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Alves Redol, anos 50


Alves Redol Do Ribatejo para o Mundo Maria da Luz Rosinha Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

Nascido a 29 de Dezembro de 1911, em Vila Franca de Xira, Alves Redol é desde há muito reconhecido como uma das figuras de maior relevo do movimento neo-realista português. O escritor de Gaibéus legou-nos, na verdade, um inestimável património literário, construído no rigor da palavra e cimentado na observação directa das gentes e dos locais. Escritor comprometido com o seu tempo, foi-o também com a sua cidade. Aqui se relacionou, desde cedo, com as associações e colectividades promotoras de cultura, aqui captou, com o seu olhar, as particularidades e os ritmos que, em certa medida, continuam a ser os nossos. A gente da beira-rio ou os que, sazonalmente, emprestavam o seu colorido e o seu suor às lezírias, campinos e maiorais, a moldura de água oferecida pelo Tejo, lá estão, nas páginas escritas por Alves Redol, recordando-nos vivências, evocando a paisagem de uma terra e de uma época. Do Ribatejo para o Mundo, Alves Redol soube como poucos fazer eco das desigualdades desses tempos difíceis, jamais esquecendo o labor literário que a grande arte sempre exige. A sua carreira de escritor deu testemunho, afinal, de uma vontade imensa de transformar o seu tempo histórico, através do poder e do significado das palavras, ou pelo menos nele despertar uma outra consciencialização social. No ano em que se assinala o Centenário do Nascimento de Alves Redol, a Câmara Municipal, através do Museu do Neo-Realismo, homenageia

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o autor de Gaibéus (1939), Avieiros (1942), Olhos de Água (1954) e Barranco de Cegos (1961), entre tantos outros títulos, recordando a sua importância no panorama literário português e na história da nossa cidade. Ler Alves Redol, evocar a sua obra e promover iniciativas em torno da mesma, constitui, sem dúvida, uma das vertentes do nosso trabalho enquanto entidade responsável pela cidade onde o escritor nasceu. Tarefa que encaramos, simultaneamente, com agrado e orgulho. Alves Redol, escritor vila-franquense, sugeriu-nos, um dia, que o lembrássemos, se entendêssemos o seu merecimento. Assim o entendemos. E aqui o registamos. Que as exposições patentes no Museu do Neo-Realismo e os contributos deixados neste catálogo tenham a capacidade de fixar o legado de Alves Redol e de levar o seu nome, a sua obra, a sua mensagem humanitária, às novas gerações, tal como ele, um dia, sonhou.

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cat. 364 Alves Redol, anos 60


Apresentação David Santos Coordenador do Museu do Neo-Realismo

O Museu do Neo-Realismo muito deve à figura e ao legado literário de Alves Redol. Foi em torno do seu espólio e importância patrimonial que, durante os anos 70 e 80, se desenvolveu a ideia e o sonho de constituição de um museu que ajudasse a preservar essa memória cultural, decisiva para entender o século XX português. Se hoje existe um museu que alberga dezenas de espólios literários e artísticos de alguns dos maiores protagonistas da nossa cultura é porque a dimensão literária e humana de Alves Redol elevou bem alto, desde o final dos anos 30, o propósito neo-realista de dar voz às camadas mais desfavorecidas da população portuguesa. O seu exemplo, a influência multidisciplinar do movimento neo-realista e a generosidade dos muitos escritores que o ajudaram a constituir tornaram possível a manifestação de uma identidade comum, que agora se concentra na riqueza documental e artística das colecções do Museu do Neo-Realismo. Deste modo, comemorar o Centenário do Nascimento de Alves Redol não é apenas uma obrigação que assumimos com prazer e empenho, como também um sinal de gratidão que o Museu do Neo-Realismo pretende sublinhar, partilhando com o público que nos visita a magnitude de uma obra e de uma acção cívica que importa lembrar, sobretudo aos mais novos, aqueles que desconhecem, por razões geracionais, as dificuldades de um tempo e de um país. O conjunto de exposições agora apresentado, e o catálogo que as testemunha, permitem-

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-nos, na verdade, conhecer de um modo mais profundo a obra e alguns aspectos menos visíveis da vida do escritor, como a sua persistente e continuada ligação à disciplina da fotografia. Porém, o trabalho agora alcançado só foi possível graças à preciosa ajuda de muitas pessoas e entidades. Não podendo nomear aqui todos os profissionais envolvidos na sua concretização, gostaria de distinguir o inexcedível empenho manifestado desde o início por António Mota Redol, que comigo partilhou a curadoria destas exposições, bem como o contributo dos ensaístas convidados para esta edição: Vítor Viçoso, Violante F. Magalhães, Miguel Falcão e José Neves. Na sua diferenciada observação em torno da obra de Alves Redol encontramos uma leitura mais completa e actualizada. À equipa do Museu do Neo-Realismo, uma palavra de gratidão pela dedicação constante, destacando aqui os nomes de Sílvia Igreja e Lurdes Aleixo, mais directamente envolvidas com a catalogação e produção das diversas exposições. Ao designer Paulo Pereira, agradeço o excelente trabalho de paginação do catálogo, assim como à Carla Félix, à Dulce Munhoz e ao GIRP, a concepção visual das várias exposições. Por fim, uma palavra de agradecimento aos patrocinadores deste catálogo, à Previdente, na pessoa do Dr. Luís Cota Dias, e à Associação Promotora do MNR, que contribuíram de modo decisivo para a dignificação editorial destas comemorações.

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Alves Redol, anos 40


Alves Redol Horizonte Revelado David Santos e António Mota Redol Curadores

No quadro de uma vasta programação sobre o Centenário do Nascimento de Alves Redol, o Museu do Neo-Realismo preparou para o último trimestre de 2011 um conjunto de exposições que procuram reflectir não apenas o sentido de evocação e homenagem associado às efemérides, como ainda um empenho de investigação e análise acerca de um escritor maior como Alves Redol, pioneiro do movimento neo-realista com o seu romance de estreia, Gaibéus (1939), ao introduzir no universo da ficção esse compromisso estético e social que congregou uma nova geração em torno da transformação da sociedade portuguesa. Para lá da investigação biobibliográfica decorrente da abordagem ao espólio do escritor, e que resultou na mais abrangente e completa exposição documental até hoje dedicada ao autor, intitulada Horizonte Revelado, verificou-se ainda, ao longo desse processo, a necessidade de ampliar o projecto expositivo inicialmente previsto, encarando mais duas exposições dedicadas ao universo redoliano. A mais importante apresenta e aprofunda uma das facetas mais desconhecidas de Alves Redol, ou seja, o exercício da fotografia como auxiliar do labor literário; enquanto outra, mais simbólica, recorda na livraria do museu um conjunto significativo de pranchas de banda desenhada que adaptaram, em 1989, vários contos do autor de Barranco de Cegos, no âmbito de um concurso lançado à escala nacional junto do público mais jovem. A projecção imagética que daí resultou

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merece, na verdade, uma apresentação pública condigna, lembrando assim como as palavras sugerem sempre uma miríade de imagens. No que diz respeito à exposição principal, estruturada para dar a conhecer ao público que nos visita uma visão alargada e, até certo ponto, inovadora do percurso literário de Alves Redol, devemos acentuar a presença de um conjunto significativo de documentos e objectos que projectam, sem dúvida, uma nova luz sobre alguns dos aspectos centrais da sua vida pessoal e profissional. Do etnografismo inicial à maturidade literária, esta mostra permitirá certamente uma leitura mais complexa e aprofundada sobre o trajecto de um escritor essencial para entender os valores e as ideias que marcaram o Portugal de meados do século XX. Por outro lado, a fotografia seleccionada para capa do presente catálogo, com Alves Redol a tomar notas, algures no Douro, representa talvez a imagem que melhor reflecte a atitude do homem e do escritor: registar e dar testemunho da realidade social do seu país. Mas mais do que uma homenagem ou a evocação do nascimento do escritor vila-franquense, este centenário e as exposições agora apresentadas desejam sobretudo despertar no público visitante o incentivo necessário para uma releitura atenta das obras de Alves Redol. Será sempre essa, afinal, a verdadeira homenagem a fazer a um escritor.

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ensaios


cat. 70 Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia para Fanga, anos 40

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Do realismo “etnográfico” ao lirismo telúrico em Alves Redol Vítor Viçoso Professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Alves Redol, um dos escritores que integrou o movimento cultural neo-realista, tendo sido, aliás, o seu romance Gaibéus, publicado em 1939, um dos momentos fundadores da literatura de tal tendência estético-ideológica. A “geração de 40”, como foi designada na história literária portuguesa do séc. XX, para lá da juvenil proximidade etária dos seus componentes, demarca-se por uma profunda comunhão de interrogações e afectos, e por uma idêntica visão do mundo de raiz marxista, ou pelo modo como a pretendiam exprimir no plano artístico. No entanto, esta centração sócio-ideológica não se traduziu num monolitismo estético, pois cada um deles ensaiou de modos diversos a sua prática literária, procurando embora traduzir os valores e as expectativas que os identificavam como colectivo. O contexto sociopolítico, nas décadas de 30 e 40 – Guerra Civil de Espanha (1936-39); ascensão do fascismo e do nazismo que iria desembocar na conflitualidade trágica da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), e, entre nós, a institucionalização do totalitário Estado Novo (década de 30) –, era, aliás, apelativo a um empenhamento sociopolítico do escritor português confrontado com uma censura implacável e o policiamento de todos os actores socioculturais.

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Se os unia, portanto, uma mesma vocação no que concerne à função da arte no processo de transformação político-social e de denúncia da barbárie nazi-fascista ou do retorno a uma cultura da intolerância imposta entre nós pela ditadura; à sua configuração de acordo com um imperativo de partilha democrática da cultura e à doação de uma voz ficcional àqueles (os olvidados da História: operários e camponeses sobretudo) que ainda não a podiam ter – embora numa dimensão utópica, Alves Redol anunciasse já na dedicatória d´A Fanga (1943) a viabilidade futura de um actor colectivo criador: “Para vocês, fangueiros dos campos da Golegã, escrevi este livro. Que algum dia o possam ler e rectificar – porque o romance da vossa vida só vocês o saberão escrever” –, convém reconhecer que esta comunhão ideológico-afectiva nunca se converteu num “catecismo” estético. O movimento neo-realista foi sobretudo uma cultura de contra-poder, enquanto antítese da “política do espírito” de António Ferro e da ideologia estadonovista e, ao mesmo tempo, no campo da oposição ao regime, uma fractura tanto em relação ao ideário seareiro de António Sérgio e Raul Proença (no plano políticocultural) como em relação à geração da Presença (1927-1940), no plano estético. Neste último aspecto, transita-se da era da originalidade intimista (Presença) para

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a era da socialidade (Neo-Realismo). Na década de 40, é já possível detectar algumas tendências específicas nas obras dos escritores neo-realistas: o realismo “etnografista” de Alves Redol; o pendor épico-lírico de Soeiro Pereira Gomes; um lirismo da errância espacio-temporal na vizinhança de uma matriz anarquizante em Manuel da Fonseca; uma escrita despojada, no plano retórico, e artesanal, nos romances gandareses de Carlos de Oliveira e o realismo crítico em Fernando Namora. Alves Redol, no seu processo romanesco de representação do universo trabalhador, programaria, na década de 40, numa busca de autenticidade e verosimilhança, uma antecipada presença in loco para poder descrever mais tarde, nas suas narrativas, os dramas das comunidades dos gaibéus, dos avieiros, dos fangueiros ou dos pequenos vinhateiros do Douro. A captação dum sociolecto específico duma comunidade só seria possível com esse registo prévio presencial anterior à criação romanesca. Depois, como no documentarismo social do cinema inglês da década de 30, esse material recolhido seria montado de acordo com o ponto de vista comprometido e criativo do autor-narrador, de molde a evidenciar retoricamente a verdade e a exemplaridade sociopolítica do narrado. Daí a equívoca epígrafe de Gaibéus, onde assume esta narrativa como um mero registo documental da vida dos migrantes sazonais: “Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem”. Aliás, não esqueçamos que a primeira obra publicada por Alves Redol, Glória, uma aldeia do Ribatejo (1938) – curiosamente no mesmo ano do concurso promovido por António Ferro “A aldeia mais portuguesa de Portugal” –, é um texto etnográfico onde se descrevem os instrumentos de trabalho, as características arquitectónicas da aldeia, os aspectos etnográficos e os rituais lúdicos, eróticos e religiosos. Alves Redol iniciou-se na escrita através da sua colaboração com a imprensa regional vila-franquense, em semanários como Vida Ribatejana, entre 1927 e 1932, e o Mensageiro do Ribatejo, a partir de 1936. É deste ano também o início da sua participação no semanário O Diabo, e, em 1938, no Sol Nascente, periódicos

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que estão na génese do Neo-Realismo. É, pois, através dessa prática cultural que vai maturando a sua escrita de ficcionista. Fora, aliás, em torno do Mensageiro do Ribatejo que se criou o grupo neo-realista de Vila Franca de Xira (1936-37): Alves Redol, Dias Lourenço, Garcez da Silva, Bona da Silva, Mário Rodrigues Faria, Arquimedes da Silva Santos e Carlos Pato. Em 1928, apenas com 16 anos, Alves Redol emigrou para Angola donde regressaria bastante fragilizado em 1931. Dessa frustrada experiência africana retiraria o material para algumas narrativas publicadas em Histórias Afluentes (1963), tais são os casos de “O cheiro do branco”, “A viagem à Suíça” e “Noite esquecida”, nas quais se manifesta, sobretudo, um clima saudosista relativamente à metrópole, especialmente em relação à paisagem e afectos da terra natal, sobressaindo um mal-estar recorrente, quanto ao processo de integração na vida colonial angolana ou ao clima e às doenças tropicais, projectando-se aí, ainda que, indirectamente, a memória autobiográfica do autor. Os preconceitos racistas ou a exploração e a violência do colono branco sobre o negro são temas que se associam a uma dura confrontação do emigrante com a monotonia do tempo africano. Em “O cheiro do branco”, a mais interessante destas narrativas, coloca-se em confronto o olhar cruzado e recíproco entre a etnia dominante e a dominada. Depois de uma relação sexual com uma negra, o colono, provocador, satisfeito o cio, interroga-a quanto ao cheiro do seu corpo e, perante a hesitação desta, revela-lhe que uma negra cheirava a catinga, esse era o nariz do branco. E, para espanto deste, a negra, esse objecto erótico ocasional, murmuraria, finalmente, medrosa, que o corpo dos brancos lhe cheirava a mortos. O nosso macho colono, irado com a afronta, expulsou de imediato a rapariga da sua casa e jurou a si próprio nunca mais ter relações com uma preta. Esta castração simbólica como que o remetera definitivamente para o reino dos mortos. Convém, por outro lado, lembrar que o conto “Kangondo”, publicado n´O Diabo (30-11-1936), seria das primeiras narrativas a superar um mero pitoresco associado à paisagem africana, para denunciar as relações de escravidão a que o colono submetia os negros do interior, na região do Bengo. Um negociante português, para lá da exploração

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económica a que sujeitava as populações, compraria uma jovem virgem negra a um pai pouco escrupuloso. Como a mãe de Kangondo lhe fizera notar: “A mulher […] nasceu para servir o homem. Logo que é comprada, perde tudo. A cabeça já não pensa; o corpo obedece e sofre. O cão, quando o dono o espanca, pode voltar-lhe o dente ou fugir. À mulher …nem isso”. Depois do negócio estabelecido, “Kangondo” tornar-se-ia um objecto mercantilizado sujeito à arbitrariedade dos desejos do seu proprietário, por isso o conto é centrado no conflito entre a subjectividade da personagem e a sua nova condição social. Histórias que as malhas do Império teciam. Aliás, no plano teórico, nota-se, a partir de 1936, por parte do autor, uma clara opção por uma concepção marxista do fenómeno estético. Na sua palestra sobre “Arte” (17-6-1936), proferida no Grémio Artístico Vilafranquense, funde a sua recepção de textos marxistas de Plekhanov (1856-1918) e Bukharine (1888-1938) com algumas referências ao neo-positivismo de Abel Salazar, embora a perspectiva dominante seja a dos anteriores teóricos.

Alves Redol, início dos anos 40

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Sendo a Arte uma componente da super estrutura ideológica estaria dependente do estádio de desenvolvimento da vida material, isto é, seria o reflexo do nível técnico-social e do regime económico. Opondo-se radicalmente aos conceitos da Arte pela Arte, defendeu uma arte transitiva e utilitária, pois a centração estética no eu do artista seria uma perversão da verdadeira natureza da arte. Do mesmo modo, o apego feiticista à forma seria demonizado no quadro daquilo que designou como a tendência formalista na arte. Diríamos que o romance neo-realista arquetípico, sobretudo na década de 40, a idade da inocência épico-lírica, seria a fusão de uma interpretação sociológica do povo trabalhador e duma idealização do outro social, enquanto potencial actor épico de uma revolução social que actualizasse, a nível ficcional, o desejo ético-político do escritor no quadro do imaginário da emancipação popular. Em Gaibéus, narra-se a história de um rancho de camponeses (pequenos proprietários rurais depauperados) que, sazonalmente, descia do norte da região ribatejana ou da Beira Baixa para, enquanto transitórios assalariados rurais, “alugar” a sua força de trabalho na ceifa do arroz, na zona da Lezíria. Este trajecto sacrificial dos gaibéus, emigrantes na própria pátria por motivos económicos, revela-se um confronto penoso e patético com uma natureza agreste e estranha e com relações sociais baseadas na exploração iníqua do latifundiário que tem mesmo, aliás, o privilégio “feudal” de usar sexualmente a mais apetecida das jovens gaibéuas. No entanto, objectos da opressão mas desprovidos do saber para dela se libertarem, caberá ao “ceifeiro rebelde” (uma espécie de alter ego do escritor), personagem libertária, simbolizar a consciência possível do grupo. De um modo esquemático, poder-se-á dizer que o “ceifeiro rebelde” exprime a situação equívoca de uma projecção idealista (uma máscara da consciência política do escritor) para o outro social, de molde a vincar, num quadro futurante, aquilo que viria a ser a capacidade de auto-libertação do protagonista colectivo. Não é, de resto, despiciendo, o facto de o colectivo alienado ser constituído por pequenos proprietários rurais, contrariamente ao “ceifeiro rebelde”, um típico proletário. Aqueles, pelo seu

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estatuto económico-social, seriam, pois, mais vulneráveis à manipulação ideológica da classe dominante. Os gaibéus são, assim, a expressão hiperbolizada dos espoliados, pois, mesmo os trabalhadores ribatejanos (os rabezanos) os desprezam pela sua submissão ao patronato. A narrativa percorre um tempo cíclico que se inicia com a sua chegada à Lezíria, no Verão, e a sua partida que coincide com a proximidade do Inverno. Nostálgicos da sua aldeia e num degredo compulsivo, o romance polariza-se nos advérbios aqui – um espaço disfórico (bem expresso no quiasma, “Só planície e céu – céu e planície”1) e um tempo infernal – e lá – o idealizado espaço pastoral – o da sua terra grata, embora avara no pão. A descrição da ceifa, no capítulo “Mensagem da Nuvem Negra”, é assim toda ela marcada pela isotopia do fogo, configurando-se, portanto, como um cenário infernal que apenas “a mancha negra” apaga, embora esta seja paradoxalmente a bandeira da fome, pois a trovoada e a chuva acarretam a paragem da ceifa e, portanto, um período de jornas perdidas. Por outro lado, a planície ribatejana surge-lhes como um longo espaço árido e uniforme, simultaneamente concentracionário e agorafóbico, em oposição à variedade paisagística da sua terra de origem. Esta clausura, embora temporária, é atravessada disforicamente pela isotopia da doença – a malária, “tributo sagrado a pagar todos os anos à Lezíria”. A ceifa, simbolicamente, funciona então como um vector (a foice) da morte e da fatal sujeição cíclica às safras que se contam pelas rugas da velha Ti Maria do Rosário, cujo estertor é uma antecipação do futuro de todos os gaibéus. Esta condição social do colectivo é metaforizada pela comparação destes seres ao universo animal (o rebanho) ou a um mecanismo – a máquina obedece e não pensa. Tal como as reses, os gaibéus são também marcados pelo fogo. No plano da isotopia sexual, realça-se a mercantilização do corpo das jovens camponesas, sendo Rosa o modelo da vítima da antropofagia sexual do patrão Agostinho Serra, famoso pelos seus símbolos de poder: o cavalo, o galgo e as cachopas submetidas para seu prazer em cada safra. Rosa projecta-se no futuro como a Balbina (ex-gaibéua) da Rua Pedro Dias, num processo de degradação que conduzirá fatalmente à prostituição. Contrastando, portanto, com o

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colectivo submisso e inconsciente no plano sociopolítico, o “ceifeiro rebelde” com a sua metafórica bússola, não só compreende as causas da submissão e sofrimento dos gaibéus, mas também detém o património do futuro pois, sem apego à terra, é um nómada que transporta consigo um sonho colectivo (“o futuro vivia dentro dele e de todos os outros homens”). Deste modo, há uma oposição entre o tempo cíclico dos gaibéus (o eterno retorno da submissão) e o tempo vectorial da possível libertação dos oprimidos – o caminho. Por isso, ele “Falava pelos homens que ainda se não haviam encontrado”. É também dele que vem a mensagem de uma universalidade dos explorados onde cabem gaibéus, rabezanos ou os negros em África, neste caso, numa sinalização anti-colonial. A exploração do homem como o dinheiro não tem fronteiras. Com a sua experiência de emigrante em África, procura desiludir os dois gaibéus que querem emigrar: “A África e o Brasil estão com a gente. Todo o mundo pode ser África e Brasil”. Esta mensagem, porém, não seria descodificada por estes, turbados pelo sonho do Eldorado, como alternativa à vida sem esperança no presente. A representação popular no romance é completada por uma voz cultural que se manifesta através da inserção de quadras ribatejanas, rimances (a lenda do pai do Cadete) e aforismos: “Barriga de pobre, de Inverno, não come“. É importante notar, por outro lado, que algumas das quadras populares presentes no romance estarão também incluídas na recolha colectiva organizada por Alves Redol, na obra Cancioneiro do Ribatejo (1950), tais são os casos de “Vai-te, sol, vai-te, sol”, “Rapaz de barrete verde” e “Vá lá uma fandangada”, merecendo especial destaque a primeira pela sua mensagem social: Vai-te, sol, vai-te, sol, Lá pra trás do barracão... ... És alegria prà gente. E tristeza prò patrão2.

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Frase reiterada ao longo da narrativa. Com ligeiras variantes no Cancioneiro do Ribatejo, Vila Franca de Xira, Centro Bibliográfico, 1950, p.196.

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Marés: ascensão e queda dum “parvenu” Em Marés (1941), o autor situa-nos de novo, nos primeiros quatro capítulos, no universo rural, onde nos confronta com situações de exploração envolvendo assalariados rurais, cuja condição pode coexistir com a de pequenos proprietários agrícolas, tal é o caso de João Diogo, o pai do protagonista, Francisco Diogo. Trata-se de uma zona do Ribatejo onde, diversamente das lezírias, ao lado da grande propriedade se alinham pequenas e médias courelas. Contrariamente a Gaibéus, nesta obra, o colectivo de trabalhadores está dividido em bairrismos e emulações individuais e, sendo a consciência uma manifestação do ser social, o sonho do camponês está enredado numa promoção social assente na posse da terra. No entanto, os condicionalismos económicos do pequeno proprietário João Diogo nem sequer possibilitam que o filho faça o exame da instrução primária e, em consequência, por proposta sua, se converta em marçano em Vila Franca de Xira, pois, como afirmava, “Isto de vida de campo é vida de servo”. Enquanto em Gaibéus, o protagonista colectivo ocupa o primeiro plano da cena narrativa, já em Marés há uma individualização do protagonista e a narração da sua ascensão e queda. Como o título indica, e a epígrafe reitera, “Em baixa-mar e praia-mar a vida agita-se como um grande oceano”. De facto, esta alegoria remete-nos para um movimento de fluxos e refluxos de uma vida, enquadrado num determinado contexto histórico (a acção narrativa decorre entre finais do século XIX e a crise mundial de 1929). Francisco Diogo nunca interiorizou o sentido da solidariedade num apelo comunitário, ele é, pelo contrário, um self-made man que acaba por ser totalmente cativado pelos valores egotistas em que se apoiou na sua luta pela ascensão social. A loja do patrão Antunes foi a sua escola da vida. Com este aprendeu as formas astuciosas e ilícitas de aumentar os seus lucros quando se tornou comerciante. Também a forma repressiva e violenta do patrão, em vez de gerar a sua rebeldia, tornou-o crente de que no mundo há lobos e cordeiros e só pertence à alcateia quem luta para lhe vestir a pele. Durante a 1ª República vêmo-lo, por isso, ocupado numa atitude anti-popular, na candonga, aquando do racionamento de alimentos no período da 1ª Guerra Mundial (1914-18).

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Com o craque americano de 1929, a crise internacionaliza-se e irá atingir Francisco Diogo que não resiste a forças económicas superiores à sua e acaba falido e na miséria. No último capítulo, “Caminhos opostos”, perdido na terra de ninguém (“Francisco da Silva Diogo – cobardia a retalho e por atacado” – um leitmotiv da fase decadente), ronda na noite como um cadáver ambulante, enquanto a buzina de uma fábrica ecoa e ele vê os operários que ocupam toda a estrada num caminho oposto ao seu: “Aquele grito ia para o futuro. E era ele que guiava os homens que tomavam toda a estrada”. O contraste enfático, entre os símbolos do progresso e do futuro e os do conservadorismo decadente encarnados pelo protagonista, constitui uma exemplar apoteose metafórica do conflito entre as forças da revolução e as da reacção.

Avieiros: os nómadas do rio Tejo Em Avieiros (1942), Alves Redol regressa à paisagem das lezírias e do Tejo para nos dar conta da vida desses “ciganos” do rio que ali se fixaram, vindos do longínquo e ingrato mar de Vieira de Leiria, que recordam com nostalgia e

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Alves Redol, 1940, Baleal

que encarna na figura mítica de Ti Lôbo. Nesta obra sobressai uma personagem feminina, Olinda, que, embora criada num ambiente “pequeno-burguês” – sendo filha de avieiros e nascida num saveiro, seria adoptada por um casal que não pertencia à comunidade –, seduzida pela voz do rio, apelando simultaneamente à nostálgica errância avieira e à sua auto-revelação erótica, se libertou do ambiente familiar onde vivia, para ela um espaço de clausura, e integrou-se, pelo casamento com Tóino, na comunidade piscatória. Será esta personagem que mais adequadamente procura fortalecer a identidade do colectivo avieiro, pois dela parte o apelo à união dos pescadores com o objectivo de criarem uma cooperativa e assim poderem competir com os concorrentes mais poderosos. A vida dos avieiros entrelaça-se desde o berço até à morte com o rio de quem dependem, num permanente esforço de sobrevivência, porque muitas vezes o peixe (sável, saboga, enguia e fataça, consoante o período do ano) é escasso e a situação agravava-se com a competição desleal da companha de José Malho, um empresário da pesca que se limitava a ficar nas margens, pois

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contava com o mestre Espanta para controlar os seus “alugados” e com o Tubarão, o fiscal da Senhora Companhia (a Companhia das Lezírias). Este é, aliás, para os pescadores, uma espécie de deus todo-poderoso do rio, com os seus códigos de fiscalização das redes utilizadas ao sabor dos seus interesses, tornando-se por isso o principal inimigo dos avieiros. O romance comporta uma vertente etnográfica, resultante da vivência temporária do autor numa aldeia de avieiros, de casas lacustres sujeitas às cheias do rio, podendo descrever os rituais da comunidade, do lúdico ao trágico, e simultaneamente exprimir uma poética do Tejo, ressaltando o cromatismo da flora nas suas margens ou as águas como espelho mágico dos sonhos dos homens e da natureza. O avieiro nasce e morre no saveiro (um berço e um túmulo), caso não tenha capacidade para construir a sua casa numa das aldeias à beira-rio (Palhota, Lezirão, Casa Branca, Vau, entre outras). Tóino e Olinda, só ao fim de algum tempo de labuta, conseguiram construir a sua barraca que seria parcialmente destruída por uma cheia mais violenta, para desespero do casal. O romance

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termina, aliás, com a acção convicta de Olinda, face à passividade do marido que se achava sem destino que justificasse viver. Era preciso reconstruir a casa, pois outro filho devia chegar pelas ceifas do trigo. Olinda seria a primeira personagem de Redol, excluindo o caso peculiar do “ceifeiro rebelde”, a dimensionar-se no enquadramento valorativo e actancial do “herói positivo”, enquanto ser no trânsito entre a solidão e a solidariedade, a submissão e a rebeldia, a alienação e a consciência política embrionária.

Fanga: da ilusão da posse da terra à rebeldia Com Fanga (1943), o autor regressa às relações de produção no mundo agrícola ribatejano. Neste caso, à tradição da fanga segundo a qual o dono da terra recebia do rendeiro sete partes da colheita, enquanto a este apenas cabia uma parte. O fangueiro é o resultado de uma cultura de submissão que aparentemente o libertava da condição de ganhão, criando a ilusão de que era o proprietário da terra. É uma tradição que passa de geração em geração, tendo esta actividade, portanto, um capital simbólico superior, na zona da Golegã, onde se passa a narrativa, ao dos jornaleiros. Começando a trabalhar ainda criança, e sendo o seu pai fangueiro, Manuel Caixinha insere-se, portanto, numa tradição que, quando a reconhece como uma forma superior de opressão, dela se liberta, contra a vontade preconceituosa da namorada, com a qual viria a romper, pois, para a família desta, transitar de fangueiro para ganhão era uma humilhante despromoção social. A aprendizagem social de Manuel Caixinha faz-se não só através do reconhecimento, enquanto trabalhador rural, da exploração de que era objecto, mas também da relação, ainda na fase da infância, com Josefino Barra, um camponês rebelde e comprometido na luta contra o patronato. Este transitara de um universo de luta (era dos poucos que sabia ler) e liderança para um cansaço ocasionado pelo facto de os seus companheiros terem deixado de acreditar no futuro. É este também que ensina Caixinha a ler, pois este compreende que o saber é uma força que ele reconhece naquele antigo lutador. O suicídio do pai de Manuel Caixinha numa alverca representou também para o filho uma lição

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dolorosa, tendo em conta que o pai cometeu tal acto pela sua condição de fangueiro arruinado. Já adulto, Caixinha passa pelo serviço militar onde conhece um operário do Entroncamento, Alfredo (um mero indicador prospectivo), que, depois da morte do Barra, pela sua cultura e consciência política, se torna o seu segundo conselheiro ideológico. Manuel Caixinha regressa mais consciente e lutará então nas praças de jorna por uma solidariedade entre os trabalhadores, independentemente da idade ou dos bairrismos. Pelas suas qualidades, enquanto trabalhador rural, ganha o apreço dos lavradores, pelo que facilmente arranja trabalho. Mas a sua vocação para a rebeldia vai-o capacitando no sentido de uma liderança, visando a desalienação dos seus companheiros. O tempo, anteriormente perdido na taberna, ocupa-o a ler, sendo nesse aspecto um exemplo de uma alternativa à evasão produzida pelo álcool. No entanto, nele coexistem, até a um certo momento, dois seres: o fangueiro/o “alugado”. Mas esta dualidade tenderá a diluir-se pela convicção de que o futuro passava pela ruptura com a instituição da fanga e, sequentemente, na crença de que a sua força de trabalho, embora sujeita à mercantilização das praças de jorna, seria um elo com os outros homens da sua igualha.

Porto Manso: o último arrais. Com Porto Manso (1946), iniciaria a sua saga romanesca na região do Douro. A temática da narrativa prende-se com o declínio de uma actividade profissional, os marinheiros dos rabelos que faziam o transporte de mercadorias, e particularmente do vinho do Porto, ao longo do rio, simultaneamente cúmplice e ardiloso. Com o advento do caminho-de-ferro – a que os marinheiros chamavam o Cavalo do Diabo –, aquele meio de transporte foi-se extinguindo por incapacidade de competição. Ficaram, no entanto, alguns resistentes, para os quais a tradição e a dignidade da sua profissão justificavam o esforço heróico de sobrevivência, acreditando ingenuamente que, no futuro, os rabelos teriam ainda a sua razão de ser. Era, para eles, um património sagrado, de afectos e saberes, que vinha de geração em geração com o valor de uma identidade forte, pois o sentido da sua vida cabia apenas na sua capacidade de conduzir os rabelos num diálogo permanente com o rio.

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O arrais António do Monte é o protagonista dessa resistência em Porto Manso, em função de um pacto firmado com seu pai, na hora da sua morte. Nestas terras de pequena e média lavoura, o trabalho escasseava, pois toda a actividade era dominada principalmente por abastados retornados brasileiros ou africanistas que, com as dificuldades económicas dos camponeses, iam engolindo as courelas que estes hipotecavam, sujeitando-os a juros muito elevados para a sua capacidade. Porto Manso, entalado “entre um braço de ferro e um braço de água feroz”, via os seus jovens partirem para o Porto ou para o estrangeiro, e só as raparigas ficavam, precocemente envelhecidas, na espera ansiosa dos noivos que, muitas vezes, não voltavam. O último arrais de Porto Manso vive o seu quotidiano com a nostalgia da idade do ouro daquele porto. Por isso, lutaria até ao fim, numa cegueira irracional, para manter a sua actividade de arrais: hipotecou as suas terras; trocou o rabelo por um barco mais pequeno; chegou a transportar mercadorias de contrabando, algo que repugnava à sua ética; até que um naufrágio viria a esgotar todos os meios que evitassem o

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fim. O tempo do progresso é assim um tempo carregado de contradições, de factos negativos e positivos, que vai deixando no caminho algumas vítimas: “O rabelo de hoje é uma saudade distante dos dias que se não repetem – porque os dias parecem iguais e são sempre diferentes”. Aquando de umas obras realizadas numa ponte, ao serviço da companhia dos caminhos-de-ferro, entre os operários está o seu filho, fruto de uma relação ocasional, que o procurará em sua casa. António, ao saber que o filho era operário dos caminhos-de-ferro, indigna-se pelo facto de ele colaborar com o seu inimigo. Este, porém, com convicção, fá-lo entender que os caminhos-de-ferro trouxeram consigo interesses antagónicos aos do povo local, mas, com ele, vieram também os operários que serão os artífices do futuro. Segundo esta razão dialéctica, é no negativo (a tragédia) que se gera o positivo (a esperança) e, por isso, pode orientar os homens mesmo aqueles que, numa visão fatalista, se acham num inferno de desesperança. Para memória do futuro ficaria em cada pedra do Douro assinalada uma lenda ou o nome do arrais que ali naufragou.

A trilogia do Ciclo Port-Wine. Antecedendo cada capítulo do romance, excepto o primeiro, há um curto texto que se abre liricamente a uma poética do Douro e dos seus homens e antecipa aquilo que virá a ser a sua trilogia romanesca designada como o Ciclo Port-Wine. Os três romances Horizonte Cerrado (1949), Os Homens e as Sombras (1951) e Vindima de Sangue (1953) terão como núcleo da narração a história dramática dos pequenos vinhateiros do Douro, representados em primeiro plano pela família dos Teimas, António e seu filho Francisco. Aquele representa a relação sagrada do homem com a terra-mãe e a vinha que criou heroicamente, contra a natureza agreste e as relações sociais de produção e comercialização nada favoráveis a esta pequena burguesia rural. No período de crise da filoxera, no último quartel do século XIX, António, ainda que arruinado pela dizimação das suas videiras, chegando a uma situação limite de miséria, com a sua teimosia e persistência, decidiu recomeçar do zero a sua actividade. É no quadro dessa conjuntura que a sua mulher se suicida. Já o filho, Francisco,

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embora colaborando com o pai, mostra-se renitente relativamente à viabilidade de um labor que mal dava para a sobrevivência. Neste antagonismo com o pai, chegaria mesmo a acusá-lo de ser o responsável pela morte da mãe, por causa da sua obsessiva relação com a terra, mesmo que ela fosse madrasta. Produtores sem lagar, estavam submetidos aos baixos valores oferecidos por grandes produtores ou comerciantes especuladores, tendo de recorrer, por vezes, à usura. No trânsito entre os produtores e os consumidores do afamado vinho do Porto, havia uma rede complexa de intermediários que eram afinal os grandes beneficiários de tal actividade. Nessa parte do bolo, tinham a parte de leão os comerciantes ingleses, instalados no Porto, que hegemonizavam o comércio de exportação. No último romance, aliás, o autor chega a enquadrar as histórias locais numa rede global que as acaba por relacionar inclusivamente com a luta pela hegemonia económica, política e militar dos imperialismos, na cena internacional. Os mais pequenos produtores, aqueles que não passavam das cinco pipas, viam-se assim, directa ou indirectamente, na dependência de interesses que nunca coincidiam com os seus e dos quais

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estavam alheados, porque a sua capacidade de compreensão dos factores da sua pobreza não transcendia os seus horizontes limitados. É, portanto, neste quadro conflitual que se move António Teimas, sempre na angústia de vender as suas uvas a preço muito baixo ou mesmo de não as vender por ausência de comprador. O seu poder de intervenção é quase nulo, porque o seu destino é muitas vezes ditado à distância e, por outro lado, porque, pertencendo a um grupo estigmatizado pelo seu individualismo, não tem capacidade para se tornar num elemento duma força colectiva reivindicativa. Num outro plano, pelo enquadramento histórico-social, apercebemo-nos da mobilidade interclassista. Há classes que declinam no plano económico-social ou político e outras que ascendem pelo seu poder crescente. Neste âmbito, paralelamente à história dos Teimas, os livros deste ciclo narram-nos as mudanças sociais, no plano das classes possidentes. A velha aristocracia fundiária, representada por D. Fernando Pimentel e seus filhos, pressente o seu crepúsculo enquanto classe e vê-se impotente para travar a mobilidade ascendente de homens com forte sentido de oportunidade e sem escrúpulos, tal é o caso da personagem Silva

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Costa, administrador das suas propriedades, a quem este, aliás, virá a recorrer, em função da vida faustosa da família, para empréstimos financeiros, e ao qual se sujeitará a vender uma boa parte do seu património. Sem consciência de classe, tanto os pequenos produtores como os jornaleiros, o ínfimo grupo na escala social, para já não falar dos ranchos que vêm de Trás-os-Montes e da Beira especialmente para a vindima, um “rebanho” convenientemente vigiado pelos rogadores e os feitores, são portanto vítimas fáceis dos senhores locais. Apenas os pequenos vinhateiros têm no Dr. Pimenta, médico e médio produtor, o porta-voz das suas reivindicações. Este chega mesmo a aconselhá-los a juntarem-se numa cooperativa, proposta nunca realizada, pois os camponeses não tinham uma visão solidária da defesa dos seus interesses. A sua relação de amor com a terra (a mítica mãe-terra) é sempre um caso pessoal que cada um cultiva e defende como pode. Há, porém, dois momentos em que a plebe se revolta, embora desprovida de qualquer estratégia na sua luta. No fim do primeiro volume, os camponeses indignados com os armazenistas especuladores que não hesitavam em vender vinhos do sul muito mais baratos mas de pior qualidade, como se fossem da região, ou

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mesmo em fazer vinho a martelo, enquanto as uvas dos pequenos produtores não se vendiam, avançam em bloco e acabam por incendiar os armazéns de Jerónimo, um ex-contrabandista que enriquecera com as suas manobras especulativas. Também, no último romance do ciclo, num epílogo violento, as camadas populares põem em causa o acordo do governo com a Inglaterra, segundo o qual era considerado vinho do Porto para exportação qualquer vinho produzido em Portugal, reivindicando também o fim dos impostos que sufocavam a lavoura. Nesta guerra entre o norte e o sul, estavam envolvidas todas as classes sociais possidentes do Douro, porque se sentiam ameaçadas pelos latifundiários do sul que, associados ao poder financeiro e ao político, queriam impor os seus vinhos em pé de igualdade com os do Douro. Este avanço do povo sobre a Câmara Municipal do concelho acabará tragicamente com a repressão das forças militares e um consequente número de mortos e feridos entre os manifestantes. Tudo isto revela, não tanto uma verdadeira consciência de grupo, mas talvez um instinto de classe que desabrocha numa situação-limite que os une na luta pela sobrevivência.

Histórias de amor e traição Francisco Teimas era viúvo com dois filhos pequenos que eram educados, depois da morte da mulher, pela sua cunhada Gracinda. Neste contacto doméstico, vai-se gerando uma atracção recíproca. Porém, Gracinda estava casada com um emigrante no Brasil. Francisco, depois de muitas hesitações psicológicas e morais, acaba por entabular uma relação amorosa com a cunhada que ambos escondem ao seu pai, António. Esta relação será pacífica, apesar da oposição paterna, quando disso se apercebe, até ao dia em que o marido de Gracinda, António Francisco, inesperadamente regressa do Brasil. Aquela, que tinha chegado a auxiliar os Teimas financeiramente com o pecúlio recebido do Brasil, fora tentando adiar tanto quanto possível o retorno do marido. Dividida entre dois desejos, o do amor e o da sua honra enquanto mulher casada, apesar das súplicas do amante, converte-se às regras da moralidade e, ainda que não ame o marido, rompe com o amante. Com uma voracidade singular, desvia o marido

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da actividade da terra que para ela, através do exemplo dos Teimas, só oferecia servidão, e transforma-o num agiota sem escrúpulos. Esta situação agudizará o ciúme e o ódio de Francisco que tentará mesmo agredir o marido de Gracinda, num gesto de desespero. Este viria a ser assassinado por um dos mais pobres produtores de vinho da aldeia, Manuel Inverno, revoltado com o comportamento soberbo e sem escrúpulos do usurário. Francisco, despeitado e em antagonismo com o pai, afasta-se durante dois anos da aldeia, onde ganha uma nova consciência social enquanto ganhão e mais tarde como operário nos caminhos-de-ferro. Aqui conhece Álvaro, um seu camarada de trabalho, mais culto e com uma formação política consolidada, que não só o ensina a ler, mas também o leva a entender o conteúdo social da revolução dos oprimidos. É também nessa conjuntura que, durante uma greve dos trabalhadores do caminho-de-ferro, se apercebe da débil consciência política dos seus colegas, ex-camponeses como ele, que se excluem da participação nessa luta. Ao regressar, Gracinda tenta uma nova aproximação a Francisco, o que este recusa, pois não fora curada a ferida provocada pela traição da amante. Só dela se aproximará quando se torna um dos líderes da rebelião popular acima referida, e ela se envolve com um entusiasmo sincero no movimento. Na sequência final de Vindima de Sangue, Gracinda conta-se entre o número dos mortos, o que a resgatará dos seus comportamentos anteriores e a colocará na senda do martirológio popular.

Olhos de Água: as narrativas populares ribatejanas Em 1936, o escritor alemão Walter Benjamin (1892-1940), um dos muitos intelectuais judeus e de formação marxista perseguidos pelo nazismo, referia, com certa nostalgia, que “a arte de contar está a perder-se. É cada vez mais raro encontrar pessoas que saibam narrar uma história”. Este saber artesanal no âmbito da cultura popular tradicional estava associado à oralidade e à sua capacidade inventiva. Ora o contador popular foi desaparecendo com a emergência de novos modos de comunicar que o progresso tecnológico viabilizou e com o desaparecimento

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de certos modos de sociabilidade específicos da pré-modernidade. E o jeito de contar histórias era um dom que alguns possuíam e que, muitas vezes, se transmitia de geração em geração. Segundo Walter Benjamin, o romance, enquanto género literário, não dependeria dessa ancestral tradição oral (contos, lendas, quadras, etc.). O lugar de nascimento e de feitura do romance seria então o do indivíduo solitário. Enquanto a narrativa oral pressupunha a comunidade, relações de convivialidade colectiva, já o romance, pelo contrário, se adequaria a uma sociedade não só cada vez mais individualizada, mas também mais próxima de um estatuto inexorável da solidão do criador/romancista. Contudo, um dos aspectos mais peculiares do Neo-Realismo literário, em Portugal, residiu na tentativa, tal o caso de Alves Redol, de incorporar criativamente as narrativas orais da tradição popular na literatura erudita. Aliás, um propósito que se integrava cabalmente no esboço de convivialidade dialogal entre o autor neo-realista e a colectividade. E essa comunidade de diálogos e afectos pressuporia também um enraizamento telúrico específico – uma poética da terra como corpo metafórico da obra. É nesse sentido que na maioria dos romances de Alves Redol se

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pode falar de uma poética do Tejo e das lezírias ribatejanas. A fundamentação e a legitimidade de tal apropriação etnográfica da paisagem e dos seus povoadores iria Alves Redol encontrá-las na herança do nacionalismo romântico de Almeida Garrett. Para o autor de Fanga, era importante, por um lado, apropriar-se criativamente da voz cultural do povo a nível da ficção “culta”, e, por outro, publicitar junto do povo a sua voz colectiva. Daí, como referimos atrás, o seu esforço etnográfico na recolha e publicitação de elementos culturais específicos das comunidades rurais ribatejanas; ou, num plano mais amplo, o Romanceiro Geral do Povo Português (1964), do mesmo modo que os seus romances incorporaram e recriaram histórias, lendas e quadras da tradição oral popular ribatejana, numa articulação singular entre a cultura erudita e a cultura popular, porque, para o autor, de uma forma quase diríamos utópica, “com esse povo se renovará o sentido da poesia da vida, pois no futuro se cimentará a comunhão da popular e da culta, para que possa ser uma verdadeira poesia nacional”3. Com Olhos de Água (1954), Alves Redol, que regressa à temática ribatejana, procura conjugar a sua específica prosa poética com as narrativas do povo numa inscrição da paisagem e das mitologias dos seus povoadores, enquanto espaço simbólico que simultaneamente escuta e transforma a voz popular numa peculiar simbiose, vizinha de uma moderna epopeia colectiva. O romance é, assim, no seu aparente caos, a encenação da voz colectiva de uma vila ribeirinha: “rolheiro de gente que trato por tu e que colhi na intimidade dos meus afectos mais puros”. Daí que o Largo da estação do Caminho-de-Ferro da vila ribeirinha aí possa ser nomeado como a Arcádia dos contadores de histórias desse pequeno espaço urbano (lendas, histórias desgarradas, notas de reportagem, crónicas, etc.). A memória narrativa centra-se, portanto, nos diversos grupos sociais e na variedade das suas vozes culturais – dos campinos, artesãos, gaibéus, valadores e pescadores, à aristocracia rural com o seu perfil marialva –, e no trânsito entre as intrigas provincianas, forjadas em função das pequenas lutas pelo prestígio ou pelo poder – as “grandezas”, baixezas e delírios de uma burguesia provinciana (o comerciante

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Serafim; o Dr. Leonardo; o Dr. Carvalho do Ó e o seu arquetípico patrioteirismo salazarista, entre outros) –, e o universo popular (onde também ressaltam os meninos da rua com as suas tropelias rebeldes; o Bairro das Virtudes – a estrumeira da vila – onde, no entanto, se geram belas raparigas requisitadas hipócrita e clandestinamente pelos senhores da vila; e os amores e desamores de campinos e gaibéuas). Neste universo narrativo centrífugo, realçam-se também as histórias magoadas dos sonhadores frustrados: Salomão Maragato, o violinista fracassado; o toureiro, o “noivo da morte”; o correeiro Zé Faz-Cavalos que assimila delirantemente, quão grande era a mágoa, o seu filho morto ao Salvador; Júlio Sapo, o burocrata soberbo a esconder uma íntima frustração amorosa e profissional; Mestre Ganau e o seu barco Liberdade; a bela Milinha, simultaneamente tão desejada e mergulhada numa espera eternizada do amante ideal; o emigrante clandestino na América cuja desilusão o leva a trocar os sonhos desfeitos no Eldorado pela memória desses sonhos gastronómicos carregados de afectos e nostalgias (“Os Sonhos”); ou o trabalhador da construção civil desempregado, num subúrbio de Lisboa, e nostálgico da sua vila natal, que acaba por ser preso por ter agredido a amarga mulher quando esta lhe destruiu o seu humilde craveiro (o único halo da sua vida). Por outro lado, as narrativas em torno do lavrador patrão Augusto e dos seus três filhos, precursores da emblemática marialva de Diogo Relvas de Barranco de Cegos, ocupam uma parte da obra e desenvolvem uma liturgia do poder, polarizada na relação simbólica entre o cavaleiro e o cavalo, o senhor e o servo, o homem e a mulher sobretudo a de condição social inferior. O heroísmo marialva funda-se no ritual da posse e pressupõe uma valentia que muitas vezes degenera em vilania. Por isso a jovem prostituta, sequestrada por Manuel Pedro, a “eguazinha”, será ferrada com um M no ombro, num verdadeiro sentido sacral da posse. Estes rituais consagrados pela fusão mítica entre o cavaleiro e o cavalo, o macho e

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Cancioneiro do Ribatejo, Vila Franca de Xira, Centro Bibliográfico, 1950, p.45.

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a fêmea, constituem um delírio do poder e da sua exibição pública, daí o intertexto no qual o narrador estabelece uma analogia entre o sadismo marialva e o praticado pelos nazis relativamente às mulheres judias. Porém, os jogos da violência nem sempre acabam com um happy end para o “vilão”, pois o filho do meio, José Luís, será atraiçoado pelo medo, aquando da tourada iniciática, e o mais velho, João Roaz, um praticante ritualístico da violência sobre os mais fracos, acabará assassinado pela navalha expedita de um barqueiro. Mas a maior das desonras está no epílogo da vida do patrão Augusto, quando na sua decadência e na do seu velho cavalo Madrugador, é parodiado em plena feira e se sujeita, ferido o seu orgulho marialva, a um suicídio lento. O romance desperta tanto uma nostalgia por um mundo que morreu ou está a morrer ante o inexorável progresso, como uma esperança nebulosa segundo a qual “as raízes dos sonhos bem presas ao sangue dos homens” poderão irradiar numa vila renascida, embora se saiba que o milagre dessa Primavera só pode vir dos homens: “Talvez uma charrua de sol com que hão-de revolver as entranhas dos poisios, para neles se abrirem as searas de uma paz dinâmica” (“Uma charrua de sol”). Entre a gangrena e o sonho, o heroísmo e o pícaro, o real e o lendário, num hibridismo singular, as histórias cruzam-se, intercalam-se, apegam-se, de molde a proliferarem como as bolhas dos “olhos de água”. Da nascente da vila/ vida irradiam estes relatos de circunstância que estruturam o romance numa escrita que se molda, de certa forma, em função de uma oralidade simultaneamente próxima e distante.

A Barca dos Sete Lemes: as metamorfoses dum homem do povo No romance A Barca dos Sete Lemes (1958), o autor manter-se-á na tópica ribatejana que apenas será interrompida pela publicação de Uma Fenda na Muralha (1959) – romance que tem por tema o drama psicossociológico dos pescadores da Nazaré – e de O Cavalo Espantado (1960). Aquela obra instala-nos numa prisão em Paris, durante a 2ª Guerra Mundial, onde coabitam presos políticos e de delito comum. O narrador-escritor, militante português da “Resistência”,

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encontra-se aí por acaso com Alcides ou Cidro, um seu patrício ribatejano, preso pelo homicídio dum francês, encarregado da fábrica onde trabalhava, e com o qual se desentendera por aquele desconfiar com soberba da sua honestidade. Aliás, como o autor explicita, a prisão é um mero cenário que serve sobretudo para tornar verosímil o encontro entre dois ribatejanos de distintos

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grupos sociais e com visões e experiências do mundo antagónicas. Não sendo, portanto, um romance de prisão, o narrador-escritor não deixa todavia de enunciar as condições de tortura e humilhação (nos extractos destacados e intitulados “Os Gritos Silenciosos”) a que estavam ritualisticamente sujeitos os presos políticos ou as reservas próprias de um lutador clandestino, sob a pressão da polícia, e por isso sujeito às suas provocações e armadilhas. Quando Alcides o procura para dialogar, hesita fazê-lo pela desconfiança e o desconforto que a figura daquele preso de delito comum de imediato lhe sugeriu, sobretudo pelo modo exuberante como provocava agressivamente os outros presos políticos, particularmente os judeus. Relativamente vencidas as primeiras resistências e apesar das distâncias sociopolíticas, estabelece-se um singular pacto entre o narrador-escritor e aquele. Para matarem o longo tempo de prisão e face a um destino imprevisível, algo que ambos tinham em comum, além da terra de origem e a ocasional proximidade física, Alcides contaria a sua história ao autor-narrador e este escrevê-la-ia. Entretanto, no decorrer da escrita, o autor iria lendo a Alcides as passagens que do “real oralizado” transitavam para o registo “ficcional”. Tratar-se-ia aparentemente, neste plano, daquilo a que se chama récit de vie ou história oral, transposta mediatamente para o domínio da escrita: “O romance que eu escrevia e ele vivia. O drama estava na diferença destas posições opostas que seria preciso harmonizar. O que só às vezes pude conseguir”. Neste caso, não sendo o “real” ficcionado o correspondente exacto da verdade objectiva tal como o “biografado” a entendia, este poderia interromper e comentar o escrito, sempre que houvesse inadequação com o seu ponto de vista ou com as emoções vividas relativamente aos eventos fixados pelo autor. Aliás, o “real”, quando verbalizado, vem sempre carregado da subjectividade do enunciador, da sua relação tensa com o vivido, dos desvios entre os factos datados e a sua rememoração e do ponto de vista que enquadra os acontecimentos. Os eventos do “real” não existem, pois, sem uma interpretação, ou seja, um modo específico de ver/ler o mundo. Daí o choque frequente, pelo modo de narrar, de ordenar os factos e

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de os avaliar, entre o escritor e o interlocutor biografado. Daqui decorrem as frequentes interrupções do auditor-enunciador quando notava imprecisões na interpretação do escritor. Por outro lado, havia ainda, para lá da comum origem geográfica, uma outra relação de cumplicidade entre os dois, pois o pai de Alcides, o cocheiro Bago de Milho, femeeiro e bebedolas, tinha sido aprendiz de seu avô, o ferreiro Venâncio, pelo que o autor dele bem se lembrava, já que muito apreciava as histórias que daquele lhe contava, assim como as da sua vida atribulada após o nascimento do filho e que, neste relato, ia também dando testemunho. Ora a história de Alcides Bago de Milho (o homem das sete sucessivas alcunhas) começa no Ribatejo e pelo seu nascimento na noite de Consoada. Daí a sacralizada alcunha de Menino Jesus, dado que, como o filho de Deus, nasceu também numa manjedoura, pelo que umas irmãs beatas, que, mais tarde, o acolheriam e baptizariam contra a vontade do pai, com os seus escrúpulos de republicano jacobino e o seu sentimento de pai amputado, quiseram logo, a seu propósito, falar de milagre. Porém, o recém-nascido depressa se tornaria o Menino Maldito, pois, duplamente órfão dos pais biológicos e da mãe adoptiva, após a epidemia da pneumónica, em 1918, quem o recolhera posteriormente admitia mesmo que os azares do mundo se deviam ao feitiço diabólico do menino, já que como o padre, numa figuração burlesca, cepticamente vaticinara à sua nascença, tanto podia ser um aliado de Satanás como o milagre da Natividade repetido. A sua última alcunha seria a sétima, o número simbólico dum fim de ciclo, o Chacal. Então a narrativa será uma longa analepse onde se relatam as sete metamorfoses do “herói”, ou melhor, anti-herói, e do modo como larga a pele em cada uma delas. E, como a literatura, e a arte em geral, também tem uma função cognitiva, esta transição da autobiografia oralizada para a escrita, para lá das várias peripécias, procura dar-nos a entender como um homem, filho de um humilde cocheiro, se transforma, na fase final da sua vida, num carrasco, sem qualquer convicção ideológica, esvaziado de valores ou ludibriado por falsos valores, ao serviço de uma organização militar, em Marrocos, colonialista e fascista,

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ou seja, a Legião Estrangeira, componente do exército que lutava contra os nacionalistas marroquinos. Como saltou para o outro lado da barricada social e política, numa traição de classe que nunca pôde consciencializar, é, pois, a questão que se coloca ao narrador. Não vemos o que queremos mas aquilo que a ideologia ou a sua ausência niilista nos deixa ver. É, pois, neste aspecto, que há um plano superior que implica um texto explicativo relativo ao objecto da narração. Ou seja, o narrador sabe mais globalmente da vida do “biografado”, porque tem a capacidade de integrar a sua pequena história numa estrutura mais ampla que lhe dá um novo significado, apesar das dúvidas e interrogações, do que aquilo que este pode saber. Daí as múltiplas divergências entre o narrador e o sujeito-objecto da narração, incluindo aquelas que dizem respeito à verdade sobre certas personagens e que o olhar ou a memória do narrador involuntariamente falseiam. Tal é o caso da regente do asilo para órfãos onde Alcides foi recolhido, depois da pneumónica, que é objecto de avaliações opostas em função dos contextos vivenciais e dos pontos de vista que estruturam a enunciação. Aquela, para o autor, era uma mulher quase esbelta e agradável, já para Alcides, que com ela lidou directamente, ela era o demónio que estaria na base do evento fundador – apavorado com a regente, estrangularia involuntariamente uma pomba – de uma culpabilidade recalcada (a mácula original) que o marcará para sempre e do percurso da sua maldição (o túnel negro da vida). Alcides foi, no trânsito da sua vida, inicialmente adoptado por umas irmãs velhas beatas; asilado; caixeiro do senhor Lobato (personagem análoga ao Antunes de Marés), que o viria a acusar injustamente de roubo, sendo por isso preso e tornando-se descrente dos valores humanos; amigo e colaborador do velho João da Mula Brava e da sua jovem mulher, Mariana, na venda e na sua oficina de ferreiro – amizade que acabaria por trair, ao relacionar-se, num dia de ausência do patrão, sexualmente com a mulher daquele; trabalhador da ceifa com os gaibéus; valador e finalmente emigrante, quando sentiu, acossado pela fome, que todas as portas se lhe fechavam em Portugal e que, sem o saber, se destinava com outros companheiros a uma

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integração na Legião Estrangeira. Aí aprende a sinistra arte de matar sem remorsos, ainda que alguns momentos de insegurança o levassem a esboçar uma imagem de má consciência residual e de um mal-estar difuso, depois de uma matança nocturna de prisioneiros com um tiro na nuca, o que o levaria a jurar a si próprio que nunca mais mataria alguém à noite. É óbvio que qualquer insegurança visível era de imediato punida pelos comandos e o caminho não tinha regresso, embora o autor, ao comentar essa situação, lhe sugerisse que um homem pode sempre escolher a morte quando o querem aviltar, algo que Alcides, porém, não poderia entender. Este “carrasco” é o mesmo que matará, já em França, sem qualquer má consciência, porque ilusoriamente legitimado pelos falsos valores do seu “heroísmo” legionário, o encarregado da fábrica onde trabalhava, por uma mera questão do seu código de honra. Abandonado no tribunal por aqueles de quem esperava auxílio, após o julgamento, regressa desesperado à prisão duplamente condenado: pela traição dos seu antigos companheiros na guerra e pela leitura que o tribunal fizera do seu “inocente” acto de honra. Terá alguma vez sentido, enquanto maltês ribatejano, explorado onde trabalho houvesse, algum sentimento de revolta social? Na sua errância, após a partida da taberna do Mula Brava, onde passara os momentos mais belos da sua vida – aí aprendendo mesmo a tocar harmónio e a animar os bailes do ranchos da Lezíria –, já que não suportava a ideia de ter traído quem o tratara com tanto afecto e sabedoria, é contratado para trabalhar como valador, na companhia de malteses e gaibéus, para substituir os trabalhadores em greve. Numa solidariedade espontânea, recusar-se-ia a trair os grevistas e desiste dessa empreitada. Porém, esta personagem insere-se sobretudo no tema recorrente, no romance do século XX, do homem acossado que, na sua solidão, não encontra um quadro de referência moral, daí a sua recorrente metáfora do túnel, no qual sempre confessara viver, como se numa labiríntica noite eternizada. De Menino Jesus (a pulsão de vida) a Chacal (a pulsão de morte – convenientemente assinalada no seu corpo tatuado com uma caveira), Alcides viria a ser condenado à prisão perpétua, a última

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fase da sua viagem ao longo do túnel da sua vida destruída, embora “uns restos humanos” transparecessem ainda através da sua “voz ansiosa e profunda”. Este romance é também uma reflexão autoral sobre a capacidade da ficção imitar o real ou de o transcender, enquanto matéria-prima da narração. Transfigurando-o e criando desse modo um novo real, numa tensa harmonia entre o enunciador e o enunciado, a ficção mais do que imitar o real cria uma nova realidade. O outro social reconstruído pela ficção romanesca não é, pois, uma mera reprodução especular, mas sobretudo o efeito de uma tensão criativa entre a história e os modos de a narrar. Quem conta (escreve) um “conto” acrescenta-lhe sempre um ponto de vista, vivências experienciadas e um estilo de narrar. E é, aliás, esse acréscimo simultaneamente social e individual que revela a arte do contador/escritor de histórias.

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Barranco de Cegos: as liturgias do poder totalitário Entre Gaibéus e Barranco de Cegos (1962) distam mais de 20 anos e, embora haja óbvias linhas de continuidade entre cada uma das obras (a dialéctica classista latifundiários/camponeses ou a centração na paisagem ribatejana), são bem visíveis as diferenças qualitativas no quadro de um amadurecimento da técnica romanesca, da debilitação da omnisciência do narrador, da fecundidade semântica germinada a partir de um cruzamento de vozes sociais e de uma distância crítica relativamente aos propósitos “documentaristas”ou à encenação mimética da primeira obra. Embora, em ambos os romances, as situações individuais radiquem no tecido social e nas suas tensões, numa íntima conexão entre a consciência das personagens e o seu ser social, o seu imaginário e o seu enquadramento geográfico, ao esquematismo maniqueísta e estereotipado como concebe o campo dos proprietários em Gaibéus sucede, em Barranco de Cegos, um aprofundamento das contradições psicossociológicas e o desenvolvimento das codificações simbólicas em torno do protagonista, neste caso o latifundiário Diogo Relvas, relativamente à sua mitologia telúrica ou aos seus rituais do poder.

Do romance histórico ao romance como alegoria sociopolítica A acção inicia-se em, 1891, ano duma profunda crise financeira e bancária (A “semana negra”, 1º capítulo do romance) e da Revolta Republicana de 31 de Janeiro; sendo posteriormente mencionados outros eventos históricos: a convenção secreta entre a Inglaterra e a Alemanha para uma eventual partilha das colónias portuguesas (1898); a ditadura de João Franco (1907); o Regicídio (1908); a Revolução Republicana de 1910; e, em analepses, a Guerra Civil entre liberais e absolutistas (1832-1834). E, embora não haja referências directas à Revolução de 28 de Maio ou à sequente ditadura salazarista, esse período está presente mas apenas no plano mítico-simbólico. Os eventos mencionados servem, aliás, sobretudo para ancorar as personagens num tempo e num espaço propiciadores de uma leitura alegórica do universo ficcional narrado. Para além disso, o romance é uma representação das liturgias do poder

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totalitário, pelo que transcende o tempo histórico em que radica explicitamente a sua acção. Com efeito, não se trata de um romance histórico propriamente dito, mas de uma narrativa que se projecta na história portuguesa como modo de iluminação (revelação) relativamente a um presente bloqueado e absurdo, numa surdez dos homens relativamente aos apelos da História, tal o sentido da epígrafe de S. Mateus (“Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco”) que se reitera no próprio título da obra e pode ser considerada um leitmotiv desta. Essa cegueira é tanto a metáfora de uma aristocracia agrária em declínio, como o símbolo mais abrangente de uma sociedade compulsivamente excluída da dinâmica temporal, porque habitada por um passado mais ou menos fantasmático: uma mitologia agrária a sustentar um poder senhorial; um “feudalismo” anacrónico apesar da revolução liberal (1832-34) e da republicana (1910).

Um tradicionalismo dinâmico: a terra, o sangue e os mortos O nacionalismo agrário, personificado por Diogo Relvas, funda-se na sagrada trilogia da terra, do sangue e dos mortos, tendo aqui o seu romance exemplar no panorama cultural português do século XX. É, pois, neste contexto simbólico que se estrutura a personagem de Diogo Relvas (o Rei-Deus dos agrários) faseada entre o período do apogeu (“O Livro das Horas Plenas”), o do declínio (“O Livro das Horas Amargas”) e o da vida depois da morte (“O Livro das Horas Absurdas”). Através do percurso do protagonista estabelecem-se os fundamentos e a liturgia do poder absoluto de origem divina. Aliás, é pertinente o facto de a obra se fasear em função de um simbólico livro de orações. A cenografia ritualística do poder totalitário (uma ficção da comunhão entre senhor e servos) cristaliza-se no território mítico de Aldebarã (topónimo que remete para a simbologia da estrela real da constelação do Touro, representada por um olho), com o seu palácio Mãe-do-Sol, as cabeças embalsamadas de um touro negro e de dois cavalos, cada um deles respectivamente emblemáticos do liberal D. Pedro e do absolutista

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Alves Redol, início dos anos 60, Freixial

D. Miguel, (a encenação animal da fusão da lucidez e da violência). É um espaço, com fronteiras bem delimitadas, submetido ao poder do senhor da terra, uma luz a dar sentido único às coisas e aos seres. Baseando-se numa cultura da força (para este, o mundo divide-se em fortes e fracos, por vezes independentemente do estatuto social), a física ou a psicológica redobram a económico-política, da dignidade marialva (a supremacia machista) e da astúcia própria do dominante (as metáforas do chicote e do açúcar são aí nucleares), Diogo Relvas exprime na globalidade o perfil do autoritarismo sem limites, fundado na legitimidade de uma tradição “feudal” que teria, no plano da História nacional, a ideologia miguelista como fundamental modelo orientador, e, embora o pai João fosse adepto, mais por acomodação do que por ideal, do liberalismo, os compromissos ideológicos daquele perfilavam-se na linha absolutista do seu avô Chicote. O povo será, por isso, para Diogo Relvas, uma entidade concreta submetida à vontade imperial do doador (a negocial é mais aparente do que real) e nunca uma entidade abstracta, com direito à liberdade, como pretendiam os ideólogos progressistas, aliás, nas suas palavras, uma emanação demoníaca. É em nome da paz, da ordem, da prevalência dos valores religiosos, da hierarquia tradicional e da dignidade senhorial que Diogo Relvas arquitecta

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um discurso ideológico aparentemente sem fissuras, fundado na posse da terra, a madre das nossas virtudes rácicas. A terra é nele um prolongamento do corpo e da voz do poder. Por isso, para ele, ninguém pode imitar a terra. A sacralização bucólica da terra anda, portanto, a par da sacralização do seu poder. A Torre dos Quatro Ventos (a rosa dos quatro ventos – um axis mundi) é, nesta perspectiva, o símbolo por excelência do poder totalitário. E este não só se exerce no quadro de uma relação classista (senhor/servos), mas também patriarcalmente no interior da família Relvas ou nas relações interiores à classe proprietária (nas tensões entre os interesses agrários e os industriais, por exemplo). A Torre dos Quatro Ventos é por isso o ritualístico espaço secreto e fantasmático dos encontros de Diogo Relvas com os seus antepassados mortos: o avô Chicote e o pai João, simultaneamente seus confidentes e conselheiros. É aí também que, já consciente do seu declínio, num ritual sucessório, transmitirá todos os seus poderes ao neto mais velho Rui Diogo. Contra o tempo e a História, Diogo Relvas luta pela preservação de um território (o sagrado e luminoso Aldebarã) liberto da mácula industrial ou das ideologias sindicais ou socialistas que esta espoleta como uma catastrófica ameaça exterior contra a paz rural desse território imaculado. O romance estrutura-se, pois, a partir da oposição entre um fictício território de pureza e um espaço exterior povoado de elementos ameaçadores (republicanos, sindicalistas, anarquistas ou maçónicos), porque põem em causa a ordem ancestral do território do grande agrário. E, se, eventualmente, pode pactuar tacticamente com o progresso industrial, fá-lo no quadro da valorização do seu poder financeiro, mas de molde não só a não pôr em causa, mas também a reforçar a integridade e a pureza desse mundo rural de almas mortas. E, para segurança absoluta deste reino, o padre Alvim consagrava-o teologicamente: “Aqui estamos em pleno Céu; aqui se faz na Terra o que o Céu manda. E, por isso, a própria aldeia que esta casa fez, e em boa hora, para os seus servos, tem o nome de Aldebarã, que os antigos consideravam uma das quatro partes em que o Céu se divide”.

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E, neste Reino, como é óbvio, todos aqueles que, como o campino promovido a domador de cavalos, Zé Pedro, ao envolver-se eroticamente com a filha mais nova de Diogo Relvas, Maria do Pilar, infringem as regras sagradas da hierarquia social, são punidos, neste caso, com a castração e o homicídio cometidos, a mando do senhor, por Chico Bem-Fadado, um perito alentejano em tais matérias, tal como era hábito fazer-se aos touros de mau porte. Perante a crescente ameaça duma catástrofe social – mesmo numa fábrica têxtil, que lhe coubera por herança da mulher, as operárias atreviam-se a fazer greve, reivindicando horários de 10 horas e salários iguais aos dos homens –, Diogo Relvas defendia um tradicionalismo dinâmico, baseado nos valores da terra e da lavoura, fonte primordial das nossas virtudes rácicas, associados aos da nossa histórica vocação evangelizadora pelo mundo. E, contra as subversivas ideologias estrangeiradas, sobretudo as francesas, propunha retoricamente o estabelecimento de “um cordão sanitário” entre nós e os Pirinéus. A liberdade era um perigo quando a aproximavam malevolamente dos ouvidos e bocas do povo. A sua desconfiança ia, pois, tanto para os “letrados” como para certa imprensa que defendiam a instrução do povo. Portugal, mais do que qualquer nação, com esta fusão ideal da aldeia mítica e do império ultramarino, poderia então ser o verdadeiro núcleo duro da Europa. Mas para isso, não servindo já o liberalismo na preservação da essência da nação, urgia criar uma ditadura que restaurasse os antigos valores da pátria rural, ameaçada por uma modernidade industrialista e democrática. O espírito de missão seria a força capaz de derrotar as tendências ideológicas desnacionalizadoras, despertando os portugueses afectados por um sonambulismo paralisante.

As relações de poder a nível familiar No quadro de um casticismo rural marialva, a mulher é, embora foco de sedução, por natureza, um ser condenado à suspeição na linha de uma certa leitura bíblica. A misoginia dominante conduz, pois, a uma hiperbolização da figura da mulher-objecto. E, quando a rebeldia se esboça (Emília Adelaide ou Maria do Pilar), acaba por prevalecer a vontade de Diogo Relvas, mesmo

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que o castigo imposto às suas filhas abra feridas incuráveis nesse deus punidor. Porém, superando-se um mero esquematismo valorativo, convém referir que Emília Adelaide, a filha mais velha, conjugava no seu íntimo o fascínio e a repulsa pelo seu pai. Viúva aos vinte anos – o seu marido Rui Araújo, com o qual casara contra a vontade do pai, por este o considerar devasso e um fraco, seria uma das vítimas da bancarrota de 91 –, com dois filhos e grávida dum terceiro, deixaria registado, no seu “diário” (o espelho secreto da sua interioridade), o desconforto da sua presença em Aldebarã que se fora tornando, para ela, um significativo “inferno manso”. Com efeito, as relações com o pai haviam-se agravado, pois este, num acto de tirania misógino, não lhe permitiria sequer um novo casamento. A mulher, na codificação machista, tem sempre uma virtual falta a redimir e por isso uma punição resgatadora à sua espera. Milai passaria então a residir em Lisboa, onde levaria uma vida pública de libertinagem mais por oposição perversa ao pai do que por desejo. Oito anos depois, aquando do enterro do irmão mais velho, regressa a Aldebarã e ao “diário”, a que passa a chamar especularmente o “cemitério” das suas “ilusões”. E confessa, num virtual desejo incestuoso, que apenas seria capaz do exercício da paixão, caso conhecesse um homem como seu pai. Há, pois, uma interiorização feminina deste modelo de supremacia machista e patriarcal. Aliás, com perto de 40 anos, regressaria definitivamente a Aldebarã, subjugada a um imperativo afecto por seu pai. É, portanto, uma personagem que, apesar da sua fuga para Lisboa, nunca se libertaria da aura paterna, ficando para sempre amputada da sua autonomia enquanto mulher. Quanto à sua irmã, Maria do Pilar, condenada por seu pai a um longínquo desterro no monte de Cuba, no Alentejo, onde viria a morrer, por causa da sua relação erótica e associal com o campino Zé Pedro, interiorizaria também de tal modo a cultura patriarcal que nunca pôde amar autenticamente aquele, pois a moral paterna nela inscrita impediu-a de superar a visão desse outro como um servo, embora objecto erótico (“o lobo bonito”), e não apenas como um homem. Maria do Pilar, a filha preferida do pai, vivia, de resto, em função de uma culpabilidade

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interiorizada, pois a mãe morreria na sequência do seu parto, sendo essa mácula acicatada pelo ódio dos irmãos que, quando crianças chegavam a agredi-la, em lúdicos sadismos, como forma de vingança. Esse complexo de culpa projectar-se-ia no modo como se antevia, ora sob o pavor de vir a ser mãe ora sob a exaltação do seu instinto maternal. Daí que Zé Pedro lhe possa sugerir ambivalentemente tanto o amante como “o filho imaginário”. A macha-fêmea, como era designada pelas velhas de Aldebarã, pelo seu jeito de cavalgar, é, na sua androginia simbólica, tanto a projecção do orgulho senhorial do pai, como a feminilidade perturbada pela instância auto-acusatória, resultante da sua geração ser a causa de uma mãe desde sempre ausente. A sua relutância em relação ao jovem domador de cavalos resultaria quer dos códigos sociais dominantes, quer da sua ambivalência no plano sexual. Caberia, no entanto, a Miss Curry, a preceptora inglesa, um vector portador de impureza, enquanto elemento exterior ao território de Aldebarã, o papel de iniciadora, activadora e mediadora das fantasias eróticas que conduziriam, ultrapassadas as resistências iniciais, Maria do Pilar à perdição e à morte. O erotismo é, na lógica marialva, um negócio masculino, e à mulher infractora caberá a mancha da perdição. A mulher ou é uma mera reprodutora, normalmente de sangue fraco, caso não tenha a ascendência dos Relvas, ou uma prostituta virtual. A genealogia pura está, aliás, para o patriarca, nos Relvas, já que toda a inevitável fusão é objecto virtual de suspeição, como se pode ver no modo como avalia as mortes prematuras da mulher, Maria Rolin Villaverde, e do genro Rui Araújo, gente de sangue fraco. Todos os traços negativos por ele reconhecidos nos descendentes, filhos ou netos, integra-os de imediato nos defeitos da linhagem alheia. E se os homens como os cavalos se devem seleccionar, reconhece que na escolha da mulher se teria talvez enganado. É, no entanto, mais fácil atingir nestes do que naqueles a raça pura idelizada por Diogo Relvas.

O crepúsculo de um deus agrário A ambivalência afectiva em relação ao poder está bem representada nesta obra, pois mesmo os servos de Aldebarã manifestam por Diogo

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Relvas um misto de devoção ritualística e ódio. Simultaneamente amam-no como a um deus e odeiam-no como a um tirano, excepção para aqueles que, exteriores a Aldebarã, por ideologia ou dignidade, apenas reservam ao grande senhor um ódio extremo (republicanos, sindicalistas, etc.). No círculo mágico, porém, o senhor tem a capacidade de dar a vida e a morte, recompensar e punir. O rei-sol dos lavradores tem a legitimidade do mito, embora progressivamente essa legitimidade se vá corroendo com determinados acontecimentos (a morte do seu filho primogénito António Lúcio; a quebra dum interdito, ao envolver-se eroticamente com uma camponesa da aldeia; a noticiada libertinagem de Milai; a infracção e sequente punição de Maria do Pilar, a sua filha eleita; a instalação duma fábrica de cimento nas proximidades de Aldebarã; a organização sindical dos valadores que não conseguira reprimir) que anunciam o seu declínio, tanto no plano físico e psicológico como no sociopolítico, e atinja o seu clímax quando, numa das suas incursões à vila, um anónimo homem do povo, Norberto Caiador, se recusa a obedecer às suas ordens e se confronta heroicamente com ele. E depois não há mito, uma ficção que pressupõe aura e distância, que resista a uma boa gargalhada colectiva. Sentindo-se incapaz de reagir a tal afronta, ao chegar a Aldebarã, subiu à Torre e autoflagelou-se com uma chibata violentamente. Entretanto o caruncho, esse relógio do tempo corruptor, ia tomando conta desse espaço sacralizado pela tradição, e Diogo Relvas juraria a si próprio aí encerrar-se para sempre, pois não suportaria expor publicamente a decadência do corpo do seu poder. Convocou então toda a família para uma reunião final, no salão principal do palácio, anunciando-lhe as suas últimas disposições e consagrando o predestinado neto Rui Diogo, que diariamente o passaria a visitar na Torre, como a futura voz do poder. Estamos, pois, na fase do crepúsculo de um deus, e, como é de tradição, sempre que um deus morre o seu odor nauseabundo expande-se pela terra. Só em Aldebarã parece que ninguém deu por isso. Neste mundo de mortos-vivos ou de vivos-mortos, o encontro ritualístico do neto Rui Diogo, o seu sucessor, com o avô delirante em conluio com os antepassados, e, depois de morto, já com

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cento e tal anos, embalsamado, corresponde à cena grotesca de um mundo há muito morto, mas com a capacidade do simulacro da vida.

A instância narrativa e a plurivocalidade social A transparência social do narrador (neto de campino) acentua o ponto de vista que organiza a narração. Já não se trata da doação de uma voz estética ao outro social, mas da identificação óbvia do autor-narrador com um colectivo sacrificial, embora possuído, por vezes, de uma dignidade específica. A irónica retórica da humildade que introduz a obra (“Breve nota de culpa”) constitui uma paródia ao monopólio do discurso e da cultura por parte de uma elite económico-social. O romance reitera a noção de que falar é uma forma de poder. Ora, cabe a um neto de campino ser o enunciador de uma história que tem como objecto a vida, ora contada por outrem, ora inventada (a ironia aqui funciona), dum senhor agrário para quem o seu avô teria trabalhado como maioral. A voz do narrador, pela distância, dá uma dimensão mítica a Diogo Relvas e, pela vizinhança relativamente ao colectivo oprimido, projecta-nos para a sua desmitificação. Coube a Norberto Caiador, numa situação-limite, permitir o trânsito entre o esplendor do mito prolífero e a sua desmontagem irrisória e também a transição dum eu para um nós enquanto sujeito da emancipação, como se pode ler no “Epílogo”. Deste modo, o romance tem uma estrutura polifónica, ou seja, embora o discurso do poder seja dominante ele é mediatizado por alguém que está do outro lado do mundo e que, enquanto administrador da narrativa, também pode dar pontualmente a palavra àqueles que, pelas convenções sociais, a não tinham. Num registo parodístico, os campinos João Atouguia e António Seis-Dedos não pedem licença para narrar, “sugerem, quando muito” (Livro I, cap. VIII). É também através da avó e do seu ponto de vista que o leitor apreende o modo lendário e romântico como o povo de Aldebarã fixou e publicitou a tragédia de Maria do Pilar e do ambicioso campino Zé Pedro, a reacender uma tradição popular de rimances com trágicos amores contrariados por preconceitos sociais, cujo grande paradigma foi na nossa literatura

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romântica oitocentista o Amor de Perdição (1862), de Camilo Castelo Branco. É também através da narração de Chico Bem-Fadado sobre a vida de seu pai, um quadrilheiro do Remexido (Livro I, cap. XIII) que, retrospectivamente, mergulhamos na mitologia “miguelista” (lª metade do séc. XIX), um padrão eloquente do marialvismo toureiro e fadista e de um populismo rural fanático, sustentado por um fundamentalismo católico. O narrador, por outro lado, na herança do romantismo garrettiano, afastando-se dum modelo omnisciente, estabelece uma frequente cumplicidade vocal com o leitor, acentuando o modo fictício e simbólico como foi concebendo a história de Diogo Relvas. Entre a narração do vivido (testemunhado) e do inventado se constrói uma ficção em torno de outra ficção, a mitologia de um deus agrário, cuja sombra se foi projectando desde o século XIX (a acção romanesca inicia-se em 1891, como vimos, período crítico do liberalismo monárquico português) até à actualidade, embora sob o signo do grotesco e do fantástico.

O mundo do grotesco: as novas cruzadas, o apocalipse e a revolta dos cavalgados Esta oscilação entre a memória testemunhal, sempre falível mas comprometida, e a invenção, irá pender, no último Livro da obra, para um onirismo grotesco que tem como comparsas os mortos-vivos dessa tribo agrária esclerosada e o fantasmático “deus minaz” que a regia simbolicamente, mas que sobrevivem, numa fictícia eternidade, para lá das razões da História e das histórias. Nesse cemitério de almas mortas, Rui Diogo, embora mais pragmático e menos romântico, herdará, como vimos, o poder do avô, onde corre já um sangue putrefacto, mas ainda entretido em bizarros conciliábulos com os antepassados. O déspota, nos seus pesadelos agónicos, ora visionava em pânico, num processo de carnavalização, que invertia a hierarquia tradicional, a onírica revolta dos cavalos e dos eternos cavalgados, numa massa confusa de insubmissos servos da aldeia e valadores, ora visionava os mitos cruzadistas, em renovadas guerras cavaleirescas contra os moiros (os ancestrais inimigos podem aqui também identificar-se alusivamente com os

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povos coloniais que, em África, começavam a luta pela independência, em 1961), como modo de atenuar a sua visão apocalíptica do fim de um mundo, fundado no medo e na reverência, e credibilizado por uma estrutura mental arcaica, mas definitivamente abalado pela ”jacquerie” deste século. O neto, numa das suas visitas à Torre, ao aperceber-se apavorado da morte de Diogo Relvas, para manter o mito vivo, resolve mandá-lo embalsamar, e colocá-lo junto à janela da Torre, para que os “bichos espalmados e abúlicos” de Aldebarã, que o avistavam à distância, não se apercebessem da sua morte, numa encenação burlesca da atemporalidade do mito. Mas o embalsamador bem avisara: era fundamental proteger o corpo embalsamado de qualquer sopro de vento. E, numa irónica advertência simbólica, lembrara também ao zeloso Rui Diogo que os vidros da Torre tinham sido obra de operários. De facto, embora não termine aqui a história dos Relvas, o destino ou o acaso quis que um gato brincalhão, num salto desajeitado, em busca dum pássaro desprevenido, partisse a vidraça da janela, e um vento sôfrego diluísse em pó o corpo embalsamado. Então, Rui Diogo ”Abriu uma das janelas, olhou à volta e resolveu-se a sacudir o avô, deixando que a brisa da tarde pegasse naquela poeira fina e branca. Tão branca e tão fina que uma espécie de nevoeiro começou a cerrar-se à volta dos limites de Aldebarã, envolvendo-a com o manto espesso duma noite estranha e alva na qual voavam abutres, prontos a acometer quem viesse perturbar a doce paz dos lagartos de loiça”. E nessa paz podre, fora do tempo e do verosímil, agora sob as rédeas de Rui Diogo, embora o caruncho persistisse na sua incansável tarefa, continuaria a encenar-se, durante mais algum tempo, a ficção dum eternizado deus agrário, como se o tempo cíclico da natureza tivesse definitivamente substituído a vectorialidade do tempo histórico.

O Muro Branco: ascensão e queda dum arrivista No seu último romance, O Muro Branco (1966), narra-se a história de Zé Miguel – neto de António Seis-Dedos, personagem de Barranco de Cegos, famoso por se ter confrontado com

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Diogo Relvas – que, de humilde camponês, vai progressivamente, não olhando a meios, tornar-se um homem rico. Este ex-eguariço, que decidiu um dia abandonar o campo, ainda jovem, porque já não correspondia às suas ambições, envolve-se na actividade da lota de peixe, onde, de carregador passaria a motorista das camionetas que transportavam o peixe de Sesimbra para Vila Franca de Xira. Entretanto, relacionara-se com Rosinda, uma mulher mais velha, que era uma varina viúva com alguns bens, com quem viria a romper. Durante a 2ª Guerra Mundial, torna-se candongueiro em sociedade com Rui Diogo, neto do nosso conhecido Diogo Relvas. Aliás, uma das suas pretensões seria vir a possuir um cavalo com o ferro dos Relvas, um modo de assinalar a sua ascensão e poder. O seu declínio começa exactamente com o fim da guerra e da candonga que lhe estava associada. Por outro lado, contrariando radicalmente a sua vocação marialva, o seu filho revelar-se-ia homossexual, algo que aquele não suportaria, e, depois de este ser por duas vezes publicamente descoberto em práticas homossexuais, o pai, que tinha sonhado o seu filho com todos os valores próprios de um marialvismo específico dos vencedores, com ódio e desespero, entrega-lhe uma pistola, empurrando-o para o suicídio. Este acto é o símbolo da ruína progressiva do Miguel Rico, como também era conhecido, em oposição ao seu irmão, o Miguel Pobre. Arruinado e perseguido pelos credores, todos aqueles senhores que beneficiaram da sua actividade marginal o abandonaram, inclusive Rui Diogo. Sem horizontes alternativos, Zé Miguel decide suicidar-se em companhia da sua jovem amante, Zulmira, ao conduzir um Ferrari emprestado para rodagem por um latifundiário corticeiro, atirando o carro contra um muro branco na sua corrida para a morte. Todavia, uma súbita cobardia levá-lo-ia a guinar subitamente à esquerda, tendo como consequência a sua sobrevivência, paralisado de braços e pernas, numa cama de hospital, recusando-se a abrir os olhos para o mundo da sua ruína. Já a amante viria a morrer em consequência do acidente. É a partir deste trânsito narrativo que irradiam, em analepse, as suas evocações do passado, espoletadas por situações no presente. De notar,

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que, contrariamente a Alcides, Zé Miguel escolhe, desde muito novo, o seu caminho e todos os meios podem ser usados para atingir os seus objectivos. Foi sempre um amante do risco e da aventura, sempre enquadrados, no entanto, num perfil de self-made man, do qual se orgulhava e de que tinha necessidade de manifestar publicamente, através dos objectos exibidos ou de um ritual tão simples como apertar a mão em público a Rui Diogo. No plano simbólico, a destruição do Ferrari ou o anterior abate a tiro do seu cavalo fetiche (o Príncipe) funcionam como uma espécie de castração de duas representações do símbolo fálico e do poder. O automóvel, para além de funcionar como a imagem de marca de um estatuto social, pode-se considerar, para o condutor masculino, um símbolo da virilidade e do poder, do mesmo modo que o cavalo. Estas duas mortes são homólogas daquela que vitima o seu filho, transformado numa coisa a abater por ausência de virilidade e pela assunção da feminilidade.

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Alves Redol e o operariado de Lisboa Alves Redol, em Os Reinegros (obra escrita em 1945 mas apenas publicada postumamente em 1972, por motivos censórios), faria uma incursão ao universo popular e operário, na cidade de Lisboa. O romance narra o percurso de Alfredo e Júlia Reinegro, símbolos de um campesinato, que decidem aventurar-se em Lisboa como modo de ultrapassar a situação de servidão e miséria vividas no campo que, no entanto, por vezes recordam com alguma nostalgia. Trata-se, portanto, de trabalhadores urbanos ainda imbuídos de uma mentalidade específica da ruralidade. A acção decorre entre 1907 e 1919, um período agitado, tanto do ponto de vista das lutas sociais e políticas como da mutação do regime monárquico para o regime republicano, em 1910. No seu percurso, Alfredo começa por ser moço de mercearia do Senhor Almeida. O analfabetismo de Alfredo condicionaria a sua possível promoção a caixeiro, pelo que se limitava a ser um mero carregador de sacos no armazém da mercearia. Sem perspectivas neste seu emprego, resolve abandoná-lo e torna-se servente de pedreiro. Vive com sua mulher e um filho num bairro pobre de Lisboa com grandes dificuldades económicas. A mulher, que nunca o amou, aproxima-se mais de um horizonte de expectativas pequeno-burguesas. Daí que revele, no seu quotidiano, um mal-estar que nunca conseguirá ultrapassar, chegando a criticar o marido pelo tempo gasto em actividades políticas, desprezando o lar. Mas a sua insatisfação não tem apenas a ver com a condição económica, pois sente-se sexualmente frustrada, pelo que virá a apaixonar-se, numa competição cerrada com uma vizinha solteira, pelo jovem vagabundo Ruivo, filho de uma prostituta, que vivia numa barraca miserável. Deste terá um filho, algo que o seu marido, mais vocacionado para os seus compromissos sociais e políticos, nunca descobrirá, aceitando sem dúvidas o filho como seu. Alfredo, que se tornará carregador no cais, participava de um subgrupo social (os loiças), integrado por camponeses sem consciência de classe que, durante uns anos, procuravam amealhar o dinheiro suficiente para regressarem à sua terra. Era, pois, um colectivo em trânsito do campo para a cidade, onde viviam miseravelmente, e da cidade para o campo, daí a

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sua pouca capacidade ou vontade reivindicativa. Alfredo era uma excepção, pois, com a sua progressiva consciencialização política, entendia a situação dos seus companheiros e lutava pela transformação da sua mentalidade. O protagonista, que inicialmente fora, antes da proclamação da República, um expectante simpatizante do movimento republicano, com a implantação desta e a agudização das lutas sociais, compreende que a República não é igual a povo e que afinal fora preciso que algo mudasse para tudo ficar na mesma – a exploração dos trabalhadores. A consciencialização política embrionária de muitos operários, tal o caso do protagonista, levá-los-ia, pois, a considerar a República como mais um regime da classe burguesa, tendo arregimentado o proletariado apenas em função dos seus interesses, esquecendo de imediato as reivindicações justas dos trabalhadores, quando no poder. Nas manifestações sequentes à repressão do estado republicano, o lema “Viva a República!” era substituído por “Viva o proletariado!”. Nesse novo estádio de politização, Alfredo imaginaria, embora sem convicções bem definidas, alternativas ao ideário republicano. Esta indecisão ideológica talvez explique que, aquando da revolta monárquica contra-revolucionária de Monsanto, em 1919, Alfredo viesse a morrer como um mártir na defesa da República. Esta história, na sua exemplaridade, mostra como um homem do povo pode dar a vida em defesa de causas políticas que não eram exactamente as suas.

Alves Redol: histórias de judeus na diáspora No volume de contos Nasci com passaporte de turista (1940), de Alves Redol, o conto epónimo relata na 1ª pessoa a experiência de uma jovem judia, empregada de escritório numa cidade alemã que, sem qualquer relação com a língua ou religião judaicas, vê subitamente que o seu mundo e o seu quotidiano se alteram radicalmente com o início da repressão anti-semita dos nazis. O seu mundo ruía para sempre. Antes de tal facto, na sua quietação de burguesinha, circulava excitada nas ruas com os rostos anónimos que com ela se cruzavam,

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o seu modo especial de exprimir a sua crença na fraternidade entre os homens. E disso já nada restava. Abrira-se uma fronteira entre os que aspiravam a uma pureza ariana e os que passavam a não ter a dignidade própria de uma pessoa para se tornarem numa coisa tatuada para sempre com um J a vermelho. Olhando para o passado e tentando entender os caminhos do futuro, nota que aquilo que era uno (uma comunidade) se dividira em dois pólos radicalmente antagónicos, os imperiais arianos e os judeus, suas vítimas, como uma espécie de usurpação da humanidade enquanto conjunto de seres genéricos: “Um todo simples – o símbolo expressivo do meu passado”. A comunidade alemã, que integrara judeus com a mesma cultura e falando a mesma língua, era violentada por um vento de irracionalidade gerado pelo anti-semitismo nazi. Decide-se então pelo exílio, mas, do outro lado, a vida não era fácil para uma refugiada pobre que apenas tinha um passaporte de turista e não de licença para trabalhar. Finalmente, veio a perceber, mais tarde, que o único caminho que lhe apontavam, tal como acontecera com a sua companheira de viagem Magda, era o da prostituição, em países onde a rede de

cumplicidades com o nazismo eram óbvias. Chamava-se Edith e agora Sarah, tinha um J vermelho a tatuá-la, e até gostava com paixão da música de Wagner. Com O Cavalo Espantado (1960) faria mais uma rara incursão romanesca no universo social de Lisboa, durante o ano que marca o início da 2ª Guerra Mundial (1939). Numa Lisboa povoada de refugiados, sobretudo de origem judaica, o casal Leo e Jadwiga procuram num consulado obter um visto no passaporte que lhes permita viajar para o continente americano. Leo é um judeu ligado à banca e, por isso, com capacidade económica, na sua percepção, para obter facilmente a documentação necessária que lhe abrisse a porta aos caminhos da liberdade, mesmo que para isso tivesse de recorrer à corrupção dos funcionários da chancelaria. Pedro Osório Dias é um desses anónimos trabalhadores de um consulado que, por vezes, detém a capacidade de emitir vistos para os exilados da guerra. Tal como estes, curiosamente, é também um desenraizado, porque, por um lado, detesta a sua actividade burocrática, ambicionando tornar-se a tempo inteiro um escritor; por outro lado, no plano amoroso e afectivo, o seu casamento está em crise. Desenraizado também

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Manifestação de trabalhadores no período da República, na rua D. Pedro V, Lisboa

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em relação à sua própria pátria, pois não se identifica com o clima ideológico dominante. É, portanto, um exilado do interior. Quando o casal de judeus o procura para obter o visto no passaporte, face às reservas deste, Leo tenta corrompê-lo, primeiro com dinheiro e, posteriormente, em última instância, com o corpo da própria mulher. Esta, na última entrevista com o funcionário, verifica com espanto que este lhe fornecia, sem qualquer contrapartida, o tão desejado visto. Para o marido, habituado ao sacral poder de corromper, ficaria sempre a suspeita de que a mulher teria oferecido o seu corpo a Pedro Dias. Este, na sua dignidade exemplar, quis, de certo modo, castigar alguém que fazia da vida um mercado e das pessoas uma mercadoria, apesar do seu estigma de elemento duma “raça” destinada a desaparecer de acordo com os sinistros objectivos do nazismo alemão. Como vimos, Alves Redol destaca-se sobretudo através de uma relação pregnante com um imaginário telúrico específico e o seu simbolismo. Ou seja, uma ligação afectiva e criativa com o espaço matricial (paisagem e povoadores), com a sua mitologia específica, que definiria, no plano simbólico, a própria identidade do escritor simultaneamente enquanto homem e artista. Na sua ficção, o Ribatejo é simultaneamente o lugar de um drama humano, alicerçado fundamentalmente na opressão do latifundiário

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sobre o camponês, e o de uma poética que se expande a partir da experiência individualizada com uma topografia específica. Mais do que a reprodução estética de uma realidade regionalista, poderemos então falar na obra de Alves Redol de um Ribatejo como símbolo literário ou então como expressão da mais-valia humana que coube a cada uma das suas personagens representar num território circunscrito e com uma alma peculiar. Simultaneamente, o génio do lugar romântico e a sua superação pela crítica ao pitoresco arcádico de tal pendor. A própria vertente etnográfica que os seus romances revelam explica-se tanto por uma relação simpática (política) com o povo ribatejano como por uma consciência da necessária contextualização mítico-simbólica dos seus heróis romanescos. E isso significava para ele um apego aos valores, imagens e símbolos que, na sua concretude, constituíam o estatuto peculiar do homem ribatejano. O apego ao real será, deste ponto de vista, não um mero olhar documental sobre uma parcela da realidade social – como ingenuamente afirmara quando da publicação do seu primeiro romance – mas sobretudo um texto aberto a uma metaforização que desliza frequentemente para uma dimensão lírica. Num mundo cada vez mais marcado pela uniformidade da globalização cultural, romances como estes, ancorados numa paisagem física e social específicas, podem constituir um grão de diferença num quadro de universalidade.

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Alves Redol e a Literatura Infantil 1 Violante F. Magalhães Investigadora do Centro de Estudos Comparatistas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa/Docente na Escola Superior de Educação João de Deus, em Lisboa

A vida mágica da Sementinha – Uma breve história do trigo, de Alves Redol, é a primeira narrativa neo-realista para crianças publicada entre nós; saiu em 1956, quando Redol estava indubitavelmente confirmado como escritor. O autor completou a obra literária para a infância com quatro contos, incluídos na Série A Flor2: A Flor vai ver o Mar e A Flor vai pescar num bote (ambos de 1968), Uma Flor chamada Maria (1969) e Maria Flor abre o Livro das Surpresas (1970) – estes dois últimos títulos já póstumos. No presente ensaio, após expor dados sobre a elaboração dos cinco volumes, passo à análise de cada um, procurando não só divulgar a qualidade de escrita por que se pautam, como demonstrar que neles são abordados temas e utilizadas estratégias narrativas que se coadunam com os móbeis ideológicos e estéticos que sempre nortearam Alves Redol. Faço uso das 1ªs edições.

