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ano quatro | nº 25 | setembro / outubro 2011 | R$ 10,00

AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE

PRESERVAÇÃO NO MAR E MANGUE ARTIGOS INÉDITOS

COMO ESTÁ A SERRA FLUMINENSE

EDIÇÃO DE ANIVERSÁRIO

4 ANOS

FOTO: ISABELLA ARARIPE/PROJETO DE PRESERVAÇÃO DO PEIXE-BOI NO RIO TATUAMUNHA (AL)

www.plurale.com.br


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Conte xto

Fotos: ISABELLA ARARIPE

24.

PRESERVAÇÃO DE CORAIS E PEIXES-BOI EM PERNAMBUCO E ALAGOAS Fotos: DIVULGAÇÃO / FIAT

A VIDA HOJE EM FRIBURGO E ITAIPAVA, APÓS A CALAMIDADE

44.

34.

Foto: ISABELLA ARARIPE

Foto: PIETER ZALIS

BAZAR ÉTICO

Foto: DIVULGAÇÃO

32.

ÁRVORE QUE NÃO PARA DE DAR FRUTOS

CINEMA VERDE

33 PELO BRASIL

40 VIDA SAUDÁVEL

51 CARBONO NEUTRO

63 LIXO ESPECIAL

64 4

48.

VINHO ORGÂNICO E SAUDÁVEL

PLURALE EM REVISTA | Setembro / Outubro 2011


Unimmed anuncio

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De Maragogi (AL)

Editorial

Foto: Isabella Araripe/

Para se conjugarral sempre no plu

Q

Sônia Araripe e Carlos Franco Editores de Plurale em revista e Plurale em site

uando começamos a sonhar com Plurale, em 2007, ainda não sabíamos ao certo como tudo iria realmente acontecer. O projeto saiu do planejamento, virou realidade e começou a tomar corpo e alma. Deixou de fazer parte apenas de nossos corações e mentes para passar a ser também dos leitores, parceiros e do mercado. De nada adiantaria construir Plurale em revista e em site se não fosse possível compartilhar, dividir e acreditar que deveria ser sempre para ser conjugada no plural. Como o nome, em latim, indica. E temos procurado assim construir esta trajetória, conhecendo e apresentando as transformações em curso não só no Brasil continental, mas também em outros países. Nossos correspondentes têm nos ajudado nesta trajetória. Nesta edição de aniversário de quatro anos, Aline Gatto Boueri, de Buenos Aires, revela o que tem atraído brasileiros e outros estrangeiros para as Universidades argentinas. De Dublin, Irlanda, Vivian Simonato conta que a premente crise econômica preocupa mais do que as mudanças climáticas.

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PLURALE EM REVISTA | Setembro / Outubro 2011

Fomos até a divisa de Alagoas e Pernambuco para conhecer de perto projeto de preservação de corais e peixes-boi, num modelo que envolve a iniciativa privada, governo federal, Terceiro Setor e a sociedade. As belas fotos, como a que ilustra esta página, a capa e também a matéria especial são da jovem Isabella Araripe. Não é só. Isabel Capaverde esteve em Betim, na Grande Belo Horizonte, para conhecer uma árvore que não para de dar belos frutos. Nélson Tucci adverte para a relevância do debate sobre o lixo espacial e Paulo Lima nos apresenta a precoce e talentosa jovem escritora gaúcha Luisa Geisler. Letícia Koeler mostra os benefícios dos vinhos orgânicos, enquanto Nicia Ribas e Maria Augusta Carvalho relatam como está a Serra Fluminense hoje após a catástrofe que matou várias pessoas e dizimou bairros inteiros. Tudo isso e muito mais, nesta Edição Especial de Aniversário. Por você, para você. Obrigada pela audiência tão prestigiada. Agradecemos também a todos os colaboradores, colunistas, parceiros, apoiadores e anunciantes. Sem a construção desta rede, não teria sido possível chegar aos resultados alcançados. Vamos juntos!


Sustentabilidade é a energia que motiva nossas certificações!

Nossa responsabilidade com o Meio Ambiente se comprova com nossas certificações. Trabalhamos com um Sistema Integrado de Gestão nas áreas Ambiental, de Qualidade, de Saúde e Segurança.

Certificações

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Quem faz

Cartas c a r t a s @ p l u r a l e . c o m . b r “Acompanho as notícias sobre meio-ambiente no twitter, no site e na revista Plurale” Ariosto Holanda, Deputado federal (PSB-CE)

Diretores Carlos Franco carlosfranco@plurale.com.br Sônia Araripe soniaararipe@plurale.com.br Plurale em site: www.plurale.com.br Plurale em site no twitter: http://twitter.com/pluraleemsite

“Plurale é informação de qualidade com inteligência, leveza e estilo. É mídia que faz a diferença em favor de um mundo melhor e mais justo. Parabéns pelos quatro anos. Passaram rápido” André Trigueiro, jornalista , RJ

“Parabenizo toda equipe Plurale por seus quatro anos de atividades e pelo alto nível na abordagem de temas ligados ao meio ambiente, tanto na revista impressa quanto em seu site na internet” Henrique Luz, sócio da PwC Brasil, SP

“Sou leitor assíduo de Plurale. Uma publicação de muita qualidade. Parabéns” Sérgio Besserman Vianna, economista e ambientalista, RJ

Comercial comercial@plurale.com.br Arte SeeDesign Marcos Gomes e Marcelo Tristão Fotografia Luciana Tancredo e Eny Miranda (Cia da Foto); Agência Brasil e Divulgação

Colaboradores nacionais Ana Cecília Vidaurre, Geraldo Samor, Isabel Capaverde, Isabella Araripe (estagiária), Nícia Ribas, Paulo Lima

e Sérgio Lutz Colaboradores internacionais Aline Gatto Boueri (Buenos Aires), Ivna Maluly (Bruxelas), Vivian Simonato (Dublin), Wilberto Lima Jr.(Boston) Colaboraram nesta edição Antoninho Marmo Trevisan, Fábio de Castro (Agência FAPESP), Flamínio Araripe, Letícia Koeler, Luiz Antônio Gaulia, Marcello Casal Jr (Agência Brasil), Maria Augusta Carvalho, Mônica Pinho, Nélson Tucci, Paulo Lima, Pedro Freiria, Pieter Zalis, Roberto Saturnino Braga e Rodney Vergili. Plurale é a uma publicação da SA Comunicação Ltda (CNPJ 04980792/0001-69) Impressão: WalPrint

Revista impressa em papel reciclável Rio de Janeiro | Rua Etelvino dos Santos 216/202 CEP 21940-500 | Tel.: 0xx21-3904 0932 São Paulo | Alameda Barros, 122/152 CEP 01232-000 | Tel.: 0xx11-9231 0947 Os artigos só poderão ser reproduzidos com autorização dos editores © Copyright Plurale em Revista

“Plurale em revista consegue criar um espaço plural para as múltiplas esferas sociais dialogarem ideias, iniciativas, críticas, políticas e estratégias, de forma a entendermos que o coletivo se constrói de forma plural para um tempo-espaço de reflexão e ação. Parabéns pelos quatro anos!” Professora Patricia Almeida Ashley - Coordenadora do grupo de pesquisa e extensão Rede EConsCiencia e Ecocidades e Coordenadora do Curso de Bacharelado em Ciência Ambiental - Instituto de Geociências Universidade Federal Fluminense. http://www.cienciaambiental.uff.br e http://www.econsciencia.uff.br, RJ

“Manter o foco e o alto nível da publicação não é algo simples, embora seja essencial em termos da qualidade da comunicação. A tarefa é complexa e exige não só determinação, como elevado grau de competência. À PLURALE, Revista e Site, nossos parabéns pelos quatro anos de trabalho sério e focado nas principais questões nacionais.” Antonio Castro, Presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (ABRASCA), SP “A leitura da revista Plurale proporciona a aproximação de profissionais e empresas das discussões sobre temas de ação, cidadania e meio ambiente, tão relevantes no atual cenário. Parabéns para a publicação e para seus profissionais pelos quatro anos de dedicação” Ricardo Florence, Diretor-Presidente do IBRI (Instituto Brasileiro de Relações com Investidores, SP “A Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec SP) parabeniza a Revista Plurale por seu quarto aniversário e deseja ainda mais sucesso para os próximos anos. A publicação é uma leitura importante para aqueles que desejam manter-se


informados sobre temas como sustentabilidade e meio ambiente, extremamente interessantes e relevantes nos dias dia hoje.” Reginaldo Alexandre, presidente da Apimec SP

“Em um mundo onde cada vez mais gente está expandindo seu poder de consumo nos países emergentes, as pressões sobre o meio ambiente não param de aumentar. Só no Brasil, nos últimos cinco anos, 55 milhões de pessoas entraram nas classe A, B e C, tornadose consumidores de fato - ótimo para a eco mia e a sociedade, mas um grande desafio ecológico. Por isso, sustentabilidade, e todas as suas muitas facetas, será cada vez mais importante. Parabéns e continuem com o bom trabalho” Ricardo Amorim, economista, apresentador do programa Manhattan Connection, da Globonews e presidente da Ricam Consultoria, SP “Plurale é muito mais que uma revista e um site; constitui um excelente portal de informações que amplia a discussão da temática ambiental, normalmente focada na parte científica e econômica, para a arena da ética e dos valores. E essas abordagens fazem a diferença numa publicação. Em nome de toda a equipe da CI-Brasil, parabenizo os profissionais que a conduzem com profissionalismo e competência e desejo uma longa vida à Plurale” Fabio Scarano, Vice-Presidente Sênior da Divisão das Américas da Conservação Internacional, SP

“Provocar a discussão das grandes questões nacionais sem perder o foco da cidadania e da sustentabilidade, mantendo a seriedade no estilo e a qualidade da informação, é um trabalho de fôlego para a publicação e um grande privilégio para todos nós que acompanhamos os textos de Plurale em revista e da Plurale em Site. À direção de Plurale e sua equipe de colaboradores ensejamos os melhores votos de continuidade, pois dessa forma estarão colaborando com a construção de um País melhor. Parabéns pelos quatro anos de existência!” Prof. Dr. Silvio Minciotti, Reitor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

“Considero a Plurale uma revista essencial ao entendimento da responsabilidade ambiental, tema cada vez mais relevante à geração de valor das organizações e à vida futura das pessoas. Parabéns por estes primeiros quatro anos de trabalho.” Prof. Alberto Borges Matias, da FEA-RP/USP-Ribeirão Preto e Coordenador do Centro de Pesquisa do Inepad, SP

Edição 24 “O trabalho solidário só é possível quando há o envolvimento de toda a sociedade. De modo que ter uma revista como a Plurale, de grande valor editorial, como aliada na promoção do nosso trabalho, é um privilégio. Na última edição 24, Plurale em revista trouxe uma matéria de três páginas, na qual relata uma síntese da história de 57 anos da ABBR em prol, principalmente, das pessoas com deficiência. Em nome da ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação) e de seus profissionais gostaria de agradecer aos editores da Plurale e a toda a equipe da revista pelo apoio que têm prestado a esta Instituição, que vem buscando, ao longo dos anos, excelência na oferta de serviço e produtos de Reabilitação Física. Atenciosamente, Deusdeth Gomes do Nascimento, médico, Presidente Voluntário do Conselho Deliberativo da ABBR, RJ “Agradecemos a reportagem sobre o Projeto Fibra Viva no Bazar Ético da última Edição 24. Ficou maravilhosa a matéria! Muito obrigado em nome de todos nós” Margot e Priscila, Projeto Fibra Viva, Bonito, MS

“Parabéns! Parabéns! Parabéns! O conceito editorial da revista é maravilhoso e as matérias são incríveis.” Isabel Monteiro Barreto, professora de Publicidade da PUC-Rio “Há muito eu já deveria ter manifestado minha alegria ao ver consolidado o sucesso desta Plurale, capaz de reproduzir em uma única edição todos os acertos editoriais possíveis em termos de design, conteúdo, qualidade, sofisticação, atualidade e, sobretudo, experiência profissional. Mas nunca é tarde para reconhecer uma publicação que vem se firmando como um zeitgeist jornalístico da nova era de sustentabilidade social, econômica e corporativa que estamos vivenciando, não tenho dúvida, sem caminho de volta. Aceitem minha admiração retardatária, mas entusiasmada! Alex Campos, jornalista, Rio de Janeiro

“Prezada Sônia Chegou a nova edição e vi logo o meu livro como o primeiro da Estante: que felicidade, obrigado! Gostei especialmente do artigo do Patrus-Pena, falando de Ética relacionada com Ecologia e Espiritualidade. Bem feito e bem instigante; dá um bom debate com desdobramentos ricos. matéria sobre o projeto Água Boa na região de Itaipu é bem bonita e altamente positiva; dá vontade de ir lá, passear e ver de perto. As fotos das Cataratas complementam bem. Inhotim é a minha próxima viagem. Já era, antes mesmo de ler a Revista.Simpáticas as bicicletas de Buenos Aires. Muito boa também a matéria de Nícia Ribas, da Serrinha, sobre a geração de renda com as cabras no sertão baiano. Enfim, parabéns. E obrigado outra vez.” Roberto Saturnino Braga, ex-senador e escritor “Ficamos encantados com a apresentação, a formatação e, sobretudo, com o conteúdo de Plurale em revista, Edição 24. Toda a equipe está de parabéns! Desejamos muito sucesso - muito mais do que já têm - nessa empreitada em prol do conhecimento. Agradecemos a oportunidade de podermos conhecer esse excelente trabalho” Verônica e Antônio José Luz, Rio de Janeiro “Gostei muito do trabalho de Plurale em revista e estarei sempre acompanhando” Júlia Rockenbach Leal, estudante de Jornalismo da PUC-Rio


Novidades

Plurale em site ainda mais interativo e a revista agora também no ipad Texto: Equipe Plurale em revista

C

omo parte das comemorações dos quatro anos de Plurale, também pensamos não só em novidades para a revista, mas também para o portal Plurale em site. O resultado já pode ser conferido em www.plurale.com.br “Estamos sempre trabalhando para apresentar ao público, tanto na revista, quanto no portal, maior interação e produtos que possam ir de encontro às suas demandas”, explica Sônia Araripe, diretora de Plurale. A Prodweb - capitaneada pelos jovens e criativos Daniel Monteiro e Cynthia Brito – aprimorou o lay-out e programou surpresas que serão apresentadas aos visitantes ao longo de novembro, mês de aniversário. Cynthia explica que o projeto está baseado na harmonização ainda maior do desenho, novos formatos para as fotos e numa arquitetura moderna para abrigar novos conteúdos. Atualmente, Plurale em site é um dos principais portais da mídia especializada em Sustentabilidade. As inovações, lembra Daniel, também serão percebidas nas redes sociais de Plurale, que está no twitter, facebook e blog. Não é só. A partir de novembro, Plurale em revista também estará disponível nos formatos digitais iPad, PC, Mac e Android, aumentando assim, consideravelmente, a sua circulação junto aos leitores e permitindo uma opção a mais para o mercado publicitário.

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Siga: Plurale em site: www.plurale.com.br Twitter: @pluraleemsite Facebook: http://www.facebook.com/plurale Blog: http://revistaplurale.blogspot.com/


Nos últimos quatro anos, repórteres e fotógrafos de Plurale em revista cruzaram o Brasil de norte a sul para descobrir boas histórias de transformação. De gente simples e aguerrida, protagonista de mudanças que estão apenas começando...

Lima (FAS)

Jardim Gramacho,RJ

Foto de Antônio Batalha (Firjan)

Foto de Antônio

...como a história de Seu Luiz Gonzaga, na Reserva de Uatumã, na Floresta Amazônica (AM), que está aprendendo a escrever graças à Fundação Amazonas Sustentável e tem como objetivo defender as necessidades de sua pequena comunidade...

Tião Santos

Seu Luiz Gonzaga

nheiro LucianPNaSEPi SC Pantanal, MT

Itairan Cardoso Serrinha, BA Foto Nícia Ribas

...distâncias percorridas de barco, de carros fora de estrada e pequenos aviões. Foi assim para mostrar a exuberância do Pantanal em projeto de preservação da ararinha azul e várias outras espécies, trabalho de profissionais zelosos como a bióloga Luciana Pinheiro Ferreira, na RPPN SESC Pantanal...

Foto de Luciana Tancredo

Reserva do Uatumã, AM

...ou do jovem Tião Santos, que cresceu no lixão de Jardim Gramacho (Baixada Fluminense), lutou para mudar não só a sua vida, mas a dos catadores: virou estrela da obra do artista plástico de Vik Muniz e de filme com direito a tapete vermelho de Hollywood...

...neste período também conhecemos diversos projetos inovadores, como o de educação e geração de renda para crianças de comunidade de Serrinha, no sertão baiano, como Itairan Cardoso.

Poconé, RP

Com Plurale é assim: vamos onde a notícia está. Para que cada um apresente sua história, capaz de inspirar tantas outras transformações. Plurale: plural até no nome.


Entrevista

Dal Marcondes Diretor da Envolverde

A hora e a vez do Brasil ser protagonista Jornalista, um dos precursores da mídia ambiental, fala da relevância do papel do país ser anfitrião da Rio+20; sobre os avanços do jornalismo sustentável e os desafios da transição do velho para o novo modelo econômico

R

Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista / Fotos: Divulgação

otina é uma palavra riscada há muito tempo da vida do jornalista Adalberto Wodianer Marcondes, ou simplesmente Dal, como gosta de ser chamado. Após cerca de 20 anos nas principais redações de grandes jornais e revistas, ele fundou a Agência Envolverde, em 1995, uma das pioneiras com foco em Meio Ambiente e Terceiro Setor, que edita, no Brasil, o Projeto Terramérica ligado aos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e para o Desenvolvimento (PNUD). Aos 54 anos, com o mesmo entusiasmo que fala para plateias entretidas em seminários nas grandes cidades, Dal também se realiza ao viajar por diferentes regiões para relatar histórias relevantes. “Não há nada mais espetacular que um amanhecer no Rio Tapajós”, diz, ao contar, com orgulho,estas andanças. Em entrevista à Plurale em revista, o premiado jornalista destaca o avanço ocorrido na mídia ambiental nos últimos 20 anos, destaca o papel relevante do Brasil como protagonista na Rio+20 (que será realizada em 2012) e avalia ainda os desafios da transição do velho para o novo modelo econômico. “O Brasil é o País onde o velho e o novo já estão convivendo de forma muito avançada.” O diretor da Envolverde destaca ainda a relevância da realização, em novembro, no Rio do IV Congresso de Jornalismo Ambiental e ressalta o importante papel dos líderes sustentáveis. Confira esta entrevista: Plurale em revista - Qual a sua avaliação do jornalismo ambiental brasileiro hoje e há 20 anos, quando foi realizada a Eco-92? Houve avanços, quais são os desafios? Dal Marcondes - Em 1992 praticamente não havia um movimento a favor do jornalismo ambiental no Brasil. Alguns grandes jornais já tinham profissionais ou editorias dedicadas

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ao tema, como a falecida Gazeta Mercantil, mas as coberturas eram muito fracas se comparadas às de hoje. Mesmo a oportunidade fantástica oferecida pela Rio-92 acabou sendo ofuscada na mídia pelo processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Mas, sem dúvida, a Rio-92 contribuiu para incluir definitivamente a questão ambiental na pauta. Outro legado da Cúpula do Rio foi o crescimento do interesse sobre o tema por parte de alguns profissionais, o que levou a se criar muitos veículos que se especializaram no tema. Hoje temos centenas de jornais, revistas, sites, programas de rádio e TV dedicados ao meio ambiente que surgiram de sementes da Rio-92. Plurale - Que lições podem ser tiradas 20 anos depois? Dal - Foram 20 anos de muitos avanços. O tema meio ambiente deixou o nicho da militância e se espalhou pela sociedade. Governos, empresas, universidade e mídia tem hoje muito mais intimidade com o assunto do que antes. Também houve avanços importantes na construção, fortalecimento e difusão dos conceitos ambientais e de sustentabilidade que antes eram dominados apenas por “especialistas”. Temos mais acesso à informação socioambiental e mais conhecimento público sobre o assunto. Ainda há muito a se fazer, mas, sem dúvida, devemos muito aos últimos 20 anos. Plurale - A mídia generalista também “mergulhou” neste tema, principalmente nos últimos anos. Na sua opinião, os resultados, em gerais são bons? Dal - Quanto mais gente falando do tema, melhor. Ainda há problemas de compreensão por parte de jornalistas e editores que não estão muito familiarizados com os conceitos das questões ambientais. Alguns ainda se agarram a preconceitos e cumprem um papel de desinformantes, mas estão cada vez mais raros. De maneira geral, a entrada da grande imprensa no tema ambiental é bem-vinda e ajuda a estimular transformações mais rápidas no universo social e no campo da economia. Plurale- A Envolverde, Rebia, Plurale e outros veículos estão trabalhando na organização do IV Congresso de Jornalismo Ambiental, no Rio, em novembro. Qual é o objetivo deste encontro? Dal -Os jornalistas ambientais brasileiros estão reunidos em uma rede desde o final dos anos 90. É uma rede que ajuda na apuração de informações, trocas de pautas e consolidação de conhecimentos, além de

“De maneira geral, a entrada da grande imprensa no tema ambiental é bem-vinda e ajuda a estimular transformações mais rápidas no universo social e no campo da economia”

busca de novas fontes, é claro. Esse Congresso, que é o quarto a ser realizado desde 2005, quando fizemos o primeiro, em Santos (SP), tem como objetivo debater a cobertura ambiental da mídia, estreitar as relações entre os membros da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, além de avançar na construção de conhecimentos necessários para a cobertura ambiental. Este ano teremos a palestra de abertura feita pelo economista Ignacy Sachs, uma das mentes mais brilhantes do nosso tempo. Também vamos ter debates sobre temas que vão desde a construção de conhecimentos através das redes sociais, como cidades sustentáveis, que, afinal, são os principais habitats humanos. Plurale - Como viabilizar a mídia ambiental do ponto de vista de negócio? Dal - Mídias ambientais, aquelas que tem como pauta principal os temas relacionados ao meio ambiente e às questões

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Entrevista socioambientais, são veículos que acima de tudo praticam o jornalismo. Mas, ao contrário de outras mídias especializadas, não estão vinculadas a setores econômicos que os alimentam com os recursos necessários para a sobrevivência. Construir e manter um equilíbrio econômico financeiro nas empresa que publicam essas mídias sempre foi um grande desafio. O mercado publicitário, responsável por irrigar os veículos com recursos, não é muito inovador. Pelo contrário, assume na maioria das vezes uma posição muito conservadora. Empresas que estão avançando rápido no cenário da sustentabilidade na gestão de seus negócios ainda não compreendem que são, também, responsáveis pela informação que financiam para a sociedade através do dinheiro pago para anunciar seus produtos e serviços. O grande desafio para as mídias ambientais é o de trabalhar de maneira profissional para disputar verbas com todas as outras. Plurale - Com o atual modelo exaurido, a crise econômica global abre espaço para acelerar ou não a migração para a economia de baixo carbono? Dal - Sim, as novas empresas, os novos negócios e os novos governantes estão surgindo já com uma reflexão em direção a um modelo diferente. Não, os velhos modelos políticos e econômicos tem uma resiliência difícil de vencer. No entanto, a boa notícia é que os dois modelos vão conviver por algum tempo e assim que a nova economia mostrar seu valor o velho tende a abandonar a cena. Plurale - Qual é o papel do Brasil neste contexto? Dal - O Brasil é o País onde o velho e o novo já estão convivendo de forma muito avançada. Temos a matriz energética limpa e o desafio de explorar o pré-sal. Temos a maior floresta tropical do mundo e os maiores índices globais de desmatamento e degradação ambiental, inclusive nos cenários urbanos. Temos empresas altamente inovadoras, capazes de tratar temas na fronteira do conhecimento em quase todas as áreas, e temos um dos maiores índices de desigualdade do mundo. É um país de muitos contrastes. Mas é um país dinâmico, onde o novo quase sempre se impõe, e desta vez não será diferente. Plurale - A Rio + 20 está chegando. Qual deve ser a atuação do Brasil? De protagonista?

