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ano três | nº 20 | novembro/dezembro 2010 | R$ 10,00

AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE

CERRADO:

SEMENTE DE ESPERANÇA

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S O C I R T É L E BRIDOS E

FOTO: SÉRGIO LUTZ, RESERVA NATURAL SERRA DO TOMBADOR (GO)

PLURALE EM REVISTA

NOV/DEZ 2010

Nº 20

www.plurale.com.br


Editorial

O futuro é hoje Sônia Araripe e Carlos Franco, Editores de Plurale

N

ão são só os filmes de ficção científica que mostram inovações capazes de deixar qualquer um de boca aberta. O futuro já chegou. Hoje, nas ruas é possível encontrar carros que são carregados em potentes bases elétricas ou os híbridos, que combinam motores a combustão e eletricidade. Este admirável mundo é apresentado nesta Edição 20, em Especial produzido pelo especialista Cláudio Accioli, jornalista aficcionado por máquinas potentes, capazes de fazer corações baterem mais forte e agora, também, garantirem um planeta com menos emissões. Cláudio esteve no Salão do Automóvel, em São Paulo, onde desbravou para nossos leitores o que há de mais avançado em termos de tecnologia automobilística. Apaixonado que é por este universo, foi também ouvir especialistas e lembrou a história de um pioneiro à frente de seu tempo, o empresário João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, pioneiro em carros elétricos. Alguns, de tão resistentes, ainda estão circulando nas ruas. Os colunistas de Plurale apresentam diferentes visões da Sustentabilidade. Nesta edição temos artigos de graduados especialistas no tema: Israel

Klabin, presidente da Fundação para o Desenvolvimento Sustentável; Regina Migliori, consultora em Cultura da Paz da UNESCO e os consultores Heloisa Garcia e Ernesto Cavasin Neto, especialistas em Mudanças Climáticas da consultoria Pricewaterhousecoopers. O sempre ativo Sergio Lutz foi munido de lentes e bloco com o objetivo firme de relatar o deslumbramento da Serra do Tombador, em Goiás. Ele apresenta um Cerrado absolutamente surpreendente e belo, para quem imagina um cenário monótono. E apresenta projeto desenvolvido com apoio da Fundação O Boticário para a Natureza, que completa agora 20 anos. Nícia Ribas esteve em seminário de nível internacional sobre letramento e apresenta as últimas novidades em termos de Educação. O destino de Cristiane Rodrigues foi outro: os vinhedos do Rio Grande do Sul, onde garimpou uma reportagem genial mostrando que é possível sim produzir vinhos de ótima qualidade, livres de agrotóxicos. Da Argentina, a correspondente Aline Gatto Boueri mostra o valor incalculável das geleiras bem ao sul do planeta, que, infelizmente, estão derretendo. E tem muito mais: as últimas notícias da COP16; os 30 anos do Projeto Tamar; o empreendedorismo dos jovens e pesquisas sobre sustentabilidade. Esperamos que apreciem a leitura.

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PLURALE EM REVISTA | Novembro/Dezembro 2010


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Quem faz

Cartas p l u r a l e @ p l u r a l e . c o m . b r

Edição 19 Plurale, 3 anos Diretores Carlos Franco carlosfranco@plurale.com.br Sônia Araripe soniaararipe@plurale.com.br Plurale em site: www.plurale.com.br Plurale em site no twitter: http://twitter.com/pluraleemsite Comercial comercial@plurale.com.br Arte SeeDesign Marcos Gomes e Marcelo Tristão Fotografia Luciana Tancredo, Cacalos Garrastazu, Agência Brasil e Maradentro

“Gostaria de parabenizar a equipe de Plurale em revista pela produção da matéria, na última edição 19, sobre o projeto de geração de energia fotovoltaica na região da Reserva Extrativista Chico Mendes, no interior do Acre. Como idealizadores do projeto, ao lado da GTZ, consideramos de suma importância que a população brasileira conheça os avanços e os desafios do trabalho, exemplo da magnitude do compromisso de levar a energia elétrica a cada canto de um país tão grande quanto o nosso. Parabéns também pelos três anos da revista, firme em sua missão de divulgar iniciativas que ajudam a construir um Brasil melhor.” José Antonio Muniz, presidente da Eletrobras “Está muito linda a edição 19 de Plurale, comemorativa de 3 anos, parabéns. Li a matéria da capa, sobre a chegada da luz através de projeto de energia fotovoltaica nos seringais do Acre, parceria da Eletrobras e da GTZ e gostei muito.” Paula Scheidt, jornalista, Florianópolis (SC)

Colaboradores internacionais Aline Gatto Boueri (Buenos Aires), Ivna Maluly (Bruxelas), Vivian Simonato (Dublin), Wilberto Lima Jr.(Boston)

“Aniversário é aniversário e é hora de olhar com mais atenção para o aniversariante! Tudo é tão rápido, no nosso tempo, que só hoje me dei conta que a Plurale “bebê”, já está com três anos! Já corre por aí,encantando a todos nós com sua programação leve, bonita que nos leva, daquele meio do dia caótico, para sensações de paz, seja lendo a revista ou entrando no site. Esse “bebê” já nasceu com muita personalidade e determinação. Nele a gente encontra sempre uma notícia, um comentário, um artigo inesperado. Encontra notícias positivas que permitem que a gente continue sonhando e mudando nosso pequeno mundo, na esperança que com a nova comunicação, como a Plurale, a transformação chegue mais longe. Parabéns a todos que estão na liderança e na rede Plurale!”

Logística Newton Medeiros

Nádia Rebouças, diretora e fundadora da Rebouças & Associados, Comunicação para Transformação, Rio de Janeiro

Colaboradores nacionais Ana Cecília Vidaurre, Geraldo Samor, Isabel Capaverde, Isabella Araripe (estagiária), Nícia Ribas, Paulo Lima e Sérgio Lutz

“Sônia e equipe, Parabéns pela bela revista.” Plurale é a uma publicação da SA Comunicação Ltda (CNPJ 04980792/0001-69) em parceria com a Editora Olympia (CNPJ 07.596.982/0001-75) Impressão: WalPrint

Revista impressa em papel reciclado Rio de Janeiro | Rua Etelvino dos Santos 216/202 CEP 21940-500 | Tel.: 0xx21-3904 0932

São Paulo | Alameda Barros, 122/152 CEP 01232-000 | Tel.: 0xx11-9231 0947 Os artigos só poderão ser reproduzidos com autorização dos editores © Copyright Plurale em Revista

Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro, Professor Emérito da Fundação Getulio Vargas, São Paulo (SP) “Plurale é sempre lida com admiração, pois é uma publicação on-line e impressa de primeira qualidade. Parabéns” Eli Rocha, jornalista, Rio de Janeiro “Importante ver o crescimento da responsabilidade ambiental expresso no conteúdo das publicações de Plurale. É sem dúvida uma enorme contribuição da revista à sensibilização da temática de sustentabilidade junto às diversas camadas sociais e junto ao segmento de executivos organizacionais, importante à mudança de interpretação de novos projetos, com vistas à construção de um Brasil me-

lhor. Meus parabéns à toda equipe” Alberto Borges Matias, Professor Titular em Finanças da Universidade de São Paulo, Campus Ribeirão Preto (SP) “Fiquei feliz da vida ao receber Plurale em revista, edição 19, Especial de três anos, onde foi publicada minha matéria sobre o projeto da garrafa Lifesaver, que salva vidas transformando água poluída em potável. Que edição linda, fiquei emocionada!” Elis Monteiro, jornalista, Rio de Janeiro (RJ) Plurale em site/ Colunistas Artigo sobre Resíduos Sólidos, pelo Engenheiro Cid do Nascimento Silva “Caro Engenheiro Cid Nascimento Silva, o meio ambiente ficou em festa ao ler esse seu artigo no site Plurale. Seu artigo, Cid, me remeteu ao belo documentário Estamira, no qual é relatada a vida de uma senhora, tida como louca e que ganhava a vida no lixão, se não me engano, de Caxias-RJ. Seu artigo indica quão louca está a nossa sociedade que não tem a lucidez de perceber as grandes verdades que você nos apresenta, de forma privilegiada, pela clareza e pela objetividade. Seu artigo é uma prova de que as pessoas têm a capacidade de pensar e agir de forma contrária à forma estabelecida. Esperemos que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) seja seguida e aprimorada continuamente. Parabéns pelo seu comprometimento com o tema de proteção ao nosso meio-ambiente. Os humanos te agradecem: afinal, lixo, não se amontoa... lixo se processa. Lixo não se transporta: lixo é processado próximo à sua origem. Antônio Carlos Corrêa de Mattos, engenheiro, Rio de Janeiro (RJ) “À Plurale, Bom artigo, esse de Engenheiro Cid do Nascimento Silva. Claro, conciso, objetivo, sobre importante decisão política na área ambiental, a fixação da PNRS, que já tarda bastante, aliás. “Lixo não se transporta; lixo é processado próximo à sua origem”, entre muitos outros aspectos relevantes da matéria, é muito boa abordagem, em resumo, como feita pelo articulista, Cid Nascimento Silva. Mais ainda em um país continental como o Brasil e com tanta necessidade de criação de milhões de novos empregos nos próximos anos, o que é propício para processamento de lixo. Penso que o tema é tão importante que mereceria sequência de artigos, acompanhando as medidas efetivas de implementação das metas dessa PNRS. Atenciosamente, Elio G. Fischberg, advogado, Rio de Janeiro (RJ) Artigo sobre Gestão do lixo, pelo Colunista Jetro Menezes “Muito bom o texto de Jetro Menezes no site Plurale. É bom encontrar fontes bem embasadas, que estão me ajudando no meu projeto de monografia sobre materiais reutilizáveis e artesanato.” Bruno Magalhães, Franco da Rocha (SP) “Jetro, parabéns pelo texto. Mandando bem como sempre. Acredito que você conseguirá fazer este planejamento em nossa cidade e a coleta seletiva será realidade. Botamos fé em você e seu trabalho.” Felipe Lima, Franco da Rocha (SP)


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Certificações

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Entrevista

Adalberto

Luís Val, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Faltam pesquisadores para estudar a Amazônia Texto: Fábio de Castro, da Agência FAPESP Fotos: Luciana Tancredo

A

Amazônia legal brasileira tem um território que corresponde ao de 32 países da Europa ocidental, mais de 20 milhões de habitantes e concentra a maior parte da biodiversidade do planeta. Mas a grandiosidade da região não corresponde, nem de longe, à estrutura de pesquisa científica e tecnológica ali existente. De acordo com Adalberto Luís Val, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), estima-se que apenas 4 mil doutores atuem em toda a Amazônia nas diversas áreas de pesquisa. Um efetivo menor do que o da Universidade de São Paulo (USP), que possui mais de 5 mil doutores em seus quadros. Em entrevista à Agência FAPESP, Val falou sobre a magnitude da carência de recursos humanos na área de ciência e tecnologia na Amazônia, que, segundo ele, é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da região. A solução para o problema, segundo ele, passa pelo incremento da estrutura científica na região e pelas políticas de atração e fixação de mão de obra científica, que, por sua vez, estabelecerá a base para a formação de novos quadros na própria

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PLURALE EM REVISTA | Novembro/Dezembro 2010

Foto: Tabajara Moreno/ Acervo Inpa Amazônia. Esse círculo virtuoso, no entanto, exigirá vontade política e uma articulação interministerial bem planejada. Biólogo, Val pesquisa no Inpa, desde 1981, a respiração e as adaptações dos peixes da Amazônia às modificações do meio ambiente, tanto aquelas de origem natural como as causadas pelo homem. Membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e do corpo editorial de várias revistas científicas, tem mais de 100 artigos publicados em periódicos do Brasil e exterior. Agência FAPESP – Qual a dimensão da carência de recursos humanos em ciência na Amazônia? Adalberto Luís Val – Em 2009, participei do grupo que montou o documento Amazônia: Desafio brasileiro do século 21, lançado pela Academia Brasileira de Ciências, que continha proposta para um novo modelo de desenvolvimento da região. Ali, foi feito um dimensionamento da carência de mão de obra científica na Amazônia, que foi considerado um dos entraves fundamentais para o desenvolvimento. Para se ter uma ideia, o Brasil está formando a cada ano cerca de 11 mil doutores, mas toda a região amazôni-


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Entrevista

ca tem atualmente apenas 4 mil doutores trabalhando em pesquisa. É muito pouco, infelizmente, considerando que os nove estados da Amazônia correspondem a 60% do território nacional e a 10% do PIB nacional. A USP, sozinha, tem mais de 5 mil doutores. A demanda na região amazônica é imensa e urgente. Qual seria a melhor alternativa para reverter esse quadro? Val – Temos convicção de que há várias alternativas para resolver essa questão. No entanto, nenhuma delas isoladamente pode dar conta do problema. O primeiro ponto em que temos que pensar é na montagem de uma estrutura de capacitação de mão de obra na própria Amazônia. É preciso capacitar e fixar pessoal na região. Não podemos, por outro lado, relegar a Amazônia à sua própria sorte. Temos que montar um sistema nacional capaz de atender a toda essa demanda. Uma campanha para inserir a Amazônia no Sistema de Ciência e Tecnologia do Brasil de forma efetiva. O ideal é trazer gente de outras regiões para a Amazônia, ou é preciso formar pessoal no próprio contexto regional? Val – Os dois pontos são importantes. Aumentar a quantidade de gente formada na Amazônia é essencial para facilitar a fixação de pessoal. Por outro lado, temos que trazer recursos humanos de fora para acelerar a formação dessa mão de obra local. É preciso levar mais recursos financeiros para a região também? Val – Sem dúvida é necessário investir, mas – isso é muito importante – não adianta despejar uma determinada quantidade de recursos na região e achar que o problema

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O primeiro ponto em que temos que pensar é na montagem de uma estrutura de capacitação de mão de obra na própria Amazônia. É preciso capacitar e fixar pessoal na região. Não podemos relegar a Amazônia à sua própria sorte. Temos que montar um sistema nacional capaz de atender a toda essa demanda.

vai se resolver só com isso. Porque falta gente. Sem gente qualificada, não conseguiremos dar conta da demanda por pesquisa na região, mesmo que tenhamos recursos financeiros. É preciso fazer as duas coisas. Como eu disse, não há nenhuma ação capaz de resolver o problema isoladamente. É possível fazer isso em pouco tempo? Val – Sim, contanto que exista um modelo de desenvolvimento bem planejado. Temos que fazer a coisa da forma correta. Por exemplo: é preciso evitar ações pontuais, que não se perenizam. Uma das nossas maiores necessidades é atrair e fixar recursos humanos na Amazônia. Mas, para fazer isso, esses recursos devem ser atraídos para uma estrutura organizada em grupos. Não temos nenhum programa de pós-graduação na Amazônia,


É necessário investir, mas – isso é muito importante – não adianta despejar uma determinada quantidade de recursos na região e achar que o problema vai se resolver só com isso. Porque falta gente. Sem gente qualificada, não conseguiremos dar conta da demanda por pesquisa na região, mesmo que tenhamos recursos financeiros.

por exemplo, na área de imunologia. Seria importante trazer, digamos, dez excelentes profissionais dessa área, que pudessem capacitar estudantes na região. Isso teria que ser feito dentro de um programa articulado. Existem políticas públicas sendo implementadas nesse sentido? Val – Na questão da formação, sim. As políticas estão sendo implantadas. A Capes e o CNPq têm programas para isso. Mas é necessário fixar os recursos humanos com estratégias mais amplas. Não adianta apenas distribuir bolsas, porque, quando a bolsa acaba, o pesquisador quase sempre vai embora. Para contornar essa situação, temos que abrir concursos públicos e contratar pessoal. Caso contrário, o pesquisador que completou o período da sua bolsa acaba passando em concursos em outros centros com mais oferta e vai embora. É em consequência dessa dinâmica que temos tão poucos doutores na Amazônia. Isso só vai mudar se houver vontade política. Que impactos a carência de recursos humanos tem nas atividades do Inpa, por exemplo? Val – No Inpa, temos desenvolvido vários projetos de pesquisa associados à inclusão social e geração de

renda com base em produtos da floresta. Com isso, conseguimos gerar renda para a população e, assim, manter a floresta em pé. Por exemplo, desenvolvemos piscicultura em canais de igarapé, novas tecnologias para diagnósticos de doenças tropicais – como a leishmaniose –, a produção de pigmentos para tingir couro de peixe que não agridem o meio ambiente e uma série de outras atividades. Desenvolvemos essas tecnologias para disponibilizar para o mercado. Você pode ver no site do Inpa que conseguimos muitas patentes e muitos produtos. Mas, para que essa experiência seja multiplicada, necessitamos de mais pesquisadores. De modo geral, a Amazônia tem uma grande carência de conhecimento. Precisamos, por exemplo, planejar alternativas para produção de energia elétrica com redução de danos ambientais. Os programas brasileiros para isso envolvem a construção de muitas hidrelétricas. Mas onde construí-las? Com mais pesquisa científica, poderíamos saber onde os impactos ambientais seriam menores. Há infinitos exemplos. De quem deveria partir a iniciativa para organizar essas políticas públicas que ainda fazem falta? Val – Na realidade, isso passa por vários ministérios. O mais importante é que precisa ser uma ação integradora, capaz de articular ações em vários ministérios: Ciência e Tecnologia, Educação, Meio Ambiente, Saúde, Exército, Minas e Energia... O que precisamos é ter um órgão que centralize as ações de todos esses ministérios para formular uma ação conjunta, única. Caso contrário, cada um dos ministérios vai puxar as iniciativas para um caminho diferente. Os interesses são bastante divergentes e é preciso ter um espaço definido para dialogar. A Reunião da SBPC de 2009, realizada em Manaus, concluiu que investir em ciência na Amazônia é uma prioridade e, para isso, seria preciso estabelecer parcerias entre comunidade científica, institutos de pesquisas, sociedade civil organizada, setor privado, governo e cidadãos. Desde então houve avanços nesse aspecto? Val – Desde a Reunião da SBPC tivemos algum progresso, mas um progresso ainda tímido, porque o tamanho da necessidade é descomunal, muito maior do que tudo o que fizemos. Tivemos um resultado prático, que foi a criação da Universidade Federal do Oeste do Pará, com a contratação de novos professores, com gente nova que veio de fora, seguindo a diretriz que estamos comentando. Acredito que a solução passa por aí, mas precisamos de várias dessas universidades e de uma grande quantidade de Institutos de Tecnologia na região – que teriam a função de transformar em novos produtos e processos a informação científica produzida na universidade. A evolução está ocorrendo, mas precisa ser acelerada.

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Novidades

A força das redes sociais

A

Carlos Franco, Editor de Plurale

“família” Plurale – que nasceu com revista e site – agora está completa. Conta também com a incrível agilidade e atualidade das redes sociais. Estamos também no Twitter, Facebook e nosso Blog foi um dos finalistas no concurso TopBlog na categoria Sustentabilidade. Temos percebido não só que nosso público tem atingido um leque amplo de diferentes classes e idades, mas também que Plurale tem conseguido atrair a atenção de consumidores diversos. As mensagens recebidas nas diferentes redes nos indicam que estamos no caminho certo ao longo de três anos de história. Ampliamos a interatividade com o canal “você é o repórter”. Se você tem alguma sugestão de pauta ou de artigo, envie através do site (www.plurale. com.br) que iremos avaliá-la, com a redação. Não é só. O twitter @pluraleemsite tem conquistado assíduos seguidores e eco na rede. Ao longo dos dias nos quais o Rio de Janeiro se viu refém de diversos boatos e notícias infundadas, o

A FORÇA DAS REDES SOCIAIS

twitter ajudou a entender esta crise social e também – através de sólida rede – repercutir o que era relevante neste diálogo. Também temos acompanhado seminários e eventos, twittando, online as principais novidades. Sempre diálogo, como os especialistas insistem em frisar. Temos ainda nova seção de fotografias e vídeos no site. No blog, além de notícias e dicas, é possível sintonizar boa música no “ipod verde”, uma seleção de sucessos atuais e dos bons tempos. Em 2011, serão outras novidades. Porque Plurale é assim: está sempre em movimento, sempre em busca de atender melhor o público.


Artigo

Israel Klabin

O que sustentará o nosso futuro?

