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ano três | nº 24 | julho / agosto 2011 | R$ 10,00

AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE

FOTO DE EFRAIM NETO, CATARATAS DO IGUAÇU - PARQUE NACIONAL DO IGUAÇU - PR

www.plurale.com.br

ÉTICA, EM CONEXÕES PLURALE A OBRA SOCIAL DE MARGARETH MENEZES

HIDRELÉTRICAS E SUSTENTABILIDADE


3


Conte xto

14.

CONEXÕES PLURALE: ECOLOGIA, ESPIRITUALIDADE E ÉTICA Foto: EFRAIM NETO

22.

HIDRELETRICIDADE E SUSTENTABILIDADE: Foto: RAQUEL RIBEIRO

47.

INHOTIM: ETERNA BIENAL EM JARDINS BABILÔNICOS

BAZAR ÉTICO

PELO BRASIL

34.

38 VIDA SAUDÁVEL

43 CARBONO NEUTRO

64 CINEMA VERDE

65 4

52.

FÁBRICA CULTURAL: A OBRA SOCIAL DE MARGARETH MENEZES

PLURALE EM REVISTA | Julho/Agosto 2011


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Editorial

Foto: Luciana Tancredo/Plurale

A certificação foi entregue pelo presidente do IBEF-Nacional, Sergio Melo (D), em concorrida solenidade, para Carlos Franco, um dos diretores de Plurale

Novo reconhecimento para Plurale

C

omo jornalistas especializados em Economia, Negócios e Finanças, por muitos anos cobrimos os principais acontecimentos do cenário econômico brasileiro. Acompanhamos de perto várias crises e também momentos históricos como a abertura do mercado, assim como conquistas em termos de grau de investimento e também de mercados externos. Quando começamos o projeto Plurale, há quatro anos, sabíamos dos imensos desafios, mas também estávamos certos que teríamos muito que contar sobre a transformação por conta da migração para uma economia sustentável: no Brasil e no mundo. E fomos premiados pelo imenso e caloroso apoio não só da equipe aguerrida, mas também de parceiros e apoiadores confiantes na nossa proposta. Foi com muito orgulho que recebemos, no fim de julho, em concorrida solenidade, o Selo de Certificação 2011-1012, Padrão IBEF de Sustentabilidade. Criado este ano pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças – entidade renomada que reúne vários especialistas na área financeira, em empresas, bancos e consultorias – esta premiação visa valorizar cases de empresas que se destacam pela adoção de práticas sustentáveis. Cinco corporações ganharam os prêmios em cada categoria – Canal Futura, Confederação Brasileira de Vôlei, CPFL Energia, Grupo Pão de Açúcar e Previ –, assim como 10 finalistas receberam o selo de certificação. Plurale ficou nesta seleta lista de finalista, junto a outras companhias renomadas como Banco do Brasil, Cedae e Coelce. Anteriormente, Plurale já havia sido premiada por duas vezes. Estes reconhecimentos e também do

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PLURALE EM REVISTA | Julho/Agosto 2011

Carlos Franco e Sônia Araripe, Editores de Plurale em revista e Plurale em site

público leitor nos aumentam o desafio e nos dão força para continuar na direção planejada. Nesta edição 24, trazemos alguns temas bem relevantes ao diálogo sobre Sustentabilidade. O professor Roberto Patrus-Pena nos brinda com profundo artigo sobre Ecologia, Espiritualidade e Ética. Este é o segundo da nova seção Conexões Plurale, que, no espaço de quatro páginas, objetiva sempre aprofundar a reflexão. Denise Hills, superintendente de Sustentabilidade do Itaú Unibanco e Dario Menezes, Diretor de Novos Negócios do Reputation Institute e professor da ESPM-RJ, também fazem análises valiosas em artigos. A repórter Nícia Ribas esteve no sertão baiano para conhecer projeto que incentiva a educação e gera desenvolvimento local através da criação de caprinos. Da Bahia, Tom Correia, parceiro da Revista Grauçá, nos apresenta o belo projeto social da cantora Margareth Menezes. Raquel Ribeiro visitou Inhotim, arte e cultura, museu magnífico localizado em Brumadinho (MG). Estivemos ainda em Foz do Iguaçu (PR), acompanhando importante seminário internacional sobre Hidreletricidade e Sustentabilidade. Aproveitamos para visitar projeto socioambiental mantido por Itaipu, nos municípios em torno da usina. Efraim Neto presenteia os leitores com imagens deslumbrantes de Sete Quedas, no Parque Nacional do Iguaçu. Da Argentina, a correspondente Aline Gatto Boueri conta como é delicioso andar pelas ruas de Buenos Aires de bicicleta. E ainda de mais longe, da Austrália, Mônica Pinho mostra campanhas geniais e engajadas de solidariedade. Tudo isso e muito mais. Especial para você e todos os que acompanham e gostam de Plurale.


Sustentabilidade é a energia que motiva nossas certificações!

Nossa responsabilidade com o Meio Ambiente se comprova com nossas certificações. Trabalhamos com um Sistema Integrado de Gestão nas áreas Ambiental, de Qualidade, de Saúde e Segurança.

Certificações

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Quem faz

Cartas c a r t a s @ p l u r a l e . c o m . b r

Diretores Carlos Franco carlosfranco@plurale.com.br SĂ´nia Araripe soniaararipe@plurale.com.br Plurale em site: www.plurale.com.br Plurale em site no twitter: http://twitter.com/pluraleemsite Comercial comercial@plurale.com.br Arte SeeDesign Marcos Gomes e Marcelo TristĂŁo Fotografia FotograďŹ Luciana Tancredo Tancredo ee Eny Eny Miranda Miranda (Cia (Cia da da Foto); Foto); Luciana AgĂŞncia Brasil Brasil ee Divulgação Divulgação AgĂŞncia

Colaboradores nacionais Ana CecĂ­lia CecĂ­lia Vidaurre, Vidaurre, Geraldo Geraldo Samor, Samor, Ana Isabel Capaverde, Capaverde, Isabella Isabella Araripe Araripe Isabel

Plurale em revista, Edição 23 !)*.,-1)4 1(!%*&/)$*

1   ano trĂŞs | nÂş 23 | maio / junho 2011 | R$ 10,00

2311 AĂ‡ĂƒO | CIDADANIA | AMBIENTE

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“Prezada SĂ´nia, agradeço-lhe a gentileza de enviar-me um exemplar da Edição 23 de Plurale em revista, que apreciei muito. Aproveito a ocasiĂŁo para cumprimentĂĄ-la, bem como a sua equipe, pelo trabalho elaborado e cuidadoso e pela eleição do importante e oportuno tema dessa edição especial da revista. Cordialmente, Murilo Ferreira, Diretor-Presidente da Vale

  ESTREIA:

   CONEXĂ•ES 

PLURALE



 ESPECIAL   MEIO   

AMBIENTE

  RUANDA:   17 ANOS DEPOIS     DO GENOCĂ?DIO, A 

VIDA HOJE

“Em nome do presidente Liszt Vieira, gostarĂ­amos de agradecer a bela foto publicada na Edição 23, de Paulo Lima, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Aproveitamos para cumprimentar toda a equipe pelo belo trabalho apresentado a cada ediçãoâ€? ClĂĄudia Rabelo Lopes, assessora de imprensa do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro

(estagiĂĄria), NĂ­cia NĂ­cia Ribas, Ribas, Paulo Paulo Lima Lima (estagiĂĄria),

e SÊrgio Lutz Colaboradores internacionais Aline Gatto Boueri (Buenos Aires), Ivna Maluly (Bruxelas), Vivian Simonato (Dublin), Wilberto Lima Jr.(Boston) Colaboraram nesta edição Dario Menezes, Denise Hills, Edmilson Oliveira da Silva, Efraim Neto, Janaína Salles, Katarine Almeida, Laura Lima, Mônica Pinho, Newton Medeiros, Quasar Imagem, Raquel Ribeiro, Roberto Patrus-Pena e Tom Correia. Plurale Ê a uma publicação da SA Comunicação Ltda (CNPJ 04980792/0001-69) Impressão: WalPrint

Revista impressa em papel reciclĂĄvel certificaPlurale em revista foi impressa em papel certiďŹ reflorestamentos certiďŹ certificados do, proveniente de re pelo FSC de acordo com rigorosos padrĂľes sociais e ambientais Rio de Janeiro | Rua Etelvino dos Santos 216/202 CEP 21940-500 | Tel.: 0xx21-3904 0932 SĂŁo Paulo | Alameda Barros, 122/152 CEP 01232-000 | Tel.: 0xx11-9231 0947 Os artigos artigos sĂł sĂł poderĂŁo poderĂŁo ser ser reproduzidos reproduzidos com com Os autorização dos dos editores editores autorização Š Copyright Copyright Plurale Plurale em em Revista Revista Š

“Gostaria de cumprimentar toda a equipe da revista pelo alto nĂ­vel das matĂŠrias apresentadas na Edição 23 e especialmente, pelo belĂ­ssimo texto da querida professora PatrĂ­cia Almeida Ashley, uma brasileira que sabe como ninguĂŠm desatar os nĂłs da gestĂŁo da responsabilidade social organizacional. Obrigada pelo incentivo ao povo brasileiro!â€? Ana JĂşlia Ramos, Pesquisadora e Coordenadora da GestĂŁo da Responsabiliade Social - NBR 16001 do Inmetro, Rio de Janeiro “ParabĂŠns Ă Equipe de Plurale pela nova seção ConexĂľes Plurale, que estreou com profundo artigo da Professora PatrĂ­cia Almeida Ashley, sobre sustentabilidade. Que venham muitos outros de autores tambĂŠm tĂŁo renomados quanto Ă  Professora.â€? AndrĂŠ Luiz Costa, gestor ambiental, SĂŁo Paulo, SP “A edição 23 da revista estĂĄ muito interessante. Li a matĂŠria de Ruanda e achei incrĂ­vel o modo como a jornalista Vivian Simonato descreveu a vivĂŞncia dela e interessante perceber que estamos tĂŁo distantes e tĂŁo prĂłximos deste paĂ­s: seja no meio da Ă frica, ou em alguma regiĂŁo do Brasil hĂĄ o ser humano lutando pela vida, tendo como alicerce a esperanca. Achei muito interessante tambĂŠm a matĂŠria do correspondente nos EUA Wilberto Lima Jr. - Um gerador mais leve que o ar - indicando que hĂĄ muito a ser feito e muitas ideias boas estĂŁo surgindo para o melhor aproveitamento na geração de energia. ParabĂŠns pela edição! Eduardo Galeazzo, pela internet “Gostaria de ratificar aqui a belĂ­ssima matĂŠria feita por Vivian Simonato, correspondente de Plurale na

Irlanda, sobre Ruanda. É impressionante a emoção, a veracidade e o envolvimento, mantido por ela do inĂ­cio ao fim da matĂŠria, ao leitor. A riqueza de detalhes singulares e norteadores sĂł confirmam a amplitude que ĂŠ este paĂ­s marcado pelo sofrimento e alegria de sobreviver dentro de um contexto tĂŁo grotesco e mutilante. Gostaria de parabenizar a equipe de Plurale em revista e, especialmente, Vivian Simonato pela oportunidade de ver, ler e compartilhar o sentimento humano desse povo africano.â€? Linalva Cunha, do MaranhĂŁo “Quero dar os parabĂŠns pela edição 23. As fotos da Chapada Diamantina, de Sidney Gouveia, estĂŁo lindas, lindas. Deu uma saudade da Bahia... E a matĂŠria de Ruanda, da Vivian Simonato, estĂĄ impressionante. ParabĂŠns pra Vivian! Estou bem acompanhada na seção na Pelo Mundo!â€? Aline Gatto Boueri, de Buenos Aires, Argentina “Muito obrigada pela matĂŠria de Paulo Lima sobre o evento Viva a Mata na qual fomos entrevistadosâ€? Ă‚ngela, Severino e Emanuelle Righetti, microempresĂĄrios, Vila Velha, ES “Excelente a matĂŠria de Paulo Lima “A festa da florestaâ€?. TambĂŠm visitei o Viva a Mata 2011 e ďŹ fiquei deslumbrado com o que vi. A diferença ĂŠ que o jornalista conseguiu colocar sentimentos nas entrelinhas, principalmente quando fala do Projeto de Cordel. Eu lembro que ďŹ fiquei um tempĂŁo ouvindo o Elielson e ďŹ fiquei a perguntar: meu Deus, como tem gente boa e capaz nesse nosso Brasil. O Elielson me encantou e creio que tenha encantado a todos que o ouvia... ParabĂŠns para o jornalista Paulo Lima.â€? Pedro Paulo Carneiro, pela Internet “A equipe do IPEMA gostaria de agradecer imensamente a divulgação de nosso trabalho e parceiros na Edição 23 na reportagem sob o tĂ­tulo “Projeto Juçara recupera palmeira da Mata Atlântica.â€? Coordenação do Projeto Ipema, Ubatuba, SP “Agradecemos a divulgação do trabalho da OďŹ Oficina Toque de MĂŁo na seção Bazar Ético da Ăşltima ediçãoâ€? Oficina Toque de MĂŁo, Rio de Janeiro, RJ Equipe da OďŹ â€œAgradeço o carinho e a matĂŠria “Alexia abre o baĂş do exĂ­lio de Caetanoâ€?, por Maria Helena Malta, na Edição 23. Adoramosâ€? Alexia Bomtempo, cantora, Rio de Janeiro “Agradecemos a Ăłtima matĂŠria sobre restaurantes ecologicamente corretos, de LetĂ­cia Koeler. Ficou muito boa!â€? Ricardo Stern, empresĂĄrio, Rio de Janeiro, RJ


Leo Tailor Made Foto: Lúcio Cunha

Participe do Limpa Brasil Let’s do it!, um movimento de cidadania e cuidado com o meio ambiente que pretende incentivar a mudança de atitude em relação aos resíduos sólidos. Seja você também catador por um dia e ajude a limpar sua cidade. Chega de lixo fora do lixo! Inscreva-se no site limpabrasil.com

Chico Buarque, músico e escritor, fotografado por Cesar Netto.

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Entrevista

Ernesto

Cavasin Neto, especialista em Sustentabilidade da PwC

Quanto pesa o homem? É por quilo ou tonelada? Em entrevista à Plurale, autor do livro “Toneladas sobre os ombros” fala sobre a migração para a economia de baixo carbono Texto: Carlos Franco, Editor de Plurale em Revista De São Paulo, Fotos: Divulgação

E

rnesto Cavasin Neto, da PriceWaterhouseCoopers (PwC), expõe no livro “Toneladas sobre os ombros”, da Editora Schoba, os desafios da sustentabilidade e de como as empresas se preparam, mas deixam de lado o principal agente transformador: o cidadão comum, que pode até ser o dirigente da empresa. O especialista é presença constante nos fóruns globais de sustentabilidade e em todas as reuniões promovidas pela Organização das Nações Unidas sobre o tema. É que na PriceWaterhouseCoopers (PwC), no Brasil, ele comanda a área de sustentabilidade, responsável por relatórios e negócios do setor – da própria multinacional de auditoria e consultoria e também de seus clientes. Condutor de processos de venda de crédito carbono e focado em energia, Cavasin decidiu colocar em livro, mais que sua experiência, um alerta para as empresas e governos. “Muitos projetos deixam de lado o principal agente de transformação que é o cidadão comum. Vejo em muitas empresas uma preocupação crescente com práticas sustentáveis como a separação de lixo e a economia de energia, mas, o mesmo, muitas vezes, não se aplica nos ambientes externos onde empresários e funcionários da própria empresa interagem, como a própria residência”.

PLURALE EM EM REVISTA REVISTA ||Julho/Agosto Julho/Agosto 2011 2011 10 PLURALE


Para Cavasin, sem sensibilizar e convencer o cidadão comum, no exercício e na prática cotidiana, muitos dos esforços de governos, organizações não-governamentais e empresas caem por terra. Mas como na caverna de Platão há luz no fim do túnel, então faça-se a luz. E buscando deixar clara a discussão, tanto no livro, que acaba de ser lançado como nesta entrevista à Plurale em revista, que Cavasin vai dando o seu recado, com a simplicidade necessária para que o assunto mais que impregne a superfície chegue ao coração de todos, irrigando práticas cada vez mais sustentáveis. O executivo que assume o comando da PwC na Polônia fala nessa entrevista de como é possível irrigar ideias novas que levem à construção de um mundo melhor. Plurale em revista – Mais um livro sobre sustentabilidade chega às livrarias, desta vez o seu, intitulado “Toneladas sobre os ombros – Quanto pesa o homem? É por quilo ou tonelada?”, da Editora Schoba, ainda há o que explorar sobre o assunto? Ernesto Cavasin Neto – As questões relacionadas à sustentabilidade são profundamente dialéticas, há sempre uma novidade, uma forma nova de ver o mundo, o mesmo mundo com outro olhar, talvez mais crítico. Os fenômenos causados pelo impacto do homem ao meio ambiente vão tecendo um conjunto de informações importantes com impactos nas ações de governos e empresas, muitas afetadas em seu lucro por força dessas transformações e mexem também com o homem, mas o homem, o cidadão comum, ainda está muito distante do processo. Acompanho fóruns globais há anos e várias soluções são adotadas, várias inovações são apresentadas, muitos governos e muitas empresas as adotam, começam a buscar práticas sustentáveis, mas não chegam ao chamado “chão da fábrica”, ao cidadão comum na sua prática diária com o ambiente em que vive. Então, muitos dos esforços caem

por terra. A sociedade vive de exemplos de cidadania, precisamos ter mais exemplos de uma relação com o ambiente, sem a perda da qualidade de vida e conforto. As discussões muitas vezes são radicalizadas e o principal agente de transformação, o cidadão comum, acaba ficando de lado. Há casos de empresários que adotam práticas de extrema sustentabilidade em suas empresas, mas não levam para dentro de casa, nos seus gestos mais cotidianos essas práticas a sério. Economiza-se água, energia no ambiente do trabalho e esbanja os meus recursos em casa. É isso que temos que avaliar. Parafraseando a campanha presidencial de Barack Obama, eu diria, que sim é

possível mudar o mundo, torná-lo um lugar melhor para nós e para as futuras gerações, mas é preciso começar já. Santos Dumont, por exemplo, aliou modernidade e conforto à práticas sustentáveis, como a sua casa na região serrana do Rio de Janeiro, em Petrópolis, a Encantada. Plurale – Aliás, Santos Dumont costura os capítulos do seu livro. Cavasin Neto – É justamente por isso. Ele foi um inovador, um homem bem à frente do seu tempo. Vivia com absoluto conforto, mas tinha uma visão clara de evitar desperdícios. Sempre inovava no figurino, com poucas mudas de roupas, doando as que não usaria mais. Estava sempre preocupado em poupar recursos, para deles usufruir. Foi um im-

“Santos Dumont foi um inovador, um homem à frente do seu tempo. Vivia com absoluto conforto, mas tinha uma visão clara de evitar desperdícios” portante inovador, passou a entender do clima, das correntes de ar para poder voar e teve uma percepção clara de como os fenômenos naturais interferiam no seu negócio. Hoje, muitas empresas têm a clara percepção que é preciso avaliar clima, recursos hídricos, enfim todos os insumos, para projetar o negócio, afinal todos os recursos são finitos e muitas vezes alguns podem ser substituídos por outras fontes, mais limpas ainda que esse possa ter impacto sobre o preço. É aí que entra a figura do cidadão comum, do consumidor que tem que começar a fazer opções mais claras de como pretende viver hoje e que herança pretende deixar para as futuras gerações. As empresas que esgotam seus negócios acabam por não terem vida longa. Ninguém está dizendo que temos que parar o mundo, parar tudo e voltar ao passado, temos sim que seguir em frente, mas é preciso avaliar os riscos. Hoje, as consultorias avaliam riscos e cada vez mais estes terão peso nos negócios, no valor de mercado das empresas e naquilo que farão delas empresas inovadoras. Plurale – Você fala muito em trazer o cidadão comum para o debate e as ações. Então como se pode fazer isso? Cavasin Neto – Talvez o melhor exemplo venha das campanhas pela erradicação do gás CFC (clorofluorcarbono). Nada teria acontecido se o cidadão comum não fosse convencido dos riscos do buraco na camada de ozônio e não optasse por refrigeradores, por exemplo, sem uso de gás CFC. Nesse momento, entrou em campo governos, empresas e consumidores. Foi por isso que deu e continua dando resultados positivos. O consumidor entendeu que deveria trocar os refrigeradores, que representam risco ao meio ambiente e a sua saúde. Os governos deram incentivos fiscais para que as empresas investissem em tecnologia, o consumidor teve desconto na troca e o mundo começou a erradicar o problema. É essa participação de todos que é essencial. Não precisa ir muito longe, quando do “apagão” da energia elétrica há dez

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Entrevista

A casa

encantada

anos, as pessoas trocaram as lâmpadas por lâmpadas mais econômicas, passaram pelo custo que a energia iria representar no orçamento a ter mais cuidado no gasto. Então, governos e empresas passaram a apontar alternativas e a sociedade entendeu que deveria participar do problema naquele momento. É preciso ter esse tripé entre empresas-governos-cidadãos. O problema é que hoje as grandes discussões sobre clima e recursos hídricos ainda não envolvem o cidadão. Parece ter um hiato e esse caminho precisa ser encurtado. Quando isso ocorrer, haverá mais equilíbrio. Plurale – Tem também a questão dos países ricos e pobres, que cria um fosso, pois os ricos já consumiram todas as reservas de recursos e os pobres ainda estão distantes dos padrões de consumo. Cavasin Neto – Ninguém vai poder dizer que se você não teve um carro, agora não terá mais. A situação passa por outro caminho, o da oferta de serviços públicos de maior qualidade, o da cobrança de pedágios para tráfego de veículos em locais saturados, estimulando o transporte público, por exemplo. A questão dos países pobres passa por políticas de inclusão. Não se pode negar as conquistas tecnológicas a nenhum cidadão em nenhum lugar do mundo. Santos Dumont mesmo projetou o avião para que todos pudessem voar, mas se não ousasse não teria tirado os pés do chão. É preciso ousar para levar conforto com equilíbrio a todos. Não se pode condenar às cavernas cidadãos que vivem em países pobres para que os que vivem em países ricos possam ter a luz. É preciso que todos saiam ganhando no novo cenário. Os países pobres por garantirem equilíbrio climático e hídrico precisam ser compensados por aqueles que não têm mais essas reservas. Mas nada disso acontecerá se deixarmos sempre o cidadão para última hora, com as ações e decisões apenas nas mãos de governos e empresas. É preciso chamar o ator principal para o palco do debate e é isso que pretendo alertar no livro, que espero cumpra essa função, uma vez que é resultado das percepções de quem tem se dedicado ao tema e participado dos mais diferentes fóruns globais. Existe futuro, mas ele começa hoje, nesse instante.

