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AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE ano seis | nº 33 | janeiro / fevereiro 2013 | R$ 10,00

www.plurale.com.br

FOTO DE JOÃO PEDRO SOUZA-ALVES - MACACO-GUIGÓ- REFÚGIO DE VIDA SILVESTRE MATA DO JUNCO - CAPELA (SERGIPE)

MACACO-GUIGÓ: PRESERVADO EM SERGIPE ARTIGOS INÉDITOS

COMÉRCIO JUSTO, ECOTURISMO E AGRICULTURA NO CERRADO BAIANO 1


Foto: Nícia Ribas

Editorial

Foto: Aline Gatto Boueri

UMA EDIÇÃO BEM VARIADA: Macaco-Guigó, Ecoturismo, Comércio Justo, Terceiro Setor, Artigos Inéditos e Recuperação de Área Degradada no Cerrado Baiano gó, como o simpático que ilustra a capa desta edição. O refúgio foi criado há cerca de cinco anos com o objetivo de proteger importantes trechos que ainda restam da Mata Atlântica, além de espécimes ameaçados da vida silvestre. Em pleno cerrado baiano, Nícia Ribas conferiu de perto a experiência que procura recuperar áreas degradadas com o pagamento para agricultores locais que coletam sementes de espécies da região. Isabella Araripe traz novas dicas de ecoturismo em sua coluna. Já Raquel Ribeiro esteve em Itatiaia, em Resende (RJ) para mostrar a bela arte de um casal talentoso. Especialista em cinema sustentável, Isabel Capaverde apresenta novas dicas e ainda revela a participação de brasileira em equipe vencedora de premiação internacional de animação verde. Tudo isso e muito mais nesta edição 33 de Plurale em revista. Boa leitura! Foto: João Pedro Souza-Alves

o/ VAA

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arcamos este começo de 2013 com uma edição bem variada, valorizando temas mais do que atuais. A entrevista em destaque é com a economista Eduarda La Rocque, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. Às jornalistas Sônia Araripe e Lília Gianotti, Eduarda fala de projetos em curso e de uma ideia revolucionária para captar recursos para o Terceiro Setor. Artigos relevantes e inéditos de Carla Martins, Heloisa Garcia Mota, Larissa Tega e Maria Helena Malta complementam a edição, assim como interessante análise do jornalista André Trigueiro, sobre o término da Editoria de Meio Ambiente no famoso The New York Times.

De Dublin, na Irlanda, nossa correspondente Vivian Simonato, revela a interessante experiência do selo que mostra o orgulho de ter sido produzido dentro dos padrões de comércio ético e justo na África. A correspondente, Aline Gatto Boueri, visitou a Patagônia argentina e conta como está a região após a nuvem de cinzas do vulcão que encobriu de cinzas e poeira, em junho de 2011. Monica Pinho, da Austrália, narra o treinamento para salva-vidas. E mostramos ainda a verdadeira cruzada do bem do milionário Bill Gates, da Microsoft e da Fundação Bill & Melinda Gates, em prol dos extremamente pobres em diferentes países do planeta. De Capela, a 69 quilômetros de Aracaju (SE), Paulo Lima nos apresenta o belo Refúgio de Vida Silvestre da Mata do Junco, onde existe projeto de preservação do macaco gui-

Foto: Divulgaçã

Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista e Plurale em site

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Foto: Sônia Araripe

Conte xto

08.

ENTREVISTA COM EDUARDA LA ROCQUE, PRESIDENTE DO INSTITUTO MUNICIPAL DE URBANISMO PEREIRA PASSOS,

Foto: Nícia Ribas

POR SÔNIA ARARIPE E LÍLIA GIANOTTI

34.

AGRICULTURA NO CERRADO BAIANO POR NÍCIA RIBAS

40. BAZAR

14.

ARTIGOS INÉDITOS

Foto: Divulgação/ VAA

ÉTICO

Foto: Aline Gatto Boueri

PELO BRASIL

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VIDA SAUDÁVEL

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CINEMA VERDE, POR ISABEL CAPAVERDE

63 FRASES

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ENERGIA & CARBONO

65 4

44.

PATAGÔNIA ARGENTINA COM POUCO DINHEIRO E MUITA DISPOSIÇÃO POR ALINE GATTO BOUERI

PLURALE EM REVISTA | Janeiro / Fevereiro 2013

50.

COMÉRCIO JUSTO DE VERDADE POR VIVIAN SIMONATO


Foto de Nícia Ribas

stórias relevantes hi as ri vá ou nt se re Plurale ap cial e ambiental de transformação so os... ao longo de cinco an

Foto: Divulgação

Foto de Luciana Tan

credo

Foto de Cristina David

Foto de Nícia Ribas

Agora, com a experiência acumulada, Plurale Consultoria pode ajudar sua empresa a se comunicar melhor sobre sustentabilidade. Como em Balanço Social, informativos, eventos, treinamentos para executivos, etc.

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Quem faz

Diretores Sônia Araripe soniaararipe@plurale.com.br Carlos Franco carlosfranco@plurale.com.br Plurale em site: www.plurale.com.br Plurale em site no twitter: http://twitter.com/pluraleemsite Comercial comercial@plurale.com.br Arte SeeDesign Marcos Gomes e Marcelo Tristão Fotografia Luciana Tancredo e Eny Miranda (Cia da Foto); Agência Brasil e Divulgação

Cartas Plurale em revista, Edição 32 “Parabéns pela bela Edição 32 de Plurale em Revista, na qual destaco principalmente o Artigo “Gestão é Fundamental”, de Maria Elena Pereira Johannpeter, da ONG Parceiros Voluntários e a reportagem sobre Mobilidade Urbana de jovens, de Sônia Araripe.” Eduarda La Rocque, Presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, Rio de Janeiro (RJ)

Colaboradores nacionais Ana Cecília Vidaurre, Geraldo Samor, Isabel Capaverde, Isabella Araripe (estagiária), Nícia Ribas, Paulo Lima e Sérgio Lutz

Colaboradores internacionais Aline Gatto Boueri (Buenos Aires), Ivna Maluly (Bruxelas), Vivian Simonato (Dublin), Wilberto Lima Jr.(Boston) Colaboraram nesta edição Colaboraram nesta edição: André Bürger (Nós da Comunicação), André Trigueiro (Mundo Sustentável), Camila Maciel (Agência Brasil), Carla Martins, Carolina Gonçalves (Agência Brasil), Cássio Luiz Pinto, Cecília Corrêa (Da Gema Comunicação), Fabiano Ávila (Carbono Brasil), Flávia Ribeiro (WSPA Brasil) Heloisa Garcia Mota e Larissa Tega (Social Carbon), João Pedro de Souza-Alves, Lília Gianotti, Marcelo Camargo (Agência Brasil), Márcia Vaz (Fetranspor), Maria Augusta Barbosa dos Anjos, Maria Helena Malta, Monica Pinho, Nélson Tucci, Raone Beltrão, Raquel Ribeiro, Sergio Zacchi, Vinícius Noronha e Wilson Dias (Agência Brasil).

Plurale é a uma publicação bimestral da SA Comunicação Ltda (CNPJ 04980792/0001-69) Impressão: WalPrint

Plurale em Revista foi impressa em papel certificado, proveniente de reflorestamentos certificados pelo FSC de acordo com rigorosos padrões sociais e ambientais. Rio de Janeiro | Rua Etelvino dos Santos 216/202 CEP 21940-500 | Tel.: 0xx21-3904 0932 São Paulo | Alameda Barros, 122/152 CEP 01232-000 | Tel.: 0xx11-9231 0947 Os artigos só poderão ser reproduzidos com autorização dos editores © Copyright Plurale em Revista

“Equipe Plurale, Todos sabem dos desafios de editar uma revista, simultaneamente com um site, de estar conectado e principalmente desenvolver abordagens interessantes hoje em dia. Plurale completa cinco anos indo além da inovação, um veículo relevante e importante para a atualidade. Uma equipe de profissionais qualificados! Profissionais que fazem a diferença na apuração, abordagem e edição da revista e do site. Parabéns pelos cinco anos e que vocês continuem desenvolvendo conteúdo relevante. Um forte abraço. Paulo Henrique Leal Soares, Gerente Geral de Comunicação da Vale, Diretor do Capítulo Aberje Rio “Prezados Jornalistas, Antes de mais nada, gostaria de parabenizálos pela iniciativa de uma revista voltada a sustentabilidade, com informações que geram curiosidade e informações. Atualmente são poucos os meios de comunicação voltados a esse tema tão pertinente em nossos dias. Além de apreciar todas as matérias publicadas, me deparei com a entrevista com nossa diretora comercial Carla, a qual, resumidamente, explanou nosso produto Poste de Iluminação Autônomo Híbrido. Gostaria de valorizar ainda mais, expondo que ele poderá ser apreciado no Mirante da Prainha aonde temos instalados três unidades em operação, os quais estão sendo monitorados pela Rioluz. É importante lembrar que, naquele

local nunca houve iluminação pública pelo fato de não haver cabeamento para energizá-los, os órgãos que controlam o meio ambiente não permitem que sejam aéreos ou mesmo subterrâneos. Quando desenvolvi esse sistema, foi com essa finalidade, evitando escavações que possam danificar toda a área a ser iluminada. Abraço” Flávio Van Deursen, Desenvolvimento de Produto, Green Luce, Grupo Alusa de Engenharia, São Paulo (SP) “Prezados Editores, Gostaria de parabenizá-los pela revista, cada vez mais bonita, informativa e comprometida com a sustentabilidade. Um bom exemplo sobre como implantar esse conceito na prática é o trabalho realizado no litoral norte paulista, conforme retratado na matéria “Alunos de Ubatuba se beneficiam com juçara em sua alimentação”. A iniciativa mostra como pode ser proveitosa a parceria entre governo, ONGs e comunidade, para garantir renda e qualidade de vida à população, com preservação ambiental. Que neste 2013, Plurale em revista continue vasculhando Brasil afora, atrás de ações tão inspiradoras quanto esta! Regina Teixeira, Jornalista e educadora ambiental, Ubatuba, SP “Quero falar sobre a capa do número 32 de Plurale em revista. Que foto maravilhosa de Luciana Tancredo, da Serra do Caraça (MG). Mostra a beleza, a leveza e a suavidade do louva-a- deus. Parabéns!” Maria Alice Lima Filho, enfermeira aposentada, Rio de Janeiro, RJ “Querida Sônia e Equipe Plurale. Como é bom ler a revista impressa. É um velho hábito que hoje se tornou um hábito de velho. Mas a bela matéria do Caraça, de Luciana Tancredo, na mais recente Edição 32 de Plurale em revista, perderia muito se eu tivesse que ficar mexendo o cursor para cima e para baixo, sem ter uma visão de conjunto que a revista dá. A entrevista do Maurício Waldman, da Equipe IHU, não conseguiria ler inteira no computador, que é um lugar de você ler coisas curtas e rápidas. Muito boa a entrevista: não tinha ideia da vocação brasileira para produzir uma lixarada tão grande. Gostei também da iniciativa, ótima, de convocar meninos e meninas para discutir os


c a r t a s @ p l u r a l e . c o m . b r

transportes. Assim como da bela matéria de Marcelo Pinto sobre “Educação Ambiental” para jovens estudantes. Sem dúvida, também foram ponto alto da edição! Abraço, Roberto Saturnino Braga, escritor e jornalista, ex-senador e ex-prefeito, Rio de Janeiro (RJ) “Prezada Sônia, É com muita alegria que estamos agradecemos por tamanho carinho para com o Verdegreen Hotel na espetacular matéria que saiu recentemente na Edição 32 de Plurale em revista. Adoramos toda a revista. Iremos divulgá-la sempre que tivermos a oportunidade. Todo o texto foi muito bem escrito pela jornalista Raquel Ribeiro, e retrata fielmente as nossas atividades e compromisso com a sustentabilidade e gestão ambiental.

No que precisar, estaremos sempre à disposição. Abraço, Marlone Gonçalves, assistente de Sustentabilidade do Hotel Verde Green, João Pessoa (PB) “Parabéns! Revista bacana, bela matéria de Raquel Ribeiro e Jean Pierre Verdaguer sobre o Hotel Verde Green aqui em João Pessoa e o Bazar Ético, no qual nossa Babel das Artes foi citada. Muito obrigada, valeu mesmo!” Francisco Milhorança, Babel das Artes, João Pessoa (PB) “Estou maravilhada com o artigo “Rio de Janeiro, Cidade Maravilha Mutante”, de Christian Travassos, publicado na Edição 32 de Plurale em revista. Sua exposição sobre o Rio de Janeiro. Maravilhada e orgulhosa por ser carioca e ver aonde minha cidade chegou e Maravilhada por ver como

alguém como você, conseguiu descrever e retratar tão linda e detalhadamente como a cidade do Rio de Janeiro alcançou esse status. Parabéns pelo seu belíssimo artigo. Pelo seu tão carinhoso jeito de escrever. Isabel Ferreira, Rio de Janeiro (RJ) “Como sempre, a Edição 32 de Plurale em revista está linda e recheada de artigos interessantíssimos. Imagens e textos muito agradáveis para leitura.” Jader Aguiar, Paraty (RJ) “Parabenizo pelos cinco anos de Plurale em revista, ressaltando a qualidade e os maravilhosos conteúdos, das abordagens de importantes assuntos que muito contribui no enriquecimento de conhecimentos. Felicidades para toda a equipe Plurale!” Aparecida Sousa, Bibliotecária da Universidade de Taubaté (SP)


Entrevista

Eduarda La Rocque Presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP)

Depois de uma carreira bem-sucedida no mercado financeiro, de conquistar um empréstimo de 2 bilhões de reais do Banco Mundial para o Rio de Janeiro e de ajudar a recuperar a cidade como polo seguro de negócios, a economista Eduarda La Roque, 43 anos, assumiu, em agosto de 2012, a presidência do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP). Para a jovem ex-secretária de Fazenda do município carioca, cargo que ocupou nos últimos três anos, o IPP tem grande chance de se tornar uma referência em políticas públicas, mas o maior desafio desta nova gestão é também um sonho pessoal: diminuir a desigualdade de oportunidades. Natural de Uberaba, Minas Gerais, carioca de coração e de carreira, Eduarda, mais conhecida como Duda, terminou o doutorado como a primeira da turma, integrou a diretoria do BNDES, foi sócia no banco BBM e fundou uma empresa de tecnologia. Depois de tantas conquistas, o saldo foi uma expertise profissional reconhecida no mercado, mas também um questionamento próprio sobre o seu papel em um mundo que começa a mudar as relações econômicas, de consumo, ambientais e, principalmente, as humanas. À frente do IPP há pouco mais de seis meses, Eduarda recebeu Plurale em revista para falar de políticas públicas, de gestão, de uma revolucionária ideia de ter fundos de investimentos para financiar o terceiro setor e do seu amor incondicional pela cidade carioca. Há alguns anos, durante um assalto, teve seu carro baleado. Amigos, preocupados, pensaram em blindar o automóvel. “Decidi que não queria blindagem e sim trabalhar para termos a cidade do Rio de Janeiro de volta”. É esta paixão pela cidade, na qual cria seus dois filhos, que todos os dias a move. Confira alguns momentos deste diálogo.

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PLURALE EM REVISTA | Janeiro / Fevereiro 2013

Por Sônia Araripe e Lília Gianotti De Plurale em revista Fotos: Sônia Araripe

Plurale em revista – Podemos dizer que o Rio de Janeiro já voltou a ser um polo seguro de negócios? Eduarda La Rocque – O Rio foi a primeira cidade no mundo – e até então a única – a conquistar um empréstimo de política de desenvolvimento junto ao Banco Mundial. Com isso, a gente conseguiu uma economia, em termos de valor presente da nossa dívida, de 2 bilhões em uma dívida que era de R$ 8 bilhões, ou seja, de 20% de termos de dispêndio e amortização de juros. Só no primeiro ano, dobramos o orçamento para investimento da prefeitura. Como somos o único ente da administração pública a conseguir a mesma nota que a União pelas agências de rating internacionais, a operação pode ser considerada um exemplo a ser seguido e também nos confere segurança para atrair novos investidores. Temos um campo fértil para ações inovadoras em todas as áreas da gestão pública municipal.


Foto: Agência Brasil

Esse processo de revitalização como polo de negócios pode ser conferido em encontros como Rio Investors Day, que já incluiu a cidade no calendário financeiro global e reúne as principais companhias nacionais e de investidores institucionais de todo o mundo, congregando os setores público e privado, autoridades do mundo financeiro e sendo também uma vitrine dos principais projetos em andamento na cidade. Como nasceu a ideia da criação de fundos de investimento para a cidade do Rio? Eduarda La Rocque – Como Secretária de Fazenda, eu já queria criar esses fundos, mas a atribuição não cabia naquele momento. Antes de assumir a presidência do IPP, fui chamada pelo Reis Veloso, que coordena o Fórum Nacional, para participar da Cúpula das Favelas justamente porque eu já estava trabalhando para criar um fundo de doações de pessoas físicas e empresas, voltadas para investimentos em pro-

jetos sociais. Nesse diálogo, ficou ainda mais claro que precisamos de estrutura de governança e transparência no terceiro setor, ponto fundamental para avançar na questão do desenvolvimento sustentável. A Bolsa Verde, por exemplo, que foi lançada há um ano, é fruto do trabalho de revitalização do mercado fi nanceiro do Rio. Esse projeto tem como princípio o de transformar passivo em ativo ambiental e fomentar uma cadeia de negócios e serviços em torno da BVRio. Pode parecer um caminho difícil, mas temos que começar a dar passos mais largos em direção a uma economia sustentável. E o governo tem que participar para viabilizar esse e outros projetos. Esse projeto maior de criação dos fundos vem sendo tocado desde o início de 2012. Estou pleiteando junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a criação de um novo mercado de fundos de investimento socioambiental, que é uma ideia que ainda não existe no mundo. Já existem alguns instrumentos e iniciativas internacionais, mas uma indústria de asset menagement, de administração de recursos voltados para retorno sociais e ambientais não existe. Seria mais uma inovação brasileira. O pleito é justamente para que a CVM regulamente este mercado. Mas para garantir isso, temos que criar uma estrutura de gestão e transparência, prevendo áreas de análise de resultados, de reporte e operações bem seguras. Meu sonho é colocar o mercado financeiro para trabalhar de forma transparente a favor das causas socioambientais. E tem dinheiro pra isso. O mercado fi nanceiro tem este aspecto de globalização, é volátil e favorece muito a mo-

bilidade de recursos. Quem sabe, este possa ser um caminho para o mundo. E os fundos atrairiam os investidores ou a rentabilidade não seria significativa para estes players? Eduarda La Rocque - Atrairiam, sem dúvida. O cidadão tem a noção da sua responsabilidade socioambiental como indivíduo e quer aplicar ou investir em uma creche ou um projeto, mas nos modelos de captação de hoje, ainda não se sente seguro em investir, pois não sabe se o dinheiro está sendo bem alocado ou não. Nós vivemos, no passado, um processo fi nanceiro pra estimular desenvolvimento econômico e já estamos passando por uma intermediação fi nanceira para estimular o desenvolvimento socioambiental. O cenário é favorável e os fundos serviriam aos microempresários, ao investidor pessoa física, além de é claro as grandes empresas e os grandes investidores internacionais. O BNDES, por exemplo, afi rma não ter capilaridade suficiente para colocar dinheiro em, por exemplo, um museu nas favelas pacificadas, mas se um órgão como o IPP se responsabilizar por fazer a análise de performance, garantir a boa prestação de contas, a construção de indicadores, o reporte e a transparência, fica claro que o investimento vem. Qual é a verdadeira vocação econômica do Rio? Eduarda La Rocque — A vocação natural da cidade do Rio é serviço e turismo, mas é também o que a gente chama de Nova Economia – moda, TI e tudo que tem a ver com criatividade. Além, é claro, da indústria de oil & gas e as fi nanças. Eu estou fazendo um movimento muito forte, desde a época da Secretaria da Fazenda, para transformar o Rio de novo em um grande centro financeiro, de seguros e resseguros, de carbono, de créditos de reserva florestal, um novo mercado, mais criativo. A sua inquietude e o questionamento sobre o seu papel no mundo foram os motivadores para a mudança de área? Eduarda La Rocque – Não tenho dúvida de que sim, mas também me motiva trabalhar com políticas públicas e poder trazer modelos de análise e reporte do mercado fi nanceiro para

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Entrevista

O trabalho que a gente está fazendo aqui na Rede Comunidade Integrada visa justamente o desenvolvimento de um portal comunitário pra dar visibilidade às ONGs e aos projetos locais e cooperar com a capacitação dos seus gestores

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a gestão governamental. Sobre a inquietude, para Freud, o ser humano tem que descobrir qual é o seu desejo, mas, para os economistas, a gente deve descobrir qual é a nossa função objetiva na vida. Hoje eu sei que a minha é trabalhar para ajudar a diminuir a desigualdade de oportunidades. E como o IPP é o sonho de quem quer trabalhar com políticas públicas, acho totalmente possível me realizar pessoalmente e profissionalmente à frente do Instituto, justamente enfrentando esse desafio de promover o equilíbrio entre as oportunidades dadas a todas as pessoas da nossa sociedade. Qual é a marca que você quer deixar para o IPP em sua gestão? Eduarda La Rocque – O IPP vive uma crise de identidade, porque historicamente foi criado, na década de 90, inspirado na experiência de Curitiba, com foco em urbanismo. A primeira administração da atual da Prefeitura deslocou as ações e os projetos para a Secretaria Municipal de Urbanismo. O Instituto ficou a cargo do Felipe Góis, que também era do Secretário de Desenvolvimento Econômico, e conferiu ao IPP esse caráter. O sucessor, Ricardo Henriques, transformou o IPP em um órgão voltado também para o desenvolvimento social, essencialmente com o projeto da UPP Social. Hoje, o coração do IPP é a área de dados sobre cidade, que nós queremos ampliar para informações sobre região metropolitana, o que vai subsidiar o planejamento estratégico da Prefeitura. Em minha gestão, eu gostaria de fazer um pouco de tudo, então posso dizer que quero fazer desenvolvimento sustentável. Também tenho investido muito no conceito que eu chamo de PPP3, que é parceria entre público-privado, com Terceiro Setor. Eu vejo o IPP com um papel fundamental de integração de políticas públicas, que hoje é o que mais faz falta para uma gestão eficaz rumo à sustentabilidade. Como legado, entendo que o IPP tem que virar referência internacional em termos de políticas públicas. Nós evoluímos muito na questão da arrecadação, o orçamento dobrou em

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quatro anos, mas a necessidade agora é a de promover a integração, para diminuir a sobreposição de políticas. Se eu conseguir integrar as políticas e melhorar a qualidade de gasto público, podemos conseguir avanços muito substanciais. Quais exemplos recentes da ação do IPP você pode comentar? Eduarda La Rocque – Estamos com projetos para desenvolvimento social das comunidades pacificadas em três áreas: Esporte para o desenvolvimento, Cultura como fator de integração social e Empreendedorismo em capacitação, que envolve ciência da tecnologia. Na área de esporte, a exemplo do que vem sendo feito com o projeto Vamos jogar, a demanda veio da UNICEF, que nos procurou para fazer um fórum da América Latina e Caribe, a fi m de trocar experiências, boas práticas e indicadores na área esportiva. Mas antes de fazer essa apresentação, a gente precisava ter um case. Daí, o IPP começou a fazer um levantamento de todos os equipamentos esportivos, os programas existentes em níveis federal, estadual e municipal. Foi feito o georeferenciamento dos equipamentos e ações para então propor uma gestão mais eficiente desses projetos e políticas. Este é um exemplo dessa necessidade de articulação, que envolve um planejamento integrado entre Secretaria Estadual de Esporte, Secretaria Municipal de Esporte, Ministério dos Esportes, Comitê Rio2016 e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O que estamos fazendo nas comunidades já pacificadas, é entrar com a UPP Social que, num primeiro momento, visava apenas à provisão de serviços públicos municipais em ação articulada com as secretarias e as empresas prestadores de serviços essenciais, como luz e gás. Nesta segunda etapa de ação da UPP Social, nossa entrada nas comunidades tem uma abordagem mais ampla, que prevê um planejamento integrado de todas essas ações. Um exemplo desse processo de integração é o caso da Secretaria de Desenvolvimento, que recebeu R$ 60 milhões do BID pra investir em projetos contra


está mais claro pra nós que pode ser mais eficaz trabalhar as demandas e não as ofertas de serviços. E tudo isso não requer um bilhão em investimentos. Pode ser feito com o orçamento que já está na casa.

