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Ninguém está sozinho AO ENTRAR E SAIR DO MUNDO

Izabel Lobato


Ao conhecer Izabel Lobato vi uma mulher de aparência frágil e quase infantil, mas de força gigantesca e enorme persistência. Desenvolvendo um lindo trabalho de Capelania Hospitalar para adultos e crianças em hospitais públicos do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo, ministrando de maneira ímpar a Palavra de Deus com muita perseverança. Minhas expectativas foram todas além do que eu imaginei. Porque o Evangelho em que acredito é o que está escrito em Tiago 2:17 “Portanto a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta”. Caminhar e trabalhar com Izabel nesses últimos oito anos foi e está sendo um presente de Deus. Neste duro trabalho onde poucos querem estar. E, digo poucos, pois só os chamados atendem ao “Eis-me aqui”. Izabel não pensa na morte como um momento triste, doloroso, difícil, um estágio final. Justo o contrário. Ela vê o quão importante é esse momento para os filhos de Deus: Uma verdadeira festa, com um lindo coral de anjos na recepção do Céu. Também como é imprescindível ter ao lado os amigos e parentes. E por isso, ela está incansavelmente ao lado deles. Todavia Izabel não enfatiza o desejo à morte ou algo semelhantemente mórbido. Mas inevitavelmente, um dia esse momento chegará para todos nós. Izabel Lobato me fez ver o quanto precisamos aproveitar esse tempo que se chama HOJE. Entre o nascer, crescer e morrer pode-se fazer muita diferença! Guerreira, desbravadora, ela é uma mulher sublime, simples, de fala suave e CORAJOSA!

Anna Cristina de Almeida - Presidente do I.S.C.A - Artesannia


Ninguém está sozinho AO ENTRAR E SAIR DO MUNDO

Izabel Lobato


NÍNGUEM ESTÁ SOZINHO Izabel Lobato

Publicado com a devida autorização e todos os direitos reservados à

1ª Edição: novembro de 2013

Capa, Ilustrações e Diagramação: Projeteria.com

Se você deseja comunicar-se com a autora: izabellobato@gmail.com (21) 9911-7633

É permitida a reprodução de partes deste livro, desde que citada a fonte e com autorização da autora.


DEDICATÓRIA “Nunca encontrei meus amigos. Foi sempre uma indicação de Deus”. Ralp W. Emerson

Dedico esse livro a VOCÊ que ao adquiri-lo está sendo uma indicação de Deus como bênção e apoio para esse Projeto. Obrigada pelo seu gesto.

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PREFÁCIO I Lizwaldo Mário Ziti (*) São tantos e grandes os livros que já li ao longo de minha vida, mas este pequeno e simples volume tocou profundamente meu coração. Ao transcrever algumas de suas valiosas vivências junto aos pequenos enfermos, Izabel Lobato, expressa seu conhecimento e vocação. Viver momentos de ser confortada por Deus e poder transmiti-LO na doença, na dor e até mesmo na morte é a certeza de quem foi chamada para esse ministério. Sendo o nosso Deus o bom Pastor presente em toda e qualquer situação é Ele quem vai lhe fortalecer e não permitir que nada a impeça de continuar servindo com amor os pequenos enfermos, pois é Ele mesmo que nos dá a certeza de que nada lhe faltará. Meu desejo como seu professor e amigo é que continue firme, sabendo que somos mais que vencedores e que grande é o nosso galardão, pois essa é a promessa do nosso Senhor. Siga em frente, pois, você “Não está sozinha”. * Prof. aposentado da disciplina de Histologia e Embriologia da FCM e Capelão Geral do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) da Unicamp. Presidente da Ordem Nacional de Capelania Cristã (ONCC).

