindo muitas portas e ajudando no encaminhamento dos projetos”. A AOPIC assume-se assim como uma associação que pretende dar prioridade ao conhecimento, ao cumprimento e à igualdade de tratamento nos direitos do trabalho, à promoção e integração das diferentes culturas, bem como ao respeito e sã convivência na sociedade portuguesa. Propõe-se unir esforços com outras associações, sindicatos e entidades públicas e


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Carlos Serrano Secretário da AOPIC Kedy Santos Presidente da AOPIC

privadas para valorizar a diversidade cultural, promover ações de formação sobre direitos laborais junto das comunidades imigrantes, consciencializando a população sobre a discrepância que existe entre contributo do trabalho imigrante para a sociedade portuguesa e o seu reconhecimento simbólico e material. Um trabalho que teve início neste ´bairro emblemático´ do concelho de Loures – a Quinta do Mocho, em Sacavém – mas que a associação pretende estender a outras zonas do concelho, onde a presença de comunidades imigrantes é também muito relevante. Para o presidente da AOPIC é fundamental “querermos ter a dignidade de viver num país que sabe tratar todos os cidadãos de igual forma, valorizando-os, independentemente das suas proveniências”.


OPINIÃO

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Reflexões associativas Luís Bom Professor

A sociedade é muito mais do que a população e o Estado, há também as famílias, os grupos e as associações. As estruturas associativas baseiam-se na participação voluntária e na cooperação focada em interesses comuns, que são plurais: responder a situações críticas (desastres, doenças, etc.), organizar a prática de atividades artísticas, desportivas, etc. É compreensível a estreita relação entre o poder local e as coletividades que desenvolvem os seus projetos nas freguesias e concelhos, dinamizando as relações pessoais e a formação de comunidades locais e sectoriais Todas as associações nascem, algumas crescem, outras dividem-se, por vezes acabam, geralmente transformam-se. O fenómeno associativo é muito diverso, mas, globalmente, há dois aspetos que justificam a sua importância – por um lado, as funções sociais, como a solidariedade e a recreação; por outro, a própria participação dos cidadãos nessas organizações colaborativas e essencialmente democráticas. A solidariedade tem uma longa história de assistência aos mais carenciados e de socorro nas situações de emergência. Trata-se de uma capacidade indispensável nas crises, mantendo prontidão permanente e, assim, os sentimentos de segurança e de confiança de todos. As atividades recreativas, artísticas ou desportivas, envolvem muitas pessoas de gerações diferentes. No território da autarquia, procuram-se os espaços adequados e organizam-se grupos e horários para os treinos e ensaios, as provas e exposições, as conferências e festas. Tudo isto pressupõe recursos adequados e consensos estáveis sobre valores, normas e processos. São pressupostos especialmente importantes nas competições desportivas, cuja qualidade depende do associativismo responsável, do fair-play e, sem dúvida, das aprendizagens formais.


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A sociedade é muito mais do que a população e o Estado, há também as famílias, os grupos e as associações.”


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Na vida associativa ocorrem, naturalmente, divergências que se vão resolvendo. Mas há duas tendências preocupantes, o consumismo e a obsessão. Interessa promover os valores positivos dos estatutos, evitando que os sócios sejam, apenas, clientes, ou se tornem adeptos obsessivos. Felizmente, o cidadão, ao integrar várias associações (profissionais, recreativas, etc.), pode assumir diversos papéis, até o de dirigente, que é o papel principal na vida associativa. Embora se deva distinguir a associação e os dirigentes, são estes que podem dar consistência ao projeto, mantendo uma gestão democrática e eficaz da coletividade. Qualquer «sociedade», seja um país, uma autarquia ou uma associação, caracteriza-se por aspetos como a identidade, a interdependência e a governação. Na relação com as coletividades, o poder das autarquias significa realizar possibilidades, não tanto exercer autoridade. Segue-se, portanto, uma política de apoio às coletividades para que elas possam decidir, atuar e desenvolver-se. Esta perspetiva de um poder atencioso e habilitador é essencial para a qualidade da democracia.


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RADAR


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Ao longo dos últimos anos, Loures tem vindo a afirmar-se como um grande Lugar de Cultura, concretizando uma estratégia de intervenção cultural disseminada pelo território, numa lógica de democratização do acesso, da produção de bens culturais e da educação pela cultura. Esta é uma marca distintiva do nosso concelho.

