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S. JOÃO BOSCO SONHOS DE UM VISIONÁRIO NÚMERO 4


A Dom Bosco nos 130 anos da sua morte.

BOLETIM INFORMATIVO Notícias dos Salesianos de Portugal ABRIL 2018 Diretor Pe. José Aníbal Mendonça, sdb Diretor Adjunto e Coordenador Editorial Joaquim Antunes, sdb Texto adaptado das Memórias Biográficas de São João Bosco, Vol. XVI, pág. 386 e seguintes. Ilustração: Nuno Quaresma Província Portuguesa da Sociedade Salesiana Rua Saraiva de Carvalho, 275,1399-020 Lisboa www.salesianos.pt


O SONHO DAS MISSÕES NA AMÉRICA DO SUL PROFECIA DA CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA

Em 21 de abril de 1960, o Brasil inaugurou sua nova capital, Brasília. Do Planalto Central irradia a linfa vivificante que alimenta o interior do país. Reconhecida nacional e internacionalmente como grande centro de decisões, de cultura e desenvolvimento. A imprensa brasileira e estrangeira vem desde a fundação associando o nome de Dom Bosco aos destinos da nova Capital, evocando UM SONHO PROFÉTICO, cujos tópicos mais expressivos nos propomos apresentar. Não o transcrevemos na íntegra por ser muito extenso. Ocupa nada mais nada menos que 10 páginas em corpo 8 nas Memórias Biográficas de

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Dom Bosco. Sem esquecer que toda profecia é, de per si, obscura no seu enunciado, usando na sua expressão termos genéricos e linguagem imaginosa, figurativa. Mesmo sob este ponto de vista, é admirável notar como Dom Bosco situou nitidamente no tempo e no espaço o objetivo da sua previsão, como veremos. Para maior clareza, recordemos que o sonho-visão data de 1883. Foi narrado por Dom Bosco numa reunião da Assembleia Geral da Congregação Salesiana, no dia 4 de setembro. O Pe. Lemoyne, que recolhia as memórias do Santo, transcreveu-o imediatamente, submetendo-o à correção de Dom Bosco. Este o examinou com atenção, acrescentando e modificando. Foi publicado nas páginas 385 a 394 do volume XVI das “Memorie Biografiche” de Dom Bosco, cuja primeira edição veio a público em 1935 (E. CERIA, Memorie Biografiche di S. Giovanni Bosco, vol. 16, Società 4

Editrice Internazionale (Torino, 1935).


Assim começa Dom Bosco a narração: “Na noite que precedia a festa de Santa Rosa de Lima, 30 de agosto, tive um sonho. Percebi que estava a dormir e parecia-me, ao mesmo tempo, correr a toda velocidade, a ponto de me sentir cansado de correr, de falar, de escrever e de me esforçar no desempenho das ocupações habituais. Enquanto hesitava se se tratava de sonho ou de realidade, pareceu-me entrar num salão, onde se encontravam muitas pessoas, falando de assuntos vários”. E o Santo reproduz profusamente o assunto da conversa, o que omitimos.

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“Nesse entretempo, aproximou-se de mim um jovem dos seus dezasseis anos, amável e de beleza sobre-humana, todo irradiante de viva luz, mais clara que a do sol...”. E interrompemos de novo a descrição do amável guia, que o acompanhou durante toda a misteriosa viagem. Este apresenta-se como amigo seu e dos Salesianos: vem, em nome de Deus, dar-lhe um pouco de trabalho. “– Vejamos de que se trata. Que trabalho é esse? – Sente-se a esta mesa e puxe esta corda”. Havia, no meio daquele salão, uma mesa, sobre a qual estava enrolada uma corda. Vi que essa corda estava marcada com tracinhos e números, como se fosse uma fita


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métrica. Percebi, mais tarde, que aquele salão estava situado na América do Sul, exatamente sobre a linha do Equador, correspondendo os números impressos na corda aos graus geográficos de latitude...” Segue-se a narração da vista de conjunto da América do Sul, segundo explicação do Santo: “Observo que então via tudo de conjunto, como que em miniatura. Depois, como direi, vi tudo em tamanho real e em extensão. Foram os graus marcados na corda, correspondendo exatamente aos graus geográficos de latitude, que me permitiram gravar na memória os sucessivos pontos que visitei, viajando na segunda parte do sonho”.


“O meu jovem amigo continuava: – Pois bem, estas montanhas são como balizas; são um limite. Entre elas e o mar está a messe oferecida aos Salesianos. São milhares, são milhões de habitantes que esperam o seu auxílio; aguardam a fé”. “Aquelas montanhas eram as Cordilheiras da América do Sul e aquele mar, o Oceano Atlântico...” Prossegue a visão, mostrando a Dom Bosco como conseguiria guiar tantos povos ao rebanho de Cristo. “Eu ia pensando: Mas para se conseguir isto, vai ser preciso muito tempo. Por fim exclamei em voz alta: Já não sei o que responder.