a vulnerabilidade de jovens expostos ao tráfico, e contou com a contribuição do IPP que forneceu toda a base de informações para o planejamento da ação. E como é possível coordenar todas estas instancias de forma integrada? Eduarda La Rocque – O IPP usa muitas ferramentas, como o Sistema Integrado de Gestão (SIC), que foi desenvolvido pela equipe à frente da UPP Social. Estamos trazendo a experiência do Parceiros Voluntários para desenvolver o Rede Comunidade Integrada, que já vem sendo implementado em cinco comunidades. Esse projeto foi desenvolvido em parceria com uma empresa de tecnologia, que desenvolveu o Social Technical Management. A gente também aposta no modelo Grupos de Trabalho pra promover a integração. Depois de verificar anos de experiência em trabalho voluntário e comunitário,

Se não é preciso ter R$ 1 bilhão para promover o desenvolvimento sustentável nas comunidades e na cidade, o que falta então? Eduarda La Rocque – Falta planejamento, gestão e integração. Hoje, há inúmeras ações que dão certo, mas também tem muita superposição. Somente melhorando a alocação dos recursos já existentes e estabelecendo uma governança adequada, podemos promover um grande avanço e certamente sobrará dinheiro. Então, o desafio é criar essa estrutura de governança com o planejamento integrado das ações, mecanismos de controle de como vão ser alocados os recursos. A minha aposta maior é a de que diante das Olimpíadas, o Rio tem uma oportunidade única de consolidar esse processo de pacificação e de crescimento econômico, pois os recursos humanos e financeiros já existem. O mundo inteiro torce para que isso aconteça. A cidade pode, por exemplo, contratar trabalho voluntário internacional, já que tem uma demanda enorme de estrangeiros que querem vir trabalhar nas favelas pacificadas do Rio. É então uma questão de se criar uma estrutura adequada para a captação de recursos e de trabalho voluntário. Daí a importância do trabalho da Rede Comunidade In-

tegrada, que já conseguiu trazer R$ 30 milhões do BNDES. Não adianta querer os recursos e depois não ter transparência, não prestar contas. Mas as organizações comunitárias não estão preparadas para dar esse reporte. O que fazer? Eduarda La Rocque – O trabalho que a gente está fazendo aqui na Rede Comunidade Integrada visa justamente o desenvolvimento de um portal comunitário pra dar visibilidade às ONGs e aos projetos locais e cooperar com a capacitação dos seus gestores, para que estes possam fazer a prestação de contas de forma transparente. O BNDES já aprovou o IPP como instituição gestora desses recursos e os R$ 30 milhões serão 100% aplicados diretamente nos projetos e organizações comunitárias. Vamos capacitar as ONGs locais para captar e fazer a avaliação de impacto desses recursos. Essa área de monitoramento de impacto está sendo criada aqui no IPP para facilitar e profissionalizar esse processo de prestação de contas e de construção de indicadores. Somos parceiros do ITAU Social, por exemplo, que já faz isso bem, e vai ministrar um curso para minha equipe. Você acha que é possível aproveitar esse boom do Rio e a partir daí ter um cenário mais positivo, em termos de desenvolvimento sustentável? Eduarda La Rocque – Acho muito possível e aposto todas as minhas fichas nisso. Ainda não temos os dados oficiais sobre a economia nos últimos quatro anos, mas é uma realidade: o Rio cresceu muito mais do que a gente pensa. Vivemos hoje o que eu chamo de crowding in, o oposto da ideia do crowding out, onde os gastos do setor público fazem com que o investimento do setor privado desapareça. Aqui, a gente tem o crowding in, onde o investimento público vem estimulando o investimento privado e por isso estamos construindo várias parcerias público-privada. Em 2011, a taxa alocada para investimento foi de 18,9% do orçamento da Prefeitura. É a taxa mais alta da história de municípios e estados brasileiros. Para se ter uma ideia, a do governo federal é de 2,9%.

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Entrevista

Então, a cidade experimenta um boom de investimentos e um crescimento gigantesco. Mas isso também é preocupante e para que não vire um problema, será necessário muito planejamento e cuidado para que todo crescimento que a gente tenha pela frente seja sustentável. Não podemos, por exemplo, chegar depois das Olimpíadas com saldo negativo. As palavras de ordem da Empresa Olímpica Mu-

fazer frente às demandas de mobilidade urbana, água e esgoto. Já vem sendo feito um trabalho com apoio técnico da IBM e de diversos laboratórios, entre os quais o MIT, sob o conceito de smart cities, ou cidades inteligentes, com a finalidade de agirmos, tanto do ponto de vista de infraestrutura, mas também humano, em prol de soluções de desenvolvimento social, como a própria UPP Social. O Rio é uma cidade cada vez mais vertical e vive o drama de ser um grande centro de uma região metropolitana. É possível termos um cenário mais positivo, em termos de uma cidade mais sustentável? Eduarda La Rocque – Eu sou otimista. O que eu tenho defendido muito é que a gente tem oportunidade com as Olimpíadas – já que o Rio vai ser a cara do Brasil para o mundo – de mostrar uma cidade eficiente, inteligente, ágil e integrada. Quando eu busco verbas junto ao COB, ao COI e ao Governo Federal para investir em projetos na cidade, peço porque eu estou certa de que a gente pode fazer no Rio verdadeiros casos de sucesso, que poderão ser replicados em outras cidades.

nicipal são legado e sustentabilidade. Neste cenário, o papel do IPP é muito significativo, já que somos o órgão responsável pelos indicadores de sustentabilidade e de legado das Olimpíadas. Quais são os principais desafios diante dessas palavras de ordem? Eduarda La Rocque – Os principais desafios agora são nas áreas de transporte e saneamento. Precisamos de soluções inovadoras e criativas para

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E vai dar tempo? Eduarda La Rocque – Vai dar tempo. A Maria Sílvia (Bastos Marques, da Empresa Olímpica Municipal), que tem esse cargo de “prefeita das Olimpíadas”, e que assumiu essa frente com cinco anos de antecedência dos Jogos Olímpicos e pôde fazer, com muita antecipação, todo o planejamento para que tudo dê certo. O prefeito teve sorte de ganhar o evento, que era um pleito do Rio já há muitos anos, mas o Rio teve sorte de ganhar as Olimpíadas na gestão

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do Eduardo Paes, que é sobre tudo um excelente gestor e planejador. Tem muita gente competente trabalhando para que dê tempo. O perfil de gestores dessa prefeitura é o de profissionais executivos, oriundos do setor privado. Isso é um movimento necessário? Eduarda La Rocque – Sim. Isso impacta na capacidade de gestão e faz uma grande diferença. Ser eficiente em setor público é difícil, tem que ser muito bom gestor para conseguir e isso é uma aposta do Paes, que colocou pessoas muito técnicas nas áreas-chave: o da Saúde é PHD em Medicina, o da Educação é PHD em Gestão, eu sou PHD em Economia. Mas não só quem está nesta linha de comando. Tem um segundo escalão da Casa Civil também altamente técnico, muita gente qualificada. Isso foi um movimento mesmo. É um momento histórico de virada do Rio, porque a cidade estava no fundo do poço. Segundo Andre Urani e Fabio Giambiagi, no livro “Rio: a Hora da Virada”, além do boom do setor de Oil & gas, a mobilização da sociedade – com movimentos como Rio Como vamos? Rio eu amo eu cuido – foi um dos principais motivos para esse turning point. Profissionais da iniciativa privada começam a se questionar e tomar consciência de que devem dar sua contribuição para o desenvolvimento da cidade. Com essa mobilização da sociedade civil, as apostas do setor público e o envolvimento do empresariado, a gente começou a inverter esse ciclo vicioso no Rio, de todo mundo ir embora, das empresas mudarem de cidade, para então um ciclo virtuoso. Eu mesma tenho um caso de amor pelo Rio e pensei: preciso fazer alguma coisa por essa cidade que eu escolhi. Às vésperas de aceitar o cargo de presidente do IPP, eu levei um tiro. Minha primeira reação foi procurar um carro que eu pudesse blindar. Mas essa não é a solução. Não quero blindar meu carro. Eu quero a cidade de volta. Quero pensar a cidade como um legado para os meus filhos. Essa virada depende de todos e de cada um de nós.


Cidadania

Jovens de comunidades pacificadas são capacitados para serem agentes de campo Parceria entre a Fetranspor e o IPP forma moradores de 28 comunidades pacificadas do Rio para fazerem, por exemplo, reconhecimento de ruas renda chega a 50%. Um dos grandes empecilhos e responsáveis pela evasão de alunos é a falta de recursos para o deslocamento até os locais de aula. Com o “Cartão Fetranspor Social”, esse deslocamento é garantido. Dados do Sesi Cidadania mostram que a evasão não ultrapassa 2%. Só para este programa, foram 2.580 cartões entregues de julho a dezembro de 2011, a alunos dos cursos profissionalizantes em diversas áreas, como: assistente comercial e de RH, auxiliar administrativo, confeiteiro, eletricista automotivo, eletricista de manutenção industrial e predial, eletromecânico automotivo, impressor offset,

Alunos do SENAI comemoram o recebimento o cartão Fetranspor Social

operador de microcomputador e de suporte TI, ouvires, etc. Pesquisa - Márcia Vaz, gerente de Responsabilidade Social da Fetranspor, explica que o Cartão Fetranspor Social é fruto de ampla pesquisa com seus integrantes. Incentivar a educação de jovens, garantindo a mobilidade urbana, é sua meta. De modo estruturado, possibilita o acesso de jovens a ações educativas que tragam possibilidades de melhoria na qualidade de vida. Segundo Márcia, em 2011, foram emitidos mais de 6 mil cartões para programas parceiros, como: UPP Social e Instituto JCA. Em 2012, foram emitidos mais de 12 mil cartões.

Foto: Divulgação

J

ovens moradores das 28 comunidades pacificadas do Rio de Janeiro estão sendo treinados para compor equipe como “agentes de campo”. Entre os trabalhos que eles vão executar está o reconhecimento e mapeamento das ruas, praças, etc destas regiões pacificadas no mapa da cidade do Rio de Janeiro. Parceria do Instituto Pereira Passos e da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de Rio de Janeiro (Fetranspor) acaba de ser oficializada para que estes agentes possam se locomover gratuitamente nos ônibus, através do Cartão Fetranspor Social. Atualmente o programa UPP Social conta com 75 agentes de campo. Por eles são realizadas em média 10 viagens mensais nas quais se deslocam de suas comunidades de origem para receberem a devida formação continuada no IPP. Esta não é a primeira vez que a Fetranspor participa como parceira do programa UPP Social. Os jovens que estudam nos cursos do SENAI (uma iniciativa do Sistema Firjan), outro parceiro da UPP Social já se locomovem com o mesmo Cartão Fetranspor Social. Combatendo a evasão - Segundo estudos recentes, a evasão média de alunos de escolas profissionalizantes é de 14,5% e em determinados cursos destinados a comunidades de baixa

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Artigo Carla Martins

GESTÃO AMBIENTAL CORPORATIVA É COMPROMISSO PRESENTE E FUTURO Empresas sustentáveis fornecem produtos e serviços com mais qualidade, evitam fraudes documentais, atendem com mais segurança às normas legais e, assim, participam de um círculo virtuoso cujo benefício toda a sociedade colherá. É o elo consciente estabelecido.

O

Brasil deste século, oscilando entre a 6ª e a 7ª posição no ranking econômico mundial — e por isso mesmo uma das mais importantes economias do planeta — tem recebido crescente fomento no seu desenvolvimento nas duas últimas décadas, expandindo diversas áreas. Com isso, nota-se significativo uso de recursos naturais e, propriamente, a área física do nosso meio ambiente. Vale destacar que em meio a esse crescimento somente as normas e legislações específicas não estão sendo suficientes para a devida proteção dos Meios, uma vez

que a ambição humana cresce em paralelo com o desrespeito. É de se observar, ainda, a inexistência de capacitação funcional para dirimir alguns atos de proteção ambiental. É certo que os seres humanos dotados de inteligência precisam estimular seus conhecimentos e aprender novas teorias, para atenderem aos comportamentos da vida cotidiana atual. E a capacitação pessoal e profissional podem ser grandes aliadas no crescimento de empresas, visto que as pessoas quando motivadas e dotadas de conhecimentos técnicos, ganham com autoconfiança, gerando modificações, ocasionadas, principalmente, pelo desenvolvimento de comunicação, tecnologia e informação. De fato, a discussão de temas ambientais corporativos já se mostra como uma necessidade consolidada, mas os meandros inerentes à questão ambiental dentro das empresas encontram-se pouco explorados. Muito se fala de preservação e sustentabilidade, entre outros itens ligados ao meio ambiente, porém tenho notado em cursos e palestras que muitas dúvidas são levantadas pelas pessoas, que ainda sentem dificuldade em entender seu papel: homem – ambiente e o que devem de fato saber sobre o meio para a sua efetiva proteção. O meio ambiente, seja terrestre ou espacial, pode ser trabalhado ou explorado de várias formas. O que muda é como vamos utilizá-lo de forma correta e o que realmente podemos dele usufruir, sem esgotar os imprescindíveis recursos naturais, já que alguns são finitos. O que, realmente, podemos utilizar em benefício do homem? CHEGA DE ATIVISMO DE ESCRITÓRIO. REFLEXÕES Quantas pessoas realmente conhecem o Meio Ambiente? Não somente de teoria e escritório, mas de ir até uma APP, um lago, uma área de proteção marinha, de conhecer espécies arbóreas importantes para a sua sobrevivência, de saber o real significado da fauna e flora que os cercam? Você sabe como seus resíduos contribuem de forma negativa para o meio em que você vive?

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Como você, pessoa, se posiciona na preservação do seu espaço? Como a sua empresa contribui – e retribui - para uma verdadeira consciência funcional do meio ambiente? Quais são, de fato, os projetos ambientais existentes na sua empresa? O conhecimento ambiental de cada um de nós deve constar de uma amplitude maior do que meras normas internas da sua empresa. É preciso estar interiorizado, absorvido, comprometido e não apenas decorado. É comum vermos pessoas com intenção positiva, porém carentes de informações específicas. Por isso é preciso ampliar o raio de atuação, conscientizando, introjetando o conhecimento. Muitas empresas já buscam uma interação maior com meio ambiente. São organizações de segmentos diversos, como indústrias, consultorias, varejos, cartórios (sim, os cartórios brasileiros felizmente despertaram para esta necessidade) e prestadores de serviços em geral. Em todo e qualquer produto ou serviço disposto para a sociedade que conscientemente vislumbre um futuro de qualidade, capacitam-se primeiramente seus funcionários e colaboradores com informações importantes para a proteção e preservação ambiental. Depois de muito estudo, e experiência de campo, capacitei-me a ministrar cursos e palestras e a desenvolver projetos, no sentido de criar formas e estabelecer padrões de sustentabilidade corporativa. Empresas sustentáveis fornecem produtos e serviços com mais qualidade, evitam fraudes documentais, atendem com mais segurança às normas legais e, assim, participam de um círculo virtuoso cujo benefício toda a sociedade colherá. É o elo consciente estabelecido. CARTÓRIOS JÁ DISCUTEM UM NOVO PARADIGMA Eu posso citar várias Empresas e Instituições já imbuídas disto como, por exemplo, os cartórios brasileiros que vêm buscando uma interação maior com o meio ambiente, não somente na forma legal que já faz parte de seu cotidiano, mas na capacitação funcional de seus integrantes. Fiel banco de dados para o ser humano e às organizações, o cartório precisa interpretar corretamente as transações envolvendo riquezas naturais que devem ser preservadas em objetos de compra e

venda, transmissão de heranças etc. E o fará na exata medida em que seus funcionários estiverem preparados para tal. A ideal capacitação funcional agregará valor aos serviços, contribuindo com conhecimentos não somente legais mas técnicos para a identificação de possíveis equívocos, degradações e fraudes, de forma a oferecer uma honesta interface entre a sociedade e o Meio Ambiente. Aqui cabe lembrar a citação do Dr. Ricardo Basto, em seu discurso de posse na presidência do Instituto de Registro Imobiliário do Brasil (IRIB), destacando o propósito de “modernizar alguns conceitos cartorários”. Ele se disse claramente favorável aos cursos de capacitação funcional, “principalmente na área ambiental, um tema real, da qual os cartórios não podem se eximir”. Outro segmento econômico de relevância é o da Construção Civil, que interage diretamente com o Meio Ambiente. E isto começa já na busca do licenciamento ambiental junto aos órgãos públicos, que através de premissas legais permitem o uso de parte das áreas ambientais, resguardando com sabedoria os locais que abrigam os recursos naturais necessários à vida humana, como as nascentes. Mas o licenciamento é obrigação e, portanto, o que vai gerar valor a uma determinada construtora ou interessado é o que este fará espontaneamente em favor do meio. Ministrar cursos de capacitação aos empregados, proporcionar áreas de lazer com segurança, criar mecanismos de reciclagem de mate-

riais e projetar o status do condomínio para as próximas décadas é uma atitude sustentável. Não podemos aceitar mais a falta de compromisso das pessoas e das organizações em geral – sejam empresas, associações, sindicatos, condomínios etc – para com o meio. Da mesma forma que se espera muito mais que o “plantio de coqueirinhos” à frente de edifícios e condomínios. Primeiro, porque nem sempre são plantados de forma correta (e por isso mesmo morrem logo); segundo, é razoável plantar-se arbustos nativos e não espécies exóticas que pouco contribuirão para a perpetuação da fauna. Nesse sentido, a Gestão Ambiental Corporativa ganha corpo e vai assumindo a relevância que deve ter nos novos centros urbanos e é igualmente fundamental que a atividade rural também adote os modernos processos de gestão, porque o Planeta é um só e tudo o que nele se fizer se espalhará; para o bem ou para o mal. Não dá mais para bancarmos os amadores frente a vida.

(*) Carla Martins é consultora jurídico-ambiental, palestrante e autora do livro “Meio Ambiente Espacial - Com Enfoque Jurídico”.

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Colunista

A PROVÍNCIA DEMOCRÁTICA DO PRÉ-SAL Quando as jazidas petrolíferas esgotarem-se e a economia mundial tiver completado sua migração para fontes renováveis e menos poluentes de energia, o Brasil continuará colhendo frutos do legado petrolífero para o ensino!

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Antoninho Marmo Trevisan

C

omo tem sido divulgado, a província do pré-sal multiplicará a reserva petrolífera do Brasil, que se tornará a oitava do maior do mundo, com 50 bilhões de barris. Além disso, algumas nações com volume maior têm estabilidade política muito menor do que a nossa. Como a combinação de óleo, cobiça, ódio e intolerância ideológico-religiosa tende a ser literalmente explosiva, nossa consolidada democracia constitui-se em diferencial de alto valor agregado para que o País converta a prospecção de gás e petróleo em um expressivo salto para seu desenvolvimento. Segundo dados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), compilados pelo Departamento de Competitividade da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o setor de petróleo e gás deverá gerar, até 2020, investimentos de R$ 528 bilhões em segmentos como os de metalurgia e fabricação de bombas, compressores, motores, conexões e fl anges, caldeiraria, turbinas, guindastes, válvulas, subestações e serviços de engenharia. O expressivo aporte de recursos deverá resultar na criação de 3,9 milhões de empregos, sendo 721 mil diretos e o restante, indiretos. Para viabilizar esse processo de prospecção é necessário vencer alguns obstáculos de ordem técnica e de engenharia. Os principais são as grandes profundidades das reservas geológicas, entre cinco e sete mil metros, a distância média de 300 quilômetros da Costa e a questão ambiental, considerando que os depósitos do Pré-sal contêm concentração de dióxido de carbono bem mais elevada do que a das reservas em águas mais rasas. Para tudo isso, porém, há soluções na tecnologia, na expertise e know how da Petrobras e de companhias que participem do processo. A viabilidade de sucesso nessa empreitada histórica para o Brasil está evidenciada nos resultados dos poços que foram testados. Os estudos técnicos realizados até agora nos possibilitam vislumbrar que o País


200m.

300m.

500m.

1.000m. 2.000m.

0m 0m.

Oceâno

1.000m.

Pós-sal 2.000m. 2.000m.

Camada de sal 30 3.000m.

4.000m.

Pré-sal 5.00 5.000m.

será bem-sucedido na prospecção dessas enormes reservas. Nesse sentido, passos importantes já foram dados no plano técnico, em especial o teste de longa duração realizado pela Petrobras na área de Tupi, com capacidade para produzir até 30 mil barris diários de petróleo. Em 2010, é importante lembrar, a Refinaria de Capuava (Recap), em São Paulo, processou o primeiro lote extraído da camada pré-sal da Bacia de Santos. Outro avanço, este relativo à divisão dos royalties de maneira justa com os Estados produtores e que também não prejudique os demais, diz respeito à decisão da presidente Dilma Rousseff de destinar os recursos futuros integralmente à educação. Trata-se de maneira democrática de distribuir os benefícios para todo o Brasil, contemplando um segmento essencial para o desenvolvimento nacional e a maior justiça nas oportunidades. Assim, mesmo quando as jazidas petrolíferas se esgotarem e a economia mundial tiver completado sua migração plena para fontes renováveis e menos poluentes de energia, continuaremos colhendo frutos do legado petrolífero para o ensino e a educação. O pré-sal amplia nossas perspectivas de crescimento econômico e desenvolvimento. Restam a serem superados os desafios comuns a toda a economia brasileira, relativos aos impostos muito elevados, burocracia excessiva, leis trabalhistas antiquadas, sistema previdenciário deficitário e outros entraves contidos em algumas de nossas leis. Afi nal,

todo projeto, assim como o crescimento da economia, para seu pleno sucesso, precisam da adesão dos empresários, mas estes continuam premidos pelo ceticismo crônico que o Estado anacrônico suscita nos investidores. Burocracia exagerada; necessidade de interagir com cinco, seis ou mais organismos públicos para o desembaraço de autorizações, documentos e procedimentos corriqueiros; incertezas quando à continuidade e conclusão dos projetos... Tais problemas emperram a relação entre os setores produtivos e o Estado, contrariando a lógica do capitalismo democrático quanto ao papel governamental de indutor dos investimentos, do crescimento e do desenvolvimento. O chamado espírito animal dos empresários não é aguçado pelas boas intenções e programas academicamente irrepreensíveis. Somente desperta e vibra mediante a certeza de que barreiras inadmissíveis na atualidade elevem o risco dos investimentos a patamares radicalmente acima dos padrões razoáveis do capitalismo. Também precisamos priorizar a formação de excelência de engenheiros e técnicos em quantidade suficiente para atender à demanda de mão de obra especializada requerida para o fomento do pré-sal e de seu impacto em diversas cadeias produtivas. Essas são questões com forte viés político, que precisam ser solucionadas num exercício exemplar de debates e decisões baseadas nos critérios legais e éticos da democracia. Esta conquista do povo brasileiro na década de 80, portanto, será importante para viabilizar a prospecção do pré-sal e dar sustentação institucional e segurança à sua exploração. Temos tudo, dessa maneira, para ser uma potência energética, produzindo petróleo, gás e os biocombustíveis, que já se consolidaram como realidade irreversível de nossa matriz energética. *Antoninho Marmo Trevisan, é presidente da Trevisan Escola de Negócios, membro do Conselho Superior do Movimento Brasil Competitivo e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.

