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psico.usp A revista sobre pesquisas do Instituto de Psicologia da USP n.2/3, 2016 | www.ip.usp.br/revistapsico.usp

Educação Os desdobramentos de ser e se sentir professor

Bio Novas formas de prevenção e tratamento da compulsão alimentar

Saúde Anorexia: muito além da busca pelo corpo ideal

Arte O filme Her e a solidão contemporânea

Perfil Dora Selma Fix Ventura: pioneira nos estudos da psicofísica no IPUSP

Commentor Como falar de morte com crianças. Por Maria Júlia Kovács

É HORA DE FALAR | psico.usp

SOBRE


n.2/3 2016

Commentor

Por Maria Júlia Kovács 170

Outro olhar 180 Mural do IP

Nova linha de pesquisa na Pós-graduação do IPUSP 6

Bio

Novas formas de prevenção e tratamento da compulsão alimentar 140

CAPA | Sociedade Dossiê Gênero 10

Arte e Cultura

O filme Her e a solidão contemporânea 148

Perfil

Dora Selma Fix Ventura 168 2 | psico.usp


Psico-HQ Se a vida fosse como a internet 178

Universidade de São Paulo Reitor Marco Antonio Zago Vice-Reitor Vahan Agopyan Instituto de Psicologia Diretor Marilene Proença Rebello de Souza

Educação O sofrimento docente 115

Vice-Diretora Maria Isabel da Silva Leme IP Comunica Islaine Maciel

psico.usp produção e coordenação Islaine Maciel

Saúde

Anorexia: muito além da busca pelo corpo ideal 132 psico.usp: a revista sobre pesquisas do Instituto de Psicologia da USP / Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. – n.2/3, (2016). – São Paulo, IPUSP, 2016. il. ISSN: 2447 9795 (impressa). ISSN : 2447 7109 (online). 1. Psicologia 2. Pesquisa científica – Psicologia 3. Divulgação científica I. Instituto de Psicologia II. Universidade de São Paulo III. Título: É hora de falar sobre gênero

BF38

A revista psico.usp considera em seus textos a expressão “pesquisadores do IPUSP” alunos da pós-graduação e graduação que estiverem desenvolvendo pesquisas pelo Instituto de Psicologia. Portanto, esta designação não caracteriza qualquer vínculo empregatício com a Universidade de São Paulo. psico.usp é uma publicação do Instituto de Psicologia da USP

produzida pelo Serviço de Apoio Institucional (IP Comunica). Av. Prof. Mello Moraes, 1721 – sala 17 | Edifício César Ades Cidade Universitária – 05508-130 – São Paulo, SP Tel.: 11 3091-4178 | revistapsico.usp@gmail.com | www.ip.usp.br/revistapsico.usp

organização Aryanna Oliveira, Islaine Maciel e Tatiana Iwata redação Anátale Garcia, Aryanna Oliveira, Carolina Sasse, Fernanda Giacomassi, Natália Belizário Silva , Sofia Mendes Tatiana Iwata e Vitória Batistoti revisão técnica (gênero) Belinda Mandelbaum, Jo Camilo e Lucas Bulamah revisão Anátale Garcia, Aryanna Oliveira, Carolina Sasse, Gerson Yukio Tomanari, Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme ilustrações Dinho Martins, Ju Bernardo e Luiza Limongi diagramação Fernanda Giacomassi, Natália Belizario Silva e Vitória Batistoti site Islaine Maciel e Natália Belizário colaboração Angélica Sabadini, Carina Sasse, Christian Dunker, Elaine Domingues Martins, Lucas Bulamah, Márcia Bertolla de Melo, Maria Marta Nascimento, Pedro Ambra, Renato dos Passos e Wanderley Corrêa

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psico.usp A revista sobre pesquisas do Instituto de Psicologia da USP

n.2/3, 2016 4 | psico.usp


Temos o que falar A psico.usp chega a seu duplo número 2/3 buscando mais uma vez se pautar pela relevância das pesquisas do Instituto de Psicologia da USP e pela formação das comunidades interna e externa, a conexão entre a academia e a sociedade. A longa matéria de capa, que trata de inúmeras questões sobre gênero, procura – sem esgotar esse assunto tão amplo – abrir o debate e a reflexão de modo respeitoso. Foram contemplados diferentes pontos de vista sobre sexualidade, liberdade e criatividade, arte e cultura, e a intolerância e a violência que cercam o tema. Para fazer jus à complexidade dessa pauta, a psico.usp buscou estender o enfoque para que o leitor tivesse uma larga ideia de uma realidade ainda pouco compreendida. Para tanto, traçamos perfis, colhemos depoimentos, entrevistamos pesquisadores e contamos com a assessoria técnica de especialistas do IPUSP, que endossaram a abordagem dos textos. O mesmo propósito de mirar a abrangência na análise segue-se na editoria Educação, que trata do sofrimento docente: as angústias da profissão e possíveis caminhos de enfrentamento. Três pesquisadores expõem diferentes perspectivas para pensarmos esse problema tão urgente. Estreando nesta edição, Bio apresenta a experiência que analisou o comportamento de ratos e constatou como uma alimentação consciente pode evitar a compulsão. Na mesma busca de uma discussão relevante, em Saúde, pesquisas justificam na relação mãe e bebê o desenvolvimento de distúrbios alimentares

como bulimia e anorexia. Outros destaques estão em Arte&Cultura: a solidão e as relações sociais retratadas no filme Her e a entrevista com o pesquisador Renato Tardivo, que analisa em sua pesquisa o processo de adaptação cinematográfica do romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Convidamos para a Commentor a professora Maria Júlia Kovács para escrever sobre como falar com crianças sobre morte, que também nos presenteia com dicas de bibliografia para indicar aos pequenos. Perfilamos nesta edição a professora Dora Ventura, que inaugurou no Brasil os estudos sobre Visão e Psicofísica. Recebemos em Psico-HQ o chargista Pablo Carranza, autor da série “Se a vida fosse como a internet”. Importante registar mais uma vez a produção e a diagramação das matérias e notas feitas por estagiárias dos cursos de Jornalismo, Letras e História, graças ao Programa de Estágios Pagos pela USP. Nossos sinceros agradecimentos aos nossos ilustradores desta edição: a artista plástica Ju Bernardo (que assina com sensibilidade a série de desenhos que acompanha os textos sobre gênero), nossa estudante do IPUSP Luiza Limongi (que já tinha nos brindado no primeiro número com suas obras) e Dinho Martins, com suas imagens vetorizadas. Motivo de louvor é o fato de o IP Comunica constatar a potencialização do número de colaboradores desta nova edição: um conjunto maior de forças se agrega a esta revista – motivo de alegria e confiança que nos faz acreditar que a psico.usp está no caminho certo. Islaine Maciel Coordenadora psico.usp | 5


Mural do IP Biotério Jacob Domingos de Oliveira Nossos pesquisadores e professores contam agora com um reformulado Biotério Central do IPUSP. Localizado no bloco A da unidade, o Biotério dá suporte aos laboratórios do Departamento de Psicologia Experimental, coordenado pela profa. Emma Otta. Lá são mantidos e criados animais de pequeno porte com fins experimentais. O Biotério passou por uma grande reforma, coordenada pela Profa. Daniela Bonci, para adequar-se às normas de segurança e de ambientação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA) e do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT). Para viabilizar a melhoria, o Instituto recebeu como apoio a utilização da Reserva Técnica Institucional da FAPESP, que foi aprovada pela Congregação por meio de proposta da Comissão de Pesquisa. Na entrada do laboratório é possível conhecer, por meio de uma exposição, alguns dos projetos que foram desenvolvidos através de muitas horas de pesquisa no próprio Biotério Jacob Domingos de Oliveira, assim nomeado em singela homenagem ao funcionário Aryanna Oliveira

homônimo que faleceu neste ano.

Jacob Domingos de Oliveira funcionário do IPUSP homenageado

Ampliando acesso ao ensino O IP aprovou a adesão ao SiSU, o Sistema de Seleção Unificada do Ministério da Educação, que adota a nota da prova do ENEM para ingressantes no curso de graduação de Psicologia da USP. Assim, 30% das vagas são disputadas pelo SiSU e 70% pela Fuvest: das 70 vagas oferecidas anualmente pelo IP, 21 são reservadas a estudantes selecionados pelo SiSU que tenham frequentado escola públicas – desses 21 selecionados, para as primeiras 11 pessoas que se declaram pretos, pardos e indígenas é concedido, na nota, o bônus de 5%.

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Reprodução


Elaine Domingues Martins

Por um IP mais verde

A

ideia

dos de

brotou

estudantes graduação

do IPUSP com o objetivo de ocupar

me-

lhor o espaço da unidade de modo

coletivo,

de forma a atrair o envolvimento de toda a comunidade para nos sentirmos mais pertencentes a este ambiente compartilhado. A horta, distribuída nos vários canteiros espalhados entre o bloco B e a biblioteca do IP, conta, entre outros, com pés de feijão, brócolis, hortelã, lavanda, almeirão, abóbora e tomate. O IP convida o público a participar dessa atividade coletiva.

Islaine Maciel e Carolina Sasse

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Mural do IP Nova linha de pesquisa em Neurociências História

Filosofia

e

Educação

em

Neurociências é a nova linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Neurociências (NEC) no IPUSP. Tratase de um segmento multidisciplinar dedicado ao estudo das neurociências com áreas de humanidades, que abrange o contexto histórico, a relação com o pensamento filosófico e as possíveis interfaces com a educação. Para o Prof. Dr. Marcelo Fernandes da Costa, coordenador do NEC, “é uma nova perspectiva de estudo das neurociências, que tem como objetivo pesquisar o comportamento dos processos mentais, levando em consideração os aspectos psicológicos para as neurociências”. A criação da nova linha foi precedida pela existência do grupo de pesquisa em Filosofia e História da Neurociência, da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP). Parte desse grupo passou a ser composto pelos professores e orientadores do NECIPUSP, como, por exemplo, o próprio Marcelo Fernandes da Costa, a Profa. Dra. Maria Inês Nogueira, o Prof. Dr. Hamilton Haddad e o Prof. Dr. Francisco Rômulo Monte Pereira participam desse.

Tutoria no IPUSP O Programa Tutoria Científico-Acadêmica abre oportunidades para alunos do primeiro ano em Psicologia conhecerem as atividades relacionadas à vida universitária – que envolve o ensino, a pesquisa e a extensão. O projeto faz parte da política de permanência e formação dos alunos, uma vez que serve como um incentivo financeiro, bem como científico. A exemplo, em 2015, o Instituto de Psicologia abrigou 40 alunos no projeto, o que representa mais da metade dos 70 ingressantes anuais do curso. Desses jovens, 15 receberam bolsa-auxílio, viabilizada pelo Programa Unificado de Bolsas de Estudos, enquanto 25 participaram como voluntários. Criada em 2012 para toda a Universidade, a tutoria no IP desperta um grande interesse dos calouros, uma vez que dá a eles a chance de conhecerem mais a fundo os projetos de um professor e entrarem em contato com as diversas atividades desenvolvidas. Ao final do projeto – que tem duração de 12 meses e é iniciado no segundo semestre do primeiro ano de graduação –, os alunos devem entregar um relatório sobre a experiência de trabalho, contendo as etapas do processo científico e quais impressões e influências acadêmicas aquela prática gerou. Os primeiros resultados indicam que o Programa tem potencial para reduzir taxas de evasão

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IP Comunica

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e propiciar a inserção mais precoce em atividades de pesquisa.


Construção temporária trará a cultura indígena para o IPUSP O IPUSP receberá, durante um ano, a Casa de Culturas Indígenas (CCI). Entre o bloco G e o corredor principal do instituto, será construído um espaço semelhante ao das casas de cultura tradicional da etnia Mbya Guarani, com seis metros de largura, oito metros de comprimento e três metros de altura na parte central, a mais elevada. Todo o trabalho será conduzido por aproximadamente dez pessoas Mbya Guarani e dividido em quatro oficinas, nas quais os indígenas dialogarão com os participantes sobre o processo de construção das casas tradicionais e seu significado. O projeto da CCI é idealizado pelo Prof. Dr. Danilo Silva Guimarães e por Roberto Veríssimo de Lima, do Centro de Educação e Cultura

Reprodução

Indígena – TI Jaraguá, por meio da Rede de Atenção à Pessoa Indígena do IPUSP, um serviço do Departamento de Psicologia Experimental, que, desde 2012, conta com o apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP. A intenção é aumentar o diálogo entre a Universidade e os povos indígenas, além de incentivar a realização de intercâmbios entre os dois saberes por meio da realização de palestras, oficinas, documentos audiovisuais, livros, teses, dissertações e outros eventos que contemplem formas de expressão típicas dos povos originários do Brasil. No espaço, serão realizadas atividades que envolvem a disseminação da língua e outras expressões culturais, oficinas de “contação de histórias” indígenas, além de rodas de conversa sobre temas relevantes para as comuniades indígenas no mundo contemporâneo, seus conflitos e estratégias de superação. Ali também serão feitas reuniões de planejamento da Rede de Atenção, que tem objetivo elaborar possíveis contribuições da psicologia cultural no atendimento às vulnerabilidades psicossociais de pessoas e comunidades indígenas.

Instituto de Psicologia ganha novo museu Foi naugurado no dia 6 de maio de 2016 o Museu de

Carolina Sasse

Psicologia da Universidade de São Paulo. Seu principal objetivo é promover a valorização, a preservação e o reconhecimento da história do IPUSP. O museu vai ocupar o espaço antes destinado ao Centro de Memória, na Biblioteca Dante Moreira Leite (Avenida Prof. Mello Moraes, 1721, Bloco C, Cidade Universitária). O museu nasceu a partir do Centro de Memória do IPUSP, criado em 2001 no evento de 30 anos do Instituto. Ao longo desses 15 anos, o CM-IPUSP foi responsável por preservar e resgatar a história do Instituto. A expectativa é de que a transformação do espaço em um museu aumente ainda mais a divulgação da história e da produção científica e cultural do IPUSP, além de fomentar o interesse da comunidade externa para que sejam desenvolvidas mais pesquisas e parcerias envolvendo o Instituto.

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Sociedade capa

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Dossiê Nunca se falou tanto sobre gênero: entre amigos; na publicidade; na militância política (ou nos discursos homofóbicos de políticos); nas revistas e jornais; em novelas, séries de televisão, e desenhos infantis; no ambiente escolar – especialmente nas universidades. E, na confluência desse cenário, provavelmente nunca se produziu tanto sobre gênero. Isso não quer dizer que o assunto começou a ser estudado recentemente, pelo contrário, hoje sabemos que pesquisas são feitas há décadas, acompanhando uma luta permanente na esfera social. Mas, nunca como agora se possibilitou a compreensão de toda a multiplicidade que a temática que envolve os LGBTs*. Falar sobre gênero, identidade e sexualidade não se resume a falar sobre homossexualismo (sim, com esse ismo de doença, que precisa ser contestado) e AIDS. Discutir a questão de gênero é muito mais do que rebater o eterno discurso repetitivo sobre promiscuidade, escolha e “desejo de aparecer”, é antes um meio de compreender de que forma os indivíduos se constituem e se constroem, seja na ótica da biologia, da psicanálise ou das ciências sociais. Seguindo essa perspectiva, pesquisadores, professores e alunos do IPUSP ampliam o debate com trabalhos desenvolvidos sobre a sexualidade e a questão de gênero. Bem-vindos à discussão!

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Por Aryanna Oliveira, Anátale Garcia e Carolina Sasse Colaboração de Tatiana Iwata, Sofia Mendes e Islaine Maciel

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Troco as pessoas troco os pronomes... Pesquisadores do IPUSP analisam as questões de gênero e sexualidade, em conformidade com a crescente necessidade de uma discussão mais ampla sobre a temática

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Fotos: André Giorgi (Reprodução Portal IG)

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Até 2004, Laerte Coutinho era conhecido sobretudo por ser um dos mais populares cartunistas brasileiros. Através da ironia fina das tiras de Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, entre outras, popularizou-se pela crítica com que “denuncia” as mazelas políticas e sociais. E foi baseado em um de seus personagens, Hugo, que abriu uma importante discussão sobre sexualidade e identidade de gênero, porque, ao mostrar o personagem como uma travesti, o cartunista estava para além do “engraçado” da charge, despindo-se a si mesmo, revelando sua trangeneridade. Entretanto, esse processo não se deu da noite para o dia. Segundo Laerte, em vídeo gravado para o projeto Trip Transformações (criado em 2007 para identificar e reconhecer pessoas que promovem o avanço do coletivo com seu trabalho), foram necessários trinta anos, três casamentos e uma perda irreparável (a morte de um dos filhos em um acidente de carro) para que ele se permitisse um radical processo de mudança que culminou na descoberta – e revelação – de sua identidade de gênero. A cartunista (que prefere ser chamada pelos pronomes femininos, embora não repreenda quem ainda a chame por “ele”) confessa ter renegado e suprimido tanto quanto pôde o que ela entendia como sua homossexualidade (que depois foi mais bem entendida como bissexualidade) e, posteriormente, sua transgeneridade. Para ela, “a transgeneridade é uma espécie de último tabu, ainda maior do que o de orientação sexual, porque envolve pessoas que gostam de se expressar dentro do contexto homossexual feminino, mas que não são homossexuais, o que pira a cabeça de todo mundo”, explicou. Essa confusão que se dá na “cabeça de todo mundo” em relação à “condição” de Laerte resulta de um constante equívoco que se estabelece entre a suposta noção de sexo biológico (ou seja, a ideia de coerência obrigatória entre o genital, a composi-

ção genética, as características físicas e o comportamento), a identidade de gênero e a orientação sexual. Os mais radicais – e aqui entram principalmente os discursos religiosos – defendem que devemos seguir orientados pelo dito sexo biológico, ou seja, se nasci com vagina serei mulher, desejarei e me relacionarei com homens, e se nasci com pênis sou homem e me envolverei apenas com o sexo oposto. Mas, essa condição pode ferir a orientação sexual dos indivíduos, que é a direção para onde aponta o interesse/desejo sexual/ emocional de cada um. Afinal, deveria ser natural poder gostar de homens, mulheres, de ambos ou de nenhum. Há também uma discussão ainda mais complexa no que se refere à identidade de gênero, terminologia que ganhou destaque após a teoria queer, popularizada com Judith Butler. Segundo a filósofa pós-estruturalista norte-americana, cada um de nós pode identificar-se com um gênero que não necessariamente o de nascimento, porque a chamada “identidade de gênero” é fruto de uma construção social, que se dá pelo constructo, pelas relações socioculturais de cada indivíduo. Dessa forma, o “eu” ao qual foi atribuído o gênero masculino ao nascimento pode, na verdade, se identificar com o feminino, e o “eu” ao qual foi atribuído o gênero feminino pode identificar-se com o masculino, assim como a identificação pode ser com os dois gêneros ou mesmo com nenhum. Esses novos estudos explicam um sentimento conhecido por muitos transgêneros, que não necessariamente realizam procedimento para redesignação sexual, mas se veem diferentes da atribuição que lhes foi


Reprodução

: Vanity Fair

feita ao nascer. “Eu me olho no espelho e me vejo assim, não como mulher, nem como homem, mas como uma pessoa transgênera, eu me expresso desse jeito, eu adoro isso, eu me encontrei neste tipo de representação”, relatou Laerte no vídeo. Segundo a cartunista, não há nela um desejo de se vestir como mulher para ser, de fato, uma, mas a vestimenta é a representação de uma forma, de uma ideia que conversa com a sua busca pessoal, com o seu desejo de expressar sua identidade de gênero. “Ninguém está aqui brincando, eu não estou aqui fantasiada, não se trata de carnaval, é a vida mesmo”, completou. Assim como Laerte, a hoje ex-atleta olímpica Caitlyn Jenner, antes Bruce, padrasto da socialite Kim Kardashian, também passou por processo de reidentificação de gênero. Em seu caso, todavia, houve intervenção cirúrgica para redesignação sexual, além de cirurgias no nariz, queixo, pescoço, testa e maxilar. Durante o processo de transição de gênero, pequenas mostras de suas mudanças físicas já podiam ser percebidas, mas foi somente na capa da edição de junho de 2015 da revista americana Vanify Fair que Jenner revelou ao mundo sua nova identidade: “Me chamem de Caitlyn”. Em depoimento à revista, ela declarou: “se eu estivesse deitada em meu leito de morte e tivesse guardado esse segredo comigo e nunca tivesse feito nada para mudar o que sentia, estaria pensando: ‘Você estragou sua vida. Você nunca lidou consigo mesma’. Eu não quero que isso aconteça”, mostrando o quão segura estava na revelação de seu novo eu. Após a publicação, ela escreveu em sua conta no

Twitter: “Estou tão feliz depois de uma longa batalha para poder viver o meu verdadeiro eu”, sendo bem acolhida pelos fãs, que enviaram mensagens de apoio. Apoio este que também veio da família, inclusive de Kris Jenner, sua ex-esposa – ainda que ela, num primeiro momento, tenha ficado chocada. Se o “sair do armário” parece glamoroso quando o assunto são celebridades, na vida de pessoas comuns, que não figuram dentro da chamada cis-heteronormatividade, o revelar-se é muito mais complexo. Nesse processo estão envolvidos conflitos (internos e externos), um longo processo de descoberta e aceitação, além de muito preconceito e intolerância. Seja através da identidade de gênero ou da orientação sexual, o descobrir-se “fora do padrão”, sendo transgênero – como Laerte Coutinho, Caitlyn Jenner ou Jo Camilo –, sendo gay – como o deputado federal Jean Willys ou o cantor Ricky Martin –, ou, ainda, estando dentro de qualquer outra “nomenclatura” que não a de cis-heterossexual, é complicado! Porém, se faz extremamente necessária a tentativa de compreender toda essa multiplicidade própria do ser humano. A polêmica que envolve o gênero não é recente, como também não o é o intento de muitos pesquisadores do IPUSP. A dedicação dessas pessoas se volta para o estudo profundo da sexualidade e do gênero, pelo viés da psicanálise, do construcionismo, do marxismo, da teoria queer etc., ou seja, pelas novas vertentes de estudo. psico.usp | 15


Tira-teima do gênero Queer, Transfobia, Crossdresser. As terminologias utilizadas nas discussões sobre gênero podem suscitar muita estranheza. Tire suas dúvidas com este pequeno glossário e mergulhe nas rodas de conversa sobre o tema

Androginia Diz resp eito à me

scla de ca racterístic as s (andros) e feminin as (gynes) que torna ,o ria difícil a identificaç ã o d e u indivíduo m pelo gêne ro. masculina

Cis

LGBT O termo GLS, acrônimo de “Gays, Lésbicas e Simpatizantes”, foi sucedido por GLBS, incluindo a categoria dos bissexuais. Depois, a sigla sofreu uma nova alteração, passando a ser GLBTS, com a inclusão da categoria dos transgêneros. Mais

recentemente, o movimento homossexual passou a considerar a sigla LGBTTIS, acrescentando os Intersexuais e os Assexuados. Hoje, a variação mais atual abarca as letras “QQIAAP”, de Queer, Questionando, Intersexual, Assexuado, Aliado e Pansexual, resultando na sigla LGBT.

ra o utilizado pa cissexual) Term ou o, er ên sg ci qu (ou mesmo e o jo gênero é o cu s oa ss pe ade de caracterizar seja, a identid nascimento, ou no o ad ic tif iden biológico. de com o sexo gênero coinci

Queeentirdades de gênero dnaqãoueslee s

Lesbianidade gia utiliz

Terminolo

ada para re ferir-se à h omossexu chamada d alidade e lé sb ic a aquela q sexual ou ue tem atr afetiva por ação outra mulh er, ou com ela mantém relacionam ento. feminina. É

eres, itas id a as mu ou mulh o s rc a n e b a m e u binarism te ho Termo q e (ou do sivamen d a lu c id x v e a ti ri o sã rma e vá s que não de cisno ebem d o rc it e e p c e n s o c a ue ram no – como íduos q enquad são indiv e gênero d B s N e s d p a O ntid ro). ado ara de gêne uitas ide r é utiliz e m e u o d Q . in o de mpo assum binarism esmo te o m formas, o m a e r u seg ulhe ue não em e m de hom queles q a d o rã r o pad gênero. designa

Assexuado Aquele que não tem interesse por nenhum sexo; não sente atração sexual.

Bissexualidade

Condição ou comportament

Represen

tado pelo

Aliado

segundo A da sigla as hetero LGBT, co ssexuais rrespond que apo LGBT; an e iam a co tes conh m unidade ecidos co mo “sim patizante s”.

às pesso

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o do indivíduo que sente atração afetiva ou sexual pel o sexo feminino e pelo masculino.

o Questionandm certeza sobre sua

anda não tê ero. essoas que p a te n de de gên re Refe u identida o l a xu se orientação


Heteronor matividade Refere-s e assunç ão de qu orien e

a hetero tação se ssexualid xual pad rão. Os in ade é a qualquer divíduos comport q u e a apresente mento q margina ue não o m lizados e heteross , muitas exual são vezes, pe rseguido sociais, p s por prá olíticas o ticas u de cren ças

Homoafetividade

s) ivíduos (homoafetivo Relação entre dois ind m eja alm lógico, que com o mesmo sexo bio s direitos legais. reconhecimento de seu

Gay

oa que xual. Pess Homosse ual e/ou resse sex tem inte o sexo. elo mesm afetivo p

Indivíduo cu

atribuída n

Travesti

ja expressã

o de gêne

ro difere d o nascime a nto e que por isso pa vestir com ssa a se o o gênero com o qua l se identifi ca.

Intersexualidade

r ual, quando po ráter de intersex se Refere-se ao ca arn ógicos to eres sexuais biol ct ra ca de o çã varia te feminino como totalmen o du ví di in um difícil definir masculino. ou totalmente

cial idade o S e m No pessoa com identignada

al a i des elo qu lhe fo p e e u dia a q m te da da no É o no a n e m r a e h if tro. r ser c nero d de gê e regis pta po d o e o t m n no scime to do no na trimen e d m dia, e

al u x e s tiva n Pa ou afe / e l a a sexu

e su ção ente d e atra t d n n e e s p de xual. le que ão se soa, in ç s a e Aque t p n r e rie ualqu o ou o por q gêner e d e ad identid

Twink

Gíria LGBT

com referê ncia a ais ou bisse xuais adolescen tes, jovens adultos ou seguind o o estereó tipo de jovem, com visual andró gino e afeminado . homossexu

Teoria Queer

Teoria que se consolidou na década d e que defen e 90 de que a orie n ta çã o se xu identidade al e a de gênero d os indivíduo o produto d s são o constructo social e que podem ser não resumidos ao s papéis sexu ais biológicos.

dade i l a t n e r a Homop e que envolve casais . lidad sexuais Parenta is ou bis a u x e s s homo psico.usp | 17


Apagamento bissexual

Girth and Mirth

Grupo direcionado a gordinhos gays.

Tendência d e ignorar o u excluir ev meios de co idências – d municação, e históricos, materiais ac de que uma ad êmicos, entr pessoa é bis e outros – sexual, segu faz jus ou n indo a ideia ão merece d e que não tratamento de igualdad e dentro de comunidad es de gays e lésbicas.

Constructo S ocial

Bifobia

ação contra a são ou discrimin er av , co ni pâ o, l. Refere-se ao med rcebe-se bissexua que se diz ou pe oa ss pe ou e ad bissexualid caracterizar s utilizados para ivo jet ad o sã co bi Biófobo ou bifó ísticas. em si tais caracter àquele que retém

Bofe é usada para cara

mava designar o

rém hoje também

cterizar o indivíd uo ativo de uma relaç ão homossexual.

Bofinha

se cterísticas, ue tem cara q o in in m xo fe o. Mulher Diz-se do se xo masculin se o o m co h. comporta lésbica butc veste ou se amada de ch m é b m da, ta masculiniza

Drag Quee n

Também chamado de transfo usa roup rmista, d as empre iz-se daq g a das, norm uele que social, pe almente lo sexo o o u por co p o s to nvenção . Costum que o in a-se pop divíduo “s ularmen e monta te falar ”, referin transform do-se ao ação com p ro c e sso de roupas e maquiag em.

Urso

Gíria LGBT que defin e um subgrupo dentr o do universo gay. Refer e-se a gays normalm ente mais corpulentos, pelud os e barbudos.

dade li a u x e s s o m Ho ferexual que re

Na gíria gay costu

heterossexual, po

Entidade in stitucionaliz ada dentro sociedade de uma mental, de m o d o a parece essencial. O r natural e u seja, um sistema “in os indivídu ve n ta d o”, em que os seguem suas norm as concord ando com sua e xistência.

ção se al de orienta ação sexu Categoria sentem atr e u q s o u x íd o se o, se a indiv as do mesm o ss e p r o nal p ais amado, m ou emocio mbém ch ta l, a u x e o homoss ay. ente, de g popularm

Ex-gay

Termo criado e reificado p or pessoas o institucionaliz u órgãos ados que acre d ita m (o u ser possível cu esperam) rar/reverter a homossexua Ex-gay seria lidade. o homosexu al “convertid o” em heterosexual novamente.

Equidade de gênero Prevê tratamento igual para todo s os sexos (e gêneros) em todos os âmb itos sociais e de oportunidades.

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Aquele cuja

determinad

Transgênero de gên

identidade

ero difere d

o sexo bioló o no nascim gico ento. O tran sgênero não com o corp o em que n se id en tifica asceu de um orientação modo para sexual. Está al ém da relacionado o indivíduo à transexual sente uma idade, na q co mpleta inad ual chegando m aptação ao uitas vezes próprio sexo à re al , iz aç ão procedim cirúrgicosp ara reparo entos horm das caracter o n ai se ísticas que vê inadequ adas a si.

Refere-se

Homofobiahomossexual e/

o ao ou aversã ções para , rejeição o it e c n freu varia o c so o Pre rm te se diz ade. O des, e hoje ossexualid a d m ti o n h e à id u e o s orietaçõe issexuais; as outras o contra b it e c n o c visibilizar re as ao p como outr ferindo-se icas, assim bifobia, re sb lé a e ia -s b mofo . , referindo artir de ho p a lesbofobia m a ir rg gias que su terminolo

Homossexismo todas as

Crossdressin

Ideia de que

g

a pessoas que se vest em ou usa que seriam m objetos , pelo padrã o co mum, asso sexo opost ciados ao o. Não est á relaciona do à orien tação sexual.

O aplicati

Grindr

vo de pa quera ba seado em zação m ais utiliza do no m eio gay.

geolocali

Homofobia Interio rizada

Heterofobia

É o preconceito

nico, preconceito Suposto medo, pâ terossexualidade. direcionado à he

, rejeição ou re pulsa do homos sexual para cons manifesta de di igo ve rsas maneira co próprio corpo; mo depreciaçã baixa estima; te o do ndência ao suicí risco, entre outro dio; comportam s modos. Se as en to de semelha com o que se chama or sexual egodistôn ientação ica, diferenciand o-se apenas do percebida pelo fato de esta se individuo enqu r anto que a hom ofobia interioriz sem se tome co ad a ocorre nsciência do qu e está ocorrend o. mesmo. Ela se

Cissexismoinatória para

discrim corrente e d ie lo corpo c é Esp finido pe e d é ro êne social. qual o g entidade id la e p e não biológico

Ginefilia

pessoas são is em essênc ia

homossexua

Hijra São os indivíduos transgêneros e intersexuais MtF (Male to Female) da Índia, do Paquistão e de Bangladesh. Os MfF também são chamados de kathoey, ou katoey.

ferir-se ao

da para re gia utiliza Terminolo odo geral. eres de m lh u m r o p amor

Outra terminologia utilizada é ladyboys, tanto para intersexuais como para gays afeminados.

Por Aryanna Oliveira / Revisão de Lucas Charafeddine Bulamah psico.usp | 19


Quero me encontrar, mas não sei onde estou

Constantemente, estamos expostos a discursos e a práticas sociais. Via de regra, ambos acabam sendo aprendidos e internalizados, e esse processo é natural a todo ser humano. É desse modo que aprendemos, por exemplo, as normas exigidas para o convívio social ou as situações que devemos temer para preservar a nossa segurança e, consequentemente, sobrevivermos. E, infelizmente, é assim, também, que muitos julgamentos infundados são incorporados às nossas práticas cotidianas, em forma de preconceitos. Hoje, é notória a discriminação que sofrem todos aqueles que se identificam (ou são identificados) como parte do grupo LGBT. A ignorância, o desprezo e, muitas vezes, a repulsa por essa comunidade se pauta no discurso hegemônico que, cotidianamente, martela que o binarismo de gênero e a cis-heteronormatividade devem ser os referenciais a partir dos quais se julgaria o que seria sexualmente patológico no ser humano - o que significa dizer que tudo aquilo que foge à concepção de “homem é aquele que tem pênis e é atraído por mulheres” e “mulher é aquela que tem vagina e é atraída por homens” não é bem recebido ou mesmo aceito pelo senso comum. Todavia, como afirma o psicólogo e pesquisador do IPUSP, Rafael Kalaf Cossi, em sua dissertação, “as identidades sexuais apresentam uma dimensão real, portanto, são ilimitadas e imprevisíveis”. Cossi tem se dedicado desde o mestrado ao trabalho em Psicologia Clínica, mostrando a importância da psicanálise nas questões de sexualidade e

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identidade, já que a teoria passa a contemplar novas possibilidades corporais e de gênero como legítimas, problematizando a condenação à anormalidade dos sujeitos não-heterossexuais e não-cisgênero. Assim, o psicólogo recupera as ideias de Robert Stoller, pioneiro na pesquisa sobre gênero em psicanálise, que considerava que “a identidade de gênero se expressa no indivíduo a partir da convicção que ele tem quanto ao pertencimento a este ou aquele sexo. Tal convicção não é inata, mas adquirida, e precocemente: por volta dos dois ou três anos, o sentido de ser homem ou mulher já está estabelecido”. Nesse sentido, se livrar da cis-heteronormatividade patologizante é um objetivo que a psicanálise se propõe a contemplar, o que implica a legitimação das novas possibilidades sexuais e de gênero, que, por consequência, deixam de ser rotuladas como anormais. Ainda assim, não são poucos os argumentos biológicos usados como um artifício da intolerância contra aqueles que não se enquadram nos padrões de sexualidade e de gênero esperados. O debate não pode se estruturar em torno desse raciocínio, porque o órgão genital de um indivíduo não necessariamente condiz com a sua identidade de gênero – como ocorre nos casos de Laerte e Caitlyn. A propósito, o debate gerado pela concepção de que o indivíduo escolhe a sua sexualidade também é pouco produtivo, porque sugere que uma pessoa é capaz de definir para quem aponta o seu desejo, seja ele afetivo ou sexual. A chamada orientação sexual não implica numa escolha, já que a constituição de nossa psique é extremamente complexa ao mesmo passo que estável. Assim, a orientação sexual vale para todas as sexualidades humanas, desde lésbicas, gays, bissexuais, assexuados, pansexuais, até os heterossexuais. Em virtude disso, o determinismo biológico e o termo “escolha” não atendem adequadamente à verdadeira complexidade do assunto.


Islaine Maciel

Vai f icando complicado e ao mesmo tempo diferente

Jo Camilo participa de reivindicação dos alunos do IPUSP: ato do banheiro

Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud explica que a bissexualidade psíquica é uma “condição originária que justificaria a orientação sexual homossexual”. Por esta razão, o ser humano comporta um amplo espectro de possibilidades sexuais e é expressamente refletido na comunidade LGBT. Porém, para Cossi, ainda que se compreenda a análise freudiana, é necessário evidenciar, no que se refere à transexualidade, que diferentemente de um psicótico – que, numa convicção delirante, encarna A mulher ou O homem –, o sujeito transexual “assume verdadeiramente uma identidade, mas não necessariamente por acreditar que ela exista substancialmente, pois ele tende a reconhecer o caráter ilusório duma suposta identidade sexual totalizada e definitiva”. A transexualidade, segundo o pesquisador, é tomada como um fenômeno estritamente moderno. Sua entrada no campo da medicina se dá em 1953, pelo viés da patologia – logo, ela é primeiramente denominada como transexualismo, com o famigerado sufixo de doença. Aliás, no que concerne aos LGBTs, a insistência na utilização dessa terminação acaba se transformando em um posicionamento político que desrespeita essa comunidade.

Nas concepções de Jo Camilo, mestranda do IPUSP, todo o universo transgênero era muito aversivo, porque ela carregava consigo muitas das ideias sociais que são atribuídas a essa identidade de gênero. Para a aluna, que nunca se identificou como homem gay e teve relações quase que exclusivamente com mulheres, sua compreensão da transgeneridade, ou transexualidade, mudou quando teve acesso a informações através de vídeos produzidos e divulgados pelas próprias pessoas trans. “Cada vez menos me sentia como homem nessas relações. Sentia-me como uma mulher ficando com outras mulheres”, nos relatou Jo, em depoimento à psico.usp. Além disso, a estudante encontrou entre as pessoas trans o apoio e discernimento que precisava para compreender sua identidade. “Ter contato com esse material desconstruiu quase que instantaneamente diversos conceitos muito problemáticos que eu tinha e, em questão de menos de um dia, me vi completamente imersa em buscas sobre como poderia me apropriar dessa identidade que já estava sendo construída em mim”, explica. Não que tudo tenha sido fácil após o aprimoramento da compreensão de si mesma, afinal, segundo Jo, o período em que passou a se mostrar publicamente como pessoa trans foi marcado por muito medo, um medo não só da violência física ou psicológica nas ruas, mas um medo das mudanças que a acompanhariam dali, inclusive nas relações sociais. Assim, quando não são socialmente pressionadas por uma falta de humanização, essas pessoas são expostas a uma padronização exacerbada. Nem todos os transgêneros recorrem a métodos cirúrgicas, como a redesignação sexual, por exemplo. Mas a ausência de intervenções hormonocirúrgicas não significa que essas pessoas deixam de ser trans. De maneira semelhante, os intersexuais, que são uma categoria ampla que inclui diversos psico.usp | 21


tipos de pessoas, nem sempre precisam de tratamento médico, e o desejo de realizá-lo ou não deveria depender primordialmente da vontade da pessoa que passará pelos procedimentos, e não do desejo incessante por categorização binária que a sociedade impõe. Sobre essas transformações vividas pelos indivíduos, Jo Camilo reitera que “é errada a ideia de que as pessoas trans se caracterizam pelas mudanças corporais”. Na realidade, essas pessoas não necessariamente tomam hormônios ou fazem intervenções médico-cirúrgicas para afirmarem socialmente sua identidade. Os conceitos de distúrbios permanecem erroneamente distinguindo pessoas que querem receber determinados tratamentos médicos. Esse é o caso tanto dos sujeitos trans quanto dos sujeitos intersexuais. De acordo com Cossi, no caso das pessoas transexuais, ainda que não exista uma dita “identidade transexual verdadeira”, é importante que se realize um longo e rigoroso percurso terapêutico, para que nenhuma dúvida reste antes de se realizar a redesignação genital, até porque, como se trata de um procedimento irreversível, o arrependimento nesses casos pode gerar atentados contra a própria vida. Já a necessidade estabelecida no caso dos intersexuais que optarem por realizar os tratamentos é que se saiba antes qual o sexo desta pessoa e com que gênero ela se identifica. Entretanto, a intersexualidade não deve de jeito nenhum ser considerada um distúrbio, porque, em verdade, ela é apenas uma variação biológica. Portanto, se faz importante problematizar o ponto de vista de quem considera que existem tipos “normais” de corpos, porque essa visão imputa uma desordem a todos que não pertencem à categoria binária. Por outro lado, existem os movimentos sociais, que costumam propagar, em geral, a aceitação e o respeito às sexualidades e identidades. A exemplo disso, no âmbito lexical, o movimento intersexo considerara que o termo “hermafrodita” é ofensivo, porque é um termo antiquado e estereotipado. As pessoas transgêneras também requerem, dentre outras coisas, que a concordância 22 | psico.usp

gramatical com a identidade de gênero da pessoa seja respeitada. Isso demonstra que o posicionamento de movimentos políticos e a maneira como eles escolhem ser chamados deve ser levado em consideração. Oferecer direitos como a opção de um “terceiro sexo” em documentos oficiais deveria estar disponível, para que ninguém tenha que se “forçar” a ser homem ou mulher. A educação sexual desde a infância também é importante. A escola deveria exercer essa função, considerando sempre, obviamente, os níveis de maturidade apropriados às faixas etárias. No entanto, o ensino básico e mesmo o ensino superior ainda não conseguem cumprir com essa responsabilidade. Vera Paiva, Profa. Dra. do IPUSP, em artigo publicado em 2008, diz que “raramente […] formamos psicólogos para lidar com a vida sexual em contextos que não sejam clínicos”. A professora afirma que reduzir as coisas a textos e discursos seria um erro, visto que a vida social consiste em atuações e interações. “Do sexo biológico (XY ou XX) não se deriva a essência natural do feminino, do masculino ou a hetero-normatividade”, explica Paiva.

Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Para a também estudante de psicologia do IPUSP, Allan Marcolino, que se identifica enquanto pessoa trans não-binária, feminina e mulher, não é simples se “rotular” como transexual. “Eu transito entre essas categorias, mas se tenho que trazer algo no discurso eu sempre trago a questão queer, que eu tenho muito forte, porque não acredito mais que sou um uma mulher que nasceu no corpo errado”, nos explica a futura psicóloga. Por razões como essa, e com a finalidade de evidenciar que são dos constructos sociais que as concepções de identidade de gênero e de orientação sexual derivam, ganha evidência a teoria queer, que tem como uma de suas principais teóricas Judith Butler. Segundo a filósofa, o termo “queer” afirma a dife-


Allan em performance no projeto Mona: EP “Entre Espelhos”

rença que não pode ser reduzida a uma identidade unificada, fazendo ainda uma conexão erótica e política. Se amparando na psicanálise, na sociologia, na filosofia e na antropologia, a tentativa de Butler é romper as normas que constrangem o ser humano em categoria binárias, sexo e gênero, homem e mulher. Segundo o psicólogo e pesquisador do IPUSP Lucas Bulamah, em entrevista à psico.usp, o queer passou a ressignificar um termo pejorativo para empoderar um conjunto de pessoas, antes referenciados como “bixa”, “viado” etc. Hoje, a palavra é utilizada para designar aqueles que não seguem o binarismo de gênero, ou seja, refere-se às muitas identidades que fogem à cisnormatividade. Queers são indivíduos que podem se ver e se identificar de várias formas, podendo assumir, por exemplo, a identidade de gê-

Produção: Andressa Crossetti

nero masculina e feminina ao mesmo tempo. A colocação de Bulamah é consonante ao pensamento de Judith Butler, para quem o gênero é, antes de tudo, um ato performativo que não corresponde a modelos universais. Esse ato é mutável e existente apenas mediante a atuação performativa dos indivíduos. Para a autora, a questão de gênero diz respeito a uma categoria política, e não a determinações naturais; a identificação de gênero está diretamente ligada ao contexto histórico e às estruturas de poder, não existindo, portanto, uma identidade de gênero pré-estabelecida. Neste panorama, temos algo que é essencialmente dado por elementos culturais – como a suposta coerência entre sexo, gênero, desejos e práticas sexuais –, sendo considerado como característica inata dos indivíduos. Por imposição social e cultural, criou-se um ambiente propício para que comportamentos fora da cis-heteronormatividade fossem colocados no campo da patologia. Tal problema é designado por Judith Butler como “gênero ininteligível”, aquele que está fora da cis-heterossexualidade compulsória e que socialmente acaba por ser invisível ou classificado como patológico. As proposições dos estudos de gênero de Butler pretendem problematizar essa racionalidade que costuma expulsar da ordem da inteligibilidade as experiências que não se enquadram nas matrizes da heterossexualidade e cisnormatividade compulsórias vigentes. Em certo momento, a patologização dos comportamentos exteriores à cis-heteronormatividade esteve presente também na psicanálise, dado que a oposição binária dos gêneros serviu para estabelecer o que seria normal e o que seria psico.usp | 23


A diversidade nas telonas (e telinhas) Nunca, como hoje, as ar� tes refletiram tanto as lutas da comunidade LGBT. Se antes a presença de um personagem ho� mossexual causava incomodo e manifestações negativas do pú� blico, atualmente eles estão cada vez mais inseridos nos enredos de filmes, séries e novelas. A se destacar o papel de Mateus So� lano na novela “Amor à vida”. Félix, seu personagem, escanca� rou as portas do armário e, de vilão, ganhou o público com um romance homossexual. Seguindo uma tendência global, a televisão brasileira, a pequenos passos, tornou a possibilidade mais na� tural aos olhos não habituados à diversidade. Agora parece ser o momento de transexuais e traves� tis ganharam visibilidade. Em fevereiro desse ano, “A Ga� rota Dinamarquesa” chegou às salas de cinema brasileiras contan� do a inspiradora história de Einar Wegener, interpretado por Eddie Redmayne, um pintor dinamarquês casado que ostenta relativo sucesso e percebe que gosta de vestir rou� pas femininas. Todavia, esse “gos� tar” passa a refletir sua identidade feminina. Baseado no livro de ��� Da� vid Ebershoff���������������������� , a narrativa descons� trói algumas ideias que permeiam o imaginário social, como a confusão entre homossexualidade e transexu� alidade, a travestilidade, a dor da descoberta e o processo de despir uma antiga identidade para aceitar uma outra, nova e verdadeira.

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E não é só o cinema que tem mostrado a transexualidade. Duas personagens de séries nor� te-americanas conquistaram o público: Sophia Burset (Laverne Cox), de Orange is The New Black, e Nomi (Jamie Clayton), de Sense8. As transexuais – dentro e fora dos papéis – vem conseguin� do apresentar a transexualidade de modo a quebrar estereótipos equivocados acerca dessa identi� dade de gênero. Transparent é outra série a desnudar a transexualidade. Na pele de Maura Pfefferman, o ator Jeffrey Tambor (hetero e cis fora das telas) também vive uma mulher trans. Promovida a despatologização da transexualidade nas telas, surge na vida real a naturali� zação das pessoas trans, uma importante conquista que com� bate a transfobia e a intolerância.