Processo de elaboração dos contos A vida mágica da Sementinha aborda metaforicamente o ciclo do trigo e dá conta da evolução histórica da cultura deste cereal, invectivando melhorias científicas e tecnológicas em prol do bem-estar do povo. Segundo informação que me foi fornecida por António Mota Redol, único filho de Alves Redol, esta narrativa estava já escrita no segundo lustro

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da década de 40. Assim, a data de criação, que coincidiu na então recente paternidade do escritor (António Mota Redol nascera em 1943), não se encontra desfasada da fase inicial de produção de Alves Redol. Possivelmente, o texto ficou guardado em virtude de a conjuntura histórica não proporcionar a sua edição. Conjecturemos sobre o esforço que seria necessário para divulgar títulos arredados das escolhas dos organismos oficiais; face ao tipo de produção para a infância que saía em Portugal na década de 40, não terá sido estranha à não publicação a singularidade temática desta narrativa. Aquando

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Este texto constitui uma adaptação de dois capítulos de: Violante F. Magalhães. Sobressalto e espanto – Narrativas literárias sobre e para a infância, no Neo-Realismo português. Lisboa, Campo da Comunicação, 2009. Constantino – Guardador de vacas e de sonhos (1962), de Alves Redol, é comummente enquadrado no âmbito da literatura infanto-juvenil; aliás, em 1990, foi integrado numa colecção infanto-juvenil, da Caminho. Por se tratar de uma narrativa escrita numa linguagem acessível, que aborda o quotidiano de uma criança, admito que este título apresenta especificidades que fazem prever uma facilitada recepção por parte de adolescentes. Todavia, Redol nunca demonstrou intenção de o incluir nesse âmbito. Em entrevista concedida ao Diário de Lisboa, em 20 de Dezembro de 1962, à pergunta sobre se o livro seria uma nova fórmula de literatura infantil, o escritor respondia peremptoriamente não. Até 1969, ano da morte do escritor, na listagem final de “Obras do autor” (distribuída por “Romances”, “Contos”, “Literatura infantil”, “Estudos” e “Conferências”), tanto nos volumes de estreia como nos reeditados, Constantino veio sempre incluído na rubrica “Contos” e nunca na de “Literatura infantil”. No presente trabalho, não contemplarei este volume.

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do esforço de concretização de projectos deste tipo, outro previsível obstáculo ter-se-á prendido com o facto de as opções ideológicas do escritor serem conhecidas do regime político. Fosse por uma ou por outra razão, Redol não encontrou editor para o volume; sintomaticamente, em 1956, ele viria a lume numa edição de autor. Visto que profissionalmente Alves Redol nunca teve actividades relacionadas com a infância, a sua intervenção na literatura infantil fica justificada no quadro do interesse mais geral tido pelo povo, pela educação do povo, consequentemente, pelo cuidado relativo à educação estética das crianças. Os títulos existentes na biblioteca pessoal do escritor confirmam o interesse pela estética marxista, pela pedagogia e pela literatura infantil. Por consequência, muito dificilmente Redol deixaria de se informar acerca dos princípios pedagógicos e do propugnado para a literatura infantil pelos teorizadores marxistas; será razoável alvitrar que, aquando da participação em actividades organizadas no âmbito da militância comunista, o escritor deles procurasse notícia. No Primeiro Congresso de Escritores Soviéticos, realizado em 1934, foi apresentada, por S. I. Marshak, a conferência “Contribuições sobre a literatura infantil”3; nela, entre outras orientações, ressaltava a de que a obra só tem “valor educativo conquanto se obrigue a criança a adoptar uma determinada atitude, a começar a viver na situação representada e a fixar-se portanto na modalidade, nas características e atitudes humanas, na perspectiva dessa atitude”4. As conclusões daquele Congresso foram divulgadas, no segundo lustro de 1930, entre os escritores neo-realistas que pertenciam ao Partido Comunista Português5. Independentemente de ter conhecimento do pressuposto acima sumariado, as características dos textos de Redol parecem apontar para que o autor norteou a preparação deles tendo por base preocupação similar à ali revelada. O tema d’A vida mágica da Sementinha é, como mencionado, o ciclo do trigo. Em Portugal, ao longo da década de 20, fora atingido o máximo na importação deste cereal, pelo que, em 1929, teve início a Campanha do Trigo; fruto daquela Campanha, a década de 30 caracterizou-se pelo fomento da produção nacional, tendo

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sido atingido o limite máximo de solo arável. No primeiro lustro de 40, esta saturação (acrescida dos efeitos da 2ª Guerra Mundial) fez eclodir os problemas da falta de pão, com as consequentes lutas populares que o Partido Comunista Português conduziu. Possivelmente, essas preocupações forçaram Redol ao estudo de documentos sobre o assunto (documentos que também se encontram na biblioteca pessoal do escritor6) e a que considerasse oportuno tematizá-lo para crianças. Ao fazê-lo, o autor intervinha didacticamente junto da população em idade infantil, em prol de um problema que, à época, se apresentava como crucial para o futuro económico de Portugal. Redol teve um cuidado exímio na escolha da linguagem e das estratégias narrativas, fazendo acompanhar o volume de ilustrações de inegável qualidade artística, da autoria do pintor neo-realista Rogério Ribeiro. Observemos agora as preocupações pedagógicas reveladas pelo autor aquando da preparação da Série A Flor – série com a qual reitera a opção de escrever para o público infantil (opção, assinale-se, rara entre os neo-realistas). No curto depoimento “Como escrevi histórias para crianças”7, Redol esclareceu o processo de escrita de A Flor vai ver o Mar: Eram menos de cento e cinquenta palavras. Quase todas de uma sílaba. Algumas velhas e relhas, outras mais jovens, inertes e frias naquele inventário de vocábulos que esperavam o engenho e os ardis de alguém para se criar uma ponte de amor entre um homem de cabelos embranquecidos e os meninos que hão-de viver essa espantosa aventura dos planetas e das estrelas. E aí me pus eu, o escritor maldito, a jogar com as palavras, a torná-las vivas, a juntá-las em novas combinações e ritmos (…), de maneira a que nos tornássemos companhia, estímulo e deslumbramento para os meninos de 6 anos.

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Cf. R. M. Teplov. Aspectos psicológicos de educação artística [Publicado originariamente em SP nº 6, 1946]. In Luria. Leontiev, Vygotsky et al. Psicologia e pedagogia II. Lisboa, Estampa, 1977, p. 133. Teplov, op.cit., p. 137. Cf. João Madeira. Os Engenheiros de Almas – O Partido Comunista e os intelectuais (dos anos trinta a inícios de sessenta). Lisboa, Estampa, 1996, pp. 42ss. Dê-se como exemplo o seguinte volume: Henrique de Barros. O problema do trigo. Lisboa, Cosmos, 1941. Alves Redol. Como escrevi histórias para crianças. A Capital nº 316. 8 de Janeiro de 1969.

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Informa ainda que, entregues as ilustrações a Leonor Praça, ouviu “um médico, pedagogo e poeta” e seguiu-lhe as sugestões; teve também em conta as opiniões dadas por crianças que haviam experimentado a leitura prévia do conto. Quanto ao volume A Flor vai pescar num bote, adianta o seguinte: Embalado pelo ritmo da criação, dei-me a escrever outra história de monossílabos e dissílabos (…). E aí me meti, de novo, pelo mundo das palavras, entre a realidade e o sonho, em nova viagem com botes e arrais, peixes e luar, entre ondas do Mar Alto e areias do Alto Mar.

No final deste depoimento, o escritor promete a saída de um novo volume, no qual a protagonista Flor se transformará em menina. Esta promessa seria concretizada em Uma Flor chamada Maria – a cuja publicação, em Dezembro de 1969, Redol já não assistiu. Como se depreende do artigo citado, Alves Redol procurou apoio junto de um especialista. Trata-se de Arquimedes da Silva Santos, que foi um dos primeiros pedopsiquiatras portugueses e um dos pioneiros, entre nós, do movimento da Educação pela Arte. Para além desse apoio, diligenciou averiguar a repercussão dos textos junto do público infantil. Especificamente em relação a A Flor vai ver o Mar, pediu à irmã, Inocência Redol, professora e dona de um Colégio de Ensino Primário em Vila Franca de Xira, que apresentasse o volume às crianças que frequentavam o 1º ano de escolaridade naquele Colégio. Segundo Inocência Redol, pediu ainda, à irmã e à sobrinha, que fizessem um pequeno inquérito junto dos alunos, a fim de se aperceberem se estes “compreendiam o sentido da história; se os vocábulos usados eram conhecidos deles, para, se necessário, fazer algumas alterações”8. Inocência Redol recorda que, como os alunos mostrassem desejo de ilustrar a história, o irmão “teve a paciência de enviar, talvez, uns quarenta exemplares da mesma, dactilografados, e com espaço em branco, para eles ilustrarem a seu gosto”9. Dois testemunhos orais, por mim recolhidos, confirmam o cuidado posto por Redol na preparação da Série A Flor. Matilde Rosa Araújo informou-me que o escritor, apesar de hospitalizado, acompanhou atentamente a

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produção dos desenhos de Leonor Praça para A Flor vai ver o Mar e para A Flor vai pescar num bote, pelos quais, lembra Matilde, lhe confessou ter particular enlevo. Também António Torrado (que à época da publicação da Série era director de um Colégio de Ensino Infantil e Primário, em Lisboa) me contou que aqueles dois volumes foram testados, junto de alunos de 5/ 6 anos, com resultados extraordinariamente positivos (quer ao nível do entendimento do texto, quer do apreço pela imagem) e que esta informação teria chegado a Redol por via da ilustradora – que havia sido intermediária nesse processo. Pelo exposto, verificamos o rigor que Alves Redol colocou na preparação dos títulos infantis. Estava a par do tema tratado na ficção – é o que parece ter ocorrido com o ciclo do trigo, abordado em A vida mágica da Sementinha. Reflectiu sobre o valor psico-pedagógico dos textos da Série A Flor junto de quem merecia crédito incontestável; ao nível da compreensão, mormente da linguagem, procurou ajustá-los ao destinatário visado, fazendo-os testar junto do público-alvo (mesmo estando gravemente doente quando empreendeu estas diligências). Foi meticuloso na escolha dos artistas plásticos a quem entregou as ilustrações – no caso de Leonor Praça, fez questão de as ir acompanhando e de verificar se elas eram do agrado das crianças. Compreensivelmente, levando em atenção que o movimento literário em que o autor se integra é o Neo-Realismo, a tónica predominante destes títulos infantis é posta na consciencialização social. Seres personificados, a Sementinha e a Flor revelam um olhar de deslumbramento face à realidade circundante, a qual estão empenhadas em (dar a) conhecer, deixando transparecer a premissa de uma desejável habilidade por parte do destinatário visado. Como veremos, os móbeis ideológicos que nortearam a escrita dos cinco volumes para crianças não se afastaram dos tidos na produção literária neo-realista para público adulto: crê-se na possibilidade didáctica da literatura infantil, em particular na capacidade de passar mensagens de empenhamento social.

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In Maria José Marinho e António Mota Redol (orgs.). Alves Redol, testemunhos dos seus contemporâneos. Lisboa, Caminho, 2001, p. 189. Ibidem.

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A vida mágica da Sementinha – Uma breve história do trigo Inscrita no mundo natural e do trabalho, arrolada concretamente ao ciclo do trigo, A vida mágica da Sementinha desenvolve-se apresentando uma alternativa ideológica nítida: justificam-se os benefícios das modernas técnicas de cultivo do cereal, da maquinaria10, para o combate à fome dos povos dos mais diversos continentes. Nesse sentido, o narrador evoca (e apela para) a razão que assiste a um representante de uma determinada classe social – a dos camponeses, que declara que a existência de pão contribui para o desenvolvimento civilizacional. Tal tema, tão invulgar na literatura infantil, está adstrito a uma trama que o relaciona com as atribuladas aventuras vividas por não menos invulgares heroínas: uma animizada semente de trigo (Sementinha) e suas descendentes. A introdução de sucessivos elementos de estranheza traz ao texto uma inquestionável componente ficcional. À inventividade do conto alia-se uma linguagem depurada, que alterna prosa poética e um linguajar próximo da fala infantil, sempre que tal se revela necessário para enfatizar a caracterização das personagens. A efabulação em torno de um assunto concreto (o ciclo do trigo – da sementeira à monda, da ceifa à moagem do grão, a descrição do seu processo histórico) é equilibrada com peripécias imaginativas, dadas num tom humorístico. Sob cuidadosos recursos técnico-expressivos, fenómenos da natureza e peripécias vividas por seres imaginários, amor à natureza e humor, realidade e fantasia mesclam-se em doses equilibradas. O conto apresenta-se dividido em treze capítulos, de extensão curta – um recurso atento à pouca capacidade de concentração das crianças, que contribui, ademais, para a hipótese de a história poder ser lida em sessões diárias. Os capítulos podem ser agrupados em duas grandes partes. A cada uma delas correspondem diferentes protagonistas e joga-se com perspectivas narrativas distintas, reforçando-se, todavia, os nexos. Nos primeiros dez capítulos (pp. 9-62), um narrador heterodiegético descreve as aventuras vividas pela personificada Sementinha, através das quais explana o ciclo do trigo e sua história. Nos três últimos capítulos

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(pp. 63-79), a história de vida das descendentes da Sementinha, em particular de Asa de Corvo, ilustra o (então recente) processo de pesquisa de híbridos; nestas sementes concretizam-se os sonhos de progresso científico da humanidade, sendo que, como corolário de tal facto, certo camponês conhecido do narrador noticia a melhoria de vida registada. Neste passo, o narrador assumiu já a narrativa na 1ª pessoa; no 13º e último episódio, justifica a importância dos avanços científicos para o bem-estar social, confirmando a razão que assistira às afirmações feitas pelo referido camponês. Subtilmente, o narrador vai estabelecendo uma cumplicidade com o destinatário extratextual, para o que altera marcas do discurso. Numa aproximação crescente ao leitor e numa tentativa de envolvimento na história narrada, “a Sementinha” (pp. 11 e 12) passa a ser nomeada por a “nossa donzela” (pp. 13 e 16). O possessivo expande-se para “a nossa amiga” (pp. 24, 25, 36, 39); quando de tal “amiga” já só persistir a lembrança (pois que foi esquartejada), ela voltará a ser nomeada como “a nossa amiga Sementinha” (p. 67). Sementinha revela-se alegre, curiosa, distraída, meiga. Inconsciente perante situações perigosas, é aventureira; frágil, precisa da protecção dos mais velhos. Comparecem na narrativa, para além de Asa de Corvo e irmãs, diversíssimos grãos de trigo (de entre os quais se distinguem Amarelo de Barba Preta), pássaros e outros bichos, o Sol, a Terra, o Vento. Estas personagens antropomorfizadas têm uma atitude de alegria e enleio, no que são acompanhadas pelos camponeses António Seareiro, com a sua “cantiga” (p. 11), e Maria Rita, pelas mondadeiras, com a sua “voz ardente” (p. 49), pelos cientistas “visionários” (p. 75) Carleton e Mitchurin, pelos Agrónomos, pelo narrador, com o seu “sonho de menino” (p. 77). A criação de seres antropomorfizados responde ao animismo que caracteriza as crianças. A primeira estratégia narrativa de A vida mágica da

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Esta apologia contrariava intrigas condenatórias do progresso tecnológico, patentes em obras (amplamente divulgadas junto do público infantil) de autores afectos ao regime – por exemplo, na História de Dona Redonda e da sua gente (1942), de Virgínia de Castro e Almeida.

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Sementinha é a de, sem mais delongas, anunciar o processo de animização: sintomaticamente, o 1º episódio intitula-se “Falam os bagos de trigo”. Não tendo os leitores infantis um domínio cognitivo completo das categorias tempo e espaço, estes marcos referenciais são apresentados de forma exímia. Vejamos um exemplo. A protagonista e seus pares, os bagos de trigo, estavam “metidos numa velha arca” (p. 9), havia meses. Chegado o Outono, Maria Rita retira-os de lá e senta-se “à porta do casebre para os escolher, mesmo à chapa de um solzinho que era um consolo de brandura” (pp. 10-11). As sementes dão início a uma afável conversa com o “Sol Soalheiro” (p. 11) e conseguem avistar a leiva, o boi Dourado, a passarada. Uma Despedida-de-Verão mete conversa com a Sementinha. A informação inicial de que se estava no Outono, reiterada com a indicação de que havia um “solzinho que era um consolo de brandura”

(p. 11), é reforçada pelo recurso à Despedida-de-Verão – não por acaso a flor escolhida para conversar com a Sementinha. Quanto à caracterização do espaço, note-se que os grãos de trigo saem de uma arca (depósito caseiro tradicionalmente usado, mas também objecto portador de uma reconhecida componente de magia nas histórias infantis) para serem deslocados para a porta do casebre, de onde avistam o campo e o céu: a relação privilegiada das sementes com a Natureza, com os animais, começa a ser esboçada – atracção que também se sabe ser típica das crianças. Na linguagem usada logo no 1º capítulo do conto convocam-se diminutivos (“solzinho”) ou aumentativos (“dorminhoca”) tão característicos da fala infantil e da linguagem popular, por conseguinte, passíveis de aliciarem o leitor criança. A sedução desse leitor é ainda alcançada pela criação de analogias entre as situações protagonizadas pela personagem principal e as

Alves Redol, casa de Caxias, meados dos anos 60

Alves Redol, A Vida Mágica da Sementinha, 2º ed., Publicações Europa-América, 1987

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vivências infantis. Quando a Despedida-de-Verão desdenha do aspecto da Sementinha, esta é logo consolada por Amarelo de Barba Preta, que, “todo ternuras”, a trata por “minha pequerrucha” (p. 12). Este último é um “velho grão de trigo muito sabido” (p. 11) que explica à Sementinha que “sem a nossa ajuda os homens viveriam pior” (p. 12). Apresentados a protagonista e o mote da história (a importância do trigo para a vida dos homens), instaura-se a aventura: o rapto da Sementinha, perpetrado por “um rouxinol vagabundo” (p. 13). Qual princesa sequestrada, ela é levada para o bosque. Ao aperceber-se de que o Rouxinol se prepara para comê-la, a Sementinha, “muito sorrateira, de vozita mimalha” (p. 14), consegue demovê-lo. Quando chega o Chapim Azul para avisar o Rouxinol que os pássaros o esperam na “tília onde se faria o ensaio do coral” (p. 16), já o Rouxinol está enamorado da Sementinha. Pousada, “carinhosamente, sobre a teia dourada de uma aranha” (p. 18), numa almofada feita de um pedaço de musgo, com dois chapins a embalarem-na “com desvelos de camareiros reais” (p. 18), Sementinha assiste ao concerto dado por chapins, carriças, tentilhões, melros, trepadeiras, piscos, corujas, pica-peixes e pelo maestro Rouxinol. Este processo de enumeração é reiterativo ao longo do texto. Começa a desvelar-se o cuidado de diversificar a linguagem, pois que são incorporados novos registos. Com efeito, até aqui, predominavam diálogos, frases curtas, bem como expressões mais coloquiais: os bagos de trigo tinham “perd[ido] a cabeça” (p. 11) perante o espectáculo da natureza; a Despedida-de-Verão fora nomeada por “toleirona” (p. 12); o Rouxinol, quando raptara a Sementinha, tencionava comer aquele “petisquinho” (p. 14); a Sementinha, “babadinha de prazer”, voara no bico “magano” (p. 18) do Rouxinol. No 3º capítulo, é acrescentado o máximo de adjectivação aos elementos enumerados: por exemplo, os tentilhões apresentam “larga capa azul, colete rosado e pintinhas brancas, afinando uma frase musical toda viveza” (p. 19). É introduzido um léxico mais cuidado, com recurso à aliteração e à comparação: “Gotas de chuva refulgiam como pedras preciosas, nas últimas folhas doiradas

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do bosque” (p. 19). É utilizada a sinestesia, nomeadamente no tocante às percepções auditivas, tácteis, visuais e olfactivas. Assim, em harmonia com o belo canto do Rouxinol, o Sol despertou: (…) abriu os braços de oiro, longos e quentes, como se estivesse em Maio. E logo os fetos se tornaram verdes, e de entre eles brotaram lírios brancos, roxos e amarelos; e as campainhas azuis, com os malmequeres, as boninas humildes e os tapetes de musgo apareceram numa magia de cores, enquanto as árvores ganhavam folhas e os arbustos perfumes. (p. 21)

No meio de sons, calor/ luz, cores e perfumes, dessa descrição exultante da natureza, surgem, vindos do Sul, rouxinóis, poupas cabeçudas, cucos bizarros, rambóias, etc. À medida que estes pássaros entoam os seus cantos, sentada na fofa almofada de musgo, deslumbrada com aquele espectáculo auditivo, visual, olfactivo, a Sementinha fica delirante. É nesse clima de apoteose que, sorrateiramente, aparece um Pardal, duplamente adjectivado de “feio e humilde”, que, “sem mais aquelas, ladrão e vivo, voou rápido sobre o trono da noiva do Rouxinol, levando-a consigo, enquanto um grito de terror enchia o bosque” (p. 22). Na sequência da alusão à donzela raptada, não falta ao texto a inevitável perseguição – tão comum nas narrativas infantis. Comandados pelo Rouxinol, os pássaros seguem no encalço do vilão, mas, como anunciado num novo capítulo (o 4º), “O ladrão escapa-se e a Sementinha cai”, precisamente nas terras de António Seareiro. Depois da viagem iniciática, o percurso circular fecha-se: levada de um mundo rural pacato para o bosque aventureiro, Sementinha regressa ao espaço inicial. É então que Amarelo de Barba Preta conta à Sementinha as emocionantes viagens e aventuras que vão viver, acrescentando: “– Os nossos avós também as tiveram e conheceram um mundo bem diferente do nosso… É bonita a história dos nossos avós” (p. 26). Deduz-se que a aventura do ciclo do trigo é tão entusiasmante e digna de apreço como outras mirabolantes aventuras. Instado pela Sementinha (que, entretanto, se aconchega num rego da leiva) a contar tal história, e “perante a curiosidade de outras sementes que se haviam

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chegado para saudar a companheira raptada”, o velho bago de trigo senta-se, de perna cruzada, e começa: “– Era uma vez…” (p. 26). Se aquela fórmula operadora do imaginário faria prever a comparência de uma narrativa encaixada (sobre a história do trigo), assumida pela voz de um novo narrador (Amarelo de Barba Preta) e sem quaisquer hiatos, tal expectativa sai gorada. Pejado de informações históricas, este episódio é didáctica e irrepreensivelmente explanado. Como sucede com as crianças pequenas que escutam histórias, Sementinha e alguns dos irrequietos grãos mais jovens (o Serrano gorducho, o Rubião) comentam e interrompem frequentemente o (paciente) contador; são sobretudo os dados espácio-temporais (como referido, dificilmente apreendidos por parte do público infantil) aqueles que motivam as perguntas. Depois de explicar o comportamento e as manifestações simbólicas dos homens e mulheres do Paleolítico, Amarelo de Barba Preta avança com informações sobre a descoberta do trigo e da cevada – descoberta que dera origem ao período de sedentarização (Neolítico). Com entusiasmo idêntico ao que antes havia posto nas aventuras vividas, a Sementinha questiona, incentiva a narração dessoutra aventura – a da História do trigo e da sequente evolução da humanidade. Todavia, a utilização daquela estratégia, se reiterada, poderia tornar inevitável a extensão do texto, comprometendo a capacidade de concentração do público. É porventura essa a razão pela qual, habilmente, surgem novas personagens, três “estranhos bagos de trigo” (p. 29), que avançam com pormenores sobre a história do trigo entre o Neolítico e o período referente à Antiguidade Oriental. São interrompidos pelas perguntas de Sementinha, Serrano e Rubião, e secundados em algumas observações por Amarelo de Barba Preta; o ritmo narrativo é dado pelo revezamento destas vozes. A declaração da importância do trigo e dos seus rituais nas diferentes civilizações é recebida “com entusiasmo” (p. 30) pela assembleia das sementes. Enfim, como desabafa o Mocho de Espiga Branca, tudo o que é descrito “Parece uma história para crianças” (p. 33). Com a chegada de António Seareiro, os três grãos desaparecem tão misteriosamente como

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haviam chegado. Coberta de terra (um metafórico “manto negro”), sem ver nem poder gritar, decorrem dias até que a Sementinha converse com a Terra, “a feiticeira mais feiticeira que o Sol cobre” (p. 36). Numa nova referência metatextual às histórias para crianças, o diálogo prossegue: – És talvez a bruxa da floresta… Uma que passeia de noite a cavalo numa vassoura – disse a Sementinha a rir. – Que disparate – retorquiu, ofendida, a Feiticeira. – Há, porventura, bruxas que montem vassouras? – E perante o silêncio da nossa amiga: – Acreditas nessas histórias absurdas? A Sementinha deu um guincho, a querer suportar as gargalhadas. – Se bruxas houvesse, com o progresso de hoje só cavalgariam aspiradores eléctricos… (p. 36)

Em oposição às “histórias absurdas” de bruxas e afins, prova-se nesta que os efeitos de emaravilhamento das coisas naturais podem ser-lhes superiores, reiterando-se a informação que já fora avançada pelo sábio Amarelo de Barba Preta. A Sementinha recebe da Terra a explicação de que se encontra prisioneira num palácio, do qual só sairá à força de trabalho, passando “por transformações que [a] espantarão” (p. 37). Empreende então um duro exercício: bebe toda a água que pode e agatanha as paredes da cela onde se encontra. Num tom humorístico, são descritas as sucessivas metamorfoses por que passa. Sementinha sente modificações no corpo, que cresce desmesuradamente, pelo que de enrugado passa a liso. Quando se julgava transformada numa bola, o seu interior “tornou-se num líquido leitoso e branco”; desta feita, “deu-se em admitir que o seu primeiro encantamento seria em cabra ou vaca leiteira”; desnorteou-se quando viu “que do corpo lhe saía um rabinho muito airoso” (p. 38); a cauda que se desenvolveu para cima deixou-a suspeitosa de que poderia ser um bico de ave. Ao sentir finalmente o Sol, Sementinha, “tonta com a luz e as cores do campo” (p. 42), viu as raízes fortalecerem-se e uma delas explicou-lhe o ciclo vital do trigo até nascer flor e espiga. Depois que se esboçou a espiga, Sementinha vê o Chapim Azul, que a informa da morte (presumivelmente por amor) do Rouxinol e elogia a amiga: “estás linda… Toda verde, com flores…”

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cat. 9 Alves Redol com colegas do Colégio Arriaga, entre os quais Luís Kol, anos 20

(p. 52). Os dois haviam-se conhecido no Outono, no bosque. Agora, na Primavera, o quadro de beleza transfere-se para os campos. Recuperam-se comparações, sinestesias. Espelhando o enlevo sentido pela Sementinha no bosque, é a vez de o Chapim Azul experimentar idêntica sensação no habitat da Sementinha; em mise en abîme do ocorrido no bosque: Um bando de cegonhas, a tocar castanholas com os bicos, apareceu no horizonte e aproximou-se. Logo mais atrás, as andorinhas e os pássaros cantaroleiros regressavam do Sul, em grandes bandos, enquanto pelos campos se entornavam cores, como se nos bicos da passarada viessem pintores com as suas paletas. E pincelada numa árvore, pincelada num arbusto, transformaram tudo num instante. Envolvido por tantas asas, entontecido pela magia daquela Primavera, o Chapim Azul viu-se arrastado para o bosque, cantando também, num trinar de que se não julgava capaz. (pp. 52-53)

Quando Sementinha floresce, o Sol explica-lhe que as flores irão ser transformadas em bagos e uma Cegonha informa-a acerca da próxima transformação, em Espiga Loira. À volta da Sementinha “apareceram papoilas vermelhas, malmequeres amarelos e campainhas azuis, todos de mão dada, a bailar uma dança puladinha, que as espigas da seara secundaram, enquanto uma orquestra de pássaros tocava para

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eles” (p. 57). Nesta descrição, são recuperadas sinestesias de trechos anteriores (o cromatismo intenso, o canto dos pássaros) e incorporada a imagem da dança – uma quase popular (ou infantil) dança-de-roda. Chegados àquele novo quadro apoteótico, Amarelo de Barba Preta informa a amiga acerca do processo que se seguirá (da ceifa ao fabrico do pão), bem como sobre a função das suas vidas: dar “pão para os homens matarem a fome” (p. 58). A Sementinha não chegará a vivenciar esse processo, pois, como a informa a Terra-Feiticeira, irá ter “o destino mais belo que podem ter os bagos de trigo” (p. 59). É levada para um laboratório onde testam a optimização de sementes e “esquartejada” (p. 60). Essa é a razão pela qual “já não podia perceber que sobrevivia, maravilhosamente, em dezenas de bagos de trigo, que eram os seus filhos” (p. 62). Na segunda parte do conto, as investigações científicas em torno da criação de híbridos e o desenvolvimento da mecanização do circuito de produção, recolha e panificação, passam a ser os assuntos contemplados, de modo subliminar e depois expressamente. As filhas da Sementinha vão ter um curso de ginástica onde aprenderão a sobreviver em meios hostis. Uma delas, Asa de Corvo, “tão morena como a mãe, de quem herdara o mesmo feitio buliçoso e a curiosidade” (p. 63), questiona os cientistas sobre o destino que as espera. É-lhe

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comunicado que algumas irão para países frios; no caso de Asa de Corvo, ela ficará no Alentejo, “onde um vento terrível e de fogo, o Suão, mata as [s]uas irmãs” (p. 65). Num crescente pacto narrativo com o leitor, o capítulo 12 inicia-se pela afirmação de que “A história começa a complicar-se e a pedir um pouco mais de atenção” (p. 67). Numa nova referência metatextual ao universo das histórias tradicionais contadas a crianças, é dito que Asa de Corvo cresceu depressa, aprendeu a fugir ao vento Suão “que a queria comer, como aquela história do Lobo e do Capuchinho Vermelho” (p. 68). Chega outra Primavera, e Asa de Corvo, ao contrário de sua mãe (que noivara com o Rouxinol), sabe que terá de casar com outra flor. Põe-se à janela, “como a Carochinha duma outra história muito conhecida./ Quem quer casar com a Asa de Corvo, que também é bonita e formosinha?” (p. 68). Se a fecundação da mãe Sementinha se fizera ao acaso, agora, no laboratório, os cientistas determinam o casamento de Asa de Corvo. As alusões a textos ficcionais do universo infantil como que contrabalançam os termos científicos entretanto surgidos, necessários à descrição do processo de manipulação genética, por inseminação artificial:

Ao saber que irá ter filhos híbridos, Asa de Corvo, “empolgada de entusiasmo”, todos os dias ganha minutos “na maturação das novas espigas nascidas do seu casamento científico” (p. 70), pelo que cumpre exemplarmente o papel que lhe fora destinado: é colhida doze dias antes do habitual. No ano seguinte, a sementeira do Alentejo fez-se com novos grãos e a colheita pôde fazer-se sem que o vento Suão a queimasse, pelo que seareiros e lavradores “perceberam que a Ciência tinha apagado outra mancha de fome” (p. 71). Naquele ano, as festas “foram mais alegres do que nunca” (p. 72) e o narrador informa: (…) um dos seareiros, conheci-o eu, comprou ao filho um par de botas de sola cardada. E dizia a toda a gente: – Um homem civilizado… Aqui fazia uma pausa, para que vissem bem a palavra que aprendera: – Um homem civilizado, se tem o pão certo, não pode andar descalço como os burros ou os pombos… (p. 72)

O último capítulo, “Um viveiro de sementes e de histórias”, inicia-se com a frase assertiva “O camponês tinha razão” (p. 73). De seguida, o narrador invectiva a que se extermine as quadrilhas de trigos malfeitores. Especificando que a “terra pode alimentar toda a gente que nela vive” (p. 74), alerta:

E foi com alegria que [Asa de Corvo] esperou a volta do homem de bata branca, como se ele fosse uma abelha

[(…) há ainda milhões de hectares improdutivos como

portadora do pólen de outra flor mais robusta. E com mil

os desertos e milhões de seres humanos sem esperança

cautelas aquele deitou-lhe sobre os pistilos o maravilhoso

e sem pão assegurado. Deixar que a morte e a fome

pó amarelo, colocando novamente no seu lugar as glumas

passeiem entre nós, quando a Ciência já nos ofereceu os

que tinha aberto com as pinças, de maneira a proteger-lhe

companheiros para uma vida mais radiosa, é trair a natureza

os órgãos. (p. 69)

e a nossa condição. Temos de continuar a batalha sem hesitações, porque das cavernas à cidade está a certeza da

O uso do polissíndeto, dado pela reiteração da conjunção “e” em início de frase (prática sintáctica consentânea com a de crianças, portanto, delas conhecida), facilita a apresentação de informações que, obrigatoriamente, teriam de ser dadas num léxico específico, que não é do domínio do público infantil. Se termos como “pistilos” e “glumas” não são evitados, o cientista é nomeado por “homem de bata branca”. Esta opção recupera o ponto de vista (infantil) de Asa de Corvo e equilibra informações que se poderiam revelar densas, logo saturantes, num texto destinado a crianças.

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nossa vitória final. (p. 74)]

Depois de afirmar que “as histórias nunca mais acabariam se lhes fosse contar só as que se ligam à luta contra a fome” (p. 74), o narrador opta por duas, relacionadas com o contributo prestado pelos cientistas Carleton e Mitchurin. Após, pormenoriza os cruzamentos feitos entre trigo e centeio, entre diversos tipos de trigo, contamina referências científicas e bíblicas, dando notícia do uso da energia atómica posta ao serviço da “multiplicação dos pães” (p. 76). Por último, conta um sonho tido em criança,

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no qual vira uma árvore que, em vez de frutos, dava “pãezinhos tostados e loiros”; voltara a lembrar essa visão, informa, ao “documentar-[s]e para esta história” (p. 77). Neste passo, chama a atenção para o progresso tecnológico de fábricas, de maquinaria, de padarias electrificadas. Numa nova perífrase com alusão bíblica, é dito que este é o “pão do progresso, que só não exige que o comam com o suor do rosto”. Circularmente, o capítulo fecha-se (e termina o conto) com a frase: “O camponês tinha razão” (p. 78). Com aquela frase assertiva confirma-se a racionalidade inteligente do representante da classe campesina, que soubera apreciar as melhorias trazidas pela ciência. Para a divulgação destes dados, camponeses e cientistas haviam precisado da figura do escritor que, norteado por um sonho de menino, se propusera a documentar tais epopeias. Assim, neste volume são desvendadas manifestas preocupações políticas, socioeconómicas e artísticas, caras à escrita neo-realista. Dá-se conta de situações de fome e anuncia-se a necessidade de, em prol da humanidade, as modificar. São apontadas alternativas, noticiando-se o progresso trazido por cientistas – caracterizados como visionários e poetas. É revelado que o trabalho do escritor (o que é senhor da capacidade de contar histórias que “nunca mais acabariam”) consiste em documentar-se e em saber dar voz e propriedade ao que pensam aqueles que enfrentam essas situações (aqui simbolizados no seareiro “conhecido” do narrador). Esta apologia da dignificação da humanidade, trazida pela aliança natureza, povo, ciência, arte, não se afasta da que Redol espalhou pelas diferentes obras para público adulto. A lógica e a consistência com que os episódios A vida mágica da Sementinha são apresentados integram de forma coerente os elementos extraordinários que povoam a história. Toda a conceptualização de Redol concretizada nesta narrativa integra dimensões pedagógicas, psicológicas, histórico-geográficas, morais e ideológicas, sem que seja alguma vez descurada a componente estética. Atentando na linguagem usada, o texto está, como vimos, repleto de sinais característicos da fala infantil. Não fugindo a termos técnicos quando necessário, apresenta expressões do registo oral da língua

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que se articulam com um registo linguístico de poeticidade extrema, como visível nas citações feitas a propósito de quadros de descrição da natureza. Para além da ironia, estilisticamente, e sob o signo da personificação, o autor apostou na dupla adjectivação, em comparações, metáforas, enumerações, no polissíndeto, em aliterações e sinestesias que dão a este texto um tom exultante e simultaneamente delicado. Numa recensão feita aquando da saída deste título, Mário Braga escreveu estas (justíssimas) palavras: (…) ao contar às crianças esta breve história do trigo, [Redol] abre uma página nova na literatura infantil portuguesa. E estou certo de não exagerar ao escrever isto, pois desconheço entre nós outro exemplo onde a imaginação e a objectividade se unam com tanta felicidade para dar a aliciante narrativa dum facto concreto.11

Em 1956 como hoje, A vida mágica da Sementinha é um pequeno tesouro literário ao dispor das crianças, que prenuncia o mundo de fantasia e de espanto que estes leitores em porvir poderão encontrar na literatura.

Série A Flor Os quatro livros da Série A Flor, elaborados de acordo com uma gradação de aprendizagem da leitura, adequam o discurso e as estruturas narrativas às capacidades e imaginários infantis. Alves Redol procedeu a inovações formais que trazem a estes textos uma qualidade acrescida. Há nesta Série um gradativo esclarecimento crítico sobre o mundo natural, social, laboral, que servirá de justificação à atitude interventiva tomada pela protagonista, uma animizada Flor. Transformada em Maria Flor, a menina, com a ajuda do Livro das Surpresas, realiza feitiços em prol do povo trabalhador, pelo que nestes textos persistem marcas que caracterizam a produção neo-realista. Esse teor é emoldurado, do ponto de vista formal, por estratégias de oralidade, que procuram captar a atenção de leitores pequenos. Com efeito, em A Flor vai ver o Mar e em A Flor vai pescar num bote, claramente preparados

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Mário Braga. Notas de leitura – A vida mágica da Sementinha. Vértice, vol. XVII, nº 169. Outubro de 1957, p. 573.

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cat. 193

para um destinatário extratextual em fase de alfabetização, surgem pequenas narrativas que se centram no uso da palavra, explorando efeitos fónicos, num desafio de integrar a leitura da forma mais cadenciada possível; valorizam-se objectos e actos facilmente assimiláveis pelo leitor infantil. Nos restantes dois contos, Uma Flor chamada Maria e Maria Flor abre o Livro das Surpresas, para crianças que já ultrapassaram a fase de iniciação à leitura, a estrutura discursiva é mais desenvolta e são enaltecidos a leitura, o livro, a imaginação e saberes sociais deles decorrentes. Caminha-se para a apresentação de uma protagonista atenta ao meio natural e social circundante, estratégia passível de levar o leitor infantil a deixar-se encantar pelas atitudes da simpática protagonista, a perseguir os valores por ela defendidos. Comprovemos estas observações, percorrendo cada um dos quatro títulos. A Flor vai ver o Mar tem por personagens uma Flor, um Boi, um Cão, uma Rã, um Pau e o Sol; a intriga centra-se nas peripécias vividas aquando da viagem que empreendem pelo rio, em direcção ao mar. Depois da caracterização directa

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e positiva das personagens, de especificado o modo como se conheceram, um narrador heterodiegético (que se manterá nos quatro textos) descreve os preparativos para a viagem, que incluem a ajuda que o Sol dá à Flor para que esta se liberte do solo, ou a passagem do Pau a nau. Flor e nau seguem destino. Consternada por ver os companheiros entristecidos, a Flor distrai-se e cai ao rio; o Cão e a Rã auxiliam-na com êxito e acabam por se lhe juntar. Somente o Boi, por não caber na nau, tem de abandonar o intento de viajar. Perto do final surge uma nova personagem, o Chim, que, num bar situado “Num cais do Mar,/ lá no cais do Sul” (p. 40), prepara um chá para oferecer à Flor. A maior peculiaridade deste conto é de ordem poética e retórica, pois ele se compõe, quase que em exclusivo, por monossílabos. Recordemos o artigo “Como escrevi histórias para crianças”, no qual Redol informa sobre o processo de criação deste texto, combinando cerca de 150 monossílabos em busca do ritmo; das palavras do escritor sobressai uma indiscutível consciência retórica e estilística, quando afirma:

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[Pus-me] a jogar com as palavras, a torná-las vivas, a

E o som do Boi a rir

juntá-las em novas combinações e ritmos; elas com a sua

dá o tom à loa

realidade e imaginação prodigiosas, eu a inventar outros

dos que vão na nau:

caminhos para a inesgotável fantasia da música fonética,

Dó-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá-Si

de maneira a que nos tornássemos companhia, estímulo e

A Flor vai ver o Mar… (p. 38)

deslumbramento para os meninos de 6 anos.

Com este interessante recurso, Redol potenciava o trabalho sobre a musicalidade da língua (com vista ao “deslumbramento” do leitor) e uma adequação didáctica (um “estímulo”) à aprendizagem da leitura. O jogo da leitura tornava-se replicativo do jogo da escrita – afinal, a invenção de “caminhos” que sabem respeitar a “realidade e imaginação prodigiosas” das palavras. Há um meticuloso trabalho em torno dos efeitos sonoros das palavras, do ritmo. Esta narrativa em verso inicia-se do seguinte modo:

Àquelas notas musicais correspondem diversas redondilhas maiores (que são conjugadas com redondilhas menores), como seja “Mas as mãos do Sol são luz” (p. 6) – repare-se, neste último exemplo, que o Sol/ nota musical e o Sol/ elemento se sobrepõem. Os vocábulos monossilábicos são associados em frases simples ou em frases coordenadas (copulativas ou adversativas); com estas construções elementares, apropriadas ao público visado, a composição está impregnada de movimento: A flor voa

O Boi é bom.

e cai de pé no Pau.

É bom e tem os pés

E o Pau cai ao rio

e as mãos no chão.

(…) E aí vai a Flor e aí vai o Pau.

O Sol é bom.

Aí vão os dois, num par, prò Mar.

É bom e tem as mãos no Céu.

E lá vão, lá vão… (pp. 19 e 23)

Mas as mãos do Sol são luz. A Rã tem o lar no Rio. Sai do Rio e ri. De que ri a Rã? (pp. 5-7)

Do ponto de vista articulatório, exploram-se oclusivas orais [b/ t/ p] e nasais [m/ n], constritivas fricativas [s/ ch/ c/ z], laterais [l], vibrantes [r], todas elas respeitando uma ordem similar à usada na maioria das cartilhas de ensino da leitura. São, portanto, visíveis as aliterações; insiste-se na redundância – recurso fundamental para captar a concentração de um público infantil, mormente com a utilização do quiasmo (“é bom”). Os sons exacerbam-se com o recurso a onomatopeias: o Cão ora “faz ão-ão” (p. 9), ora “faz béu-béu” (p. 29) se sente dor. Há no texto uma curiosa proposta de sobreposição entre a notação vocal e a notação musical (como exemplarmente Redol disse, “uma música fonética”), pois elucida-se que ele é apresentado sob a modalidade de loa:

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As frases simples conformam-se ao restrito domínio sintáctico de um destinatário extratextual de 6 anos (e de idade inferior). Do ponto de vista semântico, as palavras respeitam o universo psicológico de crianças pequenas, muito em particular o seu universo concreto: por exemplo, “pés” surgem associados a “mãos” (p. 5), como articulados surgem os vocábulos “pai e mãe” (p. 15), “mar” e “sal” ou “sol” e “luz” (p. 25). Agregam-se adjectivos com conotações opostas, como “bom” e “mau” (p. 23). A progressiva aprendizagem do mundo concreto é dada pela percepção das coisas primordiais ou próximas do quotidiano infantil, privilegiando a entrada no mundo imaginário da viagem. Num contexto de terra e de rio, há elementos naturais (sol, céu), luz, cor, animais terrestres (boi e cão), animais anfíbios (rã) e uma flor da lezíria que sonham viajar pelo mar. Personificados, eles respondem ao animismo infantil. As personagens (inter)relacionam-se, viajam; levam a cabo acções singelas (como rir, ver, ir e vir), benignas (como seja ter dó ou

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dar a mão ao outro), esperançosas (como crer), numa ética de entreajuda e respeito. Em A Flor vai ver o Mar passa-se uma taxinomia aos pequenos destinatários, como se pode verificar nos seguintes exemplos: “O Mar é bom, pois é: dá o sal.” (p. 25); “O Boi é mais que cem cães;/ o Boi é mais que mil rãs…” (p. 32). Essa taxinomia estende-se ao relato do ciclo do trigo ao pão: E aí vem o Sol em prol do Boi: – Ó Boi! Vê bem! A tua lei é o chão e o chão dá o grão; e a mó, que mói o grão, faz o grão em pó e o pó do grão dá o pão. (p. 37)

No fundo, recupera-se a perspectiva pedagógica, estruturada pelo pedagogo Coménio, de que a aprendizagem da leitura e a simbolização gráfica das palavras se ligam a uma lição de coisas, ajudando a estruturar o nicho ecológico da criança – o que, a par da representação do mundo, é uma das principais funções da língua materna. Este primeiro volume ficcional da Série A Flor é também um Método de Leitura por excelência, possibilitando uma aprendizagem global da leitura. O facto de as 38 páginas de texto terem quase só monossílabos (que, simultaneamente, respeitam o estádio de consciência linguística, psicológica e imagética de crianças pequenas) demonstra um precioso rigor por parte de Alves Redol. Esta labuta de intenção didáctica é indissociável do trabalho poético levado a cabo pelo autor. O cuidado de recorrer à aliteração e à onomatopeia, de sugerir a leitura entoada (fazendo da leitura uma harmonização melódica e rítmica), é fecundo para ajudar à construção do sentido da narrativa. O encantamento desta composição, encadeando uma narrativa animada de compreensão linear, por certo estimula na criança um jogo de linguagem e uma memorização, que prolongam e fazem da leitura do conto uma brincadeira e um momento crucial de aprendizagem. Saliento que, no âmbito da literatura infantil portuguesa, este é o único caso de uma narrativa com tais características. No que respeita ao minucioso trabalho de utilização de vocábulos

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monossilábicos, à propriedade e jogo sonoro de cada um, à sobreposição de notas musicais, num trabalho, por demais evidente, de facilitação do processo de aprendizagem da leitura por parte do público-alvo, Redol não teve antecessores. Neste volume, o escritor afirmou a sua modernidade, diligenciando caminhos novos, experimentais. A Flor vai pescar num bote inicia-se no Cais do Sul. Após peripécias vividas pela efabulosa Rã (que incha de vaidade e se transforma em bola), esta, a Flor e o Cão são recebidos pelo Chim e por uma nova figura: o velho lobo do Mar. Este último proporciona à Flor, ao Cão, à Rã e ao Pau a desejada viagem de bote pelo alto mar, para uma noite de pescaria. Sem conhecimentos do ofício, a pesca resulta infrutífera. Quando Flor e companheiros regressam, revelam os seus sonhos, pronunciando-se a Flor: “– Eu só quero ser Flor…/ Flor. Maria Flor,/ nome de moça bonita” (p. 43). A narrativa termina com a indicação expressa (que já vinha no volume anterior): “E é o fim” (p. 43). O desafio linguístico prossegue neste segundo título da Série. Há um cuidadoso trabalho de alargamento da iniciação à leitura, pelo que ele contém um misto de monossílabos e de dissílabos. As excepções surgem para finais da narrativa, com vocábulos como os transcritos acima (“Maria” e “bonita”). Sons e formas gráficas são estruturados em construções sintácticas mais elaboradas do que sucedia em A Flor vai ver o Mar. Há um recurso a frases complexas, nelas sobressaindo as subordinadas relativas e as subordinadas causais. As frases exclamativas abundam, bem como o uso de interjeições ou de vocativos. Alguns verbos aparecem em pares e com um valor gradativo, crescente: “O cão rosna e ladra ao Sol” (p. 10); a rã “corre e voa” ou “salta e voa” (p. 15). O não constrangimento ao uso de monossílabos imprime maior ritmo e, sobretudo, movimento à narrativa, bem como centrar o jogo sonoro na rima, que, inclusive, em alguns momentos, se apresenta como rima rica – caso da constante no exemplo seguinte (no qual o verbo “saltar” rima com o substantivo “ar”): Aí entra a Rã num jogo de correr e de saltar: um moço dá-lhe com o pé,

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pega-lhe um arrais com a mão,

E como o Rio é bem verde

outro atira a Rã ao ar,

e se casa com o Mar,

outro joga a Rã ao chão. (p. 15)

ficam os dois verde-mar. (p. 7)

Nesta narrativa em verso, a métrica, de novo irregular, continua a apresentar um número razoável de redondilhas maiores e de redondilhas menores – saliente-se que este é o ritmo preferido pela poesia oral e as tradições cultas nela expressamente ancoradas (e, a este propósito, é impossível esquecer o fascínio de Alves Redol por essa mesma poesia oral, recolhida no Cancioneiro do Ribatejo, de 1950). Como exemplos destas redondilhas, veja-se, para o primeiro tipo, o extracto acabado de citar e, para o segundo, este trecho: No cais do Sul, lá num cais do Mar há barcos e botes, há naus e arrais, há aves e peixes, há bichos e gente, e outros que tais. (p. 5)

A insistência na anáfora (“há”), ao serviço da enumeração, é um importante processo de construção rítmica, conjugando o trabalho sobre as sonoridades com a construção de analogias semânticas, tudo apoiado na sílaba de cada verso, com a vogal aberta a (de “lá” e de “há”, em cinco ocorrências). Àquele trabalho sonoro alia-se um novo labor: a preocupação evidente sobre a materialidade visual, designadamente com a espacialidade na organização do texto. Comprovemos o afirmado, observando o trecho a seguir citado – cuja mancha gráfica, à medida que é relatado como a Flor se fez à vela, se alarga, desenhando a vela de um navio: À ré a Flor põe o pé, tira o pé, molha o pé.

Verifica-se, portanto, estoutro processo de experimentação. Alves Redol incorporou novas técnicas e recursos – ao caso, as que haviam sido trazidas à literatura portuguesa pela poesia experimental dos anos 60. Assinale-se que, a propósito dos romances do escritor, foi já notado que neles houve uma abertura “ao experimentalismo mais ousado dos anos 60”12; nestes títulos para crianças pequenas realizam-se investimentos similares. Visto os volumes terem sido publicados em finais da década de 60 (e, segundo testemunho de Arquimedes da Silva Santos, escritos na mesma década), cumpre-se, ainda nessa data, o que Joaquim Namorado veementemente defendeu ser uma característica da escrita neo-realista ao longo dos anos e, em particular, da escrita de Redol: “desde 39 que o Neo-Realismo pretende constantemente assenhorar-se das conquistas formais que lhe pareçam válidas”13. Neste volume, dá-se um inevitável aumento do campo lexical, e os animais e objectos circundantes alargam-se aos do mar e aos do cais. Enunciam-se fenómenos naturais (o da luz solar); descobrem-se profissões (o arrais, o moço). Perpassam no texto cumplicidades, virtudes e valores: a Flor critica o Chim por maltratar o Cão – daí decorre que a caracterização directa das personagens feita em A Flor vai ver o Mar passa, aqui, a indirecta. A taxinomia referida para o primeiro volume continua. E porque a Flor é introduzida ao mundo social, profissional, essa taxinomia alarga-se. Diz o Pau: “Cada qual em seu saber…/ E se não sabem pescar,/ não há peixe pra comer” (p. 30). É intenso o cromatismo dos textos. Sucedem-se os exemplos. Assim, e entre outros, “lá no azul do céu,/ o Sol, que é cor de limão” (p. 9), tornar-se-á cor “de lume” (p. 10); a fita do boné do lobo do Mar é “cor de prata” (p. 11); a vaidosa Rã transforma-se numa “bola de cinco cores [verde, azul, branca, preta, gris]” (p. 15).

Molha o pé no Mar Azul e fica da mesma cor: toda azul.

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Ana Paula Ferreira. Alves Redol e o neo-realismo português. Lisboa, Caminho, 1992, p. 18. 13 Joaquim Namorado. Obras. Ensaios e críticas. I – Uma poética da cultura. Lisboa, Caminho, 1994, p. 239. 12

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Uma Flor chamada Maria foi classificado por Matilde Rosa Araújo como “um prodígio de imaginação vocabular dando vida às letras do alfabeto”14. Cumprindo o sonho expresso no final de A Flor vai pescar num bote (“– Eu só quero ser Flor…/ Flor. Maria Flor,/ nome de moça bonita”, p. 43), neste novo conto surge a personagem humanizada que lhe dá o título. A Flor tornou-se menina, tomou o nome de Maria Flor e está em idade escolar; mora na casa do chinês Chim, no Cais do Mar, e “vai à escola aprender” (p. 5). A escola situa-se num espaço urbano (por onde a menina passa há carros, lambretas…). Feito este enquadramento inicial, acompanhamos a protagonista na escola, a relacionar-se com as letras, brincando com elas, viajando com os textos, neles reinventando o seu pequeno mundo. Em casa, acabado o processo de aprendizagem das letras, o Chim apresentar-lhe-á as potencialidades do livro, da leitura/ viagem. Há, de novo, em Uma Flor chamada Maria uma adequação progressiva a propósitos didácticos subliminares, como se os livros fossem pensados para serem lidos pela mesma criança, que vai crescendo. A começar pelo título, há uma insistência no uso de polissílabos, com predominância para os trissílabos. Conquanto uma porção considerável do texto ainda seja apresentada em verso, são introduzidos, gradativamente, excertos em prosa (pp. 5, 8, 14, 21, 28, 32 e 33). As frases oferecem maior elaboração sintáctica do que no livro anterior. Os processos de enumeração – com recurso ao polissíndeto ou ao assíndeto, o uso da comparação são constantes. A rima foi abandonada, mas os versos apresentam uma métrica distribuída por redondilhas maiores e menores. Como a narrativa gira em torno da aplicação de jogos de linguagem, a insistência recai sobre tautogramas – entre vários, com as letras p (pp. 9-10), r (p. 15) ou n (p. 25). Notemos este exemplo. Na escola, como “já sabe o a e i o u” (p. 9), Maria Flor passa à aprendizagem das letras p e t (era esta a ordem de apresentação das consoantes em A Flor vai ver o Mar). Às preocupações do ponto de vista fonético e gráfico alia-se o cuidado de denunciar como frases correctas, do ponto de vista sintáctico, podem apresentar incorrecções semânticas:

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cat. 195

Põe-se o T em tropelias aos pontapés às palavras: pega na tia e no tio e tapa o pote com eles, tolo e tonto a trautear: – Eu sou um tipo da tropa, O tropa do topa-a-tudo, tapo o pato, topo a tia e ponho o pote no pato… – É peta! – diz a tia. – Porás o pato no pote Mas não o pote no pato. (p. 11)

Com o domínio sucessivo de mais letras (l, d, c, m, v, r, z) podem ser glosados sons, formas, contextos. Aprendidas letras, palavras e frases, concluída a alfabetização, “as letras sa[em]/ dos livros de ler e ver” (p. 16). O processo de aprendizagem da leitura levado a cabo por Maria Flor demorou seis meses, o tempo que o Boi (que no primeiro conto não

14

Matilde Rosa Araújo. Alves Redol e a literatura infantil. Vértice, vol. XXX, nºs 322-323 (Nº especial Homenagem a Alves Redol). Novembro-Dezembro de 1970, p. 870.

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pudera navegar na nau) levou “a chegar ao bar do Chim” (p. 17). Com a escola fechada, Maria Flor regressara a casa “quase murcha” (p. 16). Para afastar a tristeza resultante do fecho da escola (e com ele a hipótese de contactar letras, palavras e histórias), o Chim propõe-se a dar lições à menina, ao Cão, à Rã, ao Boi e ao Pau. Os seis fazem uma roda e o Chim brinca com Maria Flor, dizendo-lhe: Se a Flor deu em ser moça,

Rã narra “naufrágios de naus e nautas/ e notícias de navios” (p. 26). Vaidosa, a Rã ganha “plumas como flores” e transforma-se num “pavão, tão pavão” (p. 28); feitas estas comparações, metamorfoseia-se em peru e incha até estoirar. Para consolar Maria Flor deste susto, o Chim, “que sabe do mundo e das pessoas” (p. 32), anima-a, desafiando-a a fazer uma viagem, e aclarando que viajar, para além de “correr mundo”, a ver bichos, natureza, pessoas e lugares, é:

Moça, menina e mulher, E por mudar em Maria

Conhecer e descobrir,

Chora por coisa tão pouca,

inventar e duvidar,

Eu tiro a cedilha à moça

sabendo cada vez mais,

E zás!

sem nunca pensar que basta

fica a Flor numa moca. (p. 21)

o mundo que se conhece. E alargá-lo com amor

Para além do jogo sobre letras móveis e sinais gráficos (ao qual, de modo quase imperceptível, se vai sobrepondo a apresentação dos vários sinais de pontuação), surgem exercícios com base na escrita, que redundam em aliterações. Por exemplo, a Rã morde na perna do M que se transforma “num N” (p. 25); após aquela acção, a cat. 196

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dentro de nós e dos outros. (p. 32)

Dada esta explicação, Chim entrega a Maria Flor um saco com um livro, esclarecendo que nele estão “Todas as coisas da vida e do mundo. Dentro dele vai tudo o que precisas” (p. 33). Estabelecida a ponte entre leitura e imaginação, o ensinamento transmitido pelo adulto Chim à criança Maria Flor consiste na apologia da viagem que a leitura e o livro possibilitam. Ler como viajar são sinónimos de “conhecer e descobrir,/ inventar e duvidar”, de saber, de ter permanente curiosidade, alargando o mundo exterior a par do interior. Amalgamando as duas actividades, Maria Flor aceita, entusiasmada, o desafio: a viagem com o livro, que será o fulcro do quarto conto da série. Maria Flor abre o Livro das Surpresas é uma narrativa mais longa do que as anteriores. A protagonista presta uma enorme atenção ao espaço envolvente, a aspectos laborais e sociais; coadjuvada pelo Livro das Surpresas, concretiza encantamentos, intervindo sobre aqueles aspectos. No texto predomina a prosa, repleta de diálogos, os quais, junto de um leitor que está a completar o processo de alfabetização, proporcionam uma mais facilitada leitura. Por haver uma maior elaboração sintáctica, vão sendo introduzidos novos sinais de pontuação, página a página. Além disso, neste texto como que se condensa todo o trabalho estilístico dos anteriores: surgem onomatopeias e aliterações;

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insiste-se na anáfora; quando surgem versos, há ou não rima, a métrica apresenta-se de redondilha maior ou menor. A narrativa inicia-se com Maria Flor a anunciar ao Sol que vai “correr mundo”, para verificar “se o Livro que o Chim lhe deu poderá fazer certa maravilha” (p. 5). O primeiro feitiço que intenta obter junto do Livro consiste na recuperação da Rã. Como esta lhe aparece imperfeita, pois, com a pressa de sair, trocara “o sítio da boca/ pelo dos olhos redondos” (p. 9), Maria Flor volta a pô-la dentro do Livro, com quem ralha, zangada. O Livro das Surpresas apresenta-se, então, com a primeira fala – e dela resulta a sua caracterização como uma personagem sábia e ponderada. A justificação para a falha havida reside na pressa tida, que não tem em conta a importância do tempo. Ora, esclarece o Livro: – Para tudo é preciso tempo… Nem sempre vive melhor a gente mais apressada.

vales” (p. 22) até uma aldeia onde vive o Velho Ti João, o dono do Burro. A aventura anunciada de “correr mundo” (p. 5) tem afinal por destino esta aldeia situada à beira de uma serra. Nessa aldeia, a “gente moça abalou para França ou faz a guerra. E os velhos ficaram com as mulheres e os meninos a trabalhar nos campos e a pastorear os gados” (p. 24)15. Depois de recebidos apoteoticamente pelo povo, chega o Ti João, a quem Maria Flor “explica tudo, dizendo ainda que vinham trabalhar para ele” (p. 29). Nessa noite, a Rã parte em “busca da noiva que a espera” (p. 30) e não volta a aparecer na diegese. Maria Flor, menina solidária, irá ingressar no mundo humano, do trabalho, e conhecer, momentaneamente, as agruras deste, ao lado das gentes do povo. Ti João ensina Maria Flor “a servir-se da foice” (p. 34). O narrador explicita a dureza do trabalho da ceifa e, pela voz do Ti João, dá-se conta da ausência de recursos monetários de uma classe social (“a gente” do povo) face a uma outra (a dos “ricos”):

Há o tempo de viver, há o tempo de pensar, há o tempo de fazer

(…) ceifar é trabalho duro. O sol parece um braseiro a queimar os segadores.

e o tempo de descansar… (p. 11)

E a sede aperta; e a fadiga vem aos braços;

Quando a Rã, já perfeita, salta do Livro, chega o Cão junto de Maria-Flor e “aí vão os três pela estrada adiante” (p. 12). O deslumbramento que, nos dois primeiros volumes, Flor demonstrava ter pelo mar, ou aquele que, no terceiro, Maria Flor manifestava pelas letras, evolui neste para o encanto frente à seara que avista pelo caminho: “Maria Flor olha à sua volta. Deslumbra-se. Vê os campos amarelos de trigo maduro, onde o vento faz ondas, ondas largas” (p. 16). A protagonista compara tamanha beleza à do mar: “Repara neste Mar tão doirado.../ Julgava que o Mar era só azul ou verde” (p. 16) – realce-se a persistência do cromatismo neste novo texto. A Rã explica-lhe que estão no tempo das colheitas, e fala-lhe de “ceifas e ceifeiros, de debulhas e de fábricas de fazer farinha” (p. 17). Maria Flor, o Cão e a Rã encontram uma nova personagem, um teimoso Burro, que expressa o desejo de ser um automóvel. A menina pede ao Livro das Surpresas rodas, pneus, volante, faróis, pelo que o Burro se transforma num estranho automóvel. Sentados nele, vão “por montes e

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e as dores tomam os rins. A Maria Flor e o Ti João caminham a passo, deixando atrás deles pequenos molhos a secar. Suam ambos. (…) Pergunta Maria Flor: – Não há máquinas para fazer este trabalho? – Há, sim, menina. Mas só os ricos lhes chegam. A gente não tem posses para máquinas dessas… (p. 34)

Como se pode verificar por este excerto, neste volume predomina a prosa; persiste, todavia, um trabalho poético apurado. Da introdução de versos – cuja métrica se reparte por redondilhas menores (“e a sede aperta”) e maiores (“e a fadiga vem aos braços;/ e as dores tomam os rins”), que se mesclam com a prosa, com diálogos, resultam mudanças dinâmicas de ritmo.

15

Para além da referência à emigração e ao trabalho infantil, repare-se na assertividade e na ideologia subjacente à expressão fazer a guerra (em vez de ir para ou estar na guerra), contraposta à expressão oficiosa de defender a Pátria, usada à época. Não deixa de ser surpreendente a ousadia de Redol ao pontuar um quadro sociopolítico tão directo, sabendo que o texto teria de passar na censura.

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cat. 175 Alves Redol com Constantino Cara-Linda, início dos anos 60

Recebido aquele esclarecimento, Maria Flor abre o Livro das Surpresas e aponta uma nova palavra: ceifeira-debulhadora. Aparece-lhe uma máquina que faz todo o trabalho de ceifa, pelo que “Nunca Maria Flor se sentiu tão contente. Apetece-lhe cantar e canta, bate palmas e pula. Depois faz a ceifeira regressar ao Livro das Surpresas” (p. 35). Louco de alegria e enternecido, o Velho Ti João percebe que a mudança se deve também a Maria Flor e manifesta-lhe o seu regozijo. O conto termina quando, regressados a casa, Maria Flor se inquieta por não ver o Cão que subira à Serra, e o Ti João a informa de que há lobos na Serra: “Na Serra como na vida há sempre lobos…/ E é o fim” (p. 38). Visto que no epílogo de Maria Flor abre o Livro das Surpresas se usa fórmula idêntica à dos restantes três volumes (“E é o fim”) e, principalmente, se apresenta a peripécia do desaparecimento do Cão (análoga à do desaparecimento da Rã no final do terceiro volume), poder-se-ia colocar a hipótese de haver uma continuidade para a série. Esta presunção corresponderia ao prolongamento da série (inserta, aliás, numa colecção para leitores dos 6 aos 12 anos). No espólio do escritor, porém, não há manuscritos que comprovem essa intenção; a tê-la tido, Alves Redol não a pôde levar avante por motivos da falta de saúde.

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Tudo se harmoniza nestas quatro narrativas inteligentemente urdidas para os mais pequenos. Apresentam uma linguagem cuidada, trabalhada de forma gradativa, com o máximo rigor. O contexto geográfico, social e cultural representado remete para uma atmosfera de beleza, bem e alegria. Nessa atmosfera, sobressai, primeiro, a animizada Flor (pequena, sonhadora, curiosa). Maravilhada, ela viaja pelo rio, contacta com as gentes do Cais, após o que viaja pelo mar e experimenta a faina da pesca. Quando se torna Maria Flor, integra-se num mundo cultural (das letras, da leitura, dos livros), apreciando a diversão que este lhe pode trazer. Evolui para o apreço pela magia que a leitura/ viagem proporcionam. Apetrechada com o Livro das Surpresas, corre mundo – um mundo rural que a deslumbra, pugna pelo progresso (transformando o burro de carga em automóvel). Solidária, recorre às artes mágicas do Livro das Surpresas e introduz a ceifeira-debulhadora no trabalho rural. Alcança então um contentamento supremo pelas atitudes ajustadas que tomou. Com a simpatia com que a protagonista é caracterizada, com o exemplo do bem-estar por ela atingido, por certo se visaria um processo de identificação por parte dos leitores, pondo-os “no lugar do herói da história e actua[ndo] com

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ele”16, numa perspectiva de sensibilização para a mudança, em prol de um futuro melhor. Verifica-se, portanto, que nesta série saída em finais da década de 60, continuam vincadamente inscritos os princípios propugnados pelo Neo-Realismo. Em qualquer dos volumes não deixam de ser estabelecidas relações intertextuais com personagens e peripécias do património literário oral, habitualmente desfrutado pelo público infantil. O Cão tem o papel de ser inteligente e mediador, que lhe é atribuído em tantos contos da literatura tradicional. A Rã cumpre o papel de tola, de efabulosa, de ambiciosa/ invejosa, que herdou das fábulas de Esopo em que quis ser boi e inchou até estoirar. O Pau é o justo (o bastão da justiça), a voz da razão – diz ele em A Flor vai pescar num bote: “Quem não se lembra de amigos,/ não pode ir longe na vida” (p. 26). Ele representa ainda a materialidade de uma gesta heróica nacional, especificamente porque se transformou em nau; a recordar-nos o rimance popular português “A Nau Catrineta”, também ele “tem muito pra contar” (p. 8). A estas opções não serão alheios o empenho de Alves Redol em trazer para a literatura infantil elementos da tradição popular (que tão bem conhecia), mas que foram aqui modelados e renovados de forma criativa. É ainda evidente a intertextualidade estabelecida com clássicos de literatura infantil. A Flor revela uma ingenuidade delicada, pelo que, como sucede a tantas personagens dos textos dirigidos à infância, necessita de ser guiada por um adulto protector (o Chim, o velho lobo do Mar, o Velho Ti João). A evocar o protagonista de As aventuras de Pinóquio17, que deixa de ser um boneco de madeira e passa a criança quando aceita a instrução e a escola em detrimento da brincadeira, a Flor, depois de enfrentar aventuras várias, passa a menina e frequenta com apego a escola. Munida do Livro das Surpresas, qual fada coadjuvada por uma varinha de condão (e quantos títulos não se socorrem deste tipo de adjuvantes mágicos?), faz encantamentos vários. Ao atingir o feitiço-mor – o trabalho da ceifa em tão pouco tempo, inverte papéis, transformando-se ela própria em protectora e heroína do Velho camponês, qual Pinóquio salvador do Velho Gepeto engolido por um tubarão. Na Série A Flor, Alves Redol persistiu no ideário neo-realista de divulgação de situações

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sociais injustas e de apologia de valores como a fraternidade, bem como na atitude de esperança num futuro melhor, que o autor espalhou na sua obra. Tais ideário e crença, arrolados a um Livro mágico, a uma flor transformada em menina/ fada, a animais tão do agrado do público infantil, como que esmaecem; contudo, estão presentes, tal como no volume de 1956. Assim, de A vida mágica da Sementinha a Maria Flor abre o Livro das Surpresas o autor não empreendeu qualquer viragem nos temas por ele apetecidos. Ficou evidenciado, sim, o apuro do trabalho formal e a adequação esclarecida ao nível etário dos leitores, que, como salientado, foi inovador na literatura infantil portuguesa. Tendo em conta as características apontadas, em especial os exímios jogos de linguagem apresentados gradativamente, os livros da Série A Flor permitem às crianças em processo de alfabetização fazer uma leitura autónoma deles, sem que se torne necessário escutá-los da boca de um adulto, oferecendo-lhes, por conseguinte, a possibilidade de se apropriarem de textos ficcionais na íntegra. Com eles, Alves Redol concorreu, de forma ímpar, para a magnificência da literatura portuguesa para a infância.

Bibliografia activa18 Alves Redol. A vida mágica da Sementinha – Uma breve história do trigo. Lisboa, Ed. de autor, 1956. A Flor vai ver o Mar. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1968. A Flor vai pescar num bote. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1968. Uma Flor chamada Maria. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1969. Maria Flor abre o Livro das Surpresas. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1970.

Teplov, op. cit., p. 132. Carlo Collodi. As aventuras de Pinóquio. Lisboa, Caminho, 1993. 18 Os cinco volumes encontram-se actualmente disponíveis no mercado, em edições da Caminho. 16 17

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cat. 107 Representação de O Destino Morreu de Repente, de Alves Redol, pela Comuna-Teatro de Pesquisa, 1988


A intertextualidade como desafio no teatro 1 Miguel Falcão Docente na Escola Superior de Educação de Lisboa. Investigador do Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa (CET). Douturado em Estudos de Teatro, Universidade de Lisboa

A criação dramática de Redol é reveladora da sua permeabilidade à influência de determinadas obras que, gradualmente, foram atravessando o seu percurso de dramaturgo. Esse referencial vai surgindo em várias peças, sob diversas formas e de modo pontual. É possível, por exemplo, ver na Mãe de Gorki uma inspiração para a Mãe de Forja, ou, talvez, nas sete especialidades dos Mágicos de O destino morreu de repente – Vícios, Defeitos, Distracções, Desgostos, Doenças, Físico e Amor2 – uma recriação dos Sete Pecados Mortais, de Brecht. Todavia, na dramaturgia redoliana, há textos – em especial entre os inéditos, como os seis casos que aqui são mobilizados3 – que, na sua globalidade (e não apenas em aspectos pontuais), surgem com as marcas claras de uma intertextualidade que convoca expressamente, e põe em confronto, algumas peças de outros dramaturgos. Em que termos e por que razões, então, Redol interpela alguns textos e dramaturgos do teatro universal? Estas são as questões axiais do percurso seguidamente proposto, a que procurarei responder, através da análise dos seis casos mais relevantes. Num registo de comédia, que decorre em ambiente burguês, Deolinda (esboço de peça) retoma o tema das diferenças, contudo conciliáveis, entre classes sociais, com

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

um homem de classe superior a assumir, socialmente, a sua relação amorosa (mesmo matrimonial) com uma mulher de baixa condição. Como dirá uma das personagens, no previsto quarto acto: “Quis ser um novo Pigmalião” (Redol, s.d [1939-1944?]: 6). Mas, no seu texto, Redol retoma a temática de Bernard Shaw de outro ângulo. Não é já a “rapariga da rua” que entra na casa do “senhor”, que, por sua vez, tendo em conta também a sua formação académica e a actividade profissional como professor de fonética, procura dar-lhe uma “educação”. Esta fora a forma encontrada por Shaw – a persistência e os ensinamentos do professor Higgins e o sucesso obtido em Elisa Doolitle – para cumprir o programa anunciado no prefácio àquele texto dramático, que, para o dramaturgo irlandês, era uma “prova” contra “os

1

2

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Este texto corresponde, com alguns ajustes, ao capítulo “A intertextualidade como desafio” de Espelho de ver por dentro: O percurso teatral de Alves Redol, v. Falcão, 2009, pp. 446-472. Deste conjunto fica excluído o Supermágico, a quem está reservada a função de coordenação daquele grupo, embora não tenha nenhuma “especialidade”. Os inéditos completos – que incluem também Porto de todo o mundo (s.d [1939-1943?]), que não é analisado neste texto – e os quatro anteriormente publicados – Maria Emília (1945), Forja (1948), O destino morreu de repente (1967) e Fronteira fechada (1972) – foram reunidos no volume Teatro, de Alves Redol (organização, introdução e notas de Miguel Falcão), com edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (no prelo).

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sabichões que papagueiam constantemente que a arte nunca deve ser didáctica” (Shaw, s.d: 20), defendendo, de resto, que “a Arte com A grande não pode ser senão didáctica” (Ibidem). Redol expande o conflito de Shaw noutras direcções. Em Deolinda, ao confrontar Clara com a inesperada morte, “num desastre”, do marido Eduardo – um romancista que toma o lugar do professor de fonética – e, consequentemente, com a situação financeira difícil daquela família, com muitas “contas por pagar”, Redol recoloca a acção noutro ponto de partida, que, aliás, já era visível (embora não enfatizado) no caso da Florista de Pigmalião: “O problema da mulher [que trabalha] fora do lar”, de acordo com a anotação do próprio Redol, aliado ao da “nobreza de carácter”, extrínseco às condições sociais. Clara prefere passar a ter uma profissão e a trabalhar fora de casa, a aceitar favores perniciosos e indignos e a “viver de esmolas dos amigos” (Redol, s.d [1939-1944?]: 1). Com esta atitude, tem de enfrentar o conservadorismo da sogra: “Esquece-se [de] que foi ele que fez dela uma mulher da sociedade. Temo pelo seu nome. Vês estes repentes que ela tem, por vezes? É a sua origem a revelar-se. A rapariga da rua que o nosso Eduardo fez uma senhora” (Ibidem: 2). Efectivamente, no esboço do seu texto, Redol traça o regresso à “origem”, depois de Shaw ter optado por ficcionar o respectivo afastamento. Esta decisão é acelerada pela revelação, no esboço do último acto, de que Deolinda, que vivia com a família, era sua amante e de que, afinal, aquele casamento tinha sido forjado com intuitos económicos: “Fui para ele um caso de romance e de publicidade. (…) Os jornais fizeram um alarido de publicidade à volta do seu nome” (Ibidem: 6). Em O triângulo quebrado, outro inédito, Redol retomaria a referência Higgins-Doolitle, através do diálogo em que a personagem Mulher pergunta ao seu Autor se ele se esquecera de que “o Pigmalião se apaixonou pela sua obra” (Redol, s.d [1958-1959?]: 45). A resposta do Autor, naquele texto, poderia ser também uma explicação para este caso Eduardo-Clara: “(…) ele apaixonou-se pela obra e não pela mulher” (Ibidem). Em Deolinda, num registo algo moralizante, Redol sobrepõe, sem margens para dúvidas, a dignidade, a rectidão de carácter e a superioridade dos valores do “seu” povo, que Clara representa,

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a quaisquer interesses económicos e sociais, personificados em Eduardo e na sua família. Desta forma, colocando o teatro ao serviço de uma ideia profundamente política, convergia para a mesma finalidade de Shaw: a defesa, naquela transição dos anos trinta para a década de 40, do carácter utilitário e social da arte. Em O consórcio (inédito completo), o confronto de condições sociais distintas volta a ser transposto para dentro de portas. Mas em negativo, e com outros contornos conflituais. Neste caso, foi a personagem feminina que nasceu na “casa abastada” prevista para o cenário, marca primeira do ambiente de alta burguesia que atravessa toda a acção. A cena inicial coloca-nos de imediato na festa, organizada por Menezes, seu pai e proprietário de uma grande empresa de moagem de farinhas, com o intuito de promover a aproximação de potenciais pretendentes, da mesma condição social, à sua filha, que não mostrava interesse em assumir um compromisso matrimonial, muito menos com os candidatos que lhe vão aparecendo e que, manifestamente, vai recusando. No decurso desta festa, emerge, de novo e uma vez mais com certa linearidade, a corrupção das classes mais elevadas, contraposta à seriedade das classes mais humildes, segundo a óptica de Redol, de que é particularmente exemplificativa a Cena XVI do Primeiro Acto: Menezes Procuras alguém?! Criada Sim, o mordomo… Menezes Algum caso grave?!... Com essa cara… Criada Sabe… é que… Menezes Então, resolve-te! Não posso perder tempo contigo. Vamos! Criada (Chorosa) É que ele mandou-me tomar conta dos candelabros de prata e mesmo assim…

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


Menezes [Os convidados] [l]evaram-nos. Já é hábito. (…) Vai-te embora. E sossega, mulher. (Redol, s.d [1943?]: 26)

A futilidade que transparece nas conversas cruzadas é pontuada pela subjugação, à supremacia do económico, de valores humanistas, que vão transparecendo nas conversas, de que Redol parece destacar a igualdade de oportunidades, o direito de afirmação pessoal e de livre escolha e o respeito fraternal por todos, independentemente das classes a que pertençam. No final do primeiro acto, essa perversão intencional atinge um dos pontos culminantes (só comparável ao final), quando, à margem dos interesses dos jovens, que, de resto, “não puxam um para o outro” (Redol, s.d [1943?]: 27), Menezes planeia o casamento da filha com o herdeiro de Loureiro, um industrial de produtos farmacêuticos, “especializado no fabrico de Gastriomil (…), [um medicamento] para os aparelhos digestivos doentes” (Ibidem):

que anunciara logo na primeira fala da cena. A sua filha vai casar, mas o caso sofreu uma reviravolta desde o fim do primeiro acto: Menezes Apurem bem os ouvidos. Um o-pe-rá-ri-o. D. Sara Que disparate! Mas a menina está doida, com certeza. Oh que aflição!... Mas é um operário mesmo?!... Menezes Então o que há-de ser?!... D. Sara Eu julgava que fosse algum rapaz mascarado que ela tivesse visto pelo Carnaval e que tu tratasses desse modo. Só assim compreendia… Menezes Um operário autêntico. D. Sara Ai que coisa!... Daqueles de mãos sujas e cara suja?

Menezes Menezes

E por isso mesmo podemos perpetuar as nossas indústrias. Um bloco, uma fortaleza… das tais que lhe falei.

Sim!

Sem ninguém perceber a intimidade dessas relações. D. Sara Loureiro

Daqueles com fato de ganga, muito cheios de nódoas, suados…

Mas…

Menezes

(…)

Sim, com suor e tudo. Menezes D. Sara

Pois oiça. (Pausa) O seu Gastriomil consertando aparelhos digestivos… A farinha das minhas moagens preparando a saída para o seu produto. Que diz?!...

Mas isso é uma porcaria que suja a nossa família! (Redol, s.d [1943?]: 32)

Descoberto um moto-contínuo, como vê. Loureiro (Sorrindo-se) Sim… de facto. Farinha… Gastriomil… Mais farinha… mais Gastriomil. (Levantando-se arrebatado) Um abraço!... Você é de facto um grande político!... (Redol, s.d [1943?]: 27-28)

É no início do segundo acto, quatro páginas depois de hesitações e de evidentes dificuldades em contar à sua irmã, D. Sara, e ao seu amigo, Dr. Costa, que Menezes revela o “caso gravíssimo”

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

É neste ponto que Redol abre uma brecha para, em meados do século XX, desenhar uma outra possibilidade de afirmação da mulher – e desta no confronto socioeconómico – radicalmente diferente de toda a tradição preconceituosa a que, no século anterior, se submetera a strindberguiana Miss Julie. Redol traça um percurso para a Juju de O consórcio – Juju será um diminutivo de Julie? – que se cruza, nalguns momentos, com o da personagem de August Strindberg, e que vai para além do

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facto de ambas serem jovens, de viverem sem a mãe e, eventualmente, com o trauma da sua perda: os contextos de festa, em que as duas protagonistas surgem em cena – a “descida” ao baile dos criados ou a “permanência” como figura central da festa de gala – pressagiam, de modos distintos, o devir de cada uma; a aparente desvalorização, no decurso da acção, dos interesses económicos e da tradição social e cultural, em detrimento da felicidade e do amor almejados, justifica uma aproximação aos homens pelos quais se apaixonam, apesar de serem seus subalternos (um mordomo e um operário); e a projecção dessa felicidade conjugal numa lua-de-mel, que passaria, nos dois casos, pela idílica Suíça. Mas, ao contrário de Julie, Juju ousa enfrentar o pai e as convenções sociais: “Vergonha porquê? É preciso iniciar a cruzada de uma outra vida em que as filhas dos grandes magnatas se consorciam com os seus operários” (Redol, s.d [1943?]: 38). Entre os argumentos que esgrime com o pai, Juju exige o direito à sua opinião e à sua escolha e recusa o mesmo destino de outras mulheres, que são “escravas toda a vida dos senhores. Dos pais primeiro, dos maridos depois” (Ibidem), exactamente como a Miss Julie que jurara à sua mãe – esta educada “com ideias acerca da igualdade, da liberdade para as mulheres e por aí fora” (Strindberg, 1979: 59) – que “nunca seria escrava de nenhum”(Ibidem: 61). E defende outro tipo de consórcio, decorrente do seu casamento, que assentaria, não exclusivamente em interesses de expansão económica, mas de rentabilização, despreconceituada, dos recursos humanos existentes: Juju Um homem que conhece todo o movimento das tuas fábricas e poderia ser o nosso director técnico. Acabam-se os manejos dessa gente que tu tens debaixo de ti. Ficaremos com o fabrico na mão, inteiramente. Tu aqui no escritório dirigindo a parte comercial; ele [o Operário], ao teu lado, como especialista, tratando do que tu não sabes tratar. Aumentávamos os nossos lucros espantosamente. (Redol, s.d [1943?]: 40)

No subtexto da argumentação de Juju – a que toda a família acaba por se render – é possível vislumbrar a tentativa de resumo da

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tese marxista do “estádio superior da sociedade comunista” (Crítica ao Programa de Gotha, 1875), ou “comunismo” para Lenine (O Estado e a Revolução, 1917), no âmbito da qual, entre outros postulados, as classes sociais seriam eliminadas e as relações de trabalho assentariam na divisa “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades” (apud Bottomore, 1988: 339). Redol faz o leitor (/espectador) acreditar que todos parecem aceitar um desfecho profundamente revolucionário – até mais na linha da dramaturgia social de Henrik Ibsen, com Juju a dizer-se “farta de andar a mando dos outros”, a desvalorizar “o francês, os bordados e o piano” da sua educação burguesa e a recusar os “enfeites de boneca” (Redol, s.d [1943?]: 39) – reforçado pela atitude do filho do empresário Loureiro, que entretanto admitiu seguir o exemplo da “ex”-amada com a sua “empregada” Isaura. Mas quando Juju e o seu Operário se preparam para selar o compromisso de casamento com um “longo beijo daqueles com que acabam os filmes de amor” (Redol, s.d [1943?]: 50), o dramaturgo introduz um factor de desestabilização. Durante toda a acção, Redol manteve discretamente omnipresente o elemento representativo da autoridade e da verdade, que naquele instante emerge em cena, embora não por via de um intercomunicador, como no texto de Strindberg. No lugar do pai da Miss Julie, que o dramaturgo sueco preenchera simbolicamente com a permanência em cena das suas botas, Redol coloca um Espectador, que, da plateia onde sempre estivera, e também por via da palavra dita, faz sentir a sua autoridade, garantindo que “não permite” aquele desfecho, porque é “falso” (Ibidem: 50). É ao Espectador – a cada espectador, a cada um de nós, afinal – que Redol imputa o peso da convenção social, da tradição cultural e da segurança económica. O Espectador exige veracidade, porque “o teatro é vida” (Ibidem) e “isto assim não é teatro; é prestidigitação, é telepatia, é (…) aldrabice” (Ibidem: 51). É essa “voz da razão” – hipnotizadora da Miss Julie e do mordomo – que, no texto de Redol, força as consciências a descarrilarem da utopia para a realidade, onde as personagens começam a mover-se “lentamente (…), como se acordassem dum sono” (Ibidem: 52). Juju acaba por casar

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


com o herdeiro de Loureiro, o operário é chutado para a fábrica “donde nunca deveria ter saído” e “tudo acaba bem”. Neste jogo intertextual, Redol poderá ter pretendido estabelecer uma analogia entre a consequência da alienação da sociedade, relativa a uma determinada concepção político-ideológica do mundo – que era a sua e transparece no texto – e o destino da Miss Julie: o encaminhamento para uma certa letargia, em que parece insinuar-se a opção pelo suicídio. Embora já ensaiada em O consórcio, quando o Espectador irrompe pela cena e, na discussão com o Ponto, reavalia o comportamento das personagens e o desfecho da acção, é em O triângulo quebrado (inédito completo, fixado) que a interpelação de Redol ao teatro de Pirandello surge explicitamente. É, designadamente, para Seis Personagens à procura de Autor (1921), que a proposta cenográfica e a apresentação das personagens de O triângulo quebrado nos remetem de imediato. A simetria, presumida no espaço pirandeliano, com “duas escadinhas, uma à direita e outra à esquerda do palco” (Pirandello, s.d: 23), é explorada por Redol, que propõe a divisão da cena em “dois compartimentos”, que funcionam, nalguns momentos, como espaços de representação simultânea: “O [compartimento] da Direita, mais amplo, representa a sala de visitas (…). O compartimento da Esquerda, mais pequeno do que o outro, é disfarçado pela parede da sala, a qual se tornará transparente quando as luzes se acenderem por detrás” (Redol, s.d [1958-1959?]: 2). A decoração proposta por Redol, determinada pela “sobriedade e opulência” (Ibidem), embora contrastante com o “palco vazio” onde chegam as seis personagens pirandelianas, poderá ser entendida como outro modo de olhar a proliferação de mesas e cadeiras indicadas na primeira didascália do texto de Pirandello, com “um piano, ao fundo, quase escondido, de lado” (Pirandello, op. cit.). Mas em ambos, sobressai um adereço idêntico, colocado em cena de forma enigmática: a “poltrona (…) de costas voltadas para o público” (Ibidem) cede lugar ao “maple (…) voltado de costas para o público” (Redol, s.d [1958-1959?]: 2). Entre as duas listagens de personagens há também analogias evidentes. No texto de Redol – se exceptuarmos as vozes (locutores

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cat. 100 Original manuscrito da peça O Triângulo Quebrado, de Alves Redol

e “coro de gargalhadas”) e os que, de acordo com a separação de Pirandello, se posicionam do lado da “Companhia”, como o Contra-regra (presente em ambos), o Electricista e o Autor (que no texto redoliano ocupam funções equivalentes às do Carpinteiro e do Director-Encenador) – são também seis as personagens e, tal como no texto do dramaturgo italiano, em igual número quanto à divisão por género: as três personagens masculinas são o Marido, o Amante e o Advogado; e as três femininas são a Mulher, a Criada e a Outra Mulher. De igual modo também, estas personagens não têm nome e correspondem a uma tipificação comportamental, que é, todavia, em quase todos os casos, conforme escreveu Rogério Paulo na sua “Breve Nota sobre Pirandello”, o lado visível da “ luta interior constante, [que] caminha até à angústia do homem obscuro que se perdeu no mundo tremendo do seu ser” (apud Pirandello, op. cit: 5). No prefácio que escreveu para a peça, Pirandello designa essa “angústia” por “necessidade espiritual mais profunda”, que impregna nas suas personagens, para lhes conferir “um sentido particular da vida

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e (…), graças a esse sentido, um valor universal” (Pirandello, Ibidem: 10). Tal como acontece com as personagens de Pirandello, também entre as de Redol há “algumas (artisticamente) mais realizadas, outras menos, e outras ainda quase só apresentadas como elementos de um facto a narrar ou a representar” (Ibidem: 13), como, respectivamente, o Marido e a Mulher, o Amante e o Advogado, a Criada e a Outra Mulher. Ao longo de três actos, estrutura que também fora seguida por Pirandello, Redol sonda os processos do grotesco daquele dramaturgo e, simultaneamente, procura mergulhar na profundeza das personagens, deixando emergir nelas as contradições dos homens: as suas angústias, os seus medos e as resignações; mas também os seus momentos de lucidez, de irreverência e de reacção. É possível vislumbrar resquícios das histórias que se cruzam em Seis Personagens, no que diz respeito, em particular, à passagem pelos caminhos sinuosos da traição, quando se busca o amor. A cena pirandeliana, em que o Pai diz ter mandado a Mãe “à casa do outro, (…) para a libertar de (…) [si]” (Ibidem: 35) ou, segundo a Mãe, para se libertar “a si próprio” (Ibidem), repete-se no terceiro acto do texto de Redol, quando, perante o Autor e o Amante, a Mulher acusa o Marido: “Repetiste a mesma frase vezes sem conta. Insististe na presença constante do filho do teu amigo; obrigaste-o a acompanhar-me aos concertos; dançámos noites inteiras… (…) E deu-se o irremediável. Eu encontrei, finalmente, um homem que me compreendia, me falava de assuntos que me interessavam e não me impunha as suas opiniões, deixando que eu tivesse as minhas” (Redol, s.d [1958-1959?]: 59-60). Do mesmo modo, Redol mostra o relacionamento extraconjugal do Marido, numa cena do terceiro acto, sem falas, na qual, de acordo com a breve didascália, o “Marido está à secretária e aparece Outra Mulher que o beija e o arrasta para um sofá, onde se sentam” (Ibidem: 55). Com esta cena, Redol parece pretender satisfazer a curiosidade dos espectadores de Pirandello, em cujo texto o impulso sedutor da Enteada, em relação ao Pai e ao próprio Autor, não transcende os limites da fala: “[Tentei seduzir o Autor], muitas vezes, na melancolia daquele seu escritório, na hora do crepúsculo, quando, abandonado sobre uma poltrona, não se resolvia a dar volta ao interruptor

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da luz e deixava que a sombra invadisse o quarto (…). Se nos deixassem a sós. (…) [E]u com ele (Indica o Pai) (…). Que cenas, que cenas íamos propor-lhe! – E eu, eu, mais que todos os outros, o tentava, ao Autor!” (Ibidem). Mas a mais evidente das diferenças que se impõem entre os dois textos dramáticos – para além de muitas que se revelam nos planos formal, temático e figurativo – e que de algum modo torna O triângulo quebrado subsidiário de Seis Personagens de Pirandello, reside no facto de Redol lhes proporcionar o encontro com um “Autor”, em cena, um pouco à semelhança do que António Pedro experimentara na sua “comédia em um acto”, Teatro (1934)4. Numa primeira leitura, poder-se-ia também supor que, em O triângulo quebrado, encontrado o Autor, o que as personagens procuram são os actores, isto é, os meios de concretização teatral, o que – tendo em conta que o texto terá sido escrito, tanto quanto é possível presumir, entre 1948 e o ano seguinte – poderia ser lido como um grito surdo de Redol contra a censura de Forja, entretanto proibida de levar à cena. Mas a motivação de Redol parece ser outra, mais complexa e filosófica, à boa maneira pirandeliana. Inicialmente, é como se Redol pretendesse ficcionar a descrição feita por Pirandello no seu prefácio, e corroborada pela personagem Enteada no texto dramático, segundo a qual as personagens “aproveitavam certos momentos do (…) [seu] dia de trabalho para se abeirarem de (…) [si] no silêncio e na solidão do (…) escritório; e ora uma ora outra, ora duas aos mesmo tempo, (…) [tentavam-no e propunham-lhe] esta ou aquela cena apta a ser representada ou descrita, os efeitos que dela poderiam tirar-se, a novidade e o interesse contidos numa determinada situação insólita, etc.” (Pirandello, op. cit.: 11). Só que, ao colocar as personagens diante de um autor, Redol aniquila aquilo que para Pirandello era uma “fatalidade inexplicável”, ou seja, o sofrimento do “drama de ser uma «personagem em busca de autor»” (Ibidem: 15).

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Cf. António Pedro, Teatro Completo. Coordenação de António Brás de Oliveira. Prefácio de Luiz Francisco Rebello. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981, pp. 57-72.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


Aquelas seis personagens procuram um Autor que as faça viver, como clarifica Rogério Paulo (apud Pirandello, ibidem: 6). Diferentemente – e, tendo em conta o contexto sociopolítico em que o texto foi escrito, também metaforicamente – Redol imaginou personagens que não depositam toda a esperança no poder criador do Autor, que o enfrentam e cujas decisões, por conseguinte, contestam. No confronto directo com as personagens, o Autor perde autoridade, como acaba por reconhecer: “A culpa é só minha!... Quis ouvir a vossa opinião e estraguei tudo” (Redol, s.d [1958-1959?]: 33). Chega mesmo a rasgar a sua “peça” e a desistir de definir o “destino de cada um”, ficando de fora só para dar “certos esclarecimentos” (Ibidem: 39), enquanto as personagens serão autónomas. Redol entende-as como autoras do seu próprio destino, contrariando, assim, a “inconsciência” de algumas personagens pirandelianas (como a Mãe), acusadas pelo próprio dramaturgo

italiano de não saberem que têm “um papel a desempenhar” (Pirandello, ibidem: 16). Contrariamente às personagens pirandelianas, a Mulher de O triângulo quebrado parece recusar que a procura de um autor seja, como escreveu criticamente o dramaturgo italiano, uma “função necessária e suficiente para (…) [existir]” (Ibidem: 15), porque, continua Pirandello, “não é possível acreditar que a única razão da nossa vida resida exclusivamente num tormento que se nos antolha injusto e inexplicável” (Ibidem). Por isso, no final, a reacção da Mulher será o reconhecimento destas palavras que o Autor lhe dirigira no início do último acto, e que, naquele instante, não pudera ainda compreender: Mulher (…) [O]s acontecimentos (…) passaram[-se] como uma fatalidade a que nenhum dos três [ela, o Marido e o Amante] se poderia furtar.

Alves Redol, Teatro I - Forja e Maria Emília, 1º ed., Publicações Europa-América, 1966

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Alves Redol HORIZONTE REVELADO

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Autor Acredita, nesse caso, na força do destino… Mulher Não se trata de acreditar ou não, mas simplesmente de reconhecer a sua existência insofismável. Autor É uma forma demasiado simplista de interpretar a vida. Já pensou como o destino teria de funcionar, se ele fosse exactamente como os homens o julgam? Mulher Nunca pensei nisso.

viver e, mais do que as outras também, têm a consciência de serem personagens, isto é, [de] necessitarem imperiosamente de um drama, do seu próprio drama, que é o único que elas podem imaginar para si e que no entanto lhes é recusado” (Ibidem: 14-15). A opção disruptiva de Redol conduz o seu texto dramático à ideia de possibilidade, quando a mulher, na sua “versão” da cena, com uma atitude que revela até uma certa “manipulação do Autor”, não prescinde do direito entretanto conquistado de decidir, e opta pela morte do Marido e do Amante, que personificam a recusa da poesia e do amor (metaforicamente entendidos como a antítese do capitalismo):

Autor Autor

Mas vale a pena fazê-lo, logo que tenha oportunidade.

(…) [P]reciso dum fim de peça inesperado que deixe os espectadores aturdidos…

(…) Autor

Marido

(…) Mas deixemos tal assunto para outro dia. Agora o

Como o senhor propunha, não? (declama) Eu voltarei

tempo urge. Insurgiu-se há pouco contra a minha peça e exigiu que a ouvisse. Estou às suas ordens.

a ser o poeta que já fui e que esse homem [o Amante] usurpou, usurpando-me o teu amor… Ridícula coisa! Que

Mulher Então porque me fez desviar a conversa?

me interessa a poesia e o amor dessa senhora? Aos poetas alugo-os e às mulheres compro-as. Mulher

Autor

Cínico! (decidida) Mas esta versão é a minha e ninguém

Para que sentisse que tudo tem uma causa. E que se souber usar de coragem, nada na sua vida será misterioso

aqui pode interceder. Meu caro autor: mate aquele homem.

e absurdo.

Mate-o como quiser; eu não aparecerei no seu processo como parte acusadora. Mulher Marido

Usa desse processo para se julgar?

E eu recuso-me a morrer… Autor Amante

Nem sempre… Tenho também as minhas cobardias, e

E eu a casar com uma viúva…

não deixo, algumas vezes, de me sentir incapaz de me olhar a mim próprio bem de frente. Mas pode começar. (Redol, s.d

Mulher

[1958-1959?]: 41-42)

Então tenha paciência, meu caro autor. Mate-me os

Tal como Pirandello, Redol acolheu a existência das seis personagens; mas, contrariamente àquele dramaturgo, não repudiou “a sua razão de ser” (Redol, s.d [1958-1959?]: 14). Ou seja: Pirandello, colocou as suas personagens na situação impossível, “terrível e desesperada, especialmente para as duas – o Pai e a Enteada – que mais do que as outras se obstinam em

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dois, que eu vou à procura dum drama que me compreenda (e sai decidida, ante o aturdimento do Marido e do Amante, enquanto o Autor puxa da pistola e se ouvem duas detonações já com o pano corrido). (Redol, s.d [1958-1959?]: 62)

A Mulher sai à procura, não de um “autor”, porque não pretende transferir para outrem

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


a responsabilidade na definição do seu próprio destino, mas de um “drama”, isto é, da sua verdadeira “razão de ser”, enquanto personagem que tem consciência de ter um papel a desempenhar. É com essa determinação final, expressa claramente em O triângulo quebrado e permitida (/promovida) por si, como dramaturgo, que Redol gostaria de ter deixado os espectadores “aturdidos”. A centralidade da força feminina ressurge nas poucas páginas de outro projecto, Irmãs (esboço de peça). Quando, ao alinhavar a estrutura do texto, destacou a presença de três irmãs – “A mais velha, já macerada; a do meio, ardente; a mais nova, ainda com esperanças” (Redol, s.d [1946-1947?]: 1) – e deslocou a acção para a província (neste caso, a região do Douro), Redol teria consciência de que, de imediato, o seu projecto ficaria referido ao célebre texto dramático de Anton Tchekov. Como na obra modelar, também a acção de Redol é colocada numa casa habitada maioritariamente por mulheres, localizada num contexto geográfico dominado por homens: o campo de artilharia, de que o pai das três irmãs tchekovianas fora “general de brigada” (Tchekov, 1998: 21), é substituído, no esboço de Redol, pelas terras que se estendem desde as propriedades, onde decorre a festa do “último dia da safra”, até ao “rio” em que morrera o noivo da Tia das três raparigas. Ao contrário de Três Irmãs, no texto de Redol o Pai ainda vive e todas as filhas são solteiras. Para além de que, no plano formal, Redol não cumpre os quatro actos em que se estrutura o texto de Tchekov. É nesta deriva, aliás, que Redol desencadeia o rumo de Irmãs, cujo desfecho previsto, apesar de aparentemente semelhante, se revela substancialmente diferente do da obra russa. Tal como as personagens de Tchekov, também as de Redol vivem num sonho, que, por força de não ser concretizado, se vai arrastando e desfazendo em desilusão. São solteiras e, apesar da “maceração” e do “ardor” com que Redol caracteriza as duas mais velhas, ainda não sabem – e por isso perguntam a uma “Mulher” que as visita – “a que sabem os beijos dos homens” (Redol, s.d [1946-1947?]: 1), empenham-se no modo como se apresentam, adornadas e “penteadas com garridice” (Ibidem: 2), e acusam-se de não falarem “senão em homens” (Ibidem).