3.000m.

4.000m. 5.000m. 6.000m.

Para viabilizar esse processo de prospecção é necessário vencer alguns obstáculos de ordem técnica e de engenharia. Os principais são as grandes profundidades das reservas geológicas, entre cinco e sete mil metros, a distância média de 300 quilômetros da Costa e a questão ambiental.

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Artigo Heloisa Garcia Mota

Larissa Tega

Além dos co-benefícios: Como o mercado de carbono pode e deve contribuir para um novo modelo econômico mais sustentável

A

té há pouco tempo, os benefícios socioeconômicos e ambientais da implementação dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) eram mensurados em poucos parágrafos constituintes do Anexo III, estabelecido pelo Protocolo de Quioto; a contribuição de projetos de carbono para o desenvolvimento sustentável sempre foi vista com prioridade em mercados e padrões voluntários. Hoje, os co-benefícios passam a ter cada vez maior importância no mercado de carbono. Esta nova tendência pode ser observada não apenas pelo seu reflexo nos preços dos créditos, mas também pelas novas metodologias criadas pela Convenção Quadro de Mudanças Climáticas (UNFCCC). A valorização

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de projetos que demonstram sua contribuição social e ambiental é uma notícia positiva para o mercado, e pode ser uma das mais importantes soluções para o estabelecimento de uma economia de baixo carbono, ainda que em meio às incertezas dos acordos internacionais firmados nas últimas Convenções das Partes (COPs), que vêm decepcionando os diversos públicos envolvidos com Mudanças Climáticas. Uma das funções do MDL é a promoção do desenvolvimento sustentável em países em desenvolvimento, sendo a sustentabilidade um critério obrigatório a ser alcançado para que um projeto seja elegível. Entretanto o Anexo III, do MDL, determina que apenas esta demonstração no início no Documento de Concep-

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ção do Projeto (DCP) e a conformidade com a legislação brasileira são suficientemente convincentes para que o projeto seja validado, e estas questões não sejam mais abordadas profundamente ao longo de sua implementação. Assim, os critérios de sustentabilidade não são monitorados, restringindo uma avaliação mais profunda sobre o tema. Outra percepção da estrutura definida pela UNFCCC é de que o MDL sempre favoreceu a promoção de projetos de redução de emissão em empresas de grande e médio porte, criando obstáculos para que as pequenas e microempresas consigam se inserir neste mercado. Por outro lado, a ascensão do mercado voluntário de carbono estimulou a criação de alternativas e padrões de cer-


tificação capazes de transparecer e avaliar melhor os co-benefícios gerados pela implementação de projetos de redução de emissões de GEE. Assim, investidores e compradores passaram a valorizar cada vez mais projeto com benefícios socioeconômicos e ambientais, o que refletiu diretamente no preço dos créditos nos últimos anos. Em 2012, pela primeira vez na história do mercado de carbono, os preços dos créditos no mercado regulado atingiram preços mais baixos que os créditos voluntários certificados por padrões como Gold Standard (GS), SOCIALCARBON e Climate Community and Biodiversity Alliance (CCB). Paralelamente, a UNFCCC vem buscando alternativas para a expansão do MDL, disponibilizando novas metodologias e ferramentas mais condizentes com a realidade dos países em desenvolvimento. Um grande avanço foi observado na aprovação do MDL Programático (POA), programa que reúne diversas atividades de projetos que são coordenadas por uma entidade pública ou privada, o qual possibilita a inserção de projetos de pequena escala no mercado regulado. Em 2012, buscando um aprimoramento dos métodos de avaliação de contribuição dos projetos para o desenvolvimento sustentável, a UNFCCC lançou uma ferramenta denominada “CDM Sustainable Development Tool”, a qual pode ser utilizada voluntariamente para qualquer escopo e escala de projeto. Essa ferramenta auxilia os desenvolvedores de projetos a declararem os co-benefícios e os impactos dos projetos, aprofundando os temas abordados pelo Anexo III. Os mercados regionais, como o Californiano e Australiano, também já demonstraram preocupação e interesse na criação de métodos que valorizem cobenefícios dos projetos. Assim, nas próximas reuniões do Comitê Executivo da UNFCCC pretende-se dar continuidade às discussões sobre os padrões de certificação voluntários existentes atualmente nos

mercados de carbono, e a viabilidade de sua aplicação e adaptação ao MDL. Do ponto de vista de mercado, certificações como o SOCIALCARBON possibilitam que microempreendedores, à primeira vista sem estrutura organizacional o suficiente para participar do mercado de carbono, tenham de fato influência na consolidação de uma nova economia. De acordo com o professor Stuart Hart, da Universidade de Cornell, uma economia verde só será possível com a combinação de inovação tecnológica em pequenas e micro indústrias e grandes empreendimentos (geradores de energia, por exemplo). As pesquisas do professor mostram que existem centenas de tecnologias limpas de pequena escala que não fazem parte do modelo de negócios atual, e que, com o investimento adequado, poderiam consolidar práticas econômicas mais sustentáveis. Para grandes empreendimentos, estas certificações garantem que a redução de emissões não seja feita em detrimento da biodiversidade, cultura e comunidades locais. Sob a perspectiva dos investidores e compradores de créditos, há maior coerência na compensação de emissões com projetos que destacam seus benefícios socioeconômicos, permitindo que estes se adequem também às estratégias de responsabilidade social corporativa. Uma gestão adequada de carbono pode direcionar melhor o investimento social privado das organizações, aumentando sua eficiência. Por isso, ainda que existam paradigmas cada vez maiores sobre o futuro do mercado de carbono, seja ele regulado ou voluntário, é inegável sua importância para a criação de novos modelos de negócios, e em especial, para o incentivo a novas abordagens holísticas de planejamento de projetos, que não considerem apenas um tipo de benefício ambiental (redução de emissões), mas que sejam capazes de acometer o contexto local e os impactos globais das ações implementadas. (*) Heloísa Garcia Mota e Larissa Tega são da Social Carbon.

Sob a perspectiva dos investidores e compradores de créditos, há maior coerência na compensação de emissões com projetos que destacam seus benefícios socioeconômicos, permitindo que estes se adequem também às estratégias de responsabilidade social corporativa

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Artigo

André Trigueiro

NYT fecha editoria de meio ambiente.

E daí?

É preciso uma editoria de meio ambiente para cobrir bem os assuntos da sustentabilidade? Polêmica inspirou debates nas redes durante reeleição de Barack Obama.

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decisão do prestigiado jornal americano The New York Times de fechar sua editoria de meio ambiente e redistribuir os profissionais da equipe (dois editores e sete repórteres especializados) por outras editorias na redação causou polêmica e inspirou acalorados debates em diferentes redes mundo afora. O anúncio foi feito uma semana depois de a organização The Daily Climate (que monitora a cobertura dos assuntos relacionados às mudanças climáticas pelas mídias americanas) ter divulgado um relatório informando que nos últimos três anos, o Times foi o veículo que mais se destacou neste gênero de cobertura entre os cinco principais jornais impressos daquele país. Outro detalhe que chama a atenção sobre a decisão do NYT é a curiosidade crescente do público americano em relação às mudanças climáticas, especialmente depois da fúria arrasadora do furacão Sandy e da onda de calor recorde que provocou quebra de safra e enormes prejuízos no campo em 2012. As mídias dos Estados Unidos também tem acompanhado com especial atenção a revolução energética imposta pelo uso

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crescente de gás do xisto em lugar dos combustíveis fósseis tradicionais, com a conseqüente redução da importação de petróleo e a diminuição das emissões de gases estufa. No discurso de posse no National Mall, em Washington, um dia depois de assumir oficialmente o segundo mandato, o presidente Barack Obama sinalizou que nos próximos quatro anos a política da Casa Branca para a questão climática poderá render muitas manchetes quando disse : “Vamos responder à ameaça da mudança climática, sabendo que não agir seria trair os nossos filhos e gerações futuras (…) O caminho para as fontes de energia sustentáveis será longo e, por vezes, difícil. Mas os Estados Unidos não podem resistir a essa transição, é preciso levá-la adiante. Não podemos ceder a outros países a tecnologia que vai gerar empregos e novas indústrias”. Por tudo isso, na contramão do NYT, o Los Angeles Times mantém uma editoria especializada em meio ambiente com

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um editor-chefe, quatro jornalistas em tempo integral,um em tempo parcial e deve abrir mais uma vaga na equipe nos próximos dias. O editor responsável pela mudança no NYT, Dean Baquet, afirmou que a decisão de desmantelar uma das primeiras editorias de meio ambiente da mídia impressa americana (funcionava desde 2009) se deu por razões puramente estruturais. “Hoje as pautas ambientais fazem parte do mundo dos negócios, da economia, dos assuntos nacionais ou locais, etc. São temas mais complexos. Precisamos ter pessoas trabalhando em diferentes editorias que possam cobrir os diferentes lados dessa pauta”, declarou ele em entrevista a jornalista Katherine Bagley, do blog Inside Climate News ( http://insideclimatenews.org/ news/20130111/new-york-times-dismantles-environmental-desk-journalism-fracking-climate-change-scienceglobal-warming-economy ) Ele pode até estar blefando, e ter in-


ventado essa desculpa para reduzir custos com o fim da editoria, mas a explicação faz sentido. O principal risco de uma editoria de meio ambiente (em qualquer veiculo de comunicação) é formalizar uma espécie de “gueto verde” e desconfigurar o caráter transversal e multidisciplinar dos assuntos ambientais. Se a opção é dispor de jornalistas que se identificam e conhecem minimamente os assuntos ambientais (clima, resíduos sólidos, recursos hídricos, biodiversidade, energia,etc) espalhados por todas as editorias, com a intenção de promover o alargamento dos horizontes de cobertura com abordagens menos óbvias, parece genial. Apenas para dar um exemplo: imaginem um setorista de economia acompanhando uma entrevista coletiva do Ministro da Fazenda aqui no Brasil em que o assunto é mais uma redução do IPI para automóveis.Em uma redação onde os assuntos ambientais sejam objeto do interesse de todos os profissionais indistintamente, este jornalista provavelmente não deixará de perguntar sobre os efeitos da redução do IPI na perda da mobilidade urbana nas principais cidades brasileiras, já colapsadas com engarrafamentos crescentes. Sim, este é um assunto econômico por excelência, do contrário, por que a Fundação Getúlio Vargas de São Paulo estimaria o prejuízo causado pelos engarrafamentos na maior cidade do país em aproximadamente 50 bilhões de reais por ano? Entretanto, é raro no Brasil que um setorista de economia (ou de outra editoria qualquer) saia do seu “quadradinho” e busque essas conexões da pauta com o universo em que ela está inserida. Até acontece, mas é difícil. É o que se convencionou chamar de visão sistêmica. Todos os assuntos estão de alguma forma inter-relacionados e no universo jornalístico importa revelar esses links, sempre que o resultado desse exercício torne a notícia ainda mais interessante e esclarecedora. Como não relacionar esta crise ambiental sem precedentes na História com nossos hábitos, comportamentos, estilos de vida e padrões de consumo? A cobertura linear dos assuntos não ajuda a entender a dimensão do problema e os caminhos para resolvê-lo. Em favor da editoria de meio ambiente, poderia se dizer que ela abre caminho

para a organização de um núcleo de jornalistas especializados, que foram estimulados (através de cursos, seminários, workshops,etc) a entender os saberes que emergem das comunidades científicas e acadêmicas com muito mais facilidade do que seus colegas. O jornalista é, via de regra, um generalista. Um contador de histórias preparado para realizar diferentes mergulhos nas mais diferentes áreas do conhecimento. Mas se não houver jornalistas preparados para a nobre função de “decodificar” ou “traduzir” esses novos saberes que explicitam o senso de urgência em favor de um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, replicaremos nas redações o analfabetismo ambiental. Nada mais impróprio, considerando que a crise ambiental sem precedentes na História da humanidade requer jornalistas minimamente preparados para reconhecer os diagnósticos preocupantes, explicá-los com clareza e objetividade, e sinalizar rumo e perspectiva com pautas criativas e interessantes. Já testemunhei várias queixas de pessoas extremamente qualificadas em diferentes áreas do saber e do conhecimento que se decepcionaram com o nível das perguntas feitas por jornalistas, ou, pior, com a deformação das informações prestadas que mais tarde se transformam em reportagens desprovidas de sentido. Há situações em que o desagrado é tão grande que essas fontes simplesmente se negam a dar entrevistas ou tornam-se arredias à simples ideia de compartilhar seus conhecimentos com alguém que não lhes pareça confiável.Quando isso acontece, aumenta-se a distância que separa a sociedade da ciência, e avalizamos o comportamento dos governantes omissos, que preferem ignorar os sucessivos alertas em favor das mudanças. No artigo “É tempo de fechar a porta do inferno”, publicado no último dia 19/1, o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi usa expressões fortes para denunciar a necessidade dos tomadores de decisão reagir à crise climática: “O mundo todo está vivendo uma situação de mudança climática que anuncia uma catástrofe em algum momento futuro. Sei que esse tipo de alerta costuma cair no vazio quando feito por entidades ambientalistas, desprezadas como ecochatas. Mas, agora, as sirenes es-

Precisamos ter pessoas trabalhando em diferentes editorias que possam cobrir os diferentes lados dessa pauta

tão sendo acionadas pelo empresariado, exatamente aquele que hesita em pagar os custos da adaptação da economia a modos de produção mais amigáveis ao ambiente”. Clóvis não é setorista de meio ambiente. É um generalista, como os profissionais de imprensa devem ser. Mas exerceu o melhor jornalismo, quando se apropriou de relatórios produzidos por seguradoras e consultorias especializadas para retirar dali o que lhe parecia uma notícia importante. Com ou sem editoria de meio ambiente, o que importa é a correta cobertura dos assuntos ambientais. Que cada redação defi na o método que lhe convenha, sem descuidar do objetivo fi nal. Esse fi lão de notícias está condenado a crescer ainda mais em importância e prestígio nas próximas décadas e ignorar essa realidade (mensurável em relação aos espaços já conquistados por demanda do próprio mercado) pode custar muito caro. (*) André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ onde hoje leciona a disciplina “Geopolítica Ambiental”, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor de vários livros, sendo o mais recente “Mundo Sustentável 2 – Novos Rumos para um Planeta em Crise” (Ed. Globo, 2012) e Editor do Blog Mundo Mundo Sustentável (http://www. mundosustentavel.com.br/)

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Estante JUNTOS - OS RITUAIS, OS PRAZERES E A POLÍTICA DE COOPERAÇÃO Por Richard Sennett (Tradução de Clóvis Marques), Editora: Record, 378 páginas, Preço sugerido: R$ 49,90 O autor explora como podemos aprender a cooperar nas culturas intensamente competitivas e egoístas em que vivemos atualmente. Dividido em três partes, Juntos aborda a natureza do conceito de cooperação, e explica por que este perdeu sua força e como poderia ser retomado. Sennett adverte que devemos aprender a arte da cooperação se quisermos que a nossa complexa sociedade prospere, e nos assegura que somos capazes disso.

BRASIL GEOLÓGICO

ALMANAQUE ECOLÓGICO DO LUCAS (infantil) Por Léo Valença, Pod Editora, 74 páginas, Preço sugerido R$ 45,00 (colorido) e R$ 28,00 (preto e branco) O Almanaque Ecológico do Lucas visa promover uma reflexão sobre a preservação do meio ambiente junto às crianças. O livro chama a atenção da sustentabilidade de nosso planeta de uma maneira divertida e interessante. Apresentado pelo personagem Lucas, o duende ecológico, o almanaque apresenta textos com uma linguagem simples e didática, ilustrações e passatempos que incentivam práticas que conscientizam sobre a importância da preservação ambiental. O Almanaque Ecológico do Lucas é destinado para professores, alunos e escolas de todo o Brasil. O livro pode ser comprado pelo site da editora PoD – Print On Demand ou seja, você encomenda seu livro e só depois disso ele é impresso. Para mais informações, acesse o link abaixo: http://www.podeditora.com.br/livros/infantis

Por Ricardo Siqueira, Editora Luminatti, 208 páginas, Preço sugerido: R$ 95,00 A obra possui uma abordagem única no segmento de livros de arte. Através da união da arte e ciência, o livro mostra um país de paisagens deslumbrantes que, no entanto, são explicadas como um surpreendente resultado de evoluções geológicas, através de centenas de milhões de anos, que moldaram e esculpiram a fina camada da superfície do planeta onde vive o homem. O livro é dividido em 17 capítulos que cobrem desde os depósitos de areias do Rio Tapajós no Pará, até os derrames de lava que formaram os espetaculares cânions da Serra Geral no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

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RUMO AO BRASIL DESENVOLVIDO (EM DUAS, TRÊS DÉCADAS) Coordenado por João Paulo dos Reis Velloso (Fórum Nacional), Editora Elsevier, 328 páginas, Preço sugerido R$ 74,00 O ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, presidente do Fórum Nacional, volta a incentivar o amplo diálogo sobre diagnósticos e oportunidades para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Este livro reúne algumas das apresentações do XXIV Fórum Nacional, realizado em maio de 2012. São escritos que apresentam caminhos para o desenvolvimento brasileiro, com base na ideia de transformar crise em oportunidade. Há uma crise global, mas nela, como em outras grandes crises da economia mundial, pode-se ver oportunidades para o Brasil.


Os principais temas que impactam as Relações com Investidores, você encontra em uma só revista: na RI

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P e lo B rasi l

Carolina Gonçalves, da Agência Brasil

Brasília – Equipes de técnicos e especialistas começam a ser deslocadas este ano para a Amazônia, onde terão que mapear as florestas da região em detalhes. Atualmente, apesar de o Brasil ser coberto por 60% de florestas nativas, os dados sobre estas áreas limitam-se a imagens da cobertura vegetal, por satélites, por exemplo. O objetivo do governo é detalhar aspectos como a qualidade dos solos, as espécies existentes em cada área e o potencial de captura e emissão de gás carbônico pelas florestas. Os investimentos para o levantamento somam, pelo menos, R$ 65 milhões. Os recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foram contratados no último dia 24 de janeiro pelo Ministério do Meio Ambiente. A proposta é que as equipes coletem em campo as informações sobre as áreas e analisem todo o material que vai compor o Inventário Florestal Nacional (IFN), que começou a ser construído em 2010. “Em debates internacionais sobre mudanças de clima, por exemplo, saberemos que florestas são estas que temos, qual a qualidade de nossas florestas, teremos descoberta de espécies, conhecimento sobre espécies em extinção, além das informações sobre a distribuição desses territórios e do potencial de uso econômico das florestas”, explicou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. O inventário também reunirá informações sobre florestas situadas em outros biomas, como o Cerrado e a Caatinga. Desde que o projeto foi aprovado, o governo mapeou florestas em Santa Catarina e no Distrito Federal, em uma fase experimental. Para o levantamento no Cerrado, o Banco Interamericano de Desenvolvimento disponibilizou US$ 10 milhões e, em Santa Catarina, os técnicos descobriram florestas que estão sendo regeneradas naturalmente, sem que os especialistas soubessem que o processo estava ocorrendo. Ao todo serão mapeados quase 22 mil pontos em todo o território nacional. Em toda Amazônia, haverá em tor-

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Foto: Valter Campanato - Ag. Brasil

Ministério do Meio Ambiente vai mapear florestas brasileiras

no de 7 mil pontos. Apenas no Arco do Desmatamento, formado por Rondônia, centro e norte do Mato Grosso e leste do Pará e onde será iniciado o levantamento da região, serão levantadas informações de cerca de 3 mil pontos amostrais, distantes 20 quilômetros um do outro. As informações detalhadas sobres as florestas brasileiras também devem balizar as políticas do governo para conservação da biodiversidade no território nacional e as novas concessões florestais. “O Brasil só fez um levantamento como este uma vez, que foi publicado nos anos 1980, com dados dos anos 1970 e não foi um levantamento nacional. Este é o primeiro ‘censo’ florestal e será o trabalho de maior envergadura de todo o planeta”, disse Izabella Teixeira. “Normalmente vemos as florestas do ponto de vista de perda [desmatamento e queimadas]. Com o inventário vamos conhecer a floresta por dentro. Vamos obter vários resultados. A ideia é que, de 5 em 5 anos, façamos novas medições”, acrescentou Antônio Carlos Hummel, diretorgeral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), que está conduzindo o levantamento. Além de dados sobre espécies arbóreas e sobre o solo, Hummel destacou que a população que vive no entorno das florestas também será questionada. Segundo ele, serão aplicados quatro diferentes questionários para saber como estas comunidades convivem nestes territórios. Os dados serão divulgados parcialmente todos os anos, mas a conclusão de todo o levantamento só sairá em 2016.


Foto: Fundação Boticário

Toninha pode ter seu status de ameaça agravado

Da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza De Curitiba

A toninha (Pontoporia blainvillei), espécie de golfinho endêmica da Região Sul do Brasil e em risco de extinção, pode ter seu status de ameaça agravado. Isso porque a mortalidade da espécie tem crescido principalmente por causa da pesca na região. No Rio Grande do Sul, essa situação é acompanhada pelo pesquisador do Laboratório de Mamíferos Marinhos/FURG e colaborador da ONG KAOSA, Emanuel Carvalho Ferreira, que, com o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, realizou a pesquisa “A mortalidade de toninhas nas pescarias de emalhe na costa sul do Rio Grande do Sul”. Os estudos mostram que, há bastante tempo, quantidades elevadas de toninhas têm sido capturadas acidentalmente, o que levou a um sério comprometimento da sua população. A equipe trabalha com essa espécie desde os anos 1990 e, em 2011, começou a buscar dados sobre a mortalidade da toninha e sua relação com a pesca de emalhe. Esse estilo de pescaria consiste em deixar a rede boiando no mar durante um determinado período e depois recolhê-la juntamente com os peixes que ficaram presos nela. Todavia, como o

tempo de espera é longo (12 a 14 horas) e as redes são extensas (algumas podem chegar a até 30 quilômetros de comprimento), diversas outras espécies que não são o foco da pescaria acabam presas. “Como a toninha é pequena e tem um hábito costeiro, ela é muito sensível a esse tipo de pesca”, ressalta Ferreira. Segundo ele, a diminuição do tamanho das redes de emalhe é um passo que precisa ser tomado imediatamente, pois 30 km torna a situação insustentável, tanto para a toninha quanto para qualquer outra espécie capturada pelas pescarias. Os contínuos esforços de pesquisa na área resultaram em recomendações no Plano de Ação Nacional para a Conservação do Pequeno Cetáceo Toninha – PAN Toninha, que sugere diminuições das redes para sete quilômetros. O pesquisador destaca que um trabalho de conscientização com os pescadores locais já está sendo realizado. “Eles estão participando conosco e percebem a importância da preservação da toninha, inclusive eles nos fornecem muitas informações valiosas”, explica Ferreira. A maior ação no sentido de proteger a toninha está na própria pesquisa. Nela foram descritos cenários com simulações de exclusão de pesca em áreas de 5 m, 10 m, 15 m e 20 m de profundidade a partir da linha de costa, criando-se uma região

de proteção ambiental. “Verificou-se, então, que se for criada essa área de proteção de até 20 metros de profundidade, haverá uma redução de 72% na mortalidade das toninhas na costa do Rio Grande do Sul”, explica o pesquisador. Ele destaca ainda que, se essa situação se concretizasse, não seria apenas a toninha que seria preservada. “Essas redes podem formar uma barreira quase intransponível para as espécies marinhas. Não é apenas a toninha que está sendo prejudicada, mas também espécies de tartarugas e até mesmo de tubarões. Por isso, se a pesca for proibida nessas regiões, todo o ecossistema marinho será conservado”, aponta. Para Ferreira, a parceria com a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza foi muito importante. “Já trabalhamos para proteger a toninha há muito tempo e agora o apoio da Fundação nos proporcionou a continuidade dos estudos, possibilitando termos um panorama geral da situação das toninhas para buscar formas de conservá-la em seu habitat natural”, conclui. Para o pesquisador, é preciso envolver os órgãos responsáveis para colocar a pesquisa em prática. “Estamos em contato com o IBAMA e o Ministério do Meio Ambiente, bem como com instituições de pesquisa parceiras e pescadores para implementar as ações recomendadas por essa pesquisa”, afirma. CARACTERÍSTICAS DA ESPÉCIE A toninha é um pequeno cetáceo endêmico do Atlântico Sul-Ocidental, vivendo em águas costeiras desde o Espírito Santo até a Argentina. Essa é uma das menores espécies de golfinho do mundo. Ela mede entre 1,30 e 1,70 metros de comprimento. Sua coloração é parda-marrom, o que possibilita sua camuflagem nas águas turvas da região. Ela tem o bico comprido e muitos dentes bem pequenos. Com hábito costeiro, a toninha é bastante arredia. Como um predador de topo da cadeia alimentar, a preservação dessa espécie é muito importante para o equilíbrio da biodiversidade da região.