Abaixo: Laverne Cox, como Sofhia Burset. Ao lado, de cima para baixo: Jamie Clayton em cena de Sense8; Eddie Redmayne em A Garota Dinamarquesa; Jeffrey Tambor e elenco em Trasparent


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Arte: Dinho Martins Conteúdo: Sofia Mendes

patológico. Exatamente por isso, uma das críticas levantadas pela teoria queer atinge a psicanálise. Para Judith Butler, essa teoria reproduziria a organização social vigente em seu extenso uso da lógica binária de corpos e gêneros na explicação dos processos internos dos indivíduos. Para a autora, a psicanálise, sobretudo quando privilegia o campo simbólico, apropria-se do pensamento binário. Contudo, quando ela dá relevância ao real (de cada indivíduo), com suas possibilidades ilimitadas e imprevisíveis, contempla mais fielmente as possibilidades da sexualidade. Além da psicanálise, quando nos preocupamos com gênero, áreas como a psicologia social oferecem contribuições relevantes para a questão. Linhas de estudos como o Construcionismo – que considera que todo conhecimento é construído a partir das relações sociais

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e que se preocupa preferencialmente com as inter-relações para além das individualidades – contribuem para o entendimento de que as identidades de gênero são o resultado de uma série de contextos em que os indivíduos estão inseridos, como o espaço, o tempo, a sociedade, a história etc. Se, para o entendimento construcionista, não há uma descrição neutra do mundo, não há também uma definição objetiva, inata, natural, despida de contexto, para as identidades de gênero individuais. De acordo com a Profa. Dra. Belinda Mandelbaum, o diálogo da psicanálise com a teoria de gênero acontece com mais dificuldade devido à maneira como foi estruturado o conhecimento psicanalítico. Conforme conta, a psicanálise “tende a fazer afirmações pretendidas como universais sobre a vida psíquica, que va-


leriam para todas as mulheres e homens, independentemente do contexto social, de raça ou de cor. Nesse sentido, a psicanálise tendeu a compactuar com visões muitas vezes estanques de homens, mulheres e famílias, sem fazer a crítica de que essas visões eram datadas”. Consequentemente, as leituras dos indivíduos promovidas pela psicanálise frequentemente tiveram suas estruturas pensadas dentro de lógicas de oposição e complementaridade. Mas, mesmo dentro dessa estrutura psicanalítica de pensamento, encontram-se também formas de entendimento para a diversidade de gênero. Dessa maneira, Pedro Ambra, pesquisador do IPUSP, desenvolveu um trabalho que corrobora a percepção de que o gênero não é algo pré-estabelecido e estável, mas, sim, uma espécie de ato performativo, como descrito por Butler. A pesquisa, intitulada “A noção de homem em Lacan: uma leitura das fórmulas da sexuação a partir da história da masculinidade no Ocidente”, ao contrário de um considerável número de estudos em psicanálise a respeito da questão de gênero, tem o objetivo de entender o que é a masculinidade. O masculino, como categoria dominante do ponto de vista social, tem seu estudo muitas vezes encoberto pela compreensível necessidade política e afirmativa dos estudos da feminilidade. Entretanto, a masculinidade, como mostrada no desenvolvimento da pesquisa, remete a um quadro esclarecedor das contingências a que está submetido o entendimento de gênero, nas culturas e ao longo da história. Tomando como referência a noção de homem de Lacan, o pesquisador estabelece a evolução do entendimento de conceitos sobre o masculino e sobre o que seria um homem ao longo do tempo. Nesse quadro, o argumento corrente da dita “crise da masculinidade” – segundo a qual estaríamos atravessando um momento em que os homens estão perdendo o senso de como ser verdadeiramente homens – não se sustenta, pois nunca teríamos tido, de fato, um modelo de masculinidade plenamente constituído e consolidado. A trajetória argumentativa do

trabalho, também publicado em livro homônimo, desconstrói o “mito viril”. A escolha da história como instrumento de desconstrução dos conceitos comumente atribuídos à masculinidade vem da capacidade que esta ciência tem de confrontar as tendências de universalização presentes em outras ciências próximas, como a antropologia e, também, em muitos sentidos, a psicanálise. Assim, o machismo poderia ser entendido como fruto da busca do homem por sua força, já que “essa busca por uma virilidade perdida sublinha o fato dessa virilidade nunca ter existido. Ainda assim, não deixam de existir efeitos: a violência, o machismo etc. persistem. Só que eles devem ser lidos à luz dessa busca ou dessa fantasia, já que não são violências arbitrárias”, explica o pesquisador. Semelhante a Ambra, Cossi, em sua pesquisa, também destaca a psicanálise de Lacan. Para ele, a teoria do psicanalista francês é um importante contributo para o desenvolvimento da teoria queer, do mesmo modo que esta é fundamental para a compreensão da concepção psicanalítica de sexualidade – sobretudo do conceito de gozo. Para o pesquisador, seria preciso distinguir a sexualidade, a nível discursivo, do âmbito de suas práticas de gozo e do plano das fantasias que organizam nossos desejos. Desse modo, fica evidente que o binarismo de gênero não incide de maneira igualitária no significante, no gozo e no desejo, dado que a relação entre estes três níveis – chamada por Lacan de sexuação – torna-se contingente e não necessária. Todo esse processo ocorre porque uma das razões mais fortes para manter e propagar o binarismo, inclusive em sua dimensão ideológica e de poder, é a concepção de que existe uma relação de unificação, hierarquia e proporcionalidade entre seus pares ou categorias. Assim, torna-se compreensível que não há a ideia de homem ou de mulher por excelência, com a constituição de sua essência dada pela natureza, mas que, em verdade, há entre os gêneros disparidade e não identidade, porque ambos não são proporcionais. psico.usp | 27


A partir desse raciocínio é possível encontrar uma curiosa afinidade entre Butler e a psicanálise. De todo modo, pensando na pesquisa de Ambra, percebemos que, ao longo da história, as ideias a respeito da masculinidade mudaram substancialmente. Um bom exemplo do trajeto histórico percorrido pela concepção de homem nos mostra que foi só na modernidade que as ideias de virilidade e civilização deixaram de caminhar juntas. Ser viril não significa mais saber viver em sociedade com base numa maestria de si; pelo contrário, a civilização passa a ser considerada um perigo de enfraquecimento dos corpos e das maneiras. Há, assim, uma inversão do entendimento. Esse tipo de abordagem dá elementos que ajudam a construir a legitimidade do entendimento do gênero como algo múltiplo e mutável, além de propor concepções dotadas de uma maior liberdade, como as veiculadas pela teoria queer e pelo movimento LGBT. Em suma, a partir da compreensão da dissociação entre o orgão genital, a orientação sexual e a identidade de gênero podemos entender melhor o que são as construções sociais. Analisando por essa perspectiva, não haveria nenhuma espécie de amarra, de maneira que alguns autores inclusive sugerem que se alguém, hoje, se vê como uma mulher que tem desejo por homens, nada a impediria de que, amanhã, num outro momento, ela se visse de outra forma. A compreensão do gênero e da sexualidade como produtos do social permitiriam um trânsito livre. Na visão de Ambra, “as pessoas imaginam que gostam do próprio gênero, mas isso seria um imperativo”. Para ele, o Estado e a sociedade precisam rever suas relações com o gênero a fim de limitar uma eterna categorização identitária da sociedade. “Para que servem 28 | psico.usp

as categorias afinal? A pergunta esbarra em uma questão foucaultiana clássica, uma crítica à psicanálise, que enxergaria no sexo a verdade última de tudo, como se fosse algo muito mais importante do que o resto. Assim, a questão do gênero causa reações extremadas, pois se parte de uma ideia de que – diferentemente de uma plástica, por exemplo – uma cirurgia de trangenitalização tocaria em algo muito radical do ser humano e deveria, portanto, ser proibida, porque o sexo teria um estatuto diferente”, explica Ambra. Essas ponderações não querem dizer que o homem, como fruto da linguagem, do constructo, vai mudar aleatoriamente e o tempo todo. Segundo Ambra, em razão justamente de uma interpretação equivocada das ideias de Butler, a socióloga tem sofrido críticas por correntes da biologia, por teorias e movimentos sociais essencialistas e até mesmo por áreas da psicanálise. “Então você está dizendo que o gênero é um ato de escolha, você escolhe como vai performar? Não é bem assim. Temos que considerar o inconsciente envolvido, por um lado, e os exercícios de poder das normas sociais, por outro. Butler vai dizer que todo esse efeito de sujeito, efeito de gênero que é criado a posteriori, não necessariamente é controlado pela pessoa, é muito mais um resultado dessas imbricações de fala, imbricações de atos performativos, imbricações que tomam um peso, produzem um concreto, mas sempre permeados por discursos normalizadores”, finaliza o pesquisador.


Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre

Professor Emerson Inácio em entrevista à psico.usp

Quando tinha dez anos, Emerson da Cruz Inácio sonhava em ser bailarino, mas, já naquela idade, percebeu que o ser humano é convidado a seguir determinados padrões. Em uma época que ele chama de “geração dos grandes traumas”, seu desejo teve como resposta que o balé não era coisa de rapazes. “E então eu questionava, ‘mas por que ele dança na televisão?’, ao que ouvia ‘ah, ele pode, ele é artista’”. Hoje, aos 43 anos, o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP percebe que o traumático descobrimento da sexualidade que tivera não é o mesmo vivido por muitos jovens nos tempos de hoje. É claro que ainda existem padrões e regras insistentemente impostos, mas existe também uma maior naturalidade no tratamento da sexualidade e das identidades de gênero, além de que hoje é possível conceber que homens sejam bailarinos e mulheres sejam jogadoras de futebol. No entanto, em um passado não muito distante, as coisas eram bem diferentes.

Islaine Maciel

“Eu fui criado dentro de todos os estereótipos de ‘homem’. Era um menino católico e ‘bonzinho’, que tinha que ter uma namorada”, diz Emerson, que passou a viver furtivamente suas experiências homossexuais, levando os namorados para casa como “amigos”. Para a geração dos “grandes traumas”, a sexualidade raramente era revelada, ela se impunha em doses homeopáticas, como fazia o professor, ou, ainda, nunca se desvelava, numa supressão da própria identidade. “De fato, eu nunca ‘saí do armário’, porque eu tinha muita dificuldade em verbalizar ‘mamãe, eu sou gay’. Então, o que comecei a fazer? Levava os meus namorados para casa. Tudo foi se desenrolando bem, não gerou nenhum choque, porque no segundo ou terceiro namorado as pessoas já presumiam”, declara o professor. A década de 90 foi emblemática nos estudos sobre a homossexualidade. Com a morte pela AIDS/HIV de celebridades assumidamente gays, como Cazuza e Freddie Mercury, começou-se a questionar como uma “opção sexual” poderia ser sinônimo de mortalidade. Os homossexuais, então, passaram a ser diretamente relacionados à doença, inclusive na medicina. Foi nesse período que se iniciaram os estudos realizados pela psicóloga e professora do IPUSP Vera Paiva, que desde 1991 tem se dedicado à pesquisa psicossocial das sexualidades, dos gêneros e da desigualdade, assim como tem proposto práticas inovadoras na prevenção e no cuidado da saúde. psico.usp | 29


Testemunha de muitas histórias de portadores do vírus – homossexuais ou não –, Paiva relata em seu artigo que costumavam associar a epidemia de HIV aos chamados “promíscuos”, que eram os “homossexuais, usuários de drogas, trabalhadores do sexo, africanos e haitianos – com a contribuição direta de profissionais e pesquisadores que usavam sua autoridade tecno-científica para construir esse sentido da AIDS, inclusive na mídia”, explica a professora. Com um evidente preconceito arraigado à sociedade, Paiva notou que era prioritário confrontar o estigma e a discriminação, já que a doença não fazia distinção de orientação sexual e se disseminava em momentos de informação limitada e cuidados insuficientes. “Quando pegamos Aids não estamos pegando Aids, estamos fazendo outra coisa…”, disse um dos entrevistados por Paiva. Estudar a sexualidade, portanto, foi um passo decisivo para uma conscientização mais ampla sobre as questões de gênero, desde sempre cingidas com preconceito, intolerância e ignorância. Para Emerson, esse preconceito pode e deve ser rebatido diariamente, seja pela divulgação de novos trabalhos e por projetos como os de Vera Paiva, seja dando aulas na universidade. “Depois de adulto, a minha ideia sempre foi de trocar as placas, ou melhor, tirar as placas”, diz ele. Dessa maneira, para o professor, independente do modo como a pessoa se apresenta para o mundo – “vestido de rapaz” ou “vestida de moça”, no espaço da sala de aula esse alguém opta por ser quem quiser, porque isso não liquefaz sua capacidade acadêmica. “A roupa não 30 | psico.usp

faz ninguém, então me dispo dos padrões e faço questão de ‘dar pinta’, até porque no espaço da sala de aula essa atitude é um ato político”, finaliza o professor.

E eu gosto de meninos e meninas

Para Jorge Fofano Júnior, graduando do Instituto de Química da USP, os primeiros “sinais” de sua identidade bissexual foram percebidos na infância. “Lembro-me de ter a primeira experiência de atração por meninos aos 8 anos de idade, por um dos amigos de infância, mas sempre me senti atraído por meninas também”, contou em entrevista à revista psico.usp. Entretanto, esse ponto de “descoberta” não foi o bastante para que ele prontamente aceitasse sua sexualidade sem relutância. “Ao crescer, fui percebendo mais sinais, mas sempre os reprimia. Nunca cogitei sequer pensar como seria contar sobre minha orientação sexual para meus os pais, para a minha família e até para os meus amigos”, completa. Contudo, ao ingressar na universidade, Jorge percebeu que era possível “se abrir” para as pessoas mais próximas e se permitir uma efetiva experiência – embora, segundo conta, essa decisão tenha resultado na desilusão amorosa mais intensa que ele vivenciou. Ainda assim, Jorge assevera: “sinto-me muito mais ‘encontrado’ desde então e não mais reluto em me entender como bi”. A dificuldade no aceitar-se bissexual começa na própria compreensão do que é a bissexualidade. O “B” dos LGBTs talvez seja a orientação sexual menos problematizada e a que mais sofre invisibilização e preconceito, mesmo dentro da própria comunidade em que


Reprodução Facebook

Jorge Fofano Junior

está inserida. Essa falta de discussão dá a entender que a comunidade bissexual é fraca ou desorganizada, quando, na verdade, ela resiste a uma tentativa de apagamento social, que, muitas vezes, atinge inclusive a percepção da sexualidade do próprio indivíduo. Segundo o Instituto Bisexual Resource Center – grupo de pesquisas norte-americano, formado em 1985 –, alguns fatores ampliam o cerceamento da bissexualidade como orientação, como, por exemplo, rotular pessoas bis como gays ou lésbicas, porque estão em um relacionamento com homens ou mulheres, respectivamente; chamar a união de um bi de “casamento gay” ou de “união gay/ lésbica”; e ser chamado de “aliados” por aqueles que estão inseridos no LGBT. Desde os anos 2000, o movimento bissexual vem lutando por maior representatividade, através de estudos científicos e movimentos sociais, como o Coletivo Brasileiro de Bissexuais (CBB) ou o ActiBistas, um coletivo pela visibilidade bissexual. Esses passos, embora importantes, são tardios se comparados à representatividade de outros movimentos. Homossexuais, a exemplo, firmaram-se como movimento desde a década de 70; desde meados de 90, transgêneros conseguiram dar início a um movimento mais orgânico. Isso nos mostra que “falta discussão dentro e fora da comunidade e falta ainda descontruir este binarismo do hetero e do homo, que tanto nos

prejudica e dá margem para essa argumentação de que estamos ‘passando por uma fase’”, afirma Jorge. O senso comum aponta os bissexuais como indivíduos que estão passando por “uma fase”; como curiosos, indecisos, que ainda não decidiram sua orientação sexual; ou como sujeitos muito mais propensos à promiscuidade, dado que “gostam de todo mundo”. Jorge vê como lamentável esses apontamentos, especialmente em relação à libertinagem atrelada a eles. “Ser promíscuo, seja lá o que isso for de fato (o que é ser promíscuo, na realidade?), é uma característica individual, de caráter, nada vinculada com sua orientação ou identidade de gênero”. Para ele, há ainda um julgamento de que se o indivíduo bissexual assumir uma “preferência”, seria correto identificá-lo como gay ou lésbica. “A sexualidade é um assunto muito complicado e acho impossível que um dia cheguemos a algum consenso sobre ser certo ou não ter uma predileção. Eu, por exemplo, não tenho, mas tenho amigos bis que dizem preferir um gênero a outro, e eu não vejo nada de errado nisso, continuam sendo bis do mesmo jeito”. Para o graduando do IQ-USP, essas visões de uma heterossexualidade compulsória como forma de desvalidar a orientação bissexual são motivadoras da crescente bifobia nos dias de hoje, além de responsáveis pela estagnação da visibipsico.usp | 31


lidade do grupo. “A desinformação é bem ampla, no geral, mas isso tem também a ver com o fato de muitos bissexuais não se assumirem por sofrerem repressão. Então, há uma lógica viciosa na bifobia, cuja superação só se fará a partir da contínua luta dos bissexuais para mostrar que nós existimos e temos identidade. Acho que esse é o caminho para frear os estereótipos e a desinformação que é propagada dentro ou fora da comunidade LGBT”, finaliza Jorge.

Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita

Apesar do movimento político dos LGBTs ter ganhado espaço nos últimos tempos, ainda existe uma espécie de segregação entre alguns grupos, o que não se restringe aos bissexuais – embora sejam, muitas vezes, vistos como um apêndice da comunidade. Segundo a aluna Allan Marcolino, “tem havido uma rixa entre o movimento trans mulheres e o feminismo radical. Essas são questões que me atravessam muito, me preocupam e me enchem de culpa”. Essa preocupação não é desmotivada e se dá em virtude de uma suposta estereotipização feminina. A aluna conta que, ao debater com uma feminista radical, se culpabiliza por conta de vestir roupas femininas, se arrumar passando maquiagem, pintando as unhas, se depilando, e, com essas práticas, exigir reconhecimento como mulher. “Eu acho cruel culpabilizar a pessoa trans, porque os signos que temos para elaborarmos os dados da cultura são binários: a mulher e o homem. Não é possível fugir disso”, afirma a estudante.

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A orientação sexual e a identidade de gênero são particularidades de cada sujeito. Ser homem e gostar de mulher e ser mulher e gostar de homem não é (ou ao menos não deveria ser) uma obrigação. Não são todos que se identificam com a hetero-normatividade, a cisnormatividade e o binarismo de gênero. O respeito àqueles que não seguem os padrões impostos é o mínimo esperado de uma sociedade dita civilizada. Contudo, não são raras as vezes em que o senso comum classifica os homossexuais, por exemplo, como doentes ou pervertidos sexuais. Velada ou explicitamente, essa discriminação contra LGBTs é comum, mas a dor experimentada por quem é julgado não deixa de ser amarga. Constrangimento, humilhação, depressão e, em último caso, suicídio são sofrimentos cotidianamente vividos pela população LGBT. E este panorama parece estar longe de ser alterado. Não é possível fazer os gêneros desaparecerem, fingir que eles não existem ou ignorar as individualidades humanas. Mesmo assim, são várias as tentativas de se criar um território do não-dito em torno dessas questões, que são tidas como tabu. Nesse ímpeto, surgem, inclusive na educação pública, iniciativas contra o chamado “ensino de ‘ideologia de gênero’ nas escolas”, ou mesmo o Projeto de Lei aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, que institui no sistema estadual de ensino o “Programa Escola Livre”, uma tentativa de proibir o que é chamado de “doutrinação política e ideológica em sala de aula”. No âmbito social, o conservadorismo também trava um embate contra os avanços.


Para ilustrar a questão, há, por exemplo, pessoal no Facebook. O episódio foi moo esforço para reanalisar a Resolução tivado pelo traje que o estudante usou CFP 01/99, que orienta os psicólogos a na faculdade: uma saia. Um dos agressonão exercerem qualquer ação que favores ironizava, grosseiramente, o fato de reça a patologização de comportameno aluno ter um pênis e usar saia, como tos ou práticas homoeróticas. O fato de se a vestimenta só pudesse ser usada pessoas LGBTs não irem ao psicólogo por pessoas com a genitália feminina. para “tratar” a sua orientação sexual ou Em entrevista à psico.usp, Vitor conta a sua identidade de gênero, como se isso que a escolha da saia foi natural, porém fosse um problema a ser resolvido, parenão aleatória. Ele relembra que estava em ce ser um incômodo para alguns. um brechó procurando roupas para a festa A citada perspectiva lançada sobre dos calouros do curso que acontecea sexualidade e gênero alheios traduz ria na faculdade, quando viu a saia e achou o desconforto de certos setores da soque poderia usá-la. “Esse pensamento ciedade, o que acaba por implicar direde usar uma roupa feminina sempre me tamente na vida dos acompanhou, desde peLGBTs. Por isso eles Eu acho cruel culpabilizar queno, porque eu visto sentem que as chano que considero bonito a pessoa trans, porque ces de discriminação e vejo muita beleza na e agressão aumentam os signos que temos para roupa tida como femiconforme a exposição nina”, contou o aluno, elaborarmos os dados da que optou por “estreda sua orientação sexual e identidade de ar” a saia em um dia cultura são binários: a gênero torna-se mais que teria aula de “Arte mulher e o homem clara. Essas violências e Cultura Contempoem relação à popularânea”, uma disciplina ção LGBT assumem caráter físico, moral que o fazia sentir-se confortável. ou psicológico, e são contínuas em toda a Porém, para a surpresa do estudante, sua trajetória de vida. quando ele respondeu ao “ataque virtuA intolerância e o preconceito aos quais al” notou que recebeu muito mais apoio os LGBTs estão expostos abre precedendo que poderia imaginar. “Eu li comentes para depoimentos como as postagens tários como ‘que bobagem, saia não tem do político Marco Feliciano em sua congênero, roupa não tem gênero...’, eram ta no Twitter, em março de 2011. Para muitas pessoas me apoiando”, relata. O ele, “a podridão dos sentimentos dos hoepisódio culminou no evento “USP de moafetivos levam ao ódio, ao crime e à Saia”, que aconteceu dias depois e foi rejeição”. Essa imputação de culpa sobre criado pelos alunos do campus Butantã, as vítimas representa nada menos que a espalhando-se pelos outros campi. difícil realidade diariamente enfrentada O evento convidava todos os alunos por essas pessoas. da universidade a Em 2013, por exemplo, Vitor Pereira, usarem suas à época ingressante no curso de Têxtil e Moda da EACH-USP, sofreu uma série de ofensas em sua página

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Reprodução Gucci

Sem fazer gênero! Desde que Aristófanes nos contou em “O Banquete”, de Platão, a história dos seres completos, autossuficientes, que foram divididos ao meio pelos deuses devido a sua presunção e condenados a passar a existência em busca da sua outra metade, conhecemos o conceito do andrógino. No mito, a humanidade se dividia em três gêneros: o masculino, o feminino e o andrógino, que continha os dois anteriores. Estes seres foram divididos em pares compostos por homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem. O conceito do andrógino, retomado nos dias atuais, relaciona-se com a questão do gênero e tem um papel de questionamento dos limites identitários propostos por nossa cultura ocidental. A moda não se manteve à parte dessa discussão e, como ferramenta de construção das identidades e recurso expressivo, incorporou a androginia às tendências da passarela. Há muitos anos existem marcas que encaram o corte e costura como algo sem distinção de gênero, como é o caso das grifes Jonathan Sanders e Marimacho, entre outras. No entando, nas últimas temporadas de moda, essa ideia apareceu também em desfiles de marcas que não tinham essa tradição de androginia. É o que mostra o desfile da grife Gucci, que, na semana de moda masculina do verão 2016, incluiu mulheres na passarela e trouxe os modelos do sexo masculino em trajes considerados femininos. Essa ideia já havia aparecido na temporada inverno 2015 – em que Miuccia Prada, estilista da grife que leva seu sobrenome,

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declarou em entrevista: “eu penso para as pessoas, não para gêneros”. O pensamento gender-neutral parece estar tomando força no mundo da moda, mas, definitivamente, não surgiu agora. Desde a década de 20, quando Coco Chanel libertou as mulheres de seus espartilhos e incorporou peças masculinas ao guarda-roupa feminino, passando pela década de 70, em que coleções com silhuetas mais simples, que podem ser usadas por ambos os sexos e com tecidos sem relações históricas com essa classificação, vemos essa tendência de convergência dos elementos da vestimenta. A maior diferença é que as coleções ditas “neutras” de hoje dão um passo além e colocam na passarela modelos que não marcam em sua aparência um sexo definido – sendo eles homens, mulheres ou transexuais. Na moda mais acessível ao público, o conceito de gênero também mostra sinais de fadiga. Recentemente, a famosa loja de departamentos inglesa Selfridges montou em sua matriz londrina um departamento pop-up (provisório), sem distinção de “masculino” e “feminino”. A seção, batizada Agender (“agênero”), trazia uma seleção de marcas com um estilo mais neutro que, na teoria, contempla todos os gêneros. O conceito de gênero e sua manutenção e desconstrução está em discussão e ainda encontra muitas contradições. Contudo, independentemente de continuar existindo a distinção entre “masculino” e “feminino”, e do modo como se dá, uma coisa é certa: a tendência é ter moda para todos. – SOFIA MENDES E CAROLINA SASSE


roupas como uma forma de linguagem, como liberdade de expressão. Já na chamada se via: “esse evento é uma forma de demonstrar apoio a qualquer forma de transgressão aos padrões que a sociedade nos impõe”. Durante um dia inteiro, os estudantes da USP foram convidados a repensar o preconceito e a intolerância que os LGBTs sofrem todos os dias, especialmente no tocante às imposições diárias da sociedade, muitas delas veladas. “Eu via tudo aquilo e pensava ‘que bobagem fazer tudo isso pra mim, eu não fiz nada demais, eu não lutei por nenhuma causa, só tive coragem de sair de casa como eu sou’”. Mas hoje, o aluno de têxtil e moda reflete melhor sobre o que aconteceu. “Ações pequenas são importantes porque a atitude simples de um pode mudar o outro. Eu sempre lutei por mim, desde pequeno, sempre soube o que queria, e percebi que ali as pessoas não lutavam por mim, elas estavam lutando por elas mesmas”. A repercussão de todo o episódio envolvendo Vitor foi muito grande. De um dia para o outro o aluno foi convidado a dar entrevistas para grandes jornais e programas de televisão. “O apoio foi muito grande, precisei selecionar onde iria para não desvirtuar minha ação. O objetivo não era aparecer na televisão, mas foi muito bacana ter sido citado por pessoas como o Pascoale e ver o que aconteceu comigo virar charge da Laerte”, relembra. Como uma pessoa que estuda moda e acredita no poder que ela tem, Vitor criou a página “Homens de saia”, logo após o episódio, com o intuito de compartilhar fotos e histórias de celebridades que usam ou já usaram saias. Hoje, a página é acompanhada por homens e mulheres. “Meu objetivo com esse pro-

jeto sempre foi receber e apoiar esses homens que querem usar saias, porque, afinal, roupa não tem gênero”, explica. Vitor não foi o primeiro aluno a usar no campus. Augusto Paz, que na época também era aluno da EACH e viu de perto as agressões e a repercussão do caso, usou a peça do vestuário pela primeira vez em 2011, como parte de uma atividade proposta pela professora de sociologia. “Deveríamos usar uma peça de roupa que nos causasse desconforto. E a saia me trazia desconforto psicológico. A partir de então, peguei gosto e hoje uso com frequência”, conta Augusto. A atitude gerou reações diversas, de curiosidade a abuso. “Desde gente me parando para elogiar, até uns caras que tentaram tirar uma foto por debaixo da minha saia”, completa. O ex-aluno acredita que o incidente foi importante não só pessoalmente como também socialmente, porque “trouxe a pauta do gênero à tona e inevitavelmente gerou discussões”. Hoje, mais do que nunca, ele se sente “empoderado o bastante para zombar desses padrões que a gente aceita sem nem saber o porquê”. Vitor também se vê mais engajado após o ocorrido, “mas no limite”. Ele acredita ser necessário educar as pessoas sobre gênero, ainda que seja difícil em um país como o Brasil, por conta de sua multicultura e extensão territorial. “Talvez a melhor forma de coibir o preconceito seja reforçar o objeto dele. Ah, não gosta de quem usa saia? Então use saia! As pessoas se acostumam com o que veem sempre e esse hábito de tudo virar moda – que muitas vezes é bem ruim, aliás – pode ser bom se gerar essa aceitação”, reflete o estudante. Para ele, o maior lucro do episódio foi o fato de ter evoluído como pessoa e poder mostrar-se ao mundo e ser apoiado por isso.

Talvez a melhor forma de coibir o preconceito seja reforçar o objeto dele [...]. As pessoas se acostumam com o que veem sempre e esse hábito de tudo virar moda – que muitas vezes é bem ruim, aliás – pode ser bom se gerar essa aceitação

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Me deixa ver como viver é bom

Uma violência como a que é praticada contra mulheres e LGBTs não é banida por leis. É preciso uma mobilização jurídica e extrajurídica maior. Segundo a socióloga Judith Butler, em depoimento dado no I Seminário Queer – realizado pelo SESC SP e mediado por Vladimir Safatle, Prof. Dr. da FFLCH-USP –, “deve haver uma crítica institucional sobre esse tipo de problema”, visto que “a vulnerabilidade tem uma dimensão que nós buscamos valorizar e preservar, e que é importante para nós, como criaturas sexuadas. Nós podemos ser explorados com base em nossa vulnerabilidade. Somos criaturas que precisam de abrigo e relações sociais. Não podemos ser entendidos como autossuficientes”. Mas essa múltipla discussão que vem sendo feita sobre o gênero, especialmente nos espaços universitários, deixa pessoas como o professor universitário Emerson Inácio otimistas. Para ele, ainda que esse amontoado de “caixas” e “rótulos” – que são utilizados para “definir” pessoas – possa causar muita confusão e possa coibir a compreensão, os rótulos devem ser vistos como um passo para a aceitação e uma consequente naturalização das identidades e sexualidades, de modo que, muito em breve os trans, pansexuais, bissexuais, gays ou lésbicas serão vistos como devem ser: como pessoas. “Não deve demorar para acontecer que as meninas que sofreram discriminação nos banheiros do IP se tornem invisíveis; não pejorativamente, mas no sentido de que haverá uma naturalização, elas serão só mais uma pes-

soa, simplesmente, e não mais a pessoa trans, na caixa. Ou seja, é uma invisibilidade produtiva”, explica. O futuro promissor continua num horizonte longínquo. Para alcançá-lo, é necessária a elaboração de políticas públicas e ações sociais e educativas que desconstruam as noções de que a não-heteros s e xualidade ou a não-cisgeneridade é uma doença, um desvio de caráter ou, ainda, um pecado. E é para esse objetivo que caminha a luta dos LGBTs, visto que “as pessoas não querem ser identificadas porque são gays, lésbicas, trans, abóboras ou jatobás. No final das contas, elas querem apenas ser pessoas”, finaliza o professor.

As pessoas não querem ser identificadas porque são gays, lésbicas, trans, abóboras ou jatobás. No final das contas, elas querem apenas ser pessoas

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Desenho da cartunista Laerte em apoio ao evento USP de Saia (2013)

Na página ao lado Acima: à esquerda, Vitor Pereira e Augusto Paz, alunos da EACH-USP; à direita, Augusto Paz em 2011; e abaixo: alunos da USP (campus Butantã) durante participação no USP de Saia Fotos: Flávio Moraes |(Reprodução G1)


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Adaptação Freepik


A psicanálise “no armário”

Pesquisador do IPUSP investiga e analisa a proscrição de psicanalistas homossexuais em órgão oficiais de psicanálise

Por Aryanna Oliveira

Quais características compõem um candidato elegível à formação em psicanálise? Em 1921, essa questão permeou uma importante discussão entre um círculo de psicanalistas íntimo aa Freud. O grupo refletia acerca de uma particular característica, bastante encoberta, ou mesmo posposta, no tocante à contratação de profissionais para os órgãos oficiais de psicanálise: a homossexualidade. Ao debate somam-se alguns relatos – nunca oficiais – apontando que alguns candidatos à formação em psicanálise pelas sociedades filiadas à Associação Psicanalítica Internacional (IPA) eram rejeitados se fossem assumidamente gays ou, se durante o processo seletivo, sua homossexualidade fosse revelada. De possíveis agentes, os futuros psicanalistas passaram a objetos na pesquisa do psicólogo e psicanalista Lucas Charafeddine Bulamah, mestre em psicologia pelo IPUSP, que, orientado pelo Prof. Dr. Daniel Kupermann, iniciou um meticuloso processo investigativo em que se buscava provar a existência e atuação de uma regra – ­ não escrita – de uma tradicional proscrição de candidatos homossexuais masculinos à formação psicanalítica. “Eles eram imputados na categoria de perversão, borderline, psicose, ou algum outro tipo de preconceito de diagnóstico. Até mesmo a palavra ‘homossexual’ durante muito tempo esteve presente no manual de doenças mentais, como sinal de má formação, de interrupção do desenvolvimento”. Esse diagnóstico tinha um propósito normalizante, “você não está junto conosco porque você é diferente”, explica Bulamah, que, em entrevista à revista psico.usp, destacou alguns pontos sobre seu trabalho, sobre a instituição psicanalítica e sobre Freud. psico.usp | 39


A HOMOSSEXUALIDADE PROSCRITA Em uma série de cartas trocadas entre importantes psicanalistas à época fundante das instituições psicanalíticas, era discutida a questão da candidatura de homossexuais. Em circular enviada a todos os membros do secreto comitê, Ernest Jones relatava ter aconselhado contra a admissão, pela Sociedade Holandesa de Psicanálise, de um membro que “se sabia manifestamente homossexual”. Otto Rank e Freud discordavam da posição do colega, pois, para eles, a homossexualidade não era razão suficiente para a rejeição. Por outro lado, porém, a contratação não poderia tornar-se uma lei, “considerando os vários tipos de homossexualidade e os diferentes mecanismos que a causam”. Já para os berlinenses Karl Abraham, Hanns Sachs e Max Eitingon, esses indivíduos só deveriam ser admitidos se tivessem “outras qualidades a seu favor”. Grande parte do conflito em torno dessa proscrição dos homossexuais se dava

por uma compreensão, hoje tida como equivocada, de que a homossexualidade aparecia como parte de uma neurose e que, por isso, deveria ser analisada. Uma vez neurótico, o sujeito era visto como doente, porque estaria essencialmente marcado por conflitos pessoais que não foram resolvidos. “Enquanto ele ainda for homossexual, enquanto ainda houver esse modo de satisfação do desejo por alguém do mesmo “gênero” algo muito mais complexo), ele não está bem, não é saudável ou íntegro para ser o que era esperado de um certo ideal de psicanalista”, explica Bulamah. Mas havia um problema nessa apropriação – e simplificação – da teoria freudiana por um discurso marcadamente preconceituoso: segundo Freud, todos os indivíduos são neuróticos, não apenas os homossexuais. “O raciocínio estrutural vai dizer que ‘ou você é neurótico obsessivo, ou você é histérico, ou você é psicótico’. Esse é um raciocínio em que ninguém escapa de um certo registro do

A sexualidade é anárquica, não tem norma, é conformada socialmente

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pathos, de algum tipo de adoecimento. Ninguém escapa de uma forma de insatisfação frente ao mundo. Não é porque o homem gosta mais de mulher ou de homem que ele é mais ou menos doente”, completa o pesquisador. FREUD E A HOMOSSEXUALIDADE O discurso de exclusão dos órgãos oficiais ligados à IPA mostrava-se atrelado a uma visão bastante hostil quanto às questões de gênero. Segundo o pesquisador, havia uma ideia de que o homem gay era tido como uma aberração, pois se associava a isso uma vontade de aproximação ao ser mulher. “E como pode um homem querer ser feminino? Quando você deseja uma mulher, você se firma enquanto homem, porque o discurso do desejo é heterossexista, ele tem a heterossexualidade como polo heurístico. O que é diferente dele dá um curto-circuito em nossa ideia, porque o homem que deseja um homem só pode ser uma mulher. Então a mulher que deseja uma mulher nem sequer aparece”, argumenta o psicólogo. Mas Freud, ainda que assinando cartas com ressalvas quanto à discussão, tinha um raciocínio muito diferente do encontrado pelos membros do Comitê Secreto. Já em 1905, encontramos estudos sobre a direção da libido de um sujeito para o outro. Não haveria gênero naquele que é desejado, do ponto de vista do inconsciente, uma vez que, ali, as representações do gênero não se conformam com os caracteres socialmente representados. Para o pai da psicanálise, no

inconsciente todos fazem uma escolha homossexual. “Segundo Freud, e para dizer de uma maneira bastante vulgar, todo homem já desejou o próprio pai, toda menina já desejou a própria mãe. A sexualidade é anárquica, ela não tem norma, ela é conformada socialmente”, elucida Bulamah.

Mas, para os psicanalistas das décadas de 40 e 50, esses excessos precisavam ser polidos, pois o ser humano precisa de uma evolução e a homossexualidade é uma trava para tal. Esse discurso aparece então como fruto de um raciocínio marcado pelo preconceito e por uma institucionalizada intolerância. PSICANÁLISE INSTITUCIONALIZADA Como consequência do prestígio de que gozava a psicanálise no século passado em grande parte do Ocidente, e da estruturação do imaginário que promovia na sociedade, foi criada a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), como um órgão centralizador da formação do psicanalista, vindo a organizar as sociedades que a ela se vinculavam. Em resposta aos abusos da popularidade e visando a uma espécie de controle de qualidade, veio a necessidade de selecionar os candidatos a cargos oficiais. Dessa institucionalização da psicanálise, surgiram as controvérsias. Primeiro com relação à aceitação de candidatos não médicos, depois com o ingresso de candidatos homossexuais. Todavia, segundo Bulamah, “o que distingue as duas controvérsias é a visibilidade, ausente em uma e presente na outra”. A questão dos não médicos dividia a sociedade psicanalítica, mas o debate era explícito, tanto nos congressos como nos artigos. No segundo caso, houve um mascaramento do preconceito e da discussão por intermédio da institucionalização, vide cartas que circularam secretamente entre o “Comitê Secreto” de que Freud fez parte.

Em “A psicologia das massas”, Freud já falava sobre o “narcisismo das pequenas diferenças”. Segundo os estudos freudianos, os grupos costumam se unir para combater um inimigo em comum. Se nas décadas passadas a homossexualidade psico.usp | 41


era “colocada no armário”, como uma vergonha a ser escondida, hoje há muito desse preconceito com a transexualidade, ainda patologizada pela psicanálise. A institucionalização da psicanálise é problemática, dado que ela não favorece uma associação. “De certa maneira, a associação implica uma conformidade do discurso, de ideais, e a psicanálise, na verdade, demanda que você tenha algo no laço, entre você e os outros, o que não propicia o encontro, o entendimento, mas, sim, um comportamento disruptivo”, explica o pesquisador. Também segundo Bulamah, em uma associação de psicanalistas se prega a existência de um todo comum, tanto em termos teóricos como dogmáticos. “É complicado para um sujeito ser diferente em uma sociedade em que se pressupõe que se seja o mesmo”, completa.

SAINDO “DO ARMÁRIO” Houve um movimento de luta bastante forte por parte de alguns psicanalistas, especialmente nos Estados Unidos, onde o preconceito se demarcou com maior expressividade. Se nos outros institutos – como nos do Brasil e da França – a exclusão era mais velada, na associação americana havia um empenho bem mais ostensivo em esconder o que fugia à ordem do tradicional. “Assim que a IPA, nos EUA, liberou a entrada de homossexuais para cursos de formação, criou-se um comitê para reunir grupos de discussões em todas as associações ligadas à IPA no país. E hoje existe uma turma muito unida, plural, mas problemática em vários aspectos”, explica Bulamah. Hoje, ainda que tendo perdido alguma força, a IPA continua sendo muito importante, mostrando-se em um contínuo movimento de leitura mais plural das problemáticas, especialmente das de gênero. Por isso, pode-se verificar um processo de modernização das estruturas psicanalíticas, pois a psicanálise sobreviveu para além da instituição stricto sensu. “A IPA está tentando se modernizar negociando seus parâmetros de sobrevivência quanto à associação mundial que ela é. Todavia, a psicanálise não depende necessáriamente de instituições para sobreviver, já que ela é um discurso que hoje é artefato da humanidade. Estuda-se psicanálise como uma área do conhecimento, sem precisar pertencer a uma instituição, propriamente dita”, finaliza o pesquisador.

Na página ao lado, o pesquisador Lucas Charafedinne Bulamah em entrevista à psico.usp 42 | psico.usp


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A Homossexualidade

feminina

e visibilidade Estudo faz uso das teorias psicanalítica, social e literária para compreender o lugar da homossexualidade feminina na sociedade Por Carolina Sasse

Ao falarmos de lesbianismo, falamos de algo que se diferencia de uma definição mais ampla de homossexualidade. Trata-se de um universo peculiar em que relacionamentos compostos por duas mulheres desafiam a compreensão geral, sobretudo devido à limitação existente em nosso instrumental simbólico. Safo, a poetisa grega que viveu na ilha de Lesbos entre os séculos V e IV a.C e que liricamente cantou sentimentos de amor entre mulheres, foi o modelo que primeiro ensejou as delicadas particularidades desse tipo de relacionamento

humano. Ela deu origem ao nome lésbica, que, fazendo referência a uma apropriação geográfica, é dado às mulheres que se relacionam amorosamente entre si. Contudo, esse modelo com origens na antiguidade clássica não dá conta das formas que o lesbianismo tomou no desenrolar do século XX. Contemporaneamente, o lesbianismo surge como um tipo de subjetividade social, que busca, conscientemente, afirmar uma “identidade lésbica” e estabelecer modelos sociais positivos. É nesse contexto que nos deparamos com uma questão difícil: psico.usp | 45


a busca de espaço e aceitação exige que esse grupo seja visto e, por extensão, compreendido. Essa visibilidade social, ainda hoje, é muitas vezes negada às mulheres que se relacionam com mulheres. Os movimentos Gays, Lésbicas, Transexuais e Transgêneros (GLTT) vêm conseguindo avanços no que diz respeito a seus direitos e sua aceitação junto à sociedade, muito embora dentro dessa comunidade alguns subgrupos tenham conquistado mais espaço do que outros. Os homossexuais masculinos são o subgrupo que obteve mais sucesso nesse processo; travestis, transexuais e transgêneros ainda ocupam um lugar marginal; enquanto as lésbicas acabam por ocupar um lugar de invisibilidade. As atividades desses movimentos sociais e a evolução do pensamento social geraram um ambiente de consenso a respeito do caráter “politicamente incorreto” do preconceito, o que, por certo, é um avanço. No entanto, este avanço, que se dá no nível coletivo das comunidades, gera o risco de que a problemática da homossexualidade - e do lesbianismo, mais especificamente - seja banalizada, de que a sociedade pense que a questão já está completamente resolvida, exatamente no momento em que estamos convivendo com o surgimento de novas categorias sociais e conceitos científicos que compreendem mais aprofundadamente o desejo que se dá pelo semelhante, e não pela complementaridade homem-mulher. 46 | psico.usp

Com intenção de compreender essa complicada dinâmica, o artigo “Lesbianismo e Visibilidade”, do Prof. Dr. Christian Ingo Lenz Dunker e da Profa. Dra. Graciela Haydée Barbero, procura entender a invisibilidade social do lesbianismo - apontada como um recorrente problema político pelos movimentos organizados que representam a comunidade lésbica -, assim como compreender os elementos mais íntimos dessa condição feminina. É feita uma leitura a partir dos elementos dados pela teoria psicanalítica, pela psicanálise em convergência com a teoria social, e pela análise literária de viés psicológico. Os autores procuram, no instrumental teórico disponível, recursos que melhor auxiliem a compreensão dos processos íntimos do lesbianismo, uma vez que a invisibilidade social desse grupo feminino seria, em boa medida, proveniente da dificuldade de compreensão da natureza destes relacionamentos, dificuldade encontrada até mesmo dentro da própria teoria psicanalítica. A invisibilidade social das lésbicas é coerente com o momento de tensão atual, em que a visibilidade das formas de vida não heterossexuais, e o estabelecimento das respectivas identidades sexuais, ameaçam uma ordem simbólica ancestralmente estabelecida. Observa-se que o que é exterior à tríade heterossexualidade/ casamento/ filiação sofre resistência, e essa força de ma-


nutenção poderia ser considerada uma forma de ideologia social. Do ponto de vista prático, os discursos de tolerância e não discriminação, muitas vezes, não se estendem à esfera individual. Eles não eliminaram os episódios de violência, as situações de perseguição e incompreensão. Essa realidade faz com que muitos ainda sintam que sua condição só possa ser vivida no espaço da privacidade e da intimidade, ou como diz a expressão corrente: “no armário”. Na intenção de contemplar as tensões sociais descritas anteriormente, e a perspectiva ideológica da invisibilidade lésbica, os autores citam a obra do pensador, teórico da psicanálise e da filosofia política, Slavoj Zizek. Em Um mapa da ideologia, por meio de conceitos marxistas ampliados, ele estabelece uma analogia à clássica “luta de classes”, propondo o conceito de antagonismo social. Tecnicamente, Zizek faz uma afirmação coerente com a perspectiva lacaniana, sugerindo que a realidade não é a “própria coisa”, mas, sim, uma construção simbólica que não dá conta integralmente do real, há uma parte não simbolizada, segundo ele, “foracluída”. Ou seja, a realidade dita e compreendida é apenas uma parte do que existe, a realidade que entendemos não passa da realidade que somos capazes de descrever, nunca o real de fato. Viria daí o conflito, o antagonismo social, entre o que é representável – e por sua vez compreensível e preponderante – e o real irrepresentável, a “própria coisa”, o que não faz parte do discurso. Fatos sociais

inúmeros fazem parte desse “foracluído”, o lesbianismo é um deles; trata-se de algo que compõe o universo do real, mas que não está devidamente representado no discurso social. As analogias feitas por Zizek às estruturas de pensamento marxistas, e por sua vez, hegelianas, passam pelo processo dialético (processo de confrontação de ideias que leva a uma nova conclusão, síntese), e pela importância da ideologia social. Por meio dessas analogias fica elucidado que a prevalência da dualidade homem-mulher, que exclui outras formas de sexualidade, em especial o lesbianismo, é também uma ideologia, não apenas uma questão de caráter biológico e psicológico. Ainda dentro da lógica marxista ampliada, observa-se que uma mudança na ideologia dominante não se dá sem que existam tensões, sem que atuem forças de resistência que promovam, por exemplo, invisibilidade de grupos como as lésbicas; nas palavras dos autores, “em síntese, a invisibilidade das lésbicas é, desde esse ponto de vista, uma questão ideológica, necessária para sustentar a realidade social na qual vivemos e, fundamentalmente, o ponto no qual a reversibilidade entre ‘homem’ e ‘mulher’, em sua suposta complementariedade, se veria questionada”. A representação do relacionamento entre mulheres é complexa até mesmo dentro das fronteiras da teoria psicanalítica estrita. Para a psicanálise, o lesbianismo é “uma das formas de organização do erotismo e da sexualidade: um tipo de escolha de objeto, de

Os movimentos Gays, Lésbicas, Transexuais e Transgêneros (GLTT) vêm conseguindo avanços em seus direitos, contudo, alguns subgrupos conquistaram mais espaço do que outros

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identificação e de economia de gozo”. A sexualidade feminina seria, então, o resultado de uma determinada posição na estrutura desejante, organizada em torno do significante que diferencia - o falo. O falo parece estar sempre presente nas explicações teóricas que pretendem entender a sexualidade humana. Assim, relacionamentos que prescindem desse elemento - material e simbólico em sua constituição exigem leituras mais complexas das teorias psicanalíticas. A questão em aberto, segundo os autores, seria entender uma sexualidade parcialmente independente do falo, conceito chave em Lacan e sua teoria da sexualidade feminina. Para Lacan, a escolha do objeto amoroso-sexual se baseia na dialética do ser e do ter, onde ser o falo é uma posição feminina e ter o falo, uma posição masculina. Nesse contexto, acaba por não existir uma categoria que contemple a totalidade das mulheres. Trata-se de uma análise feita sempre em relação ao significante fálico, da diferença entre os sexos, entre as posições do masculino e do feminino, em que o falo seria o índice que dá proporção a essas diferenças. Segundo os autores, mesmo quando Lacan, na década de 1970, retoma a questão freudiana da bissexualidade, que contraria em parte sua teoria da unicidade fálica, já que propõe a teoria do Gozo Fálico e do Outro Gozo, nada disso parece dar conta de uma categoria que explique a totalidade das possibilidades da sexualidade feminina. Essa predominância do referencial fálico faz com que, algumas vezes, os relacionamentos entre mulheres lésbicas sejam analisados como se elas ocupassem lugares tradicionais no esquema das fórmulas de sexuação. Como se uma das parceiras ocupasse no relacionamento a posição do masculino (assumindo uma “impostura” fálica) e a outra a posição do feminino, recriando, assim, a lógica da complementaridade. Mas o que fazer quando essa lógica 48 | psico.usp

recriada não pode ser vista no relacionamento entre mulheres? Esta seria a questão, segundo o artigo. “O próprio Lacan reconhece que as mulheres não são totalmente explicadas pela sua posição em relação ao significante fálico”, sendo elas descritas como “não-todas fálicas”. Entre estes não-todos, não há a relação de complementaridade. Portanto, Lacan propõe que “não há relação sexual, a mulher não existe, a mulher é não-toda”. A partir dessa estrutura de pensamento, cuja lógica nega a motivação sexual dos relacionamentos lésbicos, entende-se a existência de uma terceira forma de reconhecimento aplicável às relações entre mulheres, uma forma baseada nos registros sociais e no discurso. Para os autores, “se duas mulheres mantêm uma vida comum, erótica e social, há entre elas um discurso”. É essa característica dos relacionamentos lésbicos, relacionamentos em que o significante fálico parte da ideologia social dominante, mas, em verdade, não ocupa o lugar principal; relações cuja lógica se dá por meio do discurso, da escolha, o que torna o gozo das lésbicas ameaçante, diferente, difícil de compreender e, portanto, passível de invisibilidade.