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O

mineiro Alberto Santos Dumont (Palmira, 20 de julho de 1873 – Guarujá, 23 de julho de 1932) é o ponto de partida do livro “Toneladas sobre os ombros”, de Ernesto Cavasin Neto, pelas inovações com as quais contribuiu para a história da humanidade e muitas delas inspiradoras de práticas sustentáveis. A casa de Santos Dumont em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, é um bom exemplo. Não tinha cozinha, pois o aviador detestava desperdício e encomendava as refeições num antigo hotel que fica ao lado da Encantada, nome que deu a sua própria casa, onde os móveis eram, já naquela época multifuncionais, a cama que serve também de baú, o balde com aquecimento para os banhos, com quantidade limitada de água, num uso consciente do recurso, a sala com mesa, em formato de asa delta, que ocupa os cantos e tudo de forma muito limpa e possibilitando a melhor ocupação do espaço. O homem que conquistou em 1901 o Prêmio Deutsch quando com o dirigível de número 6 conseguiu contornar a Torre Eiffel em Paris provou ao mundo que os balões poderiam, mais leves que o ar atmosférico, serem pilotados e comandados pelo homem. De quebra, com a colaboração do amigo parisiense Cartier, criou o relógio de pulso, pois na época todos eram de bolso e ele precisa ter o controle horário de tudo. Inovador, o homem que entrou para a história como pai da aviação, sempre teve um estilo de vida sustentável. Na Encantada, tinha apenas três cabides no minúsculo guarda-roupas, sempre comprava uma roupa no lugar para onde ia e doava aquela que ficava para trás a quem precisava. Para Dumont, era exagero o homem ter várias roupas e assim, modestamente, estava sempre na moda, sempre com um terno novo substituindo o antigo. Em viagens, acreditava que bastava uma mala de mão, até para não sobrepor peso. É esse aviador, por suas ideias avançadas para a época que costura o livro de Cavasin como prova de que, sim, é possível viver de forma sustentável. E, diga-se, viver muito bem, com conforto e qualidade de vida. (Carlos Franco)


Estante

Por Carlos Franco, Editor de Plurale em Revista

CARTAS DO RIO

Roberto Saturnino Braga, Grupo Editorial Record/Editora Record, 192 págs, R$ 32,00 O romance epistolar de Roberto Saturnino Braga repensa o amor, investigando-o por todos os seus ângulos. Desde a redenção pelo sexo — o gozo, a delícia, o sopro de vida que o amor dá — até a culpa — a difícil administração do tesão, do desejo, da libido. Cartas do Rio é um livro do amor possível. Engenheiro de formação e político por vocação, após quase cinquenta anos de política, Roberto Saturnino Braga disseca em Cartas do Rio a rotina de um casamento, como se abrisse a caixa-preta das relações amorosas. Conhecido como Senador da República e ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, cargos importantes que exerceu em mais de cinco décadas de política, Saturnino Braga é, também, um arguto observador da natureza humana. Talento que exercita em sua carreira de escritor, iniciada na juventude com dois livros de crônicas sobre a vida carioca. E retomada anos mais tarde, quando públicou outros três livros, nos quais definiu sua atuação política e opção filosófica. Aos 60 anos, retornou à literatura, e desde então escreveu vários livros de contos e um romance, O Quarteto, todos centrados em personagens e na geografia do Rio de Janeiro.

MUITO ALÉM DA RESPONSABILIDADE SOCIAL COMO PREPARAR A PRÓXIMA GERAÇÃO DE LÍDERES

de Jeffrey Hollender e Bill Breen, Editora Campus-Elsevier, 240 págs, R$ 59,90 Neste livro, os autores propõem um roteiro para criar empresas financeira, social e ambientalmente sustentáveis. Com exemplos notórios de corporações que conseguiram atingir o grau máximo nesse novo modelo de negócios, tais como Nike, Timberland, eBay e IBM, cada capítulo traz modelos inspiradores e reais para criar a empresa do futuro. Recheado de exemplos práticos e escrito numa linguagem didática, os autores expõem os conceitos básicos para uma empresa operar em maior harmonia com o meio ambiente. Esta obra é leitura essencial para líderes, gestores e empreeendedores de sucesso.

O TEMPO NÃO PARA - VIVA CAZUZA Lucinha Araújo, Editora Globo, 256 págs, R$ 39,00

Cazuza morreu em julho de 1990. Três meses depois, amigos montaram um tributo no Rio chamado “Viva Cazuza – faça parte desse show”, cuja renda seria doada ao Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, referência em Aids naquela época. Quando Lucinha Araújo foi entregar o cheque, percebeu que sua atuação contra a doença não havia se encerrado com a morte do filho. Em “O tempo não para – Viva Cazuza”, ela conta como tomou a frente da ONG que dá suporte a crianças e adolescentes portadores do HIV e qual era seu sentimento logo que a doença se tornou epidemia. A obra reúne histórias das crianças atendidas pela Sociedade Viva Cazuza, questionamentos da autora e depoimentos de pessoas que cruzaram e deixaram impressões na vida do cantor. Lucinha diz que sentiu certo receio de dividir o livro com os amigos do filho, até porque “relações amorosas e de amizade são muito diferentes”, mas ela resolveu dar voz a alguns que têm do que recordar, como Ney Matrogrosso, Sandra de Sá, Frejat, Ezequiel Neves, Nilo Romero, George Israel e Serginho, “única pessoa com quem Cazuza teve um relacionamento duradouro”.

NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESSE PAÍS...? Vários autores, Organizado por Marilene de Paula, Editora Fundação Heinrich Böll, 152 págs, a distribuição é gratuita e os interessados podem solicitar exemplares pelo e-mail boell@ boell.org.br ou acessar a publicação em PDF em www.boell.org.br

Em 2002, a chegada ao poder do PT e de seus aliados foi acompanhada com grande expectativa. O primeiro governo comprometido com os valores da esquerda brasileira subia a rampa do Planalto e possibilitava a abertura de um leque de iniciativas, que poderiam gerar profundas mudanças socioeconômicas. Lula chegou ao fim de oito anos de mandato com recorde de popularidade, deixando como legado relativo crescimento econômico, baixa taxa de desemprego e reconhecimento do Brasil no exterior. Para avaliar esse período, a Fundação Heinrich Böll convidou nove especialistas a analisarem de forma contundente as políticas empreendidas nas áreas de relações internacionais, economia, direitos humanos, e políticas ambiental, para as mulheres e de promoção da igualdade racial. O resultado foi o livro “‘Nunca antes na história desse país’...? Um balanço das políticas do governo Lula”, que traz uma coletânea de artigos com alguns dos acertos, avanços e retrocessos dessa gestão.

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CONEXÕES

PLURALE

Ecologia, Espiritualidade, Ética:

relacionando os 3 E’s com a Ética nos Negócios

ROBERTO PATRUS-PENA Este ensaio é fruto das minhas inquietações como professor de Ética, psicoterapeuta e cidadão preocupado com a preservação do planeta. Procurei pensar sobre a importância de saberse provisório nesse mundo, fonte de reflexão sobre o mistério e da espiritualidade. A partir dessa ideia, procuro relacionar ecologia, espiritualidade e ética (os 3 E’s) com o propósito de oferecer ao leitor uma oportunidade de refletir sobre si mesmo e sobre a qualidade da sua militância em prol de um mundo melhor. Finalizo o artigo associando a temática dos 3E’s com a Ética nos Negócios, a partir da premissa de que o trabalho é um lócus privilegiado da nossa atuação para a construção de uma sociedade melhor. Devemos lutar por justiça e sustentabilidade. Mas podemos fazê-lo com amor. E felizes. o priNcípio ecolóGico Nós somos hóspedes na vida. Antes de nascer, habitamos um órgão muscular feminino, que acolheu a cada um como ovo fecundado. Expulsos do meio líquido do útero, fazemos da primeira inspiração do ar a origem de toda angústia que vamos sentir toda vez que o choque da novidade abalar o equilíbrio de nossa energia vital. Somos hóspedes de um útero antes mesmo de nascer. Recebido com hospitalidade, alegria e deslumbramento, o novo ser precisa de um lugar para morar. E o rebento vai para uma casa que não é sua, mas dos pais ou daqueles que se dispuseram a criá-lo. Sua chegada é celebrada com visitas de amigos e fa-

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miliares. Embora talvez nem saiba, o filho é hóspede na casa dos pais. Dorme, come e vive em uma casa que não lhe pertence. Desconfio que quanto maior a noção que uma pessoa tem de que a casa onde está não é sua, maior a chance de que ela se comporte com mais educação. Quem se sabe visita na casa alheia lida com os objetos e com o espaço do outro com maior cerimônia. Tende a preservar espaços íntimos, ar-

maior e não lhe pertence. A passagem de cada um de nós pela Terra um dia terá um fim. E ela continuará recebendo outros hóspedes, quem sabe nossos filhos, netos, bisnetos... Quanto maior a consciência da pessoa de que a Terra é a grande casa que o hospeda provisoriamente, maior a probabilidade que ela atue com educação ecológica. Também somos visita no planeta. A vida circula e permanece. Nós passamos.

mários, gavetas, a evitar a intimidade, enfim. Somos visita na casa dos nossos pais. Mesmo morando na casa deles. Pode ser que um dia o filho (ou a filha) deixe a casa paterna. Terá então a sua própria casa, não importa se “casa própria” ou alugada. Ainda assim, o ser humano continua sendo hóspede na vida. O planeta é a sua casa

Da compreensão de que o ser humano se acomoda provisoriamente no útero, na casa dos pais e no planeta, podemos deduzir um preceito bíblico: honrar pai e mãe. Esse mandamento significa reverenciar a origem próxima, os pais - responsáveis primeiros pelo milagre da concepção – e a origem primeira, fonte do mistério maior que


é a Criação. Quem não respeita pai e mãe está adormecido em relação ao mistério do mundo. Saber-se criatura permite ao ser humano ter humildade para reconhecer que os fenômenos da vida ultrapassam a capacidade humana de tomar consciência deles. Essa constatação possibilita o respeito a posições divergentes e facilita o diálogo entre religiosos, filósofos e cientistas de posições divergentes. Desse preceito, deduzimos o princípio ecológico de respeito ao planeta, como casa da qual somos visita em tempo provisório. Aliás, a palavra eco, do grego oîkos, significa casa, habitação. Cuidar das florestas, rios, mares e da atmosfera terrestre é cuidar de nossa casa. Quem é incapaz de ver que a vida continua mesmo depois da própria morte, ilusão própria de um individualismo cego, é insensível à premência de preservar e manter as condições de vida da Terra. Em síntese, a consciência de que somos hóspedes na vida permite a reflexão sobre o mistério do mundo e, ao mesmo tempo, a compreensão da ecologia como cuidado com a casa em que vivemos. Somos provisórios. Estamos de passagem. a espiritualiDaDe como priNcípio Hóspede no planeta, o ser humano é também hóspede do próprio corpo. À medida que envelhece, tem a chance de ver-se cada vez mais lúcido em um corpo cada vez menor para a grandeza da inspiração que um dia foi chamada de alma. Não somos o nosso corpo. Essa ilusão, comum tanto a quem se sente belo quanto àquele que não gosta do seu corpo, é fonte de sofrimento, atual ou futuro. Ao contrário dos animais, que são o corpo, o ser humano tem um corpo. A partir do momento em que o ser humano demonstra capacidade de abstração e consolida as mudanças fisiológicas que permitem a reprodução, ele já é capaz de compreender que o corpo é a casa do seu espírito, ou, para usar uma lingua-

gem laica, a casa da sua consciência, do seu pensamento sobre si mesmo, de sua reflexão. A velhice, entretanto, é a última oportunidade para que ele acabe com a ilusão de que é o seu cor-

Não deveríamos precisar de eventos extraordinários para lembrar que estamos vivos. Curiosamente, damo-nos conta do esplendor da vida e do espetáculo de existir quando estamos diante da morte ou diante de algo que nos pareça um milagre. po. A diminuição natural de algumas funções do seu corpo e a necessária adaptação às limitações próprias da idade permitem ao adulto velho pensar que seu corpo é uma casa frágil para um espírito cada vez mais livre. Se abençoado com a virtude da fé, pode valer-se dela para imaginar que também é hóspede do seu corpo. A partir daí, abre-se a possibilidade de viver com espiritualidade e perceber em cada gesto, palavra ou conduta a celebração do mistério da vida.

A compreensão de que a vida é mistério é o fio de Ariadne para pensar a relação entre ecologia, espiritualidade e ética. Não é raro ver pessoas deslumbradas com o nascimento de uma criança na família. A gravidez, o parto, o primeiro colo de um ser tão belo quanto indefeso são experiências que se apresentam ao ser humano como um mistério maravilhoso. Ocorre, porém, que cada um de nós é o mesmo mistério de um recém-nascido. Apenas crescemos. O arrebatamento diante da vida não acontece somente diante de um bebê que acaba de nascer. Ele se apresenta a qualquer momento. Sempre. Mas nem todas as pessoas estão atentas para o mistério da vida. Não deveríamos precisar de eventos extraordinários para lembrar que estamos vivos. Curiosamente, damonos conta do esplendor da vida e do espetáculo de existir quando estamos diante da morte ou diante de algo que nos pareça um milagre. O milagre (do latim miraculum, substantivo que significa prodígio ou fato extraordinário; e mirari, verbo que exprime admiração, espanto) é a manifestação de um fenômeno fabuloso diante do qual nos sentimos maravilhados. Existe fenômeno mais interessante do que a vida? Não é absolutamente estranho estarmos respirando (involuntariamente) em um planeta que se move no universo em meio a uma infinidade de astros? Vida é mistério. Mistério é não-saber. Diante do não-saber, o ser humano sente angústia. Fica incomodado por não ter respostas para suas perguntas. Diante do abismo do não saber, o ser humano é convidado a construir os fundamentos. Assim, o ser humano inventa respostas. O vazio de respostas para o mistério da vida é condição de possibilidade para a liberdade humana. Se não houvesse o vazio, ninguém teria a liberdade de acreditar no que acredita. Seríamos obrigados a aceitar uma verdade pré-estabelecida, que recusa a possibilidade de outra versão. A isso chamamos fundamentalismo. O fundamentalismo recusa o mistério (e a angústia decorrente) porque con-

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CONEXÕES sidera que a resposta para a origem da vida está dada de forma satisfatória. Para o fundamentalista, quem discordar dele está errado. Por isso, o fundamentalismo está de mãos dadas com a intolerância religiosa, com o moralismo e com a rigidez ética. Ele impede a compreensão da espiritualidade como a consciência do mistério. As respostas para a origem da vida são construídas a partir do reconhecimento do mistério do mundo. Podemos entender, assim, a máxima socrática como ponto de partida da sabedoria filosófica. Essa postura de humildade permite o diálogo com quem pensa diferente sobre algo de que ninguém pode ter certeza. E abre a perspectiva para que cada pessoa evite identificar-se com o seu pensamento e a sua crença. A fixação no conhecimento ou na moral decorre do esquecimento de que tudo o que pensamos é uma mera construção humana para lidar com o sentimento de insegurança diante do abismo. Mesmo a ciência é um esforço de compreensão da realidade que não soluciona o mistério, ainda que amparado em métodos de maior rigor. Pobre do cientista que deixou de duvidar do conhecimento. Corre o risco de transformar-se em um fundamentalista acadêmico. O desamparo existencial é fonte de fé, sabedoria e ciência e, como tal, deve manter-se aberto ao mistério, a fim de não aprisioná-lo em formulações científicas ou apologéticas fechadas à contínua descoberta da verdade. A consciência do mistério e a liberdade humana de pensá-lo para lidar com os perigos da vida permitem ao ser humano pensar a escolha de suas condutas com espiritualidade, condição para atuar eticamente com elevação. Com tal dimensão de espiritualidade, o ser humano é capaz de perceber que seus papéis sociais, sua profissão, seus bens não são a sua essência. Sabe do risco de identificarse com sua função como pai, mãe, professor, gestor, assistente social ou qualquer outro papel. E abre-se para

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PLURALE

a possibilidade de exercer essa função sem que isso se torne parte de si mesmo. A ação será mais eficaz quanto mais o seu agente a execute em benefício dela mesma e não para acentuar a identidade do seu papel . O indivíduo consciente de si mesmo reconhece que seus pensamentos e crenças não são a sua identidade. Eti-

envolve a liberdade da pessoa que toma a decisão de refletir sobre a conduta que considera adequada. A finalidade da ética é ser feliz. Como vivemos em comunidade, a infelicidade do outro pode nos prejudicar. Daí o princípio altruísta de que para ser feliz é preciso fazer feliz. A felicidade é um estado de harmonia vivida

mologicamente, idem, do latim, significa “o mesmo”. Identificar-se com algo é, literalmente, fazer dele o mesmo que si próprio. Identificar-se com o conhecimento ou com a moral seria a perda da dimensão da espiritualidade, porque reduziria o mistério ao dogma, seja da ciência, seja da religião. A abertura para o conhecimento do novo depende do exercício da dúvida metódica, postura impossível naquele que se identificou com o conhecimento ou com a moral. Em síntese, o mistério como abismo absoluto, impossível de ser conhecido, é a base da espiritualidade que permite o desapego, a humildade, a liberdade, o respeito ao pensamento divergente e uma mente aberta para a construção de um sistema aberto às novas contribuições. (i)

pela pessoa. Abrange o equilíbrio do seu corpo, a satisfação de suas necessidades de amor, poder e independência, e a percepção de que a vida tem um sentido. Para ser feliz, precisamos nos relacionar com os outros e com o meio em que vivemos. Embora cada um seja uma individualidade, separada dos outros e da natureza, o ser humano não vive só. Ele se relaciona com outras pessoas. E não existiria como ser humano sem ambiente social. Três princípios traduzem a finalidade da ética: não se prejudicar; não prejudicar o outro; e não deixar que o outro o prejudique. Esse triplo imperativo é condição para que o ser humano seja feliz e se realize como pessoa partícipe de grupos sociais. Não se prejudicar implica cuidar da própria casa, isto é, do corpo e do planeta. O corpo, como morada do espírito, é a casa de si mesmo. O planeta também é casa do ser humano. Cuidar do corpo e do planeta são condições éticas inextrincáveis de quem se percebe hóspede. Constitui contradição

o priNcípio ético A ética é a reflexão sobre o que convém. Tem como objeto de reflexão a escolha de uma conduta considerada correta em detrimento de outras. A escolha é condição indispensável para se pensar a ética. Ela


irrefutável defender as florestas do planeta e se permitir ser um fumante. Não prejudicar o outro significa ser capaz de vê-lo como alteridade a quem o respeito é fundamental. O prejuízo ao outro por meio da agressão, do roubo, da exploração ou da humilhação demonstra a incapacidade do indivíduo de ver-se separado daquele a quem desrespeita. Nesses casos, predomina a identificação com o outro, como se ele fosse parte de si mesmo. O indivíduo parece alienado de que a vida é trabalho que lhe compete, por seu próprio esforço e responsabilidade. Ele não consegue perceber a humanidade do outro. Não deixar que o outro a prejudique significa a capacidade da pessoa

A felicidade se realiza em cada um. Quem cultiva a espiritualidade, sentindo a presença do mistério dentro de si, abre-se ao encontro com o outro. Assim, pode ver que a vida tem um sentido maior que nossa existência. estabelecer limites para conviver. Se não faz sentido prejudicar o outro, é absolutamente sem lógica permitir que uma pessoa permita que alguém a prejudique. Não faz sentido amar ao próximo mais do que a si mesmo. A noção de espiritualidade implica desapego no sentido de reconhecer que o corpo, os bens, os pensamentos, as crenças e os valores da pessoa não são a pessoa. Isso não significa de modo

algum mutilar-se, fazer voto de pobreza, ser niilista e permissivo. Cuidado com a “própria casa” não significa recusar a “casa própria”. a relaÇÃo eNtre os 3 e’s e os 3 p’s O princípio ecológico prevê o cuidado com o planeta, uma casa compartilhada por hóspedes diversos. O princípio ético implica o respeito a si e ao outro. O princípio da espiritualidade exige a percepção do mistério e sua celebração como possibilidade de transcendência. Em conjunto, os 3 E’s permitem ao indivíduo exercitar a compaixão, aceitar a realidade e colocar os seus talentos a serviço do aperfeiçoamento das pessoas e do mundo. Sua atuação ética será ao mesmo tempo ecológica porque contemplará o micro e o macro. Servir ao todo é servir a si mesmo. Aperfeiçoar-se é aperfeiçoar a dinâmica dos nossos relacionamentos, pedra angular da nossa atuação no mundo. Os 3 E’s se entrelaçam mutuamente. Essa percepção da unidade entre os contrários - que preside a síntese entre os 3E’s - unifica as aparentes contradições entre o individual e o social, o princípio (valor deontológico) e o fim (valor teleológico), a convicção e a utilidade. Ela é condição para se pensar a Ética nos Negócios como um campo de conhecimento não somente necessário como possível. Do princípio ecológico extraímos a máxima de que a empresa é uma célula em um organismo social, em que tudo está interligado. Qualquer organização estabelece relação de interdependência com outras organizações e a sociedade em geral. Justamente por ser parte, é necessário evitar a intimidade e festejar a cerimônia com as outras partes – base do respeito. Como a empresa se relaciona com clientes, fornecedores, empregados, governo, acionistas, concorrência, e demais stakeholders, é fundamental para a empresa saberse parte de um sistema. Essa é a base para a compreensão de relações do tipo ganha-ganha. Da espiritualidade como princípio, extraímos a noção de que a vida não

é passível de ser conhecida na sua totalidade, o que exige do gestor a humildade de colocar-se em diálogo com os pares e públicos interessados para construir juntos a solução para os problemas da organização. Responsabilidade social implica relacionamento com os públicos afetados pela empresa, ou seja, criação de canais de comunicação, trabalho conjunto, efetivação de parceria e espírito de co-autoria em projetos comuns. Da ética, deduzimos o princípio de que a conduta humana deve estar, em última análise, a serviço das pessoas. No campo dos negócios, essa premissa remete à humanização das relações com empregados, clientes, acionistas, fornecedores e demais públicos. Não podemos esquecer que tudo que envolve a atuação nas empresas, como trabalho, dinheiro, relacionamentos, projetos e sonhos, está a serviço da felicidade humana. Se a ética empresarial tem como meta 3 P’s (em inglês, profit –lucro-, people, planet), fica claro que a dimensão da pessoa (people) deve presidir as demais. A felicidade se realiza em cada um. Quem cultiva a espiritualidade, sentindo a presença do mistério dentro de si, abre-se ao encontro com o outro. Assim, pode ver que a vida tem um sentido maior que nossa existência. Essa dimensão de transcendência ajuda a ser feliz. E contribui para fazer do trabalho uma fonte de realização porque pelo no sentido. (i)

Este parágrafo e o seguinte foram inspirados nas ideias dos dois primeiros capítulos do livro de TOLLE, Eckhart. Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência. Rio de Janeiro: Sextante, 2007. (*) Roberto Patrus-Pena (robertopatrus@terra.com.br) é colunista de Plurale, colaborando com artigos sobre Sustentabilidade. Filósofo, psicólogo, mestre em Administração e Doutor em Filosofia. Professor, palestrante, psicoterapeuta, escritor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Administração da PUC Minas.