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P e lo B rasi l Declarado 2013 como Ano Ibero-americano para inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho De São Paulo

A 22ª Cúpula Ibero-americana, em Cádiz, Espanha, declarou 2013 como o “Ano Ibero-americano para inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho”. Com base em dados do Relatório Mundial sobre a Deficiência, da Organização Mundial da Saúde – OMS, 15% da população mundial tem algum tipo de deficiência e cerca de 90 milhões desse total vivem na região ibero-americana. A predominância de deficiências é maior nos países de baixa renda e na população

feminina, segundo esse mesmo relatório. Os chefes de Governo e de Estado da Península Ibérica e da América Latina reconheceram, em comunicado oficial, a necessidade de fortalecer políticas públicas e assegurar a inclusão trabalhista às pessoas com deficiência. No documento aprovado na cúpula de Cádiz, os líderes consideram que cerca de 80% das pessoas com deficiência em idade laboral estão desempregadas por falta de acessibilidade, bem como de conscientização do setor privado sobre o potencial destas pessoas.

Primeiro satélite brasileiro completa 20 anos ainda em operação

Do INPE

Ao concluir 105.577 voltas em torno da Terra, às 14h42 de 9 de fevereiro, o primeiro satélite brasileiro terá completado 20 anos no espaço ainda em funcionamento. O número de órbitas é mais um dos resultados impressionantes do SCD-1 (Satélite de Coleta de Dados), que tinha expectativa de apenas um ano de vida útil quando foi lançado pelo foguete norte-americano Pegasus, em 1993. Projetado, construído e operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o SCD-1 segue retransmitindo informações para a previsão do tempo e monitoramento do nível de água dos rios e represas, entre outras aplicações.

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“Após este longo tempo em órbita, o SCD-1continua em operação e se prova um projeto de reconhecido sucesso, um verdadeiro tributo à competência da engenharia espacial brasileira. O lançamento do SCD-1 colocou o INPE entre as instituições que efetivamente dominam o ciclo completo de uma missão espacial desde sua concepção até o final de sua operação em órbita”, diz Leonel Perondi, diretor do INPE. O início da operação em órbita do SCD-1 marcou também o estabelecimento do Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais, cujas informações são utilizadas por diversas instituições no Brasil e no exterior. Além de cumprir sua missão de coleta de dados, o SCD-1 contribuiu para a cooperação com outros países, que na década de 1990 se valeram da experiência brasileira na operação de satélites na mesma faixa. “Ele foi instrumental para o desenvolvimento de programas espaciais tanto da Argentina como da China. No primeiro, ajudou a calibrar a Estação Terrena de Córdoba e no segundo caso, a Estação Terrena de Nanning”, conta Pawel Rozenfeld, chefe do Centro de Rastreio e Controle (CRC) do INPE. “Nós fazíamos a previsão da passagem do SCD-1 pela China

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e os chineses utilizavam essas informações para aperfeiçoar seu próprio sistema de determinação em órbita, pois eles ainda iriam lançar satélite na banda S. Para a Argentina, que não tinha nenhum satélite na época, o SCD-1 foi ainda mais importante para determinar os parâmetros da sua estação”. MELHORIAS A recepção das mensagens enviadas por plataformas de coleta de dados (PCDs) e retransmitidas pelo satélite SCD-1 é realizada por um equipamento denominado PROCOD (Processador de Coleta de Dados), cuja tecnologia de processamento digital vem sendo aperfeiçoada. Uma nova versão do sistema, o PROCOD-III, foi instalada em setembro de 2012 na estação de recepção de Cuiabá. “Melhoramos muito o processamento dos dados em solo. Isso é fundamental para compensar eventuais problemas decorrentes do tempo de vida útil do satélite, permitindo sobrevida adicional ao SCD-1 em termos de desempenho de recepção de mensagens transmitidas pelas PCDs”, explica Wilson Yamaguti, coordenador substituto de Engenharia e Tecnologia Espacial (ETE) do INPE.


Amelia Gonzalez lança blog Razão de Ser sustentável Amelia Gonzalez, ex-editora do caderno Razão Social, criou um blog onde continua escrevendo sobre sustentabilidade, como fazia no suplemento de O Globo extinto em julho do ano passado. O blog chama-se Razão de Ser Sustentável, foi lançado no dia 2 de janeiro e é atualizado dia sim, dia não. Uma vez por semana, Amelia escreve sobre algumas atitudes, iniciativas, tanto de empresas quanto de pessoas comuns, que podem ajudar a melhorar o mundo. Para entrar, é só acessar ameliagonzalez848.com.

Fundação Knight premia ferramentas digitais que integram comunidades em todo o mundo Por André Bürger, do Nós da Comunicação

A construção de uma plataforma open source para comunidades criarem suas próprias estações de rádio em Uganda; um aplicativo para autenticar fotos e vídeos enviados por cidadãos para grandes jornais e uma rede de contatos por meio de mensagens SMS para produtores de café, no Peru, Quênia e Tanzânia. Essas são algumas das propostas vencedoras do Knight News Challenge 2013, concurso financiado pela Fundação Knight que nesta rodada de investimentos destacou iniciativas mobile. Foram destinados US$ 2,4 milhões para 8 projetos vencedores. Com as diversas ferramentas digitais disponíveis, em todo o mundo internautas tornaram-se repórteres informais e um dos desafios é justamente confirmar a autenticidade dos materiais publicados. Um desses aplicativos, o InformaCam, permite que usuários insiram metadados em vídeos e fotos enviados aos veículos de comunicação. O programa está sendo desenvolvido pelo Guardian Project em parceria com a Witness, organização internacional de direitos humanos. Junto ao material poderão ser anexadas informações como nome do interlocutor, quando e onde foi produzido. Dessa forma, um furo de reportagem,

evidências de um crime de guerra em uma zona de conflito armado ou registros de manifestações populares captados por jornalistas-cidadãos poderão ser vistos com menos desconfiança por editores e diretores de jornais. Dos territórios em guerra para as plantações em países em desenvolvimento. A iniciativa ‘We Farm’ visa integrar uma rede de pequenos produtores agrícolas de diferentes continentes para que possam compartilhar entre si via SMS informações e dicas sobre suas colheitas. Presente em 14 países, a fundação Cafédirect Producers vai capitanear o projeto e facilitar a divulgação de ideias simples, porém inovadoras para melhorar a produção. Dessa forma, um fazendeiro da Tanzânia, por exemplo, poderá trocar experiências por celular com famílias do Quênia com mais facilidade. Outra ação beneficiada pela Fundação Knight, e que também tem como objetivo integrar comunidades, é o RootIO, idealizado por Chris Csikszentmihalyi, ex-diretor do Centro de Mídia Cidadã do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. O RootIO é um kit open source que permite a criação de uma microestação de rádio utilizando apenas um smartphone e um transmissor. O trabalho será implantado em Uganda em parceria com a Unicef.

Graças aos investimentos, grupos indígenas localizados na Amazônia peruana poderão, em breve, relatar para todo o mundo o que acontece na área. Essa é a meta da Digital Democracy, organização sem fins lucrativos que pretende produzir e distribuir kits de ferramentas open source, principalmente para divulgar os impactos negativos da exploração de minério na região. Quem tem inúmeras histórias familiares para contar, deve acompanhar os próximos passos da trajetória do TKOH, estúdio de design localizado em Nova York responsável pela criação do Thread. Por meio do aplicativo para tablets, seus idealizadores pretendem que pessoas de todas as idades registrem com facilidade em vídeo e áudio histórias e casos que, por sua natureza oral, correm o risco de se perder com o tempo. Nos próximos meses, a empresa vai fazer testes em diferentes cidades norte-americanas começando pela área rural do Novo México. Com informações da Knight Foundation.

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Conservação Foto: João Pedro Souza-Alves

O Lar dos GUIGÓS O

Refúgio da Vida Silvestre em Sergipe abriga espécies ameaçadas de extinção

Texto: Paulo Lima, Especial para Plurale em revista De Capela (SE) Fotos: Paulo Lima e Acervo Semarh

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macaco-guigó é um primata arisco que não costuma ser visto com facilidade. Uma das formas de atraí-lo é apelar para um simulacro: no meio da mata, aciona-se um playback com sua vocalização. A técnica funciona. É assim que fazem os pesquisadores que o estudam. Se estiver por perto, o animal responde, e talvez tudo acabe aí. Mas pode ser também que ele se aproxime para descobrir quem é o peludo de sua espécie querendo puxar conversa. Mesmo sabendo desse seu comportamento arredio, alimento a esperança de conseguir encontrar ao menos um deles. Numa manhã de sábado, há poucos dias

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do raiar de 2013, chego ao Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco, área com 894 hectares distante cerca de 2 quilômetros de Capela e 69 km de Aracaju. Ali reside uma população de guigós, a forma como é comumente chamado. Cientificamente está identificado como Callicebus coimbrai, sendo considerado criticamente em perigo pelo Ministério do Meio Ambiente e em perigo pela União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). Um estudo realizado registrou um total de 7,8 grupos por quilômetro quadrado. O refúgio foi criado há cerca de cinco anos com o objetivo de proteger importantes trechos que ainda restam da Mata Atlântica, além de espécimes ameaçados da vida silvestre. Oficial-


Fotos: Paulo Lima

mente, a área foi criada em 2007 pelo governo de Sergipe e inaugurada em 2010. O pequeno grupo que me acompanha naquele dia é formado por três pessoas diretamente envolvidas na rotina de administração do local, hoje a cargo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh). No dia de nossa visita, o refúgio estava silencioso e vazio. À direita de quem entra, avistam-se quatro edificações plenamente integradas ao ambiente. É a sede da área protegida, com escritório, laboratório, alojamento para pesquisadores e salas de reuniões e palestras. Uma estação meteorológica também faz parte do cenário. Maria Augusta Barbosa dos Anjos, atual coordenadora do refúgio, me apresenta todas as dependências. A estrutura passa uma impressão de zelo e organização. Estação meteorológica.

Equipe do Refúgio (da esquerda para a direita): Valdineide Barbosa de Santana, Maria Augusta dos Anjos e Marcelo José da Silva.

Pesquisadores em ação no laboratório do Refúgio. Num dos prédios, uma foto emoldurada e pendurada em lugar de destaque mostra o governador de Sergipe Marcelo Déda em visita ao refúgio no dia de sua inauguração. Alunos e pesquisadores tiram proveito das boas instalações em visitas monitoradas e temporadas de estudo. “O refúgio foi criado para proteger a Mata Atlântica, garantir o habitat do macaco-guigó e manter as nascentes do riacho Lagartixo, com o desenvolvimento de pesquisas, educação ambiental e ecoturismo”, explica Augusta Barbosa. Antes de chegar ao estágio controlado em que se encontra, a área esteve à mercê do impacto exercido por moradores locais e populações do seu entorno. Historicamente a região tem sido ocupada por agroindústrias da cana de açúcar. Ainda hoje extensos canaviais se

espalham como ondas de um lado e de outro da estrada de asfalto que conduz até o refúgio. Palco de disputas - Em outros tempos, o local foi palco de disputas de terras envolvendo algumas forças: o Movimento dos sem-terra (MST), o Incra e proprietários de fazendas. A reserva é o resultado de negociações bem sucedidas entre essas partes, orquestrada pelo governo de Sergipe. Nessa disputa, coube papel relevante à ONG Associação Ecológica, de Capela, que de modo informal sempre lutou pela preservação da mata do Junco. Marcelo José Silva, conhecido por todos como “Marcelo Guigó” por conhecer bem os hábitos da mata desde a infância, foi durante muitos anos membro daquela associação. Ele é o que chamamos de guia local, ou mateiro. Além de ser defensor da mata, costuma acompanhar os pesquisadores em suas rotinas. No começo de sua luta, adotava uma atitude de enfrentamento diante daqueles que se empenhavam em destruir a floresta, mas depois mudou de atitude. “Antigamente eu usava uma arma, hoje uso a conversa”, resume com perfeição sua experiência. As mudanças vividas pela mata do Junco refletem trajetórias semelhantes que ocorrem em áreas naturais no Brasil: são espaços com importantes nichos de riqueza natural que precisam ser protegidos, porém estão sujeitos a uma enorme pressão de uso. No caso do Junco, existe uma peculiaridade. “Sua criação é fruto de uma revindicação da comunidade local, uma mobilização de muito tempo”, observa

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Conservação Alojamento do refúgio

Valdineide Barbosa de Santana, superintendente da Semarh. Antes da criação do refúgio, o quadro se mostrava pouco alentador. “Era uma bagunça, com retirada de madeira, caça e incêndios”, lembra Marcelo Guigó. “Antigamente, saíam de 40 a 50 carroças de lenha daqui de dentro. Hoje em dia é muito raro sair uma”, conclui. A criação da área há cinco anos abriu uma nova perspectiva. “Percebemos que não dava para ficar mais brigando, tinha que ser um trabalho de diálogo com a comunidade, fazê-la sentir que isso aqui devia ser protegido”, explica Augusta Barbosa. A presença do Callicebus coimbrai funcionou como catalisador para destacar a importância do refúgio. “Sabia-se da ocorrência do guigó, mas não havia estudos sobre o tamanho da população e comportamento dessa espécie”, diz Valdineide Santana. O refúgio deu maior visibilidade ao primata e acabou por funcionar como chamariz não somente para sua proteção, como de outras espécies ameaçadas, inclusive da flora. “Em Sergipe, ainda conhecemos muito pouco da nossa biodiversidade, com lacunas que precisam ser preenchidas”, ela observa. Atração de novas espécies - Um som vindo da mata provoca uma agitação momentânea nos meus entrevistados. Meu ouvido pouco treinado imagina que se trata de alguns pássaros, mas todos alertam que é o guigó. Ele devia estar por perto. Foi tudo muito rápido, não pude assimilar. Com a criação do refúgio, a área começou a viver um novo momento. “A população do guigó até aumentou, pois passou a se sentir mais protegida e atraiu outras espécies”, notou Marcelo Guigó. Segundo ele, já houve até nascimento de gêmeos.

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Marcelo confere armadilha para pesquisa

É como se essa observação ecoasse um insight do grande especialista em biodiversidade Edmond O. Wilson, que em seu livro Diversidade da vida escreveu: “As Centro de Vivência

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espécies, individualmente, são mais abundantes nos lugares propícios a elas, onde suas populações cruzam com exuberância e enviam colonizadores em todas as direções”. Nesse sentido, o guigó não tem porque se queixar do seu lar. “O tipo de área protegida é apropriado, pois você associa a um refúgio de uma população que está ameaçada”, diz Valdineide Santana. Marcelo Guigó mostra tanta desenvoltura ao falar dos guigós que chega a atribuir-lhes apelidos carinhosos. Um dos bichos que vivem se acercando da guarita do refúgio, por exemplo, é o “rabo torto”. Ele afirma que é possível conquistar a confiança desses seres esquivos com o tempo, e declara com orgulho um recorde pessoal: já conseguiu se aproximar até um metro e meio de um deles. O Callicebus coimbrai é uma espécie que existe apenas em Sergipe e no Norte da Bahia. Esse animal pesa pouco mais de 1 quilo e pode medir até 85 centímetros. Segundo me explicou por e-mail o biólogo João Pedro Souza-Alves, doutorando pela Universidade Federal da Paraíba, o guigó é “tranquilo e engraçado, chegando a ser preguiçoso em alguns momentos”. João Pedro está trabalhando numa pesquisa cujo objetivo é “entender os efeitos da fragmentação dos habitats de Mata Atlântica sobre a dieta, comportamento e aspectos da história de vida dos guigós”. Parte dessa pesquisa envolveu coleta de plantas na área da mata do Junco. Outra característica desse animal é ser territorialista, ou seja, ele não permite a aproximação de macacos de outros grupos. Eles costumam se alimentar de frutas, mas, se as coisas não estiverem fáceis, podem se aproveitar de folhas, insetos e sementes. Marcelo Guigó mostrou-me um fruto que


Espécie nativa existente no Refúgio

Fotos: Paulo Lima

acabara de colher. Ele avisou: “É comida do guigó”. Tinha um odor que provocava ardor nas narinas. Dispersão de sementes - Além da pesquisa de João Pedro, duas outras estão sendo realizadas tendo como foco o guigó. Uma delas estuda a dispersão de sementes por esses primatas. A outra investiga as relações entre os guigós e os saguis no refúgio. Há também um trabalho de doutorado sobre as aves existentes no Junco sendo conduzido pelo mexicano Juan Manuel Ruiz-Esparza Aguilar. Depois de 17 meses de trabalho, ele encontrou 128 espécies de aves pertencentes a 41 famílias, sendo que três dessas espécies estão incluídas em alguma categoria de risco. Atualmente, há dez pesquisas em andamento no refúgio envolvendo as universidades de Sergipe, Pernambuco, Alagoas e Bahia. O Callicebus coimbrai, também conhecido como guigó-de-coimbra e guigó-deSergipe, foi descrito pela primeira vez em 1999 pelos pesquisadores Shui Kobayashi (japonês) e Alfredo Langguth (brasileiro). Nesses últimos anos, pesquisadores de várias universidades brasileiras ocuparam-se desse pequeno primata e realizaram trabalhos com ênfase em aspectos demográficos, ecológicos e comportamentais da espécie. A manhã já estava alta quando seguimos até uma das nascentes do rio Lagartixo. Chegamos lá em poucos minutos. Sou surpreendido pela dimensão do que parece ser uma pequena piscina natural. Dali sai a água que abastece Capela e alguns povoados. Uma grossa tubulação margeia a nascente e se perde mata acima. Por meio dela a água sobe até um reservatório instalado na cidade, numa vazão de 200 metros cúbicos por hora. A nascente, uma das existentes no refúgio, apresenta uma tonalidade esverdeada. Valdineide Santana fala da importância desse recurso: “Capela tem um sistema de abastecimento de água, um sistema autônomo que não depende de adutoras que venham de longe”. Ela analisa: “No futuro, a captação de água poderá gerar receita para a manutenção da área protegida“. Brigada de incêndio - Decorridos cinco anos de sua criação, o Refúgio da Vida Silvestre Mata do Junco já conta com uma brigada de prevenção de incêndios florestais e um plano de manejo - que é uma espécie de manual de uso. É um dado importante, pois, por meio dele, ficam determinadas as normas de utilização da área. Sua gestão conta também com um conselho consultivo formado por representantes do poder públi-

Campanha de sensibilização de moradores para combate à caça

Ação educativa da Brigada de Prevenção de Incêndios co, sociedade civil e moradores da área. As reuniões que definem tomadas de decisão são sempre concorridas. “Estamos comemorando cinco anos, é o tempo que tivemos para montar uma estrutura mínima para funcionar”, diz Valdineide Santana. “É como se a gente estivesse colocando uma criança para andar. Ela engatinhou e agora está começando a dar seus primeiros passos”. Sua conclusão pode explicar o êxito na gestão do refúgio até aqui: “Quando você trabalha com a comunidade

fazendo negociações e ouvindo-a, termina que eles ajudam também a proteger. Em vez de serem adversários, já que há normas que têm de ser seguidas, passam a ser nossos aliados e ajudam nessas normas”. PS.: Caso o leitor queira saber, não consegui ver o guigó. Mas obtive uma gravação com os sons de sua vocalização. Não posso descrevê-la em palavras sob o risco de criar aproximações falsas, inverossímeis. Mas posso perfeitamente imaginar o ser em liberdade que a emitiu.

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Paulo Lima

REFÚGIO DE VIDA SILVESTRE MATA DO JUNCO Vinícius Noronha

Maria Augusta Barbosa dos Anjos 32

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Jo達o Pedro Souza-Alves

CAPELA, SERGIPE

ESPECIAL PLURALE EM REVISTA Paulo Lima

Jo達o Pedro Souza-Alves

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Campo

Foto: Nícia Ribas

Marilene coleta sementes nativas e reforça a renda familiar

Recuperação de vegetação nativa no cerrado baiano Texto: Nícia Ribas, de Plurale em revista Fotos: Nícia Ribas e Sérgio Zacchi (Divulgação) De Luís Eduardo Magalhães (BA)

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odo dia às 6 horas da manhã, Marilene de Araújo Mendes, 57 anos, sai de casa, levando uma foice bem amolada. Ela é uma das que integra o time de 86 coletores de sementes cadastrados na campanha LEM APP 100% Legal, lançada em agosto de 2011 no município de Luís Eduardo Magalhães (LEM), no cerrado baiano. A campanha faz parte do projeto Produzir e Conservar, fruto de uma parceria entre a Mon-

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santo do Brasil e a ONG Conservação Internacional (CI) iniciado em 2008. O desafio é recuperar a vegetação nativa da margem de rios e topos de morros, restaurando 100% de suas Áreas de Preservação Permanente (APP). Esse é apenas um dos vários projetos de preservação da natureza bancados pela fábrica de agrotóxicos e sementes modificadas com o intuito de compensar a natureza e manter uma boa reputação, uma vez que atua em seara tão polêmica.