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

Embora não se verifiquem correspondências lineares entre o projecto de Redol e o texto de Tchekov, é evidente a ideia de supressão do terceiro acto de Três Irmãs, no qual deflagra um violento incêndio, que Nemirovitch-Dantchenko, citado na “Introdução” à versão portuguesa de Três Irmãs (aqui utilizada), considerou ser “a catástrofe [que] aprofunda a mediocridade [das personagens]” (apud Tchekov, ibidem: 16). Todavia, aquele fogo, que Tchekov concentrou num só acto, é expandido por Redol, metaforicamente, a dois níveis: o fogo que ateia os mais íntimos instintos eróticos daquelas mulheres, estratégia que lhe permite tangenciar subtilmente o ambiente trágico da lorquiana A Casa de Bernarda Alba; e o fogo que ameaça “queimar catastroficamente” a honra da família. A mais nova das irmãs, que, ao contrário de Irina, não sonhava em sair da terra onde vivia, vê-se pressionada, sobretudo pelo Pai, a deixar a família e a casa onde todos habitam e a partir, porque engravida fora do casamento. Era a consequência de, tal como Irina, ter tentado cumprir o seu sonho: enquanto aquela aceitara casar com o barão, sem o amar, esta entrega-se, sem o conhecer, àquele homem que “um dia (…) [viu] na estação” (Redol, s.d [1946-1947?]: 2). Ela ousou em nome do sonho, mas também cedendo à pressão social, porque não queria ficar solteira “toda uma vida como a Tia” (Ibidem). À morte do barão, que inesperadamente desfaz o sonho de Irina de partir para Moscovo, Redol contrapõe o nascimento de uma criança, com que se inaugura uma nova etapa da vida daquela família. A compreensão demonstrada pela Tia (não há referência à evolução da atitude do Pai) é acompanhada pelo apoio das irmãs: Vêm as outras e obrigam-na a sentar-se. (…) Falam do menino que vai nascer. – E tu?! – Ficas?!... Vai para junto das outras. Deita-se a seus pés. Cantam todas ao menino. (Redol, s.d [1946-1947?]: 4)

No final, tal como em Três Irmãs, ficam juntas. Mas, no ventre da mais nova, Redol faz germinar a esperança, que o dramaturgo russo voltara a adiar irremediavelmente. O teatro tchekoviano entusiasmava particularmente Redol, porque nele encontrava, conforme a análise de Luiz Francisco Rebello,

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cat. 141 Lima de Freitas, Retrato de Alves Redol, (óleo s/tela, 62x50cm), 1952

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em O Teatro Moderno: Caminhos e Figuras, os “dramas em que exteriormente quase nada acontece, mas que estremecem de uma intensa vida interior, em que o diálogo tradicional é substituído por uma série de monólogos que se cruzam, como se as personagens dissessem em voz alta as dúvidas, as incertezas, mas também os sonhos e os anseios, que intimamente as consomem” (1964: 38). Em Recordações de Tolstoi, Tchekov e Andreiev, Gorki, citado por Rebello, escreveu que “ninguém compreendeu tão lúcida e finamente como (…) [Tchekov] a tragédia das trivialidades da vida, ninguém antes dele mostrou aos homens, com tão impiedosa verdade, o retrato terrível e vergonhoso da sua vida em meio ao turvo caos da existência quotidiana da burguesia” (apud Rebello, ibidem). É o reconhecimento dessa existência quotidiana terrível que transparece também nestes textos de Redol e que uma das personagens do Esboço de Irmãs exprime de modo lacónico: “Parece-

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-me que nada mais pode florir em mim, senão angústia. A angústia de me saber morta e ter de viver” (Redol, s.d [1946-1947?]: 2). Mas o tom esperançoso com que Redol polvilha os seus textos não tarda em sobressair e, logo de seguida, a mesma personagem reage: “Quero enfeitar-me como vocês… Julgam que não reparo?” (Ibidem). O interesse de Redol pelo teatro tchekoviano levou-o a tomar a iniciativa de propor, precisamente a Rebello, que traduzisse Os malefícios do tabaco 5, para divulgarem aquele texto que, em meados dos anos 40, não conhecia ainda uma versão portuguesa. E no final daquela década, quando pretendeu escrever “um acto” para a actriz Laura Alves representar no Teatro Estúdio do Salitre, foi naquele texto de Tchekov

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Sigo, nesta análise, o dactiloscrito da tradução de Luiz Francisco Rebello, que integra o Espólio de Alves Redol.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


que primeiramente fez ancorar o seu ímpeto de sempre, de sondar os acontecimentos e os homens da sua época. Mas, neste caso, essa sondagem foi experimentada, não somente “a partir de dentro”, mas intencionalmente “dentro” (opção reforçada pelo recurso ao monólogo), onde cada um guarda o mais íntimo dos seus mundos – também por necessidade, naquele início da década de 50, em que o abafamento voltava a impor-se – e preserva “as suas emoções profundas”, como salientou Stanislavski sobre o teatro de Tchekov (Stanislavski, 1980: 280). Uma personagem vê-se forçada por outra, que a domina, a enfrentar o público – presumidamente atento e interessado – e a defender aquilo em que, na sua mais profunda verdade, não acredita, desviando-se com frequência do assunto da exposição e resvalando para a revelação do que a atormenta e para a confidência dos seus sonhos: eis, em síntese, o “leitmotiv humano”, na terminologia de Stanislavski (Ibidem: 281), que relaciona aquele texto de Tchekov e A propagandista6, de Redol. Ivane Ivanovitch Nioûkhine e a personagem Propagandista – conferencista e vendedora de “banha de cobra” – debatem-se, ambos, com os seus medos, que passam por casamentos frustrantes, quotidianos rotineiros, perda gradual da identidade e subjugação a autoridades que lhes restringem o desejo de serem livres, enfim, situações que se arrastam e que parecem irremediáveis. Todavia, ambos sonham. Mas, aos sonhos das personagens tchekovianas, “vastos, grandes, ideais (…) [que] provavelmente jamais se realizarão”, conforme observou Stanislavski (Ibidem), Redol contrapõe o sonho concretizável. Assim, Nioûkhine gostaria de “fugir; deixar tudo, sem olhar para trás!... (…) [Deixar] esta vida de nada, esta vida banal, esta vida medíocre que fez (…) [dele] um deplorável pateta, um velho e lamentável idiota!... (…) E parar num campo, em qualquer parte, longe, bem longe! Ser, sob o céu imenso, como uma árvore, como uma vara… como um espantalho de pardais… E ver toda a noite, por cima de si, a lua tranquila e clara…” (Tchekov, s.d: 7). Já a Propagandista acalentou, primeiro, “aquele sonho de correr mundo” (Redol, s.d [1950a?]: 3) e, depois do “vazio das horas sem sentido” (Ibidem) que se instalou no seu primeiro casamento, também o desejo de

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

“uma vida diferente (…) com o (…) [seu] filho” (Ibidem: 4), no seio do seu relacionamento com “o outro [que] veio com as suas bugigangas… estas músicas, estes caixotes… e estas palavras” (Ibidem: 3). Nos dois discursos emerge a acção complexa que se desenvolve nos “estados de alma tchekovianos” (Stanislavski, op. cit.: 282), apesar da aparente inacção. A intervenção de Nioûkhine acusa, embora mais dissimuladamente, a banalidade e o esvaziamento da palavra, como expressão de quotidianos, sobretudo quando é comprovada a dessintonia entre aquele que a expressa e os imperativos do mundo que o rodeia – materializados na mulher, autoritária, insensível e avara, que, todavia, “gosta de apregoar aos quatro ventos a sua miséria” (Tchekov, s.d: 3) – ou, mais grave ainda, entre a “verdade” que o habita e aquilo que pode (/deve ou consegue) exteriorizar. Por essa razão, ele desabafa: “Nada me sai bem, envelheci, tornei-me estúpido… Assim, reparai, estou a fazer uma conferência, tenho um ar alegre, e contudo desejaria gritar de desespero, e que o diabo me levasse” (Ibidem: 5). O discurso da Propagandista – que não se resume, como ela julga, a “palavras e palavras sem sentido” (Redol, s.d [1950a?]: 4) – é mais contundente, apesar do valor conotativo que lhe é conferido, sobretudo, pelo uso frequente da metaforização, nalguns casos claramente perceptível. Ela critica abertamente a voz do altifalante – relacionável com a reconhecível pronúncia beirã de Salazar – que, em vez de símbolo, diz “símbalo”, advertindo o público para que não ria, pois “é assim que ele fala e (…) [ela] nada mais (…) [é] do que o eco da sua voz” (Ibidem: 2). Ela é uma Propagandista, que não se coíbe em falar dos seus colegas “propagandistas”, no momento em que o Secretariado Nacional de Informação (que já fora de “Propaganda”) se preparava para a etapa pós-António Ferro: “É costume os meus colegas fazerem sortes com cartas de jogar ou manigâncias de prestidigitação [para “descobrir os mais terríveis flagelos” da

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Trata-se do único inédito completo, encontrado no Espólio de Alves Redol, que não é incluído no volume Teatro (v. supra Nota 3). Os critérios editoriais respeitaram a vontade do autor, que inscreveu o seguinte comentário no dactiloscrito: “Uma coisa incrível! Não a rasgo para me envergonhar quando a leio”.

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cat. 104

humanidade]. Eu, porém, não necessito de tais meios. Não sou uma vulgar propagandista” (Ibidem). Ela é uma “mulher de ciência”, inventora da “pomada maravilhosa (…) [que faz] parar os micróbios para que a humanidade atravesse” (Ibidem). Mas, quem são esses micróbios? São aqueles que, comparados com automóveis, “andam por toda a parte numa liberdade que põe em grave risco a vida humana (…) [e que] param à esquerda, às segundas, quartas e sextas, e à direita, às terças, quintas e sábados… (…) [e] se calhar aos domingos podem ficar atravessados no meio das ruas para que ninguém passe… (…) [Ou] vão ao futebol e entram em toda a parte sem pagar impostos, nem mandar avisos. E não há luzes vermelhas nem verdes nem amarelas que os façam parar” (Ibidem). No final, quando voltam a ser confrontados com a presença da autoridade (mulher e altifalante, respectivamente), ambos interrompem as confissões e retomam os assuntos que os haviam levado até àquele público. Contudo, os desfechos dos dois textos são substancialmente distintos. Ele, fumador inveterado, lê o último

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parágrafo da preventiva conferência sobre “os malefícios do tabaco”, cuja realização tinha sido determinada pela sua mulher, concluindo-a como se a tivesse proferido, assumindo o medo, resignando-se, implorando até a cumplicidade do público para a sua salvação: “Se ela vos perguntar, digam-lhe, por favor, digam-lhe, peço-vos, que a conferência teve lugar” (Tchekov, s.d: 8). Já a Propagandista, quando vai para retomar, desde o início, a venda da “banha de cobra”, rebela-se contra a voz do altifalante e tudo aquilo que ela representa: “(…) parece uma sombra maldita a seguir-me os passos… a voz de um destino que não é o meu” (Redol, s.d [1950a?]: 4). Aquela mulher gostaria de ter “uma vida diferente”, em que pudesse “cantar para o (…) filho velhas canções de berço” (Ibidem). Por essa razão, antes da “cortina rápida”, e de acordo com a última didascália, “levanta o rosto e ergue-se decidida, olhando o altifalante, como se defrontasse o homem” (Ibidem), e remata, “implacável”: “Juro-te que o meu filho é que eu não perco!” (Ibidem). Através desta mulher, o dramaturgo “propagandeia” a esperança, que, também neste outro texto tchekoviano, uma vez mais, se tornara um fogo-fátuo. Em A propagandista, como noutros textos de Redol, o ponto de ruptura – que intercepta um estado de alienação e funciona, consequentemente, como força geradora de (re)acção – é marcado pelo aparecimento de uma criança: o desejo da assunção plena da maternidade com o filho que já nasceu (retratado neste caso), bem como a angústia da espera do nascimento, presente em Irmãs, são perspectivas de um mesmo tema, que afloram, por exemplo, na acção de Forja. Há, contudo, uma perspectiva outra, que é dada pelo último destes textos em que me parecem transparecer interpelações intertextuais: O menino dos olhos verdes (inédito completo), que, aliás, tal como A propagandista, é também um monólogo e foi igualmente escrito para Laura Alves. Se, na dramaturgia redoliana, poderíamos ver em O consórcio, como em Bodas de sangue, a tragicidade do “amor impossível” (Rebello 1964: 415) e, em Irmãs, como em A Casa de Bernarda Alba, também o trágico das “mulheres sem homem” (Ibidem), é com “a tragédia da maternidade que não se cumpre” (Ibidem), em

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O menino dos olhos verdes, como em Yerma, que completa uma espécie de revisitação da trilogia dramática de Lorca. Aos três actos, vinte e quatro personagens e diversas propostas cenográficas de Lorca, Redol contrapõe um monólogo, durante o qual se ouvem mais três vozes-off, num espaço cénico único, que, através de uma “cortina negra” e de um “banco tosco e longo”, representa um tribunal. Yerma é casada há três anos e anseia engravidar, mas o marido não deseja ter filhos, porque, na opinião da Velha, é daqueles “homens de semente podre que encharcam a alegria dos campos” (Lorca, 1971: 31). Yerma vive angustiada por se sentir cada vez mais próxima da esterilidade da terra sequiosa, já que, como lhe diz a Velha, “para ter um filho é necessário que se junte o céu com a terra” (Ibidem: 95). No final, Yerma mata Juan, e “com o corpo seco para sempre” (Ibidem: 101), reconhece que, tendo matado o marido, matou, ela mesma, o seu filho. A personagem central do texto de Redol é a Ré, colocada de imediato num tribunal, onde será julgada por um crime cometido em relação a uma criança. Mas esta Mulher não será condenada por homicídio. Ela é confrontada com o facto

de ter raptado uma criança, que era vítima de maus-tratos por parte da mãe biológica. Sente-se afectivamente ligada àquele menino, cuja cor dos olhos – como as “folhas verdes” que faziam lembrar, em Yerma, o olhar do marido de Maria (Ibidem: 19) – correspondia, aliás, ao desejo do seu “homem”: “De mim só quero que tenha os olhos verdes… E verdes porque o nosso filho há-de ter a esperança no destino dos homens. Eles serão um símbolo da nossa vida” (Redol, s.d [1950b?]: 3). Os momentos de ternura – que Yerma só conheceu com Victor, antes do casamento com Juan – constituem uma das mais gratas recordações da Ré: “(…) ele vivia sempre comigo, agarrado à minha pele que só ele acariciou” (Ibidem: 2). Mas, sem que o dramaturgo revele as razões, o marido foi assassinado por outrem – seria uma insinuação à tortura infligida pela PIDE, claramente retratada no conto Mais um Herói, de Soeiro Pereira Gomes? – e o seu “sonho mais belo” (Ibidem: 1) destruiu-se. Apesar dos trajectos diferentes, a lamentação ressurge de forma semelhante: “(…) o homem que eu amei levou consigo os filhos que seriam de nós dois. Mataram-no… E com ele mataram os meus filhos” (Ibidem: 2).

cat. 98 Representação de Maria Emília, de Alves Redol, pelo Teatro de Ensaio da Fima-Lever, (1966)

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A Ré tem consciência de, tal como Yerma, não poder conhecer a sensação, sugerida pelo “poeta que foi assassinado” (Ibidem), quando aquele estabelece a comparação entre o filho que está a ser gerado no ventre e “um pássaro vivo apertado numa mão, (…) corpo progressivo a latejar, teimando viver, inquieto por libertar-se” (Ibidem). A Ré, que já salientara o gosto do marido pela poesia, alude, sem o nomear, a Federico García Lorca e, designadamente, à contracena de Maria com Yerma, quando a jovem grávida tenta explicar à protagonista a transformação que se opera no seu corpo, mesmo “dentro do sangue” (Ibidem: 18). Esta cena, aliás, remete também para Forja, designadamente para o diálogo entre a Mãe Malafaia e a Vizinha, quando esta, angustiada, confessa àquela que está grávida e procura os seus conselhos, do mesmo modo que, ainda no mesmo texto, na derradeira cena entre a Mãe e o Pai Malafaia, é possível rever o momento em que Yerma estrangula o marido. Se, a par destas analogias, se destilar o tom poético, a relação estreita entre a dramaturgia e o real e uma certa atitude reivindicativa, inspirados em Lorca e latentes em toda a criação dramática de Redol, tornar-se-á mais evidente a perspicaz observação de Luiz Francisco Rebello, logo na crítica à primeira edição de Forja: E se é lícito falar de influências, a propósito de Forja, evocaremos, mais do que a tragédia grega, a grande sombra luminosa de García Lorca (…). (Rebello, 1948: 417)

Todavia, mantendo-se muito embora no campo da esterilidade, ao deslocar o “não desejo” (que era referido a Juan) para outra mulher, logo para fora do casal, Redol, não só aborda outra faceta do mesmo tema, a maternidade não desejada, como revolve o terreno árido da incompatibilidade desenhada por Lorca, reservando a esse espaço conjugal o lugar por excelência para gerar vida. Para além do mais, a acção de O menino dos olhos verdes é interrompida, aos olhos do público, antes de se saber a sentença. O debate sobre a maternidade prolonga-se e, no texto de Redol, há uma criança que, como as demais, tem o direito a ter uma mãe, razão pela qual, no final, a esperança subsiste ainda para a Ré: “o homem é mais

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homem e menos animal quando tem coragem para emendar e se opor até à natureza” (Redol, s.d [1950b?]: 4) Concluídos os seis percursos intertextuais enunciados e apresentados os termos em que a dramaturgia de Redol os apresenta e resolve, procurarei propor algumas razões mais para este programa, que, não sendo original (a História do Teatro está recheada de adaptações, versões, reescritas, releituras de textos, umas sobre as outras), não deixa de ser expressivo no contexto da criação dramática do autor. Antes, porém, duas notas relevantes. A primeira, para enfatizar – de acordo com os seis percursos estabelecidos – que, para além das referências discretas a Pigmalião (O consórcio e O triângulo quebrado) e da menção relativamente vaga ao “poeta assassinado” (O menino dos olhos verdes), Redol não menciona explicitamente nenhum dos autores, e, de entre o leque de dramaturgias intertextualmente convocadas, refere somente aquele título de Bernard Shaw. A segunda, para reforçar que estes dramaturgos correspondem, na maioria, àqueles que, como explicou Luiz Francisco Rebello, “souberam captar nos seus dramas o próprio movimento da realidade (…). E nos múltiplos caminhos por eles encetados – ou simplesmente anunciados – outros se aventuraram, que, exprimindo concepções diversas do mundo, pensando o homem e o seu destino segundo diferentes ideários, nos vão propondo imagens sucessivas, mas complementares, de uma realidade contraditória e cambiante, poligonal, que é, historicamente, aquela em cujo processo estamos enredados e de que somos, ao mesmo tempo, actores e espectadores” (1971: 18). Redol, que carregou tantas vezes o epíteto de “precursor” e de “inovador”, parece ter querido experimentar-se nessa imensidão de tantos “outros”, para, à sua maneira, se aventurar pelos “caminhos encetados”. O desafio de Redol, no caminho da intertextualidade, poderá ser compreendido a dois níveis. Em primeiro lugar, como desafio pessoal, a si mesmo, dramaturgo. Enquanto procura reconhecer os pressupostos estéticos de abordagem do real e ensaiar as técnicas utilizadas com esse objectivo por cada dramaturgo, perscrutáveis naqueles textos referenciais,

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interpela-os também tematicamente, à luz do seu tempo e dos seus princípios ideológico-políticos. Verifica-se, sobretudo nos textos posteriores a Forja, embora já naquele caso através da sondagem de mecanismos próprios das estéticas expressionista e existencialista, um reencaminhamento para a interioridade, para uma dimensão primordialmente introspectiva, através da verdade profunda procurada no pirandeliano “teatro dentro do teatro” (em O triângulo quebrado), do realismo psicológico dos estados de alma tchekovianos (em Irmãs e Os malefícios do tabaco) e do lorquiano lirismo revolucionário (em O meninos dos olhos verdes). Foram sobretudo experiências laboratoriais, que, com excepção de O menino dos olhos verdes, não passaram disso mesmo, embora, à partida, outros (O consórcio e A propagandista) visassem assumidamente a cena. Em segundo lugar, como desafio intelectual, ao regime político vigente, aos criadores teatrais e ao próprio público. Parece evidente, uma vez mais, a atitude provocatória de Redol face a todo o sistema censório instalado, mas também em relação ao marasmo do panorama teatral português, ao alicerçar estes textos em peças que, no momento em que as convocou, nunca tinham sido representadas nos palcos portugueses: ou porque estavam proibidas por serem “perniciosas” e (/ou) por serem de autores, na generalidade, mal vistos ou, quanto muito, tolerados; ou porque não preenchiam as características do reportório de entretenimento que a maioria das companhias procurava, julgando corresponder assim ao gosto do público. “Vejam para além do que é mostrado” – poderia ser o desafio de Redol a todos aqueles que, ao serviço da Censura, esgravatavam no trabalho dos artistas, à procura de um nome, uma frase, uma palavra, uma qualquer referência, acabando com frequência – por ignorância, mas também por medo – por proibir indiscriminadamente as mais assépticas criações, embora deixando escapar, por vezes à margem de quaisquer suspeições, obras profundamente contestatárias. Mas, através dessas mesmas bandejas em que ia servindo o desafio aos censores, Redol poderá ter pretendido também, por um lado, aguçar o apetite daqueles que tinham a responsabilidade de (re)definir os reportórios das companhias e,

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por outro lado, alimentar – de uma forma não menos provocatória – a curiosidade do público, sobretudo o mais esclarecido e potencialmente mais exigente e reivindicativo, sobre textos fundamentais do teatro universal.

Referências bibliográficas Bottomore, Tom (1988) (dir.). Dicionário do Marxismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Falcão, Miguel (2009). Espelho de ver por dentro: O percurso teatral de Alves Redol. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lorca, Federico García (1971). Yerma. 10ª edición. Buenos Aires: Editorial Losada. Pirandello, Luigi (s.d). Seis Personagens à procura de Autor. Prefácio de Luigi Pirandello. Nota sobre o Autor de Rogério Paulo. Tradução de Gino Saviotti. Porto: Contraponto. Rebello, Luiz Francisco (1971). O Jogo dos Homens. Lisboa: Edições Ática. Rebello, Luiz Francisco (1964). O Teatro Moderno: Caminhos e Figuras (1957). 2ª edição. Lisboa: Prelo. Rebello, Luiz Francisco (1948). “Forja, de Alves Redol”, Vértice, Dezembro, pp. 415-418. Redol, Alves (s.d [1958-1959?]). O triângulo quebrado. Inédito completo (manuscrito). Espólio de Alves Redol. Redol, Alves (s.d [1950a?]). A propagandista. Inédito completo (dactiloscrito). Espólio do Alves Redol.7 Redol, Alves (s.d [1950b?]). O menino dos olhos verdes. Inédito completo (dactiloscrito). Torre do Tombo, Inspecção-Geral dos Espectáculos, Livro de Registo de Peças Nº 2, Processo Nº 4073 [o manuscrito correspondente integra o Espólio de Alves Redol]. Redol, Alves (s.d [1946-1947?]). Irmãs [título de trabalho]. Esboço de Peça (manuscrito). Espólio do Alves Redol. Redol, Alves (s.d [1943?]). O consórcio. Inédito completo (dactiloscrito). Espólio de Alves Redol. Redol, Alves (s.d [1939-1944?]). Deolinda [título de trabalho]. Esboço de Peça (manuscrito). Espólio de Alves Redol. Shaw, George Bernard (s.d). Pigmalião. Tradução de Mário César de Abreu. Mem Martins: Publicações Europa-América. Stanislavski, Constantin (1980). Ma vie dans l’art. Lausanne: L’Âge d’Homme. Strindberg, August (1979). Miss Julie. Tradução de Helena Domingos. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura. Tchekov, Anton (1998). Três Irmãs. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Lisboa: Assírio & Alvim. Tchekov, Anton (s.d). Os malefícios do tabaco. Tradução de Luiz Francisco Rebello (dactiloscrito). Espólio de Alves Redol.

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Aquelas seis peças estrearam em Portugal, em geral muito tardiamente, no período que medeia entre o imediato pós-Segunda Guerra e o início da década de 60: Pigmalião (1913) em 1945 (Os Comediantes de Lisboa, no Teatro da Trindade); Os Malefícios do Tabaco (1886) em 1947 (Teatro Estúdio do Salitre); Yerma (1934) e [As] Três Irmãs (1901) em 1955 (Teatro d’Arte de Lisboa, no Teatro da Trindade); Seis Personagens à procura de Autor (1921) em 1959 (Companhia do Teatro de Sempre, no Teatro Avenida); e Miss Julie [A Menina Júlia] (1888) em 1960 (Teatro Nacional D. Maria II).

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cat. 45 Desenho Júlio Goes sobre peça etnográfica de Glória do Ribatejo, 1937


O Comunismo de Alves Redol 1 José Neves Professor auxiliar convidado do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Investigador do Instituto de História Contemporânea da mesma universidade

Nome cimeiro da literatura neo-realista nos anos 40, Alves Redol foi objecto de constantes polémicas literárias na segunda metade do século XX2, no decorrer das quais a sua reputação enquanto escritor foi seriamente abalada, mesmo entre os que eram ou haviam sido seus companheiros de armas. Na opinião de Mário Dionísio, a escrita de Alves Redol mereceu parte dos reparos que lhe foram sendo feitos, sobretudo as suas primeiras obras. No entanto, para Dionísio o erro de Redol não estava no descuidar da forma, como apontavam vozes críticas dos neo-realistas, mas pelo contrário: Redol «apurava-a demais (culinariamente falando…), cedia a uma tendência infeliz mas persistente para “escrever difícil”»3. Críticas como a de Dionísio foram aceites pelo próprio Alves Redol. Em 1959, numa curta entrevista ao Jornal de Notícias, Redol reconhece que os neo-realistas haviam muitas vezes caído num erro simétrico ao «psicologismo» a que queriam opor-se4; e alguns anos mais tarde, em 1965, a propósito de Gaibéus, o escritor procura superar a polémica sobre forma e conteúdo: «Necessitava de alcançar, como Gramsci escreveu, a forma vivaz e expressiva, ao mesmo tempo sóbria e contida, porque, insistindo nesse trabalho aparentemente só formal, acabaria por agir praticamente sobre o conteúdo»5.

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Confidenciando que quando «queria dizer “amor”» lhe faltava a «língua», Redol assumia assim as insuficiências literárias dos seus primeiros tempos de escritor. E não se ficava por aqui. No texto autocrítico de 1965, salienta ainda um outro problema, referindo-se ao movimento literário neo-realista: «Precisávamos de ter um povo, criarmo-nos com ele, e caminhámos ao seu encontro sobre nuvens de ilusões, supondo que pisávamos terra firme. E julgámos muitas vezes o País pelo que desejávamos, desconhecendo que as alienações divergem»6.

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Este texto foi publicado numa versão ligeiramente diferente como um capítulo do meu livro Comunismo e Nacionalismo em Portugal – Política, Cultura e História no Século XX (Lisboa, Tinta-da-China, 2008). Uma versão anterior, por sua vez, havia sido já publicada enquanto parte de um dossier sobre usos da ruralidade, organizado por João Leal para a revista Etnográfica (11-1, Maio 2007). Cf. Ana Paula Ferreira, Alves Redol e o Neo-realismo Português, Lisboa, Caminho, 1992. Margarida Losa, From Realist Novel to Working-class Romance: An Introduction to the Study of the Brazilian, Italian and Portuguese New Social Realist, Nova Iorque, New York University, 1988. Álvaro Salema, Alves Redol – A Obra e o Homem, Lisboa, Arcadia, 1980. Alexandre Pinheiro Torres, Os Romances de Alves Redol, Lisboa, Moraes Editores, 1979. Mário Dionísio, «Depoimento sobre Alves Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), op. cit., p. 79. Jornal de Notícias, 24-12-1959, p. 14. Alves Redol, «Breve Memória – para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939», 1979 [1965]. Em Alves Redol, Gaibéus, Lisboa, Publicacões Europa-América, 1979 [1939], p. 79. Idem, p. 72.

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Recolocando a crítica do movimento neo-realista à luz da relação entre representação nacional e realidade social, este comentário autocrítico de Alves Redol ilumina o problema da relação entre cultura, comunismo e nacionalismo, ainda que a desesperança das suas palavras faça pender um equívoco que importa uma vez mais desfazer: aceitando com Redol que o neo-realismo produziu uma imagem que se iludiu verdadeira, não podemos porém tomar por falsas as imagens neo-realistas. Mais do que qualquer falsidade envolta em «nuvens de ilusões», o neo-realismo projectou as vontades, os desejos e as ideias de uma geração de intelectuais comunistas e antifascistas e são estas vontades, desejos e ideias que merecem a nossa atenção.

Etnografia e Neo-realismo Alves Redol nasceu em Dezembro de 1911. Durante algum tempo foi dito que as suas origens eram as mais humildes. Desde cedo que o pequeno Redol fora iniciado no mundo do trabalho, marçano numa loja da sua Vila Franca de Xira natal e, de acordo com um artigo dos anos 50 de Andre Parreaux – crítico literário das Lettres Francaises –, a Redol teriam ainda calhado em má sorte as profissões de ceifeiro e de pescador7. Hoje sabemos que a vida foi mais simpática para Redol. Como assume Inocência Redol, os irmãos Redol tiveram uma «vida de pequenos burgueses», filhos de um comerciante local em cuja loja trabalhou ocasionalmente o famigerado marçano Alves Redol8. E como acrescenta Garcez da Silva, camarada de Alves Redol de Vila Franca de Xira, o primeiro conflito em que Redol se envolveu foi

mais da ordem da gastronomia…9 Apenas no final dos anos 20 passaria a família Redol por algumas dificuldades – ainda que menores – no contexto da crise económica de 1929 e acabado o curso comercial em 1927 Redol decide então seguir viagem para Luanda, onde permanece três anos, vivendo experiências profissionais que iria mais tarde considerar decisivas para a sua formação política. Em 1931 Alves Redol regressa a Portugal e trabalha em diferentes empregos, alguns deles em Lisboa. Paulatinamente, aproxima-se da condição de assalariado. Antes de Luanda, conhece gaibéus, varinos e operários na loja de seu pai, mas o balcão funciona como uma divisória. É em Luanda que, «sem amparo de família nem amor bonito de mulher minha», vive uma «vida assalariada»10. Trabalha na Direcção da Fazenda, dá aulas numa escola nocturna e passa seis meses no desemprego. Finalmente, depois de Luanda, sabe-se que trabalha na Procuradoria-geral dos Municípios11, viajando regularmente de comboio até à capital na companhia de operários dos Cimentos do Tejo ou da Fábrica de Loiça de Sacavém, confrontando-se com os efeitos recessivos da crise mundial de 1929 e assistindo ao despertar de pequenos núcleos comunistas na zona ribatejana. Em Vila Franca de Xira, num ambiente político pró-oposicionista – de que é contribuinte o Mensageiro do Ribatejo, jornal criado em 1930 e extinto em 1941, no qual escreveram Artur Inez, Jaime Brasil ou Julião Quintinha –, tecia-se uma rede que faria daquela região um dos mais importantes territórios da história do comunismo

cat. 47 Alves Redol, Rancho de Glorianas na Lezíria de Vila Franca, (Prova de contacto, 8x5,5cm), 1937 Mário Dionísio, «Depoimento sobre Alves Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), ibidem, p. 70. 8 Inocência Redol, «Testemunho de Inocência Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), ibidem, p. 187. 9 Em Lisboa, no Colégio Arriaga, onde Alves Redol esteve interno e onde concluiu o curso comercial, a qualidade do caldo verde servido desagrada a tal ponto que Redol protesta sem demora junto da cozinha do estabelecimento de ensino. (Garcez da Silva, A Experiência Africana de Alves Redol, Lisboa, Caminho, 1993,p. 21.) 10 Alves Redol, «Breve Memória – para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939», 1979 [1965]. Em Alves Redol, Gaibéus, Lisboa, Publicações Europa-América, 1979 [1939], p. 63. 11 Entrevista telefónica a António Mota Redol, 12-4-2007. 7

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em Portugal. Nessa rede de contactos, pontuam ao longo dos anos 30 nomes como os de Dias Lourenço, Carlos Pato, Arquimedes da Silva Santos, Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol. Desde 1933/4 que alguns destes militantes estão envolvidos em diversas actividades de cariz político e cultural. Influenciados pelo 18 de Janeiro de 1934, sobretudo pelos acontecimentos na vizinha Marinha Grande, mas também pela emergência das forças republicanas em Espanha12, os jovens comunistas procuraram dinamizar e organizar os trabalhadores numa região onde coexistiam gaibéus, campinos e operários. Por volta de 1933, Alves Redol e Dias Lourenço procuram dinamizar culturalmente o Sindicato da Construção Civil e Ofícios Correlativos, distribuem clandestinamente o Avante! (entre 1933 e 1934 foram distribuídos entre Sacavém e Alenquer cerca de 450 jornais clandestinos, recorda Dias Lourenço), organizam legalmente várias actividades culturais, de cursos de alfabetização a aulas de esperanto, primeiro naquele sindicato e depois em associações como o Sport Lisboa e Vila Franca13. Mais tarde, com o apoio dos jornais O Diabo e Mensageiro do Ribatejo, Redol organizaria visitas a museus de Lisboa, nomeadamente ao Museu de Arte Contemporânea e ao Museu de Arte Antiga. E no final dos anos 30 forma-se o grupo neo-realista de Vila Franca de Xira. Neste período, para Redol e para os comunistas trata--se de levar a cultura até ao povo e o nosso autor é então, acima de tudo, um proficiente activista cultural. Contudo, as dinâmicas de massificação da cultura colocaram desafios específicos aos intelectuais comunistas. Não lhes sendo possível iluminar as massas a partir do alto, para levarem a luz da cultura ao povo era necessário partirem em busca de uma cultura no próprio povo14. Neste movimento em direcção ao povo, o percurso de Alves Redol constitui um itinerário exemplar. Influenciado pela obra de Leite de Vasconcelos15, pela vocação democrática que

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Garcez da Silva, Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca, Lisboa, Caminho, 1990, p. 114. 13 António Dias Lourenço, «Depoimento de António Dias Lourenço sobre Alves Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), ibidem, pp. 145-8. 14 A este respeito, confronta o capítulo 12 de Comunismo e Nacionalismo em Portugal… 15 Alves Redol, Glória, Barcelos, Edição do autor, 1938, p. 10. 12

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encontra na filologia de Rodrigues Lapa16 e pelas representações do povo dos intelectuais antifascistas franceses («Nunca ainda se ensinou o povo ao povo»)17, Alves Redol realiza o estudo etnográfico Glória – Uma Aldeia do Ribatejo (1938), sendo justamente pela etnografia – com a preferência pelo trabalho de campo e a prática de uma observação participante – que chega ao romance. Sob a influência de um crítico literário peruano que conhece na órbita de O Diabo, Redol dedica-se ao romance, procurando alcançar um público mais vasto do que aquele que a etnografia lhe poderia oferecer. Porém, quando começa a preparar o primeiro dos seus romances, o seu procedimento é etnográfico: «Aproveitei as férias de Setembro para viver com os ranchos do lavrador Henrique Honrado, nas suas lavras de arroz na Casa Branca, junto ao Tejo, em Azambuja. Regressava ao convívio dos gaibéus com os olhos e a inteligência despertados»18.

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cat. 160

Neste sentido, Gaibéus (1939) pode e deve ser lido não apenas como momento inaugural do neo-realismo literário, mas também como desenvolvimento do impulso etnográfico que o antecede. Ao abrir Gaibéus com a nota epigráfica em que avisa a navegação sobre a natureza do romance – «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no

Rodrigues Lapa fora contratado como docente na Faculdade de Letras em 1928 por indicação de Leite de Vasconcelos e é ele quem estimula Redol à pesquisa etnográfica. A Redol, Rodrigues Lapa dá conta dos seus planos em mobilizaWr os estudantes de filologia da Faculdade de Letras de Lisboa, durante o Verão, para a recolha etnográfica, fazendo assim da filologia «um instrumento inapreciável de autêntica democracia». (Alves Redol, Glória, Barcelos, Edição do autor, 1938, p. 9). 17 Frase de Jean Guehenno, director da revista Europe, citada na epígrafe de Glória – Uma Aldeia do Ribatejo (Alves Redol, Glória, ibidem, p. 7). 18 Alves Redol, «Breve Memória – para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939», 1979 [1965]. Em Alves Redol, Gaibéus, Lisboa, Publicações Europa-América, 1979 [1939], p. 69. 16

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Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem» –, mais do que se indignar contra um pretensiosismo artístico dos meios literários, Redol ilumina a sua vontade etnográfica. Com Redol o neo-realismo nasce como um movimento intelectual pronto a acolher interpelações não literárias da realidade, predispondo-se nomeadamente a desempenhar as funções de um conhecimento científico marxista que não teve oportunidade de se desenvolver em meio universitário. Em 1951, a propósito de Os Homens e as Sombras (1951), Mário Dionísio sublinhava esta dupla funcionalidade do trabalho de Redol e nela situava a oposição entre o neo-realismo e os seus rivais ditos umbiguistas: «Há pelo menos doze anos que Alves Redol trabalha incansavelmente com o fito de conseguir uma maturação literária que lhe permite a fusão harmoniosa do romance e do documento humano e nacional»19. Em Alves Redol, a pesquisa de tipo etnográfico tornou-se uma recorrência a que desde logo correspondeu a sua dedicação aos cancioneiros. Em 1940, num texto sobre «O Trabalho no Cancioneiro do Ribatejo», Redol elegia a recolha da memória oral como via de acesso a um registo escondido20 que guardava alternativas a uma versão dominante da História – «porque as leis que os arquivos guardam não são feitas pelo povo»21, escrevia então possivelmente influenciado pela experiência dos cursos sindicais nocturnos em que leccionara nos anos 3022. Mais tarde, por volta de 1950, a sua faceta de etnógrafo seria reassumida, terminando o Cancioneiro do Ribatejo, realizando pesquisa no âmbito dos trabalhos de investigação que preparam A Franca – da Resistência à Renascença23 e iniciando o projecto de um cancioneiro popular do Douro. Aliás, depois do Ribatejo, o Douro foi a região mais querida a Redol. Visitou a região duriense a partir de 1943, nomeadamente as zonas vinhateiras, sendo essas visitas iniciais que estão na origem de um primeiro romance duriense em 1946 (Porto Manso). Depois, em finais dos anos 40, Redol regressa à região, passando aí largas temporadas que inspiram a série literária Ciclo Port Wine (Horizonte Cerrado, em 1949, Os Homens e as Sombras, em 1951, e Vindima de Sangue, em 1953), desenvolvendo as primeiras pesquisas para um cancioneiro do Douro

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nunca terminado e através do qual procurava, revalorizando os saberes das populações locais e nomeadamente dos idosos, analisar a vida social da região imbuído de um sentido de urgência de que já dera conta em Porto Manso, onde a irrupção do comboio ameaça os hábitos e os costumes locais24. Em torno da etnografia quis Alves Redol igualmente estimular hábitos de trabalho de grupo, convocando os seus companheiros neo-realistas para situações de trabalho de campo. Em 1953, Redol faz parte do grupo de artistas/etnógrafos do conhecido Ciclo do Arroz, projecto que levou Júlio Pomar, Rogério Ribeiro, António Alfredo, Cipriano Dourado, Lima de Freitas e o próprio Redol a visitarem arrozais ribatejanos, numa experiência colectiva possível devido aos contactos privilegiados de Redol e que teve o seu expoente artístico na série Ciclo do Arroz, pintada por Pomar nesse mesmo ano. Esta conhecida iniciativa não foi todavia novidade para alguns daqueles neo-realistas. Em 1944, projectando a publicação de um livro colectivo sobre o comércio do peixe na lota de Lisboa, Redol havia já reunido à sua volta Júlio Pomar, Mário Dionísio e Sidónio Muralha. E porque o projecto deveria basear-se na observação directa, os quatro25 encontravam-se pela alvorada a fim de percorrerem a lota de Lisboa em conjunto. Eis o testemunho de Mário Dionísio: «Encontrávamo-nos no Cais do Sodré e penetrávamos, maravilhados e de bloco em punho, naquele mundo que fervilhava entre o rio e a estação ferroviária, enquanto a cidade

Mário Dionísio, «Os Homens e as Sombras, de Alves Redol», em Vértice, n.º 97, Setembro de 1951, p. 501. 20 Cf. James C. Scott, Weapons of the Weak – Everyday Forms of Peasant Resistance, New Haven, Yale University Press, 1985. 21 Alves Redol, «O Trabalho no Cancioneiro do Ribatejo», em O Diabo, n.º 308, 17-8-1940, p. 3. 22 Alves Redol, «Breve Memória – para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939», 1979 [1965]. Em Alves Redol, Gaibéus, Lisboa, Publicações Europa-América, 1979 [1939], p. 64. 23 Sobre esta obra de Redol, consulte-se o capítulo 11 de Comunismo e Nacionalismo em Portugal… 24 Alves Redol, Porto Manso, Lisboa, Caminho, 1999 [1946], p. 26. 25 Sidónio Muralha, «Depoimento de Sidónio Muralha sobre Alves Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), Alves Redol – Testemunhos dos Seus Contemporâneos, Lisboa, Caminho, 2000, p. 164; Mário Dionísio, «Depoimento de Mário Dionísio sobre Alves Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), ibidem, p. 68. 19

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dormia. Pelo cais fora, era uma azáfama surda de inúmeros vultos no escuro, uma grande massa em movimento entre os barcos e a doca e ao longo dela, que pouco a pouco se ia definindo até se encher de cores vibrantes e ruído mal o sol rompia. Pescadores, peixeiras de xailes grossos e tamancos, carregadores, fiscais e guardas-fiscais, crianças em canastras, os carros do café e da aguardente, o frenesi da lota… Queríamos ver tudo, metíamos conversa, abancávamos a «matar o bicho» com algum marítimo de momento desocupado»26. Como tamanha vontade etnográfica ganhou forma em Alves Redol é assunto de que nos ocuparemos em seguida.

Exotismo e Tradição Quando viaja para Angola, em 1928, Alves Redol é um jovem de 16 anos de idade, verdadeiramente entusiasmado com a aventura que o espera. Por si só, a viagem de barco até Luanda representa um novo mundo, conforme revelam as impressões que deixa no jornal Vida Ribatejana. No barco, o simples beliche – «sala de club, um mixto de jogo e de restaurant, um confessionário de vidas, de ilusões, de temperamentos…»27 – é motivo de mil histórias28 e os companheiros de viagem ajudam à festa: se não é um «colonial formado em barbas, cacas e mentiras», é a loira que canta «o seu corpo, o seu rosto e talvez a sua alma» na sala de fumo29. Aos olhos do jovem Redol, para quem a dança das mulheres do barco e «a cocaína que nos dão, uma cocaína que se vende a todos os passos e que não foi proibida», tudo é cada vez mais intenso30. Mas se o interior do barco oferece um mundo novo, que dizer do mundo lá fora? Para além da Madeira, o itinerário faz o barco ancorar em outras ilhas atlânticas sob domínio português. Redol encanta-se com São Tomé, uma «pérola africana» erguida no meio do oceano, qual «padrão ao nosso patriotismo», fazendo «recordar ao mundo o nosso Empório Colonial»31. A descoberta do «novo mundo» faz Redol orgulhar-se de Portugal – «Cada vez que falam de Portugal, eu, como todos os outros, sinto dentro de mim uma comoção forte»32 – e não lhe é fácil mitigar a «saudade», até porque no barco segue um degredado que teima em cantar com voz rouca um «fado triste» que «albergava toda a dor da sua alma portugueza»33.

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Uma vez desembarcado em Luanda, Redol promete trazer aos leitores do Vida Ribatejana, de então em diante, as histórias dos feitos dos portugueses em Angola, dando testemunho «às virtudes religiosas e cívicas, que de fracos mortais fizeram heróis». Homenageando essas «edades homéricas», estes seus textos são marcados por um tom que dificilmente poderia ser mais épico: «Os Lusitanos partiram sempre. Deixando o horto ou a serrania, o mar ou a arte, envoltos num desejo de descobrir terras desconhecidas, de dar ao seu reino novos empórios, singravam ao mar em busca de florestas de oiro, de quimeras encantadas, onde outro qualquer povo não tivesse chegado, onde só a bandeira das quinas pudesse governar!»34 Nos artigos escritos a partir de Luanda, Redol elogia os planos desenvolvimentistas de Norton de Matos, lamentando a falta de apoio económico aos governos coloniais por parte dos poderes políticos de Lisboa e duvidando do cumprimento das promessas de ressurgimento colonial feitas pela ditadura35. Contudo, em 1930, quando é aberta uma linha de crédito para os colonos, o jovem Alves Redol convence-se «de que o Governo da Ditadura está disposto a levar a efeito a grande obra colonial que traçou no seu programa» e agradece a nova medida ao ministro das finanças António Oliveira Salazar36. A aventura africana confirmava assim o seu orgulho nacionalista. E no regresso a Portugal, em 1931, com 19 anos de idade, o jovem vila-franquense manterá a esperança no projecto imperial português. Regressado de Angola, Alves Redol vai procurar reencontrar o exótico na tradição. Em 1932, Redol vem sublinhar a importância da relação entre exotismo e tradição na construção do

Mário Dionísio, «Depoimento sobre Alves Redol». Em António Mota Redol e Maria José Marinho (orgs.), ibidem, p. 68. 27 Alves Redol, «De Longe… (aspectos)», em Vida Ribatejana, 30-9-1928, p. 4. 28 Alves Redol, «De Longe (partida)…», em Vida Ribatejana, 16-09-1928, p. 3. 29 Alves Redol, «De Longe… (Madeira)», em Vida Ribatejana, 14-10-1928, p. 3. 30 Alves Redol, «De Longe… (aspectos)», em Vida Ribatejana, 30-9-1928, p. 4. 31 Alves Redol, «De Longe… (S.Tomé)», em Vida Ribatejana, 2-12-1928, p. 4. 32 Alves Redol, «De Longe… (Madeira)», em Vida Ribatejana, 14-10-1928, p. 3 33 Alves Redol, «De Longe… (Farrapos)», em Vida Ribatejana, 4-11-1928, p. 3. 34 Alves Redol, «De Longe… (História)», em Vida Ribatejana, 10-3-1929, p. 5. 35 Alves Redol, «De Longe… Ressurgimento?», em Vida Ribatejana, 7-4-1929, p. 3. 36 Alves Redol, «De Longe…», em Vida Ribatejana, 27-7-1930, p. 2 26

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cat. 24 Alves Redol com amigos, em Angola, finais dos anos 20

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espectáculo moderno. Elegendo a tradição como via fulcral à modernização da vida social, reclama um aggiornamento da feira de Vila Franca de Xira. Afirmando que «só um ou outro velho – de físico e de espírito – se entretém a olhar para o passado», propõe «defender a feira de Vila Franca dando-lhe aspecto moderno» e apela à ideia de modernismo: «Eu sei que isto de modernismo é uma palavra que se usa pouco cá pelo burgo e soa mal a certos ouvidos. Mas é inevitável a rendição. A arte moderna tem a essência da nossa época, está cheia de dinamismo vertiginoso desta década maravilhosa, e isso fez trocar o passo a muita gente que já arrasta os pés e ainda mais o espírito». Para o jovem Alves Redol, a única coisa a salvar na feira era a «espera dos toiros» – «única nota bizarra, cheia de colorido e de entusiasmo, que sacudiu o torpor do nosso ronceirismo provinciano». Todavia, também a este nível se impunha a necessidade de inovar: «Aqueles campinos das esperas não poderiam ter envergado o seu verdadeiro e autêntico traje, tão garrido e interessante, se alguém cuidasse destes pequenos nadas, que constituem a beleza do espectáculo?»37 Esta sofisticação dos comentários de Redol sobre as condições de produção do espectáculo testemunha bem a sua concepção modernista do valor da tradição, à qual não será alheia a influência que António Ferro sobre ele então exerce («o inconformismo aparente de António Ferro me alapou com girandôlas de imagens futuristas»)38. Em 1934, no seu aplauso a Gado Bravo, de António Lopes Ribeiro, Redol chama a atenção para a dimensão internacional dos processos de invenção da tradição. Aludindo a um processo cinematográfico de «técnica sensivelmente idêntica» que teria por objectivo aproveitar «as características mais definidas da nação», Redol saúda Gado Bravo por vir acrescentar a figura dos campinos portugueses aos cowboys americanos e aos reis da França por norma exibidos no cinema39. Depois, em 1936, em «Kangondo», um pequeno conto que submete a publicação em O Diabo, retoma África enquanto objecto de escrita, vindo juntar as carnes africanas aos campinos portugueses, aos cowboys norte-americanos e aos reis franceses. Nesta altura, o seu posicionamento político comunista afasta-o já de um discurso pró-colonialista, mas permanece

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nele a tendência para representar exoticamente a realidade, o que em nada obsta a que o conto seja publicado em O Diabo. (Aliás, o conto é a tal ponto bem acolhido pela redacção que, a partir desse momento, Redol se torna colaborador regular do jornal40). O enredo de «Kangondo» resume a história de uma mulher negra e africana vendida por seu pai – um chefe tribal – a um homem branco e europeu, mas, para a redacção de O Diabo, tão ou mais importante do que o enredo terá sido o estilo incutido por Redol na descrição da paisagem e na caracterização das personagens. Em «Kangondo», as cores disparam em todos os sentidos (o dorso verde-negro do rio Bengo, as cintilações de oiro do sol, os cachos amarelo-vermelho da palmeira, os panos garridos das mulheres), o tempo mede-se na passada de um animal felino (para chegar de um lado ao outro do rio demoramos «três saltos de tigre quando muito»), os coqueiros têm «cabeleiras curtas e desgrenhadas» como os humanos, as mulheres transportam «carnes bronzeadas de pimpolhos» sobre o dorso como os animais e a sexualidade irrompe inusitadamente, com os seios da mulher erguendo-se «opulentos e agressivos pela sazonação da líbido»41. Ou seja, em «Kangondo» a natureza é mais humana e a humanidade mais animal, num processo de antropomorfização e desumanização que se projecta na representação da mulher negra e que prolonga as principais linhas de um poema escrito por Redol aquando da última fase da sua estadia em Angola – intitulado «Poente», o poema de 1930/1 celebra o fim de dia «sereno, tropical» através da imagem de um «beijo maternal» que o sol lança sobre a Terra, enquanto as «negras» passam «levadas pelo vento»42. Após «Kangondo», e apesar de abandonar África enquanto cenário literário, Redol mantém

Alves Redol, «Aspectos da Feira», em Vida Ribatejana, 16-10-1932, p. 1. Anos antes, veja-se: Alves Redol, «Toiros», em Vida Ribatejana, 31-7-27, p. 2. 38 Alves Redol, «Breve Memoria – para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939», 1979 [1965]. Em Alves Redol, Gaibéus, Lisboa, Publicações Europa-América, 1979 [1939], p. 60. 39 Alves Redol, «Gado Bravo – o Ribatejo no cinema», em Mensageiro do Ribatejo, 11-8-1934, p.1. 40 Garcez da Silva, Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca, Lisboa, Caminho, 1990, p. 113. 41 Alves Redol, «Kangondo», em O Diabo, n.º 127, 29-11-1936, p. 2. 42 Alves Redol, «Poente», em Vida Ribatejana, 29-11-31, p. 4. 37

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o pendor exótico nos textos que publica em O Diabo. Tal como em Angola, no Ribatejo o rio é tanto uma espécie de pai-natureza que «copula a terra […] onde pousa os lábios», como o senhor do tempo que marca o passo aos homens e às mulheres, «o relógio colectivo das horas boas e más dos habitantes das suas margens», habitantes que continuam a surgir como personagens que se limitam a reflectir o exotismo da natureza. Se com o rio Bengo a «passarada desfiava rosários de melodias», com o Tejo o rio vem «cantando de longe a trova do seu destino»43. Num e noutro caso, basta uma aventura que o mova no espaço para Redol descobrir todo um «novo mundo». Na sua imaginação das distâncias espaciais – entre metrópole e colónia (Portugal e Angola) e entre cidade e aldeia (Lisboa e Glória) – traça-se uma fronteira que descontinua o percurso entre o lugar de partida e o lugar de chegada, atribuindo-se a cada qual um tempo de natureza diferente: por um lado há o tempo da civilização (tempo da metrópole e da cidade), por outro o tempo do primitivismo (da colónia e da aldeia)44. Trata-se de romper o tempo em duas partes através de um simples movimento espacial, alimentando assim a aspiração a um outro tempo. Entre os textos africanos e os textos ribatejanos de Alves Redol existe todavia uma dissemelhança que não é de somenos, dissemelhança que começa por revelar as influências teóricas de Paul Lafargue – em 1940, Redol reconhecerá ter sido Lafargue quem o levou a procurar nas canções populares os vestígios das relações sociais de uma determinada época45 – e sobretudo de Totem e Tabu, obra de Freud de que Redol foi um leitor devotado, conforme mencionou Garcez da Silva46. Depois de Totem e Tabu, Redol codifica o exotismo em simbologia totémica. Na crónica «A Cheia» é precisamente o enfurecimento do totem, «espírito supremo dos destinos da região», que está em causa: o totem, que «dera a todos igualmente a benção fecunda das suas águas, ricas de nateiros e de peixes», pune o homem por intermédio das cheias porque o homem teima em «modificar a obra sublime e de proveito comum que [o totem] concebera e pretendia ver realizada». Nos textos ribatejanos, é como se o exotismo da natureza simultaneamente precedesse e excedesse a materialidade dos corpos físicos, apresentando-

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-se como um princípio ordenador que constitui simultaneamente uma origem histórica (um passado) e uma lei histórica (um futuro): «Em épocas remotas, quando o subconsciente das religiões regulava a vida dos clans e as relações das tribus, creio bem, era o Tejo o totem dos grupos comunais que viviam nas suas ribas».47 Esta codificação totémica revela em primeira instância a influência da proposta de Freud em Redol, mas num segundo momento podemos perceber que reflecte igualmente a transformação política do autor. Na verdade, através da codificação totémica, Redol parece querer citar o ideal de comunismo a que adere em meados dos anos 30. No exotismo da natureza que representou, o ideal comunista surge simultaneamente adiado (como se fosse uma origem histórica), mas prometido (como se fosse uma lei histórica), emergindo o passado primitivo como molde para um novo futuro e funcionando a natureza como paradigma de um ordenamento comunista da vida. Este mesmo movimento é proposto por Redol em Glória, onde o autor encontra vestígios totémicos na população da aldeia48, e muito mais claramente nos seus textos posteriores, como Gaibéus, onde «as rãs coaxam a sua liberdade»: «Estava noite de luar. Um luar brando de Outono que vestia as coisas de penumbra triste. Piscavam luzes na outra margem, dispersas aqui e além, mais ali reunidas, como num concílio de estrelas. Eram constelações de vidas, todas iguais vistas de longe. A luz que iluminava o senhor não brilhava mais do que a outra que alumiava o servo. Ali não havia casebres, nem palácios. Todas eram irmãs, como as estrelas da Estrada de Santiago que polvilhavam de oiro o azul-negro»49. Guardando a natureza o segredo de um ordenamento alternativo do mundo, Redol

Alves Redol, «De sol a sol – O Tejo», em O Diabo, n.º 135, 24-1-1937, p.4. Cf. Johannes Fabian, Time and the Other – How Anthropology Makes its Object. Nova Iorque, Columbia University Press, 1983, p. 11. 45 Alves Redol, «O Trabalho no Cancioneiro do Ribatejo», em O Diabo, n.º 308, 17-8-1940, p. 3. 46 Em Glória – Uma Aldeia do Ribatejo, Alves Redol refere-se também a Henri Hubert, Marcel Mauss e Theodore Reinach, mas é Freud a sua referência principal. (Alves Redol, Glória, p. 185.) 47 Alves Redol, «De sol a sol – O Tejo», em O Diabo, n.º 135, 24-1-1937, p. 4. 48 Alves Redol, Glória, p. 185. 49 Alves Redol, Gaibéus, p. 253. 43

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procura definir um sentido político próprio para a sua etnografia. A ela cabe descobrir a diferença entre a natureza e os modos de vida dominantes do capitalismo. Tendo o comunismo uma origem primitiva, há que descobrir essa origem, fazer dela um património e procurar antes de mais preservá-la. Nos anos 60, em jeito de retrospectiva, Redol resumiu a importância que estes novos descobrimentos tiveram para si: «Numa visita que fiz à Lezíria Grande com Rodrigues Lapa, tendo por anfitrião o malogrado lavrador-poeta Pompeu Reis (poeta pela paixão com que cuidava da terra que nem era sua), descobri a gente da Glória, tão diferenciada no vestuário como nos hábitos de vida e de trabalho dos outros alugados dali. A veia romântica abriu-se-me para o invulgar desse povo sequestrado por ele próprio entre Marinhais e Coruche»50. No pequeno espaço da aldeia da Glória, Alves Redol descobre diferenças suficientemente absolutas para nelas descortinar a possibilidade de um «novo mundo» cuja promessa diz conservar-se na vida daquela pequena aldeia em que um «povo sequestrado por ele próprio» une o comunitarismo ao comunismo e estabelece a cisão que determina a diferença51. Nessa «gente da Glória», tão diferente dos seus próprios semelhantes (os «outros alugados dali»), Redol encontra os sinais esperançosos de um outro tempo que o coloca na posição de completo estranhamento: aos olhos de Alves Redol, Glória é tão diferente como fora Luanda e a tradição torna-se assim lugar do exótico, não havendo para o autor imperativo mais premente do que a sua preservação.

Do Campino aos Gaibéus Pese embora as transformações verificadas entre o Redol colonialista dos textos africanos e o Redol comunista dos textos ribatejanos, algo permanece então imutável, muito particularmente em Glória: a sua política de valorização das identidades. É certo que em Glória Alves Redol propõe substituir o conceito de «raça» pelo de «etnia», alegando que falar de «raça» num país como Portugal, «em que as invasões se sucederam num ritmo vivace, quasi trepidante, é criar imagem de estrofe para fins emotivos» e assim esquecer «em fantasias as conclusões que os antropólogos

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nos legaram»52. É certo que ao longo dos anos 30 Redol se distancia de artistas como António Lopes Ribeiro e intelectuais como António Ferro e que em 1936 procura demarcar o seu exotismo de interpretações mais racialistas, promovendo noções de identidade menos irredutíveis ao exterior e criticando a ideia de uma predisposição rácica dos povos53. É certo, ainda, que em 1937 Redol remete a origem da figura do campino à mais «impura» das heranças étnicas: «Por aqui andaram os árabes em correria, na planura vasta das terras chãs, cavalgando seus ginetes nervosos e ágeis como os ventos do deserto. Deles herdaram os campinos o porte galhardo do seu busto airoso, o segredo de domar corcéis e a valentia pimpona com que dominam toiros»54. Todavia, no campino de Redol mantém-se operativa a ideia de uma diferenciação identitária: o campino é irmão do «beduim dos desertos arenosos e do vaqueiro das pampas argentinas», mas contrasta «com a hostilidade agressiva do primeiro e a ufania brigona do segundo»55. Por isso não admira que quando é publicado Glória de pronto surjam em O Diabo elogios a essa aldeia «onde tudo recorda um Passado de pitoresco e de cor étnica»56. Dos anos 40 aos anos 60 a sensibilidade étnico-identitária de Alves Redol continuou sempre presente, podendo até equacionar-se se ela não terá ganho novo impulso no pós-guerra, período em que escreve A França – da Resistência à Renascença. Nesta fase, aliás, Redol escreve o maior ensaio que dedicou ao Ribatejo, um texto publicado na obra Portugal Maravilhoso (dirigida por João de Barros), em que elogia as Etnografias Portuguesas de Leite de Vasconcelos57 e retoma Freud a fim de comparar

Alves Redol, «Breve Memória – para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939», 1979 [1965]. Em Alves Redol, Gaibéus, p. 67. 51 Alves Redol, Glória, p. 15. 52 Alves Redol, Glória, p. 23. 53 Alves Redol, «País de Trovadores», em Mensageiro do Ribatejo, 17-5-1936, p. 1. 54 Alves Redol, «As Lezírias – um pouco da sua história e algumas das suas histórias…», em O Diabo, n.º 145, 9-5-1937, p. 7. 55 Alves Redol, «Campinos», em O Diabo, n.º 155, 13-6-1937, p. 7. 56 Nogueira de Brito, «Glória – Uma aldeia do Ribatejo», em O Diabo, n.º 213, 23-10-1938, p. 7. No mesmo estilo: Nogueira de Brito, «O Tango», em O Diabo, n.º 121, 18-10-1936, p. 3. 57 Alves Redol, «Ribatejo». Em João de Barros (org.), Portugal Maravilhoso, vol. II, Lisboa, Edições Universo, 1945-52, p. 93. 50

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


Alves Redol, Gaibéus, 17ª ed., Ed. Caminho, 1989, (Alves Redol. Obras Completas)

cat. 54 Cipriano Dourado, Plantadoras de arroz, (Litografia, 35x47cm), 1954

os hábitos rituais dos maoris e os hábitos rituais dos glorienses, corroborando a celebração internacionalista da cultura dos povos que é apanágio do pós-guerra. Porém, neste mesmo ensaio em que se perde em elogios à aldeia da Glória e em que celebra os maoris, Redol também recusa a idealização de um meio ambiente predominantemente rural e o seu maior elogio vai mesmo para a figura do operário valador que combate as cheias do Tejo e cuja luta é «mais heróica que nenhuma outra»58. Neste elogio ao operário valador, Redol sela a sua ruptura com a figura do campino, desenvolvendo algumas das reticências que sobre ela acumulava desde a segunda metade dos anos 30. Em 1937, em O Diabo, Redol havia consagrado uma crónica à figura do campino, em que o elegia como habitante tipo do Ribatejo devido ao «traço inconfundível da sua indumentária colorida, bela entre a exuberância dos trajes portugueses», e «a rudeza e valentia da sua faina, envolvida das lendas galhardas da nossa cavalaria de antanho»; mas já então Alves Redol se recusava a celebrar por inteiro a identidade campina, comentando que à bravura do campino diante do toiro se contrapunha a sua atitude de idolatria face ao patrão, atitude própria da «ancestralidade do

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servo da gleba»59. A valorização comunista do valor social e político da classe operária começava aqui a fazer-se sentir, mesmo se de forma ainda incipiente, e em 1939, em Gaibéus, o trabalho operário é já o elemento social fundamental, com Redol a procurar revigorar o idílico tempo da aldeia através das energias operárias do tempo da cidade. Em Gaibéus, no início do neo-realismo literário, o trabalho é quem mais ordena. Em vez de um enredo cadenciado por relações pessoais de índole familiar, amorosa ou política, tudo é centrado no mundo do trabalho. Em vez de nomes e histórias de vida, as personagens ganham densidade através das descrições exaustivas dos seus corpos trabalhando. Estes corpos são descritos a um tal ponto que, mais do que um corpo que trabalha, existem extensões que reagem sob o automatismo do processo produtivo. A fadiga ataca «as carnes», «as mãos limpam as frontes», «as bocas movem-se a resmoer, querendo segregar a humidade que

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Idem, p. 150. Alves Redol, «Campinos», em O Diabo, n.º 155, 13-6-1937, p. 7.

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cat. 202 Alves Redol, finais dos anos 50, Freixial

não vem mais». «Nas camisas dos homens desenham-se as omoplatas, agitadas como êmbolos cansados pelo mover das foices e pelo amontoar das espigas.»60 Os corpos surgem assim definidos através dos próprios termos maquinais: é o arfar dos peitos «num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento»61, são os corpos sem lugar para o pensamento porque se trata de máquinas cujos movimentos são impostos pelos volantes, é o «caminho mecânico» das pernas. Enfim, «não param as máquinas – não param os homens. Ali não há homens – há máquinas. Só máquinas»62.

às ceifeiras63. Antes da mecanização do trabalho agrícola, Redol antecipa-a, mostrando como o desenvolvimento da exploração laboral faz os corpos dos gaibéus funcionarem como máquinas, e é tendo o campo por cenário que se inicia o divórcio entre homem e natureza, com o tempo da produção industrial capitalista a dissociar-se do tempo da natureza. A sede chega primeiro aos corpos que trabalham e só depois é que a hora da pausa para a água chega ao relógio dos capatazes; e o poente, forçado pela disciplina de trabalho imposta pelos capatazes, acontece nos corpos dos ceifeiros antes do tempo naturalmente devido; «o poente vem longe – nos corpos dos ceifeiros já é poente»64. Contudo, é também assim, libertando-se da natureza para ficar refém do capataz, que o homem começa a reunir as condições para a sua auto-emancipação, como clarifica a aspiração à mobilidade que marca Gaibéus. Gaibéus são desde logo aqueles que descem do Alto Ribatejo e da Beira Baixa até às lezírias, fazendo do Ribatejo um lugar de síntese mais do que uma paisagem pastoral ou contra-pastoral. Conforme definira Redol no ensaio homónimo, o Ribatejo é – com a excepção da recôndita aldeia da Glória – uma «região aberta» que «se tem prestado a receber influências dos emigrantes», implicando esta particularidade uma maior atenção etnográfica ao trabalho, já que é por ele que os migrantes chegam ao Ribatejo: «Quem quiser fazer estudo sério do seu folclore, principalmente, não poderá esquecer as relações de trabalho que explicam e documentam certos aspectos da vida do ribatejano.»65 A mobilidade do trabalhador, elemento fundamental no desenvolvimento do capitalismo, torna-se assim condição do próprio comunismo de Redol, marcando a imaginação das relações

Alves Redol, Gaibéus, p. 109. Idem, p. 199. 62 Idem, pp. 282-5. 63 Mesmo se são operários com traços camponeses: «Nunca patrão algum lhe tirara remoque por desmazelo no trabalho. Ele pertencia à família dos Milhanos de Marinhais, sempre famosos no Ribatejo como arrozeiros sabidos e safos de mandria […]. Mas também a alegria de ver todo o arrozal farto de espigas o dava por bem pago no fim do contrato.» (Alves Redol, Gaibéus, Lisboa, Publicações Europa-América, 1979 [1939], pp. 84-5.) 64 Idem, p. 114. 65 Alves Redol, «Ribatejo». Em João de Barros (org.), Portugal Maravilhoso, vol. II, Lisboa, Edições Universo, 1945-52, p. 150. 60

Que significado tem a adopção desta linguagem mecanicista? Transitando de um modelo natural de actuação dos corpos que trabalham para um modelo maquinal, Alves Redol quer falar não de trabalho em geral mas de trabalho operário em particular, isto é, quer afirmar que é de operários que se deve falar quando nos referimos aos ceifeiros e

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campo/cidade e também, claro está, o seu internacionalismo. Em 1939, na abertura da nova pagina literária do Mensageiro do Ribatejo, Redol anuncia esse espaço como «um porto franco para todos os homens que não esqueçam a sua condição humana, e não olvidem, principalmente, o que devem a outros homens, de todas as raças e de todos os cantos do mundo»66; em Gaibéus, a margem ribatejana é o «Porto de Todo o Mundo». E se na figura do ceifeiro-rebelde definido como elemento de vanguarda – «o ceifeiro rebelde tem bússola»67 – a emigração pode ainda ser lida como uma falsa esperança68, entre os demais gaibéus a vontade de emigração encarna o despojamento integral que define a condição proletária, livre de tudo excepto das suas próprias grilhetas: «Ali era o cais de embarque e mais outro companheiro esperava também o momento de abalar. Não tinham malas, nem sacos e isso bastava aos emigrantes. As estrelas no céu prometiam-lhes boa viagem. E interrogavam-se, mudos. Reviam todo o sonho acalentado durante cinco anos. Imaginavam as cidades e os campos da nova pátria, onde iriam trabalhar – trabalhar em quê?… Em tudo o que braços humanos pudessem pegar. Não havia melindres na escolha, nem hesitações. Começariam outra vida, mais dura talvez, mas mãe»69. No elogio da mobilidade, a água surge como o líquido mais precioso à narrativa de Redol, porque a sua fluidez é a condição da migração laboral dos gaibéus que descem do norte e é precisamente a partir do estuário do Tejo70, onde o rio se confunde com o mar, que o mundo se abre ao trabalho operário – «o ceifeiro-rebelde também já andara por esse mundo, embarcado como mercadoria»71 – fazendo do proletário o corpo internacionalista por excelência: «[…] o desejo de abalar dominava-os a todo o momento. […] Já lá ia em cinco anos que aquela ideia os tomara; desde então, nunca se desprendera deles. Agora tornara-se parte integrante do seu corpo – como se aquele rumo lhes fosse marcado no berço por fatalismo»72. Em 1939, esta concepção redoliana de um corpo internacionalista embatia de frente com o clima racista dos anos 30, conforme o escritor deixará claro um ano depois em Nasci com Passaporte de Turista, pequeno conto de 1940 cujo enredo enaltece a condição pós-nacional de um judeu

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europeu que, perseguido pelos nazis, ganha alento na figura de seu pai, operário morto na Hungria em 191973.

O Laboratório-Pomar de Mitchurin Desde finais dos anos 20 que se faz sentir em Alves Redol a urgência de descobrir um outro tempo que não este. Em 1962, ao jornal República, Redol assumia esta urgência como um elemento fundador da sua obra: «A obra literária tem sempre o sabor duma aventura que não se pode recusar, como quem prepara uma viagem ao desconhecido e aceita apaixonadamente em pleno drama das interrogações e das dúvidas…»74 Nos seus primeiros textos, os textos africanos de finais dos anos 20, a aventura significava a deslocação da metrópole até à colónia e num segundo momento, nos anos 30, a viagem levou-o da cidade até à aldeia. Entre os dois momentos existe porém uma diferença que não é despicienda. Se no primeiro momento Redol procura reinventar e fazer ressurgir a metrópole através da colónia, tomando a segunda como um instrumento da primeira, num segundo momento – e sobretudo com Gaibéus – o autor procura uma transformação da relação entre «centro» e «margem» e não apenas uma renovação da cidade através da colonização da aldeia. Redol fixa-se agora numa tensão – ruralizar a cidade, urbanizar a aldeia – que atravessará a generalidade da sua obra daí em diante, como exemplifica Porto Manso (1946), quando o nosso escritor viaja pela primeira vez até ao Douro a fim de retratar a vida de uma pequena comunidade aldeã e coloca-se a si e à aldeia entre dois braços, um de ferro e outro de água. O «braço de ferro» traz com ele o comboio cuja passagem ameaça revolucionar praticamente tudo, da economia dos homens aos costumes da fauna. O «braço de

Alves Redol, «Abertura», em Mensageiro do Ribatejo, 14-5-1939, p. 3. Alves Redol, Gaibéus, p. 126. 68 Ana Paula Ferreira, Alves Redol e o Neo-Realismo Português, Lisboa, Caminho, 1992, p. 115. 69 Alves Redol, Gaibéus, p. 259. 70 Foi o Tejo que Alves Redol elegeu como tema para a conferência que proferiu na Sorbonne no final dos anos 40. 71 Idem, p. 254. 72 Idem, pp. 257-8. 73 Alves Redol, Nasci com Passaporte de Turista, Lisboa, Portugália, 1940. 74 República, 1-8-1962, p. 14. 66 67

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água» organiza a vida de toda a comunidade e o rio corre tão naturalmente que impõe a própria aldeia: «as aldeias não escolheram o sítio para nascer». Mostrando um encantamento pelo mundo da água que contrasta com a diabolização do comboio, esse «Cavalo do Diabo» (ou, no dizer de Manuel Tiago em Até Amanhã Camaradas, esse «estardalhaço de metal e vapor»75), Redol acaba ainda assim por não preferir a correnteza da água ao estardalhaço de metal e vapor, acusando ambos os braços de se unirem num «abraço apertado» que diz esmagar quem fica entre eles76. Dez anos depois de Porto Manso, Alves Redol conseguirá libertar-se do sufoco do «abraço apertado». Com A Vida Mágica da Sementinha – Uma Breve História do Trigo, Redol estreia-se na literatura infantil. O livro, datado de 1956, ensaia uma pequena ficção científica que começa na própria capa, onde uma ilustração de Rogério Ribeiro desenha o corte horizontal de uma semente ampliada ao microscópio. Longe do criticismo angustiado de Porto Manso, Redol apresenta agora a simpática figura de Mitchurin, «um homem de aparência insignificante» que abandonou a tarefa quotidiana de acertar o relógio da estação do caminho-de-ferro para ir viver no campo, onde comprou um pequeno pomar. Liberto do rigorismo do relógio – «o tempo nunca mais contou» –, Mitchurin transforma o pomar num «laboratório de tipo novo» e durante anos experimenta, experimenta de novo e volta a experimentar. Sem respeitar purismos e sem obedecer a fronteiras, Mitchurin «levava polén de umas flores para outras, casava uma macieira russa com outra de origem francesa, fazia frutos inteiramente desconhecidos, cruzando uma certa espécie de maçã com cerejas, ameixas e outros frutos», iniciando uma aventura que leva Redol a sonhar um novo mundo de «trigos vedetas, como as do cinema e do teatro», trigos que «vão chegar a toda a parte, mesmo àquelas terras áridas e secas como os desertos». Levando consigo o saber científico e o know-how tecnológico da cidade e passando pela vergonha de ser gozado pela aldeia que o acolhe, abandonando os caminhos-de-ferro para regressar ao pomar e por fim revolucionar a produção a tal ponto que «agora tudo parece possível», Mitchurin abre uma nova era à

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humanidade: «A civilização habituou-se a viajar de avião: todos os dias a ciência a leva mais depressa. E caminharemos sempre com ela na companhia de novos trigos», trigos que dispensam mecanização, trigos dos quais o pão nasce sem que as mãos toquem em farinhas, trigos que de uma só fábrica alimentam Lisboa inteira77. É, pois, com Mitchurin que Redol concretiza de forma mais plena a ambicionada fusão entre primitivismo e civilização, procurando reunir a aura mágica do primeiro e a ficção científica da segunda. Inspirado na história do Mitchurin soviético, o Mitchurin de Redol surge, no entanto, com um tom mais romântico do que o Mitchurin que era predominante entre os comunistas dos anos 50. Ivan Vladimirovich Mitchurin foi uma das primeiras personalidades cientificamente consagradas pelo Estado soviético ainda nos anos 20, sob iniciativa de Lenine e por obra e graça de inovações genéticas no campo da agricultura, que se dizia serem devidas a décadas de experimentação prática. Nos anos 30, Mitchurin foi transformado em referência fundadora do lyssenkismo e o seu experimentalismo tornou-se daí em diante uma fonte de legitimação das posições produtivistas dos comunistas soviéticos, segundo as quais havia que forçar a natureza de modo a retirar dela aquilo que ela por si só não poderia dar (tal como vimos ser igualmente exigido nesta altura por Álvaro Cunhal em Contribuição para o estudo da questão agrária) – é este Ivan Vladimirovich Mitchurin que impera entre os comunistas. Ora, comparativamente a este Mitchurin, o Mitchurin de Redol assume uma visão mais romântica da natureza, pois Redol parece criá-lo à imagem da sua aspiração revolucionária. Fazendo-a seguir a espiral de um ciclo, a revolução comunista de Redol rompia quer com o restitucionismo de muitos românticos quer com o progressivismo de muitos comunistas, abrindo caminho à hipótese de um comunismo

Álvaro Cunhal, Ate Amanhã Camaradas, Lisboa, Caminho, 1998, p. 73. [1.a ed. 1974; escrito no período de prisão de Cunhal, nos anos 50.] 76 Alves Redol, Porto Manso, Lisboa, Caminho, 1999 [1946], p. 26. 77 Alves Redol, A Vida Mágica da Sementinha – Uma Breve História do Trigo, Lisboa, Edição de autor, 1956, pp. 74-7. 75

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Alves Redol, A Vida Mágica da Sementinha, 5ª ed., Ed. Caminho, 2001

romântico. À idealização de uma alteridade irredutível pelos primeiros, Redol opunha a ideia de que só era possível um regresso que ousasse avançar. Em 1964, poucos anos antes de morrer, no prefácio para o Romanceiro Geral do Povo Português, Redol deixava claro que para ele só era possível retornar à comunidade avançando em direcção ao mundo: «O mundo é agora um corpo único, talvez ainda com mais de um coração, mas com o mesmo sangue. A história é uma marcha, dramática e viril, exultante e angustiada, que o homem vem a empreender do rebanho para o homem individualizado e plural, consciente do seu lugar num todo solidário.»78 E à imposição de um economicismo produtivista pelos industrialistas opunha Redol a ideia de que só era possível avançar através de um regresso. Como tal, em A Vida Mágica da Sementinha, no mesmo período em que dirigentes comunistas como Júlio Fogaça e Álvaro Cunhal fazem da modernização da agricultura a base para a reconstrução da comunidade económica nacional, Redol tenta religar o tempo da cidade e o tempo da aldeia em nome de um tempo simultaneamente pré-nacional – não cronometrável, contrariamente ao tempo da estação de comboio – e pós-nacional – o tempo do avião cuja velocidade dissolve no ar tudo o que é sólido.

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O caso de Alves Redol é assim indicativo da pluralidade de sentidos em jogo entre os intelectuais comunistas. Começando por diferenciar-se dos intelectuais comunistas de imaginação mais urbanista, Redol celebra o comunismo primitivo: enquanto a fascinação exótica de uma Maria Lamas se centra na cidade e até tende para o cosmopolitismo – por exemplo, em 1948, na preparação de As Mulheres do Meu País, ela anota no caderno de viagem: «A cidade do Funchal, quando desembarcam passageiros de vapores ingleses, toma um aspecto colorido, vivo, alegre. Muitas cores, trajos variados, alguns exóticos, tornam monótono e velho, pelo contraste, o aspecto normal da cidade»79 –, Redol estranha elogiosamente o mundo rural e reconhece-lhe possibilidades revolucionárias. Porém, Alves Redol não se deixa encantar absolutamente por visões comunistas mais pastorais: contrariamente ao que sucede no elogio à canção rústica em Fernando Lopes-Graça, Alves Redol não destila ódio em relação ao mundo citadino e a sua descrição maquinal dos gaibéus ecoa, em variadíssimos sentidos, o elogio obreirista da modernidade industrial. Rompendo em dois o tempo através de textos como «Kangondo» ou Glória, Alves Redol descreveu a aldeia como alteridade face à cidade, na mesma medida em que a colónia lhe surgira como alteridade face à metrópole. Todavia, posteriormente, partindo de Gaibéus e culminando em A Vida Mágica da Sementinha, o escritor fazia questão de convidar a cidade a mergulhar na aldeia, propondo assim religar ambos os tempos e ambicionando uma nova unidade comunitária. Seduzido tanto por interpretações obreiristas mais produtivistas como por uma visão romântica e ruralista, Redol procurava sair da encruzilhada, reinventando o seu comunismo através do seu romantismo e procurando ir além da simples demarcação de uma linha de fronteira entre o tempo da civilização e o tempo do primitivismo. Não era pouco.

Alves Redol, Fernando Lopes Graça e Maria Keil, Romanceiro Geral do Povo Português, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1964, p. 1. 79 Maria Lamas, «Bloco de apontamentos sobre a Madeira». Em Espólio de Maria Lamas. (Biblioteca Nacional/Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea/Espólio de Maria Lamas/E28/Caixa 18.). 78

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Alves Redol [?], Pescadores do Tejo, anos 40


De bloco em punho e máquina-de-tirar-retratos Alves Redol, o Documento e a Fotografia David Santos Historiador de arte. Coordenador do Museu do Neo-Realismo

[…] Uma ou duas semanas mais tarde, foi de alforge aviado, mantas enroladas aos ombros e máquina-de-tirar-retratos ao peito, como qualquer Marco Polo que se preza, que saltámos para o gasolina do Borrelha com os olhos postos na outra banda que, ao tempo, me parecia muito mais largo que o Amazonas. Jorge Reis sobre a sua experiência de recolha etnográfica com Alves Redol junto dos Valadores da Lezíria.

O impulso documental e a expressão literária Determinado pelo compromisso social da arte, Alves Redol iniciou no final dos anos 30 um trajecto literário ímpar, que abriu ao Ribatejo uma voz de esperança e intervenção ao documentar com espírito etnográfico, na promessa de uma prosa atenta ao vernáculo, a dignidade das gentes mais esquecidas desta região eminentemente rural, identificada então com o trabalho e o sustento oferecidos pela Lezíria, o rio e as margens do Tejo. Dos gaibéus, que sazonalmente realizavam a ceifa ribatejana, aos avieiros, “nómadas do rio”, que viviam da pesca ribeirinha, ou da vida rural dos glorianos aos sacrifícios dos fangueiros da Golegã, passando ainda pelo árduo labor dos “mouros forros”, os valadores que abriam ou limpavam as valas, em todos Redol encontrou e caracterizou literariamente a singularidade da vida dura e quase escrava, do trabalho “de sol a sol”, bem como a expressão cultural espontânea dessas comunidades isoladas. Por todos se interessou desinteressadamente, de bloco em punho, empenhado sobretudo em dar a conhecer ao país, através da literatura, uma realidade social quase desconhecida. Por isso, a criatividade literária redoliana apresenta na sua génese um intenso espírito de missão, de apelo cívico e cariz

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humanista, inspirado por uma visão marxista de transformação da sociedade, que significava, à época, a grande referência ideológica alternativa ao regime ditatorial do Estado Novo. Se tudo começara em 1938 com o “ensaio etnográfico” Glória – uma Aldeia do Ribatejo, resultado de uma curiosidade crescente sobre a vida real do Ribatejo profundo, e no incentivo e influência de Rodrigues Lapa e da leitura de José Leite de Vasconcelos, a verdade é que, em Gaibéus (1939), Alves Redol assume a sua ambição literária, ainda que expressa timidamente na famosa epígrafe que abre o livro1, promovendo com esse título (então bastante enigmático, por desconhecimento generalizado desse grupo social) um cruzamento particular e original “entre” o exercício da narrativa ficcional e a recolha documental de teor etnográfico.

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Alves Redol, Gaibéus, edição do autor, 1939. Recordemos a epígrafe que tanta polémica tem causado: “Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem”. Apesar dos equívocos e das múltiplas interpretações, inclusive ampliados pelos diversos esclarecimentos prestados pelo próprio escritor ao longo dos anos, esta epígrafe que introduz Alves Redol na literatura de ficção reflecte, na verdade, não apenas o implícito desejo literário do autor, como o espírito de um tempo em que o levantamento documental se impunha ao exercício narrativo e romanesco. Recorde-se, a propósito, que se esta epígrafe cita uma outra muito semelhante de Jorge Amado publicada em Cacau (1933): “Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo

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Ora, será porventura este “entre” o elemento diferenciador que tornará Redol numa das novas vozes da literatura portuguesa. Por outro lado, o acento na recolha e assunção literária das expressões originais dos gaibéus, ou mais tarde de avieiros e fangueiros, aparece com a força de um voluntarismo imprevisto, pois se na obra de Aquilino Ribeiro ou mesmo Ferreira de Castro podemos encontrar uma consciência profunda sobre o jargão popular e regional, Redol introduz na sua narrativa uma espécie de nova matriz realista, mais atenta à luta de classes e que salienta a expressão quase directa dos sociolectos, o tom coloquial dos modos particulares de dizer e agir dessas comunidades que observa, dando conta das suas difíceis relações com a hierarquização tradicional do trabalho. Mas é curioso que, à época, esse factor não terá sido suficiente para o reconhecimento desses primeiros títulos, aparentemente por não se fazerem acompanhar de uma equilibrada elaboração formal. A crítica que Mário Dionísio lhe dirige desde a famosa “Ficha 5”2 e ao longo dos anos, ao apontar alguns “equívocos” formais e uma “tendência infeliz” para “escrever difícil”3, que revelava sobretudo, no entender do crítico, uma certa insegurança ao nível da linguagem e da construção narrativa, levará o próprio Redol a reconhecer desde cedo, não sem angústia, mas com humildade, as razões de algumas das suas “fragilidades”, fixando muitos anos mais tarde, no prefácio à 6ª edição de Gaibéus, um mea culpa sobre essa estreia literária marcada pela “impetuosidade desregrada, o arrebatamento impulsivo de um jovem que anseia[va] por libertar o homem de tais grilhetas, desejando que a sua pena se torne[asse] ferramenta de progresso”4. Desde as primeiras críticas, e manifestando desse modo a sua enorme estima e consideração intelectual por Mário Dionísio, Redol empenhar-se-á igualmente, apesar das dúvidas instaladas quanto ao futuro como escritor, em aprofundar o labor oficinal da sua literatura, o que significava perseguir, como diria Dionísio, essa “simplicidade limpa […] demoradamente adquirida, assimilada, construída”5, como forma de evitar os “efeitos fáceis e vistosos que qualquer aprendiz rapidamente obtém”6. Estamos em crer, porém, que um dos valores maiores da prática literária redoliana corre em paralelo ao Olimpo do enredo

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literário, à caracterização maior das personagens, ou desses “efeitos” formais e linguísticos mais conformes às expectativas da intelectualidade informada, condição essencial para o aval da crítica. Se há característica que distingue e ilumina a obra de Alves Redol, sobretudo entre os anos 40 e o final da década seguinte, é a capacidade de pôr a falar, no âmbito da literatura e no universo da receptividade crítica, um conjunto significativo de grupos étnicos que até aí tinham sido evitados como tema narrativo. O próprio Mário Dionísio reconhecerá mais tarde, quando do prefácio de Barranco de Cegos7, com sentido igualmente crítico e indagando directamente o leitor, que Alves Redol apresentava particularidades que o haviam determinado, para o bem e para o mal, desde o início do seu percurso, e que redundariam nos muitos ataques que viria a sofrer ao longo dos tempos, em sentidos opostos, de trincheiras rivais: “Que presa fácil! Não trouxe ele para o nosso romance (e para nosso remorso) personagens, situações, problemas nunca antes trabalhados, até então tranquilamente ignorados pela literatura, com uma clareza e um espírito de luta que teriam de entusiasmar aqueles que da arte curam pouco, mas apenas de ideologias e incentivos de acção que nela possam ver? Não mostravam os seus primeiros livros esquematismos de concepção e de

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de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia”. Por outro lado, a epígrafe de Redol é também idêntica, na forma e no conteúdo, à abertura da obra Banditi (1946), do escritor neo-realista italiano Pietro Chiodi: “Este livro não é um romance, nem uma história romanceada. É um documento histórico, no sentido em que as personagens, os factos e as emoções aconteceram realmente”. (cf. Bruno Falcetto, “Neorrealismos escritos”, in AAVV, NeoRealismo. La Nueva Imagen en Italia (1932-1960), Coord. Enrica Viganò, Madrid, La Fabrica Editorial, 2007, p. 59). Mário Dionísio, “Ficha 5”, in Seara Nova, 11 de Abril de 1942, p. 131-134. Ibidem. Ainda sobre esta questão cf. Mário Dionísio, “Para o perfil de um camarada”, in AAVV, Alves Redol. Testemunhos dos Seus Contemporâneos, (Org. Maria José Marinho e António Mota Redol), Lisboa, Editorial Caminho, 2001, pp. 66-80. Alves Redol, “breve memória para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939”, in Gaibéus, (1939), (6ª edição), Lisboa, Publicações Europa-América, 1965, p. 21. Mário Dionísio, “Prefácio”, in Alves Redol, Barranco de Cegos, Lisboa, Portugália Editora, 1961, p. 12. Ibidem. Prefácio onde Mário Dionísio defende de modo convicto Alves Redol, apontando o dedo a quem não percebera ainda que Barranco de Cegos era não só a obra-prima do escritor vila-franquense, como “sem dúvida também um dos grandes romances de toda a nossa história literária”. (cf. Alves Redol, Barranco de Cegos, Lisboa, Portugália Editora, 1961, p. 13).

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Jorge Reis, Alves Redol em acampamento de Valadores, em 1942

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análise, tibiezas de linguagem e de construção, ingenuidades, que permitiram aos defensores da arte (e só da arte…) uma reprovação sistemática, facilmente estribada em declarações do próprio autor, segundo as quais só o documentário lhe interessaria?”8. Na verdade, foi esta a teia onde se enredou não só a obra de Alves Redol, como também a sua recepção crítica, marcando assim o ritmo da sua sobrevivência e significado, pelos menos no meio literário, pois junto do público leitor a aceitação crescente convertê-lo-ia num dos escritores de maior sucesso editorial até ao final da década de 50. Porém, a discussão parece, pelo menos, aos olhos de hoje, algo deslocada ou indiferente a algumas das suas características mais decisivas. Com efeito, mais do que fomentar parcialmente uma leitura ideológica ou o “incentivo” de uma acção política – o que para muitos, por si só, condicionava desde logo e em grande parte a liberdade criativa do escritor –, e mais do que apresentar dilemas de concepção, limitações formais ou de estética literária, a obra inicial de Redol traduz precisamente o maior investimento até aí realizado entre nós em torno de uma literatura mais próxima da energia realista do documentarismo. Apesar de algumas impetuosidades estilísticas ou ânsias de intervenção facilmente identificáveis, podemos dizer que o arranque romanesco de Alves Redol inaugura e aprofunda, antes de mais, uma ligação invulgar entre o carácter analítico associado às marcas sociais e políticas dos grupos com quem viveu e partilhou experiências reais e o desejo criativo de as

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expor ao imaginário e à trama narrativa. Os seus primeiros títulos dependem em grande parte, na verdade, desse impulso experimental e sobretudo da capacidade de transformação literária dos elementos recolhidos por um particularíssimo “trabalho de campo”, inspirado nos métodos de pesquisa da etnografia e da antropologia, mas adaptado às condições possíveis da sua formação amadora. Estratégia, aliás, assumida com clara honestidade desde logo no “preâmbulo” de Glória, quando afirma: “[…] a etnografia captou-me por um misto de interesse cultural e simpatia pelo seu abandono, levando-me a folhear alguns volumes da obra fecunda do ilustre fundador do Museu de Belém [Redol refere-se ao Museu Nacional de Arqueologia, fundado por Leite de Vasconcelos com a designação de Museu Etnográfico Português]. Então, constatei melhor quanto de valor linguístico e social encerravam esses estudos, a viverem do heroísmo de meia dúzia, e embora reconhecendo-me incapaz de produzir obra científica com semelhanças de mérito, entendi poder colaborar na etnografia portuguesa, recolhendo com amor e desvelo aquilo que, no contacto vivificador buscado sempre com alegria junto do meu povo, me parecesse merecer retenção”9. Nessa medida, o informal documentarismo das primeiras obras pode ser entendido ao mesmo tempo como a sua grande bandeira

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Ibidem, p. 11. Alves Redol, Glória – uma Aldeia do Ribatejo, Edição do Autor, 1938, p. 10.

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de criatividade, ao manifestar-se como ligação híbrida e interdisciplinar, quase pós-moderna, diríamos, “entre” o “puramente” objectivo das ciências e o “puramente” artístico da literatura, abraçando assim as potencialidades de um lirismo romanesco que se mantém quase sempre, contudo, vinculado ao real, ao fazer depender a narrativa de uma colagem à natureza dos tipos sociais em que se inspira. Em nossa opinião, é precisamente essa fusão ou “impureza”, espécie de marca maior de uma particular interdisciplinaridade, que melhor caracteriza a voz original de Alves Redol. Se observarmos inclusive a sua obra sob a perspectiva aqui proposta, talvez as exigências formais e artísticas levantadas pela autoridade crítica – nomeadamente a necessidade de uma contenção estilística e a fuga ao conteudismo politizado – possam reduzir-se a uma de entre muitas perspectivas de leitura sobra a sua natureza e complexidade. Apesar dos avisos iniciais da crítica, a publicação de Marés (1941), Avieiros (1942) e Fanga (1943), viria a confirmar o projecto literário de Alves Redol como uma nova forma de realismo literário, trabalhado para transmitir emoções ao leitor, mas também valores e preocupações de teor político-social. O neo-

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-realismo afirmava-se, assim, enquanto expressão alternativa à literatura portuguesa presencista ou dela derivada, por meio de uma obra de expressão épica, que nascera da necessidade de estudo e compreensão sobre as características e especificidades regionalistas da sociedade portuguesa, das suas idiossincrasias aos vestígios humanos universais. Já no contexto geográfico duriense, e depois de Porto Manso (1946), a trilogia do ciclo Port Wine, constituída pelos títulos Horizonte Cerrado (1949), Os Homens e as Sombras (1951) e Vindima de Sangue (1953), assegurava a Alves Redol um protagonismo crescente, convertendo-o num dos escritores portugueses mais atentos à realidade social, cuja obra integra uma visão cada vez mais crítica e abrangente sobre o drama da exploração humana em que se baseavam as relações de trabalho no nosso país. Se esta característica resultara primeiro da observação da vida ribatejana, traduzia-se agora na denúncia das condições desumanas de grande parte da vindima do Douro. Em todos estes casos, tal como em Uma Fenda na Muralha (1959), na atenção prestada à faina dos pescadores da Nazaré já no final dos anos 50, Redol munia-se ainda – para além da sensibilidade lírica que caracteriza um escritor ou do já referido empenho cívico, ético e político – de um apurado sentido de observação objectiva, apoiado não só nas técnicas do registo etnográfico, mas sobretudo numa disponibilidade imensa para captar a genuinidade do “outro” social, procurando no diálogo e na humanidade do gesto solidário um modo mais profundo de acesso à experiência quotidiana desses grupos. Por isso, se Barranco de Cegos (1961) significou para muitos o apogeu literário de Alves Redol, a sua definitiva consagração como escritor, terá constituído ainda um sinal de distanciamento ou dissolução do “propósito entnografista” que esteve na génese do neo-realismo, essa “idade de inocência épico-lírica”10 que se perdeu a favor do cânone literário, “no quadro de um amadurecimento da técnica romanesca e da

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Cf. Vítor Viçoso, “A ficção narrativa no movimento neo-realista: as vozes sociais e os universos da ficção”, in AAVV, Batalha pelo Conteúdo – movimento neo-realista português, Vila Franca de Xira, Museu do NeoRealismo/CMVFX, 2007, p. 73.