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Artigo

Denise Hills

Sustentabilidade:

no ambiente financeiro

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o contexto em que vivemos atualmente, com as cidades brasileiras cada vez mais inchadas – mais de 84% da população brasileira vive em zonas urbanas segundo o último censo do IBGE – e expansão da economia, em que as projeções apontam um aumento de cerca de 4% em 2011, falar sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente não é mais assunto apenas para os ambientalistas. O crescimento das cidades e da economia como um todo gera grandes impactos ambientais,

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como maior emissão de gases, produção de lixo e degradação das matas, que afetam a todos, indistintamente. Assim, a pauta sobre meio ambiente deve ser tema de discussão não somente no governo, mas também nas escolas, nas empresas e na sociedade como um todo. Como atuo na área financeira, proponho-me a destacar qual é o papel das instituições financeiras. É sabido que os bancos são viabilizadores econômicos de projetos de pequenas, médias e grandes empresas, seja por meio de investimentos ou financiamentos. E o desafio


que temos pela frente é como ser um agente de transformação viabilizando boas práticas socioambientais. As instituições financeiras não têm o poder fiscalizador, isso é função do governo, mas podem ser um agente catalisador, incentivando as empresas a inserirem aspectos socioambientais em sua gestão, nos seus projetos de expansão ou na construção de novas unidades. Identificar essas oportunidades é uma forma de estimular a sustentabilidade dos clientes e, ao mesmo tempo, inserir o tema no dia a dia dos negócios do banco. Linhas de financiamento específicas, apuração de riscos socioambientais nas operações, seguros ambientais e análise socioambiental nos investimentos são algumas formas encontradas pelos bancos para influenciar sua cadeia de clientes e fornecedores, entretanto as instituições financeiras podem ir além. Uma forma é dialogar com as empresas parceiras atuando como “advisory”, mostrando oportunidades de melhoria, especialmente para aquelas que estão pouco sensibilizadas ao tema. Entretanto, trata-se de um longo caminho, tanto para os bancos, quanto para as empresas, pois não basta ter um processo ou um produto. A linha de frente, a área comercial, tem que entender a importância do tema, ter argumentos e conseguir identificar, assertivamente, como a empresa parceira minimiza seus impactos ambientais e sociais negativos. Outra forma é potencializar companhias, no Brasil e no mundo, que pioneiramente estão desenvolvendo tecnologias e projetos diferenciados em prol do meio ambiente. Isso pode ser feito por meio de parcerias com universidades, fundos ou private equity ou por outras formas, dependendo da criatividade de cada instituição financeira. Os bancos europeus e alguns americanos estão na vanguarda desse movimento, inclusive alguns, trabalhando de forma colaborativa. Goldman Sachs, Standard Chartered, JP Morgan e Triodos Bank são alguns exemplos de bancos que lideram esse movimento. As instituições financeiras estão buscando alternativas para promover a sustentabilidade nas empresas, mas não podemos esquecer que as organizações são feitas por pessoas, e são elas que farão a diferença! Incluir a sustentabilidade na tomada de decisões é reconhecer que a empresa está inserida num contexto que tem impactos sobre os negócios, mas sensibilizar e engajar os indivíduos é um investimento que todas as empresas devem fazer. Afinal de contas é a mudança de nosso padrão de consumo e de nossas atitudes que contribuirá para que desperdicemos menos os recursos naturais. No caminho certo Recentemente, recebemos uma notícia que nos mostrou que estamos indo na trajetória correta. No dia 16 de junho, o Itaú Unibanco foi eleito, em Londres, o

Banco Mais Sustentável do Mundo no prêmio “2011 FT/IFC Sustainable Finance Awards”, concedido pelo jornal britânico Financial Times e pelo IFC (International Finance Corporation), braço financeiro do Banco Mundial. Esse reconhecimento comprova o foco na integração da sustentabilidade de forma transversal nas áreas de negócio, reforçando nosso foco em performance sustentável. O Itaú Unibanco procura combinar consistente desempenho financeiro com atitudes que privilegiam a ética, a transparência no relacionamento com clientes, colaboradores, acionistas e comunidade. Estamos comprometidos com princípios sólidos de atrelar o tema aos negócios da organização. Foi exatamente este o ponto destacado na premiação, o compromisso das instituições financeiras em tornar a sustentabilidade uma parte central de seus negócios. Especialmente neste setor, em que a atividade em si não causa impactos ambientais diretos, mas que pode atuar de forma significativa. A análise de risco socioambiental para crédito como ferramenta estratégica de gestão de risco e na análise de investimentos, citada anteriormente, além de produtos inclusivos como microcrédito e crédito universitário e o foco no relacionamento com o cliente foram aspectos essenciais apontados pela comissão julgadora para a concessão do reconhecimento ao banco. A nova visão do Itaú Unibanco lançada em 2010 – ser o banco líder em performance sustentável e em satisfação dos clientes – também foi citada como ponto positivo para a premiação. E, ainda, foi reconhecido todo o histórico de compromissos e pactos que assumimos nos últimos anos, como Princípios do Equador e Princípios para o Investimento Responsável (PRI), Pacto Global e Carbon Disclosure Project. O FT/IFC Sustainable Finance Awards é um dos reconhecimentos mundiais mais relevantes na área da sustentabilidade e há cinco anos elege as instituições financeiras focadas no desenvolvimento sustentável. A edição de 2011 obteve um recorde de 187 inscrições de 161 instituições em 61 países. O banco também foi escolhido como Mais Sustentável das Américas, concorrendo com instituições da Argentina e do México. Em 2009 e 2010 o Itaú Unibanco já havia recebido o prêmio na categoria Banco Mais Sustentável da América Latina e de Mercados Emergentes. Este prêmio é mais uma prova de que a atuação de um banco, do sistema financeiro em si, ou de qualquer área de atividade econômica pode e deve ter compromissos e ações focadas na sustentabilidade.

*Denise Hills é Superintendente de Sustentabilidade do Itaú Unibanco

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Colunistas

Dario Menezes

O desafio corporativo de cada dia Reflexões sobre a 15ª Conferência Internacional sobre Reputação Corporativa, Identidade e Marca

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o contexto social em que vivemos, em que os efeitos da globalização, da Internet, da livre circulação de ideias e do tráfego instantâneo de capital, as pessoas, as empresas e os países estão cada vez mais interdependentes. O que ocorre em um lugar influencia um ou mais públicos de interesse ou organizações em qualquer parte do mundo. Reputação é baseada na compreensão da percepção que os stakeholders têm sobre as ações passadas e possíveis iniciativas futuras da empresa para o melhor relacionamento com eles, seja esse um empregado, um acionista, um cliente, um fornecedor, um representante do governo, um jornalista, um membro da comunidade acadêmica ou um representante de uma organização da sociedade civil. Quando a organização é percebida positivamente por esses públicos, naturalmente eles tendem a ter uma atitude favorável em relação à empresa, apoiando suas iniciativas e engajando-se em suas relações comerciais e institucionais. Portanto, não estamos falando de imagem ou marca, mas sim de um ativo valioso que se constrói através de ações e relacionamentos consistentes, transparentes e coerentes ao longo dos anos. A eficaz gestão da reputação reduz conflitos, ajuda a empresa a lidar com a diversidade, gera valor e benefí-

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cios mútuos. Essa gestão é realizada por meio do alinhamento entre a visão estratégica da empresa, sua cultura organizacional e as percepções dos stakeholders. Já os riscos que podem causar danos à reputação têm impacto direto na organização como um todo, afetando sua credibilidade, seu desempenho financeiro, reduzindo o apoio dos seus stakeholders e da sua capacidade de reunir diferentes públicos em prol de uma causa comum. Geralmente originam-se do gap existente entre a reputação conquistada pela empresa e a sua realidade, nas mudanças nos valores e expectativas dos seus públicos de interesse ou na falta de ação e alinhamento interno. Esses riscos baseiam-se em eventos ou fatos contextuais que podem levar a empresa a perder a pré-disposição de seus públicos em apoiá-la, por consequência reduzindo valor e aumentando os seus custos internos, devido ao tempo, energia e trabalho que terão que ser investidos para recuperar essa pré-disposição de apoio dos seus públicos. Após a participação na 15ª. Conferência Internacional sobre Reputação, Identidade e Marca realizada recentemente pelo Reputation Institute em New Orleans, destaco algumas conclusões relevantes sobre o avanço da gestão da reputação, sua abrangência dentro da estratégia corporativa e alinhamento com a competitividade das empresas:


1. De uma forma global, os públicos estão cada vez mais interessados em entender, conhecer e reconhecer a organização (estratégia, processos sustentáveis e governança) que está por trás das marcas, e não somente conhecer os seus produtos e serviços. Essa argumentação baseia-se em um recente estudo internacional que indica que 61% da disposição das pessoas para recomendar uma empresa é dirigida por sua percepção da empresa como um todo, enquanto apenas 39% indicam depender das percepções dos produtos e serviços da empresa. Dessa forma, o que vai fazer a diferença no contexto atual é a forma como a empresa produz, como está estruturada toda a sua cadeia de valor e como ela se relaciona com os seus públicos estratégicos. 2. Focalizar na visão e entendimento das expectativas e percepções dos múltiplos stakeholders da empresa e não apenas da análise tradicional dos acionistas, governo e clientes. É necessário ampliar a lente de visão sobre esses públicos e inseri-los de uma forma sistêmica e estruturada na estratégia das empresas. 3. Gerenciar os riscos associados à reputação de uma forma preventiva e proativa não atuando somente após o início da crise de imagem corporativa. 4. Monitorar a presença nas mídias tradicionais e sociais e as alterações no seu contexto social de atuação. 5. Analisar as externalidades (positivas e negativas) geradas pela empresa e o impacto social das ações corporativas. Sendo assim não é difícil prever que cada vez mais os comportamentos, ações e posturas das organizações

deverão ser pautados pela equidade, engajamento de todos os seus stakeholders, transparência, pré-disposição para a prestação de contas as suas partes interessadas e respeito aos consumidores. Seja uma empresa petrolífera, do segmento de telecomunicações ou do segmento eletroeletrônico como foi o recente caso da Sony. Segundo o estudo 2010 ™ RepTrak produzido pelo Reputation Institute, a Sony criou um dos mais fortes reputação no mundo, alcançando o segundo lugar no ranking global, somente atrás do Google e contemplando com sucesso seu histórico de 65 anos de inovação, reconhecimento de mercado e de crítica. Em 2011 um evento inesperado mudou a história da Sony, quando a empresa enfrentou o maior ataque a sua reputação nos últimos anos. Um grupo de ativistas hackers roubou uma quantidade considerável de dados confidenciais dos usuários mundiais da rede PlayStation. A Sony demorou aproximadamente um mês para comunicar oficialmente a violação de segurança, explicando que os dados dos usuários, incluindo informações de cartão de crédito, talvez tivessem sido colocados à venda na rede mundial de computadores. Em várias partes do mundo, a empresa foi alvo de críticas em todas as mídias tradicionais e sociais, pois os seus clientes, até então fiéis advogados da marca, ficaram confusos e indignados. Eles criticaram a empresa por práticas de segurança questionável, fraco processo de governança e comunicação lenta em responder a essa questão tão relevante, prejudicando a imagem da empresa e levando ao declínio da sua reputação do 2º para o 6º lugar no estudo conduzido em 2011. Os efeitos da crise têm sido visíveis no preço das ações da Sony desde março com queda de dois dígitos no seu valor de mercado. Isso reforça o conceito de que os riscos associados à reputação baseiam-se em eventos ou fatos contextuais que podem levar a empresa a perder a pré-disposição de seus públicos em apoiá-la, por consequência reduzindo valor. Fica claro, assim, o grande desafio das empresas, o desafio corporativo atual: manter-se relevante no processo de inovação dos seus produtos e serviços, ser cada vez mais eficiente na implementação da sua estratégia corporativa, desenvolver novas formas de relacionamento e marketing sem contudo, esquecer de entender, monitorar e atender as expectativas de seus públicos de interesse de uma forma transparente, consistente e crível. (*) Dario Menezes é Diretor de Novos Negócios do Reputation Institute e professor do IBMEC/RJ e da ESPM/RJ.

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Especial

Hidreletricidade rima com Sustentabilidade? Evento internacional reúne em Foz do Iguaçu especialistas para debater o tema. Protocolo foi lançado apresentando melhores práticas em Sustentabilidade para usinas futuras, mas protestos marcaram tom de polêmica Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista(*) De Foz do Iguaçu (PR) Fotos: Efraim Neto e Divulgação IHA

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raticamente em toda apresentação sobre a matriz energética brasileira o destaque é para a liderança da geração por hidrelétricas, chegando a 14,2%, que, somadas a outras fontes renováveis, atinge cerca de 46%. Mas seria esta fonte de energia realmente sustentável? O debate se acirrou nos últimos tempos diante da urgência de conseguir abastecer o crescimento acelerado da economia, com previsão de aumento na demanda por energia de cerca de 60%, alavancando como prioritários investimentos maciços em hidrelétricas na região Amazônica, uma das mais ricas do planeta em biodiversidade. Em junho, especialistas de diversos países estiveram reunidos no Congresso Mundial de Hidreletricidade 2011, evento realizado não por acaso em Foz do Iguaçu, onde está localizada uma das maiores usinas do planeta, Itaipu Binacional. Promovido pela Associação Mundial de Hidreletricidade (IHA, em inglês), foram quatro dias intensos de rodadas de debates com foco não só na questão técnica dos empreendimentos, mas, principalmente, em Sustentabilidade. “Não há dúvida que investimentos em hidreletricidade são sustentáveis”, frisou o presidente da IHA, Refat Abdel-Malek.

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Representantes de organismos multilaterais, empresas especializadas neste setor e representantes do governo brasileiro fizeram coro. O secretário do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmerman, também destacou o papel relevante desta fonte na matriz energética brasileira. E o presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, lembrou os recentes estudos mostrando que a matriz energética deverá mudar nos próximos anos, chegando em 2030 em torno de 46,3%, quando hoje é de 44,8%, somando hidráulica, eólica, biomassa, entre outras). “Temos uma das matrizes mais limpas do mundo. Devido ao potencial de exportação de petróleo e à estabilidade de suas instituições, o país será cada vez mais cotejado pelas maiores economias mundiais como um parceiro estratégico para suprimento energético”, frisou Tolmasquim. Protocolo - Durante o Congresso Mundial foi lançado o Protocolo de Sustentabilidade para o setor. O documento apresenta melhores práticas em Sustentabilidade para empreendimentos que ainda serão feitos e também para os que já estão em funcionamento. Oito empresas assinaram o compromisso de cumprir o Protocolo, entre elas, Itaipu Binacional do Brasil. O grupo Odebrecht também demonstrou interesse em ser signatário, mas ainda está estudando o assunto. “Já seguimos as melhores práticas em sustentabilidade, com ISO em nosso empreendimento. Mas este Protocolo é mais um passo importante”, explicou Antônio Cardoso, dire-


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Jorge Samek, Diretor-Geral de Itaipu

tor técnico de Itaipu Binacional. Ele explicou que a partir de agora o detalhamento do Protocolo será replicado para os departamentos da empresa. E acredita que Itaipu poderá servir de exemplo para outras companhias brasileiras que atuam em hidreletricidade. Várias ONGs, como a WWF, a TNC, a Oxfam e a Transparência Internacional participaram da redação do Protocolo, que também contou com o apoio de organismos multilaterais, como o Banco Mundial. O trabalho levou oito anos e a expectativa é de um custo de 1,28 milhão de euros de setembro de 2010 até setembro de 2013. O presidente da IHA, Refat Abdel-Malek, destacou que a adesão ao Protocolo é voluntária e será uma ferramenta relevante para as companhias que atuam neste ramo perseguirem a Sustentabilidade. “Estamos muito orgulhosos do trabalho desenvolvido”, afirmou. Um pouco antes do anúncio oficial, na plenária do Congresso, quando o lançamento do Protocolo foi anunciado, houve protesto de representante da ONG International Rivers, Zachary Hurwitz, que falou em nome de 22 organizações da sociedade civil. “O Protocolo é só uma carta de intenções e não fala de temas relevantes como a questão do respeito aos Direitos Humanos”, disse. A resposta veio de integrantes do grupo de trabalho do Protocolo, ao frisar que o diálogo está aberto e que várias ONGs participaram do processo. Além de Itaipu, outras sete companhias de hidreletricidade assinaram hoje o Protocolo de Sustentabilidade: EDF, E.ON, Hydro Tasmania, Landvirkjun, Manitob Hydro, Sarawak Energy e Statkraft. Para garantir a correta aplicação do protocolo, a IHA irá estabelecer um conselho supervisor e treinar auditores independentes. “A Rede WWF assume o compromisso de apoiar este processo e garantir que os estudos baseados no protocolo sejam confiáveis e que a ferramenta seja usada para promover mais sustentabilidade e não para o chamado ‘greenwash’ ou ‘banho’ de sustentabilidade”, assegurou Joerg Hartmann. O Protocolo de Sustentabilidade da IHA considera quatro componentes: o planejamento, preparação, implementação e operação dos empreendimentos hidrelétricos. Hidrelétricas na Amazônia – Apesar do recente anúncio do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de que o governo desistiu de usar todo o potencial da Amazônia para a produção de energia hidrelétrica, ainda paira sobre a região a ameaça de diversos novos empreendimentos, como as 13 hidrelétricas planejadas para o rio Tapajós nas próximas décadas. Tais empreendimentos poderão ser beneficiados orientados com a aplicação do Protocolo de Sustentabilidade da IHA, de acordo com o coordenador de Infraestrutura da Iniciativa Amazônia Viva, da Rede WWF, Pedro Bara Neto.

Pedro Bara, da WWF-Brasil

Para o WWF-Brasil é necessária uma visão sistêmica das bacias hidrográficas quando do planejamento de novos empreendimentos, de forma a conservar o funcionamento dos ecossistemas e a integridade social, econômica e cultural das comunidades que habitam as áreas atingidas, ou mesmo definir rios a conservar livres de barragens. “Não existe mágica em conservação, especialmente em uma área rica e complexa como a Amazônia, mas este protocolo proporciona melhores oportunidades para o diálogo e apoio a decisões bem informadas e baseadas em fatos científicos”, disse Bara Neto. Protesto – Tantos dias de debate e a polêmica não foi esquecida. De que forma esta energia renovável hidráulica está sendo produzida no Brasil e em outros países em desenvolvimento? A que custo socioambiental? Baseada em que princípios éticos? Belo Monte, no Rio Xingu, é apenas a face mais polêmica do ambicioso plano de expansão de investimentos em hidrelétricas no país, envolvendo vultuosos recursos privados e oficiais. Somente no Rio Tapajós está prevista a construção de 13 hidrelétricas nas próximas décadas.

Sheila Juruna

O protesto quase solitário de dois representantes de povos indígenas no evento solene marcou bem o tom de falta de sintonia entre as partes envolvidas. “Não queremos Belo Monte. E somos contra também outras hidrelétricas que estão destruindo a Amazônia e outras florestas brasileiras”, gritou, em meio à plenária, enquanto falava um dirigente da Eletrobrás, a índia Sheila Juruna, da etnia Juruna. Também o pataxó Me Tuktine protes-

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Especial

tou, mas em tom menos exaltado. “Há um tremendo impacto social na região de Belo Monte. Não estamos sendo ouvidos pelo Governo. Queremos que nos ouçam”, disse. Em esmagadora minoria, os manifestantes foram vaiados. Mas o representante da Eletrobras pediu calma a plateia e assegurou que os povos indígenas estão sendo sim ouvidos em todas as audiências públicas. Os dois indígenas contaram que não foi fácil conseguirem se credenciar para o evento, contando com o apoio da ONG global International Rivers, com sede na Califórnia, a mesma que protestou na assinatura do Protocolo de Sustentabilidade. Mas se é preciso continuar girando o motor da economia – e o Brasil tem pressa no crescimento – como conciliar desenvolvimento das hidrelétricas com sustentabilidade? “Cada caso é um caso, mas temos um modelo muito sustentável. Itaipu comprovou ser possível ter um relacionamento aberto com as comunidades e todos as partes envolvidas”, disse Jorge Samek, diretor geral pelo lado brasileiro de Itaipu Binacional. Modelo - Em rodas reservadas comenta-se que o Governo Dilma Rousseff gostaria de adotar muitas das práticas socioambientais de Itaipu – com 37 anos, nascida no Governo Militar - no desenvolvimento das hidrelétricas que estão sendo construídas na Amazônia (leia mais sobre isto a seguir). Samek acrescenta que Itaipu tem uma característica ainda mais particular: conciliou interesses de dois países – Brasil e Paraguai. “Temos expertise suficiente para acreditar na integração energética em outros projetos também”, disse, citando investimentos binacionais – de geração e transmissão - com a Argentina e Venezuela, por exemplo. O presidente da Eletrobrás, José da Costa Carvalho, também insistiu neste tema ao falar no Congresso. Segundo ele, a energia elétrica – seja via hidrelétricas ou linhas de transmissão – tem um imenso papel para intensificar a interligação do Brasil com outros países da América Latina. “Isso está acontecendo com a Argentina, Uruguai, Venezuela, Peru e Bolívia”, explicou Carvalho Neto. Ele citou os casos dos projetos das Usinas de Garabi e Panambi, com a Argentina; Cachoeira Esperanza, na Bolívia e de Guri, com o Peru. Segundo o presidente da Eletrobras, Itaipu “é um bom modelo para ser seguido”, citando os projetos ambientais e sociais desenvolvidos. “Um sobrevoo de helicóptero na região de Itaipu mostra o trabalho de preservação e resgate das matas ciliares e da microbacia hidrográfica”, complementou Carvalho. A integração com outros países vizinhos, explicou o executivo, pode ser através de uma hidrelétrica, a exemplo do que está acontecendo com Argentina, Venezuela e Bolívia, ou também por intermédio de linhas de transmissão, como com o Uruguai, que depende ainda de licenciamento ambiental, e a expectativa é que as obras comecem no segundo semestre. As obras por lá já começaram e pelo lado brasileiro deverão se iniciar tão logo saia o licenciamento. O diretor geral brasileiro de Itaipu Binacional, Jorge Samek, também falou aos jornalistas sobre o papel relevante da integração latino-americana através de usinas e contou que tem recebido delegações de vários países para conhecer melhor o modelo da usina construída pelo Brasil e Paraguai. “Este é um sonho de todo país”, frisou.

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Belo Monte – Sobre Belo Monte, o presidente da Eletrobras considerou normal a saída do grupo Bertin, dando lugar para a Vale. Ele destacou os investimentos em meio ambiente do empreendimento, totalizando cerca de R$ 3 bilhões, em saneamento, construção de casas, etc. Um pouco antes da coletiva, na plenária, o presidente da holding estatal de energia afirmou que esta é uma batalha principalmente de comunicação e que “alguns grupos, uma minoria, se opõem.” No caso de outros empreendimentos na Amazônia, como as cinco hidrelétricas previstas para o Complexo do Tapajós, o modelo a ser seguido será novo, de plataformas. Carvalho Neto explicou que, como se fosse a plataforma de petróleo, a usina é instalada e depois do processo de sua construção, o objetivo é desmobilizar tudo para que a floresta volte a ocupar seu espaço e não surja ali um novo pólo econômico. “O objetivo é procurar preservar ao máximo a biodiversidade”, disse o presidente da Eletrobras. Escolhas – Apesar de defender as hidrelétricas como “grandes fontes de energia renovável” e dentro de todos os preceitos da sustentabilidade, até mesmo o presidente do Instituto Acende Brasil, Cláudio Salles critica a forma como Belo Monte tem sido tocada. “A maneira como está acontecendo este investimento, no mínimo de forma atropelada, não deveria ser repetida”, destacou, em entrevista à Plurale. Mas defende a relevância do projeto. “Não há como abrir mão deste potencial de geração de energia. Porém, melhor seria tratar este debate com serenidade.” Há um debate também sobre o tamanho da área atingida e sobre a necessidade ou não e como deve ser o reservatório. Hoje, pelas regras atuais, só se pode fazer reservatório praticamente a fio d`água, o que tem provocado um certo “descontentamento” de alguns representantes do setor privado. O governo não admite a possibilidade de alterar as regras agora, mas a pressão continua. “Alguma hora este escolha entre a capacidade menor de geração, que deixa de armazenar não só naquela usina, mas também perde a capacidade de biomassa e eólica”, diz Salles. O Grupo Odebrecht, com forte atuação na construção e operação de hidrelétricas, também defende o caráter sustentável deste tipo de projeto. Capitaneando o projeto Santo Antônio, em Rondônia, defende ser possível sim avançar com resultados concretos. “Temos praticado a sustentabilidade em nossos investimentos, inclusive com certificações internacionais”, afirmou Luiz Gabriel Todt de Azevedo. Ele admite que o debate sobre as hidrelétricas na Amazônia é relevante, mas insiste não haver outro caminho para atender o forte crescimento da demanda por energia no Brasil. “O debate é sadio. Mas a fronteira de expansão do Brasil é a Bacia Amazônica”, afirma. E volta a destacar o que chama de “posições transparentes” no caso de Santo Antônio. “Trabalhei em vários países e vejo como estamos avançados em termos de fazer uma hidrelétrica de forma sustentável”, concluiu Azevedo. Mas afinal, hidreletricidade, rima mesmo com sustentabilidade? Ficou claro que este debate está mesmo bem longe do fim. (*) A editora viajou a convite da organização do evento.


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paisagem impressiona. Por onde o carro cruza, até onde a vista alcança, as terras férteis estão cobertas de plantação, principalmente de milho e soja. Marcações com placas brancas vistosas, com combinação de números e nomes de fabricantes de sementes, indicam aos produtores dados sobre as sementes e produtos utilizados em cada lavoura. Por produtos entenda-se também agrotóxicos. A cena se repete em diferentes cidades que cruzamos a partir da saída cedo de Foz do Iguaçu, em um dia quente de junho. A depender do ponto-de-vista, esta região, berço de água boa e solo firme, é “herdeira” ou “madrasta” de sua sina, digamos assim: como os municípios são diretamente – ou indiretamente – afetados pela Hidrelétrica Itaipu Binacional estão umbilicalmente ligados ao megainvestimento. A empresa binacional – como indica o nome, brasileira e paraguaia – precisou cumprir todas as condicionantes. Entre eles, atender a região na área socioambiental. O principal cartão-de-visitas da companhia é o Programa Água Boa. Que, não por acaso, tem este nome. A mesma água potente da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná, que assegura os valiosos recursos para a binacional, também precisa ser compensada e preservada para todos. Municípios - O programa foi lançado em 2003 e definiu como território de atuação a unidade de planejamento da natureza, a Bacia Hidrográfica. Decorrente deste conceito, a área de influência de atuação direta da Itaipu deslocou-se de 16 municípios conhecidos como lindeiros e que tiveram áreas inundadas pelo reservatório da usina, na margem brasileira, para os 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3, conhecida como BP3.