O

Brasil tem por hábito se apropriar muito rapidamente das evoluções tecnológicas e conceituais que nascem e alimentam o desenvolvimento do mundo desenvolvido. Este também foi o caso da espoleta que a China utilizou para a rápida evolução e absorção da modernidade para o seu desenvolvimento. Há trinta anos, a China vem dando um great leap forward. “Sustentável” ainda é uma qualidade abstrata, que pode e deve ser atingida por meios diferentes, em cenários políticos e econômicos diversos. Em quase vinte anos de prática cotidiana na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sutentável (FBDS) vi empresas, indivíduos e governos fazerem esforços para compreender e assimilar ideias e práticas que se aproximem do ideal sustentável, mas certamente as ações são insuficientes. As empresas já foram superficialmente tocadas pelo conceito do triple bottom line, mas ainda não assumiram inteiramente as consequências oriundas do projeto de Sustentabilidade Corporativa. Portanto, a questão ambiental ainda é periférica dentro do contexto empresarial, ela não atingiu o coração das empresas. O que se convencionou chamar de sustentabilidade ainda permeia o departamento de marketing, mas não chegou ao centro das decisões empresariais.

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É urgente pensarmos no desenho de um novo modelo econômico que garanta a continuidade dos meios naturais que sustentam a vida humana. Enquanto não se entender que os recursos naturais são finitos , nada ou pouco efetivamente será feito para mudar o modelo econômico. Essa não é conversa de gabinete nem de verdes sonhadores. Venho repensando sobre a expressão “desenvolvimento sustentável”, tão exaustivamente usada e tão frequentemente mal usada. Ela contém uma contradição em termos, pois a noção de desenvolvimento envolve dinâmica e, portanto, movimento, enquanto a noção de sustentabilidade subentende uma situação estática, que pressupõe permanência. Como construir um modelo em nosso benefício, que integre crescimento econômico, inclusão social e consciência do limite do capital natural? Ainda não vimos na prática o tripé da sustentabilidade, o que chamamos de triple bottom line. No atual caminho, não sabemos exatamente para onde vamos. Duvide de quem afirma que sabe. Vivemos um turning point. Há um consenso cada vez mais crescente de que como está não pode ficar. As mudanças climáticas que sofremos atualmente não constituem a causa pela qual devemos modificar nossos padrões de produção e consumo elas são, na verdade, o efeito mais danoso do processo econômico baseado numa matriz energética perversa dos últimos dois séculos. O modelo econômico não funciona mais. É preciso mudar, apesar de toda a inércia e resistência que encontraremos no caminho. Bem sabemos que há gigantescas conveniências do business as usual e não há ingênuos nessa mesa de negociação. Enquanto demoramos a agir, a natureza não espera os acontecimentos e nos fornece todos os sinais das falhas do sistema baseado no uso intensivo de energia fóssil. Os países ricos estabeleceram seus altos padrões de conforto e bem-estar a partir de processos produtivos que estão pondo em risco


Ano (fonte: IEA)

Emissões (Giga toneladas CO2-eq)

Variação em relação a 1990 (%)

1990

35

-

1995

36

+ 2,8

2000

42

+ 20

2005

47

+ 34

2010

50

+ 43

os próprios mecanismos de adequação do planeta à vida humana. Os países em desenvolvimento avançam no mesmo caminho, estabelecendo seu direito moral à poluição, aumentando ainda mais a demanda energética global. O impasse político entre esses dois grupos de países vem desde as reuniões do Protocolo de Kyoto, quando se estabeleceram obrigações diferenciadas: os países mais ricos deveriam limitar suas emissões, mas as metas eram pouco ambiciosas, e praticamente não havia nenhum tipo de sanção ao descumprimento delas. Pior ainda: o acordo não previu nem a obrigatoriedade desses países de relatarem os números relativos às emissões de gases de efeito estufa. Já para os países em desenvolvimento as obrigações eram mais tênues ainda, pois o desejo de alcançarem um patamar econômico mais elevado foi mais importante do que a preocupação com a saúde de nossa atmosfera e com a estabilidade do clima. Resultado: apesar do estabelecimento de mercados de crédito de carbono (cap-and-trade) e do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), as emissões aumentaram continuamente nos últimos vinte anos. The proof is in the pudding. Na tabela abaixo percebemos um cadáver que ninguém quis ver: o sistema de Kyoto morreu. Além de toda a problemática ambiental, o modelo econômico não funciona mais por conta de sua própria arquitetura interna. Os mecanismos de trocas globais estão completamente fragilizados, as moedas, hoje, são totalmente artificiais. A moeda base do sistema, o dólar, monnaie du compte, perdeu boa parte da credibilidade que possuiu nos últimos 50 anos. O que vemos agora é esta crise cambial aguda no mundo todo, com a China mantendo artificialmente sua moeda desvalorizada. Com isso, os chineses exportam muito, importam pouco e acumulam enormes reservas em dólar, o que é um risco para todo o sistema de comércio global. O Brasil sente agora os efeitos da crise com o Real sobrevalorizado e uma inundação de dólares, o que obriga nosso Banco Central a contrair mais reservas e dificulta nossas exportações. Para nós o risco é enorme – quando o dólar desabar, o que

será de nossas reservas, de repente reduzidas a papéis sem valor? Até hoje, a comunidade científica não conseguiu precificar com precisão o valor dos recursos naturais que são nossas verdadeiras garantias para o futuro. Crise econômica e mudanças climáticas são duas faces da mesma questão. Não há solução possível num mundo de nações, que tomam decisões olhando de dentro de suas conveniências. Só há solução possível num mundo globalizado. Segundo um dos meus gurus, Isaiah Berlin, o nacionalismo é o crooked timber of humanity, a bengala torta da humanidade. Temos que ingressar num mundo pós-nacionalista. Na reunião de Copenhague, um ponto ficou muito claro: o consenso é impossível e a multilateralidade é inviável. Unir 192 países numa posição única sobre política climática mostrou-se definitivamente ilusório. É muito mais produtivo realizar acordos entre grupos de países, ou de país com país, ou pelo menos entre aqueles países que mais poluem, dentre desenvolvidos e em desenvolvimento.

“No atual caminho, não sabemos exatamente para onde vamos. Duvide de quem afirma que sabe. Vivemos um turning point.” É preciso ousadia para mudar conceitos e práticas. A mesma que Copérnico demonstrou quando ousou enfrentar os poderes estabelecidos em sua época, que impunham uma visão de mundo que ficara ultrapassada. O PIB, como termômetro da atividade econômica, também está ultrapassado. É preciso buscar alternativas. Orçamentos militares, filhos da paranóia nacionalista, incrementam a violência global e desviam recursos valiosos que poderiam irrigar outras áreas. Só os EUA gastam cerca de 1,5 trilhão de dólares em defesa. O carbono deve ser taxado e desestimulado, ao mesmo tempo em que financiamos o desenvolvimento de fontes de energias limpas. Vivemos e construímos o nosso mundo com a sensação de que os recursos naturais são infinitos, mas precisamos nos lembrar de que não é o planeta que está ameaçado e sim a vida humana em seu habitat. A mudança acontecerá. Resta saber se vamos comandar esse processo ou se seremos obrigados a agir ou perecer a partir da fúria da natureza. Israel Klabin é presidente da Fundação Brasileira para para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS)

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Colunistas

Tecnologia para baixo carbono: Uma nova abordagem para o futuro do planeta

E

nquanto as negociações sobre uma política internacional de redução de emissões caminham a passos lentos, as consequências do aquecimento global continuam a afetar diferentes regiões do globo, e, às vésperas de uma nova Conferência das Partes (COP 16), o mundo deve se atentar ao papel dos governos, indústrias e sociedade no combate às mudanças do clima.

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PLURALE EM REVISTA | Novembro/Dezembro 2010

Ernesto Cavasin Neto

Heloísa Garcia

É preciso um esforço em conjunto de todos stakeholders, e apenas políticas não serão suficientes para resolver este conflito em longo prazo; a constante busca pela inovação tecnológica pode ser a resposta que todos esperamos para garantir o futuro do planeta como o conhecemos. As discussões sobre mudanças climáticas vêm aumentando a temperatura nos últimos anos. As grandes expectativas criadas em torno da última Conferência das Partes (COP 15), que ocorreu em Copenhagen em 2009, resultou na intensa cobrança por políticas de redução de emissões concreta às nações com maior número de emissões de GEE, com destaque para os Estados Unidos e China. Outros importantes atores, como o Brasil, Austrália e Japão vêm trabalhando no estabelecimento de metas voluntárias, e buscam fortalecer e estabilizar o mercado de carbono em seus territórios. Embora se concorde sobre a importância das políticas internacionais na luta contra o efeito estufa, as polêmicas criadas em torno das metas propostas, e o receio dos setores industrial e energético ao embarcar numa economia de baixo carbono, ainda garantem resultados pouco expressivos em prol da manutenção do clima, mesmo para atingir a meta de reduzir 5% das emissões (com base em 1990) estabelecida pelo Protocolo de Quioto. Para resumir o cenário em que nos encontramos, vale a pena relembrar os dados do último relatório do Painel Internacional de Mudanças Globais do Clima (IPCC), que aponta um aumento de 70% nas emissões de CO2 entre o período de 1970 e 2004. Consequentemente ao aumento das emissões, há uma intensificação da temperatura da Terra, que já é 5% maior do que há cinquenta anos. O aquecimento global é responsável pelo aumento do gradiente de temperatura da Terra, ou seja, a variação brusca do clima, que tem como decorrências corroboradas a mudança no padrão de chuvas, causando enchentes e secas, alterações na temperatura da superfície marinha, trazendo prejuízos a ecossistemas aquáticos, derretimento das geleiras polares, entre outras sequelas. O estudo do IPCC relaciona a participação dos principais setores da economia nas emissões de gases do efeito estufa, atribuindo 26% das emissões ao setor energético, 20% ao setor industrial, 13% às atividades agropastoris, 18% ao desmatamento, e 8 % a prédios residenciais e comerciais. Todavia, ainda há chance de nos adaptarmos e mitigarmos as emissões de CO2 e manter um desenvolvimento sustentável. O IPCC menciona que é possível reduzirmos em torno de 6 GT de carbono até 2030, valor que estabilizaria as emissões mundiais. De acordo com os dados avaliados, 60% desta meta pode ser atingida pelos setores industrial e de energia. O relatório também ressalta que o


padrão de vida da sociedade atual é responsável por potencializar as emissões de gases de efeito estufa (GEE), e que a sua conscientização e a busca por diferentes produtos e serviços terão papel importante em uma economia de baixo carbono. Em 2009, a Agência Internacional de Energia (IEA) publicou um cenário com previsões de gases de efeito estufa estabilizados em 450 ppm; esta situação seria alcançada por meio da implementação das políticas de redução de emissões propostas até 2008. As previsões da IEA mostram nitidamente a diminuição do padrão de emissões dos setores energético, constatando o arrefecimento de cerca de 3 GT de CO2; e industrial, com abatimento de aproximadamente 0,8 GT de CO2. São informações positivas, contudo, ainda aquém ao potencial que ambos os setores podem representar na estabilização das emissões. O World Resource Institute afirma que os estudos concernentes à mitigação das mudanças climáticas em longo prazo ratificam que o desenvolvimento tecnológico será crucial para o fortalecimento da economia e conclusão das políticas do clima. Embora a combinação ideal destas duas importantes vertentes pareça uma meta distante, os riscos e barreiras aos quais está submetido o setor industrial e energético devem ser vistos como a principal oportunidade de crescimento e pioneirismo. Em 2008, economistas do Keyo Journals of Economy também avaliaram possíveis cenários de estabilização de emissões, com a finalidade de diminuir 6GT de CO2 na atmosfera até 2030. O artigo “Technology Innovation and Climate Change Policy: an overview of issues and options”, de Michael Grubb, focou os pontos fortes das políticas globais que balizam uma economia de baixo, bem como nas probabilidades de afirmação de novas tecnologias que garantem o desenvolvimento sustentável dos países. Os resultados são similares a um relatório de 2010 do Departamento de Energia dos EUA, que afirma que a inovação tecnológica terá grande repercussão através de Pesquisa e Desenvolvimento nas seguintes áreas: veículos elétricos, sequestro geológico de carbono, produção de hidrogênio, geração de energia eólica, solar geotérmica e nuclear. Trata-se de tecnologias viáveis atualmente e que têm o potencial de alterar drástica e positivamente o padrão de consumo de energia mundial. Além disso, cientistas apostam alto em protótipos que possam potencializar a redução e remoção de GEE na atmosfera, como é o caso do cultivo de microalgas para produção do biodiesel, ou da bactéria sintética e de capaz de absorver CO2, assim como um novo material cerâmico que poder ser utilizado em chaminés de aciarias e outras indústrias potencialmente poluidoras. As opções parecem infinitas quando usamos a criatividade humana. Existem custos, no entanto, para realizar estas importantes modificações. Para o Banco Mundial, a mitigação das emissões pode requerer de 75 a 100 bilhões de dólares por ano. Ainda assim, com o planejamento adequado,

“Devemos assumir uma posição estratégica e enérgica em tempo” a adoção de tecnologias de baixo carbono pode ter uma redução nos gastos à medida que vão amadurecendo. De acordo com Michael Grubb, as principais tecnologias têm um custo que varia entre 5-7 centavos de dólares por kW. Economistas prevêem que os custos mais baixos se dão em dois cenários; o primeiro considerando o Business as Usual, sem alteração das fontes de energia e dos padrões industriais; o segundo, com a adaptação total para tecnologias de baixo carbono. O cenário intermediário, onde há combinação entre tecnologias de alto e baixo carbono tem os maiores custos para a economia mundial. Mas todas estas respostas podem não ser o bastante. Cabe destacarmos um dos elos de fundamental importância na luta contra o aquecimento global, a sociedade. E eis então o principal desafio que vem pela frente: como o setor industrial e energético será capaz de inovar para que o indivíduo tenha a possibilidade de reduzir as emissões em suas residências? E mais importante ainda, como fazer com que os consumidores dêem preferência para os modelos que têm efetiva contribuição para a manutenção do meio ambiente? Garantir que a sociedade tome consciência das implicações de um padrão de consumo que demanda cada vez mais energia, e consequentemente, maior concentração de GEE na atmosfera é uma tarefa árdua. Não obstante, a indústria pode acelerar esta nova concepção ao desenvolver e priorizar produtos que diminuam a emissão de carbono na atmosfera. A harmonia entre as políticas internacionais de redução de emissão, a conscientização da sociedade, e a promoção de tecnologias que acompanhem os anseios das metas globais é o caminho para uma economia de baixo carbono, sem desprezar o almejado crescimento socioeconômico dos países. Seja a fim de nos adaptarmos, ou com o intuito mitigarmos os efeitos adversos das mudanças climáticas, não podemos medir esforços e criatividade. Devemos assumir uma posição estratégica e enérgica em tempo, enquanto ainda o temos. (*) Ernesto Cavasin Neto e Heloisa Garcia, especialistas em sustentabilidade empresarial e mudanças climáticas da PwC Brasil.

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Colunistas

Regina Migliori

Cérebro Ético, Ação Humana e Sustentabilidade

A

transformação dos impactos produzidos pelo ser humano no mundo, está vinculada a profundas alterações no entendimento do processo que produz a ação humana. Desde a ampliação da percepção e do processamento mental, passando pela reestruturação de modelos e valores, até uma atuação conscientemente co-criadora da realidade, em níveis de responsabilidade que atendam às demandas do cenário atual. Ou seja, não haverá um “fazer” diferente, enquanto não se transformar também o “sentir” e o “pensar”, enquanto não se ampliar o poder de percepção e processamento mental, funções cognitivas e processos decisórios mais abrangentes e sistêmicos. Esta visão corresponde à ampliação da nossa consciência, a partir de um modelo que integre a compreensão das características naturais, dos potenciais acionados, e da própria atuação. Um encontro entre o mundo interno e a realidade exterior. A ação humana se apresenta em três níveis de conexão sistêmica: indivíduo consigo mesmo; decisão sobre seu universo de ação; responsabilidade sobre impactos provocados. O primeiro destes níveis corresponde à identificação das próprias potencialidades, motivações, memórias, conhecimentos, e tudo o que estiver direcionando sua atuação. As pessoas se habituaram a colocar toda a atenção sobre o produto final da ação, como se fosse algo desligado de si mesmo. É recomendável adquirir o saudável hábito de identificar dentro de si, as origens do que se pretende colocar em ação. Ter clareza sobre o que se oferece ao mundo. Esta é uma busca interior. Uma fase fundamental para vincular a ação ao universo da consciência, e deixar de atuar no mundo de forma automática, orientado por metas

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e expectativas de resultados produzidos totalmente fora de si mesmo. Cada ser humano atua em inúmeros ambientes, munido de seus potenciais, características e comportamentos. Trata-se do segundo nível da estrutura de conexões: as realizações em um determinado universo de atuação. Consciente ou inconscientemente, as pessoas estão permanentemente em ação. Discutir a qualidade desta ação, é também discutir o nível de consciência e responsabilidade que temos sobre ela. Infelizmente, o nível de consciência das ações não altera o grau de interferência dos resultados da atuação no mundo. Querendo ou não, os atos de um ser humano impactam sobre ele mesmo e sobre a realidade externa. O fato de não ter consciência das ações, não significa que elas deixarão de determinar inúmeras consequências. Temos encarado a ação como um ato de produção e não de transformação. Esta falta de consciência sobre a real importância de nossos atos, faz com que a ação seja irresponsável, quando não catastrófica. É esta tomada de consciência que identifica uma rede de relações interdependentes, estabelecida em nosso universo de ação. Isso corresponde à capacidade de pensar, agir e ser responsável de forma sistêmica. A ação não é linear. O que se faz está conectado sistemicamente a tudo o que já se viveu anteriormente, ao que se está vivendo, e a tudo o que virá no futuro. Uma grande teia da vida onde tudo se conecta. Vida é o exercício do nosso ser. Quanto mais estivermos em contato com o que somos, mais rico será o nosso exercício, e mais plenamente estaremos vivendo. Nossa ação no mundo não se inicia com o que efetivamente fazemos. Ela é gerada dentro de nós, e produz impactos no mundo interno e na realidade exterior. Esta coerência interna é pacificadora, transmite seguran-