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Moradora da comunidade Rio das Ondas, casada com um tratorista, dois filhos e dois netos, que ela cria, Marilene mergulhou fundo na campanha e já coletou cerca de 20 kg de sementes de jacarandá, caju, barbatimão, aroeira, angico, timbó e faveira . “Já consigo reconhecer 20 espécies”, orgulha-se ela, que recebeu treinamento do Instituto Lina Galvani, parceiro na campanha. Com a venda das sementes para a Prefeitura de Luís Eduardo, Marilene já comprou um bode reprodutor, que batizou de Salsicha e um cavalo branco, que atende por Negão. E o mais importante: “Não dependo mais do salário do marido e conforme a época, meu ganho chega a ser maior do que o dele”. Entusiasmada com os bons resultados da coleta, que pode gerar renda de até R$ 900,00 por mês, Marilene passou a convencer os vizinhos a integrar a rede coletora da região, tornando-se sua coordenadora. Martha Elena de Souza, 30 anos, cadastrou-se em setembro, reuniu familiares e amigos que coletam para ela, e já vendeu 100 kg de sementes: “Menina, vi o povo lá falando dessa rede, resolvi tentar e deu certo”. O QUE É A MUVUCA As sementes coletadas pela Rede são plantadas pela técnica da muvuca. “Para recuperar as APPs de Luís Eduardo Magalhães, em conformidade com a nova legislação ambiental de vegetação nativa, fornecemos apoio técnico aos proprietários rurais, incluindo a técnica da muvuca,” explica a bióloga com mestrado e doutorado em Ecologia, Georgina Knust Cardinot, da CI. Mas, afinal, o que é essa tal de muvuca? Trata-se de uma mistura de sementes nativas e agrícolas, com plantio mecanizado, que já tem sido aplicada no Xingu e agora está dando bons resultados no cerrado baiano. Emocionadas, as coletoras de sementes Marilene e Martha apreciaram o plantio na Fazenda São Vicente, no dia 13 de dezembro, durante evento realizado para jornalistas. “Olha que rapidez, gente!!” diziam elas, enquanto o trator espalhava as sementes que elas coletaram, em terreno já previamente preparado pelo produtor rural. Realmente. Foram 1,2 hectares em apenas 20 minutos. O método utiliza as mesmas máquinas empregadas nas la-


Foto: Nícia Ribas

têm consciência de que estão ajudando a natureza a se restabelecer e de que, com esse trabalho, estão garantindo a saúde da bacia hidrográfica da região, que inclui o lendário rio São Francisco. POLÍTICA PÚBLICA Os eleitores de Luís Eduardo Magalhães, município com apenas 12 anos de existência e 70 mil habitantes, elegeram, pela segunda vez consecutiva, o mesmo prefeito, um produtor rural, que conhece bem o agronegócio e está procurando uma nova maneira de fazer política. “Temos que abandonar o sistema assistencialista e fazer uma política clara, me-

PRODUZIR E CONSERVAR O programa Produzir e Conservar, fruto da parceria entre a Monsanto e a ONG Conservação Internacional completou quatro anos e já beneficiou 200

Foto: Nícia Ribas

vouras e por isso os custos são reduzidos se comparados com o plantio manual de mudas. Em seguida, o grupo de jornalistas pode constatar a eficácia da muvuca, visitando a área restaurada há um ano, na Fazenda Liberdade. Vilson Gatto e seus cinco irmãos, proprietários de terras que somam 2.671 hectares, inclusive a Fazenda Liberdade, saíram do Rio Grande do Sul em 1980 para plantar soja, milho, feijão e algodão no oeste da Bahia, onde havia terras em abundância. Durante o curso de Recuperação Ecológica de Áreas Degradadas, em novembro de 2011, Gatto cedeu uma área de dois hectares para o projeto de reflorestamento e constata: “Entrei na campanha mais como curioso, mas hoje vejo que a muvuca deu certo”. O cerrado conta com 33 espécies, sendo 29 árvores, dois arbustos e um cipó. Os coletores da Rede são treinados para reconhecer as espécies e coletar apenas aquelas indicadas pelos técnicos. “O que importa é a qualidade, não a quantidade”, ensina Marilene. Responsável técnico pelo projeto, o engenheiro florestal Paolo Sartorelli, da Baobá Consultoria Florestal informa: “A meta é restaurar aproximadamente dois mil hectares de áreas degradadas”. De cima do trator, ele monitora a plantação. Toda a cadeia produtiva, desde o fornecedor de insumos, técnicos, engenheiros, biólogos, até o varejista e os brejeiros, como são chamados os habitantes daqueles brejos,

A secretária de Meio Ambiente, Fernanda Aguiar, acompanha as ações de restauro

Foto: Nícia Ribas

Técnico Paolo orienta coletoras

lhorando a vida das pessoas,” disse Humberto Santa Cruz, carioca, que trocou o Rio pelo cerrado baiano nos anos 1980. Ele acredita que é perfeitamente possível conciliar agronegócio e meio ambiente. A Secretaria de Meio Ambiente criou o Fundo Municipal do Meio Ambiente, que paga os coletores de sementes. A secretária, Fernanda Aguiar, vinda de Santa Rita do Sapucaí, costuma visitar as comunidades e vibra com os resultados da Campanha LEM APP100% Legal: Nossa cidade será a primeira do Brasil a ter todas as suas áreas de preservação legal realmente protegidas; com um prefeito produtor rural fica fácil implementar a gestão ambiental,” diz ela. O Festival das Sementes, realizado na cidade com o objetivo de conscientizar a comunidade sobre o valor do cerrado, envolve mais de 900 crianças e os professores das escolas públicas. Eles identificam e agrupam sementes, nativas do Cerrado e mata ciliar local, sob orientação de técnicos do Instituto Lina Galvani. “Queremos que aprendam a valorizar a região do cerrado, sua biodiversidade e sua importância para a agricultura brasileira”, diz Fernanda.

Daniela Mariuzzo, gerente de sustentabilidade da Monsanto

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mil pessoas com suas ações em busca de sustentabilidade no agronegócio. “A gente só aprende estando ao lado do produtor rural, que tem que ser sustentável para que as empresas sejam”, disse a gerente de sustentabilidade da Monsanto, Daniela Mariuzzo, engenheira de alimentos, com mestrado na Unicamp e Universidade de Barcelona. Com investimento total de R$ 13 milhões para o período 2008-2013, as ações de conservação estão sendo desenvolvidas no oeste da Bahia (Cerrado) e na Mata Atlântica do Nordeste. “Essas áreas são de alta biodiversidade e já perderam grande parte da sua vegetação nativa, por isso são territórios bem emblemáticos”, disse o geógrafo Valmir Ortega, da CI. “Espécies símbolos, como o pintor verdadeiro e a arara Canindé, 2 mil plantas, 418 aves e 136 répteis vivem nessas áreas”, informa o biólogo vegetal da Cepan – Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste, Severino Ribeiro Pinto. CAMASSARY Além da Campanha LEM APP 100% Legal, em Luís Eduardo Magalhães, outra área beneficiada pelo Produzir e Conservar foi o entorno na fábrica da Monsanto no Polo Industrial de Camaçari, a 40 km de Salvador. “Como não é possível inter-

Foto: Sérgio Zacchi

Educação Campo

ferir na produção de insumos energéticos, adquiridos de fornecedores externos, lutamos para reduzir o consumo de vapor e energia, principais fontes de emissão de carbono”, disse o gerente da unidade da Monsanto em Camaçari, Gilmar Beraldo. Única fábrica do Hemisfério Sul a produzir matéria prima para o herbicida da família Roundup, que, segundo Beraldo, se degrada rapidamente e gera um composto que ajuda na fertilização do solo, a Monsanto Camaçari economizou 150 milhões de litros de água nos últimos dois anos, graças ao Projeto de Aproveitamento de Água da Chuva. A bacia retentora instalada na área da fábrica, com capacidade para 11 mil metros cúbicos,

Foto: Sérgio Zacchi

da Fazenda São Vicente

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Ettore Rossi, na área da bacia retentora de água da chuva

ajudou a economizar um volume de água que poderia abastecer uma cidade com 33 mil habitantes durante um mês. Eles recuperam e utilizam águas pluviais nos seus processos produtivos. Numa área de 80 mil m2 ao lado da fábrica, o plantio de mais de 20 mil mudas de árvores dentro do Projeto Florescer, vem garantindo o reflorestamento e preservação da Mata Atlântica (fauna e flora), além da conscientização da comunidade, frequentemente convidada a visitar o local. ”Trouxemos de volta a espécie denominada Camassary, a árvore que dá nome à localidade e que estava em extinção”, disse o gerente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente, Ettore Rossi. Camassary significa árvore que chora devido à sua


Foto: Sérgio Zacchi

intensa transpiração durante a noite. No período colonial, ela foi muito utilizada como mastro de saveiros. Um projeto que vem ajudando a reduzir o impacto ambiental no tratamento de resíduos químicos é o de Recuperação de HCl (ácido clorídrico).Desde 2001, quando foi inaugurada a unidade de Camaçari, o HCl era enviado à estação de tratamento de efluentes, sendo previamente neutralizado com soda cáustica. A partir de 2007, a substância passou a ser um produto comercializado no mercado brasileiro. “Hoje, reaproveitamos 100% do resíduo e aqui mesmo no Polo Industrial encontramos clientes interessados em obtê-lo, o que evita o transporte do

Foto: Sérgio Zacchi

Gilmar Beraldo, gerente da Monsanto Camaçari

ácido e a consequente emissão de CO2 para a atmosfera”, explicou Beraldo. No ambiente árido em que se fabrica o glifosato – matéria prima para herbicida e onde é obrigatório o uso de vestes com mangas e sapatos fechados, além do porte de máscara de fuga, a aparição de 50 crianças vestidas de vermelho e branco surpreendeu o grupo de jornalistas que visitava a Monsanto. O Coral Pequenos Cantores, sob a regência do maestro Alcides Lisboa, cantou e encantou. “São crianças de famílias carentes de Camaçari e Dias d`Ávila, que obrigatoriamente frequentam a escola para poder integrar o coro”, informa o Maestro, orgulhoso dos pequenos.

Coral encantou jornalistas

SEMENTES GENETICAMENTE MODIFICADAS

H

á quase 50 anos no Brasil, com unidades em 66 países, a norte americana de St. Louis, Missouri, atua no desenvolvimento de sementes geneticamente modificadas. Em 2011, a Monsanto faturou no Brasil R$ 2,8 bilhões, produzindo e comercializando a linha de herbicidas Roundup, sementes de soja convencional (Monsoy) e geneticamente modificada (tecnologia Roundup Ready), sementes convencionais e geneticamente modificadas de mi-

lho (Agroeste, Sementes Agroceres e Dekalb), sementes de sorgo, algodão (Deltapine), sementes de hortaliças (Seminis) e de cana de açúcar (Canavialis). A empresa investe anualmente mais de US$ 1 bilhão em pesquisas e desenvolvimento de novos produtos, partilhando seu conhecimento com produtores rurais. No Brasil emprega 2,5 mil pessoas. A política de sustentabilidade no Brasil tem chamado a atenção na corporação global - integrando biólogos, técnicos, proprietários rurais

e a comunidade. Tanto, que recentemente, a gerente de Sustentabilidade no Brasil, Gabriela Burian, foi alçada ao cargo de diretora global de Ecossistema Agrícola Sustentável, mudando-se com a família para St. Louis: “Na avaliação da Monsanto global, tivemos excelentes resultados com nossas ações ambientais no Brasil e agora queremos trazer para o grupo a nossa experiência, construindo uma base de troca de conhecimentos e integração dos negócios ao ecossistema”, disse Gabriela, por telefone.

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Arte

Olhar onírico Em uma casinha no alto do Parque Nacional de Itatiaia vicejam pinturas e desenhos cheios de significado e absolutamente fascinantes. São as obras de Christian Spencer e Tatiana Clauzet, minuciosos e prolíficos tradutores das belezas naturais do lugar mágico onde vivem Texto: Raquel Ribeiro, Especial para Plurale em revista De Itatiaia (RJ) Fotos: Divulgação

A

s imagens reproduzidas aqui expressam tanto, que eu poderia resumir o texto a breves legendas, mas a história do casal não está escrita nessas telas. Corajosa e divertida, vem sendo traçada pela paixão mútua pelos cenários naturais e seus habitantes, desde a pequena

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rã ao majestoso elefante africano. Sim, viajar é o único luxo – e maior combustível – de Christian e Tatiana, que já abasteceram os olhos com o ocre da savana africana; com a geometria islâmica de Granada, na Espanha; com as ricas paisagens da Bolívia; com os mistérios da Republica Checa; e com a luminosidade do outback australiano. Este último, a propósito, foi o lugar onde tudo começou. Aos 18 anos, Tatiana desembarcou em Melbourne com o objetivo de aprender inglês e assim se preparar para o vestibular. Sua bússola, no entanto, apontou outro norte ao conhecer Christian e, com ele, partiu para uma fazenda no deserto. Durante meses o casal pastorou ovelhas e pintou, pintou, pintou enlouquecidamente. “Passava até dez horas seguidas fazendo um quadro”, lembra Tatiana, que mexeu com os brios da família ao decidir casar com um gringo, passar meses a fio “no meio do nada” e, pior, cancelar o projeto universidade. De volta ao Brasil, os dois se apertaram no quarto da Tati, na casa de seus pais. Confinado, sem dinhei-

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ro nem perspectiva de trabalho, Christian abriu seus horizontes ao mergulhar novamente nas telas. Tatiana conseguiu dar aulas de inglês, juntar uns trocados e propôs uns dias de férias em Aiuruoca, lugarejo serrano nas Gerais. Bateu uma “mega zica”: o carro quebrou, rolou uma baita chuva, o pique de continuar na estrada mixou e os dois resolveram voltar para Sampa pela Dutra. “Itatiaia fica no caminho, por que não uma paradinha na casa daquela nossa amiga bacana?”, sugeriu Tatiana. Foi amor à primeira vista! Em questão de dias alugaram uma casinha no alto do parque e mudaram para lá. Do terraço dessa casinha, no inicio de uma noite de verão, escuto a história do casal enquanto um beija-flor me rodeia curioso. Vejo os amplos quadros de Christian e, ao perguntar sobre seus animais de predileção, brilham os olhos do artista: “O majestoso gavião-pega-macaco tem um canto mágico, que se ouve mesmo de muito alto; a Murucututu impressiona pelo seu porte de quase meio metro; tem o Muriqui, enorme, em risco de extinção; mas o mais impactante é a onça parda, que mudou minha vida.” Sozinho, ele estava andando pelos Três Picos, aonde se chega após longa tri-


lha na mata, e viu o felino caçando. “Fiquei impressionado com sua força.” O encontro com uma jaguatirica foi mais insólito: “percebi sua presença e ela estava sentada, me olhando”. Ambas renderam dez quadros – sendo que dois estão pendurados no quarto do casal! Árvores, flores, pássaros e dezenas de outros animais são retratados por Tatiana e Christian; cada um com seu estilo, seu olhar. Em comum, parecem enxergar como se tivessem lentes macro nos olhos: desvendam padrões geométricos e os traduzem na harmonia das pinturas. “Reparo que essas formas estão dentro da Floresta”,

“linguagem muito simples”. Sim, como são simples as crônicas de Rubem Alves e a música do Pink Floyd. “Pintura é uma nota musical congelada”, sintetiza o artista. “A luz é invisível? Dependendo de como ela bate, você só vê a luz!”, diz o australiano com pós-graduação na luz de Itatiaia. Dos cerca de 380 trabalhos que já produziu, calcula que uns 300 têm a Mata Atlântica como tema. Como a região fica na mesma latitude de onde morou na Austrália, sente que os dois lugares partilham a mesma luminosidade especial. No início, Christian não assinava suas obras, nem se deixava fotografar:

Os desenhos e pinturas de Tatiana e Christian já atravessaram oceanos e ilustraram livros e revistas

comenta Christian, que se deslumbrou a tal ponto com a perfeição matemática da natureza que estudou geometria islâmica e levou esse novo viés para seus quadros. Diz que sua pintura sempre foi primitiva: “Minha expressão é mais importante que minha técnica.” Autodidata, considera sua

“Achava que não era eu que estava pintando... Ao ouvir música, você não quer ver a foto do violão.” Hoje ele ainda se considera um instrumento, mas coloca seu nome por “se sentir honrado de servir como veículo”. Tatiana partilha dessa sensação de estar diante de algo muito maior que si mesma

– ôpa, isso não quer dizer que são adeptos fervorosos de alguma igreja! Parecem mais discípulos de Gilberto Gil, quando este canta “minha ideologia é a luz de cada dia e minha religião é a luz na escuridão”. “Para mim a beleza é coisa espiritual; é poesia.”, define Tatiana Clauzet. Autodidata como o parceiro, que foi seu grande inspirador, logo criou seu próprio estilo e nos surpreende com figuras de animais cada vez mais emblemáticos e oníricos. Ela conta, aliás, que alguns quadros nasceram de sonhos com portais, mandalas e sol. “Meu olhar busca a forma espacial do bicho e sua relação espiritual com a natureza; e meu coração segue aquele momento de transbordamento, o overflow. Enfim, meu trabalho é intuitivo.” Há doze anos morando no parque, ela diz ver sempre algo novo: uma mariposa diferente, uma semente inédita... ou uma baita jararaca passeando pelo seu atelier! Ah, sim, enquanto Christian continua pintando no chão da sala (pois não gosta dos cavaletes), ela trabalha em um espaço amplo a cem metros dali, onde podemos apreciar algumas obras. Não há muitas, pois os quadros de ambos logo são vendidos – o dinheiro que sobra, o casal usa para viajar. E sempre voltam com mil imagens na cabeça! “A inspiração e a energia da viagem vão direto para o pincel”, conta Tatiana. Como o jardim de Monet, a sensacional vista do terraço da casinha é tema para belíssimas pinturas – e para o premiado documentário A Dança do Tempo, produzido por Christian. Segundo ele, 70% do filme foi rodado “em casa”. Duas majestosas palmeiras com 70 anos de idade que despontam do mar de árvores estão entre seus modelos preferidos. Batizadas de Bob e Ziggy, elas dançam reggae ao sabor dos ventos. Incansavelmente pintadas, fotografadas e filmadas, são as guardiãs desse doce casal de artistas. Veja mais: www.tatianaclauzet.pro.br www.christianspencer.pro.br

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Bazar ético WWF-Brasil: defesa de políticas de conservação Fotos: João Pedro Souza-Alves, Maria Augusta Barbosa dos Anjos, Paulo Lima, Raone Beltrão e Vinícius Noronha.

Quando você adquire um produto WWF-Brasil, está apoiando a conservação da fauna e flora brasileira, pois sua renda é revertida para as políticas de conservação da Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica, biomas onde a organização atua diretamente por meio de programas. Além da qualidade e design diferenciados, os produtos com a marca WWF-Brasil favorecem o comércio justo e sustentável, a partir de uma cadeia de produção livre de substâncias que contaminam a natureza. Criado em 1996 e sediado em Brasília, o WWF-Brasil é uma organização brasileira autônoma e sem fins lucrativos, reconhecida como instituição de utilidade pública. Sua missão é contribuir para que a sociedade brasileira conserve a natureza, harmonizando a atividade humana com a preservação da biodiversidade e com o uso racional dos recursos naturais, para o benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. Ao apoiar o WWF-Brasil, você também pode ajuda a lutar para que a natureza vença as ameaças cotidianas que põem em risco florestas, rios, animais e o próprio homem.

Serviço: Loja virtual: http://www.wwf.org.br/participe/produtos

Para mais informações sobre como adiquirir os produtos com a marca WWF-Brasil, valores, tamanhos e frete, entre em contato pelo e-mail panda@wwf.org.br ou pelo telefone 0300 789 5652.

Este espaço é destinado à divulgação voluntária de produtos étnicos e de comércio solidário de empresas, cooperativas, instituições e ONGs.

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HÁ 45 ANOS FAZENDO O LOBBY E O ADVOCACY DA COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL BRASILEIRA.

Inteligência comunicacional

Advocacy e Lobby Economia criativa

Gestão do conhecimento

Relacionamento Reconhecimento

Educação

ANOS DE COMUNICAÇÃO EMPR ESAR IAL

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VIDA Saudável Conar: nova regulamentação para publicidade infantil

Boa notícia para pais preocupados com o excesso de algumas publicidades infantis. O Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) anunciou que a partir de 1º de março, o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária incorpora novas e mais severas recomendações para a publicidade que envolve crianças, em particular em ações de merchandising, que não serão mais admitidas quando dirigidas ao público infantil. Esta tem sido uma cruzada de ONGs e Institutos preocupados com a vulnerabilidade de crianças diante de algumas campanhas publicitárias, principalmente de ações de merchandising. A adesão é voluntária, mas, segundo o presidente do Conar, Gilberto Leifert, “o Conar, mais uma vez, corresponde às legítimas preocupações da sociedade com a formação de suas crianças”. A decisão foi anunciada logo após o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vetar a lei que restringiria publicidade infantil.

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Apoio:

Dicas de como evitar a desidratação no verão Lembre-se de beber água. O ideal é que se tome pelo menos um copo de água a cada hora. Se for praticar atividade física, fique atento à necessidade de tomar ainda mais água. Em casos de pessoas que praticam atividades extenuantes, pode ser também necessário repor sais minerais perdidos junto com o suor. Isso é hoje fácil de ser feito através do consumo das chamadas bebidas isotônicas, muito populares entre atletas. Em dias quentes, a exposição ao calor faz com que percamos mais água que o normal, e por isso é importante também tomar uma dose extra de água. Observe sua urina. Quando a urina adquire uma tonalidade muito escura, é sinal que o organismo está economizando água, provavelmente por que os estoques estão diminuindo. Beba água até que sua urina adquira uma tonalidade clara, e procure manter sempre essa cor, que é a ideal. Consuma alimentos ricos em água e se sentir sede, não hesite: beba um copo de água. A sede é o sinal mais importante de que o organismo está precisando de mais água. Não engane seu corpo: hidrate-se.

Hit do momento: sal rosa do Himalaia

Nozes, avelãs e castanhas são importantes aliadas

Você já ouviu falar em sal rosa do Himalaia? Este é o hit do momento em lojas de produtos naturais principalmente para a pele, mas também na cozinha. De acordo com recente artigo do chef Renato Caleffi no Portal Orgânico, o sal rosa do Himalaia é colhido nos depósitos milenares de sal, quando o mar chegava às montanhas do Himalaia. A cor vem dos índices elevados de minerais. Diferentemente dos sais industrializados são cristais e são recolhidos manualmente, sem sofrer nenhum tipo de refinamento. São fonte natural de mais de 70 oligoelementos, que estimulam os mecanismos de hidratação, além de ativar a diferenciação celular e favorecer a produção de fatores naturais de hidratação da pele. O chef Renato Caleffi recomenda testar também as diferentes versões, como com lavanda, com massala e com lapsang souchong (chá preto da China).

Quem vive brigando com a balança sabe como é difícil manter uma alimentação saudável. Principalmente quando a fome persiste entre as refeições. A dica de comer pequenas porções de frutas, sucos e verduras de duas em duas horas é o ideal. Os nutricionistas recomendam também pequenas porções de oleaginosas, como nozes, avelãs e castanhas – do Pará ou de caju. Mas atenção: nada de comer um pote cheio a cada vez. O ideal são apenas duas ou três unidades por dia. Essas frutas são fontes de ácidos graxos insaturados, antioxidantes e fibras que colaboram para a redução do colesterol total e LDL-colesterol, evitando assim, a formação de placas de gordura no sangue.

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Ecoturismo

APA Costa dos Corais contará com 20 novos guias A cidade de São Miguel dos Milagres, em Alagoas, localizada dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, contará com o apoio de 20 novos guias turísticos aptos para conduzir passeios de avistamento de peixesboi – o mamífero aquático mais ameaçado do Brasil. A seleção foi realizada por meio de oficinas de capacitação que receberam cerca de 40 candidatos. A APA Costa dos Corais abrange oito municípios em Alagoas e três em Pernambuco e é uma das regiões mais belas do Brasil, com mais de 413 mil hectares de área protegida, que abriga um dos ambientes recifais mais importantes do mundo. O local é considerado um imenso berçário da vida marinha, com mais de 185 espécies de peixes registradas e a presença de animais ameaçados de extinção como o mero, as tartarugas marinhas e os peixes-boi. Saiba mais no site: http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/unidades-de-conservacao/biomas-brasileiros/marinho/ unidades-de-conservacao-marinho/2238-apa-da-costa-dos-corais.