A consolidação desta estratégia estimula a procura de soluções que permitam responder, de forma mais eficiente, aos desafios da contemporaneidade, em paralelo com a defesa das tradições ancestrais, que fazem de Loures um território diferenciado. Neste caminho, onde se reconhece a importância da intervenção cultural no reforço da identidade local, na inclusão social e na valorização das diferenças como potenciadoras de territórios mais ricos, diversificados e plurais, importa, numa interação permanente com o quotidiano, quebrar as suas rotinas e encontrar respostas diferenciadoras que permitam manter um posicionamento de vanguarda, acolhedor de múltiplas expressões, vivências e sentimentos. É neste contexto que se identifica a necessidade de criar um equipamento âncora que dialogue permanentemente com a cidade e que, pelas suas dinâmicas, se constitua como uma referência, sempre centrado nas pessoas, o mais importante elo desta cadeia. É essa importância que o projeto do Centro Cultural de Loures consubstancia. Um lugar vivo que se assume como Ágora da cultura, privilegiando a formação e a criação, a disseminação do conhecimento técnico e científico, mas também uma referência de encontro e de fruição, que viverá em articulação plena com a paisagem, respeitando os princípios da sustentabilidade. Com o Centro Cultural de Loures, o novo ‘Centro dos Centros’, a implantar no Casalinho de Tinalhas, mesmo no coração de Loures, pretende-se fazer cidade de forma plena e integrada, atraindo mais recursos, mais pessoas e mais projetos, que reforcem o potencial económico local e estimulem a participação de todos, contribuindo para o reforço do pensamento crítico que, pela sua exigência, colocará Loures perante renovados desafios.

Equipamento de referência › Auditório com 600 lugares › Blackbox › Sala multiusos › Café teatro › Auditório ar livre


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Um lugar vivo que se assume como Ágora da cultura, privilegiando a formação e a criação.”


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Ninguém estava preparado para os desafios com que a pandemia de Covid-19 confrontou o mundo, deixando vários domínios da sociedade em quarentena. No concelho de Loures, associações, IPSS, clubes e coletividades sentiram na pele o impacto do confinamento que condicionou todas as suas atividades.

Apesar de um cenário de grande incerteza, a resiliência do movimento associativo, na adaptação a um novo contexto, ajudou a que muitos soubessem responder aos desafios e, assim, minimizar as consequências de uma crise sem precedentes. Falámos com a Associação Empresarial de Comércio e Serviços dos Concelhos de Loures e Odivelas, a Misericórdia de Loures e a Banda da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Fanhões para saber como têm conseguido restaurar, progressivamente, a vitalidade das suas atividades.

Associação Empresarial de Comércio e Serviços de Loures e Odivelas

O cenário de pandemia impôs ao setor comercial e dos serviços, a necessidade urgente de adaptação como forma de fugir ao encerramento definitivo. A Associação Empresarial de Comércio e Serviços de Loures e Odivelas (AECSCLO) surge, então, como um importante apoio numa fase difícil para tantos empresários, adotando medidas para ajudar a orientar os seus mais de 1400 associados.


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Alcindo Almeida, presidente da AECSCLO, explica que, durante a pandemia, a associação procurou “providenciar informação prática e credível” aos seus associados, bem como apoio jurídico “de modo a ajudá-los a interpretar a legislação e aceder às medidas de apoio possíveis”. “As leis sofriam alterações semana a semana e nós tentávamos recolher toda a informação, mandando depois para os sócios à medida que iam saindo. Sentimos que os nossos associados estão muito agradecidos por esse trabalho.” Em breves palavras, Alcindo Almeida faz uma radiografia do impacto da pandemia no concelho de Loures: “Os ramos de atividades essenciais, que se mantiveram abertos, até aumentaram as vendas. Mas também há muitos estabelecimentos que encerraram e já não voltaram a abrir”. O presidente da AECSCLO esclarece que “alguns pertenciam a reformados que tinham o seu pequeno negócio, e que, devido à idade avançada, já não reabriram. Outros não suportaram as despesas fixas, sobretudo com as rendas.” “A nossa associação tentou estar o mais presente possível no dia a dia dos seus associados, ajudando não só a nível burocrático, mas também reivindicando, junto do poder autárquico e do Estado, a isenção do pagamento de taxas sobre o comércio e serviços.” A própria AECSCLO passou “por uma crise terrível”, revelou

Alcindo Almeida Presidente da AECSCLO


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Duarte Morgado Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Loures

Alcindo Almeida. “A nossa associação vive das quotas dos associados. Não temos mais receita nenhuma. Também sou comerciante em Loures e nunca passei, no meu estabelecimento, o que passei nesta associação. Tivemos de renegociar contratos de água, telefone e seguros para, juntamente com o nosso fundo de maneio, poder pagar o ordenado aos nossos funcionários.” “Este ano, a retoma dos estabelecimentos está a ser mais difícil, porque ainda se sentem os efeitos do ano anterior, mas estou convencido de que vamos ultrapassar esta fase”, afirmou Alcindo Almeida. “Gostava que os nossos associados tivessem coragem e força. Com a ajuda da AECSCLO, será possível arrancar para uma nova vida.”