Os autores encontram uma saída interpretativa interessante no trabalho da crítica literária, simpatizante da teoria queer, Elisabeth Ladenson, que vê a questão da sexualidade por meio da obra de Marcel Proust. O trabalho de Ladenson diverge da interpretação literária tradicional da obra proustiana Em busca do tempo perdido, em que a protagonista, Albertine, e suas amigas são vistas como a representação da homossexualidade do próprio autor, que não ousou tratá-la diretamente. Enquanto pensava-se nas mulheres de Proust apenas como meios para uma representação pessoal do autor, Ladenson observa que as mulheres da obra seriam algo além, seriam parte de uma proposição teórica postulada por Proust acerca de um novo tipo de encontro amoroso, diferente do heterossexual e do homossexual masculino. Em síntese, neste hipotético modelo de Proust, o homossexual masculino, o invertido, “não deseja seu semelhante, porque sendo ele secretamente feminino, desejaria seu outro” - e, assim, existiria a complementaridade. As lésbicas, pelo contrário, não seriam consideradas “invertidas”, porque não se definiriam pela gramática da inversão, falo/não-falo. Proust, portanto, descreve mulhe-

res que desejam outras mulheres, independentemente da simbologia usual da complementaridade. Assim, de acordo com Ladenson, o lesbianismo hiperboliza “o enigma que representa para um homem o desejo de uma mulher, a palpitação do prazer feminino”. As lésbicas são o mistério, “a única versão da sexualidade capaz de guardar (proteger) o controle da sua própria representação”. Relacionamentos lésbicos seriam, assim, dotados de uma lógica própria, independente das formas de compreensão tradicionalmente aplicadas à sexualidade, independentes do dual primário entre o falo/não-falo e, por consequência, desafiadoras para a compreensão. Elas são, pela inadequação aos modelos e ao entendimento geral, fortes candidatas à invisibilidade. Esse viés interpretativo da construção literária de Proust, de um modelo de desejo recíproco não-fálico, coloca a questão do lesbianismo numa forma que ainda não havia sido posta pela psicanálise. Segundo Dunker e Barbero, “Proust vê as mulheres como dotadas de uma plenitude autossuficiente, não como resultado de uma falta, como pensa a psicanálise freudiana”. A obra proustiana, então, postularia a existência de uma economia sexual não fálica, o que, politicamente, concordaria com teorias de gênero desenvolvidas por grupos militantes de feministas lésbicas, que questionam a lógica psicanalítica. A leitura de Proust traz frescor à forma de ver o lesbianismo, ajuda a compreender particularidades, e Ladenson é eficiente em explicar a novidade do “modelo” proustiano. Contudo, junto com Dunker e Barbero, chegamos à conclusão de que, embora seja importante a inovação sugerida pela sensibilidade artística de Proust, não é possível abandonar o modelo da teoria psicanalítica. Mesmo que este não dê conta por completo da questão, a psicanálise ainda é a forma pela qual são compreendidas as linhas gerais da sexualidade humana. psico.usp | 49


A violência que se monta Doutorado do IPUSP retrata sofrimento e resistência das travestis diante da violência de que são alvo diariamente Por Tatiana Iwata e Fernanda Giacomassi

Imagine um adolescente de classe média alta, mais gentil e educado do que o esperado, para quem você dá aula particular e costuma ter conversas variadas e agradáveis. Certo dia, esse jovem, contando de uma “balada” de final de semana, relata, entre risos, que uma das grandes diversões de fim de noite dele e de seus amigos, é bater com o tapetinho enrolado do carro nas travestis que fazem ponto na rua do Jockey, em São Paulo. A agressão gratuita vinda de alguém que nunca antes havia apoiado ou demonstrado comportamento violento chocou a então professora Valéria Melki Busin, sendo essa uma de suas motivações para estudar no doutorado a respeito das agressões por que passam as travestis. Busin fez uma pesquisa qualitativa na qual investigou de que forma a violência “marca a experiência cotidiana das travestis”. Ela constatou que a estigmatização e a violência, nas mais diversas modalidades, 50 | psico.usp

são desencadeadas a partir do momento em que ocorre a ruptura com as convenções sociais de gênero. Essa ruptura se dá não necessariamente quando a pessoa começa a se “montar” de ‘mulher’ (o que, em alguns casos, aconteceu tardiamente), mas desde o ponto em que o indivíduo se percebe e ou é percebido por alguém (familiar ou não) como “afeminado”, o que ocorre já na infância. Busin verificou que em todos os casos estudados “a expressão do feminino se deu inicialmente por meio de brincadeiras (usar toalha na cabeça para parecer cabelo comprido ou coque, ou na cintura, forjando saia), coocorrendo quase sempre a experiência de algum tipo de interdição”. Por meio de entrevistas semiestruturadas, a pesquisadora recolheu e registrou as vivências de oito pessoas que se consideram ou se consideraram em algum momento da vida como sendo travestis. A análise dessas experiências e das en-


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trevistas se deu, sobretudo, com base no construcionismo social, campo teórico-metodológico que busca demonstrar o caráter da condição social de nosso mundo. Sob essa perspectiva, mesmo realidades tidas como biológicas — a sexualidade e o gênero, por exemplo — são, na verdade, construções sociais, cujo desenvolvimento pode ser percebido no decorrer da história. Busin explica que essa abordagem começa a ser mais aplicada nos estudos da sexualidade em meados de 1990, mas que se inicia com trabalhos realizados a partir da década de 70, principalmente por John Gagnon e William Simon, que ‘inauguram’ a vertente norte-americana do contrucionismo social, tradicionalmente alemão. Segundo a pesquisadora, aqueles autores “trabalham com uma linguagem teatral — uso de conceitos como ‘cena’, ‘cenário’, ‘script’ — para falar das situações que acontecem socialmente” . A “cena”, em especial, foi bastante explorada na pesquisa. Para além de uma entrevista mais convencional, quando no decorrer da conversa situações de violência vinham à tona de maneira importante, sempre que possível (contanto que houvesse a aceitação da colaboradora e a devida adequação do espaço), Busin procurava solicitar que a participante revivesse o ocorrido “como se ela estivesse de novo naquele lugar, naquele momento, com aquelas pessoas, passando de novo por aquela situação”. Segundo a pesquisadora, o colocar-se novamente na cena contribui para que “a memória venha de forma menos censurada”. Ela continua: “é mais possível que a gente acesse os sentimentos, pensamentos, lembranças quando criamos condições pra que elas revivam”. Tanto as cenas como as histórias de vida das travestis que colaboraram com a pesquisa revelam que se identificar com um gênero (no caso o “feminino”) diferente do tido como apropriado ao seu órgão sexual (o “masculino”) e sofrer violência por conta disso andam de mãos dadas na sociedade brasileira. Assim, ao mesmo tempo em que existe um encantamento pela realização de um 52 | psico.usp

forte desejo — expressar-se física e psicologicamente com atributos tidos como femininos, na medida em que se veem dessa forma — há também um grande temor pelos riscos que se corre por essa expressão. Riscos que muitas vezes se concretizam. Enquanto maquiagem, silicone, salto, hormônio e demais acessórios e adereços são utilizados para a travesti se montar e se mostrar, a violência contra elas também se “traveste”, mas, nesse caso, passando desapercebidamente. Evasão escolar, prostituição imposta, bullying, precarização do atendimento à saúde, abuso policial... esses são alguns dos disfarces da violência construída contra elas. A ROUPA QUE NÃO SERVE O sentimento de inadequação está bastante presente na vida das travestis. Isso porque, de acordo com a tese de Busin, desde o início da socialização elas vivem uma contradição: a forma “correta” ou esperada de se comportarem ― os scripts culturais de gênero e sexo ―, que vão sendo assimilados em suas interações pessoais, não condizem com o sentimento de serem “femininas”. A pesquisadora explica que, desse modo, as travestis vivem a “experiência permanente e cotidiana de serem diferentes, mas um diferente não desejado socialmente: a diferença que exclui e inferioriza”. Esse estado permanente de “inferioridade moral”, no qual a pessoa fica posicionada à margem da sociedade, é considerado como violência simbólica. Valéria esclarece que esse tipo de violência nem chega a ser considerada como tal, porque é um tipo de coerção invisível na qual a pessoa que a sofre, ao reconhecer a autoridade de quem a exerce, acaba indireta e inconscientemente consentindo com a própria violência. Por sermos criados desde crianças em uma sociedade que marginaliza, estigmatiza e agride as travestis, é como se houvesse uma “autorização” para agir dessa forma, ocasionando uma aceitação geral dos agressores, dos agre-


didos e dos espectadores da situação. A violência simbólica fica clara, por exemplo, nos relatos em que as entrevistadas mostram um esforço para se adequarem às normas: “Me botaram na cabeça isso, que era ruim. Era ruim e eu não queria, tipo: ‘Eu vou crescer, namorar uma menina’” [fala de uma das entrevistadas ao relatar a sua atração por meninos, ainda criança]. Mas, ao mesmo tempo em que há tentativas de cumprir as condutas preestabelecidas, como, por exemplo, não deixar o cabelo crescer, muitos relatos mostram também modos de escape desse roteiro e resistência às interdições: “Ele [o pai] chegou a me ver com o cobertor amarrado na cintura e com o cinto dele [...]. Ele pendurou o cinto atrás da porta do quarto dele, que era um local que eu não alcançava [...]. Aí eu lembro que eu fui conseguindo outros artifícios: a gente pega a toalha da mesa, o lençol... a gente inventa alguma outra coisa”. MAQUIADA DE PROSTITUIÇÃO A violência simbólica fica evidente também no relato posterior, em que se observa uma espécie de predeterminação sócio-profissional da condição de prostituta, unicamente por ser travesti. “Eu conheci as travestis e eu achei que travesti tinha que ir pra esquina [fazer ponto de prostituição], porque só lá que tinha travesti [...]. Eu via travesti, mas eu via travesti na boate ou via travesti descendo a [rua] Augusta, mais nada. Eu não via travesti em outros lugares”. Além de simbólico, o frequente exercício da prostituição pelas travestis muitas vezes se caracteriza como um outro tipo de violência: a econômica. Segundo Busin, seria esse o caso, por exemplo, “quando as pessoas são obrigadas a exercer a prostituição porque não conseguem entrar no mercado formal de trabalho”. Ela ainda informa que “Os números da ANTRA [Associação Nacional de Travestis e Transexuais] demonstram que cerca de 90% das travestis estão na prostituição e a maioria delas não gosta disso, não escolheu como profissão.

UNIFORMIZADA DE EVASÃO ESCOLAR A escolha profissional fica ainda mais restrita em função da generalizada baixa escolaridade das travestis. O alto índice de evasão escolar se dá tanto pela estigmatização quanto por outros fatores socioeconômicos relacionados a essa população. Isso é conhecido como interseccionalidade, termo que compreende as diferentes formas de interações entre as minorias e as estruturas de poder. Ao serem consideradas pelos colegas e demais pessoas da escola como “afeminadas”, o bullying pode se tornar frequente sob várias formas: desde agressões verbais (“viado”, “bicha” etc.), segregação, proibição do uso do banheiro feminino, até abuso sexual e ataques físicos. Muitas das entrevistadas relataram que eram constantemente ofendidas nas escola, o que as levou a desistir dos estudos. Como ilustração dessa violência, há um marcante episódio experienciado por uma das participantes da pesquisa. Ao retornar das férias para ingressar no segundo ano do Ensino Médio, por estar supostamente muito afeminada “devido à ingestão de hormônios e ao uso de roupas assumidamente femininas”, ela, juntamente com mais duas amigas na mesma situação de modificação corporal, foi apedrejada pelos colegas nas imediações da escola. “E aí na escola a gente teve a chuva de pedras portuguesas na calçada. Deram uma chuva de pedras em nós três. [Na volta das férias escolares, eu já] estava megafeminina [...]. Aí uma disse pra outra: ‘Não vamos mais. A gente vai morrer’”. ETIQUETADA COM O NOME MASCULINO Apesar de todas as dificuldades, algumas travestis que abandonaram os estudos quando crianças ou adolescentes estão retornando à escola atualmente, sobretudo aquelas ligadas de algum modo a organizações que lutam pela conquista de seus direitos, cujos membros costumam apoiar a psico.usp | 53


volta ao ensino formal. Entretanto, os obstáculos permanecem. Dentre eles, ser identificada pelo nome de registro (masculino), que para muitas é uma exposição humilhante. Uma das participantes relata que, mesmo após seus amigos do Movimento LGBTIQQ terem sugerido à escola que se dirigissem a ela por seu nome social (feminino), era recorrente que durante a chamada usassem o seu nome de registro (masculino). “Fui para a aula. Começou a chamada, aí chamou o nome de registro, não tinha nada de nome social. ‘E agora? Respondo? O que eu falo? Ganho falta?’. Aquilo... eu senti um calor de baixo para cima, subindo. Eu simplesmente abaixei a cabeça, o olho encheu de lágrima e eu ergui o braço e disse ‘Presente’”. Além da desistência do ensino formal, a pesquisadora cita outras consequências por não se conseguir mudar o nome nos documentos oficiais, como “deixar de receber cuidados médicos, ter dificuldades de conseguir emprego ou, ainda, não poder locar um imóvel para sua moradia”. Contudo, dentre as colaboradoras da pesquisa, houve uma que se posicionou de maneira bastante divergente das outras, em relação a essa questão do nome. Busin afirma que, para a referida entrevistada, poder viver a ambiguidade a que é exposta por se ter um corpo ‘feminino’ e um nome oficial ‘masculino’ “é justamente onde reside o encanto e a ousadia de ser travesti; é somente assim que a fantasia se realiza”. A pesquisadora prossegue concordando com a entrevistada, de que a saída seria o acolhimento social da pluralidade: “A solução proposta [por ela] parece ser justa: ser aceita e ser tratada dignamente em sua diferença, e que a diferença seja simplesmente vivida como diversidade”. BOMBADA PELO ATIVISMO Se, por um lado, atuar na militância contribui, em geral, para a conscientização e união das travestis e população LGBTIQQ, por outro, o Movimento não 54 | psico.usp

está imune aos preconceitos próprios à sociedade à qual pertence. O doutorado de Busin mostra exatamente isso, já que mesmo entre os grupos representados em favor da diversidade de gênero e de orientação sexual (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, queer etc.) as travestis são marginalizadas. Uma das colaboradoras da pesquisa, a exemplo, relata que se sente pressionada no Movimento a abandonar o termo ‘travesti’, que seria sujo, e adotar o termo ‘transexual’, mais higienizado. “Eu estou sofrendo violência [dentro da militância LGBTIQQ], por exemplo, porque eu sou travesti. Porque eu não assumo a transexualidade. Porque eu tenho que usar o termo pessoa trans”. Tanto entre as entrevistadas, que já participaram de alguma organização dessa natureza, quanto em sua própria experiência como ativista, Busin informa que são frequentes as situações e relatos em que se percebe a discriminação dentro do próprio movimento. Como isso é possível? Segundo a pesquisadora, todos, inclusive os ativistas, fomos socializados em um mesmo contexto sociocultural, o que implica algum grau de adesão a certos valores. Ela explica que internalizamos os preconceitos e que alguns deles são descontruídos com menos resistência, mas que outros relutantemente persistem, “porque eles, de alguma forma, mantêm uma linha entre aquelas pessoas que são valorizadas e têm mais poder e aquelas que são desvalorizadas”. Por isso, a pesquisadora afirma que, “às vezes, se agarrar ao preconceito é se agarrar a algum tipo de poder e se diferenciar, vamos dizer assim, daquelas pessoas que na sociedade não valem nada”. No caso das travestis, a pesquisadora diz que não é incomum que elas sejam vistas dentro do movimento como escandalosas e mal-educadas, sendo colocadas em segundo plano. Ela ainda pontua: “Muito embora elas tenham sido usadas por muito tempo por vários grupos para obter verba que vinha principalmente do enfrentamento à aids”.


Busin, no entanto, ressalta também que as travestis não estão passivas diante da situação. “O que está acontecendo de uma forma muito recente, mas muito consistente, é que as próprias travestis estão se organizando”. Para exemplificar, a pesquisadora relembra o protesto organizado pela Frente Paulista de Travestis e Transexuais contra a discriminação por parte da organização da Parada do orgulho LGBT de São Paulo, em 2012. ROUPA “SUJA” SE LAVA EM CASA Discorrendo sobre as violências com as quais as travestis do grupo se deparam diariamente em suas relações pessoais, a pesquisadora aponta a violência familiar como uma das primeiras e mais simbólicas experiências deste tipo. O afeto, muitas vezes, dava lugar ao temor, pois a violência era justificada pelo afastamento indevido da sexualidade masculina, vista como “obrigatória” pela família. “O pai de Roberta, além de desferir-lhe um sonoro tapa na cara, também gritou ‘Na minha casa não tem isso! Na minha casa eu tenho filho homem!’”, conta Busin. Até mesmo nos casos em que a proteção familiar é mais forte que a violência, como no caso de Cynthia, que disse sempre ter sido protegida por ter uma família grande com muitos irmãos, o preconceito ocorre velado. Cobrada todos os dias por estar se tornando “muito feminina”, ela decidiu sair de casa. Esta “aceitação com ressalvas”, muito comum em diversas relações familiares, ainda constitui uma forma de opressão, pois mesmo se sentindo mulher, Cynthia era impedida de se vestir como mulher, de ser livremente mulher. O que mais se destaca neste ponto é a diferença entre a aceitação da sexualidade e a aceitação de gênero. Muitas famílias dos relatos aceitaram mais facilmente que o filho poderia ser homosse-

xual, porém, no momento em que este começava a se travestir, o preconceito se estampava claramente através de humilhações, expulsões e exclusões. Sharon relata, por exemplo, que ao passar a se vestir de mulher, então com doze anos, foi obrigada a morar em uma casinha no fundo do quintal dos pais, para ela, uma humilhante “casinha de cachorro”. NUA E CRUA O relato das oito participantes da pesquisa mostra que todas se sentiam femininas e desde muito cedo realizavam transformações que diferiam do sexo que lhes havia sido designado. Infelizmente, quanto mais elas se expressavam mais apareciam as desaprovações sociais, os títulos pejorativos, a violência. Descobriam, então, que adiar a mudança era sinônimo de segurança e se sentiam culpadas por cada ato de violência que sofriam. “As opções delas eram libertar-se – expressar-se abertamente de forma feminina –, correndo risco de morte, ou morrer como travestis para se libertar das violências”, explica a pesquisadora. A construção e reconstrução de suas identidades pessoais é complicada e dolorosa, porém recompensadora. A representatividade e a recusa da opressão conseguem, pouco a pouco, romper os laços da desigualdade social e da violência. Esse processo é uma relação de poder e, onde há poder, sempre haverá resistência. Desta maneira, Busin nos afirma que “a reação e a resistência à violência de gênero têm permitido às pessoas que não se conformam aos scripts de sexo e gênero, e aos cenários culturais de sua socialização, deixar para as próximas gerações o legado de novas produções discursivas que amplificam a liberdade, criam outras formas de existência, renovando e ampliando a diversidade”. psico.usp | 55


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Elas querem voZ) Seguindo a força dos movimentos sociais e feministas na contemporaneidade, pesquisadores do IPUSP realizam projetos que procuram entender o feminino, o feminismo e os porquês da desigualdade e da violência de gênero em pleno século XXI Por Aryanna Oliveira, Sofia Mendes e Anátale Garcia Colaboração de Tatiana Iwata

No começo do século XX, a psicanalista francesa Marie Bonaparte ouviu de Sigmund Freud uma pergunta que até hoje ressoa na cabeça de muita gente: o que querem as mulheres? O pai da psicanálise não respondeu ao questionamento, mas muito do seu trabalho se deu na tentativa de solucionar satisfatoriamente essa pergunta. A resposta pode parecer simples, afinal, a maior luta do feminismo, movimento que empodera cada vez mais mulheres, é a de igualdade – ou melhor, equidade – de gênero. Mas, se olharmos para a perspectiva histórica dessa desigualdade e analisarmos os dados atuais da violência contra a mulher, é possível perceber que a questão é muito mais complicada do que parece e está longe de um final feliz. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil tinha, em 2013, uma taxa de 4,8 homicídios por cada 100 mil mulheres, a quinta maior do mundo. Quando se trata de mulheres negras, há ainda um agravante: os homicídios cometidos contra elas aumentaram 54% nos últimos dez anos. Ou seja, no país há uma combinação de sexismo com racismo. psico.usp | 57


Carolina Sasse

O FEMINISMO E SEUS AVANÇOS Ainda que hoje as lutas dos movimentos sociais sejam mais notórias e com uma adesão muito maior, as mulheres estão longe – muito longe – de se sentirem ao menos confiantes na mudança do panorama brasileiro. A própria história do movimento feminista, que ganhou força e popularidade apenas nas últimas décadas, é uma prova disso. Costuma-se atribuir sua origem à Revolução Industrial ou à Revolução Francesa, com as mulheres lutando mais ativamente, seja por elas mesmas, seja ao lado dos homens; assumindo postos de trabalho, em duplas ou triplas jornadas; abandonando os serviços domésticos, que eram deveres exclusivamente femininos. Porém, o feminismo só se fortaleceu e ganhou ares de luta efetiva, anos mais adiante – uma data importante é o ano de 1848, por ocasião da convenção dos direitos da mulher em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Ou ainda mais recentemente, na década de 60, quando, incorporando as raízes históricas da desigualdade, com a publi58 | psico.usp

cação de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, as feministas conseguiram firmar-se como movimento amparado em bases teóricas. Na obra, Beauvoir apresenta a hierarquização sexual como um constructo social e não mais com o olhar biológico de desmerecimento e inferioridade que se via em estudos mais datados de diversas áreas. Ser mulher passou a ser não só uma bandeira de igualdade, mas uma condição de dar luz e voz a quem até então só viveu nas sombras. Diante desse panorama, aumentaram os projetos e estudos sobre a mulher, particularmente sobre a desigualdade e a violência que elas sofrem ainda hoje. Muitas campanhas surgiram, mesmo que modestamente. Os estudiosos, pesquisadores e professores do IPUSP fortalecem a luta pela causa da mulher, com pesquisas em número cada vez maior. O PAPEL DA MULHER NA HISTÓRIA Se mudarmos a questão inicial, “O que quer uma mulher”, para “O que é a mulher e qual seu papel?”, ainda assim não encontraremos uma resposta efetiva. O tal


“papel feminino” difere, a depender do contexto sócio-histórico, porque o momento, o lugar e as “personagens” se alteram e, com isso, se transformam as concepções que se têm acerca da mulher. Em entrevista à psico.usp, Belinda Mandelbaum, Profa. Dra. da área de Psicologia Social do IPUSP, aponta que as definições de gênero podem ser relativas porque “as categorias mulher e homem são construídas socialmente”. Por isso, de acordo com ela, “o que cada um é ou representa vai variar de acordo com a época, com elementos da religião ou da cultura, ou seja, com o modo como cada sociedade entende esses papéis”. Na cultura ocidental, durante muito tempo, a visão de mulher podia muito frequentemente se esgotar na tríade casa/marido/filhos, como se o “ser mãe”, cuidar da família, lavar, passar, cozinhar e ceder ao prazer do homem fossem atribuições da natureza. Para Mandelbaum, a construção do papel social feminino muitas vezes ancorava-se na ideia de que “nasci mulher, logo essa é minha função”. No entanto, uma considerável mudança ocorreu durante o século XX, com a industrialização e as guerras. Com a ida dos homens para os campos de batalha, “as mulheres passaram a ser requisitadas nas indústrias, na produção, em tudo que se fazia necessário quanto à manutenção dos artefatos de guerra e da própria sociedade”. O ideal que se tinha até então sobre a mulher como a dona do lar, enquanto o marido deveria ser o provedor da família, sofre uma transformação, já que ela própria passa a prover as necessidades da casa. A PSICANÁLISE E AS MULHERES Na psicanálise freudiana, o feminino é geralmente definido como um ser de falta. A partir das formulações de Freud, então, temos a mulher como aquela que não tem o falo, como o ser incompleto. De acordo com essa conceituação, tida hoje por muitas frentes como machista e ultrapassada, a mulher apresentaria a necessidade de

se unir a um homem que a protegeria de seu “desamparo”, e sua satisfação estaria completa com a vinda de filhos, especialmente se em seu ventre fossem gerados descendentes do sexo masculino. Conversando com representantes do Coletivo Feminista do IPUSP, foi possível perceber que algumas das futuras profissionais da psicologia veem em Freud um discurso falocêntrico que continua sendo obstinadamente repassado, ainda que hoje muitas de suas conceituações sejam consideradas machistas e gerem desconforto entre muitos alunos, sejam eles mulheres ou homens. Para Bárbara Dias, uma das representantes do coletivo e aluna do IP, “existe um anacronismo quando se fala de Freud, porque se entende sua teoria como uma verdade absoluta”. Em sua opinião, “o discurso que foi tão importante na época dele, ainda que seja importante para a psicologia, hoje é antiquado”. Isso, entretanto, não significa prescindir da importância do autor. O que se busca salientar é que a evolução da psicanálise exige uma contestação e superação dos problemas de gênero que surgiram em suas teorizações. Denise Harumi, outra representante do Coletivo Feminista do IPUSP, cita as teorias de desenvolvimento do ser humano para explicar o machismo incutido nas teorias psicanalíticas ainda tão estudadas hoje. “Primeiramente se reconhece a família tradicional como a perfeita, aquela em que os indivíduos têm o melhor desenvolvimento psíquico. O que foge ao padrão é um desvio de personalidade, déficit de inteligência, por exemplo”. A eleição desse modelo familiar implica a delimitação bem definida dos papéis de homem e de mulher. Com isso, o padrão estipulado para o gênero feminino acaba por se resumir à ideia de que “mulher é a que cuida, é a mãe”, como conta Harumi. Mas a aluna se mostra otimista diante dos novos estudos, porque “vêm surgindo outras escolas mais recentes que não são apenas menos machistas como também psico.usp | 59


mais preocupadas com uma crítica social, outras áreas que não só a clínica”. E o fato de vários pensadores atuais, conquanto tenham bebido da fonte freudiana, desenvolverem outras teorias e reforçarem uma visão de sociedade menos convencional, complementa esse avanço. É preciso, contudo, tomar cuidado para não reduzirmos a psicanálise ao machismo, como se o profissional psicanalista fosse um desmerecedor das mulheres. Lucas Bulamah, pesquisador do IPUSP sobre o tema, reconhece que o discurso freudiano foi muito opressor em alguns aspectos. Mas vê como preocupante essa limitação reducionista que muitas vezes é feita sobre a psicanálise, visto que as teorias contemporâneas sobre gênero e sexualidade, através de seus representantes mais proeminentes, trabalham em diálogo com a psicanálise. É necessário, portanto, modalizar o nosso ponto de vista e considerar tanto os progressos quando o conservadorismo da psicanálise. Muitos estudos de Freud, embora inovadores em sua época, hoje são um tanto quanto obsoletos e não podem ser considerados como uma verdade universal. Porém, como explica o psicólogo e pesquisador, “temos que reconhecer que o discurso freudiano foi para muito além dele próprio, ao mesmo tempo em que esteve sujeito a restrições conceituais e linguísticas do tempo dele”. Mandelbaum vê no discurso freudiano, para além da opressão e subjugação feminina, um início da possibilidade de dar voz às mulheres. Segundo ela, indiretamente, Freud estimulou que a mulher ousasse falar, externar, seus sentimentos, angústias e desejos. Isso porque, quando Freud e Breuer começaram a atender as mulheres ditas histéricas, como técnica terapêutica eles “permitiram que a memória dos traumas reprimidos pudesse ser colocada para fora”, argumenta a professora. Para ela, o tratamento psicanalítico pode ser visto “como uma prática subjetivante que tem o objetivo de que 60 | psico.usp

cada um de nós se aproprie de si mesmo, ampliando essa consciência de si”. Assim, uma das consequências desta abordagem é a sua contribuição para a conquista da voz pelas mulheres. A chamada “clínica da histeria”, tão importante para o desenvolvimento da psicanálise, foi o resultado de um trabalho entre Freud e Breuer. Anna O., paciente de Breuer, diagnosticada como uma jovem histérica (e tida como estudo marco da psicanálise), esgotava-se com a cansativa obrigação de cuidar do pai, doente terminal. Em razão de seu esgotamento profundo, desenvolveu graves sintomas físicos. Breuer pôde atenuar o sofrimento da paciente – através do fluxo da palavra liberta dos confins da repressão – ao mesmo tempo que descobria a “cura pela palavra” propiciada pelas sessões. A CONDIÇÃO SOCIAL DAS MULHERES Exemplos como o de Anna O. nos mostram que os estudos psicanalíticos de Freud (e Breuer) trouxeram contribuições aos movimentos de libertação da mulher. Elas puderam encontrar material de contestação sobre as funções sociais femininas, o que lhes permitiu transformar o seu sofrimento, antes silenciado, em “grito”. Apesar disso, essa constatação da nova condição feminina não eliminou suas responsabilidades como mãe, como esposa ou como cuidadora do lar. Por isso, ainda nos dias de hoje, é bastante comum ver mulheres em jornadas duplas ou até triplas de trabalho. Mesmo que tenham conquistado espaço no mercado de trabalho, muitas delas ainda são obrigadas a manter as antigas responsabilidades de cuidar da família. Sobre este tema, Mandelbaum aponta que não há igualdade, pois a mulher “é extremamente demandada em termos do cuidado do lar”, além de ser “a ponte entre as políticas públicas nos campos da saúde, da educação, da assistência social e da família”. Este é ainda um aspecto predominante na sociedade brasileira:


A importância da

coletividade

Atentos às demandas dos estudantes do IPUSP, alunos do Instituto tiveram a iniciativa de criar, organizar e gerir coletivos feminista e LGBT.

COLETIVO FEMINISTA AURORA FURTADO O Coletivo Feminista da Psico surgiu das rodas de conversa sobre gênero e de alguns episódios acadêmicos que motivaram a formação de um espaço de mobilização feminina. Apesar de seu viés político, o coletivo é hoje um espaço também para compartilhar vivências e de acolhimento: muitas atividades são realizadas pelo coletivo, como as praticadas em eventos no IPUSP. Hoje, o coletivo se reúne nos espaços abertos e conta com a participação de aproximadamente 50 meninas, da graduação e da pós, e convidam a todas que quiserem participar desse compartir.

Facebook : Coletivo Feminista da Psico

COLETIVO LGBT DA PSICO O Coletivo LGBT da Psico foi criado como um espaço para que os alunos do IPUSP discutissem e refletissem sobre questões relacionadas ao gênero e à sexualidade. O Objetivo é acolher a população LGBT*, que, além de se sentir fragilizada na sociedade, muitas vezes é invisibilizada na própria Psicologia. Outro intuito do coletivo é destacar a responsabilidade formativa dos futuros psicólogos que, no decorrer de sua carreira, provavelmente atenderão a membros da comunidade LGBT*, além de fortaleccer a representatividade da comunidade para proporcionar modos de atuação do coletivo no espaço institucional.

Facebook: Coletivo LGBT da Psico USP

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Segundo a professora Belinda Mandelbaum, a psicanálise freudiana teria sido um incentivo direto ao poder de voz das mulheres. Através do tratamento hipnótico, nos tratamentos em consultório, descobriu-se a cura pela palavra

Islaine Maciel

A professora do IPUSP Belinda Mandelbaum

embora as novas relações e divisões de trabalho tenham se ampliado, em casa não é unanimidade que o homem tenha os mesmos deveres que as mulheres, e é evidente que a desigualdade de gênero se inicia no próprio lar. BRIGA DE MARIDO E MULHER O espaço que as mulheres conquistaram desde o começo da luta feminista não nos permite ainda afirmar que seus objetivos foram conquistados e a igualdade alcançada. Além do fato de as mulheres ainda serem incumbidas das tarefas domésticas, o lar também pode ser o próprio palco da repressão, traduzida em agressão física, psicológica, sexual ou até mesmo em morte. Segundo o “Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil”, de Julio Jacobo Waiselfisz, quase um terço desses homicídios acontece em ambientes domésticos. Mas, durante muito tempo, esse tipo de violência foi tratado como algo que não deveria vir a público, seguindo o famoso dito popular “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Entretanto, da mesma forma que existem situações de aparente apatia, que privilegiam quem pratica a violência, há também aquelas que são propulsoras de mudanças. Como é o caso de Maria da Penha. Depois de ser abusada em casa durante 23 anos de casamento, Maria sofreu duas tentativas de assassinato, incluindo uma série de tiros que a deixou paraplégica. Ela decidiu então recorrer à Justiça. Mesmo

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assim, a denúncia dos acontecimentos não foi suficiente para uma punição imediata ao marido, que só foi preso após 19 anos de julgamento. Essa demora para a deliberação da sentença definitiva contra o agressor motivou a lei específica, promulgada em 2006 que leva seu nome e busca dar respaldo e proteção às mulheres. COMO PRESAS PARA O AGRESSOR Nem todos os casos de violência contra a mulher, porém, são como os de Maria da Penha, que saiu de casa em busca de seus direitos. É comum, por exemplo, que mulheres aparentemente não se revoltem contra o seu agressor e/ou não busquem suporte legal. Muitas ainda encaram a situação da violência doméstica como algo natural, porque lhes foi incutida a ideia de que, sendo mulher, apanhar e sofrer abusos é algo possível e, se a violência se concretiza, possivelmente, a culpa é da vítima. Pensando nisso e visando a compreender a dificuldade que as mulheres em situação de violência têm de abandonarem essas relações tóxicas, Raquel Younes, mestre pelo IPUSP, desenvolveu a pesquisa “A permanente vitimização de mulheres: compreensão psicodinâmica a partir de um estudo de caso”. A pesquisadora explica que sempre se questionou sobre o motivo de inúmeras mulheres em situação de violência não procurarem ajuda e não conseguirem sair dessa condição. Para ela, é perigoso considerar a mulher apenas como vítima ou culpada, porque as relações humanas transcendem essa simples ategorização. “Quando se trata de um assunto tão complexo, se adotamos uma posição maniqueísta (de um lado a vítima e de outro o agressor) estamos abordando a questão de forma simplista e superficial”, afirma.


A linha de pesquisa de Younes segue a teoria da agressividade de Winnicott e conclui que a impossibilidade de algumas mulheres abandonarem relações violentas está relacionada à não-integração da agressividade, que, para Winnicott, funciona como o motor da vida. Sem poderem integrar esse aspecto fundamental da existência humana em si mesmas, elas o projetam no outro – em geral, seu agressor –, pois essa é a única maneira de elas se sentirem inteiras e vivas. Dessa forma, elas não abandonam essas relações violentas porque não conseguem, e nã oporque não querem. Para a também pesquisadora do IP Marta Quaglia Cerruti, é preciso tomar cuidado com uma ideia latente de vitimização da mulher. Isso porque uma polarização entre sexos, que ela chama de lógica binária de opostos, entre vítima fraca e agressor forte, “acaba por perpetuar aquilo que visa combater: a visão da mulher como um ser fraco e vulnerável, que necessita de proteção”, alega. Em sua dissertação de mestrado, intitulada “Bate-se em uma mulher: impasses da vitimização”, a análise sobre a violência sofrida pelas mulheres considera as vicissitudes que perpassam a vida das vítimas. Essa investigação encontra seu ponto crítico num aspecto pouco questionado. “Tal dificuldade pode ser fruto de um projeto político pautado na generalização de um traço por demais abrangente: a opressão”, salienta Cerruti. Dessa forma, o que é proposto pela pesquisadora é que, ao mesmo tempo em que se busca entender a problemática da opressão, é necessário analisar a sua complexidade caso a caso, especialmente no que diz respeito à vida da mulher, que não pode ser reduzida a um indivíduo oprimido e incapaz. Assim, é preciso fazer um trabalho intenso e elaborado para que as violentadas consigam sair definitivamente dessa condição de vítima. Em resumo, Younes e Cerruti concordam que a ideia simplista que se tem sobre a opressão faz com que a mu-

Violência no relacionamento íntimo estudo sobre crimes silenciados

A violência íntima entre casais – em inglês Intimate Partner Violence (IPV) – é um problema global que afeta milhões de mulheres todos os dias. Para estudar a sua complexa teia de fatores e condições de possibilidade, a Universidade de São Paulo firmou parceria com a Universidade de Florença (UNIFI) para realizar a pesquisa “Violência no relacionamento íntimo: estudo comparativo entre jovens universitários de São Paulo e Florença”. O projeto é coordenado pela Profa. Dra. Belinda Mandelbaum, que é também coordenadora do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade, e por Elisa Guidi, estudante de doutorado da Universidade de Florença, Itália. Posteriormente, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade do Quebéc em Montreal (UQÀM) também foi incluída no projeto. Através de entrevistas por e-mail e pessoalmente, o projeto busca conversar com jovens universitários, mulheres e homens, sobre situações experienciadas diariamente por mulheres que, em diversas situações, foram afligidas pela violência. Essa é uma tentativa de que se forme uma rede de apoio às vítimas, que muitas vezes não conseguem sequer reconhecer como violência os maus tratos que sofrem – quiçá denunciar seus agressores. A coleta de dados foi concluída e a pesquisa está em fase de análise. As pesquisadoras acreditam que, conhecendo o perfil e as reações dos espectadores, será possível atuar com medidas de intervenção – isto é: quando e onde reagir, o que é de fato agressão, como ajudar, em que momento procurar as autoridades etc. O envolvimento de pessoas oriundas de três diferentes países é relevante para o estudo, pois pode verificar se questões culturais estão arraigadas ao perfil da violência de cada região. psico.usp | 63


O feminicídio no Brasil Levantamento feito pela FLASCO-Brasil (2015) mostra que o caminho para a igualdade de gênero ainda até longe de ser alcançado EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE HOMICÍDIOS DE MULHERES ENTRE 1980 E 2013 1980 1983 1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007 2010 2013 64 | psico.usp

Mulheres

0

1000

2000

3000

4000

5000


VARIAÇÃO DA TAXA DE HOMICÍDIOS POR COR DA VÍTIMA (POR 100 MIL) Brancas

Mulheres

Negras

TAXAS DE ATENDIMENTO POR VIOLÊNCIA NO SUS (POR 10 MIL)

3000

2000 11,8%

66%

2500

1500

Mulheres

2000

1500

1000

33,9%

1000

500

-9,8

11,8% 500

Homens

+54,2

0

0

2013

2003

2003

2013

MULHERES VÍTIMAS POR IDADE

Em todas as faixas etárias, até os 59 anos, os atendimentos femininos superam os masculinos.

Crianças Adolescentes Jovens Adultas Idosas Mulheres 0

ATENDIMENTO POR VIOLÊNCIA NO SUS - REGIÕES DO PAÍS (2014) (POR MULHERES)

10000 20000 30000 40000 50000 60000

MEIOS UTILIZADOS EM HOMICÍDIOS (2013) 25,3 %

8%

Outros

%

11,8

Norte 9.903

Cortante/penetrante

6,1%

Nordeste 24.551

Objeto contundente

48,8%

Arma de fogo Estrangulamento/sufucação 11,8%

8,0%

Centro-Oeste 11.084

LOCAIS DA AGRESSÃO (2013)

Sudeste 71.338

48,8%

15, 31, 7% 2%

6,1%

Ignorado (0,8%) Outros

25,2% 27,1%

Sul 30.764

Via pública Domicílio Estabelecimento de Saúde

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A Rede Não Cala, criada por professoras e pesquisadoras da USP, tem como objetivo dar um basta às situações de violência de gênero que acontecem dentro dos campi da universidade

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lher se estabeleça na condição de vítima, como se isso, e nada mais, a norteasse na vida, o que contribui para a manutenção da posição de objeto a que a mulher comumente fica subjugada. Falando sobre essa condição, Cerruti nos alerta para o fato de que mesmo que a mulher consiga se separar do marido violento, é grande o risco de ela procurar outro homem com as mesmas características. Por isso, a pesquisadora defende que “a mulher se aproprie de sua história e escolhas, entendendo de que maneira se viu implicada numa relação assim para, dessa maneira, construir ferramentas que possam vir a prevenir danos futuros”. Para tanto, é preciso um acompanhamento para que ela seja capaz de sair desse ciclo vicioso e prejudicial. “Ela precisa ser concebida como um ser humano com uma história, com sentimentos, com recursos internos e com possibilidades, sendo uma delas não mais estar perto de quem a agride”, finaliza Younes.

UM NÃO CALA À VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA UNIVERSIDADE Nos últimos anos, a USP ganhou destaque nas páginas dos grandes jornais não só pelo mais concorrido dos vestibulares do país, mas também por um assunto tabu nas grandes universidades: os estupros em festas de alunos. Ainda que não haja evidências de que casos de estupro e assédio aconteçam com frequência, grande parte dos que ocorrem não chega ao conhecimento público, seja pela falta de denúncia, seja por acobertamento das autoridades. Isto mudou em 2014, quando três vítimas de violência sexual denunciaram à Assembleia Legislativa de São Paulo os abusos sofridos em festas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Elas, que também são alunas, foram ouvidas pela Comissão da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação e das Questões Sociais (CDH). Os abusos ocorreram em 2011, Reprodução/Facebook


Reprodução Não Cala

à “ineficiência dos mecanismos de apuem festa nomeada de ração e punição dos casos e à falta de “Carecas do Bosque”. proteção às vítimas”, segundo consta no Em 2015, novamenmanifesto da rede, composta por mais te a FMUSP ganhou de 200 mulheres de 23 unidades da USP. destaque nos jornais, A Rede Não Cala é independente, aumas dessa vez o únitônoma e autossustentada, não tem vínco abusador teria sido um culo de dependência nem mesmo com o aluno que, ao final, foi apeEscritório USP Mulheres, vinculado ao nas suspenso por “infrações disciHeForShe, programa da ONU de combaplinares” e impedido de colar grau pela te à violência de gênero, ainda que sua universidade, mas não foi julgado pelos temática e ideias tenham pontos em coseus crimes pela Justiça. mum. A Rede prevê ações de educação e Outros casos ainda foram noticiados, sensibilização sobre a situação de violêncomo o de uma aluna da Faculdade de cia sexual e de gênero na USP; organizar Economia e Administração (FEA), violenformas de acotada na Praça do Relógio da USP A construção de um ambiente lhimento e incentivo à criadurante período democrático, que não ção de uma rede de recesso, além tolere violências e abusos de solidariedade perseguições com bilhetes sexuais e de gênero, é também de; além de uma anônimos que responsabilidade de todos os efetiva contribuição para resultaram em membros da Universidade o aperfeiçoatentativas de mento dos reestupro a uma gulamentos institucionais, que dealuna da Faculdade de Filosofia Letras e vem responsabilizar agressores Ciências Humanas (FFLCH). e eliminar a violência do espaço público e Diante das tentativas de silenciar a coletivo que é a universidade. violência praticada contra as mulheres Em seu manifesto, a Rede reconhece dentro da universidade, alguns coletique essa não é uma tarefa fácil, mas que vos feministas e grupos de amparo às exige uma ação urgente: “a construção vítimas foram criados, com o intuito de de um ambiente democrático, que não coibir a falta de punição aos agressores tolere violências e abusos sexuais e de e erradicar a violência. gênero, é também responsabilidade de Dentre as ações e campanhas que vêm todos os membros da Universidade: dosurgindo, em abril de 2015 professoras centes, funcionários e estudantes”. da Faculdade de Medicina da USP – palSegundo Adriana Marcondes Machaco de episódios de assédio e estupros do, Profa. Dra. do Departamento de – criaram uma rede que acabou sendo Psicologia da Aprendizagem, do Deabraçada por professoras e pesquisasenvolvimento e da Personalidade do doras dos demais cursos da USP e que IPUSP e membro da Rede, para o ano agora conta com o apoio de funcionárias de 2016, a Rede Não Cala “desenvole alunas: a Rede de Professoras e Pesquiverá o acolhimento de maneira mais sadoras pelo fim da violência sexual e de articulada, manterá o trabalho e conversa gênero na USP – Rede Não Cala USP. com alunos e alunas no sentido da A iniciativa representa um modo de conscientização sobre a produção dizer que as mulheres não se calam, não da violência sexual e de gênero no coconsentem e não aceitam a violência tidiano da universidade e apliará ações sexual e de gênero presente nos camde enfrentamento à violência sexual pi. Seu funcionamento é uma resposta psico.usp | 67


É muito comum ver a imagem ao lado nas redes sociais. A imagem de uma mulher que arregaça as mangas e mostra seu forte bíceps – como um símbolo de sua força – é muitas vezes atrelada ao feminismo, mas você sabe o que ela significa? Ela foi criada pelo designer gráfico J. Howard Miller, em 1943, como uma propaganda para a fábrica Westinghouse Electric Corporation. O intuito era incentivar as mulheres estadunidenses a trabalharem nas fábricas durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, os homens eram convocados para a guerra e, portanto, a mão-de-obra masculina era escassa. O título, “We Can Do It!” (em tradução livre, “Nós Podemos Fazer Isso!”), faz referência a essa capacidade feminina de executar tarefas antes tidas como exclusivamente masculinas. A imagem, inspirada na modelo e operária Geraldine Hoff Doyle, tornou-se símbolo da mulher trabalhadora. Originalmente, porém, não havia nenhuma ligação com o verdadeiro empoderamento feminino. O objetivo da propaganda era estritamente econômico, visando, apenas, a convocação das mulheres para a indústria. Mas, com a propagação dos ideais feministas nos EUA da década de 1980, a divulgação da imagem se converteu em símbolo do feminismo. Com isso, iniciou-se a desconstrução da ideia de “sexo frágil” associada ao gênero feminino, o que permitiu uma maior independência socioeconômica da mulher, sendo este um pilar essencial para a igualdade entre o s

gêneros. Hoje é comum ver artistas nacionais e internacionais, assim como mulheres comuns, reproduzirem a imagem em uma tentativa de mostrar ao mundo que as mulheres podem, sim, fazer tudo o que quiserem a imagem em uma tentativa de mostrar ao mundo que as mulheres podem, sim, fazer tudo o que quiserem.