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“Um líder sustentável sabe ouvir e assumir responsabilidades por sua equipe. Conquistar espaços e admitir que ainda não sabe exatamente como chegar lá, pois assim terá ajuda para ir mais longe” Dal - Como anfitrião, o Brasil tem a missão de ajudar a construir os consensos necessários para as negociações avançarem. O sistema ONU só decide através de consensos, é preciso que os líderes de todos os países concordem para que compromissos seja assumidos. O Brasil tem esse papel super relevante nessa conferência. Esse protagonismo será fundamental e, para isso, vamos contar com o profissionalismo da equipe do Itamaraty, que sempre foi muito respeitada pela diplomacia internacional. Sob o ponto de vista da sociedade, os brasileiros estão bastante estimulados e muitas organizações sociais estão se mobilizando para levar demandas para o Rio. Será, sem dúvida, uma conferência de contrastes,

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onde pela primeira vez os países mais ricos não serão os principais protagonistas, mas espectadores de um show de inovações vindo principalmente dos países intermediários, também chamados de “emergentes”. Plurale - A sustentabilidade para muitas empresas brasileiras começou na forma de greenwashing e marketing vazio. Este cenário mudou para melhor, na sua avaliação? Dal - Sim e não. Há muitas empresas que avançaram muito na transformação de seus produtos, serviços e processos. Empresas que perceberam que a sustentabilidade não é um modismo, mas uma maneira de ser, de viver. Essas estão investido forte em pesquisas, desenvolvimento de produtos e buscando eficiência no uso de energia, água e matérias-primas em geral. Na maioria das vezes com benefícios bastante tangíveis. Mas ainda há aquelas que acredita que podem burlar as pessoas e seus clientes. Em tempos de mídias sociais isso está cada vez mais difícil. Hoje à muito difícil guardar um segredo. Afinal, empresas vivem mais de marca e reputação do que de produtos. Esses podem mudar, mas uma boa marca é sempre valiosa. Plurale - Quais são os desafios dos líderes sustentáveis? Dal - A liderança para a sustentabilidade deve ser baseada em confiança e conhecimento, em ética e inovação, em planejamento e valor. Um líder sustentável sabe ouvir e assumir responsabilidades por sua equipe. Conquistar espaços e admitir que ainda não sabe exatamente como chegar lá, pois assim terá ajuda para ir mais longe.


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CONEXÕES

PLURALE

O cuidado como ética

I

LUIZ ANTÔNIO GAULIA

magine um tempo onde não existam crianças sem pai ou sem mãe, porque todos os adultos cuidarão das crianças como se fossem seus pais e suas mães. Imagine um tempo onde as pessoas mais idosas sejam cuidadas com atenção e afeto, pois todos nós, possivelmente, iremos envelhecer e precisar de ajuda, apoio, paciência, carinho. Imagine que uma pessoa desconhecida bata à sua porta e seja recebida com um sorriso e com esperança, com respeito e com uma proposta de cuidado pelo seu semelhante, mesmo que ele seja aparentemente tão diferente de você. Seja na maneira de vestir, na maneira de falar, na cor da pele, na cor dos olhos, na crença religiosa, na opção sexual, na sua história e origem, na sua língua e nos seus costumes, na sua visão de mundo. Imagine também um tempo onde o chamado ”meio-ambiente” seja considerado por inteiro e neste sentido, seja percebido como parte integral do nosso próprio ser. De um ser individual, mas também coletivo, complementar, interdependente. De um ser ramificado como galhos de uma grande árvore que se encontram e se entrelaçam por outros galhos, de outras árvores, num tecido de vida e energia. Numa costura de fios permanentemente em contato, uns com os outros. Onde a tal “natureza” não seja algo reduzido ao seu caráter exterior, classificado por um olhar predador ou consumista, mas que seja a nossa natureza, interna e externa, dentro e fora, um dimensão única! Um entendimento de que o ambiente - seja ele constituído de terra,

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ar, água e todos os demais seres vivos, animados ou inanimados, não seja visto como alguma coisa afastada de nós, mas, pelo contrário, onde nós mesmos sejamos como que células e moléculas integrantes deste universo. Nós sejamos como órgãos deste imenso ambiente planetário e assim, impossível poluir, destruir, queimar, descuidar dos outros órgãos que se complementam, nesse corpo

Usei o verbo imaginar dentro desta abordagem e usarei também o verbo “cuidar” dentro da mesma percepção. Afinal, não é nenhuma novidade que cuidar daquilo que amamos seja um ato presente e necessário, óbvio, corriqueiro até. E que o cuidar da vida em sua plenitude seja um desejo, uma proposta daqueles que lutam por ”Um futuro melhor” ou mesmo para “Salvar o planeta” - man-

terrestre maior, porque se assim o fizermos, estaremos poluindo, queimando e destruindo o nosso próprio corpo. Imagine... Sei que a canção Imagine de John Lennon não permite mais o uso desta palavra sem que pareça uma forma de plágio, mas cada vez mais eu sinto como se não tivesse ideias próprias, genuinamente minhas. Faço apenas seguidas releituras de pensadores, que viveram antes de mim ou que hoje estão fervilhando pelas redes sociais, distribuindo igualmente suas releituras de diferentes disciplinas e conhecimentos, construídos pelas gerações passadas e atualmente reinterpretados por professores, comunicadores, cientistas, pensadores, filósofos.

chetes e slogans que se reproduzem com extrema facilidade, muitas vezes sem qualquer proposta concreta de ação. Ação tão urgente em tempos onde a sustentabilidade parece ser um conceito cada vez mais discutido por diferentes governos, instituições e comunidades. Mas cuidar é muito mais do que gostar e preservar aquilo que amamos e que nos é imediatamente próximo. A questão maior, para o momento que atravessamos, no meu entender, é ampliar a fronteira do cuidado. Ampliar primeiro nossa consciência sobre o cuidado, pois tenho receio de que muitos de nós mesmos mal sabemos nos cuidar. Não nos cuidar no sentido de estarmos bem nas apa-

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rências, mas com um imenso vazio existencial diante dessa “sociedade de hiperconsumo” sobre a qual escreve Lipovetski (2006) onde as nossas insatisfações crescem mais depressa que as ofertas de felicidade puramente materiais e hedonistas. Penso que o cuidar possui necessariamente um primeiro reconhecimento de si. Entendo que a saúde integral individual passa pelo equilíbrio entre o corpo, a mente, as nossas emoções e a nossa alma. Esta última, importante frisar, não enquanto uma crença religiosa, mas como uma espiritualidade que não seja cristã, budista, muçulmana ou judaica, desta ou daquela doutrina. Na verdade um equilíbrio consciente e necessário, antes que uma destas dimensões no pregue uma peça e comprometa toda a nossa saúde integral. Mas mesmo que esta proposta inicial já pareça bastante difícil de ser alcançada, vamos nos permitir imaginar o passo seguinte: o do cuidar de nossas relações com outros seres-humanos e com a biosfera, a natureza – esse todo indivisível, inseparável de nossa própria existência. Este mundo comum, habitat de toda nossa espécie, moradia compartilhada por uma fantástica biodiversidade. É o historiador Arnold Toynbee (1966) quem escreveu que “não existe consolo na lembrança de que o homem vem cometendo as mesmas loucuras e crimes desde o começo da história e ainda está no mapa”. Nos tempos atuais, são várias as vozes que nos alertam sobre as consequências de nossas atitudes em relação ao planeta e à vida. Parece-me que após a “verdade inconveniente” de Al Gore (2006), as alterações climáticas oriundas da poluição industrial descontrolada, tornou-se uma preocupação real de cidadãos, empresas e governantes em diferentes países do mundo. Independentemente de quem foi responsável por gerar uma crise ambiental tão grave quanto a que vemos em nossa atualidade, agora todos te-

rão que pagar uma conta alta para reverter ou estancar os ferimentos na Mãe-Terra. Se esta é uma triste história, de dimensões desproporcionais entre poucos países causadores de grandes estragos e o restante das nações do mundo, a boa notícia é que a hora de uma consciência e uma ação ecumênica pela vida cresce de maneira inexorável.

Penso que o cuidar possui necessariamente um primeiro reconhecimento de si. Entendo que a saúde integral individual passa pelo equilíbrio entre o corpo, a mente, as nossas emoções e a nossa alma. Se uma catástrofe ambiental como a da explosão da plataforma da BP no Golfo do México ou o vazamento de lama de bauxita na Hungria desconhecem fronteiras traçadas nos mapas políticos, o que dizer da explosão de violência nos subúrbios das cidades inglesas, do massacre de manifestantes pelas forças policiais sírias e do caos militarista e genocida no Iraque, no Afeganistão e mais recentemente na Líbia?

As questões ambientais e as injustiças sociais parecem se misturar, muitas vezes como resultado de uma economia baseada em privilégios de poucos sobre muitos, baseada na exploração de homens sobre homens e destes sobre o meio-ambiente. Uma guerra causa tantas mortes quanto um terremoto, devastando cidades e ecossistemas com fúria descuidada. Assim, apesar de antigo, há muito que aprender quando o tema é o cuidar. Heidegger (1927) já escreveu em seu Ser e Tempo que o cuidar é fundamental e se não tomarmos o cuidado por base, não conseguiremos avançar como seres humanos. O cuidado é um modo de estar presente e de relação com todas as coisas do mundo. Para Bernardo Toro (2009) “ou aprendemos a cuidar, ou pereceremos” afirmando que o cuidado é um valor que se relaciona não só com a saúde, a questão emocional ou ligada à espiritualidade “mas também com a segurança pública, a comunicação e a educação”. O “saber cuidar” de Toro é um novo paradigma ético, urgente e valioso, porque é no cuidado que “prevenimos danos futuros e reparamos e regeneramos danos passados”. O cuidado, portanto não é uma opção. É uma nova ética que permite evitar o temor de nosso desaparecimento, pois vai representar uma nova inteligência altruísta e solidária. Uma inteligência cuidadosa de vínculos e afetos. Imagino que o cuidar carregue em si a semente da esperança, como fala Boff (2008), de um semear de fraternidade e solidariedade, que nunca mais permita transformar a própria vida numa mercadoria descartável, tal qual um objeto vendido em liquidação de shopping center. Para fazer realizar esta utopia não vejo outro caminho senão a conversa e o diálogo entre povos e culturas. Se foi o diálogo que produziu o Relatório Brundtland, por exemplo, foi a falta dele que comprometeu os resultados do Protocolo de Kioto ou da COP

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CONEXÕES 15 na Dinamarca. Não basta reunir diferentes líderes e acreditar que a conversa será produtiva, franca, honesta ou mesmo fácil. Principalmente numa sociedade com mentalidade competitiva, onde países disputam espaços comerciais para vender seus produtos e gerar empregos, a partir de uma economia baseada no aumento ininterrupto do consumo como única alavanca para o “progresso”. Nesse sentido, vejo o modelo de produção, consumo e crescimento econômico, do qual vivemos hoje (e ainda não temos uma saída para ele), como o inverso do cuidado enquanto proposta de uma nova ética. Ninguém vai cuidar do que é descartável e ninguém vai dar valor ao que não serve para consumir e ser consumido. Sair, portanto deste viver em “piloto automático” comportamental, que dilapida o patrimônio natural comum reproduzindo uma sociedade que se auto consome e se destrói é uma meta audaciosa: ela rompe com um modelo mental entranhado em corações e mentes. Basta lembrar que o químico sueco Arrhenius, em 1896, mostrou que a queima de combustíveis fósseis produzia dióxido de carbono e previu que a temperatura aumentaria 5°C com o dobro de CO2 na atmosfera terrestre. E o que vemos hoje senão o aumento do consumo de automóveis poluentes, numa proporção que só faz aumentar os gigantescos engarrafamentos? Tal hábito me parece o oposto à ética do cuidar. Mas que ninguém fique em pânico. Afinal, não seria o diálogo algo obrigatório em momentos de crise? Não é fato que, por exemplo, após denúncias de trabalho escravo algumas marcas conhecidas da indústria do vestuário tomam providências e aperfeiçoam seus processos de ouvidoria e suas relações trabalhistas? Também não seria a comunicação algo inerente aos organismos vivos e assim ligados umbilicalmente à vida? O que é a reprodução das células de um corpo, o seu fluxo de estímulos nervosos, a combinação entre as raízes de um planta e a fertilidade do solo, o processo de fotossíntese combinado entre as folhas

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Não basta reunir diferentes líderes e acreditar que a conversa será produtiva, franca, honesta ou mesmo fácil. Principalmente numa sociedade com mentalidade competitiva, onde países disputam espaços comerciais para vender seus produtos e gerar empregos, a partir de uma economia baseada no aumento ininterrupto do consumo como única alavanca para o “progresso”.

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verdes e a luz do Sol e no próprio ato de amar, senão um exemplo do diálogo que a vida nos ensina? Entendo assim que o cuidar é um ato de amor, ilimitado, uma postura ética que pode partir do hábito individual, de um pequeno gesto cuidadoso ou uma simples gentileza aparentemente insignificante, até uma mudança nas organizações industriais e instituições políticas que afetam o planeta inteiro. Como escreveu Hanna Arendt (1969) “exigir o impossível a fim de obter o possível” é a proposta desta ética do cuidar. Com mais prudência, atenção, proximidade, comprometimento, interesse e abertura, permanentemente alertas aos detalhes, a escuta do outro, com olhos, ouvidos e corações abertos ao processo vital comum a toda nossa espécie. (*) LUIZ ANTÔNIO GAULIA, exgerente de comunicação da CSN e da Alunorte. Foi consultor de comunicação na Votorantim e no Boticário. Trabalhou na elaboração dos relatórios de sustentabilidade da Vale, da Light entre outros projetos. É professor da ESPM Rio na Pós Graduação de Comunicação Integrada na disciplina Gestão de Crise e da ABERJE (SP) no curso de Comunicação Interna como Ferramenta de Gestão. Atualmente é Gerente Comercial e de Marketing da Vectorial Consultoria atuando na área de RH, Qualidade de Vida e Saúde Organizacional


Frases

Nesta trajetória de quatro anos, Plurale em revista teve o privilégio de ouvir interlocutores relevantes no diálogo sobre Sustentabilidade no Brasil e no mundo. Professores, protagonistas do Terceiro Setor e também gente simples, mas que faz diferença, como o povo de Ruanda e os jovens promissores jogadores de golfe de Japeri, da Baixada Fluminense. Selecionamos aqui alguns destes momentos mais marcantes.

“A consciência de que somos hóspedes na vida permite a reflexão sobre o mistério do mundo e, ao mesmo tempo, a compreensão da ecologia como cuidado com a casa em que vivemos. Somos provisórios. Estamos de passagem.” ROBERTO PATRUS-PENA, PROFESSOR DA PUC-MINAS, EDIÇÃO 24

“No atual caminho, não sabemos exatamente para onde vamos. Duvide de quem afirma que sabe. Vivemos um turnining point” – ISRAEL KLABIN, PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BRASILEIRA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (FBDS), EDIÇÃO 20

“Nossa sociedade se divide entre letrados e iletrados. É claro que os letrados detêm o poder e ditam as regras. Há letrados conscientes desse problema e há outros que se veem privilegiados nessa posição e acham normal que isso continue assim. No entanto, todos têm que ter acesso ao mundo da escrita, seja para ler, para escrever, posicionado-se, ou para organizar sua vida por escrito”- LÚCIA CHEREM, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ E ESPECIALISTA EM LETRAMENTO, EDIÇÃO 18

“Seu nome é nome de anjo, você sabia?” perguntou Vivian Simonato, Correspondente de Plurale, à jovem SERAPHINE, de Ruanda, EDIÇÃO 23 “Estamos falando de uma nova onda para o terceiro setor, a grande promessa de escala e sustentabilidade para os trabalhos sociais” – RODRIGO BAGGIO, FUNDADOR DA ONG COMITÊ PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMÁTICA (CDI), EDIÇÃO 21

“Quero ser golfista profissional. Ser bom como o Tiger Woods”

– ANDERSON NUNES, 16 ANOS, MORADOR DE JAPERI ALUNO DO PROJETO MANTIDO PELA ASSOCIAÇÃO DE GOLFE PÚBLICO DE JAPERI E ESCOLINHA DO GOLFE, EDIÇÃO 19

“O Brasil precisa aproveitar as oportunidades – sociais e econômicas – de ser a principal reserva de água doce do mundo hoje” – ENEAS SALATI, PROFESSOR DA USP, EDIÇÃO 22/ ESPECIAL ÁGUA

“A sociedade quer consumir e despejar o lixo. Mas não pensa em quem está cuidando do lixo para eles” – TIÃO SANTOS, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS CATADORES DO ATERRO DE JARDIM GRAMACHO E “ESTRELA” DO FILME LIXO EXTRAORDINÁRIO, EDIÇÃO 14 19


Colunistas

Antoninho Marmo Trevisan

O protagonismo dos emergentes na

Rio+20

E

m 1992, quando se realizou, no Rio de Janeiro, a II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, a Eco/92, até então a maior reunião de chefes de Estado de toda a História, a Terra tinha 5,3 bilhões de habitantes. A eles, os mandatários do Planeta fizeram uma solene promessa, consubstanciada no documento oficial do evento, a Agenda 21, de drástica redução da miséria, crescimento econômico e conciliação da prosperidade com a preservação ambiental. Transcorridas quase duas décadas, o mundo está atingindo a marca de sete bilhões de habitantes em 2011, dos quais, segundo estudo do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), cerca de 1,6 bilhão vivem com menos de 66 reais mensais. As camadas de gelo dos polos nunca estiveram tão derretidas como hoje, as florestas tão devastadas, a camada de ozônio tão escancarada e a economia tão ameaçada pelas crises fiscais da Europa e dos Estados Unidos. Em 1992, os países desenvolvidos do Hemisfério Norte davam as cartas sozinhos, por meio do G8, e impu-

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nham todas as condições. As crises eram endêmicas ao Sul do Equador e epidêmicas na África. Ainda não acontecera a catástrofe do sub-prime e os norte-americanos não haviam gasto alguns trilhões de dólares, a fundo perdido, nas guerras que se seguiram à tragédia de 11 de setembro de 2001, que contribuíram para a estratosférica elevação de sua dívida pública. A Rússia emergia dos escombros da União Soviética, implodida em 1991, enquanto Brasil, China e Índia seguiam sua rotina de nações em desenvolvimento. O mundo transformou-se! Hoje, o G20 iguala-se e se impõe ante o G8 nas deliberações sobre os rumos da economia mundial, condição, aliás, para a qual contribuiu muito a ação diplomática brasileira nos últimos oito anos. Os países desenvolvidos, com raras e honrosas exceções, estão sem dinheiro, endividados e crescendo pouco. As economias emergentes são as que mais aumentam seu PIB. Os problemas mundiais, porém, continuam os mesmos, e agravados pela expansão demográfica, a insegurança alimentar, as crises econômicas e o desencadeamento efetivo das mudanças climáticas. É sob esse cenário que caminhamos para a Rio+20, a ser realizada em maio de 2012, sob os auspícios da ONU,


em mais uma tentativa de equacionar os graves problemas da sustentabilidade. Foi exatamente com o propósito de analisar e apresentar sugestões que subsidiarão as propostas dos chefes de Estado e delegações oficiais na conferência, que os integrantes do Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da Presidência da República, reuniram-se em Moscou, no mês de setembro, com colegiados similares das três outras nações integrantes do BRIC: Rússia, Índia, China e mais África do Sul. As reuniões, das quais participei, foram bastante produtivas, a começar pela formalização de um pressuposto bastante lúcido para os programas a serem debatidos na Rio+20: a solução para a crise mundial, que é econômica, social e de valores, passa pelo papel essencial que a sociedade civil pode desempenhar, sem deixar de lado a forte presença do Estado na garantia dos direitos universais para as populações (aqui, dentre outros itens, estamos falando de saúde, educação, moradia, inclusão social, segurança alimentar e física). Dentre as minutas de propostas, há algumas cuja implementação será decisiva para a solução dos problemas que afligem a civilização. Uma delas refere-se ao fato de que a responsabilidade social dos negócios não pode restringir-se aos aspectos econômicos de uma economia verde. É necessário criar indicadores de sustentabilidade com padrões sociais nacionais, capazes de monitorar o desempenho da sociedade no tocante ao desenvolvimento econômico, mas também nos aspectos ambiental, social e regional. Outro avanço debatido em Moscou é inovador quanto à análise da economia, que não pode continuar limitada aos índices frios de crescimento do PIB, renda per capita, oscilações das bolsas de valores e do câmbio, rendimento das aplicações financeiras e índices de importação/exportação, dentre tantos outros indicadores presentes nos balancetes das empresas, na mídia e nos relatórios dos economistas chefes de distintas instituições. Mais do que nunca, o desempenho econômico deve, também, ser medido por dados de redução da pobreza, preservação da natureza e da biodiversidade, qualidade da vida e saúde e justiça distributiva regional. É muito importante, ainda, a proposta de que o patrimônio ambiental deva ser valorizado e considerado parte do PIB de cada país. É previsível que essa tese gere conflitos de interesse entre o G8, cujos membros literalmente devastaram seu ambiente (e o de muitas outras

nações) para produzir e enriquecer, e o G20, constituído por países de industrialização tardia, que mantêm preservada parte expressiva de sua natureza, biodiversidade, recursos hídricos e os naturais. É o caso do Brasil. Tais reservas da biosfera, essenciais para a sustentabilidade de todo o Planeta, devem ser compensadas por um fundo constituído pelas nações que já utilizaram seus ativos ambientais para atingir patamares maiores de desenvolvimento. É importante lembrar que deliberação semelhante foi aprovada em 1992, na Conferência do Rio de Janeiro, mas jamais cumprida. Aliás, quase nada foi efetivado das promessas à humanidade feitas há duas décadas. Em termos práticos, não se implementou a Agenda 21, programa de ação para o qual contribuíram governos e instituições da sociedade civil dos 179 países participantes, num processo preparatório que durou dois anos. Do mesmo modo, a Declaração do Rio, a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a Convenção sobre Mudanças Climáticas são meras peças de leitura. A grande questão ante os desafios persistentes é a seguinte: se à época que estavam ricos os países desenvolvidos acabaram não fazendo sua parte, em especial no tocante à constituição de fundos e financiamentos internacionais para a sustentabilidade, será que mudarão de atitude agora que estão mergulhados em profunda crise? A resposta é um tanto óbvia... Torna-se cada vez mais evidente – e isso permeou o encontro dos Conselhões do BRIC em Moscou – que os emergentes serão protagonistas nas deliberações de 2012, no Rio de Janeiro, em prol de um modelo de civilização que concilie democracia, prosperidade econômica, menos disparidades regionais, justiça social e entre as nações e salubridade ambiental. Vinte anos depois, a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano não pode, mais uma vez, produzir meras cartas de intenções. O futuro já chegou, confirmando muitas das previsões apocalípticas da Eco 92. Em tempo: 46 milhões dos terráqueos que subsistem abaixo da linha da pobreza são habitantes dos Estados Unidos, que acabam de divulgar esse dado, um novo recorde negativo de sua história. (*) Antoninho Marmo Trevisan é Colunista de Plurale, Presidente da Trevisan Escola de Negócios e membro do CDES-Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.