ça e auxilia na percepção da nossa evolução. Além disso, este é o eixo que pode proporcionar a velocidade exigida pelo atual contexto de realidade, onde nada é completamente controlado e previsto, com muitas variáveis, e altos níveis de complexidade em todas as situações. O potencial é individual, a ação é local e a repercussão é planetária. Esses 3 níveis estão constantemente integrados. Não há como separá-los. Um ponto de vista integrador aplicado à nossa atuação, nos permite compreende-la simultaneamente como criação, ação e repercussão. Estamos sendo forçados a compreender que não há ações isoladas e estáticas, e a estabelecer um novo modo de ser e agir mais sustentáveis. Não há como ignorar o vínculo entre sustentabilidade e valores. Neurocientistas vêm identificando no cérebro humano, uma região destinada ao processamento de valores, que vem sendo chamado de “cérebro ético”. Esta notícia revoluciona o entendimento sobre ética e moralidade. Esta pauta deixa de ser exclusivamente filosófica, política, pedagógica ou comportamental, e se amplia para incluir a dinâmica neurofisiológica. Estamos longe de solucionar os mistérios da relação cérebro/mente/consciência, mas saber um pouco mais pode auxiliar nos desafios da educação, da cultura de paz e da sustentabilidade. É uma revolução se iniciando. Na parte frontal do cérebro, dispomos de neurônios dedicados a realizar sinapses com foco em aspectos éticos e morais. Estas sinapses compõem redes neurais, uma espécie de “avenidas” por onde transitam nossos pensamentos: Demonstrações por neuroimagem têm fornecido evidências sobre a dinâmica destas redes. Estas evidências reabrem o debate sobre a natureza humana: ficou difícil sustentar a afirmação de que não há um potencial ético natural. Passa-se a considerar a hipótese de uma inteligência ética, que reconhecida como potencial humano, pode e deve ser desenvolvida. Esta região frontal do neo-córtex é também responsável pelas formas mais elaboradas de comportamento, resultantes de metas impostas pelo próprio indivíduo, que dependem de planos e estratégias, regulando idéias e ações por meio do diálogo interior. Mas é preciso saber realizar este diálogo interno e conectá-lo à ação no mundo. O potencial está aí, mas precisa ser desenvolvido. Descobriu-se que solicitações verbais externas são eficazes para dar início a alguns comportamentos, mas não têm a mesma eficácia para interrompê-los ou redirecioná-los. Neste processo decisório, o diálogo interior é mais relevante do que a recomendação externa. Isso nos obriga a reavaliar nossos discursos e práticas. Sabemos que a mídia, as empresas, escolas, e todas as demais instituições influenciam as pessoas. Mas até que ponto têm conseguido de fato provocar o que elas têm de melhor? Têm contribuído para um avanço da humanidade em termos de um futuro sustentável, ou fortalecem o aprisionamento a um modelo de vida que compromete a nossa própria sobrevivência? Trocando em miúdos, está na hora de avaliar com lucidez e honestidade, o quanto temos sido competentes em prati-

car nossas boas intenções expressadas em missões, visões, valores, crenças, essências de marca, etc. Estamos vivendo um momento de movimentos simultâneos e conflitantes: de globalização e de busca das nossas raízes particulares. Sabemos que nossa identidade se constrói na relação com o outro, mas talvez nunca tenhamos nos relacionado com tantos “outros”, tão diferentes de nós. Ressurge a ênfase sobre a necessidade de construir parâmetros éticos como uma contribuição efetiva, não só para maximizar resultados sustentáveis, mas também para construir uma cultura de paz, que garanta nossa sobrevivência como espécie. É bom se lembrar disso ao educar os filhos, avaliar equipes, adotar tecnologias, fortalecer negócios, ofertar e consumir produtos e serviços, interagir na teia de relacionamentos, entre tantos outros aspectos do cotidiano nosso de cada dia nas organizações. Mais do que tudo é preciso urgentemente resgatar a natureza benéfica das empresas e de seus negócios, alterar a rota das culturas organizacionais e das estratégias de desenvolvimento humano, ampliar as formas de gestão do compromisso e da qualidade das relações com stakeholders, transformar a ética do interesse próprio em foco no bem comum. Ninguém vai bem em um mundo que vai mal – todo mundo repete isso no cenário empresarial, mas talvez aquela parte do cérebro à qual nos referimos ainda não esteja sendo bem acionada – pois o nível de coerência ainda é baixo. Pequenas mudanças não surtirão efeito. A dimensão da transformação demandada já é conhecida. Mas ainda não sabemos o que fazer. Todavia, precisamos decidir. Talvez ainda estejamos aprisionadas aos condicionamentos que têm direcionado nosso comportamento em torno dos mesmos equívocos. A demanda é por novas formas de pensar e agir, que determinarão as condições de sobrevivência da humanidade. Este é o tamanho da nossa responsabilidade atual. Nessa hora, é bom saber que dispomos de uma inteligência ética, disponível para ser exercitada. A possibilidade existe, e a esperança se renova. Regina Migliori dedica-se a desenvolver o potencial ético e sustentável das pessoas, organizações e comunidades, integrando diferentes áreas de atuação; é consultora em Cultura de Paz da Unesco; coordena o Núcleo de Pesquisas do Cérebro e da Consciência e o Laboratório de Neuro-Desenvolvimento vinculados ao Instituto Migliori e Fundação Douglas Andriani; membro-fundador do Instituto de Estudos do Futuro e da Rede Paz; Conselheira do Portal Nós da Comunicação; coordenou o MBA em Ética, Valores e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas e em outras instituições; há mais de 20 anos vem aplicando sua metodologia para o desenvolvimento de modelos éticos e sustentáveis junto a empresas, governos e instituições do terceiro setor; é autora de livros, programas de e-learning, e articulista em diversos meios de comunicação. www.migliori.com.br

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Frases

“O que preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. MARTIN LUTHER KING

“O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.” ALBERT EINSTEIN 20

Homenageamos nesta edição lideranças que ajudaram a mudar o planeta nos últimos 100 anos

“Seja qual for o Deus, eu sou o mestre do meu destino e capital da minha alma.”

“A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração.”

NELSON MANDELA

MADRE TEREZA DE CALCUTÁ

“A arquitetura não muda nada. Está sempre do lado dos mais ricos. O importante é acreditar que a vida pode ser melhor.” OSCAR NIEMEYER

“O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte.” MAHATMA GANDHI

“Não arriscar nada é arriscar tudo.” AL GORE

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“Seja a mudança que você quer ver no mundo.” DALAI LAMA


Bazar ético Projeto Tamar 30 anos

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Este espaço é destinado à divulgação de produtos éticos e de comércio solidário de empresas, cooperativas, instituições e ONGs.

Agenda 2011

Testeira em crochê

Caneca Tulipa Copa

A

s tartarugas são o cartão-de-visitas do Projeto Tamar. Ao completar 30 anos, a iniciativa busca agora não só continuar no trabalho de pesquisa em suas bases no litoral brasileiro, mas também avançar em outras frentes. Assim, o projeto tem buscado alternativas de subsistência não predatórias para os pescadores e suas famílias. O presidente do Tamar, Guy Markwald explica que os pesquisadores compreenderam que é preciso cuidar primeiro das pessoas, para que elas tenham condições de proteger a natureza, o mar e as tartarugas marinhas. Além de atividades ligadas ao turismo, o Tamar também tem duas confecções próprias, onde mulheres e jovens estão produzindo artigos como os apresentados aqui. O Tamar oferece diretamente 1.300 oportunidades de trabalho. Cerca de 100 diferentes produtos são vendidos em 10 lojas espalhadas em aeroportos e outros pontos, assim como na loja virtual, do portal do projeto. Há de tudo um pouco: desde chaveiros e panos de prato com as mascotes do Tamar até colares de miçangas e as camisetas. Ao todo são 10 lojas em diferentes pontos do Brasil, várias em aeroportos, oferecendo cerca de 100 produtos, inclusive os artesanais, criados pelas comunidades.

O Tamar tem rede de 10 lojas espalhadas por diferentes estados do país e também conta com loja virtual onde estes itens podem ser encontrados. www.tamar.org.br • Telefone (27) 3323 2904 • e-mail: lojavirtual@tamar.org.br

Camiseta infantil

Chaveiro

Colar Miçangas

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Tecnologia

Mobilidade com responsabilidade Indústria automotiva acelera investimentos em tecnologia limpa Texto: Cláudio Accioli, Especial para Plurale em Revista do Rio de Janeiro e de São Paulo Fotos de Divulgação/ Montadoras, Anfavea, EBX

E

les existem há mais de cem anos, mas durante a maior parte desse tempo foram vistos com desconfiança e uma boa dose de ceticismo. Aos poucos, porém, os chamados carros “verdes” ou ecológicos, com baixa emissão de poluentes, ganharam terreno, credibilidade e defensores, passando a ser considerados alternativas reais de mobilidade em um planeta cada vez mais carente de saúde ambiental. Sejam híbridos ou elétricos, seu mercado avança na mesma velocidade da adesão de governos e consumidores aos conceitos de sustentabilidade, levando as principais montadoras do mundo a abrir-lhes espaço crescente em seus planos e pátios. Os recentes eventos do setor foram vitrines dessa tendência.

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Na França, o tradicional Salão de Paris, promovido em outubro, reuniu uma expressiva quantidade de lançamentos, em especial no segmento dos híbridos, que combinam motores a combustão e elétrico. No Brasil, o 26º Salão Internacional do Automóvel, realizado no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, entre os dias 27 de outubro e 7 de novembro, também se caracterizou por apresentar diversas novidades no setor. Foi uma edição histórica da feira bienal, que comemorou 50 anos e contou com a cobertura de Plurale em Revista. As primeiras versões de veículos elétricos datam do século XIX e faziam grande sucesso, dominando os estandes de venda. Para que se tenha uma ideia, por volta de 1890, esses modelos chegavam a vender até dez vezes mais do que os concorrentes


No mundo inteiro, a adoção de controles cada vez mais rigorosos neste sentido tem acelerado a busca por tecnologias limpas, em especial no setor de transportes, responsável pelo consumo estimado de cerca de 60% do petróleo produzido Fiat - A líder do mercado no Brasil atrai as atenções em seu estande com o simpático Mio(ou FCC - Fiat Concept no mundo e 14% das emissões Car III), veículo elétrico criado a partir de sugestões de de CO2. Cientes da resistência mais de dois milhões de internautas de 160 países. natural a novidades, e diante dos preços ainda elevados dos veículos ambientalmente amigáveis ante os tradicionais, pamovidos a gasolina. Grande parte dos fabricantes que mais íses como EUA, Japão, China e alguns membros da União tarde se destacaram na produção de carros com motor a exEuropeia vêm praticando políticas de incentivo que incluem plosão – incluindo a pioneira Ford - teve sua origem associanão apenas vantagens fiscais, mas também bônus diretos na da aos elétricos. aquisição desses modelos (que chegam a ultrapassar US$ 5 Mas por que essa tecnologia não prosperou? De forma gemil em alguns países). ral, pelas mesmas limitações que persistem ainda hoje: produ“No momento, independentemente da tecnologia, o que ção de custo elevado, dada a falta de escala; peso, tamanho e existe em escala global é uma busca de todas as montadoras baixa capacidade de armazenamento das baterias, o que implica autonomia reduzida; e ausência de infraestrutura para abastecimento. “Na época, o que se buscava era apenas percorrer o mesmo trajeto por um custo menor, sem levar em conta questões ambientais. Por isso, os veículos movidos a gasolina acabaram se mostrando uma opção economicamente mais viável, sobretudo após a introdução do conceito de linha de montagem, em 1910”, explica o supervisor de Engenharia e Planejamento da Mitsubishi Motors no Brasil, Fábio Maggion. A produção em série aniquilou os pequenos fabricantes de elétricos, com direito a uma ironia: foi a incorporação de um dispositivo elétrico para efetuar a ignição dos motores a explosão (o chamado arranque) que alavancou de vez as vendas dos carros movidos a gasolina, ao livrar os motoristas da folclórica e incômoda manivela. Ainda assim, alternando períodos de maior ou menor interesse, o fato é que os especialistas e fabricantes jamais abandonaram completamente as experiências com os veículos elétricos e híbridos. “A tecnologia de híbridos associando motores elétrico e a diesel teve grande impulso na Segunda Guerra Mundial, em especial para uso em caminhões de transporte de equipamento militar pesado. Depois, foi aplicada a locomotivas e até a navios”, diz o diretor-presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), Pietro Erber. Entre erros e acertos, as soluções foram avançando e se tornando mais viáveis, em particular no que diz respeito à evolução das baterias e de outros componentes estruturais desses veículos. Mas a maior e mais decisiva transformação ocorreu recentemente, sob a forma de uma importante mudança de paradigma: o conceito de eficiência energética, até então restrito à lógica puramente econômica, passou a abranger também aspectos ambientais, visando à redução dos níveis de emissão U3-X da Honda, uma proposta criativa para se locomode CO2 e outros gases de efeito estufa, que contribuem para o ver com agilidade por aí. aquecimento global.

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Tecnologia por motores menos poluentes e mais econômicos no uso de combustíveis líquidos, para atender aos programas de controle de emissões. Porém, como esses programas estão chegando ao limite de sua capacidade de produzir resultados, será preciso encontrar novas soluções. Daí o interesse despertado pelos veículos híbridos e elétricos”, afirma o diretor das Comissões Técnicas da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE Brasil), Luso Ventura. Por trás da questão ambiental, há a preocupação estratégica desses governos de assegurar que suas indústrias automobilísticas dominem as novas tecnologias e se tornem competitivas nesse mercado, que tende a crescer no futuro. Dados da consultoria PwC mostram que a participação de carros elétricos e híbridos nas vendas globais evoluiu de 0,8% do total em 2008 para cerca de 1,8% em 2010, devendo alcançar 4% em 2016. Há quem aposte em uma frota de 10% em 2020. Em números absolutos, as vendas desses modelos em 2010 já superam a barreira de um milhão de unidades, com grande predominância dos países asiáticos. Em outubro, a Toyota anunciou que o seu híbrido Prius, lançado em 1997, ultrapassou a marca dos dois milhões de carros comercializados. A Honda, com o híbrido Insight, e a Mitsubishi e a Nissan, com seus elétricos i-MiEV e Leaf, respectivamente, também vêm investindo forte em tecnologia limpa. No ano passado, veículos híbridos já foram os mais vendidos no Japão, dentre todos os segmentos. No Brasil, embora os programas de inspeção e controle de emissões veiculares tenham evoluído nos últimos anos, a presença de automóveis híbridos ou elétricos ainda é incipiente, limitando-se a experiências sem fins comerciais, visando apenas ao desenvolvimento da nova tecnologia. O quadro, porém, começou a se alterar recentemente, com o crescente interesse das principais montadoras em introduzir seus veículos ecológicos no país: “Essas ações, embora não representem o business das empresas, são uma espécie de bandeira tecnológica, uma demonstração de que nenhuma delas quer ficar fora desse novo mercado”, analisa Luso Ventura. No caso brasileiro, um mercado que deve fechar 2010 como o quarto do planeta, atrás apenas de Japão, EUA e China. Atento ao novo cenário, o governo brasileiro analisa a edição de um pacote de medidas para estimular o uso dos carros elétricos e híbridos no país, com base na concessão de incentivos fiscais tanto para a compra quanto para o desenvolvimento tecnológico. Atualmente, por não contar com uma

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classificação específica na tabela de incidência do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), os veículos elétricos são tributados à alíquota máxima para automóveis: 25% - cerca do dobro da vigente para os demais. O programa está sendo conduzido por um grupo de trabalho no âmbito da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, mas ainda não foi aprovado, por envolver uma questão delicada: o estímulo a esses veículos ameaçaria o desenvolvimento da tecnologia flexível em combustível (leiase etanol), na qual o Brasil foi pioneiro e que tem consumido grande parte dos investimentos das montadoras nacionais nos últimos anos. “O programa precisa refletir a realidade do país. Por isso, do ponto de vista do governo, esta ação de eletrificação veicular deverá estar casada com a atual política de combustíveis, que é de reforço ao uso do etanol. Trata-se de uma opção energética do Brasil muito elogiada internacionalmente e que vai ser mantida, pois nos confere autonomia”, afirma o secretário adjunto da SPE, Dyogo Oliveira, lembrando que os demais países, por não contarem com essa alternativa, tornam-se mais dependentes das novas tecnologias e, portanto, mais propensos a estimulá-las: “Na verdade, estamos falando de adaptar a tecnologia às condições de mercado de cada país”. Nesse contexto, Oliveira não hesita em apontar os veículos híbridos como soluções mais compatíveis com a atual realidade brasileira do que os elétricos puros: “Para nós, seriam a chamada solução ótima, pois abririam espaço para a utilização do etanol na parcela de sua força motriz proveniente do motor a combustão. E é visível que a indústria automotiva tem concentrado seus investimentos mais nesse segmento”, diz o secretário, que demonstra um interesse especial por automóveis e foi conferir pessoalmente as tendências no recente Salão de Paris: “É impressionante como todas as grandes montadoras do mundo apresentaram veículos híbridos e elétricos, não mais como meras curiosidades, mas como as principais estrelas de seus estandes”. Aos mais animados, porém, Oliveira lembra que, no caso do Brasil, o programa de incentivo a esses modelos visa principalmente a assegurar o domínio da nova tecnologia, sem fixar metas de curto prazo. E resume a proposta de forma bem objetiva: “O país tem que estar apto a desenvolver e produzir esses veículos, o que não necessariamente significa dizer que irá fazê-lo. Vivemos uma fase de transição tecnológica da indústria, que está começando agora e não sabemos quando se tornará relevante. A única certeza que temos é a de que o Brasil não pode ficar fora dela”.


Onda verde chega ao Brasil Grandes montadoras sondam mercado no país

Mercedes-Benz S-400

O

26º Salão do Automóvel mostrou uma grande quantidade de veículos híbridos e elétricos (muitos deles sob a forma do chamado “conceito” ou carro de imagem), mas a maioria não está disponível para o consumidor brasileiro. Embora tenham avançado nos últimos anos, as iniciativas mais concretas das grandes montadoras no país ainda estão restritas a testes, pesquisa e desenvolvimento. Quem desejar adquirir um moderno veículo híbrido, por exemplo, terá somente duas opções: o Mercedes-Benz S-400 e o Ford Fusion Hybrid, cuja venda em território nacional foi anunciada durante o evento pelo próprio pre-

sidente da empresa, Marcos de Oliveira. E deverá estar disposto a pagar caro pelo privilégio. Vendido sob encomenda, o sedã de luxo alemão custa US$ 253,5 mil (cerca de R$ 430 mil). Lançado em julho, alcança a marca de 12,66 km/l, com emissão de CO2 de 186 gramas por quilômetro, segundo dados da fábrica. Já o Fusion Hybrid tem preço de R$ 133.900,00 e promete consumo ainda menor, acima dos 17 km/l, também de acordo com a montadora: “Trata-se de um produto com a mais avançada tecnologia voltada à sustentabilidade, e que terá emissões 90% inferiores aos níveis exigidos para 2015. É parte fundamental da estratégia da Ford para o futuro, em especial quando o Brasil começa a discutir a eletrificação veicular”, disse o presidente da montadora no lançamento.

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Tecnologia Ford Fusion Hybrid

Com ambições ainda maiores quanto à meta de emissão zero, Mitsubishi e Nissan apostam suas fichas em modelos elétricos puros, eliminando a etapa de transição dos híbridos: o i-MiEV (compacto para quatro passageiros) e o Leaf (hatch com capacidade para cinco pessoas), respectivamente. Lançados no Japão, ambos têm autonomia de até 160 km - considerada boa para veículos de perfil urbano – e suas baterias, de íons de lítio, podem ser recarregadas em tomadas comuns, de 110 ou 220 volts – de preferência de madrugada, quando a tarifa é mais barata, ensinam seus idealizadores. “Para o Brasil, o i-MiEV seria perfeito, pois o país tem uma matriz energética muito limpa, gerada por usinas hidrelétricas, principalmente nos grandes centros urbanos, o que favoreceria uma emissão zero de CO2”, destaca Fábio Maggion, da Mitsubishi. A montadora planeja vender o carro no Brasil, mas antes fará um trabalho de ambientação, cedendo-o para uso de empresas de energia e órgãos governamentais. “Queremos mostrar que já se trata de uma realidade, não de um projeto. A ideia é vender

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ao público em 2015, o que pode ser considerado um ótimo prazo”. Planos muito parecidos com os da concorrente para o Leaf. No Salão do Automóvel, o chairman da Nissan para as Américas, Carlos Tavares, informou que a empresa assinou um protocolo de intenções com a Prefeitura de São Paulo para que o carro seja utilizado nas frotas da cidade. “É um compromisso que estamos assumindo com o meio ambiente. Mais adiante, os brasileiros terão à disposição um veículo de emissão zero e com baixo custo de manutenção, capaz de proporcionar uma economia de até R$ 14 mil em três anos de uso”. Outra grande montadora que está atenta à evolução das novas tecnologias voltadas para redução das emissões de CO2 é a Fiat. Líder do mercado no Brasil, a empresa


Mitsubishi I-Miev

Uno Ecology

foi a primeira a conceber a propulsão elétrica para um chamado carro de série – no caso, um Palio -, a partir de convênio firmado em 2006 com a Itaipu Hidrelétrica e a empresa KWO. Mas, segundo declarou à Plurale o presidente da empresa, Cledorvino Bellini, o projeto não tem objetivos comerciais: “No momento, o que buscamos é desenvolver tecnologia, visando expandir suas possibilidades de utilização. Mais especificamente, estamos trabalhando na melhoria da capacidade de armazenamento das baterias, visando à ampliação da

autonomia do veículo e redução de custos”. Ainda segundo Bellini, embora o carro elétrico tenha lugar assegurado na matriz futura da mobilidade o que explica a parceria com Itaipu -, a Fiat enxerga o segmento como um nicho de oportunidade comercial a médio prazo: “Por enquanto”, afirma, “ainda não há escala suficiente para produção em massa, nem rede de abastecimento estruturada para atender a um mercado com a amplitude do nosso”. A fabricação dos 50 veículos contratados no projeto está em fase de conclusão.

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Tecnologia

Gurgel,

um pioneiro plugado no futuro

O primeiro Salão do Automóvel foi realizado em 1960. Abaixo, o pioneiro João Conrado do Amaral Gurgel, à frente de seu tempo.