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e de gênero e ao assédio sexual”. Para viabilizar esse intenso trabalho, a professora conta que são realizados encontros mensais em que são discutidos os encaminhamentos das ações e as situações que chegam as conhecimento da Rede. Para a Rede Não Cala, o reconhecimento da violência e a discussão aberta sobre os problemas de gênero na universidade são o “início da construção de uma realidade acadêmica que respeite plenamente os direitos humanos”. AS DIFICULDADES DO “GRITO” Na sociedade, considerar a dificuldade que a mulher agredida tem em denunciar os abusos sofridos ainda se faz importante. Mesmo assim, continuam sendo comuns julgamentos como “Mas por que não denuncia?”, “Como ainda vive com o agressor?”, “Por que não procura ajuda?”. Essa “escolha” por manter o segredo e não recorrer a nenhuma instância legal não deve ser entendida como omissão, porque este comportamento está relacionado a diversas variantes psicológicas. A vergonha do corpo lesado, o medo da exposição ou mesmo a insegurança diante da possibilidade de julgamento e absolvição do agressor, seguida por uma possível retaliação praticada contra a delatora, são questões que rondam constantemente a mente da vítima. Em 2014, uma pesquisa realizada e divulgada pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – apresentou dados que denunciam uma realidade desesperançosa. Segundo os dados levantados, 26% dos entrevistados consideram que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Outro dado mostra que para 58,5% dos brasileiros, “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. E 65,1% dos entrevistados concordam parcial ou totalmente que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. A pesquisa mostra que a ideia de que “a culpa é da vítima” ou que “ela provocou” perpassa o imaginário da sociedade psico.usp | 69


brasileira como um todo. Essas opiniões também mostram o quanto a violência é vista de forma unilateral, sendo a vítima, antes de tudo, a motivadora da situação. Para Luciana Ferreira Chagas, pesquisadora do tema pelo IPUSP, a ideia de escolha pelo segredo em casos de violência doméstica pode atuar como “um mecanismo inconsciente, em que o sujeito repete uma cena traumática como tentativa de dar conta de um conteúdo sem significação, algo sem inscrição”, o que ela detalha em sua dissertação de mestrado intitulada “Afinal, segredo de quê? Uma leitura metapsicológica da função do segredo na violência sexual e o atendimento em instituição de saúde”. A psicóloga verificou clinicamente que há consequências psicológicas negativas nos casos de vítimas de abusos e agressões que guardam segredo. Por meio de uma investigação teórica sobre a violência e sobre o conceito de segredo encontrado nos estudos de Freud e Lacan, Chagas notou que, no artigo “As neuropsicoses de defesa”, Freud explica que o segredo é resultado de uma experiência recalcada, um evento tão traumático que se esconde no inconsciente e pode retornar como sintomas corporais e sofrimento psíquico. A pesquisadora relata que quem quer que passe por um acontecimento traumático pode gozar de boa saúde mental até a “ocorrência de incompatibilidade em sua vida representativa”. Isso significa que quando o ego se confronta com uma experiência, uma representação ou um sentimento que suscita nele um afeto aflitivo, o sujeito “decide” esquecê-lo. Essa defesa se dá, segundo Chagas, porque o eu “não confia em sua capacidade de resolver a contradição entre a representação incompatível e seu eu, por meio da atividade do pensamento”. Chagas, então, conclui que o segredo não seja propriamente o fato de a vítima man70 | psico.usp

ter oculta “a experiência da violência sexual, vivida ou fantasiada”. O segredo seria “a própria fantasia”, seria “o segredo do ‘ser mulher’”, que diz respeito à “sua própria fantasia fundamental, ao seu modo singular de gozo”. Consequentemente, isso significa que a escolha pelo silêncio não é uma forma de ignorar o ocorrido ou a vergonha do sofrido, ou mesmo uma forma de compactuar com o crime. A escolha pelo silêncio é “um modo de auto-preservação, uma forma de manter intacta uma fantasia íntima que se tem e que, brutalmente, foi destruída”, ao ser convertida em ato. E a possibilidade de escolher dar voz a esse segredo oculto só é possível com o tempo, aliado ao apoio e a um processo pessoal, com o intuito de se aprender a lidar com o que se sofreu e seguir em frente. A BOCA NO TROMBONE As dificuldades e os dilemas enfrentados pela vítima de um trauma como a violência de gênero trazem consequências para a constituição de sua subjetividade. O medo, da exposição ou de represálias, continua representando o maior inimigo de uma ação de denúncia mais efetiva. A compreensível inibição de tantas mulheres que apresentam a dificuldade em lidar com os abusos e violências sofridao se deve à necessidade do desenvolvimento de mais ações de amparo voltadas a elas, vítimas de um sistemático desrespeito. Por isso, há urgência em se educar culturalmente as mulheres para que elas tomem conhecimento dos benefícios sociais promovidos pela ação generalizada de trazer a público as agressões e os abusos praticados contra o seu gênero. O problema se dá no que se relaciona às ações implementadas no cotidiano que acabam por nada fazer para combater e punir o machismo diário. Com isso, é natural que elas, acostumadas a esse modus operandi da sociedade


brasileira, sintam vergonha do assédio, dos abusos e da violência. Para complementar a situação, essa vergonha, na maioria das vezes, ainda vem acompanhada de um dilacerante sentimento de culpa. Mas por que culpa, se o mal não foi praticado por elas? Pensando nisso, iniciativas na internet surgiram recentemente para combater esse sentimento, dando espaço para as mulheres retratarem suas histórias e verem que, afinal, elas não estão sozinhas. As hashtags #meuprimeiroassedio, #meuamigosecreto e #elesemprefala foram iniciativas feministas que despertaram enorme interesse nas redes sociais, trazendo à tona atitudes de machismo, encoberto ou explícito, e histórias de violência de gênero. A primeira hashtag foi uma iniciativa da ONG Think Olga, que dava espaço para as mulheres retratarem suas primeiras experiências de abuso sexual. Não faltaram histórias chocantes. Muitos dos relatos, inclusive, estavam sendo compartilhados pela primeira vez, o que significa que aquelas pessoas estavam verbalizando sérios traumas, guardados por toda uma vida. A outra tag, #meuamigosecreto, faz uma paródia da famosa brincadeira de fim de ano. Com essa ferramenta, meninas contaram histórias reais de machismo velado ou escancarado, opressão e contradição, das quais elas tinham conhecimento ou foram vítimas. Essas histórias suscitaram a identificação de mulheres das mais diferentes personalidades e um apoio coletivo e mútuo. Por último, a campanha virtual veiculada por #elesemprefala buscou denunciar, também nas redes sociais, uma série de desculpas contadas por homens que tentam disfarçar suas ati-

tudes machistas. A ideia de satirizar as justificativas masculinas teve início no dia primeiro de abril, “Dia da Mentira”, o que somou à crítica um tom de humor. Em todo caso, esse tipo de campanha, mesmo que abra um canal de diálogo feminino, não traz proteção real às mulheres. Por razões como esta, a luta pela implementação de uma lei específica que defenda as mulheres é tão indispensável. Com este intuito, em março de 2015 foi sancionada a lei n. 13.104, conhecida como Lei do Feminicídio, que tipifica o crime violento contra a mulher como hediondo e, se acompanhado por especificidades que indicam a vulnerabilidade da vítima (tais como gravidez, menoridade, presença de filhos etc.), agrava a pena do agressor. A USP acompanhou no ano passado a lamentável morte de uma de suas funcionárias, Geiza Aparecida Medeiros Martinez, de 44 anos, assassinada brutalmente pelo companheiro e abandonada numa estrada próxima à universidade. Geiza estava grávida e tornou-se mais uma vítima do feminicídio. Se considerado o cenário brasileiro, as leis são ainda parcas e a justiça falha para os abusadores. Campanhas na internet e nas universidades são algumas das poucas armas das mulheres para impor – muito mais do que a equidade dos gêneros – um basta na violência e no estado de mudez que as impede de gritar. Para elas, conquistar – com força e efetividade – a voz que sussurrou nos tempos de Freud é o primeiro passo para mudar em definitivo essa situação que, de t ã o irracional, reduz a humanidade à animalização. psico.usp | 71


A rede da resistência

Projeto de psicologia cultural busca promover diálogos entre universidade e comunidade indígena para preservar a história de suas lideranças femininas Por Carolina Sasse Colaboração de Aryanna Oliveira

Procurando dar atenção às vulnerabilidades psicossociais enfrentadas pelos povos indígenas, o Instituto de Psicologia vem desenvolvendo um trabalho com o povo Guarani desde o início de 2012. Uma das comunidades atendidas pelo projeto é a Tekoa Pyau, cujas terras se situam no bairro do Jaraguá – entre a rodovia dos Bandeirantes e a rodovia Anhanguera – e cuja obtenção de reconhecimento pelo Governo Federal foi recente. Trata-se do projeto da Rede de Atenção à Pessoa Indígena (Rede Indígena), uma atividade de extensão do IPUSP que, apoiando-se nas reflexões da psicologia cultural, busca o diálogo interétnico e a promoção de benefícios e aprendizado, tanto para a comunidade indígena quanto para os estudantes universitários. 72 | psico.usp


Bárbara Borba, participante do projeto supervisionado pelo Prof. Dr. Danilo Guimarães, relatou à revista psico.usp a experiência que teve na comunidade do Jaraguá. Ela conta que a Rede chegou à aldeia com a proposta de trabalhar “em conjunto e em paralelo”. A aplicação desse conceito, confirmada pela liderança Guarani da Baixada Santista, Mariano Fernando, prevê uma parceria com a comunidade num diálogo que contemple as diferenças culturais. Na prática, coube aos alunos do projeto organizarem rodas de conversas com jovens e mulheres da comunidade para ouvir as demandas dos Guarani e construir com eles, em coautoria, os caminhos que a universidade poderia viabilizar para resgatar a história das lideranças Guarani, a fim de inspirar e, principalmente, incentivar os mais jovens. Nos encontros com as mulheres, as alunas fizeram uma abordagem especial. Elas trouxeram como primeiro objeto de interlocução um material baseado no livro do Conselho de Mulheres Indígenas (CONAMI), intitulado “Natiseño – A trajetória, Luta e Conquistas das Mulheres Indígenas”. Os Guarani têm uma presença marcante de lideranças femininas; a própria aldeia do Jaraguá tem como exemplo a Cacique Jandira Augusta Venício (Keretchu), falecida em 2012. Nesta primeira roda de conversa, os estudantes observaram que muitas das mulheres, desde anciãs até muito jovens, já conheciam as lideranças citadas no livro; muitas eram familiares dessas lideranças e grande parte das mulheres tinha papéis de liderança na sua comunidade. Já na segunda reunião, foi proposta a exposição da história da lei Maria da Penha, o que abriu a possibilidade de debate sobre algumas questões indígenas. Bárbara percebeu em sua experiência que a violência contra a mulher é presente como um problema que afeta a sociedade brasileira no geral e que também pode afetar os povos indígenas – embora essa não seja uma prática comum nas comunidades, pois não há estímulo à violência contra as

mulheres na aldeia. As mulheres são alvo do machismo proveniente da sociedade historicamente patriarcal que aportou no Brasil com a chegada dos portugueses. Contudo, o contexto interétnico, mais acentuadamente quando a comunidade se localiza num espaço urbano, oferece dificuldades específicas a esta população, por serem mulheres e indígenas. Se o gênero feminino, no geral, possui questões que lhes são próprias, às mulheres indígenas acrescenta-se a carga de séculos de história nos quais profundos estereótipos e preconceitos aliam-se à condição de vulnerabilidade social que o estado brasileiro e setores da população legam aos povos originários. As mulheres Guarani da Terra Indígena Jaraguá transitam dentro e fora da Tekoa (habitação Guarani) e enfrentam problemas sobretudo no exterior de suas comunidades. Por motivos como esse se faz relevante a aplicação de dispositivos como a lei Maria da Penha também para as mulheres indígenas. No entanto, é muito importante ressaltar que as mulheres Guarani recebem uma formação no interior da cultura, transmitida de geração em geração para o desenvolvimento de suas estratégias de autodefesa. Bárbara observou que as Guarani têm, assim como a Lei Maria da Penha na sociedade não indígena, dispositivos para lidar com conflitos que podem acontecer dentro do seu próprio universo cultural. Para Pedro Luís Macena, educador Guarani, há a coexistência de valores tradicionais, relacionados à estrutura familiar e à divisão do trabalho entre os gêneros, aliado a um entendimento de que as mulheres têm um forte protagonismo na comunidade. Ele sublinha que é um valor da cultura Guarani o respeito à mulher e que, até mesmo por uma perspectiva ligada à espiritualidade, são importantes. Segundo ele, as mulheres “têm mais força espiritual que os homens”, são a base de sustentação da cultura Guarani e, portanto, seriam merecedoras de grande respeito, sendo em primeira e última instância, consideradas sagradas em sua cosmovisão. psico.usp | 73


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Poder x estereotipos : a saga da heroina no mundo machista i

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Por Fernanda Giacomassi

É perceptível que a representação da mulher em comerciais, livros, filmes, novelas e até em desenhos sofre constantemente a influência de esteriótipos patriarcais que, infelizmente, permanecem na sociedade. Até mesmo em produções que visam, num primeiro momento, a desconstrução destes preconceitos sociais, é possível observar que certas ideias do que é “ser” mulher e “feminina” para a sociedade permanecem. Percebendo esta constante abordagem estereotipada da mulher no universo artístico, a aluna de Educomunicação Natália Rosa Sierpinski decidiu estudar, em Iniciação Científica pelo IPUSP, a representação feminina em um outro tipo de arte: as histórias em quadrinhos. Seu projeto buscou analisar como a construção do feminino foi feita ao longo da história da arte, qual a posição ocupada pela mulher na sociedade capitalista e, também, como isto é representado nas heroínas das histórias. Como estudo de caso foi analisada “A Saga da Fênix Negra”, que integra a narrativa em quadrinhos dos X-Men, 74 | psico.usp

grupo de super-heróis que apresentam, desde sua criação, um viés de combate ao preconceito e defesa das minorias, aspecto que influenciou as escolhas da graduanda. A intenção de Sierpinski era entender como foi feita a representação da mulher dentro de um grupo que se propõe a desconstruir preconceitos pelo fato de serem mutantes, considerados, portanto, “diferentes” na sociedade criada por Stan Lee e Jack Kirby. A personagem feminina escolhida pela pesquisadora foi Jean Grey, também conhecida como Garota Marvel ou Fênix Negra, a depender do livro. Nesta história em quadrinhos, Jean Grey foi a primeira personagem feminina criada e recebeu diversas problematizações acerca de sua personalidade e de seus poderes. Com base nisso, a pesquisa mostra que a elaboração das histórias em quadrinhos sempre esteve atrelada à sociedade e ao período político a que elas estão sujeitas. De forma semelhante, estes fatores são os responsáveis pela criação do imaginário


Reprodução

popular sobre o “ser humano perfeito”, representado nas histórias pelo herói. Embora ao longo do tempo este personagem tenha perdido as características físicas padronizadas do cinema americano (homem, branco, forte, inteligente), o mercado editorial ainda não consegue encaixar a figura da mulher no papel central do enredo, de forma igualitária ao homem e livre de preconceitos de gênero. A pesquisadora cita como exemplo a roupa de “combate” das heroínas que é sempre hipersexualizada, com decotes e saias justas que nada influenciam em seus poderes. Os motivos desta construção estão, principalmente, na noção de que o público dessas histórias era majoritariamente masculino, e que a exposição da figura feminina como ícone sexual atraía mais leitores. Essa característica, juntamente com a percepção de que a heroína dificilmente é a personagem principal na série, é reflexo do machismo institucionalizado, que coloca o protagonismo feminino em um patamar inferior ao masculino. Embora alguns destes problemas de gênero persistam, hoje, diferentemente das décadas de 70/80, quando esta HQ foi criada, a representação feminina já possui grandes avanços. Além disso, o público feminino cresceu significantemente ao longo dos anos. Jean Grey, foco da pesquisa de Sierpinski, ganhou destaque por representar uma quebra na construção feminina dos autores. Com grandes poderes e extremamente inteligente, a personagem atraía principalmen-

te leitoras meninas, que se identificavam e se sentiam representadas pela heroína. Porém, ao longo da série, a Garota Marvel ficou mais conhecida por integrar um triângulo amoroso com Wolverine (Logan) e Ciclope (Scott) do que realmente por suas batalhas. Afora isso, como explica a pesquisadora, toda a trama da saga trabalha em cima de como Jean foi corrompida pelo poder e não conseguiu lidar com isso, o que a levou ao suicídio. A pesquisa ainda aponta que só existiam dois finais possíveis para Jean Grey na série: ou desistir de seus poderes e viver com Ciclope, ou a morte – que foi a opção escolhida pelos autores. “Temos um final que leva Jean à morte e outro que a leva a ser dona de casa. Não temos um final em que ela consiga manter e controlar seus poderes [...]. Isso simboliza o quanto a mulher tem que se podar, se controlar, se reprimir, pensar e repensar suas ações em todos os ambientes”, argumenta a pesquisadora. Em todo caso, no que se refere ao desenvolvimento da personagem feminina, “A Saga da Fênix Negra” conseguiu ser superior a outras histórias. No entanto, a pesquisa evidencia que o retrocesso relacionado ao gênero persiste, pelo fato de a personalidade da personagem não ser complexa a ponto de permitir sua completude em si mesma, em vez de dividi-la entre amor/poder, bondade/ maldade, pudor/sexualidade. Afinal, as mulheres são muitas, podem muito e precisam de uma representação feminina condizente com essa profundidade. psico.usp | 75


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Os meus, os seus, os nossos. Com as novas estruturas familiares, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de fornecer as mesmas garantias legais e visibilidade que as famílias tradicionais já têm como direito Por Aryanna Oliveira Colaboração de Tatiana Iwata

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Em 2011, era comum ver colado nos vidros ou nas traseiras de automóveis, por todo o país, os adesivos da “família feliz”. A “febre” durou um bom tempo, havendo quem adorasse a ideia e quem a achasse “brega” ou mesmo perigosa, porque os membros da família ficavam demarcados onde quer que se fosse. De qualquer modo, era muito simples montar sua família: bastava comprar os adesivos em papelarias, bancas de jornal ou ambulantes. E assim a “família feliz” podia rapidamente ser constituída por apenas alguns trocados. Todavia, para além dos modismos nossos de cada dia, havia incutido no singelo adesivo o desejo de representatividade: “essa é a minha família”. Ela podia ser do jeito que fosse. Casais com filhos e animais de estimação; grandes famílias com tios e avós; casais sem filhos; mãe (ou pai) com filho(s); casais homossexuais; pessoas sozinhas com animais de estimação; muitas pessoas sem laço sanguíneo; entre outras tantas formações. Cada carro ilustrava uma, que podia ser parecida ou totalmente diferente da família representada no carro ao lado. Os primeiros adesivos vendidos vinham com uma estrutura padrão: pai, mãe, alguns filhos e animais variados. Mas, algumas famílias “fugiam à regra” e, então, os “membros” puderam ser comprados individualmente, para que cada um montasse a sua família completa, sem padronizações, sem modelos, porque é assim que as coisas são. No adesivo destacado da tira, são infinitas as possibilidades de combinações e todas atendem pelo mesmo título: família. Foram essas famílias não-tradicionais que se sentiram especialmente desrespeitadas quando, em setembro do ano passado, a Comissão Especial do Estatuto da Família, da Câmara dos Deputados, divulgou o resultado – bastante polêmico – de uma votação acerca da definição conceitual de “família”. Segundo o parecer do projeto de lei que cria o Estatuto, do deputado Diego Garcia, a família bra78 | psico.usp

sileira é reconhecida como a “entidade familiar formada a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos”. O resultado foi visto como excludente, hipócrita e claramente preconceituoso, uma vez que suprimia da definição do que é família toda e qualquer formação que fuja ao tradicional modelo brasileiro (casal heterossexual com filhos). Como resposta à decisão da Comissão, surgiram manifestos e campanhas com o intuito de representar a diversidade que, hoje, está excluída da definição votada. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss, por exemplo, lançou neste ano a campanha #todasasfamilias, em que pessoas comuns podiam encaminhar suas próprias definições para o conceito, até então definido no dicionário como “1. grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (especialmente o pai, a mãe e os filhos); 2. grupo de pessoas com ancestralidade comum; 3. pessoas ligadas por casamento, filiação ou adoção”. A campanha, elaborada pelo Houaiss e pela agência NBS, em parceria com a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio e a Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas, contou com a participação ativa dos internautas, que puderam acessar um site especialmente criado para o projeto e responder à frase “para mim, família é...”. Foi possível, também, assistir aos vídeos de outras pessoas que apresentavam suas concepções. A partir da somatória das sugestões, o Houaiss decidiu criar um significado diferenciado, mais democrático e abrangente, a ser colocado nas próximas edições do dicionário.


DO INSTITUÍDO AO CONSTRUÍDO

No dicionário Houaiss, “família” deixa de ser “Grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (especificamente o pai, a mãe e os filhos)” e passa a ser definida como “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”

Segundo o Estatuto da Família, a entidade familiar é formada a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos” psico.usp | 79


Apesar de campanhas como essa não terem o poder de alterar as definições feitas pela Câmera dos Deputados, elas são valiosas porque procuram dar significância às transformações sofridas pela sociedade, não só atualizando um verbete, mas possibilitando o debate através do privilégio da mobilização popular. A redefinição do conceito contempla os milhões de brasileiros excluídos, principalmente os casais homoafetivos, na votação de uma comissão que propõe a defesa da família, mas acaba apenas por supervalorizar uma imagem unilateralmente patriarcalista e retrógrada, conquanto cada vez menos majoritária. ERA UMA VEZ A FAMÍLIA TRADICIONAL BRASILEIRA… No chamado “modelo tradicional” ou “modelo nuclear” de estrutura familiar há, obrigatoriamente, a presença de um casal composto por um genitor feminino e um masculino, que originariam filhos, estabelecendo-se, assim, a família. Em tempos remotos, esse padrão não se quebraria, a não ser pela morte de um dos cônjuges. Só muito recentemente, a história de separação – motivada por infelicidade, desgaste do relacionamento ou fim do amor – pôde interferir nessa estrutura. Em psicanálise, essa visão tradicional encontra consonância em Freud, que permitiu a criação de um modelo de identificação sexual triangular. Na teoria do psicanalista, desenvolveu-se o conceito de família à luz do Complexo de Édipo, pelo viés da realidade psíquica. Aqui, destaca-se a figura do pai (do sexo masculino) como o alicerce da família, detentor do poder do triângulo e dirigente das leis familiares. Para a Profa. Dra. Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família (LEFAM), do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, algumas formulações de Freud estão fundamentadas em uma concepção de família datada 80 | psico.usp

historicamente. “O modelo de família nuclear é composto por um par heterossexual que forma com os filhos uma unidade doméstica independente. Nela, o pai é a figura do provedor, o representante da família perante a sociedade, e a mulher é aquela mais próxima aos filhos e aos cuidados da casa”, explica. Ainda segundo Mandelbaum, “esse modelo tradicional burguês do final do século XIX e início do XX é muitas vezes tomado na psicanálise de maneira acrítica”, o que, de certa forma, explica como nos dias de hoje parte da sociedade não legitima qualquer estrutura que fuja a esse modelo, mesmo que haja uma pluralidade de novos agrupamentos. No Censo 2010, realizado pelo IBGE, pôde-se perceber a dimensão das mudanças sofridas nas estruturas familiares. Os dados apontam, por exemplo, um decréscimo de famílias constituídas por um casal heterossexual com filhos (54,9%) em relação ao Censo anterior, que registrava 63,6% de casos como esses. O aumento (e a facilidade) do divórcio e das separações fez prosperar a diversidade de arranjos menos tradicionais, multiplicando o número de crianças que vivem em famílias monoparentais ou pluriparentais – como aquelas que moram com os avós, por exemplo. Além das famílias reconstituídas, formações que se dão após a morte de um dos pais muitas vezes acarretam a reorganização de novos núcleos: pais com filhos de um antigo casamento (ou filhos de apenas um dos cônjuges) vivendo juntos sob o mesmo teto. Até então, não havia ainda uma análise mais aprofundada dessas extensões familiares que juntas representam os outros 45,1% das famílias analisadas no Censo, comprovando que o novo retrato da família brasileira é cada vez menos evidente e mais plural. O Censo 2010 também constatou que existem mais de 60 mil casais homoafetivos no Brasil. Nunca antes haviam sido contabilizados os casais formados por pessoas do mesmo sexo que residem sob o mesmo teto


como cônjuges. A região sudeste do país representa mais da metade desse número, com 32.202 casais registrados. As relações de casais homoafetivos ganharam maior estabilidade com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, em 2011, passou a reconhecer a união estável para casais do mesmo sexo. Somado a isso, houve, em 2013, a determinação feita pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que obriga os cartórios do país a realizar a união civil entre eles. Desde então, o número de casamentos só aumentou. Segundo dados mais recentes do IBGE, em 2014 foram registrados 4.854 casamentos entre cônjuges do mesmo sexo, representando um aumento de 31,2% em relação ao ano de 2013, primeiro ano em que essa pesquisa foi feita com casais homoafetivos. Com as relações efetivadas, ampliou-se o anseio desses casais pelo fortalecimento da relação e instituiu-se em muitos deles a vontade de “contar a sua história” para futuros filhos. Assim, a legalidade das relações possibilitou a construção da família homoparental, um caminho que, se outrora era utópico, hoje é possível – mesmo que ainda labiríntico e, por vezes, burocrático. De certa forma, essas novas lutas dos casais homossexuais pelo direito do estabelecimento de uma família, e a possibilidade real – após muitas conquistas judiciais – de compartilhar a vida juntos e com filhos, fizeram aumentar as pesquisas e estudos sobre as novas formas de ser família. Teóricos das ciências humanas e biológicas tem se desdobrado na compreensão das relações que se estabelecem nas famílias, sobretudo nas formadas por casais homossexuais

com filhos. Entre esses estudiosos estão pesquisadores e doutores do IPUSP, que apresentam uma rica contribuição tanto no campo da psicologia social e clínica como no da psicanálise. E, AFINAL, O QUE É A FAMÍLIA? Em artigo publicado para o Boletim da Psicologia, a pesquisadora Brunella Carla Rodriguez, analisou, em parceria com a Profa. Dra. Isabel Cristina Gomes, do Laboratório de Casal e Família: Clínica e Estudos Psicossociais do IPUSP, as novas formas de parentalidade, que se diferenciam da paternalidade e da maternidade, mais associada ao vínculo biológico. Segundo elas, a parentalidade está para além do modelo de família tradicional e biológica, “de configuração heterossexual, monogâmica, hierárquica e nuclear”. A fim de uma abrangência da família como totalidade, há que se considerar, como já se observou, os muitos arranjos monoparentais (por opção ou não), pluriparentais e homoparentais. Esses últimos, hoje, são alvos de grande parte dos preconceitos em relação às novas estruturas, assim como antigamente as famílias que se dividiam após a separação eram preteridas pela sociedade. A evidenciação, de tempos em tempos, dessa dificuldade em se aceitar o diferente estaria no fato de que há sempre um modelo tradicional instalado como norma no imaginário coletivo. Se, num passado não muito distante, era absurdo imaginar uma criança sendo criada sem o pai ou a mãe em casa – pois essa criança poderia apresentar defasagens em relação à completude da vida diante da ausência de um casal –, hoje, pensar uma criança educada por dois pais ou duas mães é, ainda, inaceitável para grande parte da população. A ideia é a mesma de antes: a criança seria prejudicada pela falta de um dos “papéis” desempenhados. Mas, nesses casos, há um agravante, porque o senso comum acredita que a criança poderia ser influenciada pela sexualidade dos pais. E isso muito psico.usp | 81


como andam as

famílias brasileiras? Censo 2010 aponta novos retratos para as famílias do país

• Elas ajudam no sustento de 62,7% dos lares. • Elas têm cada vez menos filhos: média de 1,9 por mulher. • Elas optam pela gravidez cada vez mais tarde: 26,8 anos de idade.

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• Eles estão cuidando mais dos filhos sozinhos: houve um aumento de 1,4% no arranjo monoparental masculino. • �������������������� Em arranjos biparentais, os homens ainda se comprometem menos com o trabalho doméstico do que as mulheres.


+ avós convivendo com os netos

queda da fecunDidade

Aumento da expectativa de vida

+

diversidade quanto aos tipos familiares

número de casados diminuiu -2,2%

+ FAMÍLIAS RECONSTITUÍDAS

+

FAMÍLIAS MONOPARENTAIS

número de Divórcios aumentou +1,4%

O Rio de Janeiro é o estado com mais separações do Brasil. Das 17,5% que viviam em união conjugal, 14,6% separaram-se oficialmente. 83 | psico.usp


tem a ver com o papel da criança nessa pequena sociedade que é a família. A ideia de infância surgiu apenas no século XVII, já em uma transição para a sociedade moderna. Antes vista apenas como um adulto em miniatura, a criança passou a ser vista como um indivíduo social, com quem os pais passam a exercer laços mais fortalecidos, responsabilizando-se por sua educação e futuro. Para Ana Laura Martinez, psicóloga, escritora e doutora em psicologia pela FFCLRP-USP, podemos pensar essa relação da criança com os pais recorrendo às ciências sociais. Segundo ela, “a antropologia designa que uma família é um agrupamento específico de pessoas, constituído por uma tríade formada pela mãe, pelo pai e, no mínimo, por um (a) filho (a). Ou seja, um homem e uma mulher sem filhos não é uma família, tratando-se, neste caso, simplesmente de um casal”, resume. Dessa forma, temos que uma família não existe sem uma prole – ou, invertendo a ordem dos valores e rememorando Lévi-Strauss, sem uma criança, uma família não existe. Todavia, essa criança nasce despreparada e, diferentemente do que ocorre no mundo animal, necessita de cuidado e criação dos genitores para sobreviver. “Na psicanálise, dizemos que o ser humano é um ser desamparado desde suas origens”, conta Martinez. E aqueles que forneceram o material genético criador desse fruto – a criança – contraem uma dívida que, na psicanálise, é chamada de dívida simbólica. “A dívida é a de que estas duas pessoas, que concederam seus materiais genéticos diferentes para a geração de um terceiro, diferente de ambos, serão responsáveis pelo longo trabalho de inserção deste ser no universo simbólico”, explica a psicóloga. Entretanto, nem sempre essa criança prossegue sua jornada ao lado daqueles de quem herdou seu material genético. Muitas vezes, por inúmeros motivos, essa criança é cria84 | psico.usp

da por outros pais, adotivos, que passam então a desempenhar a função do casal parental, que, entre outras coisas, deve “promover a inserção da cria humana que ele gerou no universo simbólico, sem o qual o homem não se funda enquanto sujeito. Observe o seguinte: antes da criança nascer, o mundo falante já estava estruturado, antes dela. E mais, esse mundo falante, no qual ela será inserida, tem um impacto sobre ela e sobre quem ela será, sem que ela tenha a menor noção disso”, elucida Martinez. A abordagem psicanalítica, atribuindo importância à família de origem e à capacidade de o ser humano vincular-se, passa a ganhar destaque. E, com as mudanças de concepção da criança e das funções do casal parental, surge a ideia de parentalidade. Segundo Rodriguez e Gomes, esse termo “destina-se à noção de vínculos de parentesco e processos biológicos decorrentes destes, sendo fruto da junção dos termos paternidade e maternidade”. A diferença é que a parentalidade não está relacionada ao modelo tradicional da “Família Doriana” – biológica e perfeita nos comerciais. O novo conceito “retira a ênfase do vínculo biológico e dos papéis sociais, enfatizando o processo de construção psíquica e vincularidade”, explicam. O vínculo pode naturalmente ser estabelecido em uma família homoparental – situação na qual um indivíduo homossexual (ou casal) assume a responsabilidade por uma criança. Essas famílias podem ser construídas a partir de um relacionamento heterossexual anterior, pelas tecnologias reprodutivas ou pela adoção. Apesar disso, grande parte do preconceito que sofrem se direciona à dúvida em relação à diferenciação sexual que inexiste numa família formada por pais de mesmo sexo. Quem vai ser a “mãe”? Quem vai ser o “pai”? “Essa composição familiar é marcada pela ausência de papéis fixos entre os membros; inexistência de hierarquias e pela circulação das lideranças no gru-


po; pela presença de múltiplas formas de composição familiar e, consequentemente, de formação dos laços afetivos e sociais, o que possibilita distintas referências de autoridade, tanto dentro do grupo como no mundo externo”, consideram Rodriguez e Gomes. Essa ideia foi comprovada pela psicóloga Ana Laura Martinez, que, em seu trabalho, pesquisou o psicodinamismo de famílias homoparentais femininas, pela visão da psicanálise, e verificou que as divisões de funções são estabelecidas caso a caso, de acordo com a personalidade de cada indivíduo que compõe o casal. Com um dos casais entrevistados ela percebeu que elas tinham jeitos naturalmente diferentes, nada era imposto. “Enquanto um dos membros sentia-se mais capaz de ‘maternar’, de aconchegar e acolher (mas é importante frisar aqui que esta capacidade não tinha correlação direta com o fato de ela ser mãe biológica ou não), a outra, por questões próprias a ela, acabava por assumir funções ditas mais masculinas, como Mamães de primeira trabalhar fora e trazer dinheiro para a viagem: Lidiane e casa”. Ou seja, em relação à divisão de Lorrany grávida funções parentais, os papéis “materno”

e “paterno” podem ser desempenhados por qualquer um dos membros do casal. Martinez localizou e convidou alguns casais homoafetivos femininos para participar da pesquisa psicanalítica realizada com atenção flutuante. “Trata-se do exercício de nos tornarmos cegos para podermos ver aquilo que, quando estamos repletos de desejo, não enxergamos”, explica a psicóloga, que com o uso do método pôde analisar as motivações e desejos da escolha pela maternidade. Com base nessa escuta analítica foi possível perceber o que a psicóloga chamou de “idiossincrasias entre o desejo inconsciente e os imperativos da necessidade”, que apontam muitos dos motivos pelos quais surge a vontade de ser mãe. “A necessidade imperiosa de ser mãe é aquilo que muitas mulheres dizem quando chegam aos trinta e cinco – “preciso ser mãe” –, sem se questionarem, verdadeiramente, se querem ser mães, sem têm condições internadas, desejo mesmo de serem mães. Precisar é uma coisa, querer é outra. Precisar é um imperativo categórico, que não perdoa, não questiona, não tolera a frustração, que não respeita os próprios limites.

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Gataria Photography


Su Florentino Photography

Uma família feliz: Lorrany e Lidiane Querer, desejar, são de outra ordem. com os trigêmeos Desejar é algo que emana do inconsciente como uma chama vital que nos impele para algo do qual não podemos fugir, sem deixarmos de sentir que, com isso, não estamos sendo nós mesmos”, explica a pesquisadora. Esse desejo de ser mãe, diferente de um “preciso ser”, sempre foi presente em Lorrany Figueiredo, mãe dos pequenos Benício, Samuel e Vicente. Casada com Lidiane Faria – há 6 anos por união estável e há 2 anos por união civil –, Lorrany contou em entrevista à psico.usp, que ser mãe era um sonho particular, mesmo antes de conhecer sua esposa. A idade ou qualquer outro motivo não tiveram influência sobre o desejo do exercício da maternidade. Por isso, depois de casadas e estabilizadas no trabalho e na vida, as duas começaram a planejar a formação do que ela chamou de “família completa”. “Minha esposa também desejava ser mãe, mas só eu tinha esse sonho de ge86 | psico.usp

rar as crianças, por isso tudo aconteceu como as duas esperavam”, conta Lorrany, enquanto se desdobra em cuidados com os trigêmeos de apenas 1 mês de vida. Este sonho sempre fora apoiado e compartilhado pelas famílias do casal. “Nossa família foi fundamental desde o início. E, se temos o apoio dela, não precisamos do apoio de mais ninguém. Apenas nossa família é o que importa e graças a Deus temos o apoio de todos”, comenta Lorrany. Retomando a pesquisa de Ana Laura Martinez, a pesquisadora conta que após as entrevistas psicanalíticas foi aplicado às entrevistadas o instrumento projetivo “Desenho de Famílias com Estórias”, com o objetivo de avaliar sua personalidade global. Pelos desenhos foi possível verificar alguns significados inconscientes do desejo de ser mãe, assim como projeções feitas a partir da família que se teve: normalmente um desejo – inconsciente – de suprir as ausências e traumas do que se viveu em família.


POR DETRÁS DA PARENTALIDADE, O MEDO DOS NOVOS PAIS Sempre existiu o mito, justaposto a uma concepção machista, de que quem cuida da casa e das crianças é a mulher. Supostamente, elas teriam um instinto natural: o famigerado instinto materno. Diante dessa polêmica dilemática, relacionada ao binarismo de gênero, Rodriguez, pesquisadora e psicóloga do IPUSP, dedicou-se desde o mestrado a estudar a representação parental exclusivamente em casais masculinos, justamente para tentar investigar os pressupostos de que o homem não estaria apto à criação e educação dos filhos. Rodriguez, hoje em pesquisa de doutorado pela USP, observou que existe a influência da qualidade da relação desses homens com suas famílias de origem nas relações conjugais e parentais vividas no núcleo familiar atual. “Questões internalizadas e preconceito afetam e influem a própria relação parental, além da relação conjugal, que se mostra cheia de entraves”, explicou a pesquisadora em entrevista à psico.usp. Essas observações são feitas com base na psicanálise vincular, que se diferencia da psicanálise clássica freudiana. Se essa última é intrapsíquica, com relações profundas do inconsciente, na vincular tudo é questão de vínculo. “Há um outro olhar, um foco relacional. Não dá, por exemplo, para pensar em um atendimento clínico, sem pensar em como esse indivíduo se relaciona, não só com o analista, mas também com o namorado, marido, tio... Como ele constrói esse laço, esse vínculo”, conta Rodriguez, que vê na psicanálise vincular um modo de entender e interpretar alguns dos medos apresentados pelos casais que entrevistou. “Na psicanálise vincular, o que ganha muita força é pensar nas influências que a gente sofre, inclusive por segredos, traumas, questões que, em grande parte, permanecem transgeracionalmente. São conteúdos tão pesados e não inteligíveis que eles ficam inconscientes”, evidencia

e o desafio da homoparentalidade A série norte-americana The Fosters, transmitida pela antiga ABC Family (hoje Freeform), estreou em 2013 e, desde então, tem sido sucesso de crítica e público. Isso porque a trama foge das convenções, especialmente por ser veiculada por um canal com público tradicionalmente familiar, e mostra a vida de uma família formada por duas mães – Stef e Lena, vividas por Teri Polo e Sherri Saum, respectivamente. Juntas, elas enfrentam muitas dificuldades propiciadas pelo desafio da parentalidade, criando um filho biológico, Brandon (David Lambert) – fruto do primeiro casamento de Stef com Mike (Danny Nucci) – e um casal de gêmeos latinos, Jesus (inicialmente vivido por Jake T. Austin) e Marianna (Cierra Ramirez). Se a casa já era pequena para tantas pessoas, fica ainda mais apertada com a chegada de Callie (Maia Mitchell), uma “adolescente problema”, e seu irmão Jude (Hayden Byerly). Recentemente, a série ganhou os noticiários de televisão quando Jude declarou-se apaixonado por seu amigo, Connor (Gavin MacIntosh). O tema da homossexulidade descoberta tão precocemente, aos 13 anos, foi tratado com muita delicadeza e emoção. The Fosters é o sinônimo perfeito dos novos rearranjos familiares que são tão discutidos na atualidade, não só pela estrutura de uma família homoparental, mas pela “família estendida” que se prolonga das adoções, formando todos uma grande e única família. Para além do núcleo principal, a série, produzida pela atriz e cantora Jennifer Lopez, discute ainda outros temas relevantes socialmente, como o racismo, a burocracia incutida nos processos de adoção e a dificuldade de ser um homem trans em casas de adoção.