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PREFÁCIO II Eleny Vassão de Paula Aitken (*) Diante de inimigo tão forte como a morte, não há consolo maior do que saber que não estamos sozinhos debaixo de sua apavorante sombra. Somente um grande Amigo pode se dispor a ficar com alguém em seus últimos instantes de vida. Deus é o nosso melhor Amigo. E Ele está conosco ajudando-nos a passar pelo vale mais escuro, dolorido e solitário. É Ele mesmo quem nos diz que não precisamos temer mal algum, pois Ele está conosco. Sua vara e Seu cajado nos consolam. Somente o Pastor pode nos acompanhar até a morte e mesmo além dela. Quando todos ficam para trás, Ele continua conosco. A Sua presença vence nosso pior medo. Mas em meio à dor e solidão com cheiro de morte, precisamos, além da presença certa do Pai, também o consolo de gente de carne e osso, que enviados e capacitados pelo Consolador, nos acompanham lado a lado os últimos momentos da jornada. Tem sido muito gratificante, para mim, conviver por mais de vinte anos de capelania com pessoas à morte, e mais ainda, preparando outras para darem continuidade a este ministério tão necessário e frutífero. Izabel Lobato é uma destas pessoas. Especial em sua dedicação e carinho para com os que sofrem. Ela tem desenvolvido um ministério especial junto às crianças à morte. Tarefa que ninguém quer, e poucos têm estrutura para suportar. Necessidade de capacitação e suporte divino.

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Neste pequeno livro, “Ninguém está sozinho”, nossa querida Izabel conta, de maneira simples, sensível e profunda, como consola e se despede de seus pequenos amigos, que estão chegando ao céu antes de nós. Em um desses relatos, é o Senhor mesmo quem a consola, segredando-lhe ao coração: “Ela está segura; ela está curada; ela está Comigo”. Se não fosse esta gloriosa Esperança, não teríamos como consolar. Jesus, Deus encarnado, se fez gente como a gente para nos mostrar o Pai. Ele encarnou toda Sua misericórdia ao morrer na cruz para que nós, pecadores, pudéssemos gozar de Seu perdão e da maravilhosa certeza de que a morte já está vencida. O maior presente, que nos consola e nos inspira a continuar, foi oferecido por Ele: a certeza de que, se confiarmos nossas vidas em Suas mãos, estaremos com Ele no céu. A morte não poderá nos alcançar eternamente, pois estaremos para sempre com o Autor da vida. Querido leitor, ao ler este livro, leia-o com o coração, pedindo ao Senhor para que continue a fortalecer Izabel Lobato em seu difícil ministério, e com ela todos os que atuam nos hospitais, levando a esperança e a consolação do Senhor. * Escritora, Capelã Evangélica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital do Servidor Público do Estado/SP. Diretora Geral da Associação de Capelania Evangélica Hospitalar (ACEH).

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DO LIXO PRA DEUS

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primeiro berço a embalá-la foi o lixo. Recém-nascida e doente foi deixada como se não tivesse valor. Era pequena demais para preencher o vazio daquela que a gerou como um fardo pesado e indesejado. Foi achada e adotada. O melhor foi ter sido aceita e amada. Dos seis anos sofridos, nunca percebi sequer um olhar de queixa ou sem sentido. Num dos nossos últimos encontros, pude dar-lhe total certeza: Lá no Céu, para onde você vai, - disse-lhe - não existe lixeira!

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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ELA JÁ NASCEU

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aproximar dela traz sempre novos desafios. Mas ela consegue vencer todos. Lidar com ela não é fácil, pois está sempre envolvida em seu mistério, afora o fato de estar sempre certa. O ensino dela é desprender-se de forma autêntica e natural sem apegar-se às coisas materiais, pois ela não dá importância às pretensões desmedidas... Não gosta de ser ignorada por ser a mais concreta realidade. Normalmente ela impõe o silêncio quando chega, mas ao ser entendida, ela se torna uma aliada trazendo a contribuição para aqueles que ants se desgastaram em rejeiotá-la. Continuo minha busca para compreendê-la por que sou igual aos meus semelhantes que já passaram por ela e não diferente dos que um dia a encontrarão. Enfim, a MORTE já nasceu para todos.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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Pedrinha Branca (Baseado em Apocalipse 2:17)