Carro não se fabrica, se compra”. A frase foi dita, nos idos de 1949, por um professor contrariado a um formando em Engenharia que acabara de apresentar como tese de conclusão de curso o projeto de um pequeno veículo de dois cilindros, batizado Tião, em vez de um guindaste, verdadeiro tema do trabalho. Só que o aluno, chamado João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, apesar de ameaçado de reprovação, não se intimidou com a observação do mestre. Formou-se na Escola Politécnica de São Paulo, pós-graduouse nos Estados Unidos e, de volta ao Brasil, tornou-se sinônimo de automóvel, ao fundar, em 1969, na cidade de Rio Claro, no interior paulista, a Gurgel Motores S/A. De sua linha de montagem, e da cabeça do visionário engenheiro, saíram os primeiros e únicos carros genuinamente brasileiros da indústria automobilística nacional. Alguns chegaram a fazer história, como o urbano BR-800 e os utilitários Xavante e Carajás, todos movidos a gasolina. Mas o mais revolucionário deles certamente foi o elétrico Itaipu, lançado, por coincidência, no Salão do Automóvel de 1974, há exatos 36 anos. Seu nome era uma homenagem à hidrelétrica binacional que aca-

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bava de ser inaugurada, marcando uma nova era na política energética brasileira, em meio ao primeiro choque internacional do petróleo. Pioneiro na América Latina, o carrinho de dimensões compactas (apenas 2,65m de comprimento por 1,40m de largura) e formato de trapézio transportava dois passageiros e era inteiramente feito de fibra de vidro, característica marcante de todos os veículos fabricados pela Gurgel. Alimentado por um conjunto de oito baterias de chumbo, o motor situado entre-eixos gerava potência de 4,2 HP, levando o Itaipu a atingir a velocidade de 50 km/h. A autonomia alcançava até 80 km e as baterias podiam ser recarregadas em tomadas comuns, a exemplo dos sofisticados elétricos e híbridos plug-in de hoje. Porém, apesar da novidade, e da economia proporcionada pelo veículo em uma época de escassez de combustíveis fósseis, o Itaipu acabou sucumbindo aos obstáculos que sempre frearam a trajetória dos elétricos: peso e capacidade limitada de armazenamento das baterias, o que implicava baixa autonomia; tempo elevado para recarga; e, sobretudo, preponderância da eficiência econômica sobre a ecológica, em um mundo ainda longe de se preocupar com a preservação do meio ambiente. Superada a fase aguda da crise do petróleo, a fábrica seguiu produzindo modelos a combustão ao longo da década de 1980, mas acabou fechando as portas em 1994, pressionada por dívidas e pela concorrência de um mercado já mais aberto, complexo e disputado. Falecido em janeiro de 2009 aos 83 anos, Gurgel deixou como principal legado a certeza de que carro se fabrica, sim – como atestam várias de suas “crias” ainda em circulação pelas ruas brasileiras, incluindo exemplares do Itaipu –, e que o Brasil, quarto maior mercado automobilístico do planeta, tem um papel a cumprir no desenvolvimento de tecnologias cada vez mais limpas para o setor. Colaborou o jornalista Lélis Caldeira, autor do livro “Gurgel, um brasileiro de fibra” (Editora Alaúde, 2008). Fotos cedidas pela editora.

Eike Batista de olho no mesmo circuito Quase quatro décadas depois, a mensagem de Gurgel parece ter sido captada por outro empresário brasileiro cujo perfil também é marcado por ousadia e pioneirismo: Eike Batista, presidente do Grupo EBX. Em setembro deste ano, ele anunciou o interesse em construir uma fábrica para a produção de carros elétricos ao lado do Superporto do Açu, maior investimento em infraestrutura portuária da América Latina, em implantação no município de São João da Barra, no norte fluminense. Em fase de concepção e desenvolvimento, o projeto será baseado na formação de parceria tecnológica com grupos europeus e asiáticos. A estimativa inicial é de que a fábrica demande investimentos da ordem de US$ 1 bilhão, com capacidade inicial de produção de até cem mil carros por ano.

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P e lo B rasi l

Voluntariado empresarial cresce Sônia Araripe, Editora de Plurale em site

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ão há dúvidas. E contra dados e fatos não há o que contestar. O voluntariado empresarial está crescendo sim. É o que aponta pesquisa encomendada pelo Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), que reúne algumas das principais instituições voltadas para esta ação. Os números apontam que há aumento no número de empresas praticando o voluntariado e também a maior institucionalização desta ideia. A pesquisa “Perfil do Voluntariado Empresarial no Brasil”, realizada com cerca de 100 empresas, mostra que 73% das empresas que investem em voluntariado são de grande porte. O percentual de empresas que aportavam mais de R$ 200 mil/ano em ações voluntárias, passou de 19%, em 2007, data do primeiro levantamento, para 36%. Outra boa notícia é que 22% das companhias estão dispostas a aumentar em 2011 entre 5% e 15% os gastos em incentivo ao voluntariado empresarial. Os dados foram apresentados no seminário “2001 – 2011 – A Década do Voluntariado”, que discutiu, no início de dezembro, na Associação Comercial do Rio, os avanços e desafios do voluntariado empresarial e apresentar a nova pesquisa sobre o setor no Brasil e as recomendações para a próxima década. “Não se trata mais do chefe pedir, de vir alguma ordem de cima para baixo. Ao contrário. O movimento do voluntariado empresarial tem vindo, muitas vezes, de baixo para cima”, explicou Wanda Engel (foto), superintendente do Instituto Unibanco e presidente do CBVE, em entrevista à Plurale. A especialista - que já foi Secretária de Assistência Social no Governo Fernando Henrique, cargo que corrrespondia ao de ministra, e é considerada uma das principais especialistas na área de Educação e Terceiro Setor - mostra como esta onda do bem, digamos assim, passou mesmo a fazer parte do mundo empresarial. Esta tem sido uma realidade no mundo todo. A prática do voluntariado individual é tão antiga quanto a História aponta. Há casos de reuniões de comunidades, de membros de igrejas e manifestações religiosas e também desde o nascimento do capitalismo. No Brasil, um exemplo muito antigo é o das Casas de Misericórdia, criadas logo após o descobrimento, mas há outros tantos, como lembrou Heloísa Coelho, diretora-executiva do Rio Voluntário. enquanto o voluntariado empresarial é um fenômeno mais forte na última década.

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De acordo com a pesquisa, 59,4% das empresas valorizam a experiência em trabalho voluntário na seleção de novos funcionários. Os dados revelam ainda que a participação dos diretores nas ações voluntárias é um dos principais estímulos para a adesão dos colaboradores nos programas de voluntariado. Seus dirigentes afirmam que as empresas também são beneficiadas por esse trabalho. Entre os resultados para as corporações, são destacados a consolidação de valores éticos, para 95,3%, seguida da melhoria da relação empresa/comunidade, para com 93,8%; e o fortalecimento do trabalho em equipe, para 92,2%. A presidente da Associação Brasileira de RH, Leyla Nascimento, reforçou que este profissional engajado no voluntariado é muito valorizado pelo mercado de trabalho. “É muito interessante notar que um voluntário está praticando, muitas vezes sem notar, várias ações valorizadas pelas corporações modernas. Como maximizar resultados com poucos recursos, de que forma lidar com crise, como disseminar ideias, etc.”, A dirigente da Rede Brasil Voluntário, Maria Elena Johannpeter, destacou a relevância de se pensar não só na Responsabilidade Social Empresarial mas também a dos indivíduos, a chamada RSI. “As empresas são formadas por pessoas”, frisou. Confirmou que o voluntariado também tem crescido no Rio Grande do Sul e emocionou o público ao apresentar um vídeo com exemplo da pequena Amanda, de 11 anos, voluntária num asilo em Porto Alegre. O encontro contou também com a presença de Syreeta N. Skelton, diretora da Points Of Light Institute, uma das maiores organizações de voluntariado do mundo, que conta com uma rede de mais de 10 milhões de voluntários. “As estatísticas e métricas são muito relevantes”, reforçou. Waldir Cimino (foto), presidente da Associação Viva e Deixe Viver, apresentou o belo trabalho de cerca de 1,3 mil voluntários contadores de histórias nos hospitais, destacando também a relevância da apresentação de resultados. “Antes eu falava do sorriso das crianças e isso já bastava para os patrocinadores. Hoje é preciso mostrar as horas voluntárias e a performance do projeto”, disse. E Vanise Martinez, coordenadora nacional do projeto Amigos da Escola, também mostrou os últimos resultados.


Foto: Agência Brasil

Complexo do Alemão tem alguns dos piores indicadores da cidade relacionados aos jovens Do Rio Como Vamos

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om população estimada em 65,3 mil habitantes, dos quais 24% (15,1 mil) têm entre 15 e 29 anos, o Complexo do Alemão – que recentemente foi ocupado por policiais e militares, na Zona Norte do Rio de Janeiro - terá como um dos principais desafios para sua pacificação definitiva a abertura de perspectivas para os jovens. O Sistema de Indicadores do Rio Como Vamos, cuja edição 2010 será lançada este mês com dados atualizados até 2009, mostra que 33,24% dos estudantes de ensino médio da Região Administrativa do Alemão abandonaram a escola naquele ano. O índice está bem acima da média da cidade, que registrou 18,09%. Dos que permanecem na escola, 86,93% estão em séries atrasadas para a idade.

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A defasagem idade-série (mais de dois anos de atraso) é apontada como um dos fatores que contribuem para a evasão escolar. E o abandono da sala de aula é especialmente preocupante quando comparado ao dado da pesquisa “Caminhada de crianças, adolescentes e jovens na rede do tráfico de drogas no varejo”, do Observatório de Favelas, de 2006. O estudo constatou que, dos 230 jovens envolvidos com o tráfico entrevistados, 93% haviam largado os estudos, o que “sugere uma associação entre ingresso na rede ilícita e o abandono escolar”. Outro dado na nova edição do Sistema de Indicadores do RCV que preocupa ao ser cruzado com os demais indicadores que abordam os jovens é o de homicídio juvenil masculino. O trabalho mostra que, em 2009, a taxa de jovens residentes no Complexo do Alemão assassinados foi de 84,89/100 mil. A média da cidade é de 65,77/100 mil. Este indicador considera apenas os rapazes que moram efetivamente no Alemão e que são mortos ou no próprio complexo de favelas, ou em outras regiões da cidade. Os indicadores do Alemão são preocupantes não só em relação aos rapazes, mas também às moças. De todas as gestantes da região que deram à luz em 2009, 22,72% tinham até 19 anos. A média da cidade foi de 16,7%. A gravidez na adolescência costuma ter impactos significativos em condições de vida, permanência na escola, ingresso no mercado de trabalho e desenvolvimento pessoal. – A população do Alemão já pagou um alto preço em privações e tensão. Agora, com a retomada do território pelas forças de segurança, a concentração de políticas públicas para a região terá que ser à altura do desafio que é o vazio governamental naquela área. Os jovens devem ser a prioridade, seja em escola, educação técnica, seja em lazer ou emprego – diz Rosiska Darcy de Oliveira, presidente executiva do Rio Como Vamos.

Batata-doce alaranjada é apresentada em Conferência de Biofortificação nos EUA

ransferência de tecnologia e avaliação de impactos na saúde pública devido à adoção de alimentos mais nutritivos são duas questões críticas e que serão priorizadas pelos projetos de biofortificação de alimentos. Estas foram duas das principais conclusões da I Conferência Global de Biofortificação que foi realizada em novembro em Washington, DC (EUA). Cerca de 300 pesquisadores e técnicos responsáveis por projetos na América Latina, África e Ásia estiveram presentes e a Embrapa enfatizou a necessidade de mobilizar competências e estreitar parcerias entre os países do Hemisfério Sul, como o Brasil tem feito com os países africanos, para implementar plataformas de desenvolvimento. De acordo com Howarth Bouis, diretor do HarvestPlus, ainda faltam estudos para melhor compreender como os alimentos impactam na nutrição humana. Por muito tempo, a questão nutrição esteve dissociada da agricultura, mas muitos trabalhos tem mostrado que a sinergia entre agricultura e nutrição pode ser uma das mais efi-

cientes estratégias para combater a má-nutrição ou fome oculta. Depois da Revolução Verde, que priorizou a produtividade, chegou a vez de olhar os alimentos sob a ótica da qualidade nutricional Batata-doce de polpa alaranjada, por exemplo, é uma fonte interessante de vitamina A. Sem ela, o organismo fica suscetível a doenças e ao comprometimento da visão. Pesquisas nesta linha tem sido desenvolvidas no Brasil pela Embrapa Hortaliças como parte do projeto BioFORT, liderado pela Embrapa Agroindústria de Alimentos. “Se alguém quiser saber o que é biofortificação precisa ver os trabalhos no Brasil”, frisou Bouis na abertura da Conferência. É que o Brasil é o único país que conduz trabalhos simultâneos de melhoramento com oito culturas básicas: arroz, feijão, feijão-caupi e trigo para maiores teores de ferro e zinco; mandioca, milho, abóbora e batata-doce para maiores teores de vitamina A.

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P e lo B rasi l Pesquisa sobre sustentabilidade

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maior parte da população julga que o meio ambiente deve ter prioridade sobre o crescimento econômico. Apesar desse entendimento, quando o tema é sustentabilidade, partir para a ação propriamente dita ainda não está no consciente das pessoas – principalmente se houver custos envolvidos. Essas são algumas das conclusões da pesquisa Sustentabilidade: Aqui e Agora, lançada em novembro pelo Walmart Brasil em parceria com o Ministério do Meio Ambiente. A pesquisa, executada pela Synovate e apoiada pela Envolverde, ouviu 1100 pessoas em 11 capitais: Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP). O estudo tinha como objetivo saber se as ações de sensibilização realmente chegam aos cidadãos comuns. Como conclusão geral, ele mostra que a população revela uma preocupação expressiva em relação a temas como meio ambiente, saúde e qualidade de vida. Contudo, ainda há uma razoável distância entre a intenção e o gesto. A boa notícia é que há um terreno fértil para programas de educação ambiental e campanhas que permitam que o meio ambiente vire um assunto do dia-a-dia. Alguns números da pesquisa: Para os entrevistados, “meio ambiente” é um conceito bastante amplo e relacionado a questões ligadas ao seu cotidiano, como coleta de lixo, reciclagem ou saneamento básico. • No quesito responsabilidade, 61% acha que os cuidados com o meio ambiente são atribuição dos órgãos públicos (prefeitura e governo) e 18% responderam que o meio ambiente é responsabilidade do indivíduo. • O estudo revelou que a maior parte das pessoas (60%) é simpática à ideia da proibição das sacolinhas, por exemplo, mas 21% não saberiam como descartar seu lixo doméstico num suposto mundo sem sacolas. •

A íntegra do estudo pode ser encontrada no link: http://www.grupocdn.com.br/clientes/walmart/pesquisa_sustentabilidade_aqui_e_agora.pdf PLURALE EM REVISTA | Novembro/Dezembro 2010 EM REVISTA | Julho/Agosto 2010 34 PLURALE


ISO 26000 é lançada na Fiesp

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oi lançada, em solenidade na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), a ISO 26000 – norma internacional da Responsabilidade Social. Na ocasião estiveram presentes, entre outros, Ana Paula Grether, coordenadora do Relatório de Sustentabilidade da Petrobras e representante da Indústria na delegação brasileira na ISO 26000, Jorge Cajazeira, Gerente corporativo de Competitividade da Suzano Papel e Celulose e presidente do Grupo de Trabalho Internacional da ISO 26000; Eduardo São Thiago, Gerente de Relações Internacionais da ABNT e co-secretário do Grupo de Trabalho Internacional da ISO 26000; Kevin McKinley, vice-secretário geral da ISO, além de representantes da FIESP, da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e demais participantes da delegação brasileira na ISO. A ISO 26000 foi discutida durante oito anos por 400 especialistas de mais de 90 países. O documento final apresenta a expectativa da sociedade quanto à atuação das empresas em relação a questões como direitos humanos, práticas tra-

balhistas, meio ambiente, governança, entre outros temas de responsabilidade social. “O Brasil desempenhou relevante papel nas negociações e pode continuar a ser protagonista na implantação da norma”, disse Kevin McKinley. O auditório lotado indica o interesse das empresas e especialistas no tema. Para Ana Paula Grether esta norma é muito importante porque orienta todas as organizações na atuação socialmente responsável. ”A ISO 26000 é um marco e, talvez no futuro, seja um pacto social entre a sociedade e as organizações. Além disso, por ter sido elaborada por diversas mãos representa o que a sociedade espera de nós na questão socialmente responsável”, destaca a coordenadora do Relatório de Sustentabilidade da Petrobras e representante da Indústria na delegação brasileira na ISO 26000. A norma é considerada inovadora, pois é a primeira norma ISO construída por um grupo de trabalho presidido conjuntamente por um país desenvolvido, a Suécia, e um país em desenvolvimento, o Brasil. Além disso, pela primeira vez a ISO utilizou um sistema participativo composto por seis partes interessadas (representantes da indústria, do governo, dos trabalhadores, dos consumidores, das ONGs, de instituições acadêmicas, de pesquisa e consultoria). Vale ressaltar que a norma tem caráter voluntário e orientador, não implica certificação nem verificação externa por terceiros. Os especialistas lembraram que a adoção das normas poderá auxiliar nas negociações internacionais, como na Organização Mundial do Comércio.

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Tecnologia

A melhor safra do vinho Técnica permite que produção fique livre de agrotóxicos, sem abrir mão de qualidade excelente Texto: Cristiane Rodrigues Especial para Plurale em Revista De Bento Gonçalves, Encruzilhada do Sul e Pinto Bandeira (RS) Fotos: Divulgação

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m um dia no inverno de 1999, para proteger a plantação de uva do frio, um produtor no Chile decidiu acoplar um vaporizador no trator. O jato de ar em alta temperatura mantinha o vinhedo quente, criando um efeito estufa natural. Mas não era só. Meses depois percebeu, por um acaso, em uma foto aérea, que as folhas próximas por onde passava a máquina apresentavam coloração mais forte em relação as que recebiam agrotóxicos. Nascia ali um novo capítulo que iria revolucionar a vitivinicultura da América Latina. O que era apenas um trator se transformou em uma tecnologia cha-

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mada Thermal Pest Control (TPC). Patenteada, a máquina permite o controle térmico de pragas, em um processo de imunização de culturas agrícolas à base do ar quente. E foi assim que a TPC chegou ao Brasil há dois anos pelas mãos da tradicional vinícola Cave Geisse, em Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha. Depois dos bons resultados, a técnica será utilizada na próxima safra, a de 2011, por 65 vinícolas da região, que abandonarão de vez o uso de agrotóxicos. - A tecnologia é fascinante. Prova de que uma grande ideia surge de algo bem simples. É sempre assim. Já no primeiro ano de uso, em 2008, obtivemos uma safra especialmente boa, com uvas Chardonnay e Pinot Noir sem qualquer resíduo de agrotóxico e, ainda, de qualidade superior - conta o precursor da tecnologia no Brasil, o diretor comercial da vinícola Cave Geisse, Daniel Geisse. Entretanto, segundo ele, o resultado da safra de 2009 foi mais surpreendente: - Além de eliminarmos o uso de pesticidas e agrotóxicos, a análise das uvas encontrou a presença do dobro de resveratrol, uma substância que combate


o envelhecimento das células, em comparação com as outras uvas tratadas somente com agrotóxicos - comenta Daniel. Foi a família Geisse quem descobriu a tecnologia no Chile, quando o agricultor chileno Florencio Lazo testava o equipamento apenas para inibir os efeitos maléficos das geadas. Com bom faro para os negócios, o enólogo Mario Geisse, diretor técnico da vinícola Casa Silva e proprietário da vinícola Cave Geisse, ao saber da descoberta, decidiu trazer a tecnologia para o Brasil, fundando a Lazo TPC Brasil. - O ar quente serve para eliminar fungos, bactérias e insetos. Uma máquina rebocada por um trator lança um ar quente a cerca de 150ºC e a 200Km/h nas plantas, utilizando um sistema de combustão de gás liquefeito de petróleo (GLP). A nova tecnologia não prejudica a saúde dos trabalhadores e traz outros benefícios, como a diminuição do uso de água, contribuindo para a preservação do lençol freático, e a queda nos custos de produção. Sem os agrotóxicos, há uma economia financeira e, também, ganha o consumidor que tem acesso a um produto mais saudável. Por isso, estamos trabalhando com outras vinícolas para fornecer a tecnologia – explica o gerente-executivo da Lazo TPC no Brasil, Diego Arpini Valério, à Plurale. Sabendo dos bons resultados, a Lidio CarraroVinícola Boutique, em Encruzilhada do Sul, na serra do sudeste do Rio Grande do Sul, decidiu apostar na tecnologia na safra deste ano. Inicialmente, aplicou nos 15 hectares da plantação das uvas Dádivas Chardonnay e Dádivas Pinot Noir. E o resultado já é comemorado. - Foi a nossa melhor safra, apesar das dificuldades do fim do ano passado, quando o período de chuvas acima da média afetou toda a região. Os vinhos sem agrotóxicos já estão no mercado desde novembro deste ano - destaca o enólogo Juliano Carraro, que, ao lado da família, comanda a vinícola, uma das que mais vende seus vinhos nacionais para o exterior. A máquina já virou alvo de estudo em faculdades mundo afora. Pesquisa feita recentemente pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, revelou que a