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Artigo

Um mundo

novo

H

á 2000 anos, Platão escrevia a “República” apresentando seu ideal de sociedade ordenada pela filosofia, uma sociedade comunista, formada por cidadãos livres, racionais, e esclarecidos, cidadãos que deviam ser felizes. Há 500 anos, Thomas More escrevia a sua Utopia, descrevendo também uma sociedade ideal e inexistente no mundo, harmoniosa, comunista, de pessoas livres, esclarecidas, amadurecidas. Ambas as concepções eram absolutamente irrealistas, incompatíveis com a natureza humana, no dizer do próprio

Roberto Saturnino Braga

More, e ficaram como referências filosóficas impraticáveis. Mencione-se, entre parênteses, como algo significativo do pensamento corrente da humanidade de suas épocas, que as duas grandes quimeras admitiam a escravidão e a guerra. O sentido de organização utópica da humanidade reacendeu-se a partir da obra de Kant que, há 200 anos, elaborou sua Filosofia da Razão, sustentando que o ser humano é um fim em si mesmo e, consequentemente, nenhum homem pode, para realizar seus fins, utilizar outro homem como meio, abrindo o caminho para as concepções de Marx. E mais, ele previu pela primeira vez a extinção da guerra, pela exaustão dos povos guerreiros, e a efetivação da paz perpétua no mundo. Essa exaustão seria física, psicológica e econômica. Outro parênteses: Kant conhecia bem a ciência do seu tempo, e tinha uma fé inabalável nesse fruto da razão pura, mas não conhecia a tecnologia, o espantoso desenvolvimento da ciência pela razão operacional. Marx que sucedeu a Hegel e veio 50 anos depois de Kant, Marx então, há 150 anos, teve a primeira intuição clara do poder da tecnologia que, movida pelo capitalismo, viria a desmanchar no ar tudo que até então era tido como sólido.


No século passado, há menos de 100 anos, foram descritas outras sociedades fictícias, não mais no sentido de modelo ideal mas de previsão realista de um futuro inevitável, marcado pelo desenvolvimento tecnológico aplicado ao controle social: O Admirável Mundo Novo de Huxley e o 1984, de Orwell. Peças elaboradas no momento do grande confronto ideológico planetário, que desapareceram também do cenário político, ficando apenas como referências literárias, como obras de dois grandes escritores dos mil e novecentos. A ideia de Kant e a análise de Marx, entretanto, continuam vivas, ultrapassaram sua época e parecem hoje ainda bem atuais. E a humanidade de hoje dá mostras inequívocas de uma vontade de renovação dos paradigmas políticos e econômicos no sentido apontado por eles: vontade de um Mundo Novo, livre das pestes da guerra, da exploração do homem pelo homem e da destrutividade do capitalismo que agora ameaça o planeta como um todo. A ebulição das ruas da Europa e do mundo árabe são os indícios mais evidentes, mas o esgotamento financeiro e a radicalização política dos Estados Unidos não são menos indicativos desse malestar que demanda novos paradigmas. Evidentemente, a guerra prossegue com uma presença no mundo que parece infindável e inevitável. Entretanto, aquela configuração de exaustão política, psicológica e econômica a que se referiu Kant, como fundadora da paz mundial, parece estar bem à vista de quem tiver olhos para ver, precisamente nas partes mais ricas e armadas da terra, sob a forma de manifestações massivas de descontentamento. Inequivocamente, o amadurecimento desse processo em que a política vai abrindo campo para uma participação popular mais larga e efetiva, as manifestações expressivas dessa presença do povo nas ruas acabarão por exigir o fim das guerras. Essa participação popular é ainda incipiente, restrita a usuários da internet, e faz-se de forma desorganizada, por vezes caótica. É um processo em começo, todavia: dentro de algumas décadas estará ampliado e amadurecido, perto da universalização, estará organizado e logo institucionalizada. E então, com certeza, será muito difícil para qualquer governo, tomar a iniciativa de uma guerra. Claro que pequenas refregas de fronteira e atos de terrorismo praticados por grupos extremistas possivelmente ainda ocorrerão, mas a solução das relações conflitivas entre nações terá de ser eminentemente política, não violenta, regulada e mediada por um organismo internacional respeitado, que só pode ser a ONU. A ação reguladora e mediadora da ONU se estenderá, obviamente, ao controle da destruição e da poluição em escala mundial, isto é, à preservação do planeta em todas as suas dimensões. Então, sim, e só então, o mundo poderá contar com dispositivos eficazes de sustentação ecológica, extremamente di-

fícil porque terá de impor alguma restrição sobre o crescimento das economias nacionais mais ricas, esbanjadoras de energia. O capitalismo terá de resolver este complexo problema para o seu funcionamento, e o caminho mais provável aponta para a adoção de economias mistas, onde estado e mercado estarão presentes dividindo funções e responsabilidades. A reforma da ONU, com a ampliação e melhoria da representatividade do seu Conselho de Segurança, é condição essencial, sine qua non, para a superação do seu atual estado de inoperância, e a sua capacitação para realizar esse novo ambiente mundial livre da guerra e da destruição. Sintoma evidente da ineficácia flagrante da ONU de hoje é a fome que está matando milhões de seres humanos na Somália, para vergonha da humanidade. O Brasil, que devia ter tido, desde o início, um assento permanente no Conselho de Segurança, pela própria regra da sua constituição, pois foi uma nação que participou com efetivos militares da guerra contra o nazi-fascismo, o Brasil tem muito a contribuir na formação desse novo mundo sem guerra e sem destruição ambiental, seja pela sua grande tradição de negociação internacional, sua reconhecida vocação de potência da paz, seja pela sua bem sucedida experiência de implantação e gestão de uma economia mista, seja, ainda, pela sua vivência na institucionalização de mecanismos de participação da sociedade nas decisões de governo. Esta é, verdadeiramente, outra contribuição importante que nosso país pode dar à política mundial: a apresentação das nossas experiências exitosas de participação da sociedade organizada nas decisões sobre políticas públicas em geral. São muitas as nossas realizações dessa gestão participativa no âmbito local, municipal, mas até mesmo na dimensão nacional, com a criação dos diversos conselhos de políticas setoriais e do grande e amplo Conselho de Desenvolvimento que têm influenciado decisões nacionais de grande relevo, como foi, recentemente, a política de fomento da indústria. Enfim, arrisco-me a uma declaração de otimismo tomado como ingênuo ou mesmo infantil, pendor do qual nunca me arrependi, mas o fato é que consigo hoje captar vibrações no campo de forças políticas precursoras de um Mundo Novo, caracterizado pela paz duradoura, pela preservação ambiental e pela implementação de uma democracia com elevado nível de participação direta e organizada dos cidadãos, uma democracia mais democrática e, por isso mesmo, mais resistente à corrupção. (*)Roberto Saturnino Braga é Colunista de Plurale. Ex-senador (saturbraga@ig.com.br), com experiência pública de toda a vida, coordenador da ONG Instituto Solidariedade Brasil e autor de vários livros.

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Especial Meio Ambiente

Preservação de

corais e peixe-boi Grande área de biodiversidade ameaçada em Alagoas e Pernambuco, tem novo modelo de gestão que reúne governo, setor privado, sociedade e ONG

Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista Fotos: Isabella Araripe De Maragogi (AL) e Tamandaré (PE)

A

os 16 anos, quando só queria saber de curtir surf e caiaque, Danilo Marques, curioso como qualquer um nesta idade, resolveu, certo dia ir bem além da arrebentação. Nascido e criado na Praia de Tamandaré, belíssimo ponto do litoral pernambucano, partiu sozinho para conferir de perto a beleza dos recifes, que avistava de longe. Estava encantado com a beleza dos corais, distraído, quando avistou um barco vermelho vindo em sua direção. Um homem de alto-falante alertou que ele estava em área proibida. “Fiquei com medo”, lembra. Era uma embarcação da polícia ambiental. Resultado: foi

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detido em uma sala com ar bem forte até que sua mãe chegasse e retirasse o filho. Repreendido, o jovem teve que prestar serviços comunitários e aprendeu a lição. Mais do que isso, fez do limão uma limonada. Passaram-se mais de 10 anos e Danilo se tornou dedicado geógrafo, que leva a vida com um trabalho de dar água na boca e encher os olhos só de imaginar, ainda mais para quem tem o privilégio de conferir de perto o seu “escritório”: o ex-surfista é um protetor dos corais que um dia chegou a pensar em tirar alguns pedacinhos para levar para casa. Por estas voltas da vida, Danilo e um grupo de amantes do mar- como amigos da região e a bióloga Letícia Vila Nova, de Natal- fundaram a Cooperativa Náutica Ambiental, especializada em ecoturismo, que leva turistas- brasileiros e estrangeiros - para visitar um dos mais belos cartões postais da região.


FOTO: NÁUTICA

“Se sou feliz? Levo a vida que pedi a Deus e ainda ganho por isso”, responde Danilo, complementando com um largo sorriso, diante da curiosidade dos repórteres vindos do chamado Sul Maravilha. Mas basta olhar a foto de Tamandaré para entender o quê Danilo e a turma da Náutica apreciam dia sim e outro dia também. Sul Maravilha? Aqui é, sem dúvida, matriz ou filial do paraíso. A cor do mar é de um azul tão cristalino que os óculos escuros não são acessórios e sim artigo de primeira necessidade. O vento bate forte, cortando um pouco os efeitos do calor. Amigos - Incrível? A história não acaba por aí. Apurando esta reportagem, conversando com quem está vivendo uma nova experiência em termos de preservação do meio ambiente descobrimos que o “xerife” do passado, o tal piloto da lancha vermelha, está exatamente ao lado do “infrator” daquela época, Danilo. Dá para acreditar? “Ficamos amigos. Trabalhamos na defesa de toda esta região. Esta é a melhor prova que preservar só faz bem”, assegura Leonardo Messias, hoje Coordenador de Fiscalização do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão ambiental do Governo Federal. Cabe ao Instituto, uma autarquia, executar as ações do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (UC), podendo propor, implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as UCs instituídas pela União.

Esta inusitada história envolvendo Danilo e Leonardo é apenas parte do enredo de amplo projeto de gestão em curso que poderá mudar a história da preservação ambiental não só aqui na divisa de Alagoas e Pernambuco, mas também servir de modelo a ser replicado em outras regiões. O quadro já é mais do que conhecido: sem recursos e quadros suficientes para administrar e fiscalizar estas unidades, o governo resolveu há alguns anos partir para parcerias estratégicas com o setor privado e ONG.

Tamandaré integra a chamada Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, criada em 1977, reunindo, ao todo, 11 municípios, dos quais oito em Alagoas e três em Pernambuco, numa costa que reúne vários destinos paradisíacos de turismo, como Maragogi, de águas mornas em Alagoas e Praia dos Carneiros em Pernambuco. Corais ameaçados - A APA Costa dos Corais tem 413 mil hectares de área protegida, que abrigam a segunda mais importante barreira de corais do mundo. É a maior unidade de conservação marinho do Brasil. Só para ter uma ideia de como este bioma está ameaçado, estima-se que cerca de 27% de todos os corais no mundo já tenham de alguma forma sido degradados ou desaparecidos, explica Pedro Lins, presidente em exercício da APA Costa dos Corais. Quase escondido pelo chapéu que lembra o dos legionários franceses, sob medida para proteger o rosto do sol rascante, o biólogo é outro amante do que faz. Ele reforça que os recifes de corais são berçário da vida marinha, com mais de 185 espécies de peixes registradas.e a presença de animais ameaçados de extinção como o mero, a tartaruga marinha e os peixes-boi marinhos. “A preservação aqui funciona como uma caderneta de poupança”, compara Danilo, mostrando a imensidão da extensão protegida apenas na Praia de Tamandaré, repleta de história dos tempos da invasão holandesa. Pedro traduz melhor o que Danilo quis dizer com poupança.

Danilo Marques e Leonardo Messias: unidos pela preservação dos corais de Tamandaré

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FOTO: NÁUTICA

Especial Meio Ambiente

Lá atrás, antes mesmo dos tempos que Daniel era surfista e foi detido por Leonardo Messias, o mar em Tamandaré tinha poucos peixes de maior porte e os recifes estavam sendo destruídos principalmente pela ação do homem. Através de decreto, com execução através do ICMBio, foi criada a APA Costa dos Corais e o principal trabalho foi passar a monitorar ainda mais de perto a região a ser preservada. Não trata-se de tarefa fácil, nem rápida. Mas os resultados, após todos estes anos podem ser contabilizados, como na poupança que Danilo fala. Com os corais preservados, a vida voltou a florescer: peixes grandes, antes raros, voltaram a aparecer, puderam crescer sem sustos e a região pode voltar a ter ainda mais cor e vida. Exploradores de corais, que retiram pedaços para serem vendidos no Brasil e no exterior, foram expulsos ou detidos e a biodiversidade voltou a se multiplicar. Aqui e nas regiões próximas, também exportando para áreas vizinhas. “De uns 12 anos para cá, acompanhamos não só a preservação maior dos corais, mas também a maior incidência de peixes de maior porte, como o mero, dentão e acioba”, relata o biólogo Alexandre Aschenbrenner, que também trabalha na região. Um rápido mergulho nas águas tranquilas de Tamandaré permitem desvendar parte deste tesouro submarino. O dia não estava muito propício, com a maré turva, tornando a visibilidade difícil. Mas foi possível apreciar parte dos coloridos corais. Parceria - Pelo novo acordo de parceria assinado em meados de agosto, a Fundação Toyota do Brasil se compromete a financiar a preservação deste patrimônio, em parceria com o ICMBio, com a assesso-

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ria da ONG Fundação SOS Mata Atlântica (SOSMa). Os desavisados podem achar que trocamos o nome, mas é isso mesmo, Mata Atlântica. “Há uma parte muito relevante da Mata Atlântica também na faixa litorânea”, destaca Márcia Hirota, diretora da SOSMa. Ela explica que este modelo é feito nos moldes de um fundo perpétuo, com investimentos mínimos de 10 anos. “Este é o primeiro projeto que tocamos de pessoa jurídica e esperamos que o modelo seja bem sucedido a ponto de atrair outras empresas”, disse Márcia. Antes, o mesmo tipo de Fundo já tinha sido testado pela SOSMa em projeto piloto no Atol das Rocas e outro na APA de Guapimirim (RJ), só que ambos capitaneados por pessoas físicas. De acordo com release do ICMBio, o projeto estabelece parceria inicial de dez anos, na qual a Fundação Toyota repassará à SOS Mata Atlântica, executora financeira do contrato, a quantia total de R$ 10 milhões, sendo R$ 1 milhão por ano, para serem aplicados na Unidade de Conservação (UC) de acordo com planos de trabalho definidos pelo ICMBio/APA Costa dos Corais. Todas as ações serão discutidas e avaliadas no conselho da UC, inclusive com a presença dos parceiros, Toyota e SOS Mata Atlântica. Metade desse milhão será gasto já este ano, enquanto a outra metade será depositada em um fundo de perpetuidade (indowment fund). Essa modelagem financeira, ainda conforme informa o release do ICMBio, garantirá as ações de longo prazo de preservação da área, pois a intenção é que ao final desses dez anos exista um saldo aproximado, a valores atuais, de R$ 7 milhões e a UC

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poderá utilizar dos juros desse fundo privado indefinidamente. Carro híbrido - A solenidade para anunciar à imprensa o apoio oficial reuniu, em Maragogi (AL), executivos da montadora, ambientalistas e cerca de 30 jornalistas de diferentes pontos do país. No mesmo evento, no estilo dos “combinados” da culinária japonesa, também foi pré-lançado o carro híbrido da montadora Toyota para o mercado brasileiro, o Prius, que oficilmente só será mesmo apresentado no Salão do Automóvel, em São Paulo, no segundo semestre de 2012. A direção da Toyota irá pleitear incentivos fiscais para o novo modelo por ser híbrido. “Esta matéria deverá ser endereçada para os Ministérios do Desenvolvimento, da Fazenda, da Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente. Não estaremos defendendo só este modelo, mas os carros híbridos como um todo”, explicou Luis Carlos Andrade, vice-presidente senior da Toyota Brasil. Voltando ao meio ambiente, o relevante no acordo entre a Fundação Toyota, o governo (através do ICM Bio) e a ONG SOS Mata Atlântica, na opinião de Carla Marcon, coordenadora Regional do ICM-Bio, “é a integração, parceria entre as partes, já que não é possível cuidar de tudo sozinho”. Este é o maior investimento da instituição desde sua fundação no Brasil há 10


Guia turística comunitária Marta Silva

anos. “Este projeto é mais uma confirmação de nosso compromisso com o meio ambiente”, reforçou Shunichi Nakanishi, presidente da Toyota Mercosul e do Conselho Curador da Fundação Toyota do Brasil. Peixe-boi marinho - E nem só de corais se faz este enredo. Há também gente simples e aguerrida - como Danilo e sua turma -, mas também outros tantos empenhados na preservação do peixe-boi marinho, no turismo sustentável e geração de renda para as comunidades da região. Além do mar, a APA Costa dos Corais também envolve área de mangue, como a do Rio Tatuamunha, em Porto das Pedras, Alagoas, que abriga dez exemplares dos dóceis peixes-boi. São sete adultos e três filhotes. Bom, filhotes o modo de dizer, porque em se tratando desta espécie o superlativo impera. São animais enormes que chegam a 4,5 metros de tamanho e podem viver até 60 anos. Para se chegar até o cativeiro natural é preciso cruzar de balsa de um lado para o outro, de Japaritinga para Porto das Pedras, pelo Rio Manguaba, avistando imponente farol. A simpática guia turística Kilma Amorim conta que neste cenário paradisíaco foi filmado “Deus é brasileiro”, com Antônio Fagundes no papel principal. “Todo mundo se encanta com o que vê”, garante. Cortando pequenos vilarejos, chegamos até o Rio Tatuamunha, Porto das Pedras, onde as águas do rio e do mar se encontram, morada dos imensos e também delicados peixes-boi marinhos. “Temos aqui uma área perfeita para garantir que os peixes-boi vivam tranquilos”, diz, sem esconder o orgulho de fazer parte desta história, Marta Silva, 26 anos, moradora e guia turística comunitária, integrante da Associação dos Ribeirinhos Amigos do Meio Ambiente (Aribama). Esta cooperativa organiza passeios ecológicos e também produz artesanato com a reciclagem de PET recolhidos na região e côcos secos

(Leia mais nas próximas páginas no Ensaio Plurale e Bazar Ético). Quem chega até este recanto é guiado pelas pinguelas estreitas e barcos apenas empurrados por mastros compridos (sem motor) por moradores da região, reunidos na Aribama. Sem cheiro - A beleza do lugar é de acalentar o coração. O silêncio é tão intenso que chama para a meditação. Ao contrário de mangues que estamos mais acostumados a ver, em Tatuamunha, Porto das Pedras, a água é clarinha e não tem cheiro forte. Lixo não há. As imensas raízes das árvores chamam a atenção dos turistas, da mesma forma que as diversas espécies de caranguejos, como os aratus, e outros animais típicos deste tipo de vegetação. Para quem não sabe, o peixe-boi é uma espécie herbívora: se alimenta de capim-agulha, folhas, de água doce e do material das raízes do mangue. Aqui em Tatuamunha, sob a supervisão de biólogos, a alimentação também é enriquecida por capim escondido em canos para fingir que fazem parte do habitat e cenouras amarradas junto aos mastros de madeira rústica. Neste local, que disfarça o sentido de cativeiro, os peixes imensos podem viver despreocupados sem a ameaça da espécie mais devastadora: o homem. Sem predador natural, apenas este invasor ameaça sua trajetória. Pescadores desavisados, no passado – e, em alguns casos, ainda hoje – matam os inofensivos animais quase que por prazer, já que sua carne nem é tão apreciada. Os peixes, que chegam a pesar 500 quilos, usam um cinto que permite o monitoramento por GPS e radiotransmissor. A espécie está ameaçada e por isso precisa ser preservada. Por estes caprichos da natureza, o processo de reprodução dos peixes-boi é bem lento, a gestação é longa e as fêmeas não facilitam a vida dos machos. São quase cinco anos entre uma gestação e outra e o animal só cruza quando atinge de cinco a nove anos. Ao contrário da tartaruga marinha que coloca diversos ovos de uma só vez, no caso do peixe-boi, nasce um de cada vez. Por isso, apesar do projeto ter 30 anos, praticamente tendo nascido junto com o Tamar, das tartarugas, o peixe-boi ainda continua na lista dos animais em extinção. Mas se o amor e o destino derem um empurrão em mais esta parte do enredo, é possível que a primeira geração reproduzida neste cativeiro esteja sendo encomendada. “Estamos esperando que isso possa mesmo acontecer”, diz Marta. Os biólogos comemoram os resultados dos anos de cuidado e preservação: há 10 anos, Aldo, o primeiro peixe-boi marinho veio – de caminhão, cercado de todo cuidado – do Centro mantido pelo ICM-Bio em Itamaracá (PE) para este braço de mangue em Tatuamunha. O biólogo Iran Normandi, analista ambiental do projeto, pede silêncio para os visitantes. Os peixes se assustam com o barulho e ficam submersos, voltando à tona para respirar e consumir água doce. O maior dos animais desta área, explica o biólogo, é Açu, que já foi solto duas vezes para o alto mar, não se adaptou e voltou para o cativeiro natural. Como a pesca na área de preservação é proibida, o ecoturismo passou a ser principal fonte de renda para esta comunidade de cerca de 3 mil pessoas. Além do artesanato. O condutor do barco é Ednaldo dos Santos, 34 anos, pescador que vive hoje basicamente do turismo. Por aqui chegam visitantes de diversos estados e também do exterior. “Os estrangeiros ficam apaixonados”, resume a guia Marta. O que irá acontecer com esta imensa região da APA Costa dos Corais ainda é difícil saber. Mas os próximos anos, e as próximas gerações poderão dizer qual será o desenrolar deste enredo. (*) Editora e fotógrafa viajaram a convite da Fundação Toyota.