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À esquerda: Francisco Tavares Teles e Alves Redol, Douro, 1946 Alves Redol, Minas de São Pedro da Cova, Gondomar, (Provas de contacto, 8x5,5cm), 1942

fecundidade semântica germinada a partir de um cruzamento de vozes sociais”11. Por outras palavras, se parece não haver dúvidas sobre a diferença de valor literário entre a simplicidade esquemática e até maniqueísta12 de Gaibéus e a elaborada densidade narrativa e psicológica de Barranco de Cegos, ela poderá significar, igualmente, ainda que sob diferente perspectiva de análise, um empobrecimento da riqueza coloquial que se manifestara desde o início nesse “propósito etnografista”, mesmo que a sua surpreendente originalidade nem sempre tenha sido trabalhada em prol da grande obra literária. É neste sentido reveladora a análise feita em 1965 pelo próprio escritor acerca da sua primeira obra de ficção: “Gaibéus seria um compromisso da reportagem com o romance, em favor dos homens olvidados e também da literatura aviltada. Não conseguiu voar tão alto nem tão longe. Mas, perante a ameaça que depois tão tragicamente todos provaram na consciência, ou na própria carne, Gaibéus quis ser, e foi, um dos gritos exactos de um drama colectivo e privado”13. Ao reconhecer as limitações da sua obra de estreia, Redol reflectia também sobre um tempo que passara e as suas ilusões de transformação imediata. Esse título, escrevia, “trazia com ele todas as virtudes e os fatais defeitos de um embrião. É livro típico de uma atitude, mais outra voz na velha querela da função da arte. Uma voz apaixonada, como é salutar quando se rompe combate”14. Da experiência da etnografia ao combate politizado diluído pela escrita de ficção, Alves Redol realizou um trajecto que o levou do real mais cru e transparente a um real aprofundado pela

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intensidade literária, na maturação de uma simplicidade segura e voluntária, só ao alcance dos mestres. Na verdade, com o aperfeiçoamento formal de Barranco de Cegos, após mais de 25 anos desde a publicação de Gaibéus, Alves Redol recebeu finalmente os elogios que lhe faltavam, oriundos, para mais, dessa crítica que desde o início dos anos 40 exigira ao realismo social uma inequívoca e genuína elevação artística, isto é, sustentara que depois da conquista de alguns temas mais ou menos incómodos ao regime do Estado Novo, deveria converter-se numa “arte maior” e abandonar a pretensão primeira de se afirmar sobretudo como “arte útil”, secundarizando desse modo o sentido de despertar social que havia estado na sua origem, espécie de “pecado” diminuidor, como se as características politizadas e documentaristas iniciais ferissem de morte as suas hipóteses artísticas. No fundo, é como se o neo-realismo estivesse destinado, desde o início, a fugir da sua essência original, apagando aos poucos qualquer vestígio de expressão inovadora ou distintiva, para se converter numa das muitas faces do cânone que define essa entidade incontornável, mas algo abstracta, que é “a grande literatura”15. Porém, o interesse documental que formou a sensibilidade literária de Alves Redol não se

Ibidem, p. 84. Ibidem. 13 Prefácio de Alves Redol à 6ª edição de Gaibéus…, p. 21. 14 Ibidem, p. 23. 15 Cf. Harold Bloom, O Cânone Ocidental, (1994), (trad. port. Manuel Frias Martins), Lisboa, Temas e Debates, 2011. 11 12

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manifestou apenas na experiência ficcional, obtendo resultados concretos na pesquisa etnográfica que determinou a publicação do Cancioneiro do Ribatejo (1950) e do Romanceiro Geral do Povo Português (1964) – este último contando com a colaboração de Fernando Lopes Graça (música) e Maria Keil (ilustrações). Não podemos esquecer, como nos lembra Vítor Viçoso, que “a representação ficcional do povo, por parte dos neo-realistas, complementava-se dialecticamente com a publicação e o estudo das fontes originais da cultura popular”16. Por isso, podemos afirmar que a evolução ficcional de Redol não diminuiu integralmente o seu propósito etnográfico, auscultando em paralelo à acção literária a voz do povo e as manifestações culturais identificadas com a tradição oral. Pelo menos neste aspecto, o escritor manterá activa a sua intenção inicial de ouvir os grupos socioculturais do nosso país, com o objectivo de recolher e registar a sua expressão mais genuína, constituindo assim uma espécie de arquivo, entendido como tesouro activo de uma certa portugalidade ou nacionalismo17, diferente todavia da visão nacionalista do Estado Novo. De facto, se Redol pretendia registar a cultura identitária do país era porque nessa tarefa reconhecia, tal como Rodrigues Lapa definira a filologia e o etnografismo, “um instrumento inapreciável de autêntica democracia”18, resultado do estudo e da compreensão desses grupos, admitindo nas manifestações da cultura popular uma via de dignificação emancipatória, reivindicativa do seu estatuto e lugar social, enquanto o regime de Salazar procurava preservar nessa mesma identidade a razão de um imobilismo de cariz conservador e corporativista. Por outro lado, não será difícil reconhecer que entre o impulso documental, mais politizado inicialmente na sua dimensão utópica, e a expressão literária amadurecida pela carreira de escritor, Alves Redol conduziu o seu percurso visando a aceitação do meio literário, o que o terá realizado, finalmente, enquanto criador, sobretudo depois da publicação de Barranco de Cegos. Mas nesse trajecto, em parte sacrificial, o escritor ter-se-á afastado, pelo menos em parte, não só do ímpeto político como do espírito etnográfico original que, mesmo assim, ficará para sempre associado à fundação do movimento

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neo-realista e, nessa medida, à sua afirmação distintiva. De outro modo, não significará a incursão pelo etnografismo o expoente máximo desse compromisso de Redol com os mais desfavorecidos, seus problemas e anseios, e com as tensões resultantes das relações sociais do trabalho, desde cedo entendido como património inalienável ou último reduto da dignidade humana? Haverá, na verdade, contributo maior de Alves Redol à literatura portuguesa do século XX? Ainda recentemente, e apesar de apontar a Gaibéus, de modo crítico, “o compromisso equívoco entre documentário e ficção”19, Vítor Viçoso defendeu também, como nós, que “a modernidade de Redol está, apesar dos condicionalismos epocais, nesta hibridez entre o etnografismo documental e uma poetização que radica na relação simpática entre o autor e a paisagem, entre aquele e as comunidades rurais que a habitam ou nela transitam”20.

A fotografia como auxiliar da literatura A experiência fotográfica e o exercício literário redoliano têm uma história em comum capaz de surpreender a leitura que ainda hoje fazemos de Alves Redol como escritor concentrado apenas na palavra e no seu significado humanista. A ligação de Redol com a imagem fotográfica é, afinal, uma constante desde o início do seu percurso literário, resultado do impulso etnográfico que esteve na origem do seu entusiasmo e curiosidade para com o “outro” social, e ainda de um apreço demonstrado de diversas formas, ao longo dos tempos, em torno da imagem tecnologizada, com expressão não só na autoria de muitas séries fotográficas, como na produção de argumentos e diálogos para vários filmes do cinema português dos anos 5021. A “máquina-de-tirar-retratos”, tal como lhe chamou Jorge Reis ao testemunhar a sua parceria nessa aventura etnográfica, acompanhou Redol

Vítor Viçoso, op. cit., p. 66. Sobre esta questão cf. José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal. Política, Cultura e História no Século XX, Lisboa, Ed. Tinta da China, 2008. 18 Cf. Alves Redol, Glória…, p. 9. 19 Vítor Viçoso, op. cit, p. 67. 20 Ibidem. 21 A sua literatura regista igualmente, na leitura de Baptista-Bastos, uma forte ligação às estratégias narrativas do cinema: “Mais do qualquer outro dos

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na maioria das jornadas de “trabalho de campo” que realizou ao longo de mais de vinte anos, tornando-se um parceiro inseparável, apesar de secundário em termos autorais relativamente ao poder do verbo e da narrativa. Talvez pela aparente menoridade do seu “papel”, a ligação da fotografia à literatura do autor permaneceu até hoje demasiado esquecida, apesar de liderar em realismo e autenticidade gráfica um exercício deliberado de registo directo sobre o real que o converteu ao mesmo tempo num instrumento de apoio imprescindível à investigação. Nela se projecta parte do conhecimento que apoia e determina o perfil narrativo de cada obra, pois sem o auxílio da fotografia esse “trabalho de campo” não teria registado o mesmo rigor descritivo, o mesmo critério de selecção sobre os detalhes iconográficos que se lhe ofereciam como novidade absoluta. Não esqueçamos, porém, que em todo este entusiasmo prevalece uma vontade de documentar e recolher o maior número de elementos possíveis que privilegiassem o acesso à realidade social e cultural dessas comunidades que povoavam as regiões rurais mais desfavorecidas. Nessa medida, os primórdios do movimento neo-realista revelaram um nexo de atracção entre a narração literária (ficção e teatro), a lírica (poesia) e a narração documental (crítica, ensaio, crónica, diário e memórias), que acentuava a necessidade de observar e dar a conhecer o real com o objectivo de o transformar, confirmando desse modo os anos 30 e 40 como uma época ávida de apelos e convicções que ajudassem a moldar o “homem novo”. Recordemos ainda que esses anos assistiram ao recrudescimento dos conflitos bélicos na Europa e no Mundo, com a ciência a apoiar de modo cego algumas “certezas” políticas, baseando-se porém em processos de observação e conhecimento que dependiam necessariamente do registo, da análise e da organização documental. A lógica de documentar a vida humana tem na tradição secular uma história longa, marcada de um modo geral pelo racionalismo, pelas ideologias políticas e pela consolidação do espírito científico positivista com o objectivo de melhor compreender a humanidade e sobre ela agir, rumo à ordem e à estabilização social,

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mesmo que os caminhos e as interpretações sobre esse “destino” anunciado assumissem muitas vezes perfis paradoxais e até opostos, consoante os regimes políticos, democráticos ou ditatoriais, da esquerda à direita. Neste sentido, a escrita, o desenho e, já em pleno século XIX, o desenvolvimento exponencial da fotografia proporcionariam o aperfeiçoamento de um inevitável ímpeto documental, convertendo-se inclusive nos meios por excelência de registo e, desse modo, de desmistificação da realidade, contribuindo ainda para uma espécie de utopia arquivista que não parou de crescer, assumindo hoje aspectos, diríamos, quase esquizofrénicos, em especial pela infinita acumulação de fragmentos que de todos os quadrantes vão surgindo ainda como testemunhos de “verdade”, mesmo se neles persiste sobretudo a ideia de estilhaço, de algo que se perdeu para sempre, na impossibilidade de restituição da sua unidade originalmente experimentada. Sabemos hoje que na origem da fotografia esteve a ambição de suspender o real, para assim rivalizar com a natureza. Por outro lado, a fotografia viria a protagonizar ainda, nesse contexto, uma autêntica revolução epistemológica, influindo decisivamente nos modos e capacidades de percepção do sujeito. Se o documento e a estética constituem, sem dúvida, o mapa genético da fotografia, é no balanço entre o registo e os seus efeitos de composição que ela se impõe desde há muito, ampliando um percurso deslumbrante, que nos devolve

seus pares, Alves Redol tem utilizado termos de Cinema como recurso para a localização do homem a agir. «Fanga», «Olhos de Água», «A Barca dos Sete Lemes», «O Cavalo Espantado» são livros férteis em acções paralelas, em «flash-backs», em planos-de-conjunto, em grandes planos e em montagens, porque o escritor descortinou, nesse ritmo imagético, um poder de convicção imediata, uma possibilidade viva e directa de retratar, clara e criticamente, determinados grupos sociais. Efectivamente, Redol é o primeiro escritor português a rejeitar, mas declaradamente, a tradição «dialectal», auditiva, do nosso romance, cuja natureza dramática se inseria num contexto teatraldescritivo. Observe-se, designadamente, que o autor de «Barranco de Cegos», confesso discípulo de Fialho, só buscou, neste prosador, certas das características audiovisuais da linguagem, enjeitando a prolixidade de uma imagística pressuposta (teatral. Portanto) para perfilhar um estilo imediato (cinematográfico) mais consentâneo com a sua perspectiva do mundo. Notese, por exemplo, que «Olhos de Água», onde a técnica fílmica da montagem é evidente, pode ser lido por ordem preferencial e a partir de qualquer altura sem que o espaço e o tempo percam, perante o leitor, uma unidade para si fundamentalmente receptiva e compreensiva”. [Baptista-Bastos, O Filme e o Realismo, Lisboa, Arcádia, 1962, pp. 151-152].

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Alves Redol, J煤lio Pomar, Lima de Freitas e Ant贸nio Alfredo, Arrozais do Ribatejo, 1953, (Fotografia: Cipriano Dourado [?])

Ciclo Arroz, 1953, (Fotografia: Cipriano Dourado [?])

Ciclo Arroz, 1953, (Fotografia: Lima de Freitas [?])

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sobretudo a memória de visualidades passadas em perspectivas parciais e subjectivas que reflectem, afinal, a nossa própria humanidade. Ao longo dos tempos, um profundo desejo de apropriação técnica sobre o real aguçou o engenho do homem na vontade de registar, mas também de recriar, o que os olhos podem ver. Depois do desenho e da pintura, a fotografia representou, na verdade, a mais assombrosa etapa de conquista sobre a suspensão espácio-temporal. Daí para cá, a fotografia serviu de base a outras etapas tecnológicas, em especial o cinema, sem deixar de reiterar o seu mais brilhante e persistente contributo, a ideia de que no silêncio de uma fotografia subsiste um pedaço de realidade. Por isso, como efeito de documento e registo, mas igualmente como lógica de recriação imagética, a fotografia tem servido os mais diversos intuitos, auxiliando pesquisas científicas e outras necessidades ou ambições, inclusive de expressão criativa e literária. Na verdade, a ligação de Alves Redol à fotografia é ainda pouco conhecida do público leitor e mesmo do meio artístico e fotográfico22. Porém, essa relação é mais sólida e profícua do que porventura até hoje se considerou, pois o escritor vila-franquense não apenas usou a fotografia para se documentar, recorrendo por vezes ao trabalho de fotógrafos tecnicamente mais apetrechados (ex: conjunto de fotos de Artur Pastor sobre a faina dos pescadores da Nazaré), como realizou ele mesmo parte considerável das imagens fotográficas que estão associadas a diversos dos seus títulos literários, tendo alcançado inclusive em algumas séries de imagens, sobretudo nas fotografias tiradas no Douro e no trabalho das minas ou ainda em Constantino, um cuidado formal que o coloca de um modo inesperado entre os fotógrafos portugueses do realismo crítico e humanista dos anos 40 e 50, apesar de não podermos comparar a sua escassa produção com o labor sistemático, mais conhecedor e elaborado, de fotógrafos como Adelino Lyon de Castro, Varela Pécurto, Victor Palla, Artur Pastor e Augusto Cabrita. Podemos todavia considerá-lo um fotógrafo por necessidade documentalista, como o arq. Francisco Castro Rodrigues, (que terá revelado imagens em provas de contacto sobre o trabalho dos gadanheiros, quando da IX

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Missão Estética de Férias, em Évora, 1945) Lima de Freitas, Rogério Ribeiro ou Cipriano Dourado que, não sendo fotógrafos, produziram imagens fotográficas no quadro da investigação neo-realista, funcionando sobretudo como elementos auxiliares do desenho e da pintura, como podemos observar nas fotografias associadas ao “Ciclo do Arroz” (1953), que nunca chegaram a ser apresentadas publicamente. Sobre este último aspecto, Alexandre Pomar conclui tratar-se de “uma produção que não se terá entendido como autónoma (a que não se reconheceu uma identidade própria) e que não aspirava ao reconhecimento como arte fotográfica, nem os seus autores (quando não anónimos) se consideravam fotógrafos. Pode ser útil pensar por que razão essas e outras fotografias como elas não chegaram às Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946-56) [que chegou a apresentar secções fotográficas nas edições de 1946, 1950 e 1955], onde estes autores expuseram com assiduidade”23. Neste contexto, diríamos que o trabalho fotográfico de Redol é limitado, no essencial, ao desejo de com ele apoiar documentalmente as suas investigações sociais e literárias, desenvolvendo contudo uma prática da imagem fotográfica que o prende ainda ao humanismo da iconografia observada e nesse registo encontra um outro modo de denunciar as débeis condições de trabalho de homens, mulheres e crianças. Porém, nessas imagens revela-se ainda uma esperança que, apesar de todas as contrariedades da vida, jamais se apaga do rosto dessas figuras retratadas no seu ambiente telúrico.

As primeiras referências sobre a relação autoral de Redol com a fotografia surgiram em 2009 com os estudos de Emília Tavares a propósito da primeira edição de Constantino...: “Parece-nos interessante que Alves Redol utilize a fotografia, com imagens suas e de outro, para ‘ilustrar’ um romance juvenil”. (cf. Emília Tavares, Batalha de Sombras. Colecção de Fotografia Portuguesa dos anos 50 do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Vila Franca de Xira, Museu do Neo-Realismo/CMVFX, 2009, p. 54). Também recentemente, na capa e no interior do livro de Violante F. Magalhães, Sobressalto e Espanto. Narrativas Literárias sobre e para a Infância, no Neo-Realismo Português, Lisboa, Campo da Comunicação, 2009, foram publicadas algumas fotos alusivas ao trabalho infantil nas minas do norte do país que são atribuídas a Alves Redol, e desse modo identificadas na ficha técnica. 23 Cf. Alexandre Pomar, “O neo-realismo na fotografia portuguesa, 1945-1963”, in AAVV, Industrialização em Portugal no Século XX – o Caso do Barreiro, (Actas do Colóquio Internacional), (Coord. Miguel Figueira de Faria e José Amado Mendes), Lisboa, EDIUAL – Universidade Autónoma Editora, 2010, p. 431. 22

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Paginação do livro Glória, Uma Aldeia do Ribatejo, 1938

Por outro lado, se as fotografias de Redol podem ser hoje reavaliadas, pelo menos parcialmente, como proposta autoral, apesar do próprio escritor nunca assim as ter apreciado totalmente, isso resulta do facto de, em primeiro lugar, terem resistido à passagem do tempo (em negativos e provas de contacto), podendo agora serem lidas e interpretadas de modo diferente, no contexto da recente revalorização dos estudos de fotografia desse período histórico, liderados entre nós pelas investigações de Emília Tavares, Alexandre Pomar, António Sena e Jorge Calado, e, em segundo, apresentarem elas mesmas pistas de valor documental e estético que nos chamam de imediato a atenção, permitindo convocar uma prática fotográfica que nessa época, e um pouco por todo o mundo ocidental, apelava à descoberta da realidade social mais recôndita ou desconhecida. A este propósito, Emília Tavares lembra-nos que “a dimensão do real fotográfico conheceu a partir da década de 30 essa infusão contaminante de pressupostos entre documental e humanismo, tornando difícil delimitar as intenções estéticas de cada um. Entre a poderosa influência do conceito de fotografia humanista, de inspiração francesa, até à dinâmica

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dos fotógrafos do New Deal norte-americano e das campanhas da Farm Security Administration, a relação da fotografia com o real estabeleceu-se entre as premissas políticas e a exponencialidade poética das imagens choque”24. No início, Alves Redol não trabalhará a fotografia com o objectivo deliberado de uma expressão formal humanista, mas nas séries mais tardias dos anos 50 torna-se mais evidente essa dimensão poética identificada nos problemas sociais, assumindo um olhar mais atento ao sentido humano das figuras captadas, transcendendo em muito o carácter eminentemente documental das primeiras fotografias publicadas. Se iniciarmos uma análise mais detalhada sobre o uso e a prática da imagem fotográfica em Alves Redol com o “ensaio etnográfico” Glória – Uma Aldeia do Ribatejo25, e tendo em conta a evolução

Emília Tavares, “Fotografia e neo-realismo em Portugal”, in AAVV, Batalha pelo Conteúdo, p. 264. 25 Cf. Alves Redol, Glória…, 1938. Foram recentemente descoberta s no espólio de Alves Redol várias fotografias e apontamentos etnográficos sobre Alpedrinha, resultante de uma estadia que o escritor aí realizou, em 1938, com a sua mulher Maria dos Santos Mota Redol, e que apontam para o projecto de mais uma investigação de carácter etnográfico que nunca chegou a ser desenvolvida e, muito menos, concluída. 24

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cat. 49

Alves Redol, Glória, (Provas de contacto, 5x5cm), 1937

interna antes referida, podemos perceber como a fotografia marca desde logo, apesar da sua timidez autoral, uma presença concreta e bem definida ao integrar, inclusive, a paginação do livro, assumindo assim um protagonismo similar aos desenhos na ilustração editorial do texto. Para mais, devemos ainda ler nessa opção a importância e o significado da passagem da fotografia de uma lógica de elemento de apoio à investigação para uma assunção formal significativa no conjunto da mensagem. O próprio Alves Redol regista no “preâmbulo” dessa edição de autor, ao argumentar sobre as técnicas documentais que o auxiliaram na tarefa inaugural, a presença da fotografia como disciplina essencial ao seu trabalho de pesquisa e comunicação com o leitor, funcionando conjuntamente com a anotação escrita e o desenho (neste caso, realizado por Júlio Goes, autor ainda da ilustração da capa dessa edição): “Segui o processo de palavras e coisas por me parecer o mais eficaz em investigações desta natureza, e assim, ilustrarei quanto possível, por desenhos e fotografias, todas as passagens que me pareceram dignas de o ser e a lei imperiosa das circunstâncias o permitiu”26. A fotografia é aqui declarada como parte integrante de um processo de investigação ancorado nos métodos etnográficos praticados, à época, entre nós. Porém, no final desse mesmo “preâmbulo”, Redol parece deixar cair uma certa indefinição

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quando agradece o contributo de “Júlio Góis que, sob apontamentos meus e em reproduções directas, ilustrou este ensaio […]”27. Apesar de Redol não particularizar nos seus diversos agradecimentos qualquer referência à autoria do exercício fotográfico, o que poderá indiciar, de algum modo, ter sido ele próprio o seu autor, a verdade é que nas palavras sobre o contributo de Júlio Goes persistem algumas dúvidas, pois sabemos que Goes não só era um amigo próximo de Redol, tendo com ele realizado algumas incursões pela aldeia da Glória (e mais tarde à vila da Nazaré, já nos anos 50), como partilhava ainda, com o seu irmão Sebastião Goes, um estúdio de fotografia em Vila Franca, apesar de ter colaborado com o escritor sobretudo ao nível do desenho de ilustração. De qualquer modo, encarando a dúbia sinuosidade dessas palavras, diríamos que, se a expressão “reproduções directas” apresenta ainda uma ligação ao termo “fotografias”, associada ao jargão dos primórdios da disciplina, referir-se-á muito provavelmente, no entanto, à prática do desenho de ilustração que Júlio Goes desenvolveu de modo rigoroso com base nos esquiços do próprio Redol – que ilustravam, com nítidas limitações formais, os seus apontamentos manuscritos sobre os aspectos etnográficos da cultura gloriana. De qualquer modo, e independentemente da falta de esclarecimento sobre a autoria das imagens fotográficas de Glória, acreditamos hoje que o autor da maioria das imagens desse conjunto fotográfico terá sido mesmo Alves Redol, levados ainda pelo facto (não conclusivo em si mesmo) do escritor possuir os “negativos” dessas imagens – que foram no entanto reveladas pelo estúdio propriedade dos irmãos Goes. Em princípio, porém, nenhum fotógrafo, à época, fosse amador ou profissional, concederia a outrem a garantia da possibilidade de reimpressão do seu trabalho. Se ceder os “positivos” fazia parte de qualquer “contrato” de compra do trabalho fotográfico, já a cedência de “negativos” significava um risco acrescido de apropriação indevida, que poderia inclusive comprometer não só a verdadeira autoria, como

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Cf. Glória…, p, 12. Ibidem.

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alguns aspectos formais e técnicos acerca da revelação das imagens. Ainda assim, mesmo que a autoria das imagens tenha sido partilhada, neste caso, e eventualmente, com Júlio Goes, Redol terá efectivamente realizado, pelo menos, parte significativa dessas fotografias. Um dos factores que contribuiu para Redol não ter assumido de modo claro a autoria das fotografias apresentadas em Glória prende-se com o modo como a fotografia foi interpretada nesse ensaio, surgindo fundamentalmente como disciplina auxiliar do trabalho literário e etnográfico, e nunca como expressão de uma vontade de recriar o real a partir das especificidades do meio – um pouco à semelhança do trabalho fotográfico que Maria Lamas irá realizar dez anos depois para os fascículos de As Mulheres do meu País (1948-50), ou mesmo como as fotografias tiradas por Cipriano Dourado e Lima de Freitas no contexto das visitas aos arrozais do Ribatejo promovidas por Redol com um grupo de artistas dessa época (Júlio Pomar, António Alfredo e Rogério Ribeiro, para além dos já citados). Note-se que, neste último caso, as imagens apresentam, apesar do seu propósito documental, um valor estético-formal evidente, sem que isso tivesse determinado qualquer rasgo de assunção autoral e artística. Esse é um factor que posiciona a disciplina da fotografia como um aliado técnico de registo, como o esboço ou

esquisso se projectam no contexto do desenho e da pintura. É uma matéria visual intermédia, mas que acaba por contribuir, ao mesmo tempo, sobretudo ao nível iconográfico, para o valor artístico do trabalho final. Se dessa vez, no entanto, Alves Redol deixara envolta em mistério a autoria fotográfica da sua primeira obra, já em 1962, assume de uma forma mais explícita (ainda que não totalmente) uma parcela dessa autoria visual, quando ilustra com fotografias a edição literária de um título seu, ou seja, Constantino – guardador de vacas e de sonhos. Uma vez mais, o autor volta a fazer referência preambular sobre o justo contributo da fotografia no resultado final da obra: “Embora inspirado na vida de um jovem daqui [Freixial], Constantino Cara-Linda, meu vizinho e amigo, este livro não é bem a crónica rigorosa do seu passadio. Inspira-se nele, reprodu-lo nas imagens que ilustram o texto, mas recria-o e inventa-o também naquela medida em que o escritor decanta ou engravida a realidade de que se apossa com amor ou com raiva”. Apesar da recriação e do imaginário constituirem parte da forma narrativa, o efeito de atracção pelo real implica aqui, de novo, a convocação da fotografia e da sua específica relação com os ambientes e as acções desse jovem, misturando-se assim com o espírito documentalista que preside aos actos de observar e narrar. Em jeito de “crónica” livre e apaixonada, Redol lembra-nos que “sem

Paginação do livro Constantino – guardador de vacas e de sonhos, 1962

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qualquer ímpeto de desforço, este contarelo, um tanto biográfico, é obra de pura devoção”. Nele se evoca com sentido de partilha universal as aventuras e desventuras do protagonista, esse “cuco rambóia”, espécie de Tom Sawyer do Freixial, traduzido, no entanto, num registo mais realista, colado aos acontecimentos do quotidiano. Nas fotografias que fazem a edição original de Constantino podemos observar ainda como o ritmo global da narrativa recupera uma certa ideia de reportagem, traduzida não apenas pelo tom das palavras e da sua composição, como pelo jogo realista que resulta do poder de comunicação da imagem fotográfica. A paginação, profusamente ilustrada pelas fotografias a preto e branco, converte o texto num elemento que se adequa à curiosidade imagética determinada pelo uso da fotografia. Efeito que, na verdade, acaba por se perder nas reedições seguintes. Emília Tavares, na sua análise sobre esse título, afirmou que se essas fotografias nos traduzem “a verosimilhança da dura realidade”, da biografia dum rapaz do campo “e da sua vida entre trabalho e lazer”, elas seguem ao mesmo tempo “um curso narrativo, aceitam o naturalismo de muitas das imagens, contrapõem com outras o grande plano do esforço e da dureza do trabalho, a sua eficácia documental compromete-se com o bucolismo que lhe é inerente, criando um corpo de imagens híbrido”28. Das cinquenta e quatro fotografias editadas na paginação desse livro, ficamos contudo sem saber ao certo qual o autor de cada uma das fotos apresentadas, pois na página de rosto apenas nos é dada uma informação genérica: “Fotografias de António Neto e do autor”. Deste modo particular, Redol assumia publicamente, pela primeira vez, que, para lá de desenvolver o trabalho narrativo, também se dedicava a captar em imagens fotográficas as situações e personagens que o interessavam do ponto de vista literário. Como dissemos, porém, apenas o faz parcialmente, pois essa informação não revela mais do que a partilha (com António Neto) do trabalho de fotografia que ilustra esse mesmo título. Isto é, assumida a autoria do conjunto de imagens, é-nos negada a sua autoria individual, o que remete para uma lógica de

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Adelino Lyon de Castro, Ex-homens, (fotografia), 1950, colecção MNAC-MC

desapego relativamente ao conceito de autor no que diz respeito às imagens fotográficas que compõem essa primeira edição de Constantino. Por outro lado, o significado da associação entre texto e imagens fotográficas dessa primeira edição têm vindo a perder-se ou, pelo menos, a ficar esquecido, pois, curiosamente, não se percebe por que razão as edições seguintes abandonaram, até hoje, a ilustração fotográfica que acompanhou o texto de Redol na versão original promovida pela Portugália Editora, dando preferência, a partir da 2ª edição, ao desenho de ilustração infantil, transformando assim uma publicação que se assumira inicialmente enquanto narrativa de carácter juvenil. Porém, para lá das frágeis iniciativas de Alves Redol no que diz respeito à assunção autoral da sua prática fotográfica, devemos deter-nos, antes de mais, sobre as especificidades testemunhais, documentais e estéticas das fotografias reveladas pelo seu espólio e que, estamos em crer, foram por ele registadas nos diversos momentos desses projectos de pesquisa que acompanharam a sua expressão literária. Estamo-nos a referir às imagens que serviram várias fases e títulos, desde o “propósito etnográfico” de Glória até às

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Emília Tavares, op. cit., p. 54.

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Alves Redol, Aveiro – Moliceiros, (Provas de contacto, 8x5,5cm), anos 40

imagens de Constantino, passando por aquelas que não tiveram honras de edição literária e que dizem respeito às vindimas do Douro e ao transporte do Vinho do Porto nos barcos rabelos; dos registos humanos da cidade do Porto mais marginalizada aos jovens e mulheres trabalhadores das minas de carvão de São Pedro da Cova (Gondomar)29; dos valadores do Tejo30 ou dos avieiros aos barcos moliceiros da ria de Aveiro, para além dos diferentes grupos ligados às colheitas e outros trabalhos rurais associados às Lezírias. Em todos estes casos, a fotografia registada por vezes na referência inconsciente à Straight Photography (fotografia directa), terá sido utilizada, em primeira instância, como efeito de reconhecimento testemunhal, delineando os pontos cardeais de um espaço geográfico e de uma humanidade identificáveis, entre o naturalismo da imagem e o realismo social assim mesmo denunciado, soltando desse modo o significado e a caracterização dos grupos sociais, profissionais e étnicos que se cristalizaram no enquadramento fotográfico. Entre a vontade realista de projectar o tema social e a permanência de uma cultura visual de pendor naturalista, as fotografias de Alves Redol traduzem um efeito quase dialéctico, marcado por uma espécie de humanismo documental que nunca descola totalmente, porém, do paradigma naturalista que esteve na origem da invenção da

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fotografia. Aqui não há experiências de pendor modernista ou ângulos que enfatizem uma visão materialista do lugar do homem na sociedade industrial. Afinal, o cenário rural onde Redol se moveu maioritariamente favorecia sobretudo uma fotografia mais directa e documental, embora não bucólica, que estava longe das pretensões intervencionistas daqueles que observaram os trabalhadores industriais do movimento operário internacional31. A este propósito, tomando como análise as imagens de Adelino Lyon de Castro (considerado um dos fotógrafos aproximáveis ao espírito de leitura social neo-realista), Emília Tavares sublinhou a impossibilidade de assunção de uma estética fotográfica especificamente neo-realista por detectar sobretudo “o carácter superficial e pouco consistente” das ligações entre a fotografia e o movimento neo-realista nacional,

A observação do trabalho nas minas de carvão de São Pedro da Cova (Gondomar) resultou na produção de Seara Negra, argumento cinematográfico de Alves Redol para a Cineditora, que nunca chegou à fase de rodagem do filme. 30 Alves Redol não chegou a dedicar um título específico da sua ficção a este grupo profissional das margens do Tejo, utilizando todavia o material recolhido em diversas outras narrativas, especialmente em A Barca dos Sete Lemes (1958). 31 Sobre esta questão Cf. AAVV, The Worker Photography Movement [1926-1939], (org. Jorge Ribalta), Madrid, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2011. 29

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“valorizando antes a particular incidência [dessas imagens] na dualidade naturalismo/realismo, abrindo novos motivos de reflexão sobre as valências estéticas e ideológicas de cada um destes conceitos”32. Ressalta desta análise que mesmo as imagens de denúncia social produzidas no contexto da cultura oposicionista estão no essencial ligadas a uma visão naturalista do acto fotográfico, o que terá limitado o seu alcance político e social. Isto é, o lirismo e a lição estética impuseram-se quase sempre, apesar de tudo, aos fotógrafos que usaram a fotografia também como instrumento de observação da realidade social mais incómoda ao regime salazarista. Para além disso, com maior ou menor nível experimental, o formalismo identificado na maioria das fotografias de Lyon de Castro, Palla ou Cabrita, revelava igualmente o estatuto e a sobriedade de comunicação que deveria prevalecer no resultado final da imagem. Porém, Alexandre Pomar contraria a interpretação de Emília Tavares, identificando nas imagens de Lyon de Castro, no desejo e na expressão “humanista” desse realismo lírico atento às cenas de trabalho, um factor de clara identificação com a atmosfera neo-realista desse período: “[…] a obra de Adelino Lyon de Castro abria portas para revisitar o salonismo das décadas de 40/50 e interrogar a existência do que se poderia chamar a fotografia neo-realista portuguesa, que tem na sua obra e em As Mulheres do Meu País de Maria Lamas, em que colaborou, os exemplos principais”33. Na verdade, inclinamo-nos igualmente a considerar que algumas fotografias de Lyon de Castro, como nessa emblemática e muito reproduzida imagem de Ex-homens, poderão ser identificados com um certo espírito neo-realista. No entanto, essa prática fotográfica exigia quase sempre o cruzamento entre o valor formal naturalista e a dimensão social das imagens, no que estas podiam também significar ao nível de uma consciencialização política. O paradigma transversal às práticas neo-realistas assentava, com efeito, na defesa da eficácia comunicacional da obra de arte, na sua capacidade de despertar uma nova atenção acerca dos problemas sociais, na esperança aberta da sua transformação, e, nessa medida, o trabalho de Lyon de Castro ajudou uma parte significativa da oposição a encontrar as suas próprias imagens sociais e

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políticas, definindo um mapa de referências visuais que iconografava ao mesmo tempo o drama da pobreza observada em Portugal, bem como as dificuldades de sobrevivência de uma população excluída do exercício da cidadania. As características que marcam a fotografia portuguesa de meados do século XX podem inclusive ser melhor compreendidas se as comparamos com o exercício fotográfico observado nos nossos dias. Na realidade, entre a fotografia praticada nessa época e os efeitos atractivos da fotografia contemporânea verifica-se um distanciamento ao nível da mimesis, assim como do punctum34 (hoje mais instável ou até ausente de muitas imagens), ou do trabalho com a cor (antes apenas a preto e branco) e a escala das imagens (entre os formatos standard e as minúsculas provas de contacto dessa época por comparação com os grandes formatos hoje apresentados), podendo igualmente encontrar uma permanência inevitável, que diz respeito aos valores intrínsecos de qualquer fotografia, como o privilégio da indicialidade e o seu aparato simultaneamente inquestionável e fantasmagórico na relação com o real. Não esqueçamos, neste contexto, que a fotografia convive hoje, mais do que nunca, com uma cinemática sistémica que nos prende os sentidos e a disponibilidade. Diríamos mesmo que a imagem fotográfica, estática por natureza epistemológica, não apenas convive, lado a lado, com a torrencial proliferação das imagens em movimento (e que no tempo de Redol se resumia à manifestação cinematográfica ou ao seu embrionário derivado televisivo), sobretudo marcadas hoje pelo potencial interactivo das

Emília Tavares, “O Realismo e a sua Imagem”, in AAVV, Adelino Lyon de Castro. O Fardo das Imagens (1945-1953), Lisboa, Publicações Europa-América/Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, 2011, p. 16. Ainda sobre as especificidades de uma possível aproximação da fotografia de Lyon de Castro ao movimento neo-realista cf. Emília Tavares, “Hibridismo e superação: a fotografia e o Modernismo português”, in AAVV, Arte Portuguesa do século XX – 1910/1960, Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado/Leya, 2011, pp. CXXVII-CXXXVI [127-136]. 33 Cf. http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/neorealismo/. cf. ainda Alexandre Pomar, “O neo-realismo na fotografia portuguesa, 1945-1963”, in AAVV, Industrialização em Portugal no Século XX – o Caso do Barreiro, (Actas do Colóquio Internacional), (Coord. Miguel Figueira de Faria e José Amado Mendes), Lisboa, EDIUAL – Universidade Autónoma Editora, 2010, pp. 423-442. 34 Sobre este conceito cf. Roland Barthes, A Câmara Clara, (1980), (trad. port. Manuela Torres), Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 45-88. 32

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imagens digitais, como procura ainda o seu lugar próprio, a preservação ou sobrevivência da sua essência, isto é, a manutenção de uma estética da imagem fixa que mantenha o ser humano capaz de parar para contemplar o que não se move, isto é, apto ainda para se perder no jogo significacional da observação silenciosa. As imagens da nossa contemporaneidade resultam esquivas à estabilidade e ao deslumbramento dos primórdios da fotografia. Para além disso, o paradigma documental e naturalista, que desde meados de Oitocentos alimentou várias gerações de apaixonados pela fotografia, está hoje muito distante da prática vanguardista desta disciplina, condicionando-nos, em parte, a análise e a observação exigidas pelas fotografias de Alves Redol. Mesmo para um meio técnico e químico de reprodução do real como a fotografia, os rápidos desenvolvimentos proporcionados pela ciência da imagem tecnológica representaram uma espécie de transformação invisível, mas profunda, da percepção visual dos seres humanos, causando uma alteração significativa na nossa própria capacidade de perceber os modos de interpretação da fotografia do século passado. Apesar de distarem “apenas” cerca de setenta anos sobre a produção da maioria das imagens de Redol, as mudanças registadas nas últimas duas décadas em torno da produção fotográfica e do desgaste da sua omnipresença instantânea, já para não falar da instabilidade promovida pela sua intermitente projecção em ecrãs electrónicos, obrigam-nos a um esforço redobrado de “limpeza” imagética com vista a assegurar uma mais correcta observação dos significados e dos valores que estiveram na base da sua produção. A rápida transformação e a divulgação exponencial do registo fotográfico são, em parte, responsáveis pelo voraz esquecimento de muitos dos seus contributos passados, tornando-se perceptível, no entanto, a necessidade de reconsiderar o que do passado se conseguiu ainda assim preservar, de forma a compreendermos melhor as nossas origens e identidade. Nesta medida, a essência documental do exercício fotográfico redoliano, apesar das conquistas formais por vezes detectadas, implica hoje uma disponibilidade do olhar em

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parte semelhante à receptividade de Redol relativamente ao “outro” social e étnico. Isto é, devemo-nos deixar fascinar por essas imagens e pela sua genuína motivação de apontar sobretudo à memória, com base num registo menos formal e subjectivo, apesar da reconhecida interferência que o ser humano sempre exerce sobre o efeito mecânico da fotografia, como sublinhou Mário Dionísio logo em 195535. Ou seja, mesmo perante a voluntária abordagem da fotografia como um exercício objectivo de pendor realista resiste sempre, apesar de tudo, uma influente dimensão subjectiva, seja na opção das figuras a retratar, nos efeitos técnicos (luz, contra-luz, etc.), ou nos enquadramentos escolhidos e depois fixados pela objectiva. Em todos esses passos, há um sujeito criador que toma as opções em prol das imagens que ficam para a posteridade. A subtil utilização da fotografia por Alves Redol distancia-o assim do debate sobre a disciplina, que apaixonou o meio fotográfico português em meados do século XX em torno dos salões e das revistas especializadas promovidas pelos “clubes fotográficos”, tendo inclusive Mário Dionísio e Manuel Campos Lima36, para além de uma breve referência de António Ramos de Almeida37, apresentado nessa altura visões bem diferenciadas sobre a natureza epistemológica da fotografia na sua relação com a cultura neo-realista. Neste contexto, é preciso sublinhar a particular ligação de Redol à fotografia sua contemporânea, pois nunca a ela esteve verdadeiramente associado, a não ser no convívio com fotógrafos como Júlio e Sebastião Goes, Carlos Tomé, Artur Pastor e, anos mais tarde, Eduardo Gageiro. Afinal, a experiência fotográfica não possuía para si, enquanto projecto criativo, qualquer dimensão autoral concreta, e muito menos um valor específico de obra de arte, pelo menos até à publicação de Constantino, já em 1962. Mas mesmo nesse título, como já vimos, a autoria seria apenas em parte assumida pela primeira e última vez, como se a fotografia

Cf. Mário Dionísio, “Fotografia e Pintura”, Vértice – Revista de Cultura e Arte, Vol. 15, nº 127, Fevereiro de 1955, pp. 99-104. [informação colhida em Emília Tavares, op. cit., p. 16]. 36 Sobre esta questão cf. Emília Tavares, Ibidem. 37 Cf. António Ramos de Almeida, A Arte e a Vida, Porto, Livraria Latina, 1945, pp. 19-20. 35

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persistisse em possuir apenas um valor residual e não autónomo em relação ao processo literário. Todavia, se para Redol a questão da “arte fotográfica” jamais se colocara em termos reais, já para nós ela revela-se possível e até essencial, reveladora de outra faceta do escritor, pois os seus efeitos ganham hoje um protagonismo considerável, se ampliados à luz de outros significados. Este é, aliás, o “inconveniente” do rasto que os registos artísticos ou para-artísticos acabam por deixar a partir da sua materialidade específica. Por outro lado, a cultura fotográfica dos nossos dias é bem distinta do registo teórico da época em que Redol produziu as suas imagens. A própria legitimação e o estatuto artístico da disciplina estavam ainda muito longe dos efeitos actualmente produzidos pela fotografia contemporânea. Ao mesmo tempo, não esqueçamos que os estudos de fotografia assistem agora a uma expansão acentuada, que tende a ocupar-se de muitos aspectos anteriormente pouco considerados, como a “fotografia humanista” ou de puro registo “documental”38. Por isso, quase todos os ensaios fotográficos que sobrevivem ao tempo acabam, mais tarde ou mais cedo, por despertar o interesse e a análise dos especialistas, transformando-se muitas vezes, ao longo desse processo, de um modo radical, ao passarem de imagens que não possuíam originalmente valor artístico e autoral a expressões essenciais sobre a diversidade autoral hoje

interpretada. Muitas fotografias que nos devolvem um passado ao qual sobreviveram acabam assim por ganhar uma nova significação, atingindo por vezes um valor suplementar inesperado, ao ponto de redefinirem uma certa e inevitável expressão autoral, mesmo se percebemos tratar-se, por vezes, de um esforço de interpretação que contraria o seu objectivo primeiro. Só nesta medida fará sentido uma análise contemporânea sobre a relação de Alves Redol com a fotografia, não esquecendo nunca o valor sobretudo documental que esse exercício representou para o autor e o seu labor literário. Aliás, sobre os cuidados a ter com a caracterização estética das imagens de Redol podemos lembrar um processo em parte semelhante que conduziu nos anos 80 à canonização artística do fotógrafo francês do início do século XX, Eugène Atget. Apesar das diferenças evidentes identificadas entre os dois trabalhos, em virtude da atitude profissional que sustentava o trabalho de Atget, pois Redol fotografou, na maior parte dos casos, sem requerer grandes preocupações técnicas, há uma coincidente leitura documental do exercício da fotografia que tende, no entanto, em ambos os casos, a ser desvalorizada para suscitar uma incontornável expressão artística. Sobre esta questão, Sérgio Mah escreveu: “Na maior parte das vezes com fins comerciais, Atget fotografou pátios e becos vazios, montras e entradas de lojas, portas e escadarias, ruas e cruzamentos, fachadas degradadas e fragmentos arquitectónicos, procurando captar o que julgava ser o mais evocativo e que melhor servia os interesses da sua clientela. Os enquadramentos são diversificados, entre um olhar personalizado, muitas vezes assimétrico, e um olhar já consagrado pela fotografia topográfica e de arquitectura. Concentrado num registo preciso, documental, as imagens de Atget

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Alves Redol, Porto, (Provas de contacto, 8x5,5cm), inícios dos anos 40

Eugène Atget, Vagabundo – Paris, (Fotografia), 1899-1900, Colecção MoMA, Nova Iorque

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Sobre os estudos de fotografia que nas últimas décadas abordaram o tema da “fotografia humanista” e “documental” cf. Marie de Thézy, La Photographie Humaniste. 1930-1960. Histoire d’un Mouvement en France, Paris, Ed. Contrejour, 1993; cf. Marta Gili, Europa de Postguerra 1945-1965. Arte Despues del Diluvio, Barcelona, 1995; cf. Jorge Ribalta, Arquivo Universal. A condição do documento e a utopia fotográfica moderna, Lisboa, MACBA-Museu d’Art Contemporani de Barcelona e Museu Colecção Berardo, 2009; cf. AAVV, NeoRealismo. La Nueva Imagen en Italia (1932-1960), (Coord. Enrica Viganò), Madrid, La Fabrica Editorial, 2007; ou mais recentemente cf. o já aqui citado AAVV, The Worker Photography Movement [1926-1939], (org. Jorge Ribalta), Madrid, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2011.

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Alves Redol, anos 40

dispensam os investimentos estéticos tão presentes na arte fotográfica da altura – «são apenas documentos»”39. Poucos anos depois, já as fotografias de Atget despertavam novas leituras, reinterpretadas pelos surrealistas como expressão de um inconsciente que abria novas pistas sobre o processo de significação dessas imagens de uma Paris surpreendentemente inóspita e humilde. “Após o interesse dos surrealistas, os documentos de Atget passam a ser entendidos como um comentário desumanizado dos elementos e da atmosfera da cidade. Possivelmente através dos surrealistas, Walter Benjamin descobre o inconsciente óptico no esvaziamento fotográfico de Atget”40, e desse modo, apura dessas imagens “uma ideia de fotografia emancipatória e democrática, de um modo desmistificador dos quadros culturais e políticos”41. Embora sem essa intenção, repare-se como alguns destes argumentos de leitura podem ser facilmente adaptados aos resultados fotográficos de Alves Redol. O processo de significação assume assim, em qualquer dos casos, uma autonomia que transforma necessariamente os valores do trabalho fotográfico, instabilizando o seu sentido ao criar uma teia interpretativa que segue, de resultado em resultado, uma espécie de nova mitificação, distanciando-se já dos propósitos originais. O problema é que todo esse processo pode conduzir a alguns equívocos graves que, no

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entanto, permanecem durante muito tempo como “verdades” actualizadas. “Mitificado por quase todos os quadrantes artísticos, Atget tornou-se, contudo, uma personagem ambígua. Na medida em que os artistas são encarados como avatares do individualismo, cujas subjectividades soberanas transcendem os factos concretos da vivência humana, o mito de Atget tende a ser, contraditoriamente, alimentado pelo acentuar de uma expressão autoral onde se descobrem a originalidade, a composição, o formalismo, o phatos artístico”42. Se esta perspectiva obsessiva praticada pela crítica e pela historiografia modernas tendeu quase sempre a transformar as práticas das disciplinas visuais em manifestações obrigatoriamente artísticas, e mesmo reconhecendo que no campo da expressão literária de Redol essa magnitude autoral será adequada, teremos de ter algumas reservas quanto à sua adaptação ao campo da prática fotográfica do escritor. Na verdade, essa assunção, pelo menos no seu modo definitivo, é mesmo desnecessária e até perigosa, pois a fotografia significou para Redol um exercício de ligação entre a memória visual do seu estudo e o registo da expressão de humanismo que dele ressalta de um modo quase inevitável. Continuando a leitura comparada da fotografia redoliana com as interpretações em torno do trabalho de Atget, fixemos ainda as palavras de Sérgio Mah: “[…] se existe alguma arte nas imagens de Atget, elas relevam menos da autoridade autoral do que de uma autoridade da própria fotografia”43. Ora, esta análise aplica-se na perfeição ao valor das imagens do próprio Redol, pois o seu eventual formalismo resulta sobretudo das especificidades do meio. De outra forma, dispensando o esforço artístico da imagem, Redol procurava uma genuína alteridade, identificada na fotografia como eficaz atenção ao “outro”, assumindo-se ela própria como disciplina de testemunho, ou “outro” modo de acesso ao real, mais directo e tendencialmente afastado do subjectivismo artístico: “Por princípio,

Sérgio Mah, A Fotografia e o Privilégio de um Olhar Moderno, Lisboa, Edições Colibri/FCSH-UNL, 2003, p. 69. 40 Ibidem. 41 Ibidem. 42 Ibidem, p. 70. 43 Ibidem, p. 71. 39

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fora da arte e ditadora de uma exclusiva forma de ver, sentir, conhecer e saber o mundo, a fotografia enquanto operação reflexiva é um apelo de outro. Se a natureza do fotógrafo se liga à do operador é porque a fotografia é uma experiência de outro: viver, mortificar o outro; reproduzir, descobrir o outro; travar, temporizar o outro; captar, acompanhar o outro; acumular, problematizar o outro”44. É nesta dimensão despida de pretensões artísticas que devemos olhar a simplicidade das imagens de Redol, nelas reconhecendo todavia um valor fundamental de testemunho e descoberta do “outro”. Aqui situados, podemos finalmente entender o valor e o alcance concreto dessa relação, evitando falsas especulações, mas encarando ao mesmo tempo com liberdade e rigor analítico as hipóteses nela sinalizadas, de forma a melhor compreender os processos de trabalho e a originalidade do contributo de Redol à cultura portuguesa de então, tanto na sua vertente literária, como ao nível de uma imagética fotográfica que hoje podemos e devemos revelar sem rodeios, confirmando desse modo a pluralidade da sua acção, ou o perfil e a sensibilidade de uma figura incontornável na compreensão do Portugal de Novecentos, cujo legado marca ainda muitos dos nossos gestos, sentimentos e reflexões. De outra forma, uma enigmática fotografia, tirada junto ao rio Tejo (talvez no cais de Vila Franca), onde se projecta inadvertidamente a sombra do próprio Alves Redol, poderá ser interpretada ainda como metáfora sobre a sua relação com a fotografia. Figura esquiva ao exercício comum dos profissionais da disciplina, Redol tornou-se ao longo dos anos uma personagem que com ela manteve uma relação duradoura mas peculiar, marcada por esse jogo de sombras entre o poder atractivo da literatura e a tímida consideração da fotografia45. Apesar disso, contudo, a prática da fotografia esteve sempre presente, ainda que de modo paralelo, no seu universo criativo, relacionando-se por vezes, como em Glória e Constantino, de uma forma mais directa e influente. Todas essas imagens, agora divulgadas pela primeira vez de um modo quase integral, transportam-nos a um tempo e a uma geografia específicos, recordando grupos sociais e profissionais hoje quase tão esquecidos quanto desconhecidos no tempo em que Redol os captou,

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pela primeira vez, através da sua “máquina-de-tirar-retratos”, convertendo-os desde logo, com o êxito da sua obra literária, em ícones de um Portugal profundo que o regime de Salazar procurara ocultar ou, pelo menos, domesticar em absoluto. No fundo, a obra de Alves Redol exerceu um fascínio quase imediato junto do público leitor dos anos 40 por nela se reconhecer esse trabalho inestimável de desocultação social, revelação linguística e de costumes, marcado pelo ritmo narrativo do seu impulso etnográfico. Tal como nos lembra Mário Dionísio, logo em 1942, a propósito dos primeiros títulos do autor vila-franquense, “[…] ele foi o introdutor, na nossa literatura, daqueles homens e daqueles problemas que os literatos seus antecessores não tinham visto ou não tinham sabido ver ou não tinham simplesmente querido ver”46. Essa revelação filtrada pela criatividade redoliana teve na fotografia um aliado fundamental, sem contudo alcançar um verdadeiro estatuto ou autonomia enquanto objecto de arte. A fotografia auxiliou, no essencial, um processo de aproximação e conhecimento de grupos sociais que pela primeira vez obtiveram não apenas mais visibilidade como ainda uma visualidade concreta, enquanto testemunho da sua existência. O agudo sentido de observação social que o autor nos legou teve na sociedade portuguesa, com efeito, um impacto e um reflexo extraordinários. Se esse triunfo nunca lhe terá sido verdadeiramente negado – como provam as palavras de Dionísio – tem permanecido demasiado no âmbito de um esquecimento que urge ultrapassar, como dever de memória, em prol de uma leitura crítica desse passado comum e da compreensão da nossa própria contemporaneidade. Ibidem. Nos anos 60, Alves Redol altera curiosamente a sua relação com a fotografia, inspirando algumas das personagens das suas narrativas, como em O Muro Branco ou em O Senhor SARL (romance que nunca passou da fase de projecto), com base em fotografias publicadas na imprensa portuguesa e internacional da época, como o Século Ilustrado, L’Express, Le Monde, Paris-Match, O Cruzeiro (Brasil), entre outros. A fotografia de grande plano sobre figuras entrevistadas pela imprensa serviu nessa altura de leitmotiv ao desenvolvimento das personagens. Isto é, Redol deixa de realizar fotografia e apontamentos documentais a partir de um “trabalho de campo” directo, para passar a assumir nas imagens tornadas públicas pelos órgãos de comunicação social a observação e caracterização social necessária ao seu trabalho literário. Registe-se, porém, que a fotografia continuará a exercer, embora de modo diferente dos anos 40 e 50, uma influência concreta no modo como estrutura a narrativa dos seus livros. 46 Mário Dionísio, “Ficha 5”, in Seara Nova, 11 de Abril de 1942, p. 131. 44 45

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catalogação

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1 [Francisco Redol, tio-avô de Alves Redol, a cavalo, campino, natural da Golegã]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 2 [Joaquim Venâncio Alves, filho do “avô Venâncio”, ambos ferradores]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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7 [Alves Redol com 14 anos, com o avô João Redol, a quem é dedicado Gaibéus, e o pai, António Redol da Cruz]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

3 [Avó Ana da Guia, avieira]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 4 [Os pais no dia do casamento, em 1911]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 5 [Alves Redol com sete meses] [Registo visual]. – [191-]. – 1 fot. : sépia. – 9,2 x 5,5cm (10,6 x 6,5cm). Col. António Mota Redol 6 [Alves Redol com 2 anos]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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8 [Alves Redol com a irmã Inocência]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

10 [Alves Redol a ler] [Registo visual]. – [1924?]. – 1 fot. : p&b. – 8,7 x 13,7cm. Col. António Mota Redol

9 [No Colégio Arriaga, em 1925]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

11 [“Homenageando”, Alves Redol, Vida Ribatejana, a. 11, n.º 253 (10 Jul. 1927)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 12 [Diploma do Colégio Arriaga: Instituto Primário e Secundário] [Material gráfico] / Colégio Arriaga. – Lisboa : C. A., 16 Jul. 1927. – 1 diploma : 1 f. em papel cartonado ; 32,5 x 44,3cm. Alves Redol obteve no exame do quarto ano do Curso Comercial a classificação de Bom - 15 valores. Col. António Mota Redol

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13 [Casa do pai, na rua principal de Vila Franca de Xira, com torrefacção de café, mercearia, loja de fazendas e padaria, em 1923 (edificada em 1921)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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14 [Barco Niassa, a bordo do qual Alves Redol viaja para Luanda, em 1928]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 15 [No escritório da firma Bernardino Correia & Cª, em 1929]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

19 [“De longe…”, Alves Redol, Vida Ribatejana, (16 Set. 1928 - 27 Jul. 1930)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Algumas colaborações em Vida Ribatejana, “De Longe…”: “…Madeira”, “…Confissão”, “… Emissários”, “…Farrapos”, “…História”, “…Lisete”, “…A Carolina”, “…Prelúdio”, “…Ressurgimento”, “…S. Tomé”. Origs. cedidos por António Mota Redol

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16 [Na praia de Luanda]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 17 [Com uma criança angolana]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 18 [Ao serviço da firma de Luanda]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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cat. 17

20 [Equipa de basquetebol do Sporting de Luanda]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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21 [Equipa de futebol em Luanda] [Registo visual]. – [28 Jul. 1928]. – 1 fot. : sépia. – 12,6 x 17,7cm Col. António Mota Redol

cat. 22

22 [Alves Redol com Luís Kol, 10 Nov. 1928]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 23 [Fotografia enviada de Luanda para os “colegas de ramboia”, 1929]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 24 [Alves Redol em Luanda]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 25 [Alves Redol, recém-chegado de África, muito doente, pois ali contraiu o paludismo, o que o afectou para o resto da vida, 1931]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol

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26 [“Um Drama na Selva, novela inédita por Alves Redol”, O Notícias Ilustrado, s. 2, n.º 208 (5 Jun. 1932), p. 6]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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27 [Várias novelas, Alves Redol, O Notícias Ilustrado, (3 Jul. 1932 - 28 Jan. 1934)]. – Reprod. ampl. : cores Colaboração em publicação de âmbito nacional, O Notícias Ilustrado, sem cariz neo-realista: “Entre pinheirais”, “Gente rude”, “O modelo”, “O último voo”, “Zé Valente”, “Borda de água”. Origs. cedidos por António Mota Redol

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28 [Alves Redol]. – [193-]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 29 [“Colaboração em Mensageiro do Ribatejo”, Alves Redol, Mensageiro do Ribatejo, (30 Jun. 1932 10 Set. 1939)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Algumas colaborações em Mensageiro do Ribatejo: “A corneta de barro”, “Prólogo”, “Um aviso – Uma lição - Um músico”, “País de trovadores”, “Eça de Queirós”, “Depoimento em prol dos pescadores”. Origs. cedidos por António Mota Redol

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30 [Cartaz da revista Ida e Volta…, “Largo da estação” por Alves Redol]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Em Espelho de ver por dentro: o percurso teatral de Alves Redol, por Miguel Falcão, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009, p. 165. MNR 31 [“Terra de pretos – Ambição de brancos”, Alves Redol, Mensageiro do Ribatejo, (3 Mar. 1934)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Palestra proferida no Grémio Artístico Vilafranquense, em 28 Fev. 1934. Orig. cedido por António Mota Redol 32 [Visita ao Museu Nacional de Arte Contemporânea] [Registo visual]. – [1937]. – 1 fot. : sépia. – 17,7 x 23,9cm Col. António Mota Redol

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33 [Visita ao Museu de Arte Antiga, na entrada, em 1937]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 34 [Visita ao Museu de Arte Antiga, em 1937]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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35 [Grupo de esperanto em Água Férrea, em Vila Franca de Xira, 1935?]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 36 [Folheto de divulgação do I Serão de Arte, organizado pela Secção Cultural do Sport Lisboa e Vila Franca, ant. 1940]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Palestra de Alves Redol intitulada “Música da Borda d’ Água”, com a colaboração de Carlos Tomé e Sebastião Góis [sic]. Orig. cedido por António Mota Redol

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37 [Alves Redol, anos 30?]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

38 [“Kangondo: novela por Alves Redol”, O Diabo, a. 3, n.º 127 (29 Nov. 1936), p. 2]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR PP/92 39 [Alves Redol, em 1936]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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40 [Artigos, crónicas, contos, Alves Redol, O Diabo, (13 Dez. 1936 – 9 Nov. 1940)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Algumas colaborações em O Diabo: “De Sol a Sol”; “O trabalho no Cancioneiro do Ribatejo”; “Lua de pé”; “Crónica”; “Rafeiros”; “Campinos”; “As Lezírias”. Origs. cedidos por António Mota Redol 41 Arte [Manuscrito] / Alves Redol. – [V. F. Xira : Alves Redol, 1936]. – Orig. dact. ; 18 x 15,6cm Palestra proferida no I Serão de Arte, organizado pelo Grémio Artístico Vilafranquense, na noite de 17 Jun. 1936. MNR ESPLIT-AR

42 [Entrevista de Alves Redol a Igrejas Caeiro] [Registo sonoro] / real. Igrejas Caeiro. – França : Sassetti e Cia. : Guilda da Música, 28 Jan. 1958. – 1 CD (ca. 53’). – (Entrevista 1). Entrevista transmitida pelo Rádio Clube Português na rubrica “Perfil de um artista”, em 28 Jan. 1958. Capa de Soares Rocha. MNR ALV/CAE/28/LP 43 Glória: uma aldeia do Ribatejo / Alves Redol. – [1ª ed.]. – [Lisboa] : Alves Redol, 1938. – 214, [5] p. : il. ; 20cm. Ilustrações de Júlio Goes. Col. António Mota Redol

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44 [Gloriana]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

47 [Glorianas num campo do Ribatejo]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol

45 [Peça etnográfica da aldeia de Glória]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR ESPLIT-AR

48 [Procissão na aldeia Glória do Ribatejo]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol

46 [“Glória, uma aldeia do Ribatejo. Ensaio etnográfico por Alves Redol”, Rodrigues Lapa, Seara Nova, n.º 587 (12 Nov. 1938), p. 104-105]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Col. António Mota Redol

49 [Perspectiva de uma rua da aldeia Glória do Ribatejo]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol

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50 [Gaibéus] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1939?]. – 83 f. ; 23,4cm Orig. ms. MNR LEG/GOE/01

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51 Gaibéus: romance / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : [Ed. do Autor], 1939. – 275 p. ; 19 cm. Dedicado ao avô Venâncio e ao avô João Redol. MNR RED/ROM/2274 52 [“Gaibéus, romance por Alves Redol”, Manuel Campos Lima, O Diabo, 13 Jan. 1940]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Col. António Mota Redol 53 [“Gaibéus: romance de Alves Redol”, por Joaquim Namorado, Sol Nascente, 15 Jan. 1940]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Col. António Mota Redol 54 [Gravura de Cipriano Dourado, “Plantadoras de arroz”]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR F 55 [Trabalhos num arrozal do Ribatejo (Lezíria de Vila Franca de Xira), por Cipriano Dourado [?]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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56 Gaibéus / Alves Redol. – Ed. Popular. – Lisboa : Editorial Inquérito, [1947?]. – 163, [4] p. ; 24,5cm Col. António Mota Redol 57 [Gaibeús, 3ª ed. de bolso, Publicações EuropaAmérica, imp. 1974, (Livros de Bolso EuropaAmérica; 11)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/4621

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58 [Gaibeús, 6ª ed. refundida, Publicações EuropaAmérica, imp. 1965]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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59 [Gaibéus, 15ª ed., Publicações Europa-América, imp. 1979, (Obras Completas de Alves Redol; 17)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/680 60 [Gaibéus, 20ª ed., Editorial Caminho, 2005, (Alves Redol. Obras Completas)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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61 [Nasci com passaporte de turista: contos, 1ª ed., [Ed. do Autor], 1940]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/CON/2277 62 Marés : romance / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : Livraria Portugália, 1941. – 226 p. ; 19cm. Capa de Manuel Ribeiro de Pavia. MNR RED/ROM/2279

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63 Avieiros / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : Livraria Portugália, 1942. – 395 p. ; 19cm Capa de Manuel Ribeiro de Pavia MNR RED/ROM/2276

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64 Avieiros / Alves Redol. – 5ª ed. – Mem Martins : Publicações Europa-América, 1968. – 326, [4] p.; 21 cm Nova versão com prefácio do autor. Col. António Mota Redol 65 [Alves Redol com o compadre avieiro, Manuel Guerra, anos 50]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 66 [Barco avieiro]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 67 [Aldeia avieira de Palhota, nos anos 40]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Alves Redol esteve várias vezes nesta aldeia. Orig. cedido por António Mota Redol 68 [“Ficha 5”, Mário Dionísio, Seara Nova, n.º 765 (11 Abr. 1942), p. 131,133]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR PP/2

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71 Fanga / Alves Redol. – [1ª ed.] – Lisboa : Portugália Editora, 1943. – 397 p. ; 20cm Capa de Fred Kradolfer. Fanga foi queimado na praça pública, na Golegã, pelos grandes lavradores. MNR RED/ROM/2280 72 [Fanga, 3ª ed., [s. n.], 1948]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 73 [Fanga, 4ª ed. [5ª ed.], Publicações EuropaAmérica, imp. 1958, (Colecção Os Livros das Três Abelhas; 15)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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69 [Caricatura de Alves Redol com a Fanga debaixo do braço] [Registo visual] / Sant’ Ana. – [S. d.]. – 1 desenho : lápis de cor s/ papel ; 37,2 x 20,7cm Col. António Mota Redol 70 [Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia para Fanga]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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74 [Fanga, 6ª ed. rev. pelo autor, Livraria Portugália, 1963, (Colecção Contemporânea; 44)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/7199 75 [Fanga, 8ª ed., Publicações Europa-América, 1972, (Obras Completas de Alves Redol; 1)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/2050 76 [Fanga, 11ª ed., Ed. Caminho,1996]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/6421

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77 [“Os romances de Alves Redol”, João Gaspar Simões, Diário de Lisboa, 10 Jun. 1943]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 78 [Alves Redol no “Passeio no Tejo”, de 1942[?]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Alves Redol acompanhado por Aniceto Monteiro, Lopes-Graça, Correia Guedes, Ferreira Marques, Bento Caraça, António Vitorino (Tóninho do Cais) [?], Jerónimo Tarrinca, Hugo Baptista Ribeiro, Manuel da Fonseca, Carlos Alberto Lança, F. Piteira Santos, Cândida Ventura, Inácio Fiadeiro, Augusto Sá da Costa, Cândida Gaspar [?], Sidónio Muralha, Soeiro Pereira Gomes, Maria Redol (Virgínia), Alfredo Pereira Gomes, Antero Serrão de Moura. Orig. cedido por António Mota Redol

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79 [Apontamentos da prisão do Aljube] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1944]. – 1 bloco : papel pautado ; 21 x 15,8cm Orig. ms. Na capa do bloco está escrito “António Alves Redol, Sala – 4 – 1º andar”. Col. António Mota Redol 80 [Página com apontamentos da prisão do Aljube] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1944]. – 1 bloco : papel pautado ; 21 x 15,8cm Orig. ms. Na capa do bloco está escrito “António Alves Redol, Sala – 4 – 1º andar”. Col. António Mota Redol

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81 [Conferência em Almada, em 1944]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

82 [Carta dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD aos seus congéneres democráticos]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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cat. 83

83 Não podemos enjeitar milhares de portugueses para a crítica do que se planifica ou realiza Afirmou o escritor Alves Redol à “República” In: República. – Lisboa. – (27 Out. 1957) A entrevista de Alves Redol ao jornal República, viria a gerar polémica com o Ministério da Economia. Col. António Mota Redol

86 [Anúncio, 1ª ed., Ed. Inquérito, [1945]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Capa de Manuel Ribeiro de Pavia MNR RED/NOV/2278 87 [Barco rabelo puxado à sirga]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

84 [“Esclarecimento do Ministério da Economia às afirmações menos correctas do escritor Alves Redol”, Diário da Manhã, (31 Out. 1957)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 85 [“A carta do escritor Alves Redol”, Diário Popular, a. 16, n.º 5412 (31 Out. 1957), p. 1, 10, 16.]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Publicação de “Uma carta de Alves Redol de resposta à nota do Ministério da Economia”, que havia sido publicada no mesmo jornal, em 31 Out. 1957. Col. António Mota Redol cat. 86

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cat. 91

88 [Redol com um dos grupos de barqueiros com os quais subiu o Douro, 1945[?]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 89 [“Alves Redol fez-se barqueiro para sentir melhor a vida dos Durienses”, Vida Mundial Ilustrada, n.º 119 (8 Mar. 1945)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 90 Porto Manso / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : Ed. Inquérito, [1946]. – 407, [4] p. ; 19cm MNR RED/ROM/6412 91 [Folheto de divulgação da conferência Le roman du tage, Alves Redol, 1946]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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92 [Le roman du tage, Paris, Union Française Universitaire, [1946]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Prefácio de André Parreaux. Col. António Mota Redol 93 [A França: da resistência à renascença, fasc. 1, Ed. Inquérito, [1948?]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores RED/ENS/1736 94 [Verso popular manuscrito por Alves Redol] [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. l., anos 40]. – 1 f. : papel ; 21,7cm Orig. cedido por António Mota Redol 95 Cancioneiro do Ribatejo / compil. Alves Redol. – 1ª ed. – [Lisboa] : Centro Bibliográfico, 1950. – 200 p. ; 22cm MNR BIBPAR-CAB/070 131


96 [Alves Redol com Jorge Reis (Atilano dos Reis Ambrósio), em Paris, onde este vivia refugiado desde 1949]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 97 [Programa do Teatro Estúdio do Salitre, imp. 29 Mar. 1946]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Representação da peça em um acto Maria Emília, de Alves Redol. Col. António Mota Redol 98 [Representação de Maria Emília, pelo Teatro de Ensaio da Lever, em 1966]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 99 [Peça sem título original, Douro [?]] [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 9 p. ; 21,5cm Orig. ms. Peça de teatro inacabada ou incompleta. Col. António Mota Redol

cat. 99

100 [Peça de teatro O triângulo quebrado: peça em 3 actos]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 101 Forja : tragédia / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : [s. n.], 1948. – 210, [1] p. ; 20cm MNR RED/TEA/604 cat. 101

102 [Manuscrito de uma versão de Forja, por Alves Redol]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Col. António Mota Redol 103 [“Forja”, República, (15 Dez. 1948)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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104 Forja : no Teatro Laura Alves Vasco Morgado apresenta uma peça de Alves Redol [Material gráfico]. – [S. l. : s. n.], 1969. – 1 folheto desdobr. : 29,5 x 44cm Direcção e encenação de Jorge Listopad, cenários e figurinos de João Vieira, arranjos musicais de Francisco d’Orey. Actores Carmen Dolores, Jacinto Ramos, e outros. MNR G1/71 105 [Cena da representação de Forja no Teatro Laura Alves, em1969]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Na imagem, os actores Cármen Dolores e Jacinto Ramos. Orig. cedido pelo Museu Nacional do Teatro

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106 [Teatro II: O destino morreu de repente, 1ª ed., Publicações Europa-América, [1967]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/TEA/1883 107 [Cena da representação de O destino morreu de repente pela Comuna – Teatro de Pesquisa, em 1988]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por Comuna – Teatro de Pesquisa 108 [Teatro III: Fronteira fechada, 1ª ed., Publicações Europa-América, 1972]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/TEA/0672

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109 [Cartaz do filme Bola ao centro, realizado por João Moreira, em 1947]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Filme com realização e argumento de João Moreira, diálogos de Alves Redol, prod. Tóbis Portuguesa/ Lisboa Filme, actores Raul de Carvalho, Maria Domingas, Eunice Colbert, Maria Emília Vilas, Barroso Lopes. Estreou em Set. 1947. 110 [Rodagem do filme Bola ao centro] [Registo visual]. – [1947?]. – 1 fot. : sépia. – 18 x 24,2cm. Col. António Mota Redol 111 [Durante as filmagens do filme Nazaré, vendose, além de Alves Redol, o realizador, Manuel Guimarães e as actrizes Helga Liné e Maria Olguim, no início dos anos 50]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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112 [Equipa do filme Nazaré no último dia de filmagens] [Registo visual]. – [1950?]. – 1 fot. : sépia. – 16,2 x 22,6cm. Col. António Mota Redol 113 [Rodagem do filme Vidas sem rumo, 1952] [Registo visual]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia José Lobo foi o fotógrafo de Vidas sem rumo. 114 [Seara Negra, argumento de Alves Redol para Cineditora] [Manuscrito] / Alves Redol. – 16 p. ; 27,6cm Orig. dact. Col. António Mota Redol cat. 114

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115 [Alves Redol no Douro, em 1943?]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 116 [Ilustração de Júlio Pomar para Horizonte cerrado]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 117 Horizonte cerrado : Ciclo Port-Wine 1 / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : [Ed. do Autor], 1949. – 411, [2] p. ; 19cm Capa e ilustrações de Júlio Pomar. MNR RED/ROM/6481 118 Os Homens e as sombras : segundo romance do Ciclo Port-Wine / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : [Ed. do Autor, 1951]. – 356, [3] p. ; 19,3cm Col. António Mota Redol

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119 Vindima de sangue : Ciclo Port-Wine III / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : [Ed. do Autor, 1953]. – 386, [2] p. ; 20cm Capa de Lima de Freitas. Col. António Mota Redol 120 [Vindimas no Douro, nos anos 40]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 121 Ciclo Port-Wine II, Terra mártir [Manuscrito] / Alves Redol. – [ant. 1950]. – Orig. dact. ; 27cm Orig. dact. com emendas do romance Os homens e as sombras, ainda com o título Terra mártir, com o carimbo da Censura, de 3 Jan. 1950: “Autorizado com cortes”. No interior cortes com o lápis azul. MNR ESPLIT-AR/ Cx. 5/ N.º 22

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122 [“Horizonte cerrado, de Alves Redol”, Artur Portela, Ler, (Abr./ Jun. 1949)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 123 [“Ficção: Os homens e as sombras, por Alves Redol”, Mário Dionísio, Vértice, vol. 2, n.º 97 (Set. 1951), p. 501]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 124 [“Alves Redol - Vindima de Sangue”, Óscar Lopes, O Comércio do Porto, (23 Jun. 1953)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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125 [Egas Moniz, em representação da Academia das Ciências, entrega a Alves Redol, em 25 Jan. 1951, o Prémio Ricardo Malheiros, atribuído a Horizonte Cerrado]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – 1 fot. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 126 [Desenho de Antero Ferreira] [Registo visual] / Antero Ferreira. – 1940. – 1 desenho : tinta da china s/ papel pardo ; 33,2 x 25,5cm Antero Ferreira escreveu “Era uma gaibéua de olho azul…”. Col. António Mota Redol

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127 [Alegoria de Manuel Ribeiro de Pavia para Avieiros] [Registo visual]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Em Gaibéus; Marés; Avieiros, Ed. Inquérito, [1945?], p. [357], (Os Romances de Alves Redol). MNR RED/ROM/4619

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128 [Figura feminina duriense de Júlio Pomar] [Registo visual] / Júlio Pomar. – 1949. – 1 desenho : tinta da china s/ papel ; 33 x 25cm Col. António Mota Redol 129 [A barca dos sete lemes, 3ª ed. [rev.], Publicações Europa-América,1962]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 130 [O cavalo espantado, 2ª ed., Publicações EuropaAmérica,1967]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 131 [Recorte de revista com imagem que inspirou a personagem Jadwiga do romance O cavalo espantado]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR ESPLIT-AR/ Cx. 4/ N.º 17 132 [Ilustração de Jorge Pinheiro para o romance Barranco de cegos]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Em Barranco de cegos, Ed. Avante, 1982, p. 69. Orig. cedido por António Mota Redol

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133 [O muro branco, 3ª ed., Publicações EuropaAmérica, 1976, (Obras Completas de Alves Redol; 13)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/0683 134 [Fotografia de manifestação de trabalhadores no período da República, na rua D. Pedro V]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 135 [Esboço para o cenário dos 1º e 3º actos da Forja no Teatro de Ensaio do Búzi]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Em Teatro I – Forja e Maria Emília, 1ª ed., Publicações Europa-América, 1966, p. [43]. MNR RED/TEA/7217

136 [Alves Redol escrevendo á máquina, nos anos 50]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 137 [Carta de Anna Jancdova [?] a Alves Redol, Bulgária, 2 Mai. 1956]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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138 [Casa de Alves Redol no Freixial, anos 70] . – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 139 Olhos de água / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : Centro Bibliográfico, [1954]. – 342, [2] p. : il. ; 20cm Ilustrações de Lima de Freitas. MNR RED/ROM/4620

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140 [“Olhos de Água – por Alves Redol”, Diário Popular, (2 Mar. 1955)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 141 [Pintura a óleo s/ tela de Alves Redol, por Lima de Freitas] [Registo visual] / Lima de Freitas. – 1952. – 1 pintura : óleo s/ tela ; 64 x 51cm Col. António Mota Redol 142 [Ilustração de Lima de Freitas para Olhos de água] [Registo visual] / Lima de Freitas. – 1954. – 1 desenho : tinta da china s/ papel ; 14,1 x 9,7cm Col. António Mota Redol

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143 [Ilustração de Lima de Freitas para Olhos de água] [Registo visual] / Lima de Freitas. – 1954. – 1 desenho : tinta da china s/ papel ; 10,5 x 16cm Col. António Mota Redol 144 [Ilustração de Lima de Freitas para Olhos de água] [Registo visual] / Lima de Freitas. – 1954. – 1 desenho : tinta da china s/ papel ; 14,2 x 9,5cm Col. António Mota Redol

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145 [Ilustração de Lima de Freitas para Olhos de água] [Registo visual] / Lima de Freitas. – 1954. – 1 desenho : tinta da china s/ papel ; 15,2 x 10,5cm (20 x 14,5cm) Col. António Mota Redol

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146 [Guerra Civil de Espanha]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 147 [A barca dos sete lemes, 1ª ed., Publicações Europa-América, 1958, (Século 20; 14)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/2087 148 [“Uma nova fase literária na obra de Alves Redol”, Diário de Lisboa, (31 Jan. 1958)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 149 [“O último romance de Alves Redol”, por Álvaro Salema, Diário Ilustrado, (25 Fev. 1958)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 150 [“A barca dos sete lemes – romance por Alves Redol”, João Pedro de Andrade, Diário Popular, (5 Jun. 1958), p. centrais, 9]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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151 [Alves Redol com o arrais José Formiga Peixe]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia No barco de José Formiga Peixe, Alves Redol viveu o quase-naufrágio descrito em Uma fenda na muralha. Orig. cedido por António Mota Redol 152 Uma fenda na muralha / Alves Redol. – [1ª ed.] – Lisboa : Livraria Portugália, [1959]. – 307, [6] p. ; 20cm. – (Contemporânea ; 9) MNR RED/ROM/606 153 [Cena de pesca na Nazaré]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 154 [Apontamento manuscrito de Alves Redol sobre a Nazaré]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. ms. MNR ESPLIT-AR/ Cx. 13/ N.º 80-81 cat. 151

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155 O cavalo espantado / João Gaspar Simões In: Diário de Notícias. – Lisboa. – (24 Ago. 1961), p. 7-8 Col. António Mota Redol 156 [Lançamento do romance O cavalo espantado, na Livraria Portugal, 10 Dez. 1960] [Registo visual]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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157 O cavalo espantado / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : Portugália Editora, [1960]. – 323, [2] p. ; 20cm. – (Contemporânea ; 17). Capa de João da Câmara Leme. MNR RED/ROM/602 158 [Refugiados judeus em Portugal]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b MNR F 159 [Primeiro campo de concentração nazi]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol

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160 Romanceiro geral do povo português / org., pref. e anot. Alves Redol ; música coment. e pref. por Fernando Lopes Graça ; ilustr. e graf. de Maria Keil. – Lisboa : Iniciativas Editoriais, [1959]. – 14 fasc. (658 p.) : il. ; 25 cm. - (Tesoiros da Nossa Literatura). MNR LIT/4676 161 [Barranco de cegos, [1ª ed.], Portugália Editora, imp. 1961]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Capa de João da Câmara Leme MNR RED/ROM/5504 162 [Lançamento do romance Barranco de cegos, 28 Dez. 1961]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

166 Barranco de cegos : romance / Alves Redol. – [1ª ed.]. – Lisboa : Portugália Editora (imp. 1961). – 401, [6] p. ; 20cm. – (Contemporânea ; 29). Capa de João da Câmara Leme MNR RED/ROM/5504 167 [Manuscrito de Barranco de cegos] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1961]. – 366 f. ; 27cm Dact. com emendas. MNR ESPLIT-AR/ Cx. 5/ N.º 19 cat. 167

163 Um notável romance de Alves Redol : Barranco de cegos / João José Cochofel In: Gazeta Musical e de Todas as Artes. – Lisboa. – S. 2, a. 12, n.º 136 (Jul. 1962), p. rosto, 86. MNR PP/ 5 164 [“O fruto sazonado”, Diário de Lisboa, 26 Abr. 1962]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 165 [Cena na Lezíria]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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168 [Barranco de cegos, 3ª ed., Publicações EuropaAmérica, 1970]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/7237 169 [Barranco de cegos, 6ª ed., Publicações EuropaAmérica, 1980, (Obras Completas de Alves Redol)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Col. António Mota Redol 170 [Barranco de cegos, [7ª ed.], Edições Avante, 1982]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Ilustrações de Jorge Pinheiro. Orig. cedido por António Mota Redol 171 [Barranco de cegos, [8ª ed.], Publicações Europa-América, 1983, (Livros de Bolso EuropaAmérica; 351)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/1886

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172 [Barranco de cegos, Círculo de Leitores, 1987]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/949 173 [Barranco de cegos, 11ª ed., Caminho, 1998, (Obras Completas de Alves Redol; 15)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/6424 174 [Barranco de cegos, Planeta DeAgostini, imp. 2000]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/6859

cat. 169 cat. 171

175 [Alves Redol com Constantino, nos anos 60]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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176 [Constantino a guardar vacas no Freixial, anos 60]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 177 Constantino guardador de vacas e de sonhos / Alves Redol. – 1ª ed. – Lisboa : Portugália Editora, imp. 1962. – 131, [5] p. : il. ; 24cm. – (Aventura Vivida). MNR RED/CON/689 178 [Constantino guardador de vacas e de sonhos, 1ª ed. [de bolso], Publicações Europa-América, 1971, (Livros de Bolso Europa-América)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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179 [Constantino guardador de vacas e de sonhos, 11ª ed. [de bolso], Publicações Europa-América, D. L. 1986. (Livros de Bolso Europa-América; 100)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/CON/1896 180 [Constantino guardador de vacas e de sonhos, 19ª ed., Caminho, imp. 1999, (De Par em Par)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/CON/7230

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181 [Constantino guardador de vacas e de sonhos, 21ª ed., Caminho, imp. 2008, (Livros do Dia e da Noite)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 182 Histórias afluentes / Alves Redol. – [1 ª ed.] – Lisboa : Portugália Editora, [imp. 1963]. – 325, [7] p. ; 19 cm. – (Contemporânea ; 53) MNR RED/COM/0534 183 “Histórias afluentes”, de Alves Redol / Alexandre Pinheiro Torres In: Jornal de Letras e Artes. – Lisboa. – N.º 127 (4 Mar. 1964), p. 3, 13. MNR PP/18 184 [Programa das Comemorações de 25 anos de Neo-Realismo, em Dez. 1964]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 185 [Alves Redol com Baptista-Bastos e José Cardoso Pires, na UDV, em 1964]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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186 [Secção Cultural da União Desportiva Vilafranquense (UDV), que promoveu a comemoração de 25 Anos de Gaibéus, em 1964]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 187 [Alves Redol, anos 60]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol 188 [Assinatura do contrato com Publicações EuropaAmérica, para a publicação da colecção Obras de Alves Redol, em 1965] [Registo visual]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol 189 [O muro branco, 1ª ed., Publicações EuropaAmérica, [imp. 1966]]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores MNR RED/ROM/0609 190 [O Café Central, em Vila Franca de Xira, na actualidade]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Orig. cedido por António Mota Redol

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191 [“O muro branco, romance de Alves Redol”, Mário Sacramento, Diário de Lisboa, (16 Jun. 1966)]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : p&b Reprod. cedida por António Mota Redol

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192 [A vida mágica da sementinha: uma breve história do trigo, 1ª ed., Lisboa: [s. n.], 1956]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol 193 A flor vai ver o mar / Alves Redol ; il. Leonor Praça. – [1ª ed.]. – [Mem Martins] : Publicações Europa-América, [1968]. – 42, [2] p. : il. ; 22 cm. – (6/12 ; 1) MNR RED/CON/6602 194 A flor vai pescar num bote / Alves Redol ; il. Leonor Praça. – [1ª ed.]. – [Mem Martins] : Publicações Europa-América, [1968]. – 42, [2] p. : il. ; 22 cm. – (6/12 ; 2) MNR RED/CON/6603 195 Uma flor chamada Maria / Alves Redol ; il. Fausto Boavida. – [1ª ed.]. – Mem Martins : Publicações Europa-América, [1969]. – 33 p. : il. ; 22 cm. – (6/12 ; 3) MNR RED/CON/6604 196 Maria flor abre o livro das surpresas / Alves Redol ; il. Fausto Boavida. – [1ª ed.]. – Mem Martins : Publicações Europa-América, [1970]. – 38 p. : il. ; 22 cm. – (6/12 ; 4) MNR RED/CON/6605 197 [Ilustração de Leonor Praça] [Registo visual]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Em A flor vai pescar num bote, [1ª ed.], [Mem Martins]: Publicações Europa-América [1968], p. 33. MNR RED/CON/6603

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198 [Câmara de projecção de diapositivos ContessaNettel] [Objecto]. – Estugarda : Contessa-Nettel, [192-?]. – 1 máquina de projecção de diapositivos : ferro, madeira e vidro ; 20 x 40 x 38cm + caixa protectora : madeira ; 25,7 x 52,5 x 39,5cm + 1 lente : ferro e vidro + 1 caixa com 13 diapositivos : vidro ; 7,4 x 10cm Usada na palestra Terra de pretos – Ambição de brancos, em 1934 Col. António Mota Redol

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199 [Folheto de divulgação da grande festa desportiva organizada pelo Sporting Club Atlético de Luanda, no Stadium Ferrovia] [Material gráfico]. – Luanda : Emp. Graf. de Ang., 1930. – 1 folheto ; 28 x 15,5cm Col. António Mota Redol 200 [Jogo de basquetebol, em Luanda]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol

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201 [Goal - Semanário Ribatejano: Desporto, Arte e Literatura, dir. Alves Redol, V. F. Xira, a. 1, n.º 1 (11 Jan. 1933), p. 1]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores No início de 1933, Alves Redol cria o jornal Goal - Semanário Ribatejano: Desporto, Arte e Literatura, impresso de Janeiro a Março de 1933: a. 1, n.º 1 (11 Jan. 1933) – n.º 10 (23 Mar. 1933). Col. Biblioteca Municipal V. F. Xira 202 [Alves Redol a escrever à máquina, anos 50]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 203 [Último apontamento de Alves Redol, no Hospital de Santa Maria, antes de falecer] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1969]. – 1 f. : papel ; 11,3cm Col. António Mota Redol 204 [Funeral de Alves Redol, em 30 Nov. 1969]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 205 [Textos de vários autores escritores sobre Alves Redol, em diferentes jornais, após o seu falecimento]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : cores Orig. cedido por António Mota Redol

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206 Os reinegros / Alves Redol. – 1ª ed. – Mem Martins : Publicações Europa-América, 1972. – 375, [1] p. ; 21 cm. – (Obras completas de Alves Redol ; 7) MNR RED/ROM/0667 207 [Greve dos empregados da Carris durante o período da 1ª República]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 208 [Requerimento de Alves Redol ao Reitor do Liceu de Passos Manuel] [Manuscrito] / Sebastião Rolão. – V. F. Xira, 27 Set. 1923. – 1 f. ; 30,3cm Requerimento de Alves Redol a pedir a certidão do exame de admissão ao Liceu de Passos Manuel no ano 1923. Col. António Mota Redol

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209 [Carta de Alves Redol ao Director dos Serviços de Fazenda de Luanda] [Manuscrito] / Alves Redol. – Luanda, 31 Ago. 1928. – 1 f. ; 30,3cm Carta de admissão nos serviços da Fazenda de Luanda. Col. António Mota Redol 210 [Carta de Alves Redol aos pais] [Manuscrito] / Alves Redol. – Luanda, 19 Nov. 1928. – 2 f. ; 32cm Col. António Mota Redol 211 [Carta de Alves Redol a José Pedro Horta] [Manuscrito] / Alves Redol. – Luanda, 12 Dez. 1928. – 5 f. : papel ; 32,7cm Alves Redol tece considerações sobre a “Rússia Vermelha”, do Socialismo e da alteração das convenções sociais da mulher na sociedade socialista. MNR LEG/HOR/ N.º 2 212 Sinopse do Relatório e Contas da Gerência de 1930 In: Boletim do Sporting Club de Loanda. – Luanda. – N.º único (1920-1931), p. 4-5. Alves Redol foi Capitão do basket pelo Sporting Club de Luanda. Col. António Mota Redol 213 [Certificado de emprego como empregado de escritório] [Manuscrito]. – Luanda : B. C. C., 30 Abr. 1931. – 1 f. pautada ; 30cm Certificado em como Alves Redol esteve ao serviço da Bernardino Correa & C.ª, como ajudante de guarda-livros, de 2 Jan. 1928 a 30 Abr. 1931, tendo regressado a Lisboa por motivos de saúde. Col. António Mota Redol

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214 [Passaporte de Alves Redol passado em Angola] [Material gráfico] / Governo Geral da Colónia de Angola. – Angola: GGCA, 6 Mai. 1931. – 1 passaporte ; 19,3 x 14,4cm Passaporte válido por trinta dias para Lisboa viajando no Vapor Angola. Col. António Mota Redol

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215 [Carta de Veríssimo Cordeiro Narciso a Alves Redol] [Manuscrito] / Veríssimo Cordeiro Narciso. – Cartaxo, 17 Jan. 1933. – 1 f. ; 18cm Veríssimo Cordeiro Narciso atesta que Alves Redol deixou o serviço por motivos de saúde. Col. António Mota Redol

221 [Carta do Presidente do Club Vilafranquense a Alves Redol] [Manuscrito] / António R. [?]. – V. F. Xira, 10 Abr. 1934. – 1 f. ; 27cm Felicitação a Alves Redol pela sua conferência sobre assuntos de Angola, que teve lugar a 21 de Março no Salão de Festas. Col. António Mota Redol

216 [Dactiloscrito da palestra de Alves Redol, “Terra de pretos – Ambição de brancos”] [Manuscrito]. – [1934]. – 6 f. ; 22,6cm Dact. incompleto. Palestra proferida no Grémio Artístico Vilafranquense, em 28 Fev. 1934. Col. António Mota Redol

222 [Carta do Vice Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Ateneu Vilafranquense ] [Manuscrito] / AGAV. – V. F. Xira, 10 Mai. 1948. – 1 f. ; 27,2cm Anuncia a marcação da Assembleia-geral Extraordinária para 13 Mai. 1948. Col. António Mota Redol

217 À margem de uma palestra / [Alves Redol] In: Mensageiro do Ribatejo. – [Santarém]. – (17 Mar. 1934). Col. António Mota Redol

223 [Actas da Direcção do Sport Lisboa e Vila Franca] [Manuscrito] / SLVF. – 28 Mar. 1930 – 26 Jan. 1934. – 1 caderno pautado : papel ; 31cm Col. Arquivo Municipal de V. F. de Xira

218 A arte no povo do Ribatejo [Manuscrito] / Alves Redol. – 1938. – 39 p. ; 22,7cm Conferência prevista para ser realizada no cinema-teatro de Vila Franca de Xira, em 10 Jul. 1938, mas que não se chegou a realizar. Col. António Mota Redol

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219 O fandango [Manuscrito] / Alves Redol. – 1939. – 9 f. ; 20,2cm Orig. dact. Palestra proferida no Primeiro Serão de Arte, organizado pela Secção Cultural do Sport Lisboa e Vila Franca, em 18 Jan. 1939. Col. António Mota Redol 220 Música popular [Manuscrito] / Alves Redol. – 1939. – 14 f. ; 22cm Orig. dact. Palestra prevista para ser proferida no Segundo Serão de Arte, organizado pela Secção Cultural do Sport Lisboa e Vila Franca, na Sociedade União Musical, em 29 Mar. 1939, mas que se realizou no Grémio Artístico Vilafranquense, em 1 Mai. 1939. Col. António Mota Redol

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228 [Carteira em lã colorida] [Objecto]. – [Glória do Ribatejo : s. n., 193-?]. – 1 carteira : lã : color. ; 11 x 15cm Col. António Mota Redol 229 [Apontamentos de Gaibéus] [Manuscrito] / Alves Redol. – [193-?]. – 31 f. ; papel ; 20cm MNR ESPLIT-AR/ Cx. 1/ N.º 3 230 [Participação da solicitação do Director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado para apreender o romance Gaibéus, em Tomar] [Manuscrito]. – Tomar : 2 Mai. 1940. – 1 f. ; 21,4cm Reprod. de original Col. António Mota Redol cat. 224

231 [Carta ao Director dos serviços de Censura] [Manuscrito]. – Lisboa, 24 Out. 1940. – 1 f. pautada ; 30cm Alves Redol declarou a edição de 1.500 exemplares de Nasci com passaporte de turista, com distribuição pela Livraria Portugália e pelo editor. Col. António Mota Redol

224 [Folha de rosto do curso de Esperanto, “La Aktiva Esperantisto”, no Sport Lisboa e Vilafranca] [Manuscrito]. – [S. d.]. – 1 f. : papel ; 32,5cm cat. 230 Col. António Mota Redol 225 Amar / António Alves [Redol] In: Portugala e Esperantisto. – Lisboa. – A. 1, n.º 1 (Jan. 1936), p. 4. Col. António Mota Redol

cat. 231

226 [Ribatejo, elementos etnográficos, Glória] [Manuscrito] / Alves Redol. – [Anos 30?]. – Orig. ms. ; 16,9cm MNR ESPLIT-AR/ Cx. 7/ N.º 37 227 [Pano em linho bordado a ponto cruz] [Objecto]. – [Glória do Ribatejo : s. n., 193-?]. – 1 pano : linho : color. ; 42 x 42cm Col. António Mota Redol

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232 [Manuscrito do romance Avieiros] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1941?]. – Orig. ms. ; 32cm MNR ESPLIT-AR/ Cx. 1/ N.º 5 233 [Declaração da Academia das Ciências a Alves Redol] [Manuscrito] / Joaquim Leitão. – Lisboa, 1 Fev. 1943. – 1 f. ; 32,9cm Joaquim Leitão transcreve parte do parecer da Academia das Ciências, no qual consta a proposta para uma menção honrosa ao romance Avieiros, de Alves Redol. Col. António Mota Redol 234 [Vários apontamentos sobre o Douro] [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 73 f. ; múltip. Col. António Mota Redol 235 [Os homens e as sombras] [Manuscrito] / Alves Redol. – [195-]. – 101 p. ; múltip. Versão manuscrita do romance Os homens e as sombras, publicado em 1951, 2º volume do Ciclo Port-Wine, ainda com o título Terra mártir. Col. António Mota Redol

cat. 233 cat. 235

236 [Os homens e as sombras] [Manuscrito] / Alves Redol. – [195-]. – 170 p. ; múltip. Versão manuscrita do romance Os homens e as sombras, publicado em 1951, 2º volume do Ciclo Port-Wine, ainda com o título Terra mártir. Col. António Mota Redol 237 [Os homens e as sombras] [Manuscrito] / Alves Redol. – [195-]. – 223 p. ; múltip. Versão dactiloscrita do romance Os homens e as sombras, publicado em 1951, 2º volume do Ciclo Port-Wine, ainda com o título Terra mártir. Col. António Mota Redol

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238 [Alves Redol com Francisco T. Teles em S. Salvador do Mundo] [Registo visual]. – Set. 1947. – 1 fot. : sépia ; 11,7 x 8,5cm Col. António Mota Redol

243 Esboço de uma bibliografia nos Anais do Instituto do Vinho do Porto. – Porto : I. V. P., 1945. – 339, [3] p. ; 26cm Col. António Mota Redol

239 [Crónica do Douro] [Manuscrito] / Alves Redol. – [1947?]. – 6 f. ; 22,5cm Col. António Mota Redol

244 Arqueologia da região produtora do Vinho do Porto / Fernando Russel Cortez In: Cadernos. – Porto. – N.º 100 (Abr. 1948). – 41, [4] p. : il. ; 21cm Suplemento. Col. António Mota Redol

240 Páginas escolhidas : Crónica do Douro / Alves Redol In: Cadernos Mensais de Estatística e Informação do Instituto do Vinho do Porto. – Porto. – N.º 95 (Nov. 1947), p. 589-591. 241 O Vinho do Porto / José Joaquim da Costa Lima. – Porto : Instituto do Vinho do Porto, 1936. – 29 p. : il. ; 24cm Col. António Mota Redol 242 Anais do Instituto do Vinho do Porto / dir. José Joaquim da Costa Lima. – Porto : I. V. P., 1941. – 545, [2] : il. ; 25cm Col. António Mota Redol

cat. 244

245 O romance visto por Alves Redol / A. Lopes Oliveira In: Vida Mundial Ilustrada. – Lisboa. – A. 3, n.º 121 (9 Set. 1943), p. 10. Col. António Mota Redol 246 Nos últimos vinte [anos] negou-se a cultura porque se lhe tirou a liberdade In: Diário de Lisboa. – Lisboa. – (10 Nov. 1945), p. 1, central. Col. António Mota Redol 247 [A entrevista com Alves Redol] / Baptista-Bastos In: O Século Ilustrado. – Lisboa. – (10 Mai. 1958), p. 2, 3, 31. Col. António Mota Redol 248 [Proposta de membro ordinário do Pen Club Português] [Material gráfico]. – [S. l.]: P. E. N., [s. d.]. – 1 f. : papel ; 21cm Col. António Mota Redol 249 [Lista de aderentes com os respectivos endereços] [Manuscrito]. – [S. d.]. – 1 f. : papel ; 27,6cm Orig. dact. Col. António Mota Redol

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250 [Carta de Fidelino de Figueiredo ao Presidente do PEN Club Português] [Manuscrito] / Fidelino de Figueiredo. – Lisboa, 20 Jul. 1947. – 1 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Fidelino de Figueiredo despede-se, pois parte para o Brasil. Col. António Mota Redol 251 [Carta de U. C. Panigrahi a Alves Redol] [Manuscrito] / U. C. Panigrahi. – Índia, 30 Ago. 1948. – 1 f. : papel ; 22cm Orig. dact. Col. António Mota Redol

cat. 252

252 [Carta de Hermon Ould, do P. E. N. Club Internacional, a Alves Redol] [Manuscrito] / Hermon Ould. – Londres, 11 Mar. 1946. – 1 f. : papel ; 16,4cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 253 [Carta de P. Leschemelle, do Les Lettres Françaises, a Alves Redol] [Manuscrito] / P. Leschemelle. – Paris, 16 Jun. 1948. – 1 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 254 [News from the P. E. N.] [Manuscrito] / Manuel Komroff. – Sacramento (EUA), Jun. 1950. – 2 f. : papel ; 27,9cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 255 [Circular 2 do P. E. N. Club Português] [Manuscrito] / Alves Redol. – Lisboa, [s. d.]. – 1 f. : papel ; 27,5cm Orig. dact. Col. António Mota Redol

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cat. 257

256 [Circular do P. E. N. Club Português aos aderentes] [Manuscrito] / Alves Redol. – Lisboa, 9 Jan. 1947. – 1 f. : papel ; 27,5cm Orig. dact. O Regulamento do P. E. N. Club Português foi definitivamente aprovado pela Federação dos P. E. N. Clubs, no Congresso Mundial de Estocolmo, em Jul. 1946. Col. António Mota Redol 257 [Carta de Pierre Bourgeois a Alves Redol] [Manuscrito] / Pierre Bourgeois. – Bruxelas, 1 Mar. 1947. – 1 f. : papel ; 27,3cm Orig. dact. Col. António Mota Redol