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FOTOGRAFIA COMO DOCUMENTO DO DIA A DIA Uma empresa de fotografia exclusiva para o público LGBT. Essa é a proposta da Gataria Photography, formada pelo casal Rê Ferrer e Tata Barreto. A empresa, que tem apenas um ano de mercado, vem agradando o público com o trabalho diferenciado não só na proposta como também no planejamento e execução das sessões de fotos. Cada projeto é desenvolvido com exclusividade. “Nos reunimos e definimos juntos os momentos que vão ser registrados. Procuramos por um trabalho mais documental, então cada família nos ajuda a encontrar aquilo que será mais significante para eles”, explica Rê Ferrer. Fotos de aniversário? De casamento? Pode, sim! Porém, a proposta inicial das meninas era registrar principalmente os pequenos pedacinhos do dia a dia, que, embora muitas vezes passem despercebidos, seriam com alegria relembrados caso pudessem ser fotografados. “Eu sempre ia à feira com minha mãe aos sábados, quando era criança. Era uma rotina nossa e eu adoraria ter registros disso”, conta Rê. O retorno do público tem sido o mais positivo possível e, para elas, a identificação no cuidado de cada etapa é o diferencial para que as pessoas se vejam reconhecidas no trabalho. “Todos os clientes que temos atendido nos falam que se sentem mais representados por nós, que percebemos alguns detalhes importantes para eles que os outros não O amor no dia perceberiam”, explica Rê, com orgulho a dia: ensaios do trabalho desenvolvido. Ela acredita realizados que o fato de fazerem parte da mesma

pela Gataria

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comunidade que a dos clientes faz com que o trabalho seja mesmo diferente. “Fotografia é olhar e o olhar é cultural, por isso acabamos tendo um olhar parecido ao de nossos clientes e isso se reflete nas imagens”. No entanto, no trabalho das fotógrafas, a arte dá às mãos ao ativismo, já que a fotografia é usada como instrumento para dar visibilidade à causa LGBT. Por isso, em parceria com a ABRAFH (Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas), a Gataria vem desenvolvendo alguns projetos de cunho social, registrando movimentos contra a homofobia, festas de arrecadação de fundos, entre outros eventos. Para Tata, que também é fotojornalista, “a fotografia é um documento e sua função de retratar a realidade ainda é muito importante para o movimento dos direitos humanos do público LGBT”, explica. O trabalho da Gataria Photography é de encher os olhos porque transborda amor. É nítida a felicidade e a sensação de bem estar em cada pessoa fotografada. Quer conhecer? Visite a Gataria no Facebook ou visite sua página na internet. E apesar de o trabalho ter sido desenvolvido para o público LGBT, elas fotografam a todos, sem distinção. “Somos heterofriendly”, comunicam.


a psicóloga. Uma perda, um incesto, um sentimento não elaborado, coisas perdidas no passado ou em outra geração, tudo isso pode influenciar as escolhas e os entraves dos casais na adoção ou durante o exercício da parentalidade. A respeito dessa última questão, a psicóloga desenvolveu em sua pesquisa o termo “parentalidade reparatória”, que seria a tentativa de reparar as faltas que os pais sentiram enquanto filhos, por meio da atualização do exercício parental. “Eles querem criar uma reparação daquilo que não tiveram. Dessa forma, pensam: ‘se a criação de uma criança faz parte da minha responsabilidade, eu quero dar para esse ser humano o que eu não tive’”, explica. Rodriguez buscou para sua pesquisa casais de homens em união estável ou casados que tivessem adotado conjuntamente. Nos participantes da pesquisa, ela encontrou pretendentes para a adoção que aceitavam perfis excludentes de crianças, como, por exemplo, crianças com mais de 7 anos. A escolha foi feita para que nenhum dos pais tivesse vínculo biológico e, ao mesmo tempo, estivessem ambos com direitos igualitários diante dos filhos. Ainda que no discurso da maioria dos entrevistados esteja presente uma ideia de aceitação, de “estou bem comigo mesmo e me aceito como sou”, ela notou que o preconceito e a homofobia aparecem de modo inconsciente, por via de atos falhos. “E aí eu percebi essa questão de identificação com o excluído, o preterido, com o que está à margem da sociedade, que é o lugar em que eles se encontram ainda hoje”, observou a psicóloga. Outro ponto importante da pesquisa de Rodriguez foi a constatação de uma certa tentativa de padronização existente em casais homossexuais. Os homossexuais, que lutavam especialmente para ter o direito de desvincular-se das algemas da família, hoje estão cada vez mais interessados em se normatizar, principalmente através do direito ao casamento e

aos filhos. Mas isso, que em um primeiro momento parece ser uma manutenção de um certo status quo, é, segundo Rodriguez, um desejo de transmissão de valores e, mais especificamente, de pertencimento, de dar netos aos pais e ser, então, parte dessa família que pode tê-lo renegado por ser homossexual. “As famílias de origem acabam muitas vezes se aproximando dos filhos homossexuais por causa das crianças”, conta Rodriguez. Os medos dos pais homossexuais masculinos aparecem com maior clareza em relação ao receio diante do futuro incerto das crianças. Por isso, notou-se uma grande preocupação em perguntar diretamente a essas crianças se elas querem ser adotadas por pais homossexuais, já que, socialmente, elas provavelmente terão de lidar com essa aceitação. “Há um medo de que eles possam colocar as crianças em sofrimento, especialmente em relação à homofobia escolar”, relata Rodriguez. Para a psicóloga, os casais passam a buscar uma integração na normatização hetereossexual, nos cuidados e na apresentação dos papéis sociais. Um dos casais entrevistados pela pesquisadora encontrou na escola e na presença da empregada a manutenção do papel feminino para os filhos, pois acreditavam que a eles faltaria esse “cuidadinho de mãe, que pensa em mandar uma mudinha de roupa a mais”, por exemplo, comenta Rodriguez. Entretanto, a pesquisadora vê nessa atitude um medo de não suprir as funções parentais, medo este gerado pelo preconceito permanentemente sofrido por esses pais. Para a psicóloga, mesmo em famílias mais tradicionais, observa-se que muitas vezes a mãe é mais enérgica até por conta dessa questão histórica que vê na mulher a figura da educadora, da criadora. Mas é preciso esclarecer que essa característica não é inata, não é geneticamente atribuída aos gêneros. Em verdade, esse aspecto é sócio-culturamente desenvolvido e engendrado. “O quanto um homem não pode dar conta de cuidar de um bebê sem a presença feminina? Eles psico.usp | 89


e julgassem favoravelmente o pedido precisam entender que essa não é uma cade adoção, o que vem acontecendo, feracterística biológica”, aponta Rodriguez. lizmente, com cada vez mais frequência. Sendo assim, as crianças apenas preContudo, o entendimento dos pedidos cisam entender que existem gêneros é feito caso a caso e julgado juiz a juiz. diferentes e que as pessoas, da mesOu seja, ainda que o ECA (Estatuto da ma maneira, possuem características Criança e do Adolescente) estabeleça que diferentes. Essa informação já basta, qualquer pessoa, maior de vinte e um anos porque nenhuma criança participará soe dezesseis anos mais velha que o adotanmente de um núcleo familiar, então ela do, possa adotar, independentemente de perceberá o mundo e as pessoas à sua seu estado civil, não há unanimidade em volta e, com isso, formará sua identirelação aos pedidos de adoção por casais dade e suas próprias características aos homossexuais. A adoção por apenas um poucos. Todo esse processo, segundo dos pais não possibilitava as vantagens do Rodriguez, vem do contato com o oudireito à dupla filiação. tro, com a família para além do casal Em meados de 2007, a adoção de filhos parental. “A família de substituição, que por casais lésbicos já seria aquela formada pelos laços de amizade Quando se adota uma era um tema bastante comum na sociedaduráveis, devido, em criança, se adota a de norte-americana. grande parte, à disMas, em fevereiro do família biológica, a ponibilidade e energia que eles têm para família estendida, é citado ano, um caso envolvendo um casal se dedicar a essas preciso integrar os lésbico ganhou as pácrianças, criam um vínculo de confiança, legados geracionais ginas dos jornais com uma responsabilidade, – filiativos e afiliativos muita repercussão. O que tornava o caso ine acabam como que sólito não era a adocontinuando a fazer ção em si, mas o fato de que uma mulher parte, porque quando se adota uma crianter adotado a própria companheira. O ça, se adota a família biológica, a família casal foi para o estado do Maine regulaestendida, é preciso integrar os legados rizar a adoção, não por capricho, mas por geracionais – filiativos e afiliativos”, conamparo legal. Isso porque Olive Watson sidera a pesquisadora do IPUSP. e Patricia Spado dividiam tudo, da casa à conta bancária, mas não podiam desfruHOMOPARENTALIDADE tar dos direitos mínimos garantidos aos E LEGALIDADE: casais heterossexuais, como benefícios A PROBLEMÁTICA DA ADOÇÃO previdenciários e herança. A palavra adoção vem do latim, Indiretamente, casos como esse moadotare, que significa “optar ou decidirtivaram o pesquisador do IPUSP Luiz -se por, escolher, preferir”. Quando um Toledo a trabalhar “A família no discurso casal, tanto homoafetivo como heterodos membros de famílias homoparentais”, normativo, adota, ele opta pelo amor, sua tese de doutoramento. Ele conta que ainda que não oriundo da biologia. durante suas pesquisas iniciais lembrou Ainda não existem leis específicas das lutas das paradas gays, da reinvindisobre a adoção homoparental no Bracação dos direitos de adoção, de transmissil. Todavia, com a aprovação da união são de herança, de união estável, e passou estável de casais homossexuais pelo a olhar para tudo de uma outra maneira, Supremo Tribunal de Justiça, em 2011, que não a simples observação. “Quer dizer abriu-se a prerrogativa de que os juíentão que eu posso me casar, ser pai, divizes reconhecessem o desejo dos casais 90 | psico.usp


dir um plano de saúde, deixar bens quando morrer, mas esses direitos não valem para as outras pessoas? Me chocou perceber esse absurdo em pleno século XXI”, contou Toledo, em entrevista à psico.usp. Segundo o pesquisador, que também é membro filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, é importante que se trabalhe o tema e que se discuta a homoparentalidade para que se encoraje outros colegas a também estudarem, para que assim se reconheça os direitos dessas famílias, não só como ato de civilidade mas como um exercício de tolerância e respeito à diferença. O psicólogo, que analisou o discurso, vê no termo “homoparentalidade” apenas um nome provisório, que nos Estados Unidos é substituído por “gays families”, sem prejuízo pejorativo. “Enquanto durar a luta pelos direitos, será útil usar um nome que identifique especificamente essas famílias”, observa Toledo, para quem essa terminologia – que, assim como muitas outras, ainda assusta algumas pessoas – se tornará em breve menos relevante, quando houver avanços jurídicos e sociais, o que já está acontecendo. “Falar em homoparentalidade hoje pode ser útil como um aglutinador provisório, uma ‘inversão estratégica’, mas não como um diagnóstico ou algo do tipo”, completa. Maurício Ribeiro de Almeida, pesquisador do IPUSP, também trabalhou a formação da família por casal homoafetivo, especialmente nas questões subjetivas que tangem à adoção. Com experiência como psicólogo judiciário e, por isso, com amplo conhecimento sobre questões legais, Almeida optou por estudar a problemática da adoção, tendo desenvolvido trabalhos importantes dentro dessa temática, como a colaboração em um capítulo sobre a adoção homossexual na cartilha “Adoção: um Direito de Todos e Todas”, organizada pelo Conselho Federal de Psicologia. Em sua tese de doutoramento pelo IPUSP, Almeida estudou a questão do vínculo na constituição subjetiva da família, analisando especificidades a

fim de compreender de que modo essa nova configuração estabelecida pela adoção “engendra novos paradigmas de família e retoma processos e valores já incorporados nos modelos tradicionais de família”. Em seu trabalho, o pesquisador verificou, assim como Rodriguez, que a história de perdas e processos emocionais do passado, resolvidos ou não na infância, podem influenciar o sofrimento psíquico na fase adulta, assim como desencadear problemas emocionais no desenvolvimento da parentalidade. Almeida corrobora o pensamento de Toledo, visto que acredita haver a necessidade de maior discussão da temática, que sofre com a falta de regulamentação política, bem como com ideias preconceituosas que se propagam no ideário social. “Romper a barreira do silêncio visando à discussão mais qualificada dos aspectos sociais, psíquicos e legais envolvidos nessa demanda pode ser uma primeira tarefa”, esclarece o pesquisador. As incipientes discussões, normalmente pautadas no preconceito, no senso comum e no fervor religioso, continuam apenas a perpetuar opiniões intolerantes, como a de que “a formação moral e psíquica da criança será prejudicada caso ela seja criada por pessoas do mesmo sexo”, completa Almeida. Entretanto, muitos casais ainda acreditam que a adoção vale mais do que os preconceitos arraigados na sociedade. Quando se opta pelo amor, pelo cuidado do outro, dá-se passos para uma sociedade mais humana e igualitária, principalmente porque se entende que os “preteridos” são dignos de amor, de atenção, de família. psico.usp | 91


Família de Carlos Alberto e Ivson Juliana Lira Fotografia

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Esse é o pensamento de Carlos Alberto Júnior e Ivson Rodrigues, casados há 11 anos e pais de Carlos Eduardo, Ivson José e João Lucas, todos frutos das chamadas adoções tardias, termo que incomoda muito Carlos Alberto. “Não considero adequado hoje, depois de tanto ler, estudar e ouvir depoimentos de adoções bem-sucedidas, caracterizar tarde a capacidade afetiva de crianças mais velhas amarem, até porque elas são desejosas de terem uma família e, não sendo piegas, o amor é uma ferramenta poderosa para esta construção afetiva se concretizar”, explicou em entrevista à revista psico.usp. O processo para a primeira adoção foi iniciado em 2012, quando Carlos Alberto foi surpreendido positivamente pelo esposo com a documentação para o processo. Depois disso, realizaram

o CNA (Cadastro Nacional de Adoção), adequando as características das crianças que desejavam adotar. Por sorte e felicidade do casal, ficaram na fila por apenas 23 dias. Além disso, Carlos Alberto afirma que ele e o esposo foram muito bem tratados durante o processo de adoção e que, embora tenha ciência da existência de grande preconceito e saiba que eles e os filhos ainda podem ser vítimas da intolerância do próximo, essa experiência positiva fez com que o casal descobrisse um lado da justiça até então desconhecido, um lado em que forças são unidas em prol da família e do bem-estar das crianças. Mas ele sabe que nem todos os processos são assim, porque a sociedade, como um todo, continua cheia de preconceitos.


Para Carlos Alberto, não existem preé “um livro infantil para estimular pejuízos na criação de crianças por casais queninos e grandões a pensarem sobre homossexuais. Ele acredita que o acomfamília e diversidade. Afinal de contas, o panhamento psicopedagógico é imporque importa é o amor!”, avisa a chamatante na educação dos filhos, até para da no site do livro, que, segundo Bela, maior compreensão da própria origem, tem sido entusiasticamente recebido do processo e do reconhecimento dos por pessoas que contam que seus filhos dois pais como família, mas acredita que estão lidando melhor quando questioas bases essenciais são encontradas dennados sobre família, porque ganharam tro de casa, como família. “Família é a identificação e representatividade. união de pessoas por laços afetivos que Para a escritora e designer gráfico, as vivem muitas vezes no mesmo espaço pessoas precisam destruir esses precone que se amam e se respeitam, cujo paceitos que inserem no discurso, como, pel é se apoiar em todos os momentos, por exemplo, a ideia de disseminação da mostrando a valorização da diversidade homossexualidade por meio da parentahumana”, opina o pai Carlos Alberto, lidade. Segundo conta, esse argumento que traduz de forma emocionada a impode ser facilmente rebatido, já que “a portância dos filhos na maioria dos homosFamília é a união sexuais foram criados vida do casal. “Meus filhos são a personifipor pais heterossexude pessoas por cação da potencializaais”, compara. laços afetivos que ção do amor. Antes eu Bela e toda equipe achava que o amor era vivem muitas vezes do “Tenho Dois Pauma conta de somar e pais” acreditam que as no mesmo espaço multiplicar, mas, com necessidades de uma eles, sentimos um e que se amam e criança giram em toramor nunca imagino de coisas básicas respeitam nado antes. A vida só como “amor, carinho e tem sentido com eles”. atenção”. “Nós do ‘Tenho Dois Papais’ brincamos que família PREPARANDO HUMANOS PARA é uma fórmula simples onde somamos O MUNDO pessoas + amor. Desde os primeiros estímulos até a criação de laços afetiBela Magalhães estava desenvolvendo vos mais fortes, família é onde a gente seu projeto final de graduação em Design prepara humanos para o mundo”. Além Gráfico, em 2012, mesma época em que a disso, a designer pondera que a crianunião homoafetiva estava em tramitação ça precisa saber desde cedo sobre sua no Congresso. Militante da causa LGBT origem, já que esse conhecer a própria desde o começo da faculdade, ela viu no história é um compartilhamento do projeto uma possibilidade de fazer algo amor, uma das funções da família. “Se pelos filhos da causa. “Pensando nas novocê explicar para a criança desde cedo vas famílias LGBT que seriam formadas, todas as peculiaridades e diferenças endecidi fazer um livro para que seus filhos tre as famílias, ela crescerá segura de se sentissem representados na literatura e que não falta nada na sua”, opina Bela. tivessem uma maneira de contar a história Para Ana Laura Martinez, psicóloga de sua família para seus colegas”, contou e doutora pela FFCLRP-USP, conhecer Bela em entrevista à revista psico.usp. sua história é fundamental para a crianO projeto de graduação, escrito em ça. “Em algum momento, os pais vão ter 2012, foi publicado em livro em 2015, que explicar à criança que dois pênis com financiamento conseguido atraou duas vaginas não geram uma bebê. vés do Catarse. O “Tenho Dois Papais” psico.usp | 93


Felipe Bastos

Bela Magalhães e seu livro Tenho Dois Papais

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Que ela veio ao mundo de outro jeito: ponder às questões que a intrigam desde ou pela doação de um esperma anônimo sempre: “Como é que eu vim ao mun– situação que pode causar o incômodo do, mamãe? Quem é meu pai? Para que de a criança vir a querer conhecer o seu serve um pai?”. É disso que se trata a pai biológico –, ou por uma relação heproblemática da sexualidade humana”, terossexual anterior – caso elucida Martinez. em que a criança tem um Família é uma Por fim, Bela Magalhães, pai biológico real com quem assim como Toledo, acrefórmula simples dita que a causa LGBT jogar seu jogo imaginário –, ou por adoção – quando onde somamos precisa de uma luta que fatambém há pais que se ‘deisobretudo a família pessoas + amor voreça taram’ para que ela viesse ao homoparental, relegada à mundo”, explica a psicóloga. obscuridade do preconEm resumo, as funções parentais se ceito, que frequentemente advém da vinculam, em última instância, ao nosso ignorância. Ela reconhece que essa luta mito de origem, ou seja, de onde viepor direitos é exaustiva, mas não pode mos, como e quem nos deu existência. ser abandonada. “Cada nova reportaEssa é uma problemática humana tão gem sobre empoderamento feminino, primitiva que anima, desde as nossas cada nova família homossexual feliz que acompanho, faz valer a pena todo esfororigens, os mitos de criação do mundo. ço e estresse. Nós não temos outra opção Assim, a criança, tal como um pequeno senão lutarmos para existirmos, para serinvestigador cientista, busca construir mos felizes”, esclarece a escritora. o seu próprio mito individual para res-


Os (poucos) direitos garantidos pela Lei Brasileira à comunidade LGBT Casamento

Não há extensão de direito à comunidade, todavia não há proibição; a Constituição ainda cita “o homem e a mulher” como os dois componentes de uma união conjugal; em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) passou a reconhecer a união estável entre casais do mesmo sexo; em 2013, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) emitiu resolução que obriga todos os cartórios do país a realizarem casamentos entre casais homoafetivos; entretanto, a resolução não tem a força de uma lei e pode ser contestada.

Adoção

No ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), não há citação do gênero dos cônjuges adotantes, há apenas informação de adoção por pares casados ou em união estável; com o reconhecimento da união estável entre homoafetivos, a adoção tornou-se mais viável; contudo, o processo ainda é analisado caso a caso e depende da decisão individual de um juiz; portanto, o registro parental depende das ponderações da Justiça.

Homofobia

A lei não prevê tratamento diferenciado para crimes de homofobia, embora existam projetos para regulamentar a punição nesses casos; hoje, o crime ainda é tratado como qualquer outro, mesmo que, segundo a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDHPR), a cada uma hora, um membro da comunidade LGBT sofra algum tipo de violência – física, verbal ou psicológica.

Reprodução Assistida

Não há informações sobre o assunto em nenhum artigo da Constituição Federal ou no ECA, seja para heterossexuais ou para homossexuais; em casos de barriga de aluguel, há apenas uma resolução do Conselho Federal de Medicina (1.957/10), determinando que as doadoras temporárias sejam parentes de até segundo grau da doadora genética. Recentemente, o CNJ redefiniu as regras para registros por reprodução assistida, de modo que os cartórios não poderão recusar o registro de crianças geradas por este meio.

Resumindo

Ainda que o Poder Judiciário reconheça direitos à comunidade, todos eles podem ser questionados, visto que não há leis que defendam os LGBT na Constituição Federal. psico.usp | 95


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O Gênero na criança Método desenvolvido em pesquisa identifica a noção de gênero em crianças autistas Por Fernanda Giacomassi

A discussão sobre gênero, tão importante para o reconhecimento das diversidades e dos direitos de cidadania, ainda é um grande tabu para a sociedade. Prova disso é que a possibilidade de abordagem desta questão nas escolas foi excluída do Plano Municipal de Educação, aprovado em 2015 pelas câmaras municipais. Felizmente, muitos estudiosos estão tecendo novas pesquisas que ajudarão a desmitificar esta e outras questões da sociedade, como a tese “Identidade de Gênero em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, apresentada à banca de doutorado do IPUSP, em 2014.

A iniciativa da pesquisadora Silvana Batista Gaino se pautou no desenvolvimento de um teste que auxilia na identificação da noção de identidade de gênero em crianças. O Teste de Apercepção de Gênero (TAG), foi desenvolvido primeiramente para crianças em desenvolvimento normal, para depois ser aplicado em crianças com Transtornos do Espectro Autista, grupo clínico de grande interesse para a doutoranda. “O que me motivou foi que sempre que se estuda o autismo procura-se focar no que a criança autista não consegue adquirir, ou no que ela não conhece. Eu quis partir de outro pressuposto: tentar encontrar algo que ela adquirisse como as outras crianças”, explica a pesquisadora. As bases psico.usp | 97


Imagens que compõem o Teste de Apercepção de Gênero “Identidade de Gênero em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”

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teóricas para a elaboração do projeto vêm da Psicologia Evolucionista, a qual, segundo Gaino, auxilia no entendimento de como o ambiente interfere na percepção de gênero. O TAG constitui um procedimento lúdico, elaborado como forma de brincadeira. Aliás, esta é, segundo a literatura, um dos mais importantes instrumentos para a aquisição da noção de gênero, uma vez que as crianças entram em contato com a distinção entre meninos e meninas de forma expressiva e descontraída. Para a criação do procedimento a pesquisadora entrevistou diversas crianças do sudeste e do norte do Brasil e lhes pediu que falassem nomes de brinquedos considerados “femininos, masculinos e neutros”. Os brinquedos e brincadeiras escolhidas foram distribuídos em cartas, separadas de acordo com os critérios estabelecidos pelos entrevistados e então aplicadas ao grupo amostral que incluía crianças com desenvolvimento normal, crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e crianças com Retardo Mental, todas entre quatro e seis anos de idade. A aplicação do TAG é simples e dura aproximadamente 10 minutos. As 51 cartas são organizadas em três blocos, como se fossem três baralhos, de acordo com as indicações presas no verso delas (CM = Cartas Masculinas; CN/U = Cartas Neutras/Unissex e CF = Cartas Femininas). Além dos 51 estímulos do

teste, existem três cartas que são utilizadas como exemplo devidamente identificadas no verso. Essas cartas são posicionadas em cima de cada bloco de cartas para facilitar o trabalho do examinador no momento de explicação da tarefa. Com base nisso, a criança deve escolher quais das brincadeiras mais lhe agradam entre todas. O resultado alcançado mostrou que todas as crianças conseguem identificar as brincadeiras por “gêneros”, mesmo que de forma diferente de acordo com cada grupo pesquisado. Notou-se ainda que alterações originadas por fatores diversos fazem com que as crianças com retardo mental mantenham por mais tempo a fase de rigidez dos estereótipos relacionados ao gênero em função da idade, em detrimento da aquisição da flexibilidade que é esperada e pode ser encontrada em crianças normais. Assim, as crianças com TEA parecem manter essa rigidez, relacionada aos estereótipos, durante todo o desenvolvimento intelectual. Para Silvana Gaino, a pesquisa evidenciou a enorme influência do componente social e familiar presente na decisão das crianças: “ficou muito claro, principalmente no caso dos meninos, que as escolhas eram influenciadas fortemente por noções sociais do que é ser menino ou menina”. Além disso, o


resultado do teste mostrou que as meninas se sentem mais à vontade para fazer escolhas mais neutras e até mesmo de brinquedos ditos “masculinos”, o que foi uma novidade para os pesquisadores, que esperavam decisões ainda muito cristalizadas pelas ideias sociais. Quanto mais velhos os meninos, mais eles reafirmavam suas escolhas pelos brinquedos “masculinos”, enquanto que as meninas, quanto mais velhas, menos queriam os brinquedos femininos. Elas buscavam principalmente os brinquedos neutros, como brincar com animais de estimação, andar de bicicleta, brincar no balanço ou passear. “Na segunda rodada, com outras crianças, nós perguntamos ‘o que você acha que é de menino e o que é de menina?’ e percebemos que as meninas ficaram desconfortáveis para fazer esta escolha”. Gaino conta também que foi muito interessante observar a distinção entre o que era preferível e o que elas acreditavam ser esperado socialmente que elas escolhessem. “Estamos em um momento de transição do desenvolvimento infantil. Deu para perceber que o desenvolvimento cognitivo destas crianças está muito diferente do desenvolvimento encontrado em crianças de outras gerações. Eles possuem outros estímulos ambientais que modificam

a forma como eles interagem com o mundo. E isso acontece tanto com crianças em desenvolvimento clínico quanto com crianças em desenvolvimento normal”, exemplifica a pesquisadora. Gaino acredita que a discussão de gênero é muito mais fácil de ser feita com crianças desta geração do que com adultos, que, por possuírem papéis muito bem definidos socialmente, dificilmente conseguem fugir da zona de conforto. Por isso, ela afirma que “se meninos e meninas tivessem os mesmos estímulos, mesmo com a diferenciação relativa aos hormônios, o desenvolvimento e as escolhas de ambos seriam muito mais próximos. Hoje as estruturas sociais ainda influenciam fortemente neste quesito, fazendo as crianças, por exemplo, se separarem, ao invés de haver troca mútua de conhecimento, o que faz as diferenças ficarem claras e fortalece preconceitos e desigualdades”. O Teste de Apercepção de Gênero, proposto por Gaino, está sendo aperfeiçoado e reformulado com desenhos mais gerais para poder ser usado universalmente, em qualquer região. Com isso, ele certamente poderá contribuir com futuras pesquisas sobre a identidade de gênero em crianças.

Se meninos e meninas tivessem os mesmos estímulos, o desenvolvimento e as escolhas de ambos seriam muito mais próximos

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O (não) olhar da educação Pesquisadora analisa como as esferas que cuidam do desenvolvimento da criança lidam- com o tabu diante de projetos de lei que impedem o ensino do gênero na escola

Por Aryanna Oliveira e Sofia Mendes Colaboração de Tatiana Iwata

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Desde o nascimento a criança é bombardeada com diversas demonstrações culturais de gênero: seja o quarto azul ou rosa ou os brinquedos “de menina” ou “de menino”, essas manifestações, que reforçam a dicotomia feminino/ masculino, vêm para impor um gênero ao sujeito em formação. Anos depois, já na escola, outras imposições são feitas. É muito comum observar casos de preconceito e despreparo profissional em relação às questões de gênero. Nas práticas de sala de aula, nos livros didáticos, nos procedimentos de avaliação e em tantas outras situações é possível verificar uma clara demarcação de lugares sociais de “meninas” e/ou de “meninos”. A questão do gênero, sua discussão e uma abordagem em defesa da diversidade e contra o preconceito sempre foi polêmica, tanto no Plano Nacional da Educação, o chamado PNE, como nos Planos Estaduais e Municipais. Mas, desde junho de 2014, o debate ganhou nova força, quando se estabeleceu um prazo de um ano para que estados e municípios aprovassem documentos de seu plano de educação para os próximos dez anos. Nesses documentos prevê-se a proibição de quaisquer assuntos relacionados a gênero e sexualidade nas salas de aula. Com o prazo de um ano esgotado, a polêmica retomou com força total. Procurando entender esse ambiente de formação da criança como indivíduo e a importância do tratamento dos assuntos de gênero no plano educacional, a pesquisadora Danielly Passos de Oliveira está desenvolvendo um projeto de pós-doutorado trabalhando a questão do gênero no que concerne à educação, seja em casa ou na escola, procurando entender a percepção da criança sobre família

e gênero. Ainda que a pesquisa esteja em desenvolvimento, já foi possível verificar importantes dados para ampliar e aprofundar a discussão. ÉDIPO E AS CRIANÇAS O projeto de Danielly prevê uma análise acerca das novas constituições familiares e o modo como as crianças percebem e aprendem as questões de gênero, como definem o que popularmente chamamos de papel de cada indivíduo. Saindo da família nuclear, tida como tradicional, a pesquisadora busca compreender como os indivíduos em formação enxergam os papéis de “masculino” e “feminino”, e como analisam a “família” sob novos contextos. Isso tudo por meio do método de intervenção, onde crianças de 7 a 8 anos, em uma criação conjunta, produzem arte e, consequentemente, uma história com suas ideias sobre os papéis – sem que pesquisadora, portanto, se colocasse na difícil posição de uma entrevista, por exemplo. A escolha não foi aleatória. Segundo Oliveira, as crianças nessa faixa etária “ainda estão presas em um contexto familiar de formação, distantes da influência dos amigos e da internet. Porém, como já alfabetizadas, já têm capacidade de falar e simbolizar”. Ainda de acordo com a pesquisadora, a escolha também é importante psicanaliticamente, porque as crianças nessa idade já “atravessaram o Édipo”. “Se a gente pensar do ponto de vista psicanalítico, o complexo de Édipo é o momento em que as crianças vão se deparar com a masculinidade, com a feminilidade e com os papéis de família”, completa.

O complexo de Édipo é o momento em que as crianças vão se deparar com a masculinidade, com a feminilidade e com os papéis de família

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A SEGUNDA CASA Depois do ambiente familiar, a escola se configura como o mais importante espaço de formação das crianças, uma vez que é o lugar em que elas passarão uma grande e fundamental parte da vida. Os pequenos veem na escola uma continuidade do lar, estabelecendo laços com os colegas e professores, e criando bases para sua constituição social. Por isso se faz necessário prestar atenção no discurso escolar, visto que lá se pode tanto reproduzir os muitos e distintos preconceitos da sociedade quanto tornar-se um espaço de conhecimento e reflexão sobre os assuntos. Em se tratando do gênero, é comum observar profissionais da educação promovendo um ambiente que reforça essas desigualdades. Ligada à problemática do fracasso, a sala de aula costuma direcionar os meninos a uma postura mais agressiva. Eles estão ali para criar grupos de dominância, estabelecendo ligações de poder. Já às meninas fica reservado um segundo patamar, mais à parte, um mundo “de meninas”, mais frágil e delicado. Esse tratamento díspar pode gerar uma série de estereótipos, como aquele que postula que meninos são mais capacitados que meninas nas ciências exatas, por exemplo. Procurando desmitificar o preconceito, pesquisadores de Tel Aviv, em Israel, acompanharam meninos e meninas da terceira série até o final da escolaridade. Cada aluno fazia duas avaliações idênticas sobre uma série de matérias: uma que seria corrigida com o nome exposto e outra seria uma prova anônima. As respostas eram iguais, mas as correções diferentes. O grupo de professores que recebeu as provas nomeadas e, portanto, sabia quem era menino ou menina, deu notas maiores para os meninos. O grupo que recebeu as provas anônimas, porém, deu notas 102 | psico.usp

maiores para as meninas, porque analisou simplesmente o desempenho. Essa divergência entre os gêneros se deu nas provas de matemática e ciências; em outras matérias as correções, felizmente, foram parecidas. A pesquisa evidencia um problema grave de preconceito internalizado entre os professores. Ainda que tenha sido feito em outro país, no Brasil também se nota uma superestimação das capacidades dos garotos e subestimação das habilidades femininas. Não por acaso, é comum notar um maior desinteresse das meninas nas áreas de ciências e exatas no final da educação básica. No vídeo de Neil deGrasse Tyson, “A mulher e o negro na Ciência”, o famoso astrofísico dá um depoimento acerca de uma pergunta feita numa coletiva de imprensa: será que há alguma característica genética que faz com que as mulheres sejam menos capacitadas em ciências, e é por isso que elas estão em menor quantidade nesse meio? O cientista, que é negro e encontrou muitos obstáculos no âmbito profissional, finaliza sua fala dizendo que “antes de começarmos a falar sobre diferenças genéticas, nós temos que chegar a um sistema onde existam oportunidades iguais, então poderemos ter essa conversa”. A escola tem o papel essencial de proporcionar chances iguais para meninas e meninos, e muitas vezes não o faz. E não são só as garotas as vítimas de uma generalização simplista. É muito comum o fracasso escolar dos meninos ser ligado a certos referenciais de masculinidade, como agressividade e atitude física. Quando as individualidades são encobertas por estereótipos, a criança pode se sentir desamparada e sem vontade de frequentar aquele ambiente. O professor, muitas vezes a maior referência escolar da criança, precisa estar muito bem preparado para conviver com as diferenças e trabalhá-las em sala de aula. Sendo formado em uma sociedade em constante mudança e adaptação de


“papéis” cada vez menos fixos e determinados, talvez falte em sua formação profissional um estudo mais aprofundado dessa problemática. Porque, infelizmente, o que se vê com frequência são profissionais que não têm as questões de gênero trabalhadas sequer consigo mesmos, tendo muitas vezes, aliás, problemas pessoais mal resolvidos, que atrapalham o desenvolvimento do assunto com os alunos. Embora exista, no discurso, um aparente entendimento, o despreparo dos professores a respeito da problemática da sexualidade acarreta grandes dificuldades quando as questões ligadas à sexualidade dos alunos aparecem no cotidiano escolar.

Brincadeira séria: enquanto brincam, Lara e a mãe conversam sobre gênero e diversidade

E QUANDO OS PEQUENOS QUESTIONAM O GÊNERO? Lara Naloto tem cinco anos e perguntou para a mãe o que era “ser gay”. Depois da explicação, a mãe, Mayra Santos Naloto, percebeu que ela, brincando com suas bonecas, criou um

casal gay. Essa postura não é corriqueira na sociedade, mas é possível perceber que hoje algumas crianças, vivenciando toda a polêmica do gênero e considerando que não são meros repositórios de informação, percebem e refletem o que acontece no mundo que as circunda. Antigamente, quando a dicotomia homem-mulher era inquestionável e a família se constituía essencialmente em pai, mãe e filhos, era simples passar para os pequenos esses conceitos conservadores, mas hoje muitos pais já conversam com os filhos sobre a diversidade e a relação homoafetiva. Atualmente o assunto se tornou mais complexo, as limitações do feminino/ masculino são contestadas, o gênero já não corresponde essencialmente e apenas ao sexo biológico e a família tomou diversos novos contornos. Com isso, muitos pais ficam confusos e apreensivos na hora de tratar desses temas com seus filhos, e a falta de informação pode ser extremamente prejudicial. “Estamos

Aryanna Oliveira

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numa época carente de conceitos estáveis, eles estão se desestabilizando”, explica Oliveira. E muitos desses conceitos, ainda em consolidação, são muito novos, portanto não existiam - ou pelo menos não eram tão disseminados - na época de juventude dos pais. “Diante de coisas que os próprios pais não simbolizaram, como eles vão passar para a criança?”, questiona a pesquisadora. Para completar a bagunça, as crianças de hoje em dia são bombardeadas com informação dos mais diversos meios: televisão, sites, redes sociais, os próprios colegas de escola, professores e família. Por isso é possível pensar numa diversidade de discursos com os quais elas têm contato. Segundo hipótese da pesquisadora, “essas crianças vão espelhar essa contradição porque há um convívio entre o tradicional e o novo. Embora a gente fale numa época de grandes mudanças, ainda existem valores muito conservadores que permanecem”. A mãe de Lara, que coordena projetos de medicina preventina, é adepta do amplo diálogo com a filha. “Eu tento mostrar para ela que não existe somente um padrão de ‘homem’ ou ‘mulher’, não existe apenas uma definição do que cada um pode ou deve fazer. Do mesmo modo, explico que não existe um modelo padrão de família, já que nem sempre ela é constituída como a nossa, com a ideia de ‘papai’ e ‘mamãe’. Explico que existem outras formas e modos de se relacionar e de se constituir como família, o que importa é o amor e o elo que existe entre os pares”. Para Mayra, a escola seria fundamental nesse processo; apesar disso, ela não percebe esse envolvimento na escola da filha, por isso faz sua parte na promoção do diálogo sobre a diversidade. Essa atitude coincide com a opinião

da Profa. Dra. Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP. Em entrevista à psico.usp, ela falou sobre a importância de se estar atento às necessidades de diálogo e compreensão das crianças, não necessariamente falando sobre tudo, mas, pelo menos, sobre aquilo que satisfizer a curiosidade e a necessidade de compreensão do outro. “Não existe ‘o jeito’ de falar, cada situação é uma situação, cada criança é uma criança. É muito importante estar atento e escutar o que a criança quer e precisa saber, e de alguma maneira poder conversar com ela levando em consideração essas demandas e curiosidades e sendo sensível àquilo que ela pode e tem elementos para entender. É muito importante ser verdadeiro, até porque as crianças são muito sensíveis à mentira”, defende Belinda.

É muito importante ser verdadeiro, até porque as crianças são muito sensíveis à mentira

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A ESFERA PÚBLICA Recentemente, teve destaque outra polêmica envolvendo o assunto “gênero”, dessa vez no tocante ao poder público. Muitos planos estaduais e municipais da educação foram obrigados a eliminar o termo “gênero” e tudo o que se refere a ele. Além de São Paulo, cidades como Bauru, Uberlândia, Curitiba e Campinas também sofreram os custos dessa polêmica. O receio de quem apoia a exclusão é que a “ideologia de gênero” eduque as crianças para serem assexuadas e escolherem sua identidade de gênero e orientação sexual apenas quando maiores. O que eles esqueceram é que esses dois aspectos não são escolhas, mas, sim, parte da essência do indivíduo, da formação de sua identidade pessoal. “O sexo de cada um tem muito


Aryanna Oliveira

A pós-dutoranda Danielly Passos de Oliveira explica seu projeto “(Re) invenções do masculino e do feminino: percepções de crianças sobre famílias e gênero”

a ver, dentre outras determinações próprias do desenvolvimento psíquico da criança, com as atribuições que a família dá àquela criança que nasce, desde o próprio nome, que já é um marcador de gênero. Além das roupas, do tipo de atividade que a família propõe quando é um menino ou quando é uma menina”, explica Mandelbaum. Ela ainda lembra que, em alguns países, famílias já utilizam pronomes neutros para coibir uma obrigação dos pais. “Muitas pessoas acreditam que os pais deveriam deixar isso (o direcionamento sexual) como uma opção da criança, então tem até essa questão que pode soar curiosa como não se optar por chamar crianças de ‘ele’ ou ‘ela’, inventar um pronome como o “it”, do inglês, que é um pronome neutro, porque essa predefinição promoveria a identificação da criança com uma certa identidade sexual e não outra”, complementa. Isso já aconte-

ce na Suécia. Na língua escandinava, além do pronome de gênero masculino han e do feminino hon, será adicionado o pronome hen, para pessoas que não revelaram ou não assumiram um gênero. Dessa forma, esses recentes projetos de lei sobre gênero desconsideram a importância de se trabalhar um assunto que, mesmo não devendo ser, é tratado como tabu, excluindo a discussão da sala de aula de muitos estados e municípios. Além de já parecer absurdo à primeira vista, não discutir gênero vai contra diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil, como a Carta das Nações Unidas, a Declaração dos Direitos Humanos, a Convenção Interamericana sobre a Concessão dos Direitos Civis às Mulheres, entre outros. É uma contradição que atinge – um preocupante e alarmante – nível mundial. Os planos municipais e estaduais foram aprovados em junho de 2015 e têm validade de 10 anos. Eles não têm força de lei e atuam apenas como uma orientação, uma vez que não há sanções ao administrador que deixar de cumpri-los. Mesmo assim, ele mostra a negligência e o atraso da esfera pública brasileira num assunto de extrema importância e que está em discussão no mundo todo. Enquanto não se fala disso nas escolas não só as crianças, mas a sociedade em geral sai perdendo, porque, segundo a Profa. Dra. Belinda, deixa-se de avançar em relação a discussões necessárias sobre a temática de gênero. “De fato é bastante positivo que a sociedade se abra para a diversidade, porque diversidade é a palavra do momento. É fundamental para diminuir o preconceito e a violência, já que é esse preconceito, que vem da falta de orientação, o grande causador da violência, seja ela física ou verbal”, finaliza. psico.usp | 105


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A importância de espaços para a discussão Evento realizado no IPUSP aborda a necessidade de reflexão acerca de políticas educacionais e paradigmas a respeito do conceito de gênero no espaço escolar Por Vitória Batistoti

As questões de gênero vêm se tornando objeto de estudos acadêmicos, seja em teses ou em dissertações. Contudo, ainda que haja a necessidade de mais estudos sobre o tema no âmbito científico, o assunto deve integrar também outros espaços, que sejam acessíveis à sociedade, como o ambiente familiar, veículos de comunicação e instituições escolares. Em vista da necessidade de se abordar gênero no espaço escolar, a professoraMarilene Proença realizou o evento “Educação Escolar e Gênero: o que envolve estapolêmica?”, integrado à disciplina “Psicologia e Educação”. Durante o evento, foram apresentadas produções audiovisuais para instigar a reflexão. A obra inicial foi “Ma vie enrose” (ou “Minha vida em cor-de- rosa”, em tradução para o português), filme europeuproduzido em 1997 e dirigido por Alain Berliner. A trama gira em torno de Ludovic, que nasce menino, porém, identifica-se como menina. Perpassando preconceitos e dificuldades de aceitação que sofre no ambiente familiar e na sociedade, a personagem vai traçando sua trajetória na descoberta de seu gênero e, gradualmente, vai se tornando mais claro para o telespectador sua vontade de assumir a identidade feminina. Para refletir e debater o filme, a doutora em educação pela FEUSP e pesquisadora na área de sexualidade e gênero Elisabete Regina Baptista de Oliveira esteve presente.

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A QUESTÃO DA ADEQUAÇÃO DO GÊNERO Em sua fala, Elisabete discorre sobre a acomodação da instituição escolar em fortalecer os padrões da sociedade cis-normativa: “Se nasceu menina, tem que ser educada e criada de certa forma”. Desse modo, Elisabete afirma que são deixadas de fora “todas aquelas pessoas que não se identificam com as sexualidades que são valorizadas socialmente”. Essa constatação da pesquisadora evidencia a desconsideração do ambiente escolar como potencial espaço de questionamento dos valores assentados na sociedade. Esses valores engessados mostram-se presentes na criação de prescrições e scripts que devem ser seguidos pelas crianças desde o seu nascimento. Como argumenta Elisabete,“com base no sexo biológico percebido, as características de identidade e comportamento são ensinadas e reforçadas diariamente, para que a mente esteja em sintonia com o corpo”. O que, em alguns casos, acaba por ignorar a verdadeira identificação de gênero doindivíduo, em prol de uma padronização e binarização da sociedade. ACEITAÇÃO E REJEIÇÃO EM MA VIE EN ROSE

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A CONSTRUÇÃO COLABORATIVA DO PLANO DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO Para encerrar o evento, foi convidada Denise Carreira, educadora e coordenadora na área de educação na organização Ação Educativa. Depois da exibição do curta-metragem nacional “Participação de Crianças e Adolescentes no Plano de Educação da Cidade de São Paulo”, produzido pela ONG em 2012, a educadora analisou processos e etapas que compõem

Islaine Maciel

Na trama cinematográfica, os valores sociais cis-normativos podem ser visualizados no momento em que os pais, que inicialmente aceitavam a manifestação de identidade de gênero de Ludovic (caracterizada por eles como uma “excentricidade”), passam a reprimir a criança durante o convívio social – ou seja, perante os vizinhos. Isso ocorre porque os pais temem o julgamento, por parte da vizinhança, de que o comportamento de seu filho seja, na verdade, a tradução de uma educação conturbada oferecida por eles. “A forma de lidar com Ludovic muda porque essa situação começa a abalar a estrutura da família”,comenta Elisabete. A expressão da identidade de Ludovic no ambiente escolar demonstra o total despre-

paro da escola no que tange a aceitação da individualidade, identidade e diversidade da personagem. Com relação ao preconceito sofrido pela personagem, Elisabete aponta que “a escola se mostrou um espaço de conReprodução formidade total – ou você se conforma às regras ou será excluído”. A decisão do diretor da instituição por expulsar Ludovic da escola simboliza a rejeição do que foge ao padrão pré-estabelecido socialmente.


o Plano Municipal de Educação (PME), documento que organiza as políticas educacionais e estabelece metas decenais para a educação. No curta-metragem, são relatados o trabalho realizado com escolas estaduais e municipais de São Paulo e o incentivo pela participação de alunos no processo de construção do Plano de Educação da cidade, capturando os desejos, sonhos e demandas que as crianças e adolescentes possuem para melhorar a educação no município. Denise ressalta a importância da participação de alunos, dizendo que um maior comprometimento produz uma diversidade de ideias e propostas, o que coopera para que o Plano de Educação “não seja mais um documento, mais uma lei que não contribua necessariamente para a concretização de direitos”. TRANSFORMAÇÃO DO CONTEXTO ESCOLAR: GÊNERO, SEXUALIDADE E EDUCAÇÃO

Islaine Maciel

Outra questão trazida ao debate foi a exclusão das questões de gênero do Plano Municipal de Educação (PME), aprovada pela Câmara de SP em agosto de 2015. Além de os planos municipais e estaduais de educação de São Paulo excluírem a formação escolar sobre sexualidade, diversidade e relações de gênero, o Plano Nacional de Educação e os planos de outros estados e municípios também negaram a discussão do tema. Denise comenta que a supressão de tais assuntos nestes planos é atribuída à bancada religiosa fundamentalista presente em diversas estruturas do poder legislativo e político, que inviabilizam a discussão de gênero, etnias e sexualidade. “Nós vivemos um efeito dominó, nos vários municípios e estados tiveram grupos religiosos em suas disputas do plano educacional”, comenta. No entanto, a professora Lisete Arelaro, da Faculdade de Educação (FEUSP), ressalta que, apesar das questões de gênero não serem contempladas pelo Plano Nacional, os municípios e estados não

são obrigados a abandonar o tema de seus respectivos planos educacionais. Por fim, Denise elenca os principais desafios atuais de gênero na educação brasileira: a deReprodução sigualdade social entre as próprias mulheres, a situação dos meninos na educação brasileira (principalmente meninos negros), a existência de um currículo educacional que não contribui para a alteridade, a concentração de mulheres em profissões menos valorizadas social e economicamente, e, finalmente, a política de educação infantil, bastante precária e insuficiente para a sua demanda. A educadora finaliza questionando qual “base nacional comum curricular é necessária para se construir e sustentar um projeto de justiça social em um país tão desigual? Qual é o currículo que pode nos ajudar a avançar e sustentar um projeto de justiça social no nosso país?”. Essas perguntas são respondidas por ela mesma, que, lucidamente, sintetiza a solução em “um currículo que reconheça a diversidade humana”.

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Como o IP lida com o Gênero Por Anátale Garcia e Aryanna Oliveira

II Semana de Psicologia e Educação: TransFormações. Da esq. à dir.: Vera Paiva, Jo Camilo, Allan Marcolino, Mariana Ribeiro, Luis Saraiva, Camila Godoi e Felipe Fachim.

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A explosão de emoções que um calouro sente ao entrar na universidade nem sempre se resume à empolgação e alegria. Quando o estudante faz parte de uma minoria social, como é o caso dos LGBTs, não são poucas as vezes em que ele se sente desamparado e/ou oprimido com o posicionamento político tomado pela instituição de ensino na qual ingressou. Com vistas a melhorar a recepção e a permanência de exemplos como esses, o IPUSP vêm desenvolvendo medidas reparativas que respeitem a diversidade sexual e a identidade de gênero, tentando amenizar injustiças historicamente impostas a essa comunidade. Antes da implementação dessas ações, no entanto, foi preciso a luta e o empenho dos próprios alunos, como no evento conhecido como “ato: os banheiros da universidade são para todxs”. A partir, então, da visibilização da condição de resistência e desamparo enfrentada por eles, o IP e os coletivos sociais da unidade deram início a uma tentativa de solução de conflitos. Logo na semana de recepção de calouros, algumas atividades foram feitas nesse sentido. Como as ocorridas agora em 2016, em que o Coletivo LGBT da Psico propôs uma reflexão coletiva sobre a experiência social dos LGBTs, incluindo-se aí a proble-

matização da LGBTfobia sofrida por eles; e o Coletivo Feminista da Psico realizou um convite à reflexão sobre a questão da mulher na sociedade atual, dando enfoque ao acolhimento das calouras e à discussão sobre a violência de gênero. Além da iniciativa estudantil, o IPUSP tem se esforçado para garantir, nos meios legais, os direitos sensatamente exigidos pela comunidade LGBT. A exemplo disso, foi solicitada a aprovação para fazer valer no Instituto a minuta de uma portaria interna, criada em 13 de janeiro de 2016, que “dispõe sobre o reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização no âmbito do Instituto de Psicologia”. O objetivo dessa portaria é a regulamentação da identificação dos banheiros de acordo com a identidade de gênero. Esse item é especialmente importante, pois envolve uma complicada situação vivida no IP. Não fosse esse episódio de discriminação experienciado por uma aluna trans do Instituto, que foi impedida por funcionários de usar o baneiro feminino, possivelmente não haveria a evidenciação da fragilidade do tratamento reservado aos LGBTs, principalmente às pessoas trans, mesmo dentro de uma universidade – espaço que se propõe a discutir paradigmas e


romper dogmas em prol de uma revolução científica. O evento motivou a recomendação de que fosse fornecida instrução e formação adequadas aos funcionários. A ideia da proposta, que foi elaborada pela própria vítima do episódio, em conjunto com o Coletivo LGBT da Psico, é, a partir de uma espécie de comissão, organizar grupos de conversa que promovam discussões e dinâmicas, de maneira respeitosa e consciente, para oferecer aos funcionários (in)formação. Este projeto já passou pela diretoria do IP e chegou às mãos da procuradoria geral da Universidade de São Paulo, onde, agora, aguarda validação. Desde 2015, muitos eventos relacionados a gênero e sexualidade também foram promovidos pelo IPUSP. O debate continua aberto, objetivando um constante aprimoramento das relações no Instituto, especialmente no que concerne às questões de gênero e sexualidade. Obviamente, ainda há muito por se realizar. A igualdade de direitos, mesmo dentro do IP, até hoje não foi plenamente alcançada. Mas esses já são os primeiros passos para elucidar as críticas de que o ensino e apoio acadêmico permanecem carecendo de responsabilidade na formação adequada dos alunos que, quando já formados, se depararão com pacientes da comunidade LGBT.