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Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista De Foz do Iguaçu, Missal, Santa Helena e São Miguel do Oeste (PR) - Fotos: Adenério Zanella

Produção de orgânicos em pequenos municípios em torno de Foz do Iguaçu mostra resultados como parte do Projeto Cultivando Água Boa “Temos procurado construir um modelo de desenvolvimento sustentável com a participação de todos os envolvidos”, explica Nelton Friedrich, diretor de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu. E acrescenta que o Cultivando Água Boa está fundamentado em documentos nacionais e planetários e tem como objetivo estabelecer critérios e condições para orientar as ações socioambientais relacionadas com a conservação dos recursos naturais e centradas na qualidade e quantidade das águas e na qualidade de vida das pessoas Com a experiência de Deputado Constitutinte, Nelton tem “costurado” acordos e parcerias envolvendo prefeituras e comunidades para que os resultados se concretizem. O filósofo Leonardo Boff, um dos autores da Carta da Terra, está envolvido com o programa desde o início. Na esteira de ações do Cultivando Água Boa há desde Educação Ambiental para

Nelson Girotto

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estudantes, Gestão por Bacias, Desenvolvimento da Pesca, até um projeto de Agricultura Orgânica. Ao todo, são 18 programas, 70 projetos e 108 ações de responsabilidade socioambiental. O Cultivando Água Boa recebeu vários prêmios e tem sido considerado modelo. Tanto que foi “importado” para a hidrelétrica paraguaia de Yacyretá, em março deste ano, com a ajuda de Itaipu. “Itaipu e Yacyretá estão demonstrando que empresas do setor elétrico podem ser muito mais do que meras geradoras de energia para se converterem em verdadeiras promotoras do desenvolvimento regional”, disse Jorge Samek, diretor-geral brasileiro de Itaipu, na época da solenidade. Modelo - Foi com este olhar de “São Tomé”, de quem precisa ver para crer, que partimos para conferir de perto se o discurso dos executivos em gabinetes com ar-refrigerado realmente está florescendo sob o sol quente. Ainda mais depois que crescem os rumores que o Governo de Dilma Roussef pretente usar o modelo socioambiental de Itaipu como modelo para a exploração de novas hidrelétricas na Amazônia, onde só cresce a polêmica sobre os impactos socioambientais na Bacia do Xingu, em uma das regiões riquíssimas em biodiversidade – uma das mais preservadas não só do Brasil, mas do planeta. O objetivo de nossa visita em campo era verificar como a iniciativa de promover a Agricultura Orgânica estava acontecendo nas pequenas propriedades rurais. A primeira parada foi no sítio da família Girotto, na área rural do município de Santa Helena, distante cerca de duas horas de Foz do Iguaçu. A propriedade familiar se diferencia bem das que vimos nas redondezas. No lugar dos frondosos – e parecendo até de desenho animado de tão verdes – campos de milho e soja, nos deparamos com a variada agricultura familiar e orgânica, misturando criação de animais com o plantio de diferentes culturas.

Professora Bia e alunos

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Nelton Friedrich, de Itaipu

“Tem gente aqui que me acha doido, mas não troco a agricultura orgânica por nada neste mundo”, resume Nelson Antônio Girotto, 47 anos. Quando usava agrotóxico, chegou a ser intoxicado e decidiu que nunca mais mexeria com os produtos. Pai de um garoto de oito anos e aguardando a chegada de mais um filho, o gaúcho, descendente de italianos, conta que chegou por estes lados do Oeste do Paraná quando ainda era pequeno, trazido pelos pais. A propriedade foi herdada pelo lado do avô materno, que dividiu suas terras herdadas entre os filhos, depois herdadas pelos netos. Nelson ficou com uma fatia de 16 hectares, dos quais planta em 12 hectares um pouco de tudo, entre frutas e legumes, dependendo da época: maracujá, morango, mandioca, salsinha e o que mais der, em sistema de rodízio. Saudável - Recebeu incentivos do Programa Água Boa – assim como cerca de 1 mil produtores da região - para não seguir o exemplo dos primos e amigos, todos plantando com agrotóxicos, e manteve o modelo que seus avôs e pais lhe ensinaram de usar como adubo apenas a compostagem e o esterco animal. Dependendo do mês e das vendas, o agricultor conta que dá para fazer até R$ 2 mil. Ainda há alguns gargalos a serem superados, lembra o agricultor, como uma maior presença das Prefeituras, nas contrapartidas. Mas nada que não possa ser resolvido com maior diálogo. “Não temos do que reclamar. Aqui, o que se planta, dá”, conta. A maior parte da produção é comprada pelo Programa, que destina os produtos principalmente para a merenda das escolas da região. Mas nem só isso. Nélson também vende, duas vezes por semana, seus legumes e frutas orgânicas em feiras da região, incentivadas pelo programa. “São muito mais saudáveis”, assegura, orgulhoso que o filho nunca está doente e jamais precisou ficar internado.

Fransuellen Machado


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quecidos de variedade e de qualidade. Dulce mostra ainda a horta no terreno ao lado, mantida com a ajuda das crianças. Coooperativa – Nem só nas escolas são colocados os produtos orgânicos. Miguel Sávio, funcionário da área de Meio Ambiente de Itaipu, mostra a colocação ainda em cooperativas e pontos de venda nos diferentes municípios. Em Missal, próximo de Santa Helena, é possível encontrar não só legumes e frutas orgânicas, mas também geléias e pães caseiros produzidos na região. “Venho sempre aqui comprar. São muito frescos e saudáveis”, assegura o médico Luiz Gustavo Neves. O vice-presidente da Cooperativa das Agroindústrias das Famílias do Oeste de Paraná, Mário Trevisan, faz questão de destacar que os preços dos orgânicos não são tão diferentes dos produtos tradicionais, como

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Saudável e gostoso. Que o digam as crianças da região, como as que estudam na Escola Municipal Nereu Ramos, ali perto. “A comida é ótima e não tem veneno”, diz a simpática Fransuellen Kalbaum Machado, de nove anos. A criançada da turma concorda em gênero, número e grau. “Como tudo, aqui e em casa”, completa Paola Girotto, sobrinha do agricultor Nélson. Aliás, por esta comunidade de Santa Helena, todos parecem formar uma grande família unida. A professora da turma é ... a esposa de Nélson, Maria Beatriz Girotto, mais conhecida como Bia. “Estamos estudando conceitos de Meio Ambiente e sempre passo para as crianças a importância de preservarmos o planeta e de comermos produtos saudáveis”, conta a Professora Bia, 39 anos, grávida do segundo filho. Inteligente e doce, ela vai além. Conta para os jovens a lenda local da gralha azul, que dissemina as sementes dos pinheiros, destacando o conceito de preservação. “A realidade aqui é da agricultura com agrotóxicos e não há muito preocupação com a saúde do solo e das pessoas. Mas as crianças serão nossas gralhas azuis, neste futuro trabalho de preservação”, acredita. Na escola, a comida servida na merenda e gostosa e só utiliza produtos orgânicos. Para incentivar ainda mais este conceito, o Programa Cultivando Água Boa lançou um Concurso de Receitas para as merendeiras, apenas utilizando produtos orgânicos e saudáveis. “Minha receita foi selecionada e publicada no livro”, se orgulha a merendeira Ivani Lúcia Both. Por dia são servidas cera de 100 merendas de manhã e outras 40 de tarde. “Não sobra nada nos pratos”, comemora Ivani. A diretora da escola, Dulce Grande Miranda, conta que antes havia muita comida industrializada, principalmente enlatados. Com a chegada dos produtos orgânicos, os cardápios foram enri-

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Ivani Both

costuma acontecer em alguns grandes centros, com em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Negociamos com os produtores para que os orgânicos tenham preços competitivos”, diz. A mandala é utilizada nas apresentações sobre o Cultivando Água Boa. Nelton Friedirich, coordenador em Itaipu do programa, explica que esta simbologia é muito importante. “Estamos em um laboratório a céu aberto. A ideia de poder compartilhar, criar junto, desenvolver com a sociedade é a mais valiosa. Replicar o que estávamos vivendo aqui em outras regiões seria ótimo. Mas é preciso entender a importância de construir em conjunto, dentro da realidade de cada região”, destaca. No caso da região da Bacia Hidrográfica do Paraná 3, conhecida como BP3, onde está em curso o Água Boa, a adesão foi total. Após reuniões de sensibilização, todos os municípios apoiaram o Comitê. “O programa não é de Itaipu. Passou a ser um movimento de todos”, frisa Nelton. Este ano estão previstos cerca de US$ 12 milhões. Se isso poderá funcionar em outras áreas, ainda não é possível assegurar. Mas, a julgar pelo que vimos, ao menos por estas bandas do Oeste do Paraná, é possível sim sonhar com alternativa ao tradicional modelo de relacionamento entre municípios e gestores de hidrelétricas.

Luiz Gustavo Neves

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Cataratas do Iguaçu: imagem para nunca mais ser esquecida

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m simpático quati aparece do meio da mata nos recepciona na descida até as Cataratas do Iguaçu. Ele é o símbolo deste belo Parque Nacional, que encanta turistas de diferentes partes do planeta. A russa Natasha não se cansava de apreciar e curtir a paisagem. Como ela, americanos, japoneses, chineses e visitantes de diversos países se encantavam com a força da natureza na forma de água e pedras. Estes flagrantes geniais são do jornalista Efraim Neto, especializado em Ecologia, que assim como nós, de Plurale, cruza diferentes pontos do país mostrando um Brasil em transformação. Foi sua primeira visita às Cataratas. “Belíssimo”, resumiu. Sem dúvida. E o que é melhor: com a boa administração da cobrança de uma taxa dos turistas, o Parque está bem cuidado e preservado. Muito melhor do que a última visita que fizemos há cerca de 30 anos. Lá está localizado o tradicional Hotel das Cataratas, hoje reformulado, tendo sido transferido para o grupo inglês Orient-Express, o mesmo do Copacabana Palace, no Rio. De acordo com informações do site oficial do Parque Nacional do Iguaçu, as Cataratas estendem-se numa frente semicircular de 2.700 metros de extensão, dos quais 800 metros estão do lado brasileiro e 1.900 metros do lado argentino. São compostas por um número variado de saltos e quedas que oscila entre 150 e 270, de acordo com o volume de água do rio. A altura máxima das quedas é de 80 metros. Os saltos têm nomes próprios como Floriano, Deodoro, Benjamim Constant, mas, o mais famoso é a Garganta do Diabo. As rochas do ParNa Iguaçu se originaram de processos vulcânicos, na realidade, trata-se do chamado vulcanismo de fendas que ocorreu na região entre aproximadamente 165 a 120 milhões de anos. Uma lenda explica sobre o surgimento das famosas Cataratas. Um jovem índio guerreiro, Tarobá, “rouba” a índia Naipi, filha do cacique da tribo, no dia em que ela seria entregue em culto para o deus M`boy. Este, furioso pela fuga, penetrou nas entranhas da terra e retorcendo seus músculos, provocou desmoronamentos que foram caindo sobre o rio, formando os abismos das cataratas. Envolvidos pelas águas, caíram de grande altura. Tarobá transformou-se numa palmeira e Naipi numa rocha junto da grande cachoeira, onde até hoje permanecem enamorados. Poucos sabem, mas Alberto Santos Dumont, o inventor do avião, foi também o padrinho do Parque. Ele visitou as Cataratas em 1916, e diante de tamanha beleza, solicitou ao governador da província que nessa área fosse criado um Parque. Após 23 anos, em 10 de janeiro de 1939, foi criado o Parque Nacional do Iguaçu, desde 1986 considerado Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. Ainda não conhece? Vale a pena marcar a viagem.

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Fotos:

Efraim Neto

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PRÊMIO IBEF

DE SUSTENTABILIDADE

Um projeto que visa certificar e premiar empresas focadas na excelência do tema

Nacional

Neste primeiro ano do Prêmio IBEF de Sustentabilidade foram inscritos 52 cases. Destes, 15 obtiveram o grau de excelência atestado pela banca examinadora e foram certificados. Cinco foram laureados com o troféu Ecosofia:

Gestão Administração de Valorização Previ Conflitos Canal Futura CBV

Estrutura da Operação Pão de Açúcar

Governança Corporativa CPFL Energia S.A.

Empresas que também foram certificadas pelo projeto: PLURALE EM REVISTA - NEOVIA TECNOLOGIA S.A. - L.A. CONTABILIDADE S.A. - FUJB - FASTCLEAN - COELCE - CENTRAL 24 HORAS - CEDAE - BANCO DO BRASIL S.A. - APPI TECNOLOGIA S.A. PATROCINADO POR EMPRESAS COM ATUAÇÃO EM SUSTENTABILIDADE:


Reconhecimento

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premia empresas que se destacam pela adoção de práticas sustentáveis Texto: Isabel Capaverde, de Plurale em revista Fotos: Luciana Tancredo, Equipe Plurale

Além das cinco premiadas, 10 finalistas também foram certificadas. Plurale integra neste seleto time e agora tem selo de certificação

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m concorrido almoço realizado na sede do Centro do Jockey Club Brasileiro, no Rio, o IBEF – Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças certificou e premiou no dia 27 de julho, empresas focadas na sustentabilidade. Eram 15 finalistas em cinco categorias, sendo que Plurale estava entre elas, concorrendo na categoria Gestão. Aplresentada pela jornalista Renata Vasconcelos, a cerimônia de premiação reuniu cerca de 400 executivos e teve início com um clipe da música Heal The World de Michael Jackson, para em seguida passar a entrega do troféu Ecosofia - escultura que sintetiza esteticamente a cultura da sustentabilidade e a capacidade de um sistema de se regenerar - aos cinco vencedores. “Nas próximas décadas, o conhecimento e a inteligência do ser humano passarão por testes difíceis. Não apenas o crescimento econômico deve estar na pauta, mas também a inclusão social, a positividade ecológica e o respeito à cultura local”, destacou a apresentadora. O Prêmio IBEF de Sustentabilidade 2011 teve como patrocinadoras empresas cujas administrações estão voltadas para a sustentabilidade – Vale, Deloitte, Usiminas e Cemig. As empresas que receberam o prêmio em cada categoria foram: Grupo Pão de Açúcar, na categoria Estrutura da Operação; a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em Administração de Conflitos; na categoria Governança Corporativa, a CPFL Energia levou o prêmio; a Previ

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foi contemplada em Gestão e na categoria Valorização, a Fundação Roberto Marinho, com o Canal Futura. Grande disputa - Este é o primeiro ano do Prêmio IBEF de Sustentabilidade. Foram inscritos 52 cases nas cinco categorias

O presidente do IBEF-Nacional, Sergio Melo (D), entrega a Certificação para um dos diretores de Plurale, Carlos Franco (E)


do projeto, avaliados por um Comitê Técnico formado por 15 profissionais em diversas áreas de atividades. Dentre os projetos inscritos, 15 foram certificados. Em 2012, o projeto “Padrão IBEF de Sustentabilidade” novamente irá certificar empresas e administrações voltadas para o tema Sustentabilidade. O projeto, baseado no livro “Avaliação de Investimentos Sustentáveis”, de autoria do Diretor do IBEF- Marcos Rechtman e do Prof. Carlos Eduardo Frickmann, buscou desenvolver conceitos de direção e gestão empresarial para possibilitar a atuação fundamentada em princípios de sustentabilidade das organizações. Ele caracteriza e dissemina responsabilidade socioambiental como paradigma complementar ao desempenho econômico-financeiro. O local foi transformado, por meio de decoração, em uma verdadeira floresta tropical, com direito a montanha e cachoeira. No palco, as empresas vencedoras apresentaram vídeos dos cases inscritos, onde também receberam o troféu Ecosofia, criado pelo artista plástico Gianni Patuzzi, inspirado na obra “As três ecologias”, 1989, de Felix Guattari, psicanalista e filósofo, das mãos de representantes das empresas patrocinadoras. O primeiro envelope a ser aberto pela apresentadora foi o da categoria Estrutura da Operação, ganha pelo Grupo Pão de Açúcar e sua Loja Verde. Em seguida foi a vez da categoria Administração de Conflitos e quem levou o troféu foi a CBV – Confederação Brasileira de Vôlei. Seu presidente Ary Graça, brincou dizendo que o vôlei brasileiro permanecerá no pódio nos próximos anos. Ary Graça, frisou que o vôlei brasileiro é uma empresa geradora de negócios. “O Brasil se transformou em uma potência no voleibol mundial e virou um grande negócio, com várias partes envolvidas. Administrar para que todas essas pessoas tenham suas expectativas alcançadas não é uma tarefa simples”, explicou Ary Graça. Na categoria seguinte, Governança Corporativa, o vencedor foi o CPFL Energia. O próximo envelope a ser aberto foi o da categoria Gestão, onde Plurale era uma das finalistas. Representando a revista e site lá estavam Carlos Franco, editor e sócio (à frente do projeto junto com Sônia Araripe, em viagem), a repórter Isabel Capaverde e a fotógrafa Luciana Tancredo. Apesar da torcida, o prêmio ficou, merecidamente, com a Previ – Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil.

Para o presidente da Previ, Ricardo Flores, “os objetos centrais da atuação de entidades como a Previ são o pagamento de benefícios previdenciários aos participantes e a contribuição para a melhoria da qualidade de vida de cada um deles e de seus dependentes no futuro. Esses objetivos são indissociáveis dos diferentes aspectos envolvidos no que hoje tratamos por sustentabilidade. A empresa acredita que a adoção de uma Política de Responsabilidade Socioambiental ajuda a reforçar os valores éticos e

de transparência da instituição, fortalecendo as parcerias com empresas e organizações que mantenham postura semelhante, além de funcionar como um importante indutor tanto da qualidade da organização quanto de sua imagem”. Orgulho - A equipe Plurale muito se orgulhou de ter sido reconhecida como finalista, fazendo parte deste seleto time. O certificado foi entregue a Carlos Franco pelo presidente do IBEFNacional, Sergio Melo. “A história de reconhecimento de Plurale não é só nossa, mas sim de todos – equipe, colaboradores, parceiros e apoiadores – que acreditaram desde o início na iniciativa de podermos relatar, de forma plural, o processo de transformação no Brasil e no mundo por uma economia em bases mais sustentáveis”, destacou Carlos Franco. Esta é a terceira vez que Plurale, em seus quatro anos de história, é reconhecida por selecionado júri. Anteriormente, a revista e o site com foco em Sustentabilidade ganharam os Prêmios de Jornalismo concedidos pela Associação Brasileira de Fabricantes de Bicicletas (Abraciclo) e da Associação Brasileira de Alumínio (ABAL). E para finalizar a cerimônia, na categoria Valorização, o Canal Futura, projeto da Fundação Roberto Mainho, com parceiros privados, foi o premiado, por desenvolver um belo trabalho voltado para a Educação e Sustentabilidade.

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A transformação na vida de jovens itapagipanos que fazem parte de um projeto social idealizado por Margareth Menezes comprova o que já se imaginava: basta uma chance para que eles se revelem responsáveis, atuantes e sedentos por horizontes mais amplos

Texto: Tom Correia, da Revista Grauçá, de Itapagipe (BA) Fotos: Quasar Imagem e Acervo Fábrica Cultural


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liar sucessos como “Faraó”, “Dandalunda” e “Ellegibô” à Margareth Menezes é um caminho que surge de maneira natural. Mas, bem antes disso, a infância sem recursos vivida pela artista já começava a despertar seus sentidos para as causas sociais autênticas. Não é à toa que ela participa de campanhas que promovem igualdade e inclusão, como as da Legião da Boa Vontade. Enquanto trilhava seu caminho com a paciência dos que acreditam no próprio talento, cantando em eventos como o Ano do Brasil na França e Montreux Jazz Festival na Suíça, nunca esqueceu da sua terra de origem. Foi a partir desta relação afetiva com Itapagipe, onde costumava pescar nos antigos manguezais, que Maga foi desenvolvendo um olhar mais crítico. Era o início do que viria a ser a Fábrica Cultural. Ocupando espaços em locais como a Igreja da Penha, Cabana do Bogary e um galpão na Avenida Beira Mar, a Fábrica tem cursos voltados para alunos regularmente matriculados na rede pública e com renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa. Um dos projetos mais concorridos, o “Na Trilha da Cidadania”, atende jovens de 16 a 24 anos com o intuito de promover a inclusão socioprodutiva, através de ações integradas para formação e qualificação profissional em Estamparia, Design Gráfico, Criações em Costura, Produção Cultural e Manutenção de Micro e Redes com duração de seis meses e cada matriculado recebe R$ 130 de bolsa auxílio. As turmas possuem 30 alunos, orientados pelos profissionais envolvidos no projeto, dentre professores, pessoal administrativo e colaboradores. Desde 2009, quando as atividades foram iniciadas, 500 jovens receberam certificado de conclusão, mas a demanda tem crescido a cada ano: a última inscrição contou com mais de 850 candidatos que concorreram a 375 vagas . A seleção teve etapas como entrevista e visita socioeconômica para averiguar renda familiar.

23, acredita que sua timidez deu lugar a outro comportamento depois de frequentar as aulas de Criações em Costura. “Aqui pude aperfeiçoar o que eu já sabia, além de deixar a vergonha de lado e me tornar muito mais comunicativa”, declara. Moradora da Mangueira, aluna do 2º ano do Ensino para Jovens e Adultos do Colégio Estadual Paulo Américo, ela acredita que se tornou monitora devido à sua dedicação. “Nunca faltei aula, nem mesmo quando chovia muito, e sempre sentei na primeira fila, anotando tudo”, complementa. O ambiente arejado do galpão da Avenida Beira-Mar é bem descontraído. Professores, funcionários e alunos recém-chegados são receptivos e descontraídos, proporcionando um clima propício para que eles cresçam em todos os aspectos. Para a diretora pedagógica da Fábrica, Nadja Miranda, esses primeiros frutos estão sendo colhidos devido à abertura de novos horizontes. “A maturidade deles está nas possibilidades que lhes são oferecidas. Precisamos sensibilizar o jovem para que ele tenha uma formação profissional e supere a falta de perspectivas ao redor. Temos ex-alunos que já estão trabalhando como estagiários e contratados em empresas da região”, diz. Aluno exemplar - Um menino de dez anos corre atrás dos turistas que chegam para visitar a Igreja do Bonfim. Nas mãos, segura os pequenos orixás feitos de plástico e fitinhas que ele mesmo aprendeu a fazer sozinho. Cada um é vendido entre R$ 10 e R$ 15, o que lhe dá autonomia para comprar o que quiser, principalmente brinquedos novos. Assim era a infância de Cleiton Silva, 23, um jovem curioso e observador. Morador do Bonfim, ele descobriu a Fábrica Cultural através de amigos e escolheu aprender Estamparia. Ao final do curso, tornou-se um dos alunos mais destacados. Atualmente é monitor e trabalha numa empresa desenvolvendo peças e tratando tecidos jeans, depois de ser enviado ao Rio de Janeiro para um curso de qualificação de duas semanas. “Acho os jovens de hoje muito mal informados e as oportunidades são poucas, o que só leva ao envolvimento com o tráfico. O poder público olha para o centro, mas esquece de Itapagipe. Precisamos ter mais acesso à cultura e melhor educação”, critica.