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ua face tranqüila aninhada na “cama” que seria seu último repouso entre nós. Aos olhares só cabia essa única direção. Compartilhei com todos o consolo que havia em meu coração: Aquela menina foi recebida na noite passada no grande Lar celestial que a aguardava e ela foi presenteada com uma pedrinha branca, e sobre essa pedra escrito seu novo nome, que nenhum de nós conhece, exceto ela mesma que, como vencedora, já recebeu.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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POUCAS PALAVRAS

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ncontrei F., pintando alguns de seus costumeiros desenhos. Seu problema renal dava-lhe uma aparência de ter idade bem menor. Mas ele já estava na adolescência... Logo que me viu abriu um gostoso sorriso; nossa amizade já havia nascido. Contou-me entusiasmado que encontrara um doador compatível. Era um membro da sua família. Fiquei a lembrá-lo das preciosas promessas de Deus, oramos e ele confessou sua preocupação com a cirurgia. Falei que Deus não nos condena por sentir medo, insegurança e outros sentimentos que sobrevêm àqueles que enfrentam uma batalha hospitalar. Seus olhos brilharam e não foi preciso usar mais palavras. No gesto silencioso do nosso abraço ele sentiu que não estava sozinho...

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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ANIVERSÁRIO NO CÉU

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uando o vi pela primeira vez, seu corpinho frágil, ligado a tantos aparelhos, quase não permitia perceber que era um bebê, menininho de oito meses de idade. Quis conhecê-lo melhor, saber sua história. Nasceu com hidrocefalia e mesmo já tendo colocado uma válvula, seus dias não seriam nada bons. Foi através de uma parada respiratória, com graves conseqüências, que pude presenciar sua luta em querer viver. Nossa “amizade” durou quatro meses; foram momentos felizes e de muita luta em oração pela sua vida. A hora mais dolorosa foi quando a esperança de recuperação foi tirada. Naquele dia toquei em seu corpo de maneira especial e diferente. Em silêncio nos despedimos. Dois dias depois, ele estava com o Pai, comemorando o seu primeiro aninho no Céu...

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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NOME DE ANJO (Lucas 1:19)

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esde o primeiro encontro, o achei lindo e amei.

Seus cabelos loiros encaracolados já haviam caído por causa das sessões de quimioterapia; agora a carequinha reluzia junto com seu sorriso meigo. Com quatro anos GABRIEL parecia já estar acostumado com toda aquela aparelhagem em seu corpinho. Parecia já fazer parte dele. Único filho (confidenciou-me sua mãe). Fiquei a ouvi-la atentamente... Quantos planos e sonhos adiados. Não tenho respostas. Ainda estou aprendendo que a vontade de Deus para cada um de nós está muito além do meu horizonte de entendimento, e o que posso fazer é cantar para Gabriel, nome de Anjo.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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BONECA CEGA

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essa vez foi um encontro rápido, não como de costume. Eu a conheci e logo, na outra semana, ela teria que ser transferida para um novo hospital.

Ouvi de sua avó o relato de que através de uma medicação que provocou uma reação, descobriu-se uma doença degenerativa. Aos sete anos L., é uma criança de olhos redondos, pretos e quase vivos. Por aqueles dias ela foi visitada e ganhou uma boneca grande e bonita. O que todos lamentavam com o coração partido foi o diálogo ouvido: -Trouxe uma linda boneca de presente para você! -Por que eu ainda não posso vê-la? A resposta para aquela pergunta foi um suspiro. L. estava perdendo sua vista física e tal qual aquela boneca, ela era também linda, mas estava praticamente cega. Os olhos de Deus estão eternamente abertos e repousam sobre todos (Salmo 34:15) e mais ainda; os Seus ouvidos estão abertos ao meu clamor. E é isso o que posso fazer. Cla-

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mar, pedir a Deus força e misericórdia para aquela pequenina pelo processo pelo qual ela ainda vai passar e por toda a sua família. A caminhada pela estrada do sofrimento, por menor que seja, tem sempre muitas pedras e buracos. “O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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RESPOSTA PRA DOR Por que Deus fez isso comigo?