TPC reduz em 40% a emissão de dióxido de carbono em relação ao uso de defensivos. Para o gerente de Promoção e Marketing do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Diego Bertolini, foi feito todo um trabalho de apresentação da técnica para outras vinícolas, e que acabou sendo bem recebida: - Estamos diante de uma nova fase do setor, que pode se aproveitar dessa ferramenta revolucionária para estar na vanguarda da demanda mundial por produtos orgânicos - afirma Bertolini. Mas, mesmo com a redução dos gastos das empresas, a maioria familiar, o principal benefício é a redução do impacto ambiental, segundo Mônica Rossetti, enóloga que coordena a gestão técnica da Lidio Carraro. A engenhoca também está permitindo que o produtor altere o seu processo produtivo: - Isso nos permitiu uma maior flexibilidade em aguardar o momento ideal para a colheita em sua maturação plena. Certamente, no decorrer dos anos de aplicação deste novo sistema, estaremos apresentando ao mercado um novo conceito em vinhos, pois, pelas análises preliminares, já podemos adiantar que o efeito causado nas plantas influencia o seu metabolismo, induzindo a uma maior concentração de polifenóis, espécie de antioxidantes que favorecem o sistema cardiovascular. A fruta fica muito mais madura e saudável - finaliza

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Sociedade

Texto: Maria Serpa e Júlia Lacerda Especial para Plurale em revista Fotos: Divulgação

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Miniempresários fazem um bom negócio

m tempos de redes virtuais de comunicação, passear no shopping, ir ao cinema, à lanchonete, comprar roupas e coisinhas fofas de utilidade efêmera ainda são práticas essenciais do universo adolescente. Para Caroline Alves, 16 anos, essas ações têm um gostinho ainda mais especial, porque desde o ano passado ela não depende da mesada dos pais. A jovem tornou-se uma empreendedora e conseguiu independência financeira, ainda que só para satisfazer os prazeres comuns à faixa etária. Caroline fabrica sabonetes e vende uma média de 60 unidades por mês, no colégio, entre os vizinhos e no trabalho da mãe. No início do ano, um restaurante escolheu os produtos dela para presentear os clientes no Dia dos Namorados. Foi a primeira grande encomenda. A nova visão de Carolina para os negócios foi aprendida em sala de aula. A jovem foi uma das dezenas de alunos que a cada semestre participam do projeto Miniempresa, criado pela ONG Junior Achievement, no qual estudantes do 2º ano do Ensino Médio vivenciam na prática os principais passos da criação, organização e operação de uma empresa. Na pauta, conceitos como livre iniciativa, mercado e comercialização são ensinados por profissionais, todos voluntários, atuantes no mercado nas áreas de marketing, finanças, recursos humanos e produção. “Além de fazer e comercializar os sabonetes, eu aprendi a con-

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viver com pessoas que pensam de forma diferente, mas que têm um objetivo comum. Também passei a entender a importância da responsabilidade e do comprometimento para o sucesso de uma iniciativa. São lições que me servirão para o resto da vida, independente da profissão em que eu venha a atuar. Até com os erros eu aprendi muito”, comentou Carolina, lembrando que a miniemprensa criada com os colegas de turma quase faliu e foi na época uma das piores, na avaliação geral da ONG. A experiência vivida por Carolina em sala de aula não se esgotou com o fim do programa. A jovem continua participando das miniempresas, agora formadas por novas turmas, para as quais ela conta os segredos da jornada da empresa que montou com os colegas e dá dicas sobre preços, planejamento e venda de produtos. Não são raros os casos de ex-achievers (nome dado pela ONG a quem participa do programa) que se envolvem e continuam participando de diversas atividades. Existe até um núcleo, o NEXA (núcleo de ex-achievers), para os que desejam continuar integrados à Junior Achievement. Este grupo participa de visitas a empresas, de palestras com empresários e executivos, de cursos de aperfeiçoamento, de grupos de estudos e de integração com outros jovens, e até de congressos internacionais. Entre os tantos jovens que passam a se dedicar à causa, Adriano Ishibashi é um exemplo. Formado em administração de empresas, fotógrafo profissional, origamista autodidata, ele é declaradamente


como em qualquer empresa, as presenças são controladas e as faltas devem ser justificadas oficialmente. Em cada jornada é feita a contabilização do salário e caso haja necessidade de jornada extra, um salário extra é também contabilizado. Entre os objetivos de aprendizado do Miniempresa ficam evidentes não só a importância das etapas do dia a dia empresarial, tais quais fluxo de caixa, compra de matéria-prima, controle de estoque, vendas e produção, mas também os conceitos éticos que devem permear um negócio. Neste sentido, os alunos aprendem a fabricar um produto, conscientes das normas de segurança, fazem planejamento de riscos e conhecem de perto os compromissos legais da empresa, como encargos e impostos (no caso das miniempresas, o valor recolhido não é pago ao governo, mas doado a instituições beneficentes). apaixonado pelo projeto Miniempresa. Há 10 anos ele participou do piloto ministrado no colégio em que cursava o ensino médio e desde então não se afastou mais das atividades propostas pela ONG. Adriano fez parte do NEXA e trabalhou na Junior Achievement por seis anos, onde atuou na coordenação de programas e no setor de marketing. Em um determinado momento, precisou optar entre a fotografia e o trabalho na associação, e assim investiu em um estúdio próprio, pondo em prática os ensinamentos sobre empreendedorismo. Ainda hoje, o fotógrafo atua como voluntário, nas horas vagas. “Quando participei da miniempresa fui diretor de produção e eu não imaginava como seria. Levei muito a sério e pensei que ficaria louco com tanto trabalho. Trago esse aprendizado até hoje, tanto na vida pessoal, como na profissional”, orgulha-se Adriano. Quinze jornadas empresariais O projeto Miniempresa é desenvolvido em 15 semanas, em jornadas realizadas nas escolas, geralmente à noite. No início do programa, são feitas votações para definir as funções de cada participante (presidentes, diretores, produtores etc.) e também para que os alunos planejem a parte financeira. O ponto de partida econômico é a venda de ações, das qual é gerado o capital inicial para a primeira compra de matéria-prima. Conforme o produto é comercializado, é feita a captação de recursos para a receita. Cada aluno é sócio da própria empresa (onde é proibida a existência de um majoritário) e vende ações entre parentes e amigos. Ao final do programa, os lucros são devolvidos aos acionistas, que têm a expectativa de receber pelo menos o dobro do investimento. É a partir deste ponto que os alunos são conscientizados sobre riscos e responsabilidades quanto se trata do dinheiro alheio. Também fazem parte da vivência etapas como a pesquisa de mercado para verificar a viabilidade do produto, a identificação do público alvo e a determinação do material necessário para a fabricação. Assim

O papel do voluntário O sucesso do programa depende fundamentalmente do trabalho dos voluntários, não apenas para que os alunos entendam o funcionamento de cada área, mas também porque o vínculo entre os jovens e os profissionais atuantes no mercado de trabalho é estabelecido desde já. Alexandre Gonçalves trabalha no setor financeiro de uma grande empresa de informática. Pai da Amanda, uma adolescente que já participou do programa Miniempresa, ele ficou encantado com o envolvimento da filha e com todo o aprendizado sobre o mundo dos negócios que ela trouxe pra casa. Na época, Alexandre quis saber mais sobre a iniciativa e decidiu se envolver de forma mais efetiva. “Conheci o projeto através da minha filha e achei uma experiência nova e muito positiva pra ela, por isso resolvi ser voluntário”. Alexandre está no departamento financeiro de uma das da Miniempresa SA/E (Sociedade Anônima Estudantil), e é em sala de aula, como voluntário, que ele diz ter um dos maiores desafios.

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Sociedade “É preciso aprender a ouvir os jovens, a não atropelá-los na hora da execução de alguma tarefa, que pra mim, pode parecer fácil e corriqueira. Tenho que estar atento ao tempo deles e dá-los a chance de aprender fazendo. Meu papel é apenas o de orientar, mas eles são os verdadeiros realizadores”. Alexandre admite ter encontrado dificuldade no início do programa, pois os alunos queriam produzir objetos que fugiam a realidade de uma empresa estudantil. Diante deste desafio, os voluntários aconselharam os jovens a escolher um produto bacana, cuja produção não fosse tão difícil. “Deixamos que eles escolhessem os produtos, sem interferência, porém com a garantia de que seriam apoiados até o fim”. Também voluntária, mas da área de recursos humanos, Daisy Arruda acha interessante a determinação dos alunos e aposta na premiação, concedida ao final das jornadas, como um fator de grande motivação. “É um barato o interesse deles por cada área. Quando a gente explicou cada função, eles mesmos decidiram o que queriam ser. A troca de funções também é permitida, tem aluno que está no RH e quer saber como funciona o financeiro. Isso é ótimo, pois permite que o conhecimento seja ainda maior”. Produtos de gente grande Na Miniempresa Lumière SA/E, criada no Colégio Zacaria, no Rio de Janeiro, o produto escolhido pelos alunos para a fabricação foi uma luminária. Produzida a partir de canos PVC, coberta por tinta ou técnica de decupagem, a peça tem como base materiais reciclados. Bárbara Ramos, presidente do grupo, diz que a escolha por uma luminária foi feita a partir das ideias de cada aluno que faz parte da empresa. “Depois de definido o que iríamos produzir, a maior dificuldade foi a de chegar a um protótipo certo, porque sempre dava algum problema. Testamos muitas vezes, sem sucesso, até chegar a um modelo mais adequado”. A diretora de produção da Lumière SA/E, Natália Costa, não havia tido qualquer experiência sobre o mundo empresarial e hoje sabe quanto custa tirar uma ideia do papel. “Aprendi a planejar e até a pesquisar preços. Ainda não sei que profissão seguir, mas tenho certeza de que esse aprendizado será muito útil para minha carreira. No início do programa, a minha maior dificuldade foi pensar, ter criatividade, e colocar a ideia em prática”. No colégio Pedro II do Humaitá, no Rio de Janeiro, a opção foi unir moda e sustentabilidade. A Milk SA/E produz uma carteira feminina confeccionada a partir da reciclagem de embalagens cartonadas (caixas de leite). O material é coletado entre os comerciantes do entorno da escola, principalmente lanchonetes e padarias, que não hesitaram em aderir quando abordados pelos jovens-empresários. “O envolvimento dos comerciantes foi imediato. Hoje em dia, to-

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dos têm a consciência de que é preciso reciclar, mas nem sempre sabem como agir. Não tivemos a menor dificuldade em convencê-los em nos doar as caixas de leite vazias, muitos deles até nos agradeceram dizendo que tinham mesmo vontade de dar um fim melhor àquele lixo”, explica Júlia Salles, diretora de produção da Milk SA/E. Cada caixa é transformada em uma carteira que para ser fabricada passa por quatro etapas: na primeira, é feito o recorte das caixas, depois a colagem de uma camada fina de espuma para acolchoar o objeto. A terceira etapa consiste no recorte dos tecidos e colagem dos mesmos sobre a espuma. A etapa final é a do acabamento, colocação do botão e do elástico, que servirão como fecho da carteira. A produção da Milk SA/E não pára: são utilizadas, em média, 65 caixas por semana e, portanto, são produzidas 65 carteiras, o que já ultrapassa a meta inicial de produção: 40 carteiras por jornada. Cada peça é comercializada por R$ 15,00, com um custo entre R$ 2,00 e R$ 6,00, dependendo do tecido usado para forrar. Dezenas de produtos fabricados ao longo do segundo semestre de 2010 serão comercializados na Feira de Miniempresas, organizada especialmente para que os alunos possam fazer as vendas em um shopping de grande circulação. Na feira, cada miniempresa tem um estande de igual tamanho e a oportunidade de comercializar o produto para o público. Em tempos de crise financeira mundial e de necessária reavaliação dos parâmetros de produção e consumo, ver de perto o trabalho dos mini-empresários é interessante, uma vez que o projeto desperta o lado empreendedor dos jovens e aguça neles a vontade de produzir de forma consciente, de gerar renda e de alcançar o sucesso, compartilhado. Ainda que a estrutura não seja a de uma grande empresa, o esforço dedicado para que os resultados sejam os melhores é explícito. Em uníssono, os alunos que integram as miniempresas de 2010 garantem: não é só a premiação e um bom lugar no ranking que valem as horas a mais na escola, os finais de semana roubados pela produção, os desgastes com os colegas, mas é a certeza de que aprendemos a lição de que é possível se fazer, de forma justa e sustentável, um bom negócio.


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Uma semente de esperança no meio do Cerrado, a Reserva Natural Serra do Tombador

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Texto e fotos Sérgio Lutz

Da Serra do Tombador / Cavalcante (GO)

E n s a i o

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nquanto as nações brigam por quem deve pagar a conta da preservação da biodiversidade, a luta diária nos biomas ameaçados continua. O Cerrado, a savana brasileira, tão ameaçada por queimadas, gado, pasto, eucaliptos e soja, ainda respira e tenta sobreviver ao massacre. No lusco-fusco do entardecer, ao longe, um amedrontado lobo-guará se esconde em meio aos buracos e montes de extração de manganês. Do alto de uma extração abandonada de cristais, o Cerrado ainda respira; uma siriema pia, outra responde. Sinais de sobrevivência que alegram o coração da engenheira florestal Maisa Guapiassú que trabalha para a Fundação Boticário no Plano de Manejo da Reserva Particular do Patrimônio Natural Serra do Tombador, no município de Cavalcante em Goiás. Cercada de tantas ameaças, os 8900 hectares da Reserva são dedicados a preservação da biodiversidade. Por lá circulam 39 espécies de mamíferos, entre eles: a lontra, veados, antas e o tamanduá-bandeira. O Rio Conceição nasce na área de proteção e forma uma cachoeira de águas quentes conhecida por Cachoeira da Onça Braba. Em setembro de 2010, uma pegada de onça-pintada foi observada e fotografada na reserva. Raspados no chão da suçuarana também foram avistados por Gilson, morador e conhecedor da região, que junto com Lucio Gudinho e Anderson percorrem 12 rotas de monitoramento e ronda. A flora da savana brasileira está entre as mais ricas do mundo. Durante muito tempo o bioma foi considerado

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inútil para agricultura e a falta de perspectivas de grandes lucros preservavam o Cerrado. Hoje, pouco resta do bioma que não esteja afetado pela intervenção humana. A Reserva Serra do Tombador preserva diversas fisionomias vegetais típicas do Cerrado: campos limpos e sujos, cerrado rupestre, veredas, cerradão, cerrado denso, típico e ralo. Em algumas matas de galeria percebe-se até mesmo palmeiras jussaras que seriam mais típicas da Mata Atlântica, a natureza não é tão organizada quanto nossas cabeças gostariam que fossem. Com tanta variação de paisagens e flora (um reconhecimento preliminar verificou a existência de mais de 400 espécies vegetais), a reserva abriga também mais de 228 espécies de aves. Esta é a segunda reserva da Fundação Boticário que completa 20 anos. Em duas décadas a fundação apoiou 1245 projetos a um custo de U$ 10 milhões, e descobriu 37 novas espécies brasileiras, entre elas: a rã, Megaelosia boticariana; os peixes Listrura boticário, e Aphyolebias boticarioi. Ao percorrer a reserva e as áreas mais abertas de cerrado, onde as árvores são poucas, baixas e retorcidas, os campos são muitos e o horizonte é largo, onde ainda se caminha sem trilhas, pegadas ou cercas, tem-se a sensação da grandeza do Cerrado e também de sua fragilidade, como se aquele planalto fosse delicado e aberto a ameaças. Os 8900 hectares da reserva são poucos para garantir a variada fauna o espaço necessário para a preservação e reprodução saudável das espécies que por ali circulam. Por isso,


como bem sabe a engenheira florestal Maisa Guapiassú, será necessário trabalhar o entorno da reserva, construindo parcerias com os vizinhos, e aumentando a área de preservação. Como a reserva fica a aproximadamente 20 quilômetros do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV), e um pouco mais distante do Parque Estadual Terra Ronca, o ideal seria unir através de corredores ecológicos essas áreas de preservação. Neste ano mais de 60% do PNCV foi consumido pelo fogo, uma perda irreparável para a biodiversidade da região. O fogo faz parte da ecologia do Cerrado, mas o “fogo de corisco”, que acontece na época das chuvas e logo se apaga, este fogo pode até mesmo quebrar a dormência de algumas sementes e ser benéfico para o Bioma. Problema é o “fogo botado” de queimadas se espalhar na época seca, e aí as plantas não estão preparadas para tão altas temperaturas e intensidade calorífica. O fogo, é uma da ameaças mais visíveis da reserva, este ano os funcionários conseguiram controlar e apagar os focos de incêndio que invadiam a Serra do Tombador, no ano passado foram queimados 300 hectares. Muitas outras ameaças estão presentes, uma estrada de 11 quilômetros atravessa a reserva, ligando Minaçu a Cavalcante, e como todas as estradas, esta

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pode também trazer e facilitar a presença de caçadores e de lixo, e causar atropelamentos de fauna, por exemplo. Nada que desanime Maisa e a equipe da reserva, que estão mapeando as ameaças e começando a trabalhar para evitá-las. A Reserva Natural Serra do Tombador é a esperança para a sobrevivência de muitos animais, caminhando em uma das rotas com a equipe da Boticário, encontramos fezes de antas e de lobo-guará, além de um tatú (exitem muitas tocas de tatú na região) e um veado. Como esta fauna ainda consegue circular e sobreviver na reserva, existe grande esperança que eles possam encontrar tranquilidade e paz neste canto tão bonito e valioso. Estes bichos tornaram-se grandes mestres em se camuflar no vazio do Cerra-

do, assim como um grupo de 6 índios ainda não contactados conseguiram se esconder e circular pelo Cerrado durate anos até que entraram em contato com a população de São Domingos, uma vila bem próxima da reserva, em área quilombola Kalunga, em 2004. Também está nos planos da reserva a construção de um auditório, um laboratório e alojamentos para estudantes e pesquisadores. Entre os prováveis parceiros da reserva está a Universidade Nacional de Brasília e seus estudantes que poderão desenvolver pesquisas na reserva. A Fundação Boticário recebe doações de franqueados e de terceiros, além de 1% da renda líquida da Boticário. A reserva não tem outro objetivo além da preservação, e pesquisa da biodiversidade, a


Fundação Boticário não extrai de suas reservas plantas ou essências, como poderia imaginar algum olhar desconfiado. Há um ganho de “marketing”, mas quem ganha mesmo é a conservação da natureza. A desconfiança continua em Nagoia, e a conta a ser paga para a preservação da biodiversidade aumenta. Alguns ainda tentam dar soluções de mercado para algo tão raro e inestimável que a lógica mercadológica não pode dar conta. Algumas áreas do Globo não devem mesmo ser exploradas pelos homens, devem permanecer intocadas, e assim estarão prestando serviços inestimáveis para a humanidade. Quem sabe a Reserva Natural Serra do Tombador, que será manejada como área de proteção integral, não pode ajudar a mudar a história de devastação do Cerrado, desenvolvendo novos homens, tecnologias e sistemas que sejam capazes de conviver harmoniosamente com a natureza? Os primeiros passos estão sendo dados agora, a caminhada será longa e árdua, bela e cheia de idealismo.