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E n s a i o

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ECOTURISMO: AZUL DO MAR; O VERDE E MARROM DOS RIOS E MANGUES

Fotos:

Isabella Araripe

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á uma variedade tão surpreendente de locais para visitar na região protegida da APA dos Corais que um turista desavisado pode achar que tanta diversidade não está intimamente ligada. Mas é esta a realidade: a imensa área de cerca de 150 quilômetros, divididos por Alagoas e Pernambuco . O azul do mar esconde e protege seus corais multicoloridos e raros. A areia, branquinha e dourada também reserva seus encantos. Um pouco mais adiante, lagoas, rios e mangues. Todos protegidos da ação predatória que quase chegou a afetar os corais, peixes-boi e a belíssima fauna e flora locais. Agora, principal atividade por estas bandas é mesmo o ecoturismo. E há algo melhor do que apenas apreciar com os olhos e encher o coração de alegrias com

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tamanho colorido? Os coqueiros das praias, o antigo farol, o silêncio do mangue com seus caranguejos fruta-cor e um sol de aquecer a alma. Não é só. Muitos visitantes vêm de longe apenas para praticar o mergulho de observação. É preciso ficar de olho na tábua das marés: dependendo do dia e da lua é possível programar um passeio aos recifes que renda mergulhos rasos ou até, quem sabe, uma rápida caminhada junto à formação. É bom também reservar ao menos uma semana na região porque há muito o que se ver: Maragogi, Porto das Pedras e Japaritinga apenas para citar alguns pontos em Alagoas e Tamandaré, Praia dos Carneiros e Rio Formoso, do lado pernambucano. É bom consultar os guias e agências locais que sabem as melhores datas e melhores dicas. O Hotel Salinas do Maragogi tem um ótimo serviço de resort com tudo incluído (inclusive todas as bebidas!) e uma praia linda bem na frente. Em Tamandaré, também há lindo resort e várias pousadas oferecem ótimo serviço e preços em conta. Selecionamos algumas boas dicas em Maragogi e Tamandaré, mas pesquisando na Internet há uma infinidade de opções.

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SERVIÇO EM MARAGOGI (AL)

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ONDE I

Hotel Salinas do Maragogi All Inclusive www.salinas.com.br (82) 3296-3030 Pousada Olho d`Água http://www.pousadaolhodagua.com/ (82) 3296 1263 EM TAMANDARÉ (PE)

Coral Beach Resort http://www.hotelcoralbeach.com.br/ (81) 3676 2274 Pousada Recanto dos Corais http://www.recantodoscorais.com.br/ (81) 3676 1444 Agências de turismo:

Lucky Viagens http://www.luckviagens.com.br/ Recife -(81). 3366-6222 Naturale Viagens e Turismo http://www.naturaleviagenseventos.com.br/ Maceió - (75) 8850-5065 63

PASSEIO Peixe-Boi Aribama (82) 9946 8606 (82) 9108-0906 Visita aos Corais Náutica Ambiental www.nauticaambiental.com (81) 3676.1152

ONDE COMER Corais de Maragogi - (AL) http://www.coraisdomaragogi.com.br/ (82) 3296-2286 Tapera do Sabor - Tamandaré (PE) http://www.taperadosabor.com.br/ (81) 3676 1509

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Texto e Fotos: ISABELLA ARARIPE

Aribama: geração de renda com artesanato e turismo ecológico

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cenário não poderia ser mais inspirador. Bem próximo do paradisíaco local que já foi cenário do filme “Deus é brasileiro”, com Antônio Fagundes no papel principal, uma comunidade está dando exemplo de geração de renda sustentável. Moradores de Tatuamunha, em Porto das Pedras, Alagoas, formaram a Associação dos Ribeirinhos Amigos do Meio Ambiente (Aribama). Esta belíssima região - invadida pelos holandeses e também antigo porto de embarque de açúcar- também integra o projeto de preservação da APA dos Corais, que além do trabalho de supervisão do ICMBio também conta com o patrocínio da Fundação Toyota.“É possível sim preservar e conseguir viver de forma muito decente”, resume a guia turística Marta Silva, 26 anos, casada, mãe de um filho, com curso de especialização em Turismo pelo SESC, enquanto mostra a área de preservação do peixe-boi marinho. Além da atividade de turismo ecológico, a Aribama também produz artesanato. Seu Cícero de Oliveira e cerca de 20 artesãos locais se orgulham de mostrar como as garrafas PET recolhidas dos rios e praias da região podem se transformar em bolsas, simpáticas borboletinhas para enfeitar elásticos, enfeites para parede ou em chocalhos para as crianças. Sem falar nos barcos de pesca e pássaros que são “esculpidos” em cocos secos. Rústicos sim, mas de uma poesia singela que deixa qualquer um encantado.“Dá para fazer muita coisa reciclando e criando”, conta Cícero. Além de venderem as peças para os turistas que visitam o projeto de preservação do peixe-boi, os artesãos também dão aulas de educação ambiental, participando de oficinas de reciclagem para crianças das escolas da região. Contato: Rua Luis Ferreira Dorta, Tatuamunha, Porto das Pedras, Alagoas www.aribamaalagoas.wordpress.com aribamaambiental@gmail.com aribama.al@r7.com (82) 9946 8906 • (82) 9108 0906 Este espaço é destinado à divulgação voluntária de produtos étnicos e de comércio solidário de empresas, cooperativas, instituições e ONGs.

foto: Christina Rufatto/ Divulgação

Bazar ético

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CINEMA

Verde

ISABEL CAPAVERDE

i s a b e l c a p a v e r d e @ p l u r a l e . c o m . b r

Foto: Marcos Hermes

Foto: Agência Brasil

Documentário mergulha no universo de Marcelo Yuka Exibido em primeira mão durante o Festival do Rio, o documentário em longa- metragem “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, da jornalista e cineasta Daniela Broitman, acompanha de maneira íntima a profunda transformação por que passou o artista e ativista social desde que foi baleado em um assalto em 2000 no Rio de Janeiro. Yuka aos 34 anos e no auge como compositor, baterista e líder da banda O Rappa – a primeira a se envolver diretamente em projetos sociais, apoiando o grupo Afroreggae e fazendo campanhas solidárias - ao ajudar uma moça que estava sendo assaltada na rua levou nove tiros que o deixaram paraplégico. Apesar do drama pessoal, Yuka não abandonou sua luta por justiça social, nem a música. Entre suas atividades recentes estão a gravação e produção do seu primeiro trabalho solo, a participação em eventos como o TED/Sudeste e o Fórum Global de Sustentabilidade SWU, além da inauguração do espaço B.O.C.A. (Brigada Organizada de Cultura Ativista) no Circo Voador.

Filme mostra realidade dos meninos de rua “Capitães de Areia”, livro que Jorge Amado escreveu nos anos 1930 e que retrata o cotidiano dos meninos de rua de Salvador, foi parar nas telas sob a direção da neta do escritor, Cecília Amado. A produção percorreu 22 ONGs, e fez testes com 1200 jovens de projetos sociais da Bahia para chegar aos 12 integrantes do elenco principal. A diretora queria trabalhar com jovens que não fossem atores e que tivessem experiências e características semelhantes aos personagens da história.

Festcineamazônia tem mais de 400 produções inscritas O Festcineamazônia – Festival Latino Americano de Cinema e Vídeo Ambiental – que acontece de 15 a 19 de novembro, em Porto Velho, Rondônia, no Teatro Banzeiro, com entradas gratuitas, tem mais de 400 filmes e vídeos inscritos para seleção na mostra competitiva. As produções concorrem nas categorias: animação, experimental, ficção, documentário e videorreportagem ambiental. Além de concorrentes do Brasil, há filmes de Moçambique, Uruguai, Bolívia, Chile e México.

O cinema onde o povo está 1 Em sua mais recente edição, o Festival de Cinema de Brasília inovou levando os filmes concorrentes à periferia da capital federal. Pela primeira vez as produções da mostra competitiva foram exibidas simultaneamente no badalado Cine Brasília, na região central da cidade, e em espaços no Plano Piloto, em Sobradinho, Taguatinga e Ceilândia. O público aprovou.

O cinema onde o povo está 2 Também pela primeira vez o Festival do Rio apresentou no Cine Carioca, no Complexo do Alemão, uma seleção de filmes inéditos no mundo todo, reunindo documentários, dramas, comédias e filmes em 3D, levando à comunidade local o cinema plural que costuma apresentar em outras áreas da cidade. Entre os filmes exibidos “Pearl Jam Twenty”, a “Árvore do Amor”, “O Caçador de Troll” e “Shark Night 3D” entre outros.

“Tamu junto” une Brasil e Moçambique A Central Única de Favelas (CUFA) em parceria com a documentarista Laila Valois e a produtora Carolina Dumbrovisky, organizou o festival de cinema “Tamu Junto” simultaneamente no Teatro Avenida em Moçambique e no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, entre os dias 11 e 16 de outubro, para exibir obras produzidas ou dirigidas por moradores das favelas. A parceria resulta da constatação de que as realidades suburbanas dos dois países se encaixam. Além da língua portuguesa, Brasil e Moçambique tem muitos pontos de intersecção, apesar dos contextos culturais serem diferentes.

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Clima

: o g r u b i r Nova F e climático desastr al i c o s a i d é g vira tra

Texto: Nícia Ribas, de Plurale em revista Fotos: Pieter Zalis e Nícia Ribas De Nova Friburgo (RJ)

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uando Dom João VI mandou vir famílias suíças para colonizar Nova Friburgo, na Serra Fluminense, há quase 200 anos, não podia imaginar que seus descendentes viveriam um desastre climático, que evoluiria para uma tragédia social. Os alemães que chegaram mais tarde, instalando a indústria local, nem nos piores pesadelos vislumbraram a tragédia. Ao longo dos anos, a deslumbrante paisagem montanhosa de clima europeu firmou sua imagem de Suíça Brasileira para atrair turistas e desenvolveu seu pólo industrial, fortalecendo a economia do País. Tudo parecia correr às mil maravilhas até o dia 12 de janeiro de 2011, quando uma nuvem em forma de cogumelo, parou sobre a cidade e durante quatro horas e meia, provocou temporal acompanhado de tempestade de raios sonoros, destruindo tudo, matando pelo menos 500 pessoas e deixando muitas desaparecidas e tantas outras desabrigadas. Até hoje. A natureza viva mostrou sua força sobre o ambiente devastado pelo homem. Com a enxurrada, a terra escorregou e onde havia floresta surgiu rocha. Moradias, veículos, moradores e turistas foram arrastados pelas águas. O cenário paradisíaco virou circo dos horrores de um dia para o outro. Pessoas vagavam pelas ruas alagadas, em busca de parentes e amigos. O lixo dos aterros sanitários espalhava-se ao sabor da lama. Coisa de cinema, mas sem efeitos especiais. Tudo real. Não demorou para chegar a mídia, os políticos em seus helicópteros e os empresários com oferta de ajuda. O Brasil todo assistiu pela TV ao desenrolar da tragédia e como já vira aquele filme em Itajaí, Angra dos Reis, Morro do Bumba, tratou de mandar cobertores e garrafas d` água para poder mudar de canal e voltar à sua rotina. Sem parar para refletir.

aQui, os soBReViVentes Antonieta Coelho dos Santos, moradora do bairro Córrego d`Antas, está desde janeiro ligando para a Energiza, a Defesa Civil e o Juizado de Pequenas Causas, implorando pelo restabelecimento de energia na rua

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Neuzi Maria Lobo, dona de mercearia: ordem para sair da casa

onde mora. Sua casa é uma das poucas que resistiram à enxurrada: “Foi a benção de Deus porque as casas vizinhas dos dois lados caíram”. Jorge Storch, 60 anos, funcionário público, mora em casa erguida há mais de 30 anos num terreno hoje considerado, pela Prefeitura, área de demolição e já marcada para ir abaixo: “Minha mulher está com depressão”, afirma, lembrando que logo depois da tragédia recebeu a liberação da Defesa Civil e passou dois meses tirando lama de dentro de casa para depois pintá-la toda de verde. Aluísio Ribeiro, há 18 anos no bairro, têm consciência que construiu em área de risco, mas “na época ninguém disse que não podia” e hoje recebe o aluguel social de R$ 500,00 por mês, enquanto não volta para sua casa. Dona da mercearia do bairro, Neuzi Maria Lobo, recebeu proposta do governo para liberar sua casa em troca do aluguel social: “Eles disseram que aqui vão erguer um parque fluvial e nós temos que sair”. Sem entender nada e com pressão alta (24x 12), ela exibe o laudo da Defesa Civil que liberou sua casa para morar. É o caos. Ninguém sabe a quem apelar, as informações divergem, não há planejamento, nem administração dos problemas. Cada um atira para um lado, há desespero no campo de batalha, sem uma voz superior que oriente e que mostre um caminho. Sobreviventes de um desastre natural de grandes proporções, os moradores de Nova Friburgo vivem hoje uma tragédia social. Ao mesmo tempo em que se recuperam da dor causada pelas perdas humanas, tenta reaver as perdas materiais e construir uma nova história de vida.

na doR, o CResCimento Para o professor Evandro Vieira Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência-NETCCON.ECO.UFRJ, que no dia primeiro de outubro levou seus alunos do curso JPPS (Jornalismo de Políticas Públicas e Sociais) para ver de perto o que está acontecendo em Nova Friburgo, “vivemos uma civilização que é uma fábrica de tragédias porque não há sincronia entre linguagem e ação”. Apesar das feridas do abandono e do pouco caso por parte das autoridades e dos empresários, que dizem que fazem (a linguagem), mas que na verdade agem em prol de interesses próprios, o Professor vê uma luz brilhando nessa escuridão: a sociedade está se organizando. Um bom exemplo de que a sociedade de Nova Friburgo está se organizando é a Associação de Moradores do Bairro de Córrego d`Antas, que desde o dia da chuva vem trabalhando arduamente, mas com alegria e emoção, para amenizar a dor da sua gente. Através de reuniões constantes, arrecadação e distribuição de doações e mutirões nos fins de semana para limpar as casas invadidas pela lama, eles vêm fazendo a diferença. Seu atual presidente, o bombeiro Sandro Schottz, que no dia da tragédia salvou muitas vidas, não parou mais de fazer a sua parte para a construção de uma nova Nova Friburgo. Em recente ida ao Rio de Janeiro, como convidado da UFRJ, para expor a situação de sua cidade, Sandro disse: “Nasci e cresci no bairro Córrego D`Antas. No dia 12 de janeiro pudemos assistir a eventos extraordinários, que provaram que a natureza é um organismo vivo. Uma massa incrível de água assolou o meu bairro e toda a cidade de Nova Friburgo. Uma nuvem típica das chuvas de verão, formações em geral rápidas, durou quatro horas e meia – ela se retroalimentava. Chegou acompanhada de tempestade sonora, formando uma caixa acústica, que fazia tremer a terra. A chuva desencadeou uma série de movimentos, como enxurrada, escorregamento de terra, transbordamento do vale cortado pelo córrego. Há quem diga que também houve um terremoto, mas foi o estrondo dos raios que fez a terra tremer. O homem desafiou a natureza viva, construindo moradias na margem dos rios e nas encostas, com autorização da prefeitura; e instalando aterro sanitário sobre um talvegue – vertente por onde escorre a água. Com a enxurrada, o lixo se espalhou por toda parte e ficou evidente o consumismo desenfreado e a falta de políticas para o seu reaproveitamento.”

Vereador Claudio Damião: relatório

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Clima

SRP manda botar a boca no mundo Para o pedagogo e líder comunitário Evandro Rocha, morador de Amparo, a tragédia que o povo friburguense vive é decorrente da falta de sincronia entre cultura e natureza: “Achamos que a natureza é nossa inimiga, esquecendo que se trata de um organismo vivo, que precisa ser respeitado.” Incansável na luta pelo resgate da dignidade de seus conterrâneos, Evandro denuncia os malfeitos das autoridades e tenta divulgar a triste realidade do desamparo e do abandono, uma vez que a mídia parou de falar no assunto. “Nós, que denunciamos, somos os chatos, mas há famílias morando até hoje em postos de saúde, sem nenhum apoio do Estado. Não havia e não há plano de emergência. Vigora a lógica do consumo, a especulação imobiliária. Menos casas, casas mais caras. Tem gente faturando em cima da desgraça alheia. Parece o fim dos tempos, a barbárie.” Rodrigo Inácio, do Forum Sindical Popular, lembra que quem chegou primeiro ao local do desastre, até mesmo antes da ajuda humanitária, foram algumas empresas, antevendo ali uma oportunidade de negócio: “A primeira medida tomada pelo Estado foi a liberação do FGTS porque o consumo não podia parar. A fábrica de rendas fechou. O Condomínio do Lago, que já tem este nome porque ali costuma alagar, foi destruído. Uma tragédia anunciada. Em 2007, foi em Riograndina e Maringá virou uma comunidade fantasma. Agora, todo dia 12 de cada mês fazemos reunião em uma comunidade, elaborando o levantamento das demandas. “ Para Rodrigo, a tragédia social é pior do que a tragédia climática. Fábricas fecham, cresce o desemprego, a cidade se esvazia: “Faltam políticas públicas permanentes e não se vê planejamento.” Já o vereador Claudio Damião, autor da proposta de instalação de uma CPI para investigar o destino da verba pública para socorrer Nova Friburgo, trabalha incessantemente nas oitivas de testemunhas e elaboração do relatório. “Nosso prazo para apresentar é 15 de dezembro, mas quanto antes o fizermos, melhor”, diz ele. Segundo o vereador, o Plano Diretor de Nova Friburgo, aprovado na Câmara, é muito bom, mas não foi regulamentado até hoje. “A cidade montanhosa sofre a ação dos eventos climáticos e as áreas mais pobres ainda não receberam ajuda. Além disso não há plano de prevenção para tragédias futuras,” alerta. Ele também enxerga a luz na escuridão: “Existe hoje em Nova Friburgo uma grande corrente de solidariedade. Como diz o professor Tião Guerra, temos que aproveitar esse momento pós tragédia climática para construir uma nova cidade, em outras bases, ao invés de reconstruir aquela ilusão de sermos a Suíça brasileira.” Quem quiser mais informações sobre o andamento dos trabalhos de recuperação da cidade de Nova Friburgo, pode acompanhar o blog da ONG CESO – Convergendo esforços, superando obstáculos: http://cesorj.blogspot.com/ e o site da Associação dos Moradores do Bairro de Córrego d`Antas: http://corregodantas.org/.)

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rancisco de Assis Chagas de Mello e Silva, advogado, sócio do escritório Cândido de Oliveira Advogados é o presidente da SRP - Sociedade pela Responsabilidade Pública. “Criamos a SRP para atender às vítimas das enchentes de Nova Friburgo, mas estamos prontos para apoiar quaisquer cidadãos e organizações em suas reivindicações de indenizações, sempre que se sentirem lesados pela irresponsabilidade das autoridades , por omissão, incúria e dolo.” A SRP também visa melhorar a legislação, começando pela criação de uma Lei de Responsabilidade Social ou Lei da Defesa do Cidadão. “O que queremos é que a sociedade se mobilize, botando a boca no mundo e buscando apoio para suas reivindicações, pois o que vemos é uma apatia generalizada. Estamos aqui prontos para caminhar juntos. Não queremos liderar e nem temos a onipotência de saber exatamente o que tem que ser feito, mas nos colocamos à disposição da sociedade para dar apoio jurídico, atribuindo responsabilidades, identificando culpados. Acredito que se todos os funcionários públicos brasileiros, do presidente ao de menor escalão, agissem corretamente, desempenhando suas funções como devem, o País seria outro muito melhor. Mesmo quando não há corrupção, há o trabalho mal feito ou feito sem cuidado. Em sua última reunião, a diretoria da SRP decidiu pelo ajuizamento do secretário de Transportes do Rio de Janeiro no caso do desastre do Bonde de Santa Tereza. No site da SRP, pode-se acompanhar o desenrolar da CPI instalada em 15 de agosto último, quando a Secretaria Nacional de Defesa Civil e a Controladoria Geral da União (CGU) decidiram bloquear as contas da prefeitura de Nova Friburgo, depois que foram encontradas irregularidades na aplicação dos R$ 10 milhões destinados pelo Ministério da Integração Nacional para ajudar no socorro às vítimas e na reconstrução do município fortemente atingido pelas chuvas em janeiro. A prefeitura deveria se manifestar em 30 dias, logo, em 15 de setembro. Caso as justificativas apresentadas não sejam convincentes, os recursos terão que ser devolvidos à União. (Mais informações, no site http://www.srpcidadania.com.br/)


Itaipava,

o renascer, como

fênix

Texto: Maria Augusta de Carvalho, Especial para Plurale em revista, de Itaipava (RJ) / Fotos: Divulgação