Aconteceu no IP Ato: Os Banheiros da Universidade São para Todxs

IP Comunica

CONLAPSA – Congresso LatinoAmericano de Psicanálise na Universidade

IP Comunica

A RTARI A PO AO D S TO TIVO OBJE NA QUAN R INTE GÊNERO: cial me so ão o n o otar ificaç r e ad uja ident e sua e c e h c on s ent • Rec e àquela equadam ad les àque o reflita ero; l” nos ã n n socia ê e l g i v m e i c o d po “n idade nident luir o cam os do IP; cume l o d c n r n e I e d ivi • nt ntos i a emissão o nome c re m u ar do doc reque roniz ilizan • Pad is do IP, ut que assim cia itos os tos ofi l dos suje ção d e a a c i fi c i t o d n es a ide a identida r ; a t m n e e er ulam o com • Reg s de acord eiro banh ero. n de gê

Encontro com Tamy Ayouch “Psicanálise e Homossexualidades: teoria, clínica e biopolítica”

psico.usp |Reprodução 111


Acervo pessoal

O gênero que há em nós (e nas linhas)

A artista plástica Ju Bernardo transporta para tecidos e fios questões relacionadas ao gênero e ao autoconhecimento Por Fernanda Giacomassi

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“Todos nós somos compostos por esta complexidade de fios e cada um é diferente do outro. Mesmo que um artesão faça trinta peças, nenhuma vai ser igual. É essa singularidade que torna tudo tão peculiar e todos tão diferentes” Percorrendo as páginas da revista psico.usp você encontra diversas ilustrações feitas especialmente para esta edição que trouxe a discussão de gênero à tona. O talento por trás dos desenhos é de Ju Bernardo, artista plástica que enxerga nas linhas, tramas e bordados os materiais essenciais para suas criações, e que têm como referência artísticas nomes como Leonilson, Rosana Paulino, Sonia Gomes e Bispo do Rosário. Pernambucana de nascimento, Bernardo conheceu muito cedo, por meio da mãe e da avó, o universo do artesanato e dos trabalhos manuais. Incentivada por uma professora, fez um curso de um ano sobre coordenação e estilismo, o qual a ajudou a conseguir um emprego na área de assessoria de moda. Entretanto, ela sempre almejou algo além de um simples lado mercadológico da arte, algo que englobasse seus estilos e influências. Já na Unesp, apesar de tentar conhecer todas as áreas que abrangiam o curso de Artes Plásticas, Ju Bernardo sempre tentava colocar a questão das linhas e dos bordados em seus projetos, o que muitas vezes era visto com estranhamento pelos docentes. “Essa questão começou a me trazer algumas inquietações, porque eu estava em uma instituição de arte reconhecida, em uma das maiores universidades de São Paulo, tinha acesso a várias outras técnicas consideradas pelas belas artes, mas ainda tinha vontade de permanecer trabalhando com o que eu tinha contato desde criança”, conta a artista. Apesar do acesso às novas vertentes e projetos artísticos que a universidade proporcionava, Ju Bernardo acabou se decepcionando com o extremo academicismo de alguns docentes, que afirmavam que um artesão nunca poderia ter o intelecto de um artista graduado. Da mesma forma, o intercâmbio de dois anos que conseguiu em Portugal se mostrou demasiadamente teórico, o que se contrastava com suas ideias

sobre o fazer artístico prático. Felizmente, a artesã conheceu um professor que apreciava a mistura de linguagens artísticas dominada por ela. Ele a orientou na produção do seu trabalho de conclusão de curso, centrado na investigação de como os materiais do universo do ateliê de costura tinham se incorporado aos trabalhos acadêmicos. A questão de gênero se relaciona com o bordado no momento em que a sociedade impõe a este tipo de arte um caráter exclusivamente “feminino”. Como explica Ana Paula Simioni, pós-doutora em sociologia pela Universidade de Genebra, “o estatuto cultural das obras realizadas em tecidos, notadamente as classificadas como ‘bordados’, é socialmente ambíguo em nossa sociedade”. Mas o que faz do ato de se utilizar tecidos e linhas para fazer arte uma prática associada à feminilidade? A pesquisadora contextualiza que, em partes, isto se dá porque as mulheres de antigamente eram excluídas de atividades como a pintura e a escultura, e acabavam fazendo criações próprias mais “caseiras” para suprir seus desejos artísticos. Tais modalidades, consideradas inferiores na hierarquia dos gêneros artísticos pelas Academias, foram sendo associadas às práticas artísticas de mulheres. Toda esta construção cultural preconceituosa reforça a importância do estudo de gênero em todos os níveis da sociedade, para que os fios da igualdade comecem a ser tramados. Para Bernardo, a questão de gênero pode ser facilmente comparada com o bordado. “Destrinchar um fio é estudar o gênero. Vários aspectos que compõem a mesma pessoa. Nem sempre estes aspectos são respeitados e podem acabar sendo mal interpretados. Todos nós somos compostos por esta complexidade de fios e cada um é diferente do outro. Mesmo que um artesão faça trinta peças, nenhuma vai ser igual. É essa singularidade que torna tudo tão peculiar e todos tão diferentes”.

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Educação

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Os profissionais do oimpossivel sofrimento docente Pesquisadores do IPUSP abordam a questão do tratamento terapêutico de professores que sofrem com as pressões comuns à carreira de docente

Por Vitória Batistoti Colaboração de Aryanna Oliveira

É no espaço escolar que a relação entre professor e aluno acontece – relação esta que é de extrema importância para a formação dos dois indivíduos em questão. As relações sociais estabelecidas na escola, tanto entre criança e professor quanto entre a criança e seus pares, têm importante impacto para o desenvolvimento futuro da criança, incluindo a formação de sua personalidade e caráter. Para o aluno, o período na escola ocupa maior parte de seu tempo e é ali que ele inicia seu contato com o outro – conhece indivíduos novos, valores diferentes dos seus e experimenta a descoberta de si próprio. Por outro lado, o professor realiza sua carreira profissional no ambiente escolar, aplicando seu conhecimento didático e adentrando espaços onde cada indivíduo possui sua particularidade, singularidade e dificuldade. Diante dessa complexa situação, o professor pode deparar-se ainda com demandas de

pais de alunos, desvalorização da sociedade, precariedade na convivência com a administração e a estrutura escolar, além da pressão para o cumprimento de programas e planos de curso. Neste ponto, surge a angústia de lidar com todas essas variantes, mal-estar por não dar conta de expectativas, sofrimento, adoecimento, um “estado depressivo”. Tratando desses aspectos que compõem o dia a dia de professores e alunos de diferentes idades e ciclos, os pesquisadores do IPUSP Mariana Maia Munhoz, Marcelo Ricardo Pereira e Luciete Valota Fernandes, em seus trabalhos acadêmicos, trazem à tona abordagens que não só apresentam, mas, também, discutem e apontam caminhos para um ponto em comum: o professor precisa falar e ser escutado em um processo terapêutico. Com essa possibilidade, talvez se possa enfrentar os sintomas e superá-los. psico.usp | 115


CAIR ANTES DA QUEDA O padecimento dos docentes na contemporaneidade foi tema para o pesquisador e professor Marcelo Ricardo Pereira, que realizou seu estudo de pós-doutorado junto aos Sindicatos de Professores e às Secretarias da Educação e da Saúde do Estado de Minas Gerais e do Município de Belo Horizonte. Sua pesquisa se define como interventiva, pois, além da coleta de dados, houve intervenção clínica, que buscou liberar os sintomas manifestados pelos professores analisados. Durante dois anos de estudo, somando sete colégios analisados e mais de 50 professores envolvidos durante o processo, Marcelo obteve dados que compuseram a amostra de escolas e instituições da cidade a se trabalhar. O mal-estar docente, cujos registros datam desde o século XIX, está acometendo cada vez mais professores, que se dizem desrespeitados e desautorizados. Essa queixa uníssona proferida pelos docentes é a tradução de determinadas conjunturas, tais como o declínio do discurso do mestre e as precárias condições de trabalho, além do crescente fenômeno de esgotamento e hipermedicalização, entre outros motivos. É no professor que o aluno depositará a posição de autoridade e de possuidor do saber ideal, contudo – ou por isso mesmo –, em sala de aula, o professor será checado, interrogado e desafiado. Por esta razão, “o professor terá de afrontar o outro e não poderá cumprir tal missão sem que seu Eu não seja tão fortemente avaliado pelo Supereu: suas faltas, suas fraquezas, sua personalidade”, como afirma Pereira. Além desse julgamento, o docente raramente conseguirá transmitir o conhecimento da forma como planejara, portanto, essa transmissão será sempre incompleta. No decorrer dessa relação, o professor se sente paralisado ao ter de lidar com os desvios, as diferentes formas de aprendi-

zagem, a experiência da agressividade e da sexualidade de seus alunos. É como se pensasse: diante disso, me sinto impotente. “Todas as exigências impossíveis, as demandas, os confrontos, os julgamentos, podem levá-lo ao sentimento de fracasso, à culpa, à impotência”. Essa crença acaba sendo a responsável pela contínua ameaça, por ele sentida, de que a transmissão do saber, com base nos ideais pedagógicos que a formação e a sociedade ocidental lhe imprimem, não será efetivada. “O professor tende a viver o fracasso como algo muito próprio”, explica o pesquisador. O fracasso no cotidiano do processo educacional tem especial repercussão numa sociedade cada vez mais hedonista, que privilegia o gozo e o sucesso imediato. Professores tendem a sentir-se frustrados quando resultados, tidos como ideais, não são alcançados. No entanto, essa configuração de viés imediatista no contexto escolar não garantiu um mundo de fruição e de bem-estar; “ao contrário, nos levou ao puro estado de desilusão, de vazio, de despossessão de si. A angústia generalizada que se vive hoje surge exatamente em decorrência do prazer não regulado”, relata o pesquisador. Na pesquisa realizada por Pereira, experiências de 50 professores de adolescentes foram registradas. Esses profissionais denunciaram o abuso de psicofármacos e os males comuns à docência: depressão, ansiedade, estresse, transtorno bipolar, pânico, Transtorno Obsessivo Compulsivo, problemas alimentares e uso de álcool, resultando em afastamentos ou desvios de função. “Vivemos em uma sociedade sobremedicalizada devido ao avanço das pesquisas e da indústria de psicofármacos, à facilidade de acesso a eles, ao imperativo de satisfação de uma sociedade cada vez mais hedonista, ime-

O professor tende a viver o fracasso como algo muito próprio

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Reprodução

diatista e intolerante à dor”, explica. Com isso, multiplicam-se os medicamentos e multiplicam-se as novas psicopatologias. Após a realização da pesquisa, Pereira notou que o estado depressivo e outros fenômenos patológicos protagonizam o quadro sintomático de grande parte dos docentes analisados na pesquisa. “Não se pode dizer, porém, que todos os docentes que se disseram depressivos realmente sejam. A força de generalização desse diagnóstico parece imperar entre eles”, explica o pesquisador. Além disso, ele destacou que grande parte dos problemas enfrentados pelos docentes não dizem respeito aos alunos. Estes até podem contribuir para a manifestação de algum padecimento, mas não são os principais responsáveis. Nesse sentido, o que se revelou foi muito mais uma expressão de “covardia moral” e “fuga para a doença”. Nessa conjuntura, o professor cai antes da queda, ou seja, ele se inibe e se coloca em posição de recuo em relação à sua própria potência de mestre e transformador perante os desafios diários da profissão, como o aparente desinteresse e a afronta dos alunos, e as fragilidades da organização escolar. “Mas

por que cedem ou por que fazem recuar sua própria potência e evitam o enfrentamento? Porque sabem de antemão que não a têm. Sabem de antemão, como qualquer mortal, que não são capazes de responder às demandas do outro e preferem se evadir”, comenta o pesquisador. “Como é possível transformar um aluno que o docente já julga não ter nem condição nem ilusão de transformá-lo? O professor que não acredita no aluno não o leva a parte alguma”, diz. A hipótese levantada para explicar o estado depressivo do professor relaciona-se à necessidade de perfeição das demandas que lhes são feitas em conjunto com uma escolha que ele mesmo fasto porque, ao assumir este estado, ele renuncia a sua própria potência de docente e à capacidade de mudança em seus alunos ao reconhecer que não é capaz de responder às demandas que lhes são destinadas. Essa inibição no espaço de trabalho leva o docente a viver uma diminuição de prazer no ambiente em questão, tornando-se menos capaz de realizá-lo, o que lhe causa esgotamento, estresse e irritabilidade. O refúgio no mal-estar encontrado pelo docente lhe traz benefícios no que tange à psico.usp | 117


possibilidade de esconder suas próprias liDevemos pensar a salubridade dos docentes mitações e responsabilizar o meio no qual como uma das ferramentas necessárias para está inserido. “Não é que [o meio] não seja, a frutificação de um ambiente educacional mas o professor se defende de perceberem próspero e enriquecedor. que ele também contribui para que o meio em que está não funcione bem”, comenta PROFESSOR PSICANALITICAMENTE Pereira. Dessa maneira, o docente assume ORIENTADO um caráter duplo de problema e solução: Enquanto desempenhou a função de na medida em que fica incapacitado para estagiária e auxiliar de professores, Maaproveitar a vida e preso à condição mórriana Maia Munhoz percebia o ambiente bida, ele cria uma identidade de depressivo, escolar como um espaço diferente, muibeneficiando-se tanto da comiseração dos to estressante. Além das dificuldades outros como de ganhos por ser poupado dos docentes em sala de aula, a pesquino trabalho, o que pode gerar, inclusive, o sadora considerou a situação de crianafastamento laboral. ças inseridas em espaços tão exaustiA medicalização e a busca por psicofárvos, algumas originadas de situação macos são métodos dos quais os docentes familiar difícil, com autoestima baixa, se utilizam para refugiar-se deste conflito. que, ao adentrar o ambiente escolar, enEntretanto, tais escolhas podem acentuar frentam dificuldades com os colegas de a covardia moral, em sala, não conseguindo Medicam-se, agora, tristezas captar a atenção do vez de ajudar o sujeito a enfrentar a dificuldade. e comportamentos, sem dar a professor, porque este “Medicam-se, agora, está muito ocupado tristezas e compor- mínima chance ao sujeito de com o cumprimentamentos, sem dar a to dos conteúdos, o mínima chance ao su- poder ter o tempo suficiente cronograma da alfabejeito de poder ter o tização, incapacitado, para elaborá-los por meio tempo suficiente para portanto, de observar de seus próprios recursos elaborá-los por meio o lado emocional do de seus próprios recurdesenvolvimento do simbólicos, e, assim, poder aluno. “Quis estudar sos simbólicos e, assim, poder sair deles mais essa relação e chamar sair deles mais fortalecido fortalecido”, explica o a atenção para a imporpesquisador. tância do professor, não Para a solução desse problema, Pereira só para o desenvolvimento pedagógico da pensou na criação de “espaços de fala indivicriança, mas para o desenvolvimento social duais e coletivos”, que seriam possibilidades e emocional”, diz a pesquisadora. nas quais docentes tenham a chance de faEm seu estudo, Munhoz analisou o lar acerca do mal-estar que experienciam e, exercício da função de duas professoras assim, liberar seu sintoma, “desidentificardo primeiro ano do Ensino Fundamental -se” com ele, ou elaborá-lo. Conforme cita o da rede pública em sala de aula. A escopesquisador, “dificilmente conseguiremos lha por esse período escolar deu-se por avançar sem que algo específico da prática ser um momento de transição, uma nova do professor seja recolocado no epicentro fase para os alunos, ao passo que, para o do debate: repensar suas condições de traprofessor, é a etapa de assumir uma tarebalho, sua remuneração, suas relações com fa pedagógica bem específica: o início da o saber e com a formação”. Para tanto, é alfabetização. “É o período em que o espreciso “auxiliar o professor a recuperar quema da escola muda muito para a criansua coragem moral para atuar em situações ça: a grade escolar, as exigências… Pode de incerteza e descontinuidades”, afirma. ser um momento mais ansiógeno para a 118 | psico.usp


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criança, com maiores desafios, que denota a importância do professor ser acolhedor, suportivo”, explica Munhoz. A pesquisadora verificou que a instituição escolar e o relacionamento entre professor e aluno fazem emergir atitudes infantis, como foi o caso de uma das professoras, onde “existia uma necessidade grande de ser admirada e amada. Para ela, a indisciplina dos alunos trazia uma sensação de rejeição para com ela. Suas reclamações eram de coisas muito pessoais, e não profissionais. Dessa forma, ela se defendia de forma explosiva, com muita raiva”, relata. A outra docente, por sua vez, durante uma das conversas, fez as seguintes observações: “Eu sinto que, assim como a instituição faz e como minha mãe fazia comigo, eu faço com os alunos”. Munhoz explica que esse relato demonstra como a transferência está presente nesse ambiente. “A mãe dela era extremamente rígida, então ela tem memórias de uma mãe pouquíssimo afetuosa, exigente, inclusive com as questões dos estudos”, comenta. A professora também demonstrou sentir insegurança e vontade de ser espontânea e afetuosa com seus alunos. Segundo a pesquisadora, o descontentamento, a frieza e a rigidez da professora eram fortalecidos pela escola, que, por seu turno, era exigente e, semanalmente, cobrava resultados dos professores. Isso ressaltava ainda mais essas características da docente. Alguns dos principais impasses que existem na relação professor-aluno são o número de alunos em sala, o excesso de tarefas e exigências dadas pela instituição, e a falta de tempo para seguir o cronograma das aulas. Além disso, as diferenças entre os alunos, principalmente na alfabetização, era uma questão que dificultava o trabalho das professoras. “O que me pareceu mais problemático foi a relação delas

com os alunos. Era um relacionamento estressante e infeliz. Essa era uma queixa das duas, e elas estavam muito infelizes em relação a isso, causava uma queixa, um conflito”, comenta a pesquisadora. O desafio da alfabetização, as demandas institucionais exigidas do professor e a exigência para consigo mesmo são bastante estressantes para os professores do primeiro ano do Ensino Fundamental. As dificuldades enfrentadas nesse ambiente podem desencadear problemas físicos e emocionais, como, por exemplo, um burnout (alto índice de estresse profissional que desgasta emocionalmente e danifica aspectos físicos e emocionais) ou algo próximo a isso. A pesquisadora afirma que essas dificuldades em sala de aula ocorrem porque o professor é formado para atuar na parte pedagógica, deixando de lado partes da formação e, como a revivência dos aspectos infantis, a questão dos impulsos da criança e o modo como a indisciplina de um aluno afeta a do outro. Para exercer a função para a qual foi incumbido, o professor teria, então, que dispor de muitas ferramentas, desde a sua formação. A respeito disso, era comum que as professoras analisadas durante a pesquisa dissessem coisas como “eu não fui preparada para essas questões de indisciplina e problemas do aluno, eu fui preparada para alfabetizar!”, conta Munhoz. Nesse sentido, o docente deve assumir o papel de professor psicanaliticamente orientado, ou seja, estar atento aos múltiplos aspectos do aluno em sala de aula. Muito além da relação pedagógica, o professor psicanaliticamente orientado teria um olhar mais atento para o mundo subjetivo presente no processo educativo, tanto para a sua subjetividade quanto para a de seu aluno, bem como para os aspectos inconscientes presentes e influentes na

A instituição escolar e o relacionamento entre professor e aluno fazem emergir atitudes infantis

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relação entre ambos. Contudo, não seria o caso do professor fazer análise ou assumir o psicanalista em sala de aula. Munhoz explica que seria “a psicanálise saindo do consultório e amparando os professores, com trabalhos em grupo em que possam compartilhar essas dificuldades, ou algum psicólogo na escola que esteja à disposição do docente”. INSTRUMENTO DE RESISTÊNCIA Conhecendo esse panorama de mal-estar docente em perspectivas atuais e contemporâneas, a pesquisadora Luciete Valota Fernandes propôs, em sua tese, a criação de um espaço grupal em que professores pudessem participar. Acreditando que a existência de um espaço de reflexão acerca do trabalho pedagógico exercido pelos professores funcionaria como forma de resistência ao sofrimento e adoecimento do professor e à alienação no exercício da profissão, Fernandes atuou em um grupo para fundamentar sua pesquisa-intervenção. Com base nisso, foi verificado que o processo grupal é capaz de criar oportunidades para reflexão coletiva sobre os elementos positivos e negativos acerca da profissão e produz avanços nas consciências pedagógicas. “Nós consideramos que esse sofrimento e adoecimento têm relações com as determinações sociais e econômicas mais amplas da sociedade capitalista”, relata. Essa vivência foi capaz de gerar uma identidade coesa, entendida como momento importante para o desenvolvimento de uma identidade menos institucionalizada e mais emancipada, além de abrir espaço para a discussão e reflexão dos elementos gerais e singulares da fragmentação e da alienação do trabalho pedagógico. As discussões grupais que ocorreram

durante as reuniões consideraram como objetivações positivas do trabalho as atividades de ensino potencialmente geradoras de sentido pessoal. No que diz respeito aos elementos negativos, encontram-se o poder mediato e imediato da administração escolar, desvalorização financeira e social dos professores, além das políticas educacionais autoritárias. Ou seja, por meio das mediações grupais, os docentes puderam expressar tanto o sofrimento psíquico que carregavam consigo, como discutir a atividade educativa com companheiros de profissão. “O grupo satisfaz necessidades humanas fundamentais para esses professores. Permite a transformação e o aprofundamento dos laços afetivos e sociais, produzindo maior humanização nas relações concretas, o que é um elemento fundamental de resistência ao sofrimento e à alienação”, comenta Fernandes. Essa reunião e compartilhamento de impressões e significados, muitas vezes, possibilita a descoberta, por parte dos docentes, de algo que parecia ser exclusivo e individual de cada um deles, mas que, em verdade, atinge tantos outros. “Na ausência do grupo, os professores não teriam a oportunidade de contatar e de discutir os aspectos característicos da particularidade social que medeiam suas consciências e atividades vitais, pois não existem outros espaços cotidianos nos quais eles possam repensar autenticamente, de forma democrática, horizontal e coletiva, os seus trabalhos”, relata a pesquisadora. Fernandes conclui afirmando que o espaço grupal proporcionou ganhos significativos aos professores participantes, mesmo em pouco tempo de trabalho, por propiciar a expressão das necessidades do professor no ambiente escolar. Pesquisa de Mariana Maia Munhoz - clique aqui Pesquisa de Luciete Valota Fernandes - clique aqui

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Pesquisa do IPUSP analisa a maneira como os brasileiros leem livros

Por Aryanna Oliveira

Com o progressivo aumento nas vendas de leitores digitais, como e-readers, tablets, computadores e celulares, profissionais de diversas áreas têm questionado a qualidade da leitura realizada por meio destes aparelhos. Partindo desta reflexão, Luciana Dadico, doutora em Psicologia pelo IPUSP, procurou conhecer como os jovens e adultos leem livros no Brasil. O resultado de sua meticulosa pesquisa deu origem à sua tese de doutorado, orientada pela profa. Dra. Iray Carone. Movida pela questão “como lemos livros hoje?”, Dadico desenvolveu um método fisiognômico (em analogia à fisiognomia, método de leitura facial) de pesquisa com objetivo de descrever as características do livro em papel que configuram modos próprios de leitura. 122 | psico.usp

Como parte essencial de seu projeto, ela entrevistou dez leitores, homens e mulheres entre 18 e 74 anos, em dois encontros individuais. Em uma conversa aberta, os entrevistados contavam sobre seus hábitos e histórias de leitura, e escolhiam um livro para ler e discutir em um segundo encontro com a pesquisadora. Após a análise dos relatos gravados, a pesquisadora procurou caracterizar como cada leitor lia o livro que tinha escolhido. “Eu queria saber que tipo de imagem [os leitores] construíam a partir da leitura da obra, do livro-texto, porque entendo que é a partir daí que se revela como os leitores brasileiros leem, analisando as imagens que se cria a partir da própria experiência, simultaneamente coletiva e individual”, explica Dadico.


Dinho Martins

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O método usado pela psicóloga foi inspirado nos estudos realizados por Theodor Adorno, Walter Benjamin e Roger Chartier. Em seus estudos de Fisiognomia, Adorno analisou o rádio como meio de comunicação, preocupado em descobrir como a mediação do aparelho afetava a escuta musical do ouvinte. Para isso, era necessário saber como o ouvinte percebia não apenas a música transmitida, mas, principalmente, o próprio rádio. Como na época o rádio parecia possuir um rosto, Adorno denominou seu método de descrição do rádio de “fisiognômico”. Dadico explica que “o ouvinte [...] via os alto-falantes à semelhança de uma de boca em uma face humana. O que ele não sabe, e é forçado a pressentir com os instrumentos que têm à mão, é o que vai por detrás do rádio. Retira-se do ouvinte a imagem – viva – do intérprete e daquele que diz, e se lhe põe uma fantasmagoria no lugar, cuja face ‘real’ ele deve apenas supor, imaginar, na verdadeira acepção do termo.” Mas qual seria a relação entre esses estudos sobre rádio e os modos de leitura do brasileiro? A pesquisadora explica em sua tese de doutorado que, embora pareça neutro, também o livro é um objeto mediador: “É o livro quem torna a leitura possível. Como objeto, ele também tem características próprias, que limitam ou favorecem certos modos de ler”. Segundo a pesquisadora, com base no método criado, foi possível descobrir como as características espaciais e temporais do

livro – suas características imanentes – são percebidas pelos leitores de hoje. Também se percebeu como a experiência do leitor é afetada pelas características do objeto: “Como o livro é portátil, parece que ele pode ser levado e lido em qualquer lugar. Mas a pesquisa mostrou que isso não é totalmente verdadeiro. A ilusão de que qualquer livro pode ser lido facilmente, associada à escolha de um ambiente inadequado para ler, interfere na qualidade dessa leitura”. E completa: “A ideia de fisiognomia é como eu vejo a face desse objeto e como esse objeto aparece para mim como sujeito. Então a minha pergunta com relação ao livro era como esse objeto aparece para o leitor de livros”. O livro promove o que Dadico chamou de “ilusão de proximidade”, pois o livro “leva o leitor a sentir-se próximo ao autor/narrador da obra, como se o texto tivesse sido escrito exclusivamente para ele”. E também está ligado a uma “conservação temporal”, que, segundo a pesquisadora, “diz respeito à duração do livro, à possibilidade que o livro oferece de chegar aos mais diversos e inusitados lugares, de ser lido por muitos leitores e repetidas vezes”. Ela acrescenta: “Esse atributo torna o livro muito potente, capaz de provocar experiências individualizadas, independentes das relações pessoais próximas ao leitor, e em épocas as mais variadas”.

A ideia de fisiognomia

é como eu vejo a face desse objeto e como esse objeto aparece para mim como sujeito. Então a minha pergunta com relação ao livro era como esse objeto aparece para o leitor de livros

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Analisando os dados levantados pela pesquisa, Dadico descreveu os modos como os leitores leem no Brasil. Ela explica, por exemplo, que há um jogo entre o que ela chama de “identificação subjetiva” e “ponto de fuga”. “A identificação subjetiva é o modo como os indivíduos se identificam com a obra, e elas usam esse termo ‘eu me identifico’, ‘eu me identifico com uma passagem, com um personagem, com o livro’. Essa identificação é aquilo que permite uma imersão na obra literária”, explica. Entretanto, essa identificação não é estanque, ou seja, o leitor normalmente não se fixa em um ponto de vista e o segue de um mesmo modo até o fim da leitura, “hoje em dia é mais comum que as pessoas saltem de uma perspectiva para outra, se identifiquem, se aproximem ou se afastem de um ou de outro personagem durante a leitura”, explica. A essas diferentes perspectivas ela chama “ponto de

fuga”, que corresponde ao modo como o sujeito percebe os objetos e elementos da obra a partir de um ponto exterior. É um momento de distanciamento em relação a um personagem da obra ou um ponto de vista, por exemplo. Esta alternância entre identificação e ponto de fuga é o que proporciona ao leitor uma experiência ainda mais profunda, deslocando-se na obra, usufruindo a experiência literária de forma tão rica, diversa de outras formas de arte. Esse dado é bastante positivo porque, segundo a pesquisadora, um dos grandes riscos do processo de identificação é que o leitor adapte a obra à sua realidade, tomando a ficção como um relato de sua vida. “Isso faz com que, na contramão daquilo que se espera por meio da experiência estética, o sujeito se mostre incapaz de abrir-se para o novo, de entrar no universo da obra e assumir um lugar diferente do seu”, afirma Dadico.

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Um dos objetivos de Dadico em sua pesquisa de doutorado era levantar dados que permitissem uma comparação entre o modo como lemos livros no papel e o modo como lemos livros em dispositivos digitais. Deste modo, torna-se possível compreender melhor as mudanças em curso nesses modos como lemos livros: é este o principal objetivo do projeto de pós-doutorado da psicóloga. A pesquisa, ainda em curso, envolveu novas entrevistas, realizadas agora com usuários de dispositivos digitais. Segundo a pesquisadora, os computadores já estão presentes em 34,7% dos domicílios e são utilizados como meio para leitura por 9% dos leitores entrevistados por ela. Esses dados foram importantes para o desenvolvimento do novo projeto, em que ela analisará as leituras feitas em computador (diretamente em um site ou em arquivo pdf), pelo celular e por meio de e-readers com a leitura de ebooks.

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O novo projeto analisa a questão das novas mídias, buscando identificar como as novas tecnologias digitais afetam a mediação do livro, promovendo modos próprios de leitura em tela. Conforme analisa Dadico, a forma de entender esses objetos mediadores é distinta do livro comum, já que o livro em papel aparece como um objeto concreto e unitário, que se conserva no tempo. Com os dispositivos digitais, por outro lado, é difícil até mesmo afirmar que se tratam de objetos, uma vez que “seus elementos não são diretamente manipuláveis”. Desse modo, Dadico relata que “é como se os objetos digitais realmente aparecessem, feito a aparição de uma entidade sobrenatural, que acontece apenas quando clicamos em um botão ou ligamos o computador”. Embora a pesquisa em curso venha exigindo da pesquisadora a formulação de um novo método de pesquisa, do ponto de vista teórico, seus referenciais perma-


necem ligados àqueles da chamada Teoria Crítica da Sociedade, proposta por autores como Walter Benjamin e Theodor Adorno. Sob essa perspectiva, a psicóloga tem procurado compreender como a mediação digital afeta o livro, a leitura, as obras literárias e a própria experiência do leitor de forma dialética, tendo em vista as peculiaridades da cena histórica, cultural e tecnológica atual. Há novas características a serem estudadas na leitura do livro em suporte digital. No seu doutorado, Dadico verificou que, em meio ao “circuito de distrações” gerado pelo livro, a leitura distraída pode ser apontada como um modo de ler característico, que dificulta ao leitor o controle de seu próprio ritmo e qualidade da leitura, mas que também se faz necessária para a compreensão e a experiência da obra. Este fenômeno assume aspectos diferentes na leitura em tela, pois a luminosidade do aparelho eletrônico funciona como um ininterrupto estímulo visual: “o leitor não consegue se distrair do meio como deveria para alcançar a imersão na obra que

a experiência estético-literária requer. O dispositivo nos chama o tempo todo, exige que estejamos conectados, em rede. A distração do leitor é capturada por outros objetos dentro do próprio dispositivo, como o e-mail, o site de vídeos, a rede de relacionamentos”, elucida. Dadico, que havia realizado anteriormente um estágio na Scuola Normale Superiore di Pisa, concluiu no início de 2015 um novo estágio de pós-doutoramento no Programa de Teoria Crítica da Universidade da Califórnia, em Berkeley, sob supervisão do prof. Martin Jay, um dos maiores especialistas mundiais em Teoria Crítica. Estes estudos proporcionaram, entre outros benefícios, acesso a uma vasta bibliografia ainda indisponível no Brasil, tanto sobre a história do livro e da leitura quanto sobre Teoria Crítica, além do contato com aquilo que de mais recente vem sendo desenvolvido no campo de estudos das Novas Mídias – material que tem contribuído proveitosamente para a análise dessas pesquisas, em especial para a análise da leitura digitalmente mediada. Pesquisa de Luciana Dadico - clique aqui

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“Muitas vezes a história das crianças carrega muito mais verdade que a dos adultos”

Projeto analisa os efeitos da migração em crianças e como são tratadas na escola Por Sofia Mendes

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O processo de migração para uma família pode causar uma série de traumas, sejam eles advindos das condições que determinaram o exílio do país de origem ou da falta de acolhimento no país de destino. Uma pesquisa de pós-doutorado que está sendo realizada pelo IPUSP em cooperação com o Laboratório de Psicologia Transcultural (Paris 5 – INSERM), busca analisar os efeitos do deslocamento forçado em crianças migrantes. Para entender esse processo a pesquisadora escolheu o ambiente escolar como lugar da pesquisa, uma vez que “a escola é o representante, por excelência, do novo mundo exterior” e é nesse espaço de convivência que as crianças e adolescentes poderão estabelecer definitivamente os laços simbólicos com a nova cultura.


A pesquisa, realizada por Viviani Carmo-Huerta, se propõe a analisar como o processo de imigração influencia a formação do jovem sujeito e como as escolas se colocam diante das diversas consequências da imigração em uma criança. Para isso, foi realizado um trabalho em instituições de ensino que acolhem um grande número de crianças em situação migratória. Esse projeto buscou ouvir e entender o lado dos pequenos, que muitas vezes são diminuídos e negligenciados. É importante lembrar que, quando se fala da criança que veio de fora, não só o sofrimento deve vir à cabeça, mas também a potencialidade que ela carrega. “Uma criança que é bem instalada em uma dupla cultura possui uma riqueza de vivência maior que aquela que é instalada em apenas uma”, explica Carmo-Huerta. Além desse potencial, as crianças migrantes encaram um desafio que os nativos desconhecem. São esses futuros adultos que vão apresentar o mundo exterior para seus pais, que serão a ponte entre o núcleo familiar e o novo país. O passo à frente que os filhos são obrigados a dar muitas vezes gera um amadurecimento precoce, e todo o processo pode ser conflitante para eles. Carmo-Huerta explica que se a escola impuser uma limitação à transmissão da cultura familiar “pode criar um conflito na criança, como se avançar nesse novo mundo significasse uma traição à própria cultura”. Tudo isso mostra a importância dos profissionais da educação no âmbito escolar, já que a escola é o primeiro representante do mundo externo – e novo – para os pequenos que vêm de outra cultura. CRIANDO HISTÓRIA Para ouvir a versão dos pequenos, foram realizados os chamados ateliers “criando história”, onde eles puderam criar uma espécie de álbum de família. Nele, as crianças são estimuladas a representar suas famílias em três tempos – passado, presente e futuro – e, assim,

reconstruir a história da migração familiar. Tudo isso usando o desenho, que, segundo Viviani, é a palavra das crianças. “Eu acho que é uma forma de a criança se incluir numa história de família. Incluir a própria versão dela como alguém que viveu alguma coisa”, ela afirma sobre o papel dos ateliers. A história contada pelas crianças muitas vezes não é considerada. Viviani conta que a clínica com a família migrante tem um foco muito maior na versão do adulto, enquanto a criança é deixada em um canto para brincar. “A criança tem uma versão da história e ela tem que ser ouvida, porque muitas vezes ela carrega muito mais verdade do que a história dos adultos”, conclui. A ideia de criar um álbum de história da criança feito por ela mesma busca entender e valorizar esse relato. O DISCURSO ESCOLAR Com todo esse estudo de campo, foi possível observar como as instituições de ensino lidam com a criança de outra cultura. As escolas, apesar de apresentarem simpatia e boa vontade com a situação, muitas vezes não têm o preparo adequado para lidar com os imigrantes e acabam indo para o caminho da generalização e patologização. Ainda, as dificuldades de aprendizado das crianças são muitas vezes tomadas como um distúrbio que deve ser tratado com medicamentos. O sistema educacional brasileiro, portanto, não está preparado adequadamente para receber e tratar as potencialidades dos meninos e meninas imigrantes. Por isso o objetivo da pesquisa é propor a mediação cultural nesses ambientes. A exemplo do que foi feito na França pela pesquisadora, a ideia é instalar “módulos de formação” nas escolas, com grupos de mediação transcultural. Toda essa ideia tem como objetivo combater o despreparo da escola no Brasil em relação à criança imigrante que, assim como os demais futuros adultos do país, passa a escrever a história brasileira. psico.usp | 129


A experiência

Japonesa

O Departamento de Psicologia Experimental do IPUSP pôde observar a experiência japonesa na integração de alunos estrangeiros ao sistema de ensino. Como convidado de uma delegação de pesquisadores do National Institute for Educational Policy Research (NIER), órgão responsável pelas políticas nacionais de educação no Japão, o Prof. Dr. Gerson Yukio Tomanari, da área de Análise Experimental do Comportamento, visitou escolas e instituições educacionais na região de Tokushima, ilha de Shikoku. A região de Tokushima possui uma baixa concentração de estrangeiros. Esta comunidade é composta principalmente por asiáticos que geralmente fixam residência no local, sobretudo com o aumento da incidência de casamentos inter-raciais. Os novos membros da comunidade parecem ser bem recebidos pelos representantes dos poderes locais, que reconhecem o valor cultural das interações entre japoneses e estrangeiros. Do ponto de vista econômico, com as tendências de diminuição gradual da população, é reconhecida a importância dos novos indivíduos na dinamização da economia local. Por meio de uma série de iniciativas, é demons130 | psico.usp

trada uma preocupação concreta com a boa inserção dos novos moradores, tanto no ambiente escolar quanto no ambiente social e profissional. Contudo, apesar das iniciativas variadas de recepção e integração dos recém-chegados, essas ações acontecem de maneira fragmentada, em diferentes formatos e em diferentes instituições. Diante desse problema, a missão do NIER era conhecer melhor as iniciativas, com o objetivo de consolidar uma rede de ações uníssona que pudesse obter um apoio governamental mais amplo. Assim, foram visitadas escolas e instituições, como a Japonese Teaching Masterclass (JTM), que promove atividades de ensino de língua japonesa e formação de professores, e a Tokushima Prefectural Internacional Exchange Association (TOPIA), que presta assistência a estrangeiros que residem no Japão. Numa das escolas visitadas, a escola Sako Shogako, o diretor, Sr. Tsuji, recebeu os visitantes com a palavra “aijitsu”, que se refere às relações de respeito aos pais e ao aprender, diretamente associadas aos valores da escola. Durante a oportunidade, o Sr. Tsuji falou sobre o valor cultural do contato entre


crianças de diferentes nacionalidades e ressaltou que privilegia um tratamento equivalente para todas elas. No que diz respeito à integração e ao desenvolvimento das crianças estrangeiras no ambiente escolar, um elemento interessante pôde ser observado. As crianças japonesas são muito colaborativas com seus colegas estrangeiros, mas, assim que estes adquirem autonomia no processo comunicativo, os conflitos, naturais entre crianças, começam a emergir. Este importante sinal da integração revela a positividade e a igualdade presentes no ambiente escolar. Outra instituição que recebeu a delegação foi a Escola Showa. Nela, a diretora promove encontros entre os alunos e estudantes bolsistas estrangeiros da Universidade de Tokoshima. Nesses encontros, os universitários fazem apresentações de aspectos dos seus países de origem. Instituições não diretamente educacionais, como a JTM, atuam no ensino e também com um papel de assistência,

com ajuda psicológica, agenciamento para o emprego e assistência social e profissional. Já a TOPIA oferece uma estrutura informacional por meio de uma biblioteca e diversas publicações, como, por exemplo, um manual que disponibiliza informações básicas a respeito de como viver em Tokushima. Um dos projeto desta instituição oferece o apoio de uma intérprete que atua como “conselheira”. Trata-se de uma pessoa chinesa, vivendo hoje no Japão, que atua junto à comunidade escolar estrangeira. Ela conversa com as crianças via Skype e as aconselha a partir de sua experiência pessoal. Acerca da visita, o Prof. Dr. Tomanari avalia que, apesar da falta de uma rede de apoio integrada e de grande abrangência em Tokushima, as iniciativas encontradas demonstram uma preocupação significativa dos setores oficiais com a boa inserção destes estrangeiros na sociedade local. – CAROLINA SASSE

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SaĂşde

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A angústia da separação Pesquisadoras do IP analisam distúrbios alimentares acarretados por problemas no processo de diferenciação entre mãe e bebê Por Sofia Mendes e Vitória Batistoti

M

uito além da busca pelo corpo ideal, a anorexia e a bulimia são patologias alimentares perigosas que atingem cada vez mais garotas ao redor do mundo. Essas patologias são encontradas com maior frequência em adolescentes e adultos, independentemente do grupo étnico. Contudo, essa doença é dez vezes mais comum em mulheres do que em homens – os pacientes com anorexia nervosa do sexo masculino representam entre 5 a 10% dos casos, segundo o artigo “The clinical presentation of anorexia nervosa in males”. Preocupante também é seu índice de mortalidade: 12 vezes maior que o da população normal da mesma faixa etária e duas vezes maior do que pacientes portadores de outros transtornos psiquiátricos, segundo analisado pelo artigo “Epidemiology of women’s psychiatric disorders”.

Há diversas possibilidades de compreensão da anorexia e da bulimia, muitas das quais já foram bastante exploradas no campo acadêmico. Uma literatura mais recente propõe novos significados e desencadeamentos para essas patologias alimentares, apontando as semelhanças das relações que os pacientes anoréxicos constroem com pessoas e alimentos. Nessa forma de abordagem, o ponto de partida geralmente é o relacionamento estabelecido pelo paciente enquanto bebê com a figura materna. Utilizando-se dessas percepções, as psicólogas Maria Carolina Cerqueira César Garcia, em sua tese, e Verónica Lara Wainsten, em sua dissertação, ambas defendidas no IPUSP, se propuseram a pesquisar como esse relacionamento pode abrir espaço para o surgimento de patologias alimentares no futuro. psico.usp | 133


O DESCOLAMENTO O recém-nascido é um indivíduo frágil. É imaturo e inapto a realizar as tarefas para garantir sua sobrevivência, as quais são, portanto, assumidas pela figura materna. Essa relação de dependência gera no bebê um sentimento de unidade, pois ele se sente conectado à mãe, como se ela fosse uma extensão sua. A atuação da mãe que provê esse ego auxiliar do bebê recebe o termo “mãe suficientemente boa”, criado pelo psicanalista D. W. Winnicott. Contudo, essa relação não perdurará para sempre. A mãe terá que mostrar ao bebê a realidade, e se portar como indivíduo separado dele, ou seja, descolar-se do bebê. “No início, não há mãe e bebê – pelo menos não para o bebê. Eles são uma unidade só”, relata Wainstein. A pesquisadora ainda complementa explicando que “quando o bebê começa a perceber que a mãe é um outro diferenciado, que pode ir e não voltar, ele passa pela angústia da separação”. Visto isso, Garcia explica que, no momento da separação, é necessário que “o bebê consiga efetuar esse processo, que é sempre muito delicado e sujeito a grandes angústias”, com o intuito de não se sentir mais parte constituinte da mãe. Ela deixa claro que é preciso passar por essa fase “sem precisar recorrer, inconscientemente, a mecanismos que de alguma forma a burlariam”. Outro teórico utilizado nessa abordagem é Didier Anzieu, que comenta a importância de se estruturar limites psíquicos bem estabelecidos. Esses limites seriam a distinção entre o eu e o outro, o dentro e o fora. Além disso, faz parte dos limites a percepção do ser como um todo, que ao mesmo tempo constitui seus limites com o externo e recebe influências e impactos do meio a partir de seus “furos” psíquicos, isto é, dos “caminhos” por onde as relações externas adentram o eu. Assim como Winnicott, Anzieu compreende que a separação mãe-bebê deve ocorrer de forma adequada para que as funções psíquicas se 134 | psico.usp

fortaleçam de maneira satisfatória. Utilizando-se desse reconhecido psicanalista, Garcia explica que, caso algum limite se constitua de forma errônea durante o “descolamento”, o psiquismo pode ser comprometido, ficando desprotegido e com limites indefinidos. Verifica-se, então, que as patologias alimentares são desencadeamentos futuros de falhas que ocorreram no momento da constituição psíquica, a qual ocorre nas primeiras fases da vida. Essas falhas na formação acarretam dificuldades na diferenciação entre o eu e o externo, pois o indivíduo passou pelo descolamento mãe-bebê de forma ríspida. Isso, portanto, compromete a construção de fronteiras e limites do psiquismo. “Com fronteiras frágeis, temos o comprometimento da diferenciação dentro/fora, interno/externo, eu/fora do eu, corpo/ psique. Dessa forma, o que se encontrará comprometida será a própria constituição do eu”, comenta Garcia DEFESAS PERIGOSAS As marcas deixadas na constituição psíquica do indivíduo o acompanharão durante sua trajetória de vida, podendo ocasionar diferentes patologias. No caso das patologias alimentares, a dificuldade da separação mãe-bebê persiste durante os futuros relacionamentos desses indivíduos. Devido à ausência de limites psíquicos e uma fraca constituição do eu, o paciente anoréxico acaba por desenvolver uma série de defesas contra as relações de proximidade e contato. A anorexia e a bulimia nada mais são do que mecanismos de defesa contra a invasão do objeto. A restrição alimentar aparece como uma tentativa de o indivíduo controlar a presença e ausência do objeto, que, no caso, se dá em forma de comida. “Poder escolher” quando haverá a ingestão de alimento ou não é uma tentativa de controle daquele que se sente ameaçado pelo abandono. Contudo, essa “proteção” à qual o paciente recorre é falha e perigo-


sa. “É uma defesa muito radical, que pode levar ao óbito. Então, de fato houve uma falha muito grave na constituição subjetiva, senão a pessoa poderia lançar mão de recursos mais evoluídos”, aponta Wainsten. Embora a anorexia e bulimia consistam em defesas, elas se manifestam de formas diversas. Uma é a extrema falta; a outra, o excesso. “Se na anorexia há uma verdadeira sujeição à necessidade de controle, na bulimia temos a sujeição ao descontrole”, afirma Garcia. Essas relações de falta e excesso parecem estar intimamente ligadas às características dos laços familiares que pacientes anoréxicos desenvolvem. Wainsten, ao realizar a análise clínica que compôs sua dissertação, pôde notar essa relação: “a comida aparece como um elemento que une os membros da família, seja por uma atividade em comum ou pela falta dela”. Nas representações gráficas feitas pelas pacientes entrevistadas, foi unânime a menção à comida nas reuniões familiares, fosse como elemento presente ou como ausente. Os vínculos afetivos são, por consequência, ameaças das quais pacientes com patologias alimentares tentam se proteger. Uma vez que a diferenciação do eu e do outro não foram feitas de forma adequada, qualquer possibilidade de separação pode ser vista como um perigo. “Não é como se o sujeito se separasse do outro, é como se estivesse perdendo uma parte de si mesmo”, exemplifica Wainsten. Portanto, qualquer relacionamento e, logo, qualquer iminência de separação, pode se tornar um processo sofrido. Isso porque, com a fragilidade do psiquismo, a dificuldade em lidar com separações e perdas, que são processos naturais da vida, compromete a elaboração do luto. Como o luto é a representação de uma perda, é necessário separar-se de forma saudável do objeto. Mas “se o eu e o objeto estão, na fantasia, fusionados, como o paciente vai elaborar um luto, uma perda?”, completa Wainsten.