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46> Pioneirismo na preservação da natureza

Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza completa 20 anos procurando manter áreas sem intervenção e ainda apoiar projetos

Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista

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ideia surgiu quase por acaso. O então fundador do que é hoje o Grupo Boticário, o empresário Miguel Krigsner, pensava em como trazer para o Brasil tecnologia visitada em Israel de reflorestamento de áreas praticamente desérticas. Queria plantar árvores, seguir este modelo bem sucedido. Começou a pesquisar, ouvir especialistas e descobriu que este não era, de forma alguma, o caminho mais eficiente e produtivo para trazer de volta a natureza e preservar o que ainda não tinha sido degradado. Foi assim, há exatos 20 anos, que Miguel (é assim que ele gosta de ser chamado) se aliou a um grupo de experts no tema e deu vida à Fundação Boticário de Proteção à Natureza. “Praticamente ninguém falava neste assunto naquela época”, lembra a engenheira florestal Maria de Lurdes Nunes, mais conhecida como Malu, mestre em Conservação da Natureza e diretora executiva da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza. Em entrevista à Plurale, o próprio Miguel contou que nunca foi uma ação de marketing e sim “um compromisso com o meio ambiente, como cidadãos e como empresários.” A primeira Reserva foi a de Salto Morato, de Mata Atlântica, localizada no Paraná, onde nasceu O Boticário. Depois, os braços foram crescendo e a Fundação passou a apoiar diferentes projetos espalhados pelo Brasil todo e também outras reservas de biomas diferentes, como esta tão bem apresentada por Sergio Lutz, no Cerrado. “Entramos onde há bons projetos”, lembra Malu. A Fundação apoia várias boas iniciativas em pontos espalhados por este país continental, como na Ilha de Trindade ou no Rio Solimões. E não pense que é só colocar dinheiro, na tentativa de proteger a imensidão de mata nativa. A engenheira florestal explica que é preciso entender a realidade local, trazer a sociedade para ser parceira, atuar junto à ONGs e especialistas capazes de fazer aquele trabalho se multiplicar. “Trabalhar em rede é o único caminho.”

O projeto de pagamento por serviços ecossistêmicos é um exemplo citado pela especialista que também exerce cargo de executiva no Grupo. Este ano, com a criação da Holding, a Fundação passou a se chamar Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. A maior parte da população de áreas a serem preservadas sabe a importância do valor de manter a floresta em pé. No entanto, sem muitas opções financeiras, acaba degradando e derrubando mata nativa como forma de sobrevivência. “A sustentabilidade está justamente em tentar trazer todos os envolvidos daquela região para o centro do problema”, explica Malu. E aí, o pagamento tem funcionado com uma espécie de recompensa, ou incentivo, para que o trabalho de gerações e gerações em prol da preservação seja mantido. Malu comemora que várias ações da Fundação estejam se irradiando para outros parceiros e também que outras corporações estejam trilhando caminhos diferentes, mas com o mesmo firme propósito de defender o planeta. “É possível sim replicar e transmitir para outros a relevância deste tipo de investimento.” Claro, muito ainda há por ser feito e ainda não está muito claro se o consumidor final entende mesmo este tipo de trabalho, tão forte em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos. Malu é cética quanto ao futuro de projetos em empresas locais apenas com olho no marketing, sem estarem realmente embasados na preocupação com a natureza. E critica a falta de sensibilidade de governantes e legisladores sobre a mudança do Código Florestal. “As mudanças atendem a interesses particulares. Os defensores dessas propostas de mudanças não medem as conseqüências delas para a manutenção dos ciclos ecológicos, que garantem não só a vida no planeta, mas também, a curto e médio prazos, as atividades econômicas que são as justificativas para essas mesmas alterações. A falta de cobertura vegetal natural diminui os nutrientes do solo e o deixa vulnerável a processos erosivos, o que o empobrece e inviabiliza a atividade agrícola em pouco tempo”, alerta. Alguém ainda duvida da disposição da engenheira para entrar nesta briga pela Mãe Natureza?


VIDA Saud á v e l Cártamo, o hit da vez

Não tem jeito. A cada estação, um produto é eleito o novo “hit” do momento. Depois da linhaça, da ração humana, da farinha de banana verde e da soja preta, agora, muitos consumidores estão de olho no óleo de cártamo. O produto também é conhecido como açafroa ou safflor e, dizem os rótulos, pode ajudar a emagrecer. Pode também ajudar no tratamento dos cabelos secos. Especialistas advertem, no entanto, que nunca há receita milagrosa para perder peso. É sempre preciso dosar uma alimentação correta com hábitos saudáveis para garantir um emagrecimento saudável. O óleo de cártamo é extraído das sementes da planta Carthamus tinctorius L., pertencente a família Asteraceae. As sementes desta planta são ricas em polifenóis e ácidos graxos essenciais – aqueles que temos que obter através da alimentação, pois o nosso organismo não produz. O óleo de cártamo é composto por ácido oléico (ômega 9) e, principalmente por ácido linoléico (ômega – 6).

Achocolatados Nutritivos Esta é boa para quem não resiste à tentação dos achocolatados. Acabam de chegar às prateleiras das lojas de produtos naturais e saudáveis novo achocolatado orgânico com açúcar mascavo. A Vitalin lançou fórmula sem glúten e sem lactose (foto). E a ViaPaxBio também aprimorou a fórmula de seu achocolatado (com açúcar mascavo e 15% de teor de cacau), fazendo com que o produto fique mais solto e com forte aroma de chocolate.

SÔNIA ARARIPE - PLURALE EM REVISTA

Mais novidades

A Cultivar Brazil lançou na recente feira Biofach, em novembro, seus biscoitos de arroz com algas e arroz com cúrcuma (um tipo de raiz), e bolos de cacau e laranja, sem glúten. Além disso, está apostando no sucesso da paçoca de castanha de caju.

Nova plataforma Na feira, além do lançamento de produtos inovadores e diferenciados, o projeto OrganicsNet – rede criada pela Sociedade Nacional da Agricultura - apresentou nova plataforma virtual. O portal interativo orienta os produtores sobre as técnicas e estratégias mais adequadas para o setor orgânico; garantir suporte para a divulgação dos produtos de empresas e marcas participantes do OrganicsNet, e informar os consumidores sobre o conceito de orgânico, abordando seus benefícios e vantagens. Quem quiser conhecer basta acessar www.organicsnet.com.br

Slow food cresce Você certamente já ouviu falar do movimento “slow food”. Nada mais é do que tentar se alimentar de forma mais saudável, longe da tentação e aparente “praticidade” dos congelados e produtos industrializados. O Slow Food foi fundado em 1989 para promover o prazer da alimentação e as culturas gastronômicas regionais e para protegê-las da homologação causada pela produção alimentar industrial. O movimento nasceu nos EUA, mas tem avançado em todos os países, inclusive no Brasil. Confira o site: http://www.slowfoodbrasil.com/ Em 10 de dezembro de 2010 foi celebrado, pela segunda vez, o Terra Madre Day: mais de 150 mil pessoas ao redor do mundo festejaram a comida local, em mais de 1000 eventos nos mais diversos países.

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Inclusão

O som que vem da alma Jovens apoiados por programa da TIM se encontram na música e sonham em seguir carreira

Phelipe

Arthur

Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista Fotos: Murilo Tinoco/Divulgação TIM

O

jovem Phelipe Domingues deixa de lado a timidez para apresentar, cheio de orgulho, a carteira de identidade que acabara de receber. “Sou músico”, mostrou. Ao completar 18 anos, Phelipe, morador do Centro do Rio, onde o pai é porteiro e a mãe também trabalha, conseguiu realizar seu sonho bem perto de casa: tocar, pela primeira vez, como profissional. “Estou um pouco nervoso sim”, confessava. No palco do lendário Circo Voador - que foi coberto de glórias por roqueiros famosos, como Cazuza, Barão Vermelho, Renato Russo e a banda Legião Urbana - desta vez o ritmo era outro. Como parte do processo de encerramento de sete anos do projeto TIM Música nas Escolas, Phelipe e seus companheiros de anos do projeto tocaram para a família

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e um público atento. No repertório, música popular brasileira. Era a festa de lançamento do CD do grupo, formado por 62 jovens, estudantes de escolas públicas da cidade. E eles já começaram com “padrinhos” de renome. O álbum tem diferentes ritmos brasileiros: o repertório do CD inclui canções instrumentais inéditas, compostas especialmente para o grupo por músicos reconhecidos e premiados como Dona Ivone Lara, João Lyra, Gilson Peranzzetta, Maurício Carrilho, dentre outros. Phelipe está no projeto praticamente desde o início, tendo começado por instrumentos mais fáceis até se encontrar no trombone e piano. Que gênero musical ele gosta mais? “Um pouco de tudo, da bossa nova até os clássicos”, responde. Ao seu lado, bem extrovertido, o amigo Arthur Moreno, também de 18 anos,


é outro que está programa desde o início. Confessa que tem dificuldade com os estudos na escola, mas conta como as aulas de música e o apoio dos professores do curso lhe fizeram ter mais atenção e tomar gosto também pelo ensino tradicional. “Acho que estou ficando mais atento e sei que preciso completar meus estudos. Prá seguir a carreira de músico profissional”, sonha. Brinco em uma orelha, cabelo mais comprido, morador de comu-

tegração e exercícios de disciplina. A trajetória como futuros profissionais é um pouco decorrência, mas não a meta do projeto, como explica Glória Rubião, gerente de sustentabilidade da TIM Brasil. O projeto é bem amplo, tem alcance nacional da empresa e está presente não só no Rio, mas em outras 12 capitais brasileiras, beneficiando mais de 20 mil crianças e adolescentes da rede pública de ensino. Tem como objetivo possibilitar a crianças e adolescentes o acesso a diferentes modos de aprendizagem e a atuação na sociedade, utilizando-se, para isso, da linguagem universal da música. Os resultados são visíveis e foram aferidos por pesquisas em campo por especialistas. “A taxa de retorno social mais do que compensou. Foi um projeto que foi até

Luana

nidade da Tijuca, comunicativo que só, faz tipo mesmo de artista. Toca contrabaixo acústico no grupo e lembra que já arrumou trabalho com músicos tarimbados que tocam em casamentos e também na Orquestra de Campos (Norte Fluminense). Nem precisa perguntar que profissão pretende seguir. “Já sou músico. Preciso só estudar muito mais e continuar sempre melhorando”, resume. Outro orgulho do projeto TIM nas Escolas é a loirinha Luana Abreu, 19 anos. Moradora de São Cristóvão, também está há anos estudando música. Toca flauta transversa e já conseguiu dois empregos para lecionar em escolas. Dando aulas de quê mesmo? “Música, claro! Esta é a minha vida”, responde, com voz meiga e olhos brilhando. Gosta de samba de raiz e rock, mas, como os amigos, também tem gosto eclético. “Ouço e procuro tocar um pouco de cada ritmo.” Nacional - É este apreço pela música que o projeto busca despertar nos jovens. Não é só: o projeto tem servido também para inclusão, in-

além de nossas expectativas. Teve início, meio e agora o fim”, conta. Pois é. A festa também tem um pouco de tristeza. Como todo projeto, também este tem data para ser encerrado, em 2011. Mas também de realização: como se os “filhos” estivessem maduros para seguir sozinhos seus sonhos. “Estamos acabando de planejar em que área vamos desenvolver novo programa, mas não deverá ser música”, antecipa Glória. Um dos professores dos jovens, Rubens Kurin, explica que houve amadurecimento musical do grupo, com alguns destaques individuais. “Musicalmente eles se descobriram”, resume. O som que os meninos e meninas tocam, parece vir da alma. Tem gosto e cheiro de vontade de vencer. O CD será distribuído e não terá oferta comercial. Mas Plurale em site (www.plurale.com.br) tem um vídeo com uma palinha do grupo.

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Educação

Professor primário, foco da Ação para o Letramento Texto e Fotos: Nícia Ribas De Plurale em Revista De Curitiba (PR)

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urante o encontro III Ação Integrada para o Letramento, em Curitiba, foi lançado o livro A Escola de Jules Ferry – Um mito que perdura, de Jean Foucambert, com tradução das professoras da Universidade Federal do Paraná, Lúcia Cherem e Nathalie Dessartre. Segundo o autor, na França, a escola gratuita foi implantada pela burguesia, num momento de reconstituição do movimento operário, depois do massacre sangrento (1871) da comuna de Paris. “A burguesia tem ainda o coração suspenso de medo por ter visto o povo insubmisso auto-organizar as engrenagens sociais, econômicas e simbólicas”, diz ele. Jules Ferry é um burguês de ideias claras, ferrenho defensor do Capital. O projeto de escola primária idealizado por Jules Ferry visa eliminar os espaços de autonomia para levar melhor o povo à reprodução da ordem burguesa. Por isso não se trata de uma escola dos saberes, mesmo elementares, mas uma escola dos valores burgueses. “Essa educação não tem como objetivo levar ao saber, mas levar ao querer; e o professor primário é um instrumento da educação, e, até mesmo, se pensarmos bem, da educação política”, diz o dicionário de pedagogia atribuído a Ferdinand Buisson, colaborador de Jules Ferry.

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Professor Jean-Pierre Chavagne, da Universidade de Lyon aprender a reFletir Ferramentas modernas que utilizam a Internet, como o lingalog e o Idéographix foram apresentadas aos professores da escola fundamental do Paraná, que participaram da III Ação Integrada para o letramento, na UFPR. Estavam lá Jean-Pierre Chavagne, da Universidade de Lyon, França; Christine Razet, da Associação Francesa pela Leitura - AFL; Mauro Ceraolo, da Universidade do Trabalho, do Uruguai;


Os professores Mauro Ceraolo, Universidade do Uruguai; Sérgio Cunha, da Fatec (SP); e Jean-Pierre Chavagne, da Universidade de Lyon, discutiram questões sobre leitura com os professores da escola básica do Paraná

Professor deve ser estimulado para melhorar ensino, defende Movimento Todos Pela Educação Marli Alves Moreira, Repórter da Agência Brasil De São Paulo

Sérgio Cunha, da Fatec (SP); Eliana Yunes, da Cátedra da Unesco, da Puc-Rio; e Rosa Maria Nery, da Unicamp, entre outros. Ao apresentar o trabalho que desenvolve com seus alunos em Montevideu, Mauro Ceraolo frisou: “Quanto menos acesso temos à palavra, menor nossa capacidade de expressão. A narrativa é a matéria prima da literatura. Contar histórias para crianças permite que elas ordenem o mundo para poder controlar o que está à sua volta. Falando, jogamos para fora nossa carga de angústia, reordenamos conceitos e criamos conceitos”. Para as professoras do ensino fundamental de escolas públicas paranaenses, Tânia Alves Damaso e Márcia Juraci Ferreira, que participaram das oficinas de trabalho com grande interesse, a maioria dos professores ainda confunde letramento com alfabetização: “Nossos alunos precisam muito trabalhar com textos ao invés da palavra solta, pois só assim aprenderão a refletir e a ter suas próprias opiniões”.

As professoras da escola fundamental, Tânia Alves Damaso e Márcia Juraci Ferreira já trabalham com seus alunos,utilizando textos ao invés de palavras soltas.

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m conjunto de cinco propostas de atuação na área educacional foi apresentado no início de dezembro pela diretora executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, como essenciais para que o Brasil atinja um grau de excelência no setor, em 2022. São elas: currículo nacional; valorização dos professores por meio de formação adequada voltada tanto para atrair mais os jovens no aprendizado quanto para oferecer ascensão profissional aos educadores; fortalecimento do papel das avaliações com o uso das informações detectadas nos testes de avaliação para nortear as políticas públicas; responsabilização dos gestores em situação de baixo desempenho dos alunos; e melhora das condições para a aprendizagem, que prevê o reforço de aulas. Para Priscila Cruz, essas medidas deveriam ser adotadas, paralelamente, às cinco metas defendidas pelo movimento: toda criança e adolescente de 4 a 17 anos na escola; toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; todo aluno com aprendizado adequado à sua série; todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos; e investimento em educação ampliado e bem gerido. “Se a gente quiser mudar o país tem de fechar a torneira do analfabetismo, tem, de alguma maneira, buscar fazer com que os indicadores sejam aplicados, disse Mozart Neves Ramos, membro do Conselho de Governança do Movimento Todos Pela Educação, ao informar que a entidade tem procurado sensibilizar o Ministério da Educação (MEC) para se atingir esses objetivos. Ele também defendeu que o ensino de ciências, por exemplo, deveria vir acompanhado de uma metodologia capaz de despertar no aluno a importância do aprendizado para a sua vida prática. Na avaliação Mozart, faltam professores com formação adequada porque há desinteresse pelas licenciaturas.”Muitos ingressam [em cursos superiores] com muitas deficiências do ensino médio”, disse, complementando que os que conseguem a habilitação optam por caminhos mais vantajosos economicamente.

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P e lo Mundo COP16 não ratifica acordo global, mas aprova fundo verde De Cancun, México (com agências e ONGs)

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vista paradisíaca das praias do balneário Mexicano de Cancun não foi suficiente para amenizar o clima de falta de consenso na 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas para Mudança Climática (COP-16), encerrada em meados de dezembro. Houve resistências de alguns países desenvolvidos, como o Japão, Rússia e os Estados Unidos, de procurar conter as emissões de gases de efeito estufa e combater os efeitos das mudanças climáticas. O que se conseguiu foi continuar as tentativas de avanços nas discussões até o próximo encontro deste tipo, que será realizado em 2011, em Durban, na África do Sul. Talvez lá seja possível produzir um tratado legalmente vinculante, capaz de obrigar a comunidade internacional a fazer sua parte em prol do planeta. Se não houve comemoração, ao menos, alguns avanços importantes foram registrados. Pela primeira vez, a manutenção da elevação da temperatura global

em 2 graus Celsius (ºC), com previsões de revisão desse objetivo entre 2013 e 2015 para 1,5ºC – como recomendam cientistas – entrou em um documento internacional. O texto também estabelece a operação de um Fundo Verde, que até 2020 deverá liberar US$ 100 bilhões por ano, administrado pelas Organização das Nações Unidas (ONU), com a participação do Banco Mundial como tesoureiro. O conselho administrativo deverá ser composto por 40 representantes: 25 de países em desenvolvimento e apenas 15 dos países ricos. Os acordos não especificam, entretanto, a origem das verbas que deverão formar o fundo. Representantes de 194 países aprovaram - apesar da oposição isolada da Bolívia - acordos que incluem os pontos mais importantes do Acordo de Copenhague, a carta de intenções que foi produzida na reunião de 2009, e introduzem avanços importantes. Foi aprovado também, embora ainda sejam necessários ajustes para garantir o início de funcionamento, o mecanismo de conservação das florestas conhecido como Redd (sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação).

Argentina e Uruguai chegam a acordo sobre monitoramento em águas compartilhadas Aline Gatto Boueri, de Buenos Aires - Correspondente de Plurale

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espois de 11 horas de discussão, no dia 14 de novembro, os chanceleres de Hector Timmerman e Luís Almagro, de Argentina e Uruguai, chegaram a um acordo sobre o monitoramento conjunto das atividades da fábrica de celulose da UPM, na cidade uruguaia de Fray Bentos, e de toda a bacia do rio Uruguai. Recentemente, o tema foi destaque na edição 17 de Plurale em revista. O consenso abriu portas para que um plano conjunto comece a ser definido e colocado em prática. O conflito entre Argentina e Uruguai pela instalação de fábricas de celulose ficou caliente a partir de 2006, quando moradores de Gualeguaychú, na margem argentina do rio Uruguai e organizaram na Assembleia Cidadã Ambiental de Gualeguaychú e cortaram o

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trânsito na ponte que liga esta cidade à vizinha uruguaia Fray Bentos. A Assembleia exige o desmantelamento da fábrica de celulose no país vizinho e está acompanhando de perto o projeto de monitoramento, ainda que a posição oficial seja a de não ceder aí. A expectativa é de que um controle sério das atividades da fábrica terminaria provando que os níveis de contaminação são mais altos do que os permitidos pelo Tratado do Rio Uruguai, assinado em 1975 pelos dois países. O Tratado serviu de base para a sentença da Tribunal Internacional de Haia sobre o assunto, que determinou que o Uruguai havia violado o acordo ao permitir a instalação da UPM (exBotnia) sem consulta prévia à Argentina.