ISABELLA ARARIPE

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Parque Nacional da Peneda Gerês Considerado em 2010 uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, o Parque Nacional da Peneda-Gerês foi criado em 1971 e foi a primeira área protegida de Portugal. A área, localizada no extremo noroeste de Portugal, é a única do país com o estatuto de parque nacional, reconhecida internacionalmente com idêntica qualificação, desde a sua criação, por parte da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), devido à riqueza do seu patrimônio natural e cultural. O Parque Nacional da Peneda-Gerês é um dos últimos redutos do país onde se encontram ecossistemas no seu estado natural, com reduzida ou nula influência humana, integrados numa paisagem humanizada. Com 69.592,50 hectares, o Parque Nacional estende-se do planalto de Castro Laboreiro ao da Mourela, abrangendo as serras da Peneda, do Soajo, Amarela e do Gerês. Nas zonas de altitude são visíveis os efeitos da última glaciação - circos glaciares, moreias, pequenas lagoas e vales em U. Saiba mais no site: http://www.icnf.pt/ cn/ICNPortal/vPT2007-AP-Geres?res=1280x1024

Parque de Brasília reabre o Centro de Educação Ambiental

Turistas não precisarão mais de guias para visitar o Parque da Chapada dos Veadeiros Desde o dia 10 de janeiro, os visitantes que forem conhecer as principais trilhas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no estado de Goiás, não precisam mais do acompanhamento obrigatório de guias. A decisão foi tomada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) por reivindicação dos próprios visitantes. “Há muitas pessoas, muitos montanhistas que têm habilidades suficientes para caminhar sem o acompanhamento de um guia e que preferem caminhar sozinhas, sem estar forçadas a acompanhar um grupo. Inclusive, tivemos manifestações por escrito das Federações Brasileira, Mineira e Paulista de Montanhismo”, disse o diretor da ICMBio, Pedro Cunha, em entrevista à Agência Brasil. Segundo ele, a Chapada dos Veadeiros é um dos poucos parques brasileiros onde existia a obrigatoriedade de guias para acompanhar os visitantes. O local recebe cerca de 20 mil pessoas por ano. Para ele, esse número ultrapassa a demanda e dificulta o acesso ao parque. “Tem acontecido de as pessoas chegarem à Chapada no domingo por volta das 10h e não encontrarem mais por falta de guia disponível. Essa decisão facilitará o acesso às trilhas.”

No dia 1° de fevereiro acontece a inauguração do Centro de Educação Ambiental do Parque Nacional de Brasília na própria unidade de conservação. O espaço será aberto abordando o Tema “O Cerrado e o Parque Nacional de Brasília”, por meio de duas exposições fotográficas: uma dos fotógrafos Paulo de Araújo e Martim Garcia, da Assessoria de Comunicação do Ministério do Meio Ambiente, que registraram parte da biodiversidade do Cerrado, apresentadas em gigantescos painéis. E a outra é do também fotógrafo Paulo de Tarso Penna da Costa, que se dedica a registrar composições fotográficas de paisagens urbanas e rurais, retratos, folclore, abstrações e natureza com dedicação especial ao bioma Cerrado. O Centro de Educação Ambiental está aberto aos visitantes do Parque Nacional de Brasília de segunda à sexta feira, das 9 às 16 horas. Os interessados em apresentar seu trabalho deverão agendar um horário com os técnicos da área de educação ou visitação do parque. A exposição dos fotógrafos, Paulo de Araújo e Martim Garcia permanecerá até o dia 31 de maio e a de Paulo de Tarso Penna, até 29 de março.

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Turismo

PATAGÔNIA ARGENTINA

com pouco dinheiro e muita disposição

Plurale visitou Villa La Angostura, a 85 km de Bariloche, e descobriu que é possível conhecer a Patagônia argentina passeando muito e gastando pouco

Texto e Fotos: Aline Gatto Boueri Correspondente de Plurale na Argentina Da Villa La Angostura

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uando se fala no sul da Argentina, a maioria das pessoas pensa em neve e em estações de esqui. Com um aeroporto internacional e infraestrutura para receber turistas do mundo inteiro, Bariloche foi aos poucos se transformando no destino óbvio de quem busca férias na neve, esqui e passeios completamente diferentes do que estamos acostumados em nosso país tropical. Em geral, os turistas brasileiros que chegam a Bariloche (apelidada de Bra-

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siloche pelos argentinos) desembolsam muito dinheiro para conhecer as estações de esqui, fazer excursões ou se hospedar nos hotéis de alto nível que a cidade oferece. A quem não tem um orçamento do tamanho que o turismo de inverno exige resta sonhar? Não. Como viajar é um prazer e um desafio sempre, a reportagem de Plurale visitou a região, no verão, e atestou: é possível conhecer a Patagônia sem gastar muito e desfrutar a beleza impactante da região com calor, água fresca e muita caminhada.


PARA ESCAPAR DE BARILOCHE: VILLA LA ANGOSTURA A 85 km da vizinha famosa, Villa La Angostura, na província (estado) de Neuquén, se consolidou como um destino mais exclusivo desde que Bariloche caiu nas graças do turismo. Quem chega à pequena cidade, toda de madeira, se sente em uma colônia de férias para ricos, com caminhonetes 4x4 por todos os lados e turistas vestidos com tênis, meia, roude marca e camisa polo para ir à praia. No entanto, com um pouco de paciência e curiosidade, a primeira impressão passa. Villa La Angostura tem trilhas bem sinalizadas e não é preciso mais que vontade de caminhar, bom condicionamento físico e atenção para fazer passeios lindos e – o melhor – grátis. CERRO O’CONNOR Quem gosta de desafios não pode deixar de subir o Cerro O’Connor, de onde se tem uma vista privilegiada do imponente lago Nahuel Huapi, uma das maravilhas da região. O caminho não é fácil. São quatro horas de subida constante e, em alguns trechos, muito íngreme. O começo do trajeto pode enganar, com um bosque frondoso de onde mal se vê

a luz do sol e um pequeno riacho com água de desgelo, mas tudo muda depois da primeira hora de caminhada. Éramos quatro e havíamos levado pouco mais de um litro de água por pessoa. Como a trilha é dura, pensamos que quanto menos peso, melhor. Foi o primeiro grande erro. A maior parte do caminho é feita sob sol, sem acesso à água e, no verão, com um zumbido constante das mutucas – moscas enormes, que picam e atordoam os menos concentrados. Com a água racionada fica pior e até mesmo perigoso. O ideal é levar dois litros por pessoa, no mínimo, além de frutas frescas e muito protetor solar. O segundo grande erro foi não ter acordado cedo. O melhor horário para subir o O’Connor é de manhã bem cedinho, aproveitando os dias longos do verão ao sul do sul, para começar a descer antes do meio-dia, quando o sol já está forte. Nós começamos a caminhar às 11h e as últimas duas horas de subida foram épicas. Há um ano e meio Villa La Angostura ficou coberta pela cinzas do vulcão Puyehue, que fica no Chile e perto do topo da montanha o solo ainda está coberto por elas, o que com a subida íngreme acentua a dificuldade da trilha. A sensação de que caminhávamos por um

chão de areia movediça, em que os pés chegavam a ficar completamente enterrados, aumentava a cada passo. Avançar era um desafio. Essa parte da trilha não apenas é difícil, mas esconde a paisagem. Enquanto subíamos não se via mais que areia de cor cinza claro e algumas pedras. Em um cenário que parece retirado de um filme de ficção científica passado em um futuro catastrófico ou mesmo em outro planeta, com um sol escaldante, os ânimos começam a fraquejar. Era um momento decisivo: ultrapassar o chão de cinzas significava chegar a um dos pontos mais altos do circuito urbano de trilhas e ter a possibilidade de ver o Nahuel Huapi lá de cima. Decidimos continuar e valeu a pena. Chegar ao topo do O’Connor é uma recompensa à persistência e uma emoção muito grande. Lá de cima é impossível não sentir esse frio na barriga, essa vertigem de saber que, vistos a uma distância prudente, todos somos pequenos, minúsculos pontinhos em um planeta cheio de azul. A sede era grande, o cansaço extremo. Mas nada disso nos impediu de, calados, contemplar por um bom tempo o exuberante Nahuel Huapi, que parecida se confundir com o céu naquele momento.

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Turismo

CAJÓN NEGRO O caminho ao Cajón Negro é outra atração pouco frequentada pelos turistas tradicionais. A maioria chega até a cascata, que fica à uma hora da entrada da trilha e pode ser feita até mesmo por quem não está muito preparado fisicamente. Esse trajeto não é tão íngreme quanto o que leva ao topo do O’Connor, mas é um pouco mais longo. Dessa vez não repetimos os erros: levamos bastante água, comidas leves e começamos o passeio antes das 10h. São cinco horas de trilha com algumas subidas leves e quase sempre entre os bosques nativos e com água corrente de desgelo. A neve que se acumula no alto do Cajón Negro no inverno derrete no verão e é uma das muitas vertentes que alimentam o Nahuel Huapi. É possível escolher dois caminhos para chegar ao final da trilha: o mais fácil e curto é o Ex Madesur, pelo meio do bosque e está sinalizado por marcas vermelhas nas árvores para que qualquer pessoa possa se encontrar. Caminhar pelo bosque pode ser traiçoeiro, porque há “caminhos” por todos os lados. É possível seguir por horas sem perceber que se tomou um desvio e terminar perdido. Por isso é importante prestar sempre atenção aos pontinhos vermelhos e não se achar muito esperto ao “encontrar um atalho.” Atrasar a descida pode ser fatal, porque sem luz natural é impossível continuar. Um amigo que mora no lugar há mais de dez

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anos contou que, mesmo conhecendo a trilha, certa vez se distraiu e terminou passando a noite no bosque, abraçado a um tronco, sem ter certeza se estava à beira de um precipício ou mesmo se estava indo ou vindo. Mais difícil e estreito, o caminho pelo Mirante Belvedere rodeia o lago Nahuel Huapi e é recomendável para quem não está muito cansado ou não decidiu passar mais tempo lá no alto, o que pode ser uma decisão difícil. O nome já indica: o Cajón Negro é uma espécie de panela gigante formada por montanhas que, com as cinzas do vulcão, compõem uma paisagem única e a

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sensação de estar guardados dentro de uma caixa gigante. No meio dessa caixa há uma fresta, pela qual se vê ao fundo, mesmo no verão, o topo nevado de uma montanha. O sul da Argentina no verão é uma composição de diferentes tons de verde e azul, salpicados por flores de cores fortes, que fazem a gente se sentir em um quadro desses de quebra-cabeça. É impossível não olhar sem que uma tranquilidade nos invada. Com sorte – como a que eu tive – dá para encontrar uma framboesa selvagem pelo caminho e comer a fruta colhida do pé. O inverno que me desculpe, mas calor é fundamental.


Serviço

Fotos: Arquivo

Villa La Angostura tem hotéis de luxo e restaurantes caros para o turista interessado em gastar dinheiro em troca de conforto. Mas nem todo mundo precisa e pode gastar muito para ser feliz. Para os viajantes e mochileiros dispostos a se aventurar pela Patagônia com um orçamento reduzido, há a opção de campings, em geral muito bons. Os argentinos gostam e costumam acampar, e o sul do país no verão é um dos lugares por excelência para isso. Em Villa La Angostura, os preços por pessoa para o verão 2013 variaram entre AR$50 e AR$70 (entre R$25 e R$35). Alguns campings cobram uma taxa extra por barraca ou por usar o banheiro e outras dependências, como cozinha ou churrasqueira. Que quiser se dar um pequeno luxo e comer fora algum dia também não precisa se preocupar. A reportagem de Plurale visitou alguns restaurantes a preços razoáveis e de qualidade. O Nevada é um deles. A es-

O VULCÃO QUE COBRIU VILLA LA ANGOSTURA DE CINZAS

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m junho de 2011 Villa La Angostura foi coberta por cinzas. O vulcão Puyehue, a 45 km do pequeno vilarejo patagônico, entrou em erupção e, por conta de uma coincidência entre a geografia da região e a direção do vento, lançou o material vulcânico diretamente sobre o povoado. Os moradores contam que sem muito alarde, em uma tarde de fim de outono, começaram a cair do céu uma espécie de pedra pome, muito leve e de tamanho médio, que antecedeu a chuva de cinzas que durou meses e fez com que os voos a Bariloche fossem cancelados durante toda a temporada de inverno. Os moradores que resistiram e não se mudaram – alguns vendendo seus terrenos a preços muito inferiores aos do mercado – contam que foram meses difíceis. Não havia água potável encanada, que era distribuída em galões. Durante algumas semanas também não havia gás e o inverno estava chegando. Sair de casa era uma aventura.

Hoje, um ano e meio depois, as cinzas persistem. Ainda é possível ver alguns telhados cobertos por elas. Em alguns bairros, como Puerto Manzano, um dos mais turísticos do vilarejo, ainda precisa contar com tanques de água potável, que são abastecidos pela prefeitura todos os dias, pois a água corrente, que desce das vertentes de desgelo, ainda vem com cinzas. No centro comercial não se percebe, mas quem vai às localidades dos arredores de Villa La Angostura sente: cada rajada de vento cobre os cabelos e as roupas de cinzas e as pequenas pedras pomes ainda podem ser encontradas às margens do Nahuel Huapi. O turismo se recupera aos poucos. O verão de 2013, contam os moradores, é a primeira temporada depois do vulcão em que o movimento de visitantes se parece ao de anos anteriores. Tudo indica que a erupção do Puyehue beneficiou o solo da região, conformado por diversas camadas de material vulcânico e modificado pela inserção de pinheiros para a indústria madeireira, que impedem o crescimento e matam as espécies nativas. A recompensa para quem ficou e para os que visitam Villa La Angostura agora é que os bosques nativos estão brotando e os jardins voltaram a florescer, dessa vez com mais intensidade.

Restaurante Nevada: Trucha é a especialidade da casa

trela da casa é a trucha (um peixe parecido ao salmão) ao molho de cogumelos, que vem acompanhada de guarnições generosas e custa AR$ 40 (um pouco menos que R$20). No Nevada é importante chegar cedo – os argentinos começam a sair para comer por volta das 22h – para reservar lugar. Quem chega até 21h30 consegue um lugar em 15 minutos, mas meia hora depois o tempo de espera pode chegar a duas horas. Outra opção boa, bonita e barata é o Esquiador, que foi uma boate e hoje funciona como restaurante. O cardápio é variado e as massas são caseiras. O raviole de trucha, a AR$50 é uma excelente opção.

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P e lo Mundo

Foto: Fundação Bill & Melinda Gates

Bill Gates inicia “cruzada” em favor dos muito pobres

De Nova York

No último dia 30 de janeiro, o empresário americano, Bill Gates, um dos homens mais ricos do planeta, anunciou, em Nova York que prepara uma série de viagens pelo mundo para convencer outros bilionários a fazer como ele e doar parte de suas fortunas para a fi lantropia, como ele já o faz através da Fundação Bil & Melinda Gates, criada em 2000. Em entrevista para o repórter Raul Juste Lores, da Folha de S. Paulo, Bill Gates explicou que os países de renda média como o Brasil “deveriam doar mais e ajudar países muito mais pobres pelo mundo, especialmente em tecnologia agrícola e vacinação”. Este já tem sido o trabalho desenvolvido pela Fundação Bill & Melinda Gates no incentivo a projetos de cura da poliomielite e AIDS. O fundador da Microsoft já anunciou que deixará 95% de sua fortuna pessoal para a fi lantropia. Na entrevista, o empresário revelou que já conseguiu convencer 92 milionários

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americanos a fazer o mesmo, doando em vida e trabalhando, compartilhando conhecimento em projetos de fi lantropia. “Agora é hora de falar com bilionários pelo mundo. Muitos deles já fazem suas ações de fi lantropia, mas podemos fazer mais”, disse na entrevista em Nova York para a Folha. “Não será fácil, porque não existe a tradição. Pode até levar um tempo, mas vale a pena.” No mesmo dia, ao divulgar a carta anual de sua Fundação, Bill Gates falou de progressos em educação e saúde, especialmente em países africanos. “A vida dos mais pobres melhorou com mais rapidez nos últimos 15 anos do que em qualquer outra época.” A carta descreve um progresso notável desde escolas nos Estados Unidos até cuidados de saúde na Etiópia e defende que os investimentos contínuos nesses esforços fi zeram uma diferença mensurável para milhões de pessoas entre as mais pobres do mundo. Uma das principais razões foi o comprome-

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timento mundial em estabelecer metas claras e identificar as medidas corretas para impulsionar o progresso em direção a essas metas. Gates ressaltou no documento a importância dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) das Nações Unidas como um exemplo de como o mundo é capaz de alcançar grandes resultados quando trabalhamos com uma meta clara e desenvolvemos as medidas para avaliar o processo. Os ODM são um conjunto de oito objetivos específicos, que são um esforço mundial sem precedentes para atender as necessidades das pessoas mais pobres do mundo até 2015. “Embora não alcancemos todos os objetivos, o progresso que fi zemos para cada um deles é impressionante”, afi rmou Gates. “O objetivo dos ODM de diminuir a pobreza extrema pela metade foi alcançado antes do prazo, bem como o objetivo de reduzir pela metade a proporção de pessoas que não têm acesso à água potável.”


Se preparando para salvar vidas

Foto: Monica Pinho

Ir à praia à tarde é sempre mais gostoso que pela manhã. Já não está mais tão quente, bate um ventinho gostoso que ajuda a levar o calor embora e de quebra a gente ainda vê o por do sol. Sem contar as inúmeras atividades que existem a partir das quatro da tarde. No fim de janeiro, por exemplo, presenciei em City Beach o treinamento de uma das turmas que estava se preparando para virar surf life guard de Perth.

Cheguei na praia por volta das 16h20, estendi a minha canga na areia branquinha e acabei tirando um cochilo. Acordei com um rapaz que era o treinador, pedindo gentilmente que eu mudasse de lugar porque ali onde eu estava, viraria em poucos minutos um local de treinamento de uma das turmas do Surf Life Guard Club. E eu seria literalmente pisoteada. Me dei conta que estava cercada de inúmeras pranchas e caiaques, além de jovens de várias faixas etárias, que variavam de 15 a 30 anos. Bem, me mudei rapidamente e comecei a observar a aula. Saí de lá umas 17h30 e a aula ainda não tinha acabado. Como dizem por aqui, fiquei absolutamente exhausted só de olhar. O treinamento que vi consistia em correr pela areia (piques de corrida), imediatamente após nadar mais de 500 metros no mar, retornar à areia e pegar a rescue board (uma prancha curta onde o salva-vidas

fica ajoelhado e rema rapidamente no mar), fazendo o mesmo percurso que nadou, voltar correndo à areia e pegar um caiaque e remar o mais rapidamente possível (sempre o mesmo trajeto demarcado por uma boia no mar), voltar e correr novamente na areia. Esses exercícios se repetem muitas vezes – eu devo ter presenciado pelo menos umas seis vezes. Fui pesquisar nos sites para saber por que o treinamento é tão rígido assim e descobri que são inúmeros os requisitos pra você se tornar um life guard: além de todos os skills de primeiros socorros, o preparo físico tem que ser impecável, óbvio! O que é mais incrível é que aqui, na Austrália, a maioria dos candidatos a salvavidas é de voluntários. Quem se candidata precisa nadar 800 metros em até 13 minutos, mais 600 metros no oceano, mais 600 metros de corrida na areia e 600 metros de rescue board em situações de estresse e dupla função em tempos curtíssimos. Depois disso, até dá pra entender porque o treinamento é tão puxado. Numa situação extrema, o tempo é precioso e quanto mais rápido agir, melhores serão os resultados. Foto: WSPA

Por Monica Pinho, de Perth, Austrália Especial para Plurale em revista http://monicaemperth.blogspot.com.br/

Novos relatórios da WSPA evidenciem maus-tratos às tartarugas das Ilhas Cayman Da WSPA Dois novos relatórios de especialistas em tartarugas marinhas confirmam a gravidade dos maus-tratos a que são submetidos os animais do criadouro Cayman Turtle Farm (CTF), atração turística mais popular das Ilhas Cayman, no Caribe. De maneira chocante, ambos os relatórios revelam que, há mais de seis meses, a administração do lugar tem ciência dos sofrimentos desses animais, como doenças várias e problemas de superpopulação nos tanques onde vivem. No entanto, o criadouro tem negado tais evidências publicamente. Desde julho de 2012, a WSPA - Sociedade Mundial de Proteção Animal em encontro com a direção da Cayman Turtle Farm, apresentou provas de maus-tratos dos animais. A partir daí, foi feita uma “averigua-

ção imediata” das condições locais pela administração. As conclusões do próprio especialista em tartarugas marinhas do criadouro, professor Brendan Godley, deixam evidentes os problemas bastante similares aos já denunciados pela WSPA em investigações próprias. Todavia, a administração do CTF tem silenciado a respeito de tal relatório, além de publicamente rejeitar e ironizar as reivindicações da WSPA, qualificando-as de “sem fundamento, erráticas e sensacionalistas”. O criadouro das Ilhas Cayman é uma atração turística bastante popular do Caribe, atraindo muitos turistas em navios de cruzeiro. Tem merecido também a atenção da indústria turística após a publicação de estudo da WSPA, demonstran-

do a presença de salmonela e coliformes, além de outros agentes patogênicos, na água dos tanques em que as tartarugas são manuseadas por seres humanos. Ao todo, mais de 145 mil pessoas em mais de 180 países já assinaram a petição contra a criação de tartarugas sob condições cruéis nas Ilhas Cayman. Você também pode assinar agora mesmo: ht t p://e - ac t i v i st.com /e a - ac t ion / action?ea.client.id=24&ea.campaign. id=16882&ea.tracking.id=email

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África

Comércio justo,

de verdade

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Texto: Vivian Simonato, Correspondente de Plurale De Dublin, Irlanda Fotos: Divulgação/ VAA

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uma sala do Irish Aid Centre, Conall O’Caoimh inicia sua aula pedindo que as pessoas presentes se dirijam à esquerda caso tenham esperanças de que o comércio justo melhorará a vida de pessoas menos favorecidas nos próximos 30 anos. Os que não acreditam nessa melhora, ficam à direita. Metade da sala se move vagarosamente à esquerda. Essa metade de jovens sonhadores começa a apresentar timidamente os argumentos que fundamentam suas crenças de que sim, em 30 anos as relações comerciais serão me-

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lhores para pequenos produtores em países em desenvolvimento. Eu, que havia encontrado Conall mais cedo nesse mesmo dia para conhecer seu trabalho na Organização Não-Governamental Valor Adicionado na África (VAA), não sou mera expectadora do curso de Comércio e também escolho meu lado, à esquerda, junto aos sonhadores. Acredito que as relações de comércio podem ser mais justas em 30 anos não somente pelo fato de que os países mais desenvolvidos continuarão a fortalecer práticas de comércio justo. Minha crença também é baseada em questões muito mais complexas, que se apóiam