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258 [Rules of the Portuguese Centre of the P. E. N. – Club] [Manuscrito]. – [S. d.]. – 3 f. : papel ; 33cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 259 Kuznica. – Wroclaw. – A. 4, n.º 34-35 (155-156), 1948. Número especial dedicado ao Congrès Mondial des Intellectuels pour la Paix (Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz). Col. António Mota Redol 260 [Carta de Marcel Willard a Alves Redol] [Manuscrito] / Marcel Willard. – Paris, 21 Ago. 1948. – 2 f. : papel ; 27,9cm Orig. dact. Marcel Willard, em nome do Comité de Organização do Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz, em Wroclaw, convida Alves Redol a participar. Col. António Mota Redol

cat. 259

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261 [Programa do Congrès Mondial des Intellectuels pour la Paix, em Wroclaw] [Manuscrito]. – [S. l., s. d.]. – 1 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 262 [Cartão de visita de Alves Redol fornecido pela organização do Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz, em Wroclaw] [Material gráfico]. – [S. l.]: CMIP, [s. d.]. – 1 cartão ; 3,6 x 10,5cm 263 [Relação dos convidados da Delegação Francesa] [Manuscrito]. – [S. l., s. d.]. – 2 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Col. António Mota Redol

cat. 260

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cat. 269

264 [Relação dos membros do Comité d’ Iniciative pour l’ Italie] [Manuscrito]. – [S. l., s. d.]. – 2 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 265 [Relação dos convidados da Delegação Soviética] [Manuscrito]. – [S. l., s. d.]. – 1 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 266 [Relação dos convidados da Delegação do Brasil] [Manuscrito]. – [S. l., s. d.]. – 1 f. : papel ; 27cm Orig. dact. Col. António Mota Redol

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267 [Reprodução do discurso proferido por Alves Redol em Wroclaw, na Polónia, no Congrès Mondial des Intellectuels pour la Paix, em Agosto de 1948] In: [S. n.]. – [S. d.]. – p. 120-123. Reprodução de original. Col. António Mota Redol 268 [Apontamentos sobre o Congresso de Wroclaw] [Manuscrito] / Alves Redol. – [194-?]. – 1 bloco de apontamentos : papel ; 14,2cm Orig. ms. Col. António Mota Redol 269 [Alves Redol em Wroclaw, com os delegados ao Congresso, entre os quais Jorge Amado] [Registo visual]. – 1948. – 1 fot. : sépia ; 6,7 x 9,6cm Col. António Mota Redol

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cat. 271

270 [Alves Redol em Varsóvia, com Fernando LopesGraça, João dos Santos e o poeta da Martinica Aimé Cesaire] [Registo visual]. – [194-?]. – 1 fot. : sépia ; 11,1 x 17,3cm Col. António Mota Redol 271 [Plano para o desenvolvimento do romance Lago das viúvas de Alves Redol] [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 1 f. ; 33,3cm Orig. ms Col. António Mota Redol

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272 Lago das viúvas [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 153 p. ; 27,3cm Orig. ms. c/ emendas Col. António Mota Redol 273 [Apontamentos sobre a Nazaré] [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 1 bloco : papel liso ; 17cm Orig. ms. MNR ESPLIT-AR/ Cx. 13/ N.º 80-81

274 [Contrato entre Alves Redol e Publicações Europa-América] [Manuscrito]. – Mem Martins : PEA, 11 Jan. 1965. – 4 f. : papel ; 27cm Contrato entre Alves Redol e Publicações Europa-América no qual o autor cede o direito exclusivo de publicação das suas obras presentes e futuras, incluindo a edição das obras completas. Col. António Mota Redol

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275 [Contrato com a Agence Théâtrale et Littéraire Tchecoslovaque] [Manuscrito]/ ATLT. – Checoslováquia : A. T. L. T., 3 Abr. 1951. – 1 f. : papel ; 29,7cm. Carta a indicar os honorários a pagar a Alves Redol para a edição checa do romance Fanga. Col. António Mota Redol 276 [Contrato entre Alves Redol e Arnoldo Mondadori Editore] [Manuscrito]. – Milão : A. M. E., 19 Jun. 1962. – 2 f. : papel ; 31cm Contrato entre Alves Redol e Arnoldo Mondadori Editore para a edição, na língua italiana, do romance A barca dos sete lemes. Col. António Mota Redol

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cat. 276

277 [Contrato entre Alfred A Knopf, Inc. e Alves Redol para A barca dos sete lemes] [Manuscrito]. – Nova Iorque : A. A. K., 18 Mar. 1963. – 4, [1] f. : papel ; 36cm Contrato entre Alves Redol e a editora Alfred A Knopf para a edição, na língua inglesa, do romance A barca dos sete lemes. Col. António Mota Redol

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278 [Edições de livros: contabilidade] [Manuscrito]. – [S. d.]. – 1 caderno : 52 p. ; 22,6cm Orig. ms. Col. António Mota Redol 279 Alves Redol um grande romancista português contemporâneo [Material gráfico]. – Mem Martins : Publicações Europa-América, [s. d.]. – 1 folheto desdobrável : 1 f. em papel ; 23,4cm (38,3cm). Divulgação de obras literárias de Alves Redol. Col. António Mota Redol 280 Alves Redol [Material gráfico]. – Mem Martins : Publicações Europa-América, [s. d.]. – 1 folheto desdobrável : 1 f. em papel ; 23,4cm (38,3cm). Divulgação de obras literárias de Alves Redol. Col. António Mota Redol

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cat. 280 cat. 279

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281 [Carta de Fernando Piteira Santos a Alves Redol] [Manuscrito] / Fernando Piteira Santos. – Forte de Caxias, 5 Mar. 1946. – 1 f. ; 27,8cm Fernando Piteira Santos pede a Alves Redol que ajude um preso, António da Assunção Tavares, natural de Vila Franca de Xira, a pagar a caução. Col. António Mota Redol 282 [Postal de Ruy Luis Gomes a Alves Redol] [Manuscrito] / Ruy Luis Gomes. – PIDE, 29 Jul. 1950. – 1 postal ; 10,3 x 15cm Felicitações sobre a atribuição do Prémio Ricardo Malheiros a Alves Redol. Col. António Mota Redol

cat. 281

283 [Carta de João Barros a Alves Redol] [Manuscrito] / João de Barros. – [S. l.], Mar. 1951. – 4 f. ; 21cm João de Barros tece vários elogios à obra de Alves Redol. Col. António Mota Redol 284 [Carta de Ferreira de Castro a Alves Redol] [Manuscrito] / Ferreira de Castro. – Lisboa, 10 Mar. 1950. – 1 f. ; 27cm Col. António Mota Redol

cat. 282

285 [Carta de Ferreira de Castro a Alves Redol] / Ferreira de Castro. – Lisboa, 7 Out. 1950. – 1 f. ; 27cm Col. António Mota Redol 286 [Carta da Editorial Inquérito a Alves Redol] [Manuscrito] / Ed. Inquérito. – Lisboa, 18 Abr. 1951. – 1 f. ; 13,5cm A Ed. Inquérito solicita indicações a Alves Redol sobre o pagamento de uma letra de 5.700$00. Col. António Mota Redol 287 [Carta de António José Saraiva a Alves Redol] [Manuscrito] / António José Saraiva. – Torres Vedras, 20 Ago. 1953. – 6 f. ; 19cm António José Saraiva comenta o romance do autor, Vindima de sangue. Col. António Mota Redol

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cat. 284

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cat. 297

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288 [Carta de Joaquim Namorado a Alves Redol] [Manuscrito] / Joaquim Namorado. – Coimbra, 26 Jan. 1956. – 1 f. ; 31cm Joaquim Namorado pede a Alves Redol que envie livros seus para uma “Exposição do Livro Moderno Português”, na Alemanha, e agradece o exemplar do romance A barca dos sete lemes enviado pelo autor. Col. António Mota Redol 289 [Carta de Mário Dionísio a Alves Redol] [Manuscrito] / Mário Dionísio. – Lisboa, 10 Fev. 1955. – 1 f. ; 27,4cm Mário Dionísio agradece o exemplar do romance Olhos de água enviado pelo autor. Col. António Mota Redol 290 [Carta de João José Cochofel a Alves Redol] [Manuscrito] / João José Cochofel. – Lisboa, 3 Fev. 1965. – 1 f. ; 29,7cm João José Cochofel faz várias considerações sobre a Seara Nova. Col. António Mota Redol 291 [Carta de Fernando Lopes-Graça a Alves Redol] [Manuscrito] / Fernando Lopes-Graça. – Parede, 9 Jan. 1969. – 1 f. ; 14,9cm Fernando Lopes-Graça agradece o exemplar da nova versão de Avieiros enviado pelo autor. Col. António Mota Redol 292 [Carta de Jorge Amado a Alves Redol] [Manuscrito] / Jorge Amado. – Rio de Janeiro, 2 dez. 1958. – 1 f. ; 26,4cm Jorge Amado fala na possibilidade de ceder os direitos para uma edição portuguesa de um livro seu. Col. António Mota Redol

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293 [Carta de Angel Crespo a Alves Redol] [Manuscrito] / Angel Crespo. – Madrid, 2 fev. 1962. – 1 f. ; 27,5cm Angel Crespo agradece a Alves Redol o envio de quatro romances, e anuncia uma crítica a Barranco de cegos nos Cuadernos Hispanoamericanos. Col. António Mota Redol 294 [Diploma de Sócio Honorário da Associação de Intercâmbio Cultural] [Material gráfico]. – Brasil : AIC, 20 Fev. 1949. – 1 diploma : 1 f. em cartão ; 16,5 x 23,4cm Diploma atribuído pelos serviços prestados em favor do intercâmbio cultural e da fraternidade humana. Col. António Mota Redol 295 [Carta do Comité Nobel de L’ Académie Suédoise a Alves Redol] / O Comité. – Estocolmo, Dez. 1949. – 1 f. ; 29,5cm O Comité Nobel de L’ Académie Suédoise pede ao P. E. N. Club Português que indique uma candidatura portuguesa ao Prémio Nobel da Literatura, de 1950. Col. António Mota Redol 296 [Carta de Leroy J. Benoit, Adido Cultural da Embaixada Americana a Alves Redol] / Leroy J. Benoit. – Lisboa, 28 Fev. 1952. – 2 f. ; 26,7cm A Embaixada Americana pede a Alves Redol o envio de exemplares das suas obras, para serem analisadas pela crítica americana. Col. António Mota Redol 297 [Carta de H. Minnemann a Alves Redol] [Manuscrito] / H. Minnemann. – Hamburgo, 31 Jan. 1958. – 1 f. ; 29,7cm H. Minnemann pede o envio de exemplares das obras de Alves Redol, editadas por Publicações Europa-América. Col. António Mota Redol

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cat. 300

298 [Carta de Vercors a Alves Redol] [Manuscrito] / Vercors. – Oulin des Iles, 4 Jan. 1958. – 1 f. ; 21cm Col. António Mota Redol 299 [Carta de Bernardo Crippa a Alves Redol] [Manuscrito] / Bernardo Crippa. – Milão, 5 Fev. 1959. – 1 f. ; 28,3cm Bernardo Crippa pede a Alves Redol informações sobre a sua obra literária de modo a inclui-las no Dizionario della Letteratura Contemporânea. Col. António Mota Redol

cat. 301

300 [Recepção a Jorge Amado em Publicações Europa-América] [Registo visual]. – [196-?]. – 1 fot. : sépia ; 11,5 x 17,6cm Na fotografia, Armando Bacelar, Alves Redol, Urbano Tavares Rodrigues, Ferreira de Castro, Jorge Amado, Álvaro Salema, Alexandre Cabral, Manuel Alpedrinha, Corregedor da Fonseca. Col. António Mota Redol 301 [Carta de Pablo Neruda e Jorge Amado para Alves Redol] / Pablo Neruda e Jorge Amado. – Santiago do Chile, 31 Mar. 1953. – 2 f. ; 27,3cm Convidam Alves Redol para o Congreso Continental de la Cultura, em 26 de Abril, no Santiago do Chile. Col. António Mota Redol 176

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cat. 305

302 [Telegrama de Pablo Neruda e Jorge Amado para Alves Redol] / Pablo Neruda e Jorge Amado. – Santiago do Chile, 10 Abr. 1953. – 1 f. ; 17,6cm Convidam Alves Redol para o Congreso Continental de la Cultura, em 26 de Abril, no Santiago do Chile. Col. António Mota Redol 303 [Programa de corrida de touros da Arte Nova no Campo Pequeno, em Lisboa] [Material gráfico]. – 8 Ago. 1963. – 1 folheto desdobr. ; 21 x 10cm (21 x 30cm) Participaram nesta corrida: os cavaleiros João Núncio e Mestre Baptista; os matadores José Júlio e José Simões; os forcados profissionais de Lisboa de Adelino de Carvalho; e os bandarilheiros António Correia, António Cipriano, Augusto Gomes, António Garçoa, Mário Coelho, Ludovino Bacatum, Álvaro Catoja, Manuel Cipriano, José Tinoca e Jorge Marques. Col. António Mota Redol

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304 [Programa de corrida de touros no Campo Pequeno, em Lisboa] [Material gráfico]. – 5 Set. 1963. – 1 folheto desdobr. ; 21 x 10cm (21 x 30cm) Participaram nesta corrida: os cavaleiros Mestre Baptista e Alfredo Conde; os matadores Pedro Martinez Pedrés, Manuel dos Santos e Paco Camino; e os forcados profissionais de Lisboa capitaneados por Adelino de Carvalho. Col. António Mota Redol 305 Um poema cor de sangue [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 50 f. ; 27,6cm Orig. dact. Col. António Mota Redol 306 [O toiro, o homem e o cavalo amestrado…] [Manuscrito] / Alves Redol. – [S. d.]. – 1 f. ; 27cm Orig. ms. Poema de Alves Redol a José Júlio. Col. António Mota Redol

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307 Almanaque. – [S. l.]. – (Jul. 1960), 42 p. Col. António Mota Redol 308 Sombra e sangue / Alves Redol In: Almanaque. – [S. l.]. – (Jul. 1960), p. 56-66. Col. António Mota Redol cat. 308

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cat. 309

309 [Alves Redol com Manuel dos Santos, matador de toiros] [Registo visual]. – 1 Abr. 1966. – 1 fot. : p&b ; 12 x 18,2cm Col. António Mota Redol 310 [Pepe, o moço das espadas, José Júlio, o matador de toiros, Andrécito, o seu peão de confiança, e Alves Redol] [Registo visual]. – [196-?]. – 1 fot. : sépia ; 11,5 x 17cm Col. António Mota Redol 311 Barranco de cegos: romance / Alves Redol. – [1ª ed.]. – Lisboa : Portugália, imp. 1961. – 401, [6] p. ; 20 cm. – (Contemporânea ; 29) Com dedicatória do autor a Manuel dos Santos. Col. Manuel Jorge dos Santos

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cat. 316

312 “Fanga” foi publicado há 20 anos… “Nessa altura se o merecer, lembrem-se de mim” / Armando Baptista-Bastos In: República. – Lisboa. – S. 2, a. 52, n.º 11.568 (27 Mar. 1963), p. 1, 12. Col. António Mota Redol 313 Alves Redol: a história da sua vida contada por ele próprio In: COL: Boletim Mensal do Clube Oriental de Lisboa. – Lisboa. – N.º 2 (Fev. 1949), p. 8. Col. António Mota Redol

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314 Alves Redol fala para “O Benfica” / Fernando Sylvan In: O Benfica. – Lisboa. – A. 16, n.º 823 (28 Ago. 1958), p. 8. Col. António Mota Redol 315 [Rótulo de vinho velho do Douro, 1917] [Material gráfico]. – [S. l. : s. n., s. d.]. – 1 rótulo : papel ; 13,3 x 11,2cm Col. António Mota Redol 316 [Alves Redol] / O comentador In: Sociedade Portuguesa de Escritores: A Literatura e o Cinema. – Lisboa. – (12 Jun. 1957), p. [3]. Col. António Mota Redol

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317 [Programa de apresentação de vários espectáculos] [Material gráfico]. – Lisboa : [s. n., s. d.]. – 1 folheto : papel ; 15,5 x 10,5cm (15,5 x 21cm). A peça em um acto de Alves Redol, “Maria Emília”, fez parte da segunda parte deste programa de espectáculos, organizado pela Direcção da Sociedade Filarmónica João Rodrigues Cordeiro, Lisboa, em 29 Mar. 1947. Col. António Mota Redol

318 Los escritores actuales y sus obras / José Reis In: La Vanguardia Española. – [Espanha]. – (19 Nov. 1968), p. 49. Col. António Mota Redol

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319 Quella notte in gattabuia = Naquela noite na prisão / trad. Arrigo Repetto In: L’Unità. – [Itália]. – (17 Nov. 1963). Tradução de um excerto de Alves Redol. Col. António Mota Redol 320 Open road leading straight down / Mildred Adams In: N. Y. Times. – [Nova Iorque]. – (27 Set. 1964). Artigo sobre a tradução para inglês do romance A barca dos sete lemes. Col. António Mota Redol

322 Um bom assunto : Alves Redol / Josué Montello In: Jornal do Brasil. – [Brasil]. – (27 Jan. 1981), p. 11. Col. António Mota Redol 323 Contistas portugueses modernos / sel., introd. e notas de João Alves das Neves. – [Brasil] : Samambaia Editora, [s. d.]. – 293, [3] p. ; 22cm Col. António Mota Redol

321 Portuguese novel calls for more / Robert Ackler In: Bee. – Sacramento (Califórnia). – (1 Nov. 1964). Col. António Mota Redol

cat. 321

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cat. 324

324 Kapitálu : svedectvi díla pokrokových autoru / Pod Patou. – Praha : Mladá Fronta, 1953. – 327, [5] p. : il. ; 21cm Testemunhos do trabalho dos jovens nos países capitalistas, escritos por autores progressistas. Col. António Mota Redol 325 Maravilhas do conto português / sel., pref. e notas de Edgard Cavalheiro. – São Paulo : Editora Cultrix, 1957. – 316, [2] p. : il. ; 21cm Col. António Mota Redol 326 Portugisiska berättare / trad. Sven Bjellerup, Erik Gyberg e Arne Lundgren. – Stockholm : P. A. Norstedt & Söners Förlag, 1960. – 245, [2] p. ; 23cm Col. António Mota Redol 327 Portugiesische erzähler = Narradores portugueses / Óscar Lopes, Ilse Losa. – Berlin : Aufbau-Verlag, 1962. – 268, [4] p. ; 20cm Col. António Mota Redol

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328 Der gott der seefahrer und andere portugiesische erzählungen = O senhor dos navegantes e outros contos portugueses / sel., pref. e notas de Curt Meyer-Clason. – Tubinga e Basileia : Horst Erdmann Verlag, 1972. – 470, [2] p. ; 21cm Buchreihe geistige begegnung des Instituts Für Auslandsbeziehungen, Stuttgart, Band 34 (livro resultante do encontro no Instituto de Relações Externas, em Stuttgart, vol. 34). Col. António Mota Redol 329 Portugiesische erzählungen des zwanzigsten jahrhunderts = Narrativas portuguesas do século 20 / Curt Meyer-Clason e Dieter Offenhäußer. – Freiburg : Beck & Glückler, 1988. – 476, [4] p. ; 21cm Col. António Mota Redol 330 Portugiesische erzählungen des zwanzigsten jahrhunderts = Narrativas portuguesas do século 20 / publ. Curt Meyer-Clason. – ed. rev. e aum. – Freiburg : Beck & Glückler, 1997. – 517, [3] p. ; 21cm Col. António Mota Redol

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331 Antología del cuento português del siglo 20 = Antologia do conto português do século 20 / trad., pról. e sel. Mário Morales Castro. – México : Conaculta, 2001. – 287, [1] p. ; 21cm. – (Torre Abolida) Col. António Mota Redol 332 Prístav manso = Porto Manso / Alves Redol; trad. Milada Fliederová. – [Checoslováquia] : Ceskoslovenský Spisovatel, 1949. – 226, [6] p. ; 19cm Ed. checa. Col. António Mota Redol 333 Fanga / Alves Redol; trad. Zdenèk Hampejs. – Praga : Ceskoslovenský Spisovatel, 1951. – 228, [2] p. ; 22cm Col. António Mota Redol 334 Covek sa sedam imena = A barca dos sete lemes / Alves Redol; trad. Miodrag Bulatovic. – [S. l.] : Graficki Zavod, 1965. – 385, [2] p. ; 19cm. – (Besteseleri). Col. António Mota Redol

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335 The man with seven names : a novel of modern Portugal = A barca dos sete lemes / Alves Redol ; trad. Linton Lomas Barett. – New York : Alfred A. Knopf, 1964. – 381, [4] p. ; 22cm Col. António Mota Redol 336 Moz s sedmimi imeni = A barca dos sete lemes / Alves Redol; trad. Katarina Pucova. – Ljubljana : Mladinska Knjiga, 1968. – 306, [2] p. ; 18cm Col. António Mota Redol 337 Der mann mit den sieben namen = A barca dos sete lemes / Alves Redol; Trad. Andreas Klotsch. – Berlin : Volk und Welt, 1968. – 394, [1] ; 21cm Ed. alemã. Col. António Mota Redol 338 A hétevezös bárka = A barca dos sete lemes / Alves Redol; trad. Hargitai György. – Budapeste : Kossuth Könyvkiado, 1971. – 395, [3] p. ; 20cm Ed. húngara. Col. António Mota Redol

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339 Otchlan slepców = Barranco de cegos / Alves Redol ; trad. Bozena Olesiowa. – Wroclaw : Wydawnictwo Literackie Kraków, 1985. – 393, [2] p. ; 20cm Col. António Mota Redol 340 [Trad. em mandarim] = Barranco de cegos / Alves Redol ; coord. Ana Paula Laborinho, Yao Jingming ; trad. para chinês Sun Cheng Ao ; apres. crítica Vítor Viçoso. – Macau: Hainan : Instituto Cultural, Instituto Português do Oriente, 2000. – 591 p. : il. ; 21cm. – (Cravo-Biblioteca Básica de Autores Portugueses ; 25. Literatura) MNR RED/ROM/6826

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341 Alves Redol e o Neo-Realismo / J. Almeida Pavão In: Ocidente. – Lisboa. – Vol. 57 (1959), 69, [2] p. Separata da revista Ocidente. Col. António Alves Redol 342 Número especial de homenagem a Alves Redol In: Vértice. – Coimbra. – Vol. 30, n.º 322-23 (Nov./ Dez. 1970), p. 781-1028. MNR PP/ 1 343 Charrua em campo de pedras / José Manuel Mendes. – Lisboa : Seara Nova, 1975. – 284, [1] p. ; 19 cm. – (Argumentos ; 12) MNR MEN/ENS/2576

cat. 344

344 Os romances de Alves Redol / Alexandre Pinheiro Torres. – Lisboa : Moraes Editores, 1979. – 371 p. ; 23 cm. – (Margens do Texto ; 7) MNR TOR/ENS/1904

346 Testemunho pessoal sobre os reflexos do Neo-Realismo em geral e os de Alves Redol em particular na minha geração / Ramiro Teixiera. – Porto : Grupo Desportivo dos Empregados do Banco Borges & Irmão, imp. 1981. – 141, [2] p. ; 21 cm. – (Novas Práticas). MNR TXR/ENS/2071

345 Alves Redol : a obra e o homem / Álvaro Salema. – Lisboa : Arcádia, 1980. – 223, [1] p. : il. ; 21 cm MNR SAL/ENS/1900

347 Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca / Garcez da Silva ; pref. António Pedro Pita. – Lisboa : Caminho, 1990. – 207 p. ; 21 cm MNR SIL/ENS/6902

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348 Alves Redol e o Neo-Realismo Português / Ana Paula Ferreira. – Lisboa : Caminho, 1992. – 304 p. ; 21 cm. – (Universitária) MNR FER/ENS/2996

cat. 350

cat. 352

349 Apontamentos Europa-América explicam Alves Redol: Constantino, guardador de vacas e de sonhos / coment. e expl. Maria Fernanda Mendes. – Mem Martins : Publicações Europa-América, 1992. – 89, [1] p. ; 18 cm. – (Apontamentos Europa-América ; 65) Para uma melhor actuação nas aulas e uma melhor preparação para os exames. Col. António Mota Redol 350 A experiência Africana de Alves Redol / Garcez da Silva. – Lisboa : Caminho, 1993. – 182 p. : il. ; 21 cm MNR SIL/ENS/6904 351 Alves Redol : o espaço e o discurso / Maria Graciete Besse. – Lisboa : Ulmeiro, 1997. – 150, [2] p. ; 21 cm. – (Ulmeiro Universidade ; 12) MNR BES/ENS/5665 352 Espelho de ver por dentro: o percurso teatral de Alves Redol / Miguel Falcão. – Lisboa : Impensa Nacional-Casa da Moeda, 2009. – 717 p. ; 24 cm. – (Temas Portugueses) MNR FAL/ENS/7642 353 Escultura de Alves Redol, por Lagoa Henriques [Registo visual] / Lagoa Henriques. – [200-?]. – 1 escultura : gesso ; 180 x 120 x 73cm. Original da escultura em bronze que se encontra enquadrada no Edifício Alves Redol, na rua Alves Redol, em Vila Franca de Xira. MNR 354 [Secretária de Alves Redol] [Objecto]. – [S. l. : s. n., anos 30]. – 1 secretária : madeira castanha avermelhada e latão cromado ; 150 x 75,5 x 75cm. Col. António Mota Redol

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355 [Pasta de secretária de Alves Redol] [Objecto] ]. – [S. l. : s. n., anos 30]. – 1 pasta de secretária : cabedal castanho ; 32 x 45cm. Col. António Mota Redol 356 [Caixa para fragmentos]. – [S. l. : s. n., anos 30]. – 1 caixa : cartão forrado a cabedal castanho ; 32,5 x 27,5cm. Col. António Mota Redol 357 [Caixa de cigarros]. – [S. l. : s. n., anos 30]. – 1 caixa de cigarros : madeira pau-preto com aplicações em estanho; 17 x 11,5 x 5cm. Col. António Mota Redol 358 [Tinteiro de secretária de Alves Redol] [Objecto]. – [S. l. : s. n., anos 30]. – 1 tinteiro : vidro com tampa em estanho ; 5 x 5 x 6,5cm. Col. António Mota Redol

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359 [Reprodução fac-similada das primeiras páginas do ms. do romance Gaibéus, de Alves Redol, publicado em 1939]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. fac-similada MNR 360 [Cadeira de Alves Redol] [Objecto]. – [S. l. : s. n., anos 30]. – 1 cadeira : madeira castanha forrada a tecido ; 58 x 50,5 x 86cm. Col. António Mota Redol 361 [Boina de Alves Redol] [Objecto]. – [S. l. : s. n., 19-?]. – 1 boina : preta ; 27cm Ø MNR ESPLIT-AR 362 Alves Redol : vida e obra [Registo vídeo] / Real. e prod. RTP 2 ; locução de Clara Joana ; voz de Alves Redol. – Lisboa : Rádio Televisão Portuguesa, 1991. – 1 DVD (ca. 53’) : color. Programa baseado numa entrevista do escritor a Igrejas Caeiro, editada em disco pela Sassetti. Música de Carlos Paredes e Luís de Freitas Branco. MNR ALV/122/ DVD 363 Alves Redol : memórias e testemunhos [Registo vídeo] / real. Francisco Manso. – Lisboa : Francisco Manso Produções, 2011. – 1 DVD (ca. 50’) : color. O Documentário retrata a vida e a obra do escritor Alves Redol. Col. Francisco Manso

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364 [Alves Redol a ler um livro, princípio anos 60]. – V. F. Xira : MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por António Mota Redol 365 [Panorâmica de V. F. Xira, Monte Gordo e rio Tejo, a partir do Alto do Mesquita, 12 de Novembro de 1922, J. M. J. Coutinho] – MNR, 2011. – Reprod. ampl. : sépia Orig. cedido por Arquivo Fotográfico Museu Municipal de V. F. Xira / CMVFX

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outras exposições

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fotografia

A experiência fotográfica e o exercício literário redoliano têm uma história em comum capaz de surpreender a leitura que ainda hoje fazemos de Alves Redol enquanto escritor concentrado apenas na palavra e no seu significado humanista. A ligação de Redol com a imagem fotográfica é, afinal, uma constante desde o início do seu percurso literário, resultado do impulso etnográfico que esteve na origem do seu entusiasmo e curiosidade para com o “outro” social, e ainda de um apreço demonstrado de diversas formas, ao longo dos tempos, em torno da imagem tecnologizada, com expressão não só na autoria de muitas séries fotográficas, como na produção de argumentos e diálogos para vários filmes do cinema português dos anos 50. A “máquina-de-tirar-retratos”, tal como lhe chamou Jorge Reis ao testemunhar a sua parceria nessa aventura etnográfica, acompanhou Redol na maioria das jornadas de “trabalho de campo” que realizou ao longo de mais de vinte anos, tornando-se um parceiro inseparável, apesar de secundário em termos autorais relativamente ao poder do verbo e da narrativa. Talvez pela aparente menoridade do seu “papel”, a ligação da fotografia à literatura do autor permaneceu até hoje demasiado esquecida, apesar de liderar em realismo e autenticidade gráfica um exercício deliberado de registo directo sobre o real que o converteu ao mesmo tempo num instrumento de apoio imprescindível à investigação. Nesta

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se projecta parte do conhecimento que apoia e determina o perfil narrativo de cada obra, pois sem o auxílio da fotografia esse “trabalho de campo” não teria registado o mesmo rigor descritivo, nem o mesmo critério de selecção sobre os detalhes iconográficos que se lhe ofereciam como novidade absoluta. Não esqueçamos, porém, que em todo este entusiasmo prevalece uma vontade de documentar e recolher o maior número de elementos possíveis que privilegiassem o acesso à realidade social e cultural dessas comunidades que povoavam as regiões rurais mais desfavorecidas. Nessa medida, os primórdios do movimento neo-realista revelaram um nexo de atracção entre a narração literária (ficção e teatro), a lírica (poesia) e a narração documental (crítica, ensaio, crónica, diário e memórias), que acentuava a necessidade de observar e dar a conhecer o real com o objectivo de o transformar, confirmando desse modo os anos 30 e 40 como uma época ávida de apelos e convicções que ajudassem a moldar o “homem novo”. Recordemos ainda que esses anos assistiram ao recrudescimento dos conflitos bélicos na Europa e no Mundo, com a ciência a apoiar de modo cego algumas “certezas” políticas, baseando-se porém em processos de observação e conhecimento que dependiam necessariamente do registo, da análise e da organização documental.

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Alves Redol, LezĂ­ria, (Provas de contacto, 5x5cm), 1938-40

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Alves Redol, Avieiros e outros pescadores do Tejo, (Provas de contacto, 5x5cm, 4x6cm), anos 40

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Alves Redol, Avieiros, (Provas de contacto, 5x5cm, 6x10cm), anos 40

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Alves Redol, Valadores, (Provas de contacto, 5x5cm), inícios dos anos 40

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À direita: Alves Redol, Glória, (Provas de contacto, 8x5,5cm, 5,5x8cm, 5x5cm), 1937

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Alves Redol, Glória, (Provas de contacto, 5x5cm), 1937 À direita: Alves Redol, Ribatejo, (Provas de contacto, 8x5,5cm, 5,5x8cm), anos 40

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Alves Redol, Porto, (Provas de contacto, 8,5x5,5cm, 5,5x8cm), inĂ­cios dos anos 40

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Alves Redol, Porto, (Provas de contacto, 8x5,5cm, 5,5x8cm), inĂ­cios dos anos 40

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Alves Redol, Douro, (Provas de contacto, 8,5x5,5cm, 5,5x8cm), inĂ­cios dos anos 40

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Alves Redol, Douro, (Provas de contacto, 5,5x8cm), inĂ­cios dos anos 40

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À esquerda: Alves Redol, Minas de São Pedro da Cova, Gondomar, (Provas de contacto, 5,5x8cm), inícios dos anos 40 Alves Redol, Minas de São Pedro da Cova, Gondomar, (Provas de contacto, 5,5x8cm, 8x5,5cm), inícios dos anos 40

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Alves Redol, Constantino – guardador de vacas e de sonhos (Ampliação fotográfica, 8x8cm; Provas de contacto, 5,5x5,5cm), 1962 À direita: Carlos Tomé e autor desconhecido, Esperas de toiros em Vila Franca de Xira, (Ampliações fotográficas), s. d. [Fotografias do espólio de Alves Redol]

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Autor desconhecido, Sem Título, (Ampliações fotográficas), s. d. [Fotografias do espólio de Alves Redol]

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Cipriano Dourado [?], Arrozais do Ribatejo, (Ampliações fotográficas), 1953 [Fotografias do espólio de Alves Redol]

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Lima de Freitas [?], Arrozais do Ribatejo, (Ampliações fotográficas), 1953 [Fotografias do espólio de Alves Redol]

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Recorte de imprensa inspirando a personagem feminina de O Cavalo Espantado, (1960), [Espólio de Alves Redol] Em baixo: Apontamento e recorte de imprensa para a definição da personagem masculina de O Senhor SARL, (Obra não concluída), [Espólio de Alves Redol]

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Alves Redol em BD Projectos de banda desenhada em torno da narrativa redoliana

Em 1989, a Cooperativa Alves Redol e o Clube Português de Banda Desenhada, com o apoio do Instituto da Juventude e da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, promoveram um Concurso Nacional de Banda Desenhada dedicado aos jovens, intitulado A Obra de Alves Redol, que distinguia três grandes prémios. No escalão A saiu vencedor o trabalho apresentado por José Manuel Alves Morim na adaptação do conto O Castigo. No escalão B o vencedor foi Alexandre Silva Cabrita com o conto O Pai dos Mortos. No escalão C, respeitante aos mais novos, venceu João Pedro Nunes Fazenda ao ilustrar a peça de teatro Maria Emília. No âmbito das Comemorações do Centenário do Nascimento de Alves Redol, o Museu do NeoRealismo apresenta uma selecção dos trabalhos a concurso em 1989, destacando os premiados e outras pranchas que reflectem a pluralidade estilística das dezenas de Bandas Desenhadas que nesse ano concorreram à única iniciativa do género realizada em torno da obra do escritor vila-franquense.

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Pedro Loureiro A Figura

A figura e a fotografia: entre o passado redoliano e a contemporaneidade David Santos

Conhecido no meio artístico e jornalístico pelo seu trabalho de reportagem fotográfica, Pedro Loureiro é hoje não apenas um grande operator de imagem, consciente dos seus valores e técnicas (desde a imagem estática à sedução do seu movimento), como é responsável por uma singular identidade imagética, assumindo em todas as fases de produção das suas imagens uma inequívoca preocupação de cariz artístico. Do rigor formal detectado nas potencialidades do referente às cambiantes cromáticas determinadas pela lenta revelação do “preto e branco” – ainda que a cor também faça parte do seu jargão em algumas séries – o seu trabalho ilumina-se desde logo por uma particular atenção ao pormenor, ao detalhe iconográfico, transcendendo por isso qualquer leitura mais evidente ou simplista ao exigir uma revisitação sistemática do olhar do espectador. Na verdade, a maioria das imagens de Pedro Loureiro, publicadas desde os anos 90 em jornais e revistas como O Independente e a Grande Reportagem, ou mais recentemente na Ler, resultam de uma apurada sensibilidade sobre a estética do retrato, na exploração da iconografia existencial, redimensionando, desse modo, a imagem da figura humana e a sua simbologia particular, reveladora ainda e quase sempre, ao mesmo tempo, da sua envolvente social e política. Nessa medida, as suas fotografias ultrapassam em muito o mérito jornalístico, ou a motivação original que muitas vezes as desencadeia.

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Essas imagens produzem, por assim dizer, um efeito que as conduz a uma espécie de valor suplementar, como se de uma escrita do olhar se tratasse, constituindo uma espécie de arquivo sobre o pulsar quotidiano da vida e do acto de a fotografar. Desse modo, o processo de significação elaborado em torno da percepção de diferentes culturas, povos e continentes, faz-se com Pedro Loureiro na observação simultaneamente poética e documental da figura humana. O humanismo das suas imagens traduz ao mesmo tempo uma visão profunda da nossa contemporaneidade, resgatando ao esquecimento valores e sentimentos que percebemos afinal essenciais à nossa própria sobrevivência global, e ainda uma vontade de comunicar para além do que a imagem nos projecta com maior eficácia ou imediatismo, pois o artista parece pontuar em cada pedaço de vida dessas imagens uma hipótese de leitura paralela, sugerida muitas vezes em pequenos sinais que se imiscuem lentamente, dando a ver, afinal, bem mais do que apenas o valor iconográfico central de cada imagem. Viajado e marcado pelas experiências de vida dessa aventura contínua, Pedro Loureiro apresenta-nos um trabalho de retratística complexo mas sensível, que tanto convoca o cidadão comum como figuras conhecidas da nossa cultura. Entre a urbanidade europeia e a pequena aldeia do deserto, Loureiro capta a expressão de uma atmosfera de partilha essencial,

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que sabemos comum à grande maioria dos seres humanos, apesar de todas as diferenças possíveis de identificar entre eles. Nesta medida, podemos afirmar que as fotografias de Pedro Loureiro revelam um olhar particularmente atento à dimensão humana que nos rodeia, explorando não apenas a sua pluralidade político-social, económica e etnográfica, como as linhas comuns que a identificam na partilha do nosso mundo. Este é um olhar experiente, que sabe da reacção do ser humano perante a câmara fotográfica, mesmo quando em algumas das imagens produzidas ou “encontradas” certos aspectos do acaso façam as vezes da pose, como se esse exercício particular procurasse apenas confirmar as palavras de Roland Barthes: “[…] o que constitui a natureza da fotografia é a pose. Pouco importa a duração física da pose; mesmo que dure um milionésimo de segundo […] há sempre pose, porque a pose não é aqui uma atitude do alvo, nem mesmo uma técnica do operator, mas o termo de uma ‘intenção’ de leitura: ao contemplar uma foto, incluo fatalmente no meu olhar o pensamento desse instante, por muito breve que tenha sido, em que uma coisa real ficou imóvel diante do olho. Faço recair a imobilidade da foto presente no ‘disparo’ passado, e é essa paragem que constitui a pose”1. Com efeito, tal como defende Roland Barthes, a pose é o acontecimento central de qualquer imagem, mas mais ainda, acrescentamos nós, das imagens deliberadamente inventadas como retrato. Neste sentido, Pedro Loureiro promove inclusive o seu acontecer ao dialogar com as pessoas que retrata, convidando-as a darem ao olhar fotográfico aquilo que querem dar, isto é, convidando à elaboração mais ou menos “natural” da “atitude do alvo”. Apesar disso, Loureiro retira das atitudes e poses do retratado quase sempre mais do que este supõe possível de capturar. Aí reside, na realidade, a dimensão maior e artística do fotógrafo que capta a imagem dos seres humanos, na exploração intuitiva e visual da sua figura retratável. E nesse aspecto particular, Pedro Loureiro revela uma mestria que o coloca entre aqueles que não só dominam todas as técnicas do exercício fotográfico, como entre os que delas retiram o potencial necessário para definir um outro alcance fenomenológico em torno da própria imagem, interpretada assim mais como vestígio incontornável de reflexão do que enquanto efeito de transparência ou pretensiosa expressão de uma qualquer “verdade”. Aliás, a propósito do

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paradoxo e da inverdade fotográfica, Thierry de Duve alerta-nos que sendo a fotografia, ao mesmo tempo, “um paradoxo semiótico e um paradoxo fenomenológico”, é preciso lembrar como, partindo da fenomenologia, um historiador de arte como Hubert Damisch chegou à “impostura constitutiva da imagem fotográfica’2 como signo, ao passo que Roland Barthes, partindo do semiótico, confrontou-se também com o paradoxo e a impostura da fotografia, mas como ‘mensagem sem código’3”4. A teoria da fotografia produzida desde a segunda metade do século XX, tem balançado quase sempre entre estes dois vectores, resultando hoje, após o domínio do estruturalismo semiótico, numa espécie de compromisso entre a indicialidade e a expressão, entre o signo, o registo, e o real referenciado como existência concreta, pois como nos diz ainda Duve, “[…] pela sua natureza de índice, o signo fotográfico não nos permite teorizá-lo em semiótica, sem que o fenomenológico, e até o existencial, se lhe colem à pele, por assim dizer. Na imagem, o real emerge não apenas como referência, ali, mas também como existência, aqui. O real contamina a imagem indicial. Em matéria de fotografia, não podemos limitar-nos a opor, sem mais, a imagem (o signo) ao referente (a realidade) ”5. Ora, é esta dimensão complexa mas sempre sedutora da imagem fotográfica como resultado estático e sígnico e ainda a evasão que resulta do salto para o real representado que nos mantém presos e atentos, na expressão de Pedro Miguel Frade, como “figuras do espanto” perante esse acto mágico que nos apaixona e envolve na sua observação silenciosa. Este sentimento é ainda mais notório quando a imagem é um retrato, pois a humanidade apresenta-se como espelho do nosso próprio olhar, da nossa própria existência ou pertença a uma dimensão comum. Em certa medida, todos os retratos, sobretudo os fotográficos, são referentes aos retratados, mas também a quem os retrata e a quem observa o seu resultado final. Trata-se de uma troca de olhares,

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Roland Barthes, A Câmara Clara, (1980), (trad. port. Manuela Torres), Lisboa, Edições 70, 1981, p. 111. Hubert Damisch, ‘Cinq notes pour une phénoménologie de l’image photographique ‘, in L’Arc, nº 21, 1963, pp. 34-37. [Nota colhida em Thierry de Duve, “Pose e Instantâneo ou o paradoxo fotográfico”, in Lisboafhoto, Lisboa, CML-Público, 2005, p. 27]. Roland Barthes, “Le message photographique”, in Communications, nº 1, 1961, pp. 127-138. [Nota colhida em Thierry de Duve, op. cit.]. Thierry de Duve, op. cit. Ibidem.

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de expressões e significados que adquirimos e projectamos uns nos outros através dos resultados do “acto fotográfico”6, como diria Philippe Dubois, viajando assim no tempo e no espaço, através da presença perceptiva e da partilha experiencial de uma imagem. Neste contexto de interpretação e prática da fotografia enquanto retrato, Pedro Loureiro apresenta agora, no Museu do Neo-Realismo, um conjunto significativo de imagens de grande formato (100x100cm), no âmbito das comemorações do centenário do nascimento do escritor Alves Redol, figura cimeira da literatura neo-realista portuguesa e referência central da região vila-franquense. Estes retratos resultam, com efeito, de um jogo imagético que procura o fio de identidade ou reconhecimento que possa existir entre a memória das figuras ou personagens que outrora alimentaram a literatura redoliana e os ambientes humanos encontrados hoje nas mesmas regiões, explorando assim os ecos dessa leitura etnográfica sobre os grupos sociais que chamaram a atenção cívica e narrativa de Alves Redol e as dissonâncias manifestas, necessariamente, pela nossa contemporaneidade. Entre o retrato individual e colectivo, geracional e intemporal, Pedro Loureiro desenvolve, porém, uma estratégia comparativa que não produz deliberadamente juízos de valor, mas projecta no observador uma inevitável interpretação dos gestos e dos seus detalhes, ou ainda a percepção da iconografia dos objectos e acessórios que lhes dão sentido e identidade. Desse modo, estas fotografias promovem o que há de permanente entre as duas épocas convocadas, assim como o que nelas se declara como mudança subtil, mas profunda. Tal como sempre aconteceu com a fotografia, sob o “impulso mimético” identificado desde cedo por Walter Benjamin7, estas imagens obrigam-nos a reflectir sobre as diferenças e as semelhanças que nos ligam ainda aos dias em que Redol buscava nas figuras do povo do Ribatejo ou da região do Douro um traço maior de humanidade, na exaltação da sua irredutível dignidade social. De outra forma, com estes retratos, Loureiro procura vislumbrar no rosto, na pose e nos gestos das suas figuras o semblante que une todos os tempos a todas as gerações, assim como os equilíbrios ou as ambiguidades que se manifestam nos sinais de mudança que sempre caracterizam a inexorável passagem do tempo. Entre o real (vivido, rememorado ou alheio) e o seu efeito

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de representação, os retratos de Pedro Loureiro confirmam a dimensão indicial mas também existencial que está na génese da fotografia, bem como o eco de uma continuidade e tradição sobre os modos de fazer, ou ainda as rupturas ou transformações que se insinuam no aparato da sua composição contemporânea. Entre a pose e o instantâneo, esse paradoxo identificado por Thierry de Duve no trabalho fotográfico, estas imagens realizam, uma vez mais, a tarefa maior de uma ligação entre os seres humanos e os processos de significação que são determinados pela imagem enquanto signo ou conjunto de signos traduzidos na sua inevitável colagem ao real, pois não podemos esquecer que, “tal como a imagem desenhada, uma imagem fotográfica é uma superfície, mas uma superfície que não se deixa extrair ou abstrair completamente da realidade que a fez nascer”8. Por isso, apesar da expressão artística que podemos observar no trabalho de quem fotografa, a imagem fotográfica estará sempre associada à sua condição documental, primeira manifestação da sua essência, pois como nos lembra Roland Barthes, “a Fotografia não diz (forçosamente) aquilo que já não é, mas apenas e de certeza aquilo que foi. Esta subtileza é decisiva. Diante de uma foto, a consciência não segue necessariamente a via nostálgica da recordação (quantas fotografias estão fora do tempo individual), mas, para toda a fotografia existente no mundo, a via da certeza: a essência da Fotografia é ratificar aquilo que representa”9. E é precisamente o jogo eterno entre a realidade e a sua representação que mantém acesa a luz e o alcance ontológico desse efeito magnético a que chamamos fotografia. Na verdade, ao olharmos o conjunto de retratos agora apresentado por Pedro Loureiro percebemos facilmente como a fotografia nos transforma em testemunhas de um tempo, mas também em leitores de imagens que, apesar das circunstâncias específicas da sua produção, atravessam gerações, culturas e classes sociais, mantendo um vínculo estreito com esse humanismo que resiste, afinal, a todos os atropelos e se alimenta do gesto, da reflexão e da partilha da nossa condição humana.

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Cf. Philippe Dubois, O Acto Fotográfico, (trad. port. Edmundo Cordeiro), Lisboa, Veja, 1992. Cf. Walter Bejamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio D’Água, 1992. Ibidem. Roland Barthes, op. cit., p. 120.

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Fotografias, preto e branco, impress천es a jacto de tinta sobre fine art paper, 2011 223


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Emanuel Brás A Paisagem

Reservatório de mutações1 Emanuel Brás

A implementação das tecnologias agrícolas contemporâneas de plasticulture e dos sistemas de rega por aspersão, têm vindo a imprimir novas configurações sobre o espaço agrícola do Ribatejo. Apesar das diferenças entre cada um daqueles dispositivos, existe um denominador comum: o modo como luz é reflectida durante alguns períodos do dia e do ano, surgem como manifestações especulares dispersas nos campos. Contudo, apesar da intensidade visual das manifestações da luz, este fenómeno não será enquadrável numa experiência perceptiva do espaço como paisagem segundo as convenções, sejam elas de género, de médium (Mitchell, 2002), ou até segundo os estereótipos do rural. Por outro lado, valores ecológicos colidem com os riscos associados à franca expansão destas tecnologias: o aumento da área de regadio, que conduzirá ao recurso excessivo da água de lençóis freáticos; uso de materiais, por enquanto, não biodegradáveis; contaminação química do solo. Valores estes que poderão condicionar um envolvimento estético. Como é que a presença de tais dispositivos poderá ser compreendida enquanto elemento constitutivo da paisagem ribatejana contemporânea? Quais as consequências que a implementação destas tecnologias suscita para o futuro próximo da paisagem agrícola? Eis as problemáticas que o ensaio fotográfico reservatório de mutações procura reflectir. (...) Mutações morfológicas, são aquelas resultantes da aplicação das tecnologias agrícolas. As que

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têm vindo a provocar maior reconfiguração do espaço agrícola são: a implementação de sistemas de regas por aspersão e o uso de plasticulture. Além do fenómeno luminoso, acima referido, estas tecnologias imprimem outras modelações no espaço. Os sistemas de rega de pivot central, rotativo, reconfiguram o espaço alterando a forma do loteamento do território, baseada numa malha rectangular, para parcelas com a forma circular. Os sistemas de rega por estrutura fixa, implementam uma malha metálica de marcos verticais. O uso de plasticulture, pelo modo como a película de polietileno enforma os camalhões, esculpindo-os na terra, e reproduz esse padrão, – frisando pontos de fuga na percepção do espaço, e, consecutivamente, sugerindo uma expansão do espaço –, acaba por evidenciar a cobertura. Todas estas tecnologias impõem o artifício a um nível incomparável com todas as práticas agrícolas anteriores: não é só a forma que revela um grau de manipulação na configuração do solo – o que até poderá não ser substancialmente distinto das práticas agrícolas anteriores – , mas acima de tudo, a própria superfície do espaço exibe um envoltório artificial: nada na natureza se lhe assemelha. O campo agrícola surge como um híbrido: um espaço compósito. 1

Este texto é um resumo da comunicação apresentada no painel “As novas paisagens do séc. XXI” do congresso “Paisagem e Território”, organizado pela Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, que decorreu no Museu da Fundação Oriente, Lisboa, 4, 5 e 6 de Novembro de 2010.

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Mutações de economia agrícola, dependem das políticas agrícolas. Uma das culturas que caracterizava uma parte do Ribatejo era a vinha. Já no final do século XX era notório o arranque da vinha na lezíria (d’Abreu, et al., 2004: 161). A reforma da organização comum do sector vitivinícola2, com efeitos no território português entre 2008 e 2011, tem incrementado essa tendência, uma vez que permite aos agricultores receber um “prémio” financeiro, em troca do arranque e renuncia à possibilidade de exploração posterior de vinha no mesmo local. Ao longo dos 9,4 km da estrada municipal 368-1, um percurso acompanhado desde 2009, a grande maioria das vinhas adjacentes à estrada – com áreas entre 1 a 3 hectares – foram já arrancadas; existem ainda algumas ao abandono, as que são exploradas ocupam agora uma parcela minoritária do território; só duas vinhas foram plantadas de novo. O arranque da vinha está a dar lugar invariavelmente a culturas de regadio – melão, tomate e milho –, segundo as tecnologias acima referidas. O aumento de necessidade de água para irrigação é resolvido com abertura de novos furos artesianos. A vinha mesmo depois de arrancada, não desaparece; pontualmente ainda se vai insinuando, por vezes rebenta no meio dos campos; quase sempre sobrevive no único sítio possível, as sebes nas margens dos campos. Mas este renascimento, surge agora na sua variante original, de vinha americana. Mutações cíclicas são aquelas que vão ocorrendo ao longo de uma campanha agrícola, ou ao longo do ciclo das estações do ano, isto é, têm um comportamento periódico. Atendendo às culturas paradigmáticas da região, esta investigação acompanha os casos de: vinha, milho, melão, melancia, tomate e pimento. Na vinha, apesar das diferentes técnicas de disposição no terreno, há sempre um processo de modelação em contínuo: desde a cepa podada, passando pelo envoltório com que a parra progressivamente vai recobrindo a planta, até à queda das folhas, quando a planta surge resguardada num emaranhado de ramos; e... Processo este, em que a modelação de cada planta se amplifica como parte da modelação do lugar. No caso do milho ao mesmo tempo que a planta vai crescendo, vai sendo dissipada a regularidade da trama da plantação, vai sendo ocultada a presença dispositivos de rega, assim como a percepção da extensão do espaço, a percepção do horizonte vai sendo diminuindo até ao ponto

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em que a densidade e a altura das plantas existem como uma barreira visual. Após, a colheita o horizonte fica novamente descoberto, e o toda a extensão do campo surge cravejado de tocos. Os dispositivos de rega aparecem outra vez implantados espaço; mas, agora inactivos. As culturas que envolvem tecnologia com plástico, apesar de diferentes tipos de espécies – pimento, melão, melancia – e correlativos tipos de filme de polietileno utilizado, todas apresentam a regularidade da manifestações do plástico: a ordem da cintilação. À medida que as plantas vão crescendo, a área descoberta do filme de polietileno vai diminuindo e consecutivamente a expressão visual das reflexos vai desaparecendo. Até à altura, em que deixam de ser perceptíveis. Após a colheita, as reflexões surgem outra vez dispersas no campo. E, no final todos os tipos de plástico, tanto a película que recobria a superfície, como os tubos de irrigação até então ocultos pela superfície, aparecem amontoados nos campos enquanto aguardam recolha para reciclagem. Sucessão de montes de matéria inorgânica, agora opaca, e residual que sugere uma espécie de métrica sobre o espaço. O artificial surge com outra expressão. (...) O envolvimento continuado com o espaço vem mostrar o carácter efémero da paisagem ribatejana, presente num agregado complexo de mutações: da ordem do que reaparece ciclicamente; outras que resultam de práticas agrícolas e tipos de cultura, como a vinha, que persistem mas já não têm a preponderância do passado na caracterização da paisagem; e as mutações que resultam do impacto visual que as tecnologias agrícolas contemporâneas imprimem sobre o território. O estado actual do território agrícola revela uma disseminação de manchas que exibem o artifício resultante da implementação de tecnologias de regadio. Uma presença que pelo materiais não naturais que envolve, pelos efeitos visuais que suscita, confere ao espaço uma aparência híbrida. O artifício suscita uma outra poética da paisagem. 2

Portaria nº 701/2008, Diário da República, 1ª série – Nº 145-29 de Julho de 2008.

Referências bibliográficas d’Abreu, A. C., Correia, T. P., Oliveira, R. (coord.) (2004) Contributos para a Identificação e Caracterização da Paisagem em Portugal Continental, Vol. IV – Grupos de Unidades de Paisagem K-Q, Lisboa: Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano. Mitchell, W.J.T. ( 2002) Imperial landscape. In Mitchell, W.J.T.( 2002) Landscape and Power. (2ª edição) Chicago: The University of Chicago Press.

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Reservatório de mutações local 7 (arredores de Quinta-Nova, junto da estrada M 368-1, concelho de Alpiarça) 2 Maio e Novembro de 2009; 24 Abril, 15 Junho, 25 Julho, 13 Setembro, 16 e 21 Novembro de 2010) Dimensão (cada): 50x62,5cm. Impressão: jacto de tinta sobre papel Epson Premium Photo Paper.

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Ao longo da estrada 368-1 Outubro 2009 vídeo mini DV (vídeo still)

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A história do ceifeiro rebelde Uma Biografia de Alves Redol António Mota Redol

1911 António Alves Redol nasce a 29 de Dezembro, em Vila Franca de Xira, no 2o andar do nº 18 da Rua do Açougue, hoje Rua dos Heróis da Guerra Peninsular, filho de António Redol da Cruz, então marçano e Inocência da Purificação Alves, costureira, casados em Janeiro do mesmo ano. Pais e avós António Redol da Cruz, nascido em 1887, é filho de João Redol, então feitor em Pegões Altos numa propriedade de uma senhora da Golegã, junto ao aqueduto filipino que alimenta o Convento de Tomar. João Redol nascera na Golegã e fora campino, tal como outros membros da família, todos aqui nascidos. Muitos desses outros membros fazem a “fanga”, sistema de arrendamento da terra em que o proprietário fica com a maior parte da produção. A mãe de António Redol da Cruz é Ana da Guia, também nascida na Golegã, de origem avieira, mas que, com o falecimento do pai e não havendo homem que dirija o barco, passa a trabalhar no campo, o que é situação muito rara entre os avieiros. Tal como o casamento com não avieiros também o é. João Redol adquire umas terras no Casal da Cabrita e a família vai viver para aí. Nascem-lhe onze filhos, dos quais falecem cinco. O jovem Alves Redol vai muitas vezes para casa dos avós e acompanha-os quando se deslocam de carroça para Tomar, para venderem a broa de milho e os queijos de ovelha que a avó fabrica. A avó, uma católica ferverosa que reza várias vezes ao dia, baptiza-o, já crescido, na Igreja de Carregueiros e tenta ensinar-lhe o “pai nosso”, o que não consegue, apesar do afinco. António Redol da Cruz, depois de seu irmão Francisco, vem trabalhar para Vila Franca de Xira como marçano, para a loja do “Tosse”, tendo participado na revolução republicana de 1910. Conta a várias pessoas, entre as quais o autor destas linhas, que, quando os revoltosos republicanos combatem na Rotunda sob o comando de Machado Santos, vai ter com ele, em missão, que lhe é entregue pelos republicanos

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vila-franquenses, de adesão à revolução republicana. Vila Franca de Xira proclama a República poucas horas depois de José Relvas o ter feito na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Como na capital, a Câmara Municipal de Vila Franca é dirigida pelos republicanos, sendo seu Presidente José Dias da Silva. É colaborador do jornal Vida Ribatejana e correspondente do Diário de Notícias em Vila Franca. É dirigente de várias colectividades com relevo para a Associação Fraternal dos Artistas Vilafranquenses (Montepio), tendo pertencido aos seus corpos gerentes durante anos. Nos últimos anos de vida, dedica-se a apoiar a banda do Ateneu Artístico Vilafranquense. Adere ao 28 de Maio e é filiado na Legião Portuguesa, desfilando na vila em dias comemorativos, como já fora simpatizante de Sidónio Pais. É nomeado regedor . Todavia, na sua casa da rua principal de Vila Franca de Xira, então Rua Palha Blanco, iça todos os anos na varanda, no dia 5 de Outubro, a bandeira republicana, o que faz até à sua morte ou, pelo menos, até à substituição do prédio por outro, construído de novo, onde também mora e vem a falecer. Inocência da Purificação Alves, era filha de Venâncio Alves, ferrador, originário de Bucelas, que vem para Vila Franca, uma vila que é um grande polo comercial abastecedor de toda a região, em busca de uma clientela mais numerosa e abastada. Maria da Purificação era a mãe. O casal teve sete filhos, que trabalham arduamente na forja sob a férrea direcção do pai. Já em Vila Franca, são pegadores de toiros afamados, em especial Luís Venâncio Alves. Este é, também, corredor de bicicletas, tendo ganho algumas provas regionais e é um dos dois fundadores principais do Grupo de Futebol Operário Vilafranquense. Na sua loja de bicicletas, é a sede provisória do clube. Luís e os outros filhos do ferreiro, Manuel, Joaquim e Miguel vão morrendo, sucessivamente, tuberculosos. Salvam-se Inocência e Carlos. Este, vivendo em casa do casal António/ Inocência, foi responsável pela loja de fazendas. Venâncio Alves é a figura principal da peça de teatro Forja, o Francisco Malafaia, cujos filhos, dos quais dois têm os

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Casa comercial de António Redol da Cruz, mercearia, loja de fazendas, padaria e torrefação de café, nos anos 20 do séc. XX.

nomes iguais aos originais, vão morrendo tuberculosos, sucessivamente, como na vida real, apenas se salvando o mais novo. A mãe Inocência, católica praticante, peregrina a Fátima nos primeiros momentos da existência do santuário, é o primeiro vilafranquense a aderir a um grupo evangélico – que, com outros, veio a formar a Igreja Lusitana, ligada à Igreja Anglicana, a confissão oficial inglesa - em resultado da acção de um pregador, José Ilídio Freire, que vem de Lisboa apresentar a versão do cristianismo dos grupos evangélicos nas ruas da vila. Pouco depois forma-se um núcleo, que realiza as suas práticas públicas numas instalações existentes em frente da casa do casal Redol. São conhecidos na vila por “os protestantes”. As suas práticas são muito simples, a sala não tem quaisquer imagens religiosas, entoam os seus cânticos e leêm e interpretam a bíblia, em conjunto e, a sós, em casa. Inocência lê todos os dias passos da bíblia. 1913 – 1918 Rua dos Varinos O pai estabelece-se com uma loja de mercearia na Rua 5 de Outubro – supõe-se que a venda que efectua aos irmãos da sua parte na propriedade da família no Casal da Cabrita deve ter sido, com algum dinheiro poupado, a fonte de financiamento que lhe permite montar esta loja - num quarteirão onde mais tarde é construído o edifício dos CTT, e a família vai viver numa casa da mesma artéria no nº 122 r/c. A rua, antiga Rua do Alegrete, nesta altura Rua 5 de Outubro, era conhecida por Rua dos Varinos, por aí morarem os pescadores oriundos da Murtosa, que pescam no Rio Tejo e estendem as suas redes no designado Largo da Aclamação da República (depois, Campo da Aclamação da República e, mais tarde, Largo 5 de Outubro), junto à Praça de Toiros, que tem este nome porque é aqui que os republicanos vila-franquenses terão aclamado a Républica no próprio dia 5 de Outubro. No entanto, a proclamação oficial da República faz-se na Praça Afonso de Albuquerque da varanda da Câmara Municipal, pouco tempo depois de se ter realizado em Lisboa.

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Não são raros os conflitos entre os varinos e a restante população da localidade, por vezes com cenas violentas. É com varinas e pescadores que o jovem Redol convive e aprende os palavrões e as brejeirices da época. Naquele Campo joga, mais tarde, com bolas de trapos. Aqui convive assiduamente com jovens ciganos, circunstância a que se refere em entrevistas e em textos autobiográficos. Um deles, de nome António Cambão, é,mesmo, figura dum dos seus romances. As crianças brincam às touradas e imitam os ídolos da terra. António Luís Lopes vivera em Vila Franca e fora, até anos antes, um dos maiores cavaleiros nacionais. Agora, toureiam frequentemente na Praça de Touros Palha Blanco, Rufino Pedro da Costa, Ricardo Teixeira, Salvador Falé Gonçalves e, pouco depois, aparecem João Núncio e Simão da Veiga Júnior. Os bandarilheiros vilafranquenses são os preferidos: Ribeiro Tomé, Francisco Rocha, João Froes e Mateus Falcão. Dos forcados, destaca-se Manuel Burrico. Há, frequentemente, corridas com picadores. Redol é um entusiasta das touradas e das touradas improvisadas com touros simulados com carrinhos com rodas e com cornos verdadeiros, as tourinhas. A mãe faz-lhe um casaco de veludo com que “toureia a cavalo”: “Escarranchava-me num pau com uma cabeça de cavalo enfiada na ponta”. Mais tarde, dá preferência aos forcados. O pai leva-o, certamente, às corridas da Palha Blanco, como, muito mais tarde, leva os netos. Também nesta rua, tem o seu primeiro namorico. Em 1913, morre o irmão Carlos. O funeral é no dia em que Redol faz dois anos Em Setembro de 1915, morre outro irmão, também chamado Carlos. 1918 No início do surto da pneumónica (1918-1919), que é muito devastador em Vila Franca, vai viver com a mãe para Lisboa, na Rua do Poço dos Negros, em casa de uma prima. Antes disso, morrem os tios Manuel e Joaquim, tuberculosos. Em 23 de Dezembro de 1918 morre a irmã Celeste, em 18 de Janeiro de 1919 fina-se o avô Venâncio e, em Fevereiro, o tio Miguel, tuberculoso. São muitas mortes em pouco tempo. Depois morrem mais dois tios. Redol é afectado por essa circunstância para o resto da sua vida. “A morte rodeia-me a infância, dá-me a mão, e deixa atrás de si um rasto de silêncio, de dor, de ausência, um cortejo de insegurança”, escreve Alves Redol no prefácio de Teatro I. Por isso, em criança, quando lhe perguntam que profissão quer seguir, Redol responde que quer ser médico. Quando a irmã morre, já o pai passara a mercearia para a Rua Miguel Bombarda, abrindo, também, uma padaria. Esta loja é assaltada pela multidão num dos períodos difíceis da falta de alimentos no período da guerra. 1914-1918 Neste período decorre a 1ª Guerra Mundial. Entre 2 de Janeiro de 1914 e 2 de Janeiro de 1918 António Redol da Cruz é Vogal da Junta de Paróquia Civil, designação 243


que tinha então a Junta de Freguesia. Alíás, é Vogal da Junta de Freguesia (passa a ter esta designação com a reforma de 1918 ou 1919) entre 2 de Janeiro de 1926 e 18 de Julho deste mesmo ano. Depois, com o 28 de Maio, a que adere, volta a ser Vogal, agora da Comissão Administrativa da Junta de Freguesia – portanto, por nomeação e não por eleição, como anteriormente - entre 11 de Agosto de 1926 e 7 de Janeiro de 1938. Com a Grande Guerra o pai Redol acumula fortuna, o que lhe permite alargar a sua actividade a outros ramos e mandar construir um prédio na rua principal. 1921 É inaugurado esse prédio, onde ele instala uma mercearia, uma loja de fazendas e uma padaria. O projecto é de José da Silva Santos, pai de Arquimedes da Silva Santos. As duas famílias criam amizade. Mais tarde, é construído novo prédio, ao lado do primeiro, onde instala uma torrefação e moagem de café. 1918-1922 Alves Redol faz a Instrução Primária na Rua dos Varinos na Escola das Maroucas, duas conhecidas professoras solteironas, onde se destaca pela habilidade para a escrita . Em 1923, faz o exame de admissão ao Liceu Passos Manuel, que não frequenta. 1923-1927 Colégio Arriaga Frequenta o Curso Comercial no Colégio Arriaga, na Rua da Junqueira, como interno. Vai a casa aos fins de semana e nas férias, momentos em que o pai tenta colocá-lo a trabalhar nas lojas, contra o que reage. Prefere a farra e as raparigas. Namora uma rapariga mais velha, de Alhandra, o que lhe traz problemas, devido à grande rivalidade entre as duas vilas. Essa rivalidade, traduz-se, por vezes, em conflitos que terminam em violência, em particular quando os clubes de futebol das duas terras se encontram. No Colégio funda um jornal manuscrito, em que escreve os artigos, que são passados a limpo por um colega de boa letra (o que não é o seu caso!), com desenhos de Luís Kol, um colega angolano, filho de pai branco e mãe preta. É ameaçado de expulsão por criticar o Director da escola e a gestão do refeitório, em especial por causa da má qualidade do caldo verde. Devido a dificuldades económicas, o pai pretende tirá-lo do Colégio, pois a mensalidade é elevada e vai aumentar. Redol pede ao pai que o deixe concluir o Curso, pois, quando estiver a trabalhar, lhe pagará. O Director aceita não aumentar a mensalidade. Conclui o curso com a classificação de “Bom”. Neste período, Redol joga futebol no “Grupo Pátria”, de Lisboa e num grupo do Rio Seco. Por esta época, ou ainda antes, funda com amigos de Vila Franca o Clube União Futebol Académica, podendo ser este o clube de que numa entrevista declara ter sido um dos fundadores e ter dado origem ao Sport Lisboa e Vila Franca, filial do Benfica. Redol faz parte de um grupo de jovens, filhos de comerciantes e de gente grada da terra, os quais estudam, interessam-se 244

Caricatura de Redol, desenhada pelo colega Luís Kol, do Colégio Arriaga, para cuja casa, em Luanda, vai viver em 1928.

pela cultura e pretendem ser “alguém”. É conhecido na vila por “Mocidade Esperançosa”. Este grupo é referido, com esta designação, no romance Marés. Dele fazem parte, além de Redol, Antero Ferreira, António Vidal Baptista, Edmundo Moura, Emílio Diniz Lopes, Patrício Dias da Silva, entre outros. 1926 Em Fevereiro, é inaugurado o Café Central, numa sociedade entre Francisco Rocha e António Redol da Cruz, local onde também funciona uma delegação do Diário de Notícias, de que Redol da Cruz é correspondente. O Café tem uma telefonia “onde se ouvem concertos internacionais”, segundo Vida Ribatejana de 21 de Fevereiro. O edifício fora mandado construir por quatro sócios: além de António Redol da Cruz, Manuel Rodrigues Mota, grande amigo do pai Redol e futuro sogro de Alves Redol, Casquinha e Garrido, segundo Silvestre Mota. O autor do projecto é José da Silva Santos, pai de Arquimedes da Silva Santos. Alguns anos depois, a família Mota fica sendo a única proprietária do edifício e ali fixa residência no primeiro andar. 1927 Alves Redol publica a sua primeira colaboração num jornal impressso: “Homenageando”, Vida Ribatejana, nº 253, de 10 de Julho de 1927, onde, além de fazer sugestões para a obtenção de receitas para socorrer a pobreza, sugere a criação de uma biblioteca pública. Nesse mesmo ano e no ano seguinte, antes de partir para Luanda, publica mais sete textos no mesmo jornal. Já quando escritor consagrado, Redol diz que se dedicara a escrever nos jornais da terra por influência de uma visita de vários jornalistas a Vila Franca, durante umas festas, levados pelo pai, então correspondente do Diário de Notícias. Terminado o curso o pai tenta que trabalhe nas lojas, tomando conta da escrita. Também vende cafés da torrefação

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Inauguração do Café Central em 1926. É explorado por Francisco Rocha e António Redol da Cruz. O edifício é desenhado por José da Silva Santos e é propriedade de Manuel Mota, António Redol da Cruz, Casquinha e Garrido. Mais tarde, a família Mota é a única proprietária.

do pai na área de Alenquer e Cartaxo. Mas o jovem Redol continua a preferir os bailes, as farras nocturnas e as raparigas. A mãe esconde a situação e até lhe cede a chave de casa para poder ausentar-se de noite. De manhã custa-lhe levantar-se, a escrita das lojas atrasa-se, o pai descobre a marosca, castiga-o e tem com ele uma conversa muito dura. Talvez tenha sido por isto que o pai, quando Redol propõe ir para Angola para ajudar a salvar o negócio não tenha dado um rotundo “não”. Ambos devem ter percebido que a vida do jovem tem de levar uma grande volta! Por esta altura, o jovem tem um namorico que provoca escândalo na terra. A casa de António Redol da Cruz Na grande casa de António Redol da Cruz, que se situa por cima das lojas, na Rua Palha Blanco, juntam-se vários sobrinhos do casal, quer filhos do irmão Francisco que, vivendo em Tomar, falece novo, quer filhos e netos dos irmãos de Inocência. O matador de toiros José Júlio e a irmã Manuela, netos de Joaquim Venâncio, são dois deles. Várias gerações de sobrinhos por ali passam. É uma casa aberta a quem necessita de ajuda, mesmo que não seja da família. Há várias opiniões políticas e religiosas que se confrontam e dialogam. E religiosas. Vila Franca é, então, uma localidade de grande actividade e de forte migração. São os trabalhadores da Lezíria, os campinos, os valadores, os descarregadores do cais, os varinos, os gaibéus, os carmelos, mais tarde os avieiros, a gente que vem das aldeias e concelhos rurais limítrofes, os operários das fábricas da terra e das terras vizinhas. Redol contacta na vila com todos esses grupos e nas lojas do pai onde se vão aviar. Neste grande caldo, em casa e na vila, forja Alves Redol a sua personalidade, antes e depois da sua estadia em África. Redol fala frequentemente disso. 1928 Actor amador A 3 de Junho, Alves Redol estreia-se como actor amador na revista Ida e Volta, numa organização de Vida Ribatejana com fins de beneficiência, apresentada no Cinema-Teatro, com texto de António Lúcio Baptista, João Pisco, Ernesto Nunes, Francisco Câncio e Fausto Dias e com música do

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maestro Raul Portela, Francisco Filipe dos Reis, Artur César Pereira, José António Félix, Arnaldo de Araújo e Emílio Diniz Lopes, jovem músico muito talentoso que pertence ao grupo “Mocidade Esperançosa” e que, depois, integra o “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”. A encenação é de José Clímaco, actor-empresário do Eden-Teatro, de Lisboa (onde encena revistas de muito êxito) e de Francisco Filipe Reis, de Alhandra. Os cenários são de Noel Perdigão. Participam dezenas de pessoas como actores e como figurantes – só no quadro final, dedicado ao Ribatejo, participam cinquenta figurantes . Muitos dos nomes tinham larga experiência de teatro amador. O jovem Redol representa o quadro “Largo da Estação”, local a que, mais tarde, se refere nos seus livros, nomeadamente Olhos de Água, e que é muito importante na sua vida. A revista é um grande êxito, com apresentações nos dois dias seguintes e outras posteriores. O facto da realização da revista ter objectivos de beneficiência, mostra que a constante referência dos jornais da terra ao problema da pobreza corresponde a uma grave questão que se vem arrastando, que a República não resolvera e que se agrava com a Primeira Grande Guerra. Em certos momentos, o assalto a mercearias, que se verifica por todo o país, dá-se, também, em Vila Franca, e a própria loja do pai de Redol, como se viu, é vítima de um acontecimento desses. Esta situação não desperta, então, uma consciencialização do jovem Redol para a organização da sociedade. Pelo contrário, em cartas aos amigos, mostra-se avesso àqueles que protestam. Por outro lado, à vida na loja, Redol prefere a escrita para o jornal local, o teatro e a leitura, utilizando, especialmente, a biblioteca de Antero Ferreira. Os autores portugueses são os preferidos: Camilo, Eça, Antero de Quental, Raul Brandão, Teixeira de Pascoais, António Patrício, Forjaz de Sampaio, Aquilino Ribeiro, Almada Negreiros, António Ferro, José Tagarro. Lê o Orfeu e a Presença. Influenciado pelos modernistas, tem aversão a Dantas e Carlos Reis. Fialho de Almeida tem um impacte grande num jovem de “sensibilidade exaltada”, escreve Redol mais tarde. Nessa época, Vila Franca é uma terra importante na região, bem localizada, com um comércio de âmbito regional muito desenvolvido, com grandes casas comerciais. Com lindas vistas para a Lezíria, lá do cimo do Monte Gordo, então ainda não explorado e para os montes que rodeiam a terra e que se estendem para Arruda dos Vinhos e Alenquer. Tem uma grande actividade associativa, em particular, cultural. Ida para Angola Ainda em 1928, enfrentando o pai graves problemas financeiros em contexto que antecipa a grande crise de 1929 – tanto que, Redol da Cruz obtem um emprego no matadouro – o jovem António propõe ao pai ir para Angola trabalhar, não só para poder pagar-lhe a dívida a que se comprometera para terminar o curso, como para poder amealhar o suficiente para salvar a casa comercial. O pai,inicialmente relutante, mas sabendo que o filho tem de procurar um rumo, acaba por concordar. Mas tem de recorrer aos amigos para suportar as despesas da viagem. 245


A 5 de Julho, apenas com 16 anos, parte no paquete Niassa para Luanda. Os pais vão-se despedir, mas a mãe apesar do grande sofrimento diz-lhe, apenas “ – Tem juízo ! Tem coragem !… Foram as únicas palavras que lhe ouvi no cais – e nem uma lágrima. E eu também não chorei – e precisava de chorar. Livrou-me meu pai desse pesadelo, porque o seu pranto me encharcou a cara”, escreve Alves Redol num texto publicado no jornal Itinerário. Viajando em 3 ª classe, encontra condenados “por crimes na militança”. Nunca explica se esse contacto tem alguma influência na sua viragem ideológica. Se esses deportados lhe terão mostrado aquilo que desconhecia. Do navio, envia para Vida Ribatejana crónicas intituladas “De Longe”, a primeira intitulada “Partida”, datada de 7/1928, mas só publicada em 16 de Setembro de 1928. Seguem-se mais cinco crónicas. Já em Luanda continua a enviar crónicas sob este título. São mais dez, fechando-se o ciclo com a publicação da última em 27 de Julho de 1930. No final da viagem “desembarquei com 50$00, uma garrafa de vinho do Porto”. Está seis meses “às sopas do Kol”, parte dos quais desempregado, dando aulas de estenografia numa escola nocturna. O colega do Colégio Arriaga, que o deve ter desafiado para esta “aventura”, era filho de pai branco e de mãe preta. Por influência do pai Kol, consegue emprego na Direcção dos Serviços de Fazenda em Setembro, mas acaba por não ocupar o lugar, “por causa dos deportados políticos”, segundo diz numa carta para o pai. Em Outubro, escreve uma carta muito desesperada a Júlio Goes por não conseguir emprego, embora se refira às noitadas, aos seus amores com “mulatas maravilhosas”. No livro de contos Histórias Afluentes descreve essas e outras experiências . Deve ser numa dessas noitadas que, ao regressar a casa às tantas da manhã, vê uma coluna de pretos que, enquadrados por gente armada, é embarcada num navio, que, depois, sabe que se destina a levar os seus ocupantes para trabalharem em minas da África do Sul. É a escravatura em pleno século XX. Provavelmente em Novembro, consegue o emprego na Fazenda e começa a trabalhar a 14 do mesmo mês, ganhando mil escudos. Promete ao pai começar a enviar-lhe dinheiro todos os meses, pois o pai do Kol não quer que contribua para as despesas da casa. Tenta, então, ser correspondente do Diário de Notícias, certamente por influência do pai, correspondente em Vila Franca. Todos os meses envia, agora, dinheiro para o pai. Colabora, anonimamente, no jornal angolano Última Hora. 1929 Em Fevereiro, tem uma grande desavença com o pai Kol, que o acusa de ter um caso com a mulher, o que Redol sempre negou, apesar de ser um jovem com grande poder de sedução, o que mantem por toda a vida. Abandona a residência. Nessa circunstância, terá dormido no jardim e come “pela primeira vez, o pão que o diabo amassou”. “Faltava-me provar a vida assalariada. Aí a tinha plena, sem amparo de família”. Aluga um quarto e, em Abril, já está a trabalhar como ajudante de guarda-livros na firma Bernardino Corrêa & C.ª, com sede em Lisboa e delegações em África, 246

Antuérpia e Hamburgo, que é representante dos automóveis Dodge, dos pneus Good Year e de peças para automóveis. O jovem emigrante torna-se num “bom vendedor de pneus”, segundo palavras suas e “trata da publicidade nos jornais e das exposições nas montras”. Oferecem-lhe a gerência da filial em Nova Lisboa, mas não pode ocupar o lugar, por falta de idade. Redol também vende roupas que o pai lhe envia. Continua a remeter cheques para este, de valor cada vez mais elevado. Em Outubro de 1929, o seu escrito incluído na série “De Longe…”, “Lisete”, é de ficção, o primeiro da sua carreira de ficcionista. Segue-se “Confissão”. 1930 No início do ano, está a viver numa casa da ilha de Luanda. Terá sido nesta casa que encontrou a tal “mina”, um caixote de livros a que se refere no prefácio à 6ª edição de Gaibéus. Supõe-se, pela ênfase que dá à descoberta, que esses livros muito tenham contribuído para a sua viragem ideológica. Em 1946, declara numa entrevista a Rui Grácio para a revista Itinerário, de Lourenço Marques, onde Afonso Ribeiro tem lugar de destaque: “Considero essa viagem e essa estadia decisivas para a minha vida: foi uma autêntica ‘viragem’. A condição do negro é que me abriu os olhos para a condição do branco na Metrópole”. Também por essa altura, faz “um discurso socialista que até mandava ventarolas”, segundo escreve numa carta ao amigo vilafranquense José Pedro

Cena de mercado de Luanda, vendo-se Alves Redol de chapéu.

Horta . Quer dizer, a sua perspectiva ideológica está em processo de mudança. Procura colocação para amigos de Vila Franca, conseguindo trabalho para António Guimarães, filho de uma família amiga. Como as dificuldades da família continuam, põe-se a hipótese de irem todos para Angola, para o que Redol faz diligências em Luanda. Em Maio, funda com outros, entre os quais o amigo Artur Bruto da Costa, no Sporting Club de Luanda, talvez a primeira equipa de basquetebol de Luanda (provavelmente de Angola), sendo o capitão da equipa. Está documentada a informação de que essa equipa realiza o primeiro jogo público daquela modalidade desportiva da capital da colónia. Joga futebol nas segundas categorias do clube, equipa em que predominam os africanos de cor.

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Em finais deste ano, Redol contrai a malária, ficando entre a vida e a morte durante seis meses, em que é tratado por um amigo alentejano de nome Rato, o qual “para me dar de comer roubou galinhas”. 1931 Escreve poesia que envia para Vida Ribatejana . Não é novidade, já que, logo em meados de 1928, escreve poemas que se destinam a um volume denominado “Confissões”, que tenciona oferecer ao pai. Estando muito debilitado resolve voltar. A 30 de Abril desvincula-se da firma, pede o passaporte e, no navio Angola, parte para Lisboa no dia 6 de Maio ou nos dias seguintes. Regressa “mais para a morte do que para a vida”. Vida Ribatejana noticia que vem “em gozo de licença”. A doença afecta-o para o resto da vida. Não terá ficado a trabalhar com o pai, provavelmente devido às dificuldades deste, apesar de lhe ter enviado de Angola a quantia de 50 contos, quantia muito elevada para a época, igual ao valor do capital da empresa comercial de António Redol da Cruz. Esta empresa, a António Redol da Cruz & Cia Lda, constitui-se em Abril de 1926 e tem três sócios: Redol da Cruz, Henrique Neves Pereira e José Lopes Redol, um dos sobrinhos que o pai Redol cria em sua casa. Alves Redol emprega-se como guarda-livros na firma de Veríssimo Cordeiro Narciso, no Cartaxo, que vende farinhas, cereais, legumes, mercearias, azeites, sulfato, enxofre, adubos e purgueiras, isto é, um negócio semelhante ao do pai, onde permanece apenas até Agosto, pois tem de sair por razões de saúde: “uma doença grave tirou-me dos balancetes e colocou-me na disponibilidade para morrer”. De novo, sente a morte por perto. Vários indícios parecem apontar para que terá vivido no Cartaxo, enquanto está ao serviço daquela empresa. Nesta época deve ter ido à inspecção militar, de que, aliás, fala ao pai nas cartas que lhe escreve de Luanda – pensando, então, que o concretizará aquando da visita de férias que projecta fazer aos pais – pois, com data de 1931 é passada a caderneta militar: “isento definitivamente”. Apesar da fraqueza continua a escrever para Vida Ribatejana, onde publica vários contos “O Modelo”, “O Lambéu”, “Volúvel” e “Almas Perdidas”. Em Novembro, publica o conto “África em Fogo”. É a sua primeira produção literária de ambiente africano. A acção passa-se numa zona de montanhas, floresta e rio e o soba Quiponga é a figura central. Mas a breve prazo começa a participar nos ensaios de uma opereta, “Mam’zelle Nitouche”. Alves Redol vive em casa do pai. Recorde-se que em 14 de Abril deste ano é proclamada a República em Espanha, depois da renúncia do rei Afonso XIII, facto que é saudado em Portugal e em toda a Europa pelas forças de esquerda, mas nos escritos de Redol nada transparece. Neste ano, é deportado para Timor José Alves Jana, para onde parte a 28 de Junho no navio “Gil Eanes” com outros deportados. Natural de Macau, mas provavelmente a viver em Vila Franca ou, pelo menos, visita assídua, pois chega

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a namorar Maria dos Santos Mota, futura mulher de Alves Redol – mal sabe das actividades políticas anarquistas do jovem a mãe da rapariga, Emília dos Santos Mota, obriga a filha a acabar com o namoro - irmão do médico Dr. António Alves Jana, muito conhecido na localidade e que em início de 1930 tem uma “ausência forçada”, segundo relata o Mensageiro do Ribatejo. José Alves Jana só é evacuado de Timor em 1943. Também um irmão de Júlio Goes, Rodrigo José Pedro Goes, dado no auto de deportação como empregado de escritório, é deportado para Timor com outros presos políticos, para onde parte a 3 de Setembro no navio “Pedro Gomes”, tendo ali permanecido até 1933, beneficiando de uma amnistia de Dezembro de 1932. Ora, dada a proximidade de Alves Redol a Júlio Goes e o conhecimento que certamente tinha do Dr. Alves Jana, o jovem não deixa de ter notícia das duas situações, o que, certamente, contribui para um maior esclarecimento sobre o regime então vigente. 1932 Não há informação sobre a sua actividade profissional. Terá estado desempregado durante um ano e tal. Em Janeiro, a favor do Hospital e da Associação dos Bombeiros Voluntários, estreia-se num teatro improvisado na “Verbena de Caridade” na Rua Serpa Pinto, a opereta em quatro actos Mam’zelle Nitouche, que também teve grande êxito e diversas representações. A encenação é de Domingos Poeira, amador de larga experiência, a cenografia de Noel Perdigão. A direcção musical é de Emílio Diniz Lopes, que compôs uma valsa propositadamente para o evento, que foi cantada por Maria Boa-Morte. Participam cerca de trinta pessoas como actores e figurantes. Alves Redol tem um pequeno papel. Em 24 de Abril, estreia-se no palco do Club Vilafranquense a peça em dois actos À Sesta, de Faustino dos Reis Sousa, que vivia em Vila Franca, mas era natural da Ribeira de Santarém. A encenação é do autor e o cenário de Artur César Pereira. Os actores eram amadores do próprio Club. Alves Redol fazia um dos papeis principais, o maioral. Na mesma sessão foram apresentadas mais duas peças, uma de Ramada Curto, outra de Eduardo Garrido. À Sesta foi apresentada, também, durante a realização do primeiro Colete Encarnado. O texto exaltava as tradições ribatejanas duma forma que, mais tarde, Redol rejeitaria, nomeadamente em opiniões escritas. O palco do Club Vilafranquense tinha já então uma importante história teatral. Por ele passaram muitos dos melhores actores portugueses da época, representando peças que tinham tido grande êxito em Lisboa e foram apresentadas produções do seu Grupo Cénico, onde se destacarm vários actores amadores. Mensageiro do Ribatejo e O Notícias Ilustrado Alves Redol continua a escrever para Vida Ribatejana, mas no dia 30 de Junho com o artigo “Um Inquérito Oportuno – Reune o Tribunal” inicia a sua colaboração em Mensageiro do Ribatejo, jornal de tendência republicana, cujo primeiro 247


director foi António Lúcio Baptista e primeiro secretário da redacção J. Neves de Carvalho, e que terá nascido de dissidências com aquele jornal, afecto ao regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926. Redol publica ainda alguns textos em Vida Ribatejana, mas, depois, só o fará circunstancialmente. Mas começa a colaborar numa publicação de âmbito nacional, em resultado de um concurso, em que participa, em O Notícias Ilustrado, revista da Empresa Nacional de Publicidade, que também era proprietária do Diário de Notícias. Não é premiado, mas em 5 de Junho publica ali a novela “Um Drama na Selva“, a convite da revista. Seguem-se as novelas “Gente Rude” e “Entre Pinheirais” ainda em 1932, “O Último Vôo”, “O Zé Valente” e “O Modelo” em 1933 e “Borda d’Água” em 1934. Nesta publicação, Redol encontra o futuro escritor Faure da Rosa, que também ali colabora. Associação de Classe dos Operários da Construção Civil e Ofícios Correlativos Neste ano, a Associação de Classe dos Operários da Construção Civil e Ofícios Correlativos está inactiva. Perante a grande crise de trabalho que se verifica no país e na região, em 1 de Abril realiza-se uma reunião dos operários para a reactivar, presidida por Júlio Filipe, secretariado por José da Costa Frade e António de Sousa. Manuel Dias Lourenço (Cascais), um dos fundadores da Associação é um dos sócios mais activos na reunião. Em 11 de Julho há eleições, sendo eleitos, para a Assembleia Geral, Júlio Filipe (Presidente), António Maria de Sousa (1º Secretário), Manuel Dias Lourenço (2º secretário), Nicolau da Silva e Joaquim Lopes (Vogais), para a Direcção José da Costa Frade (Presidente), António Pereira Vitorino (Secretário), Armando da Fonseca (Tesoureiro). António Vitorino é, mais tarde, o cozinheiro dos “passeios no Tejo”. Nesta mesma assembleia é aprovada a realização de um curso de desenho e geometria proposto por Alves Redol, Antero Ferreira e Edmundo Moura. Este grupo e outros da “Mocidade Esperançosa” – Emílio Diniz Lopes e Patrício Dias da Silva – organizam, então,aulas de alfabetização e aulas de “aperfeiçoamento profissional” (português, desenho e geometria) para os operários e outras pessoas. A sede da Associação é no nº 5 da Rua Almirante Cândido dos Reis, no cais de Vila Franca, o qual na altura era um lugar de grande movimento de cargas e descargas de barcos que transportavam mercadorias de e para Lisboa (neste caso, produtos das lezírias, do alentejo e das terras altas do concelho, como uvas e outras frutas), de barcos ingleses que vinham buscar fruta, dos barcos que atravessavam o rio para a lezíria, das praças da jorna. No cais havia, então, muitas empresas comerciais intermediárias ligadas ao ramo alimentar e casas comerciais de venda a retalho, especialmente tabernas. Em 22 de Novembro, realiza-se a emissão experimental de Rádio-Xira, uma iniciativa de Artur Pelouro, Cristiano Morte e José Ferreira, que durará cerca de um ano, em que colaboram músicos da terra e, também, Alves Redol. Aliás, é ele quem profere uma palestra comemorativa do primeiro aniversário 248

da estação. A sede da rádio é na Rua Gomes Freire, 13 – 1º e as emissões são às terças e sextas feiras. Este ano de 1932 é um ano de grande actividade cívica de Alves Redol e um ano de viragem. A literatura revolucionária de edição espanhola e brasileira, proporcionada especialmente por Patrício Dias da Silva, que estuda em Lisboa, e o contacto com uma realidade efervescente com tonalidades revolucionárias provoca alterações ideológicas profundas em Redol, processo iniciado na estadia em Angola. 1933 No dia 11 de Janeiro, sai o nº 1 do jornal Goal - “Semanário Ribatejano de Desporto, Literatura e Arte”, de que Alves Redol é director e editor e Sérgio de Sousa administrador, cujo cabeçalho é desenhado por Júlio Goes e que é composto por “tipógrafos desempregados”, segundo o que o director do jornal diz mais tarde . Nesta publicação, que sai à 4ª feira, o futuro romancista escreve vários textos de carácter social e outros de índole desportiva, não sendo de esquecer que sempre fora um apaixonado praticante de futebol em Vila Franca, Lisboa e Luanda e praticante de basquetebol nesta cidade. Por volta desta época, foi conselheiro técnico de futebol no Sport Lisboa e Vila Franca, deslocando-se a várias localidades para acompanhar a equipa. Redol trabalha em Lisboa Não se conseguiu apurar em que data começa a trabalhar na Procuradoria Geral dos Municípios, propriedade de Jaime de Almeida Coutinho, mas parece ter sido neste ano, pois, com data de 17 de Janeiro de 1933, existe uma carta da firma Veríssimo Cordeiro Narciso que atesta “que o Sr. Redol da Cruz, Filho, foi meu empregado e enquanto esteve ao meu serviço, foi sempre cumpridor e honesto, tendo sido a sua saída motivada pelo seu estado de saúde”. A disponibilidade de Redol reduz-se, pois tem de se deslocar todos os dias para Lisboa para trabalhar. Toma o comboio das seis da manhã, aproveitando a viagem para ler e, mesmo, escrever. Desta sua experiência, resulta o conto Comboio das Seis, publicado em 1946. A empresa tem os seus escritórios na Avenida Duque de Loulé, 126 – 3º e dedica-se a fornecer impressos, mobiliário e assessoria jurídica aos municípios. Redol chega rapidamente a chefe do escritório, nutrindo Jaime de Almeida Coutinho, por ele, grande estima, elogiando a sua inteligência e capacidade de trabalho. Desconhece-se, em absoluto, os passos que Redol dá na capital por esta altura, mas não é difícil de adivinhar que frequenta as livrarias, os teatros e os cinemas, pois escreve em Mensageiro do Ribatejo sobre peças de teatro e filmes que vê. Sport Lisboa e Vila Franca Em Julho de 1933 é eleito para a Direcção do Sport Lisboa e Vila Franca, sendo provável que já colaborasse no clube no sector desportivo – como conselheiro técnico do futebol, como já se viu – pois a sua saúde debilitada não permite que pratique qualquer desporto. O Presidente da Assembleia Geral é Rodrigo Goes, o Presidente da Direcção João Luís da Silva e Alves Redol é um dos quatro substitutos. Notícias dos jornais

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de Março já o dão como fazendo parte da Direcção. Entretanto, continua a sua colaboração na Associação de Classe. No dia 12 de Outubro, realiza-se um jantar de homenagem aos ciclistas do Benfica – Francisco dos Santos Duarte, Abílio Gil Moreira, César Luiz e José Maria Nicolau – organizado pela sua filial em Vila Franca, o Sport Lisboa e Vila Franca. Juntam-se cerca de sessenta pessoas e cantam-se fados. Alves Redol fala em nome do clube organizador, tecendo elogios à acção do clube lisboeta em prol do desporto nacional e aos ciclistas homenageados, com destaque para José Maria Nicolau. A rivalidade entre os adeptos dos dois grandes clubes lisboetas é muito grande. Assim, o Mensageiro do Ribatejo de 26 de Outubro noticia que se realizara um banquete leonino de homenagem aos cilistas do Sporting Clube de Portugal, em que discursaram Carlos Gonçalves (que deve ser o antigo Presidente da Câmara Municipal no tempo da República), Josué Malta e Marciano Mendonça, gente da elite da terra. Em Outubro, no seguimento da aprovação do “Estatuto do Trabalho Nacional”, todas as associações de classe são obrigadas a adaptar os estatutos, até início de Dezembro, ao modelo imposto por aquele documento. De uma maneira geral, estas associações rejeitam a imposição e extinguem-se. Foi o caso da Associação de Classe dos Operários da Construção Civil e Ofícios Correlativos. Alves Redol dedica-se, então, mais afincadamente, ao Sport Lisboa e Vila Franca. Além da Associação de Classe dos Operários da Construção Civil e Ofícios Correla-tivos, existe na localidade a Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Vila Franca e, na Vala do Carregado, a Associação de Classe dos Descarregadores de Mar e Terra, certamente com uma delegação em Vila Franca. Há, ainda, notícia de uma Associação das Classes Marítimas do Concelho de Vila Franca de Xia. Existiria , ainda, uma idêntica organização dos valadores, que não foi possível confirmar. Em Junho deste ano de 1933, a Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais, organiza, com a sua congénere de Lisboa, uma jornada reivindicativa pelas 8 horas de trabalho, pelo salário mínimo e pela higiene e conforto dos dormitórios. No final de 1933, aparecem notícias nos jornais locais sobre um Sindicato Agrícola, que tem a sua sede na delegação concelhia da Federação Nacional dos Produtores de Trigo (FNPT), que é, certamente, acalentado pelo próprio poder político nacional, preocupado com uma terra que dera, desde há muito, sinais de se encontrar com as forças mais à esquerda. Nos últimos meses do ano e no início de 1934, realizam-se no Grémio Artístico várias conferências pronunciadas por Heliodoro Frescata (“As Associações de Recreio e a Educação Popular”), Dr. Ruy de Pina (“As Associações de Recreio e os Seus Sócios”), Ernesto Albino Pereira (“O Segredo de Vencer”), Alves Redol (“Terra de Pretos, Ambição de Brancos” e António Prata (“Nós nos Instruiremos”), dos quais, pelo menos quatro, são colaboradores do Mensageiro. Aliás, nos corpos gerentes da agremiação são eleitos, pouco antes, vários colaboradores do jornal, dos quais António Lúcio Baptista como Presidente da Assembleia Geral e Edmundo

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Moura como Presidente da Direcção . No início de 1934, realiza-se uma exposição de artes plásticas. Os títulos de algumas destas conferências mostram a preocupação educativa e cultural dos republicanos, que predominam no Mensageiro, preocupação que os neo-realistas vão retomar. No dia 1 de Dezembro, Alves Redol realiza uma alocução no Grémio alusiva à data, integrada numa festa comemorativa, que prossegue com um sarau em que são apresentadas poesias, canções, fados, seguindo-se um baile animado por uma orquestra-jazz. Nesse dia a Banda do Grémio percorre as ruas da vila. Pelo final do ano, o Major Joaquim da Silva Delgado, pai de Humberto Delgado, é o Administrador do Concelho. Tomara posse do cargo em Dezembro de 1931, ainda como Capitão (sendo promovido a Major em Junho de 1932), sucedendo ao Capitão José António Ramos, nomeado com o 28 de Maio. Na altura, a Câmara Municipal tem uma Comissão Administrativa, figura legal implantada depois do golpe militar. Em final de 1932, a Comissão Administrativa, é constituida por Miguel Esguelha (Presidente), José Vanzeller Palha, Major Delgado, Eng. Botelho Neves, Abel Boto e César Ferreira, sucedendo a outra com a mesma presidência, mas que não funciona. De facto, o Mensageiro noticia sucessivas reuniões que não se realizam por falta de “quorum”. Loja do Goes Os jovens que colaboram nas actividades culturais e cívicas em Vila Franca, entre os quais Alves Redol, encontram-se na Barbearia do Goes (Barbearia Liberdade), de Francisco José de Goes, pai de Júlio Goes e de Sebastião Goes, republicano que continua a defender as suas ideias mesmo depois do 28 de Maio. Eles são originários de Vila Nova de Ourém, mas vêm residir para Vila Franca. Na sua barbearia, cruzam-se muitos opositores ao regime, trocando impressões e comentando os acontecimentos políticos nacionais e mundiais. Terá sido aí a sede provisória do Sport Lisboa e Vila Franca. É Júlio Goes quem desenha o emblema do clube. Rodrigo Goes, irmão de Júlio, estivera deportado em Timor entre 1931 e 1933, é tipógrafo na Tipografia Faria, onde é impresso o Mensageiro e pertence aos corpos gerentes da colectividade. É, igualmente, frequentador do estabelecimento, tal como o carpinteiro António José de Sousa (o mesmo dos corpos gerentes da Associação de Classe dos Operários da Construção Civil) e o cigano António Teles (Cambão), que Redol recorda como seu amigo do tempo da Rua dos Varinos. No seu livro sobre o “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”, Garcez da Silva refere “o pequeno estabelecimento do pai Goes, ao Alegrete” (na realidade situado na Avenida Pedro Victor, 14, embora mais tarde a numeração da loja seja 110-112) e outros elementos do “Grupo” falam em “Loja do Goes”. A barbearia ter-se-á transformado na loja de papelaria e fotografia em que trabalham os dois irmãos, Júlio e Sebastião, fazendo, este reportagem fotográfica. Em Junho de 1932, já o estabelecimento tem essas funções. Em Março de 1933, ainda ali se fazem inscrições para os sócios do Sport Lisboa e Vila Franca que o queiram representar em futebol. 249