O arte-educador e professor do curso de Estamparia, Júlio César Cardoso, 52, além de ser grande admirador da Península, vê nos alunos um traço de personalidade bem definido: a baixa auto-estima. “Quando eles chegam, fazemos todo um trabalho para resgatar a auto-confiança deles, mostrando que é possível reverter esse sentimento de inferioridade”, afirma. Alguns, após receberem certificado, são selecionados como instrutores, transmitindo conhecimento e experiência para as turmas mais novas. Tamires Dantas,

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Social

“Além de qualificar os jovens, nossa intenção também é estimular que eles retornem como multiplicadores às suas comunidades e desenvolvam seus próprios projetos” Teresa Carvalho, Coordenadora Pedagógica do Projeto Trilha Reconhecimento do potencial do lugar, chance para desenvolver talentos, qualificação profissional e inclusão socioprodutiva, sensibilização para descoberta de potenciais produtivos. A Fábrica, além de parceiros como o SEBRAE, Igreja Católica (Nossa Senhora da Penha), o Clube Cabana do Bogary e do Lions Clube, conta com o apoio da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e de Combate à Pobreza (Sedes). Em 2011, um novo curso está sendo estruturado: manutenção em micros e rede, estimulando a reciclagem de lixo eletrônico. Sim, é possível - Em setembro de 2010, os meninos e meninas organizaram a 1ª Caminhada Ecológica da Fábrica Cultural, chamando a atenção dos moradores da Península para um dos seus problemas mais graves: o lixo. Na orla da Ribeira, conversaram com a população sobre iniciativas que podem minimizar a situação e recolheram garrafas plásticas e latas jogadas nas praias. No final do mesmo ano, todos os alunos se envolveram em torno do “Ribeira Bem Saudável”, projeto elaborado pelos alunos do curso de Produção Cultural e que abrangeu diversos campos na área de cuidados com o bem-estar da comunidade, oferecendo aos itapagipanos atividades como aulas de yoga e alongamento, além de serviços de orientação odontológica e verificação de pressão arterial. São essas formas de ação participativa na comunidade que são estimuladas entre os meninos e meninas, tornando-os aptos para assumir o papel de futuros empreendedores de iniciativas benéficas ao próprio meio onde vivem. O professor Júlio se emociona quando lembra da mãe de um dos seus alunos. “Ela veio me agradecer o que fiz pelo filho dela, mas faço isso porque acredito muito nesse projeto e nesses jovens. Eles são pedras preciosas que só precisam de lapidação para acreditar que é possível uma realização pessoal e emocional em suas vidas”, conclui.

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Outros projetos da Fábrica: proGrama circulaNDo arte Em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, o Circulando desenvolve anualmente oficinas de arte-educação, língua e literatura e acompanhamento escolar para crianças de 6 a 13 anos oriundas das escolas municipais pertencentes à Coordenadoria Regional de Educação Cidade Baixa. Além disso, o programa inclui oficinas criativas com os pais e professores de escolas parceiras. Cerca de 300 crianças já foram beneficiadas. coNversa Na varaNDa Ação de mobilização comunitária que envolve os pais das crianças e jovens atendidos pelos projetos da Fábrica Cultural. Constituindo-se como um fórum de discussão na e para a comunidade local, este espaço de diálogo visa fortalecer os vínculos familiares e comunitários. Informações: (71) 3207-6597


A visão social de Maga Exemplo para os meninos e meninas da Fábrica Cultural, Margareth teve uma infância cheia de limitações, apesar da época feliz que viveu em Itapagipe. Estudante do Luiz Tarquínio, fez parte de um grupo de teatro na Boa Viagem e se tornou backing vocal de Sarajane em meados dos anos 1980. Atualmente, é uma das mais conceituadas intérpretes baianas, desenvolvendo sua carreira primando pela qualidade artística: são 21 turnês no exterior, 4 indicações de premiação internacional (Grammy), 14 álbuns e 3 DVDs. Veja a entrevista exclusiva concedida por Maga à Grauçá: Que momentos foram mais marcantes na sua infância e adolescência na Península? A Itapagipe de hoje não merecia atenção e cuidado maiores? Ter nascido e vivido na Península foi um presente para mim. Com certeza precisamos cuidar melhor daqui. Acho que as pessoas deveriam começar a procurar conhecer a história desse lugar, os valores e a força produtiva que existe por lá. Essa terra, esse mar, essa beleza... certamente é um dos mais ricos da Bahia e precisamos aprender a valorizá-la. Uma coisa muito triste, por exemplo, é a pesca predatória com bombas. Falta às pessoas o entendimento de que, se elas deixarem de usar bomba, vai haver muito mais peixes. A enseada tem o nome que tem (Tainheiros), porque era um berçário de peixes e mariscos. Isso é significado quase certeiro de fartura na produção pesqueira, se houver preservação desse ambiente. Não é necessário muito tempo para ter acesso a essas e outras informações; as pessoas precisam só de conscientização. Que necessidades fundamentais deram origem à Fábrica Cultural? Senti na pele a transformação que o acesso à arte, cultura e cidadania podem provocar numa jovem. Um grupo de teatro (que é era apenas um projeto de integração entre três escolas estaduais) fez uma mudança radical em mim e em meus colegas, e isso se refletiu na escola e na comunidade porque começamos a ter mais ferramentas para questionar e para criar. Acho que foi grande o valor que essa vivência teve em minha vida e me ajudou a ser uma pessoa pensante, questionadora; ajudou no meu senso crítico, na minha imaginação e também no planejamento para efetivação das coisas. Foi o embrião de muita coisa boa em minha vida. Além disso, minha amiga Jaqueline Azevedo começou a se envolver com projetos sociais e se encantou com esse tipo de trabalho. Ela me estimulou e esclareceu várias questões e depois tivemos apoio de outras pessoas que somaram bastante. Assim nasceu a Fábrica. O que representou para você a formatura, em julho do ano passado, da primeira turma do projeto? Foi uma alegria que não cabe em mim ter assistido ao evento. Devido aos compromissos, não estou tão presente quanto gostaria e isso faz com que os momentos que passo lá sejam ainda mais especiais e preciosos. Ver o resultado dos cursos, os produtos dos jovens do “Na Trilha da Cidadania”, foi maravilhoso! Eu torço muito por cada menino e menina de áreas carentes, para que eles possam despertar e ver seu potencial, ao invés de desperdiçar o tempo com coisas que não valem a pena. Às vezes esses jovens não têm consciência da importância que eles efetivamente possuem. Alguns procuram a valorização em atividades ilícitas, mas acredito que a maioria desses casos seja por falta de acesso a outras oportunidades. Como convivem a Margareth cidadã e a artista? De forma bem próxima porque sou uma só. Agradeço a Deus, tudo que tenho vivido e principalmente por ter encontrado mestres para trazer transformações à minha vida: professores, amigos, pai e mãe, e principalmente o Eterno Mestre. O pensamento é uma ferramenta para articulação e de acordo com o nível de acesso a informações, com a orientação recebida, a criança e o jovem podem caminhar na direção do entendimento. Daí o valor da educação de qualidade na vida das pessoas. Mais: www.margarethmenezes.com.br Conheça a Revista Grauçá: http://www.revistagrauca.com.br/

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Coca-Cola Brasil apresenta resultados de seus negócios sociais e lança campanha “Cada garrafa tem uma história”

Foto: Divulgação

P e lo B rasi l

Por Isabel Capaverde, de Plurale em revista

Morro do Cantagalo, Espaço Criança Esperança, manhã ensolarada de inverno no Rio (no fim de julho) e uma vista fantástica de Ipanema, Leblon e Lagoa, abençoados pelo Cristo Redentor. Cenário ideal para a Coca-Cola reunir a imprensa, representantes de ONGs e agências de publicidade parceiras para anunciar os resultados e as metas de seus negócios sociais e lançar a campanha publicitária que será divulgada nos veículos de comunicação da América Latina: “Cada garrafa tem uma história”. Depois que todos se acomodaram no auditório do Espaço, Claudia Lorenzo, diretora de Negócios Sociais da Coca-Cola Brasil, começou falando dos 125 anos de Coca-Cola no mundo e da preocupação de não deixar de ser local para se tornar global. Fez uma pequena retrospectiva da forma como a marca se consolidou fazendo parte da memória afetiva de todos nós (“quem não tem uma foto de festa de aniversário, Natal ou Ano Novo com uma Coca na mesa?” indagou) para chegar ao momento de hoje. “A marca que está presente na festa quer também fazer parte da construção desta festa”, frisou Claudia. Assim ela deu início a apresentação do mais novo programa social da empresa, o “Coletivo Coca-Cola” que tem apenas dois anos. De cinco unidades em 2009 a mais de 100 em 2011 O Coletivo funciona da seguinte maneira: em conjunto com ONGs e outros parceiros são criadas unidades operacionais em comunidades de menor oportunidade, visando o desenvolvimento socioeconômico. Cada unidade é como um centro de formação de jovens e estímulo ao empreendedorismo entre mulheres. Cada ciclo de aulas tem a duração de dois meses e, ao final, os alunos têm a oportunidade de aplicar os conhecimentos, elaborando planos de negócios para comércios locais. O encaminhamento para o mercado de trabalho é feito por meio da Coca-Cola Brasil e seus fabricantes, contando também com sua rede de clientes e fornecedores. O programa ainda oferece opções de microcrédito às comunidades, via parcerias estabelecidas com agentes do setor financeiro. As ONGs CDI e Visão Mundial são responsáveis pela operação do projeto nas comunidades. “No Espaço Criança Esperança, onde estamos agora, também temos um Coletivo em funcionamento. Começamos com cinco unidades em 2009, em Recife e São Paulo. Hoje já estamos espalhados por todo o Brasil. Nossa meta é instalar mais de 100 unidades do Coletivo até o final de 2011 e, até a Copa do Mundo de 2014, estar nas principais comunidades de todo o país”, completou Claudia. Claudia também falou rapidamente sobre o “Reciclou, Ganhou”, programa de reciclagem que a empresa desenvolve com sucesso a 15 anos com catadores e cooperativas de catadores de

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Cláudia Lorenzo (E) e Luciana Feres apresentaram os resultados

resíduos sólidos, levando dignidade e profissionalismo a esses trabalhadores. “Pesquisas comprovam que o aumento de renda dos catadores cooperados no “Reciclou, Ganhou” é de 15 a 20%. E quanto maior o profissionalismo, maior a renda que pode chegar a mil reais mensais. A meta do “Reciclou, Ganhou” é chegarmos a 500 cooperativas até 2014”. Histórias de vida na campanha publicitária Para apresentar a nova campanha que a empresa veiculará na mídia a partir de 5 de agosto, Claudia passou a palavra para Luciana Feres, diretora de Marketing da Coca-Cola. “A campanha foi concebida de uma forma totalmente diferente de tudo que já fizemos. Sem roteiro pré-definido, convidamos o cineasta Breno Silveira (de “2 Filhos de Francisco”), para vivenciar nossas iniciativas. Nesse processo, ele descobriu pessoas incríveis, que fazem diferença positiva em suas comunidades. Essas pessoas inspiradoras se tornaram nossos personagens e ajudam a contar como os programas apoiados pela Coca-Cola podem transformar vidas positivamente”, explica. Com desenvolvimento liderado pelo Brasil, “Cada garrafa tem uma história” terá como protagonistas os brasileiros Tião Santos (líder do movimento de catadores de materiais recicláveis e parceiro do programa “Reciclou, Ganhou”) e Marcos André França da Silva (instrutor das turmas de varejo do projeto Coletivo no Recife) que estavam presentes e se emocionarem ao verem os vídeos pela primeira vez. Além da equatoriana Stephanie Romero (diretora de comunicação no Equador do programa “Um teto para meu país”, que constrói casas em comunidades), o argentino Sigfrido Moroder (presidente do Centro de Beneficiência El Alfarcito, centro de educação no noroeste da Argentina) e o mexicano Roberto Mejía (diretor do projeto Viveiros Florestais no México, dedicado à devolução de água ao meio ambiente pelo reflorestamento). “Cada garrafa tem uma história” ainda traz mais uma grande novidade. Segundo Luciana Feres, “queremos que todos os nossos consumidores saibam que cada vez que eles bebem um produto da Coca-Cola, eles se tornam parte dessas histórias de otimismo. Por isso, pela primeira vez, as clássicas latas e garrafas dos nossos refrigerantes terão silhuetas em seus rótulos. Serão as imagens dos personagens desenhadas por textos com suas narrativas transformadoras”.


Respeito à natureza no mercado de pneus Por Nícia Ribas*, de Plurale em revista De Gravataí (RS)

Já está funcionando em Gravataí, a 25 km de Porto Alegre (RS) a primeira loja com baixo impacto ambiental da Goodyear do Brasil, fabricante de pneus para carros, picapes, caminhões, ônibus e aviões, com a maior rede de revendedores do País e cerca de 1.000 pontos de venda. Seu presidente, Giano Agostini estava lá, no dia 12 de julho, para inaugurar o novo espaço, criado em parceria com o seu revendedor Bellenzier Pneus. Segundo Agostini, o conceito de sustentabilidade e proteção do meio ambiente já vem sendo incutido há alguns anos no cotidiano da empresa, através da conscientização de seus 3.500 funcionários. “Não gostamos de encarar esse tema, que já está virando um modismo, com superficialidade; Nosso desejo, internamente, sempre foi avançar e inovar em tecnologia e como modelo de gestão, porém, de maneira correta. Por isso, a sustentabilidade permeia todas as ações da Goodyear.” Há três anos, o gerente sênior de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos, Miguel Dantas, vem organizando de maneira estratégica as iniciativas de sustentabilidade existentes na Goodyear, com a finalidade de obter maior engajamento interno e maior impacto na sociedade. “Iniciamos um forte processo de educação, através de workshops com oito horas de duração para todos os funcionários, incluindo diretores e gerentes”, diz Miguel. Para o pessoal da produção, foi preparado um programa especial com apenas quatro horas de duração e linguagem adequada. Lucrar e preservar é possível A nova loja de Gravataí chega para consolidar o tripé Rentabilidade, Inovação e Sociedade, perseguido pela Goodyear. A empresa já vem avançando nesse conceito através de outras iniciativas, como o lançamento de pneus com menor resistência ao rolamento, que consomem menos combustível e, consequentemente, emitem menos CO².

Além disso, para evitar o desperdício, os pneus podem ser recauchutados três vezes com a mesma borracha de fabricação, ampliando para 300 mil quilômetros sua vida útil. Os clientes Goodyear podem, ainda, optar pelo sistema Tire IQ, que permite identificar e rastrear o pneu por meio de rádio frequência, graças à instalação de um chip inteligente. “Essa tecnologia reduz Da esquerda para a direita: Os irmãos Bellenzier - Nilberto, Adriano o custo operacional e Nilva - cortam a fita inaugural com o presidente da Goodyear, da frota, uma vez que Giano Agostini (de blazer). permite o controle eficom três caixas d’água enterradas, que caz dos pneus”, esclarece Agostini . Para evitar a poluição ambiental, a captam a água da chuva para reutilização Goodyear faz parte da Reciclanip, as- nos sanitários, sistema de incêndio, jarsociação criada pelos fabricantes de dins e na limpeza dos pisos, poupando pneus, visando a coleta e destinação aproximadamente 30 mil litros por mês. Seu telhado verde facilita a drenagem corretas de pneus inservíveis no Brae garante maior isolamento do ambiente, sil. “Já participamos há 10 anos desse melhorando as condições termo acústiprojeto e assim colocamos em prática cas da loja. Energia solar aquece a água o conceito moderno de gestão emdos chuveiros. Vidros duplos amenizam a presarial, em que a responsabilidade temperatura ambiente, reduzindo o uso pós-consumo faz parte dos princípios de ar condicionado. O imenso letreiro da de qualquer empresa que se preocupa fachada é todo em led – lâmpadas que com o futuro do Planeta”, diz Agostini, economizam cerca de 90% de energia se informando que existem mais de 500 comparadas com as normais. Sistemas inpontos de coleta espalhados no País. Uma das formas mais comuns de re- dependentes de iluminação permitem a aproveitamento dos pneus inservíveis utilização inteligente das lâmpadas interé como combustível alternativo para nas, evitando desperdício. As portas são em madeira certificada as indústrias de cimento. Além disso, pelo Conselho Brasileiro de Manejo Floservem para a fabricação de solados restal. Lá fora, o piso concregrama – com de sapatos, borrachas de vedação, dugrama entre as lajotas - amplia a área vertos pluviais, pisos para quadras polide, onde foram plantadas árvores nativas esportivas, pisos industriais e tapetes e um canteiro com chás para cada hora para automóveis. do dia. “Temos o hábito de oferecer chá Loja sustentável aos nossos clientes”, diz a diretora Nilva A primeira loja de pneus brasileira Bellenzier. Ela garante que o custo dos com baixo impacto ambiental, no quilô- diferenciais ecologicamente corretos não metro 18 da RS 118, uma freeway que, ultrapassou 10%: “Pretendo recuperar o em breve, terá oito pistas, ligando Porto investimento nessa obra em dois anos e Alegre ao Vale dos Sinos e Viamão, con- para o resto da vida terei lucro através da tribui ainda mais para a elevação do já economia de água e energia”. inflado PIB de Gravataí. Os irmãos Bellenzier, e a Goodyear, capricharam no *A repórter viajou a convite da Goodyear projeto. O novo conceito de loja conta do Brasil.

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P e lo B rasi l GIFE lança o primeiro banco de dados online sobre o investimento social realizado pela iniciativa privada no Brasil De São Paulo

O GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas lançou no dia 4 de agosto, em São Paulo, o primeiro banco de dados online sobre o investimento social realizado pela iniciativa privada no Brasil. Baseado no Censo GIFE, mapeamento bienal que o Grupo faz sobre o Investimento Social Privado (ISP) de seus associados, o objetivo da plataforma é que nos próximos anos extrapole os limites da Rede e reúna também informações de todo o campo do investimento social privado brasileiro. Além do incentivo à pesquisa, a iniciativa aponta para uma democratização dos dados coletados sobre o setor. “Até então, o Censo GIFE levantava uma série de informações sobre ISP e nós selecionávamos algumas para análise e publicação. Agora, esses dados estarão disponíveis a todos, que poderão viabilizar os cruzamentos que desejarem”, explica o gerente de Programas do GIFE, Andre Degenszajn. Realizado pelo GIFE e Itaú Cultural, com parceira técnica do IBOPE Inteligência/Instituto Paulo Montenegro, o Censo GIFE estima que sua rede de associados investe no país cerca de R$ 2 bilhões (2010), apontando um crescimento em relação a 2008 – R$ 1,3 bilhão. Com o patrocínio de Oi Futuro, Petrobrás, Fundação Vale, Instituto Camargo Corrêa e Fundação Bradesco, o levantamento também mostra que a Rede GIFE beneficiou cerca de 24 milhões de brasileiros (2010). As áreas de Educação (82%), Juventude (60%) e Cultura (60%) seguem concentrando o maior número de investidores (estes dados não são por valor investido, mas por investidor ou beneficiados); e a de Meio Ambiente foi a que mais cresceu nos últimos cinco anos. coNteXto

Apesar de representar apenas uma parcela do investimento social brasileiro, a Rede GIFE, por reunir as maiores organizações, é considerada referência nacional na realização planejada de investimentos no campo social e seu desenvolvimento é indicativo das tendências do setor. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as empresas brasileiras investem anualmente no Brasil, aproximadamente, R$ 6 bilhões em ações sociais, “O Censo GIFE traz nitidez para a fotografia do investimento social privado, que ainda possui poucos dados sistematizados sobre suas práticas”, afirma a socióloga e diretora do Ipea, Anna Maria Peliano.

PLURALE EM REVISTA | Julho/Agosto EM REVISTA | Julho/Agosto 2010 2011 40 PLURALE


Fernando Manoel/ Divulgação

Os desafios da transição para a nova economia sustentável

Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista , de São Paulo O local não poderia ser mais adequado. O Centro de Eventos da Fecomércio, que também abriga o Teatro Raul Cortez. Foi assim, num clima cult e bem mais descontraído que as versões anteriores, que, durante dois dias intensos foi realizada a Conferência Ethos 2011, reunindo cerca de 1000 pessoas. O desafio lançado desde a divulgação do programa foi construir agenda de transição para nova economia e influenciar governo sobre projeto nacional de desenvolvimento sustentável. Vários palestrantes renomados – brasileiros e estrangeiros – participaram das rodas de diálogo. Executivos de empresas, representantes do Terceiro Setor e do Governo também ampliaram o debate. “Contamos com a presença de 30 CEOs e 182 jornalistas, o que nos ajuda a multiplicar as mensagens nas empresas e na sociedade”, lembrou Paulo Itacarambi, vice-presidente executivo do Instituto Ethos e coordenador geral da Conferência. Com o tema transversal “Protagonistas de uma Nova Economia”, a conferência reuniu CEOs de grandes empresas, lideranças da sociedade civil e especialistas em muitos dos temas abordados, como água, energia, biodiversidade, florestas, direitos humanos, finanças sustentáveis, resíduos, trabalho e educação, entre outros, para mostrar experiências e estabelecer os rumos necessários em cada área para formar uma plataforma de sustentação para a mudança. Mas foi Bernardo Toro, filósofo colombiano, sem dúvida, a figura mais marcante do encontro. Falou sobre a relevância da Educação neste processo de transição para a nova economia sustentável. Reforçou que “é preciso cuidar” e lembrou que o planeta não está em perigo. Outro ponto de forte relevância

foi abordado pelo professor da USP, Ricardo Abramovay. Ele alertou sobre a necessidade de se trabalhar a consolidação de uma economia verde também sob o viés da inclusão e da redução da desigualdade. Leia mais na seção de frases, a seguir. Num balanço final, o presidente do Ethos, Jorge Abrahão, disse: “Não temos respostas claras para todas as perguntas, mas temos empresas atuantes e com o diferencial de não estarem pensando somente em seus dilemas, mas sim na sociedade.” Itacarambi complementou: “a balança pende para o bem”. Com a amplitude dos temas debatidos e a diversidade de atores presentes nos palcos e nas plateias, o Instituto Ethos anunciou que pretende dar corpo a uma estratégia para colaborar com a pauta do governo brasileiro na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. A oportunidade para isso se abriu quando a entidade foi convidada a ser uma das quatro organizações da sociedade civil a ter assento na Comissão da Rio+20, que está sendo coordenada pelo Itamaraty. Essa comissão vai construir as propostas que o governo brasileiro deve encaminhar para a ONU até 1º de novembro deste ano, para que sejam analisadas e incluídas, ou não, na pauta final que será debatida por chefes de governo e de Estado de 193 países em junho de 2012, no Rio de Janeiro. Um novo sistema interativo de perguntas e respostas foi apresentado, com grande aceitação do público. Em 2012, a Conferência será realizada no Rio de Janeiro. Leia mais sobre a Conferência em reportagens publicadas em Plurale em site (www.pluraleemsite.com.br) e no hotsite do evento http://www.ethos.org.br/CE2011/

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Frases

Selecionamos aqui algumas frases que marcaram a Conferência do Instituto Ethos 2011, realizada em agosto último. Em 2012, o evento acontecerá no Rio de Janeiro, em maio.