A CULPA Na relação mãe-bebê, um dos papéis maternos é garantir a possibilidade da instauração de um vazio e criar um ambiente propício para que a criança perceba o eu em relação ao outro. Conforme já dito, é nos primórdios da vida do indivíduo que a falha no processo de constituição psíquica pode acontecer. Contudo, é preciso ter cuidado ao tentar apontar um possível “culpado”, uma vez que a constituição psíquica é algo extremamente complexo. Wainsten ressalta: “Nunca é culpa de ninguém. Mãe não tem culpa, é uma sucessão de falhas ambientais”. Vários fatores externos à realidade da mãe ou da família na qual o bebê está inserido podem resultar nesse quadro negativo. “Às vezes, a mãe não tem amparo. E, quando vamos ver, ela não estava psicologicamente disponível. Isso pode acontecer, não é má vontade”, completa. Portanto, mesmo que se saiba quais são algumas das raízes das falhas que produzem as patologias alimentares, não é possível denominar um “responsável” ou, ainda, precisar o momento em que algo deu errado. O essencial é conhecer o funcionamento psíquico das pessoas acometidas e compreendê-lo. A partir do entendimento das falhas, é fundamental ao paciente um acompanhamento médico que entenda a questão transferencial presente na raiz dos distúrbios alimentares. “Trata-se de entender melhor como se dá o comprometimento desses limites para que a experiência na relação transferencial com o analista não deixe o paciente aprisionado numa lógica de intrusão e abandono, de vazio e excesso, de tudo ou nada”, explica Garcia. Seria necessário, portanto, uma relação na qual se possa construir limites psíquicos, entender o paciente e oferecer-lhe um lugar de conforto, um alívio. Assim, é possível utilizar esses fatores de forma a tornar o tratamento mais eficiente e menos doloroso. Afinal, dor é o que eles menos precisam nesse momento. psico.usp | 135


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As múltiplas vivências do atleta em transição

Diante da preocupação com o rendimento do atleta, faz-se urgente a necessidade de compreendê-lo como indivíduo, analisando as muitas transições pelas quais passa durante a carreira esportiva

Por Aryanna Oliveira

A psicóloga Keila Sgobi de Barros, formada pelo IPUSP, dedicou quase uma década de sua vida ao basquetebol. Inspirada em sua vivência, em seus questionamentos sobre as etapas da carreira do atleta e sobre a necessidade de seu reconhecimento como sujeito no mundo, Barros resolveu dedicar-se ao estudo dos jogadores de basquetebol, desenvolvendo uma pesquisa que resultou em sua dissertação de mestrado. Partindo do pressuposto de que a carreira esportiva é um processo longitudinal constituído por diversas fases – cada uma delas com suas características específicas –, a ex-atleta procurou compreender de que forma os esportistas vivenciam as transições que fazem parte do desenvolvimento da carreira esportiva. Para Barros, a questão não era pensar em estratégias para o enfrentamento das transições, porque isso já está descrito e não é inovador na literatura. Também não era analisar uma fase delimitada, mas, sim, “entender como é para o atleta viver esses momentos. E não apenas as mudanças de categorias, mas as mudanças pertinentes ao próprio esporte, como a troca de um técnico, por exemplo”, explica a psicóloga. Para isso, Barros entrevistou seis pessoas com diferentes idades e, consequentemente, diferentes fases de carreira. O método de análise da experiência dos atletas baseou-se na fenomenologia e no existencialismo, e, por meio destes métodos, a pesquisadora chegou psico.usp | 137


a duas vivências estruturantes e a cinco vivências essenciais comuns aos entrevistados, identificadas como: 1) “eu me apaixonei... e fiquei”; 2) “a eterna busca – nunca deixe de tentar”; 3) “re-conhecer-se”; 4) “com o basquete eu aprendi... coisas pra vida”; e 5) “balanço defensivo”. Segundo a psicóloga, as vivências “nos permitem compreender que o afeto desenvolvido na prática do basquete está ligado a uma busca incessante e cuidadosa por uma carreira profissional, que possibilita que o atleta se reconheça e seja reconhecido por aqueles que fazem parte do ambiente esportivo”. Todo esse processo emana afeto, solidariedade e gratidão, o que transforma um grupo em uma verdadeira comunidade. Essas vivências essenciais comuns aos entrevistados levaram a pesquisadora a identificar as vivências estruturantes nomeadas de “O vivido através(sado) – o vivido com” e “a gratidão”, que, de acordo

com Barros, “são marcas do reconhecimento do outro e da solidariedade, característicos de uma das associações humanas mais profundas à comunidade. Elas são importantes para o atleta lidar com as vivências do esporte de alto rendimento”. Ao fim da pesquisa, Barros chegou à conclusão de que falta suporte aos profissionais do esporte, muitas vezes vistos como “máquinas” lucrativas, e não como indivíduos. “É preciso que se olhe para o atleta como ele é e segundo as necessidades que ele tem”, explica. Essa ausência de amparo adequado aliado ao desrespeito à pessoa do atleta, além da própria tecnicidade do esporte – que busca sempre a vitória –, dificultam muito as transições. Isso pode acarretar sofrimento e fazer com que muitos atletas desistam da carreira esportiva, enquanto que o reconhecimento poderia transformar as marcas de sofrimento em experiência alegre e positiva.

Dinho Martins

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Tratamento assistido Segundo pesquisadora, diagnóstico do câncer de mama e seus desdobramentos exigem auxílio psicológico imediato

Receber o diagnóstico de câncer de mama não é fácil. Este tipo de câncer atinge homens e mulheres, embora seja muito mais frequente nas mulheres, devido a um maior desenvolvimento do tecido mamário. O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais comum entre elas no mundo e é o responsável pelo maior número de mortes femininas. Os procedimentos médicos são invasivos e, em estágios avançados, é comum a manifestação de dores intensas na vítima. Ainda que a medicina tenha evoluído em tratamentos para remissão e sobrevida dos pacientes acometidos, o diagnóstico de câncer é sempre recebido como um choque e acompanhado pelo estigma da morte. Nas mais de 100 formas de acometimento da doença, o tratamento oncológico costuma ser doloroso e os efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia são conhecidos. A ocorrência de deterioração física e cognitiva são algumas das sequelas provocados pelo tratamento que interferem na aceitação do adoecimento. Portanto, além da saúde, outras perdas são incitadas. Nas pacientes com câncer de mama em especial, essas perdas também estão relacionadas aos aspectos da feminilidade, condição que intensifica o sofrimento psíquico. Diante de tal conjectura, as pacientes acometidas pela doença necessitam de ajuda psicológica urgente, é o que diz Nirã dos Santos Valentim em sua tese de doutorado. Em sua pesquisa, Valentim se propõe a investigar os efeitos terapêuticos e a eficiência da Psicoterapia Breve Operacionalizada (PBO) no atendimento de mulheres diagnosticadas com câncer de mama e em tratamento oncológico. A PBO é um método de intervenção psicodinâmico de curta duração que busca propiciar adap-

tação e diminuição do sofrimento psíquico de mulheres que precisam conviver com a doença. Com a adesão a um tratamento desgastante, tanto do ponto de vista físico quanto psicológico, “a perda da saúde, o estigma da morte, as sequelas da linfadenectomia (extração cirúrgica de parte do sistema linfático) e a perda da mama – símbolo de feminilidade e sensualidade para a mulher – geram sentimentos de ansiedade, desesperança e depressão que precisam de pronto auxílio psicológico devido à gravidade deste quadro”, relata Valentim. Estudos sobre mulheres com câncer de mama que se utilizaram de intervenções terapêuticas, como a PBO, demonstram que essa intervenção é satisfatoriamente eficaz se comparada ao tratamento apenas medicamentoso da depressão. Além disso, compreendeu-se que, com a psicoterapia, as mulheres alcançam uma melhor aceitação da doença e dos efeitos do tratamento. A pesquisa contou com 17 mulheres, com idades entre 30 e 65 anos, que estavam em tratamento da doença. Os resultados finais demonstram que mais de 80% das participantes obtiveram evoluções positivas através da PBO. A eficiência do tratamento dentre as participantes atingiu todas as idades, estados civis, escolaridades, tempos de diagnóstico, fases de tratamento oncológico e tipos de cirurgia. Além do trabalho de Valentim, o uso de intervenções terapêuticas como a PBO tem se mostrado efetivo em outros estudos, o que demonstra a importância da atuação de psicólogos em todas as fases da doença. “Faz-se urgente, então, o atendimento psicológico da mulher com câncer, tanto na ocasião do diagnóstico, como antes e depois da mastectomia e no pós-operatório, para que os efeitos do tratamento na sua qualidade de vida sejam acompanhados”, conclui a pesquisadora. – VITÓRIA BATISTOTI psico.usp | 139


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Pequenas doses contra a compulsão alimentar Novas formas de prevenção e tratamento para o grave distúrbio são pesquisadas no IPUSP Por Aryanna Oliveira

Em maio de 2013 foi publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) a 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais. Nesse manual, chamado de DSM5, a compulsão alimentar – ou transtorno da compulsão alimentar (TCA), do inglês binge eating disorder – aparece categorizado ao lado de transtornos como a bulimia e a anorexia nervosa. A divulgação da APA e os alarmantes percentuais mundiais de vítimas com o TCA suscitaram diversas pesquisas no campo científico. Entre essas pesquisas se encontra o projeto de pós-doutorado de Liane Dahás, em desenvolvimento no Departamento de Psicologia Experimental (PSE) do IPUSP, supervisionado pela Profa. Dra. Miriam Garcia-Mijares e realizado em parceria com Felipe Tartaglia Dias, bolsista de Iniciação Científica e

orientando de Dahás. Os pesquisadores trabalham com a instalação de comportamento alimentar compulsivo em ratos da linhagem Rattus norvegicus a partir do modelo de Acesso Intermitente, que prevê intervalos entre os dias de exposição. “Nesse modelo não há um acesso regular aos alimentos. Trabalhamos com dois grupos que comem um alimento enriquecido com muito açúcar e gordura (alimento altamente palatável – AAP). A alimentação de um grupo se dá às segundas, quartas e sextas-feiras, enquanto a do outro, com esse mesmo alimento, todos os dias”, explica Dias. O modelo postula que o grupo que tem essa exposição intermitente ao AAP, isto é, que come em dias alternados, desenvolve compulsão. “O grupo come muito mais nos dias de apresentação do que o grupo que tem o acesso diário, mesmo psico.usp |141


não havendo privação do alimento enriquecido, sendo a ração livre. Só por essa diferença de exposição, o animal come de forma compulsiva”, completa Dahás. A pesquisa já provou que sujeitos individualizados comem mais e apresentam sinais de estresse (um dado que ainda não pôde ser medido), enquanto os animais que são alojados em grupo comem menos. Isso sugere a importância da sociabilidade. Diante do fator de isolamento social, os ratos apresentam mais compulsão, porque são gregários como os seres humanos. Outro dado interessante já levantado pelos pesquisadores é que o animal não engorda, ele mantém o peso independente do grupo em que está. Esse dado é importante porque permite que os pesquisadores analisem apenas questões de compulsão sem precisar avaliar o problema da obesidade, que não necessariamente está associado à compulsão e que envolveria variáveis neurológicas. Dahás acredita, porém, que a pesquisa possa vir a ser aliada importante da perda de peso, em contrapartida às dietas radicais a que muitos pacientes se submetem. “O modelo intermitente nos diz que, ao invés de tomarmos um pote de sorvete de uma única vez após um longo período de restrição, na hora de pensar em perder peso é melhor comer um chocolate pequeno todos os dias, pois a restrição pode levar à perda de controle, o que caracteriza a compulsão”. Baseando-se, então, em hábitos alimentares mais equilibrados e sem recorrer à eliminação ou restrição radical do consumo de determinados alimentos, os dados da pesquisa indicam uma forma eficiente de prevenção e mes-

mo de tratamento da compulsão. “Após o episódio de compulsão, você trataria o paciente com pequenos pedaços daquele alimento que originou o episódio. Essa é uma opção real que inclusive queremos investigar como tratamento, porque só temos dados como prevenção”, explica a pós-doutoranda do PSE. Para ela, a dificuldade em se lidar com a compulsão alimentar está no fato de não ser possível tratar o paciente como se trata, por exemplo, o alcoolista ou o tabagista: ensinando-se a não consumir mais o que lhe causa o vício. Com a comida, especialmente com o açúcar – responsável pela maioria dos casos de TCA –, não há eliminação do agente, uma vez que se tem que comer todos os dias. “Por isso a prevenção é tão importante quanto o tratamento, já que estabelecer algumas posturas comportamentais é o que previne, de fato, o transtorno, e não as dietas radicais que contribuem para o contrário. Um segundo passo seria ir a escolas ensinar que essas dietas restritivas estão erradas, que se deve comer conhecendo os alimentos e estar em paz com todos eles”, relata a pesquisadora. Sendo assim, a pesquisa demonstra que a alimentação consciente e regular, ainda que inclua doses diárias do alimento problemático para a vítima do TCA, é o que funciona como prevenção à compulsão. Além disso, a investigação propiciada pelo modelo intermitente revela que esse comportamento regular pode representar um tratamento eficaz contra a doença, bem como auxiliar nas dietas de perda de peso.

A restrição pode levar à perda de controle, o que caracteriza a compulsão

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O Laboratório da Visão do IPUSP a relação psicologia-psicofísica

Islaine Maciel

Contribuições do Laboratório da Visão refletem nos avanços alcançados na psicofísica hoje

A psicofísica permite estudar a percepção visual de um estímulo físico. Contudo, ainda que a visão nos pareça ser um sentido exato e objetivo, ela depende, na verdade, de características particulares e pessoais. O processo de percepção de cores, por exemplo, varia de indivíduo para indivíduo. Porisso é possível estabelecer uma relação entre a psicofísica e a psicologia, visto que o tipo de avaliação feita se refere a um estímulo físico objetivo que busca, todavia, uma resposta subjetiva. psico.usp |143

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“Nosso conhecimento de hoje sobre a visão e o funcionamento do cérebro ainda deixa muitas coisas para pesquisar. Cada neurônio do nosso cérebro tem muitas conexões e precisamos ter medidas específicas para descobrir como funcionam. Os estudos do nosso Laboratório são muito importantes para se conhecer cada vez mais o funcionamento do sistema nervoso central e analisar como a percepção e a cognição estão funcionando”. IP Comunica

Acima, o professor visitante Balázs Vince Nagy; e, ao lado, a pesquisadora Mirella Barboni

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Assim, em meados do século XIX, a psicofísica – a primeira área da Psicologia a ser entendida como ciência –, foi criada com a proposta de “estudar a relação entre o mundo mental e o mundo físico”, explica Mirella Telles Salgueiro Barboni, especialista do Laboratório da Visão – Eletrofisiologia e Psicofísica Visual Clínica, do IPUSP. Embora existam certos desvios de visão – causados por alterações congênitas (que nascem com o indivíduo, como o daltonismo) ou adquiridos ao longo da vida –, mesmo entre indivíduos considerados “saudáveis” da visão, não é exato o padrão de percepção de cores aceito socialmente. Logo, mesmo entre pessoas sem problemas de visão, existe uma diferença na percepção de cores. Isso significa que as faixas de comprimentos de onda não são vistas de igual maneira por todas as pessoas. Essa constatação pôde ser comprovada por um estudo do IP, realizado em parceria com um grupo internacional, que examinou as cores típicas de objetos. A partir do estudo, compreendeu-se que cada indivíduo enxerga as cores de uma forma diferente. “Percebemos, através de testes computadorizados, que a

própria população local tem um padrão diferente de visão de cores dos objetos comuns”, relata o engenheiro Balázs Vince Nagy, que atualmente é professor visitante do Laboratório da Visão, pela Budapest University of Technology and Economics (BUTE), Hungria. Fundado em 1995 pela Professora Dora Fix Ventura, o Laboratório da Visão conta com um grupo interdisciplinar, formado por psicólogos, biólogos, oftalmologistas

IP Comunica


e engenheiros. Entre suas funções estão a realização de pesquisas aplicadas e a prestação de serviços ao público, como a avaliação de pacientes com alteração congênita ou com modificações subclínicas – aquelas que o paciente não percebe – na visão de cores. No caso do último tipo de alteração, enquadram-se os diabéticos, que não percebem o início da deficiência na percepção de cores. “Mesmo que eles não tenham alterações anatômicas na retina ou no sistema visual, eles têm um início de deficiência na percepção de cores”, relata Barboni. Outra população que o grupo estuda são ex-trabalhadores de fábricas de lâmpadas fluorescentes, que tiveram por vários anos uma exposição crônica ao vapor de mercúrio. “Por estarem em um ambiente poluído, sem proteção adequada, eles inalaram esse vapor. Fazendo a avaliação dessa população, percebemos que, mesmo eles tendo uma acuidade visual normal, também tiveram perdas na visão de cores, só que eles não percebiam, porque essa perda foi ocorrendo ao longo dos anos”, explica Barboni. Também são funções do grupo realizar testes e atender pacientes que são encaminhados pelos hospitais da Universidade ou pessoas que colaboram com o Laboratório. Dessa forma, o grupo realiza a pesquisa básica, aotestar protocolos, a pesquisa aplicada, ao avaliar determinados grupos de pacientes, e a aplicação clínica, ao produzir relatórios com base nos resultados dos testes. Dentro do próprio Laboratório da Visão, os vários grupos de pesquisadores conseguem desenvolver estudos comparativos das doenças que acometem os seres humanos e os animais. “Com os animais, nós temos mais acesso ao estudo das doenças e podemos entender melhor como está acontecendo nos seres humanos. Por exemplo, visão de cores pode ser muito bem estudada em macacos porque a visão deles é bem semelhante à humana”, comenta Balázs.

Para realizar a vasta gama de pesquisas e análises, o Laboratório da Visão é equipado com diversos aparelhos, alguns exclusivos no contexto brasileiro. Além disso, o grupo também produz seus próprios equipamentos para objetivos específicos. O desenvolvimento de aparelhos portáteis feitos por engenheiros com o intuito de prover mais dinamicidade aos estudos realizados fora do Laboratório são um exemplo disso. – VITÓRIA BATISTOTI

Contribuição do IPUSP aos projetos da Rede Zika da Fapesp O Laboratório da Visão do IPUSP poderá contribuir com a rede Zika da FAPESP, que reunirá pesquisadores do estado de São Paulo para a estruturação de um plano de ação científica que visa entender melhor os diversos aspectos clínicos e epidemiológicos do vírus. O Laboratório poderá aplicar exames eletrofisiológicos, psicofísicos e neurocognitivos em bebês nascidos de mães infectadas pelo Zika vírus. O objetivo é investigar as alterações visuais e neuropsicomotoras e acompanhar o desenvolvimeto desses bebês até 3 anos de idade. – MIRELLA BARBONI

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Visão das serpentes diz muito sobre seu modo de vida Estudos com o sistema visual de seralta de células, que são áreas importantes pentes podem elucidar seus hábitos e o para o campo visual dos animais, e variam ambiente em que elas vivem. Essas conde uma espécie para outra”. Os humanos, clusões fazem parte dos trabalhos de Einat outros primatas e aves, por exemplo, Hauzman, pesquisadora do Laboratório possuem uma fóvea, com maior concende Psicofisiologia Sensorial do IPUSP. Por tração de células em um ponto central meio da comparação da visão de serpentes da retina, o que indica uma maior acuidiurnas e noturnas, a pesquisadora notou dade visual em um ponto à frente. Ouuma série de diferenças que favoreciam a tros animais, como muitos herbívoros sobrevivência de cada espécie. de savana, por exemplo, costumam exiO interesse por bir uma faixa visual estudar serpentes que se estende ao surgiu bem antes de longo do eixo meriHauzman ser aluna dional da retina, o do Instituto de Psique lhes permitem cologia. Bióloga, ela uma visão panorâchegou a trabalhar mica do horizonte e com os répteis na a melhor percepção área de epidemiodos predadores. logia e educação O período em que ambiental. Mas, foi as serpentes se enconsó a partir de estudos tram mais ativas se comportamentais mostra determinante com duas espécies, para a configuração Corte sagital de olho de serpente (Walls, 1942) uma terrestre e ouda retina. As serpentra arborícola, que surgiu a curiosidade tes com maior atividade durante o dia e sobre os mecanismos da visão. “Em as mais ativas durante a noite têm tipos um estudo sobre o comportamento alide fotorreceptores diferentes. Enquanto mentar de duas espécies de serpentes, as noturnas possuem dois tipos de cooferecíamos diferentes tipos de prenes (responsáveis pela visão de cores) sa para elas nos terrários e vimos que e um bastonete (relacionado à visão em o tempo de percepção da presa era diperíodos de baixa luminosidade), as esferente entre as duas espécies”, relata pécies diurnas apresentam três tipos de a pesquisadora. Isso foi suficiente para cones e ausência de bastonetes. Além querer entrar na área de neurociências. disso, a densidade de fotorreceptores é Os objetos de estudo de Hauzman são muito maior nas serpentes da noite. As a organização celular na retina e o estudo serpentes diurnas, por outro lado, têm dos genes responsáveis pela visão de cores uma maior acuidade visual. dos animais, ou seja, como a organização Como em outros animais, a organizacelular e a expressão de determinados ção topográfica das retinas de serpentes genes se refletem no comportamento do também está relacionada ao ambiente que animal. Segundo a pesquisadora, “as reticada espécie ocupa. Em estudo de uma nas têm mapas topográficos variados, com espécie de serpente de hábitos fossoriais regiões específicas de densidade muito (que vive na maior parte do tempo abaixo 146 | psico.usp


do solo), por exemplo, notou-se uma maior concentração de células na região dorsal da retina, o que indicava uma melhor acuidade visual do campo de visão inferior. Segundo Hauzman, “isso deve ajudá-la no comportamento de cavar e procurar presas embaixo da terra, comportamento típico desta espécie”. A responsabilidade dos nossos sentidos é captar informações do ambiente à nossa volta e traduzi-los em sinais que são decodificados pelo sistema nervoso.

“O sistema visual recebe as informações luminosas do meio externo e com isso podemos perceber os formatos, movimentos e cores dos objetos. As pessoas têm percepções diferentes e os animais também, e essas diferenças refletem características ecológicas e adaptações dos animais ao seu ambiente”, explica a pesquisadora. Entender o sistema visual, portanto, vai muito além do que se percebe à primeira vista. – SOFIA MENDES

Philodryas olfersii

Philodryas patagoniensis

Imagens das serpentes Philodryas olfersii (boiubu) e Philodryas patagoniensis (parelheira), à esquerda, e de seus respectivos mapas topográficos da distribuição de fotorreceptores nas retinas de cada espécie, à direita. Acima, a serpente arborícola, P. olfersii, com distribuição do tipo faixa horizontal. Abaixo, a serpente terrestre, P. patagoniensis, e sua distribuição do tipo area centralis, na região ventral da retina. O gradiente de densidade em células/mm2 está representado em tons de cinza. O ponto branco nas retinas representa a saída do nervo óptico. D, dorsal; T, temporal. Barra de escala, 2 mm. Imagens das serpentes: Otavio Augusto Vuolo Marques. Imagens das retinas: Einat Hauzman.

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Arte e Cultura

Hoje eu quero ficar sozinho A PROBLEMÁTICA DA SOLIDÃO NO FILME HER, DE SPINKE JONZE, É ANALISADA EM PESQUISA DO IPUSP Por Aryanna Oliveira

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Reprodução

Cena comum no cotidiano das grandes metrópoles do século XXI: um grupo de amigos se reúne para um “happy hour”, mas todos perdem grande parte da conversa postando fotos ou “conversando” pelo celular. Ou ainda, sábado à noite e o sujeito em casa, atualizando seu “status” pelo computador em uma rede social na qual tem quase mil amigos, mas nenhum para dividir o final de semana, nenhum ao seu lado – realmente – para compartilhar as novidades dos últimos dias. As relações sociais seguem na contramão da tecnologia: enquanto a mídia é cada vez mais avançada e fervilha novidades em segundos, o contato humano é escasso e se dá – muitas vezes – apenas na esfera virtual, onde muitos sabem onde você está, o que comeu, a que assistiu ou qual o último aparato tecnológico que adquiriu, sem nem mesmo conhecê-lo. O “compartilhar” é agora mera gíria da rede, se restringe ao não palpável dos smartphones, tablets e computadores. Essa é a ideia de Her, longa-metragem lançado em 2013, em que o diretor Spike Jonze traz para as telas a retórica dos sentimentos vazios da contemporaneidade, travestida de história de amor. psico.usp | 149


Porém, o casal que protagoniza o envolvimento amoroso é atípico: um homem, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), e um sistema operacional de nome Samantha (voz de Scarlett Johansson). Para enfatizar a solidão dos indivíduos na pós-modernidade as imagens futurísticas ganham destaque. Inspirada nelas, Anna Paula Zanoni, pesquisadora do IPUSP, desenvolveu “Imagens da solidão na contemporaneidade: a contribuição do filme Her em uma perspectiva Junguiana”, sua dissertação de mestrado para o IP. A pesquisa aborda a solidão dos ��������� indivíduos na pós-modernidade por meio do ponto de vista de Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. A plasticidade do filme serviu como objeto de análise feita por meio do conceito de imagem junguiano. Segundo a conceituação do teórico, os fenômenos da psique são vistos como plurais e relacionados a aspectos individuais e coletivos dos sujeitos. Com origem nos processos psíquicos (e na fantasia), as imagens aparecem como elementos básicos, criadores de toda realidade, seja ela simbólica ou metafórica. De acordo com a psicóloga, elas, as imagens, “são perspectivas psicológicas repletas de uma múltipla relação de significados, disposições históricas e possibilidades capazes de produzir reflexão, sentido, aproximações com a morte, e segundo Hillman] de ‘transformar acontecimentos em experiências’”. Her prima por explorar as imagens, tanto artísticas como psicológicas, notabilizando a solidão de Theodore. O futurismo – para além do clichê de carros voadores – amplifica e complexifica o cenário da contemporaneidade e faz com que, se em um primeiro momento a narrativa pareça absurda – com posições de câmera e escolhas de perspectivas que causam estranhamento –, em outro, pareça crível e, até mesmo, uma inevitável consequência do que é esse apartamento do personagem do mundo, da sua relação com outras pessoas. Créditos para Austin Gorg, diretor de arte do filme, e para Hoyte van Hoytema, diretor de fotografia, que, com a escolha de cenários e de imagens de baixo 150 | psico.usp

contraste, permitiram a fluidez do clima, do movimento, representando um sentimento com os quais todos se identificam: a solidão que, de proveitosa, pode tornar-se a pior das companhias, porta de entrada para muitas enfermidades do homem moderno.

Um homem sozinho no meio da multidão

Desde a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, o homem pode perceber a influência das máquinas na vida da sociedade. Se à época a tecnologia substituiu o trabalho artesanal como consequência do progresso científico e da busca por mais lucros em menor tempo, hoje ela subtrai o tempo dos indivíduos, ao mesmo tempo em que promete facilidades para a vida moderna. Há uma dicotomia em que, de um lado, se diminui as jornadas de trabalho, o que garantiria mais momentos de sociabilidade, e, de outro, se compromete a liberdade com dispositivos que prendem a atenção e segregam o indivíduo no mundo. Já em 1930, Sigmund Freud, quando da publicação de Mal-Estar na Civilização, discorria sobre como a tecnologia não é certificadora de felicidade. As técnicas científicas que modernizaram as etapas do trabalho não conseguem, com o toque do controle remoto, tornar o homem feliz. “A felicidade humana, por conseguinte, parece não ser a finalidade do universo, e as possibilidades de infelicidade realizam-se mais prontamente. Essas possibilidades estão centralizadas em três fontes: o sofrimento físico, corporal; perigos advindos do mundo exterior e distúrbios ocasionados pelas relações com outros seres humanos - talvez a fonte mais penosa de todas”, escreveu o psicanalista. E assim, cercado de gente – e de máquinas – o homem se vê cada vez mais desamparado em uma solidão, não só temporal, mas também atemporal, como enfatiza Zanoni em seu trabalho. Em entrevista à psico.usp. a pesquisadora explicou a escolha por essa temática, hoje já tão presente em discussões e opiniões


Uma imagem muito comum da solidão na pósmodernidade é a do indivíduo que se sente solitário na mídia, assim em meio à multidão ou como em conconectado às redes sociais. versas de pessoas comuns e Theodore pode ser especialistas que representado de ambas preveem as consequências de um as formas infrene contato com a conectividade. Ela elucida que “o tema da solidão é universal, está presente nas inquietações pessoais, nas falas dentro do consultório, nas artes e em infindáveis reflexões sobre o humano”. E foi esse cenário que Jonze captou por meio das lentes da câmera, o indivíduo consigo mesmo, que “pensa com seus botões”. Assim é Theodore Twombly, um homem despovoado da metrópole que trabalha em uma agência escrevendo cartas que se notabilizam pelo teor sentimental. Ou seja, ele é pago para emocionar um destinatário substituindo um remetente inábil na descrição dos próprios sentimentos, em uma produção em larga escala dos sentimentos alheios. No entanto, há aqui um paradoxo: Theodore está longe de dominar as emoções como o ofício pressupõe, é nítida sua inabilidade de trato pessoal. Vive à sombra de dramas do passado e sua vida parece não

fluir. Porém, o diretor não apresenta a imagem arquetípica de um perdedor amargurado, mas sim um sujeito comum, em busca de sua identidade e, no mesmo caminho, de alguma felicidade. “Uma imagem muito comum da solidão na pós-modernidade é a do indivíduo que se sente solitário em meio à multidão ou conectado às redes sociais. Theodore pode ser representado de ambas as formas. Oportunidades e riscos também fazem parte de sua condição, o que poderia situá-lo na pós-modernidade”, verificou Zanoni. Nesse entremeio surge Samantha, que literalmente surge quando se dá um comando. Theodore, então, se apaixona por um “SO”, o primeiro “Sistema Operacional com Inteligência Artificial” no mercado, que se adapta às características do usuário. Dessa forma, ao configurar e nomear seu sistema, Samantha “ganha vida” e Theodore uma namorada. Em determinado momento da narrativa, ele vislumbra a possibilidade de um relacionamento real, mas diante do caótico do outro, se refugia novamente no virtual, como se a bagunça pessoal que antevê o repelisse. Zanoni nos fala dessa insegurança tão comum em uma pós-modernidade conflituosa. psico.usp | 151


Segundo ela, esse medo do desconhecido, e do estranhamento que isso causa, é uma reação humana comum. Entretanto, a rapidez da mudança na pós-modernidade provoca uma falta de aprofundamento das experiências humanas. E esse processo “pode gerar indivíduos inseguros, com dificuldade de lidar com frustrações e de estabelecer relações mais íntimas, pois a intimidade requer que sejam percorridos os caminhos mais sombrios da alma humana”, expõe a pesquisadora, para a qual o personagem não “opta” pelo virtual, em detrimento do real, mas se sente confortável com aquilo que pode prever, do qual conhece o funcionamento. Todavia, em uma relação amorosa que inclui sexo, o corpo começa a fazer falta. A voz não basta quando os carinhos faltam, e Theodore começa a se afastar de Samantha. Esse processo não se dá por acaso, e esse aspecto foi analisado por Zanoni, que vê no protagonista de Her um contínuo processo de reconhecimento e transformação. Com o desencadear da trama, ele consegue elaborar seu luto, ganhando consciência de si mesmo e do mundo, tornando-se mais capaz e preparado para amar. E isso se dá pela relação com o “SO” já que essa interação possibilita que ele entre em contato com elementos psicológicos essenciais a ele.

Imagens da solidão E por que analisar a solidão por meio das imagens de um filme? Muitos esA solidão é um elemento precioso tudiosos do cinema já relacionaram as na transformação alquímica da alma imagens da psique humana, mas precisa da troca com e dos sonhos com as imagens fílmioutros elementos, como o amor, a cas. Em ambas, morte, a dor e o mistério, e de cuidados, há possibilidades de significados como um recipiente adequado, para não complexos e inse volatilizar e se tornar um dependentes. Por isolamento empobrecido meio das imagens, toda a experiência se torna possível. São perspectivas psicológicas sobre percepções das coisas do mundo. 152 | psico.usp

A pesquisadora Anna Paula Zanoni observou que a fotografia do filme é um aspecto marcante na análise das imagens da solidão. Ainda que a produção utilize cores neutras nos cenários, há sempre algum objeto marcadamente destacado em vermelho, laranja, azul e amarelo. Segundo ela, as cores e o olhar cinematográfico sugerem um “termômetro emocional”. Além disso, enfatiza a simbologia da solidão no filme, por meio de um cenário intimista com enquadramento no personagem, seja em sua casa ou no meio da multidão. Essas imagens colaboraram para a idealização de um Theodore que elabora seu luto de uma separação conjugal. Ele tem experiências e comportamentos descritos na literatura acadêmica e identificados em indivíduos que se sentem solitários, tais como: maior movimento de interiorização, personificação de objetos e coisas, sentimento de inadequação e tristeza, esquiva de contatos sociais etc. Outros personagens da história também podem ser pensados em suas solidões particulares por meio das imagens. Nesse sentido, o filme é um amontoado de emoções brandas, neutras, como as nulidades das relações rápidas da contemporaneidade. São poucos – e raros – os momentos de explosão, talvez o maior deles venha do próprio sistema operacional. Ao sentir-se em segundo plano na vida do protagonista, Samantha sente ciúmes e, até mesmo, se desespera.

Das muitas formas de estar sozinho Viver momentos de solidão pode ser benéfico para o ser humano, especialmente em tempos de automatização de funções – e sentimentos. Ter tempo para o autoconhecimento e estudo de suas emoções se faz urgente e imprescindível em uma época em que “parar” é palavra proibida. Mas perceber a linha tênue que separa a solidão que favorece da que degrada pode não ser um processo muito claro.


Em Her, de Spyke Jonze, as cores são utilizadas com elemento potencializador da solidão

Em sua pesquisa, Zanoni identificou uma solidão benéfica e prazerosa, chamada solitude, sensação de que em “uma pitada de solidão contém algo de liberdade”. A solitude é um processo árduo de transformação em que se consegue atingir as camadas mais essenciais do indivíduo. E tomar conhecimento do que se tem de mais intrínseco, sem se deixar perder e mantendo a consciência dessa interação, é um mergulho profundo no autoconhecimento. A ideia de solitude, segundo a pesquisadora, “está relacionada a um estado de plenitude, consciência, alteridade e espiritualidade. É um tipo de solidão conquistada por meio de um grande desenvolvimento pessoal em que há um sentimento profundo de conexão consigo mesmo e com os outros”. Esse momento de conhecimento interiorizado não caracteriza uma patologia, não exige preocupação ou tratamento, pois é um momento de plenitude em um contato consigo mesmo. A solidão potencialmente criativa permite que o indivíduo pare, altere seu ritmo, percebendo suas necessidades primeiras e urgentes. A psicóloga elucida que, “a solidão é um elemento precioso na transformação alquímica da alma humana, mas precisa da troca com outros elementos, como o amor, a morte, a dor e o mistério, e de cuidados, como um recipiente adequado, para não se volatilizar e se tornar um isolamento empobrecido”, o que o distanciaria de sua capacidade reflexiva. Theodore é apresentado inicialmente como um solitário que vivencia momentos alternados de dor, tristeza, luto por uma separação conjugal e de vazio existencial. Está preso ao passado e se isola das possibilidades de relacionamentos. Dentro de seu luto, parece estar fechado para outras experiências e trocas que possam envolver intimidade. Com o desenrolar da trama, ele começa a se permitir se envolver novamente, a elaborar sua separação, e a reconhecer e assumir psico.usp | 153


as suas escolhas e desejos. A maneira como Theodore vivenciou os novos relacionamentos, a partir daí, contribuiu para a saída de um estado de isolamento para a de uma interiorização criativa e conectada à intimidade. A pesquisadora afirma que, diferentemente da ideia de solitude, a solidão é geralmente reconhecida como Robert Hobson a definiu: “uma dor provinda do sentimento de inabilidade para satisfazer a necessidade urgente de relação com outras pessoas”. Nas situações mais graves, ela pode levar a um estado de estagnação psíquica, em que se tolhem as possibilidades de uma ligação mínima necessária com os outros. O isolamento crônico que limita precisa ser cuidado quando percebido, pois pode subtrair do indivíduo suas necessidades psíquicas mais essenciais. Todavia, quando questionada sobre uma relação entre a depressão e a solidão desenfreada, Zanoni afirmou que não vê uma relação necessariamente direta entre ambas. “Não acredito que seja possível pensar na solidão como um último estágio da depressão ou como uma depressão desenfreada. A depressão é um fenômeno complexo e possui manifestações diversas. Os principais pontos de ligação entre a solidão e a depressão são a dor que o indivíduo sente quando passa por qualquer um desses estados da alma e o grande movimento de interiorização que acontece nessas situações”. Em seu trabalho, a pesquisadora identificou em Robert Weiss – autor, educador e especialista em sexualidade – uma

diferenciação para esses dois estágios da alma. De acordo com Zanoni, Weiss afirma que na solidão existe uma tentativa de superação da angústia gerada por um impulso de se integrar a um novo relacionamento ou de resgatar um outro relacionamento acabado. Por esta razão, “os solitários querem encontrar outros e, se encontram os ‘outros certos’, mudam e deixam de se sentir solitários”, argumenta a psicóloga. Por outro lado, esse impulso não costuma ocorrer com aqueles que vivenciam a depressão, que, normalmente, relutam em compartilhar sua infelicidade, “pois entendem que seus sentimentos não podem ser alcançados através dos relacionamentos, sejam eles novos ou antigos”, completa. A maneira de compreender essas ideias é amparada pela teoria de Jung, uma das principais influências no trabalho da psicóloga. Segundo ela, o fundador da psicologia analítica tem a preocupação de não limitar as psicopatologias a perspectivas reducionistas. Em sua perspectiva, procura-se entendê-las como movimentos da psique que precisam ser analisados simbólica e culturalmente. Dessa forma, Zanoni justifica que em cada enfermidade psicológica é levado em consideração “o que há de potencialidade e de risco. Na solidão, por exemplo, pode haver tanto um movimento de maior interiorização e espiritualidade quanto um risco de isolamento e estagnação psíquica. Se não aprendemos a lidar com a nossa solidão, dissolvemo-nos na inconsciência da coletividade”.

A ideia de solitude está relacionada a um estado de plenitude, consciência, alteridade e espiritualidade. É um tipo de solidão conquistada por meio de um grande desenvolvimento pessoal em que há um sentimento profundo de conexão consigo mesmo e com os outros

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Siri: companhia perfeita? A Samantha de Theodoro tem sua referência na vida real e atende pelo nome Siri. Sim, desde o Iphone 4S, é possível ter acesso ao sistema operacional que “conversa” com seu interlocutor. Sim, ela responde o que lhe é perguntado e muitas pessoas já viciaram em ouvir a “voz” do software. Segundo página da Apple na internet, é possível enviar mensagens, gravar notas, agendar reuniões, realizar chamadas, ouvir música, acessar as redes sociais e serviços de busca, somente pelo comando de voz. Em 2012, uma pesquisa da consultoria Parks and Associates, nos Estados Unidos, constatou que 30% dos usuários de Iphone utilizam a Siri diariamente, enquanto 35% dos usuários do iOS ainda têm dúvidas sobre seu funcionamento. No Brasil já existem muitos “viciados” na Siri, e, desde o surgimento do iOS, muitas sátiras surgiram na internet sobre o vício de muitos usuários. Que o sistema é eficiente, não há dúvidas; basta saber usar e controlar os vícios, porque com Siri aquela máxima de “só falta falar” cai por terra. O iOS “fala” e “interage” – até certos limites – conforme responde as perguntas que lhe são feitas.

Satisfação com a Siri Muito satisfeito Satisfeito Neutro

Insatisfeito Fonte: Parks and Associates

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Bauman e a modernidade líquida Luciano Espósito Sewaybricker, pesquisador do IPUSP, também analisou as consequências dessa desenfreada modernidade em sua dissertação de mestrado, “A felicidade na sociedade contemporânea: contraste entre diferentes perspectivas filosóficas e a modernidade líquida”. Se Zanoni utiliza a conceituação de Jung, Sewaybricker segue os conceitos teóricos de Zygmunt Bauman para falar da necessidade de busca da felicidade, como um produto muito propagandeado que se deseja ardentemente. Segundo o pesquisador, a temática da felicidade – e sua busca – está presente em todos os lugares: em livros, nas prateleiras de lojas, nas campanhas publicitárias e mesmo nos sorrisos que damos para as câmeras fotográficas. Tudo isso com uma

recorrência que beira o banal, visto que “as pessoas falam que estão felizes, que são felizes e entendem que buscar a felicidade é um direito, é algo natural do ser humano”, explica. Porém, por mais natural que aparente, encontrar a “tal felicidade” talvez seja mais complicado do que se pensa. O sociólogo polonês Bauman, desde a sua aposentadoria em 90, vem trabalhando massivamente com a conceituação de modernidade líquida e seus desdobramentos. Em poucas palavras, seguindo o conceito, que se relaciona aos tempos de hoje, a modernidade líquida é a contemporaneidade fluida e volátil das relações e instituições, que resulta em insegurança e incertezas. Vive-se um momento de empregos temporários e relações frágeis. O mundo é norteado por conexões que se mostram como oportunidades e possibilidades, que, no entanto, como uma peça de consumo, são descartadas com a mesma rapidez com que são adquiridas e saboreadas. Quase não há bases, as es-

15 filmes sobre a solidão Antes e depois de Her, a solidão é temática constante nos cinemas

WILD Jean-Marc Vallée (2015) – Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) não suporta mais o caminho de autodestruição que tomou após a perda repentina da mãe. Não suporta a perda repentina da mãe, decidindo recomeçar e se refazer, sozinha, percorrendo 1770 quilômetros pela Pacific Crest Trail, nos Unidos. 156Estados | psico.usp

DOS ABRAZOS Enrique Bengé (2007) – No México, quatro pessoas completamente diferentes se unem diante da solidão afetiva e social em que vivem: um menino de doze anos de idade; a operadora de caixa da loja por quem ele é apaixonado; um motorista de táxi insatisfeito com a própria vida; e a filha de um de seus passageiros.

O CICLO DA VIDA Zhang Yang (2015) – Um grupo de idosos, todos com mais de 70 anos, decide fugir da casa de repousos em que estão hospedados, na China. Sob o comando do Velho Gê, amigo e motorista aposentado, eles partem de ônibus rumo a uma travessia pelo país, para participarem de um “reality show” de TV.

WHISKY Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll (2004) – Eleito o melhor filme latino-americano dos últimos vinte anos pelo Festival de Valdivia, no Chile, o filme uruguaio trata dos efeitos da solidão na alma humana. Narra a relação de Jacobo (Andres Pazos) com Marta (Mirella Pascual), após a chegada de Herman, irmão do homem.

O AGENTE DA ESTAÇÃO Thomas McCarthy (2003) – Finbar McBride (Peter Dinklage) decide abandonar tudo e viver recluso em uma estação de trem abandonada, esperando “conviver” apenas com os trens. Mas as coisas não saem como espera e o convívio com outras pessoas se torna inevitável.


truturas se esvaem ao passo que novos “produtos” chegam. Para Leila Tardivo, Profa. Dra. em Psicologia Clínica da USP e coordenadora do Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social do IPUSP, o momento vivido hoje “muito líquido”. Assim, aqueles que tem uma maior necessidade de proximidade com as pessoas acabam encontrando uma solidão maior, o que pode desencadear um processo depressivo. Valendo ressaltar que a depressão não é uma manifestação exclusiva dos tempos atuais, ela apenas foi agravada com os hábitos contemporâneos. “Os avanços tecnológicos, trânsito, competição, crises, podem de fato favorecer que as pessoas se sintam mais sós, porque as relações se dão de forma muito dificultosa diante de um aparente contato intenso”, explica Tardivo. Retornando a Her, Theodore é a personificação do homem moderno (pós-) contemporâneo, que se banha na fluidez das

relações, maquiando-se com o aparato tecnológico para assim esconder sua impotência diante de seu próprio destino. A modernidade líquida esconde em suas entranhas o desalento de cada um de nós, como bem sintetiza a canção de Chico Buarque e Vinicius de Moraes, de 1970, citada por Leila Tardivo:

Sim, vai e diz Diz assim Que eu chorei Que eu morri De arrependimento Que o meu desalento Já não tem mais fim Vai e diz Diz assim Como sou Infeliz No meu descaminho Diz que estou sozinho E sem saber de mim.

ENCONTROS E DESENCONTROS Sofia Coppola (2003) – Bob Harry (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson) não se conhecem, mas estão hospedados no mesmo hotel e compartilham o tédio de suas vidas. Até que se aproximam.

MARY & MAX, UMA AMIZADE DIFERENTE Adam Elliot (2009) – Mary, uma menina de Melbourne, troca correspondências com Max, um senhor de Nova York. As diferenças que os separam se contrapõem à solidão que os aproxima.

TRINTA ANOS ESSA NOITE Louis Malle (1963) – A película apresenta 48 horas angustiantes na vida de Alain Leroy, que, ao completar 30 anos, e recém-saído de um hospital, tenta descobrir um sentido para não desistir da vida.

WALL-E Andrew Stanton (2008) – Os humanos passam a viver em naves depois do acúmulo de lixo e gases tóxicos que impede a vida na Terra. Nela só restam robôs, entre eles Wall-E, que “vive” sozinho até o aparecimento repentino da robô Eva.

A GAROTA IDEAL Craig Gillespie (2007) – Lars Lindstrom (Ryan Gosling) é um homem introvertido e antissocial que vive de forma apática e sem graça, na garagem do irmão e da cunhada, até que transforma uma boneca inflável em namorada.

NÁUFRAGO Robert Zemeckis (2000) – Náufrago é um retrato literal da solidão em múltiplos sentidos. Chuck Noland (Tom Hanks) acaba isolado em uma ilha após acidente aéreo. Lá, fica por quatro anos, na companhia de uma bola de basquete.

TAXI DRIVER Martin Scorsese (1976) – Travis Bickle (Robert de Niro) é um jovem veterano da Guerra do Vietnã que sofre de fobia social. Ao retornar à Nova York, ele trabalha em um táxi, vagando com sua solidão e conhecendo todas as entranhas da cidade.

GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE Ana Lily Amirpour (2015) – Bad City é uma cidade abandonada por leis e tomada pela escória da sociedade. Lá está a vampira Girl, que caminha todas as noites pelas ruas em busca de solitários que saciem seu apetite.

DEIXA ELA ENTRAR Tomas Alfredson (2008) – A figura estereotipada do vampiro é quebrada ao se narrar a improvável amizade entre duas vítimas da crueldade humana: Eli, uma vampirinha, e Oskar, um menino magricela que sofre bullying.

REPULSA AO SEXO Roman Polanski (1965) – Carol Ledoux (Catherine Deneuve) é uma mulher sexualmente reprimida, que vive com sua irmã mais velha. Após viagem da irmã, ela vive momentos bastante depressivos, psico.usp | 157 tendo alucinações.