Encontram-se, também, na tertúlia que se contituira na Papelaria eTipografia Faria, onde é a redacção do Mensageiro do Ribatejo. Aqui convivem operários gráficos, entre os quais Rodrigo Goes e os responsáveis e redactores do jornal. Mais tarde, o filho do dono da tipografia, Mário Rodrigues Faria, que integra o “Grupo Neo-Realista”, é o polo aglutinador dos elementos mais jovens do grupo, como Arquimedes da Silva Santos e Carlos Pato. O aprendiz de escritor, em resultado das suas responsabilidades em Goal, publica muito pouco em Mensageiro do Ribatejo, mas continua a sua colaboração em O Notícias Ilus-trado. No primeiro, publica, em Outubro, o conto “A Corneta de Barro”, que Garcez da Silva considera ser a primeira manifestação de neo-realismo em Alves Redol, o que não se vislumbra nas novelas que saem em O Notícias Ilustrado. Em Maio, Bento de Jesus Caraça profere na União Cultural “Mocidade Livre” a conferência “A Cultura Integral do Indivíduo”, sendo provável que Redol tenha dela tido conhecimento, embora não se conheçam ligações suas à Universidade Popular, nem sequer se assiste às suas iniciativas. Todavia, deve ter notícias da sua existência, pois, desde que reorganizada e dinamizada por Caraça a partir de Dezembro de 1928, a Universidade atinge um grande impacte a nível das forças de esquerda. Recorde-se que neste ano de 1933, além da publicação do Estatuto do Trabalho Nacional, que leva ao encerramento das associações de classe, é “votada” a Nova Constituição Política, é criada a PVDE (Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado), são reorganizados os serviços de Censura, é criado o Secretariado da Propaganda Nacional e António Ferro estrutura a “Política do Espírito”, isto é, é definido o quadro legal e esclarecidas as orientações ideológicas que enquadram o Estado Novo. Neste mesmo ano, Hitler e o Partido Nacional-Socialista tomam o poder na Alemanha, enquanto em Itália Mussolini já leva vários anos no poder. Um vento de extrema direita varre a Europa. A evolução das democracias não é risonha. Muita gente preanuncia a vinda de tempos terríveis! Redol e Dias Lourenço Segundo Dias Lourenço, recrutado para o Partido Comunista Português em 1931 ou 1932, por um operário das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), em 1933 começam a surgir as primeiras células comunistas no concelho de Vila Franca de Xira, na Cimento Tejo e nas OGMA. Nos anos seguintes, na Sóda-Póvoa e na Covina. Ainda neste ano, ter-se-á constituido o primeiro Comité Local de Vila Franca, com António Dias Lourenço, Alves Redol e um terceiro elemento que não tem sido possível identificar. Alves Redol e António Dias Lourenço eram grandes amigos. Passeiam e leêm em conjunto. É frequente fazerem-no em casa do primeiro, depois do seu casamento. Discutem os livros marxistas que lhes chegam às mãos. Vão conhecendo a Lezíria e o Ribatejo. Travam conhecimento com pescadores, estivadores, barqueiros, camponeses e operários. Dias Lourenço faz o curso industrial e é um bom 250

mecânico. No torno, faz uma pequena peça artística em baquelite e aço com quatro rosas de aço: “símbolo de uma nova idade”, grava ele na base dessa peça que oferece a Alves Redol. Este, é seu padrinho no casamento com Casimira da Silva e é padrinho de nascimento da filha Ivone, nascida em 1937. Dias Lourenço defende sempre Redol dos ataques que lhe são feitos no meio operário pelo facto de não lhe pertencer. Com a sua passagem à clandestinidade as suas relações têm de ser diferentes, mas supõe-se que se vêm de vez em quando. Mas continua a esclarecer a importância de Redol na organização da actividade cultural e política na zona de Vila Franca, mesmo quando a querem ignorar ou minorar. 1934 A primeira conferência de Alves Redol No dia 28 de Fevereiro, Alves Redol realiza, no Grémio Artístico Vilafranquense, uma conferência intitulada “Terra de Pretos, Ambição de Brancos”, depois repetida no Club Vilafranquense no dia 21 de Março. Pelo menos no segundo evento, o conferencista é apresentado por Antero Ferreira e realiza-se uma projecção de diapositivos com fotografias que Redol trouxe de Angola, numa máquina que Redol e Antero adquirem e que ainda existe na posse da família do escritor. A conferência tem grande impacte e Redol chega a ser convidado para a repetir no Belém Club, por iniciativa do designado Núcleo Intelectual de Belém, o que mostra que Redol já deve ter ligações em Lisboa com os meios culturais. Não se sabe se esta sessão chega a realizar-se. Logo a seguir à conferência no Club, o Major Delgado, que a ela assiste, chama António Redol da Cruz e comunica-lhe que a polícia política pretendera deter o filho, mas que ele os dissuadira, na base das suas próprias impressões sobre o que ouvira e na fidelidade de Redol da Cruz ao regime. Aliás, neste mesmo mês de Março, o Administrador do Concelho e Redol da Cruz encabeçam uma iniciativa de recolha de donativos para socorrer os pobres da terra, apoiados por um grupo de “caridosas senhoras”. Nos anos de 1930 a 1934, o Mensageiro dá-se conta dos graves problemas de miséria existentes em Vila Franca, da crise de emprego. Em artigo de 1931, chega mesmo a contabilizar duzentos desempregados. A Associação de Classe dos Operários da Construção Civil, em 1933, faz um apelo ao município para que arranje trabalho para os desempregados, promovendo obras. No dia 7 de Maio estreia-se no Cinema-Teatro a revista “Bela Dona”, espectáculo de homenagem ao amador teatral Artur César Pereira, com encenação de Faustino dos Reis Sousa. Este espectáculo repunha alguns números de “Ida e Volta” e “Rosa Branca” (revista apresentada em 1929) e Redol volta com “O Largo da Estação”. Os actores fazem parte do Grupo Dramático Afonso de Araújo. É representada, também, a peça Malditas Letras, de José R. Chaves, encenada por Acácio d’Araújo. Os actores compõem o Grupo Dramático do Ateneu Artístico Vilafranquense. Estas representações fazem-se no meio de uma grande polémica, em que uns querem que se

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Redol, Maria dos Santos Mota (Virgínia) e uma prima da primeira, que veio a casar-se com um primo de Redol, José, início dos anos 30.

destrua o Cinema-Teatro para que ali se faça uma construção para habitação e outros, entre os quais Redol, pretendem que o velho Cinema-Teatro seja restaurado para continuar a sua função cultural. Sobre o assunto, Redol escreve em Mensageiro do Ribatejo o artigo “União e Picareta”. Aliás, em 1934, retoma a colaboração regular no Mensageiro, escrevendo comentários sobre a vida da terra, sobre teatro representado no Club, sobre cinema, a respeito de filmes que certamente vê em Lisboa. Em Junho, inaugura-se a sede do Sport Lisboa e Vila Franca no cais, no nº 13 da Rua Almirante Cândido dos Reis, quase ao lado do edifício onde fora a sede da Associação de Classe. Provavelmente neste ano organiza um curso de esperanto, língua destinada a ser utilizada por todos os povos, com o objectivo de os aproximar. Continha na sua estrutura elementos de várias línguas. As aulas devem realizar-se nas instalações do Sport Lisboa e Vila Franca, pois foram organizadas no âmbito desta colectividade. Redol foi aluno e, depois professor, tendo conseguido reunir várias dezenas de alunos, como se pode constatar por uma fotografia de uma jornada de convívio num local aprazível designado por “Água Férrea”, entre Vila Franca e Povos. Nem em Mensageiro do Ribatejo, nem em Vida Ribatejana se conseguiu encontrar notícia deste curso, provavelmente porque os seus organizadores não quizeram fazer muito alarde do assunto. De facto, algum tempo depois, foi proibido o ensino desta língua, que tinha um carácter internacionalista. Apenas se encontrou na colecção de fotografias de Maria dos Santos Mota Redol, uma do grupo de esperantistas datada de 1935 e, nos documentos de Emanuel Jordão entregues ao Museu do Neo-Realismo, uma carta em esperanto que recebeu de um correspondente estrangeiro, pois era habitual os

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esperantistas corresponderem-se com esperantistas de outros países. Em Dezembro, Emílio Diniz Lopes realiza uma palestra sobre música no Grémio Artístico, a qual merece da parte de Redol um artigo muito elogioso intitulado “Um Aviso – Uma Lição – Um Músico”. Em Junho deste ano, começa a sair o jornal O Diabo – “Jornal de Crítica Literária e Artística”, de tendência republicana, de que é director Artur Inez, redactor do jornal República e colaborador de Mensageiro do Ribatejo. Não espanta, pois, que os vila-franquenses tenham conhecimento imediato da sua publicação. Alves Redol começa a frequentar a sua sede, na Rua de S. Pedro de Alcântara, 45 e “todas as sextas-feiras, mal soava a hora do fim da grilheta diária, largava-me da Duque de Loulé para S. Pedro de Alcântara e aí me fornecia de quase três dezenas de exemplares de O Diabo, que vendia em Vila Franca …”. Em 1934, realiza-se, em Moscovo, o Congresso dos Escritores Soviéticos, que deu um impulso ao realismo socialista. Redol e os amigos devem ter tido dele conhecimento, embora sendo duvidoso que conhecessem os textos ali apresentados, um dos quais da autoria de Andrei Zdanov. Este Congresso teve grande repercussão em todo o mundo, influenciando muitos movimentos artístico-literários e muitos artistas e escritores. No momento, era a voz da revolução proletária triunfante no que se referia à arte. Em Portugal, constitui-se a clandestina Liga Contra a Guerra e o Fascismo, dirigida por Bento de Jesus Caraça, mas não existe qualquer dado que permita concluir se Redol aderiu. Assim como se desconhece uma eventual ligação ao Socorro Vermelho Internacional, fundado em 1932. 1935 Alves Redol, por razões que se não conseguem apurar, colabora muito pouco no Mensageiro. Publica duas crónicas e um artigo até Abril e, depois, mais nada. Mas António Dias Lourenço e Garcez da Silva, que tinham iniciado a colaboração em Agosto e Dezembro anterior, respectivamente, publicam alguns trabalhos, mais o segundo, em diferentes géneros, de ficção e de ensaio. Segundo Garcez da Silva, Dias Lourenço já publicara textos, mas assinando com pseudónimo. Gilberto Bona da Silva colabora a partir de 3 de Novembro, com um artigo sobre a escola de marinheiros, onde se encontra colocado. Provavelmente em 21 de Maio, Alves Redol é eleito com Ortins Lolaia, Patrício Dias da Silva e António Cruz para a Comissão Administrativa do Sport Lisboa e Vila Franca. Segundo o Mensageiro do Ribatejo de 11 de Novembro, a colectividade muda as suas instalações para a Rua Gomes Freire. Em Junho, elementos da Banda Marcial Nabantina, de Tomar, são recebidos no Grémio Artístico, actuando a banda desta entidade e falando Alves Redol em nome da colectividade vila-franquense. Em Maio, estivera em Vila Franca uma grande delegação das bandas, do Orfeão de Tomar e do Sporting de Tomar, encabeçada pela Câmara Municipal desta localidade e que fora recebida pela Câmara Municipal de Vila Franca, com um vasto programa e grande presença de 251


público. Houve actuação das bandas das duas terras e um jogo de futebol entre o Sporting visitante e um dos clubes de Vila Franca. Pelo facto de residirem em Vila Franca muitas pessoas oriundas de Tomar, era habitual fazerem-se visitas mútuas. Em Outubro, Redol colabora no boletim da empresa petrolífera Shell, o “Shell News”, com um artigo intitulado “Concepção Duma Tragédia”. Não se compreende esta colaboração, pois o futuro escritor não tem qualquer ligação com esta empresa. Namoro com Maria (ou Virgínia) Redol quer dar um rumo à sua vida no que respeita à constitução de família. Começa a namorar, em finais de 1934 ou inícios de 1935, Maria dos Santos Mota, mais conhecida por Virgínia Mota, filha de um grande amigo de António Redol da Cruz, Manuel Rodrigues Mota, republicano como ele, falecido em 1924. Os dois chegaram a associar-se com um terceiro para a construção do edifício do Café Central. Os dois jovens conhecem-se desde a infância, pois os pais e as mães visitam-se. Aliás, chegam a ser vizinhos na Rua Miguel Bombarda, antiga Rua Direita, onde Redol da Cruz tem, então, a mercearia e, também, a padaria. Os dois jovens dão-se como amigos desde que Redol volta de África. Participam juntos em vários eventos locais e Redol e os pais visitam Maria na Quinta de Baixo, local nos arredores de Vila Franca, onde a jovem passa férias e outras épocas do ano. Aliás, aí se juntam várias primas de Maria e primos de Redol que viviam na casa do pai deste. Uma delas acaba por casar com um desses primos. Também as mães eram grandes amigas. Inocência da Purificação Alves convertera Emília dos Santos Mota, católica praticante e peregrina a Fátima, à sua religião. Ambas frequentam a Igreja Evangélica (depois Igreja Lusitana) e vão todas as 4ªs feiras à “reunião”, que nas instalações daquela Igreja se realiza. Nessas “reuniões” ouvem-se, inicialmente, as prelecções de José Ilídio Freire e, mais tarde, do médico Dr. Luís César Pereira - casado com uma senhora inglesa, adepta da Igreja Anglicana e que o converte a esta – e entoam-se cânticos religiosos. Maria tem uma educação burguesa, aprendendo francês e piano, chegando a fazer exame no Consevatório Nacional, onde é seu examinador Tomás Borba e sendo sua professora daquele instrumento Guilhermina Lopes, irmã de Emílio Lopes. A grande amizade e a grande confiança entre as duas famílias, faz com que a mãe Emília permita que António visite Maria e que os dois jovens (ele com 23 anos, ela com 21) namorem na sala, embora sempre com a presença da matriarca, pois o marido havido morrido muito cedo (1924), deixando-a viúva com uma mercearia e uma fábrica de pirolitos para dirigir e, ainda, três filhos por criar. Um dia, Redol sobe apressadamente a escada da casa dos Motas, no 1º andar por cima do Café Central. Todo o prédio é da família Mota e o café está alugado. Maria toca piano com a janela aberta. No caderno de partituras que está a utilizar figura a Internacional e ela toca a música revolucionária sem saber. Ouve-se na rua e Redol sabe da gravidade do “atrevimento”. Diz-lhe para parar e explica-lhe o porquê. 252

Redol e Maria na Ericeira em 1935.

O Mensageiro do Ribatejo de 17 de Novembro de 1935 informa que Alves Redol foi submetido a uma intervenção cirúrgica no Hospital de S. José, e, no número seguinte, que foi operador o Dr. Armando Luzes. Esta situação é muito complicada e o escritor escreve, anos depois, sobre o assunto: “(a morte) …espreitou-me na enfermaria do Hospital de S. José, falámos ambos durante uns dias”, “mas a morte achou que nessa altura podíamos passar bem um sem o outro”. O Mensageiro vai dando notícias do estado de saúde do doente, informando que regressou a Vila Franca no dia 4 de Dezembro e que no dia 15 “abandonou o leito”. Supõe-se que se trata de uma grave operação ao estômago que é falada em família com frequência. Várias pessoas da família dizem que Alves Redol é operado sem anestesia. Muitos anos mais tarde, em sessões de homenagem ao escritor por ocasião do 40º Aniversário da publicação de Gaibéus, Piteira Santos, um dos amigos mais íntimos de Redol, faz a mesma afirmação. Confrontado com a informação, Arquimedes da Silva Santos, médico e amigo íntimo, afirma não se lembrar do caso concreto de Redol, mas que na época isso acontece. 1936 O namoro é relativamente breve e Redol e Maria casam-se em 5 de Março de 1936. Vão viver para a Rua Miguel Bombarda, nº 160 – 1º andar, casa grande com jardim, onde, no escritório, está um grande retrato de Gorki, um dos

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escritores que o influencia e que é frequentada por muitos dos que trabalham com Redol nas diferentes actividades. Nomeadamente, ali se reunem os membros do “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”, que neste ano ainda não atinge a sua plenitude, com Alves Redol, António Dias Lourenço, Garcez da Silva, Bona da Silva. Nesta casa, Redol e Dias Lourenço leêm e discutem livros de teorização marxista, que escondem, quando algum dos outros elementos ou outra pessoa chega abruptamente. O Tratado de Materialismo Histórico, de Bukarine, versão brasileira em quatro tomos de Edição Caramuru (São Paulo - 1933/1934) ou El Materialismo Histórico, da Editorial Cenit (Madrid – 1933), é um deles e um dos que mais marca Redol. Mas também, A Arte e a Vida Social, de Plekhanov, em edição espanhola da Editorial Cenit (1934). E livros de Marx e Engels, como Proteccionismo e Livre Câmbio, de Karl Marx, Edições Nosso Livro (São Paulo – 1934). Mas também conhecem a literatura de ficção, como El Cemento, de Fedor Gladkov, de Editorial Cenit (1929), Le Feu, de Henri Barbusse, edição de Flammarion (Paris – 1935), Petróleo, de Upton Sinclar, edição Minha Livraria Editora (Rio de Janeiro – s/ data), 120 Milhões, de Michael Gold, das Edições Cultura Brasileira (São Paulo – s/data), Clarissa, de Erico Veríssimo, da Livraria Globo (Porto Alegre – 1933), Angústia, de Graciliano Ramos, Livraria José Olympo Editora (Rio de Janeiro - 1936) e, pouco depois, Música ao Longe, de Erico Veríssimo, Livraria Globo (Porto Alegre – 1937), Olhai os Lírios do Campo, a mesma editora (Porto Alegre – 1938), S. Bernardo, de Graciliano Ramos, da Livraria José Olympo (Rio de Janeiro – 1938), etc. Redol já conhece, também, Gorki, Andreiev, Bernard Shaw, Zola, Romain Rolland, Lorca e outros. Chegam-lhe revistas espanholas e brasileiras. Retoma a colaboração assídua no Mensageiro, publicando oito textos, um dos quais é um poema assinado António Alves, intitulado “Pátio”. É provável que seja da sua autoria um poema publicado no n.º 2 do jornal dos esperantistas portugueses Portugala Esperantisto, em Fevereiro de 1936, intitulado “Circo”, e assinado com o mesmo nome. No Mensageiro escreve vários artigos, como “91”, sobre a revolução republicana do Porto de 1891, “Eça de Queiroz” e “País de Trovadores”, onde já são inequívocas as suas ideias marxistas e onde expande a sua visão sobre arte. Pode dizerse que nesta época os seus escritos são, certamente, de natureza neo-realista, o que não se verifica anteriormente. Também Garcez da Silva e Bona da Silva publicam vários textos no jornal. Dias Lourenço apenas um poema, “Turbilhão”. A conferência sobre “Arte” No dia 17 de Junho, Alves Redol pronuncia no Grémio Artístico Vilafranquense uma conferência sobre “Arte”, na qual pugna pela ideia de que a arte é necessariamente social, não tendo sentido a “arte pela arte”, então defendida pelos colaboradores da revista presença. Cita Plekhanov e Bukharine. Esta conferência é um dos marcos importantes do neo-realismo português, não pelas repercussões que possa ter tido noutros meios e escritores, pois não foi publicada – e só muito mais tarde veio a ser conhecida do ensaísmo

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português e por via americana, pois foi numa Universidade dos Estados Unidos que foi pela primeira vez vista e estudada – mas pela sua contribuição para a estruturação do pensamento redoliano e daqueles que tiveram a sua influência. Esta conferência era uma antecipação, pois só em final de 1937 e em 1938 e 1939 surgem as grandes polémicas entre os marxistas e os presencistas. A primeira é protagonizada por Armando Martins (que assina, também, Mando Martins) e José Régio, em Sol Nascente. Na segunda parte deste serão, Emílio Diniz Lopes profere uma lição de música, tocando uma composição de sua autoria e, depois, Clair de Lune, de Beethoven, descrevendo a biografia do compositor. Seguem-se várias peças clássicas tocadas por Francisco Nascimento e Francisco Jacinto. No Sport Lisboa e Vila Franca, Redol e Dias Lourenço realizam actividades culturais, nomeadamente, três cursos de instrução primária, um curso de aperfeiçoamento profissional, um curso de línguas, uma secção de teatro e música que participava nos serões, um jornal de parede. Também organizam um pequeno núcleo de uma futura biblioteca, acção que se “transmitiu a quase todas as colectividades da vila e dos arredores”, segundo palavras do próprio Redol. Atilano dos Reis Ambrósio ( o futuro escritor Jorge Reis), que terminara a 4ª classe e que ainda não pode ir para o liceu, frequenta essas aulas, a instâncias do pai junto de Alves Redol, de cujo progenitor é amigo e colega, pois também é comerciante. É, também, um republicano convicto. O Diabo Todas as sextas feiras, Redol continua a ir à sede de O Diabo levantar dezenas de exemplares do jornal, para vender em Vila Franca. Nos últimos meses do ano, entrega para publicação uma novela intitulada “Kangondo”, de ambiente africano. É publicada em 29 de Novembro e o director, o Prof. Manuel Rodrigues Lapa, escreve um postal ao aprendiz de escritor para que passe pelo jornal para lhe falar. Convence-o a dedicar-se ao estudo da região ribatejana : “O nosso encontro revestiu-se para mim de importância igual à da minha ida para Angola: ambos se tornaram decisivos para o escritor que hoje sou”. Inicia, então, a publicação de textos na secção “Sol a Sol”, “… onde publiquei crónicas e contos ribatejanos, confundindo rebuscamento com estilo, numa amálgama de poesia romântica e de Fialho (de Almeida)”. Redol percorre todo o Ribatejo e estuda a sua geografia, história, economia, etnografia, sociologia, cultura (música e literatura, em particular). Recolhe manifestações da cultura popular, ouve os diferentes grupos sociais, observa directamente o trabalho agrícola. Lê os trabalhos de J. Leite de Vasconcelos, nomeadamente o volume I de Etnografia Portuguesa, de 1933 e os livros da lista bibliográfica que indica, mais tarde em Glória – Uma Aldeia do Ribatejo. Consulta a grande História de Portugal, em fascículos, edição da Portucalense Editora Lda, de Barcelos, cuja publicação foi iniciada em 1928. Estuda a história do Ribatejo desde a antiguidade. Lê as obras de Francisco Câncio e de outros. E 253


também a história do Tejo, desde Espanha. Continua a ler Vida Ribatejana, onde se publicam muitos artigos sobre o Ribatejo. Prepara-se teoricamente no domínio etnográfico. Estuda os cancioneiros português e galego. Lê muitas obras de cultura geral que o possam ajudar a compreender melhor o tema. Quando o Sol Nascente inicia a sua publicação lê-o e estuda alguns textos teóricos, como os de Abel Salazar, os quais sublinha e anota. Com O Diabo sucede o mesmo. Um texto sobre Arte, de Ferreira de Castro, anterior à sua conferência sobre o tema, apresenta ideias muito semelhantes e há obras citadas em comum, embora outras não.Entre estas últimas, por exemplo, obras de Bukharine. Mas ambos citam o escritor russo Tchernichevski. Além disso, continua a ler os jornais Liberdade, Arte Musical e o diário República . Os trabalhos publicados na secção “Sol a Sol” são apenas quatro, mas continuam a sair textos de crónica e conto sobre o Ribatejo até 1940. Em Espanha, a Frente Popular, constituída por republicanos radicais, socialistas e comunistas, criada em Janeiro, ganha as eleições em Maio, mas a 17 e 18 de Julho dá-se um pronunciamento militar da facção de extrema direita das forças armadas, o que dá início à Guerra Civil Espanhola. Um mês depois, Federico García Lorca, é fuzilado pelos nacionalistas, provocando grande comoção entre os escritores portugueses. Redol, que já conhecia a obra do poeta e dramaturgo de Granada, sofre um grande choque. Mais uma vez, uma morte trágica ensombra a sua vida. Como os trágicos fuzilamentos na praça de toiros de Badajoz por parte das forças nacionalistas comandadas pelo General Juan Yagüe, descritos por Mário Neves no Diário de Lisboa. Em Vila Franca, em Dezembro, são recolhidos donativos para enviar às tropas amotinadas do General Franco e realiza-se um comício anti-comunista no Cinema-Teatro. Em França, a Frente Popular (radicais, socialistas, comunistas) surge em Dezembro de 1935 e ganha as eleições em Maio de 1936, sendo Léon Blum nomeado Presidente do Conselho de Ministros. Governa até 1938, mas introduz reformas estruturais muito importantes no sentido do estado social. Em Portugal, também se constitui uma Frente Popular com idêntica composição, clandestina. Contava António Dias Lourenço, que, certa noite, ele e Alves Redol andam por toda a vila a colar cartazes ou prospectos de propaganda desta Frente e que, atrás, anda Redol da Cruz com outro, sem saber do filho, a arrancá-los. 1937 Neste ano continua a colaboração de Alves Redol em O Diabo na secção “Sol a Sol” e com outros textos, mas, ainda, sobre o Ribatejo. No Mensageiro do Ribatejo publica um único artigo, “Depoimento em Prol dos Pescadores”, em que reclama do Município a construção de um cais de desembarque para os pescadores. Nesse artigo, refere a sua laboriosa tarefa de conhecer a região: “Nas minhas viagens através do Ribatejo, procurando tomar íntimo contacto com o seu povo … me absorve o tempo 254

excedente da vida profissional …”. Mas Garcez da Silva e Bona da Silva também publicam pouco. Redol deixa de fazer teatro e as actividades culturais do Sport Lisboa e Vila Franca não são visíveis. Parece poder concluir-se que o candidato a escritor lê e estuda muito, se prepara para o que ambiciona ser. Faz centenas de fichas sobre as suas leituras e faz recortes de jornais, para utilização futura. Deve frequentar, agora, mais assiduamente, a redacção de O Diabo, contacta e troca opiniões com os intelectuais que ali acorrem e é provável que comece a aparecer em tertúlias de café, que há várias em Lisboa. Visitas a museus Mas em Fevereiro, no âmbito do Sport Lisboa e Vila Franca, organiza uma visita ao Museu de Arte Contemporânea – em que participam o Prof. Rodrigues Lapa e o pintor Jorge Pinto, este, provavelmente, como guia. Possivelmente em 21 de Março, há uma visita ao Museu de Arte Antiga – tendo faltado o guia, Diogo de Macedo, indigitado pelo jornal, a visita é guiada por um técnico do Museu – e, provavelmente, em 11 de Abril, realiza-se uma segunda visita, com a presença do Director de O Diabo, Joaquim Madureira – que publica no jornal um pedido de desculpas pela ausência do guia indigitado para a visita de Março –, dos mestres pintores Ezequiel Pereira e António Saúde e de Macedo Mendes, que guiou a visita. Em Abril, Redol organiza uma visita ao Museu dos Patudos, em Alpiarça. Estas visitas a museus são participadas por dezenas de pessoas e têm um papel relevante na evolução do nível e da exigência cultural da população vila-franquense amante deste tipo de realizações. Numa viagem que faz a Montalvo, na Lezíria, para visitar os campos de arroz, com vários amigos, entre os quais o lavrador Pompeu Reis, que tinha terras arrendadas, este chama a atenção para a especificidade da gente de Glória do Ribatejo. Interessa-se pelo assunto, Rodrigues Lapa incentiva-o. Nas férias de Julho vai para a aldeia e começa a recolher elementos. Tira fotografias, desenha peças do património artesanal local. Por volta do fim do ano, tem a primeira versão do estudo pronta. Talvez seja devido a este trabalho que as colaborações em jornais ficam prejudicadas. “Grupo Neo-Realista de Vila Franca” e primórdios do Neo-Realismo em Portugal Segundo Garcez da Silva é neste ano que o “Grupo Neo-Realista de Vila Franca” fica completo com a entrada de três mais novos. Fica assim constituído por: Alves Redol, António Dias Lourenço, Garcez da Silva, Bona da Silva, Arquimedes da Silva Santos, Mário Rodrigues Faria e Carlos Pato, todos vocacionados para a literatura, com Emílio Diniz Lopes, na música e Júlio Goes nas artes plásticas, estes dois mais colaboradores do que integrantes. É neste ano que começam a aparecer colaborações de Afonso Ribeiro e de Mário Dionisio em Sol Nascente (que surge neste mesmo ano). Do primeiro, já tinha havido textos

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em O Diabo em 1936, tal como de A. Vicente Campinas. No entanto, os de Afonso Ribeiro não são, ainda, de natureza neo-realista. Mas os de Mário Dionísio são-no. Em 1937, dá-se a polémica entre Armando Martins (que também assinava Mando Martins) e José Régio nas páginas de Sol Nascente. Também Jofre Amaral Nogueira e Mário Dionísio escrevem importantes textos teóricos. Não esquecer que em 1934 e 1935 já tinham surgido algumas manifestações, ainda muito embrionárias, nos jornais Liberdade - Mário Dionísio, Álvaro Cunhal, Francisco Ramos da Costa e Magalhães Vilhena tinham entrado em 1935, Álvaro Marinha de Campos já lá estava desde 1934 – Gleba, Outro Ritmo, Ágora, Gládio e Pensamento (fundado em 1930). Em Sol Nascente aparecem gravuras de Manuel de Azevedo. São publicações cuja evolução Redol acompanha e que divulga em Vila Franca. Numa entrevista, Manuel da Fonseca declara que durante a Guerra Civil de Espanha os neo-realistas, juntamente com muitos outros oposicionistas, se encontram no Café Madrid, na Rua 1º de Dezembro, em Lisboa. Aí o leva Paulo Crato – de Santiago de Cacém, colaborador de O Diabo - certa vez, vende então caixas de papel de cópia. Encontra lá Mário Dionísio, Alves Redol, Jorge Domingues, Fernando Piteira Santos. Recorde-se que Manuel da Fonseca publica o seu primeiro poema naquele jornal, “Canção da Beira-Mar”, em 2 de Janeiro de 1938. Por esta época chega às mãos de Redol Judeus Sem Dinheiro, de Michael Gold e em edição brasileira, os brasileiros Jorge Amado e Amando Fontes. Também já lera, além dos já referidos, Roger Martin du Gard, Erico Veríssimo, José Lins do Rego, Joracy Camargo, Sinclair Lewis, John Steinbeck, Mark Twain. Mas também lê os autores portugueses mais recentes, entre os quais os presencistas, Ferreira de Castro, que deve ter encontrado na sede de O Diabo, onde aquele foi director em 1935, de Setembro a Novembro e Torga. Na Livraria Portugália, encontra as novidades e os livros importados, alguns, provavelmente, vendidos à sucapa. Em Fevereiro de 1937, Bukharine é preso acusado de traição à revolução soviética. Os textos de Bukharine tinham desempenhado um papel importante na formação de Redol e dos seus companheiros. Já no ano anterior Zinoviev e Kamenev, também destacados dirigentes soviéticos, tinham

Redol com Garcez da Silva e Júlio Goes.

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sido fuzilados. Aquele acontecimento provoca-lhe uma grande perturbação. Conta, mais tarde, a várias pessoas, que na noite do dia em que dele tem notícia, sozinho, dá voltas e voltas ao jardim junto ao Tejo, a pensar e repensar no assunto. É a primeira grande machadada nas certezas que construíra! 1938 Redol não colabora em Mensageiro do Ribatejo, nem em O Diabo, excepto, neste caso, com dois poemas, assinados António Alves, publicados numa página intitulada “Novos Poetas” em 14 de Agosto, que aparece, certamente, pela sua influência. Com a sua companhia, quis dar oportunidade aos mais novos, pois surgem poemas de Arquimedes da Silva Santos e Garcez da Silva. Todavia, este já tinha publicado um poema no jornal. No entanto, publica em Sol Nascente dois artigos, em Maio e Julho, sobre o escritor brasileiro Amando Fontes, autor de Rua do Siriry, romance que é editado em 1937 no Brasil, o que mostra a constante actualização da sua biblioteca. Também Rodrigues Faria, Bona da Silva e Dias Lourenço colaboram neste jornal. Este último, publica, também, poemas em O Diabo. Não há notícia de actividades no Sport Lisboa e Vila Franca. Neste ano, ou ainda no anterior, Redol muda de residência. No 2º andar do prédio, por cima de si, mora um vizinho que contrai a tuberculose. Definitivamente debilitado pela doença que tivera em Angola, com a propensão para a tuberculose que tem a família Alves, o médico recomenda-lhe que mude imediatamente de casa. Vai, então, viver, para a Rua Manuel Afonso de Carvalho, nº 13, junto ao Mercado Municipal. Em Abril ou Maio, realiza-se no cinema-teatro de Vila Franca um jantar de homenagem a Domingos Poeira, agora actor profissional com o nome de Barreto Poeira, que desempenha o papel de protagonista no filme A Canção da Terra, de Jorge Brum do Canto. Redol esteve presente na homenagem. Barreto Poeira participa em numerosos filmes de grande êxito público, entre os quais Um Homem do Ribatejo, de 1946, no qual se dá uma perspectiva do ribatejano que Alves Redol critica mais tarde e oposta à dos seus romances. O primeiro filme de Barreto Poeira é A Portuguesa de Nápoles, de 1931. O Neo-Realismo começa a afirmar-se 1938 é o ano em que a produção neo-realista começa a afirmar-se mais consistentemente. Há trabalhos ficcionais de Afonso Ribeiro, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Fernando Namora, João José Cochofel, Joaquim Namorado e de outros em O Diabo e Sol Nascente, embora seja duvidoso que os de Namora e Cochofel se possam considerar neo-realistas. Jofre Amaral Nogueira, Mário Dionísio e Antonio Ramos de Almeida produzem importantes textos teóricos. Neste mesmo ano, este último ensaísta publica o livro de poemas Sinal de Alarme e Afonso Ribeiro o livro de contos Ilusão na Morte, embora neste caso a maioria dos textos não se possam considerar neo-realistas. No final deste ano Joaquim Namorado baptiza o novo movimento de “Neo-Realismo”. Em Sol Nascente, em 1938 e anos seguintes, surgem 255


desenhos e gravuras de Manuel de Azevedo, António José Soares (Ares), António Ruivo Ramos (Somar), Huertas Lobo, Frederico George. Em O Diabo há desenhos, neste e em anos anteriores, de Roberto Nobre, Roberto Araújo, António Lopes (Lop), Frederico George, A.S.A.. Alguns deles, de tendência anarco-sindicalista. Mas entre estes e os neo-realistas a diferença é muito difícil de estabelecer. Ambas as correntes sofrem influência dos expressionistas alemães. Entretanto, a Guerra Civil de Espanha continua. Já estão em Espanha a Divisão Condor, as tropas italianas e as Brigadas Internacionais. Já se dera a tragédia de Guernica (26 de Abril de 1937). O fascismo avança. No entanto, Madrid e o no pasaran resistem. Redol e os amigos ouvem as notícias no seu rádio Philips, baixinho, para os vizinhos não se aperceberem. Exultam com a ofensiva republicana no Ebro. É uma vitória efémera. É neste caldo efervescente, de afirmação de uma nova arte, de anúncio da construção da primeira sociedade socialista, da ocupação do poder pelo nazismo na Alemanha e da Guerra Civil de Espanha, que Alves Redol e o “Grupo Neo-Realista de Vila Franca” se movimentam. Em Julho, Redol e Maria passam cerca de duas semanas de férias em Alpedrinha, localidade que tem a fama de ter bons ares e é aconselhada pelos médicos a quem tem os “pulmões fracos”, o que é o caso da família Alves. O candidato a escritor fotografa as principais construções da localidade, tira apontamentos e desenha pormenores. Em Setembro ou Outubro, sai à estampa Glória – Uma Aldeia do Ribatejo, com desenhos e capa de Júlio Goes, numa edição do autor, impresso na tipografia Companhia Editora do Minho, de Barcelos. Redol deve ter utilizado os conhecimentos que tinha das tipografias do país pelo seu trabalho na Procuradoria Geral dos Municípios. Ele próprio faz a distribuição do livro, incluindo, quase certamente, as livrarias de Lisboa que frequenta. Os amigos devem ter ajudado. O livro tem críticas muito favoráveis e é muito aplaudido, onde foi conhecido, no Ribatejo. 1939 Redol realiza, em 18 de Janeiro, no Grémio Artístico Vilafranquense, uma conferência sobre “O Fandango”, seguindo-se Bona da Silva sobre Bocage, poemas ditos por Arquimedes, Carlos Pato e música de autores clássicos por Francisco Ferreira Nascimento (piano) e Francisco Jacinto (violino), integrando o I Serão de Arte. Na sequência deste acontecimento dá-se um episódio que atesta a personalidade de Redol no que respeita à defesa da sua honorabilidade intelectual e espírito de rigor. Durante este serão, alguém tem um sorriso desdenhoso quando se canta um fandango, pois essse alguém entende que o fandango não se canta, só se dança. Redol vem a saber dessa atitude e, no número seguinte de Mensageiro, pede a esse desconhecido (será desconhecido?) que esclareça o assunto, pois pode haver algum equívoco da parte do conferencista. Como ninguém o faz, no número de 23 de Abril publica um artigo intitulado “Fandango”, em que mostra que este tipo de música não existe apenas 256

no Ribatejo, mas também em outras zonas do país e do estrangeiro e que, quer no Ribatejo, quer noutros locais, se canta, dando exemplos de casos e transcrevendo os respectivos versos. Desta forma, Redol anula as más línguas que o pretendem descredibilizar, num meio a isso propenso. Entretanto, na sua edição de 26 de Março, o Mensageiro do Ribatejo informa que cerca de oitenta trabalhadores rurais se encontram sem emprego. Recorde-se que é uma situação para a qual o jornal já alertara em anos anteriores e que marca a realidade social da zona, à qual Redol é sensível. Em 1 de Maio, no III Serão de Arte do Grémio Artístico, Redol realiza uma conferência sobre “Música Popular”, ilustrada com pregões e cantos populares, acompanhados com instrumentos populares, Garcez da Silva fala sobre “Augusto Gil”, com versos ditos por várias pessoas. Intervêm, entre outros, Arquimedes da Silva Santos, Rodrigues Faria, Júlio Goes, Sebastião Goes e Carlos Tomé. Estes dois últimos serão, depois, bons fotógrafos, distinguindo-se o segundo na frequente venda de trabalhos seus para conhecidos jornais estrangeiros. O seu importante espólio está hoje à guarda do Museu Municipal de Vila Franca de Xira. Estes serões não se realizam na sede do Sport Lisboa e Vila Franca, então sediado na Rua Gomes Freire, 9 , porque as instalações são pequenas para o público esperado. “Página Literária” do Mensageiro do Ribatejo Neste ano Redol retoma a sua colaboração em O Diabo e o “Grupo Neo-Realista” responsabiliza-se por uma “Página Literária” no Mensageiro do Ribatejo. No dia 14 de Maio, é publicada a primeira página, com colaboração de Alves Redol (que escreve o artigo de fundo, intitulado “Abertura”), Garcez da Silva (“Eça de Queiroz não é imoral”) e Arquimedes da Silva Santos (poema “Trovas”). No conjunto das quatro edições realizadas colaboram todos os elementos do “Grupo”, excepto Bona da Silva, que, todavia, continua a publicar em O Diabo. A “Página” é de vida efémera, pois em Setembro termina. Só Rodrigues Faria continua no Mensageiro. Em Abril, terminara a Guerra Civil de Espanha, com a vitória dos fascistas. A partir daí, a situação repressiva em Portugal piora muito, em todos os domínios. Em Setembro, Hitler invade a Polónia, dando, assim, início à 2ª Guerra Mundial. As condições são cada vez mais dífíceis para as forças que se opôem ao Estado Novo. Além disso, desde há algum tempo que os adeptos do “Regime” estão, lentamente, a tomar conta do jornal. Note-se que a colaboração dos membros do “Grupo” em Mensageiro é simultânea com a colaboração em O Diabo, mas que neste continua depois da extinção da “Página Literária”. Redol publica, ainda, um artigo sobre José Lins do Rego em Sol Nascente. Neste ano, reactiva-se a actividade cultural do Sport Lisboa e Vila Franca. Não só é retomado o curso de alfabetização que existira na Associação de Classe, aliás de curta duração por pressão das autoridades, como são levados a cabo vários “Serões de Arte”, com conferências, sessões de poesia e música.

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Gaibéus Publicando em O Diabo, Alves Redol continua a conviver com os seus responsáveis e colaboradores e continua a passar por lá às sextas feiras para levar exemplares do jornal para venda em Vila Franca. Na redacção do jornal funciona uma espécie de tertúlia. Em 1939, são directores Adolfo Barbosa, Guilherme Morgado e Manuel de Campos Lima (este iniciando a sua função em 30 de Dezembro e prosseguindo até ao encerramento do jornal em 21 de Dezembro de 1940) e colaboram Jorge Domingues, Mário Dionísio (os dois co-dirigem a publicação) , Fernando Piteira Santos, Cândida Ventura, Álvaro Cunhal, Fernando Lopes Graça, Manuel da Fonseca, etc, os quais se juntam ao fim da tarde para trocar impressões e preparar os números do jornal, enviar os originais à Censura, resolver as questões decorrentes dos cortes desta, paginar, enviar exemplares pelo correio para todo o país. Redol não pode dar grande ajuda neste domínio administrativo, porque trabalha e tem de se deslocar para Vila Franca, onde tem muito para fazer. A maioria dos outros são estudantes e residem em Lisboa. Talvez ainda em 1937, ou já em1938, ali encontra um crítico literário peruano ou cubano que se interessa pelo seu trabalho etnográfico publicado no jornal e por aquele que preparava sobre Glória. O crítico diz-lhe que ele tem vocação para a ficção, pelo que deve tentar o romance. Redol fica

Provavelmente em Maio de 1938, na Primavera, começa a escrever uma novela. Redol tem um temperamento depressivo - segundo escreve um dos médicos psiquiatras que o conhece e que consulta, Dr. Joaquim Seabra-Dinis – escreve com mais dificuldade fora daquela época do ano. Embora escreva “com facilidade” textos correntes. Declara-o em entrevistas e escreve-o no prefácio da 6ª edição de Gaibéus: “Eu que sempre trabalhei na Primavera”. Em Setembro, nas férias, vai “viver com os ranchos do lavrador Henrique Honorato, nas suas lavras de arroz, na Casa Branca, junto ao Tejo, em Azambuja”. Vai averiguar melhor aquilo que já conhece da Lezíria de Vila Franca. A novela já tem título, Cio, e o personagem principal é o Pananão, camponês meio tonto que conhece há muito. Ao fim de algum tempo, quando começa a contar as palavras e compara com O Crime do Padre Amaro, verifica que escrevera setenta e duas páginas. “Afinal, o homem era capaz de ter razão!” e, na noite seguinte, inicia Gaibéus, fundindo a novela no novo texto. Tal como o conto Pardaleiro, de que não há notícia de que chegue a publicar. Redol escreve o romance, a lápis, em papel branco, frente e costas, para poupar, meticulosamente cortado (muitos dos seus apontamentos são escritos nas costas de impressos desperdiçados da Procuradoria). Parte é escrito em casa, na Rua Manuel Afonso de Carvalho nº 13, e, parte, à hora do almoço, na secretária do escritório onde está empregado. Como a letra é muito difícil de compreender, Carlos Pato e o cunhado do autor, Silvestre Mota, dactilografam a versão final do romance, para poder ir para a tipografia, a mesma de Glória. É, também, uma edição de autor. Para conseguir editar os livros à sua custa, Redol, segundo declara numa entrevista em 1949, tem de deixar de fumar e de andar de eléctrico. Para ele, inveterado fumador, significa um grande sacrifício. E tem de ir a pé desde a estação de comboio de Entre-Campos até à Avenida Duque de Loulé, ao Marquês de Pombal. Em Dezembro, o livro está na rua! Embora seja uma edição de autor, traz na capa a chancela da Livraria Portugália. Na época isso é vulgar: as edições são custeadas pelo autor, mas a Livraria Portugália põe a sua chancela e distribui o livro. Segundo Luís Amaro – que trabalhara na Livraria Portugália Editora e na Portugália Editora, foi secretário da redacção da revista Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian e é poeta – a Livraria Portugália, uma pequena livraria fundada em 1918, existente na Rua do Carmo, em Lisboa, onde se reunem escritores de várias sensibilidades e correntes, é adquirida por Pedro Ferreira de Andrade e Raul Luís Dias em 1937. Em 1941, fundam, em frente, a Livaria Portugal, onde pouco depois se junta, como sócio, Henrique Pinto. Em 1942, funda-se a Portugália Editora, na sequência da Livraria Portugália Editora, tendo como sócios Pedro de Andrade, Raul Dias, Agostinho Fernandes, proprietário de várias fábricas de conservas no Algarve, mas que tem um grande interesse pelos livros e quer ajudar a promover a literatura nacional.

aturdido e pensa maduramente no assunto. Talvez uma novela, não um romance! São noites de insónia a cogitar no tema, como escreve no prefácio à 6ª edição de Gaibéus.

Redol e Soeiro Em data não conhecida de 1939, Alves Redol escreve a Soeiro Pereira Gomes oferecendo os seus préstimos e os dos

Retrato de Redol de 1939, feito por um artista plástico italiano.

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seus amigos de Vila Franca, para realizarem em Alhandra um Serão de Arte, para recolha de fundos para a piscina, pois a Comissão respectiva tinha algumas dívidas por pagar. Esta iniciativa propunha-se, ainda, segundo pessoas da época, promover uma aproximação entre as duas localidades rivais. Já aqui se referiu que essa rivalidade chega a provocar cenas de violência. Nomeadamente, a propósito de jogos de futebol entre equipas das duas terras. Contam pessoas das duas localidades que assistem à cena que, numa das sessões realizadas em Alhandra, entre os vila-franquenses figurava Carlos Pato, que, além de participar em actividades culturais, era jogador de futebol de um dos grupos da sede de concelho, provavelmente o Sport Lisboa e Vila Franca, equipa em que jogou. Estando entre os alhandrenses adeptos do clube da terra, o Alhandra Sporting Clube, gerase logo um burburinho, com tentativas de agressão ao jovem futebolista. Redol e Soeiro têm de intervir e dar uma lição no sentido de que o desporto não pode servir para dividir as pessoas, mas sim para as aproximar. Terá aqui nascido uma aproximação e uma amizade entre os dois homens, de que resulta a realização de iniciativas comuns nas duas localidades. Soeiro e a mulher, que é compositora conhecida da rádio e que toca piano, participam em vários serões em Vila Franca. Vários elementos do grupo de Vila Franca participam em palestras e serões. Mais tarde, as mesmas pessoas que contam a cena com Carlos Pato, afirmam que o estreitamento de relações entre as duas comunidades, conseguida com as actividades levadas a cabo em comum, diminui muito a rivalidade existente. Em 12 de Agosto, sai em O Diabo, a primeira colaboração de Soeiro Pereira Gomes neste jornal e em 4 de Novembro a segunda, ambas crónicas, de índole neo-realista. Supõem alguns investigadores que pela mão de Redol. Dada a ligação deste com a publicação e com Soeiro e ser normal levar novos colaboradores, é bastante plausível esta hipótese. Recorde-se que Soeiro envia um conto para publicação em 1935 ou 1936, “O Capataz”, o qual é totalmente cortado pela Censura, mas, depois, aparentemente, não tem mais ligação com o jornal. José Cardoso Pires em “Carta aos Amigos Comuns” afirma, peremptoriamente:”… que foi pela mão do Redol que surgiu Pereira Gomes”. Aliás, é Redol quem convida Soeiro para o passeio do Tejo de 1940, segundo carta deste para o irmão Alfredo de 3 de Junho de 1940 e é também Redol que apresenta Soeiro ao Grupo da Veneza, onde pontuam Ferreira de Castro, Roberto Nobre e Assis Esperança. É, também, Redol que revela a alguns amigos que Soeiro está a escrever Esteiros, o qual “irá constituir uma bela surpresa”. Em 23 de Agosto de 1939, é assinado o Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético. Alves Redol fica muito perturbado, como acontece com muita gente de esquerda, em Portugal e em todo o mundo. Segundo contam vários amigos, entra muito excitado na redacção de O Diabo, e quer saber mais notícias e explicações. Não é o único entre 258

os presentes. Uma reacção oficial do Partido Comunista Português chegou depois. Redol conta a várias pessoas, muitos anos mais tarde, que, numa sessão das realizadas em Alhandra, os presentes estão tão perturbados, que ele teve de encaminhar a conversa para esse assunto, embora sem dizer, claro, qual a origem da explicação. 1940 As repercussões de Gaibéus Logo no início do ano, surgem várias críticas em publicações neo-realistas a saudarem a edição do primeiro romance neo-realista. Percebe-se que Gaibéus é a resposta ao desafio dos presencistas: “venham obras, basta de teoria”. Também publicações não neo-realistas saúdam o aparecimento de um novo escritor, num meio literário onde nada de novo acontece, em particular no domínio do romance. Diz o Diário de Notícias : “Alves Redol mostra-se neste livro um grande romancista, conhecendo todos os segredos da técnica”. “A nosso ver, este jovem escritor está fadado para ir longe, muito longe” (Arquivo Nacional). “Gaibéus … é, com algumas obras de Ferreira de Castro, o melhor expoente do romance moderno português” (Diário de Lisboa). “O recente livro de Alves Redol é um índice do que podem dar-nos os romancistas portugueses” (Jorge Amado, em Vamos Lêr, revista brasileira do Rio de Janeiro). Por outro lado, em algumas tabernas de Vila Franca e nas colectividades, Gaibéus é lido em comum e nas Lezírias camponeses alfabetizados leêm-no aos que são analfabetos. Os camponeses revêem-se no livro! “No dia 30 de Abril de 1940, a solicitação do Exmo. Sr. Director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, foi feita, no estabelecimento desta cidade, ‘A Grafia’, a apreensão de um exemplar do livro “Gaibéus - Tomar, 2 – V – 1940, O Delegado do Governo (assinatura ilegível)”. Esta iniciativa da PVDE deve ter sido pontual, pois não há noticias de se ter realizado de forma sistemática. Para mais, em 1941, sai a 2ª edição. Com data de 13 de Fevereiro, a Censura envia uma carta à direcção de Sol Nascente, suspendendo a publicação da revista. Satisfeitas algumas exigências da Censura, a suspensão é levantada e a revista retoma a publicação em 7 de Março. No entanto, a 15 de Abril sai o último número, que traz na capa a reprodução da pintura Café, de Candido Portinari, que estará exposta na Exposição do Mundo Português. Em 26 de Março, no salão de festas do Sport Lisboa e Vila Franca, Redol faz uma conferência sobre “Totenismo”. Esta conferência é refenciada por José Neves no seu livro Comunismo e Nacionalismo em Portugal como tendo evidentes influências do livro Totém e Tabú, de Sigmund Freud, de quem Redol seria um “leitor devotado”. Aliás, encontra a mesma influência em vários textos de Redol, em cuja biblioteca este livro existe. O Mensageiro do Ribatejo de 31 de Março anuncia que Alves Redol vai a Santa Iria da Azóia no dia 7 de Abril fazer a sua palestra sobre “Música Popular”, enquanto o Grupo Cénico

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do Grémio apresenta as peças Malditas Letras e Código Penal, Artº… de André Brun, a favor do Grémio Recreativo Santairiense. Em 29 de Maio, na sede do Sport Lisboa e Vila Franca, apresentado por Alves Redol, Agostinho da Silva profere uma palestra sobre “Petróleo”, acompanhada com projecções. Supõe-se que seja utilizada a mesma máquina de projecção da palestra “Terra de Pretos, Ambição de Brancos”, de 1934. No início do ano, Redol integra, também, a “Comissão de Cultura” do Grémio Artístico Vilafranquense. É, então, Presidente da Direcção Edmundo Moura, antigo componente da “Mocidade Esperançosa”, mas que não transitara para o “Grupo Neo-Realista”. Aliás, como outros. É por um decreto de Dezembro de 1939 que a colectividade é obrigada a alterar a sua designação, mas parece que só em 1942 o fará. Fica, então, a designar-se por Ateneu Artístisco Vilafranquense. Redol prossegue a colaboração em O Diabo (tal como Arquimedes, Garcez e Faria), mas não em Mensageiro do Ribatejo. Do “Grupo”, apenas Rodrigues Faria continua. Publica o livro de contos Nasci Com Passaporte de Turista, em edição de autor, com a chancela da Livraria Portugália, onde inclui o conto com o mesmo título, juntamente com mais cinco contos, alguns dos quais já publicados em O Diabo e Mensageiro do Ribatejo. Será neste ano que escreve a peça em um acto Porto de Todo o Mundo, baseado no capítulo com o mesmo título de Gaibéus. O objectivo deve ser o de transmitir aquele texto duma forma mais impactante, como é o caso do teatro. Mas desconhece-se se a peça é representada na época. Em 1943, o Grupo Desportivo e Recreativo do Pessoal da Imprensa Nacional faz um pedido de representação à Inspecção-Geral dos Espectáculos, o qual é recusado. Mas, no mesmo ano, é representada num acampamento realizado pelo Clube Nacional de Campismo, Rio de Mouro.

de 1940), Arquimedes da Silva Santos participam. Também, provavelmente, Fernando Piteira Santos e Cândida Ventura, que então se namoram e que casam em final de Julho, Manuel Campos Lima, então Director de O Diabo, devem ter participado. Álvaro Cunhal é preso em Maio e libertado em Novembro, pelo que não pode ter estado presente . Alguns investigadores atribuem a Manuel da Barraquinha a organização destes passeios, com base no depoimento de um participante. Nem outros participantes, nem aqueles que acompanham mais de perto a iniciativa, como António Dias Lourenço, Arquimedes da Silva Santos e pessoas de Vila Franca, confirmam essa informação. Manuel da Barraquinha tem uma taberna no cais, que nunca abandona. Nem pode ter contactos com os intelectuais de O Diabo, que só Redol e Dias Lourenço têm. A taberna é junto à “praça da jorna”, onde todas as segundas feiras se realiza a arrematação dos trabalhadores que vão laborar na Lezíria. Ele tem uma grande influência junto daqueles, dando-lhes conselhos e informações. É preso, mais tarde, e está no Forte de Peniche, onde Redol, Maria e o filho António o visitam. A confusão do tal participante deve vir do facto da taberna estar no cais e, provavelmente, Redol ou Dias Lourenço apresentam-no aos participantes nos passeios. Ou confunde-o com António Vitorino, que é o cozinheiro dos passeios e que também tem uma taberna no cais. Parece ter havido um outro passeio em 1939, relatado em 13 de Maio deste ano em O Diabo, pelo seu colaborador e advogado de Tomar Antunes da Silva – não confundir com o escritor do mesmo nome – numa das suas crónicas publicadas no jornal, intituladas “Boca do Inferno”. Mas este passeio deve ter tido um objectivo diverso dos que se lhe seguem. Mas porque será que o passeio de 1940 não é relatado no jornal? Será para não chamar a atenção das autoridades ou será porque tem um âmbito diferente?

Passeios no Tejo Neste ano, realiza-se o que se pode considerar o primeiro “Passeio no Tejo”, provavelmente em Maio, organizado por Alves Redol e António Dias Lourenço, no barco “Liberdade”, de Jerónimo Tarrinca. A parte gastronómica é entregue a António Vitorino, que possui uma taberna no cais, é carpinteiro e fizera parte da Direcção da Associação de Classe dos Operários da Construção Civil. O barco sai do cais de Vila Franca e navega rio acima até ao local conhecido por “Obras”, no concelho de Azambuja. Aqui se almoça – caldeirada ou açorda de sável – se convive, se fala de cultura e de política. Um dos temas preferidos era o fascismo e a guerra. Segundo vários dos participantes, Redol é um dos polarizadores das conversas. Nele participam intelectuais de O Diabo, que chegam a Vila Franca de combóio, mas não Mário Dionísio, porque nesta altura prepara o seu casamento. Aliás, nunca participa em qualquer destes passeios, porque logo a seguir adoece gravemente com tuberculose e vai para o Caramulo. A doença dura três anos. Não se consegue apurar quem participa neste passeio, pois, das fotografias existentes, nenhuma será deste ano. Redol, Maria, Dias Lourenço, Soeiro (ver carta ao irmão Alfredo de 3 de Junho

Redol, Soeiro e as respectivas mulheres passam juntos as férias desse ano, em Julho, no Baleal e passeiam às Berlengas. Existem várias fotografias dos dois nestas férias. São, agora, muito amigos e visitam-se frequentemente. Leêm livros em comum e trocam impressões sobre eles. Um dos escolhidos é O Cimento, de Feodor Gladkov. Manuel da Fonseca publica o seu primeiro livro, Rosa dos Ventos, de poemas, com ajuda financeira de Alves Redol e outros amigos, entre os quais toda a direcçaõ de O Diabo. Aliás, o livro é impresso na tipografia Imprensa Baroeth, na Rua do Telhal, 65 , em Lisboa, a mesma onde será impresso Nasci Com Passaporte de Turista. Em Rosa dos Ventos anuncia-se a publicação, em breve, daquele livro. As diversas coincidências, mostram a intervenção que Redol tem na edição do primeiro livro de Manuel da Fonseca. Dadas as índoles dos dois escritores, foi Redol, provavelmente, quem tratou de grande parte dos assuntos relativos à edição. Durante este ano, como em 1939, há muita colaboração de neo-realistas em Sol Nascente e O Diabo. Aqui, muitos ensaiam as suas capacidades. Muitos não vão continuar. Não dura muito tempo essa efervescência, pois em Abril é publicado o último número de Sol Nascente, por

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determinação da Censura. Em Dezembro, O Diabo é, por sua vez, obrigado a cessar a sua publicação. No final deste ano, sai à estampa o livro de contos intitulado Nasci Com Passaporte de Turista, de Redol, em edição do autor, mas com a chancela da Livaria Portugália. Segundo Luís Amaro, que trabalhou nesta entidade, foi secretário de redacção da revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste Gulbenkian e é poeta, a Livraria Portugália é fundada em 1918 na Rua do Carmo e distribui livros de autores portugueses, que, embora levem a sua chancela, são edição do autor. Em 1937, Pedro Ferreira de Andrade e Raul Luís Dias adquirem a empresa e fundam, em 1941, a Livaria Portugal, que instalam em frente. Pouco depois, Henrique Pinto entra para sócio. Mais tarde, constituem a Portugália Editora, para a qual entra como sócio Agostinho Fernandes, industrial conserveiro algarvio, amante de livros e que pretende promover a literatura portuguesa. Em Outubro, Alves Redol faz uma conferência na sede do Sport Lisboa e Vila Franca sobre “Música da Borda d’Água” e, em data não especificada, uma sobre “Pregões de Lisboa” na sede da Sociedade União Musical Vilafranquense. Em Dezembro, Soeiro Pereira Gomes realiza outra sobre “A Origem do Universo”(ou “Evolução do Universo”?), que levanta grande polémica, mas de que não se conseguiu encontrar notícia em Mensageiro do Ribatejo ou Vida Ribatejana. O Clube Radiofónico de Portugal convida vários escritores, artistas e críticos para fazerem palestras sobre temas culturais: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Fernando Lopes Graça, Manuel Ribeiro de Pavia, Manuel da Fonseca, Agostinho da Silva, João de Freitas Branco, António Sérgio, Raquel Bastos, Manuela Porto, Alves Redol e outros. O último, terá pronunciado a sua palestra, sobre o Ribatejo, no dia 2 de Dezembro. Em Junho de 1940, as tropas nazis entram em Paris e a França capitula. Para Redol e os seus amigos cai um baluarte da cultura e da civilização. A França da Revolução Francesa, da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, da Comuna de Paris. A França onde se punham tantas esperanças de uma nova sociedade. De tantos escritores e artistas que formaram as consciências daqueles jovens intectuais. De Victor Hugo, Zola, Henri Barbusse, Romain Rolland, Aragon, Eluard. A perturbação é devastadora! Em 1940, inaugura-se, em Lisboa, a “Exposição do Mundo Português”, manifestação de força e de pujança do Estado Novo. Na representação brasileira, está exposta a pintura emblemática de Portinari “Café”. Os neo-realistas acorrem para a verem e sai uma reprodução da obra, quer em Sol Nascente, quer em O Diabo. 1941 Os neo-realistas não têm, agora, onde publicar as suas produções. É que, além de O Diabo e Sol Nascente, também desaparece Pensamento e se, entre 1937 e 1939, conseguem ter voz em páginas literárias de muitos jornais regionais e locais, essas tribunas deixam de estar disponíveis, mormente 260

em 1939. O jornal Altitude tem dois números e acaba. Outro Ritmo, Gleba, Glaúdio, Ágora há muito haviam desaparecido. O único número de Cadernos da Juventude é apreendido pela PVDE na tipografia em 1937. Síntese, publicado em Coimbra, ainda se mantém até final de 1941. Todas as portas lhes são fechadas. Nestas condições, Alves Redol nada publica em jornais ou revistas, mas sai à estampa o romance Marés, agora em edição da Livraria Portugália, com uma estrutura totalmente diferente da de Gaibéus, mais aproximada à do romance tradicional. Aqui há um personagem central, o comerciante que não tem futuro, que representa uma sociedade condenada. As críticas são entusiasmantes. Mais tarde, Alves Redol afirma que são exagerados os elogios que fazem aos seus primeiros livros, o que poderia tê-lo levado a pensar que não tinha que melhorar. Em edição da Livraria Portugália sai a 2ª edição de Gaibéus. Garcez da Silva publica, a expensas suas, o livro Poemas. “Novo Cancioneiro”, “Bibiloteca Cosmos” e Esteiros Na colecção “Novo Cancioneiro”, de Coimbra, com impulso de Fernando Namora, Joaquim Namorado e João José Cochofel, saiem os livros de poemas Terra, de Namora, Poemas , de Mário Dionísio, Sol de Agosto, de João José Cochofel, Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado, Os Poemas de Álvaro Feijó, de Álvaro Feijó, Planície, de Manuel da Fonseca. Começa a publicar-se em Junho a “Biblioteca Cosmos”, dirigida por Bento de Jesus Caraça. O primeiro volume editado é O Homem e o Livro, de M. Iline. É uma colecção que, em breve, tem milhares de assinantes. No final do ano sai Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, em Edições Sírius, Rua Nova do Almada, 59 – 1º, em Lisboa e impresso nas oficinas de Severo, Freitas, Mega e Cia., na Rua de S. Lázaro, 113-115, em Lisboa. Também recebido com grande entusiasmo. O Neo-Realismo parece que se afirma. Provavelmente em Maio, realiza-se mais um “Passeio no Tejo”. Das fotografias existentes conseguem distinguir-se: Alves Redol e Maria, Dias Lourenço, Piteira Santos, Cândida Ventura, Rui Grácio, Arquimedes da Silva Santos, Francisco José Tenreiro, Soeiro Pereira Gomes, Francisco Ramos da Costa, Inácio Fiadeiro e Stella, Hugo Baptista Ribeiro e Pilar, Aniceto Monteiro e Lídia, Borges de Macedo, Manuel Campos Lima, Huertas Lobo, Humberto Morgado, Mário Rodrigues Faria, Carlos Pato (ambos do “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”). Além de homens de letras, participam matemáticos e futuros historiadores, arquitectos e economistas. Alguns são estudantes que participam nas movimentações contra o aumento das propinas deste ano e de 1942. Este passeio é o único em que Álvaro Cunhal está presente, pois em 1940 está preso e em fins de 1941 passa à clandestinidade. Segundo Pedro Neto, é Alves Redol que lhe dá indicação para ir buscar uma pessoa que vai chegar de bicicleta a determinado sítio e levá-lo ao barco de um alhandrense que o conduzirá ao “Liberdade”. Embora não estivesse ainda na clandestinidade, os cuidados na presença de Cunhal são extremos, como se vê. São célebres,

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e amplamente publicadas após o 25 de Abril, as fotografias em que aparece com António Dias Lourenço ou com Soeiro Pereira Gomes e Carlos Pato. No percurso, Cunhal fala, entre outas coisas, da guerra na Europa. Alves Redol fala do Ribatejo e de política em geral, Soeiro Pereira Gomes diz poemas e conta histórias com muita graça. Em final deste ano, Dias Lourenço passa à clandestinidade, integrando o conjunto de pessoas que reorganizam a estrutura do Partido Comunista. Recorde-se que Cunhal também o faz. E outros. Os avieiros Talvez tenha sido em 1937 que Redol está num Domingo de manhã na taberna de António Vitorino e entra um homem cujo comportamento é distinto dos demais. Questionado, Vitorino diz-lhe que é um avieiro e que faz parte de um grupo social que vem da zona de Vieira de Leiria, que pesca no Tejo e que vive nos barcos. O então candidato a escritor desconhece tal grupo. Note-se que, percorrendo o Mensageiro do Ribatejo, não se encontra qualquer referência a esta gente. E, em Vila Franca ainda é geralmente desconhecida, mesmo para quem, como Redol, tudo procura sobre a vida do povo, se dá com muitas pessoas e tem uma família que trabalha em ramos de comércio por onde passam muitas e variadas populações. Alves Redol interessa-se pelo assunto, sabe mais através de Jerónimo Tarrinca que o leva à Toureira, onde estabelece amizades, o que não é nada fácil, tratando-se de avieiros, gente fechada, individualmente e como comunidade, que só casam uns com os outros. Durante quatro anos percorre as aldeias avieiras. No seu espólio existe um fotografia que Maria datou de 1938. A datação será fiável? A data terá sido aposta na altura ou mais tarde, quando a memória já traíra? Nas férias de 1941 – o romance veio a público em início de 1942, pois existe uma crítica de Mário Dionísio em Seara Nova de Abril de 1942 - consegue instalar-se na aldeia da Palhota a convite da comunidade local, que reúne o seu conselho de anciãos para tomar a decisão. Existe acordo, mas desde que a mulher o acompanhe. Assim, Redol e Maria instalam-se em casa de Manuel Lobo. Os dois vão pescar com Manuel Guerra e Maria experimenta remar o barco, tal como as mulheres avieiras fazem: enquanto os maridos lançam e recolhem as redes e o peixe apanhado, elas remam. Noutra ocasião em que Maria está doente, não o podendo acompanhar, é a irmã Inocência que vai com ele. Escreve Redol: “Quando cheguei à Palhota, não entrou nessa aldeia ribeirinha um observador curioso de pitoresco ou de bizarria […] Mas importa sublinhar e esclarecer que tal convívio me enriqueceu: alarguei na aldeia avieira uma parte da minha paixão pelo Tejo, nascida em menino, quando o descobri pela mão do meu avô Venâncio”. Quando Manuel Lobo e Manuel Guerra lhe mostram a sua vontade de o convidar para padrinho de casamento da filha do segundo e neta do primeiro, Emília Guerra, Redol fica muito emocionado e vêm-lhe as lágrimas aos olhos. Os padrinhos são Redol e a irmã. Talvez este casamento tenha sido em 1942. Só mais tarde saberá que, afinal, são da mesma “família”, pois a avó Ana da Guia é avieira.

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Será no Verão deste ano que o casal Redol faz algumas incursões à Costa de Caparica, onde se juntam parte dos que fazem os “Passeios no Tejo”, na praia e em casa de Avelino Cunhal, pai de Álvaro, advogado e escritor. Na praia, em fato de banho, vêem-se bem as cicatrizes que Álvaro Cunhal tem no corpo, em resultado das agressões que a PVDE lhe infligira. Diz-se, entre os amigos, que tenha sido com cavalo marinho. Nas conversas e nos debates então havidos, Cunhal revela toda a sua fulgurante capacidade de argumentação. Em Junho, o jovem escritor pronuncia uma conferência no Grupo de F.B. “Empregados no Comércio”, em Santarém, intitulada “A segunda descoberta do Brasil”, em que aborda a nova literatura brasileira. Redol pronuncia muitas conferências, pois é constantemente convidado, sem que seja hoje possível detectar todas. É eleito Vice-Presidente da Assembleia Geral da Sociedade União Musical Vilafranquense. Redol vai viver para Lisboa Em final de 1941, Alves Redol vai viver para Lisboa, para a Av. de Berna, 56, num prédio de que é proprietário o seu patrão. Além de lhe ser mais prático, devido a ter na capital o seu emprego (dispende várias horas por dia na ida e na volta, o que é para ele, enfraquecido pela doença contraída em Angola, muito cansativo), o ar em Vila Franca deve estar “irrespirável” e não deve haver condições para fazer seja o que for, pelo menos, para aqueles que já estão “assinalados”. Deve ser, então, que Alves Redol mais acompanha a vida intelectual lisboeta e frequenta, embora não diariamente, as tertúlias de escritores, nomeadamente as dos Cafés Portugal e Palladium e a Livraria Portugal. É um homem de acção, que trabalha muito. Não tem tempo para estar horas a fio a conversar. Por isso, após a sua morte, Fernando Grade escreveu, em sua homenagem, “Requiem Por Um Escritor Que Não Era do Chiado”. No dia 22 de Junho, Hitler invade a União Soviética e vai destruindo o seu poder militar. É um terramoto entre as forças democráticas, em especial as de esquerda. Muitos reagem, aderindo ao Partido Comunista, em reorganização. Muita gente, mesmo que antes não o desejasse, pensa que é a hora de se juntar à luta. Muitos gostariam de partir para aquele país, para ajudar na resistência, como o terão querido fazer – e alguns fazem - relativamente a Espanha. Arquimedes da Silva Santos, Atilano dos Reis Ambrósio, Octávio Pato e António Tavares aderem à juventude comunista. 1942 No início do ano sai à estampa o romance Avieiros, em edição da Livraria Portugália. É um novo êxito de público e a grande maioria das críticas são entusiasmadas, apesar das objecções de Mário Dionísio. Acha que a forma usada não é a mais adequada ao Neo-Realismo. Acha que existe muita retórica . Mas em 1943 sai a 2ª edição, em 1944 a 3ª e em 1945 a 4ª. É um romance em que, pela primeira vez na literatura portuguesa, uma mulher tem papel de liderança. 261


Bibliotecas do Ateneu e da Sociedade Musical Neste ano, Mário Rodrigues Faria é Presidente da Direcção do Grémio Artístico Vilafranquese. Redol, mesmo depois de ir viver para Lisboa, continua a acompanhar a actividade cultural da associação, sendo quase certo que colabora na constituição da biblioteca que é inaugurada em 20 de Março de 1942 e de cuja organização se encarrega um grupo constituído, entre outros, por Atilano dos Reis Ambrósio (Jorge Reis), António Tavares e Octávio Pato. Em 17 de Abril, realiza-se um “Serão Cultural”, dedicado à comemoração do Centenário de Antero de Quental, em que se representa a peça de teatro Auto do Busto, de Marcelino Mesquita. Atilano Ambrósio fala sobre Antero de Quental, completando-se o serão com recitativos e números musicais, acompanhados ao piano por Manuela Câncio Reis. Em 12 de Maio, realiza-se outro“Serão”, este dedicado ao Brasil, com a apesentação de parte de uma peça de teatro de Erico Veríssimo, em 14 de Junho, uma sessão solene alusiva ao aniversário da morte de Luís de Camões, em que Atilano dos Reis Ambrósio lê um texto sobre o poeta. Em 25 de Maio de 1943, comemora-se o 1º aniversário da biblioteca, sendo representada a peça de Avelino Cunhal Teatro Sem Palco, seguindo-se uma palestra por Manuel Campos Lima e recital de poesia. A biblioteca, tendo sido iniciada com duzentos volumes, chega aos setecentos e cinquenta. Fernando Lopes Graça, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, António Pedro e outros, fazem conferências. Anos mais tarde, Mário Dionísio escreve que, na noite em que fala no Ateneu, janta em casa do pai de Redol. Assim se limitam as despesas da colectividade. Durante alguns anos, Alves Redol é Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Grémio/Ateneu e acompanha como conselheiro toda esta actividade, embora já estando a viver em Lisboa. Por outro lado, por todo o concelho de Vila Franca de Xira, organizam-se, então, bibliotecas em colectividades populares. Pelo menos na de Santa Iria há a mão de Alves Redol. Em Março, Redol participa num jantar de homenagem ao maestro da banda, Alípio Seco, a quem a colectividade muito deve, sendo convidado a usar da palavra. Outra colectividade onde os “continuadores” do “Grupo Neo-Realista de Vila Franca” exercem acção é a Sociedade União Musical Vilafranquense. Também em 1942, constitui-se uma Comissão Pró-Biblioteca e, no ano seguinte, realiza-se a I Exposição-Feira do Livro Técnico, o I Salão de Arte, expondo-se obras de artes plásticas e outras iniciativas culturais. Redol também acompanha esta actividade como conselheiro. Em Lisboa, Alves Redol vive perto do Campo Pequeno. Aqui, na Rua de Entre-Campos, existe uma pequena colectividade designada por Grupo Desportivo Operário, que se dedica ao desporto e onde se realizam bailes aos fins de semana. Redol organiza, com um grupo de sócios, uma biblioteca, que após o 25 de Abril ainda ali existe. Pouco depois desta data, há ainda quem se recorde do escritor. Outras colectividades tiveram a sua colaboração, mas não foi possível, até agora, identificá-las. Em meados do ano, Redol – recorde-se que está viver em Lisboa – pede a Atilano dos Reis Ambrósio que contacte Manuel da Barraquinha para saber se algum rancho de 262

valadores anda na Lezíria, pois começam a rarear. Tem sorte, porque um rancho está no Esteiro do Ruivo. Vão os dois para junto dele, vivendo durante duas semanas nos seus barracos, com a companhia de pulgas e melgas. Escreve Atilano: “E enquanto se entregava ao seu inquérito – fotografando, tomando notas, indagando o nome das alfaias, os termos de trabalho …”. Quer dizer, Alves Redol, além de tirar apontamentos, seguia o método de qualquer etnógrafo: também tira fotografias. Este testemunho de Atilano Ambrósio é muito importante, porque esclarece a existência no espólio de Alves Redol de numerosas carteiras de fotografias contendo positivos e negativos. Normalmente os negativos ficam na posse do fotógrafo, não os dá a ninguém. Isso seria um indício de que Redol fotografa. Mas o depoimento de Atilano tira todas as dúvidas. Existem fotografias da Glória, dos barqueiros do Douro, do Porto, dos avieiros, da Lezíria, das minas. Redol fotógrafo é, hoje, uma nova faceta do escritor. Se a ideia inicial é a de fazer, depois de Fanga, um romance sobre os valadores, e se o escritor chega a escrever algumas páginas, a breve trecho desiste, fundindo, posteriormente, o trabalho já realizado no romance A Barca dos Sete Lemes. O último dos”Passeios no Tejo” No Verão, muito provavelmente em Junho, realiza-se o que deve ser o último dos “Passeios no Tejo”. Desta vez, são usados dois barcos e, além dos habituais, participam Bento de Jesus Caraça, Fernando Lopes Graça, Manuel da Fonseca, Sidónio Muralha, Augusto Sá da Costa, Alfredo Pereira Gomes, Antero Serrão de Moura, Carlos Alberto Lança, Maria Lucília Estanco Louro, Inácio Fiadeiro, Cândida Gaspar, Júlio Correia Guedes, Maria Helena Correia Guedes, Francisco Pulido Valente. Há gente de todas as áreas, incluindo futuros físicos, economistas e engenheiros. Note-se que neste e no de 1941 participa um grupo notável de matemáticos, como Bento de Jesus Caraça, António Aniceto Monteiro, Hugo Baptista Ribeiro, José Morgado, Zaluar Nunes, Augusto Sá da Costa, Alfredo Pereira Gomes, alguns deles fundadores da Gazeta de Matemática, professores universitários, todos eles perseguidos pelo fascismo português. Uns são expulsos da Universidade, outros não são aceites porque se recusam a assinar a declaração anti-comunista. Vários deles têm uma carreira internacional brilhante em universidades estrangeiras, para as quais são convidados quando se sabe do seu afastamento das portuguesas. Com a ida de Arquimedes da Silva Santos para Coimbra para estudar Medicina e o afastamento de Garcez da Silva, incomodado pela polícia no ano anterior, o “Grupo Neo-Realista de Vila Franca” deixa de existir, pois fica reduzido a dois elementos que não têm capacidade ou condições para o refazer com outras pessoas. Neste ano, Fernando Piteira Santos passa à clandestinidade. Deve ser nesta situação que está a viver alguns dias em casa de Alves Redol com Cândida Ventura. Esta sai disfarçada usando as roupas de Maria, ofendendo-se algumas vizinhas porque “Maria” (isto é, Cândida Ventura) passa por elas e não lhes fala!

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As relações de Redol com Maria não vão bem. Têm personalidades muito diferentes: ele é reservado, modesto, não gosta muito de estar em evidência, com tendência para a depressão, embora, por outro lado, apaixonado, “de sensibilidade exaltada”, ela é expansiva, alegre, fala com toda a gente – quando reside, ainda solteira, no edifício do Café Central por cima deste, na casa juntam-se as primas e amigas no período do Carnaval e dali fazem partidas aos clientes do café, alguns deles gente grada da terra; entre eles o Major Delgado. Redol chega mesmo a abandonar a casa comum e vai viver com outra pessoa nas imediações do Campo Pequeno. Os amigos, entre os quais Piteira Santos, pressionam-no a voltar e chegam a tentar sensibilizar a tal pessoa com quem vive. Esta não é a primeira mulher com quem o escritor tem relações extra-matrimoniais e não será a última. É uma constante da sua vida! Redol volta a casa e os amigos aconselham-no a ter um filho: pode ser que isso reequilibre as relações entre o casal. Entretanto, começa a escrever Fanga. É um assunto que conhece bem, pois da família da Golegã, que há muito visita frequentemente e de que sabe bem a história, alguns fazem a “fanga”. Acha que “Avieiros tem muitos defeitos”, isto é, atende mais às observações de Mário Dionísio do que aos grandes elogios de outros. Atravessa um momento difícil, depressivo e pensa em desistir de ser escritor. Mas, a seguir: “Atirei-me à Fanga com uma força!”, mas, antes: “Ganhei medo ao papel branco. Medo autêntico. Com tantos fantasmas à minha beira, atormentei-me. Longos meses. As primeiras páginas de Fanga, o romance que se lhe seguiu (a Avieiros), queimaram-me os nervos”. A situação continua a ser desfavorável às forças democráticas. Apesar de ter travado o avanço nazi, nomeadamente às portas de Moscovo, a União Soviética, que faz um esforço de guerra enorme, não consegue fazer recuar o inimigo e só nos últimos meses do ano começa a ter progressos a conta-ofensiva. Dá-se o cerco das tropas nazis em Stalinegrado. Hitler domina quase toda a Europa continental e fustiga a Grã-Bretanha. No Norte de África, os ingleses estão a ser derrotados por Rommel. Em Portugal, a repressão é muito forte, a vida é muito difícil, há racionamento de géneros alimentícios. Mas ouve-se clandestinamente a BBC e a Rádio Moscovo. 1943 Fanga Em 13 de Março de 1943, o romance Fanga é posto à venda, em edição da Livraria Portugália. Nesse mesmo dia nasce o único filho, António, que os amigos do casal, devido a essa circunstância, chamam de “fangueiro”. São seus padrinhos Soeiro Pereira Gomes e Cândida Ventura. O primeiro, que gosta muito de crianças e não tem filhos, adora o afilhado, que não larga quando visita o casal. A vida deste não é fácil, pois o bébé não retém os alimentos e chora toda a noite. Só mais tarde, o médico, Dr. Jácome Delfim, um homem de esquerda, dirá que não esperava que a criança sobrevivesse. Para Redol não são tempos fáceis. É provável que tenha

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noção do que se passa e pense que, mais uma vez, a morte lhe ronda a porta. Além da Censura, das perseguições, das ameaças, da vida dura por causa das consequências da guerra e do racionamento alimentar, a vida familiar não é risonha. Segundo declara em 1958 numa entrevista e a propósito de Fanga “… experimentei uma forma narrativa diferente da empregada nos meus romances anteriores”. Fanga recebe o aplauso geral, até de João Gaspar Simões, que o considera “obra prima do género”. Ele não gosta é do “género” e , por isso, desanca em tudo o que seja ou pareça Neo-Realismo. Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira ( e muitos outros) também não escapam. Também os leitores recebem entusiasticamente o romance. Segundo Mário Dionísio, uma jovem que conhece, analfabeta, “… me apareceu com a Fanga na mão e disse simplesmente: ‘Queria aprender a ler para ler este livro’”. Foi Maria Letícia que a ensinou, utilizando o próprio romance. E outros exemplos existem. Segundo Fernando Namora, Redol é “um escritor de maiorias, que não é por força ser um escritor dispensado pelas minorias, ainda que estas dificilmente perdoem tal larguesa de trato”. Em contrapartida, o livro é muito mal recebido pelos grandes lavradores da Golegã, que nele se vêem retratados. Chegam mesmo a adquirir todos os exemplares que podem e fazem uma fogueira com eles na praça central da terra. Existem vários testemunhos sobre este evento. Redol receia represálias sobre a família e não só deixa de visitar os familiares, para não os expor mais, como faz grandes recomendações às primas para que não vão sozinhas a determinados locais da terra e recusem ordens dos capatazes para fazerem determinados serviços em locais isolados. É que, no romance, um dos lavradores viola uma jovem camponesa numa situação dessas. Aliás, isso era vulgar em todo o Ribatejo e Redol já o denunciara em Gaibéus. A acção destes lavradores não deve ter ficado por aqui, pois pode ser desta época a ordem para os romances de Redol serem sujeitos a Censura prévia. E também começam a surgir nos jornais do Regime, entre os quais o Diário da Manhã, campanhas contra o escritor. Por outro lado, a Censura proíbe a portada do livro : “Fanga - sombra da Idade Média projectada nos nossos dias. Senhores vivendo da terra sem nada lhe darem. Servos fecundando a terra sem nada receberem”. A 2ª edição já não a terá. Também poderá ser desta época a ameaça – que Redol revela, mais tarde, aos familiares e amigos mais novos – publicada num desses jornais, de que será um dos três cidadãos portugueses a serem imediatamente fuzilados, assim que as tropas de Hitler cheguem a Portugal, situação que, em certo momento, se considera inevitável e de que os radicais do Regime muito falam. É importante encontrar o jornal que contém essa referência, o que até agora não foi possível. Em Fevereiro, realiza-se, por iniciativa da Sociedade União Musical Vilafranquense, uma 1ª Exposição-Feira do Livro Técnico, tema que as autoridades não têm argumento para 263


perseguir e em Agosto o 1º Salão de Arte, com exposição de obras de artes plásticas de artistas de Vila Franca, Alhandra, Lisboa, Moscavide e Santarém, sendo muito provável que Alves Redol tenha facilitado ou realizado mesmo alguns contactos. A Academia das Ciências de Lisboa, atribui todos os anos o Prémio Ricardo Malheiros. O júri, neste ano, numa primeira fase, decide, galardoar o romance Avieiros. Joaquim Manso, director do Diário de Lisboa, chega a mandar um jornalista entrevistar Redol. Mas, entretanto, sabe-se que o Prémio foi outorgado a outro escritor. O júri envia uma carta a Redol anunciando que, se o regulamento o permitisse, lhe teria sido atribuída uma Menção Honrosa! Entretanto, começa a publicar-se a Colecção “Novos Prosadores”, correspondente, no romance, a “Novo Cancioneiro” na poesia. Saem Fogo na Noite Escura, de Fernando Namora e Casa na Duna, de Carlos de Oilveira. Afonso Ribeiro publica, fora daquela colecção, o romance Aldeia. Na poesia, continuam a sair obras importantes. O Neo-Realismo, na sua primeira fase, está em plena actividade. Em carta para Arquimedes da Silva Santos, Redol mostra-se íntimo da colecção “Novo Cancioneiro”, escrevendo: “Fico à espera dos teus originais para o volume do ‘Novo Cancioneiro’. Tens obrigação de o fazer, porque não te faltam possibilidades”. Na verdade, não chega a sair qualquer volume do poeta, apesar de o ter escrito, com o título Plinto. Na mesma carta Redol anuncia que “No volume que publicaremos em Junho, será incluida uma peça em treze quadros do Dr. Avelino – que te manda cumprimentos – com o título A Rede e a Presa”. E logo a seguir: “A editorial é uma tentativa que iniciei para amparo dos novos com qualidades. Não sei da possibilidade de realização”. E mais à frente:”… faremos um volume variado de teatro, ensaio, poesia, contos, desenhos, para medir bem o caminho definitivo. Se a assinatura se alargar, editaremos a seguir o romance do Pereira Gomes“(Engrenagem, que na mesma carta revela já conhecer). Não se percebe que editora é esta, que se deve ter gorado. Mas poderá ser a Terra-Editora, que em 1947 faz tentativa de aparecer a público. Nesta carta, Redol refere-se ao pedido que Arquimedes lhe faz para lhe enviar uma peça de teatro para ser representada pelo Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). Responde-lhe que não tem qualquer peça pronta, mas quando ele vier a Lisboa, lhe lerá o que tem entre mãos. Provavelmente neste ano, a firma onde trabalha passa a designar-se Empresa Municipalista, pois, por imposição legal, as Procuradorias deixam de poder existir. Segundo uma entrevista de 1945, Redol vai pela primeira vez ao Douro em 1943. Francisco Tavares Teles, que vive no Pinhão, é empregado numa mercearia e é a ele que Alves Redol se dirige naquele último ano, na companhia de um amigo comum, José Arnaldo Monteiro. Aquele escreve, em 1973, que o escritor visita a região pela primeira vez em Setembro de 1943, com o objectivo de preparar uma obra intitulada “Trabalho em Portugal”, com várias colaborações, coordenada por ele e a ser publicada pela Editorial Inquérito, 264

editora com quem começa a trabalhar. Este projecto não vai por diante. Redol volta em 1945, mas com outro objectivo. Alexandre Babo afirma várias vezes em público que Redol e Soeiro combinam dividir o país em duas partes, dedicando-se Redol ao Norte e Soeiro ao Sul. Babo fala muitas vezes com os dois e vai frequentemente a Alhandra a casa de Soeiro, nomeadamente a propósito da edição de Esteiros, pois está ligado à editora Sirius. Mas será assim? Sendo Soeiro do Norte não é mais razoável que trate dessa zona e Redol do Sul? Ou será que essa combinação é feita mais tarde, quando Soeiro já não pode dedicar-se à vida de escritor e Redol se propõe substitui-lo? Ou a atitude é assumida por Redol, após a morte do grande amigo, e como homenagem, embora Porto Manso seja de 1946 e Soeiro tenha morrido em 1949? E o primeiro romance daquele Ciclo seja, precisamente, de 1949, mas começado a preparar muito antes? Ou a combinação terá sido inversa, isto é, Soeiro com o Norte e Redol com o Sul? A peça em um acto Porto de Todo o Mundo é representada - tudo indica que pela primeira vez - num acampamento do Clube Nacional de Campismo, em Rio de Mouro. Corre um abaixo assinado de protesto pelo facto de a direcção da Seara Nova não ter publicado a “Ficha 14”, de Mário Dionísio, escrita na sequência da polémica que este vem travando com João Pedro de Andrade nas páginas da revista. Redol é um dos cinquenta e cinco subscritores. Piteira Santos escreve na década de 80: “De 1939, Gaibéus a 1943, Fanga … Alves Redol milita e escreve”. Que quer dizer Piteira Santos? Que neste último ano Redol deixa de militar? Sabe-se que o Partido Comunista pretende que Redol integre o seu Comité Central, mas que ele não aceita. Será por esta época? É provável, pois em Novembro deste ano realiza-se o 3º Congresso do PCP, o primeiro ilegal e o primeiro após a reorganização de 1940-1941, em que é eleito um Comité Central. De facto, Redol desempenha um papel importante na reorganização, particularmente no sector intelectual, mas não só. Justifica-se a escolha. Talvez tenha sido também por esta época (ou mesmo antes, talvez em 1941) que Redol pede para abandonar o Comité Regional do Ribatejo, onde está, também, António Dias Lourenço, sendo, segundo este, substituído por Soeiro Pereira Gomes. Pretende dar prioridade à sua actividade como escritor. Em final de Julho deste ano, verifica-se um grande surto de greves, principalmente, nas zonas de Almada, Barreiro, Seixal e Lisboa. Em Maio e Junho, desencadeia-se a luta dos camponeses da zona de Vila Franca de Xira, a partir da praça da jorna existente no cais desta localidade. Nesta acção, terá tido um papel determinante Manuel da Barraquinha, cuja influência junto dos camponeses já se referiu. O sino junto à Câmara Municipal toca a rebate, accionado por uma mulher, os camponeses marcham pela vila, a Guarda Republicana intervém, a terra fica em estado de sítio toda a noite, com correrias, cacetadas e tiros. Muitos vilafranquenses não duvidam que o romance Gaibéus , lido a muitos camponeses, é importante para criar as “condições subjectivas” para esta rebelião.

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É fundado o MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista), clandestino, em que participam várias forças de oposição. Aderem muitos intelectuais, entre os quais Alves Redol. É ele que tem contacto com os anarquistas e anarco-sindicalistas. Segundo escreve Piteira Santos nos anos 80: “Redol, por intermédio de Pinto Quartim, promoveu os contactos para este trabalho unitário: a primeira reunião teve lugar na Graça, em casa de Pinto Quartim, e além de Alves Redol e de Fernando Piteira Santos, nela participaram o dono da casa, o gráfico Alexandre Vieira, fundador da União Operária Nacional (U.O.N.) e antigo director de A Batalha, e o arsenalista João Pedro dos Santos. … A presença de libertários no movimento unitário no período do MUNAF e do MUD teve origem nestas negociações iniciadas por Alves Redol”. Antes disto, Redol participa na tertúlia que Ferreira de Castro, Roberto Nobre, Assis Esperança e outros, homens com o ideal libertário, mantêm no Café Veneza, em Lisboa. Redol é convidado pela direcção do Jornal de Notícias, do Porto, para fazer parte do júri do Concurso de Vestidos de Chita que o jornal empreende durante vários anos. No dia 14 daquele mês, naquela cidade, realiza-se a distribuição dos prémios numa sessão com milhares de pessoas, provavelmente nos jardins do Palácio de Cristal, em que Redol está na mesa que preside ao acto. O Director do jornal é M. Pacheco Miranda, um homem democrata, irredutível inimigo da Censura, a quem Redol não nega o pedido de participar nesta iniciativa. Publica-se a revista clandestina Mundo Novo, de que Alves Redol, Francisco Ferreira Marquez e Fernando Piteira Santos constituem o grupo redactorial. Nele colaboram Bento de Jesus Caraça, Manuel Mendes, Alberto Candeias, Dias Amado. Redol e Piteira também colaboram em Avante! Maria detecta com facilidade a colaboração de um e de outro, do que lhes chama a atenção, porque a PVDE também pode fazer semelhante identificação. Concluem os dois que têm de ter mais cuidado a disfarçar a maneira de escrever. Do Norte de África vêm boas notícias: os nazis estão a ser derrotados pelos aliados e retiram. A ofensiva aliada entra em Itália. Na União Soviética, os nazis estão a perder terreno e, logo no ínício do ano, rendem-se em Stalinegrado. 1944 A primeira prisão Em 8 e 9 de Maio, dá-se um grande surto de greves em toda a zona de Vila Franca, com fraca adesão na margem Sul e em Lisboa, onde tinha sido muito forte o movimento em 1943. Paralisam numerosas fábricas, encabeçadas pela Cimento Tejo e os camponeses da margem Norte do rio. Juntam-se e vão em manifestação estrada fora, em direcção a Vila Franca, com bandeiras negras, sendo estacados por uma força da GNR, que os cerca, os prende e encarcera na Praça de Toiros de Vila Franca. Soeiro Pereira Gomes, um dos organizadores da greve, expõe-se em demasia e é detectado. É obrigado a fugir para não ser preso no dia 10. Com ele vai Atilano dos Reis Ambrósio, que também participa na organização e

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desencadeia a solidariedade, com alimentos e cobertores, aos presos na Praça de Toiros. Destes, é feita uma triagem e, alguns, são levados pela PVDE para interrogatórios. Num dos dias seguintes, provavelmente a 11, a PVDE apresenta-se em casa de António Redol da Cruz para prender Alves Redol. Não tem os ficheiros actualizados, pois Redol já aí não reside desde 1936. Mas leva o pai Redol na “ramona”, para lhe indicar onde o filho mora em Lisboa. Chegam a casa deste na madrugada do dia 12 de Maio, data do aniversário de Maria, embirram com o retrato de Gorki, porque julgam que se trata de Staline. Revistam tudo, mas, primeiro, Maria consegue esconder alguns papéis comprometedores no caixote do lixo da porteira e na cama do bébé, onde a polícia não toca, pois ela diz-lhes que o filho é doente e responsabiliza-os pelas consequências. Quando Redol entra no transporte policial, dá com Pedro Neto, que faz parte do Comité de Greve, trabalha na Cimento Tejo e é preso em Alhandra. Ainda lhe diz:”Tu não me conheces!”. A polícia está totalmente desnorteada, pois não detecta seja o que for antes dos acontecimentos. Ignora a existência de estruturas do PCP na zona, pois julga saber tudo o que se passa no partido, desde que consegue infiltrar o velho PCP. Provavelmente, ignora a reorganização ou, pelo menos, toda a sua extensão. Dias Lourenço que sabe que, antes da reorganização do PCP, este está infiltrado pela polícia, não dá notícia à Direcção do Partido do desenvolvimento da organização na zona. Informa que há grandes dificuldades, que as pessoas não querem aderir. E vai criando uma estrutura paralela, sem infiltrações. E a PVDE não se apercebe que o que se está a fazer no domínio cívico está a dar origem a uma nova organização. Redol vai, primeiro, para o Aljube, onde encontra outras pessoas de Vila Franca. A polícia procura obstinadamente Soeiro Pereira Gomes. Todo o interrogatório a que é sujeito tem como objectivo que diga onde está Soeiro, baseando-se a polícia no facto de serem amigos e de se visitarem com frequência. Aliás, uns dias antes, Redol acompanha Soeiro ao Atlético Clube de Portugal, onde este pronuncia uma conferência. Recorde-se que a PSP chega a deter Manuela Câncio Reis, que a mantém presa em Lisboa, sendo interrogada por agentes da PVDE, que querem saber onde está o marido. Tentam fazer cair Redol numa armadilha, mas um funcionário da cadeia, originário dos Açores, parente de uma prima de Redol também originária daquela ilha, avisa-o a tempo. Nesta cadeia, o escritor conhece o homem que lhe inspira a figura de “Chacal” de A Barca dos Sete Lemes. É transferido, em 1 de Julho para Caxias (fica na Sala 12), onde recebe a visita diária de Maria, que lhe leva as refeições, pois faz dieta, devido aos problemas de saúde que resultam da malária. Ela vai viver para casa de uma amiga em Paço d’Arcos e vai de comboio até Caxias, indo, depois, a pé, até ao forte. Assiste à maneira como são tratadas as mulheres dos outros presos, que são enganadas pela polícia, quanto aos horários das visitas. Elas, que fazem grandes sacrifícios financeiros para irem ver os maridos, são, frequentemente, mandadas para trás, porque naquele dia não é o dia da visita: é no dia seguinte. E quando voltam no dia 265


imediato, dizem-lhes que a visita foi na véspera. O pequeno António já anda e, quando vai visitar o pai, os “pides” querem fazer-lhe uma festa. Mas ele foge-lhes! Redol está quase três meses preso, pois é libertado a 5 de Agosto . Em 9 de Setembro, é publicada uma entrevista em Vida Mundial Ilustrada, onde fala de arte e do romance regionalista. Não se fala de nenhum livro a sair. Nos últimos meses do ano, retoma o trabalho num romance sobre o operariado em Lisboa no tempo da República, para o qual já vinha recolhendo elementos. Na cadeia, encontra dirigentes anarquistas que lhe contam muitos acontecimentos desse tempo, especialmente sobre as movimentações grevistas. Procura, então, documentação confirmativa. Trata-se de Os Reinegros, que, numa entrevista concedida a O Século Ilustrado em 6 de Maio, informa estar a terminar. Publica o conto Espólio, com papel oferecido pela empresa João d’Oliveira Castilho (Suc.ra), impressão oferecida pela Imprensa Municipalista da Procuradoria Geral dos Municípios (empresa onde trabalha Redol), cujo produto de venda reverte a favor dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira. Está, também, a terminar uma novela e muda de editor. A 2ªedição de Fanga já sairá com a nova chancela. Passa a publicar na Editorial Inquérito, dirigida por Eduardo Salgueiro, uma boa editora, com um bom catálogo. Publicam-se as 3ªs edições de Gaibéus e de Avieiros, com capas de Manuel Ribeiro de Pavia. Segundo Miguel Falcão, presumivelmente entre 1939 e 1944, Redol escreve as peças de teatro Porto de Todo o Mundo e O Consórcio e os esboços de peças Xavier Fernandes, Deolinda, A Cheia e Douro. Atilano dos Reis Ambrósio escreve em 1987 que, em 1944, dactilografa partes do romance Os Reinegros. Neste ano e também no anterior, um grupo de escritores e artistas plásticos – de que apenas se detectam Alves Redol, Mário Dionísio e Júlio Pomar – decide fazer um trabalho sobre o cais da ribeira e a lota. O projecto não vai por diante, mas no espólio de Mário Dionísio podem encontrar-se numerosos desenhos-apontamentos e supõe-se que Os Reinegros incorpora alguma dessa experiência. Deve ser no final do ano ou no início de 1945 que resolve viver só da escrita, despedindo-se da Empresa Municipalista, ex-Procuradoria Geral dos Municípios. Numa entrevista a Vida Mundial Ilustrada de 29 de Março de 1945, a propósito da novela que está a escrever e a que chamará Anúncio, refere que deixou o emprego. Note-se que, entre 1941 e 1945, são publicados os seguintes romances, em 1ª edição ou edições seguintes: Gaibéus – 2ª ed. (1941), 3ª ed. (1944), 4ª ed. (1945), Marés – 1ª ed. (1941), 2ª ed. (1944), 3ª ed. (1945), Avieiros – 1ª ed. (1942), 2ª ed. (1943), 3ª ed. (1944), 4ª ed. (1945), Fanga – 1ª ed. (1943), 2ª ed. (1943 ou 1944), Anúncio – 1ª ed. (1945). São treze edições em cinco anos, com tiragens elevadas para a época. Redol é um dos escritores que mais vende e convence-se que pode fazer como só Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro fazem, isto 266

é, conseguir viver como escritor profissional. Em Conta-Corrente,em 1982, Vergílio Ferreira deprecia a obra de Redol, mas escreve sobre ele : “Lembro a década de 40-50. Era um rei”. No entanto, na dedicatória para Redol no seu romance Estrela Polar escreve: “Ao Alves Redol, ao autor dum belo ‘Barranco de Cegos’, com um abraço do velho admirador – Lisboa, Março de 1962”. Em Dezembro deste ano, uma Assembleia Geral da Casa do Ribatejo aprova “por aclamação a nomeação de V.Exa. (Alves Redol) para SÓCIO DE MÉRITO”. A carta em que é feita a comunicação é assinada pelo Presidente da Direcção Eng. António Calheiros Lopes, que é um homem do Regime, Presidente da Comissão Distrital da União Nacional de Santarém, deputado na Assembleia Nacional de 1949 a 1969. Neste ano, a União Soviética consegue começar a expulsar os alemães do seu território. Os nazis recuam por todo o lado. Os aliados estão a começar a ganhar a guerra. 1945 Redol instala-se no Douro por umas semanas Em Fevereiro deste ano, instala-se na aldeia de Porto Manso, na casa onde vivera o Barão de Forrester, durante várias semanas, o que é possível porque deixou o emprego para tentar viver apenas da escrita. Por intermédio de Francisco Tavares Teles, que lhe é recomendado por José Arnaldo Monteiro, conhece a família dos Barbosas, parentes do primeiro, barqueiros que inspiram Redol na escrita do romance que prepara, que arranjam a casa onde está alojado e o rabelo no qual faz uma das subidas do Douro. Francisco Tavares Teles escreve, mais tarde: ”Para a recolha de elementos para o seu trabalho, que importou, por vezes, na estadia em várias aldeias, onde as acomodações eram mais que precárias, teve que suportar muitos e penosos sacrifícios”. Numa entrevista ao mesmo Tavares Teles para o boletim do Clube Transamontano de Angola, em 1947, Redol diz que “… em viagens feitas nos rabelos, vivendo com os seus ‘marinheiros’ nos perigos dos pontos ou nas trágicas subidas feitas à sirga e à vara, é experimentar uma das mais vivas emoções que conto na minha vida emotiva”. Numa das viagens, o barco rabelo quase naufraga. O escritor está a

Redol com Francisco Tavares Teles e a mulher deste no Douro, anos 40.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


iniciar a preparação de um romance sobre os barqueiros do Douro, que se denominará de Porto Manso e os do Ciclo do Port-Wine. Como se pode verificar por este e por outros casos já vistos, a preparação dos seus romances é sempre bastante trabalhosa e demorada. Redol e um grupo de Coimbra, vendo-se Joaquim Namorado, Arquimedes da Silva Santos e outros, com Maria Barroso, quando esta ali foi representar A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca (Maio de 1945), iniciativa de grande êxito.