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no fato de que para os países desenvolvidos continuarem crescendo será preciso muita matéria-prima, mão-de-obra barata e mercados potenciais... Três ingredientes em abundância em muitos dos países em desenvolvimento, incluindo as nações no continente africano. Recentemente, vários estudos chamam a atenção para a importância estratégica da África também às potências emergentes, como a China. As alianças para acesso aos recursos naturais estão não somente reforçando antigos vínculos, mas estabelecendo novas parcerias, como explicado em detalhes no livro “A nova disputa pela África” (The New Scramble for Africa, Pádraig Carmody). Debruçando-se sobre alguns dados é fácil entender porque a África é tão atraente como fornecedora de matéria-prima. Cerca de 42% de toda bauxita do mundo esta nesse continente, assim como 38% do urânio, 42% do ouro, 73% da platina, 88% dos diamantes e 10% das reservas de óleo mundiais. No entanto, riqueza natural não é sinônimo de riqueza social. Cerca de metade da população da África sub-Saariana vive com menos de US$1,25 por dia de acordo com relatórios de desenvolvimento de 2010 do Banco Mundial. Por exemplo, apesar do fato de Guiné, oeste da África, concentrar quase metade da bauxita disponível no mundo, sendo a bauxita principal matéria-prima do alumínio, o orçamento do governo de Guiné é 0,0005% do seu primeiro colonizador, a França. Esse ranço de colonização aliados ao fato de que o continente não é reconhecido como sendo detentor de alta tecnologia para produção resulta numa condição em que a África é tida meramente como

fornecedora de matéria-prima em seu estado desenvolvimento de embalagens que sejam mais bruto. Tal percepção também justifica o atrativas para esses mercados. fato do desenvolvimento africano ser definido como “paradoxo da abundância”. Ou seja, um PRIMEIROS PASSOS continente muito rico em recursos naturais, Uma importante conquista em grande mas economicamente pobre. escala feita pela VAA já pode ser conferida nas prateleiras da gigante de supermercados Marks VALOR ADICIONADO & Spencer (M&S) na Irlanda e Reino Unido. NA ÁFRICA (VAA) Normalmente, a cadeia de fornecimento de chá Incentivar a comercialização de produ- para o mercado europeu envolve a importação tos acabados na África, com valor agregado, do chá a granel para que a mistura, embalagem, foi justamente o que motivou Conall a fun- comercialização e distribuição sejam feitas no dar, em 2008, a Valor Adicionado na África país desenvolvido. Desde 2010 a M&S vêm tra(VAA). Formado em Economia e Política, com balhando com agricultores cooperados à fábrica mestrado em Desenvolvimento, o diretor da de chá Iria-ini para agregar mais valor ao produVAA já viveu no Brasil de 1987 a 1990 onde to em nível local. Em fevereiro de 2012, a fábrica, também obteve graduação em Teologia da que faz parte da organização guarda-chuva da Libertação e trabalhou com o Movimento de Agência de Desenvolvimento de Chá do QuêDefesa dos Favelados na Zona Leste de São nia, lançou a primeira linha de chás produzidos Paulo de 1988 a 1990. 100% no país. O chá comercializado pronto para A ideia de fundar uma organização que ir às prateleiras da M&S irá gerar um adicional de privilegiasse toda cadeia de produção na $2 - $3 por quilo, devido ao fato de a maior parte África surgiu em uma viagem a Moçambique, do valor ser adicionado ao produto no país de quando Conall viu um saco de castanhas de origem em vez de no Reino Unido. O total cocaju que seriam exportadas em grandes quan- mercializado entre a fábrica de chá e M&S deve tidades para Europa para somente depois ser em torno de US $ 30.000 por cada pedido e serem ensacadas em porções menores e dis- os cerca de 8.000 agricultores, cooperados da fátribuídas no mercado europeu. brica, vão se beneficiar diretamente dos lucros. Num exemplo básico, o diretor da VAA A iniciativa alavancou não somente o desenvolexplica que quando as instituições vendem vimento econômico local, mas também técnico, o produto pronto para o mercado de con- pois a expertise adquirida permitirá que a Iria-ini sumo, como o café, ganham até três vezes estabeleça outras parcerias. mais do que se vendessem as sacas de grãos. Em outros casos, o ganho pode chegar a 26 vezes mais do valor do que se vendessem o ORGULHOSAMENTE produto sem ser processado. Esse é o caso FEITO NA ÁFRICA Um dos desafios para o futuro, no enda cooperativa de geléia e chás Meru Herbs, no Quênia, que hoje vende diretamente tanto, é acabar com a imagem de uma África para lojas irlandesas, após a VAA ter dado frágil, que não tem condições de oferecer suporte à cooperativa realizando pesquisa produtos de qualidade mundial em todas as de mercado que engloba desde o potencial categorias. Nesse sentido, um passo imporpara os produtos para os mercados irlan- tante planejado pela VAA é a criação de um deses e Reino Unido para o produto até o selo de qualidade, de origem e de ética. O

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África

A cooperativa de geléia e chás Meru Herbs, no Quênia, que hoje vende diretamente para lojas irlandesas, após a VAA ter dado suporte à cooperativa realizando pesquisa de mercado que engloba desde o potencial para os produtos para os mercados irlandeses e Reino Unido para o produto até o desenvolvimento de embalagens que sejam atrativas para esses mercados.

“Proudly Made in Africa” (Orgulhosamente feito na África) busca atestar que os produtos que levarem o selo terão seguido os padrões internacionais relevantes especificados, por exemplo pela ISO 22.000; terão, no mínimo, 70% de componentes africanos antes de serem empacotados e atenderão totalmente aos padrões sociais e éticos. Finalmente, Proudly Made in Africa visa refletir a identidade de produtos de qualidade, totalmente produzidos na África com responsabilidade social e comércio justo, onde a geração de renda beneficie comunidades locais para geração de desenvolvimento social real e robusto, colocando fim ao paradoxo da abundância que é tão intrínseco à identidade africana.

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Saúde

Casas de parto da periferia de São Paulo são opção para gestantes que buscam atendimento humanizado Texto: Camila Maciel, Repórter da Agência Brasil Fotos: Marcelo Camargo, Agência Brasil

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ão Paulo – Um corredor com um jardim bem cuidado conduz as gestantes à sala de estar onde uma mesa com suco, frutas e bolos foi preparada especialmente para recepcioná-las. Reproduzir o aconchego do lar na etapa final da gravidez é a proposta da Casa Angela, uma das duas casas de parto de São Paulo, localizada no Jardim Mirante, na periferia da zona sul da capital paulista. O vocativo “mãezinha”, como costumam ser chamadas as gestantes em hospitais, é substituído por Marlene, Suzana, Cristina. Mães, pais e bebês têm rostos e nomes nesses locais, e eles têm, sobretudo, vontades. É esse clima de naturalidade no momento de dar à luz e de respeito às necessidades da família que tem feito mulheres optarem pelas casas de parto em vez de recorrer a hospitais bem equipados. “Fiquei assustada quando voltei a morar no Brasil e descobri que, caso fizesse meu parto em hospital particular, teria até 90% de chance de passar por uma cesariana”, relata a administradora de empresas

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Marlene Ábila, 32 anos, que teve seu filho Ramon na Casa Angela, em janeiro deste ano. A casa atende apenas mulheres com gravidez de baixo risco, que não passam por procedimentos cirúrgicos ou intervenções médicas para dar à luz. O relatório Situação Mundial da Infância 2011, do Fundo das Nações Unidas para

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a Infância (Unicef), mostra que a taxa de cesárea no Brasil é a maior do mundo, com 44%. De acordo com o Ministério da Saúde, considerando apenas a rede privada, esse percentual quase dobra e chega a 80%. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que as cirurgias correspondam a, no máximo, 15% dos partos. Marlene relata que pôde comparar os serviços da casa de parto aos de um hospital, quando o filho Ramon precisou tratar uma doença. “Lá, eu era a mãezinha e meu filho o RN [recém-nascido], já que ele ainda não tinha certidão de nascimento. Na casa de parto, sempre fomos Marlene e Ramon, senti como se estivesse parindo em casa”, lembra. A unidade funciona 24 horas. A equipe é formada por oito enfermeiras obstetras, técnicos de enfermagem, psicólogo, fisioterapeuta e massagista. Podem ser feitos até quatro partos simultaneamente. Os quartos dispõem de camas hospitalares e de equi-


pamentos que podem ser utilizados pelas mulheres no momento do parto, como banheira e bancos adaptados. O ambiente acolhedor fez a enfermeira Camila Nogueira Rodrigues optar por trabalhar na Casa Angela. “Fiquei muito impactada pela falta de sensibilidade nos hospitais, que tipo de lugar era aquele que os pais só podem ver o bebê por meia hora? A dinâmica hospitalar é muito rápida e acaba por não respeitar o tempo das mulheres.” “Em geral, a cultura do parto no Brasil, principalmente nos hospitais particulares, é extremamente intervencionista. Todo o saber de como acompanhar o parto normal desapareceu no ambiente hospitalar”, avalia a coordenadora-geral da Casa Angela, Anke Riedel. Ela relata que os partos naturais duram, em média, 12 horas, enquanto uma cesariana leva apenas de 30 a 40 minutos. “Existem vários motivos para que isso ocorra, mas a principal é a questão do lucro, pois o parto normal requer todo um cuidado e acompanhamento que não é bem pago”, aponta. A Casa Angela é vinculada à organização não governamental (ONG) Monte Azul, que atua há 35 anos na comunidade, e atende gratuitamente mulheres das regiões do M’Boi Mirim e Campo Limpo. Para gestantes de outras localidades, é feita uma avaliação para saber se elas têm condições de arcar com os custos do atendimento. “Nossa intenção era manter a casa integrada ao serviço público de saúde, mas, diante da impossibilidade, essa foi a forma que encontramos de conseguir atender mulheres carentes”, explica Anke Riedel. Para quem pode pagar, são cobrados R$ 3,5 mil para o pré-natal e o parto. Quem desejar cuidados extras durante o pós-parto, como o acompanhamento pediátrico do bebê – tem de arcar com mais R$ 500. De fevereiro, quando a Casa Angela começou a funcionar, a setembro deste ano, foram registrados 100 nascimentos. A coordenadora-geral da casa explica que

é possível fazer uma ambulância fica disponível para casos até 40 partos por em que a transferência para hospitais seja mês. Segundo necessária. Anke Riedel destaca, no entanto, ela, 50% das mu- que, até agora, não foi preciso recorrer ao lheres atendidas veículo para casos de emergência. “Utilizavêm de outras mos em situações bem tranquilas, quando localidades. Anke verificamos, no trabalho de parto, que não Riedel avalia que havia condições de fazê-lo na casa”, relata muitas mães da citando situações como a mudança de poregião procuram sição da criança durante o procedimento. o serviço por ser Segundo ela, a transferência para o hospital uma opção gratui- da região leva, no máximo, dez minutos. ta. “As mulheres Na opinião de Camila Rossi, a particique vem de fora sabem o que querem, se pação de médicos no parto deve ser o úlinformaram muito para ter um parto hu- timo recurso. “Quando é necessário intermanizado. As que são daqui vêm porque venção, que bom que existem os médicos, encontram um atendimento muito dife- mas isso deve ser a exceção. Para algo que renciado, individualizado”, avalia. é natural, não é necessário procedimento Antes do parto, as gestantes passam cirúrgico. Gravidez não é doença.” por, pelo menos, seis consultas de pré-natal A coordenadora da Casa Angela rena própria casa. A administradora Suzana força que o parto humanizado torna as Silva de Sousa, 24 anos, fez a última no mulheres protagonistas nesse momento. dia 2 de outubro. No plano de parto – um “Esse trabalho fortalece muito os víncuquestionário em que as mães dizem como los afetivos e torna a mulher um sujeito imaginam o momento de dar à luz – Suzana ativo desse processo”, avalia. escolheu dividir esse momento com o maDurante quatro dias a reportagem da rido e a mãe. “São as duas pessoas que me Agência Brasil entrou em contato com a Sepassam confiança. Vamos colocar velas aro- cretaria de Saúde da prefeitura de São Paumáticas para deixar o ambiente agradável. lo, responsável pela Casa de Parto de SapoEstou tranquila”, contou. Suzana está na 40ª pemba, mas não conseguiu autorização semana de gestação e aguarda a chegada de para visitar o local, assim como não obteve Tamires a qualquer momento. as informações sobre o funcionamento e o Na cidade de São Paulo, a Casa de número de partos feitos por mês. Parto de Sapopemba faz um trabalho seCamila Rossi, que teve bebê no local, melhante. Localizada na zona leste da ca- avalia que não há interesse por parte do pital, a estrutura é mantida pela prefeitu- governo municipal em divulgar a unidara. O casal Rafael Vieira da Silva, 29 anos, de. “É um serviço muito boicotado. O e Camila Inês Rossi, 27 anos, escolheu o telefone de lá muda sempre. Se qualquer espaço para o nascimento da filha Anisha hospital quiser fazer a divulgação dos Raiz, que hoje tem 1 ano e 4 meses. Eles seus serviços, isso é super bem visto, mas conseguiram criar o ambiente que haviam na casa de parto, não”, criticou. planejado para o momento. “Estendemos tecidos pela sala, O casal Rafael cantamos, ouvimos mantras. Vieira da Silva, Foi muito lindo”, conta a mãe. e Camila Inês Rossi, Para Camila, a presença do com a filha companheiro foi essencial para Anisha Raiz, aumentar a confiança no momento do parto. “A gente diz que pariu junto. O corpo do Rafael junto do meu fez toda a diferença. A gente fez isso junto. Ele precisava estar lá comigo”, relata. Segundo ela, o pai acompanha todo o procedimento na casa e o bebê, logo após o nascimento, vai para os braços da mãe. Tanto na casa do Jardim Mirante quanto na de Sapopemba

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P e las Em ppr esas

ISABELLA ARARIPE

Contando alegrias, somando histórias

Do Rio de Janeiro

Estão abertas as inscrições para o projeto Contadores de Histórias, da Associação Viva e Deixe Viver. Apoiada

pela Unimed-Rio, a ONG realiza curso para formar contadores, que atuarão como voluntários em hospitais. Nos seis meses de treinamento, os voluntários têm a oportunidade de participar de palestras com médicos ligados à humanização, terapeutas, imunologistas, oficineiros e professores de literatura. Ao fim das aulas teóricas, os alunos fazem um mês e meio de estágio, habilitandose para atuar em um dos 17 hospitais credenciados. (ver lista na página do Rio de Janeiro - www.vivaedeixeviver.org.br) Segundo Regina Porto, fundadora e

coordenadora da Associação Viva e Deixe Viver no Rio de Janeiro, o comprometimento é essencial: “Ir ao Centro os sábados durante seis meses, faça chuva ou faça sol, com os compromissos que já temos na vida pessoal e profissional, pode ser complicado. Mas o pior é depois não conseguir se dedicar à contação. E aí, você não falta simplesmente a uma aula, mas deixa uma criança no leito de um hospital à sua espera. É preciso avaliar bem a disponibilidade de cada um”, lembra. O projeto conta hoje com 162 contadores no Rio de Janeiro. As inscrições podem ser feitas no site www.vivaedeixeviver.org.br até o dia 28 de fevereiro.

Executiva da SulAmérica é nomeada Conselheira da iniciativa Princípios para Sustentabilidade em Seguros A SulAmérica Seguros, Previdência e Investimentos tem se posicionado como uma liderança no mercado de seguros em relação às discussões sobre sustentabilidade no setor financeiro. Como reconhecimento dessa postura, Adriana Boscov (foto), superintendente de Sus-

tentabilidade Empresarial da seguradora e presidente da Comissão de Sustentabilidade da CNseg (Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização), foi nomeada Conselheira da iniciativa Princípios para Sustentabilidade em Seguros (PSI sigla em inglês), com a responsabilidade de desenvolver as diretrizes e projetos da iniciativa internacional, bem como disseminar informações relevantes ao mercado securitário nacional e angariar novos signatários.

Fundação Telefônica Vivo lança ‘Desafio Tecnologias que Transformam’ A Fundação Telefônica Vivo lança na Campus Party Brasil, que começou no dia 28 de janeiro, o Desafio Tecnologias que Transformam, com o intuito de identificar as melhores ideias empreendedoras que promovam benefício social. Para concorrer, os participantes deverão produzir um vídeo de até dois minutos e um breve descritivo apresentando, de forma resumida, a ideia que disputará o Desafio. As inscrições poderão ser feitas através do site www.fundacaotelefonica.org.br/transforme a partir de 28 de janeiro. Os participantes poderão desenvolver ideias para ajudar a solucionar problemas em suas comunidades nas áreas de Saúde, Educação, Geração de renda, Catástrofes Naturais, Gestão de ONGs e Voluntariado. Os empreendedores pré-selecionados para a segunda etapa do Desafio receberão capacitação, presencial e virtual, para desenvolver o projeto a ser apresentado para uma comissão avaliadora da Fundação Telefônica.

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Reciclagem no varejo Ao entrar em seu quinto ano de atuação, o projeto socioambiental da Casas Bahia, “Amigos do Planeta” contabiliza um volume de 50 mil toneladas de materiais entre plástico, papelão, vidros, madeiras, ferragens e alumínio - encaminhados para reciclagem, além de sucatas metálicas (fogões, geladeiras, etc) e eletrônicas (peças de PC’s e eletrônicos em geral). O programa possui Central de Triagem própria, instalada em Jundiaí, no inte-

rior paulista, para onde é levado todo o material coletado em mais de 200 lojas em São Paulo, prédios administrativos e dois centros de distribuição da empresa. Somente em 2012, o Amigos do Planeta encaminhou mais de 12 mil toneladas de materiais para a reciclagem, volume aproximadamente 20% superior ao arrecadado em 2011, além das mais de 150 mil unidades de lâmpadas, pilhas e baterias recolhidas nas lojas da rede e encaminhadas para o descarte correto.

Congresso de aço será realizado no Rio Cenários da indústria mundial do aço, Desafio Brasil Competitivo, Desafios da Sustentabilidade da Indústria do Aço e Situação da economia mundial e perspectivas serão os temas centrais dos debates da 24ª edição do Congresso Brasileiro do Aço, nos dias 08 e 09/05, no Centro de Convenções SulAmérica, Rio de Janeiro. O mais importante evento da cadeia do aço do Brasil terá novamente a presença de grandes destaques nacionais e internacionais e tratará dos principais temas para a indústria do aço no Brasil e no mundo. Na última edição, cerca de 700 congressistas participaram do congresso no Transamérica Expo Center, em São Paulo. O evento contou com a participação do Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, assim como da Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e do deputado Leonardo Quintão,

representando a Câmara, entre outras autoridades. Cerca de 100 jornalistas, representando os maiores veículos de mídia, estiveram na cobertura do evento. Inscrições no site: www.acobrasil.org.br/congresso2013

Apoio ao movimento “Rio eu amo eu Cuido” A IMX dá início neste ano a uma parceria com o movimento “Rio Eu Amo Eu Cuido” para os eventos organizados pela joint venture do Grupo EBX com a IMG Worldwide. O objetivo da parceria é o de utilizar a comunicação e o alcance dos eventos da IMX previstos para o Rio de Janeiro em 2013 para ampliar a mensagem do “Rio Eu Amo Eu Cuido” pela cidade e engajar ícones do esporte e a população carioca. Faixas e bandeiras do movimento estarão presentes nos eventos e itens emblemáticos das

atividades serão arrecadados para o leilão do “Rio Eu Amo Eu Cuido”, realizado todo final de ano. “Somos uma empresa nascida no Rio de Janeiro. Temos esse DNA carioca e, assim como o movimento ‘Rio Eu Amo Eu Cuido’ queremos ampliar cada vez mais o nome de nossa cidade nacionalmente. Estamos muito satisfeitos com essa parceria sem fins lucrativos e confiantes com o aumento do sucesso do movimento”, afirma Alan Adler, CEO da IMX.

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CONEXÕES

PLURALE

70 anos de

CAETANO VELOSO

MARIA HELENA MALTA

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pressentimento veio aos sete anos de idade, ainda no velho sobrado de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, antes mesmo do primeiro susto cinematográfico, diante de um Fellini, numa sessão do velho Cine Subaiê. De repente, sem nenhum motivo específico, o menino arguto e intuitivo, que já percebia criticamente as hierarquias domésticas, prometeu a si mesmo que haveria de crescer e fazer “um escândalo entre os homens”. E fez. Pouco mais de dez anos depois, em meados de outubro de 1967, no palco do III Festival da Canção, na TV Record, sua Alegria, alegria abocanhou um tímido (e talvez injusto) quarto lugar, mas causou impacto e polêmica: soava livre, plena de sol e vida, tanto quanto superficial ou, no mínimo, imprópria ao momento. Em outras palavras: era claramente indigna para alguns — sobretudo os esquerdistas mais conservadores — ao mesmo tempo em que representava um alívio, ainda que efêmero, para muitos outros. Caetano Veloso, que chega agora aos 70 anos de idade, pode ter iniciado ali, prematuramente e em pleno regime militar, o seu prometido escândalo. Teria ido longe demais? Por idiotice ou genialidade?

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revolução “Caminhando contra o vento Sem lenço e sem documento Num sol de quase dezembro... eu vou”

Até por alguns amigos, a música, cantada ao som das guitarras elétricas dos Beat Boys, foi recebida como uma espécie de afronta, um não-sei-quê que beirava a mais pura alienação, ainda mais naquele grave momento da História do país. Vivia-se a era do segundo presidente do regime de exceção, Costa e Silva, e um Ato Institucional (o de nº 2) já dissolvera os partidos políticos, além de cassar o direito brasileiro de escolher o presidente. Além disso, uma nova Constituição, oficializando o arbítrio, acabara de ser promulgada. Nada comparável, evidentemente, ao que viria logo depois, com o AI-5. Talvez por isso, aquela turbulência artística funcionasse como deliciosa válvula de escape, nem esquerdista nem direitista, nem popular nem erudita, pelo menos para uma geração de jovens e trabalhadores que mal haviam retomado suas reivindicações e teriam de fazê-lo bem rapidinho — isto é, antes que viesse o abrupto corte promovido pela radicalização do regime, em dezembro do ano seguinte. Na cena quase irrespirável, a dobradinha teatro/música — que já rendera peças e shows históricos (Rosa de Ouro, Opinião, Arena conta Zumbi) — saíra na frente, em matéria de manifestação de protesto contra a mesmice e o autoritarismo. As exposições de Lygia Clark davam o que falar, o cinema de Glauber Rocha fascinava até no exterior, mas nada disso se comparava, como já disse o crítico literário Roberto Schwarz, com a cumplicidade

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nascida entre palco e plateia no ambiente teatral/musical — uma cumplicidade, aliás, que se estenderia ao longo de todo o regime militar, ainda que de forma mais discreta e às vezes até cifrada, pelo menos no tocante a letras e pseudônimos utilizados pelos autores, na eterna arenga para burlar a censura. Mas como decifrar, ainda no fim dos anos 60, as intenções do garoto magro e cabeludo, metido num paletó meio frouxo, que cantava o beijo, a alegria e a preguiça? Seria, talvez, a arte de um bruxo, pressentindo a urgência de tirar proveito da falsa calmaria? Seria o anseio de cantar a liberdade, antes do tsunami que viria transformar o sufoco em tragédia? “O sol se reparte em crimes espaçonaves guerrilhas, em Cardinales bonitas... eu vou...”

Caetano estava por dentro de muita coisa (conhecera música, teatro e até o Cinema Novo na Faculdade Federal da Bahia, na fervilhante gestão do reitor Edgar Santos) e não era propriamente um estreante: já fizera algumas trilhas sonoras e acabara de gravar o LP Domingo, com Gal Costa. No entanto, o festival representava sua estreia nacional e, mais ainda, a do movimento que, logo em seguida, seria batizado de Tropicália ou, simplesmente, Tropicalismo — segundo os dicionários, algo ligado, relativo ou pertencente aos trópicos, talvez abrasador e úmido, além de uma espécie de “síntese informal de elementos da brasilidade”. Mas certamente algo muito doido — sem dúvida, uma ruptura e talvez a última da MPB —, na opinião de alguns brasileiros famosos e outros nem tanto.


Fotos de Divulgação

Parti para a aventura de Alegria, alegria como para a conquista da liberdade. Depois do fato consumado, eu sentia a euforia de quem quebrou corajosamente amarras inaceitáveis...