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ssa foi a frase que ouvi hoje pela manhã repetidas vezes por uma mãe desesperada, chorando ao lado do corpo sem vida de sua filha. Novamente o cheiro da morte estava naquele ambiente. O hospital é um útero que guarda e gera vida, mas igualmente morte. Tudo parecia estar seguindo seu curso normal, mas não estava. A menina de nove anos, doce, querida e amada por todos, deu seu último suspiro e foi para “Casa”.

O abatimento era geral e visível. Podia-se perceber a tristeza. O silêncio causado pela morte é palpável; reunir forças num momento desses, só mesmo vindas dos braços fortes do Pai. Segurar na mão, abraçar e chorar junto ajuda e alivia um pouco a sensação de impotência. Em realidade, que é a nossa limitação do ser ao ouvir as palavras de angústia, lamentação e revolta, me vi numa versão contemporânea daquele momento bíblico em que o diácono Estêvão foi apedrejado (Atos 7: 54 a 60).

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E, assim, como ele; roguei a Deus que perdoasse aquelas palavras lançadas pela mãe, por não saber o que estava dizendo. Não consegui responder a pergunta que ainda ecoa em minha mente. Ao caminhar de volta para casa, entre lágrimas e vários pensamentos conturbados, Deus falou ao meu coração: “Ela está segura; ela está curada; ela está Comigo”. “O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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MEDO DE VOLTAR A VIVER

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corpo imóvel ainda quente. Estávamos sozinhas.

Os responsáveis pelos procedimentos que a levariam para a autópsia ainda não haviam chegado. Era o provável momento em que eu poderia clamar ao Pai e pedir que ela voltasse a viver. Não o fiz. Limitei-me a contemplá-la. Sem convite e sem que as esperasse, as perguntas vieram como uma torrente sobre o que poderia acontecer se Deus me ouvisse e a trouxesse de volta. Voltaria curada? Continuaria sofrendo? Mesmo sabendo que a vida é tecida com tragédias, senti vergonha de mim.

O Sabedor de todas as coisas falou em sussurros ao meu espírito: “A sua fé não está fundamentada na realização de nenhum milagre, fortaleça sua confiança na Minha bondade e no Meu plano para cada pessoa, não importa o que aconteça”.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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MILENA MENINA (Baseado em Isaías 30)

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orriso de Milena menina É tão grande quanto seu tamanhão, Assim como também é o seu coração. Por vezes, temos de comer o pão de angústia e beber água de aflição; Como é difícil passar por momentos sem solução. Mas Milena menina está segura em Sua poderosa mão. Quisera eu poder abraçá-la e acabar com esse tempo de escuridão. Mas Jesus me ensina que bem aventurados são todos os que Nele esperam. Conforta-me saber que os olhos dAquele que tudo sabe estão sobre ti, Milena menina - E jamais te deixarão!

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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ALEGRIA NA AUSÊNCIA

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unca pensei que a palavra ausência faria tanta diferença em minha vida.

Percebi o peso e o valor das palavras, principalmente essa. Foram quase vinte dias de espera sofrida, aguardando o resultado de uma biópsia feita em minha filha quando tinha oito anos de idade. Essa palavra significa afastamento, falta, distanciamento. Mas eu só associava essa palavra com coisas ruins; como algumas expressões do tipo: Ausência de interesse, ausência de vitaminas e etc. Que doce engano! Naquela sexta-feira, abrir o resultado e ver saltar a frase “ausência de malignidade” foi realmente incrível! Como a ausência foi surpreendentemente benéfica. Aprendi que em algumas situações, Deus nos permite viver a ausência para nos ensinar que é na falta que muitas vezes encontramos a importância da vida. Foi muito bom viver o sentimento da alegria na ausência. “O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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NÃO OBEDECI

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ra madrugada quando o telefone de casa tocou. Do outro lado um choro convulsivo me falava que ele havia falecido.