Irlanda: turismo e negócio verde Vivian Simonato, Correspondente de Plurale - De Dublin, Irlanda

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Ciara O’Brien, gerente de Recursos Humanos do Radisson Blu Hotel & Spa em Cork, recebe de James Hogan, do Programa de Hospitalidade Verde o Prêmio Verde de Hotelaria referente ao ano de 2009 )

em só de crise e notícias negativas vive hoje a Irlanda. Um dos negócios que pode deslanchar é tentar confirmar o país no mapa mundi como destino “verde” para turismo e negócios. Esse foi o principal tema discutido em novembro, na IV Conferência Nacional de Meio-Ambiente do Programa de Hospitalidade Verde. A importância do assunto é levada tão a sério que a escolha do local para sediar o evento não poderia ser outra, senão o Centro de Convenção de Dublin, primeiro do país a ser construído “carbono neutro”. O Programa de Hospitalidade Verde é voluntário e figura como a única norma de certificação ambiental irlandesa que demonstra a liderança na Gestão Ambiental dentro do setor de hospitalidade. O estabelecimento que deseja se filiar deve cumprir uma série de medidas para obter um selo ecológico,

tal como acontece com a ISO. Dentre os requisitos para obter a certificação está o comprometimento em redução na emissão de carbono, redução da produção de lixo, a otimização do uso de recursos escassos ou nobres como a água e energia -, privilégio do comércio local, além da promoção da biodiversidade da região. A iniciativa é reconhecida como um dos programas mais bem sucedidos da Europa, permitindo aos turistas e empresários “verdes” escolherem aqueles hotéis que mais se empenham em reduzir seus impactos ao meio-ambiente. Além do selo verde, as empresas que aderem ao programa podem se inscrever no Prêmio Verde de Hotelaria. A premiação considera as ações mais inovadoras em prol do meio-ambiente e é oferecido pela Agência de Proteção Ambiental da Irlanda, no âmbito do Programa Nacional de Prevenção de Resíduos.

Feito para não imprimir Wilberto Lima Jr, Correspondente de Plurale, de Boston, EUA

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uito esforço tem sido despreendido para que a cultura da impressão seja contido. Frases de efeito ao fim de e-mails e também políticas internas nas empresas têm procurado reafirmar este compromisso com o planeta. Recentemente, a ONG WWF anunciou o lança-

mento do “green file”. Isso mesmo, um arquivo que simplesmente não pode ser impresso. É um PDF, semelhante aos milhares que já vimos, mas mesmo que alguém queira, não é possível imprimi-lo. O lema da campanha é “Save as WWF, save a tree”. Tem um vídeo muito interessante, com todas as explicações, que pode ser conferido no link: http://www.saveaswwf.com/en/ Até o momento, o programa está rodando apenas na plataforma Mac, da Apple, mas pelo sucesso da iniciativa, certamente nova versão para o Windons também deverá ser colocada em prática em breve.

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Clima

Água vale

que

ouro

Lei de proteção a geleiras gera disputa entre empresas de mineração e movimentos socioambientais na Argentina

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Texto: Aline Gatto Boueri, Correspondente de Plurale de Buenos Aires Fotos: Greenpeace Argentina


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las são grandes massas de gelo permanentes e em movimento, formadas em superfície terrestre pela acumulação, compactação e recristalização da neve. Imponentes monstros brancos espalhados ao longo de 3 mil quilômetros na Cordilheira dos Andes, as geleiras (ou glaciares) e o seu entorno são uma inestimável reserva de água doce em um país onde 70% do território é árido ou semi-árido, além de uma das principais atrações turísticas da Argentina. geleiras: um assunto Caliente Mesmo com tanta importância, há apenas dois anos a briga por uma lei de proteção às geleiras ganhou as ruas. Em novembro de 2008, a presidente Cristina Fernández de Kirchner vetou um projeto que havia sido aprovado pelo Senado e pela Câmara e que restringia atividades em geleiras e seu entorno, o chamado “ambiente periglaciar.” O assunto, tratado com pouca publicidade até então, ganhou notoriedade depois do veto e as assembleias cidadãs e movimentos ambientalistas de todo o país começaram a fazer barulho, principalmente na região do Cuyo, que faz fronteira com a cordilheira, e depende diretamente da neve para o caudal dos rios que irrigam seu solo seco. Mas os estado cuyanos não abrigam apenas geleiras importantes para sua sobrevivência. Em San Juan, San Luis, La Rioja e Mendoza, a famosa terra dos vinhos Malbec, estão também os maiores projetos de extração de minério do país, atividade que, segundo a Secretaria de Mineração, recebeu 1014% mais investimentos em 2008 que em 2003, muitos deles vindos de empresas estrangeiras. “Seria uma estupidez criminosa contaminar as geleiras com atividades como a mineração”, acusa Marcelo Giraud, geógrafo, professor da Universidad Nacional del Cuyo e membro da Assembleia Popular pela Água, de Mendoza, uma das organizações que integram a União de Assembleias Cidadãs (UAC). Segundo ele, o veto ao projeto de 2008 gerou conscientização e mobilização pela preservação do patrimônio natural argentino, o que abriu caminho para que o Congresso voltasse a discutir o tema. Em 2010, o deputado opositor Miguel Bonasso apresentou um projeto de lei idêntico ao que havia sido vetado por Cristina Kirchner e, em paralelo, o senador Daniel Filmus, do partido da presidenta, apresentou outro. Os ambientalistas acusaram o projeto do governo de ser excessivamente permissivo, principalmente porque não mencionava o ambiente periglaciar, ponto importantíssimo para os movimentos sociais e moradores de cidades que estão nesta zona, porque é justamente aí que as em-

presas de extração de minério estão instalando seus projetos. O resultado da briga foi o melhor possível: Filmus e Bonasso, em um acordo histórico, rediscutiram seus projetos e formularam um novo - uma mistura dos dois - e garantiram que fosse aprovado nas duas casas e sancionado pela presidenta. Em outubro de 2010, finalmente, a Argentina ganhou a famosa lei Proteção a Glaciares e Ambiente Periglaciar, que estipula patamares mínimos de cuidados com as geleiras e um limite para projetos que possam contaminá-las. “O consenso unificou a luta”, avalia Hernán Giardini, do Greenpeace Argentina. “A nova lei incorporou exigências dos movimentos sociais e é ainda mais restritiva que o projeto de 2008, que havia sido apresentado sem muito debate por parte de organizações ambientalistas.” HeCHa la leY, HeCHa la trampa “Feita a lei, feita a trapaça”, diz o provérbio agentino. Pois é, algumas semanas depois da promulgação da lei, que está em fase de regulamentação (quando se define como será aplicada), um juiz de San Juan apresentou uma liminar que suspende seus efeitos no estado, onde está o projeto binacional (Chile-Argentina) Pascua-Lama, de extração de ouro a céu aberto, com utilização de cianuro.

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Clima forte massa de água congelada – são responsáveis por 85% da água do Rio Mendoza. “Isso significa que, ainda que haja menos água, o rio não seca porque existem os glaciares.” Giarud adverte: “O aquecimentos global e as atividades de extração fizeram com que nos últimos 50 anos, as geleiras de Mendoza tivessem uma redução de 30% em sua área.” Enquanto esperam a regulamentação da lei, que tem que sair antes de fevereiro, os movimentos sociais estão atentos às pressões das empresas de extração de minério. “É preciso acompanhar o Ianigla para que a equipe possa trabalhar com liberdade”, afirma Giraud. E Giardini complementa: “Vamos velar para que o decreto regulamentar seja baseado em pesquisas independentes do Ianigla e para que respeite o espírito da lei. Mas também para que não aproveitem a brecha entre a promulgação e a regulamentação para aprovar aceleradamente projetos de mineração.”

>> Ontem e Hoje: As geleiras cobriam toda área (A) onde agora só vemos pedras (B).

A liminar se baseia em que, até que a lei seja regulamentada e, principalmente, com isso se defina o que é e o que abrange “ambiente periglaciar” é permitido aplicar a norma anterior no estado, ou seja, não respeitar, por exemplo, a proibição de novos projetos de atividades contaminadoras nas geleiras e em seu entorno. “A definição de ambiente periglaciar não tem por que ser conflitiva e não pode ser vista como o ponto central da lei. O ponto central é proteger a reserva estratégica de recursos hídricos da Argentina”, afirma Ricardo Villalba, diretor do Instituto Nacional de Estudo da Neve, de Glaciares e Ciências Ambientais (Ianigla), de Mendoza, que tem a tarefa de definir cientificamente a área a ser protegida, além de fazer o primeiro inventário nacional de geleiras da Argentina. Villalba conta que a importância do inventário está em que não é apenas um mapa de geleiras, mas também serve para fazer o acompanhamento das reservas de água em estado sólido e líquido, sua evolução e de que maneira são afetadas pelo aquecimento global. “Isso permite não só conhecê-las, mas também saber como cuidá-las e usá-las em momentos críticos, como os de seca, por exemplo.” Marcelo Giarud explica que em anos de pouca neve, como 2010, os chamados glaciares de escombros – que à primeira vista não parecem conter gelo, mas são formados por escombros sedimentados por uma

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a uniÃo e a ForÇa A União de Assembleias Cidadãs (UAC) nasce em 2006 como instância de coordenação de diferentes organizações socioambientais e assembleias cidadãs, que se reúnem para discutir problemas locais com um olhar nacional. Segundo María Pía Silva e Debóra Andrea Cerutti, pesquisadoras da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Nacional de Cordoba, uma das principais características das assembleias socioambientais é que surgem em comunidades afastadas dos grandes centos urbanos do país, principalmente as que lutam contra a mineração a céu aberto, como a Assembleia Popular pela Água, e contra a instalação de indústrias de papel, como a Assembleia de Gualeguaychu, que foi protagonista no conflito entre Argentina e Uruguai que pôs em jogo a validade do Tratado do Rio Uruguai (Plurale em Revista, edição 17). O papel da UAC na briga pela lei de glaciares argentina é fundamental: em um cenário onde havia pouca visibilidade para os conflitos regionais desencadeados pela agressão ao meio ambiente, ela deu corpo e força a lutas que antes estavam isoladas e gerou uma mobilização sem precedentes no país, convenceu a presidente e aprovar uma lei de glaciares ainda mais restritiva que a que havia vetado dois anos antes.


Negócios

RELATÓRIOS DE SUSTENTABILIDADE NO BRASIL AINDA PECAM POR FALTA DE METAS No final de outubro de 2010, a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável – FBDS e a consultora inglesa SustainAbility divulgaram a segunda pesquisa sobre a qualidade de relatórios de sustentabilidade publicados no Brasil. O estudo concluiu que as empresas apresentam de forma adequada seus compromissos com a sustentabilidade, mas que ainda pecam na identificação de prioridades e no estabelecimento de metas concretas.

Há ainda uma dificuldade das empresas em traduzir sustentabilidade para os investidores, pois não conseguem uma forma eficaz de comunicar o tema, provavelmente por ainda não terem absorvido a sustentabilidade como um valor para os negócios. Mas um dos objetivos deste estudo é justamente fornecer às empresas orientação para agenda futura da prestação de contas”, afirma Clarissa Lins, diretora executiva da FBDS e coordenadora da pesquisa. Para Jean-Philippe Renaut, executivo da SustainAbility, as empresas brasileiras estão superando o resto do mundo em termos de publicação de relatórios sobre o tema e os números de documentos publicados deverá crescer

muito em função de pressões do mercado internacional e de regulamentação setorial. “O setor financeiro continuará a ser um dos mais cobrados nos próximos anos, e as empresas terão que trabalhar muito para recuperar a confiança, abalada depois da crise financeira mundial de 2008/2009”, conclui o especialista. Segundo a coordenadora da Pesquisa, o fato de alguns setores como varejo, telecomunicações e infraestrutura não figurarem na shortlist da pesquisa é decepcionante.

“O setor varejista tem grande potencial para incentivar práticas sustentáveis em sua cadeia, além de influenciar clientes na adoção do consumo consciente. As empresas de telecomunicações tendem a publicar relatórios elaborados em seus países de origem, sem apresentar o necessário contexto para ser interpretado pelo público brasileiro. Já as de infraestrutura exercem importante e duradouro impacto sobre a sociedade e o meio ambiente. Entretanto, já que muitas são privadas e não estão cotadas na bolsa de valores, não sofrem pressão por prestar contas”, concluiu Clarissa Lins. Para o futuro, os especialistas recomendam: as empresas não deverão concentrar-se exclusivamente na produção de um relatório de sustentabilidade – integrado ou isolado. Os relatórios-modelo serão aqueles que aprenderam a transmitir de forma clara e objetiva a sustentabilidade real da empresa, por meio dos caminhos digitais do mundo e em uma rede transparente e completa de interações. Isto pode parecer ficção científica para muitos, mas, se os próximos anos trouxerem tantas mudanças e progressos quanto os dois últimos, os relatórios digitalizados inteligentes – comunicação em que a única opção seja entrar na conversa e influenciar a mensagem, mas onde a mensagem não tenha um único canal ou controle – não estarão muito distantes.

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Natureza

Projeto Minhocasa O caminho sustentável das minhocas

Texto: Romildo Guerrante Especial para Plurale em Revista De Brasília, DF

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casa é modesta para os padrões da quadra 28 do Lago Sul, em Brasília. Afinal, nas vizinhanças dessa ponta da cidade, chamada de Península dos Ministros, há muitos anos se instalaram as residências oficiais dos titulares dos ministérios, os todo-poderosos da capital do país. A sede da ONG que opera a Minhocasa fica ali por perto, mas não foi contagiada pela grandeza do poder. É modesta, tem uma casa simples, dois galpões de lona, alguns canteiros. O terreno sim, é grande, tem meio hectare de grama e alguns arbustos, poucas árvores, duas ou três pequenas edificaçõpes. Dois empregados movimentam caixas de plástico, pequenos vasos, abrem torneiras. Nesse cenário simples nasceu em território brasiliense a permacultura, a ciência de preservação da natureza que, vinda da Austrália, onde brotou, assentou bases fortes no Planalto. Por esse terreno grande e à volta de seus canteiros pedagógicos de legumes e verduras adubados sem venenos, já passaram nos últimos seis anos quase mil donas de casa, profissionais liberais, funcionários públicos, juízes, gente que, em sua maioria, soube pelo boca a boca que lá se aprendia como tratar as sobras da humanidade sem que elas viessem a comprometer a vida. Permacultura – do inglês permanent culture – quer dizer isso mesmo: uma cultura que permite a volta completa do ciclo vital da natureza, de modo a que tudo que se extraia seja aproveitado e retorne de alguma forma à sua origem. Lá na Minhocasa, com ajuda das minhocas, se ensina isso. Se ensina, combinando o saber popular com o conhecimento científico, a tratar as sobras orgânicas para que elas se transformem em adubo ou fertilizante de novos cultivos. Uma frondosa bananeira, com caule tão grosso que uma criança não pode abarcar com os braços, floresce nos fundos da Minhocasa. Foi adubada exclusivamente com o que se chama de

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água cinza, o resíduo das pias de cozinha que é nefasto ao meio ambiente por conter sódio e potássio. Nada disso afeta a bananeira. Ao contrário, ela gosta disso. São seus alimentos prediletos. E cresce majestosa, enquanto os mananciais de água pura agradecem pelo despejo abortado de veneno tão incômodo. No último sábado de cada mês, uma nova turma de 22 curiosos passa 8 horas assimilando os conceitos da permacultura, pouco tempo em sala de aula, muito no quintal, onde se desenvolvem os vários experimentos de plantio adubado com húmus ou biofertilizante obtido pela ação das minhocas nas caixas de cultura – os “condomínios verticais” de minhocas, três caixas empilhadas -, ou também com os resíduos férteis da compostagem gerada em pequenos biodigestores. Três abnegados são os responsáveis por tudo isso. O administrador de empresas Cesar Danna; a bióloga Clarissa Danna, a Kika, pedagoga com mestrado em educação ambiental na Austrália; e Cristina Garcez, bióloga. Todos têm em comum uma passagem transformadora pela vila de Crystal Waters, em Queensland, na Austrália, onde se encontraram em 1998 e onde nasceu o gosto pela coisa. Cystal Waters é uma comunidade à beira do Rio Mary Valley, um lugar que é um verdadeiro santuário de animais selvagens, onde vivem cerca de 200 pessoas de todas as idades, vindas de todas as partes do mundo, que ocupam 85 lotes de pouco menos de 5 mil metros quadrados cada. São naturebas multinacionais, com interesse diversificado, que moram em casas construídas com materiais ecológicos. Por esse caldo de cultura passaram os pioneiros da Minhocasa, que voltaram ao Brasil em 2004 e, dois anos depois, transplantaram para cá os princípios da permacultura. Quem passa pela experiência do curso do Minhocasa fica contagiado. O médico veterinário Antonio Raphael Teixeira Neto,


professor da Universidade de Brasília, foi um desses que, findo o curso, tratou de montar em casa a estrutura capaz de regenerar os restos perdidos de comida, as cascas de fruta e de ovos e até mesmo o coador de café descartável de papel. Tudo vira alimento de minhoca, não essa minhoca gordinha de quintal de subúrbio, mas uma minhoca esbelta, americana, de rendimento incomparável. “Conheci o Minhocasa há uns 2 anos”, conta o professor. “Já tive um kit pequeno e passei para um maior, tão eficiente é o aproveitamento do lixo orgânico”, relata. Mas o mais importante ele explica em seguida: “É que junto com isso vem a nossa conscientização a respeito do lixo que produzimos e as formas de aproveitá-lo.” Raphael diz que, depois de ter feito o curso, ficou “vidrado” com formas racionais de aproveitamento do lixo, grama seca do jardim, folhas, galhas etc. “A resposta é tão satisfatória e imediata que hoje já chego até a aproveitar a água da máquina de lavar roupa para molhar a grama e as flores de frente da casa. Adaptei uma mangueira da maquina de lavar e dá pra perceber que a grama está bem diferente, ainda mais aqui em Brasília nesta época da seca (julho)”, diz o entusiasmado ex-aluno da Minhocasa. Se para Raphael a experiência foi contagiante, no caso das crianças a contaminação é ainda mais poderosa. Cesar Danna, que é diretor do projeto, diz que é só uma criança passar pelo

curso que “na semana seguinte os pais aparecem para comprar o kit”. Elas são muito entusiasmadas com o projeto, se encantam com as descobertas da natureza, pressionam os pais. São a chance de mudança de hábitos, admitem os gestores da Minhocasa Um aspecto interessante que contribui para o sucesso do projeto é o fato de o sistema não gerar mau cheiro. O mau cheiro vem da fermentação, explica Cesar Danna. Mas no minhocário não tem fermentação porque a relação entre nitrogênio (lixo molhado) e carbono (matéria orgânica seca) é balanceada na proporção de um para dois, respectivamente. “Com excesso de nitrogênio, o lixo fica úmido, entra em fermentação anaeróbica. O carbono tem a função de aerar o sistema, de criar canais de ar”, diz Danna. A minhoca vermelha da Califórnia, que é usada pelo Minhocasa, é capaz de produzir diariamente uma quantidade de matéria orgânica equivalente ao seu próprio peso. Ela devolve à terra cinco vezes e meia mais nitrogênio, duas vezes mais cálcio, duas vezes e meia mais magnésio, sete vezes mais fósforo e onze vezes mais potássio do que contém o solo do qual se alimenta Além do húmus das fezes das minhocas, o processo gera ao final um líquido com pH neutro, absolutamente inodoro, que se deposita na última das caixas, e que pode ser usado como adubo na rega de plantas. E o lixo, quanto mais variado, lembra Cesar Danna, significa lixo rico: “Mais diversificados os restos alimentares, mais rico é o adubo.” A grande mudança proporcionada pelo sistema acontece dentro de casa. A lata de lixo vira item supérfluo na cozinha, como relatou a antropóloga Nicole Roitberg, de São Paulo, há pouco tempo, ao jornal Folha deS. Paulo . Há um ano, os restos da sua cozinha vão para o sistema de compostagem doméstica. Nicole, que também atua na área de educação ambiental, diz em artigo sobre ecoformação, editado pelo site Envolverde, que é preciso educar até para coisas simples: “Encontramos graduados em Ecologia que são experts em ecossistemas e incapazes de separar seu lixo. Saem das universidades, aos montes, pessoas desprovidas de conhecimentos e práticas que permitem modificar e construir uma sociedade baseada em valores que privilegiam a saúde, a vida e a sustentabilidade. Não formamos cidadãos planetários”. “Hoje, o lixo seco já tem mercado, virou dinheiro, não se acha mais latinha de alumínio pela rua. Mas o lixo orgânico, que é quase 70% da lixeira doméstica, é mal administrado e joga gás metano na atmosfera e chorume nos lençois subterrâneos”, diz Cesar. Ele enumera, entre as vantagens do sistema que propõe, a inexistência de restrição ao uso em apartamentos, por ser compacto; a ausência de mau cheiro; e o fato de não atrair ratos e baratas. E essas minhocas, operárias da sustentabilidade, garante Cesar, podem passar três meses sem alimentos. Não morrem, apenas param de reproduzir. (*) Esta reportagem foi originalmente publicada na Revista Bio.