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Vale do Cuiabá vive. A união e a solidariedade dos seus moradores fizeram com que o Vale ressurgisse da tragédia que se abateu sobre a região há nove meses. Os contrastes climáticos estão castigando Petrópolis, este ano. Primeiro, foi a chuva torrencial, seguida da enxurrada, no início do ano, que se concentrou no bairro do Vale do Cuiabá, em Itaipava; terceiro e mais charmoso distrito do município; e quase tirou a localidade do mapa. Agora, oito meses após, falta exatamente o que foi excessivo no inicio do ano, chuva. A vegetação dos morros que circundam os distritos de Itaipava, Nogueira, Araras, Pedro do Rio, Posse, Brejal e Corrêa está em perigo. Sem chuvas há mais de três meses; com a baixa umidade e o vento forte, o fogo se alastra com mais facilidade; principalmente em Itaipava e Araras. Até quarta feira, 21 de setembro, dia da árvore, o incêndio já havia consumido 572 hectares de mata da cidade. E, no início de outubro, a contabilidade do Corpo de Bombeiros ia a mais de 700 hectares atingidos. Ainda, de acordo com os Bombeiros, Petrópolis é a cidade da região serrana recordista em vegetação destruída pelo fogo; seguida por Friburgo com 350 hectares e, bem mais abaixo, está Teresópolis, com apenas 18 hectares. Somente em Araras, o fogo já consumiu mais de 200 hectares de Mata Atlântica. O Corpo de Bombeiros, com apoio de uma aeronave do Grupamento Aéreo sobrevoou áreas de preservação permanente (APP), jogando água, inutilmente. Já foram mobilizados 60 bombeiros – em sua maioria, chamados do Rio de Janeiro - e 15 guarda – parques da Reserva Biológica de Araras, pertencentes ao Instituto Estadual de Ambiente (INEA). O helicóptero que ajudou no combate ao incêndio tem a capacidade para lançamento de 500 litros de água por voo. A dificuldade de acessos, a topografia e as condições do terreno dificultam a ação. Quarta feira, 21 de Setembro, diversas entidades se reuniram para concentrar esforços e criar uma força tarefa para combater os diversos focos que pipocam pela cidade. Além do Corpo de Bombeiros, a Polícia Civil e Militar, Defesa Civil do Município e a Secretaria de Meio Ambiente de Petrópolis se uniram para evitar novas queimadas, contabilizando 372 focos, somente entre junho e setembro. CHuVas O comandante do grupamento do Corpo de Bombeiros de Petrópolis, tenente – coronel Rafael Simão, está preocupado com possíveis consequências do fogo, como desabamentos de encostas e deslocamentos de pedras com as chuvas de verão, já que não tempo hábil, até a próxima estação, de se reconstruir a mata destruída. Apesar de o Vale do Cuiabá estar restaurado, ameaças sempre existem, por conta da topografia da região. Esta mesma equipe, que está trabalhando in-

tensamente no apagar de chamas nas matas, é a atuou no início do ano, para ajudar os desabrigados e localizar moradores perdidos com a chuva descomunal que se concentrou sobre o Vale do Cuiabá, em Itaipava. Após oito meses, a prefeitura de Petrópolis informa que não há mais desabrigado do Cuiabá vivendo no Centro de Treinamento dos Correios, na Fazenda Inglesa, para onde foram levados, na época. A Secretaria de Trabalho, Assistência Social e Cidade do município assegura que todas as famílias estão recebendo o programa de Aluguel Social, destinado pelo estado. O comércio está funcionando quase que normalmente, com as pousadas se preparando para o final de ano e, as estradas em fase final de restauração. Entretanto, a própria presidente do INEA, Marilene Ramos, adiantou, em audiência pública, em Petrópolis, que o início de diversas obras de recuperação das regiões afetadas pela chuva – em especial a Boca do Sapo, no Vale do Cuiabá – podem não se iniciar a tempo. Segundo ela, foram solicitados à União Federal, recursos da ordem de R$ 305,4 milhões para Petrópolis. Esta verba seria dividida entre obras emergenciais (R$ 25,4 milhões), prioritárias (R$ 43 milhões) e R$ 237 milhões, para outras realizações, como dragagens de rios, por exemplo. Marilene atribuiu a burocracia federal ao possível atraso; como a análise do corpo técnico da Caixa Econômica Federal. Já o secretário Estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou que, até o final de setembro, terá em mãos a quantia de R$ 900 milhões em investimentos liberados pelo Ministério das Cidades e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para a região serrana e a Baía de Guanabara. Deste total, Minc disse que R$ 200 milhões serão específicos para drenagem e reurbanização das áreas mais prejudicadas na serra. O restante, R$ 700 milhões, irá para o saneamento dos municípios no entorno da Baia. A Região do rio Santo Antônio, afluente do Piabanha, em Petrópolis, será a área mais beneficiada com projetos de recuperação. ComÉRCio Andando pelo Vale do Cuiabá, não se percebe, a primeira vista, que o vale praticamente saiu do mapa. A prefeitura, o estado e a União Federal se uniram na re-

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Clima

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Antes

5 meses depois

construção das casas, estradas e recuperação ambiental. O pequeno comercio, as escolas e, principalmente, as pousadas voltaram a funcionar tão logo os caminhos foram liberados. A Pousada Les Roches, por exemplo, comandada pela empresário, Américo Palha, situada no Vale do Cuiabá, está funcionando normalmente desde o Carnaval, em março, após sua quase destruição no início do ano, e se prepara para os festejos de fim de ano. Palha reconhece que foi necessário lançar mão do empréstimo ofertado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES), no valor de R$ 200 mil para restaurar a área baixa da pousada. “Foram destruídos o acesso e a quadra de tênis. A recepção, o restaurante e os quartos ficaram livres da enchente, mas sofreu com a queda das árvores. Hoje, com tudo restaurado, criamos mais um campo de golfe, com seis buracos”, lembrou Américo. Seu empreendimento está sobre uma área de 90.000 metros quadrados na Mata Atlântica, e pertencente ao Roteiros de Charme. Já, para Luis Henrique da Silveira, engenheiro mecânico aposentado e ex-presidente do Petrópolis Convention & Visitors Bureau, não haveria condições de se evitar a catástrofe. “Aconteceram deslizamentos de áreas intocadas pela mão do homem. Mas,

houve irresponsabilidades também com o desmatamento desmedido”, lembrou. Hoje, ele está preocupado com a construção de novas casas para a população mais humilde, que ficou sem ter onde morar. “Não queremos casas do PAC aqui, não por preconceito, mas porque queremos restaurar a arquitetura e a cultura do local. Atualmente, 180 famílias estão necessitadas e a previsão é de se construir 61 novas residências. O que discutimos com as autoridades é como serão feitas, onde e como será a indenização a estas pessoas”, frisou Silveira, que é membro da Associação dos Moradores e do Conselho Comunitário do Vale do Cuiabá. O próprio INEA está se preparando para o próximo verão. A entidade está trocando experiências internacionais sobre risco de inundações e de deslizamentos. No dia 13 de outubro, aconteceu o primeiro workshop de cooperação técnica entre o INEA e o Ministério do Meio Ambiente e da Tutela do Território e do Mar, da Itália. Além deste, outros encontros estão previstos até o ano que vem, onde serão discutidos “emergências ambientais; remediação e gestão de áreas contaminadas; gestão integrada de recursos hídricos e adaptação às mudanças climáticas, e proteção da biodiversidade da zona costeira”, entre outros temas.

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Immacullée: sobrevivi pela fé e o perdão Nícia Ribas, de Plurale em revista

Vestindo traje típico africano, em tons fortes de vermelho, laranja e amarelo, com os cabelos longos penteados para um lado, a bonita africana Immacullée Ilibagiza falou de pé, durante quase uma hora, para o auditório lotado do Oi Casa Grande, Leblon, Rio de Janeiro, no último dia 10 de outubro. Sobrevivente do genocídio ocorrido em Ruanda em 1994, um dos maiores e mais sangrentos da história da humanidade, ela está no Brasil, participando de conferências e eventos nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Aparecida e Cachoeira Paulista.

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“Quando li o livro Sobrevivi para contar, da Immacullée, me apaixonei pelo seu relato, comecei a recomendar e a dar de presente para os meus amigos”, disse Silvia Aquino, que em parceria com o Instituto Ekloos, promoveu a vinda da ruandesa ao Brasil. Para abrir e encerrar o evento, foi escolhida a jovem banda Filarmônica do Rio de Janeiro, que encantou a plateia formada principalmente por católicos da Zona Sul. De família católica da tribo tutsi, Immaculée estudava engenharia na Universidade Nacional de Ruanda, quando, em 1994, os hutus decidiram exterminar os tutsis, estuprando mulheres e matando quase um milhão de pessoas em apenas 100 dias. Por orientação de seu pai e irmãos, ela ficou escondida na casa de um pastor, dividindo o espaço de um banheiro mínimo com mais sete mulheres, durante 91 dias. “Só sobrevivi por causa da minha fé em Deus e da minha capacidade de perdoar.” Com 23 quilos a menos, uma Bíblia, um dicionário de inglês e um rosário, Immaculée saiu daquele banheiro e ficou sabendo que toda sua família tinha sido dizimada. Após recuperar-se, passou a trabalhar na ONU. Em 1998, mudou-se para Nova York e continuou a trabalhar nos escritórios da organização durante vários anos. Hoje, casada com Bryan Black e mãe de Nikeisha e Bryan Jr., ela continua morando lá. Dedica-se atualmente à Fundação Ilibagiza cujo objetivo é ajudar sobreviventes na recuperação dos efeitos dos genocídios e das guerras. Recentemente, Immaculée Ilibagiza foi homenageada no “Michael Collopy de Arquitetos da Paz”, projeto que honrou legendários como Madre Teresa, Nelson Mandela e Dalai Lama. Recebeu também o título de doutora honoris causa da Universidade de Notre Dame e da Universidade de Saint John, além do Prêmio International Gandhi Peace Prize em 2007. “Conto minha história mundo afora com o objetivo de falar do genocídio, para que não aconteça o mesmo em outros locais. E também reforço sempre a ideia do perdão”, diz ela, que depois do genocídio foi à prisão para dizer aos assassinos de sua família que os perdoava.


Seminário Internacional – Ativismo & Governança Corporativa Os investidores em geral nos mercado de ações podem e devem exercer uma importante influencia na gestão das empresas que integram suas carteiras com o objetivo de obterem maior valorização nos seus investimentos. Através de um comportamento proativo conhecido como ativismo positivo, esse processo, que vem sendo cada vez mais desenvolvido principalmente pelos investidores institucionais, deve ser plenamente compreendido por todos os participantes dos mercados de capitais, assim como pelos administradores das empresas, para o aprimoramento da governança corporativa. Com a apresentação por um dos maiores conhecedores de governança corporativa o seminário, que será realizado no próximo dia 22 de novembro, no auditório da sede da Associação

COP 17 será realizada em novembro e dezembro, em Durban, na África do Sul A décima sétima Conferencia das Partes das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP 17) a ser realizada entre 28 de novembro e 9 de dezembro em Durban, África do Sul, tentará, mais uma vez, lograr um acordo global para uma redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) capaz de dar continuidade ao Protocolo de Kyoto, de 1997, cuja primeira fase de compromissos vence no final de 2012. Se um acordo, envolvendo 193 países, não for alcançado, até lá, a partir do início de 2013 criarse-á um vácuo de compromissos que comprometerá até mesmo os frágeis e insuficientes celebrados em Kyoto, inclusive as obrigações assumidas pela União Europeia e o Japão. Deixarão de existir quaisquer compromissos obrigatórios em relação ao

dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (Apimec-Rio), no Centro do Rio, será complementado com a experiência do maior fundo de pensão brasileiro. • O objetivo é destacar e debater a influência do ativismo e da governança corporativa sobre o desempenho das carteiras de investimentos em ações e a importância do comportamento dos investidores institucionais – particularmente os fundos de pensão – no preenchimento de suas obrigações fiduciárias, através de ações pro-ativas junto às empresas. • No mundo, cerca de US$ 3 trilhões em ativos, ou cerca de 1 em cada 8 dólares são administrados profissionalmente orientados por questões de governança corporativa (capitalismo sustentado) • Uma recente pesquisa constatou que na Alemanha cerca de 2/3 dos investidores institucionais são orientados por questões de sustentabilidade nos seus investimentos, e uma grande parte deles o fazem através de um ativo engajamento nesses objetivos.

clima sobrando apenas os “objetivos nacionais voluntários” divulgados por diferentes países e “anotados” pela ONU nas Conferências de Copenhagen e Cancun. As metas obrigatórias assumidas pela Europa e Japão, em 1997, mais o somatório dos objetivos voluntários assumidos em Copenhagen e Cancun, caso religiosamente cumpridos, ainda ficariam muito distantes daquele mínimo que os cientistas do IPPC (o Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas) estimam necessário para manter o aquecimento global médio do planeta abaixo dos dois graus estimados como limite acima do qual as consequências climáticas podem tornar-se dramáticas. Estima-se que o atual conjunto de obrigações e objetivos voluntários poderia, quando muito, limitar o aumento de temperatura média, até o final do século, em quatro ou cinco graus o que nos remete a cenários de aquecimento global que o IPCC considera dramáticos: derretimento das geleiras, violentas ondas de calor, fenômenos meteorológicos extremos, aumento do nível dos oceanos, danos à agricultura, desertificação acentuada, etc... Essa situação acentua a dramaticidade do que possa vir a ocorrer (ou não) na COP 17, em Durban, e, depois, durante o ano final de vigência da primeira fase do Protocolo de Kyoto, quando, inclusive, realizar-se-á a Conferência Rio + 20, que a princípio, não deverá tratar oficialmente da questão climática. Os grandes atores desse drama planetário são a China e os EUA que juntos são responsáveis por 40% das emissões de GEE, a União Europeia, a Índia, o Japão e o Brasil. O Deputado Federal Alfredo Sirkis será um dos representantes do Brasil nestas reuniões.

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Campo comemora 24 anos Isabel Capaverde, de Plurale em revista

Outubro é o mês de aniversário do Campo – Centro de Assessoria ao Movimento Popular, ONG que há 24 anos se mantém firme na missão de apoiar os grupos populares, fortalecendo a organização comunitária como força transformadora

que contribui para ampliar a cidadania e melhorar a qualidade de vida. Idealizada e coordenada por Cristiano Camerman, a instituição optou por trabalhar com grupos comunitários do Grande Rio de Janeiro. Nos últimos anos tem se dedicado especialmente a periferia de São Gonçalo (RJ), região que apesar da proximidade com a capital do estado sofre com o abandono do poder público. Ao longo desses anos, apoiado por parceiros europeus e brasileiros, o Campo tem ouvido os grupos e com eles procurado encontrar soluções criativas para a vida nas comunidades. Primeiro no trabalho com as creches e brinquedotecas, depois na formação profissional e geração de renda, em seguida na educação ambiental, que hoje permeia todos os projetos assessorados pela entidade. O Campo sempre teve como diferencial o trabalho desenvolvido pela

sua equipe, pelos seus assessores. O papel do assessor do Campo é ser um catalizador do grupo local, articulando e prestando consultoria, promovendo a autonomia dos envolvidos, para que juntos possam reduzir os reflexos da exclusão social. Como gosta de dizer Cristiano, “nada de dar o peixe e sim todos aprendendo a pescar juntos, Campo e grupos comunitários”. Aproveitando o aniversário para refletir sobre a trajetória da entidade, Cristiano fez um pequeno balanço da caminhada. Lembrou da Rocinha, comunidade que o acolheu e onde iniciou todo trabalho e disse que apesar de não se falar mais tanto em comunidades de base como nos anos de 1970 e 1980, ele ainda acredita que fortalecendo a organização comunitária conseguiremos as desejadas mudanças em nossa sociedade.

Jovens embaixadores na Alemanha Quatro jovens universitários, protagonistas em ações socioambientais, embarcaram, no fim de outubro, para a Alemanha onde foram participar da 8ª edição do Programa Jovens Embaixadores Ambientais, realizado pela Bayer em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Dentre os vencedores, os trabalhos apresentados estiveram quase todos voltados a problemas urbanos: Mariana Cerca, de Piracicaba (USP/ESALQ), é fundadora do projeto de Gestão de Resíduos da Arborização Urbana, sobre a correta destinação dos resíduos sólidos provenientes da atividade, que irá afetar a política socioambiental de mais de 74% dos municípios paulistas; João Paulo Amaral, de São Paulo (USP), é fundador do Bike Anjo, projeto sobre mobilidade sustentável (bicicletas) e cidadania que já se espalhou por 16 cidades do Brasil; e Alexandre Furlan Braz, também paulistano (ESPM), é fundador do Instituto Muda, que atua na reciclagem de resíduos de 35 condomínios, totalizando 91 toneladas de material reciclado. Já Thierry Marcondes (UNICAMP) participa de um projeto que ajuda a preservar um patrimônio histórico: ele é colaborador do projeto de Proteção e Reflorestamento da Floresta Mata Atlântica em Paraty (RJ) e foi responsável direto pelo plantio de mais de duas mil árvores e a neutralização de 350 toneladas de gases que causariam o efeito estufa. Além destes quatro estudantes, outros quatro também foram vencedores e participaram de uma semana de visitas, palestras e workshops no Rio de Janeiro e em São Paulo PLURALE EM REVISTA | Setembro EM REVISTA | Julho/Agosto 2010/ Outubro 2011 42 PLURALE


Com a mão na massa Texto e fotos: Nícia Ribas de Plurale em revista Alegria foi a marca do evento realizado pelo Grupo Telefônica no último dia 7 de outubro na Casa Emilien Lacay – Cruzada do Menor, no Pechincha, Zona Oeste do Rio. Trezentos empregados trocaram seus postos de trabalho nas empresas do Grupo pela casa que abriga 200 crianças e 70 idosos. Passaram lá o dia todo, reformando as instalações, arrumando cadeiras novinhas em folha nas salas de aula, pintando os móveis e os brinquedos do parquinho, cuidando da horta, da brinquedoteca e até criando um espaço novo, a Sala do Projeto Jovem, para ex-alunos da Instituição. Enquanto algumas equipes trabalhavam na reforma, outras distraíam os idosos com concursos de miss, bingo, dança de salão e cuidados com a beleza. Recém eleita Miss Primavera, Maria Alzira da Silva, solteira, 80 anos, não cabia em si de felicidade: “Freqüento esta casa há 18 anos, mas nunca tinha tido um dia tão alegre!” O jovem boa pinta, Diogo Barbosa Marques dos Santos , do Atendimento Vip da Vivo

(foto) vibrava com as emoções vividas entre velhinhas animadas que tirou para dançar: “Os idosos precisam de atenção!” As crianças, de 2 a 5 anos, foram levadas para uma casa de festas enquanto a varinha mágica da Telefônica coloria sua escola. Ao retornarem, no final da tarde, a surpresa estava estampada no brilho dos seus olhos. Mal conseguiam admirar todas as novidades e ainda dar conta do lanche com cachorro quente , sorvete, bolo e tudo de bom que os voluntários lhes ofereciam. “É muito bom ajudar quem precisa”, emocionou-se Patrícia Nogueira, especialista em capacitação comercial da Vivo, que passou o dia numa atividade bem diferente e “muito gratificante”. Ela ajudou a reformar uma das salinhas do maternal. O diretor de Negócios Leste, Pedro Azambuja, que no seu dia-a-dia gestiona pessoas e resultados, estava mexido com a experiência do voluntariado: “Saí de casa pensando que ia mudar a vida das pessoas e mudei a minha”. Já a diretora de Controle de Despesas de Negócios, Patrícia Franco, voluntária responsável pelo cuidado das crianças na casa de festas, trazia estampado no rosto rosado pelo calor e o cansaço, o sorriso de quem teve seu trabalho recompensado pelo olhar agradecido dos pequeninos.

Ainda com as mãos sujas de tinta, depois de pintar uma gangorra, o diretor Regional Leste da Vivo, Versione Souza informava que o Dia dos Voluntários Telefônica acontece pela sexta vez, mas só este ano reúne colaboradores da TVA e da Vivo. Realizado simultâneamente em 19 países da América Latina e Europa, onde a empresa atua, o evento mobilizou 10 mil empregados. No Brasil, aconteceu em 12 cidades, com 4.500 voluntários. À tarde, quem prestigiou o trabalho do seu pessoal foi nada mais nada menos do

que o CEO Vivo e Telefônica, Paulo Cesar Teixeira (foto). Com um sorriso de satisfação de orelha a orelha, ele conversou com seu pessoal, querendo saber o que cada um tinha feito e contou que, pela manhã, visitou a instituição beneficiada em Brasília: “Trata-se de uma aç��o anual do Grupo Telefônica que visa contribuir para a melhoria da vida das pessoas e incutir em nossas equipes de trabalho das diversas empresas o espírito do voluntariado”. No encerramento do Dia dos Voluntários Telefônica, o presidente da Cruzada do Menor, Sérgio Andrade de Carvalho, o superintendente Belmiro Nunes e a gerente Tereza Peres agradeceram terem sido escolhidos entre tantas instituições do Rio de Janeiro. Pairava no ar a sensação de alegria e esperança de se ter um mundo cada vez melhor. Um mundo em que seja possível crescer em market share e valorizar ações na bolsa, mas com os olhos voltados para o que realmente importa: vida boa para todos.

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Social

O diretor de Comunicação Coorporativa da Fiat, Marco Antonio Lage , Seu Bené e o arquiteto Gustavo Penna

Uma árvore que não para de dar frutos O Programa Árvore da Vida, idealizado e desenvolvido pela Fiat Automóveis e parceiros na comunidade em frente à fábrica em Betim na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), ganha sede própria

Texto: Isabel Capaverde, de Plurale em revista Fotos: Divulgação / Fiat

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eu Bené tira do bolso um papel dobrado. Diz que está emocionado e não sabe se conseguirá ler as linhas que escreveu para aquele momento. Com a sabedoria dos homens simples e de forma poética resume o que sente: “vi a semente dessa árvore ser plantada, pequena e frágil, enriquecida pelos parceiros. Virou árvore e foi cuidada pela comunidade. Os frutos dançam, tocam, cantam e encantam”. Como um dos moradores mais antigos da comunidade Jardim Teresópolis, onde vive há 30 anos recebeu das mãos de Gustavo Penna, o arquiteto, e Marco Antonio Lage, o diretor de Comu-

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nicação Corporativa da montadora, a maquete da futura sede própria do Programa Árvore da Vida, durante festa que reuniu autoridades, moradores, parceiros, executivos da empresa e imprensa. Na ocasião também celebraram os setes anos do programa social idealizado e desenvolvido pela Fiat em parceria com as ONGs Fundação AVSI e CDM (Cooperação para a Morada Humana) que já beneficiou mais de 14 mil pessoas e 109 instituições locais. A nova sede projetada de forma voluntária por Gustavo Penna, arquiteto responsável pela reforma do estádio Mineirão para a Copa de 2014 e profissional com inúmeras premiações


internacionais, será ecologicamente amigável e tem numa grande varanda coberta o seu maior destaque. Escadas e circulações serão vistos da varanda, evitando assim corredores e áreas escuras. “O espaço onde não entra o nosso olhar mora a solidão. Estamos propondo um edifício aberto, acolhedor, usando o conceito do que nos anos 1980 se chamava de bioclimática e hoje é conhecido como sustentabilidade, isto é, aproveitando luz e ventilação natural, com pés direitos altos, integrando a construção ao ambiente. Os vários espaços do prédio são intervisíveis, o que significa que ninguém estará sozinho. Nossa intenção é estimular a convivência”. Serão cerca de 1500 m² com muito mais conforto que a casa que alugam hoje em Jardim Teresópolis. Haverá salas e um auditório, num prédio com sistema de captação de água da chuva para reuso e materiais destacados da produção dos carros, como tecido automotivo e caixas de papelão, que servirão para tratamento acústico e pedaços de metal fazendo às vezes de persianas no controle de entrada da luz natural. Segundo Marco Antonio Lage, diretor de Comunicação Corporativa da Fiat, o objetivo é que a sede - construída em terreno adquirido pela montadora e parceiros captados pela Fundação AVSI e CDM que também custearão as obras - esteja pronta em meados de 2013. “É difícil a empresa falar em sustentabilidade plena se ficar de costas para a sua comunidade. Quando a Fiat se instalou em Betim, tínhamos na vizinhança altos índices de violência. Não podíamos copiar os projetos sociais da matriz, porque a realidade da Itália é outra. A Europa tem outra demanda. Lá o forte é a educação no trânsito. No início até chegamos a fazer algo nesse sentido, mas era preciso agir de acordo com a nossa realidade”. Ouvindo as pessoas do entorno e conhecendo suas necessidades criaram um projeto com ações voltadas para atividades socioeducativas, geração de trabalho e renda, e fortalecimento da comunidade. Também convidaram os fornecedores a participar do projeto. “Somos o segundo maior pólo automotivo do país, vindo logo atrás de São Paulo. Num raio de 50 quilômetros da fábrica existem cerca de 100 empresas. Tínhamos que envolver o complexo industrial no projeto. Fomos chamando e conversando com fornecedores. Alguns

já pensavam em fazer algo em prol da comunidade, mas não sabiam como e achavam que não tinham condições. E assim foram se tornando parceiros do Árvore da Vida”, conta. Resultados animadores Ao longo dos anos, a Fiat e os parceiros foram colhendo os frutos das iniciativas propostas. Na área socioeducativa cerca de 350 crianças são atendidas anualmente no Percurso Formativo Integral – que oferece cursos de dança, canto, percussão, memória e história, esporte e formação humana. De 2004 a 2010, houve um aumento de 25% de alunos aprovados no ensino regular e de 13% na permanência na escola, além de 28% dos alunos estarem mais interessados, com mais freqüência e participação nas aulas. Quando se fala de geração de trabalho e renda, mais de mil pessoas passaram pelos cursos de Capacitação Profissional, sendo que 1256 jovens foram encaminhados para entrevistas de emprego e 830 foram contratados via Centro de Referência ao Trabalhador (CRT). Outra ação bem sucedida nesta mesma área foi a criação da Coopeárvore em 2006, beneficiando, em números de 2010, 27 mulheres da comunidade. As cooperadas tiveram um aumento de 250% em sua renda. Dos 14,5 mil produtos feitos no

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primeiro ano, elas saltaram para 3,6 mil em 2010. Nesse período as cooperadas foram se aprimorando e hoje já atendem mais de 50 clientes. Breve os produtos da Coopeárvore serão distribuídos na Semana de Moda do Rio de Janeiro – Verão 2012, pelo estilista Victor Dzenk. Com mais qualificação e oportunidades de melhorar a renda familiar, a comunidade se fortaleceu, indo ao encontro da terceira área de ação proposta pelo programa. Formaram uma rede, a Rede de Desenvolvimento Social do Jardim, unindo 34 instituições. Houve ainda a criação de um Centro de Apoio às Instituições do município de Betim congregando 73 instituições e de grupos de referência, além da arborização de uma avenida e organização de um grupo para cuidar da segurança nas unidades de saúde. “Ao criar o programa estabelecemos como meta que ele se tornasse autossustentável em 10 anos. Ainda faltam três anos e meio, mas acredito que estamos no caminho”, diz Marco Antônio Lage. sonHo RealiZado Os números que revelam o êxito do programa têm muitos nomes e sobrenomes. Paulo Eloísio dos Santos, 25 anos, é um deles, um dos beneficiados pelo Árvore da Vida. Vestindo uniforme da Fiat ele fala sorridente sobre sua trajetória. Em 2006 começou no programa fazendo uma capacitação profissional. “Meu padrinho era taxista e desde pequeno eu gostava muito de mexer com carros. Aprendi muito com ele que tinha como sonho ser engenheiro. Infelizmente, ele morreu antes de me ver na Fiat”. O sonho do padrinho transformou-se no seu próprio sonho. Depois do curso de capacitação ele foi contratado pela Fiat e entrou para a faculdade de Engenharia Mecânica. Há três anos e meio trabalhando na empresa ele explica qual a sua função na montadora. “Trabalho na área de experimentação automobilística. O pessoal projeta, faz o protótipo e eu experimento para ver se funciona. A minha área analisa a viabilidade do projeto, se ele pode ou não ser fabricado”.