J., era portador de HIV positivo há sete anos. Um dia antes recebi o pedido para visitá-lo. Como já o conhecia das idas e vindas ao hospital, disse que só poderia ir vê-lo dois dias depois, e que passaria algumas horas ao seu lado. Errei de novo. O tempo futuro só existe nos livros de verbos, por isso não podemos controlá-lo. Culpei-me por saber dessa verdade e não tê-la praticado. A luta em minha alma era porque não poderia fazer mais nada... A morte é inevitável. O que fortalece o meu coração é que posso confiar no perdão dAquele que me ama e me dá nova oportunidade de melhorar, porque conhece onde ainda sou pior.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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PRIMEIRA E ÚNICA VEZ

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ra um corpo falido, indefeso, já dominado pela doença. Fiquei por um momento sem saber exatamente por onde começar, ele parecia estar adormecido ou mesmo desacordado monitorado pelos aparelhos que ainda lhe garantiam o sopro de vida. Comecei a cantar baixinho e em voz audível a falar com Deus a respeito daquele que, no leito, sofria as conseqüências da finitude do que é ser humano. Sussurrei seu nome. Ele remexeu-se e por rápido instante abriu os olhos. Olhou diretamente para mim. Não sei o que ele viu... Permaneci por mais um longo momento e percebi em sua face o aconchego com que aquelas palavras lhe chegavam ao coração. Era um semblante novo, de paz e entrega. Partiu naquele mesmo dia. Cresceu em mim um pouco mais de fé em compreender que ver o invisível não é o mais importante e sim, que Deus tinha bens muito maiores guardados para aquele que vi pela primeira e única vez. “O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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READMISSÃO DA ESPERANÇA

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lguns já haviam ido visitá-la sempre alimentados pela esperança de cura.

Creio que nunca devemos desistir dessa esperança. Devemos continuar pedindo ao Pai, mas somente enquanto Ele nos dá paz para isso. Relutei em ir visitá-la... Em meu coração, a certeza de esperança em viver não era mais para este mundo. Finalmente cedi e fui encontrá-la. Falei a linguagem do olhar: ”Em que posso ajudá-la?”. Passei bons momentos a lhe contar de como seria a sua chegada à grande Cidade (Apocalipse 21: 1-5), da nova vida eterna que a esperava e de como ouviria seu nome ser proclamado por Aquele que a conhecia desde antes da fundação do mundo. Que tarefa preciosa! No momento em que a morte se aproxima há muito mais do que apenas morrer. Alguém pode achar que o fato de encará-la é como aceitar a derrota. Não é verdade. Morrer faz parte. Não há como mudar isso.

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Percebi o quanto ela sentia a aproximação do “entardecer” e que estava em paz por saber que depois dele viveria o raiar eterno... “O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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O ANJO VEIO

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uvi o relato da mãezinha de como aconteceu a luta da pequena A. K.; naquela madrugada. Veio-me logo a mente a passagem bíblica de Êxodo 12:12 quando Deus comunica ao Seu povo a passagem do anjo pela terra do Egito. Sim, o anjo de Deus passou por aquela enfermaria mais uma vez. Enquanto máquinas e mãos hábeis buscavam freneticamente trazer de volta à vida aquele corpinho, um sono profundo imperava sobre as mães e crianças ali tão próximas. Quando finalmente esgotaram-se todas as possibilidades, foi aceito o silêncio das máquinas e mãos...

Num toque leve e ouvindo seu nome, a mãe de A. K.; foi despertada com a notícia: Ela morreu. Na noite anterior elas se despediram sem saber que aquele “Boa noite” seria o último aqui porque o anjo já havia descido, e de braços abertos lhe dava o “Bom dia” para levá-la para Casa.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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ELA FOI

“Jesus, porém, chamando-as para junto de Si,...” (Lucas 18:16)

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ão há como aceitar o chamado para viver na eternidade, se não se desprender desse corpo.