Em Fevereiro, o “Grupo Neo-Realista de Coimbra” toma conta da revista Vértice, que, tendo sido fundada em 1942, não tinha uma orientação neo-realista. Perante a dificuldade em fazer aprovar novas publicações e as resultantes da vigilância policial, e a necessidade de ter uma publicação em que pudessem divulgar as suas ideias e os seus trabalhos – recorde-se que desde 1940 os neo-realistas estavam sem orgão de imprensa - os membros daquele grupo preferiram pegar numa revista já existente, que estava num impasse. Em Maio, Alves Redol publica aqui a sua peça em um acto Maria Emília. Em Maio, Maria Barroso vai a Coimbra representar A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, supõe-se que por intermédio de Redol, que está presente no evento e nas fotografias que documentam a presença da artista, que será afastada do Teatro Nacional, pouco depois, por imposição do Regime. Neste ano, em Abril, é nomeado para Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira o Major Alfredo Horácio da Cunha Nery, o qual vai ter uma acção persecutória e repressiva sobre o movimento associativo não afecto ao regime e vai reactivar a Mocidade Portuguesa. Desenvolve a acção desportiva desta entidade e tenta uma actividade cultural baseada no canto coral. Em 8 de Maio a Alemanha assina a rendição, termina a guerra na Europa. Realizam-se manifestações por todo o país. Em Lisboa, muitos milhares de pessoas – são multidões compactas - gritam vivas à paz e ao fim da guerra, mas também se exige liberdade. Redol também desfila, corre, grita. E, como ele, os homens e mulheres dos “Passeios no Tejo”, de O Diabo, os jovens que acompanharam as reivindicações estudantis contra o aumento das propinas em 1941/42 e outras. Muitas pessoas da oposição propõem que se vá junto dos quartéis, clamando a adesão do exército. Mas as forças mais moderadas não aceitam. As diferentes forças políticas movimentam-se, convencidas que o fascismo português tem os dias contados. Em Vila Franca, também há manifestações de regozijo. Das janelas do Ateneu, várias pessoas, que não tem sido possível identificar, falam à multidão. A banda da colectividade percorre as ruas. Todas as forças de oposição exigem eleições. Salazar promete eleições”tão livres como na livre Inglaterra”. Em Junho, publica-se a novela Anúncio, com a chancela da Editorial Inquérito, com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. O livro resulta de um concurso realizado em 1941 e 1942, de que Redol é responsável, para admissão de um funcionário para o escritório onde trabalha. É ele que analisa as candidaturas, faz as entrevistas e escolhe o vencedor. Pensa que o material assim recolhido e a vivência obtida com o concurso podem dar um livro interessante. Além deste novo livro são reeditados três romances e é publicado, pelo final do ano, o volume triplo Gaibéus/ Marés/

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

Avieiros, tipo de publicação só reservada aos autores com muito público. Em 9 de Junho, o jornal A Tarde, do Porto, começa a publicar um suplemento, “Arte”, coordenado por Júlio Pomar, onde ele e outros (Victor Palla, Manuel Filipe, Marcelino Vespeira, Rui Pimentel, Mário Cesariny de Vasconcelos,etc.) expandem as suas ideias sobre arte. Muitas reproduções de desenhos e pinturas de artistas nacionais e estrangeiros de tendência neo-realista são ali publicadas. A aventura termina em Outubro, mas ainda se publicam vinte números. A saúde de Redol nunca está muito bem. Por isso, por esta altura, faz “um mês de tratamento e repouso”. Movimento de Unidade Democrática (MUD) No dia 6 de Julho o parlamento é dissolvido e são marcadas eleições para 18 de Novembro. No dia 8 de Outubro, reúnem-se no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, com autorização do Governo, muitas pessoas de vários quadrantes que pretendem formar um movimento que concorra às eleições. É interessante verificar como não se confia em Salazar e não procura cada agrupamento concorrer isoladamente, como acontece depois da morte daquele. Percebe-se que o ditador não abdica facilmente e que tem alguns trunfos internacionais. É constituído o MUD (Movimento de Unidade Democrática), que organiza uma estrutura complexa, com vários níveis de decisão, com organismos que vão até ao nível da freguesia. Não se trata de fantasia, pois a adesão de pessoas é extraordinária e elas têm de ser enquadradas. Também correm listas de assinaturas que exigem o adiamento das eleições, pois o regime pretende dar um prazo muito curto, para que a oposição não tenha tempo para se organizar e implantar. É apresentado um recurso pedindo o adiamento ao Supremo Tribunal Administrativo, o qual é recusado em 9 de Setembro. As pessoas que assinam estas listas em todo o país são, mais tarde, perseguidas e expulsas de lugares públicos. Assim que são informados que as autoridades pedem as listas de assinaturas, com o objectivo “de verificarem a sua autenticidade”, os democratas do Porto e de Coimbra não entregam as assinaturas recolhidas nestes distritos. Não se consegue apurar, com toda a certeza, se Alves Redol 267


participa na reunião fundadora do MUD, mas, tendo em conta o seu prestígio público, pelo menos, deve ter sido convidado. Numa fotografia existente sobre esta reunião, Redol parece ser um dos que está no palco, tapado por outros presentes. Noutra fotografia, está Mário Dionísio, o que parece ser Manuel Campos Lima, Fernando Lopes Graça, juntos e, noutro local da sala Carlos Pato. Redol não integra a primeira Comissão Central, mas integra a segunda, onde entra juntamente com Bento de Jesus Caraça, por proposta de Armindo Rodrigues. Tem, então, uma intervenção activa. Por vezes, tem de discursar, o que não é da sua apetência. Mas, cada vez que tem de o fazer, prepara-se intensamente. Talvez por isso, as suas intervenções acabam por ser das mais apreciadas, segundo vários testemunhos. Integra a Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos e redige, segundo Mário Dionísio, “o primeiro manifesto de intelectuais contra o regime fascista”. No dia em que é publicado o manifesto, 10 de Novembro de 1945, é entrevistado pelo Diário de Lisboa: “Nos últimos vinte anos negou-se a cultura porque se lhe tirou a liberdade”. Nesta entrevista, Redol apresenta inúmeros dados estatísticos sobre a situação social portuguesa: mortalidade infantil, saúde, alimentação, habitação, analfabetismo. No dia 11 de Novembro, a oposição desiste, por considerar que não existem condições para a realização das eleições. A Assembleia Nacional fica constituída, apenas, por deputados da União Nacional. A partir desta “legitimação pelo voto popular” o Regime desencadeia uma forte repressão. Uma das localidades do país onde o MUD tem uma acção importante é Vila Franca de Xira, onde Carlos Pato é o elemento preponderante. Mais tarde, relatando uma viagem que faz com Redol para uma reunião dos colaboradores de Seara Nova, na zona centro, Fernando Namora refere que aquele lhe confidencia que a actividade política não é da sua predilecção, e que só a pratica por dever cívico. Aliás, a propósito dessa viagem, Namora publica em Nave de Pedra (1ª edição 1975) um excelente texto intitulado “Carta aberta a Alves Redol”, em que analisa a sua obra, identifica os opositores e críticos e o porquê dos ódios que lhe são votados. Com tão intensa acção cívica o escritor fica em lugar secundário. Mas publica o conto de Natal Os Sonhos na revista Ver e Crer – Proprietário: Mário Neves, Director: José Ribeiro dos Santos – onde colaboram Aquilino Ribeiro, Barata Feyo, Ferreira de Castro, Raul Lino, Roberto Nobre, Gino Saviotti, Adolfo Casais Monteiro. Alves Redol é assim apresentado pela direcção da revista: “…é uma das mais sólidas afirmações do actual panorama literário português”. Neste ano, conclui o romance que se centra no operariado no período da República e na desilusão daquele com a evolução do novo regime: Os Reinegros. Chega a anunciar numa entrevista que o romance está pronto, mas, este, nunca é publicado em sua vida. A explicação de Mário Dionísio é que a promessa de António Ferro do livro ser autorizado não é cumprida. Diz ele, ainda: “Os Reinegros parecia-me um grande passo em frente” e se “esse livro tivesse sido 268

publicado na altura própria, a sua obra (de Redol) e o próprio romance neo-realista seguiriam porventura desde logo, ao menos nalguns casos, um rumo diferente”. 1946 O Teatro-Estúdio do Salitre e a peça Maria Emília Com organização do Teatro-Estúdio do Salitre, é representada, em 30 de Abril de 1946, no Instituto de Cultura Italiana em Portugal, na Rua do Salitre, 146, em Lisboa, a sua peça Maria Emília, numa sessão denominada de “1º Espectáculo ‘Essencialista’”, acompanhada das peças O Homem da Flor na Boca, de Luigi Pirandello, O Beijo do Infante, de João da Câmara, Viúvos, de Vasco de Mendonça Alves. Aquela entidade, dirigida por Gino Saviotti, Luís Francisco Rebello e Vasco Mendonça Alves, pretende renovar o teatro em Portugal, demasiado académico, pouco inovador, fora de época. Redol intervém na preparação do espectáculo, dá as suas opiniões, altera o texto de acordo com o que vai vendo e com as sugestões dos actores e encenador. É um teatro vivo! Submetido à Censura, o texto é “aprovado com cortes”. A 25 de Janeiro do ano anterior, é constituído o Círculo de Cultura Teatral, cujos fundadores são Alves Redol, António Vitorino (escritor e actor amador, não é o operário de Vila Franca), Armando Vieira Pinto, Arquimedes da Silva Santos, Eduardo Scarlatti, Gino e Grazia Saviotti, Jorge de Faria, Luis Francisco Rebello, Manuela de Azevedo e Vasco de Mendonça Alves, pessoas de muito diferentes orientações ideológicas, que funciona como uma tertúlia em casa de Gino Saviotti e como centro divulgador do teatro. A peça vai, depois, à cena na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, em 1947, juntamente com peças de Gil Vicente, Raul Brandão, Júlio Dantas. Aqui, assistem grandes actores como Amélia Rey Colaço, Palmira Bastos, Robles Monteiro, Jorge de Faria, Alves da Cunha. Jacinto Ramos e José Viana são os grandes impulsionadores deste projecto, por onde passam jovens que virão a ser os maiores actores da geração seguinte. Raul Solnado, subsituindo um actor que se ausenta, faz, em Maria Emília, o primeiro papel da sua vida. No Teatro-Estúdio, de que é um dos fundadores, como no ano anterior fora do Círculo de Cultura Teatral, Redol participa nas outras actividades de índole cultural ligadas ao teatro, podendo, assim, acompanhar o que de mais moderno se faz em todo o mundo, acabado de sair duma guerra, mas cheio de ideias de renovação em todos os campos da cultura. Eduardo Scarlatti, Gino Saviotti, João Pedro de Andrade e Luís Francisco Rebello têm, neste domínio, um papel fundamental. Redol chega a esquematizar uma “História do Teatro”, com a participação destes (com excepção de Saviotti) e outros nomes (Manuela Porto, Pedro Serôdio – Avelino Cunhal – Assis Esperança, Roberto de Araújo, Fernando Lopes Graça, Keil do Amaral) e ele próprio, projecto que não vai por diante. Pelo Teatro-Estúdio do Salitre passam actores que, mais tarde, são dos mais importantes do teatro português: Rui de Carvalho, Canto e Castro, Armando Cortez, Rogério Paulo,

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


Carlos Duarte, Carlos Wallenstein, Fernanda Borsatti, Cecília Guimarães, Isabel de Castro. É, também, aqui em 6 de Junho de 1950, que Laura Alves representa O Menino dos Olhos Verdes, de Alves Redol, escrito propositadamente para ela. Segundo Miguel Falcão, presumivelmente de 1946 a 1949, Redol escreve a peça de teatro O Triângulo Quebrado e os esboços de peça de teatro Irmãs, Actriz, A Linha Verde Rompe o Arco-Íris. Nas suas leituras de obras teatrais, além dos clássicos gregos, europeus e portugueses, Redol aborda o teatro de Tolstoi, Gogol, Andreiev, Tchekov, Sean O’Casey, Clifford Odets, Elmer Rice, Irwin Shaw, Romain Rolland (Le Théâtre du Peuple é um dos livros mais estudados pelo escritor), Jean Giraudoux, Ibsen, Strindberg, Joracy Camargo, Oswald de Andrade, que conhece pessoalmente. Mais tarde Jean Paul Sartre, Abert Camus, Armand Salacrou, etc. Nas suas primeiras produções teatrais verifica-se a influência principal de Bernard Shaw, Pirandello e Máximo Gorki e teórica de Romain Rolland. Nas outras, revela-se a influência de Federico García Lorca, Brecht, Stridberg, do Expressionismo e mesmo do Existencialismo e teórica do encenador Erwin Piscator. Publica o artigo “O Sol no Cancioneiro do Ribatejo” em O Globo. Em entrevista a Rui Grácio para o jornal Itinerário, de Lourenço Marques, de 1 de Julho de 1946, afirma que tem pronto o romance Os Reinegros há mais de um ano. Desde 1944, declara numa entrevista de 1959 ao Jornal de Notícias. É publicado o conto O Combóio das Seis, inserto no volume Contos e Novelas, em que também se apresentam contos de Afonso Ribeiro, António Vitorino, Assis Esperança, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Ferreira de Castro e João Falcato, numa edição de Edições Academia – Académica Editora Lda. Um 2º volume é publicado em 1948, com contos de Joaquim Namorado, Manuel Campos Lima, Manuel da Fonseca, Manuel do Nascimento, Mário Dionísio, Teixeira de Sousa e Vergílio Ferreira. Em Maio, na Academia dos Amadores de Música, realizam-se dois recitais de poesia e música: o primeiro com poemas de modernistas e presencistas e o segundo com poemas de neo-realistas do “Novo Cancioneiro”. Recitam-nos, Manuela Porto os primeiros e Maria Barroso os segundos. A música é de Luís de Freitas Branco, Lopes Graça e autores estrangeiros modernos. Numa edição da Editorial Inquérito é publicado o romance Porto Manso, sobre a vida dos barqueiros do Douro. O pano de fundo da história é a concorrência entre o comboio e o barco como meios de transporte. O barco está a perder a luta. Redol já assistira a esse confronto na sua região natal e escreve sobre isso. Jerónimo Tarrinca é a vítima que melhor conhece. Assim como teve uma participação fundamental na renovação do romance português e teve uma intervenção importante na renovação do teatro, Alves Redol pretende participar na renovação do cinema nacional, caído num populismo nacionalista apoiado pelo Estado Novo. Escreve

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os argumentos e os diálogos de dois filmes: Porto Manso, baseado no romance que acaba de publicar e Seara Negra, cuja acção se passa numa mina. Para escrever este último, está numa mina, provavelmente a de carvão de S. Pedro da Cova, existindo no seu espólio fotografias que se supõe que aí tira. Nenhum destes projectos foi concretizado. Levando a sua acção mais longe, faz-se accionista da Tobis Portuguesa. Em Janeiro de 1947, o Mundo Literário anuncia que:”Iniciaram-se já os trabalhos para o filme baseado no romance Porto Manso de Alves Redol …”. Datada de 5 de Março de 1946, do Forte de Caxias, onde está preso, Fernando Piteira Santos escreve uma carta a Alves Redol, em que lhe pede que procure forma de obter os quarenta contos necessários para pagar a fiança de António Tavares, o que lhe permitirá aguardar o julgamento em liberdade. Pede-lhe que se dirija ao advogado deste, Adelino da Palma Carlos. Na época, aquela verba é muito elevada. António Tavares é o mesmo da biblioteca do Ateneu e só é posto em liberdade, depois de estar em tratamento à tuberculose no Caramulo, em 1948. Na mesma carta, Piteira Santos escreve, sobre o último livro de Redol, que: “…correu aqui de mão em mão, e de caserna para caserna, que houve quem visse nele pedaços da sua própria vida, que houve quem copiasse para um caderno, para guardar, o quadro em que se considerava retratado”. Fernando Piteira Santos, referindo-se à sua saída da prisão depois de ter estado encarcerado entre 12 de Julho de 1945 e 16 de Março de 1946, escreve na década de 80: “Quando saí da Fortaleza de Peniche, reencontrei-o desiludido, amargurado. Tinha problemas pessoais que, nem todos eram de natureza política, partidária. Considerava-se vítima de uma descriminação que considerava injusta – a de ser intelectual. Destruíra, num lance de desespero, apontamentos e fichas”. E, mais à frente:”Esse ano de 1946 é crucial na sua vida. Lugar de distanciação, de exílio, o Douro será o novo cenário dos seus romances”. De novo, Piteira Santos é pouco claro.O que significam estas palavras? Por um lado, Redol continua a ter problemas familiares devido à sua veia amorosa. E com o PCP, o que se passa? Ou é, apenas, um daqueles momentos depressivos que periodicamente o assaltam? Não parece! Ainda no início deste ano, Portinari visita Portugal, sendo acompanhado por Redol e por Mário Dionísio. Portinari está de passagem para Paris onde vai inaugurar a sua primeira exposição naquela cidade. PEN Club Com a ilusória abertura resultante do fim da guerra e da derrota do “Eixo”, com a movimentação dos intelectuais no seio do MUD, muitas iniciativas são tomadas por estes. Uma delas é o aparecimento de novas publicações ou a reactivação de outras. Já se viu o caso de Vértice. Outras respeitam ao aparecimento de entidades no domínio cultural. Recorde-se o exemplo do Teatro-Estúdio do Salitre. Segundo Mário Neves, uma das primeiras acções do grupo de intelectuais que constitui a “Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos” do MUD é o envio ao 269


“Comité Nationale des Écrivains” de uma saudação pela acção dos intelectuais franceses na luta pela democracia e manifestando regozijo pela vitória dos aliados. Tomando esse grupo conhecimento que o Prof. Fidelino de Figueiredo está em contacto com o PEN Club Internacional, organização mundial de escritores, com delegações em muitos países, Mário Dionísio, que tinha sido aluno daquele professor, propõe-se contactá-lo, do que dá conta a Alves Redol, que mostra o seu entusiasmo pela ideia e o incentiva, acompanhando as diligências realizadas. Mário Dionísio e Alves Redol são os principais dinamizadores do processo, com acção decisiva no estrangeiro de Fidelino de Figueiredo, em cuja casa, na Av. Duque de Ávila, as reuniões se realizam. Obtidas as adesões – no espólio de Alves Redol existe uma lista de quarenta nomes de escritores democráticos, de todos os sectores, número a que deve corresponder, provavelmente, o mínimo exigido pelo PEN Club para se poder constituir um núcleo nacional, é convocado um jantar dos membros fundadores para um restaurante na Rua do Salitre, 130 – 1º para um “próximo dia 17, terça – feira pelas 20 horas” (a carta-convocatória é assinada por Alves Redol, que normalmente não data as suas cartas, o que não se compreende num profissional que chefiara um escritório), para eleição de uma Comissão Executiva por parte dos membros fundadores. Nessa mesma carta, noticia-se que os estatutos foram aprovados no Congresso de Estocolmo. A Comissão Executiva eleita é composta por Fidelino de Figueiredo, Presidente, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro,Vice-Presidentes, Alves Redol, Secretário-Geral e Mário Dionísio, Secretário-Adjunto, Assis Esperança, Tesoureiro, Irene Lisboa, Rodrigues Lapa, Adolfo Casais Monteiro, Armindo Rodrigues e Mário Neves, Vogais. Com 270

a ida ao estrangeiro de Fidelino de Figueiredo, apenas em 9 de Janeiro de 1947, os trabalhos são retomados, convocando-se um jantar para o dia 21 desse mês na “Esplanada do Rato, entrada da Rua S.Filipe Nery” (o recurso aos jantares é uma forma de evitar o pedido de autorização formal para a realização de reuniões). Fidelino de Figueiredo tem de abandonar o país e João de Barros substitui-o na Presidência. Rodrigues Lapa substitui Aquilino Ribeiro numa das Vice-Presidências, entrando Branquinho da Fonseca para Vogal, o que deve ter acontecido em Julho de 1947. A sede do PEN é na casa de Alves Redol, na Av. de Berna, onde recebe correspondência de vários núcleos nacionais e do secretariado central em Londres. O PEN Club International é fundado em Londres em 1921, por Catherine Amy Dawson Scott e tem como finalidade realizar a aproximação entre os povos de todo o mundo, combatendo o chauvinismo, denunciando, em particular, as arbitrariedades a que são sujeitos os escritores. Realiza o seu primeiro Congresso Internacional em Londres em 1923, seguindo-se EUA, França, Alemanha, Bélgica, Noruega, Áustria, Polónia, Holanda, Hungria, Jugoslávia, Escócia, Catalunha, Argentina, França, Checoslováquia (1938). A série é interrrompida em1939, com o início da guerra, mas retomada em 1941 em Londres, com nova interrupção, até o reinício em Estocolmo em 1946, onde são aprovados os estatutos de vários núcleos, incluindo o português. Em 1935, parece ter havido contactos exploratórios de Fidelino de Figueiredo com alguns escritores portugueses, mas sem continuação. Em Outubro, a biblioteca do Ateneu monta uma “tenda do livro” no grande terreiro onde se realiza a Feira de Outubro, em Vila Franca, a que é dada o nome de António Tavares, que, na altura, está preso. Vende-se uma grande quantidade de livros. Alves Redol deve ter-se envolvido nesta iniciativa, pois fala dela numa entrevista ao jornal O Primeiro de Janeiro em 1 de Setembro de 1948. A França – Da Resistência à Renascença No dia 24 de Setembro, Redol parte para Paris com a intenção de fazer uma série de crónicas literárias sobre os problemas surgidos aos intelectuais com a ocupação nazi. Como se sabe, deixara o emprego e procura viver só da escrita. Com o vencimento e os proventos das sucessivas edições dos seus livros e, sendo uma pessoa muito poupada, consegue reunir um pecúlio que lhe permite a tentativa. Em Paris, instala-se no “Hotel des Étrangers”, na Rue Racine, no Quartier Latin. Inicia uma série de contactos com entidades oficiais e particulares, de todos os sectores da vida económica, social, política e cultural, escritores, artistas plásticos, gente do teatro,do cinema e da música, arquitectos, cientistas, técnicos de várias especialidades. Entre eles, contacta alguns que são do conhecimento do público de todo o mundo e outros com posições importantes mas menos conhecidos internacionalmente. No seu espólio pode ver-se toda essa actividade e a correspondência trocada. A efervência e

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

Redol com Mário Dionísio e Portinari, em Sintra, quando este visitou Portugal em 1946.


a determinação que observa em todos os domínios fá-lo pensar em escrever, de preferência, algo mais substancial do que as projectadas crónicas. Será um livro, publicado em fascículos. Em Janeiro de 1947, dá uma entrevista à revista Mundo Literário, onde descreve essa experiência. Refere parte dos contactos que desenvolvera, as exposições que vira e as peças de teatro e filmes a que assistira. Por exemplo, assiste a uma representação da peça de Federico García Lorca A Casa de Bernarda Alba, no “Studio des Champs Élysées”, visita o “Salon d’Automne”, a exposição de pintura do Club Mallet-Stevens e a exposição de Boris Taslitzky “111 Dessins fait à Buchenwald / 1944-1945” em “La Bibliothèque Française”. Este artístico plástico, fazendo parte da Resistência, é preso e internado no Campo de Concentração de Buchenwald, conseguindo sobreviver. Nos anos 70, faz um retrato de Alves Redol e outro de Soeiro Pereira Gomes, passados a gravura, os quais existem no espólio do Museu do Neo-Realismo. Numa entrevista para a revista Filmagem, destaca os filmes La Bataille du Rail, de René Clement, La Belle et la Bête, de Jean Cocteau, La Symphonie Pastorale, de Jean Dellanoy, todos de 1946, e refere, ainda, os realizadores Jacques Becker, Robert Bresson e Louis Daquin, prevendo para todos um brilhante futuro. Por intermédio de Redol, segundo José Cardoso Pires, Ernesto de Sousa trabalhará, mais tarde, com Jean Dellanoy. Quando se vai realizar um congresso internacional de cine-clubes, Georges Sadoul, o crítico e historiador de cinema, escreve a Alves Redol pedindo-lhe contactos com cine-clubes portugueses. Contacta numerosas organizações em todos os domínios, económico, industrial, agrícola, social, cultural, militar. Entre as organizações oficiais: Ministère de l’Education Nationale, Ministère de la Santé Publique, Ministère de l’Économie Nationale, Ministère de la Reconstrution et de l’Urbanisme, Ministère des Travaux Publics et des Transports, Ministère des Affaires Etrangées, Ministère de l’Information, onde estabelece contacto com altos responsáveis. Entre as organizações não oficiais: no domínio cultural geral a “Union Nationale des Intellectuels”, a “Union Nationale du Spectacle”, a revista Arts de France, a Revue de l’Alliance Française, no sector do teatro Redol contacta “Théâtre de Poche”, “Centre Dramatique”, “Fédèration du Théâtre Universitaire”, “Groupe Théâtral Médiéval de la Sorbonne”, “Groupe de Théâtre Antique de la Sorbonne”, “Culture et Initiation Dramatique”, “Fédèration Française des Sociétés Théâtrales d’ Amateurs”, “Union Française Oeuvres Laïques d’ Éducation Artistique”, “Association Théâtrale des Oeuvres Catholiques d’Education Populaire”, “Fédèration des Troupes de Théâtre Universitaire”, no sector do cinema a “Fédèration Française des Ciné-Clubs”, o “Comitè International Syndical des Travailleurs de l’Industrie du Film” e a revista Écran Français, no sector da literatura, contacta o “Comité Nationale des Ecrivains”, o jornal Les Lettres Françaises, no sector das artes plásticas a “Union des Artistes Modernes”, no sector do ensino a “Ligue Française de l’Enseignement”. Quanto a artistas, os escritores Louis Aragon, Elsa Triolet, Georges Duhamel, Julien Benda, Roger Martin du Gard , René Maran,

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André Gide, Pierre Emmanuel, Maurice Bedel, Jean Paul Sartre, André Malraux, David Rousset, Roger Vaillant, Pierre Courtade (como Secretário Geral da “Union Nationale des Intellectuels”, Jean Nicolas, passa-lhe uma credencial para facilitar os contactos em que refere o empenho de Louis Aragon e apresenta-o a vários artistas plásticos presentes no salão de Outono), os escultores Joseph Csany, Emmanuel Auricoste, Couturier, Deluol, Laurens, Marcel Gimond, os pintores Picasso, Matisse, Fernand Léger, Fougeron, Marcel Gromaire, Braque, Pignon, Laforet, Boris Tazlitsky, o tapeçarista Jean Lurçat, vários arquitectos, entre os quais René Herbst, que o desafia a organizar em Paris uma exposição de artistas plásticos portugueses modernos. Sobre muitos destes pintores e outros, publicará Mário Dionísio em Vértice ensaios em 1949 e 1950 e entrevistas em 1951, sob o título genérico “Encontros em Paris”. Redol conversa longamente com Aragon, Fougeron e Boris Tazlitsky. No domínio da ciência, visita várias entidades, guiado por Mary Elisa Nordmann, secretária do Instituto para a Energia Atómica, segundo Redol, certamente o Comissariat à l’Énergie Atomique”. É um trabalho hercúleo. Tanto mais que, a meio do trabalho, apanha uma gripe que o retém no leito por uma semana. Alves Redol pronuncia na “Maison de l’ Université”, no dia 30 de Novembro, uma conferência em francês intitulada Le Roman du Tage, acompanhada da projecção de “slides” e da passagem de discos, em que descreve toda a zona banhada pelo Tejo, desde a nascente até à foz, acontecimentos históricos, monumentos, literatura. É apresentado por André Parraux, Secretário-Geral da”Union Française Universitaire”, que conhece a literatura portuguesa contemporânea, sobre a qual faz um trabalho, então apresentado. Aliás, este intelectual dá-lhe uma preciosa ajuda nos contactos realizados. No dia 22 de Novembro, faz uma vibrante alocução em português na Radiodiffusion Française, intitulada “Destino da França”, certamente transmitida no programa em língua portuguesa, em que se refere ao passado da França na luta pela liberdade, à ocupação nazi, à traição de alguns franceses, à resistência e às perspectivas de um presente e de um futuro radiosos: “E é por isso que a França canta a caminho do futuro”, são as palavras com que termina a alocução. Em 7 de Dezembro, dá uma entrevista, em francês, à mesma emissora, em que fala do Neo-Realismo. Refere a edição do primeiro romance (Gaibéus) e da primeira antologia poética (Rosa dos Ventos) do Movimento, os nomes dos escritores mais importantes, o acolhimento pelo público e fala da sua obra e das traduções previstas em França. Na citada entrevista a Mundo Literário, revela o título do trabalho que se propõe realizar: A França – Da Resistência à Renascença. No dia 31 de Janeiro, realizam-se manifestações em Lisboa e Porto pela instauração da democracia e, em Maio, em Lisboa, Porto, Vila Franca de Xira, Sacavém, Alhandra, com o mesmo objectivo. Em Fevereiro, são libertados do Tarrafal cento e dez presos políticos, mas ainda lá ficam cinquenta e dois. Volta a haver manifestações no dia 5 de Outubro. 271


Em 1 de Julho, é eleita nova Comisão Central do MUD, mas Alves Redol não a integra. Mário de Azevedo Gomes é o Presidente e dela fazem parte Helder Ribeiro, Bento de Jesus Caraça, Maria Isabel Aboim Inglês, Fernando Mayer Garção, Manuel Mendes, António Lobo Vilela, Alberto Dias, Manuel A. Tito de Morais, Demétrio Duarte, Luciano Serrão de Moura e Mário Soares. Este último é o representante da juventude. Em 28 de Julho, no Centro Republicano José Estevão, com representantes de várias regiões do país, constitui-se o Movimento Juvenil de Unidade Democrática, que, depois, adopta a designação de Movimento de Unidade Democrática Juvenil ou MUD Juvenil. Realiza-se a I Exposição Geral de Artes Plásticas, na Sociedade Nacional de Belas Artes, por inicitiva de jovens artistas do MUD Juvenil, na qual participam dezenas de artistas de todos os domínios das artes plásticas e, mesmo, arquitectos e profissionais de publicidade. Estes jovens, com a colaboração de artistas democráticos mais velhos, ganham as eleições para a Direcção da Sociedade e é, nessa posição, que organizam aquela exposição, a que outras se seguem nos anos seguintes, até 1956. Mário Dionísio é um dos mais influentes organizadores destas exposições, em que, pela primeira vez publicamente, se afirmam os trabalhos dos artistas neo-realistas. Em Outubro, os professores Bento de Jesus Caraça, Mário de Azevedo Gomes e Alfredo Pereira Gomes são expulsos da Universidade. 1947 Neste ano, não publica qualquer livro. Se em 1945 está ocupado com o MUD e a escrever Os Reinegros, em 1946 com aquela organização e o teatro, não há tempo para escrever. Ou será que a informação de Piteira Santos explica a inércia para a escrita? Que só no fim do ano de 1946 parece retomar, mas indo para Paris para iniciar um projecto de outro tipo. Redol traz vários volumes com material recolhido em Paris e passa grande parte do ano a trabalhá-lo. Numa entrevista ao Diário Popular de Abril é o único projecto de que fala. Entretanto, é publicado o texto da conferência Le Roman du Tage, em edição da Union Française Universitaire. Por esta altura, está, também, a escrever a peça de teatro Forja - que, concluída neste ano, só é publicada quase um ano depois - e um livro infantil que intitulará, mais tarde, A Vida Mágica da Sementinha. O filho, que tem quatro anos, pede que lhe leia o texto, mas ele não o faz, provavelmente porque está muito longe de estar concluído. A criança, que ainda não sabe ler nem escrever, fica zangada e desenha a história do milho, que apresenta ao pai com o comentário: “Não me quiseste ler a história do trigo que estás a escrever, mas eu fiz uma história do milho, que é muito melhor do que a tua!”. É uma das primeiras “desavenças” entre os dois! Mais tarde haverá mais, principalmente a propósito da separação do casal. O pequeno frequenta um jardim infantil, dirigido por uma pedagoga holandesa, Madame Kauffman, onde também estão os filhos de outros casais de esquerda, o filho de uma conhecida família judia e onde estará João 272

Caraça, filho de Bento de Jesus Caraça. É o pai que o leva todos os dias de manhã à escola. Atravessam umas hortas junto à Av. de Berna, passam o Bairro Social do Arco do Cego e vão apanhar o eléctrico à Av. Duque d’ Ávila, que os conduz ao Bairro Azul, onde fica situada a escola. Em Março, uma circular da “Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos” do MUD, anuncia que vários intelectuais, entre os quais Alves Redol, constituem a sua “Comissão Orientadora”. Em 27 de Abril é preso, pela primeira vez, Carlos Pato, então Presidente da Direcção do Ateneu Artístico Vilafranquense, lugar que ocupa entre 1945 e 1948. Está preso três meses. Talvez por esta altura é preso o cunhado de Redol, Luís Eugénio Ferreira – casado com a irmã Inocência – com outros, acusados de terem constituído uma organização comunista na Escola de Marinheiros de Vila Franca de Xira. Bona da Silva, que pertencera ao “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”, é outro dos presos. O economista Francisco Ramos da Costa, que participara nos “Passeios no Tejo”, seria o responsável da ligação ao PCP. Os presos são muito torturados e a PIDE parte os dentes a Luís Ferreira. São julgados no Tribunal da Marinha a 8 de Maio de 1948 e os militares condenados a prisão na Trafaria. Mas o rigor prisional não se compara ao de Peniche. Os presos podem receber visitas da família, sem grades e guardas pelo meio, podem visitar a família, embora acompanhados por um guarda da Marinha armado. Assim, Luís Ferreira vai visitar Redol em alguns fins de semana na sua casa de Lisboa e ali almoça, sempre acompanhado por um guarda armado. Redol, Maria e o filho, juntamente com Inocência e a filha Margarida, visitam Luis Ferreira e Bona da Silva na Trafaria. O primeiro, fabrica nas oficinas da prisão, um balde, um regador e uma pá de praia, com as cores da bandeira francesa, que oferece ao pequeno António. Segundo o jornal Mundo Literário, Redol é convidado pelo Arquitecto René Herbert para organizar no Club Mallet-Stevens uma exposição de pintura moderna portuguesa. Não é possível confirmar se, de facto, esta exposição se chega a realizar. Nas férias, em Agosto, a família Redol aluga uma casa rural na Várzea de Colares, em frente a uma outra onde está a mulher de Soeiro Pereira Gomes, então na clandestinidade. Mário Dionísio está com a família no Banzão. A Eduarda tem pouco mais de um ano. Encontram-se frequentemente, em particular num pinhal, cujos bons ares serão aconselháveis para Mário Dionísio, que estivera internado, tuberculoso, no Caramulo, no início da década de 40 e para Alves Redol, de família propensa à doença. E também para os miúdos. Os dois Antónios, em especial o mais novo, dedicam-se à pesca, embora com uma cana de pesca artesanal, no ribeiro que passa em Colares, perto da casa onde estão, que possui um terreno de cultivo. Quando um dia um peixe maior e mais atrevido leva o anzol há drama no nabal! Arranja-se outro anzol e a pesca prossegue, embora sem resultados. Em Setembro, dá a aludida entrevista a Francisco Tavares Teles na revista do Clube Transmontano de Angola sobre a investigação que está a fazer sobre o Douro, que deve

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Redol com o filho e a mãe, Inocência, na baixa lisboeta.

constituir a mais longa e trabalhosa que faz na preparação de um romance, neste caso um ciclo de romances. Este amigo e José Arnaldo Monteiro ajudam-no na recolha de elementos, pois são bons conhecedores da região e dos trabalhos publicados sobre ela. A 9 do mesmo mês está na Régua. Em 24 de Setembro, estreia-se nos cinemas Ódeon, Capitólio e Palácio o filme Bola ao Centro dirigido por João Moreira, secundado por Jorge Brum do Canto, com diálogos de Alves Redol e interpretado por Raul de Carvalho, Maria Domingas, José Amaro, Eunice Colbert, Tomaz de Macedo, Maria Emília Vilas, Barroso Lopes. O filme é muito bem recebido pela crítica dos jornais diários e é um grande êxito de público, estando várias semanas em cartaz nos três cinemas. E dá lucro ao investidor. Por Outubro, “ando à volta com o material duriense”, “estou quase esgotado”, escreve Redol. Numa carta com o carimbo do correio de 27 de Novembro escreve a Francisco Tavares Teles: “…talvez até caótica. Está um pouco como anda o meu espírito”. “Não vão bem os sintomas de certas perturbações que me passam pela cabeça”. “Olho para trás de mim e julgo que tudo o que tenho produzido é falho de interesse. E pergunto por isso mesmo se vale a pena continuar”. De novo, Redol não está bem e tem dúvidas. “…o livro está na mesma – isto é, sem uma linha escrita”. Numa edição da Terra Editora sai à estampa a antologia intitulada Companheiro, contendo “novelas e contos, poemas e teatro, ensaios e artigos” seleccionados por Alves Redol. “…trazer ao conhecimento do público autores portugueses

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com obras inéditas, ou pouco divulgadas, e os autores estrangeiros de reputação mundial, mal conhecidos entre nós”, numa “aplicação ao nosso meio daquilo que outros editores ingleses e americanos vêm fazendo desde há muito”, segundo as palavras do organizador, escritas no prefácio. Mais uma vez, Redol é um inovador. Os autores antologiados são: Liu Sioun, Maria André, Federico García Lorca, Raymond Gabriel, Deems Taylor, Alberto de Serpa, Manuela Porto, Manuel da Fonseca, Ernest Hemingway, Ramos de Castro, Grazzia Deledda, Alves Redol, Anton Tchekhov e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia. Em 17 de Novembro, realiza-se a escritura notarial de constituição da sociedade Redol & Cia. Lda., com um capital de 100.000$00, dividido entre António Redol da Cruz (metade), António Alves Redol (um quarto) e Luís Eugénio Ferreira (um quarto). Destina-se à comercialização de materiais de construção civil, mas também pode ter actividade industrial. A sede e a loja são na Rua Miguel Bombarda, 66,68 e 70, ao lado do edifício onde António Redol da Cruz tivera a padaria. No Natal, publica em Ver e Crer “Pequena História do Fandango”. Como é habitual no número de Natal desta revista, vários escritores colaboram no número, como Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes, João Gaspar Simões,etc.. Neste ano, as coisas começam a azedar com Eduardo Salgueiro, proprietário da Editorial Inquérito. Os pagamentos atrasam-se, porque o editor enfrenta grandes dificuldades financeiras. O escritor rompe a relação editorial e decide ser o editor dos seus livros, de novo. Nesta época, como mais tarde continua a acontecer, a relação escritor/editor é sempre muito difícil. O escritor exigindo respeito pela sua obra, o editor funcionando pouco profissionalmente, com desculpas esfarrapadas para as frequentes falhas, com todos os defeitos da gestão portuguesa, com grandes dificuldades financeiras, em parte resultantes do desejo de publicar muito num mercado muito limitado, em parte devido a má administração. Neste ano, verificam-se grandes movimentações: iniciativas do MUD Juvenil com a participação de centenas de jovens, nalguns casos um milhar – como no Algarve, em Março, em Bela Mandil, festejando-se a Semana da Juventude e sendo o convívio disperso pela PSP e GNR à bastonada e a tiros de metralhadora - greves e outras lutas por melhores salários na cintura industrial de Lisboa, Ribatejo e Alentejo. São presos vários elementos do MUD e do MUD Juvenil – da Comisão Central, das Comissões Distritais, sendo, alguns, sujeitos a julgamento. No processo instaurado aos membros da Comissão Central, Redol é indicado como testemunha de defesa. Em Lisboa, realiza-se o julgamento de cento e oito antifascistas, que são condenados a pesadas penas. Em 29 de Abril, a Faculdade de Medicina é invadida pela PIDE, que agride os estudantes reunidos para protestarem contra a prisão de dirigentes. Em Beja, no dia 4 de Maio, realiza-se uma grande manifestação de protesto pelos dirigentes do MUD Juvenil presos, duramente reprimida pela polícia. O MUD Juvenil publica o “Manifesto à Juventude”, 273


profusamente distribuído e que motiva novas perseguições. Por Resolução do Conselho de Ministros de 14 de Junho, são expulsos da Universidade mais de vinte professores, entre os quais Ruy Luís Gomes, Manuel Valadares, Dias Amado, Zaluar Nunes, José Morgado, Ferreira de Macedo, Celestino da Costa, alguns dos quais tinham participado nos “Passeios no Tejo”. São expulsos, também, vários funcionários públicos e militares. Realiza-se a 2ª Exposição-Geral de Artes Plásticas, na qual a polícia política apreende vários quadros. 1948 Em 31 de Janeiro, o MUD realiza a sua última reunião pública. No final, são presos todos os elementos da Comissão Central, que são encarcerados no Aljube. Em 24 de Março, o MUD é ilegalizado. Mas o MUD Juvenil, que se considera uma estrutura independente, continua e realiza actividades. Em carta de 29 de Janeiro para Francisco Tavares Teles, Redol afirma: “Varrida a incerteza perante as proporções da obra, já iniciei o primeiro volume. Tive-lhe medo, sabes?” Trata-se do Ciclo do Port-Wine, propondo-se, então, escrever quatro volumes. No início do ano começam a ser publicados os fascículos de A França – Da Resistência à Renascença. Sai o primeiro. É interessante verificar que os dois primeiros fascículos são compostos e impressos na Editorial Inquérito. Aliás o primeiro fascículo ostenta nas primeiras páginas a indicação da Editorial Inquérito como editora. Mas, logo a seguir, a composição faz-se nas Edições Cosmos – editora que tem uma oficina de composição para as suas edições, mas que também compõe para edições alheias; parte do material desta oficina, nomeadamente o armário de gavetas com os tipos em chumbo encontra-se hoje no Museu do Neo-Realismo – e a impressão na Gráfica Lisbonense. Alguns exemplares da contracapa do primeiro fascículo ainda têm a Editorial Inquérito como entidade a quem os leitores devem fazer os pedidos. Mas outros não e indicam que os pedidos se fazem para a ARS Editorial Limitada, Rua dos Douradores, 100 – 4º D. Os fascículos seguintes mantêm esta indicação. Isto significa que Redol abandona a Editorial Inquérito como sua editora e edita por sua própria conta. Em Abril, sendo a cadência de publicação mensal, está em distribuição o segundo fascículo. O último é publicado, provavelmente, em Junho de 1949. Na portada do primeiro fascículo escreve-se : “Este livro é publicado sob o patrocínio moral do Departamento das Relações Culturais do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da União Nacional dos Intelectuais da França. Sem o seu apoio teria sido possível concebê-lo, mas nunca realizá-lo”. Muitas das facturas de envio destes fascículos para várias pessoas têm a letra de Redol. Quem é o proprietário da ARS? Será Redol? Ou tem nela uma quota? Em Fevereiro, Redol é eleito Presidente da Assembleia Geral do Ateneu, enquanto Carlos Pato é eleito Presidente da Direcção. Também em Fevereiro é refundado o Ginásio Vilafranquense, a partir da Sociedade União Musical Vilafranquense, que está em crise e que não consegue reerguer a banda de música. Também a banda do Ateneu o está, mas a Direcção de Carlos 274

Pato consegue repô-la a funcionar. Mas deve ter-se chegado à conclusão que não se justifica duas bandas na mesma terra. Em Dezembro, a Direcção do Ginásio, presidida por Jorge CâncioTarracha, que encabeça as transformações referidas, anuncia que a biblioteca está aberta aos sócios e que dispõe de mil volumes. É esta biblioteca que dois anos e meio mais tarde será a Biblioteca Alves Redol. Recorde-se que em 1942 as bibliotecas da Sociedade União Musical e do Ateneu são organizadas pelos descendentes dos neo-realistas. Nesta remodelação da União Musical para Ginásio, também colaboram Júlio Serra Sabino, José Duarte Frois, (também fundadores daquela ), Emanuel Lopes Jordão, José Rodrigues Júlio, Silvestre Rodrigues Mota, José Noel Perdigão e outros, que são, durante anos, persistentes colaboradores da associação. Em Abril de 1948, Redol é convidado a pronunciar uma conferência na Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar, de Évora, sobre “O Teatro e a Música na Educação Popular”, mas não se encontraram registos que permitam concluir pela sua efectiva realização. Os surrealistas recusam-se a participar na 3ª Exposição Geral de Artes Plásticas, porque não aceitam que possa acontecer, de novo, o que sucedera no ano anterior com a apreensão de quadros pela PIDE. Em 25 de Junho, morre Bento de Jesus Caraça, que nunca se recompôs da prisão e expulsão da Universidade em 1946, pois do que mais gosta é de ensinar. É uma grande perda para o país e para o meio democrático. O seu funeral é uma impressionante manifestação, pelo número de presenças e pelo sentimento de pesar dos presentes. Data de 22 de Julho, o carimbo da Censura no original dactilografado autorizando a publicação, em livro, da peça Forja e de 16 de Outubro o carimbo referente a Horizonte Cerrado, romance que é publicado em início do ano seguinte. Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz, na Polónia Neste ano, Alves Redol participa no Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz,de 25 a 28 de Agosto, em Wroclaw, na Polónia, mais dois dias de visita a Varsóvia, sendo a delegação portuguesa constituída por Alves Redol, Fernando Lopes Graça e João dos Santos, médico psiquiatra, a convite, segundo este último, da Union Française Universitaire. Para despistar a PIDE, vão para Paris, onde estão uns dias e, depois, voam para Varsóvia. No dia 1 de Setembro, sai em O Primeiro de Janeiro uma entrevista em que Alves Redol diz que vai a Paris por uns dias para “documentar-me melhor para os últimos capítulos sobre o que chamo «Renascença»”. Aliás, nenhum documento do Congresso, sequer a lista dos presentes, faz referência aos delegados portugueses residentes em Portugal. As coisas tinham sido bem combinadas! O físico português Manuel Valadares, expulso da universidade e que em França dirige um centro de investigação dos mais importantes do mundo, também está presente e é o único listado. Em Wroclaw, encontram cerca de trezentos intelectuais de todo o mundo, muitos dos quais conhecem de nome dos jornais e revistas.

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Redol conhece pessoalmente Jorge Amado e muitos outros, entre os quais Henri Wallon, o co-autor do Plano Langevin-Wallon de reforma do ensino em França e que foi Ministro da Educação. Segundo João dos Santos, estabelece-se entre Redol e Wallon uma amizade imediata e os dois passam longos momentos conversando. A delegação fancesa tem cinquenta e três membros e dela fazem parte nomes famosos, como os Joliot-Curie, Julien Benda, Duhamel, Vercors, Le Corbusier, Picasso, Fernand Leger, Jean Louis Barrault, Claude Autant Lara, Aimé Cesaire, Léopold Senghor, Paul Eluard, Henri Lefebvre, Henri Wallon, Roger Vaillant. Dos ingleses, Graham Greene, Hewlett Johnson, o Deão de Cantuária, o chefe da Igreja a que pertence a mãe de Redol. A delegação italiana tem sessenta e sete componentes, entre os quais Elio Vittorini, Cesare Pavese, Renato Guttuso, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, Cesare Zavattini. A delegação soviética com dezanove membros, entre os quais, Cholokov, Fadeiev, Erehnburg, Pudovkine. A do Brasil com Portinari, Oscar Niemeyer, Jorge Amado. Estes nomes figuram entre os convidados que confirmaram a presença, mas alguns podem não ter chegado a participar. Também estão delegações dos EUA, Bélgica, Suiça, Chile, etc. Muitos escritores, artistas e cientistas importantes enviam saudações. Entre os últimos está Albert Einstein. Redol fala em nome da delegação portuguesa, referindo a necessidade de se alargar a liberdade a todos os povos, pois há alguns que ainda sofrem todo o tipo de limitações, as quais se estendem aos escritores e artistas que vêem a sua obra ser fustigada, fala sobre o dever dos intelectuais de se manifestarem contra as injustiças e de esclarecerem os povos sobre os novos perigos que os ameaçam, para o que têm de utilizar uma linguagem mais acessível, sobre novas formas de racismo. A seguir a ele fala Anna Seghers, escritora que foge da Alemanha hitleriana e cuja obra influencia os neo-realistas. Redol, como é seu costume, toma apontamentos sobre aquilo a que assiste. Sobre Varsóvia: “Num dos parques da cidade muita gente; crianças que correm e gritam”, “reconstrução por toda a parte”, “o ghetto é mais um campo razo de pedaços de tijolo e caliça; nem sinais de paredes”,”ao fundo o campanário de uma igreja reconstruída”, ”igrejas cheias”, “continua um país católico”. Descreve o monumento aos judeus mortos. Também descreve alguns congressistas, na viagem de regresso de avião: “Benda adormeceu”, “Huxley escreve sempre”, “Léger contemplativo”, “Vercors encostado à janela olha para fora”,”Eluard pôs os óculos e lê”, “Irene Curie com o seu chapéu, grande casaco, sempre calada, amável; é ela que nos indica Berlim ao longe”, “o deão com as suas polainas”, e nas sessões: ”assisto ao comício com Ould” (secretário-geral do PEN Club Internacional), ”delegados com números marcados no braço (campos de concentração)”. Redol descobre que existe em polaco uma palavra correspondente a “saudade”. Pois não se diz que este conceito só existe na língua portuguesa? No ano lectivo de 1948/1949 o pequeno António frequenta o Jardim Infantil St. Louis, o mesmo acontecendo no ano de

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1949/1950, em que faz a 1ª classe, aprendendo a ler pelo Método João de Deus, com a Cartilha Maternal. Em altura do ano que não se consegue apurar, mas talvez em Outubro, Redol deixa a mulher e o filho e vai viver, na Rua Actriz Virgínia, à Av. Almirante Reis, em Lisboa, com outra pessoa, Natália Cruz, com quem já se relaciona há alguns anos. É com esta que vive até 1964 ou 1965. Redol queixa-se das relações com os editores. Já se desligou da Editorial Inquérito e faz contactos com as editoras Ibérica e Minerva, mas sem resultados. Entretanto, o romance Fanga está esgotado. Em início de Outubro é posta à venda a peça de teatro Forja, em edição do autor, impressa na Gráfica Lisbonense e distribuída por Publicações Europa-América. O original dactilografado tem carimbo da Censura de 22 de Julho. É o original mais antigo existente no espólio de Alves Redol com carimbo da Censura, mas outros anteriores poderão ter existido, como o de Porto Manso. “Esta tragédia vivia-me no sangue. Só tu, porém, me fizeste escrevê-la”. Dirigia-se ao ditador português? Pelo menos, a figura principal da peça, o ferreiro Malafaia, é uma metáfora de Salazar. Por isso, nunca é autorizada a sua representação pela Censura em vida do ditador, no território nacional, dito metropolitano. Que o foi noutras paragens. É impressa uma edição em papel especial, numerada e assinada pelo autor. Ainda em Outubro sai o 7º fascículo de França, obra que tem doze fascículos. Sai um por mês, grosso modo. Continua a trabalhar nos romances do Douro. Recolhe volumosa bibliografia. Pede a colaboração de amigos, em particular, José Arnaldo Monteiro e Francisco Tavares Teles. O primeiro morre cedo, mas com o segundo mantém uma amizade até ao fim da vida. Trocam correspondência que ambos guardam. Teles junta um volume de cartas que atinge a meia centena. Estuda a história do Douro e a de Portugal relacionada com esta região e o seu vinho, a de Inglaterra e a da Alemanha - especialmente no período de mais acesa luta comercial entre as duas potências, quando os alemães tentam entrar na exportação do vinho do Porto - a história do Porto e a das grandes famílias da cidade e da região. Estuda a geografia e a etnografia, recolhe o seu cancioneiro. Estuda a sua economia, a evolução da exploração da vinha e a estrutura da propriedade, as pragas, o transporte no rio. E as movimentações sociais. Há cinco anos que o faz. Por isso, junta uma grande bibliografia. Neste ano fica pronto Horizonte Cerrado. Como já se viu é de 16 de Outubro o carimbo da Censura que autoriza a publicação. Ainda neste ano publica quatro artigos no jornal Sol, dirigido por Lello Portela. Um dos artigos aborda a confrangedora situação do teatro em Portugal, outro é dedicado ao tapeçarista francês Jean Lurçat, que Redol conhece em Paris. Este jornal é fundado, em 1942, pelo Tenente-Coronel Alberto Lello Portela, piloto aviador formado em Inglaterra, que se distingue na 1ª Guerra Mundial em acções arriscadas contra a aviação alemã, integrado numa esquadrilha inglesa e noutra francesa, pelo que é condecorado pelos Governos de Portugal e França. É Governador Civil de Lisboa em 1921. 275


Oriundo de uma família republicana, também os irmãos se distinguem nos seus domínios de acção, um deles, Raul, como deputado, no tempo da República. Portela é, também, director e editor do jornal. Redol lê com atenção e sublinha os artigos desta publicação, que se dedica à geo-estratégia mundial, assunto em que o seu director se especializa, à economia, publicando muitos dados estatísticos, e a vários assuntos de carácter político. 1949 Em 2 de Fevereiro, o Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Major Alfredo Horácio da Cunha Nery, endereça uma carta ao “Governador Civil do Districto”, assinalada como “Confidencial”, em que escreve: “Junto tenho a honra de enviar a V. Ex.ª cópia de um ofício do Ateneu Artístico Vilafranquense com a indicação dos sócios eleitos. Como o presidente da Assembleia Geral, António Alves Redol, o vice-presiente da Assembleia Geral, António Guerra Vieira, o presidente, secretário e tesoureiro da Direcção, e o relator do Conselho Fiscal, são indivíduos não só contrários ao Estado Novo, mas alguns mesmo comunistas, não devem exercer esses cargos, aguardando que V. Exª me permita indicar uma Comissão Administrativa, visto que essa Direcção será em tudo prejudicial, podendo como já sucedeu exercer uma acção política que é preciso evitar”. Em 28 de Maio, Carlos Pato é, de novo, preso, vindo a falecer em Caxias em 26 de Junho de 1950. Neste mesmo mês é publicado o Boletim Mensal do Clube Oriental de Lisboa que insere uma entrevista com o escritor intitulada “A história da sua vida contada por ele próprio”. A entrevista aborda a actividade desportiva de Redol e a sua obra literária. Segundo Joaquim Campino, Redol colabora na actividade cultural do clube, cuja equipa de futebol está durante vários anos a disputar o campeonato nacional da 1ª divisão. Ainda em Fevereiro, Redol recebe uma carta da Associação de Intercâmbio Cultural, de Guiratinga, Mato Grosso, no Brasil, em que lhe comunicam “ a sua eleição para o quadro social” da Associação “certos da sua valiosa cooperação em favor do programa que defendemos e pregamos com entusiasmo, em prol da Paz e Confraternidade dos povos”. Com tanto trabalho, Redol tem um esgotamento. Nos primeiros meses do ano sai a público o romance Horizonte Cerrado, o primeiro da trilogia “Ciclo do Port-Wine”, com ilustrações de Júlio Pomar, edição do autor, composto nas oficinas de Edições Cosmos e impresso na Gráfica Lisbonense, distribuído por Publicações Europa-América. Recorde-se que o original dactilografado vai à Censura prévia e é aprovado. É impressa uma edição em papel especial, numerada e assinada pelo autor. É dedicado a José Arnaldo Monteiro e Francisco Tavares Teles. Na portada do romance escreve: “Port-Wine é o vinho dos ingleses. Chamam-lhe sol engarrafado, mas só os Durienses sabem o preço das tragédias e heroísmos que viveram para criar esse sol – fazer um astro com as mãos é tarefa de gigantes”. Pouco depois sai a 2ª edição. 276

Segundo Miguel Falcão, entre 1948 e 1949 Alves Redol escreve a peça de teatro O Triângulo Quebrado, que está inédita. O texto tem referências às bombas atómicas lançadas sobre o Japão, aos campos de concentração nazis, aos perigos da guerra fria, ao triunfante modelo americano. Redol continua a frequentar, embora não diariamente, como muitos outros, o Café Portugal e a Pastelaria Veneza. E as livrarias, onde adquire as últimas novidades literárias, mantendo-se actualizado como poucos, segundo testemunham amigos escritores como José Cardoso Pires e Mário Ventura. Centro Bibliográfico, uma editora dos escritores Os escritores portugueses estão muito insatisfeitos pela forma como funcionam as editoras portuguesas. Viu-se como Alves Redol passou a editar por conta própria os seus livros. Decidem, então, tentar organizar uma editora de que sejam proprietários e que controlem. É constituído o Centro Bibliográfico, com sede na Rua do Loreto, 4 – 2º, em Lisboa. Redol é o escritor de maior prestígio que ali se associa. É publicado o livro de contos de José Cardoso Pires Os Caminheiros e Outros Contos, o primeiro do jovem escritor, em edição do Centro Bibliográfico, com capa de Júlio Pomar, impresso na Tipografia Ideal, Calçada de São Francisco, 13 em Lisboa. Redol, Armindo Rodrigues, Alexandre O’Neill e Mário Dionísio financiam a edição. É mais um caso de solidariedade entre escritores. José Gomes Ferreira publica aqui, em Maio de 1950, O Mundo dos Outros, com capa de António Alfredo, também impresso na Tipografia Ideal, e, Alves Redol, Cancioneiro do Ribatejo, neste mesmo ano, impresso na Empresa Técnica de Tipografia, em Vila Franca de Xira. O primeiro livro de poesia publicado é Retrato de Mulher, de Armindo Rodrigues, em 1950, inserido na colecção “Cancioneiro Geral”. Para o ano de 1954/1955 o Centro Bibliográfico apresenta um programa de edições constituído por Olhos de Água, de Alves Redol, Malta Brava, de Alexandre Cabral, Um Resto de Esperança, de Rogério de Freitas, As Sementes do Ódio, de Manuel da Fonseca, Quatro Reis, de Mário Braga, na colecção de prosa “Tempo Presente”. No final do ano, sabe-se que Soeiro Pereira Gomes, que desde 1944 está na clandestinidade, tem um cancro em último grau e que está em casa da irmã. Acaba por falecer. O seu funeral, que sai de Lisboa para a sua terra natal, Baião, é dificultado por todas as maneiras pela PIDE. Quando chega às proximidades de Alhandra a população em peso está na estrada à espera e obriga o carro funerário a entrar na vila e a percorrer as ruas principais. Para Alves Redol é um grande desgosto que o deixa profundamente abalado. Escreve ele, anos depois: “(grupo de Vila Franca)… a que mais tarde, aí por 1939, se reuniria Joaquim Soeiro Pereira Gomes, que juntava ao seu enorme talento uma ímpar qualidade humana feita de tolerância, inteligência e sensibilidade”. Dias depois do falecimento, o irmão Jaime Pereira Gomes, engenheiro, dirige-se à casa da Avenida de Berna onde

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Alves Redol vivera e onde vivem Maria e o filho António, e entrega o estojo com a caneta e a lapiseira Parker de Soeiro e o estojo com o talher infantil em prata, que este, em testamento, deixa ao afilhado. Guardados religiosamente durante anos, utilizada a caneta nos exames e outros actos decisivos da vida de António, estes encontram-se hoje no Museu do Neo-Realismo, através de uma pessoalmente dolorosa doação efectuada no dia da inauguração da exposição comemorativa do Centenário do Nascimento de Soeiro Pereira Gomes. No mês de Outubro, publica-se Retalhos da Vida de um Médico, de Fernando Namora, edição da Editorial Inquérito. Provavelmente em Outubro ou Novembro, Alves Redol está em Paris. Procura o vila-franquense Atilano dos Reis Ambrósio, que usa o pseudónimo de Jorge Reis. Passara à clandestinidade com Soeiro Pereira Gomes em 10 de Maio de 1944, indo para Coimbra como funcionário do PCP. Aí, alojado em casa de Arquimedes da Silva Santos, é jardineiro num jardim municipal, faz o seu trabalho político e colabora no jornal Gazeta de Coimbra, onde chega a chefe de redacção e coordena a página literária. Algum tempo depois vai para o Porto, onde se emprega numa fábrica. Detectado pela PIDE, foge para Paris, onde chega a 10 de Agosto de 1949 e onde tem inicialmente, uma vida muito difícil, pois falha o contacto que o Partido lhe dá. As organizações de portugueses refugiados desconfiam dele e não lhe prestam qualquer auxílio, pois julgam-no elemento da polícia política portuguesa. É um polícia francês, cujo pai fora da Reistência, quem lhe dá guarida e ajuda a legalizar. É, primeiro Cipriano Dourado e, depois, Alves Redol, que o apresentam nesses meios e desfazem o equívoco. Ele já está a trabalhar no “Centre Catholique des Intellectuels Français” e, em 1954, entra para a secção de língua portuguesa da “Radiodiffusion Française”. Em Novembro, é fundada Ribatejo, revista mensal ilustrada, propriedade da Casa do Ribatejo, onde Alves Redol colabora com artigos sobre a província ribatejana. Um dos artigos tem o título “Os olivedos no Cancioneiro do Ribatejo”. O escritor trabalha há muitos anos na recolha de poesia popular ribatejana – e chega a recolher, também, alguma da duriense, mas sem haver publicação – que depois virá a publicar em livro. Este seu trabalho ainda é o resultado do incentivo de Rodrigues Lapa. Em Dezembro, o Comité Nobel da Academia Sueca escreve a Alves Redol, como Secretário-Geral do PEN Clube Português, para que sejam realizadas diligências para que esta entidade indique um candidato ao Prémio Nobel da Literatura de 1950. Não foi possível recolher elementos que permitam saber se houve resposta. “Eleições” para a Presidência da República: Norton de Matos Realizam-se eleições para a Presidência da República, às quais a oposição decide apresentar um candidato. É o General Norton de Matos, Grão-Mestre da Maçonaria, que aceita a candidatura a 8 de Abril de 1948. A apresentação da candidatura faz-se em 9 de Julho, no Supremo Tribunal

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de Justiça. Redol subscreve as listas de apresentação. Utilizam-se as estruturas já experimentadas do MUD. O período de campanha eleitoral abre a 1 de Janeiro de 1949. Em conferência de imprensa, o General reclama garantias mínimas, denuncia a Censura e as pressões sobre os jornais e exige a alteração da lei eleitoral. Em torno desta candidatura verifica-se uma grande mobilização popular, com a apresentação de cartazes com grande força que são espalhados por todo o lado. Realizam-se comícios com grande participação. De novo, o regime assusta-se. O acto eleitoral realiza-se a 13 de Fevereiro, mas, na véspera, Norton de Matos retira a sua candidatura, em resultado de uma votação nas estruturas do movimento. No seguimento deste processo, são presas inúmeras pessoas por todo o país, entre as quais António Dias Lourenço, Carlos Pato e Arquimedes da Silva Santos, só para indicar as que tinham pertencido ao “Grupo Neo-Realista de Vila Franca”. Mas também é presa Georgete Ferreira, que está na clandestinidade e acompanhara as actividades daquele grupo. Recorde-se que Bona da Silva já tinha sido preso e julgado anteriormente. Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira (irmã de Georgete e que também participara nas actividades culturais em Vila Franca) são presos no Luso. As estruturas do MUD que ainda existem apesar de ilegalizado e as do PCP sofrem rudes golpes. 1950 Alves Redol continua a trabalhar no “Ciclo do Port-Wine”. Tem a data de 3 de Janeiro o carimbo da Censura no original dactilografado do 2º volume deste Ciclo – com a indicação “Aprovado com cortes”; os cortes realizados pela Censura são ridículos! então intitulado Terra Mártir, mas que só vem a ser publicado em 1951, com o título Os Homens e as Sombras. Porque demorará tanto a edição? Será porque refaz o romance por duas vezes, isto é, existem três versões diferentes? Solidariedade com a família de um escritor Em Fevereiro, o autor de Fanga organiza uma feira do livro na Sociedade Nacional de Belas-Artes, de solidariedade para com a família do falecido escritor duriense Monteiro Ramalho, a qual se encontra numa situação financeira muito difícil. Vários escritores se deslocam às instalações daquela entidade para assinarem os livros adquiridos pelo público. Artistas de teatro e cinema vendem os livros. Colaboram, entre outros, Ferreira de Castro, Assis Esperança, João Gaspar Simões, Joaquim Paço d’Arcos. Tem, também, a promessa de Loureiro Botas, Armindo Rodrigues, Maria Lamas, Romeu Correia, José Cardoso Pires, José Gomes Ferreira, mas não se conseguiu apurar se estão presentes. Dos artistas, colaboram com a sua presença Irene Izidro, Laura Alves, Maria Cristina, Nina e Simone Monteiro, Leónia Mendes, Madalena Sotto, Julieta Castelo, Josefina Silva, Lucia Mariani, Maria de Lourdes e Isabel de Carvalho. Além disso, consegue que seja publicado um conto do escritor referido, pago, na revista Ver e Crer , que se realize um leilão de livros da biblioteca do escritor no Porto e tenta 277


vender 1ªs edições de autores franceses em Paris. Zola é um deles. Para Redol a solidariedade não é uma palavra vã. Em Maio, o escritor é convidado a integrar a Comissão Central do movimento “Defesa da Paz”, mas não se encontra mais informação. Morte de Carlos Pato Em 26 de Junho de 1950, no Reduto Norte do Forte de Caxias morre Carlos Pato. Desde há muito tempo que está a ser sujeito à tortura do sono, à “estátua”. Sente-se mal e solicita um médico, pedido que a PIDE declina. Na última visita com a mulher, pede para ver os filhos, pois deve ter pressentido o seu fim. A polícia não avisa a família, mas esta é informada por um advogado, que visita um preso a quem Arquimedes da Silva Santos dá a notícia. Quando a família consegue ver o corpo, verifica que as pernas e os pés estão inchadíssimos, os sapatos tinham rebentado. A PIDE tenta impedir o funeral, mas uma enorme multidão espera o carro funerário à entrada de Vila Franca e obriga-o a seguir devagar até ao cemitério. A PIDE fotografa os presentes. “Só quem viu mulheres e meninos do povo levarem-te raminhos de flores silvestres, numa homenagem que nunca conheci igual, e os teus amigos, e os teus companheiros de trabalho, e uma população inteira, todos sofrendo essa separação, numa angústia que estava mais no nosso sangue do que nos rostos torturados por esse golpe, é que saberá compreender e testemunhar que chorámos um Homem”, escreve Alves Redol no prefácio ao livrinho Contos que os amigos editam e que contém os textos que Carlos Pato publicara no Mensageiro do Ribatejo e na colectânea Contos e Poemas (impressa em 22 de Abril de 1942, organizada por Carlos Alberto Lança e Francisco José Tenreiro), juntamente com outros escritores, entre os quais Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Sidónio Muralha, Faure da Rosa, Arquimedes da Silva Santos. No dia 6 de Junho, na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, realiza-se um Sarau de Poesia com Manuela Porto e Maria Barroso, com uma palestra proferida por Vitorino Nemésio. Em Junho, João Villaret faz um recital de poesia no CineTeatro de Vila Franca. Continuam a passar por esta vila os grandes nomes do teatro português. Primeiro fora no Club Vilafranquense, agora no recém-inaugurado Cine-Teatro. Trabalha em Vila Franca na Redol & Cia. Lda Por esta altura Redol está a trabalhar diariamente em Vila Franca, na firma de que é sócio, Redol & Cia Lda. Diz-se no seu círculo de amigos mais chegados que com esta sociedade Redol pretende ajudar o pai e o cunhado, que, na sequência da prisão, foi expulso da Marinha, está desempregado e tem dificuldade em arranjar colocação. Por outro lado, a vivência apenas da escrita encontra muitas contrariedades. Terá sido Redol a realizar todo o investimento necessário, recorrendo às economias que conseguira amealhar. A firma começa com uma loja de materiais de construção e, depois, uma fábrica de mosaicos, marmorite, manilhas. Enquanto Redol se dedica ao escritório e às contas, Luís Ferreira, que tinha 278

o curso de mecânico, toma conta da fábrica e faz de caixeiro viajante. Mais tarde, com o desenvolvimento da empresa, esta compra um terreno em Alverca, monta uma nova fábrica melhor apetrechada que a primeira, onde mantém os fabricos anteriores e produz postes de alta tensão. A empresa progride porque no concelho há, então, muita construção, principalmente em Alverca. Mas em Vila Franca também se constroem bairros novos. Os principais clientes dos materiais de construção são, obviamente, construtores civis. Os principais clientes de manilhas e postes de alta tensão são Câmaras Municipais, onde, frequentemente, são encontradas dificuldades, devido à posição política dos proprietários da sociedade. São editados bem elaborados catálogos com as fotografias dos materiais de grande porte produzidos e dos locais onde foram implantados. É Redol que os concebe, com a sua experiência em publicidade, que se inicia em Luanda e que prossegue na Procuradoria Geral dos Municípios e na divulgação dos seus livros, em particular no período em que foi autor-editor. Em Vila Franca, frequenta a Pastelaria Lezíria do seu amigo Júlio Gaudêncio, construtor civil, que está com ele em Paris quando ali volta em 1948, na preparação da ida a Wroclaw. Era seu confidente e, em Paris, Gaudêncio assiste a um romance entre Redol e uma senhora que, mais tarde, foi uma conhecida jornalista. Foi este amigo que deu a Redol a notícia da morte de Carlos Pato, no escritório da Redol & Cia. Diz ele: “… posso dizer que nunca vi um homem chorar como eu o vi chorar, com as mãos na cabeça”. Vive, agora, na Rua Presidente Wilson, ao Areeiro. Há indicações de que poderá ter vivido em outros dois locais depois da Rua Acriz Virgínia, mas não são elementos seguros. Começa a frequentar a tertúlia da Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, onde vão Castro Soromenho, Alexandre Cabral, Rogério de Freitas, José Cardoso Pires. Provavelmente por esta altura, é inaugurado em Lisboa, um monumento a João do Rio, jornalista e escritor brasileiro, situado na praceta com o mesmo nome. Redol e Piteira Santos estão presentes, numa cerimónia em que estão, também, Jaime Cortesão, Henrique de Barros, Etelvina Lopes de Almeida, etc.. O pequeno António, a conselho do médico, dada a tendência familiar para a tuberculose, toma a vacina BCG. Tem que estar isolado por algum tempo, razão pela qual Maria vai para Vila Franca para casa da mãe e o pequeno inicia a 2ª classe na escola particular da tia Inocência, afastada do ensino primário oficial com o pretexto de ser irmã de Alves Redol. É uma pessoa que nunca teve qualquer actividade política ou nas colectividades. Por esta altura, Redol começa a ter aulas de condução com o objectivo de tirar a carta. Não tem muito jeito para conduzir automóveis, mas não é só com estes veículos que há dificuldades. De uma maneira geral, não se entende com qualquer mecanismo. O simples acto de mudar uma lâmpada é complicado. Nem sequer gosta muito do telefone. Mas obtém a carta de condução a 23 de Dezembro de 1950. Todavia, é raríssimo guiar, continuando

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Homenagem a João do Rio, jornalista e dramaturgo brasileiro, em Lisboa, promovida por um grupo de democratas. Além de Alves Redol, vêem-se Jaime Cortesão, Henrique de Barros, Etelvina Lopes de Almeida e Fernando Piteira Santos, anos 50.

a deslocar-se de autocarro todos dias de Lisboa para Vila Franca e vice-versa. Deve ter tirado a carta, apenas como um desafio a si mesmo! No dia 6 de Junho, no Teatro-Estúdio do Salitre, Laura Alves, já muito conhecida como actriz de revista e de cinema, estreia-se como actriz de teatro dramático, interpretando O Menino dos Olhos Verdes, de Alves Redol, escrito propositadamente para ela, numa encenação de Gino Saviotti. Em 28 de Julho, o jornal República anuncia que Redol é laureado com o Prémio Ricardo Malheiros da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, pelo romance Horizonte Cerrado. Inúmeros jornais em todo o país dão a notícia, até mesmo os mais afectos ao regime, como A Voz e Novidades, este último da responsabildade da hierarquia da Igreja Católica. Em 30 de Setembro, o Major Cunha Nery pede a demissão de Presidente da Câmara. Quando a notícia é tornada pública, estrelejam foguetes. Não é para menos, pois a presidência do Major foi recheada de episódios de perseguição e repressão. O jornal Vida Ribatejana insurge-se contra esses festejos, argumentando que Cunha Nery muito tinha feito por Vila Franca. É substituído pelo Tenente José de Sousa Nazaré, que toma posse no dia 11 de Outubro no Governo Civil. É um nacionalista, que esteve com Sidónio Pais, é membro da Censura, onde conhece Alves Redol, que ali vai para entregar os originais dos livros e discutir com os censores as arbitrárias opções destes. Tem uma presidência mais aberta, apesar de já não ser necessária uma repressão tão directa, pois as forças oposicionistas estão enfraquecidas pela repressão nacional e local, realizada nos anos anteriores. Alíás, inicia a sua presidência visitando as diferentes freguesias, certamente para conhecer os problemas, mas, também, para descomprimir o ambiente. Em 6 de Outubro de 1950, Jorge Amado, então exilado em Paris, escreve a Redol comunicando-lhe que “o original em checo (de Fanga) encontra-se já com o editor e sairá ainda este ano”. Fala de possiveis edições em outros países e pergunta-lhe se recebera a edição russa daquele romance. Escreve que “Gostaria de receber daí revistas, livros, notícias. E também bacalhau, um bom kilo de bacalhau para matar a saudade das comidas que são portuguesas mas são também brasileiras”. No ano seguinte, continua a troca de

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correspondência entre os dois. Jorge Amado trata, agora, o amigo por “Meu querido Redol”. Foi realizada uma edição russa de Fanga, mas Redol não recebe qualquer exemplar. Em 1949, sai uma tradução checa de Porto Manso e em 1951 uma tradução de Fanga. Em carta endereçada a Francisco Tavares Teles em 24 de Setembro de 1949 o escritor escreve: “Penso ir a França na 1ª quinzena de Outubro arrancar algum dinheiro aos meus editores franceses”. Ora, desconhece-se qualquer tradução francesa, embora se tenha verificado a decisão de várias editoras de publicarem diferentes títulos, chegando a haver um contrato assinado com as Éditions Hier et Aujourd’hui para a publicação de Avieiros. Ou há, de facto, edições que se desconhecem ou Redol vai tentar receber dinheiro das edições russa e checa e não o quer escrever, receando que a polícia leia a carta, como acontece frequentemente. No seu processo da PIDE, existente na Torre do Tombo, há várias fotocópias e transcrições de cartas suas e para si, que foram abertas e que depois foram entregues ao destinatário. Actividades do Ateneu Artístico Vilafranquense Em Novembro, o Ateneu organiza o II Salão de Arte Fotográfica, numa iniciativa da Secção de Biblioteca, presidida por José Noel Perdigão. Na inauguração, além das autoridades locais, entre as quais o novo Presidente da Câmara e os representantes de várias colectividades, nomeadamente o Ginásio (recorde-se que esta colectividade vem da Sociedade União Musical Vilafranquense, que resultara de cisão, em conflito, do Grémio, antecessor do Ateneu; procura-se, então, ter boas relações; aliás José Noel Perdigão colabora nas duas associações), está presente Alves Redol, que Vida Ribatejana indica ser Presidente da Assembleia Geral do Ateneu e José Dias Coelho. No final do ano, talvez porque o clima repressivo directo por parte da Presidência da Câmara abrande, realiza-se o I Concurso Literário do Ginásio Vilafranquense - Jogos Florais - com júri constituído por Alves Redol, Adelaide Félix e Faustino dos Reis Sousa. É atribuída uma Menção Honrosa na modalidade de conto a Júlio Graça, jovem escritor, nascido em Vila Franca, mas que desperta para a cultura em Alhandra, onde também é nadador, campeão nacional. Entre um elevado número de premiados apenas dois são do concelho. A sessão de entrega dos prémios, realizada no dia 6 de Dezembro no novo Cine-Teatro (inaugurado em 25 de Junho de 1949, é uma iniciativa de Joaquim Augusto Faria, que no mesmo dia inaugura a Estalagem da Lezíria, logo ao lado), é presidida por Sousa Nazaré e nela participa o grupo cénico da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, com os actores Luísa Bastos e Varela Silva, apresentando o Auto do Curandeiro, de António Aleixo e lendo os textos premiados. A organização é de José Noel Perdigão, embora deva ter tido o aconselhamento de Alves Redol.E deve ter sido este quem fez o contacto com aquele grupo cénico, já seu conhecido. Em Novembro, realiza-se em Vila Franca um grande cortejo de oferendas a favor da Misericórdia. É uma grande 279


iniciativa, desfilando carros transportando oferendas de grandes lavradores, indústrias e comércio pelas ruas da vila. Algumas dessas ofertas são animais vivos. É formada uma comissão de apoio, de que fazem parte muitas pessoas, em especial os notáveis da terra. António Redol da Cruz, que, no passado, faz parte de várias comissões que recolhem fundos para ajudar instituições ou pessoas pobres e participa em várias iniciativas de beneficência, não entra nesta comissão. Sabe-se que ficara muito perturbado com o facto de a polícia política do regime que apoia ter prendido o filho, que para mais sai da cadeia sem qualquer acusação. Como republicano que é, defensor dos princípios da República, será que se distancia do Regime? Desde o início da sua carreira literária, Alves Redol tem o hábito de ler o que está a escrever aos seus amigos, pedindo-lhes opinião e testando o impacte da escrita. António Dias Lourenço testemunha que isso já acontecera consigo com Glória e com Gaibéus. Também com a família da Golegã o faz relativamente a Fanga. E fá-lo com todos os livros. Nesta época, junta-se, com frequência uma tertúlia de amigos em casa de Redol, e ele procede, agora, a leitura em grupo. Fernando Piteira Santos é acusado pelo PCP de ter denunciado elementos do MUNAF à PIDE durante os interrogatórios a que é sujeito aquando da sua prisão em 1945, o que o próprio sempre negou, tal como muita gente ligada àquela organização unitária clandestina, mas acaba por ser expuldo daquele partido. Pretendem que Alves Redol corte relações com o amigo, mas ele recusa. Pelo final do ano é publicado Cancioneiro do Ribatejo, que organiza e prefacia, edição do autor no Centro Bibliográfico, impressão na Empresa Técnica de Tipografia, em Vila Franca, distribuído por Publicações Europa-América. Livro onde Alves Redol recolhe o romanceiro do povo ribatejano – “A vida do povo cantada pelo povo”- participando na recolha ele próprio e mais treze pessoas, algumas das quais da sua família e também Bona da Silva e Henrique Lamas. Recorde-se que Redol recolhe elementos para este livro, há longos anos, desde as suas colaborações etnográficas em O Diabo. O livro é dedicado a Rodrigues Lapa, “com grata lembrança pelo carinho dos seus primeiros conselhos”. Continuam as Exposições Gerais de Artes Plásticas, realizando-se a quinta. 1951 Prémio Ricardo Malheiros para Horizonte Cerrado. Os Homens e as Sombras. Mário Dionísio identifica na obra de Redol a busca de uma forma nova na literatura portuguesa. A 25 de Janeiro de 1951, recebe o Prémio Ricardo Malheiros, atribuido a Horizonte Cerrado, das mãos de Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina, tendo ao lado vários académicos. Júlio Dantas, que não pode estar presente no acto por se encontrar doente há vários dias, o General Teixeira Botelho e Joaquim Leitão constituem o júri que atribui o Prémio. Em 16 de Março, em consequência deste prémio, realiza-se num restaurante da Baixa de Lisboa uma homenagem ao 280

galardoado, em que na mesa de honra estão António Sérgio, Ferreira de Castro, Mário Dionísio e Adelaide Félix. Estão presentes, ainda, Aleixo Ribeiro, Alexandre Cabral, Alexandre Castanheira, Álvaro Salema, António Abreu, Arlindo Vicente, Assis Esperança, Carlos de Oliveira, Fernando Piteira Santos, Francisco Lyon de Castro, Francisco Ramos da Costa, José Cardoso Pires, Romeu Correia, familiares e amigos, como António Vidal Baptista, amigo de infância de Vila Franca, que sendo, embora, pessoa ligada ao Estado Novo e tendo ocupado vários cargos na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, nunca deixa de participar em homenagens a Redol. Como Presidente da Assembleia Geral da União Desportiva Vilafranquense e dos Bombeiros Voluntários apresenta, em reuniões das respectivas Assembleias, propostas para envio de saudações ao escritor a propósito do 25º aniversário de

Homenagem a Alves Redol num restaurante lisboeta, em Março de 1951, aquando da atribuição do Prémio Ricardo Malheiros de 1950 a Horizonte Cerrado. Na mesa, vêem-se, entre outros, Ferreira de Castro, António Sérgio, Mário Dionísio.

Gaibéus, em 1964, as quais são aprovadas por unanimidade. Por volta de Maio, é publicado o romance Os Homens e as Sombras, o segundo do Ciclo do Port-Wine, em edição do autor, impresso na Empresa Técnica de Tipografia em Vila Franca de Xira, distribuído por Publicações Europa-América, cuja chancela aparece na capa. É a mesma situação da 1ª edição de Gaibéus, com a Livraria Portugália. O romance é dedicado a João de Barros, Assis Esperança e Ferreira de Castro. Mário Dionísio escreve que existe um franco progresso em relação aos romances anteriores. E: “Mas Alves Redol encarou desde o princípio a criação literária do ângulo mais escarpado, ou seja: do lado dos próprios problemas nacionais a estudar e a revelar, pondo corajosamente de parte a tentadora oferta das fórmulas já conseguidas e que não podiam convir à concretização estética do drama que acima de tudo o comovia e que irresistivelmente o atirou para a literatura” e “O seu triunfo literário fez-se palmo a palmo, lentamente, seriamente, com a mesma persistência e confiança com que os pobres camponeses do Douro arrancam da pedra a uva preciosa com que fabricam o vinho”. Não seguiu o caminho de: “…adoptar um dos vários figurinos estrangeiros que tão tentadoramente se oferecem ao nosso romancista…”. Pela primeira vez, um crítico coloca a questão das dificuldades que Redol sente ao trilhar um caminho novo.

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Em 3 de Março, Vida Ribatejana informa que se vai realizar um almoço de homenagem a Alves Redol, pela atribuição do Prémio Ricardo Malheiros. As inscrições fazem-se na Casa do Ribatejo e na Rua da Barroca, 14 –2º. No dia 9 de Junho, informa que todas as colectividades da vila aderiram e que as listas de inscrições estão lá, à disposição de todos. O Ginásio Vilafranquense organiza a homenagem, que começa com uma sessão na sua sede, no dia 24 de Junho. A cerimónia tem lugar às 11.30 horas, sendo atribuido o nome de Alves Redol à Biblioteca do Ginásio. Preside à sessão o 2º Comandante da Escola de Alunos Marinheiros de Vila Franca de Xira (no mesmo edifício, na Quinta das Torres, também funciona a Escola de Mecânicos da Armada), Capitão-Tenente Aguiar Bastos, estando na mesa Raúl Francisco de Carvalho, amigo de infância do escritor, em representação da Biblioteca Municipal, Faustino dos Reis Sousa, escritor e José Duarte Frois, em representação do Ginásio. Falam Manuel Varandas em nome da colectividade, José Noel Perdigão, responsável da biblioteca, Faustino dos Reis Sousa e o operário Manuel Calhelhas. O busto em gesso da autoria de José Dias Coelho, é descerrado pelo filho do homenageado. Estiveram presentes representantes de todas as colectividades da vila, muitos convidados e sócios do clube. José Dias Coelho, amigo de Redol, tem um atelier na Praça da Alegria, juntamente com os escultores Vasco da Conceição e Maria Barreira, que eram casados entre si. O escritor frequenta esse atelier para servir de modelo ao busto, então em barro. Mas é na versão em gesso, tal e qual, sem pintura, que é descerrado.

Homenagem a Alves Redol e inauguração da biblioteca com o seu nome, no Ginásio Vilafranquense, em Junho de 1951, a propósito do Prémio Ricardo Malheiros.

De seguida, realiza-se um almoço, nos arredores de Vila Franca, na Quinta da Boa Vista, de Carlos José Gonçalves - republicano que foi Presidente da Câmara no tempo da República - onde estiveram presentes muitos vila-franquenses e José Dias Coelho. Note-se que esta homenagem se realiza cerca de um ano depois da atribuição do Prémio, o que se deve, certamente, ao clima altamente desfavorável que há no final da presidência do Major Cunha Nery. É publicado pelos amigos de Carlos Pato o volume de homenagem com contos deste malogrado cidadão e resistente.

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Em Junho, o jornal Itinerário, de Lourenço Marques, publica um capítulo de Os Reinegros. Redol deve estar a testar a Censura. Actividades do Ginásio Vilafranquense No dia 13 de Novembro, realiza-se no Cine-Teatro de Vila Franca o sarau de entrega dos prémios do II Concurso Literário do Ginásio. O júri é constituído, de novo, por Adelaide Félix, Alves Redol e Faustino dos Reis Sousa, ganhando Júlio Graça o prémo destinado ao Conto, com um Menção Honrosa para Júlio Gaudêncio. Preside o Presidente da Câmara Municipal, havendo leitura dos trabalhos premiados pelo actor e locutor Igrejas Caeiro. De novo, um número muito reduzido dos melhores trabalhos é do concelho. No final, há espectáculo com Os Companheiros da Alegria, organização daquele locutor, que tem grande êxito na época.. No Ginásio, é inaugurado o III Salão de Artes Plásticas, com obras de pintura de Augusto Bértholo, Pinho Diniz, João Hogan, Mário Dionísio, Louro de Almeida, de desenho de Lima de Freitas, Pomar, Manuel Ribeiro de Pavia, de escultura de Vasco da Conceição e Maria Barreira e trabalhos dos artistas vila-franquenses Noel Perdigão, José Noel Perdigão, Júlio Goes e Sebastião Goes. A organização é da Biblioteca Alves Redol, à frente da qual permanece José Noel Perdigão, que expõe trabalhos seus nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, na SNBA, onde conhece os artistas cujos trabalhos são agora expostos na sede do Ginásio. Mas é certo que Alves Redol dá uma ajuda na obtenção de obras por parte de artistas que, na época, já têm bastante prestígio. Interessa saber que, em organização da Câmara Municipal, se realizam conferências, numa das quais está presente, em Maio, no Salão Nobre da Câmara, José Hermano Saraiva e exposições no Museu Municipal, organizadas por Vidal Baptista e Raúl de Carvalho. O escritor também faz traduções, mas apenas se conseguiu detectar a de Bairro Negro, de Georges Simenon, publicado, por esta altura, pela editora Livros do Brasil, na Colecção Miniatura, uma colecção de livros de bolso. É mais uma das muitas tentativas que se fazem em Portugal para introduzir este tipo de edições mais baratas, devido à sua maior tiragem, mas ainda sem resultados, pois afinal as tiragens não são as desejadas. O tradutor é identificado como António Redol. Vários testemunhos e documentos parecem confirmar que, neste ano, Redol vai viver para a Rua Pedro Ivo, 11 – 3º D, a residência onde permanece mais tempo. Vive em união de facto com Natália Cruz, pois nunca se divorcia de Maria. A seu tempo se verá porquê. Esta casa transforma-se numa tertúlia permanente, onde todos os dias vão os amigos: José Cardoso Pires (é o mais assíduo), Manuel da Fonseca, Fernando Piteira Santos e Stella, Rogério de Freitas, Alexandre Cabral, Mário Ventura Henriques (jornalista, Mário Ventura, como escritor), Lima de Freitas, Artur Semedo, Maria José e outros actores de teatro e cinema, etc, etc.. Também aqui vêm os colaboradores das colectividades de Vila Franca 281


que continua a apoiar. A maior parte das vezes Redol está calado a ouvir os outros. Uma ou outra vez está com “a veia” e põe-se a contar histórias que vivera na sua rica vida de contactos com a gente do povo. Quem tem a sorte de apanhar esses momentos, diz que foram noites excepcionais, inesquecíveis. Em muitas das tertúlias que se fazem nesta casa, Redol lê aos amigos os livros que está a escrever. Cardoso Pires, apologista das “short stories” americanas, pressiona Redol para que seja mais contido a escrever, seja mais sintético. É um dos aspectos em que a segunda geração (ou vaga) do Neo-Realismo insiste muito. Mas a complexidade dos romances de Redol, torna difícil a tarefa. É uma tortura para ele, com a sua “sensiblidade exaltada” e a influência de Fialho de Almeida. Continua a frequentar a Pastelaria Suprema. Ali perto, os homens do cinema vão ao Vavá, anos mais tarde. Em certa altura, as duas tertúlias co-existem. Casa no Freixial Com tantas visitas o escritor não consegue escrever, agora que vai várias vezes por semana a Vila Franca, para acompanhar o trabalho da sociedade com a família. Resolve alugar uma casa no Freixial, onde já tinha casa António Guerra Vieira, um dos amigos do Ateneu. Ali passa os fins de semana, as férias e períodos de trabalho de escrita mais intensa. Muitas vezes não leva Natália, fecha-se em casa com uma cafeteira com café, que vai aquecendo e bebendo, fuma muito e escreve, agora já directamente à máquina. Dias inteiros, seguidos. Só sai para comer na pequena pensão da terra ou tomar um café na taberna/café do Valdemiro Morais, com quem conversa muito. Por vezes, diz: “Hoje a coisa está a correr-me bem, vou-me já embora”. Outras “Isto hoje não sai nada de jeito!”. Também conversa com Valdemiro sobre política, sobre a guerra colonial. Uma vez, anos depois, Redol conta-lhe uma conversa tida em Paris com Mário Pinto de Andrade, em que este lhe diz que, como as forças democráticas não conseguem repôr em Portugal um regime democrático, que encete nas colónias um processo de independência pacífico e negociado, os africanos vão avançar para a luta armada. Nesta casa, Alves Redol escreve a maior parte dos seus livros, talvez a partir de Vindima de Sangue, incluindo este. Alguns deles, estão mesmo datados do Freixial, nomeadamente o que se segue àquele, Olhos de Água. Como se sabe, Redol escreve mais facilmente na Primavera, devendo ser nesta época do ano que escolhe para se recolher aqui. Nesta casa, os mesmos amigos continuam a aparecer aos fins de semana.Também Alberto Ferreira e Maria José. E alguns que, entretanto, também alugam casa na localidade. Destas visitas existem algumas fotografias, nomeadamente uma com Tomás da Fonseca. A população da terra acha estranho aquele homem de boina, que recebe tanta gente e se fecha sozinho em casa. O mistério fica melhor esclarecido quando, em 1958, Baptista Bastos faz ali uma entrevista de três páginas, com muitas fotografias, para O Século Ilustrado. 282

Casa no Freixial, segunda habitação de Alves Redol (1º andar), onde escreveu vários dos seus livros, a partir de 1951.

Curiosamente, nesta entrevista, Alves Redol, quando perguntado sobre “Quais são os cinco romancistas estrangeiros que mais admira”, responde:”Como o número cinco é curto para o tamanho da minha admiração, falo só de alguns que morreram: Tolstoi, Balzac, Flaubert, Gorki e Lawrence”. Nesta casa, realizam-se algumas reuniões clandestinas. Até que a PIDE a detecta. Da primeira vez que esta ali vai, questionadas pessoas da terra sobre o sítio onde morava o escritor, nínguém sabe. A polícia teve a “sorte” de falar com quem desconfia de desconhecidos ou que já tinha percebido tudo. De outras vezes, avisam-no da aproximação da polícia e Redol escapa-se. Por isso, quando naquela mesma entrevista o repórter lhe pergunta “Gostava de viver uma existência perigosa”, ele responde “Já a vivo”. Redol vai conhecendo a população local, vai às festas populares, especialmente aos bailes, que são da sua predilecção desde muito jovem. O primo José Júlio, o toureiro, ali se diverte com ele nesses bailes, segundo conta. Conhece a história local e a etnografia, observa as crianças nas suas diabruras e brincadeiras. E os que já trabalham a ajudar os pais. Como Constantino Cara-Linda, que transforma em personagem principal do seu livro Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos.

Alves Redol com Tomás da Fonseca, na casa do Freixial.

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Em carta a Francisco Tavares Teles de 2 de Agosto, o escritor anuncia: “Estou a tratar-me de um esgotamento”. Mais uma vez, o excesso de trabalho de uma pessoa que não é fisicamente forte, se manifesta. Ainda em 1951, José Cardoso Pires publica o livro de contos Histórias de Amor. A Censura manda apreender o livro e chama o escritor, apresentando-lhe os cortes que pretende que faça. O autor decide não ceder e o livro não volta a ser publicado em tempo de ditadura. Numa entrevista realizada depois do 25 de Abril, Cardoso Pires afirma que Alves Redol é o escritor português mais castigado pela Censura. Os resquícios da suas relações com Eduardo Salgueiro ainda se manifestam por esta altura. Cada vez com mais dificuldades financeiras, o editor convence Alves Redol a ajudá-lo, assinando letras. Este aceita, e quando há uma ameaça do tribunal de penhorar bens, podendo atingir os de Redol, Salgueiro aconcelha-o a pôr em nome de outra pessoa todos os bens que possuir, ao que o escritor replica, por carta, que não o fará, e que aguentará as consequências. Na mesma carta, lembra-lhe que já dispendera cerca de trezentos contos, dinheiro das suas economias. Este montante, em dinheiro de hoje corresponderia a cerca de cem mil euros. Salgueiro propõe-se pagar-lhe em livros. Redol lembra-lhe, também, que, em várias edições, a editora lhe pagara direitos contabilizando exemplares em número inferior aos realmente impressos.