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PRÁtiCas sustentÁVeis na ilHa eColÓGiCa Além de estar atenta ao entorno, a fábrica tem incorporado práticas sustentáveis no seu dia a dia. Entre elas, a chamada Ilha Ecológica que não é uma porção de terra cercada de água e sim uma área para onde vão todos os resíduos industriais que possam ser reaproveitados ou reciclados. Como o isopor que embala muitas das peças enviadas pelos fornecedores é que era uma dor de cabeça antes da criação de um centro pioneiro de reciclagem só para ele. O isopor é processado e transformado em matériaprima para a produção de solas de sapato, corpos de caneta e os mais variados utensílios. Também como parte do processo de Gerenciamento de Resíduos, a montadora separa materiais que não passam pelo padrão de qualidade. Mulheres em sua maioria – segundo eles, por serem mais cuidadosas, sensíveis e atentas - trabalham separando o tecido dos bancos de carros, cintos de segurança e outra série de materiais que serão reaproveitados pela Coopeárvore. Hoje a montadora declara reaproveitar 100% de todos os resíduos sólidos. (*) A repórter viajou a convite da Fiat Brasil


CARBONO NEUTRO

SÔNIA ARARIPE

s o n i a a r a r i p e @ p l u r a l e . c o m . b r

CAMELÔ SUSTENTÁVEL Conheci David Portes, ou De-vi-di, como ele mesmo se apresenta, há cerca de 12 anos. Trabalhando, na época, para o Jornal O Dia, precisava achar um camelô que se diferenciasse do modelo tradicional da banca com produtos à venda. Se tem algo que David, tem é isso: diferencial. Já naquela época, com banca em ponto estratégico, na frente do prédio da Academia Brasileira de Letras e da sede do IPEA, no Centro do Rio, David se destacava: com conversa persuasiva que só, o camelô, 53 anos, exfuncionário de fábrica de discos, criou serviço de delivery, fez sorteios para fidelizar clientes, já tinha site na internet e ainda colecionava um sem número de slogans. Mais tarde nos reencontramos na Ponte Aérea: ele já era um consultor de vendas renomado, com cartão de milhagem aéreo de dar inveja a muitos executivos formais. Agora, ficamos felizes ao receber a mensagem dele informando que ele acaba de completar 25 anos de negócio com selo sustentável. “O aniversário é da banca. Mas o presente é para o planeta. Já adotamos as sacolas biodegradáveis, lixeiras seletivas e agora vamos utilizar parte do nosso faturamento para a plantação das árvores”, declara David.

CHINA PODE PASSAR EUA EM EMISSÕES PER CAPITA EM 2017 Jéssica Lipinski , do Instituto CarbonoBrasil

Apesar de ser o maior emissor de gases do efeito estufa (GEEs) do mundo, a China ainda está longe de ser o país que mais libera carbono por habitante, tendo uma emissão per capita menor que a média europeia e mais de 50% menor que a norte-americana. Mas um novo estudo indica que essa situação poderá mudar, e bem mais cedo do que se imagina: até 2017, a China poderá ultrapassar os EUA e se tornar o maior emissor de CO2 per capita do mundo. A pesquisa, conduzida pela Agência Holandesa de Avaliação Ambiental e pelo Centro Comum de Investigação da União Europeia (JRC) e patrocinada pela Comissão Europeia, mostra que, atualmente, as emissões per capita da China já são maiores que as de países como a França e da Espanha, e se igualam às do Reino Unido, devendo ultrapassar estas últimas em 2012.

BALEIA JUBARTE É PREMIADO O Instituto Baleia Jubarte recebeu, em outubro, o Prêmio Muriqui, por sua atuação em defesa da biodiversidade marinha. O prêmio, concedido pelo Conselho Nacional Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (CN-RBMA) desde 1993, é um dos mais importantes homenagens às ações ambientais de todo o Brasil. O Instituto foi reconhecido pelos resultados do Projeto Baleia Jubarte, que realiza estudos de comportamento da espécie, foto-identificação, genética, gravações do canto, registro e resgate de encalhes. Anualmente, as jubartes deixam a Antártica entre julho e novembro para se reproduzirem e amamentarem nas águas quentes da Bahia. Cerca de três mil baleias fazem essa migração anual.

DECLARAÇÃO DE MENDOZA PÕE NA AGENDA DA RIO+20 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Por Flamínio Araripe, do Blog Desimblogio, Especial para Plurale em site

As terras secas no mundo (áridas, semiáridas e sub-úmidas secas) não podem ficar fora da agenda da conferência de cúpula com chefes de Nações que discutirá, em junho de 2012, meio ambiente e desenvolvimento sustentável no Planeta, a Rio+20. Nestas regiões vive grande proporção dos pobres no mundo, os mais vulneráveis às variações e mudanças climáticas, também os que dispõem de menos meios para enfrentá-los. A terceira edição da Conferência Internacional sobre o Clima, Sustentabilidade e Desenvolvimento das Regiões Áridas e Semiáridas

(ICID+19), realizada nos dias 25 a 28 de setembro em Mendoza, Argentina, com 300 participantes de diversos continentes, produziu uma série de recomendações para a Rio+20 para enfrentar a pobreza e a desertificação na perspectiva da América Latina e Caribe. “O documento final que resulte da Cúpula da Rio+20 deve conter um capítulo específico sobre a problemática socioeconômica e ambiental das terras secas e as políticas, programas, inventimentos e arranjos institucionjais para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza”, recomenda.

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Consumo

Tim-tim saudável Produção orgânica invade vinhedos e rótulos sustentáveis chegam às prateleiras e cartas de vinhos de restaurante Texto: Letícia Koeler, Especial para Plurale em revista Fotos: Divulgação

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dieta moderna se baseia em alimentos refinados e processados, pobres em nutrientes, com alto teor de gordura saturada, sódio e açúcar. Esse é um dos principais fatores para o desastre da saúde humana. Verdade que nos últimos anos a procura por uma alimentação balanceada vem crescendo e, com isso, o aumento do consumo de produtos naturais e orgânicos. O Mundo Verde, loja de produtos naturais há mais de 20 anos no mercado, tornou-se a maior franquia do segmento na América Latina, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). Segundo a nutricionista Patrícia Davidson Haiat, do Rio de Janeiro, o conceito de cultivo orgânico vai além de simples cultivado sem o uso de agrotóxicos ou adubos químicos, pois tem o privilégio de prevenir doenças através de técnicas que conservam o solo e as águas. “Além disso, permite alimentos com mais nutrientes e com menos substâncias que podem ser tóxicas ao nosso organismo, com menos substâncias cancerígenas ou que podem provocar alterações genéticas”, explica. Essa consciência ecológica de consumo de produtos que, além de serem saudáveis, respeitam o meio ambiente, está chegando ao mercado dos vinhos. “Alguém já parou para pensar que, muito além de uvas fermentadas, alguns vinhos estão repletos de substâncias como conservantes e agrotóxicos,

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como qualquer outro alimento cultivado pela agricultura não orgânica?”, questiona a chef e sommelier Lis Cereja, da Enoteca Saint VinSaint, em São Paulo. Para atender a essa demanda crescente de clientes ecologicamente coretos, alguns estabelecimentos incluíram vinhos orgânicos em sua carta. Entre os 800 rótulos que oferece em sua carta, o Salitre, no Rio de Janeiro, reservou espaço para rótulos orgânicos como o tinto argentino Jean Bousquet Merlot 2008. “Precisamos nos adequar para atender a essa demanda, que vem crescendo nos últimos anos”, comenta a sócia Simone Rau. A delicatessen Zona Zen, também no Rio, aderiu aos rótulos verdes e passou a vender o vinho 100% orgânico Altano Biológico 2007. Depois de visitar a Vinitaly, na Itália, e na Vinexpo, na França, o chef e sommelier Sormany Justen levou novidades para a adega do Il Perugino, na Região Serrana do Rio. Entre as novidades, títulos orgânicos como Colome – Torrentes e Grüner velbltliner – Weingut Brundlmayer. Max Andrade, sommelier do Bergut Vinho e Bistrô, destaca o tinto chileno Orzada 2007 Carignan e o espumante argentino Vida Orgânica, da família Zuccardi, como alguns dos rótulos oferecidos que “resultam de uma agricultura respeitosa”. Segundo Pietro Simonetti, sommelier da Enoteca Fasano, no Rio de Janeiro, nesse sentido, o vinho orgânico é melhor do que o convencional, já que os pesticidas e os agrotóxicos usados nos vinhais não orgânicos acabam alterando o sabor do vinho. “O vinho orgânico é feito com a uva no máximo de seu potencial e representa a fiel expressão da terra, terroir como se diz, sem qualquer alteração”, comenta. Na Enoteca Fasano fazem parte da carta títulos como Maycas del Limari

Nutricionista Patrícia Davidson Halat

Chef e sommelier Lis Cereja

Reserva Especial Cabernet Sauvignon, Château Camplong les Serres, Bertrand Berge, Fitou Cuvée Origines 2008 e Fitou Cuvée Ancestrale 2007. Algumas vinícolas brasileiras como Garibaldi e Aurora já produzem vinhos de uvas originárias de vinhedos certificados, ou seja, que seguem todas as regras do cultivo orgânico. Aliás, para certificar vinhos orgânicos é preciso atender a regras rígidas e bem específicas. Uma delas proíbe o uso de qualquer tipo de substância química sintética. Outra norma impõe que, para controlar pragas na

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Orgânico Sormany Justen, chef e sommelier

Para ela, o biodinamismo deve ser encarado de maneira séria tanto pelos consumidores quanto pelos produtores. “Não é uma questão de moda ou de marketing. O vinho biodinâmico deve ser uma proposta de vida saudável e equilibrada, em harmonia, inclusive, com o ambiente em que vivemos”, diz. A sommelier conta que a maioria dos vinhos biodinâmicos é excelente, pela sua qualidade. “O sabor do vinho depende muito da seriedade, do conhecimento e do comprometimento do produtor”, comenta Lis. Na carta de vinhos da Enoteca Saint VinSaint, Lis destaca alguns rótulos como Kharacter, Racines, L’anglore La Pierre Chaude, Quartz, Le Loup dans la Bergerie, La Nita, Vina Tondonia Reserva 1991, Quinta da Covela Tinto Escolha, Tissot Rouge e Tissot Blanc. Algumas vinícolas vão além e seguem a proposta sustentável também em seus rótulos. As ecogarrafas, como são chamadas, são elaboradas com materiais recicláveis. A vinícola Miolo, no Rio Grande do Sul, por exemplo, tem garrafas mais leves, o que diminui a emissão de gás carbônico durante o transporte.

SERVIÇO: Bergut Vinho e Bistrô Av. Erasmo Braga, 299 B – Castelo Centro Rio de Janeiro / (21) 2220-1887 plantação, os produtores usem apenas predadores naturais. Também é exigido o uso de adubos e compostos biológicos e certificados na videira. Regras ainda mais rigorosas são impostas na produção biodinâmica. Nesse caso, o cultivo das uvas segue cuidados especiais com a saúde da vinha e acompanha até o ciclo da Lua. Nesse tipo de produção, a videira é vista como um ser vivo e as uvas são tratadas com recursos da própria natureza. Um exemplo é o plantio de rosas entre as videiras para afastar pragas de forma totalmente natural. Além disso, a colheita é manual e, em alguns casos, utiliza a força animal. Em 1994, a vinícola Velho Museu – Juan Carrau começou a produzir uvas finas de forma orgânica e biológica. A produção no vinhedo, localizado em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, utiliza adubação verde, húmus de minhoca, biofertilizantes, adubos folhares, melaço e calda bordalesa. Em 2002, o Instituto Biodinâmico certificou seus vinhos: Cabernet Sauvignon Semillon e Gewürztraminer, segundo a norma europeia 2092/91. Já a Enoteca Saint VinSaint oferece a maior carta de vinhos biodinâmicos do Brasil com mais de 160 rótulos. “Sempre brinco que a Enoteca é um dos restaurantes mais egoístas do mundo, pois eu e o Ramatis só incluímos na carta os itens de que gostamos, como é o caso dos vinhos biodinâmicos”, conta Lis, citando o parceiro de trabalho e marido, o também sommelier Ramatis Russo. Segundo Lis, diferente da vitivinicultura convencional, esse tipo de plantação busca o total equilíbrio entre a produtividade, saúde das plantas e menor grau possível de intervenção na natureza. “Os aditivos são usados em quantidades bem menores e com mais consciência”, explica Lis, que em 2009 visitou e ficou encantada com a pequena vinícola biodinâmica de Sergio Falzani, na Itália. “Foi muito interessante conhecer de perto como as uvas são tratadas nesse tipo de plantação”, diz.

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Clínica Patrícia Davidson Haiat Av. Visconde de Pirajá, 547 / 615 - Ipanema Rio de Janeiro – RJ / (21) 2511-1453 Delicatessen Zona Zen Estrada da Gávea, 636 – São Conrado Rio de Janeiro – RJ / (21) 3322-0966 Enoteca Fasano Estrada da Gávea 899 / 3º piso Fashion Mall – São Conrado Rio de Janeiro / Telefone: (21) 2422-3688 www.enotecafasano.com.br Enoteca Saint VinSaint Rua Professor Atílio Innocenti, 811 Vila Nova Conceição – São Paulo – SP Telefone: (11) 3846-0384 Salitre Rua Barão da Torre, 632 – Ipanema Rio de Janeiro – RJ / (21) 2540-5719 Il Perugino Estrada União e Indústria, 12.601 – Itaipava Rio de Janeiro / (22) 2222-3092 Mundo Verde: www.mundoverde.com.br Velho Museu: www.juancarrau.com.br Vinícola Garibaldi: www.vinicolagaribaldi.com.br Vinícola Aurora: www.viniculaaurora.com.br Miolo: www.miolo.com.br


VIDA Saud á vel Embaixadora do Gastronomia Responsável

A chef de cuisine Gabriela Carvalho, proprietária do Quintana Café e Restaurante, em Curitiba, é a embaixadora do movimento Gastronomia Responsável, uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza que tem como objetivo aliar conservação da natureza e alimentação de qualidade. “É um privilégio muito grande ser embaixadora de um movimento como esse. Foi um convite muito especial, pois qualquer pessoa ou empresa é responsável por fazer a sua parte e eu quero expandir cada vez mais essa consciência”, afirma Gabriela. Ela destacou ainda que o convite é um reconhecimento do bom trabalho realizado no restaurante. Gabriela terá como principal função representar, informar e articular o movimento. “A representação consiste em incentivar o movimento para os restaurantes parceiros e estreitar a relação com eles, ajudando com ideias e soluções criativas para o Gastronomia Responsável, além de ser mais uma porta-voz do movimento”, explica a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes.

Enriquecimento antioxidante Por Fábio de Castro Agência FAPESP – Depois de adicionar óleo de girassol com selênio orgânico e vitamina E à ração de vacas, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estudou não apenas o efeito produzido nos próprios animais, mas também em crianças que consumiram seu leite. Os resultados mostraram que, além de trazer benefício à saúde das vacas e aumentar a produção leiteira, a ração enriquecida melhorou a conservação do produto e aumentou os níveis de selênio e vitamina E no sangue das crianças que consumiram o leite suplementado. O trabalho, que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, foi coordenado por Marcus Antonio Zanetti, professor do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga (SP). O outro autor do trabalho, Arlindo Saran Netto, teve Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP e, durante sua pesquisa, em 2010, foi contratado como docente da FZEA.

Apoio:

Chá verde ajuda na dieta

Agora é oficial. De acordo com pesquisa de Gabrielle Aparecida Cardoso, aluna do programa de pós-graduação de Ciência e Tecnologia dos Alimentos da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ ESALQ), o chá verde é mesmo um grande aliado no combate à obesidade. Ela comparou a taxa metabólica de mulheres com sobrepeso e obesidade grau I, pré e pós consumo de chá verde aliado ou não à prática de exercício físico e avaliou a aceitabilidade da bebida, bem como possíveis reações adversas causadas pelo seu consumo. Segundo a pesquisa, o chá verde -a segunda bebida mais consumida no mundo - contém grande quantidade de compostos que proporcionam uma série de benefícios à saúde. Dentre eles a redução do risco de doenças cardiovasculares e de alguns tipos de câncer, melhoria das funções fisiológicas, efeito antihipertensivo, proteção ultravioleta, aumento da densidade mineral óssea, entre outras. A pesquisa ainda reforça que a ingestão do extrato também suprime a utilização de carboidrato, que gera aumento na quantidade de glicogênio no músculo, auxiliando o aumento da resistência na corrida, e por se ter menos lactato, há uma maior disposição física para continuar o exercício físico.

Carrinho sustentável Lembra do “velho” carrinho de feira dos tempos da sua mãe ou avó? Pois agora está super na moda um modelo mais fashion e ecológico: a ideia é a mesma, só que os carrinhos são forrados de panos ecológicos. Há vários modelos e preços no comércio em geral e o hit é mesmo um que até dobra e vira uma bolsa! Além de eliminar o uso das sacolas plásticas ainda garante mais saúde. Afinal, nada pior do que carregar peso demais nas sacolas de alças, mesmo que sejam ecobags.

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Literatura

LE TRAS PRE CO CES

Escritora gaúcha é a mais jovem a vencer o Prêmio SESC de Literatura Texto: Paulo Lima, Especial para Pluarele em Revista De Aracaju (SE) Fotos: Divulgação

L

uisa Geisler tinha acabado de chegar em casa vindo do mercado. O mês de março estava no fim. Com as sacolas machucando-lhe as mãos, pôs tudo sobre a mesa da cozinha. Aí bateu os olhos num recado que o irmão havia anotado num pedaço de papel, ao lado do telefone. “Flávia, do SESC, pediu pra ligar urgente.” Luisa havia inscrito o livro Contos de mentira no Prêmio SESC de Literatura, edição de 2010/2011, e já estava na época da divulgação do resultado. Uma primeira seleção havia sido anunciada, e o livro ficara entre os 39 finalistas. Foram 1.142 trabalhos inscritos, em duas categorias: conto e romance. Criado em 2003, o prêmio tem como objetivo revelar novos talentos. Os livros vencedores em suas categorias são publicados pela Editora Record.