Estética de inclusão

Foto: Carlos Villaba

Grupo de dança abarca interessados em produzir arte e protestar contra as durezas da cidade de São Paulo

Apresentação do espetáculo “Que nem todos nós”, na Sala Olido da Galeria Olido, 2010

Por Sofia Mendes

A arte da dança permite a movimentação dos corpos, o trabalho dos músculos e a liberação de hormônios do prazer. A Oficina de Dança e Expressão Corporal, projeto de criação de arte por meio dos movimentos corporais, além de fazer tudo isso tem um diferencial: todos podem chegar, participar e se encantar com o projeto. 158 | psico.usp

Uma proposta tão aberta e inovadora pode levantar questionamentos sobre suas práticas e desdobramentos. Dessa forma, a pesquisadora do IPUSP Tatiana Bichara se propôs a estudar o grupo e entender o que ele produz para os participantes e para a cidade. Desse modo, Tatiana, como doutoranda e também coordenadora e dançarina do projeto,


possível transitar pelos polos eu-outro, público-privado, dentro-fora, sem fixar-se em um ponto só. Na hora da dança, os participantes, ao mesmo tempo que lidam consigo, têm de pensar no outro. O grupo produz internamente para apresentar nas ruas, no lado de fora. É nesse sentido que eles transitam, vão do interno ao externo, ao mesmo passo em que produzem e resistem às mazelas da cidade grande, ao ocupar o espaço público que lhes é de direito. É com esse pensamento que os dançarinos produzem apresentações nas ruas, praças e metrôs, por exemplo. Nessas intervenções são questionados muitos problemas intrinsecamente ligados à cidade, como a pressa cotidiana, por exemplo. O andar lento em uma avenida movimentada, a dança em uma estação de metrô em horário de pico, o convite para os transeuntes se juntarem ao grupo, tudo isso faz parte de uma arte política. E assim se constrói uma dança inclusiva e de qualidade nas ruas frias e cinzentas da cidade de São Paulo.

Foto: Islaine Maciel

se viu enfrentando os vários desafios da Oficina de Dança. Criada em 2001, a Oficina surgiu como desdobramento das atividades artístico-políticas do Coral Cênico Cidadãos Cantantes, grupo aberto e heterogêneo, fundado em 1992. O Coral é voltado para a produção artística no espaço público de cultura e vinculado ao Movimento de Luta Antimanicomial. A Oficina de Dança nasceu desse movimento e ocorria, primeiramente, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), com o objetivo de possibilitar a convivência com a diferença entre todos os sujeitos da cidade. Em 2009, o grupo se mudou do CCSP para a Galeria Olido, centro de cultura da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo, localizada no centro da cidade. Assim, o grupo tomou novas dimensões políticas, artísticas e estéticas, e, atualmente, a Oficina abarca um público heterogêneo. Entre os participantes há advogados, donas de casa, pessoas em situação de rua, pessoas com deficiências, artistas, estudantes, pessoas com sofrimento mental, profissionais da saúde, entre outros. Tatiana deixa claro que a Oficina não tem proposta terapêutica, mas de criação artística. O grupo, ao expressar seus sentimentos e emoções nos ensaios e no palco, promove arte de qualidade, mas não seguindo a lógica de estética – limpa ou suja –, e, sim, uma estética de inclusão, de produção, de uma dança para todos. A arte inclusiva que é produzida na Oficina começa nos ensaios: eles são abertos para todos e totalmente gratuitos. Nesses encontros são produzidas peças de dança sem coreografia, que seguem o direcionamento de um tema proposto coletivamente pelo grupo. Além disso, as apresentações são feitas de forma livre, onde todos os participantes podem dançar da forma que quiserem, com as roupas que preferirem, se entendendo e criando em conjunto. A ideia que surgiu da pesquisa foi a de “lugar-ponte”. Nela, segundo Tatiana, é

A pesquisadora do IPUSP Tatiana Bichara

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Entrevista Renato Tardivo

Quando duas ARTES se encontram Pesquisador do IPUSP estuda as intersecções e correspondências que nascem do encontro entre literatura e cinema

Por Aryanna Oliveira

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Foto: Lucas Mello

Foi em uma mesa de bar que nasceu o projeto de estudo de Renato Cury Tardivo, doutor pelo IPUSP, terapeuta e professor universitário. Em um dos muitos encontros com os colegas, durante a graduação em psicologia, o então aluno falava sobre seus planos de uma iniciação científica quando ouviu a providencial pergunta de José Gomide Mochel, conhecido por “Maranhão”: “Cara, você já viu Lavoura arcaica?”. Tardivo não havia visto. “Ainda”, brinca ele. Da leitura de Freud e seu duplo: investigações entre a psicanálise e a arte, de Noemi M. Kon, a “sugestão” de Maranhão se estruturou. No livro, a psicanálise é explorada em uma relação com a estética das artes, em especial com as veredas literárias, o que inspirou Tardivo a estudar a correspondência entre Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, e a obra cinematográfica homônima, de Luiz Fernando Carvalho (2001), em busca do substrato desse encontro:

uma nova arte, um novo olhar. O pesquisador intentou elencar as possibilidades de sentidos que despontam do encontro entre a literatura e o cinema – ou, antes, entre o livro, com suas palavras e sentidos velados, e o filme, cuja câmera é “o olho que narra”. Os estudos de Tardivo resultaram em sua dissertação de mestrado, que mais tarde seria publicada em livro. Como consequência natural de um bem-aventurado projeto, seguiu-se sua tese de doutorado, que trabalha, além de Lavoura arcaica, a correspondência entre outras obras, como Abril despedaçado e Budapeste. Tardivo deu continuidade ao seu projeto, explorando agora, além da conformidade, os conflitos que surgem do embate entre duas artes, da leitura “poética-crítica” – assim chamada por ele – que se faz delas. Em entrevista por e-mail à psico.usp, Tardivo conta sobre seus trabalhos e o modo como o olhar de duas artes cria um novo olhar, uma nova linguagem. psico.usp | 161


...) eu, o filho torto, a ovelha negra que ninguém confessa, o vag ama esta terra, e ama também o trabalho, ao contrário do que repito, e foi um milagre que não pode reverter (...) Não faz ma ue há muito devia ter-se dado em casa “eu sou um epilético iolento que me corria o sangue (...) - Não há proveito em atra afaste o teu pai da discussão dos teus problemas. - Não acre roca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma plan uarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inolável; o quarto éin da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, onsagra estão primeiros os objetos do corpo (...) Que essa mão rei me deitando ternamente sobre o Teu corpo, e com meus dedo boca, limpando depois com rigor Teu rosto machucado, afastand dos Teus olhos (...) O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz di vocadoramente, era um tempo só de esperas, m psico.usp:

Por que analisar cinema e literatura pela ótica da psicologia? Como se dá essa aproximação com as artes? E como surgiu a ideia de tratar essa temática, com Lavoura arcaica, em seu mestrado? Renato: Quando comecei a faculdade de psicologia, no IPUSP, já me interessava por psicanálise e literatura. Logo percebi que gostaria de pesquisar essa relação. Durante a graduação, tomei contato com o trabalho do prof. João A. Frayze-Pereira e com o Laboratório de Estudos em Psicologia da Arte, o LAPA, que ele coordenava na época. Então, realizei uma iniciação científica trabalhando com o romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Nessa época, passei a me aproximar da linguagem do cinema e, assim, o projeto de mestrado, que trataria da correspondência entre o Lavoura arcaica (livro) e o filme homônimo, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, foi tomando corpo no meu último ano de graduação. Quanto à aproximação entre a psicologia e as artes, o campo da Psicologia da Arte delineado pelo prof. Frayze é eminentemente interdisciplinar. Nes-

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se sentido, não se trata propriamente de analisar obras de arte pela ótica da psicologia de modo a reduzi-las a teorias ou conceitos psicológicos. De outro modo, a proposta encampada pelo prof. Frayze implica que o pesquisador empreenda um mergulho na obra, respeitando-a em sua singularidade e considerando-a em sua legalidade interna. Para isso, precisamos estudar história da arte, estética, crítica de arte, filosofia... Nesse campo tão amplo, movido por afinidades pessoais e estéticas, tenho trabalhado com as linguagens da literatura e do cinema. Em seus trabalhos você apresenta Merleau-Ponty como uma de suas orientações teóricas e metodológicas. De que forma os estudos desse filósofo aparecem aplicados ao seu projeto? Maurice Merleau-Ponty foi um filósofo francês, discípulo de Husserl, responsável por importantes contribuições à Fenomenologia. Difícil falar de sua obra, que é tão complexa, em poucas palavras. Mas o aspecto que pode valer a pena ressaltar é a perspectiva relacional apresentada por ele. Merleau-Ponty critica a postura assumida pelas vertentes do


gabundo irremediável da família, mas que ama a nossa casa, se pensa; foi um milagre, querida irmã, foi um milagre, eu t al a gente beber” eu berrei transfigurado, essa transfiguraçã o” fui explodindo, convulsionando mais do que nunca pelo flux apalhar nossas ideias, esqueça os teus caprichos, meu filho, nã edito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em nta nunca enxerga a outra. Os olhos no teto, a nudez dentro d ndividual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalo a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quart o respire como a minha, ó Deus, e eu em paga deste sopro voaos aplicados removerei o anzol de ouro que Te fisgou um dia a do com cuidado as teias de aranha que cobriram a luz antiga iabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava prome guardando na casa velha por dias inteiros. subjetivismo filosófico, segundo o qual a consciência cria mundo (distanciada dele), bem como critica o objetivismo científico. A propósito, “A ciência manipula as coisas e renuncia habitá-las”, ele afirma ao abrir o ensaio “O olho e o espírito”. Assim, Merleau-Ponty propõe que o conhecimento retorne ao seu ponto de partida, que é o mergulho no sensível. A consciência, para ele, se conjuga com um corpo sensível. Nessa medida, o filósofo busca ultrapassar a dicotomia dentro/fora, sujeito/objeto, e a chave para encaminhar a discussão é a forma com a qual ele compreende o corpo: zona de fronteira entre mundo interno e mundo externo, pois está dentro e fora, é sujeito e objeto – se vê, vendo; se toca, tocando etc. Merleau-Ponty faz, ainda, inúmeras referências à arte, pois toma o trabalho do artista e a relação da obra com o espectador como emblemas da construção do conhecimento. Trata-se de uma de minhas principais referências, pois é o que buscamos ao aproximar psicologia e estética: ultrapassar a redução de uma à outra e tomá-las em sua comunicação recíproca.

Além da fenomenologia de Merleau-Ponty, você diz em seu trabalho que suas orientações teóricas e metodológicas se desenvolveram, também, em cima do conceito de “leitura implicada” de seu orientador, João Frayze-Pereira. O que significa o conceito e de que forma ele se relaciona aos sentidos que uma obra acrescenta à outra? Em inúmeros artigos e no livro Arte, dor – inquietudes entre estética e psicanálise, João A. Frayze-Pereira vem utilizando e desenvolvendo a expressão psicanálise implicada. Em linhas gerais, a psicanálise implicada é aquela imbricada, engastada àquilo de que pretende falar (seja uma pessoa, uma obra de arte, um fenômeno da cultura). Contrapõe-se, assim, à psicanálise aplicada (expressão cunhada pelo próprio Freud) porque não visa à aplicação de conceitos previamente construídos. Esse uso, o da aplicação, é extremamente perigoso porque pode ter por resultado a mera reprodução daquilo que já se sabe. Por exemplo, se um analista winnicottiano aplica apressadamente noções dessa psicanálise em um primeiro contato com o seu cliente, são altas as chances de se distanciar desse outro psico.usp | 163


explorando

(se é que chegou a se abrir) e utilizá-las como receptáculo para as noções da psicanálise em que ele acredita. Trata-se de um uso tautológico, ideológico, portanto. Em direção oposta, fundamentada por uma série de autores – Merleau-Ponty entre eles –, a noção de psicanálise implicada difundida pelo prof. Frayze assume a perspectiva relacional que se constrói no encontro do pesquisador (terapeuta) com a obra (cliente). A leitura que decorre do encontro com uma singularidade é também ela singular e solicita os conceitos que sirvam àquela obra (cliente) porque ela assim se fez comunicar. Dessa comunicação recíproca entre duas linguagens, dois tipos de narrativas, nasce a terceira a que você se refere em sua dissertação? Como se dá o processo para se chegar à essa terceira narrativa e como ela se apresenta? Essa narrativa como resultado do embate de duas outras estaria relacionada à sua fala ao dizer que “Há sempre um olhar direcionado àquilo que está ocorrendo; olhar que, ao fundar perspectiva, renova as demais leituras – um ‘codevaneio’”? Se, como falamos anteriormente, a leitura decorrente do encontro com um outro – ou no caso da minha pesquisa, com outra(s) obra(s) – é singular, a terceira narrativa a que me refiro é emblema dessa singularidade. Como eu trabalhei com duas obras (o romance e o filme) e com a correspondência entre elas, foi-se me delineado, à medida que redigia a dissertação, que toda narrativa é marcada pela construção de um olhar. E, mesmo que se tratasse de um trabalho acadêmico (e, aqui, o fato de eu também escrever ficção certamente me ajudou), o texto que escrevi – publicado em seguida no livro Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica – não tinha

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Lavoura arcaica foi o primeiro livro publicado por Raduan Nassar, em 1975. A obra, considerada uma das mais importantes da literatura brasileira nas últimas décadas, foi muito bem recebida pela crítica, tendo recebido o prêmio Coelho Neto para romance, da Academia Brasileira de Letras; o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, como Autor Revelação; e o prêmio e Menção Honrosa e também Autor Revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte — APC. Em 2001, a narrativa do paulista de ascendência libanesa ganhou movimento com a direção de Luiz Fernando Carvalho, com filme homônimo, para o qual o livro serviu como verdadeiro roteiro. Raduan conta a história de André, narrador-personagem da obra, que, em síntese, foge o seio familiar arcaico da lavoura, abandonando sua família, em uma tentativa de fugir de sua problemática pessoal: a austeridade do tratamento do pai; o afeto excessivo da mãe, a relação incestuosa com a irmã, a vida que sufoca e asfixia nas antigas lavouras do país. Há um percurso de partida e um retorno que norteiam a narrativa e a separam em duas partes. Quando não há mais possibilidade de fuga, André volta à família, mas antes de tudo volta a si mesmo, mas não sem estabelecer o caos da ruptura. “Assim, na condição de narrador-personagem, ele vai se debruçar sobre os estilhaços quase sempre dolorosos, para, entre o lírico e o trágico, recompor e de algum modo reviver a história da sua família”, explica o pesquisador. Se por um lado há uma tentativa de fuga da rigidez do pai, do seu controle das paixões, há um encontrar-se na figura paterna. No último capítulo, “em memória do pai”, se ilustra o retorno à origem, como um ciclo da natureza sem fim, em que a transcrição de um dos sermões do pai, é antes de tudo “o retorno à palavra do pai”, explica Tardivo,


os sentidos em Lavoura arcaica

segundo “o filho traz o pai para dentro de seus olhos”. E como adequar os pormenores de uma escrita tão cheia de nuances e singularidades para o cinema? O trabalho de Tardivo buscou analisar justamente isso, a articulação da correspondência na transposição da obra literária para a fílmica. O pesquisador verificou, como um historiador do filme, que Carvalho privilegiou as sensações dos atores ao seu trabalho teatral. O diretor buscou criar um roteiro que permitisse que os personagens fossem vividos e não representados, em busca de total fidelidade ao romance. “Tratava-se de emprestar efetivamente o corpo às palavras, ao mesmo tempo em que se o deixava afetar por elas. Em suma, mergulhar e ser mergulhado, como se todo o processo estivesse “alojado”, retomando a expressão de Merleau-Ponty, nas próprias linhas do romance”, analisa. As vozes subjetivas das linhas de Raduan ganhavam contornos com a luz e a câmera do diretor, os olhos de André são captados pelos olhos de Carvalho. Nesse jogo de “imagens das palavras”, o romance de Raduan e o movimento de Carvalho se encontram, mas não se fundem, se multiplicam. Eles se embatem e se reconciliam promovendo um outro olhar – novo, único – para além do romance e da adaptação, uma multiplicidade de sentidos que criam uma nova linguagem. “Ao trazer o livro para dentro de seus olhos, o filme não o repete, mas funda uma nova leitura, que parte das palavras do romance e a elas procura retornar [...]. O novo ser, extensão do antigo, conserva algumas marcas, modifica outras. A semente do velho jamais perece: ela se debruça sobre o vir a ser. Passado e futuro ora se aproximam, ora se afastam, mas sempre se comunicam – naquilo que nomeamos presente. Sem embate, não há tempo, não há outro, não há nada”, finaliza.

a pretensão de, por meio de academicismos, chegar à verdade absoluta das obras, mas era, também ele, marcado por ambiguidades e metáforas sensíveis. Em suma, toda resposta a uma narrativa é uma interpretação e, se sintonizada à legalidade das obras, uma interpretação que as continua, ou, como diz o italiano Luigi Pareyson, devolve-lhes a vida de que são feitas. Algo que se vive junto, um sonho que se sonha junto. Daí minha menção à expressão “codevaneio”, do filósofo francês Mikel Dufrenne. Quando se adapta a literatura para o cinema, algumas mudanças, normalmente, se fazem necessárias. Há alguma falta significativa do livro na obra cinematográfica? Como digo no trabalho, as diferentes linguagens, ainda que se correspondam, se abrem para especificidades. Logo, como apontado em sua pergunta, há “adaptações que precisam ser feitas”, escolhas a ser tomadas: por mais que o filme parta do livro, é uma obra nova que nasce. Conquanto meus objetivos não fossem analisar a fidelidade do filme em relação ao livro, eu não falaria em “falta significativa”. Creio que há escolhas no filme marcadas pela preocupação em ser fiel ao livro, nas minhas palavras, “instância superegoica” para o cineasta Luiz Fernando Carvalho e sua equipe. Como a obra Lavoura arcaica aborda as possibilidades e impossibilidades de diálogo entre pai e filho, velho e novo, parto daí para fazer uma analogia entre o diálogo do filme (novo) com o livro (velho). Do meu ponto de vista, esta é uma das principais diferenças entre as duas obras: no romance, o retorno ao pai jamais se consuma; já no filme, ele se consuma no desfecho. Isso faz com que a temporalidade do romance seja espiralada e a do filme, circular.

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Embrenhando-se já no universo de Lavoura arcaica, como pode ser visto psicanaliticamente o que você se refere como “evento mais significativo para a trama”, um incesto que se estabelece entre os irmãos André e Ana? E já aproveitando o gancho das relações familiares do protagonista, o que se pode ressaltar do vínculo dele com a mãe? André era sufocado pelo excesso de afeto da mãe e pela rigidez da lei do pai. E ele explode no incesto com Ana, a irmã. É um dos eventos mais significativos porque marca a fuga de André da casa e é determinante para o desfecho trágico da trama. Em vez de considerar o incesto como uma questão apenas edípica, qual seja, o modo de André consumar, por meio do corpo da irmã, a relação sexual com a mãe, busco problematizar a questão. E proponho que o incesto marca tanto a contestação de André – porque se trata de um ato proibido – como a conservação – porque é uma forma de retorno radical à estrutura familiar, e este retorno está contido no discurso endogâmico do pai. O incesto, ainda, nos oferece elementos interessantes para pensar a questão da ressignificação das origens, questão cara a André em sua relação com a família e questão cara, também, à correspondência entre o romance e o filme. Por exemplo, quando Luiz Fernando Fazendo uma brincadeira Carvalho afirma que não há nada com os títulos dos em seu filme que trabalhos, diria que não esteja no livro, depois do Porvir que vem eu digo que esse antes de tudo [dissertação discurso se reveste de tonalidades de mestrado], vieram as incestuosas. Por Cenas em jogo [título do outro lado, é jusdoutorado]. tamente ao realizar uma obra que E talvez seja isso mesmo. se corresponde Além ou aquém do com a obra de “porvir que vem antes de origem e não a retudo”, resta a vida pete – como vimos

Renato Tardivo

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Não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: “estamos indo sempre para casa”

Raduan Nassar há diferenças significativas entre elas – que o filme se liberta das amarras do incesto. A sua tese de doutorado parece ser um fruto natural do sucesso do seu mestrado, que inclusive foi publicado em livro. Mas como surgiu esse “aprofundamento” para um novo trabalho? O que vem além do “Porvir que vem antes de tudo”? Fazendo uma brincadeira com os títulos dos trabalhos, diria que depois do Porvir que vem antes de tudo vieram as Cenas em jogo (título do doutorado). E talvez seja isso mesmo. Além ou aquém do “porvir que vem antes de tudo”, resta a vida. No mestrado eu descobri uma forma de ler/analisar obras, mas, por mais que tenha explicitado essa descoberta, não me debrucei propriamente sobre isso: meu interesse era a correspondência do livro com o filme. Então, no doutorado, a proposta foi, a partir do meu encontro com outras obras, outras cenas (optamos por incluir a correspondência em Lavoura arcaica como primeiro capítulo, justamente pelo caráter de continuidade da pesquisa), poder pensar e fundamentar essa forma de leitura – que eu denominei “poética-crítica”. Das leituras das obras (livros e filmes), emergiram os seguintes temas: liberdade e opressão; ressignificação da


lei e perversão; realidade e ficção; reflexão sobre os mecanismos de construção da verdade. Essa resposta (poética) às obras que as continua, que se vale de ambiguidades etc. é também uma forma de crítica porque se movimenta a partir de conflitos, embates, traz o novo, ultrapassa o instituído. Em seu último projeto, você diz trabalhar certos “mecanismos de construção da verdade”. Qual a relação desses mecanismos com seu processo metodológico? Eduardo Coutinho, um dos mais inventivos documentaristas brasileiros, dirigiu uma das obras que analisei no doutorado: Jogo de cena. Considero o capítulo dedicado a esse filme a espinha dorsal da pesquisa, justamente pela questão dos “mecanismos de construção da verdade”. Coutinho subverteu a linguagem documental ao evidenciar o quanto há de ficção nela, e vice-versa. Uma das marcas de seu cinema documental – que talvez tenha atingido o ponto máximo em Jogo de cena – não é filmar a verdade, como apressadamente pensa-

mos sobre documentários, mas filmar os mecanismos de construção da verdade. Isso faz toda a diferença, porque não considera que exista uma (única) realidade a ser filmada e, mais ainda, evidencia-se que as personagens (reais) se constroem na relação com o documentarista e o aparato. Mantém-se a ambiguidade. Isso vale também para o meu percurso metodológico: refletir no capítulo final os mecanismos de construção das leituras é explicitar os mecanismos de construção da verdade da própria tese. Como escrevo no fim do trabalho: “A ambiguidade, vivenciada dessa perspectiva, tende à multiplicidade, isto é, em vez de falsamente se resolver, ela se potencializa. Ora, se toda forma de apreensão e registro da realidade se dá pela via da ficção, toda ficção assenta-se à realidade. De resto, qualquer tentativa de apreensão definitiva da realidade fracassa. A própria fotografia não foi capaz de fazê-lo: para a foto existir, é necessário um quantum de luz em um período de tempo. Apreensão infinita: instantes que, de tão reais, dão a volta toda. Viram ficção”.

Livros de autoria de Renato Tardivo

flávio viegas amoreira Escritor e jornalista

renato tardivo

enfatizo ter em mãos o conto como resistência, a literatura do porvir, o sóbrio e não menos poderoso percurso do transe em estado de palavra em numinoso enigma – a “transmodernidade” e o jovem mestre como mensageiro do absurdo desvelado.

Quantas palavras cabem em um último suspiro? Infinitas e muito poucas. Infinitas e muito poucas... Essas máximas banalizadas pelo uso readquirem todo o sentido quando nada mais nos resta. Eu sei, não posso exigir compreensão nesse ponto. Qualquer um na mesma condição que eu não poderia respirar o meu suspiro.

renato tardivo nasceu em São Paulo, em 1980. É escritor e psicanalista. Estreou na literatura com o volume de contos Do avesso (Com-arte), em 2010. Foi professor universitário, é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela uSP e autor de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê Editorial/Fapesp).

silente silente

Pela última vez – queria um uísque, o cheiro de uma mulher, um sorriso sincero. Se é verdade que podemos tudo na morte, é também verdade que nunca pudemos tão pouco. Nós não podemos mais nada – pela primeira vez.

renato tardivo

A narrativa ainda e sempre possível num mundo em estilhaços de significados, o virtuosismo carregado de alta voltagem de poeticidade e a insurgência de riquíssimo simbolismo epifânico, assim me deparei com essa sobreposição de atmosferas: o universo literário de Renato Tardivo. Acasos “objetivos”, o desespero exposto, a angústia quase que epidérmica revelando o fantástico do visível, o encantamento na imanência de Silente me fazem interpretante fascinado pelo conteúdo, a originalidade não “vanguardosa” da forma e a tessitura fenomenológica quando o “inexprimível” irrompe do absurdo rastreado a partir dum detalhismo precioso. É o deslocamento, “a troca (quase) muda” exigindo da terceira margem, da quarta parede dessa dramaturgia por contos que nos colocam como rastreando o jogo da amarelinha ontológica da Vida: uma clareira frásica alinhavada pelo cotidiano nada prosaico pela precipitação nos ecos inarticulados que o circunda. Tardivo elabora a escritura na situação limítrofe da linguagem: no desdobramento da “curtição da linguagem” ao apuro do entrecho. Não se perdem estória nem intelecção:

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Perfil

Dora Selma Fix Ventura

trajetória As contribuições de Dora Ventura para o IPUSP são inúmeras: foi Vice-Diretora do instituto e Chefe do Departamento de Psicologia Experimental por duas vezes, formou mais de 40 mestres e 28 doutores. Os trabalhos de seu grupo receberam 17 prêmios em congressos nacionais e internacionais nos últimos cinco anos (2010-2015). Fundou o Laboratório de Psicofisiologia Sensorial, e o Laboratório da Visão que é dedicado à pesquisa aplicada em Psicofísica e Eletrofisiologia Visual Clínica; esses espaços de pesquisa alocam cerca de 40 pesquisadores, desde graduandos até pós-doutores. A pesquisadora também construiu um caminho de grande relevância para a sociedade científica nacional e internacional: foi Vice-Presidente da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (2013-2015), Vice Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (2013-2015), Vice Presidente da SBPC (2003-2007; 2011-2013), Presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (1996-2001), da Brazilian Research Association in Vision and Ophthalmology (2010-2012) e da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (1991-1994). É Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, membro titular da Academy of Sciences for the Developing World (TWAS), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), recebeu a Medalha CAPES 50 anos e a Medalha Neurociências Brasil. 168 | psico.usp


A menina dos olhos Dora Selma Fix Ventura foi responsável pela formação de dois laboratórios e coordena pesquisas inovadoras sobre os mecanismos da visão em animais e em seres humanos Por Sofia Mendes A mente das pessoas e o que as move a realizar suas ações sempre foram questões inquietantes para Dora Selma Fix Ventura. Docente aposentada do IPUSP, ela conta com uma extensa trajetória acadêmica e administrativa, e como pesquisadora ajudou a elucidar os instigantes processos mentais dos seres humanos. Há 47 anos ela coordena o Laboratório de Psicofisiologia Sensorial, que estuda a visão de animais e, mais recentemente, realiza pesquisas e exames clínicos em seres humanos. Para isso, o laboratório dispõe de uma série de aparelhos especializados e de uma equipe com conhecimentos da psicofísica, que ajudam a desvendar aspectos da visão muitas vezes não elucidados pelos médicos da área de oftalmologia. A relevância do recorte temático, e a importância dos resultados alcançados com as pesquisas de Dora Ventura se comprovam pela extensão de sua presença nas organizações científicas nacionais e estrangeiras. Mas nem sempre o caminho trilhado pela cientista reconhecida foi tão claro, uma trajetória sofisticada levou a pesquisadora até seu destino final, os estudos da psicofísica da visão. No começo da carreira, antes de ingressar na faculdade, a dúvida sobre a escolha de um curso superior afligiu a então adolescente. As carreiras tradicionais como arquitetura ou medicina lhe pareciam interessantes, mas insuficientes para suprir o desejo de compreender as pessoas. Voltando-se para o campo das ciências humanas, Dora escolheu o - à época recente - curso de Psicologia da USP, ingressando na Universidade em 1958. Contudo, as teorias da psicologia não pareceram suficientes para responder os questionamentos da pesquisadora. Foi o contato com professor americano, Fred

Keller, pioneiro da área de Psicologia Experimental, e introdutor no Brasil da prática da Análise do Comportamento, em sua estada na Universidade de São Paulo, que abriu novas perspectivas científicas a Dora. “Ele foi responsável pela minha virada para a área de ciência porque mostrou para nós, alunos, que era possível fazer uma experimentação e ter dados controlados em psicologia”, conta. A partir desse contato com Keller, ela realizou sua pós-graduação na Columbia University, em Nova Iorque, onde permaneceu de 1962 a 1968. Lá, mais uma virada se seguiu: deixou os estudos na área do professor que a inspirou e partiu para a psicofísica da visão. “Eu queria entrar dentro da caixa preta, que é o cérebro. Então eu escolhi o sistema visual para trabalhar”,explica. Para ela, esse sistema apresenta vantagens pois os estímulos visuais são medidos com facilidade devido à sua anatomia, e às técnicas de pesquisa já estabelecidas. De volta ao Brasil, no final da década de 1960, instalou seu primeiro laboratório no IPUSP, o Laboratório de Psicofisiologia Sensorial, cujos estudos são destinados a avaliar o desempenho humano, seus limites e mecanismos, diante da estimulação sensorial. Já no Laboratório da Visão, os conhecimentos adquiridos da fisiologia e da psicofísica visual em animais são usados na elucidação dos mecanismos que causam perdas visuais decorrentes de doenças em humanos. Mesmo depois da aposentadoria, Dora segue sua trajetória na ciência e na psicologia. Pró-ativa, ela continua como professora sênior da USP e leciona em disciplinas da pós-graduação. Além disso, continua supervisionando as pesquisas do laboratório que fundou, atenta ao que pode surgir de novidade. psico.usp | 169


Commentor Maria Júlia Kovács

FALANDO DE MORTE

COM CRIANÇAS As perdas e a morte fazem parte do desenvolvimento humano desde o nascimento até o fim da vida. A criança pequena pode viver experiências de morte, mas ainda não sabe que da morte ninguém volta, e que essa acontece com pessoas queridas (pais, avós, amiguinhos, animais de estimação). Por isso são importantes esclarecimentos e a acolhida dos sentimentos. Os adultos familiares (pais, tios, avós, professores) são modelos para criança, um porto seguro. Essas primeiras experiências deixarão marcas profundas na vida de cada um de nós. No estágio pré-operacional, segundo Piaget, a criança percebe a morte como um acontecimento temporário, que pode ser revertido, que é possível morrer “só um pouquinho”. Filmes, revistas e desenhos reforçam esse conceito. Crianças apresentam pensamentos mágicos, acreditando que o que pensam ou desejam pode ocorrer. Se ocorrer uma morte, podem ter a idéia de que esse fato está relacionado com seu desejo ou pensamento. Se pais ou irmãos morrem, a criança pode se 170 | psico.usp

culpar. Elas ainda não sabem que da morte não há volta. Fazem perguntas sobre onde está a pessoa morta, se podem encontrá-la e também se vão morrer. Para os pais, que vivem seus processos de luto, ouvir e responder a essas perguntas pode ser uma tarefa difícil. Tentam evitá-la, afirmando que a criança vai sofrer ou não entender. A maneira de lidar com o sofrimento de forma construtiva não é evitá-lo, e sim favorecer a conversa, compartilhando os sentimentos. A criança percebe quando ocorreu uma morte, e não falar sobre ela pode provocar medo, insegurança. O uso de metáforas para explicar a morte deve ser evitado. Exemplificando: falar da morte como “sono eterno” pode causar incompreensão, porque se confunde com o sono diário, o mesmo ocorre quando se fala da morte como “viagem eterna”, comparada com as viagens de fim de semana, com ida e volta. O que tem como objetivo diminuir a dor pode causar dificuldades de compreensão. Crianças mais velhas já compreen-


dem que a morte é irreversível e universal principalmente se já viveram experiências pessoais. Luto é definido com processo de elaboração de perdas vividas e faz parte da existência humana desde o seu início. A mãe é a principal figura de apego do bebê, e a criança a procura quando está com fome, cansada, com medo ou quando se sente insegura. Existem relações mãe-bebê em que há confiança e carinho, e a criança explora o ambiente, tendo a mãe como base segura. Há relações em que a mãe tem dificuldades de atender às necessidades do seu bebê, sem contato carinhoso e sem expressar suas emoções. Os bebês choram, ficam irritados nessa condição. Essas experiências se tornarão presentes quando ocorrerem as primeiras perdas do desenvolvimento. Crianças vivem processos de luto como os adultos, necessitam de acolhimento e cuidado. Podem apresentar distúrbios de alimentação, sono e alterações de comportamentos na escola. É um erro considerar que crianças não percebem quando ocorrem mortes e que por isso se deve agir como se nada tivesse acontecido. Outra falsa crença é a de que as crianças superam facilmente as perdas, distraindo-se com brincadeiras. Assim, a criança aprende que deve ocultar seus sentimentos. Falar, explicar, esclarecer não retira a dor, mas permite que a criança possa recorrer àquelas pessoas com as quais se sente mais segura. Crianças podem participar de velórios e enterros como membro integrante da família. O que dizer quando a criança pergunta se vai morrer, o que dizer

quando está doente e observa que companheiros de quarto ou enfermaria desaparecem e não voltam? É importante clareza e sensibilidade para perceber as necessidades de acolhimento e cuidados e o que a criança está pedindo nesse momento. O corpo mostra sinais, e as mudanças no comportamento trazem indícios do que está ocorrendo. A criança preocupada com o que percebe, busca nas pessoas à sua volta a confirmação de suas impressões. Fingir que está tudo bem fazendo com que as palavras comuniquem uma coisa, e o corpo expresse outra, pode instalar um sentimento de incerteza, dúvida e isolamento. Tampouco o silêncio permite que se compartilhem os sentimentos, as dúvidas e as questões de quando a morte se aproxima. Essa situação é conhecida como conspiração do silêncio. Trata-se de “teatro de má qualidade”, no qual o conteúdo expresso em palavras não é consistente com o que o corpo e os olhos manifestam, já que esses são mais dificilmente controlados. Crianças à morte querem ser asseguradas de que não serão esquecidas, que permaneçam na lembrança de quem amam, principalmente quando não estiverem entre eles. Mais do que a morte, existe o medo da separação e do abandono, nessas situações buscam a presença constante da mãe ou pessoas familiares. Crianças enfermas necessitam de explicações claras sobre o que está sendo feito no hospital, já que a internação é uma

Crianças vivem processos de luto como os adultos, necessitam de acolhimento e cuidado

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refeições em família. São cenas chosituação difícil com afastamento da cantes, repetidas com textos superfamília e de amigos. ficiais e depoimentos emocionados, Quando pensamos em cuiacompanhados de notícias amenas dado, devemos considerar ou de propaganda. Filmes, desenhos a comunicação, escutar as animados tranecessidades Crianças à morte zem imagens da criança enlutada de forma querem ser asseguradas de fantásticas de violência, de atenta, facilitar que não serão esquecidas, morte como a expressão de se essa fosse sentimentos que permaneçam na espetáculo. sem censura lembrança de quem amam, A psicoterapia e julgamentos prévios, incluinprincipalmente quando não para crianças, também codo os irmãos estiverem entre eles nhecida como saudáveis na ludoterapia, comunicação, utiliza desenhos e atividades lúdicas, nos cuidados com as crianças doenjá que a fala ainda é difícil para que tes. Elas precisam ser ouvidas nos seus elas expressem seus sentimentos. Os medos, possibilidades de identificação, livros também são importantes para culpa, sentimentos ambivalentes em ajudar a elaborar o luto. Em muitas relação ao irmão enfermo, entre os histórias, a criança pode se identifidesejos de recuperação e de morte, já car com os processos vividos pelos que frequentemente o irmão enfermo personagens. A indicação deve ser rouba a atenção dos pais. feita com cuidado e não substitui o Gostaríamos de destacar a importâncontato com pessoas, mas podem ser cia da escola no cuidado dispensado às excelentes complementos, principalcrianças que sofreram perdas de pesmente quando as histórias são lidas soas próximas. Cada vez mais a morte e compartilhadas com outras crianças é assunto também na escola, já que a e adultos, como aponta Rubem Alves morte faz parte do cotidiano das crianem vários livros que escreveu para ças, ela está presente na comunidade, crianças. Filmes que abordam o tema em casos de homicídios, acidentes e da morte e do adoecimento podem suicídios, casos de morte “escancaraser utilizados em escolas e pelas fada” que não podem passar despercemílias. Há clássicos como Bambi, Rei bidos no diálogo do ambiente escolar. Leão e Rochedo Gibraltar. Esse tipo de morte ocupa espaços, peEstas são algumas das propostas que netra na vida das pessoas a qualquer permitem que a morte, numa sociehora, dificultando a proteção e controdade que a nega, possa ser mais bem le das consequências, as pessoas ficam compreendida por crianças vivendo expostas e sem defesas, além de ser situações de perda e morte. brusca, inesperada e invasiva. Outra forma de morte escancarada Maria Julia Kovács ocorre em programas de auditório, Professora do Departamento de Psicologia da prendizagem, do Desenvolvimento e da novelas, noticiários, invadindo lares Personalidade (PSA) e coordenadora do a qualquer hora, inclusive durante as Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM)

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Livros para crianças sobre perda, adoecimento e morte RUBEM ALVES - A montanha encantada dos gansos selvagens - A operação de Lili - O medo da sementinha

KAREN BRYANT-MOLE - O que está acontecendo? Morte

LEO BUSCAGLIA - A história de uma folha

LANA VERAS DE CARVALHO - Dudu vai ao hospital: compartilhando vivências de crianças com câncer

LÍDIA IZECSON DE CARVALHO - Cadê meu avô?

MARIA INÊS RIVABEN RICCI - Cadê Cotó?

RAOUL KRISCHANITZ - Ninguém gosta de mim!

LUCIANA MAZORRA & VALÉRIA TINOCO - O dia em que o passarinho não cantou

NELY GUERNELLI NUCCI - O leão sem juba LYGIA BOJUNGA NUNES - O meu amigo pintor

ZIRALDO - Menina Nina: duas razões para não chorar

BABETTE COLE - Caindo morto VICTORIA RYAN - Quando seus avós morrem CARLA CODANI HISATUGO - Conversando sobre a morte: para colorir e aprender - Conversando sobre a morte: manual de leitura

ÉRIC-EMMANUEL SCHIMITT Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa

CHRISTIANE HEGEDUS Quico e o Dr. Amigão: conversando com crianças sobre insuficiência renal crônica

ELISABETH KUBLER-ROSS - A revelação do segredo

RICARDO VIVEIROS - O poeta e o passarinho - Saudade

WLADEMIR LACERDA - Pintinho Jubão e o espírito da floresta

MÁRCIA SZÉLIGA - Do céu ao céu voltarás

GIUSEPPE MASERA - Queridos pais... psico.usp | 173


Lançamentos Horizontes da Psicologia Hospitalar – saberes e fazeres Maria Lívia Tourinho Moretto, Valéria Elias, Glória Perez e Leopoldo Barbosa Editora Atheneu, 2015, 170 págs. A obra tem o intuito de preencher uma lacuna sobre psicologia hospitalar na literatura brasileira, abordando os saberes e fazeres diante de dilemas e limites clínicos. O livro apresenta uma visão ampla do campo prático-teórico da psicologia hospitalar e dá destaque à importância da subjetividade do pensamento nessa área da psicologia.

Histeria e Gênero - Sexo como desencontro Pedro Eduardo Silva Ambra e Nelson da Silva Jr., orgs. Editora nVersos, 2014, 288 págs. O diálogo entre psicanálise, feminismo e estudos de gênero com reflexões acerca das diferentes maneiras pelas quais desejos e identidades se expressam e se relacionam. O livro proporciona discussões sobre sexo e gênero, assuntos contemporâneos intensamente abordados pela sociedade.

Figuras da sublimação na metapsicologia freudiana Ana Maria Loffredo Editora Escuta, 2014, 384 págs. A autora se propõe a acompanhar a construção do conceito de sublimação em Sigmund Freud, analisando os impasses e tensões presentes durante esse percurso, e a averiguar as relações desse conceito com a produção pós-freudiana. Apresentando vários recortes, a pesquisa de Loffredo se debruça sobre as inúmeras faces do movimento da sublimação, exibindo a pluralidade de figuras que ele assume.

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Paisagem, Imaginário e Narratividade Sandra Maria Patrício Ribeiro e Alberto Filipe Araújo Zagodoni Editora, 2015, 272 págs. O livro contempla um apanhado de textos de especialistas de diferentes áreas do saber. Seus colaboradores expressam reflexões acerca do imaginário, da paisagem e da narratividade.

Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros Christian Ingo Lenz Dunker Boitempo Editori, 2015, 416 págs. Dunker relaciona como a cultura contemporânea de muros e condomínios fechados no Brasil é um dos fatores para a causa do mal-estar e sofrimento social. Unindo psicanálise à teoria social, ele questiona de que forma a segregação social e supervalorização de espaços fechados, os quais supostamente oferecem segurança, na verdade apresentam problemas, como a hipertrofia de regulamentos. Além disso, o autor demonstra de que forma a privatização e o cercamento de muros ao redor do espaço público promove a privatização da própria vida.

Clinicidade - A Psicanálise entre gerações Organizador: Rafael Alves Lima – com textos de professores do IPUSP: Ana Loffredo, Christian Dunker e Daniel Kupermann Juruá Editora, 2015, 146 págs. O livro conta com sete ensaios de jovens psicanalistas talentosos que são comentados por outros mais experientes, de forma que se inverte a direção do diálogo entre as gerações. Os textos permitem apreender um segundo nível de angústia ligado à clinicidade: tratase da própria possibilidade de “exercer a clínica na cidade”. Nota-se que os depoimentos escritos pelos psicanalistas mais jovens possuem contradições internas ao campo de formação, o que sugere que ele pode estar em curso de uma mutação, a qual caberia aos mais jovens no ramo.

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Lançamentos Psicanálise e Literatura: Imre Kertész e o desterro humano José Alberto Cotta e Gilberto Safra, orgs. Editora E-galaxia, 2015 , 75 págs. Resultado advindo do seminário “Interface entre Psicanálise e Literatura: visitando Imre Kertész”, realizado no Instituto de Psicologia da USP em 2004, a obra une artigos concebidos por pesquisadores que se apresentaram na ocasião. A importância e a contribuição da literatura para a clínica psicanalítica contemporânea são abordadas pelos colaboradores do livro. xxxx Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes Paulo Cesar Endo e Cristiane Izumi Nakagwa, orgs. Benjamin Editorial, 2015, 192 págs. O livro tem como objetivo discutir os bombardeios atômicos ocorridos em agosto de 1945, abordando aspectos técnicos e historiográficos relacionados à produção e à utilização das armas atômicas, assim como seus desdobramentos políticos, sociais, culturais e subjetivos. Busca discutir a importância da preservação da memória da catástrofe atômica.

Autismo, linguagem e cognição Fraulein Vidigal de Paula, Briseida Dogo Resende, Sheila Cavalcante Caetano, Maria Célia Lima-Hernandes, Marcelo Módolo (orgs.) Paco Editorial, 2015, 125 págs. A obra reúne textos que tratam do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e combinam diversas áreas de conhecimento, como Linguagem, Linguística, Fonoaudiologia, Psicologia e Psiquiatria. Os organizadores compilaram artigos produzidos por seus alunos de disciplinas que examinaram os mecanismos cognitivos presentes no processo linguístico e procuraram lidar com a complexidade de questões não somente científicas para um mestrado ou doutorado, mas ainda com as vicissitudes derivadas da prática pedagógica. Com o apoio de uma abordagem multidisciplinar, busca-se um ser holístico em casos de autismo.

Linguagem e cognição: um diálogo interdisciplinar Briseida Dogo Resende, Fraulein Vidigal de Paula, Maria Célia Lima-Hernandes, Marcelo Módolo, Sheila Cavalcante Caetano (orgs.) Pensa Multimedia, 2015, 296 págs. Como o título já sugere, há neste livro a discussão do tema da linguagem numa perspectiva que integra várias áreas: Linguagem, Linguística, Fonoaudiologia, Psicologia e Psiquiatria. Os capítulos são orientados por dois focos em sua redação: a revisão teórica de aspectos da cognição que se relacionam mais diretamente com a linguagem e a língua, e a aplicação de princípios teóricos e de fenômenos sociocognitivos que impactam a linguagem humana, em especial a língua, seu léxico e sua gramática. A primeira parte situa o leitor sobre conceitos, princípios e abordagens que norteiam os capítulos da segunda, que ilustra como esses conceitos e princípios são aplicados. 176 | psico.usp


Na Psicanálise de Wilhelm Reich Paulo Albertini Zagodoni Editora, 2016, 234 págs. Este livro é resultado da tese de livre-docência do autor, cujo objetivo é contribuir para a compreensão acerca da participação de Reich na Psicanálise. Entre os aspectos abordados na obra, estão a técnica psicanalítica da Análise do Caráter, a correspondência de Freud para Reich, e ainda a “técnica ativa” de Ferenczi e os desdobramentos acerca da sexualidade genital. xxx

Amerindian Paths: guiding dialogues with psychology Danilo Silva Guimarães Information Age Publishing, 2016, 366 págs. Visando a articular questões teóricas e metodológicas da psicologia cultural com a pesquisa e prática do trabalho de psicólogos com os povos indígenas, trata-se de um livro que reflete sobre a própria teoria, traz novas proposições teórico-metodológicas e éticas para a Psicologia Cultural e analisa os impactos da diversificação da trajetória semiótica em fronteiras interétnicas.

Modalidades de Intervenção Clínica em Gestalt-terapia Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu, orgs. Summus Editorial, 2016, 216 págs. Dentro da coleção: Gestalt-terapia: fundamentos e práticas, em que são apresentadas de forma didática as bases filosóficas e teóricas que fundamentam a abordagem gestáltica, chega agora o quarto volume: “Gestalt-terapia: modalidades de intervenção clínica”, que se debruça na prática clínica e suas especificidades para diferentes grupos, incluindo a saúde pública. Alguns temas bordados são: psicoterapia dialógica, o lugar do corpo e corporeidade, o trabalho psicoterapêutico com crianças, o atendimento a adolescentes, psicoterapia gestáltica com idosos, terapia de casal e da família na abordagem gestáltica. psico.usp | 177


Psico-HQ Se a vida fosse como a Internet

Pablo Carranza

pablocarranza.com

Sua HQ pode ser publicada. Envie seu trabalho para revistapsico.usp@gmail.com

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Outro olhar

Carolina Sasse

Aryanna Oliveira

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Wanderley Correia


Aryanna Oliveira Jaime Gonçalves

DĂŞ o seu olhar sobre o IPUSP. Envie sua foto para revistapsico.usp@gmail.com

Wanderley Correia

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| psico.usp

Profile for Instituto  de Psicologia da USP

Revista psico.usp n. 2/3, 2016  

É hora de falar sobre gênero | O sofrimento do docente | Anorexia na relação mãe-filha | Compulsão alimentar: novas formas de prevenção e tr...

Revista psico.usp n. 2/3, 2016  

É hora de falar sobre gênero | O sofrimento do docente | Anorexia na relação mãe-filha | Compulsão alimentar: novas formas de prevenção e tr...

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