Santa Casa da Misericórdia de Loures

Em 24 anos de existência, a Santa Casa da Misericórdia de Loures passou pelo ano “mais duro e exigente de sempre”. Quem o diz é o seu provedor, Duarte Morgado, revelando que a quantidade de pedidos de ajuda subiu exponencialmente. “A pandemia está intimamente ligada à precariedade do trabalho. Começámos a receber pedidos até de fora da freguesia de Loures. Havia pessoas incapazes de pagar o arrendamento e pessoas que ficaram sem habitação. O que fi-


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zemos foi trabalhar em rede, tentar encaminhar para outras IPSS e entidades institucionais”. Além de canceladas atividades que estavam programadas, em que se incluem visitas a outras misericórdias do país, a Misericórdia de Loures teve de fechar as portas da sua loja solidária no Centro Comercial Continente de Loures, “que nos proporcionava uma bomba de oxigénio regular”, bem como do Centro de Atividades Educativas da Manjoeira, valências que davam um significativo suporte financeiro ao orçamento, complementar às quotas dos associados e aos apoios institucionais. “O apoio que a Câmara de Loures deu foi fundamental, pois cada vez prestamos uma resposta mais diversificada com a mesma quantia de dinheiro, que provém essencialmente de donativos e das quotas dos nossos irmãos. Isso quer dizer que temos de ir buscar dinheiro a outros sítios, reinventando-nos e sendo criativos.” De facto, a pandemia colocou em destaque o trabalho da Misericórdia que, mesmo num cenário de incerteza, soube adaptar-se e produzir respostas criativas. Exemplos disso foram a abertura do Ateliê da Misericórdia, no Mercado de Loures, com trabalhos de artesanato realizados por voluntários; a Loja dos Afetos Partilhados, dedicada a famílias que necessitem de produtos de apoio ao cuidado do bebé e da mãe; e o início do projeto Colmeias Solidárias. O mel, produzido na zona da Várzea

Jorge Taipa Maestro Renato Matos Direção dos Bombeiros


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de Loures, tem como destino a venda com o objetivo de garantir a subsistência dos diferentes projetos sociais. Além destes projetos, os esforços da Misericórdia estão agora centrados na implementação, na localidade da Paradela, em Santo António dos Cavaleiros, de uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (Lar), um Centro de Dia e um Serviço de Apoio Domiciliário. A cedência do direito de superfície do terreno já foi aprovada em agosto do ano passado, tendo ocorrido após candidatura ao PARES 3.0 - Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais, durante o ano 2020.

Banda da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Fanhões

São à volta de 30 os músicos que constituem a banda que, este ano, comemorou 130 anos, e é liderada pelo maestro Jorge Taipa. 2020, segundo o maestro, era dos anos em que “mais serviços estavam marcados”. Mas a pandemia veio estragar os planos e toda a atividade teve de ser cancelada. “Tínhamos um encontro de bandas em Barcelos. Íamos também a Palmela. É preciso atividade, porque só ensaiar, sem apresentações junto do público, desmotiva os músicos”, revela. O certo é que os ensaios foram suspensos e a grande maioria dos instrumentos ficaram parados, mas não se perdeu a vitalidade. Quem o diz é Renato Matos, elemento da direção dos bombeiros responsável pela banda de música. “No meio desta pandemia, considero que conseguimos ultrapassar esta fase com sucesso. A direção sempre apoiou, mas temos de salientar o esforço do maestro e dos elementos da banda que conseguiram adaptar-se a este novo formato que todos nós vivemos.” “Se nos perguntassem há dois anos se era possível dar aulas através do Zoom, ninguém iria acreditar. O que é certo é que o maestro se adaptou muito bem e até superou todas as expetativas. Ficámos maravilhados. Correu muito bem.” Dar aulas online foi a solução encontrada, para que muitos dos alunos que estavam na escola de música, principalmente os que estavam a começar a tocar um instrumento, não desistissem. “Costumo dizer, se há alguma coisa boa que esta pandemia nos trouxe foi a experiência de dar aulas online”, referiu Jorge Taipa. “Consegui manter os miúdos motivados e se um não podia ter aula à terça-feira, tinha à quarta. Tenho alunos que evoluíram mais num mês do que em meio ano com aulas presenciais.” Agora os ensaios da banda e as aulas da escola de música já voltaram presencialmente, mas como o sucesso do ensino à distância foi grande, as aulas online mantêm-se em simultâneo. “Fazemo-las sempre que um aluno não pode ter aula presencial”, explica o maestro. O objetivo agora é fazer crescer a banda de forma sustentada. “Já temos algumas ações delineadas, nomeadamente parcerias com associações de pais e com as escolas, levando até eles audições, para dar a conhecer os instrumentos e, assim, cativar mais as crianças para a música”, refere Renato Matos. “Também gostaríamos de, neste verão, dar pelo menos um grande concerto porque a população está desejosa de nos ouvir”, acrescentou Jorge Taipa.


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Conselho Editorial Consultivo António Saiote Cláudia Camacho Luís Bom Luís Varatojo Pedro Campos Costa Rita Redshoes Rui Machado Vitor Oliveira Jorge

Ficha técnica Diretor: Paulo Piteira Redação, revisão, fotografia, grafismo e paginação: Divisão de Atendimento, Informação e Comunicação Departamento de Cultura, Desporto e Juventude Impressão: Soartes Distribuição gratuita Tiragem: 5 mil exemplares Depósito legal: 442545/18 ISSN 2184-2477

Consulte a edição digital www.cm-loures.pt