O próprio Caetano diria em seu livro, Verdade tropical, trinta anos depois: “Parti para a aventura de Alegria, alegria como para a conquista da liberdade. Depois do fato consumado, eu sentia a euforia de quem quebrou corajosamente amarras inaceitáveis...” Menos de um ano depois, muitos torceram o nariz a uma festa no Dancing Avenida, que comemorou o lançamento do LP Tropicália, reunindo Caetano, Gil, Gal e Os Mutantes. Críticos de vários jornais receberam com ressalvas o trabalho do grupo irreverente, sobretudo o uso de instrumentos elétricos e os ousados arranjos de Rogério Duprat. Pouco antes do Festival de Woodstock e da chegada do homem à Lua, o escândalo cometido por Caetano parecia uma ameaça. E isto por quê? Talvez porque o movimento, como diria ele próprio, “pretendia situar-se além da esquerda e mostrar-se despudoradamente festivo”. De fato, Alegria, alegria permitia inúmeras leituras, inclusive a do desabafo diante do status quo. Afinal, por que definir um objetivo, se ao jovem só restava caminhar contra o vento? Por que levar documentos no bolso, se o

Estado era de mentira ou, mais precisamente, um Estado de fato e não de Direito? Por que empunhar um fuzil, se a grande maioria da população quase sempre se comportava como oposição consentida, resignada, silenciosa e amedrontada? Por que ir à escola, se não havia como alimentar esperanças de cidadania? Como não pensar em casamento, se a virgindade era regra familiar, ainda que às vezes fosse burlada ou apenas de fachada? E como dizer “porque sim” às cobranças óbvias (mas não reveladas), se o mais justo e honroso era dizer “porque não”? Em outras palavras: Caetano fazia sua oposição em versos mais elaborados, mas mostrava claramente a pobreza das opções de vida no país dos militares — sustentado por uma elite interesseira e uma classe média moralista e repressiva —, usando metáforas e alegorias, além de brincar com palavras e ideias em voga. Enfim, sem deixar de ser crítico, quebrava a rigidez da esquerda militante, virava as costas à reação poética explícita e dava leveza e globalidade ao clima tupiniquim, com alguns acordes típicos do rock’n’roll — algo que soava como heresia, sobretudo aos ouvidos dos nacionalistas de plantão. “Em caras de presidentes em grandes beijos de amor em dentes pernas bandeiras bomba e Brigitte Bardot”

Caetano faria bem mais. Além de transformar-se, depois, num leitor compulsivo e num incensado historiador da cultura brasileira, ele começava a promover, como ressalta Gilberto Vasconcellos (autor de Música popular: de olho na fresta), uma “ruptura radical com o pensamento

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CONEXÕES

da chamada intelligentzia brasileira”, nacionalista e desenvolvimentista. Quem costuma citar Gilberto é a professora Santuza Naves (A canção crítica), com o fim de mostrar que o grupo da Tropicália, capitaneado por Caetano Veloso, passara “a operar com os temas políticos e sociais de maneira diferente das práticas tradicionais da MPB, que os tratava explicitamente no texto, optando, ao contrário, pelo uso da paródia ou da alegoria. Assim, o significado político, na canção tropicalista, nunca aparece de forma exterior à configuração estética”. Além de ressaltar a introdução da guitarra elétrica, símbolo da “agoridade”, Santuza resume: “Se a canção bossa-novista realiza a crítica, a canção tropicalista é crítica por excelência, exercitando esta tarefa (a metalinguagem que encantara o poeta Augusto de Campos) não apenas através da conjunção música e letra, como também recorrendo aos arranjos, às capas dos discos e às performances.” Caetano é herdeiro direto do modernista Oswald de Andrade, discípulo de sua antropofagia e, portanto, capaz de assimilar as novidades culturais mais vanguardistas daqui ou de fora, sem falar nos movimentos de massa e nos anseios juvenis. Pode-se dizer que o jovem canibal tratou de engolir o movimento da Bossa Nova e o iê-iê-iê de Roberto e Erasmo, além de abocanhar Beethoven, Gershwin, Chet Baker e Clementina, mais Elvis Presley e os Beatles. Em seu imenso caldeirão cultural, ainda misturou Fellini, Godard e Antonioni; Marilyn e Grande Otelo; Tarsila e Rimbaud; Santo Amaro e o Solar da Fossa; Camões, Noel Rosa e Caymmi; Foucault e Nietzsche; os musicais da Brodway

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e o programa do Chacrinha; Machado, Kerouac e Manuel Bandeira; a Guerra do Vietnam e a guerrilha urbana, Brigitte Bardot e... o próprio Oswald. Caetano mastigou e digeriu tudo — absorveu um pouco do matriarcado e questionou o “tupy or not tupy”. Enfim, subverteu o nacional-popular e livrou-se do luto melancólico. Em suma, chutou o balde das certezas totalitárias e, por fim, deu à luz uma nova música: emocional e cerebral, pop e erudita, crítica, risonha e, sobretudo, cosmopolita — isto é, altamente comunicativa e, ao mesmo tempo, capaz de provocar estranhamento. Como se não bastasse, ainda comporia criaturas dançantes, sensuais e provocativas. Num país ainda tão reprimido — política e existencialmente —, o despontar de sua obra não podia deixar de causar polêmica. “O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça quem lê tanta notícia (...) Eu vou... porque não... porque não...”

O fato é que Caetano já estava ligado à virada relativista dos conceitos, que marcou os anos 60-70 e faria ainda mais estragos a partir dos 80: era uma mudança gestada por crises diversas, que atingia o marxismo, questionava Freud e consolidava o nascimento da chamada antipsiquiatria. Tempos mutantes, sem dúvida. A insegurança causada pelas incertezas, fértil para a criação, deixava uma certa sensação de orfandade: a oposição ideológica tradicional (operários x patrões), que parecia tão perfeita nas décadas anteriores, já não explicava tudo. Logo após o festival de música, em maio de 1968, os estudantes franceses tra-

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tariam de levantar, em Paris, algumas faixas com palavras de ordem inimagináveis por aqui — entre elas, “Gozar sem freios” e “É proibido proibir” (a mesma expressão que Caetano usaria naquele ano, três meses antes do AI-5, como título de uma de suas novas canções). Mesmo no Brasil, os mais jovens começavam a dialogar com o afeto e, com ou sem culpa, rompiam as barreiras do sexo, ao mesmo tempo em que descartavam o sentimental, tão pobre quanto a novela das sete. No tempo da minissaia e da Beatlemania, em meio a transformações e deslocamentos, a cultura saía em busca da antropologia, na tentativa de conseguir entender-se, entender o mundo e entender o outro. Neste universo em ebulição, nasceram Caetanos — éticos e amorais; avessos à escravidão de ideologias e ao tédio do trabalho burocrático; nobres e inquietos; donos de sua história e totalmente alheios a modelos rancorosos, incapazes de qualquer criação. “Ela pensa em casamento e eu nunca mais fui à escola Sem lenço e sem documento... eu vou...”

Na tese intitulada Uns Caetanos — na qual analisa várias composições do autor —, o professor Júlio Diniz, da PUC-Rio, afirma que “obra e criador confundemse em sua aparição social, transformando o artista em espetáculo, trama narrativa onde as personas ganham vida, multiplicam o um em uns.” Não sendo o típico branco da biblioteca, que ouve o sagrado e dialoga com o negro, tampouco o preto evocador da Áfri-


ca e do candomblé, Caetano Veloso, como define Diniz, é o mulato — o ser que ocupa uma espécie de entrelugar, caracterizado basicamente pelo hibridismo, algo que é sempre irreproduzível e cosmopolita, isto é, nem nacionalista nem regionalista. Mais ainda: tão fora dos padrões e tão impregnado da força do susto quanto a babel musical de Paris, permeada pelos novos sons emigrados da África; ou mesmo a obra de Machado de Assis (mais moderno do que os modernistas); ou ainda a cena musical de Tom Zé (um mutante radical) e certos filmes de Tarantino e Donnersmarck. Em outras palavras: o mulato é híbrido, popular e erudito; vive em permanente transformação; conhece o cânone — para poder transgredi-lo — e é capaz de visualizar a inevitável evolução cultural e as necessidades do processo civilizatório.

O professor Júlio Diniz faz um resumo curto e bem-humorado das diatribes do mulato Caetano: “Sendo híbrido, ele deu uma bela banana à África de Gil e ao malandro de Chico Buarque...” “Eu tomo uma coca-cola ela pensa em casamento e uma canção me consola... eu vou...”

Neste universo movido pelas leis da oferta e da procura, Júlio Diniz ressalta que muitos artistas conseguem ter suas obras “vinculadas às instâncias produtoras da mercadoria cultural”, mas “sem perder a consciência crítica diante da relação capital/trabalho, valor estético/ valor comercial e valor de uso/valor de troca”. Talvez por isso, conclui, um artista como Caetano seja “tão ludicamente falso diante da indústria cultural e tão falsamente lúdico diante da seriedade de propósitos de seu projeto estético”. Um consagrado modernista, Mário de Andrade, sempre lembrado por Diniz, já

pressentia, no início do século passado, um novo caminho a ser trilhado pela criação artística: “Se de primeiro foi universal, dissolvida em religião; se foi internacionalista um tempo com a descoberta da profanidade, o desenvolvimento da técnica e a riqueza agrícola; se está agora na fase nacionalista pela aquisição de uma consciência de si mesma; ela terá que se elevar ainda um dia à fase que chamarei de Cultural, livremente estética, e sempre se entendendo que não pode haver cultura que não reflita as realidades profundas da terra em que se realiza...” Não seria uma bela definição da obra de Caetano, que, ainda nos anos 6070, talvez já escondesse algumas sementes do contemporâneo? “Por ente fotos e nomes, sem livros e sem fuzil sem fome e sem telefone, no coração do Brasil”

Escrevendo sua tese várias décadas depois de Mário, Júlio Diniz decide trocar, como ele diz, o 78 rpm pelo cd, para afirmar que Caetano, preocupado com a “linha evolutiva da música popular” e sua inserção na história, constrói-se camaleonicamente e estrutura-se “a partir de um procedimento de representação: a estratégia de deixar de ser apenas um eu para ser uns”, isto é, de multiplicar-se em vários Caetanos, não representando um personagem multifacetado, mas “a construção de uma entidade discursiva que oscila entre o silêncio da poesia e a tagarelice do som, encenando identidades, posturas e falas sob a lógica do suplemento”. Com um detalhe: “Sob a força do paradoxo, esses outros, produtos da incorporação e da apropriação a partir da voz como assinatura escritural, reafirmam o poder de representação narcísea diante da capacidade de se reproduzir e de se redividir em constructos ficcionalizados.” “Ela nem sabe até pensei em cantar na televisão O sol é tão bonito... eu vou”

A ideia de um Caetano mutante e múltiplo foi amplamente absorvida por inúmeros estudiosos de literatura e música, como também pelos criadores que vieram depois. Mais recentemente, foi parar na deliciosa compo-

sição “Cromologia”, de Alexia Bontempo, Dadi e Pierre Aderne, no cd Astrolábio. Nela, “a vida é azul, a pérola negra”, “Djavan é lilás”, “Carlinhos é Brown”, “o barão é vermelho” e “Caetano é camaleão”... Afinal, o objetivo de nosso herói é ser um “constante espetáculo”, como diz Júlio Diniz, misturando a vida privada com o espaço público e o criador com suas criaturas, exatamente como fizeram outros bons fingidores — isto é, outros superastros —, a exemplo do próprio Oswald de Andrade, nos anos 20 e 30 do século XX. E nada disso é (ou foi) de alguma maneira falso, pois cada homem é dono de um verdadeiro leque de identidades: o talento talvez resida em como mostrá-las. Silviano Santiago (autor, entre outros, de Uma literatura nos trópicos), ressalta: “O superastro é o mesmo na tela e na vida real, no palco e na sala de jantar, na TV e no bar da esquina, no disco e na praia, porque nunca é sincero, sempre representando, sempre deliciosa e naturalmente artificial, sempre espantosamente ator, sempre escapando das leis de comportamento ditadas para os outros cidadãos (e obedecidas com receio). Porque ele é diferente dos outros é sempre o mesmo.” “Sem lenço e sem documento nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo... amor... Porque não... porque não... porque não...”

Caetano Veloso, o tal subversivo de um longínquo Festival da Canção, continuou inovando e provocando, qual um Dioniso dos trópicos. E, como diz Silviano, trouxe o próprio corpo para o palco, soube administrá-lo, assim como compor a roupa, a dança, a cena como um todo e, sobretudo, a voz. Podia ser mais contemporâneo? Em quase cinquenta anos de criação, jamais deixou de dialogar com a tradição e com o futuro, colocando-se sempre acima das convenções e contrariando quando necessário. Além disso, Caetano travestiu-se em muitos — negros ou brancos, baianos, ingleses, latinos, cariocas ou paulistas, machos ou fêmeas —, sem escolher nenhum eu em particular. Em resumo: foi permanentemente híbrido e mulato, deliciosamente revolucionário. (*) Maria Helena Malta é jornalista e escritora.

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Fotos: Divulgação

Cinema

BRASILEIRA VENCE O GREEN SCREEN CLIMATE FIX FLICKS Por Isabel Capaverde, de Plurale em revista

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a edição de n° 30 publicamos orgulhosos que a brasileira Flávia B. Vidaurre, de Niterói (RJ), estudante do quarto ano do programa Animation/Illustration, na San Jose State University (SJSU), em San Jose, Califórnia (USA), fazia parte da equipe de estudantes realizadora do filme de animação “Green Ninja Footprint Renovation” que concorria ao Green Screen Climate Fix Flicks. Lembrando, o Green Screen é um festival de cinema lançado por climatologistas da Universidade Macquarie, Universidade de Melbourne e do Instituto de Sustentabilidade Monash - todas instituições da Aus-

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trália integrantes do ranking das dez mais ecologicamente corretas daquele país com o objetivo de aumentar a consciência das oportunidades e dos efeitos positivos de um futuro de baixo carbono. Pois temos o prazer de contar o resultado: o filme ganhou o festival que tem como júri o público, em votação realizada on line. Flávia fala o que acontecerá a partir de agora. “Com o sucesso, a universidade, unindo os departamentos de Animacao/ Ilustracao, o de Meterologia e Ciência Climática e o de Educaçãoo, criaram um personagem super herói ninja verde para protagonizar um seriado de 16 semanas, o “The Green Ninja Show”. O seriado, que estreiará no Youtube, incluirá animações, filmes, entrevistas e experimentos sobre as aventuras do Green Ninja, com o ob-

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jetivo de usar os episódios como currículo sobre a mudanca climática em salas de aulas, ajudando assim professores a estimular uma mudança no movimento de sustentabilidade e ensinar que com pequenas ações se pode fazer diferença. Esse seriado será criado inteiramente na San Jose State University, comecando agora em fevereiro 2013”. E completa: “O que precisamos agora é de mais recursos financeiros para fazer isso acontecer por completo. Temos que adquirir equipamentos para serem usados pelos alunos que trabalharão em cada projeto semanal e também para um consultor de mídia social”. Quem quiser contribuir financeiramente com o projeto e ter seu nome nos créditos, cartões postais, adesivos e outros materiais segue o link com mais informações: http://www.kickstarter.com/projects/ cordero/the-green-ninja-show


CINEMA

Verde

ISABEL CAPAVERDE

i s a b e l c a p a v e r d e @ p l u r a l e . c o m . b r

Cineclubes engajados A ideia dos cineclubes é antiga. Um grupo se organiza para assistir e discutir filmes. Trocar ideias, impressões, refletir. Tudo entra na roda: o tema, o diretor, os atores, os detalhes técnicos. Pois, nos últimos tempos tem surgido aqui e ali, cineclubes com propostas ambientais. É o caso do Cineclube SocioAmbiental Campos, localizado na cidade de mesmo nome, no interior do estado do Rio de Janeiro. No blog do cineclube eles explicam seu objetivo: “recorrer a exibição de filmes como meio para problematizar temáticas que permitam abordar os desiguais impactos sociais e ambientais do atual modelo de desenvolvimento como, por exemplo, as dos chamados ‘grandes projetos de infraestrutura’, e de outras atividades econômicas associadas à ‘promoção do desenvolvimento regional’. O CineClube é parte do Projeto Conflitos socioambientais, mídia audiovisual e memória coletiva, ligado ao Polo Universitário de Campos da Universidade Federal Fluminense. Interessados em saber mais sobre as próximas sessões acessem: http://cineclubesocioambiental.blogspot.com.br/.

Foto: Divulgação

2ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental abre inscrições

Até 28 de fevereiro estão abertas as inscrições para a 2ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. O evento, gratuito e de caráter não-competitivo, será realizado em São Paulo, em maio. Serão aceitas obras finalizadas a partir de 2010, sem restrições quanto a gênero, duração ou suporte de captação/finalização, com temáticas ambientais. Valem assuntos como energia, água, mudanças climáticas, consumo, povos e lugares, ativismo ambiental, resíduos sólidos, políticas públicas socioambientais, mobilidade, habitação, áreas verdes, áreas urbanas, alimentação, economia verde, globalização, vida selvagem, sustentabilidade, entre outros. Mais informações pelo site da mostra: http://www.ecofalante.org.br .

Ao ar livre e de graça Iniciativas como o Cine Boa Praça, projeto de cinema itinerante gratuito que levou filmes de qualidade por seis cidades do interior paulista, são sempre bem-vindas. Em cada cidade foram exibidos quatro filmes, sendo dois deles nacionais e duas animações internacionais, além de quatro curtasmetragens. Os filmes eram projetados ao ar livre numa tela inflável no formato de uma televisão gigante. Caso chovesse, o evento era transferido para o ginásio da escola ou remarcado em outra data. Patrocinado pela Sorocaba Refrescos, fabricante do Sistema Coca-Cola, por meio do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, o projeto foi realizado pela Associação Palavra Criativa/IFONO e da Elo Social. Vamos torcer para que tenha continuidade.

Verão na Cinemateca Brasileira Estando ou passando por São Paulo neste verão, vale conferir a programação da Cinemateca Brasileira, instituição responsável pela preservação da produção audiovisual do país. Destaque para a retrospectiva do diretor Carlos Reichenbach, morto ano passado, que nos deixou uma rica produção cinematográfica iniciada nos anos 1960. Parte dos filmes que serão exibidos estão com cópias novas 35 mm confeccionadas pela Cinemateca. Estudantes do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas tem direito a entrada gratuita apresentando carteirinha.

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Frases

Em 2013 será comemorado o centenário de nascimento do poeta e diplomata Vinícius de Moraes. Homenageamos nesta edição uma das mais geniais figuras que tanto marcou e inspirou o cenário político-cultural brasileiro.

Nada renasce antes que se acabe. E o sol que desponta tem de anoitecer. “Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia.” Quem é homem de bem, não trai o amor que lhe quer seu bem. Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval.

De manhã, escureço. De dia, tardo. De tarde, anoiteço. De noite, ardo. Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo.

“Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.” “A gente não faz amigos, reconhece-os.”

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. 64

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ENERGIA & CARBONO Foto: Paulo Barreto - Imazon

CRESCIMENTO ECONÔMICO DA AMAZÔNIA É POSSÍVEL SEM DESMATAMENTO Por Fabiano Ávila, do Carbono Brasil

A teoria é simples de ser entendida: em vez de ampliar a área para pastos e culturas, por que não aumentar a produtividade? Apesar de ser uma noção lógica, é difícil provar em números que essa é uma opção viável. Pois foi bem isso que o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) fez, detalhando como é possível promover o crescimento econômico da Amazônia sem a necessidade de derrubar mais uma árvore sequer. No trabalho Como desenvolver a economia rural sem desmatar a Amazônia?,

FUNDAÇÃO GRUPO BOTICÁRIO ABRE INSCRIÇÕES PARA EDITAL DE APOIO A PROJETOS Estão abertas as inscrições para o Edital de Apoio a Projetos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os interessados podem se inscrever até 31 de março. Podem concorrer ao financiamento projetos que contribuam para a conservação da natureza em todas as regiões do Brasil e que sejam realizados por instituições sem fins lucrativos, como organizações não governamentais ou fundações ligadas a universidades.

As inscrições devem ser feitas no site da Fundação Grupo Boticário (www.fundacaogrupoboticario.org.br), por meio dos links: O que fazemos > Editais> Como inscrever. O Edital de Apoio a Projetos é direcionado a todas as regiões do Brasil e tem seis linhas temáticas: ações e pesquisa para a conservação de espécies e comunidades silvestres em ecossistemas naturais; ações para implementação de políticas voltadas à conservação de ecossistemas naturais; ações para a restauração de ecossistemas naturais; ações para prevenção ou controle de espécies invasoras; estudos para a criação ou manejo de unidades de conservação; e pesquisa sobre vulnerabilidade, impacto e adaptação de espécies e ecossistemas às mudanças climáticas.

o Imazon estima que “seria possível suprir o aumento da demanda de carne projetada até 2022 aumentando-se a produtividade em torno de apenas 24% do pasto com potencial agronômico para a intensificação existente em 2007.” O estudo aponta que, apesar dos avanços, a produtividade agropecuária ainda é baixa, especialmente na pecuária, cuja média é de cerca de 80 quilogramas de carne por hectare por ano, sendo que o potencial é de 300 quilogramas por hectare por ano.

PESQUISA: 70% DAS EMPRESAS ACREDITAM QUE MUDANÇAS CLIMÁTICAS PODEM AFETAR SEU FATURAMENTO 70% das companhias acreditam que as mudanças climáticas têm potencial para afetar significantemente seu faturamento, um risco intensificado por um abismo entre práticas corporativas sustentáveis de corporações multinacionais e seus fornecedores, de acordo com uma pesquisa publicada em janeiro peloCarbon Disclosure Project (CDP), ONG que combate mudanças climáticas junto ao mercado corporativo, e pela Accenture (NYSE: ACN). O CDP Supply Chain é um programa que permite às organizações implementar estratégias para engajamento dos fornecedores por meio da análise dos riscos e oportunidades associados às mudanças climáticas e gerenciamento das emissões de gases de efeito estufa. É uma abordagem colaborativa e inovadora que contribui para o desenvolvimento sustentável da cadeia de valor. “Reduzindo riscos e direcionando valor dos negócios” é baseado em dados de 2415 empresas, incluindo 2363 fornecedores e 52 grandes empresas compradoras – 07 das quais brasileiras, membros do programa CDP Supply Chain. Esses membros (empresas compradoras) incluem companhias como Dell, L’Oreal e Walmart e representam um poder de compra combinado de cerca de US$1 trilhão.

NOVO CURSO DO IPÊ TRATA SOBRE GOVERNANÇA CLIMÁTICA E O PAPEL DOS INVENTÁRIOS DE EMISSÕES De Nazaré Paulista (SP)

O IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, por meio do seu Centro Brasileiro de Biologia da Conservação (CBBC), traz uma novidade na sua grade de cursos de atualização: Governança Climática – o papel dos inventários de emissões. As aulas acontecem de 27 a 29 de março, na sede do Instituto, em Nazaré Paulista (SP). O conteúdo é direcionado aos profissionais de diversos setores da economia, em espe-

cial de empresas privadas, que necessitam acompanhar os desafios e oportunidades que envolvem as mudanças climáticas. Independente de metas de redução impostas pelos governos, o setor privado tem buscado suas próprias estratégias de governança climática, visto que alterações no clima do planeta afetam não só os ecossistemas importantes para a sua produção, como têm

influência em sua reputação - companhias com produtos e serviços menos intensivos em carbono cada vez mais têm a preferência de consumidores e investidores. Inscrições: HYPERLINK “http://www.ipe.org.br/ governanca-climatica-o-papel-dos-inventarios-de-emissoes” http://www.ipe.org. br/governanca-climatica-o-papel-dosinventarios-de-emissoes

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I m a g e m FOTO: WILSON DIAS - DE SANTA MARIA (RS) - AGÊNCIA BRASIL

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tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, ocorrida no fim de janeiro, que deixou um triste saldo - até o fechamento desta edição – de 238 jovens mortos e centenas de feridos gravemente comoveu o

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Brasil e também repercutiu na mídia global. Esta foto de Wilson Dias, da Agência Brasil, mostra manifestação de jovens na cidade gaúcha, revoltados, cobrando rigor nas investigações e punição aos culpados. Este é o desejo de todos nós.


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Plurale em Revista ed 33  

Plurale em Revista ed 33