Foto: Clóvis Fabiano

“O planeta não está em perigo. Quem está em perigo somos nós, seres humanos. Mas temos que nos reconhecer como espécie para sobreviver” BERNARDO TORO, Filósofo colombiano

“É preciso ousadia para avançar no tema de mudanças climáticas” IZABELLA TEIXEIRA, Ministra do Meio Ambiente “O momento de crise global proporciona ao Brasil a oportunidade de repensar o padrão de comportamento em relação à gestão do trabalho, onde o trabalho decente seja o centro da nova sociedade” MÁRCIO POCHMANN, Presidente do IPEA

“O maior poluidor de águas hoje é o consumidor doméstico. Apenas 20% do esgoto é tratado no país.” LUPÉRCIO ZIROLDO, coordenador do

Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas

“É preciso mostrar para a sociedade que as opções de produtos e serviços de menor impacto estão disponíveis” DANIELA DE FIORI, Vice-Presidente de desenvolvimento organizacional e sustentabilidade do Walmart Brasil

“Não temos respostas claras para todas as perguntas, mas temos empresas atuantes e com o diferencial de não estarem pensando somente em seus dilemas, mas sim na sociedade”

JORGE ABRAHÃO, Presidente do Instituto Ethos

“Na construção de uma nova economia em que a relação entre a sociedade e a natureza seja central, será preciso transparência no uso dos recursos. E isso implica estabelecer limites para o consumo exagerado de energia pelos mais países e consumidores mais ricos.” RICARDO ABRAMOVAY, Professor de Economia da Universidade de São Paulo


VIDA Saud á vel

Apoio:

Correr faz bem

Quem curte vida saudável, circula em lojas de produtos naturais e restaurantes saudáveis sabe que sempre há uma “estrela” do momento. Já foi a quinoa, depois soja preta, a romã, mais tarde o óleo de côco, cristais de pólen e por aí segue a lista extensa. Agora, a última do momento é o fruto noni. Não conhece? Tem jeito de fruta-do-conde, só que mais fininho: o nome científico é Morinda Citrifolia e originário dos mares do Sul, principalmente do Tahiti. Segundo especialistas, a presença de ômega 6 e óxido nítrico dilataria os vasos, melhorando a oxigenação e, consequentemente, a memória. E o noni ainda contém betacaroteno, precursor da vitamina A, e acubina, que agrega propriedades antibióticas. Não há estudos definitivos, mas o fruto também tem sido considerado “milagroso” em tratamentos renais. Não é fácil encontrá-lo in natura, sendo mais habitual em produtos industrializados, como polpa, sucos e chás. O gosto? Já provamos na forma de suco, mas vamos deixar a surpresa para você também testar.

A prática regular de atividades físicas pode proporcionar muitos benefícios à saúde, como a melhora da qualidade do sono e o fortalecimento do coração. Se você quer praticar um esporte, mas ainda não decidiu qual, que tal se juntar a quatro milhões de brasileiros e começar a correr? “Quando deixamos de ser sedentários e passamos a realizar exercícios regulares, reduzimos o risco de doença e morte por patologias cardiovasculares. Uma pequena mudança nos hábitos do dia a dia é capaz de promover uma grande melhora na nossa saúde e na qualidade de vida. Porém, é fundamental que se faça uma avaliação médica antes de iniciar qualquer atividade”, afirma Dr. Luiz Gomes, cardiologista e médico auditor da Unimed-Rio.

A festa continua O livro de receitas Festa Vegetariana 2, produzido pela Sociedade Vegetariana Brasileira e organizado pela jornalista Raquel Ribeiro (colaboradora de Plurale), acaba de ser lançado durante a bem sucedida VII NaturalTech - Feira Internacional de Alimentação Saudável, Produtos Naturais e Saúde, em São Paulo. A nova edição, revista e ampliada, traz três capítulos inéditos: Festa Junina, Churrasco Veg e Depois da Festa, com várias receitinhas para saudar São João, curtir um espetinho sem crueldade e ainda recuperar o corpo e a alma após baladinhas extravagantes. O capítulo Lista de Compras também está recheado de novos ingredientes transados, capazes de tornar sua cozinha ainda mais saborosa. O livro tem 102 paginas, custa 20 reais e está a venda no site da SVB: www.svb.org.br

www.sxc.hu

Noni, a nova estrela

Nova bebida mistura linhaça, quinoa e frutas Uma nova bebida acaba de chegar ao mercado, misturando leite, quinoa, linhaça e frutas. Produzida pela Piracanjuba, a novidade é apresentada em caixinhas Tetra Pak nos sabores ameixa, banana e mamão com maçã e cereais. Há embalagens menores, de 200 ml para beber de canudinho e de 500 ml com tampa de rosca. Mas, por que adicionar quinoa e linhaça a uma bebida láctea? De acordo com a Engenheira de Alimentos e Supervisora de P&D da Piracanjuba, Helena Camargo, a quinoa é considerada um dos alimentos mais completos para a nutrição humana, pois é fonte de proteínas, configurando como uma excelente opção, inclusive, para os vegetarianos. “Ela contém gorduras insaturadas, consideradas ‘gorduras boas’, pois têm efeito antiinflamatório e previnem o aparecimento de doenças cardiovasculares. Além disso, têm importante função antioxidante e minerais, como o cálcio, o ferro, o magnésio e o zinco”, explica. A linhaça, por sua vez, é a maior fonte vegetal de ácido graxo alfalinolênico e também de lignanas, fitoestrógenos de forte efeito antioxidante. Além disso, é fonte de fibras, tanto solúveis quanto insolúveis.

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Transformação

Cabras no Quintal, Crianças na Escola

José da Paixão Pereira e família

Iniciativa no sertão baiano incentiva a educação, combate o trabalho infantil e gera renda com leite de cabra para famílias

Texto: Nícia Ribas, de Serrinha (BA) Fotos: Nícia Ribas e Divulgação

A

família de José da Paixão Pereira e Raimunda Santos Cardoso é uma das 22 beneficiadas pelo Projeto Cabra Escola numa comunidade de Serrinha (BA), uma parceria da Pfizer e o MOC – Movimento de Organização Comunitária. Em 2005 eles receberam três cabras, um empréstimo de R$ 1.800,00 a ser pago em quatro parcelas anuais a partir do segundo ano; capacitação em caprinocultura quatro e acompanhamento técnico para fazer crescer o rebanho e tirar dele o máximo proveito. Em contrapartida têm que manter seus três filhos na escola. A ideia é incrementar a renda das famílias do PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. “Já cheguei a ter 30 cabras”, orgulha-se José, contando que no seu aniversário de 50 anos matou um bode e chamou os amigos para festejar. O clima é mesmo de festa, apesar do casebre com piso de terra batida, sem energia, nem água encanada. No fogão à lenha do alpendre, Raimunda cozinha o feijão e o milho colhidos em sua roça, e uma galinha do quintal. “Quer almoçar, moça?” Traz logo o prato, serve o feijão, enquanto José chega com o pote de farinha. Alegria e orgulho nos olhos do casal. As duas filhas mais velhas já lhes deram dois netos, todos criados à base de leite de cabra. Na hora da ordenha, Raimunda é a mais jeitosa. Entrega o neto a José, que não consegue conter a cabra arisca, e faz o serviço: “Com ela, os bichos ficam mais mansos”, diz ele. Luiz Lisboa de Oliveira, técnico de


agropecuária do MOC, que faz o planejamento da propriedade e orienta sobre alternativas de geração de renda e tecnologia para o semi-árido, explica que se trata de um criatório com certa rejeição na região por causa de sua agressividade: “Através do projeto, estamos quebrando essa resistência”. E os filhos do casal deixaram realmente de ajudar na criação e na roça para frequentar a escola? Mais ou menos. Itairan, 11 anos, é assíduo na 6ª. série da Escola Municipal João Francisco Pereira, mas o que ele gosta mesmo é passar as tardes no terreiro de casa, ajudando os pais com as cabras e a roça. “Hoje, graças a Deus, os menino estuda; as mais velha também e ainda continuam ajudando, só que elas prefere ir para o motor do sisal”, diz Raimunda, ela

Jandira Ramos dos Santos

própria diarista do sisal do Miguel . Em plena região sisaleira, muitos atuam na extração da fibra, atividade de alto risco de acidente de trabalho, com muita decepação de membros, segundo os técnicos do MOC. proGresso À vista Na propriedade de Pedro Ferreira dos Santos e Jandira Ramos dos Santos, a movimentação é grande. Pedro, com ajuda de amigos e vizinhos, ergue canteiros sob orientação dos técnicos do MOC, que explicam que só assim a horta vai manter a umidade em tempos de seca. Pilhas de sacos de cimento ocupam parte da sala da casa novinha, recém construída. - E então, seu Pedro, desde quando está no Projeto? - Ah, isso quem sabe é a mulher, ela já vem vindo aí... Bem disposta, decidida, Jandira cuida de tudo mesmo e se orgulha de ter todos os seus oito filhos na escola. Antes de 2004, ano em que a família entrou para o Cabra Escola, ela e Pedro se viravam com os R$ 150,00 mensais que recebem do Bolsa Família. Para sobreviver, vendiam dias de trabalho nas roças grandes da região e faziam esteira e bocapio (um tipo de sacola) de pindoba, uma palha que buscavam em Santa Luz. “Nós ia daqui pra rua a pé, levando na cabeça o que tinha para vender na feira de Serrinha,” lembra. Com os artesanatos de palha e o produto do roçado, conseguiam apurar R$ 2,50 para comprar farinha e feijão. Carne, só de vez em quando. Enquanto exibe suas cabras, galinhas e ovelhas, Jandira lembra que, antes do Projeto, não podia ter animais: “Não tinha nem comida pra gente, quanto mais para os bichos”. Seus netos, de três e sete anos, foram salvos da anemia graças ao leite de cabra. O roçado de aipim, feijão e milho garantia a sobrevivência deles, além dos pés de banana, laranja e tangerina espalhados pelo terreno. Na paisagem verdejante de início de inverno, entre cactos floridos,Venâncio e Ronilson, de 11 e 10 anos, correm no meio das cabras, segurando-as pela canga, enquanto a mãe faz a ordenha. Clima de alegria, cooperação e muito carinho. Jandira fez os cursos oferecidos pelo MOC para lidar com as cabras e as plantações. Agora sonha em expandir seus canteiros de hortaliças, que ela chama de lera: coentro, salsa, cebolinha. Mas, isso só vai ser possível quando ficar pronta a nova cisterna que está sendo instalada em seu terreno.

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Transformação mais áGua No sertÃo O semi-árido da Bahia, onde 75% da população têm renda média mensal abaixo de um salário mínimo, 35% são analfabetos, e 80% da produção advêm de atividades rurais, é considerado um dos lugares mais pobres do Brasil. Com 76 mil habitantes, Serrinha, vizinha de Feira de Santana, que é conhecida como o portal do sertão, sofre a ação do sol quente durante a maior parte do ano. Com muitos minifúndios, apenas três ou quatro meses de chuvas, e rios de água salobra, o maior problema da Região é a irrigação. “Não dá para contar apenas com a água dos barreiros e açudes, temos que manter reservas de água para o período da seca”, explica o agrônomo Mateus Carneiro. O projeto Uma Terra e Duas Águas, desenvolvido em parceria com o Moc, prevê uma cisterna para uso da casa, de 16 mil litros; e outra de produção, com 50 mil litros, para garantir a irrigação do terreno e a criação de animais. As famílias beneficiadas pelo

Maria Evanuzia Araujo dos Santos e Joyce Pereira de Jesus

Projeto Cabra Escola têm prioridade para atendimento. É essa cisterna de produção que Jandira aguarda com ansiedade para poder estender sua horta de lera. toDos Na sala De aula A Escola Municipal João Francisco Pereira acolhe hoje 270 alunos contra os 130 de dois anos atrás. “Com os incentivos dos projetos sociais, os alunos permanecem mais na escola e quando precisam faltar, as mães mandam bilhetes, justificando”, diz a diretora Marta Pereira Bispo Pinto. Filhos de pequenos agricultores, meninos e meninas conciliam seus estudos com o trabalho na roça que mantém para consumo próprio ao lado de suas casas. “Estudo pela manhã e à tarde ajudo painho no roçado de mandioca, feijão e milho”, conta Marcos Aurélio Pereira de Jesus, 18 anos, 8ª. série, com talento para o desenho. Já José Hamilton Cardoso Pereira, 18 anos, 6ª. série, gosta mesmo é de jogar videogame depois da aula. As colegas Maria Evanúzia Araujo dos Santos e Joyce Pereira de Jesus, 15 anos, sonham com o casamento e têm um olhar poético sobre o trabalho na roça: “Os homens cavam, as mulheres plantam e a colheita é feita por todos juntos, até as crianças pequenas.” O milho que elas ajudam a plantar e colher vira canjica e pamonha nas barraquinhas das tão esperadas festas juninas, quando costumam arrumar namorado.

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Itairan Cardoso

abraNGÊNcia Do cabra escola Com apoio da Unicef, o projeto da Pfizer está presente nos municípios de Serrinha, Riachão do Jacuípe, Nova Fátima, Conceição do Coité, Ichú, Barrocas, Queimadas, Quijingue, Nordestina e Pé de Serra. Mais de 900 caprinos da raça anglonubiana já foram financiados. Os agricultores familiares escolhem seus animais nas feiras do Cabra Escola realizadas a cada nova edição do Projeto, que teve início em 2002. Os recursos do financiamento, captados pelo MOC são transferidos para o Cogefur – Conselho Gestor do Fundo Rotativo, que disponibiliza o crédito através das Cooperativas de Crédito. Cada família recebe até cinco caprinos. Mas antes chega o apoio técnico e financeiro para estruturar suas propriedades, de modo que possam introduzir ali a caprinocultura de corte, leiteira e mista. Com isso, as famílias conseguem criar seus animais, mesmo durante a seca. A Pfizer e todos os envolvidos no projeto acreditam que as famílias tenham um acréscimo bastante significativo no seu orçamento mensal, com a venda de leite, carne e couro. Além do ganho em qualidade da alimentação e, consequentemente, da saúde da família. O Cabra Escola é reconhecido pelo Banco Mundial e pela Unicef como experiência modelo e considerado bem sucedido na prevenção e erradicação do trabalho infantil na região sisaleira da Bahia. Em 2008, recebeu o prêmio Corporate Citizen of the Américas, conferido pela Trust of the Americas, afiliada à OEA – Organização dos Estados Americanos. o Que é o moc O Movimento de Organização Comunit ária, sem fins lucrativos, fica em Feira de Santana, no semi-árid o baiano, e concentra sua atuação nos municípios da Região Sisal eira, mas sua metodologia de apoio à mobilização da sociedad e civil na luta pelo exercício dos seus direitos se estende a outros estados. “Nossa atuação se desenvolve através de programas baseados nas linhas estratégicas da instituição, todo s voltados para a formação de pessoas, fortalecimento de organizações populares e a interferência em espaços onde ocorre a construção, elaboração e controle social de políticas públicas, com ênfase naqueles de caráter regional, como conselhos, comissõe s e fóruns; municipal, e até a nível nacional”, explica Alex Lima de Meirelles, do MOC.


Bazar ético Fibra Viva gera renda em Bonito

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s águas límpidas de Bonito, no Mato Grosso do Sul, ficaram famosas e atraem cada vez mais turistas para a região. Por suas belezas naturais, o Município de Bonito ganhou várias vezes premiações de ecoturismo e projeto sustententável. Entretanto, a população mais carente do município não tem participado diretamente desse mercado local gerado pelo turismo e foi pensando nisso, aproveitando essa oportunidade, que nasceu o Fibra Viva. O Projeto Fibra Viva é uma das ações do Instituto Família Legal, uma organização não governamental situada em Bonito, que atende, em período contrário ao escolar, 100 crianças e adolescentes em situação de risco no município. O Instituto é uma organização criada para dar atendimento não só a criança carente, mas para toda a sua família, por acreditar ser este o caminho mais viável para atingir ao seu objetivo que é o de complementar a formação dessas crianças com atividades criativas e estimulantes visando compensar a defasagem educacional causada pela pobreza e desajuste familiar. As famílias frequentadoras do Instituto são selecionadas através de um criterioso método de classificação, que envolve todos os órgãos responsáveis pela assistência social do município. Por sua vez, a palavra “Legal” do nome da organização deve-se à participação do Ministério Público da Vara da Infância e da Adolescência em todo o seu processo de criação e desenvolvimento. Nos dois primeiros anos de vida, o projeto foi apoiado pela Petrobras. Ele amplia a oportunidade de atendimento às famílias cujos filhos são frequentadores do Instituto Família Legal e tem como objetivo capacitar mulheres para a produção e comercialização de artesanato, aproveitando esse potencial do mercado formado pelos mais de 200 mil turistas que Bonito recebe por ano, vindos de todas as partes do mundo. Nos três anos de duração, o projeto já capacitou aproximadamente 70 mulheres e comercializou aproximadamente 10 mil unidades. São sacolas, bolsas, luvas de forno, protetores de notebook entre outros objetos utilitários, confeccionados com técnica apurada de produção, tipo “patchwork” e decorados com a fauna local. Além da preocupação de gerar renda para famílias carentes e de valorizar a natureza regional nos seus motivos e cores, o projeto busca sensibilizar os seus participantes e consumidores para a importância da reutilização de materiais para a conservação da natureza. Toda a matéria-prima utilizada para a fabricação de suas peças vem de materiais usados e descartados, tais como as roupas de neoprene utilizadas nos diversos passeios de flutuação existentes no município e lonas de malotes danificados doados pelos Correios e Banco do Brasil. Contato: Instituto Família Legal - Av. Paulo VI, 229 - BNH CEP 79290-000 Bonito/MS - TEL: (67) 3255-1820 Site: http://www.familialegal.org.br/ E-mail : contato@familialegal.org.br

Este espaço é destinado à divulgação voluntária de produtos étnicos e de comércio solidário de empresas, cooperativas, instituições e ONGs.

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Reabilitação

A batalha pela

vida em movimento ABBR completa 57 anos com história marcada pela recuperação de pacientes de diferentes pontos do País Texto: Janaína Salles, Especial para Plurale em revista Fotos: Katarine Almeida e Divulgação ABBR

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inda é madrugada quando Robson de Paula Goulart, de 40 anos, morador de Mesquita, município da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, levanta, toma banho e se arruma. Ele fica pronto às 5h, horário em que chega o transporte da prefeitura que o levará para o tratamento de reabilitação. Essa é a sua rotina desde 2006 quando, por causa da paraplegia (perda de movimentos da cintura para baixo) provocada por uma inflamação na coluna, iniciou a reabilitação na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). Inaugurada em 05 de agosto de 1954, num terreno de mais de 11 mil m2, a instituição fica no Jardim Botânico, Zona Sul da cidade do Rio, bem distante da casa do atendente. E lá Robson chega por volta das 7h para suas sessões de fisioterapia e terapia ocupacional. Ele passa por um longo corredor de entrada, em que fica uma pequena loja com produtos ortopédicos, além de consultórios e salas de psicólogos, fonoaudiólogos, musicoterapeutas e assistentes sociais, e, no horário marcado, dirige-se aos setores nos quais é atendido. Um deles é o Ginásio de Fisioterapia, onde profissionais ajudam a reabilitar pacientes com lesões raquimedulares e mielopatias, como é o caso do Robson. Para ele, a atenção e o carinho dos profissionais ajuda na recuperação dos pacientes. “O atendimento é bastante humanizado. Sinto como se já fosse uma família. E isso aumenta a nossa autoestima”, sorri o atendente. Não é surpresa que Robson pense assim. Segundo o presidente da entidade, o cirurgião

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Robson Goulart


Arquivo ABBR

parcerias com esferas do governo e com a iniciativa privada, setores foram reformados e equipamentos mais modernos foram comprados. Como é o caso do suporte de peso para treinamento de marcha, que auxilia no tratamento de lesões medulares graves, e do videogame Nitendo Wii – que permite ao paciente fazer exercícios repetitivos, de maneira divertida, já que o jogo obriga o usuário a se mexer constantemente. Foi também ao realizar atividades lúdicas durante o tratamento na ABBR que o jovem Luciano Alves, de 23 anos, descobriu seu talento: o de pintar. “Um dia eu estava deitado na cama e disse: ‘meu Deus, sei que não mexo as pernas nem os braços, mas me dá uma forma

especialista em coluna vertebral Deusdeth Gomes do Nascimento, a preocupação com a qualidade do atendimento está impressa nos valores e na missão da ABBR. Para ele, a entidade “deve oferecer serviços integrados de reabilitação física a pessoas de todas as idades, com qualidade e responsabilidade social, estimulando potencialidades e independência para uma vivência plena e digna na sociedade”. Empresa privada sem fins lucrativos, considerada de Utilidade Pública, a ABBR atende pacientes de todos os 92 municípios do Estado, dos quais mais de 70% pelo convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS). Números significativos, ainda mais somados a outros dados: por dia são atendidos cerca de 1,3 mil pacientes, e mais de 12 mil produtos ortopédicos são fornecidos todos os anos pela fábrica de órteses e próteses da ABBR, que funciona paralelamente ao centro de reabilitação. Além das crianças, dos adultos e dos idosos que recebem atendimento gratuito pelo SUS, para tratar grandes lesões, pessoas que sofrem de dores na coluna, artrose, osteoporose ou outras patologias, também podem ter acesso a diversos tratamentos através convênios privados ou particulares, como é o caso de quem procura Pilates, Hidroterapia e Medicina Esportiva. Nascimento, no entanto, reconhece que só é possível atender a tanta gente porque há apoio do poder público e da sociedade, através de doações, pois os custos com os tratamentos são muito elevados. “A contribuição de nossos mantenedores e parceiros é de grande importância para a sustentabilidade da instituição”. O que se reflete nas mudanças pelas quais a ABBR tem passado. Nos últimos anos, através das

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[NOTAS]

Reabilitação

[CARRO ELÉTRICO]

Aprovada pelo presidente Sebastián Piñera,

VAI OUdeNÃO VAI? a usina deve gerar 2.750 megawatts, mas, ganhar dinheiro com o fruto do meu trabalho’.