Para deixar esse mundo e as coisas que nele ficam é necessário ter ouvido um segredo... Um segredo é sempre grande, mas pode habitar num corpinho tão pequeno. Ainda sou barro sendo moldado pelas mãos do Grande oleiro e, me falta descobrir coisas que ainda estão no oculto do aprender. Quando recebi a notícia de que ela havia piorado, corri o pensamento para pedir-Lhe que a deixasse mais um pouco por aqui. O “Oleiro” me disse para não impedi-la de desvendar o segredo Dele, porque afinal, é desses pequeninos o Reino dos céus. Emudeci. Não impedi. Deixei-a partir!

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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NO JARDIM DE DEUS (Isaías 58:11)

“Florzinha de Jesus”. Era assim que eu a chamava. Nos últimos meses de sua vida fui presenteada em poder sentir seu perfume, tocar suas “pétalas”. Muita chuva, muito vento, temporal. Foram vários os momentos em que essa Florzinha não se deu por vencida nesses dias maus. A música tocava nela como um carinho na dormideira. Seu corpinho miúdo com tão grandes complicações me ensinava a não desanimar, pois ela estava sempre pronta a lutar. Quem poderia resistir à beleza daquela especial flor? Mas os dias de luta regressaram. E quando a olhei desligada dos aparelhos e a imobilidade total do corpo... Enfim compreendi: - O jardim de Deus estava incompleto, então, Ele a levou para Si (lucas 9:47b). “O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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BOLA NO CÉU

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ostumava encontrá-lo deitado em seu leito. Por isso, alegrei-me ao vê-lo caminhar pelo corredor do hospital. Sua aparência estava bem melhor. Eu sabia que era torcedor fiel de um time de futebol, que gostava de jogar bola e a impossibilidade era o que mais lhe abatia. Por aqueles dias, ele iria fazer aniversário e aproveitei para perguntar o que ele gostaria que eu pedisse a Deus em oração. Ele disse: “Quero ganhar uma bola”. Expliquei que o pedido poderia ser feito e até atendido, mas não poderia jogar bola ali na enfermaria. Na simplicidade de ser criança, espontaneamente ele respondeu:

“Não tem problema tia! Eu levo ela pra jogar no céu”.

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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ele fez 15 anos

Quem poderia crer Que quinze anos ele iria fazer? Pensar em vida de criança É imaginar brincadeira, dança. Mas toda a sua vida Só conhecia hospital, sondas, correria. Muita coisa durante esse tempo melhorou Mas a saúde completa nunca chegou Por isso, neste dia tão festejado. Abriguei-o forte em meus braços Sussurrei mansinho em seu ouvido: “Lá no céu você terá muito espaço; pular, jogar bola, correr”. Ele fechou os olhos e sorrindo Parecia me responder:

“Sim tia”! Isso tudo e muito mais eu vou poder fazer!

“O SENHOR é meu pastor e nada me faltará” (Salmo 23:1)

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Izabel Lobato é formada em Capelania Hospitalar pela Escola de Extensão da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/São Paulo, e atua como capelã hospitalar desde 1997. É amazonense, casada, tem uma filha, reside em Niterói/RJ. Atuou como voluntária no CVV (Centro de Valorização da Vida) na Instituição TEAR - Audioteca Sal&Luz entre outros. Ninguém está sozinho quando chega ao mundo. O mesmo deveria acontecer ao partir dele. Falar da morte é sempre cuidadoso por ser um assunto tão profundo e não passível de experiência própria. Na simplicidade dessas páginas não tenho a pretensão de convencer muito menos ensinar ninguém a morrer; apenas passei para o papel algumas vivências que ao longo do meu caminhar, Deus foi ensinando-me a ver a ligação que há entre a vida e a morte e que uma não existe sem a outra. Boa leitura!


Book izabel lobato  

Teste

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