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PwC neutraliza pegada de carbono A PwC no Brasil – conhecida empresa de auditoria e consultoria Pricewaterhousecoopers -acaba de anunciar: é a primeira empresa em seu setor de atuação a neutralizar sua “pegada de carbono”. As emis-

Manoela Laffitte Bueno (morena) e Rafaella Keppen (loira), alunas do Colégio Positivo e o protótipo da Garibike.

Garibike é apresentada Jovens paranaenses apresentaram na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, no Rio, a Garibike, feita pensando em facilitar a vida dos garis de grandes cidades. O projeto é de autoria das alunas Manoela Laffitte Bueno e Rafaella Keppen, do Ensino Médio do Colégio Positivo, de Curitiba. Muito interessante, não é?

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sões de CO2 de todos os seus mais de 4.000 profissionais no Brasil serão compensadas com a redução de emissões de carbono por meio das ações do projeto de desmatamento evitado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma, desenvolvido pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS). Plurale em revista mostrou a seriedade do Projeto da FAS na edição 11, de abril de 2009. O período a ser neutralizado corresponde ao último exercício da firma, que vai de 1º de julho de 2009 a 30 de junho de 2010. A iniciativa da PwC em neutralizar suas emissões reforça seu compromisso com a responsabilidade social corporativa e sua estratégia de negócios voltada para soluções integradas, criação de valor com sustentabilidade, e atuação em parceria com as partes interessadas. Além disso, os 30 maiores clientes da PwC receberão um certificado com o total de CO2 emitido na prestação de serviços ao longo do ano e a respectiva redução de emissões feita para compensá-lo.

Investimentos em tecnologias limpas precisam crescer Por Fabiano Ávila, do Instituto Carbono Brasil

As consequências das mudanças climáticas já estão sendo sentidas no cotidiano, como, por exemplo, as alterações nos padrões de chuvas e o aumento na acidificação dos oceanos, que vêm prejudicando a produção de alimentos em escala global. A rapidez em que o aquecimento global está afetando nossas vidas não está encontrando paralelo nos investimentos em tecnologias limpas. É o que afirma o

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relatório “Innovating for green growth: Drivers of private sector RD&D”, publicado nesta semana pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável(World Business Council for Sustainable Development - WBCSD). Utilizando dados da Agência Internacional de Energia (IEA), o WBCSD afirma que os investimentos em tecnologias de baixo carbono devem alcançar pelo menos US$ 750 bilhões ao ano até 2030 e subir para US$ 1,6 trilhões entre 2030 e 2050.


CARBONO NEUTRO

SÔNIA ARARIPE

s o n i a a r a r i p e @ p l u r a l e . c o m . b r

Suruís lançam primeiro fundo de carbono indígena A Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil), a Forest Trends, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Susutentável do Amazonas (Idesam), o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e a Associação de Defesa Etnoambiental (Kanindé), juntos com a Associação Metareilá dos Povos Indígenas Suruí lançaram em Cancun, durante a COP16, o Fundo Carbono Suruí, projeto de desenvolvimento sustentável e fortalecimento cultural aos povos da Terra Indígena Sete de Setembro (RO). A iniciativa faz parte do Projeto Carbono Suruí, desenvolvido desde 2007 pelas organizações, que tem por objetivo financiar atividades de proteção, fiscalização, produção sustentável e melhoria da capacidade local dos indígenas, a partir da comercialização de créditos de carbono. Como resultado espera-se a conservação ambiental e o fortalecimento cultural.

Ministério Público do Rio denuncia CSA por poluição ambiental Por Thais Leitão, Repórter da Agência Brasil do Rio de Janeiro

Desmatamento da Amazônia é reduzido O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou no início de dezembro a estimativa do desmatamento na Amazônia Legal para o período 2009/2010 realizado pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal – PRODES. A taxa projetada, a partir da análise de 93 imagens de satélite, é de 6451 km². A margem de erro para esta medida é de mais ou menos 10%. A taxa de desmatamento de 2009/2010 indica uma redução de 13,6% em relação ao período anterior. Trata-se da menor taxa medida pelo INPE desde 1988, quando o instituto iniciou a série de levantamentos anuais do desmatamento.

A Justiça do Rio de Janeiro anunciou no início de dezembro que vai analisar uma denúncia do Ministério Público estadual contra a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) e dois executivos da empresa por crimes ambientais. De acordo com a ação, que foi distribuída à 2ª Vara Criminal, em Santa Cruz, zona oeste do Rio, desde junho, quando entrou em fase de pré-operação, a companhia vem gerando poluição atmosférica em níveis capazes de provocar danos à saúde humana, afetando principalmente a comunidade vizinha da usina, em Santa Cruz. Segundo o promotor de Justiça Daniel Lima Ribeiro, entre os crimes mais graves estão o derramamento de ferro-gusa em poços ao ar livre, de maneira e em intensidade diferentes do que previam os relatórios e projetos apresentados ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e sem qualquer controle das emissões. Em contato com o solo, o produto, resultante do derretimento do minério de ferro, provoca a emissão de toneladas de material particulado e pode causar doenças de pele, irritação de mucosas e problemas respiratórios. A CSA enviou nota de esclarecimento informando “que não tomou conhecimento oficial de qualquer denúncia oferecida pelo Ministério Público contra a empresa”. Esclareceu ainda que, desde o início de suas operações, em julho de 2010, “suas emissões encontram-se dentro dos limites estabelecidos pela legislação ambiental.”

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Estante

Nesta época, nada melhor do que presentear com livros. Selecionamos algumas boas opções entre os lançamentos. Por Carlos Franco, editor de Plurale em Revista

SUSTENTABILIDADE, A LEGITIMAÇÃO DE UM NOVO VALOR José Eli da Veiga, Editora Senac com o patrocínio do Itaú Unibanco, 180 págs, R$ 35,00

CADÊ SEU PEITO, MAMÃE?

ISBN 978-85-63877-08-6

Ivna Chedier Maluly , Editora Escrita Fina, 40 págs, R$22,00

9 788563 877086

Para o autor de Sustentabilidade, a legitimação de um novo valor, o economista José Eli da Veiga, professor da FEA/USP , o termo sustentabilidade não pode ser entendido como conceito e sim como um valor. “Hoje, devido a uma evolução que ainda vai demandar tempo para ser bem entendida, o termo sustentabilidade passou a servir a gregos e troianos quando querem exprimir vagas ambições de continuidade, durabilidade e perenidade”, diz ele. O livro aborda três grandes questões: o significado do termo sustentabilidade, a passagem da era fóssil para a de baixo carbono e a necessidade de superar o PIB e a macroeconomia convencional.

O pequeno Elias tinha apenas três anos quando percebeu que seus pais andavam diferentes e preocupados. De supetão, entrou no banheiro enquanto sua mãe tomava banho e surpreendeu-se: “Cadê seu outro peito?” Sem entender do que se tratava, o menino aproximou-se da mãe que, carinhosamente, explicou-lhe o que acontecia. Cadê seu peito, mamãe? é uma bela história de amor entre mãe e filho que enfrentam juntos um tratamento de câncer de mama. O livro foi escrito a partir da história real vivida pela jornalista carioca Ivna Maluly, colaboradora de Plurale, quando descobriu um tumor maligno em 2008. O tratamento e a cirurgia de retirada do câncer ocorreram em Bruxelas, onde ela vive com a família e foi acompanhada de perto pelo marido e pelo filho. A narrativa apresenta a relação de companheirismo e dedicação familiar, cujos membros se uniram ainda mais para conviver com uma doença perigosa e superá-la.

OS DESAFIOS ATUAIS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA Luiz Fernando de Paula, Octávio Augusto Fontes Tourinho e Léo da Rocha Ferreira (Organizadores), Editora da UERJ, 338 pág, R$ 40,00 Este livro analisa algumas das dificuldades que se anunciam ao desenvolvimento do país na próxima década. O objetivo é que tais prognósticos sirvam de base para a implementação de políticas públicas alternativas ao enfrentamento de eventuais períodos de crise. Indicativos que sustentam a realidade brasileira atual, tais como, estabilidade fiscal e monetária e a relação desses elementos com a conjuntura internacional, são esmiuçados por especialistas da área.

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A MORTE AZUL Dr. Robert D. Morris, Saberes Editora, 413 págs, R$ 55,00 A Morte Azul, lançado este ano pela Saberes Editora, de autoria do médico Robert D. Morris, Ph.D em engenharia ambiental, mestre em bioestatística e epidemiologia, alerta sobre os perigos de doenças causadas pela contaminação da água. Relata, na forma de romance, as grandes crises com mortalidade em massa por doenças transmitidas pela água, desde a cólera na Londres do século XIX até epidemias nos anos 90 em cidades dos Estados Unidos e o furacão Katrina.


61 SOBREVIVI...POSSO CONTAR Maria da Penha, Armazém da Cultura, 203 págs, R$ 54,00 José Caldas reúne em um livro fotográfico sua experiência de anos viajando pelos remotos confins do Brasil: são mais de 80 retratos que valorizam a riqueza cultural e as expressões fora dos centros urbanos. Com as lentes apontadas para o homem do interior, a obra de Caldas busca mostrar como a vida pacata e muitas vezes difícil do sujeito do campo se expressa também de formas diversas e preserva sua dignidade.

PARQUE NACIONAL DA TIJUCA – UMA FLORESTA NA METRÓPOLE Fotografias de Marco Terranova e Ruy Salaverry, com textos de Ana Cristina Pereira Vieira, Bernardo Isa e Pedro da Cunha e Menezes, Editora Andrea Jakobsen, R$ 90,00 Mais um belo livro de fotografias, também com a participação de outro colega dos tempos de JB, Marco Terranova, especializado em natureza. Publicado com o apoio da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, o livro “Parque Nacional da Tijuca – Uma Floresta na Metrópole”, que traz a história do parque no contexto histórico e ambiental. O livro tem fotografias de Marco Terranova e Ruy Salaverry, com textos de Ana Cristina Pereira Vieira, Bernardo Isa e Pedro da Cunha e Menezes.

RETRATOS DO BRASIL PROFUNDO José Caldas,Editora Olhares, R$ 58,00 José Caldas reúne em um livro fotográfico sua experiência de anos viajando pelos remotos confins do Brasil: são mais de 80 retratos que valorizam a riqueza cultural e as expressões fora dos centros urbanos. Com as lentes apontadas para o homem do interior, a obra de Caldas busca mostrar como a vida pacata e muitas vezes difícil do sujeito do campo se expressa também de formas diversas e preserva sua dignidade.

RIO DE CANTOS 1000 Custódio Coimbra (fotos) e Cristina Chacel (textos), Editora Réptil, R$ 99,00 Nada escapa ao olhar atento e lírico do fotógrafo Custódio Coimbra, que convivemos na época de Jornal do Brasil. Este belo livro sobre o Rio de Janeiro das praias, das montanhas, e sua gente fica completo com os textos da também colega Cristina Chacel. Do alto, as barracas de praia lembram um desenho e os detalhes da Pedra da Gávea parecem ter nervuras e relevos só captados por um olhar tão sensível quanto o de Custódio Coimbra. Imperdível.

A BATALHA DE PORTO ALEGRE: O RIO GRANDE DE PÉ PELO BRASIL Sinval Medina, Martins Livreiro Editora, 328 págs, R$ 35,00 No dia 3 de outubro de 1930, a população de Porto Alegre viveu um dos momentos mais dramáticos e significativos da História brasileira. No final da tarde, um contingente da Guarda Civil, sob o comando de Flores da Cunha e Osvaldo Aranha, desfechou um sangrento ataque contra o Quartel General da 3ª Região Militar, dando início ao movimento armado que, três semanas mais tarde, culminaria com a deposição do presidente Washington Luís. Acabava ali a chamada República Velha. Era o fim da política do “café com leite”, que transformava o país num comodato de mineiros e paulistas. Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o Brasil entrava em uma nova era. Em A Batalha de Porto Alegre, o escritor gaúcho Sinval Medina reconstitui os acontecimentos políticos que antecederam o dia 3 de outubro de 1930, desde a campanha da Aliança Liberal até a eleição do paulista Júlio Prestes para a presidência. Descreve, ao mesmo tempo, os bastidores da conspiração vitoriosa

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P e las Em pr esas

ISABELLA ARARIPE

Fiat Automóveis desenvolve novo site da Cooperárvore No fim de novembro entrou no ar site da Cooperárvore, a cooperativa social do Programa Árvore da Vida – Jd. Teresópolis, idealizado e desenvolvido pela Fiat Automóveis em parceria com as ONGs Fundação AVSI e CDM. O site www.cooperarvore.com.br permitirá que o consumidor conheça todos os produtos da cooperativa, que tem como destaque a confecção de produtos que reaproveitam retalhos de tecido automotivo e aparas de cinto de segurança. A coleção 2011 da Cooperárvore traz 40 produtos e o tema escolhido para inspirar a criação das peças foi “No Jardim da Cooperárvore”..

Novo Guia IMF Companhias Abertas Esta é uma ótima dica para quem busca dados das maiores empresas abertas brasileiras. A Editora IMF, do Rio de Janeiro, que também edita a revista RI, acaba de lançar a nova versão do Guia IMF Companhias Abertas - edição 2010/2011. A publicação apresenta um diretório completo sobre 473 empresas com ações negociadas na Bolsa, incluindo dados de cada uma delas, tais como: segmento de listagem, atividade principal, endereço, telefone, e-

mail, website, nome do diretor de RI, principal acionista, composição do capital, e destacando os principais dados do balanço e resultados dos últimos 3 anos. Além disso, conta com informações sobre as principais entidades, associações, bolsa e corretoras que atuam no mercado de capitais do país. O guia está disponível nas principais bancas e livrarias do país, ao preço de R$ 40,00, podendo também ser adquirida através do site: www.imf.com.br.

Prêmio Itaú de Finanças Sustentáveis apresenta vencedores Os ganhadores do Prêmio Itaú de Finanças Sustentáveis Itaú Unibanco foram revelados em cerimônia em São Paulo, no último dia 8 de dezembro. A iniciativa, que está em sua segunda edição, prestigiou na categoria “Trabalhos Jornalísticos” os repórteres Fernando Travaglini, do Valor Econômico, André Visnadi e André Abou Chami Campana, do portal Hotmoney, e Daniella Cristina Cornachione e Marcos Coronato, da Revista Época. Em “Trabalhos Acadêmicos” foram selecionados os estudantes Giuliano Alves Cirelli (FEA-USP), Luciana Lopes Simões (FGV) e Ricardo Luis Gedra (Poli-USP).

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Unimed-Rio apoia formação de alunos da Rede Arredores

Emoção, alegria e esperança. Foi este o clima que tomou conta do evento de final de ano da Rede Arredores, iniciativa desenvolvida pela Unimed-Rio em parceria com a ONG Terrazul. Com depoimentos e apresentações emocionantes, os mais de 85 alunos do projeto mostraram o que aprenderam em 2010 e como esta iniciativa mudou suas vidas. “Não tenho nem palavras pra agradecer a oportunidade que o Arredores me deu”, disse Carlos Griem. Com 71 anos, Carlos foi um dos 44 alunos a receberem o diploma de conclusão do curso de informática (iniciante/básico/manutenção) do Núcleo de Educação Digital (NED). A Rede Arredores desenvolve atividades ligadas à educação, capacitação profissional e preservação do meio ambiente, beneficiando os moradores da Ilha da Gigóia, localizada em área próxima à sede da cooperativa. Em atividade desde 2006, ano em que começou o Projeto Arredores, o Núcleo de Educação Digital já formou mais de 500 alunos em cursos de informática (pacote Office e noções de internet), edição de imagem, edição de Vídeo e montagem e manutenção de equipamentos.

Coca-Cola: parceria no lançamento de joias de PET A designer de joias, Junia Machado uniuse à Coca-Cola Brasil para dar início a um inédito projeto que traz uma nova forma de ver - e tratar - o lixo. Juntas, estão capacitando membros da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. A designer ministra oficinas de artes em PET a dez cooperados da associação, que agora transformam o PET em flores e borboletas, protagonistas das joias junto ao ouro. Junia, que acredita na força da natureza e no poder transformador da arte, deseja por meio da parceria com a Coca - Cola Brasil ajudar a transformar o sonho em realidade e o “Jardim” Gramacho em um jardim de flores e borboletas de PET.

DPVAT sem intermediários O Seguro DPVAT cobre vidas no trânsito. Como o próprio nome diz, ele indeniza vítimas de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre. Isso significa que o DPVAT é um seguro que indeniza vítimas de acidentes causados por veículos que têm motor próprio e circulam por terra ou por asfalto. Portanto, não estão enquadrados nesta definição trens, barcos, bicicletas e aeronaves. Uma campanha foi lançada pela Segurodora Líder, que administra o consórcio, para ressaltar a importância social deste seguro e advertir que não é preciso ter intermediários para receber. Mais informações: http://www.dpvatseguro.com.br/default.asp

Jovem brasileiro é escolhido “Embaixador Ambiental” na Alemanha O brasileiro Daniel Isfer Zardo, de Curitiba, foi vencedor do prêmio Embaixador Ambiental Mundial da Bayer 2010, título conquistado na Alemanha, onde aconteceu o Encontro Internacional de Jovens Embaixadores Ambientais que reuniu 50 representantes de várias partes do mundo. O estudante de Engenharia Ambiental da PUC-PR ganhou com seu projeto Ecohabitare Sistemas Sustentáveis, que visa desenvolver tecnologia sustentável, a partir de material reciclado e resíduos industriais, para a fabricação de matérias voltadas a uma “construção verde”.

A 7ª edição do Programa Jovens Embaixadores Ambientais -realizado pela Bayer, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) - mobilizou 70 jovens de diferentes estados, de 18 a 24 anos a inscreverem projetos socioambientais em que atuam. Além de Daniel, também foram vencedores outros três jovens, que conheceram mais sobre Sustentabilidade ao longo de uma semana na cidade de Leverkusen, sede da Bayer. Na foto, da esquerda para a direita: Samuel Gondim, de Natal (RN), Amanda Baldochi Souza, de São Carlos (SP), Theo Van Der Loo, futuro presidente do Grupo Bayer no Brasil, Amanda Neuenfeld Pegoraro, de Canguçu (RS) e Daniel Esfer Zardo, de Curitiba (PR).

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I m a g e m Foto: Acervo do Serviço de Proteção aos Índios/Autor desconhecido

A

estranheza do índio diante do homem branco de bigode farto é uma das melhores fotos inéditas que acabam de ser apresentadas em belíssima exposição “O olhar precioso”. O autor é desconhecido, mas o homem branco trata-se de ninguém menos do que o antropólogo Darcy Ribeiro. O acervo foi produzido em seus diversos trabalhos de campo entre os índios Kadiwéu, Urubu-Ka´apor e Ofayé-Xavante. Faz parte do arquivo do Serviço de Proteção aos Índios, nominado em 2008 no Registro Nacional do Programa Memória do Mundo da UNESCO e se transformou em exposição na Caixa Cultural, com a curadoria do fotógrafo e antropólogo Milton Guran.

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PLURALE EM REVISTA | Novembro/Dezembro 2010


ano três | nº 20 | novembro/dezembro 2010 | R$ 10,00

AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE

CERRADO:

SEMENTE DE ESPERANÇA

GELEIRAS:

ÁGUA QUE VALE OURO

H : S O R R A C ESPECIAL

BOA SAFRA:

VINHO SAUDÁVEL

Í

S O C I R T É L E BRIDOS E

FOTO: SÉRGIO LUTZ, RESERVA NATURAL SERRA DO TOMBADOR (GO)

PLURALE EM REVISTA

NOV/DEZ 2010

Nº 20

www.plurale.com.br

plurale em revista ed.20  

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