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[CHILE II]

SOLUÇÃO AQUÁTICA

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ercaUma de 300 pessoas estiveram reunidas a pintar”, rês projetos, orientados para o por ser projetada semana depois eu comecei lembra o na Patagônia, foi rechaçada jovem, que hoje pinta melhor com a boca, do que no fim de junho para debater os potenciais por parte importante da população chilena e desenvolvimento de tecnologia para o desenhava as mãos. e uso e desafios envolvidoscom na introdução cultivo de microalgas para produção de atacada até mesmo em um editorial do New chegou bater com . a Times de veículos Luciano elétricos no Brasil. àO instituição Seminário apósYork biocombustíveis, deram a largada em cabeça no fundo do mar, ao cair da Pedra do Ar-especialistas dizem que é Com isso, Brasileiro sobre Tecnologias para Veículos janeiro e têm até 2016 para apresentar quando tinha apenas 15 anos.mais “Parecia que realista trabalhar com a meta de 10% Elétricospoador, foi organizado pela Associação resultados. O primeiro já conta com um eudotinha morrido, que estava paradimensão. as renováveis. O Ministerio de Energía Brasileira Veículo Elétrico (ABVE) e peloem outra laboratório para o cultivo das cepas que medelembrei de coisas de quando euformou era bebê, vi uma comissão para avaliar todas as InstitutoEu Besc Humanidades e Economia, serão posteriormente levadas a uma plantatoda a minha vida num flash”. possibilidades para o desenvolvimento elétrico em Brasília. piloto. O segundo prevê a construção de Mas o hoje pintor profissional e estudante de do país, que tem uma matriz instalada de Reduzir nossa dependência em relação uma biorrefinaria dentro de uma central jornalismo sobreviveu, passou por cirurgias e mui15.460 MW. Mais da metade dela utiliza aos combustíveis fósseis – e, de quebra, termoelétrica existente. As microalgas serão tas horas de fisioterapia (que faz até hoje), aprencarvão, petróleo e gás natural. cortar emissões dos gases responsáveis pelo cultivadas em piscinas internas que se dendo a se adaptar à cadeira de rodas e ao fato de Enquanto isso, cinco dos Consórcios aquecimento global – exige o desenvolvimento alimentarão do CO2 produzido no processo ter perdido o movimento das pernas e dos braços. de geração de energia. Por último, estuda-se Tecnológicos Empresariais de Investigação de novas alternativas que trazem os seus Ainda assim, encontrou em pincéis e telas uma fona utilização de microalgas de uma espécie em Biocombustíveis – formados por empresas próprios desafios tecnológicos, industriais, te de inspiração e renda para a família. O instrutor nativa que serão cultivadas em Chiloé, ao e universidades – receberam financiamento comerciais e políticos. Nesse contexto, os Gilson, do setor de Oficina Terapêutica da entidaSul do Chile. (HR) público para avançar no desenvolvimento e carros elétricos não são exceção. de, o incentivou a começar. Por isso guarda com O objetivo do encontro orgulho até hojefoia estabelecer primeira tela de implementação Luciano, que de tecnologias. Os projetos já ACESSE, NA VERSÃO DIGITAL DESTA NOTA EM FGV.BR/ começaram a andar. – POR HELÔ REINERT, DE bases para acelerar a implantação dessa CES/PAGINA22, INFORMAÇÕES SOBRE PRODUÇÃO DE retrata o local onde se acidentou. ETANOL DE SEGUNDA GERAÇÃO SANTIAGO DO CHILE nova opção Para em território nacional. Segundosignifica o o estudante, a pintura um instrudiretor-presidente ABVE, Pietro Erber, os mento deda inclusão e a oportunidade de fazer tudo veículosohíbridos aumentam eficiência que fazque hoje: estudar,a expor e viver [CHILE do seuIII]trabados atuais combustão interna lho.veículos “Antesdeda deficiência eu em não sabia desenhar. 30% serão primeiros a chegar às ruas. Até ostentava, achava bonito, mas não tinha o dom. Até fugia das aulas de artes do colégio. E foi quando Apesar do uso dos carros elétricos ainda vendi meu primeiro quadro que dedo Chile tem sido fonte de inspiração para o desenvolvimento de diferentes deserto estar muito ligada à questão tecnológica – o me dei conta que podia fazer aquilo”, sorri ele, atual estágiário projetos de energia. Até o final do ano, será aberta uma licitação para a produção de desenvolvimento de baterias mais eficientes e de Imprensa. energia fotovoltaica na cidade de San Pedro de Atacama. A região reúne condições baratas em temAssessoria sido uma preocupação constante Históriamais parecida tem Messias de Oliveira, melhores para a produção desse tipo de fonte que Espanha e Alemanha, os países que mais se –, um dos debates esperados foi o queFernandes depara Bom-Jardim. Assim como e como tantos outros, ele eracom novogeradores quando sofreu o acidente em Magé, valemLuciano, dela. Atualmente, a cidade é iluminada alimentados predominantemente discutiupernambucano políticas públicas esses veículos no Rio: tinha apenas 14 anos quando mergulhou num rio, bateu a cabeça na pedra e lesionou a coluna. com diesel, mas isso não será mais assim. Em breve, o sol do deserto gerará boa parte da e contou com a presença do secretáriodias Nelson para voltar para casa, das férias, a viagem demanda. Trata-se de mas um projeto parateve 500 que KW. ser adiada por mais de dois anos. Esse executivo doFaltavam Ministériopoucos da Fazenda foi de o período que em noMessias As probabilidades de crescerem as apostas nesse tipo energia aumentam Chile. Henrique Barbosa Filho. “Os veículos elétricos passou por hospitais e chegou à Considera-se que as condições estão, de certa forma, dadas. A crise na economia espanhola são uma tendência de desenvolvimento ABBR. Desenganado pelos médiprovocou a queda no preço da tecnologia solar, enquanto o do diesel voltou a subir, e já tecnológico e representam uma grande cos, acabou sendo operado e três chegaram ao Chile grandes fornecedores como Farosa, Abengoa e Acciona para prospectar oportunidade para o Brasil”, afirmou. – POR meses depois estava de pé, com FÁBIO RODRIGUES mercado. Também na região norte, a Codelco, considerada a primeira produtora de cobre do a ajuda de aparelhos. Chegou a mundo, finaliza a construção da primeira planta industrial solar da América do Sul. A potência enfrentar cerca de oito horas di[CHILE I] instalada é de 1 MW. A produção está prevista para começar até o fim de 2011. (HR)

Presente do deserto

HERMANOS TAMBÉM NA CORRIDA ENERGÉTICA

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largada foi dada. Em resposta à crise de oferta de energia no Chile, os órgãos responsáveis pelo setor no país assumiram o desafio de elevar a participação das fontes renováveis de 3% para o patamar de 20%. Hoje, o Chile enfrenta dois problemas: a necessidade de importar quase todos os insumos energéticos e ainda depender de fontes poluentes. Ao mesmo tempo, crescem as críticas à construção da hidrelétrica HidroAysén.

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árias de fisioterapia. Até que a saudade da família o levou de volta a Pernambuco, onde reaprendeu a escrever, retornou à escola e fez o que ele mais queria: voltar a cavalgar. Anos mais tarde, voltou a morar no Rio, formou-se em Psicologia e hoje atende pessoas que também têm algum tipo de deficiência. “Antes de persistir, acredite”, é uma das mensagens que ele passa a seus pacientes.

DIVULGAÇÃO

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Anúncio ETHOS


Cultura

Uma eterna bienal em jardins babilônicos Nos arredores de Belo Horizonte, o Instituto Inhotim, um parque guarnecido por finíssimas galerias, é hoje referência internacional de beleza, qualidade e arte contemporânea

Texto e Fotos: Raquel Ribeiro, Especial para Plurale em revista - De Brumadinho (MG)

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riste aparência lunar. Esse costuma ser o aspecto de uma área explorada pela mineração. Inhotim, antiga área de carregamento de minério de ferro, mostra ser possível consertar um estrago desse quilate: da terra seca e pedregosa surgiram cinco lagos, hoje rodeados por garças, maritacas, martins-pescadores, cisnes e centenas de passarinhos. Em volta desse mundo aquático repleto de vida, uma paisagem digna de Monet descansa os olhos e enche a alma de verde, com pontes românticas, flores das mais diversas cores e jardins milimetricamente traçados. Só de palmeiras existem ali mais de 1200 espécies diferentes! Burle Marx se sentiria em casa: a principal alameda é batizada com seu nome e em todo o paisagismo percebe-se a influência do mestre.

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Não bastasse tanta beleza natural, nesse verdadeiro jardim botânico crescem galerias de arte contemporânea, com um acervo do nível de um MoMA nova-iorquino. Obras de Hélio Oiticica, Cildo Meirelles, Adriana Varejão, Tunga, Chris Burden, Matthew Barney, Janet Cardiff e outros nomes quentes do Brasil e do mundo estão confortavelmente instaladas em galerias que muitas vezes foram construídas sob medida. É o caso da instalação Sonic Pavilion, do artista norte-americano Doug Aitken. Construída no ponto mais alto do parque, uma nave cilíndrica com paredes de vidro impressiona. Do lado de dentro, uma lente espelhada protege a abertura de um buraco de 202 metros de profundidade. Instalados lá embaixo, 12 microfones transmitem para a sala os ruídos


amplificados das entranhas do solo, criando um inusitado ambiente meditativo. “As pessoas entram, tentam olhar o buraco e se vêem: cada um é responsável pelo que ocorre na terra”, interpreta Nahana, uma simpática monitora de artes. A obra “de lama lâmina”, de Matthew Barney (foto) também ganhou uma “casa” moldada a sua altura, literalmente. Trata-se de um guindaste imenso, com pinças que seguram uma majestosa árvore desenraizada (feita de cera), dentro de uma estrutura geodésica de vidro e metal. A geometria perfeita e a máquina representam a luta do progresso contra a natureza – ao menos assim entendi essa imagem que remete a titãs e orixás. Impactantes, incompreensíveis, incômodas, profundas ou simplesmente belas, as obras do Inhotim falam à mente e ao espírito. Cada uma, ao seu modo, provoca uma reação. Eu fui tocada, particularmente, pelas experiências sonoras. Caminhar num amplo salão envidraçado ouvindo um coral gregoriano afinadíssimo – cada voz saia de uma das 96 caixas de som, com os naipes de barítonos, contraltos, tenores e sopranos “se movendo e circulando” conforme o andamento da música – foi uma viagem virtual ao centro de um palco no século XIII. Minha filha de quatro anos elegeu a galeria Cosmococa, de Oiticica, com suas cinco salas lúdicas, que convidam o visitante a ser “participante” das obras. Entre elas, encontramos salas com bolas de soprar, redes, almofadas em formas geométricas, chão macio e uma piscina com luzes que desenham imagens no teto (e onde, apesar da água fria, todos podem entrar e depois usar uma das dezenas de toalhas à disposição). Tudo no ritmo da trilha de Yoko Ono, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Jimi Hendrix e John Cage. Para Oiticica, pioneiro da arte contemporânea, se o público não interage, a obra inexiste: ou seja, tudo ali pode ser tocado, curtido, vivenciado. O curioso é que esse trabalho habita a galeria mais sisuda do museu-jardim – o prédio parece um bunker. Provocação através do contraste? Brincadeira com a embalagem cinza contendo um presente multicolorido? O certo é que o arrojado acervo de Inhotim interage, dialoga (e eventualmente discorda, discute) com as galerias e com o paisagismo do entorno. A integração das muitas esculturas ao ar livre, espalhadas nessa imensa área de 97 hectares, se faz ainda mais clara: estátuas são emol-

duradas por jardins floridos, instalações bizarras são cercadas de palmeiras exóticas, árvores centenárias e objetos curiosos – como o mega-caleidoscópio do artista dinamarquês Olafur Eliasson – rodeado por plantas suculentas com forma de polvo. Talvez a obra mais adaptada a seu entorno seja Beam Drop Inhotim, recriada em 2008 (originalmente instalada no Art Park, nos EUA, e destruída em 1987). Trata-se de uma “plantação” de 71 vigas metálicas de construção, que foram jogadas por um guindaste de uma altura de 45 metros, dentro de uma vala repleta de cimento fresco. Conforme o concreto secava, as vigas consolidavam a obra na posição em que eram “engessadas”. Localizada no alto da montanha, parece um bosque futurista. Outro trabalho que chama a atenção é a instalação de Yayoi Kusama: 500 esferas brilhantes de aço inoxidável flutuam nos espelhos d’água de um jardim suspenso e movem-se ao sabor dos ventos – e de mãos

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Cultura curiosas – refletindo as imagens ao seu redor e produzindo ruídos tranquilizantes. Poesia pura... Não é preciso ser expert em arte contemporânea, nem se sentir particularmente tocado por alguma das obras para curtir Inhotim. Se você for seduzido pela placidez dos lagos, sinuosidade dos jardins, imponência das palmeiras, delicadeza das orquídeas e pela poesia das veredas de plantas mimosas, captou boa parte da verve artística do lugar. Se simplesmente aproveitar a sombra e a majestosa presença do tamboril, árvore que chega a 35 metros de altura, terá agradando Bernardo Paz, idealizador desse fabuloso projeto e presidente do conselho de administração do Instituto Inhotim. Afinal, a primeira peça a ser colocada no terreno inóspito da antiga mineradora não foi uma obra de arte e sim uma muda de planta. Amigo de Burle Marx, ao sonhar com Inhotim, Paz imaginou um imenso jardim. Aberto ao público em 2006, o Instituto já recebeu, em um único dia de feriado, 4600 visitantes. Tudo organizadíssimo,

limpo, bem exposto, sinalizado e... vigiado! Nada de fotografar o interior das galerias, fazer piquenique ou entrar nos lagos. Coisa fina. E que merece ser reproduzida mundo afora. Se dez por cento dos bilionários aplicassem assim uma parcela de seus lucros, o mundo seria mais belo...

impacto ambieNtal e social Quando se fala em impacto, pensamos logo no lado negativo, já que raramente a presença humana na natureza traz algum bem. Pois em Inhotim, o solo devastado foi transformado em uma terra rica, centenas de milhares de árvores foram plantadas ou transplantadas e a vegetação natural do entorno foi preservada com a criação de uma reserva que já virou floresta. O impacto social é igualmente positivo: dos cerca de 700 funcionários, boa parte vem de Brumadinho, e os guias artísticos e ambientais incluem muitos estudantes de Belo Horizonte. O Instituto Inhotim desenvolve pesquisas na área ambiental, ações educativas e um programa de inclusão e cidadania para as comunidades vizinhas. Os projetos Inhotim Encanto e Coral e Iniciação Musical são bons exemplos, pois mobilizam crianças, jovens e adultos. Uma parceria com a prefeitura de Belo Horizonte promove visitas gratuitas aos alunos da rede pública com o programa Escola Integrada: toda terça e quarta-feira cerca de 400 alunos passam o dia inteiro em visita educacional. A prefeitura financia o transporte e o Instituto oferece almoço, entrada, lanche e visita.

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foto: Christina Rufatto/ Divulgação

aprecie sem moDeraÇÃo Situado no simplório município de Brumadinho, a 51 quilômetros de Belo Horizonte, Inhotim pode ser visitado em um único dia, mas merece pelo menos o dobro (assim você escapa da angustia de querer ver tudo de uma vez, e não conseguir). O ideal é chegar perto das nove da manha e ficar até o ultimo minuto (as galerias fecham as 16h30 durante a semana e as 17h30 nos finais de semana), depois dá para fazer compras na lojinha, que oferece artesanato ecológica e socialmente correto. Entre uma galeria e outra, pare para descansar num dos monumentais bancos do designer Hugo Franca, feitos com troncos inteiros (Inhotim exibe o maior acervo de esculturas mobiliárias do artista paulistano). Tome um café expresso ou um sorvete italiano divino e almoce num dos aprazíveis restaurantes (tudo caro, porém de primeira). Recomendo o Oiticica, em frente ao lago principal. As mesinhas de fora recebem a sombra de uma árvore vestida de bromélias e orquídeas, a comida é boa e o serviço, impecável. Em Brumadinho ainda não há lugares gostosos para comer ou beber, mas nos arredores você consegue encontrar uma comida caseira variada e bem feita, como a da simpática pousada Dona Carminha. Caso saia do Rio de Janeiro e pretenda viajar de carro, é bom fazê-lo durante o dia, pois as estradas sinuosas têm sinalização precária, sem acostamento, com muitos caminhões e poucos postos de gasolina. Para saber mais: http://www.inhotim.org.br

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P e las Em pr esas

ISABELLA ARARIPE

Itaú Unibanco é eleito banco mais sustentável do mundo O Itaú Unibanco foi eleito, em junho, em Londres, o Banco Mais Sustentável do Mundo no prêmio “2011 FT/IFC Sustainable Finance Awards”, concedido pelo jornal britânico FiDenise Hills, superintendente de Sustentabinancial Times e pelo IFC (Internatiolidade do Itaú Unibanco (com o troféu em nal Finance Corporation), braço fimãos), recebeu o prêmio de Banco Mais Susnanceiro do Banco Mundial. O banco tentável do Mundo ao lado dos vencedores também foi reconhecido como Mais das demais categorias e de Rachel Kyte, vice Sustentável das Américas, concorpresidente do IFC e John Ridding, CEO do rendo com instituições da Argentina Financial Times (à dir. da Denise) e do México. Em 2009 e 2010 o Itaú Unibanco já havia recebido o prêmio na categoria Banco Mais Sustentável da América Latina e de Mercados Emergentes. “Em um mundo em plena transformação, temos muito orgulho de receber esse reconhecimento, que na verdade reforça o nosso foco em performance sustentá-

vel. O Itaú Unibanco procura combinar consistente desempenho financeiro com atitudes que privilegiam a ética, a transparência no relacionamento com clientes, colaboradores, acionistas e comunidade. Nós estamos comprometidos com princípios sólidos de atrelar o tema aos negócios da organização. Essa caminhada está baseada em liderança responsável e na satisfação dos nossos clientes por meio da educação financeira e da oferta de produtos adequados a necessidade e fase de vida de cada um ”, afirmou Zeca Rudge, Vice presidente da área de Relações Institucionais do Itaú Unibanco.

Comunidades conectadas A Fundação Telefônica, a Vivo e o Programa Rede Jovem lançaram em 11 de agosto a expansão do projeto Wikimapa para 16 comunidades do Complexo do Alemão e adjacências, no Rio de Janeiro. O objetivo é criar um mapa virtual de comunidades de baixa renda, a partir da identificação de locais de interesse público, como hospitais, escolas, comércios, ONGs, praças, quadras Françoise Trapenard , diretora da Fundação esportivas, entre outras, além de ruas informais que ainda não constam dos Telefônica, e Versione Souza, diretor regional serviços de pesquisa e visualização de mapas na internet.A Fundação Teleda Vivo com os jovens do Complexo do Alemão/ Foto de Ronaldo Pereira, Divulgação. fônica, a Vivo e o Programa Rede Jovem lançaram nesta quarta (dia 10) a expansão do projeto Wikimapa para 16 comunidades do Complexo do Alemão e adjacências, no Rio de Janeiro. O objetivo é criar um mapa virtual de comunidades de baixa renda, a partir da identificação de locais de interesse público, como hospitais, escolas, comércios, ONGs, praças, quadras esportivas, entre outras, além de ruas informais que ainda não constam dos serviços de pesquisa e visualização de mapas na internet.

Empresas apresentam resultados das emissões de Gases de Efeito Estufa Em 10 de agosto foi realizado o Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol, em São Paulo, em que foram apresentados os resultados de 77 inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE) de empresas voluntárias referente às emissões do ano de 2010. Elas representam 14 setores diferentes, conforme a Classificação Nacional de Atividades Econômicas, IBGE. A maior parcela (47%) das empresas inventariantes pertence ao setor industrial, seguido pelas em-

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presas do setor financeiro (8%) e do setor de energia (7%). Foi o Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) que desenvolveu, há três anos, em parceria com o World Resources Institute (WRI), o Programa Brasileiro GHG Protocol que tem como objetivo estabelecer uma cultura de elaboração e publicação de inventários corporativos de emissões de gases de efeito estufa no país.


ESTE ESPAÇO É DESTINADO A NOTÍCIAS DE EMPRESAS. ENVIE NOTÍCIAS E FOTOS PARA SABELLA.ARARIPE@PLURALE.COM.BR

Início de operação comercial de PCHs da Alupar A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a Alupar, (Grupo Alusa), a iniciar a operação comercial da primeira de duas unidades geradoras da PCH de Lavrinhas. Juntas, as duas unidades totalizarão capacidade de geração de 30MW. A PCH de Lavrinhas compõe

com a PCH de Queluz, ambas localizadas no leito do rio Paraíba do Sul, no Vale do Paraíba, em São Paulo, um complexo energético, cuja capacidade de geração somada (60 MW) será suficiente para atender à demanda de uma cidade com 230 mil habitantes.

Revista RI no iPad A edição de julho da Revista RI, a principal publicação mensal brasileira sobre relações com investidores e mercado de capitais, a partir de agora também estará disponível nos formatos digitais para iPad, pc, mac e Android, aumentando assim, consideravelmente, a sua circulação junto aos leitores. Nessa edição, a revista apresenta um amplo debate sobre a importância

de uma maior participação do investidor pessoa física na Bovespa, para o fortalecimento e consolidação do mercado de ações no Brasil. A revista alerta que mais do que a Bolsa e as corretoras, quem tem mais a ganhar com isso são as próprias empresas listadas ao terem uma parcela significativa de suas ações nas mãos dos investidores individuais, ampliando com isso a sua base acionária.

TAM lança edital para selecionar projetos socioambientais que receberão apoio em 2012 A TAM acaba de publicar em seu site (www.tam.com. br), nos links Institucional > Socioambiental, o edital de apoio para os interessados em apresentar projetos nas áreas de turismo sustentável e de meio ambiente. As inscrições poderão ser feitas até 1º de setembro de 2011.

“Temos consciência dos nossos desafios e buscamos parcerias que mobilizem, conscientizem e sensibilizem

as pessoas para a sustentabilidade. Devemos trabalhar em conjunto em prol de um turismo sustentável, nos preparando para o crescimento constante do setor aéreo, intensificado com eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil nos próximos anos. É fundamental a integração de políticas públicas, da iniciativa privada e da sociedade civil”, declara Carolina Duque, diretora de Gestão de Pessoas e Conhecimento da TAM Linhas Aéreas

Neutralização no Infraprev O INFRAPREV, fundo de pensão da Infraero, pelo terceiro ano consecutivo, compensou as emissões de gases de efeito estufa (GEE) realizadas em 2010. Foram neutralizadas 83,54 toneladas de CO2 por meio do plantio de 528 árvores em área da Mata Atlântica. Pelo engajamento ambiental, o Instituto renovou o selo Carbon Free, que atesta a sua contribuição para a redução do aquecimento global e para a recuperação e conservação da Mata Atlântica.

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Transporte

Mais Am r e menos mOtOr em Buenos Aires Fomos conferir se o lema do ciclista apaixonado pode ser proferido na capital argentina. Três usuários diários da bicicleta nos contaram a dor e a delícia de usá-la pelas ruas portenhas.

U

ma cidade totalmente plana, com ruas desenhadas em forma de tabuleiro de xadrez, diagonais que encurtam caminhos e ciclovias. O sonho de qualquer um que ama andar sobre duas rodas movidas a energia humana? Buenos Aires. Apesar dos problemas que as grandes cidades latino-americanas, em maior ou menor medida, compartilham, a capital argentina é um excelente lugar para usar a bicicleta como meio de transporte. Mesmo com trânsito pesado, ônibus grandes em ruas estreitas e a falta de educação dos motoristas de táxi, carros e motos, esta carioca crescida na Tijuca se apaixonou por Buenos Aires no momento em que passou a pedalar por ela. E não foi a única. A bailarina Brisa Videla, de Venado Tuerto, no estado de Santa Fe; a professora de pilates Eliana Etizne, de Bahía Blanca, no estado de Buenos Aires; e o estudante de mestrado Michiel

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Texto e Fotos: Aline Gatto Boueri. de Buenos Aires, Correspondente de Plurale na Argentina

Van Meervenne, de Bruxelas, Bélgica, nos convidaram a percorrer a cidade com eles e nos levaram aonde costumam levá-los suas bicicletas. Os 10 km com a Brisa Saímos com a Brisa do bairro de Abasto e pedalamos cerca de 10 km até o bairro de Villa Urquiza – um dos limites da cidade de Buenos Aires ao norte. Lá a bailarina foi, acompanhada de uma amiga, à Fabricicleta, uma oficina onde fanáticos e entendidos da arte de montar e consertar bicicletas se reúnem às terças e sábados para ajudar, grátis, aos ciclistas de primeiras viagens adeptos do faça você mesmo. No caminho, um acidente mostrou que o grande perigo da bicicleta está dentro dos carros que dividem com ela o espaço público. Um passageiro desatento de um táxi abriu a porta do veículo para descer e golpeou nossa anfitriã. Quando nos detivemos para reclamar mais atenção, a explicação do irresponsável foi: “eu presto atenção nos carros.”


Para a bailarina Brisa Videla, bicicleta é liberdade

As pessoas têm dificuldade em entender que a bicicleta é também um veículo que tem o direito de circular com segurança pela cidade”, reclama. Mesmo assim, não troca a magrela por nada. “A bicicleta é liberdade. Eu escolho quando, como e por onde vou.

Bicicleta também é transporte público O transporte público em Buenos Aires é relativamente eficiente, se pensamos no caos do Rio de Janeiro. Linhas de metrô bem distribuídas pela cidade, trens com vagões especiais para bicicletas e ônibus que circulam 24h por dia e por toda a cidade – tudo isso por preços muito baixos – fazem com que andar de carro ou táxi pareça uma loucura. E o governo da cidade piscou o olho para a ideia. Criou um Sistema de Transporte Público em Bicicleta, com 11 postos de empréstimo (por, no máximo, duas horas), condicionados pela apresentação de um documento, um serviço pago no nome do usuário da bicicleta e um comprovante de residência emitido pela Polícia Federal. “Um pouco burocrático, não?”, ironiza Brisa.