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Mas o jovem, lendo os meus pensamentos, acrescentou: – Isto acontecerá antes que passe a segunda geração. E qual será a segunda geração? – A presente não se conta. Será outra e depois outra. – E quantos anos compreende cada geração dessas? – Sessenta anos. – E depois? – Quer ver o que sucederá depois? Venha cá. E, sem saber como, encontrei-me numa estação de comboio. Havia muita gente. Embarcámos. Perguntei onde estávamos. Respondeu o jovem: – Note bem! Observe! Viajaremos ao longo da cordilheira.


O senhor tem estrada livre também para leste, até ao mar. É outro dom do Senhor”. Dizendo isto, tirou do bolso um mapa, que mostrava assinalada a diocese de Cartagena (Colômbia). Era o ponto de partida. Enquanto olhava o mapa, a máquina apitou e o comboio pôs-se em movimento. Durante a viagem, o meu amigo falava muito, mas eu não conseguia entender tudo, por causa do barulho. Aprendi, no entanto, coisas belíssimas e inteiramente novas sobre astronomia, náutica, meteorologia, sobre a fauna, a flora e a topografia daqueles lugares, que ele me explicava com maravilhosa precisão...

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Ia olhando pelas janelas da carruagem e descortinava variadas e estupendas regiões. Bosques, montanhas, planícies, rios tão grandes e majestosos que não era capaz de os imaginar assim tão caudalosos, mesmo tão longe da foz. Por mais de mil milhas, ladeámos uma floresta virgem, ainda hoje inexplorada. Os meus olhos tinham uma capacidade visual maravilhosa, não encontrando obstáculos que os impedissem de se estender por aquelas regiões. Via nas entranhas das montanhas e no subsolo das planícies. Tinha debaixo dos olhos as riquezas incomparáveis daqueles países, riquezas que um dia serão descobertas.


Via numerosos filões de metais preciosos, minas inexauríveis de carvão, depósitos de petróleo tão abundantes como nunca se encontraram até então noutros lugares. Mas não era tudo. Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia do ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: – Quando se vierem abrir minas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”. Continuava a viagem, ao longo da cordilheira, rumo a sul. “O comboio pôs-se de novo em movimento, avançando sempre. Como na primeira parte da viagem, atravessáva-

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mos florestas, passávamos por túneis e viadutos gigantescos, internávamo-nos por entre gargantas, contornávamos lagos e pantanais, transpúnhamos rios caudalosos, percorríamos, por fim, pradarias e planícies. Passámos, assim, as margens do Uruguai”. E continua a descrição das regiões fronteiriças, através da bacia do Prata, dos Pampas e da Patagónia, até ao Estreito de Magalhães. Começa a viagem de volta. Na Patagónia, Dom Bosco entretém-se com os seus salesianos (de gerações futuras). Atravessa a Argentina, penetra numa floresta muito espessa, enorme, onde presencia o massacre de um estrangeiro, entregue à sanha de ferozes canibais.


Prossegue nas margens de caudaloso rio, atravessando, afinal, uma região infestada de animais ferozes e de répteis repelentes. Estão a chegar ao fim da viagem: “O comboio aproxima-se do lugar da partida e já estávamos a pouca distância. O jovem guia tirou do bolso uma carta geográfica de incrível beleza e disse-me: – Quer ver a viagem que o senhor fez? As regiões percorridas? – Com muito gosto. Desdobrou então o mapa, em que se desenhava com admirável exatidão toda a América do Sul. Além disso, já estava representado tudo o que existia, existe, e há de existir

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naquelas regiões, sem confusão de espécie alguma, pelo contrário, com tal nitidez que, de um só relance, se abrangia tudo. Compreendi tudo num instante, mas, devido à profusão de elementos, durou pouco tal clareza, dando lugar à completa confusão que agora me ocupa a mente. Enquanto observava aquele mapa, esperando que o jovem acrescentasse ainda alguma explicação, agitado como estava pela surpresa de tudo quanto vira, pareceu-me que tocavam às Ave-Marias, ao alvorecer. Despertando, percebi que eram os sinos da paróquia de São Benigno. O Sonho durara a noite inteira”. 18


Neste sonho, pudemos observar como Dom Bosco viu com exatidão as circunstâncias de tempo e lugar, bem como o objeto da sua previsão: Tempo: Recordemos o diálogo: “– Isto acontecerá antes que passe a segunda geração. – E qual será a segunda geração? – A presente não se conta. Será outra e depois outra. – E quantos anos compreende cada geração destas? – Sessenta anos”. Se a primeira das sobreditas gerações começou em 1883, a segunda teve início mais ou menos em 1943. Estamos,

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pois, inteiramente dentro do período a que alude o sonho-visão. Lugar: Dom Bosco localizou a faixa compreendida pelos paralelos 15 e 20, entre os Andes e o Oceano Atlântico. Exatamente entre os paralelos 15 e 16 foi localizada a nova capital do Brasil.