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A ficha começou a cair. Se haviam ligado, não era para dizer que ela tinha perdido. Ainda na cozinha, Luisa pegou o telefone e ligou para o número indicado. Soube então que tinha vencido! Seu irmão foi o primeiro a receber a notícia. Depois, aos pulos, ela fez várias ligações. A primeira foi para a amiga Carol, que a ajudara no processo criativo do livro. Estava tão eufórica que teve de repetir a informação três vezes, até que a amiga pôde entendê-la. Gaúcha de Canoas, Luisa é a concorrente mais jovem a conquistar o prêmio. Nasceu em 1991. Mas seus contos, assim como suas ideias, revelam maturidade. “Confiava numa menção honrosa, não achava que meu livro era ruim, mas ganhar, eu achava uma hipótese pouco provável, via muitas falhas, que eu, aliás, ainda vejo”, disse num tête-àtête virtual. Despachei por email um copião com uma longa lista de perguntas que foram respondidas diligentemente. Você mal começa a mergulhar no livro, e já desconfia: a moça é lida. Viajada. Luisa estudou idiomas, traduziu, lecionou inglês e já ganhou outros prêmios literários. Ler seus contos é se aventurar nos ares do mundo. Uma pequena amostra, do conto “Apenas este réquiem para tanta memória”, que abre o livro: “The thing about airport is. Tu acaba esquecendo onde tu tá. Por isso o piloto avisa onde. aterrissa. Pra ele mesmo.” A escritora Marina Colasanti, que fez parte do júri do prêmio, sintetizou o estilo da jovem autora em texto publicado na contracapa do livro. “Não se trata aqui de


narrativas convencionais, princípio, meio e fim. Cada história começa no meio da história ou em um ponto qualquer do seu percurso, sem que nenhum fato marcante nos diga: neste ponto tudo teve início.” Luisa teve um contato precoce com a leitura. Na escola, era incentivada pelos professores, “por causa da boa redação”. As visitas à Feira do Livro de Porto Alegre, ao lado do pai, a deixavam impressionada. Começou ela mesma a fazer e ilustrar os próprios livros, depois os expunha num estande e os vendia ao pai por um real. “Eu queria saber como se faziam aquelas coisas de que eu gostava tanto, de onde vinham, queria fazer igual.” Tempos depois, ela participou de uma oficina de criação literária do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, que a ajudou a entender que a profissão de escritor e o processo de escrever eram algo possível de realizar. Foi lá que tomou conhecimento do Prêmio SESC. Para ela, as oficinas são uma boa opção, “desde que se tenha uma mente aberta para frequentá-las, saber ouvir, saber analisar o texto, esse é o crescimento que uma oficina traz”. A lista de seus escritores favoritos inclui clássicos e contemporâneos: Tchekhov, Hemingway, Flaubert, Joyce, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Thomas Pynchon, Luiz Ruffato e José Saramago. O mesmo ecletismo se estende ao cinema e à música. Ela cita diretores como Francis Ford Coppola, Kubrick, David Lynch e Hitchcock, embora admita “uma quedinha” por diretores europeus como Almodóvar e Polanski. Gosta desde Beatles a Van Halen, passando pelo rock alemão de Jennifer Rostock, Wir Sind Helden e Flight of the Conchords. Mas deixa bem claro: “Pra mim, música é uma questão de contexto”. O prêmio não a fez baixar a guarda. “Tenho vergonha de 90% de tudo que escrevi, então, no geral, acho tantos defeitos em qualquer texto quanto nos iniciais”. Mas reconhece: “Os personagens com certeza melhoraram muito”. E que livros ela gostaria de ter escrito? A lista traz pesos pesados da literatura: Ulisses, de Joyce; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; o conto “Hills like White elephants”, de Ernest Hemingway; Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. A razão para as escolhas é simples. “Gostaria de ter escrito todos por sua ousadia, por serem textos que experimentaram e deram certo, além de terem sido muito bem-escritos, com histórias fascinantes.”

Dois temas não poderiam ficar de fora da conversa. O que uma jovem escritora pensa sobre os e-books e toda essa febre? Para ela, trata-se de uma discussão mais mercadológica do que literária. Não importa a plataforma, se cordel, e-book ou o que seja. “O que importa”, diz, “são as histórias e os sentimentos humanos, que permanecem”. Por isso, ela não acredita nesse negócio de que o livro tradicional esteja com os dias contados. “Nem pensar. Mesmo que, na pior das hipóteses, ele perca toda sua utilidade atual, mesmo que ele se torne um objeto decorativo, ele sempre será um objeto de afeto de muitos. Menos livros impressos, provavelmente, mas não vejo o fim deles.” Não menos urgente é a questão da leitura no Brasil. Como ela vê o assunto? “A ideia de literatura está obrigatoriamente ligada ao conceito de um intelectual. É difícil, exige uma pessoa inteligente, e não é assim”, acredita. “Há literatura pra todos os gostos, pra todos os públicos, há leitores que adorariam produções contemporâneas e ficam trancados em Machado de Assis.” O problema, segundo Luisa, é que a literatura passa uma imagem petrificada, como algo que exige esforço, que não dá pra ler num trem, por exemplo. “Essa barreira inicial combatida, o leitor nota que não é esse bicho de sete cabeças, o caminho pra leitura flui melhor.” Seus pais estão muito orgulhosos, mas não deixam de ter alguma preocupação. “Minha mãe acha que não consigo organizar minhas finanças, eles têm um pouco de dificuldade de entender tudo o que tem acontecido”. Quanto a Luisa, pode-se dizer que a nova condição não a deslocou do seu eixo. “Quando estou com amigos, ou com qualquer pessoa da minha idade, tento não ser uma escritora. Tento ser só uma universitária, uma guria de 20 anos, então, no geral, tento não deixar afetar.” Ela participou como convidada da última Festa Literária de Paraty, mas não se deixou levar pela badalação. “Vou pra a Flip como uma estudante de Medicina que vai pra um congresso. Sou escritora premiada, sim, mas é um emprego como outro. Não acho que ter publicado um livro ou ser escritora me endeusem.” A inspiração para seus contos surge tanto dos panfletos que recebe a caminho do trem, quanto do trabalho de um artista, como o ilustrador Pirecco. “Morro no flickr dele.” O mote pode vir ainda do cachorro dela, da mãe, de uma frase, dos livros e da internet. “As minhas melhores ideias

uma “ideia,Eueutenho a trabalho

bem antes de colocá-la em texto, rabisco alguns pensamentos e pontos-chave, penso a estrutura, vou pro papel, sigo, mas não sigo o que planejei. Quando termino, analiso, reescrevo. Acrescento detalhes, tiro informações. Depois disso, analiso e reescrevo. Acrescento informações, tiro detalhes. Mostro pra algumas pessoas, discuto, analiso, reescrevo, enxáguo o cabelo e repito o processo.

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Literatura surgiram enquanto rabiscava durante aula de Cálculo, ou na volta pra casa, no trem, ouvindo música e não pensando em nada.” Sobre seu processo criativo, explica: “Eu tenho uma ideia, eu a trabalho bem antes de colocá-la em texto, rabisco alguns pensamentos e pontos-chave, penso a estrutura, vou pro papel, sigo, mas não sigo o que planejei. Quando termino, analiso, reescrevo. Acrescento detalhes, tiro informações. Depois disso, analiso e reescrevo. Acrescento informações, tiro detalhes. Mostro pra algumas pessoas, discuto, analiso, reescrevo, enxáguo o cabelo e repito o processo.” Ela não acredita em vocação, mas entende que o escritor precisa de um pouco de visão diferente de mundo e de um pouco de talento. “O raciocínio é de 30% inspiração e 70% expiração, o esforço faz mais diferença que talento.” Luisa já viajou por diversos países: Dinamarca, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, França, Holanda, Portugal, Estados Unidos, Chile, Uruguai, Argentina. Fala inglês, se vira “super-bem” em francês e italiano, arranha espanhol, já estudou um pouco de holandês, russo e japonês. “Acho muito interessante como os idiomas se relacionam, se assemelham ou diferem, me interessam muito as palavras que só existem num determinado idioma, tipo saudade ou schadenfreude”. Estuda também o alemão, por representar um projeto de vida. “É a língua que mais se difere do português, pra mim, portanto, a que mais muda meu jeito de enxergar meu próprio idioma.” Um novo livro já está a caminho, um romance. “Não quero adiantar muito porque acho que vou desorganizar tudo ainda, mas tem a ver com uma tentativa de suicídio, más influências e um estranho no ninho, por aí”. Seguir a carreira de escritora está naturalmente em seus planos. “O prêmio e a primeira publicação ajudam muito a trazer ideais e vontades pro chão”. Mas não seria a única carreira. Luisa é estudante de Relações Internacionais na ESPM, em Porto Alegre. “O curso me ajuda a entender diversos fatores do mundo, é uma área acadêmica jovem e é muito necessária, que me ajuda a ampliar minha visão de mundo, entender as realidades e as possibilidades, além de refletir sobre elas, características que acho essenciais a qualquer escritor contemporâneo.” Não é pouco para quem nasceu ontem. E Luisa Geisler está apenas começando.

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nte ilo que a ge gosta daqu vi da “A gente só da e rt aior pa e. Passa a m o, tu do nã co mpreend se as co isas, mpreender só resta , do tentando co significa cado. E sem ifi gn si o e perd a morte. te. teme a mor To do mundo a vi da sem um r edo de vive a sempre, Eu tenho m isa viver pr nguém prec Ni . do ca ifi viveu sign te se você só é suficien z ve a vros, um viver gostar de li que é fácil so is r po É d ireito. cado já vem tos, o signifi en am on ci co mo filmes, rela que gostar, sua cara. O na o ad nal, it m vo ontece no fi zer, o que ac fa e qu o , gostar Halls preto. o cara co m safio. co mo chupar esse é o de das co isas, do ca ifi gn r. Tanta Achar o si cado, não da har o signifi Ac . m be ja de cinema Ve do ingresso e a merda qu la fa e orado e gent ando o nam rque fo i qu po te an rt é impo mimimi... ca. vel. Dar Cala essa bo do mensurá um significa m tê as lor is As co utar, é o va atalhar, é ch é do ca u ifi um sign gnificado. Se d iscute o si se o Nã o. aproximad zinha só que o da vi le mais do va o nã o lh fi é seu. porque ele boca mais que calar a am nh ti s oa As pess e to do seguido. eu quer ia qu tos em que en om m m Te sse a boca.” mundo cala

(Trecho do conto “Casaco de lã, raio de sol, cheiro a jasmim e porre de vodca”, do livro Contos de mentira)


Estante

Por Carlos Franco, Editor de Plurale em Revista

GUIA IMF - COMPANHIAS ABERTAS 2011 / 2012 IMF Editora

A IMF Editora lançou a edição 2011/2012 do Guia IMF Companhias Abertas. O Guia apresenta um diretório completo sobre as companhias, incluindo dados como segmento de listagem, atividade principal, endereço, telefone, e-mail, website, nome do diretor de RI, principal acionista e composição do capital. A publicação também destaca dados do balanço e resultados das companhias nos últimos três anos. É também fornecido um perfil detalhado (“Fact Sheet”) de 24 das principais empresas negociadas e uma seção especial com os fundamentos e as definições para entender o funcionamento do mercado de ações. “Com os dados de todas as empresas abertas em mãos, o investidor tem muito mais facilidade para tomar suas decisões de investimento de forma consciente. É o que permite a nova edição revista e ampliada do Guia IMF Companhias Abertas”, explica o diretor da IMF, Ronnie Nogueira.

LIÇÕES DE UM EMPRESÁRIO RADICAL

Ray C. Anderson,co- autoria Robin White, Editora: Cultrix, 360 págs, R$ 55,00 Em 1994, Ray Anderson, fundador e CEO da Interface, definiu uma meta audaciosa para a sua empresa de carpetes: não tirar da Terra o que a Terra não possa repor. Agora, neste livro extraordinário, Anderson lidera o caminho à frente e nos desafia a compartilhar essa meta. Com ideias práticas e consequências mensuráveis que qualquer negócio pode utilizar, Anderson mostra que o lucro e a sustentabilidade não são mutuamente exclusivos; as empresas podem melhorar os seus resultados financeiros e agir de modo sustentável. Escrito com paixão e o know-how realista de um executivo, Lições de um Empresário Radical é o livro de negócios mais inspirador da nossa época. Ray Anderson foi uma dos principais lideranças empresariais sobre Sustentabilidade. Faleceu recentemente de câncer.

A URGÊNCIA DO PRESENTE BIOGRAFIA DA CRISE AMBIENTAL Israel Klabin, Editora: CampusElsevier, 392 págs, R$ 59,90

Acaba de ser lançado o livro “A urgência do presente - biografia da crise ambiental”, o primeiro de Israel Klabin. A publicação traz prefácio de Fernando Henrique Cardoso. “O livro surpreende por vários e bons motivos. Ganhou o ambientalismo um exemplar lutador”, define o ex-presidente no entusiasmado texto de apresentação. Em sua obra inaugural, o ex-empresário cruza temas diversos sem perder seu ponto central: o ambientalismo e a possibilidade de um desenvolvimento realmente sustentável. O autor foi movido por três eixos estruturais que hoje estão na berlinda: o meio ambiente, o modelo econômico e o modelo político. Segundo ele, “se não fizermos mudanças nesta década, o mundo que teremos em 2020 já estará extremamente problemático, e em 2050 poderemos ter uma Terra completamente diferente da que conhecemos hoje”.

MINHA VIDA COM BORIS - A COMOVENTE HISTÓRIA DO CÃO QUE MUDOU A VIDA DE SUA DONA E DO BRASIL Thays Martinez, Globo Livros, 142 págs, R$ 24,90 Com uma narrativa envolvente, a biografia Minha vida com Boris - A comovente história do cão que mudou a vida de sua dona e do Brasil detalha o relato de um triunfo da cidadania. No vibrante resgate das memórias, Thays Martinez aborda também a profunda amizade com Boris – uma conexão baseada em confiança e cumplicidade que deixa como legado uma comovente história de afeto para além da vida. A obra traz ainda o relato de aspectos que permeiam o dia a dia de pessoas com deficiência visual – a escolha de roupa e maquiagem, a locomoção, as relações interpessoais, a vida no ambiente corporativo, as conquistas profissionais, o aprimoramento pessoal, a faculdade e pós-graduação e a convivência com cães-guia – Boris e Diesel – de personalidades diferentes. Um diálogo inspirador para pessoas com deficiência ou não.

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P e las Em pr esas

ISABELLA ARARIPE

Ação voluntária da Unimed-Rio Estimular o Voluntariado. O Projeto Ação Voluntária, desenvolvido pelo segundo ano consecutivo na UnimedRio, tem um objetivo bem claro. E tem sido bem sucedido. Na edição de 2011, a iniciativa teve onze projetos inscritos, dos quais seis foram aprovados. A avaliação e seleção das ações foram realizadas por um comitê formado por gestores da Unimed-Rio e por um consultor de Responsabilidade Social. Entre os selecionados, há propostas de melhorias na infraestrutura e distribuição de roupas e alimentos em instituições de amparo e acolhimento de crianças, idosos e deficientes, além de ações para a modernização de salas de informática comunitárias.

Coca-Cola lança garrafa pós-consumo reciclada

Da esquerda para a direita: Marco Simões, vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil; Roberto Laureano, representante do Movimento Nacional dos Catadores; Mário Antônio Veronezi, diretor da Spaipa; Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu; e Rino Abbondi, vice-presidente de Técnica e Logística da Coca-Cola Brasil

A Coca-Cola Brasil lançou, em setembro, a garrafa Bottle-to-Bottle. Trata-se de uma embalagem PET produzida parcialmente a partir de garrafas PET pós-consumo recicladas. Com esta nova demanda para o PET reciclado, direcionado à fabricação de embalagens para alimentos, espera-se uma valorização do material coletado, impulsionando toda a cadeia de reciclagem do País. E há uma preocupação também social: está sendo incentivada a coleta seletiva através de cooperativas. Segundo o vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, Marco Simões, “com o lançamento da bottle-to-bottle confirmamos nosso compromisso de inovação no segmento. Além dos benefícios ambientais, o PET reciclado passa a ter mais valor, aumentando também a remuneração das cooperativas”. Por conta da novidade, até o fim de 2011 serão economizadas cinco mil toneladas de PET virgem.

Sustentável 2011 produz versão brasileira do Visão 2050 O 4ª Congresso Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável – Sustentável 2011 foi realizado no fim de setembro, no Rio de Janeiro, no mesmo local onde será realizada a Rio+20, com a proposta de discutir os principais rumos da economia verde nos próximos 40 anos, com o tema “Visão 2050: agenda para uma nova sociedade”. O evento foi organizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), representante no País do World Business Council for Sustainable Development (WSBCD), que está realizando o estudo Visão 2050. “Nosso papel é fomentar entre as empresas e toda a sua cadeia de valor essa nova consciência de que os negócios hoje não podem mais ser feitos de forma tradicional, caso contrário, o planeta não irá sobreviver”, afirma a presidente do CEBDS, Marina Grossi. O Visão 2050 propõe 40 tarefas para um mundo mais sustentável e começou a ser adaptado para uma versão brasileira durante o Congresso, com o apoio da consultoria da PWC no Brasil.

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Fundação Itaú Social: Responsabilização das escolas O Seminário Itaú Internacional de Avaliação Econômica de Projetos Sociais, realizado em outubro pela Fundação Itaú Social, no Rio de Janeiro, colocou em pauta os desafios da educação abordados a partir de avaliações de políticas públicas na área. Para participar do debate, desembarcaram no país o especialista norte-americano David Figlio (Northwestern University), que abordou sistemas de responsabilização das escolas em sua palestra, e a chilena Alejandra Mizala (Universidad Alejandra Mizala de Chile), que apresentou estudo no qual avalia o impacto que o sistema de accountability chileno, denominado SNED (Sistema Nacional de Evaluación del Desempeño de los Estabelecimientos Educativos Subvencionados), tem nas decisões dos pais sobre onde matricular seus filhos.

Remoção inédita de mico-leão tem apoio da Fundação Grupo Boticário De Curitiba- Pela primeira vez no Brasil, pesquisadores preparam a retirada de grupos de mico-leão-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) de uma área em Niterói, no Rio de Janeiro, próxima a uma região habitada por outro primata, o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia). A remoção será necessária para evitar que os grupos se encontrem, o que seria prejudicial à manutenção de ambas as espécies. Os micos-leões-de-cara-dourada removidos serão soltos em uma área de Mata Atlântica no sul da Bahia, dentro de sua região de ocorrência natural, mas num lugar onde atualmente não há exemplares da espécie. O programa de remoção do mico-leão-da-cara-dourada será desenvolvido pelo Instituto Pri-Matas para a Conservação da Biodiversidade, com o

apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção a Natureza. O instituto terá também a parceria do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Conservação Internacional-Brasil, Associação Mico-Leão-Dourado, Instituto Estadual do Ambiente (INEA-RJ), Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, Instituto de Estudos Socioambientais do Sul da Bahia e Universidade Federal do Espírito Santo/ Centro Universitário Norte do Espírito Santo (UFES/CEUNES). Além da Fundação Grupo Boticário, patrocinam a iniciativa: Câmara de Compensação Ambiental - Rio de Janeiro Lion Tamarin of Brazil Fund, Primate Action Fund, Margot Marsh Foundation e MBZ Species Conservation Fund.

GDK recebe premiação A GDK S/A recebeu do Instituto Ambiental Biosfera o diploma e medalha de Destaque Empresarial Brasileiro em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Criado em 1989 o Instituto tem, entre seus objetivos, a promoção das boas práticas de desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social no Brasil. A GDK, por sua vez, é uma das principais empresas nacionais com atividades em engenharia, construção, montagem e manutenção industriais, nos setores de energia, petroquímica, infraestrutura e construção civil. Prof. Dorival Correia Bruni, Presidente do Instituto Ambiental Biosfera; Abelardo de Oliveira Filho, presidente da Embasa, Samuel Reche, Diretor de QSMS/CRS da GDK S/A e Deputado Federal Carlos Alberto Leréia

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Criatividade

Sonho transforma garrafas PET em pássaros Agrônomo cria técnica e ensina jovens a trabalhar com material reciclável em hortas comunitárias e no artesanato Texto e Fotos: Flamínio Araripe, Especial para Plurale em revista De Fortaleza (CE)

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agrônomo João José Anselmo dos Santos recebeu em sonho a visão de experimentar garrafas PET para fazer canteiros de hortaliças, um dos cursos que ministrou no Centro Vocacional Tecnológico de Icó, o primeiro implantado no Ceará. O que era para virar lixo, se não fosse salvo por alguma empresa de reciclagem de garrafas PET, ganha asas e voa na imaginação do artista. A ideia evoluiu e seis anos depois, em outro sonho, foi transformada em pássaros que são também vasos de plantas. Em Icó ainda são vistos papagaios, chamados de “loros”, um símbolo do município. Desafiado a fazer um louro de garrafa PET, Anselmo disse que não sabia. Mas no sonho o projeto com as parte a serem cortadas se apresentou. Tudo foi anotado de manhã no caderno que não sai de perto da cama do artista. Cedo do dia, ele cortou as garrafas e nasceu o papagaio. A coruja veio no mesmo parto do sonho para a realidade. Mais de 80 araras, tucanos, patos, gansos, beija-flores, papagaios e corujas foram produzidos por 20 agentes jovens que aprenderam a técnica em um curso para a Secretaria de Ação Social dado por Anselmo que transformou nos pássaros mais de 1.200 garrafas PET. A oficina resultou na decoração do Forricó, a maior festa do município, em junho, com muito forró, como o nome diz, e o apelo do charme ambiental. Os pássaros já visitaram Fortaleza em 2009 no Encontro Intercontinental Sobre a Natureza (O2), no qual Anselmo fez uma apresentação do processo de criação e reutilização das garrafas PET. Com outros materiais de plástico ele confecciona brinquedos, helicóptero e caminhão. Do tubo de shampoo fez um carrinho. O sonho atual do artista, que também é coordenador do CVT de Icó e professor do curso de Administração da Faculdade Vale do Salgado (FVS), é levar o projeto para escolas para estimular a consciência ambiental e a criatividade dos alunos com as hortas e pássaros de garrafas PET.


Fundador do grupo ecológico Amigos da Natureza de Icó, com mestrado em irrigação e drenagem, Anselmo dos Santos organiza trilhas nas serras do município. Os caminhantes visitam jazidas de pedras semi-preciosas, vegetação que acreditam ser resquício da Mata Atlântica, vestígios de pintura rupestre e de civilizações remotas. Fundador da Associação dos Apicultores de Icó (AAPI) e membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Jaguaribe, o agrônomo comemora a produção de mel de 26 produtores do município de 404 quilos cada um. O CVT armazena quase 2 toneladas do produto que será vendido

em sachê para agregar valor à produção. A máquina de fazer sachê já foi comprada. Secretaria e Petrobras vão lançar edital de apoio a microempreendedores culturais Os objetos de arte criados por Anselmo dos Santos são arte para mostrar no Brasil e no mundo, avalia Teresa Cristina Oliveira, chefe de Gabinete da Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura, após ser apresentada ao trabalho com garrafas PET. Criada na gestão da presidente Dilma Rousseff, segundo ela, a Secretaria vem com um olhar sobre viés da inclusão produtiva, sustentabilidade e diversidade cultural, três eixos estruturantes. Em parceria com a Petrobras, o Ministério da Cultura vai lançar um edital para premiar microempreendedores na área da economia criativa. Com base nos projetos selecionados, será elaborado um mapeamento das diversas expressões culturais, informou Teresa Cristina Oliveira. Uma das duas linhas de atuação da Secretaria é a microeconomia, o apoio aos empreendedores para capacitá-los na competência criativa, alinhavar parcerias, criar incubadoras e birôs de serviços. “Este é um conhecimento novo, do

qual poucas instituições se apropriaram”, comenta. Outra vertente da política é a da macroeconomia, com a identificação de territórios criativos, pesquisa de Arranjos Produtivos Locais (APL), levantamento de dados sobre circulação de mercadorias e serviços. A Secretaria dará foco às ações de capacitação para a formação de profissionais que sejam sensíveis às suas identidades culturais e capazes de projetá-las, informa a gestora do Ministério da Cultura. Segundo Teresa Cristina, os artistas podem sobreviver de sua arte. “Mas muitas vezes as pessoas se apropriam da produção que é resultado de um processo criativo e sim-

plesmente anulam o valor agregado, inclusive o valor de produto agregado, que tem valor simbólico. Uma obra de arte é muito mais que o custo da tela e a tinta, mas é valorada pelo trabalho do artista”, argumenta. Teresa Cristina defende a importância de capacitar profissionais para atuar no entorno das atividades culturais, que sejam capazes de gerenciar uma empresa, e como exemplo cita a formação de carpinteiro para cenários de teatro e a de iluminador de cena. A gestora cultural destaca os jovens produtores do ambiente digital que criam para um mundo cada vez mais multimídia e multilinguagem que estão se profissionalizando. No campo da economia criativa, a gestora observa que alguns setores estão mais estruturados como os segmentos da moda, arquitetura, design, jogos eletrônicos e toda criação que se faz em ambiente digital. Para ela, o Porto Digital de Recife é um exemplo na área ao criar jogos para celular e inovar na forma de divulgação da arte com novas interfaces. A Secretaria, segundo ela, tem uma perspectiva de trabalhar em parceria com universidades, Institutos Federais de Educação e, no Ceará, prospecta uma ação com o instituto Centro de Ensino Tecnológico (Instituto Centec).