Com todas as coisas que tenho que fazer, em lugares tão diferentes, sem a bicicleta eu não teria tempo nem dinheiro para fazer

A professora de pilates Eliana Etizane pedala cerca de 15 km por dia

A cidade também ganhou 36 km de ciclovias e criou o programa Mejor en Bici, que estimula o uso de bicicletas. Brisa e Eliana contam que, quando podem, usam a faixa preferencial. “É muito mais seguro”, garante Eliana. “O único problema é que é mal sinalizada. A ciclovia termina sem avisar e, de repente, você está numa contramão”, pondera Brisa. 4 km com Eliana Com Eliana, saímos do bairro do Abasto também e fizemos quase todo o caminho pela ciclovia, até Caballito. Um percurso de cerca de 4 km entre a casa da professora de pilates e uma das academias onde dá aulas, quase todo pela ciclovia. Eram 18h e o trânsito era intenso. “Com todas as coisas que tenho que fazer, em lugares tão diferentes, sem a bicicleta eu não teria tempo nem dinheiro

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Transporte

As ruas quadriculadas facilitam para quem não conhece bem a cidade. Em caso de se perder, é só pegar uma paralela, que você sabe que vai chegar. E, para as emergêcias, uso a Guia T

O belga Michiel Van Meervenne usa a Guia T para pedalar por Buenos Aires

para fazer”, conta. Ela faz cerca de 15 km por dia, 90% dentro da Capital Federal. “Fora o trem, que é amigo da bicicleta, eu não suporto transporte público.” O uso indevido da ciclovia também gera dor de cabeça. Não é raro ver motos aproveitando a deixa para ultrapassar por aí ou mesmo para circular na contramão pela faixa da bicicleta. Alguns carros também estacionam aí em horários de menor movimento e os pedestres costumam atravessar sem considerar que a ciclovia é mão dupla, olhando apenas para o sentido dos carros. “Os pedestres ainda não registram a ciclovia, algumas pessoas caminham por ela como se fosse um calçadão. Há muitos buracos e em lugares onde há muito movimento, como o bairro de Once (onde está uma das grandes centrais de trem da cidade), é uma tortura”, se queixa Eliana. 10 km com michiel Fomos comprovar e, com Michiel, saímos de Almagro até a Plaza Congreso, outro ponto de muito movimento na cidade. No caminho, passamos por Once. “Essa parte é complicada mesmo”, comenta. O estudante mora em Buenos Aires há pouco mais de um ano e conta que estava acostumadíssimo a usar a bicicleta em Bruxelas e em Gent, onde morou durante

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a graduação na universidade e onde, segundo ele, “a bicicleta tem sempre a preferência.” Mesmo não sendo bem assim em Buenos Aires, ele diz que desde que começou a pedalar pela cidade, nunca mais parou. “O limite do motorista de carro ou ônibus é não te matar. Mas eu sempre sinalizo quando vou mudar de faixa e uso a educação quando acontece alguma situação perigosa. Nós, que usamos a bicicleta e que somos os principais prejudicados em caso de acidente, muitas vezes precisamos educar os demais. E, para isso, é preciso que sejamos cada vez mais.” Quando saímos da Plaza Congreso, onde Michiel passou para pegar algumas xerox que tinha encomendado para a faculdade, seguimos até a Biblioteca Nacional, em Palermo. No total, foram cerca de 10 km de passeio, às vezes um pouco tenso, mas sem nenhum tipo de incidente. “As ruas quadriculadas facilitam para quem não conhece bem a cidade. Em caso de se perder, é só pegar uma paralela, que você sabe que vai chegar. E, para as emergêcias, uso a Guia T” (guia de bolso com todas as ruas da cidade). E, como cereja do bolo, esta que vos fala recomenda: o outono – pelo clima e pela paisagem – é a estação ideal para conhecer Buenos Aires. Sobre duas rodas.

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massa crítica As tradicionais pedaladas coletivas, que acontecem em várias cidades do mundo (a de Porto Alegre ficou tristemente famosa por conta do atropelamento dos ciclistas em março) são uma excelente oportunidade para o visitante de outro país passear pela cidade sem medo e bem acompanhado. No primeiro domingo de cada mês, os participantes se encontram às 16h no famoso Obelisco.

passeios turísticos e aluGuel De bicicletas La Bicicleta Naranja, no bairro de San Telmo, é uma agência que oferece passeios guiados, durante o dia e durante a noite. O preço do aluguel da bicicleta por pessoa varia entre 15 pesos (cerca de R$6) a hora e 220 pesos (cerca de R$85) a semana. O telefone para contato é (54-11) 43621104 e o e-mail é info@labicicletanaranja.com.ar


P e lo Mundo Criando uma rede de mentores Por Wilberto Lima Jr, Correspondente de Plurale em revista nos EUA, De Boston

Uma nova ideia de red (NET) está crescendo aqui nos EUA.Trata-se das chamadas PLNs ( Personal Learning Networks ), ou, traduzindo, Redes (Networks) de Aprendizado Pessoal. Criadas por um consórcio aberto de professores que agora soma cerca de 9700, as PLNs usam as redes sociais, principalmente o Twitter. A ideia é simples: oferecer aos estudantes a possibilidade de contatar “experts” em assuntos que são do seu interesse, mas não são encontrados nas suas próprias escolas. Não se trata de pesquisa apenas, mas a possibilidade de discutir esses assuntos com quem entende. Elas partem do princípio que as próprias escolas não conseguem

suprir a necessidade de conhecimento específico criado pelos estudantes. Os estudantes podem achar outras fontes e outros “experts” para realmente pesquisar o que eles querem saber. Eles tem acesso a intrução especializada, ajuda ou aconselhamento. Daí o princípio de Mentor. O fato é que as redes sociais estão servindo para ampliar este conhecimento específico e curiosamente tem encontrado um terreno fértil em escolas de áreas rurais, pelo natural afastamento dos grandes centros. As PLNs são gratuitas e permitem que os estudantes também contatem outros estudantes e que professores acessem outros professores. Os exemplos são vários, mas alguns mostram bem o que se pode fazer: Uma aluna de 17 anos, do interior dos EUA (no estado de Iowa) não conseguia achar um curso sobre marketing e rela-

ções públicas para ensiná-la (é preciso entender a idade dela). Através de um Mentor ela foi colocada em contato, via Twitter, com uma autora e consultora de marketing que não só a esclareceu, como ainda fez uma apresentação via Skipe para a classe dela. Agora mesmo, uma escola no estado de Massachussets vai distribuir iPads para todos seus 1100 alunos, visando, segundo seu Diretor, alavancar o conceito e o uso das PLNs. Custo: 200 mil dólares em um ano. Um livro foi escrito e seu co-autor, Will Richardson, estima que 5% dos professores do país já usam as Redes e declara que acredita que os melhores professores, para a vida dos dos estudantes, serão aqueles que eles vão encontrar (usando as PLNs) e não os que forem dados a eles. Uma afirmativa tavez forte demais, mas o assunto já está sendo considerado um fenômeno.

Novas diretivas de gestão para resíduos radioativos para União Europeia Vivian Simonato, Correspondente de Plurale na Irlanda, de Dublin

A Comissão Europeia aprovou em 19 de julho último nova diretiva para a gestão de combustível irradiado e resíduos radioativos, ou lixo atômico, são aqueles gerados em processos de produção de energia nuclear, mas também que podem ser resultado de tratamentos e diagnósticos radiológicos, pesquisa científica entre outros. A medida, proposta em 2010, deve começar a vigorar até setembro deste ano. Todos os 27 Estados-Membros da União Europeia, dos quais 14 possuem reatores nucleares, devem apresentar os programas nacionais para gerenciamento dos resíduos radioativos até 2015, que serão notificados e podem ser alterados pela Comissão Europeia. As obrigações prevêem que os programas propostos por cada Estado-Membro inclua um calendário de ações para a construção das instalações de eliminação, descrição das atividades necessárias para a implementação dessas soluções, avaliação de custos e descrição dos sistemas de financiamento. As normas de segurança elaboradas pela Agência Internacional de Energia Atômica serão juridicamente vinculativa.

Todas as informações para compor o plano de gerenciamento de resíduos radioativos também devem ser disponibilizadas ao público em geral, que devem participar do processo decisório do plano nacional de gerenciamento de resíduos radioativos. Os Estados-Membros também são obrigados a passar por avaliações periódicas realizadas por órgãos de controle internacional, não ultrapassando o período de 10 anos. Também há a possibilidade de cooperação entre dois Estados-Membros em usar uma instalação de eliminação dos resíduos em um deles. As exportações do lixo atômico para países do continente africano, Caribe, Antártida e do Pacífico não são autorizadas. No entanto, será possível exportar os resíduos radioativos para outros países fora da União Europeia desde que o país recipiente prove que dispõe de depósito definitivo em funcionamento para esta finalidade. No entanto, as normas internacionais para depósitos de resíduos altamente radioativos define que estes tenham que ser instalados em repositórios geológicos profundos. Atualmente, depósitos com essas características não existem no mundo e o tempo estimado para projetar e construir um deles é de 40 anos, no mínimo.

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Solidariedade

Campanhas muito engajadas Texto: Mônica Pinho, de Perth, Austrália

I

Fotos: Divulgação

Impressiona mais ainda o número de pessoas mpressiona o número de campanhas solidárias que existem na Austrália. inscrições, nos eventos que ajudam a levantar ou doações que se engajam nas causas e participam efetivamente, através de . próximo ao ajudar : fundos para diversos projetos, porém com um objetivo comum ha. Todas são importantes e de campan ante interess mais a Nesse espírito de solidariedade, não existe a melhor e nem ram no calendário abaixo. Confi . curiosas muito fato de valor incalculável porque são em prol da vida. Mas, algumas são

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asma – marÇo – hbF (health proFessioNal FouNDatioN)

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leucemia – marÇo - be brave aND shave

A cada 2 horas, alguém morre de câncer no sangue, muitos dos quais, crianças.Por isso, todo mês de Março, milhares de pessoas pintam ou raspam seu cabelo para ajudar a levantar fundos para a Leukaemia Foundation (Fundação de Leucemia). O “Be brave and shave” é também um dos maiores e mais divertidos eventos solidários da Australia. A inscrição dá direito ao “corte radical”máquina ZERO ou a um cabelo tingido numa cor que faça a diferença. De 1998, quando foi criado, até hoje, 106 milhões de dólares já foram arrecadados para auxiliar no tratamento de leucemia, linfomas e mielomas, além de oferecer suporte às famílias dos pacientes.

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Free bike hike For asthma Esse evento teve início em Mar2005 para angariar fundos de ço Foundation of WesAsthma o para atualmente já está e ia Austral tern Sports e no calenWA no o incluíd local. Costuidade comun da dário 113.000 e AU$ de mais r levanta ma cidadãos 225.000 de mais ciar benefi ciclistas ne WA.Reú de estado do isso, por e es iniciant e s ssionai profi r escolhe pode er inscrev se quem mais as: pedalad de tipos 3 entre longa, de 60 km, média, de 30 km ou de 10 para os que preferem curtas distâncias. Este ano, a inscrição cobrava a simbólica quantia de ! AU$10 por pessoa.

!


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r`s DaY classic

cÂNcer – mothe cÂNcer De mama – maio – breast

e cura do Câncer de Mama, através Criada em 1998, o Mother`s Day Clas- venção to do National Breast Cancer Foundation. sic é considerado hoje, o maior even Este ano, o evento está marcado para 8 solidário da Austrália e já angariou AU$ de maio e pretende superar a marca dos 2,1 7,8 milhões até hoje. de dólares australianos arrecadados Acontece anualmente em Maio, no Dia da milhões 2010, com a participação de mais de Mães, em diversas cidades da Australia: Ade- em 00 pessoas. laide, Brisbane, Canberra, Geelong, Melbour- 100.0 Mother`s Day Classic proporciona O as muit entre ey ne, Gold Coast, Hobart, Sydn às comunidades, uma das melhores foroutras pequenas localidades pelo país. se celebrar o Dia da Mães, através Trata-se de uma corrida/caminhada para mas de DOAÇÃO. arrecadar fundos para as pesquisas de pre- da

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citY 2 surF - aGosto

the WorlD’s larGest ruN (a maior corriDa Do muNDo) Essa corrida de 14 km e que já aniversaria 40 anos, acontece todos os anos em Sydney, no mês de Agosto e é considerada um dos maiores eventos esportivos da Austrália. Famílias inteiras marcam presença, incluindo crianças e idosos, todos querendo colaborar e fazer parte, seja correndo ou andando, o importante é participar. A corrida começa no centro da cidade e termina na praia – Bondi Beach. Por isso recebe o nome de City 2 (to) Surf. No ano passado bateu o recorde de 80.000 inscritos e arrecadou mais de AU$ 2.8 milhões em todo o país, que serão distribuídos entre 500 instituições de caridade.

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cÂNcer De próstata – Novembro – movember – real moustach es,

Movember é um evento solidário que acontece todos os anos no mês de Novembro para levantar fundos para a saúde e bem-estar do homem, mais especificamente nos tratamentos de câncer da próstata e depressão masculina. É um evento que “transforma” a aparência de milhares de homens na Australia e em outros países no mundo: Reino Unido, Canadá, Irlanda, Estados Unidos, Africa do Sul, Holanda e Nova Zelandia. No dia 1º. de Novembro, com o rosto devidamente barbeado, os interessados em ajudar se inscrevem e fazem sua doação. Pelo resto do mês, esses homens, conhecidos como MO Bros (MO vem

real outcomes de moustache e Bros de brothers), deixam seus bigodes crescerem e se transformam em publicidade ambulante, propagando a ideia e convidando mais e mais pessoas a juntarem-se à causa. Criam-se até perfis nas redes sociais para estimular as doações e gerar mais interesse nas campanhas. A verba levantada é dirigida à Fundação de Câncer de Próstata da Australia e ao Beyondblue, uma iniciativa nacional com foco na conscientização mundial sobre os problemas que envolvem a depressão. O último levantamento mostra mais de 129 mil inscrições e mais de AU$ 23 milhões arrecadados só na Austrália.

crescem os biGoDes, crescem os FuNDos!!! Além dessas, outras várias campanhas cumprem seu papel ao longo do ano. Há campanhas permanentes contra o fumo, álcool e melanoma (It`s a Word, not a sentence). Sem contar um sem número de prospectos que recebemos diariamente nas ruas sobre a importância das vacinas ou doação de órgãos. As empresas também participam destas campanhas fazendo doações, divulgando cartazes, incentivando a participação dos funcionários nas corridas, organizando leilões e cafés da manhã beneficentes. Aqui na Austrália é quase impossível ficar alheio à solidariedade. ! Cada um faz a sua pequena parte e forma um grande todo.

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CARBONO NEUTRO

SÔNIA ARARIPE

s o n i a a r a r i p e @ p l u r a l e . c o m . b r

ENTIDADE APONTA OS RISCOS NO COMÉRCIO DE CARBONO Fernanda B. Müller - Fonte: Instituto CarbonoBrasil /Agências Internacionais

“Apesar de nem todos os esquemas de comércio de créditos de carbono serem farsas, geralmente não é esclarecido aos investidores que as negociações nos mercados de balcão exigem experiência e habilidade”, alertou a Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido (FSA UK) no início de agosto.

FUNDAÇÃO GRUPO BOTICÁRIO RECEBE INSCRIÇÕES PARA EDITAIS DE APOIO A NOVOS PROJETOS ATÉ O FIM DE AGOSTO De Curitiba

A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza recebe, até o dia 31 de agosto, inscrições para os editais de apoio a projetos do segundo semestre de 2011. Podem concorrer ao financiamento, projetos de organizações não-governamentais ou fundações ligadas a universidades que contribuam efetivamente para a conservação da natureza no Brasil. As inscrições devem ser feitas no site da Fundação Grupo Boticário (www.fundacaogrupoboticario.org.br), no link “O que fazemos > Quem somos> Editais”. As propostas podem ser inscritas na linha de Edital de Apoio a Projetos, direcionada a todas as regiões do Brasil, cujos temas dizem respeito a: ações e pesquisa para a conservação de espécies e comunidades silvestres em

COM APOIO DA TECNOLOGIA BRASILEIRA, CONGO AVANÇA NO MONITORAMENTO DE FLORESTAS PARA REDD

O aviso ressalta a importância de se ter esquemas padronizados e regulamentados para a venda dos créditos voluntários, utilizados por empresas que desejam ‘neutralizar’ ou ‘compensar’ suas emissões de gases do efeito estufa (GEEs). “É preciso estar atento, principalmente com as reduções de emissão voluntárias (REVs), que muitas vezes são apresentadas como ‘certificadas’ quando na verdade representam uma variedade enorme de entidades e diferentes padrões que podem não ser reconhecidos por nenhum esquema de compensação no Reino Unido”, acrescenta a FSA UK.

ecossistemas naturais; ações para implementação de políticas voltadas à conservação de ecossistemas naturais; ações para a restauração de ecossistemas naturais; ações para prevenção ou controle de espécies invasoras; estudos para a criação ou manejo de unidades de conservação; e, pesquisa sobre vulnerabilidade, impacto e adaptação de espécies e ecossistemas às mudanças climáticas. Outra linha é o Edital Bio&Clima-Lagamar, lançado este ano, cujo apoio está direcionado à região do Lagamar (foto/ no litoral sul de São Paulo e litoral do Paraná) e a projetos que se enquadrem nas seguintes temáticas: impacto das mudanças climáticas em espécies e ecossistemas; monitoramento de longo prazo de variáveis bióticas e abióticas; serviços ecossistêmicos e os impactos das mudanças climáticas; e, previsão de cenários climáticos e seus impactos sobre a biota.

OBRAS DE DESPOLUIÇÃO DA BAÍA DE GUANABARA SERÃO CONCLUÍDAS ANTES DAS OLIMPÍADAS, DIZ COORDENADOR

Do Inpe

A República Democrática do Congo adotou a tecnologia brasileira de monitoramento desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que oferece seu sistema baseado em satélites a países interessados em cuidar de suas florestas. O objetivo é utilizar os resultados do monitoramento na implantação de políticas nacionais para REDD - Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação em Países em Desenvolvimento. O país africano é o segundo no mundo com maior cobertura de florestas tropicais. Em primeiro está o Brasil, que possui em seu território grande parte da Amazônia (foto), a maior floresta tropical do planeta.

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Por Alana Gandra, Repórter da Agência Brasil

As obras que faltavam para a despoluição da Baía de Guanabara serão concluídas antes das Olimpíadas de 2016, quando já começarão a ser sentidos os seus efeitos. A previsão é do coordenador executivo do Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía de Guanabara (Psam), da Secretaria Estadual do Ambiente, Gelson Serva.

O Psam substituiu o antigo Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), criado em 1992 e que se estendeu até 2006. Durante esse período, foram investidos no programa cerca de US$ 760,4 milhões, englobando US$ 349,3 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), US$ 162,8 milhões do Banco de Cooperação Internacional do Japão (Jbic) e US$ 248,3 milhões de contrapartida do governo fluminense. A partir de 2006, têm sido aplicados no Psam, com recursos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (Fecam), R$ 100 milhões, em média, por ano, na despoluição da Baía de Guanabara, segundo Serva.


CINEMA

Verde

ISABEL CAPAVERDE

i s a b e l c a p a v e r d e @ p l u r a l e . c o m . b r

Filme: Terra deu, Terra come

Filme: Semeador urbano

Copie e distribua

Docudrama na Amazônia

A intenção do cineasta Silvio Tendler (de “Jango”, “Os Anos JK”, “Glauber o Filme”) ao colocar na Internet seu mais recente documentário O veneno está na mesa – que não será vendido e sim liberado para cópia e distribuição - é disseminar a informação de que o brasileiro está se envenenando diariamente pelo uso abusivo de agrotóxicos nos alimentos e assim levar essa discussão ao governo federal. Lideramos um triste ranking: somos os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, cerca de 5,2 litros a cada ano por habitante. Num filme de 50 minutos com narração de Caco Ciocler, Dira Paes, Julia Lemmertz, além de entrevistas com especialistas, pequenos agricultores e trechos de reportagens veiculadas em rádio e TV, Tendler denuncia que a ganância de meia dúzia de empresas multinacionais – dando nome a todas elas – com a conivência das autoridades do Brasil, está matando a população e a terra. O filme faz parte da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, iniciativa que reúne mais de 30 entidades da sociedade civil, movimentos sociais, ambientalistas, estudantes e organizações ligadas à saúde. Para baixar na íntegra O veneno está na mesa acesse www.soltec.ufrj.br.

Filmes que não ficam parados Ao invés de reclamar que somos um país sem tela (leia-se sem salas de exibição), com problemas de distribuição e ainda necessitando de formação de plateia, alguns usam a criatividade na busca de soluções. No site www.filmesquevoam uma empresa catarinense de comunicação distribui conteúdo audiovisual de qualidade. Para acessar e assistir seu longas, curtas, documentários e até um canal com filmes infantis basta se cadastrar no site, criando uma conta. Entre os filmes postados há documentários interessantes como Impasse sobre o movimento que tomou conta das ruas de Florianópolis em maio e junho de 2010, quando milhares de pessoas protestaram contra o aumento da tarifa do transporte coletivo e Histórias do Oeste sobre a velocidade das transformações nas margens do rio Uruguai com a construção de uma usina hidroelétrica que muda a paisagem e os valores de uma terra que foi habitada por índios de diferentes grupos, colonizada por descendentes de europeus e que teve seu ambiente original devastado.

Misto de documentário com ficção está em fase de pré-produção o filme Amazônia – Planeta Verde uma parceria da brasileira Gullane Filmes com a francesa Gedeon Programmes. Segundo o pessoal da Gullane conta em seu blog, com cenário natural e elenco selvagem o filme terá uma boa dose de dramatização no estilo “A Marcha dos Pinguins”. Será um grande registro documental sobre a Floresta Amazônica, a partir do ponto de vista de um macaco-prego que mostrará ao público os mistérios da fauna e da flora da região.

“Pixo como expressão” é o tema do 6º festival cine favela Estão abertas até 30 de setembro as inscrições para o 6º Festival Cine Favela de Cinema, referência na produção da periferia, que acontecerá nas comunidades de Heliópolis, Paraisópolis e Cidade Tiradentes e na rede SESC-SP, de 9 a 15 de novembro na capital paulista. O festival que já atraiu mais de 14 mil espectadores, exibiu mais de 250 títulos nacionais, beneficiou 200 jovens em oficinas de cinema e distribuiu R$ 20.000,00 em prêmios, este ano será realizado pela Associação Cine Favela e pelo SESC-SP. Nesta edição o tema central será o “Pixo como Expressão da Periferia”. Haverá exibição de filmes em escolas públicas, presídios e redes de reabilitação, estações do metrô e unidades da rede SESC. Mais informações: www.festivalcinefavela.com.br

Festival visões periféricas foi transferido A quinta edição do Festival Visões Periféricas – Audiovisual, Educação e Tecnologias, foi transferida para outubro em data ainda por divulgar. O festival que acontece no Rio de Janeiro já exibiu mais de 700 filmes agregando um público de mais de 13 mil pessoas. Há mostras competitivas para filmes a serem exibidos em salas de cinema e filmes de até três minutos voltados a Internet. A organização é da Associação Imaginário Digital (www.imaginariodigital.org.br ).

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I m a g e m Foto: Edmilson

Oliveira da Silva

Santuário ecológico urbano e centro de pesquisas de ponta

Q

ue o Rio de Janeiro é bonito por natureza, isso já é fato conhecido há anos, cantado em verso e prosa pelo mestre Jorge Ben Jor. Esta belíssima imagem, do jornalista EDMILSON OLIVEIRA DA SILVA, é uma prova disso. Mostra ao fundo a Pedra da Gávea e o Morro Dois Irmãos, emoldurados por duas gaivotas que parecem reinar absolutas nas águas cariocas. A foto é parte de ensaio chamado “Voadores”, que pode ser conferido em Plurale em site. O baiano Edmilson nasceu em Santo Amaro da Purificação, terra de outros astros da música popular – Caetano e Maria Betânia –, mas fez carreira e história no Rio de Janeiro. Foi um dos desbravadores no Jornalismo Científico e Ecológico, muito antes destes temas ganharem as ruas. Na figura dele, Plurale faz aqui uma homenagem aos desbravadores desta caminhada, como Adalberto Marcondes, Alexandre Mansur, Flamínio Araripe, Lúcia Chayb, Marcos Sá Corrêa, Nairo Almeri, René Caprilles, Sérgio Abranches, Sérgio Adeodato e Vilmar Berna, entre muitos outros. A benção, mestres!

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Para quem tem espírito empreendedor, a vida está cheia de oportunidades para realizar mais.

O Grupo Boticário tem uma história de empreendedorismo. Tudo começou com O Boticário, que, em 34 anos, se tornou a maior rede de franquias de cosméticos do mundo e continua se expandindo rapidamente. E a história do Grupo Boticário ganhou um novo capítulo: Eudora. A primeira empresa de cosméticos no Brasil que já nasce no sistema multicanal, com venda direta, lojas-conceito e comércio eletrônico integrado às redes sociais. É assim que o Grupo Boticário segue realizando cada vez mais.

Empresas do Grupo Boticário

www.grupoboticario.com.br

plurale em revista ed.24  

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