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O que viu Dom Bosco? Embora o objeto da sua visão não seja exclusiva nem explicitamente Brasília, podemos afirmar que Dom Bosco viu, em 1883, o que hoje, em parte, é realidade. Reforça a nossa convicção o teor mesmo da


narração: “Quando vierem explorar as riquezas escondidas neste planalto, surgirá aqui a terra prometida, onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”. Ora, nenhuma outra descoberta teve maior repercussão, noutros pontos da referida faixa continental. Além disso, que Dom Bosco tivesse associado ao Brasil o presente sonho, está fora de dúvida. Compreendemos melhor, se recordarmos que, em 14 de julho de 1883, alguns dias antes do sonho profético, desembarcavam no Brasil os primeiros Salesianos, para dar início à primeira fundação neste país. Toda a preocupação de Dom Bosco estava, naqueles dias, voltada para o Brasil. Testemunha

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o Pe. Filipe Rinaldi, terceiro sucessor do Santo, que o surpreendera no seu quarto, contemplando enternecido um atlas que focalizava exatamente o Brasil. As suas palavras, então, revelaram a sua esperança no futuro do Brasil Salesiano, chegando a prever para a sua obra, naquela terra, duzentas casas! Era humanamente impossível pensar em tão prodigiosos florescimento, quando aqui se implantara apenas uma casa, que tinha dificuldades de todo género. No maravilhoso sonho que recordámos, Dom Bosco abraçou, na extensão que a sua visão profética lhe permitiu, o desenvolvimento da sua obra, juntamente com o progresso material da Terra. Para este, já sorri, com a inau-


guração da nova Capital, a aurora de irradiante progresso, enquanto o fabuloso desenvolvimento da Obra Salesiana Ê uma consoladora realidade.

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COMENTÁRIO Pode parecer paradoxal, mas a verdade é que, no tempo das tecnologias da informação e da inteligência artificial, os sonhos não podem continuar a ser vistos e contados apenas como lendas fantásticas que se narravam antigamente, à noite, junto à lareira. A experiência onírica ocupa um lugar importante em todas as culturas e os jovens de hoje, como noutros tempos, não têm dificuldade em penetrar na linguagem do sonho. Aliás, estamos mergulhados numa cultura que se apoia muito no mundo virtual: mundo da imagem, das representações fantasiosas e mágicas, mundo de heróis como Harry Potter, Batman, e ainda o mundo fascinante das viagens interplanetárias cujas naves defrontam habitantes terrí24

veis e devastadores.


É por todas estas razões que os sonhos de Dom Bosco continuam tão populares. E é também por isso que as ilustrações dos três primeiros sonhos, já publicados, têm ajudado a entrar na magia da “banda desenhada”, onde os jovens se sentem plenamente confortáveis e felizes ao verem figuras estrambóticas, animais graciosos ou horrendos, heróis e seres protetores que ajudam a dar asas à imaginação e à fantasia. Por parte dos educadores impõe-se continuar a explorar a figura do sonho, no seu aspeto didático e pedagógico. O sonho que publicamos este mês foge ao que acabámos de descrever. É mais “científico” e tem um figurino com medidas mais ajustadas aos adultos. Simplesmente fantástico! Dom Bosco, em sonho, viajando de comboio por terras da América do Sul, sempre acompanhado de um jovem cicerone, atravessou florestas,

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lagos e pantanais e observou pessoas e paisagens incríveis. E a um dado momento localizou a faixa compreendida entre os paralelos 15 e 20, entre os Andes e o Oceânico Atlântico, exatamente entre os paralelos onde foi localizada a nova capital do Brasil, afirmando: “Quando vierem explorar as riquezas escondidas neste planalto, surgirá aqui a terra prometida, onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”. Por esta extraordinária “descoberta” de Dom Bosco os brasileiros dedicaram-lhe, no centro da cidade de Brasília, uma igreja concebida pelo arquiteto Niemeyer, que expressa a visão intemporal que o santo anteviu. J. Antunes, sdb

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SÃO JOÃO BOSCO SONHOS DE UM VISIONÁRIO

São João Bosco: Sonhos de um visionário, Capítulo IV  

Texto adaptado das Memórias Biográficas de São João Bosco. BOLETIM INFORMATIVO - Notícias dos Salesianos de Portugal - ABRIL 2018. Diretor:...

São João Bosco: Sonhos de um visionário, Capítulo IV  

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