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Educação

o d u n a c " i M " l e p a p e d Inspirada no espirituoso samba de Martinho da Vila, “O pequeno burguês”, Plurale visitou o sistema educacional argentino para descobrir por que estudantes brasileiros estão, cada vez mais, mudando de endereço.

Texto e Fotos: Aline Gatto Boueri. de Buenos Aires, Correspondente de Plurale na Argentina

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S

ábado de manhã na Cidade Universitária da Universidade de Buenos Aires (UBA), Trinidad Haedo entra a numa sala com cerca de 100 alunos no subsolo do edifício da Faculdade de Arquitetura, Desenho e Urbanismo (FADU). Docente há oito anos na UBA, onde trabalhou entre 2003 e 2006 ad honorem, ou seja, sem cobrar um salário, e na Universidad Nacional de San Martín (UNSAM), ela é da geração que viu morrer a paridade entre dólar e peso dentro dos corredores da maior e mais antiga universidade da Argentina, que completa 190 anos em 2011. Formada em Sociologia – Bacharelado e Licenciatura – Trinidad tem 34 anos e dá aulas de Sociedade e Estado para estudantes do Ciclo Básico Comum (CBC) que, em suas palavras, “é a melhor forma dar acesso pleno à universidade e ao mesmo tempo garantir que o estudante comece a carreira com conhecimentos básicos necessários para isso.”

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É que na UBA e, salvo em raras excessões, em toda a Argentina não existe o temido vestibular. O estudante que deseja cursar uma carreira universitária precisa comprovar que terminou o ensino médio (ou em alguns casos, para maiores de 25 anos, comprovar experiência em trabalhos que o tenham preparado para a entrada na universidade) e pronto. Não há vagas, não há competição. Para começar a cursar as matérias específicas da carreira escolhida, o estudante tem que ser aprovado nas seis matérias que compõem o CBC: Sociedade e Estado, Pensamento Científico (comuns a todos os calouros), duas relacionadas à área de estudo (Ciências Humanas, Ciências Biológicas ou Ciências Exatas) e duas específicas da carreira na qual se inscreveu. O CBC existe desde 1985, dois anos depois da volta à democracia na Argentina, e tem como objetivo


nivelar os conhecimentos dos que chegam à universidade e prepará-los para a difícil transição entre as salas de aula da escola e o clima caótico de uma universidade pública e gratuita. O leitor brasileiro desculpe a redundância, mas a estudante chilena Camila Aguero, de 21 anos, talvez entenda melhor o esclarecimento. Uma dos tantos exilados estudantis do país de Pablo Neruda, ela saiu de Port Montt, no sul do Chile, onde gastava com a mensalidade da faculdade de Odontologia o dobro do que gasta hoje para morar, estudar, comprar livros e se divertir, como qualquer jorvem. “E isso porque eu me mudei para cá antes do último reajuste”, comenta com um certo alívio. Camila pagava uma universidade particular, mas não cursava a sonhada Medicina. A pontuação na Prova de Seleção Universitária (PSU), uma espécie vestibular chileno que, junto com a média do Ensino Médio, define o destino do estudante, não era suficiente. E, ainda que Camila tivesse entrado em uma universidade pública, ela teria que pagar – e caro – para concluir um curso superior. No Chile, onde os estudantes estão nas ruas desde maio para reclamar o direito à educação, as poucas universidades do Estado não são gratuitas e o sistema de bolsas de estudo não funciona para incluir os que não podem se endividar para pagar um curso superior. Diante dos protestos e em defesa do sistema atual, o presidente Sebastián Piñera se complicou ainda mais em um discurso em julho deste ano, quando defendeu “uma maior interconexão entre o mundo da educação e o mundo das empresas” e afirmou que “a educação é um bem de consumo.”

Políticas Universitárias (SPU) Daniel López da Secretaria de

Bem diferente é o discurso oficial na Argentina. Em entrevista à Plurale, Daniel López, da Secretaria de Políticas Universitárias (SPU) do Ministério de Educação, não economiza no orgulho quando o assunto é o acesso ao ensino superior. “Partimos da ideia de que estudar em uma universidade é um direito que não tem que estar pautado por nenhuma variável além de você mesmo.” Parece só frase de efeito, mas nas salas de aula lotadas da UBA – que muito fazem lembrar as da UFRJ do fim dos anos 90 – os nove alunos brasileiros da Trinidad naquela manhã de sábado entoavam o mesmo canto.

Trinidad dá aulas de Socieda de e Estado para alunos do Clic o Básico

Todos deixaram o Brasil por volta dos 20 anos procurando um jeito de estudar Medicina sem ter que sacrificar a economia familiar e os nervos. Quase todos já haviam passado por pelo menos um vestibular e coincidiam em que a grande diferença entre o CBC e o exame de ingresso às universidades públicas no Brasil é que o primeiro só depende do próprio esforço. Willyam Oiram, de Feira de Santana, na Bahia, tentou o vestibular duas vezes antes de vir estudar Medicina na UBA. “Gasto aqui pouco mais de um terço do que gastaria só com mensalidade da universidade particular na minha cidade.” PentaCamPeÕes Mas não é apenas o exame de ingresso que faz com que os brasileiros venham para a UBA. Mesmo com todos os problemas que pode ter uma universidade pública em um país latino-americano, a qualidade do ensino na Argentina também chama atenção. Dos cinco prêmios Nobel que os hermanos levaram para casa – dois de Medicina, dois da Paz e um de Química – quatro laureados se formaram na UBA. Com tanto prestígio concentrado em uma universidade fica difícil não perguntar: mas e o resto do país? Em 1972 nasceu a Universidade de Lomas de Zamora, a primeira das várias criadas no Conurbano Bonaerense (algo como a Grande Buenos Aires) com o objetivo de descentralizar o ensino superior, concentrado até então nas grandes universidades do país (UBA, Universidad Nacional de La Plata, de Cordoba, de Tucumán e de Rosario). Outras apareceram nos anos 90: Tres de Febrero, La Matanza, General Sarmiento, Quilmes, San Martin e o Instituto Universitário Nacional de Arte (IUNA). “O objetivo era proporcionar uma oferta acadêmica complmentar à das grandes universidades, que abrisse possibilidades de novas carreiras e maior acesso. Hoje, de cada 10 alunos que estudam nas novas universidades, oito são a primeira geração da família que chega ao ensino superior. Neste sentido, está cumprida a missão”, assegura Daniel. Dados do Ministério de Educação da Argentina apontam nesse sentido. Segundo consta no Anuário de Estatísticas Universitárias de 2009, 20,3% da população entre 20 e 24 anos está no ensino superior. No Brasil, a taxa é de 14,4% para a população entre 18 e 24 anos, segundo uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com dados

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Educação do IBGE para o mesmo ano. Quando se trata da taxa bruta, ou seja, o total de estudantes (independente da idade) sobre a população jovem (20 a 24 anos para Argentina e 18 a 24 anos para o Brasil) surpreende a diferença. Na Argentina é de 69,5%, enquanto no Brasil é de 30,3%.

O sistema educacional tem que ser avaliado porque é financiado pelo Estado, ou seja, pelo povo argentino. E o povo argentino merece saber que financia profissionais qualificados cados.

aRGentina, aQui me tens de ReGResso Como garantir a qualidade do ensino superior sem ameaçar o acesso à universidade? Com muitas críticas, a Coneau (Comisión Nacional de Evaluación y Acreditación Universitaria) se encarrega da função. Os opositores do órgão acusam o método de responder a uma demanda neoliberal na que a eficiência em emitir diplomas contaria mais que a profundidade no ensino, mas Daniel López rebate a crítica. “O sistema educacional tem que ser avaliado porque é financiado pelo Estado, ou seja, pelo povo argentino. E o povo argentino merece saber que financia profissionais qualificados”, defende. A Coneau foi acusada de ser uma ameaça à autonomia universitária – que na Argentina é constitucional, assim como a autarquia. Isso significa que a Universidade tem liberdade para escolher seus representantes, definir como vai usar seu orçamento, desenhar seu programa e não sofrer intervenção do Estado. Daniel garante que não é assim. “Hoje a Coneau trabalha junto às universidades, por meio de consenso, para definir os padrões de qualidade do ensino”, afirma. Se hoje a Argentina recebe exilados pela falta de acesso à educação, é preciso lembrar que nem sempre foi assim. Durante os fatídicos anos 90, sob a administração de Carlos Menem, o país perdeu muitos de seus pesquisadores para universidades do exterior. Para reconquistá-los, o governo lançou o programa RAICES, do Ministério de Ciência e Tecnologia, que oferece bolsas para repatriação de pesquisadores. Pesquisadores? É. Na Argentina a pesquisa é uma profissão, não necessariamente vinculada à docência. E o Conicet (organismo similar ao CNPq) está de olho nos cientistas e técnicos de alto nível que deixaram o país em busca de melhores oportunidades. “A pesquisa é prioridade no país e, apesar de não estar vinculada à docência, se desenvolve principalmente nas universidades, que têm como objetivos não só a transmissão de conhecimento, mas a produção dele e a sua extensão, ou seja, a sua transferência à sociedade”, destaca Daniel. Parece uma maravilha, mas Trinidad - que trabalha na UBA em relação de dependência, mas na UNSAM é terceirizada, ou seja, emite uma nota fiscal para cobrar seu salário - adverte para aquilo que todo professor latino-americano sabe: “A docência, na Argentina, é uma questão de vocação, não de dinheiro.”

O jovem Oiram, da Bahia (pri meiro à direita), com os colegas brasileiros

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P e lo Mundo Pedro Freiria

Irlanda:Economia ainda preocupa mais do que mudanças climáticas Por Vivian Simonato, Correspondente de Plurale na Irlanda, de Dublin

Identificar, a partir da perspectiva dos cidadãos, os problemas mais graves que o mundo enfrenta hoje. Esse foi o objetivo da pesquisa realizada pela Comissão Europeia, órgão da União Europeia (UE), em junho desse ano cujos resultados foram divulgados na segunda semana de outubro. A pesquisa revelou que enquanto pobreza, fome e falta de água potável (considerados como um problema único) é o primeiro desafio a ser superado de acordo com todos os entrevistados europeus, a mudança do clima apareceu como o segundo problema mais sério para os entrevistados dos países da UE, exceto Portugal e Irlanda. Entrevistados nesses dois países apontaram que incertezas econômicas são mais importantes do que as mudanças climáticas, que apareceu em terceiro lugar entre os problemas mais graves da atualidade. Em geral, o povo irlandês ficou bem abaixo da média europeia (57% contra 68%) ao declarar que as alterações do clima merecem atenção

especial. Outro resultado que chamou atenção em relação à Irlanda foi que enquanto a preocupação com questões de mudança do clima aumentaram em toda a base europeia, incluindo Portugal- a perspectiva do público irlandês em relação a esse assunto vem mantendo-se inalterada desde 2009. Embora os irlandeses estejam em linha com os demais entrevistados europeus ao declararem que combater as alterações do clima é responsabilidade dos governos nacionais (39% em comparação a média comunitária da UE de 41%), a pesquisa revelou que eles se declararam muito menos propensos em considerar que indústrias e empresas deveriam também adotar iniciativas que contribuam para diminuir os impactos da mudança climática. Em relação às iniciativas pessoais, somente 14% dos irlandeses, contra 21% da média geral dos entrevistados nos demais países, reconhecem terem responsabilidade pessoal em relação a esse problema. As ações mais comuns adotadas pelos cida-

dãos na Irlanda para combater a mudança do clima incluem redução e reciclagem do lixo (79% comparado com a média da UE de 66%), não utilização de produtos com embalagens desnecessárias (62% comparado com a média da UE de 46%), e isolamento das casas para diminuir uso de aquecedores (28% comparado com a média da UE de 18%). No entanto, os irlandeses foram os menos propensos a usarem transporte público, caminhar, pedalar ou dividir carro como uma alternativa ao uso de carros privados para chegarem ao trabalho (15% comparado a média da UE de 26%), também são os menos empenhados na escolha de aparelhos domésticos que economizem energia, e estiveram pouco abaixo da média da UE (68% no total contra 63% na Irlanda) em concordar com a adoção de tributação baseada no uso pessoal de energia.

Cortesia, uma prioridade no transporte público Por Mônica Pinho, Especial para Plurale em revista De Perth, Austrália

Sim, cortesia é mandatório na Transperth a empresa que opera os trens e ônibus de Perth, Austrália. Mas tudo requer trabalho, principalmente para se obter resultados na “consciência coletiva”. Por isso, a preocupação com mensagens positivas sobre respeito e cortesia fazem parte da Comunicação da Transperth desde sempre. Os cartazes das campanhas afixados nas paredes das estações e no interior dos trens e ônibus, encorajam o

passageiro a todo tipo de bom comportamento: oferecer seu assento quando necessário, respeitar os espaços destinados aos portadores de deficiências ou carrinhos de bebês, não espirrar sobre os outros passageiros, não ouvir música alta, não gritar ao telefone, não acomodar sua bagagem no acento vizinho e por aí vai. O importante é ter sempre em mente que “gentileza gera gentileza”. E assim, vamos contribuindo para um mundo melhor para todos.

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Ciência

Meio Ambiente Espacial. Está aberta uma discussão muito além d’além-mar

Todos têm direito ao meio ambiente “ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações...

Constituição Federativa do Brasil, Art. 225.

N

uma época em que se privilegia o individualismo e, por consequência, as pessoas tornam-se mais egoístas e imediatistas, fica difícil pensar em coisas que a gente não vê. A geração “Y”, a “Z” e as suas imediatamente anteriores –“X” e “baby bommers” igualmente embaladas no imediatismo – sofrem de uma espécie de estresse crônico só enxergando o que lhe está à mão e discutindo preferentemente o que é de seu interesse imediato. Exemplo: você já pensou que pode existir uma quantidade além do razoável de coisas, de diferentes tamanhos, girando sobre nossas cabeças e que isto em algum momento vai descer? Para os cidadãos condicionados ao imediatismo (seja por osmose ou vocação), preocupar-se com o que existe no entorno já e um avanço. Discutir a região, o país e o planeta como um todo, é assunto para poucos. Ao menos de maneira séria, é coisa para pouquíssimas pessoas. Mas está na hora de abrirmos esta discussão, pois o meio ambiente espacial afeta a todos, indistintamente.

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Texto: Nélson Tucci, Especial para Plurale em revista De São Paulo, SP Fotos: Divulgação e NASA

A Humanidade expande o conhecimento e, com ele, novos problemas surgem como decorrência dessas novas ações. Para os antigos navegadores portugueses, longe era tudo aquilo que se encontrava “em terras d´além-mar”. Primeiro os telescópios, depois as aeronaves, e mais recentemente as tecnologias de comunicação (internet, satélites diversos, antenas com ampliadas potências) têm tornado o mundo cada vez menor. Como a Humanidade parece encontrar-se em fase “permanentemente experimental”, ainda há muito por fazer, por se descobrir, por se adaptar... A regra básica de recolher o lixo que você produz ainda não é bem entendida pelos humanos. LIXO ESPACIAL - As quinquilharias enviadas ao espaço já constituem uma equação preocupante. Em 2008, a NASA (agência espacial norte-americana) estimava 17.000 destroços acima de 10 centí-


metros; 200.000 objetos com tamanho entre 1 e 10 centímetros e dezenas de milhões de partículas menores que 1 centímetro na órbita terrestre. Nos últimos três anos o número aumentou, mas a sua exatidão não é importante, pois que este inventário preliminar e estimado já é suficiente para acender a luz amarela cá embaixo no planeta azul. “Seis astronautas foram forçados a buscar refúgio em aeronaves ´salva-vidas a bordo da Estação Espacial Internacional por causa do risco de uma colisão com entulhos espaciais. Isso aconteceu devido ao ‘lixo espacial’ não identificado passando muito perto da estação espacial. A tripulação recebeu ordens para ir à aeronave Soyuz”, noticiou a agência russa Roskomos, em comunicado, no último mês de junho. Em agosto passado foi registrada queda de objeto espacial aqui no vizinho Uruguay. Em março de 2009, três membros da tripulação já tinham sido forçados a deixar brevemente a estação espacial por força de um incidente. No instante em que esta matéria estava sendo produzida veio a informação que um satélite pesando mais de cinco toneladas (do tamanho aproximado de um ônibus) estaria caindo na Terra, sem precisão de local, entre os dias 22 e 24 de setembro. Lançado em 1991, o satélite estava desativado desde 2005, quando esgotou seu combustível. A NASA monitora o objeto, mas não tinha certeza do percentual de desintegração do material ao entrar em nossa atmosfera.

Carla Fabiana Melo Marins

A probabilidade de 1 chance em 3.200 ocorrências atingir áreas habitadas é desprezível se a sua casa for atingida. Para jogar luzes nesta questão Plurale entrevistou Carla Fabiana Martins, a advogada e consultora ambiental que escreveu o primeiro livro sobre o tema no Brasil: “Meio Ambiente Espacial – Com enfoque jurídico”. Ela, que iniciou curso de mestrado em Direito, diz: “Vou me especializar em Proteção de Recursos Naturais e Descontaminação de Solo voltados para o ESPAÇO”. A mulher apaixonada pela vida nos dá várias pistas em seu livro, revelando forte preocupação com a sociedade em que vive, com o país e com a herança que deixaremos no Planeta e no Universo. A propósito, na abertura de “Meio Ambiente Espacial” tem uma frase – atribuída a Chico Xavier - que merece ser destacada: “Ambiente limpo não é o que mais se limpa, mas o que menos se suja. Plurale em revista - Existe legislação internacional para tratar do tema espaço ? Carla Martins - Existem tratados e convenções, dos quais o Brasil inclusive é signatário, mas faltam regulamentações. Diante do desenvolvimento do Brasil, e de fatos que envolvem o mundo todo deveriam existir normatizações abrangendo empresas privadas, peças, responsabilidades físicas, acumulo de lixo espacial por

determinado estado-lançador, indenizações, novas profissões, definições reais quanto a altitudes desse “espaço espacial”, política de segurança nacional etc. Plurale - Caberia, então, uma espécie de Código Espacial ? Carla Martins - Sim, um Código Espacial Brasileiro a exemplo do que já temos com o Civil, o Criminal, o de Trânsito etc, abrigando terminologias técnicas, reparação de danos, entre outras tantas possibilidades e necessidades. Plurale - E o que falta para a elaboração de um? Carla Martins - Depende de vontade de governo e do Congresso Nacional. Plurale - O tema Meio Ambiente Espacial tende a ter mais relevância daqui por diante? Carla Martins - O desenvolvimento econômico mundial, com a crescente exploração do espaço, revela a necessidade de toda a sociedade conhecer as regras dessa atividade. É preciso partirmos para a normatização e, dentro de um consenso, preservar o Princípio da Igualdade e Não Discriminação. Plurale - Os Tratados existentes são muito genéricos, é isto? Carla Martins - Exato. Podemos com facilidade elencar e discutir lacunas jurídicas, uma vez que determinados países criam sua própria forma de ação no espaço, como foi o caso da China que disparou um míssil antissatélite, do Centro Espacial de Xichang, na província de Sishuan, e destruiu um satélite chinês antigo situado a mais de 850 quilômetros de altitude. Plurale - E no que isto te preocupa especificamente? Carla Martins - Pela primeira vez um míssil lançado do solo foi capaz de destruir um satélite em órbita. Os objetivos desse teste são questionados por diversos países. Certamente, se houvesse legislações mais específicas sendo discutidas, criadas e aprovadas por um organismo internacional teríamos garantias de direitos reais. Além de produzir mais lixo espacial, a China voltou a preocupar o mundo com armas de longo alcance, reavivando a memória da guerra espacial. Plurale - No caso de cair um objeto no Brasil, por exemplo, de quem é a responsabilidade? A quem devemos acionar? Carla Martins - Todo material enviado a espaço é codificado e por isso mesmo é fácil descobrir quem o emitiu. Por ora o ideal é que se acione o estado-lançador, por vias diplomáticas. Plurale - Do pnto de vista legal, o Brasil considera o espaço área pertencente ao meio ambiente? Carla Martins - Espero que sinceramente comecemos a pensar nisto, pois ainda não há definições claras com relação ao espaço. Plurale - Como estudiosa no assunto, qual o seu ponto de vista ? Carla Martins - No meu entendimento sim, uma vez que o espaço é composto de bens naturais, como as estrelas, planetas, sol, lua e, não menos importante, o ser humano que faz parte deste cenário, dentro de um Planeta denominado Terra, que por sua vez é parte de um Sistema Espacial. A discussão ainda é longa e deverá envolver mais a Agência Espacial Brasileira (AEB), o Inpes, o ITA, a Aeronáutica, empresas privadas e até mesmo a Alcântara Cyclone Space (ACS), empresa pública binacional de capital brasileiro e ucraniano, cujo objetivo é o de comercializar e lançar satélites utilizando o foguete ucraniano Cyclone-4 a partir do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão.Plurale voltará a ele, oportunamente, discutindo de forma sempre objetiva as suas implicações no âmbito da sociedade local e planetária.

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I m a g e m Foto: Marcello

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Casal Jr/ Agência Brasil

alo em torno do sol foi observado no céu de Brasília,no fim de setembro. Fenômeno, típico na passagem do inverno para a primavera, é causado por nuvem de cristais de gelo que refratam luz solar. Em outras cidades este fenômeno também foi percebido. A bela imagem é do repórter fotográfico Marcello Casal Jr, da Agência Brasil.

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Para quem tem espírito empreendedor, a vida está cheia de oportunidades para realizar mais.

O Grupo Boticário tem uma história de empreendedorismo. Tudo começou com O Boticário, que, em 34 anos, se tornou a maior rede de franquias de cosméticos do mundo e continua se expandindo rapidamente. E a história do Grupo Boticário ganhou um novo capítulo: Eudora. A primeira empresa de cosméticos no Brasil que já nasce no sistema multicanal, com venda direta, lojas-conceito e comércio eletrônico integrado às redes sociais. É assim que o Grupo Boticário segue realizando cada vez mais.

Empresas do Grupo Boticário

www.grupoboticario.com.br

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