No Freixial com Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Mário Ventura e outros, juntamente com Natália Cruz, com quem Alves Redol viveu de 1948 a 1964 ou 1965.

1952 Interesse dos EUA Com data de 28 de Fevereiro, o Adido Cultural da Embaixada dos Estados Unidos, Leroy J. Benoit, escreve a Alves Redol afirmando que “A excelente e dinâmica qualidade atingida, em todos os campos, pela literatura portuguesa dos nossos dias, é bem digna dum cuidadoso estudo por parte dos meus colegas americanos, das nossas universidades, dos

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editores de revistas literárias e por todos os literatos em geral” e “…atrevo-me a esperar que V.Exa., como um dos mais notáveis escritores de Portugal, não deixará de me prestar o seu auxílio. Para esse fim, muito grato lhe ficaria se V.Exa. se dignasse enviar-me, de tempos a tempos, para esta Embaixada, um ou mais exemplares das suas obras, não só daquelas que já se encontram publicadas mas, também, daquelas que ainda o venham a ser. Os exemplares que V.Exa. me enviar serão revistos, por mim ou por um crítico americano de reputada competência, e as críticas resultantes serão depois publicadas numa ou mais publicações editadas pelas nossas universidades, e em revistas da especialidade, tais como Hispania, Modern Language Journal, Studies in Philology, Modern Language Notes, Hispanic Review, e outras.” Esta carta mostra o interesse dos estudiosos dos EUA pela nossa literatura, o que, certamente, não seria caso único, pois por outras literaturas se interessariam, numa perspectiva da sua elite intelectual de conhecer tudo o que se passa no mundo. Por exemplo, foi duma universidade americana que, alguns anos após a morte de Redol, veio pela primeira vez o pedido de remessa de uma cópia da conferência sobre “Arte” que ele realiza em 1936. Antes, nenhum estudioso português se interessa por lê-la! Filme Nazaré Em Março deste ano, Alves Redol subscreve uma exposição ao Presidente da República em que se reclama a retirada de Portugal do Pacto do Atlântico. Termina o guião de um filme sobre a Nazaré. De Maio a Junho, Manuel Guimarães procede às filmagens de Nazaré, com argumento e diálogos de Alves Redol. Do elenco, fazem parte os actores Artur Semedo, Virgílio Teixeira, Helga Liné, Maria Olguim, Maria José, Manuel Lereno, etc. A estreia efectua-se no dia 12 de Dezembro, no Eden-Teatro. O realizador, para tentar fugir aos cortes da Censura, altera grande parte do argumento, o que deixa Alves Redol, que acompanha as filmagens na Nazaré e nos Estúdios da Tobis, muito insatisfeito, sentimento que transmite na citada entrevista a Baptista Bastos em 1958 e em outras ocasiões em jornais. Apesar dos cuidados do realizador em tentar evitar a intervenção censória, o filme é muito desfigurado pela Censura, o que revela a dificuldade de se fazer um cinema sério em Portugal. Para além do aspecto financeiro, pois os investimentos são elevados e poucos particulares se dispõem a apostar em filmes desta natureza. Para a preparação do guião, Redol conta com os amigos que tem na Nazaré, que lhe dão indicações preciosas sobre a vida da terra e dos pescadores. Um deles é Abel da Silva, que acompanhou o escritor até ao final da vida. Em Maio, Ferreira de Castro escreve uma carta a Redol em que lhe comunica que “O tradutor eslovaco de A Lã e a Neve deseja conhecer os seus romances, com a intenção de os traduzir. Peço-lhe, pois, para lhos mandar”. E indica o nome e a morada do tradutor. Trata-se de uma acção de solidariedade por parte de Ferreira de Castro, na promoção dos escritores mais novos. 283


A revista Vértice publica Um Excerto das Aventuras de Manuel Feijão (adaptado de um conto popular), texto que Redol não publica em livro. Existem várias versões deste conto, uma das quais ilustrada com desenhos de Cipriano Dourado, mas que não chega a ser dada à estampa. A “polémica interna do Neo-Realismo” Realizam-se, em Lisboa, várias reuniões do designado “Grupo de Amigos da Vértice”, o qual pretende alterar a orientação da revista num sentido mais ortodoxo e trazer a redacção para Lisboa. Nessas reuniões, de que existem documentos escritos, participam: Maria Lamas, Alves Redol, António José Saraiva, Manuel Campos Lima, Victor Ramos, José Cardoso Pires, Lima de Freitas, Sena Rego, Ângelo Veloso e Carlos Aboim Inglês. Em 25 de Agosto, constituem-se em Assembleia dos “Amigos da Vértice de Lisboa e elaboram um documento em que se escreve que a revista “não estava, na realidade, cumprindo os fins que se propusera”, apresentando várias razões para isso: “a) Divórcio entre os actuais responsáveis pela orientação da Revista e o público… b) Defesa, nas páginas da Revista, de um conceito errado da missão do escritor … c) Defesa de pontos de vista igualmente errados no que respeira às relações entre conteúdo e forma na criação da obra de arte … “. Também no Porto se constitui grupo idêntico. A estes grupos opõem-se Mário Dionísio, João José Cochofel, Carlos de Oliveira e Fernando Lopes Graça. Tendo tomado parte nas reuniões iniciais, acabam por o abandonar Alves Redol e José Cardoso Pires, segundo testemunho de Mário Dionísio nos anos 90. Deve ter sido em alguma destas reuniões que, segundo conta mais tarde José Cardoso Pires, se verifica uma violenta discussão entre Alves Redol e António José Saraiva, apesar do feitio afável e conciliatório do primeiro. As páginas da revista publicam cartas de João José Cochofel em Julho, Setembro e Outubro deste ano, em polémica com António José Saraiva (Setembro). Este publica, em Maio de 1954, o célebre artigo “A Ponte abstracta”. Álvaro Cunhal sente necessidade de intervir sobre o assunto e faz publicar em Vértice o artigo “Cinco notas sobre forma e conteúdo”, no número de Agosto/Setembro de 1954, com o pseudónimo de António Vale. Aliás, envia o artigo para a revista juntamente com uma carta também assinada por António Vale, a qual se encontra no espólio de Mário Braga, entregue ao Museu do Neo-Realismo. Ninguém sabe na época quem é António Vale, excepto, certamente, quem recebe o artigo e a carta das mãos de Cunhal que na altura está preso, sendo pouco provável que ninguém na revista saiba quem é o autor, e que uma revista como Vértice publique um artigo de um desconhecido. A guerra fria e algum conhecimento das “realizações“ do Stalinismo provocam clivagens na esquerda marxista portuguesa. A polémica interna do Neo-Realismo é uma consequência. Outra, é o afastamento de intelectuais. Os que sairam do Neo-Realismo para o Surrealismo são um exemplo. Muitos afastam-se do PCP. É o caso de Mário Dionísio que se demite, depois de uma prolongada troca de cartas com um responsável do sector intelectual. Redol tem problemas. 284

A colaboração com a revista Ler, de Publicações Europa-América, onde está Piteira Santos, é mal vista pelo PCP. Os romances de Redol “não estão a servir os interesses do Partido”, declara alguém. Diferentes reacções à sua obra É interessante reparar que Redol recebe, desde o início da sua carreira de escritor, grandes elogios de intelectuais republicanos ou anarco-sindicalistas, como Rodrigues Lapa, João de Barros, Alfredo Guisado, Ferreira de Castro, Roberto Nobre, Julião Quintinha e reticências da parte de marxistas, como Mário Dionísio, Óscar Lopes, António José Saraiva – embora de natureza diferente as do primeiro comparativamente aos outros dois - apesar de outros marxistas como Joaquim Namorado, Manuel Campos Lima opinarem como os primeiros. Sem falar, claro, de João Gaspar Simões, que ataca tudo o que pareça Neo-Realismo. José Cardoso Pires tem a opinião de que Redol tem algumas culpas pela forma como é tratado por determinada crítica, por ser demasiado modesto e benevolente e não reagir às injustiças que contra ele se cometem. As atitudes entusiásticas referidas percebem-se se se atender a que nos anos 30 não surgem novos romancistas. Vários críticos pensam mesmo que o romance não se adequa à maneira de ser portuguesa. É mais a poesia. Essa sim, surge naturalmente e tem grande tradição entre nós. O romance aparece esporadicamente. Por isso, o aparecimento de um escritor jovem com grandes potencialidades, entusiasma muita gente, que incentiva quem aparece, mesmo que não seja perfeito. Mário Dionísio pensará de outra forma. Defensor de uma arte nova, deve entender que se não tiver grande qualidade terá uma vida efémera. E deve pretender que o que for realizado seja do melhor que a arte portuguesa dá. E, se possível, que tenha repercussão internacional. Só que, no caso de Redol, essa tão grande exigência podia ter sido fatal, pois o escritor pensa, por várias vezes, abandonar a escrita, o que, a acontecer, teria feito com que não chegasse onde chegou. Afinal, com o Neo-Realismo, surge um grande conjunto de romancistas, com vagas sucessivas, dos quais, alguns, de grande qualidade, alterando radicalmente a situação do romance no país. José Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira afirmam em sessões e nas tertúlias, e escreve o segundo em O Aprendiz de Feiticeiro, que o Neo-realismo vem resolver o problema do romance em Portugal. Em Vila Franca, continuam as iniciativas de carácter cultural nas colectividades, parecendo que se continua a evitar as conferências, que o Major Nery tanto tinha reprimido, chegando a exigir a censura prévia dos textos. Em Maio, é inaugurado o III Salão de Arte Fotográfica do Ateneu, organização da Secção de Biblioteca. Em Novembro, realiza-se o III Concurso Literário do Ginásio Vilafranquense, sendo Alves Redol membro do júri, com Faustino Reis de Sousa e Adelaide Félix. Júlio Gaudêncio recebe nova Menção Honrosa na modalidade de conto. Aliás, alguns dos seus contos são publicados num dos jornais das

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colónias onde Alves Redol também colabora, não se podendo apurar se são alguns dos contos premiados nestes concursos. A cerimónia de entrega dos prémios realiza-se no Cine-Teatro, sendo os textos vencedores lidos por Maria Barroso e Artur Semedo, com apresentação de Artur Agostinho, José Castelo e Marques Vidal e, ainda, com a participação dos actores Mimi Gaspar e Marques Vidal. Realiza-se um espectáculo com o Combóio das Seis e Meia, organização que faz espectáculos de grande êxito por todo o país, que aqueles locutores integram. Um primo-irmão matador de toiros Alves Redol intervém a favor de seu primo José Júlio Venâncio Antunes, criado pelo casal Redol da Cruz e que, tal como ele próprio reagira à “amarra da mercearia”, reage agora à “amarra da fábrica” da família e quer ser toureiro. O artista intervém a favor do nóvel candidato a artista, embora numa profissão de alto risco, a que a “tia Inocência” se opõe com todas as forças, pois quer ao sobrinho como a um filho. É difícil de convencer, mas talvez Redol lhe tenha lembrado a sua própria experiência com idade semelhante. Inocência acaba por ceder às instâncias do fillho e José Júlio vai para a Golegã, para a Escola de Toureio de Mestre Patrício Cecílio. Terá tardes de grande glória por todo o mundo taurino. Mas ao fim de cada actuação, ele ou alguém por ele, telefona ou manda um telegrama para Vila Franca para o Café Central, para que deêm conta do resultado à “tia Inocência” e ao “tio Redol”. E nem sempres as notícias são boas. Por vezes, a morte espreita e Inocência não pode estar junto dele, rezando e acarinhando-o. Mas é ela que insiste, como costureira exímia que fora, em coser os fatos bordados a oiro, os capotes e as muletas rasgados pelos toiros. É uma forma de o ter sempre junto de si. Quando José Júlio está na Golegã, instalado numa pensão, Alves Redol alerta a família que ali reside para o facto e esta enche o jovem de cuidados e mimos.

O matador de toiros José Júlio, primo de Redol (irmãos, porque criados pelo casal Redol da Cruz), numa das suas tardes de glória.

Redol e Arquimedes da Silva Santos Em Dezembro de 1952, Arquimedes da Silva Santos sai da prisão, depois de cumprir a pena a que foi condenado. Sendo amigos os pais de Redol e de Arquimedes (recordar que o pai deste desenha a casa da família Redol na então Rua Palha Blanco e o prédio do Café Central de cuja edificação o pai

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Redol é sócio) e as respectivas mulheres amigas, Arquimedes é visita de infância da casa do pai Redol. Arquimedes é dez anos mais novo que Alves Redol, razão pela qual têm pouco relacionamento. Só mais tarde, nos anos trinta, com o “Grupo Neo-Realista” a relação se aprofunda. Como Arquimedes com Soeiro na casa deste em Alhandra. Quando Arquimedes sai da prisão, onde casa com Maria Luísa, Redol dá-lhe um grande apoio, que ele não esquecerá. Como o médico pretende especializar-se em Neuropsiquiatria Infantil, Redol apresenta-lhe João dos Santos, que estivera a trabalhar em França com Henri Wallon. Supõe-se que também o ajudará a conseguir a bolsa que o Governo francês lhe concede em 1962. Continuam sempre muito amigos, mas Redol também o consulta como médico. E como confidente. Como se sabe, o escritor tem uma saúde muito abalada, mas, além disso, tem tendências depressivas, que necessitam de apoio. Joaquim Seabra-Diniz, psiquiatra de renome, também lhe dá o necessário apoio. Como veremos, Arquimedes da Silva Santos auxiliará Redol, no final da vida, e com os seus conhecimentos de psicologia infantil, a desenvolver a literatura para crianças muito jovens. Quando vai a França, Alves Redol traz sempre livros ilustrados para oferecer ao filho, adequados à sua idade, embora escritos em francês. É o caso de Le Secret de Maitre Cornille, de Alphonse Daudet. Mas, por esta altura, oferece-lhe o primeiro livro sem ilustrações: Emílio e os Detectives, de Erich Kästner, da Livraria Clássica Editora. 1953 Vindima de Sangue É publicado, nos primeiros meses do ano (os primeiros jornais a darem notícia são de Abril), o terceiro romance da trilogia do Port-Wine, Vindima de Sangue, edição do autor, impresso na Empresa Técnica de Tipografia em Vila Franca de Xira, distribuição de Publicações Europa-América, cuja chancela, desta vez, não surge na capa. Esta é desenhada por Lima de Freitas. O romance é dedicado a Manuel da Fonseca, Afonso Ribeiro e Carlos de Oliveira. Na sua escrita, tem várias versões. O original dactilografado vai à Censura prévia e é aprovado. No final do romance, Gracinda morre na manifestação dos durienses na defesa dos seus pontos de vista, reprimida pela tropa. Parece uma antecipação ao episódio da morte de Catarina Eufémia, que se verifica em 19 de Maio de 1954, embora num contexto muito diverso. Terá sido na escrita dos romances deste Ciclo que Redol começou a ensaiar os mapas em colunas e linhas em que inscreve os capítulos e os nomes dos personagens, respectivamente, para ir seguindo a evolução dos personagens, a sua importância relativa e o possível desaparecimento de algum. Em romances de estrutura complexa como os de Redol, estes mapas auxiliam muito a avaliar o seu equilíbrio. Em Agosto, António José Saraiva envia a Redol uma carta em que apresenta um conjunto de observações de carácter ideológico ao romance, acabando por escrever “… uma obra que revela um esforço constante e eficiente de aperfeiçoamento e que se está orientando dentro de 285


uma concepção a meu ver muito justa do que deve ser o romance”. Em contrapartida, as cartas que recebe de Ferreira de Castro são sempre muito entusiásticas. Segundo os arquivos da PIDE, em 12 de Fevereiro realiza-se um jantar com Jorge Amado, em que Redol está presente. Deve ter sido pelo Carnaval de 1953 que foi apresentado na Nazaré um espectáculo, sob a forma de cegada, a glosar o filme. Com a participação dos autores locais de cegadas, que produziram os textos, de actores amadores e de actores do filme, como Artur Semedo, Virgílio Teixeira, Helga Liné, Maria José, Alves Redol encenou um espectáculo que foi um grande êxito. Terá sido na sequência deste trabalho, que Redol começa a conceber um espectáculo intitulado Ronda do Mar, em que projecta fazer intervir Maria Barroso e Jacinto Ramos, actores amadores da Nazaré, figuras populares desta localidade, instrumentistas, cantores e dançarinos amadores, apresentando textos poéticos e extractos de peças de teatro sobre o mar. Este projecto não vai por diante. “Daqui por uns anos poucos se lembrarão de mim” Em carta de 6 de Fevereiro para Francisco Tavres Teles, Redol escreve: “Não tenho o prazer da palavra, como sabes. Prefiro ouvir e a presença de muita gente confrange-me”. De facto, Redol é pouco falador e, numa roda de amigos, pouco ou nada diz. Também não gosta de falar em público, apesar de nos seus tempos de juventude em Vila Franca, estar sempre a ser solicitado para isso, como se viu a seu tempo. Mas, em certos dias, quando “está com a veia”, desata a contar episódios interessantes da sua longa experiência de contactos, histórias que não chega a contar nos seus livros. Na mesma carta: “Continuo a escrever porque me faz falta e não para supôr que estou a criar uma glória literária. Daqui por uns anos, poucos se lembrarão de mim; e esses serão os amigos”. Como Redol se engana! É a descrença nas suas próprias potencialidades e a menorização pelo que faz. Percebe-se melhor aquela frase do início de Gaibéus: “Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte”. Redol é convidado, pela organização, a participar no “Congreso Continental de la Cultura”, a realizar em Santiago do Chile de 26 de Abril a 2 de Maio, em carta assinada por Pablo Neruda e Jorge Amado. Chegam a enviar-lhe o bilhete de avião, pago pela organização, mas a PIDE não o deixa partir. Redol gostaria de ter participado neste congresso, pois não só teria a oportunidade de conhecer pessoalmente escritores cujos livros tinha lido, como alguns que tiveram influência no Neo-Realismo, como gostaria de conhecer a América Latina, onde nunca tinha estado. Tendo em conta a relação de Alves Redol com os escritores brasileiros, James Amado, irmão de Jorge Amado, endereça uma carta ao primeiro, em 6 de Março de 1953, pedindo-lhe que envie ao periódico literário Ler, um esclarecimento de Graciliano Ramos, desmentindo declarações que lhe são atribuídas no livro publicado pelo jornalista Marques Gastão intitulado As Portas do Mundo. 286

Ciclo do arroz Em Maio deste ano, um grupo de artistas plásticos constituído por Júlio Pomar, Lima de Freitas, Cipriano Dourado e António Alfredo, conduzidos por Alves Redol, vai à Lezíria de Vila Franca observar os trabalhos de plantação de arroz. O arroz é semeado em viveiros e, por esta altura do ano, quando atinge uma dimensão adequada, é plantado em canteiros grandes e rectangulares, com água a cobrir o terreno. Mulheres e homens, metidos dentro de água quase até aos joelhos, fazem o trabalho de plantação, extremamente penoso. Mulheres vão trazendo, pelas bordas dos canteiros, os pés de arroz para plantar. O grupo de artistas plásticos é levado por Redol a Montalvo, a uma unidade produtiva que é alugada pelo lavrador Pompeu Reis, conhecido de Redol há muitos anos e que lhe dera a conhecer a Glória do Ribatejo. Cipriano Dourado, fotógrafo exímio e Lima de Freitas fotografam os trabalhos e várias situações envolventes. No “atelier” todos eles produzem obras sobre o tema, algumas das quais são emblemáticas do Neo-Realismo, servindo-se das fotografias então tiradas. Júlio Pomar pinta a série de obras conhecida por “Ciclo do Arroz”, algumas das quais estão em depósito no Museu do Neo-Realismo, Cipriano Dourado faz duas gravuras intituladas “Plantadoras de Arroz”, Lima de Freitas, pelo menos, uma pintura e um desenho que estão hoje no Museu do Neo-Realismo. Este desenho vai ilustrar, pouco depois, o romance de Alves Redol Olhos de Água. Em alguns casos, conseguem identificar-se as fotografias que servem de inspiração àquelas obras. Algum tempo depois, Rogério Ribeiro e, provavelmente, também Alice Jorge, ali vão. Rogério Ribeiro tira apontamentos e produz alguns trabalhos. Alice Jorge, que faz um ou outro trabalho, pode ter-se inspirado nas fotografias que consulta, pois na altura vive com Júlio Pomar. Júlio Pomar continua a ir a Vila Franca com Alves Redol, onde se encontram no Café Central, assiste às esperas e corridas de toiros, e, alguns anos mais tarde, faz as gravuras das séries “Entrada de Toiros” em Vila Franca” e “Campino” e, depois, as pinturas da série “Tauromaquias”, obras maiores da sua produção. Num texto de 2003, escreve Júlio Pomar: “…se Alves Redol não me tivesse desafiado para a festa – para assitir à festa – eu não teria pintado as esperas, as entradas de toiros em Vila Franca de Xira”. No dia 20 de Junho, é inaugurada na sede do Ginásio Vilafranquense uma Exposição do Livro e de Pintura, Desenho e Gravura de Autores Contemporâneos, onde estão representados Alice Jorge, Cipriano Dourado, Júlio Pomar, Manuel Ribeiro de Pavia e Rogério Ribeiro. A organização é da secção de Biblioteca. Em Novembro, realiza-se o V Salão de Artes Plásticas do Ginásio. Em Dezembro, o IV Salão de Arte Fotográfica do Ateneu. Vai agora todos os dias da semana a Vila Franca, apanhando o autocarro no Areeiro, almoça com os pais e o filho, quando este está lá de férias. O rapaz, que está em casa da avó

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


materna com a mãe, vai ter com o pai à loja de materiais de construção e brinca no armazém, familiarizando-se com aqueles. E ajuda ao balcão. Por isso, uma vez, o pai lhe pergunta se quer ser engenheiro civil, mas o rapaz responde que quer ser engenheiro químico. Um dia, naquela sua postura de conhecer o impacte do que escreve, pergunta ao filho, então à volta dos dez anos, qual o título que escolheria para um livro que vai publicar, entre as várias hipóteses que lhe indica. O rapazinho escolhe aquele que o pai depois lhe diz que também é o que prefere: Vindima de Sangue. Redol e Rogério de Freitas Redol dedica muito do seu tempo ao Centro Bibliográfico, editora que, fundamentalmente, está a beneficiar os escritores mais jovens, que não encontram editor ou outros que ainda não são do conhecimento do grande público. Um deles é Rogério de Freitas, uma das pessoas com quem o consagrado escritor mais se dá, que visita quase diariamente a sua casa da Rua Pedro Ivo. Passam muito tempo a conversar e é uma das pessoas a quem Redol lê os seus textos. E a quem confidencia os seus problemas e os seus amores. Escreve Rogério de Freitas: “…o António necessitava de estar apaixonado, ou pelo menos muito atraído por alguém para que todas as suas faculdades de escritor e observador da realidade estivessem alerta”. Mas também escreve: “Era em casos desses quando alguém punha em dúvida algo que tocasse a sua moral e inteireza de carácter que o António não transigia. Homem afável, cordato, sempre procurando compreender os outros, era implacável, definitivo, sem recuos, quando duvidavam dele e o desiludiam”. Freitas no seu carro Peugeot cinzento, já bastante velho e sua imagem de marca, com o seu afável cumprimento “Como vai ele?”, dá muitas vezes boleia a Redol, que tem carta mas não tem carro e não guia. Rogério de Freitas é, sucessivamente, redactor de Vida Mundial Ilustrada, chefe de redacção da revista Eva e director de Século Ilustrado, neste caso já depois do 25 de Abril. Com Leão Penedo funda a editora Artis, que edita obras sobre artes plásticas de grande qualidade gráfica. Edita, por exemplo, o primeiro livro sobre o Neo-Realismo nas artes plásticas em Portugal, intitulado A Pintura Portuguesa Neo-Realista, de Ernesto de Sousa. Com Leão Penedo elabora o guião do filme de Perdigão Queiroga Sonhar é Fácil. Retiradas estratégicas Será por esta época que, farejando acções da PIDE ou sendo avisado, se retira estrategicamente dos locais habituais e vai até à propridade que foi do avô, perto de Tomar, e onde estão familiares seus. Aí fica uns dias, até as coisas acalmarem. Os familiares sabem do que se trata, mas não têm receio de o ter consigo. Além de ser do mesmo sangue, Alves Redol sempre foi um menino querido da família, não só pela sua maneira de ser, mas porque está sempre disposto a ajudar os que não têm a cultura, o conhecimento das leis e das instituições, os conhecimentos pessoais que tem. Por outro lado, toda a família é agradecida a António Redol da Cruz pelo que faz por todos os que tinham tido necessidade da sua

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

ajuda, muitos dos quais aloja em sua casa por muito tempo, enquanto necessitam. Alguns só dali saem quando casam. O mesmo se verifica com a família da Golegã. É frequente Redol aparecer por lá nos momentos de “aperto”. Um dos familiares, que é guarda-rios, numa situação em que até a presença na localidade é perigosa, leva-o para uma cabana que usa na sua actividade profissional e ali se instalam os dois, o guarda-rios com a sua espingarda, para o que desse e viesse! Por alturas de Novembro, Redol assina um documento intitulado “Pela Paz Entre as Nações”. No dia 4 de Novembro, é entregue à imprensa um comunicado da Comissão Pró-Liberdade de Expressão, anunciando o envio ao Presidente da República de um abaixo-assinado pedindo a “extinção da Censura em Portugal, restabelendo-se desta forma o que está consignado no Estatuto Fundamental da Nação portuguesa”. Alves Redol assina este documento. Em Dezembro, provavelmente no dia 5, realiza-se na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal um jantar de homenagem a Bento de Jesus Caraça, em que Redol está presente. Esta homenagem póstuma deve ter como origem “insinuações revoltantes em que se procura denegrir e ultrajar a memória do nosso amigo Bento Caraça” proferidas por um candidato a deputado pelo Regime e que provoca reacção, através dum documento publicado no jornal Primeiro de Janeiro em 22 de Outubro de 1953, assinado por muitos intelectuais, entre os quais Alves Redol. 1954 -1957 Em Janeiro de 1954, Redol recebe convite, com viagens pagas, para participar no Primeiro Congresso Nacional de Intelectuais, que se vai relizar em Goiânia, no Estado de Goiás, no Brasil. Em 24 de Janeiro, Jorge Amado envia-lhe um telegrama, tornando extensivo o convite a Maria Lamas. Não há elementos para se saber se chega a estar presente. Café Central José Júlio estreia-se num festival no Cartaxo e tem um grande triunfo. Veste pela primeira vez o “traje de luces” em Santarém, onde ganha o primeiro troféu. Depois é o triunfo em Vila Franca com toureiros mais experientes e o troféu Orelha de Oiro no Campo Pequeno. A terra exulta: “É de Vila Franca e chama-se José Júlio”. A insistência de Redol junto dos pais parece que dá frutos. Ele vê uma ou duas corridas do primo-irmão, mas, depois, não é capaz. Supõe-se que em Espanha, onde as coisas são mais a sério, não vê qualquer corrida do familiar. Mas acompanha muitas vezes o rapaz, dá-lhe conselhos, não só na gestão da carreira, no comportamneto na arena, mas também nas relações com o apoderado, os empresários, a comunicação social. Diz-lhe que tem de ser mais frio, tem que dosear o esforço. Este só vale a pena quando o toiro o merece. Ao que o jovem artista responde: “Os toiros não são para despachar, são para tourear. Não é isso que o primo tem feito toda a vida?”. Por esta altura, Redol frequenta diariamente o Café Central, onde vai a gente dos toiros e o pai joga dominó com afinco. Este é dirigente há muitos anos da Associação de Socorros 287


Mútuos Fraternal dos Artistas Vilafranquenses (Montepio), a mais antiga colectividade da terra, fundada em 1853, com uma função mutualista. Um das pessoas que vai ao café é o empresário José Guerra, concessionário da praça de toiros de Vila Franca. É ele que financia a estadia de José Júlio na Golegã e é, depois, o seu primeiro apoderado. Aposta no rapaz e acerta! Mais tarde, afastam-se, porque José Guerra não tem garra para a carreira internacional de José Júlio. Vão ali bandarilheiros, como o Bacatum , de Alhandra, o Galinha e também aparecem os irmãos Badajoz, vindos da Golegã. E outros. É ali que vai José Júlio quando está em Portugal e o seu moço de estoques, o Pepe, sempre de grosso charuto, que não abandona nem para falar, que lutara em Espanha ao lado dos nacionalistas e que afirma: “ A los comunistas no les gusta los artistas!”. Redol ocupa sempre a mesma mesa junto a uma das janelas do café e ali passam todos os dias muitos amigos, como o Júlio Gaudêncio, o Eng. Carmo dos CTT, o Luís Ferreira (que está a conversar sempre até à última da hora e quando arranca já é tarde, carregando no acelerador da carrinha da Redol & Cia.). E começa a aparecer um jovem alto e muito magro, de cabeça pequena e cabelo muito curto, filho de José Guerra, o Álvaro Guerra. Vem sempre ter com Redol e falam de literatura e de política, neste caso, se não está ninguém nas cercanias, especialmente o Acácio Carvoeiro, que embora afirme que não denuncia os amigos, nunca se sabe. Álvaro ainda tenta ser toureiro e é guarda-redes de hóquei em patins. Quando vai para a tropa queixa-se da instituição com codícia. Mais tarde, em 1967, Alves Redol abre para ele uma excepção para aquilo a que sempre se recusara: elabora um prefácio para o seu primeiro romance Os Mastins, um livro do Neo-Realismo da 3ª geração, publicado na Prelo Editora, provavelmente com a intervenção do consagrado escritor. Olhos de Água Em Dezembro de 1954, sai à estampa o romance Olhos de Água, com ilustrações de Lima de Freitas, edição e distribuição do Centro Bibliográfico, tendo o autor escrito a indicação “Homenagem a Garrett”, pois pretende afirmar “uma firme oposição ao cosmopolitismo que para aí anda a alardear fraternidade”, segundo palavras suas. O romance tem uma estrutura diferente dos anteriores, pois é constituído por uma série de histórias, embora com ligação entre si. Haverá uma tentativa de escrever uma espécie de “short stories”, em que Cardoso Pires insiste? Por outro lado, confirma a versatilidade de Redol quanto à estrutura dos seus romances. Também significa uma nova fase na carreira do escritor, só detectada muito mais tarde, de maior apuramento formal. De facto, à época, a crítica não se refere a este aspecto. Além disso, Redol volta à temática ribatejana, em que está mais à vontade. Ferreira de Castro escreve a agradecer o livro e sublinha: ”O seu livro é magnífico. Li-o com entusiasmo e admiração. Não me canso de o elogiar e recomendar. É, também, a sua melhor obra e uma das nossas melhores obras. Fiquei contente com este êxito, que você, homem honesto, sério e de nobres sentimentos, bem merece”. E João de Barros: 288

“Por isso mesmo, o livro nos encanta, e tão poderosamente interessa”. E Carlos de Oliveira : “… o que pretendo, sobretudo, é significar-te a alegria verdadeira que me deram estas páginas, ao que penso, das mais significativas e belas da tua obra”. Em carta já de 1955, António José Saraiva insiste em observações de carácter ideológico, agora a este romance. Recorde-se que é em 1954 que António José Saraiva escreve em Vértice o artigo “A ponte abstracta” e Álvaro Cunhal “Cinco notas sobre forma e conteúdo”, ambos na fase final da “polémica interna do Neo-Realismo”. Nesta polémica, Redol procura tomar uma posição conciliatória, mas afastando-se do grupo mais ortodoxo, que, inicialmente, tenta tê-lo do seu lado. Na noite de 18 para 19 de Dezembro de 1954, António Dias Lourenço evade-se da Cadeia de Peniche numa fuga audaciosa. Em Junho de 1955, o escritor subscreve a mensagem enviada de Portugal à Assembleia Mundial das Forças Pacíficas, em Helsínquia, segundo nota existente no seu processo da PIDE. Alves Redol quer deixar de ser escritor Alves Redol não está a escrever e pretende abandonar a carreira de escritor. Já em Março de 1954 escreve: “Em romances não pensarei tão cedo”. As opiniões persecutórias de certa crítica, as opiniões muito exigentes de críticos amigos, as posições que sobre ele e a sua obra têm alguns dos seus amigos políticos, a “polémica interna”, a Censura, a relação com as editoras, a situação política nacional e internacional, desalentam-no. Durante quatro anos apenas publica o livro infantil A Vida Mágica da Sementinha (1956), que tinha começado a escrever no final dos anos 40 e, em Eva, no final de 1957, o conto Algumas Maneiras de um Homem Sem Famíla Passar a Noite de Natal. Mas é importante notar que situação semelhante se passa com muitos dos outros escritores neo-realistas, quanto à publicação de livros de ficção (indicam-se os períodos de inactividade editorial): Mário Dionísio (1950-1965), Manuel da Fonseca (1953-1958), Carlos de Oliveira (1953-1960), João José Cochofel (1950-1958-1966), Armindo Rodrigues (1954-1970), José Gomes Ferreira (1950-1960), Afonso Ribeiro (1947-1956), Ilse Losa (1955-1958), Sidónio Muralha (1950-1962), José Cardoso Pires (1952-1958), Mário Braga (1949-1957), Orlando da Costa (1955-1961). Também Vergilio Ferreira nada publica no período 1953-1957. Note-se que alguns deles, recomeçam no mesmo ano:1958. Haverá razões comuns? Em Novembro de 1955, dá uma entrevista a Eva, em que as respostas sobre o que está a escrever são sempre vagas: talvez um livro infantil, talvez um livro passado em Lisboa! Nos anos 50, Alves Redol deve participar em conferências em colectividades, mas não há notícias dessa actividade. Ou será que também nestas se verifica um abrandamento da acção? Nas de Vila Franca de Xira certamente que sim, pelo menos quanto a conferências. E, como com os trabalhos de ficção de alguns escritores, é por volta de 1958 que ela se retoma.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


Uma carta da longínqua Bulgária salva o escritor de se demitir Mas, em Maio de 1956, Alves Redol recebe uma carta da longínqua Bulgária que vai alterar a sua disposição de não continuar a escrever. Uma leitora de nome Anna escreve-lhe em italiano, relatando a sua experiência de leitora de Fanga, que é publicado naquele país algum tempo antes. Depois de fazer várias considerações sobre o livro e sobre Manuel Caixinha que “na aspereza da vida não perde a tenacidade de espírito e a pureza de sentimentos”, escreve ela: “Acabei a universidade formando-me em filologia italiana, mas não me dava com a profissão de professora. Isto provocou-me uma doença nervosa…resignava-me a ser um elemento não activo”.“Em 1954, li o romance Fanga. Isso deixou-me uma profundíssima impressão e produziu em mim confiança nas minhas próprias forças. Comecei a estudar bordado búlgaro, aprendendo com facilidade. Hoje estou a trabalhar e a ganhar… Devo-lhe muito, senhor Redol”. Homem sensivel, Redol não pode ficar indiferente e reaquaciona o problema da carreira de escritor. Imaginaria Anna o efeito da sua carta? Desta carta, Redol fala em privado e em público várias vezes. Afinal o que escrevera, sempre valia a pena. Em Portugal, já ele sabe o efeito da sua obra. Não provocara mudanças de visão da sociedade portuguesa e do mundo em tanta gente? Não levara tanta gente a ter actividade cívica e mesmo política? Não fizera com que alguns quisessem aprender a ler? Não supunha é que num país tão distante, com uma cultura tão diferente, pudessem as suas palavras ter efeito positivo. Na carta que escreve a Redol a 26 de Novembro de 1969, José Cardoso Pires assinala: “Que não queiras, por causa dos teus brios silenciosos, pôr no desabafo tantos e tantos anos, até aqui, sem um desvio de consciência política e individual e sem uma pausa de narcisismo oportunista… Mas o Redol de tantas obras lançadas por desejo de testemunhar e tomar o partido dos oprimidos? E o tipo que nunca negou a mão ao camarada? E o escritor que abre um capítulo ao Realismo português. E…”. Esta carta é a resposta de Cardoso Pires à carta de Redol em que escreve: “Eu serei um dos que morre na incomunicabilidade com o seu tempo”. Em Novembro de 1957, vem outra boa notícia, esta de Hamburgo: o Instituto Ibero-Americano de Hamburgo possui na sua biblioteca muitas das obras de Redol, mas faltam-lhe algumas que estão esgotadas e pede ao escritor que lhe dê informação sobre a entidade que lhas pode facultar, pois na livraria sua fornecedora não o consegue. Esta carta mostra o interesse duma Universidade estrangeira na sua obra, já que as portuguesas não o demonstram. Um quase-naufrágio na Nazaré Em Março ou Maio de 1956, Redol está a escrever um novo romance, este de ambiente nazareno, que está a ser preparado há vários anos. O livro está em bom andamento e chamar-se-á Leão Sagrado ou O Lago das Viúvas. Mas Redol ainda não foi à pesca do alto e pede a Abel da Silva, que já o ajudou aquando da preparação do guião para o filme

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Nazaré, que lhe arranje uma ida ao mar. Depois de falar com várias pessoas, Abel da Silva indica-lhe o arrais José Formiga Peixe, que tem um pequeno barco a motor chamado “Mar Santo”. Partem de madrugada com o mar calmo e dia ensolarado. Quando já estão no alto mar e o aparelho está lançado levanta-se um vento de nordeste como o arrais poucas vezes tinha visto. As ondas são enormes e, por vezes, cobrem totalmente o barco. O arrais está aflito com a responsabilidade de ter com ele uma pessoa como o escritor, que sabe ser uma pessoa importante. Propõe-lhe, primeiro, tranferi-lo para um barco maior que está por perto e, depois, cortar o aparelho e voltarem a terra. Redol recusa e continua a observar tudo o que se passa, tomando apontamentos. Quando a faina está pronta o arrais de outro barco “Flor da Enseada”, pede que os não deixem sós, pois ainda não terminaram. Formiga Peixe hesita entre a solidariedade dos pescadores, que o manda esperar e a necessidade de levar para terra Alves Redol. Pergunta a este o que deve fazer e ele responde que devem ficar. O barco não se vira devido à perícia do arrais e do filho, Diamantino, que toma conta do motor. Uma onda maior, de muitos metros, dirige-se para o barco. Este pode virar-se e naufragar. Com grande perícia, o arrais manobra-o e consegue safar-se por “uma fenda na muralha”. Terminada a faina, voltam a terra, onde o mar continua calmo e chegam sem dificuldade. Foram treze horas de aventura. A história é contada na localidade pelos pescadores do “Mar Santo” e Redol fica com a fama de valente. Diz o arrais num almoço em que se juntam todos: “ Saibam vocês todos, rapazes, que aqui o senhor Redol, o senhor escritor, é mesmo, mesmo um homem a valer…um HOMEM, perceberam?”. Redol é ainda mais admirado e querido pela gente da terra, carinho que ainda hoje se verifica. Alves Redol larga o romance que tem entre mãos e, em vinte e oito dias, escreve Uma Fenda na Muralha. Quando compra um barco maior, o filho de Formiga Peixe, Diamantino, quer pôr-lhe o nome do livro. Algumas pessoas dizem-lhe que o não faça, pois o nome é judeu e ele é cristão! Mas a capitania autoriza o nome e o padre da Nazaré benze o barco, como é costume quando as novas embarcações são lançadas ao mar. Anos mais tarde, o barco é vendido para Sesimbra e Diamantino Peixe explica tudo ao novo dono, emprestando-lhe o romance para ler. Depois de falar com a família, o novo dono mantém o nome, pois entende que é histórico, que deve ser preservado. Em Fevereiro de 1956, Jorge Amado visita Portugal. Em Julho de 1956, por despacho ministerial, são aprovados os estatutos da Sociedade Portuguesa de Escritores. Para a primeira Direcção são eleitos Aquilino Ribeiro, Presidente, Adão e Silva, Adelaide Félix, Alexandre Cabral, Alves Redol, Assis Esperança, General Ferreira Martins, Jaime Lopes Dias e Manuela de Azevedo, a qual toma posse em 23 de Outubro de 1956. Em público, José Cardoso Pires afirma várias vezes que a ideia de se constituir a Sociedade foi de Alves Redol, provavelmente na sequência da sua experiência na organização de escritores que tinha sido o PEN Clube 289


espécies adaptadas aos climas muito frios. Mostrar às crianças, também, do que é capaz a ciência. É um livro que está em gestação há cerca de dez anos. Redol está na Nazaré, na Pensão Central, nove dias em Janeiro e quase todo o mês de Fevereiro, certamente a conhecer ainda melhor a terra. Numa carta a Francisco Tavares Teles de 27 de Novembro, queixa-se que não vê a mãe há dois meses e justifica o interesse pela Nazaré: “Ficou-me a ferida com essa fita falhada”. Redol não está feliz, pois escreve: “A vida teceu à minha volta uma teia apertada que cada dia julgo mais densa” em 1957 e “porque me deixei prender assim?” em 1955.

Português. No conhecido documento, escrito após a morte de Alves Redol e a ele dedicado, “Carta aos Amigos Comuns”, José Cardoso Pires escreve: “Lembrar que a ele, pois, a ele, e ao Aquilino se deve a fundação da Sociedade”. Recorde-se que, em 1954, se realiza a assembleia de fundadores desta agremiação de escritores, em que os estatutos são aprovados. Filme Vidas sem Rumo Em 12 de Outubro de 1956, estreia em Lisboa, no Cinema Trindade, em Luanda e no Funchal o filme de Manuel Guimarães Vidas Sem Rumo, com argumento do realizador e diálogos de Alves Redol, com os actores Artur Semedo, Helga Liné, Eugénio Salvador, Maria Olguim, Madalena Sotto, Jacinto Ramos e outros. As filmagens iniciam-se em 1952, mas dado que a Censura corta quase metade do filme, têm que ser feitas novas sequências no ano seguinte e o filme fica em banho-maria, até que o realizador decide estreá-lo, apesar de não gostar do resultado, pois há dinheiro investido que tem de ser recuperado. O filme é atacado pelo Diário da Manhã, tem crítica negativa do Diário de Notícias e positiva de República . No entanto, tem muito público. Acerca dos diálogos, Artur Semedo afirma em 1991 num filme sobre o escritor: “O Alves Redol tinha um sistema de construção do diálogo que saía muito fora do vulgar… Apoiando-se nas vogais abertas, na construção do diálogo bastante cinematográfico, sincopado e com o ritmo desejado”. Além disso, ambos ensaiam os diálogos para verificarem se se obtém com eles o efeito pretendido. Por isso, Redol já tinha escrito os diálogos de dois outros filmes e de outros dois de que faz também o argumento, mas que não chegam a ser rodados. Em Dezembro, Redol é proponente da campanha pró-recenseamento relativa às eleições para deputados à Assembleia Nacional de 1957. Por esta altura, publica-se A Vida Mágica da Sementinha, história didáctica infantil, ilustrada por Rogério Ribeiro, em que Redol pretende dar a conhecer como nasce e se desenvolve o trigo, diferentes espécies, como se preparam

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Secção Cultural da União Desportiva Vilafranquense Em 12 de Abril de 1957, funda-se, em Vila Franca, a União Desportiva Vilafranquense, resultante da fusão dos quatro clubes desportivos da terra: Operário Vilafranquense, Águia Sport Club Vilafranquense, Ginásio Vilafranquense e Hóquei Clube Vilafranquense. Já há muitos anos que se vem a falar nessa necessidade, tendo em conta as dificuldades financeiras e de dirigentes por que todos passam. O Ginásio já resulta, em 1948, de outra colectividade que está com muitos problemas. Dirigentes do Ginásio insistem na necessidade de uma fusão. E é provável que os de outras colectividades o façam esporadicamente. A Câmara Municipal, presidida por Sousa Nazaré, também está de acordo. Alves Redol concorda e usa o seu poder de influência, pois muita gente das suas relações culturais e políticas discorda. Também António José Vidal Baptista, que chega a ocupar o lugar de vereador, fundador da Biblioteca Municipal, em 1947, com Raúl de Cravalho, e sempre ligado a várias das associações, defende efusivamente a fusão. Aliás, a biblioteca do Ginásio está sem actividade há algum tempo, com Emanuel Lopes Jordão – que é o “Menino Jesus” do romance A Barca dos Sete Lemes, tal como no livro nascido numa cocheira na véspera de Natal - um dos seus mais persistentes colaboradores, agora dedicado aos desportos náuticos, embora, ainda, responsável daquela. É já depois da fusão, que José António Coelho Pinheiro, apercebendo-se do estado de inactividade da biblioteca – Biblioteca Alves Redol, recorde-se - resolve colaborar e juntar um grupo de jovens operários que retoma a actividade e funda a Secção Cultural, cujo trabalho, muito importante, nunca mais para até ao 25 de Abril. Primeiro reorganizam a biblioteca e o serviço de empréstimos, fazem leituras colectivas, discutem os livros lidos, estabelecem um prémio para o melhor leitor. A pouco e pouco começam a fazer colóquios sobre temas industriais, saúde, desporto. Contam com o apoio de Alves Redol, para contactos com pessoas e editoras. Redol oferece livros seus para venda, gerando receitas para a secção. Logo em Janeiro de 1958, a Secção Cultural organiza o I Salão de Arte Infantil, com a colaboração da Associação Portuguesa para a Educação pela Arte, de que Arquimedes da Silva Santos é dirigente durante vários anos. Em Março de 1957, morre Manuel Ribeiro de Pavia, ilustrador de muitas das obras de Redol e de outros neo-realistas. Deixa

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Tomada de posse dos primeiros corpos gerentes da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1956, entidade que muito deve à iniciativa de Redol.


Alves Redol proferindo no Cinema Monumental, em Junho de 1957, uma palestra sobre o filme A Pérola, de Pedro Armendariz, baseado no romance homónimo de John Steinbeck, publicado em 1947.

um traço muito profundo e exerce muitas influências. É, também, um homem que sabe muito de poesia. É um artista que vive com muitas dificuldades, muitos dias quase não come. Quando vai ao Café Martinho e toma um galão e uma sandes, os presentes sabem que é a única refeição do dia. Além de ter um feitio “retorcido”, é extremamente orgulhoso e não aceita os jantares que os amigos lhe oferecem. Com a sua afabilidade, Redol propõe-lhe jantares de trabalho para analisarem as ilustrações a incluir nos seu romances. Aceita um ou outro. De resto, quando está apertado pela fome, bate à porta de um amigo, entrega-lhe um desenho e diz: ”Dá cá ‘xis’ escudos!”. É provável que a edição ilustrada de Fanga para a qual faz vários desenhos, seja uma invenção de Redol para ajudar o amigo. Em 28 de Abril, realiza-se um almoço de confraternização de escritores na Casa do Alentejo, no qual está presente Alves Redol. Em 12 de Junho de 1957, integrado no ciclo “A Literatura e o Cinema”, organizado pela Sociedade Portuguesa de Escritores, no Cinema Monumental, em Lisboa, Alves Redol comenta o filme A Pérola, realizado por Pedro Armendariz, que também faz o papel principal, baseado no romance com o mesmo título de John Steinbeck. Na semana anterior, Aquilino Ribeiro comentara Hamlet e, na seguinte, Domingos Monteiro o filme O Capote, a partir do romance de Nicolau Gogol. As sessões são acompanhadas com exposições sobre os escritores palestrantes e com venda de livros seus. São um êxito cultural e de presença de público. Em Outubro de 1957, é fundado o Externato do Ribatejo, dirigido pela irmã de Alves Redol, que desde que foi expulsa do ensino oficial tem uma escola primária. Depois da morte do escritor passará a designar-se por Externato Alves Redol. Também neste mês, Redol subscreve o documento “Os intelectuais portugueses contra a Censura” e uma representação à Assembleia da República pedindo a amnistia dos presos políticos. “Eleições” de 1957 Em 27 de Outubro de 1957, no âmbito de eleições para a Assembleia Nacional, o escritor dá uma entrevista a República, em que afirma que “Não podemos enjeitar milhares de portugueses para a crítica do que se planifica ou realiza”, apresentando uma série de dados estatísticos sobre temas importantes. O Ministro da Economia reage e faz publicar no Diário de Lisboa uma Nota Oficiosa de “esclarecimento” sobre a “posição da nossa balança de pagamentos e a situação do País no panorama monetário internacional”. A Nota ocupa cerca de uma página do jornal, com muita informação estatística e é justificada “Porque essas afirmações traduzem uma atitude generalizada dos meios oposicionistas e porque através delas se procura desorientar a opinião pública e subestimar a obra notabilíssima de progresso e de ressurgimento, realizada a partir de 1926, intervém-se, a título excepcional no debate”. Esta última afirmação, confirma o impacte que Alves Redol tem, então, na vida nacional, para que palavras suas justifiquem “intervenções excepcionais”. É importante saber-se que

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Redol estuda economia, tendo na sua biblioteca vários livros e estatísticas oficiais. Usa alguns desses conhecimentos quando está a trabalhar no “Ciclo do Port-Wine” e na preparação de França – Da resistência à Renascença. A Nota do Ministro é publicada na véspera do encerramento da campanha eleitoral, para que Redol já não tenha tempo de responder. Mas com a ajuda do economista Francisco Ramos da Costa, passa toda a noite a preparar a resposta, que sai no dia seguinte no Diário Popular e em República, ocupando, também, uma página inteira. XX Congresso do PCUS e os acontecimentos na Hungria Neste período dão-se dois acontecimentos perturbantes e marcantes para Redol. Do primeiro, não é possivel saber se tem conhecimento imediato ou posterior: referimo-nos ao Relatório Krutchev apresentado no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em Fevereiro de 1956, em que se denuncia os crimes do Stalinismo. A leitura do Relatório é escutada, com estupefacção, por dirigentes de partidos comunistas de todo o mundo, incluindo o PCP. Ele é lido em todas as células do PCUS por toda a União Soviética, mas não tem divulgação fora da URSS. Chega ao Ocidente através da CIA, parece que devido a uma inconfidência de uma secretária de um membro de um governo de um país de Leste. Outro acontecimento, é a revolta na Hungria, em Outubro de 1956, violentamente reprimida pelas tropas soviéticas, provocando muitos mortos e milhares de refugiados, depois 291


de se ter instalado um governo que promete as liberdades, eleições livres e reformas radicais. 1958 No fim de vários anos de inactividade Redol volta a escrever. Não é possível apurar exactamente quando. Mas em Julho de 1957, escreve: “…destes anos terríveis que acabo de passar”. É provável que se refira ao facto de se estar a afastar da firma Redol & Cia, Lda. A Barca dos Sete Lemes Nos primeiros dias do ano, publica o romance A Barca dos Sete Lemes, em edição de Publicações Europa-América, numa tiragem de 5000 exemplares, uma grande edição para a época (no ano seguinte, sai uma segunda edição). Combina com o editor não enviar o romance à Censura prévia. Este propõe-se organizar uma sessão de apresentação pública do romance na sede da editora, no dia 31 de Janeiro de 1958. Segundo o Jornal de Notícias escreve no dia seguinte: “Novelistas, romancistas, críticos, poetas, contistas, jornalistas e editores reuniram-se ontem na sede de Publicações Europa-América para felicitar Alves Redol pela publicação do seu novo romance A Barca dos Sete Lemes”. O crítico Álvaro Salema fala do escritor e da sua obra. No Sábado seguinte, entre as 17 e as 19 horas, Redol está na Livraria Portugal, no Chiado, para autografar livros. Pode ter sido a primeira vez que tal iniciativa se faz em Portugal, à semelhança do que no estrangeiro já se faz há muito. O editor aposta na possibilidade de as entidades repressivas se sentirem refreadas pela grande repercussão pública do evento. A aposta foi ganha: na sessão estão presentes muitas dezenas de pessoas, entre as quais os escritores mais prestigiados do momento e o livro segue o seu curso normal. Todavia, em 1965, os armazens da editora são sujeitos a uma busca da PIDE, com apreensão de muitos milhares de livros de vários autores nacionais e estrangeiros. A Barca dos Sete Lemes e Uma Fenda na Muralha fazem parte do grande lote apreendido. Parte da crítica percebe que o romance corresponde a uma nova fase da carreira de Redol e que é o seu melhor livro até ao momento. O romance tem aspectos autobiográficos, nomeadamente quanto à prisão do autor no dia do aniversário da mulher – no texto é o agente da polícia política que se quer ir embora, porque a mulher faz anos –, o seu encarceramento em Aljube e Caxias em 1944 e outros aspectos, em particular a figura do “Chacal”, inspirada no indivíduo que encontra na Cadeia do Aljube e que mata o encarregado da fábrica onde trabalha, porque o persegue constantemente. É um crime que a PIDE considera ser “social”, razão pela qual encarcera o seu autor numa cadeia política. Aliás, por essa época, os protagonistas de outro tipo de acções, não propriamente políticas, são presos no Aljube. O livro é inspirado em factos que se passam com a Guerra Civil de Espanha, mas por problemas de Censura, são localizados em França. Como no romance, o indivíduo que inspira o “Chacal”, mostra grande animosidade pelos outros presos, porque percebe 292

que são seguidores e apologistas das ideias que combatera em Espanha e que é ensinado a odiar, matando quem as tem. Como no livro, ele é enganado por quem o recruta para combater em Espanha: prometem-lhe emprego, que na altura rareia no Ribatejo, e boa vida, com muitas mulheres, pois os homens estão a combater. Há organizações em Portugal que fazem este tipo de recrutamento e Salazar permite-o! Redol apesar de também ser um preso político, consegue ganhar, com a sua capacidade de comunicar com a gente do povo, a confiança do indivíduo, para lhe contar a sua vida. Também outros aspectos, como a estadia do personagem principal numa mercearia, são da sua experiência na loja do pai. E o episódio do Menino Jesus é do seu conhecimento. É neste livro que Redol incorpora a vivência com os valadores, nomeadamente na estadia junto deles em 1942. A concepção de literatura que agora tem, e que no romance é explicitada pela contante tensão com o seu companheiro de prisão, que acha que o escritor deturpa o que lhe conta, é diferente da que tem quando começa a escrever, o que torna claro em escritos - os prefácios dos anos 60 - e em entrevistas. Este é, certamente, o livro mais universal de Alves Redol e, talvez por isso, o que tem mais traduções: italiana, inglesa (EUA), alemã, eslovena, servo-croata, russa, húngara. Sobre este romance escreve Jorge Amado, em carta de 2 de Dezembro de 1958: “Quanto ao teu último romance, a “Barca”, gostei muito, muitíssimo. Creio ser o teu melhor livro. E penso que, de certa maneira, ele e “Gabriela” representam em nossa obra a mesma coisa, resultados que são da mesma crise, de problemas e dúvidas vividos da mesma maneira”. Aliás, nesta carta, Jorge Amado escreve sobre a possível edição de livros seus em Publicações Europa-América, podendo depreender-se que Redol – que Amado trata por “Querido Redol” - foi o intermediário entre o escritor brasileiro e a editora portuguesa. E Ferreira de Castro: “… podemos estar seguros que é uma grande obra. Se do ponto de vista estético e mesmo técnico, ela é admirável, não o é menos pelo seu problema central e problemas consequentes, que você também trata com uma profundidade e segurança a que se podem, sem favor, chamar mestria”. Quanto a Joaquim Namorado, em carta de 26 de Janeiro de 1958: “… que considero um dos melhores romances portugueses de todos os tempos”.

Numa recepção em Lisboa a Jorge Amado, no início dos anos 60, vendo-se Alves Redol e Mário Dionísio.

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Ferreira de Castro é um escritor que sempre deu grande apoio a Alves Redol desde o início da carreira deste. Escreve-lhe a recepcionar os livros que Redol lhe envia, assim que são publicados, está presente nas homenagens que lhe prestam, junto de editoras estrangeiras recomenda os romances, junto de Academias de outros países fala da sua obra. Há sempre uma atitude de ajuda, de valorização, de empurrar para diante. E isto, relativamente a um escritor que, em certa medida, lhe disputa o lugar de escritor de grande êxito, de mais vendido. Não há um sinal de inveja – que muitos outros têm para com ele – de remoque. Também Redol tem uma atitude sempre positiva perante Fernando Namora, quando este passa a escritor mais vendido. Na realidade, estamos perante gente de outra formação, verdadeiramente amiga! A Barca dos Sete Lemes é dedicado a Mário Dionísio, Fernando Lopes Graça e Gustavo de Castro. Este, é um matemático amigo de Redol, duma geração seguinte à de oiro de Bento de Jesus Caraça/Aniceto Monteiro/ Hugo Baptista Ribeiro/Zaluar Nunes/José Morgado, mas ainda muito talentoso, que escreve para a colecção “Saber” de Publicações Europa-América. Sente amargamente a perda desses mestres, tem sobre o país uma visão muito pessimista e conversa muitas vezes com Redol, nomeadamente na Pastelaria Mexicana, sobre política e o estado do país. Consegue uma bolsa de estudo em Paris com a ajuda de Redol e estão os dois juntos nesta cidade, ocupando o mesmo quarto de hotel. Levanta-se de noite, com insónias e passeia no quarto. Quando o filho de Redol está no Instituto Superior Técnico ligado à Associação dos Estudantes, o escritor pergunta-lhe se esta pode organizar alguma iniciativa cultural em que Gustavo possa participar, pois este mostra-se muito isolado e sente necesidade de comunicar. Aliás, Redol já ali participara num colóquio sobre a sua obra em 1960/61. A Direcção da Associação fala com o matemático e combinam a realização de um Ciclo sobre o Progresso da Ciência, em 1963 ou 1964, iniciando-se com uma focagem no tempo dos caldeus e por aí fora. A primeira sessão teve grande êxito de público e de conteúdo, mas foi a única, pois Gustavo de Castro inviabiliza as sessões seguintes. Neste ano, também vem a publico Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, edição da Livaria Bertrand, o qual desencadeia uma ofensiva do Regime, que pretende levar o autor a tribunal. E só não vai, porque se verifica uma grande reacção no país e no estrangeiro, que coloca o Regime em cheque. Salazar continua a querer dar para o exterior a ideia de que se vive numa democracia, musculada mas democracia, pois até se realizam eleições periodicamente. Por isso, recua. A firma Redol & Cia., Lda aproxima-se do fim A firma Redol & Cia., Lda começa a ter problemas, pois o principal concorrente na produção de postes e manilhas, a poderosa Cavan, de capitais belgas e há muito no mercado, que domina, baixa os preços e tenta liquidar a nóvel empresa. Surgem atritos com os trabalhadores, não só porque a empresa não pode aumentar os ordenados, como o cunhado de Redol tem um feitio muito conflituoso e provoca questiúnculas.

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A fábrica é, agora, em Alverca e o escritório instalado numa construção pré-fabricada que também serviu de escritório à empresa que construiu a ponte sobre o Tejo em Vila Franca. Foi engenheiro da fábrica Veiga de Oliveira, que algum tempo depois emigra para o Brasil e que virá a ser no PCP, como quadro clandestino, o controleiro do sector intelectual. Nos anos 90 afirma que, na altura em que tem essa função política, Redol não é militante do PCP. Para tentar salvar a empresa, Redol advoga a entrada de novo capital e de quem possa dar-lhe um novo impulso. É assim que Vasco Gonçalves e a família se associam à Redol & Cia., Lda. O representante da família é o Eng. António Gonçalves. Realiza-se, na Associação Fraternal dos Artistas Vilafranquenses uma homenagem a António Redol da Cruz, que há muitos anos é dirigente da colectividade de índole assistencial, em que Alves Redol discursa. Em Maio, Redol dá uma grande entrevista a Baptista Bastos para a revista O Século Ilustrado. São mostradas imagens da sua casa do Freixial e da sua vida naquela localidade. Falando de vários assuntos, que não só literatura, declara que “O Cidro de A Barca dos Sete Lemes, por exemplo, viveu comigo quase quinze anos”, o que é a sua confissão de que os seus romances têm sempre um longo período de preparação. Fala, também, de personagens de outros escritores que o impressionaram. Declara que “O vale do Tejo e Lisboa vistos de avião numa tarde de sol” é a oitava maravilha do mundo e que “gosto que a opinião dos outros modifique a minha, pois só a altero quando a outra é melhor”. Mostra-se muito desalentado com o cinema poruguês. “Eleições” para a Presidência da República : Humberto Delgado Em Junho, vão realizar-se eleições presidenciais. A Oposição escolhe Cunha Leal para candidato, mas este acaba por desistir, devido à negativa da Acção Democrato-Social, a que pertence. Alves Redol faz parte da “Comissão Nacional Pró-Candidatura do Engenheiro Cunha Leal”. Surgem, então várias hipóteses. Ferreira de Castro é sondado, mas rejeita. É nesta altura que Alves Redol também é contactado para o mesmo fim – segundo testemunho escrito de Francisco Louro dos anos oitenta, que ouviu a história da boca do próprio Redol – mas claro que também recusa. Acaba por surgir a candidatura de Arlindo Vicente, a par da de Humberto Delgado. Redol, apoia agora a de Arlindo Vicente. Não se conhecem participações de Redol na campanha. A 8 de Maio, verifica-se a apresentação da candidatura de Delgado e, a 10, realiza-se a célebre conferência de imprensa em que declara, referindo-se a Salazar: “Obviamente, demito-o!”. A 14, realizase no Porto uma grande recepção ao General com cerca de 200.000 pessoas. A 18 de Maio efectua-se um comício de Delgado no Liceu Camões, que é acompanhado de grande repressão por parte da GNR nas imediações do edifício, pois uma grande multidão não pode entrar para assistir. A 28 de Maio, num comício em Almada em conjunto com Humberto Delgado, Arlindo Vicente desiste e a 8 de Junho, 293


verifica-se a votação, que termina com a proclamação do Almirante Américo Tomás como novo Presidente da República. Mas Humberto Delgado ganha em várias localidades, entre as quais Vila Franca de Xira, a terra onde seu pai foi Administrador de Concelho. Mas não por essa razão! Em Novembro, Alves Redol assina um apelo à libertação de Álvaro Cunhal, que, recorde-se, se encontra preso desde 1949. 1959 Em 30 de Abril, realiza-se na Casa do Alentejo uma homenagem a Manuel da Fonseca, a propósito da publicação do romance Seara de Vento, edição da Ulisseia. Na mesa da presidência estão, além de Manuel da Fonseca e da mãe, Ferreira de Castro, Alves Redol, Adelaide Félix, Fernando Piteira Santos e outras pessoas que na fotografia não se conseguem identificar. Alves Redol usa da palavra, fazendo mais uma vez aquilo de que não gosta. Parece estar-se em presença de uma sessão semelhante àquela que, cerca de um ano antes, serve para apresentar ao público A Barca dos Sete Lemes. Visar-se-á, também, criar dificuldades a uma apreensão pela PIDE? O “Encontro” com Federico García Lorca e o encontro com Ernest Hemingway Em 11 de Outubro, José Júlio tira a alternativa de matador de toiros em Saragoça, apadrinhado por Chicuelo II e Gregorio Sanchez. Redol lá está, no mesmo hotel,mas não assiste à corrida. Apenas fica por perto da praça de toiros. Fala com os bandarilheiros e picadores, ouve-lhes as histórias, fala com os críticos, alguns dos quais são portugueses que já conhece. Por esta época a PIDE não deixa Alves Redol sair do país. Mas este já manifestara várias vezes a José Júlio o desejo de ir a Granada, a terra de Federico García Lorca. O toureiro propõe-lhe irem no seu autocarro vermelho, que utiliza para levar toda a sua quadrilha em “tournée”. Recordar que, nesta altura, o matador toureia em Portugal e Espanha e é um dos toureiros com maior número de corridas toureadas num ano – num dos anos fica em 6º lugar. O autocarro, que fora de Manuel dos Santos para o mesmo fim, tem lugares reclináveis que permitem dormir e tem duas camas. Tem um compartimento para se arrumarem as grandes malas onde são tranportados os “traje de luces” do matador e da quadrilha, os fatos dos picadores, os capotes e as muletas, espadas e ademais acessórios. Chamam-lhe “o camião da carne”, devido ao seu formato e cor. Na fronteira portuguesa, a PIDE, atendendo a quem é e porque já conhece muito bem o autocarro, nem sequer vê bem os passaportes. Redol passa. Chegados a Sevilha, o escritor vai a Granada e visita outras terras da Andaluzia. A seguir vai ter com José Júlio a Málaga, onde há a grande feira taurina e onde vai estar Ernest Hemingway, porque António Ordoñez toureia. José Júlio também. Este promete a Redol levá-lo junto de Hemingway, pois estarão todos no mesmo hotel. Ali se encontram os dois escritores, mas não há apresentações. Redol e Hemingway começam a falar como se se conhecessem há muito! 294

Contrato com a Portugália Editora Em 8 de Outubro de 1959, Alves Redol assina um contrato com a Portugália Editora, dirigida por Agostinho Fernandes, o qual pressupõe a edição em exclusivo da sua obra, uma cadência de publicação, direitos de 20% sobre o preço de capa dos livros. Não se consegue apurar se pela primeira vez Redol consegue esta percentagem de direitos. O que se sabe é que Redol declara a amigos e familiares que foi ele o primeiro escritor português a chegar a este valor. Certamente, porque, à época, é um dos escritores que mais se vende. Os romances de Redol, além de terem tiragens elevadas, passam de mão em mão, e, nas bibliotecas de colectividades, cada título tem dezenas de leitores por ano. Isso é possivel confirmar na ficha de cada título, em que se registam as requisições efectuadas. Com Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, Pereira Gomes, Fernando Namora e Manuel da Fonseca passa-se situação semelhante. Em Dezembro, dá-se cumprimento ao contrato, publicando-se o romance Uma Fenda na Muralha, com uma tiragem de 5000 exemplares, realizando-se, provavelmente na Livraria Portugal, uma sessão de autógrafos. Está a dar-se continuidade à iniciativa de Lyon de Castro no lançamento de A Barca dos Sete Lemes, no ano anterior. Além de abordar a vida difícil dos pescadores da Nazaré, faz uma análise dos seus conflitos interiores e, pela primeira vez na literatura portuguesa, da questão do medo. O romance desenvolve-se em cerca de vinte e quatro horas, treze das quais no mar. Como de costume, o livro tem reacções antagónicas dos críticos. Alguns dizem que a cena do quase naufrágio é ficção exagerada e que não é possível as coisas passarem-se daquela maneira. Um ou outro consegue ver como há neste romance uma mudança da maneira de contar e da condução da acção. João Gaspar Simões, claro, ataca e afirma que a interioridade das personagens do romance não é verosímil: “Põe a funcionar a única coisa que geralmente não funciona em criaturas tão rudemente primitivas como essas que povoam as praias de Portugal: a sua vida interior”. Nesta mesma crítica, Gaspar Simões não deixa de revelar o seu despeito perante os escritores que são muito lidos, apesar das opiniões negativas dos críticos sobre as suas obras. No entanto, há quem pergunte, em entrevista no Jornal de Notícias, se abandonou o Neo-Realismo, ao que o escritor responde que aquilo que agora está a escrever, é o que deve configurar aquela corrente literária. Em entrevista ao Diário de Lisboa, o escritor afirma que nos dois últimos anos passou muito mais tempo na Nazaré do que noutro local. Para este romance, o conhecido mapa que faz com a planificação capítulos/ personagens foi utilizado, dada a complexidade do romance. No âmbito do contrato de 8 de Outubro sai a 2ª edição de Olhos de Água. Romanceiro Geral do Povo Português Talvez em Outubro ou Novembro de 1959, o primeiro fascículo do Romanceiro Geral do Povo Português vem a público. Em entrevista à Gazeta Musical e de Todas as Artes, publicada

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no n.º de Outubro/Novembro, fala sobre a organização necessária à preparação do Romanceiro Geral, obra que vem a trabalhar desde o tempo de Rodrigues Lapa em O Diabo. A obra começa a sair em fascículos, através de Iniciativas Editoriais, onde trabalham João José Cochofel e Carlos de Oliveira. Também nesta editora saem, em 1977, os Contos Tradicionais Portugueses, em organização de José Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira. Lê tudo o que se publicara sobre o assunto em Portugal (Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Carolina Michaëlis, Leite de Vasconcelos e outros) e mesmo no estrangeiro, como é o caso de R. Menéndez Pidal. Também jornais e revistas. Contrata estudantes de letras para o ajudarem na fase final da recolha de tão grande volume de material. Foram analisados milhares de romances populares, para serem seleccionadas algumas centenas. Pela primeira vez, juntam-se as espécies poéticas e musicais. Para a parte musical Redol convida Lopes Graça, que já vinha trabalhando no assunto há anos. E para as ilustrações Maria Keil. É o único projecto colectivo de sua iniciativa que vai por diante, pois tanto a “História do Trabalho em Portugal”, como a “História do Teatro Mundial”, não passam de projecto. Em Novembro, Alves Redol assina, com outros, uma mensagem de despedida ao Embaixador Brasileiro Álvaro Lins, que não só acarinhara as relações culturais entre Portugal e o Brasil, como dera asilo político a Humberto Delgado na Embaixada, apesar das obstruções do Ministro dos Negócios Estrangeiros, quando o General quer evitar ser preso pela PIDE. Na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, realiza-se, no dia 19 de Dezembro, uma conferência de Fernando Lopes Graça, na qual estão presentes na assistência, entre outras pessoas, Alves Redol, Bernardo Santareno, António Ramos de Almeida, Óscar Lopes e Alberto Uva. É endereçada ao Presidente da República uma exposição, datada de 19 de Dezembro, “pedindo autorização para ser realizado um congresso, no qual se defina democraticamente uma política de ampla tolerância e compreensão”, a qual é assinada por vários oposicionistas, entre os quais Alves Redol. O Neo-Realismo caíu em crise? Em 24 de Dezembro, é publicada uma entrevista no Jornal de Notícias, do Porto, noticiando uma sessão de autógrafos de Uma Fenda na Muralha realizada dias antes na Livraria Latina, naquela cidade, em que, confrontado com a pergunta: “Os adversários do novo realismo têm procurado insinuar que essa corrente caiu em crise. Que pensa do caso?”, responde: “As últimas obras de Fonseca, Carlos de Oliveira, de Cardoso Pires, de Castro Soromenho, de Namora, de Vergílio Ferreira, de Faure da Rosa, de Augusto Abeleira e de tantos outros, tão diferentes todos na maneira de construir um romance, demonstram à evidência que é absurdo falar de crise, quando é exactamente agora que o novo realismo está a trilhar os caminhos mais próximos da sua verdadeira tendência”. Mais à frente afirma: “Nessa primeira fase falo por mim: dei um primado às relações sociais entre os homens, por me parecer

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que deveria acentuar esse aspecto quase ausente na literatura nacional” […] ”Mas numa atitude de antítese ao que há de esquemático no naturalismo e no psicologismo caímos numa doença semelhante” […] ”Agora vamos a caminho da síntese”. Como é costume, Redol está a trabalhar em vários projectos ao mesmo tempo, continuando a utilizar o Freixial como local privilegiado, mas escrevendo, também, noutros locais. Na Nazaré, por exemplo, onde escreve partes de A Barca dos Sete Lemes, numa casa que lhe é cedida por Amadeu Gaudêncio, o proprietário da conhecida empresa de construção civil. Em 11 de Março, frusta-se a chamada Revolta da Sé, liderada por um movimento militar independente, de que fazem parte os Majores Luís Cesariny Calafate, Pastor Fernandes e Alvarenga e Capitães Amílcar Domingues, Fernando Romba e Vilhena e Almeida. A componente civil é enquadrada por Francisco Sousa Tavares e Manuel Serra. Após as últimas eleições presidenciais são presos muitos quadros do PCP. Delgado exila-se na Embaixada do Brasil, depois de uma vida atribulada a seguir à sua candidatura à Presidência da República. A PIDE tenta evitar essa situação, pois pretende prendê-lo, pensando o General que para o liquidar. Ele sabe que Salazar não perdoa traições! É uma saga que é seguida apaixonadamente, dia a dia, por toda a gente da oposição e muitos jovens estudantes, muitos dos quais estiveram nas cercanias do Liceu Camões e noutros locais, a vitoriar o General Sem Medo. 1960 Em Janeiro, apoia a candidatura de Aquilino Ribeiro ao Prémio Nobel da Literatura. Constitui-se uma forte corrente de apoio ao grande mestre da língua portuguesa com intelectuais de vários sectores e tendências. Na Redol & Cia., Lda as coisas vão cada vez pior. A concorrente Cavan não perdoa. Na Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, Redol participa num colóquio sobre a sua experiência de escritor, com a presença de muitas dezenas de estudantes, perguntando, em certo momento, aos organizadores se pode dar resposta clara a uma pergunta que lhe é feita de carácter mais acentuadamente político. Obtido o aval, declara que a revolução chinesa tivera uma influência importante na sua obra. A Companhia de Teatro Português, sediada no Teatro Avenida, obtém licença de representação de Forja, por parte da Censura, em 9 de Abril de 1959. O pedido de licença é assinado por Armando Cortês, Carlos Wallenstein, Fernando Gusmão e Ruy de Carvalho.Encenada por Rogério Paulo, realizam-se os ensaios durante meses. Rogério Paulo é o pai e os filhos são Ruy de Carvalho, Armando Cortês, Fernando Gusmão e Canto e Castro. Duas semanas antes da estreia, a Censura comunica que o espectáculo não é autorizado. Redol e o filho em Espanha com José Júlio Em Agosto de 1960 e Setembro de 1961, ele e o filho viajam até Espanha no autocarro vermelho de José Júlio, que os leva 295


até Sevilha. Na fronteira, os guardas, de um lado e de outro, especialmente do lado espanhol, têm manifestações de júbilo à passagem do autocarro. Mais adiante, num “pueblo” em festa, a população julga tratar-se de um famoso cantor de flamengo que actua nessa noite. Obriga o autocarro a parar e rodeia-o completamente. Mas quando reconhece José Júlio, as manifestações redobram e não o querem deixar partir. Só quando lhes é explicado que tem de tourear num dos dias seguintes o deixam seguir. Em Sevilha, Redol mostra a cidade ao filho, a Calle Sierpes, os Bairros de Triana e de Santa Cruz, os páteos, a Giralda, a Catedral, os quadros de pintores espanhois, em particular Velasquez, Zurbaran e Murillo. Explica ao filho a Guerra Civil de Espanha e a razão porque muitos dos sevilhanos mais velhos os tratam mal nas casas comerciais, quando se apercebem que são portugueses. Redol esclarece que, quando as tropas franquistas estão a atacar Sevilha e esta se defende heroicamente, o Rádio Clube Português, em que Botelho Moniz apoia Franco, dá a notícia falsa da queda de Madrid – aquela rádio portuguesa ouvia-se melhor em Sevilha do que as rádios de Madrid, que estariam, mesmo, silenciadas, com os bombardeamentos – o que leva os defensores da cidade andaluza a renderem-se, permitindo a rápida conquista de toda a Andaluzia. Ambos, com José Júlio, assistem às danças sevilhanas. E a uma corrida de toiros em La Maestranza. Mas Redol não assiste à corrida em que, dias depois, José Júlio toureia em Zafra. Os dois vão de combóio a Granada. É talvez a segunda vez que Redol está nesta cidade, a de Federico García Lorca. Durante muitos anos, tinha-se recusado a visitar Espanha e com mais razão Granada, como forma de protesto contra o regime de Franco. Em Setembro de 1961, ainda com José Júlio, vão a Madrid. Visitam Toledo, Ávila, Segóvia e La Granja. Na estância de San Rafael está a fina flor da crítica tauromáquica de Madrid. De fatos e chapéus brancos, com grandes charutos na boca, falam de toiros nas esplanadas elegantes. José Júlio vai actuar em El Espinar. O jovem António assiste à corrida – o pai não - em que o matador alterna com Antoñete e Curro Montes. Os toiros são maus, mas o português tem um grande êxito. Cá fora, o público quer agredir os outros toureiros, porque despacharam os seus toiros. Mas José Júlio entende que “os toiros são para tourear, não são para despachar”, como depois da colhida de Sevilha diz ao primo. Redol é incapaz de ver uma actuação do primo-irmão. Fica sempre cá fora, à volta da praça e segue a corrida pelas reacções do público e pelos toques do clarim. Como daquela vez que José Júlio toureia na Feira de Sevilha, em Abril de 1960 e é colhido com gravidade. A jornada deu azo a uma crónica do escritor na revista Almanaque em Julho do mesmo ano, intitulada “Sombra e Sangue”. Nela, Alves Redol não tem pejo de escrever: “Doem-me agora as toiradas por causa desse jovem” (“sangue meu”) e “Sei que lá dentro não podia ficar sentado; as emoções sacodem-me quando o vejo, e movo-me, e falo – sei lá o que digo quando o vejo citar e quedar-se em terrenos que me alarmam!” . Por isso, “Estranha coisa nova esta – ouvir e seguir uma corrida de 296

toiros pela música, pelos aplausos, pelos apupos e pelo relógio”. E esta corrida não é para brincadeiras. José Júlio alterna com dois dos maiores de Espanha, Manolo Vásquez e António Ordoñez. “O toiro era defeituoso de córnea, não valia um passe, por isso o assobiaram quando saiu do curral e ‘el niño, lleno de ganas’, compôs a figura como se estivesse à frente de um toiro nobre, sacando-lhe dois passes em redondo; logo ao terceiro o ‘Cobaleda’ empitonou-o por uma perna, junto ao joelho, e o matador ficou na mesma, sem drama, não teatralizando como muitos que dramatizam sustos, e continuou a buscar a faena, porfiando, sempre sereno e digno. E só depois de agradecer aplausos, foi pelo seu pé, sem coxear, a caminho da enfermaria”. Fica hospitalizado bastante tempo. Em 11 de Novembro participa, com Manuel da Fonseca, num jantar com a escritora brasileira Lígia Fagundes Telles, em que estão presentes vários escritores e pessoas ligadas à literatura. O Cavalo Espantado e os judeus Em Dezembro, sai à estampa O Cavalo Espantado, edição da Portugália Editora, numa edição de 6000 exemplares. O lançamento faz-se na Livraria Portugal no dia 10 de Dezembro. Conta uma história de judeus refugiados em Portugal, durante a 2ª Guerra Mundial e tem muita intervenção autobiográfica. Assim, o personagem Pedro é Redol. O proprietário da Procuradoria Geral dos Municípios é Cônsul do Paraguai e Alves Redol Vice-cônsul. Nessa qualidade, Redol passa vistos aos refugiados judeus que, em Lisboa, querem partir para a América do Sul e, alguns, daqui para os Estados Unidos. É habitual funcionários de embaixadas e consulados cobrarem quantias extras para a obtenção de tais vistos. São, normalmente, quantias muito elevadas, que muitos têm dificuldade em pagar, mesmo que sejam ricos, pois deixaram tudo para trás. Para isso, os refugiados desfazem-se das joias que trazem, pois não têm outra fonte de financiamento. Mas Redol não o faz. Como, entretanto, trava conhecimento com um casal de judeus endinheirados e procura conhecer melhor a sua vida atribulada e as condições em que fugiram, e como não cobra qualquer extra pelo visto, o marido desconfia que Redol e a mulher se envolveram e começa a levantar problemas. Para que o senhor acalme os seus ciúmes, Redol pede então a Maria que acompanhe a judia nas voltas que tem que dar para a conclusão do processo. Recorde-se que publicara em Mensageiro do Ribatejo, em 1939, um artigo sobre a saga dos judeus intitulado “Caminha, Caminha Sempre”. O livro, mais uma viragem na obra do autor de Gaibéus (ambiente lisboeta, personagens de uma burguesia endinheirada, embora expoliada, intelectualmente evoluída), provoca surpresa na crítica. João Gaspar Simões afirma mesmo: “…opera uma dessas translacções no sistema solar da novelística em que raros escritores estrangeiros, quanto mais portugueses, se aguentam no balanço” e “Indiscutivelmente, Alves Redol, que de um neo-realismo de

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humilde cepa rural ascende a um neo-realismo de ambiente e propósitos tudo quanto há de menos rústico, dá um grande salto, e neste salto empenha, por assim dizer, todos os seus trunfos intelectuais”. Armando Bacelar, em Vértice, escreve: “Já Pedro…nos surge (porventura por inibições exteriores ao próprio romancista) insuficientemente caracterizado e bastante incolor. A personagem de Wanda…não atinge a dimensão necessária para isso, pois aparece como mero episódio que aflora aqui e além, em vez de ser aquela recordação que banhasse e iluminasse…toda a acção”. Mas conclui: “…é um livro duma rara beleza, de estilo sóbrio, fluente, depurado e natural, sem excessos nem deficiências”. Terá Redol chegado ao ponto de depuração que reclama Mário Dionísio? Neste ano, dá-se a fuga de Peniche de Álvaro Cunhal e vários dirigentes comunistas. Para a PIDE é uma grande derrota. 1961 Na sua edição de 14 de Janeiro o Diário da Manhã insurge-se com o facto de a Sociedade Portuguesa de Escritores ter nomeado Alves Redol para integrar o júri do Prémio Diário de Notícias. Em Fevereiro, Redol é um dos subscritores de uma mensagem dirigida ao Presidente da República, reclamando uma mudança de Governo, a qual é apresentada por Prof. Mário de Azevedo Gomes, Dr. Acácio Gouveia, Dr. Eduardo Figueiredo. A peça O Motim, de Miguel Franco, está em exibição há alguns dias no Teatro Avenida, pela Companhia do Teatro Nacional de D. Maria II, dirigida por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, quando é proibida pela Censura,”parece que por directa imposição do próprio Presidente da República [Américo Tomás]”. Surge um abaixo-assinado de protesto que é assinado por cerca de duas centenas de encenadores, actores e dramaturgos, entre os quais Alves Redol, que aparece logo a seguir às primeiras assinaturas: Luis Francisco Rebello, Luís de Stau Monteiro, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires e José Régio. O texto referia a proibição de peças de Alves Redol (Forja), Luís de Stau Monteiro (Felizmente Há Luar), Luís Francisco Rebello (Condenados à Vida), Bernardo Santareno (O Pecado de João Agonia), Fiama Hasse Pais Brandão (Os Chapéus de Chuva), Augusto Sobral (Os Degraus), José Rodrigues Miguéis (O Passageiro do Expressso), de José Régio (O Meu Caso). Uma informação que integra os arquivos da PIDE com data de 1 de Abril de 1961, dá conta da realização de colóquios no Teatro da Trindade, para discussão das peças em cena, apresentadas pela companhia Teatro d’Arte de Lisboa, em que estão presentes Alves Redol, Etelvina Lopes de Almeida, Manuel da Fonseca e, provavelmente, Castro Soromenho, designado de Fernando Soromenho. Numa carta que envia no Verão a Natália e referindo-se a uma estadia que faz nas Caldas das Felgueiras com Alberto Ferreira e a família deste, escreve que está a trabalhar cinco horas por dia, reescrevendo partes de Uma Fenda na Muralha – de facto, a 2ª edição deste romance apresenta alterações relativamente à 1ª – revendo as provas de Barranco de Cegos

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e estando a terminar Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos. Como é habitual, Redol trabalha em vários projectos ao mesmo tempo. Na carta não refere aqueles em que está ainda a recolher elementos. No Verão de 1961 ou de 1963, Redol e o filho vão passar uns dias na praia de Sesimbra. Visitam João dos Santos, que tem aqui uma vivenda. E encontram os actores Curado Ribeiro e Maria José na praia. Esta, é visita assídua de sua casa em Lisboa. Um leitor do escritor reconhece-o e mete conversa. Falam sobre A Barca dos Sete Lemes. Redol revela que o Chacal corresponde a um homem que encontrara na prisão do Aljube e que a história contada no livro é, em parte, inspirada na desse homem. Redol passa muitas horas fechado no quarto da pensão a matraquear na máquina. Estará a finalizar Barranco de Cegos? Ou outro romance? Entretanto, o filho lê o livro The Nature of the Chemical Bond, do Prémio Nobel da Química e Prémio Nobel da Paz Linus Pauling. Contrastes! Numa carta de Setembro de 1961, endereçada a um desconhecido que lhe envia originais para que lhos tente publicar, responde: “Vive-se com dificuldades de toda a ordem e não temos jornais ou revistas que nos peçam colaboração remunerada para auxiliar o que os livros não dão. Se não se dispõe de fortuna pessoal, o escritor português é pobre”. Como de propósito, o Jornal do Ribatejo envia-lhe uma carta com perguntas para uma entrevista e pede-lhe que ceda gratuitamente textos originais para publicação. O autor de Fanga frequenta agora com alguma assiduidade a Pastelaria Mexicana, onde encontra Gustavo de Castro, o filho de um amigo de Vila Franca, Júlio Garrido, médico, que é assistente no IST e outras pessoas. Os temas das conversas são invariavelmente de natureza política. As crónicas na rádio Por alturas de Outubro, a agência Êxito organiza no Rádio Clube Português e na Rádio Renascença um programa diário intitulado “Crónica do Banal”, patrocinado por uma importante firma suiça produtora e comercializadora de sopas e destinando-se a mulheres. Todos os dias às 12 horas, é lida uma crónica ao microfone por um dos três autores das crónicas: o Senhor A, Alves Redol, o Senhor B, Baptista Bastos, o Senhor C, Cardoso Pires. A primeira crónica é de Alves Redol e vai para o ar no dia 1 de Outubro de 1961. Assim se leva à rádio textos de qualidade de escritores de várias gerações. Lá está Alves Redol, mais uma vez, a participar numa iniciativa inovadora. O programa dura alguns meses, entrando pelo ano de 1962. Nas suas crónicas Redol fala de assuntos do quotidiano, mas procurando sempre dar-lhes uma visão mais ampla. Nuns casos mulheres que passaram pelos seus livros, noutros as palavras e o seu significado, recordações de juventude, amigos, personagens dos seus livros, muito raramente assunto político. Algumas ouvintes enviam cartas e os participantes respondem. Pelo fim do ano, morre uma sua prima e afilhada, Biarritz, de quem tanto gosta, que está muito tempo em casa de Redol da 297


Cruz, tal como o pai e a mãe tinham estado. Que ele tem nos braços enquanto bébé e que passeia pela mão em criança pelas ruas e jardim de Vila Franca. Mais uma vez a morte bate à porta de um familiar querido. Em 12 de Novembro, há eleições para a Assembleia Nacional. A oposição concorre, surgindo, pela primeira vez, monárquicos nas listas, mas desiste uns dias antes. Segundo os arquivos da PIDE, Alves Redol faz parte da comissão de apoio à candidatura de oposição pelo círculo de Lisboa. Em entrevista à Seara Nova de Novembro/Dezembro Redol diz que “Regressei à secretária de empregado”. Referir-se-á à agência de publicidade Êxito, então uma pequena agência, sediada na Avenida Miguel Bombarda, em Lisboa, mas cuja escritura de constituição só se realiza em Janeiro de 1962(?) Em 19 de Dezembro, é assassinado na Rua da Creche, em Alcântara, José Dias Coelho. Ele é um dos responsáveis do sector intelectual do PCP no fim dos anos 50 e talvez inícios de 60. Redol conhece-o bem há muitos anos, pois fez-lhe o busto que foi descerrado na Biblioteca Alves Redol do Ginásio Vilafranquense em 1951. É mais um amigo do escritor que é liquidado pela PIDE. Estando Dias Coelho na clandestinidade, estão juntos algum tempo antes. Num poema intitulado “Alves Redol três momentos”, relata Mário Castrim, depois da morte de Alves Redol, o momento em que este lhe dá notícia do acontecimento. Barranco de Cegos No final do ano, sai a público Barranco de Cegos, numa edição da Portugália Editora. No dia 28 de Dezembro, na Livraria Portugal é lançado o romance, com grande afluência de público. Apesar de, mais tarde, a crítica e os académicos virem dizer que é o seu melhor romance, na altura não tem grande recepção, a não ser da parte de Mário Dionísio, que publica em Diário de Lisboa o artigo intitulado “O Fruto Sazonado”. Mário Dionísio escreve: “…é, no fundo, do domínio das palavras que provém, do estilo seco e preciso a que Redol chegou, do excelente aproveitamento da linguagem oral, da naturalidade com que usa o processo de narrar objectivo-subjectivo com deslocação da pessoa gramatical do sujeito, da perfeita adaptação do vocabulário regional ou técnico às situações, numa palavra, do domínio dos seus recursos de escritor”. Mário Dionísio vem acompanhando a carreira de Redol e observando a sua evolução literária. Nesse mesmo dia, Redol

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telefona a Dionísio depois de ler o artigo “Comovido. Tão comovido que se pôs a chorar. E não foi capaz de dizer mais nada”, conta Manuel Ferreira em “Evocação do Redol”, em 1970. 1961 é um ano particularmente difícil para Salazar e o Estado Novo. No dia 1 de Janeiro de 1961, Henrique Galvão e um grupo de comandos portugueses e espanhóis tomam de assalto o paquete Santa Maria, com a intenção de chamar a atenção do mundo para a situação política em Portugal. A acção tem grande repercussão na comunicação social dos países ocidentais, mas os objectivos não são totalmente alcançados, pois os revolucionários pretendem desencadear um levantamento contra o regime, quer em Portugal, quer em Angola. O barco acaba por se dirigir ao Brasil, onde os revolucionários desembarcam, depois de terem a garantia de imunidade. Em Novembro, um avião da TAP que sai de Casablanca, é assaltado por um grupo chefiado por Hermínio da Palma Inácio - mas com orientação de Henrique Galvão - que obriga a nave a fazer um voo rasante sobre Lisboa para lançar panfletos contra o Governo de Salazar. Fá-lo, também, no Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, Ao todo são 100.000 panfletos, muitos dos quais são apanhados pelos habitantes das localidades. Em Lisboa, há muita gente que os apanha na Baixa e que os leva para outros pontos da cidade. Também em Janeiro, realizado pelo grupo da Resistência Republicana e Socialista é elaborado o “Programa para a Democratização da República”, elaborado por uma equipa constituída por José Ribeiro dos Santos, Fernando Piteira Santos, Francisco Ramos da Costa e Mário Soares, presidida por Mário de Azevedo Gomes, o qual pretende ir mais longe do que os habituais programas com que a oposição se apresenta a eleições em conjunto e que são de carácter muito abrangente. É um verdadeiro programa de acção, embora muito moderado. É apresentado em conferência de imprensa em Maio, no escritório de advogado de Acácio Gouveia, um dos sessenta e dois subscritores, entre os quais o próprio Acácio Gouveia, António Macedo, Carlos Cal Brandão, Fernando Abranches Ferrão, Fernando Piteira Santos, Fernando Lopes, Francisco Ramos da Costa, Francisco Salgado Zenha, Gustavo Soromenho, José Magalhães Godinho, Luís Dias Amado, Mário Cal Brandão, Mário de Azevedo Gomes, Mário Soares, Raul Rêgo, Vasco da Gama Fernandes e outros. No sector das letras Alberto Ferreira, Álvaro Salema, Augusto Abelaira, João de Araújo Correia, José Fernandes Fafe, Urbano Tavares Rodrigues. Primeiro os intervenientes na conferência de imprensa e, depois, muitos dos outros, vão sendo presos sucessivamente pela PIDE. Neste documento não participam os mais populares escritores da época, homens de oposição, como Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora e tantos outros. Será porque o documento é pouco “avançado” e tem um leque estreito de apoiantes, reduzido aos socialistas e republicanos moderados?

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Lançamento do romance Barranco de Cegos, na Livraria Portugal, no dia 28 de Dezembro de 1961.


negativas amigas. A quase desistência de escrever. A retoma, a melhoria constante. A fase de maturidade. É uma sessão que não é esquecida por muitos dos que a ela assistem. Congresso dos escritores ibéricos em Barcelona Em 7 de Maio, Alves Redol participa em Barcelona num encontro preparatório de um congresso de escritores ibéricos, inscritos na Comunidade Europeia de Escritores. Estiveram presentes poetas, romancistas e ensaístas de língua portuguesa, castelhana e catalã, respectivamente, Alves Redol, Egito Gonçalves, José Cardoso Pires, Natália Correia e Urbano Tavares Rodrigues, Gabriel Celaya, Juan Garcia Hortelano, Alfonso Sastre, Jesus Lopez Pacheco, Armando Lopez Salinas e Juan Zuñiga, José Maria Castellet, Juan Goytisolo, José Augustin Goytisolo, Francesc Valleverdu, Robert Salvat, Fèlix Cucurull e Maria Amélia Capmany. A 26 de Julho, no restaurante da Casa do Alentejo, realiza-se o jantar para entrega dos Prémios da Sociedade Portuguesa de Escritores, patrocinados pela Fundação Calouste Gulbenkian, de poesia a José Gomes Ferreira e de teatro a Luís de Sttau Monteiro. À sessão preside José de Azeredo Perdigão. Alves Redol assiste, como é habitual.

Conferência no Ateneu de Leiria, em 27 de Abril de 1962, a qual teve grande êxito de público e de conteúdo.

Encontro preparatório, em Barcelona, de um Congresso de Escritores Ibéricos inscritos na Comunidade Europeia de Escritores. Por Portugal, estiveram presentes Alves Redol, José Cardoso Pires, Natália Correia, Egito Gonçalves e Urbano Tavares Rodrigues, em 7 de Maio de 1962.

No dia 4 de Feveiro, dá-se em Luanda um ataque à Cadeia de Reclusão, onde estão presos vários resistentes angolanos, à Esquadra da PSP e à Emissora Nacional. Em 13 de Fevereiro, Botelho Moniz com outros oficiais e o apoio de Craveiro Lopes, tenta um golpe palaciano para afastar Salazar. A 18 de Dezembro, a União Indiana invade o território designado por “Estado Português da Índia”. Salazar ordena que as forças armadas resistam até ao fim, mas estas não lhe obedecem e rendem-se, sem possibilidades de resistência viável e perante o evidente massacre. Ainda em Dezembro, dá-se a fuga de dirigentes do PCP da Cadeia de Caxias no carro blindado de Salazar. Em contrapartida, 1961 e 1962 são dois anos de muitas prisões de dirigentes importantes do PCP. 1962 Em Janeiro, realiza-se a escritura de Êxito – Estúdio de Publicidade, Lda, de que são sócios Fernando de Almeida e Alberto Ferreira, com sede na Avenida Miguel Bombarda, 70, 3º. É aqui que Redol está a trabalhar com bons profissionais de publicidade. E aqui recebe as visitas do filho. No dia 27 de Abril, no Ateneu de Leiria, com muita assistência, Redol fala sobre a sua experiência de escritor. Recorda o início da sua actividade de escrita, a ida para África, a acção nas colectividades, a colaboração em O Diabo, a influência de Rodrigues Lapa. A recepção entusiástica das primeiras obras. As críticas negativistas e as

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A crise académica de 1962 Neste ano, desencadeia-se a crise académica provocada pela proibição do Dia do Estudante, marcado para 23 e 24 de Março (recorde-se que, em fim de 1956 e início de 1957, se desencadeara na Universidade uma forte reacção à publicação do designado Decreto-Lei 40900, e que, depois desse evento, que termina com a vitória dos estudantes, a Universidade mostra-se sempre rebelde e avessa ao controlo governamental. E que após 1962 até ao 25 de Abril, a Universidade é palco de uma revolta permanente dos estudantes, liderados pelas suas Associações dos Estudantes). O filho, que fora, até à chamada “Crise de 1962”, indiferente às actividades das Associações dos Estudantes, envolve-se e participa na acção, mesmo após a nomeação de uma Comissão Administrativa para Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, a escola onde 299


estuda. O encerramento da Associação é impensável (e, por isso, é imposta a Comissão Administrativa, para retirar a gestão aos estudantes), pois ela é indispensável ao regular funcionamento do Instituto, embora os ultras do regime pretendam acabar com o foco de agitação de vez. Então, Redol fala muito com o filho sobre esta crise e o seu desenrolar e sobre a actividade política concreta. Quando o filho é preso, em 20 de Junho, por lançar na rua papelinhos coloridos a convocar uma manifestação de estudantes junto ao Aljube, onde está preso um dos mais destacados dirigentes estudantis, Eurico de Figueiredo, fica inquieto. Maria é que vai à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, insistindo em ver o filho. Já sabe pela experiência com o pai, em 1944, como se actua nestes casos. A prisão dura apenas quatro dias, em Caxias, juntamente com muitos outros, mas o pai aproveita para lhe ensinar umas coisas da sua experiência política. E recomenda-lhe que não participe em novas manifestações, pois como lhe raparam o cabelo, facilmente o identificam e prendem. É o pai a fazer a pedagogia da luta contra o fascismo e a aconselhar prudência. Surge um abaixo-assinado de intelectuais a apoiar a luta dos estudantes e a exigir a libertação dos estudantes presos. Redol é o segundo outorgante. Por isso, é chamado à PIDE no dia 23 de Maio. Querem saber quem teve a iniciativa do abaixo-assinado e quem lhe deu o texto para assinar. Claro que não sabe! Só se lembra que foi no Café Bocage, onde se juntam vários escritores e que quando o texto lhe chega à mão já vinha assinado por Augusto Abelaira, primeiro outorgante. Mas quando chega a altura de se falar em greve aos exames, o pai põe o rapaz à vontade e diz-lhe que, nisso, ele é que decide. Mas explica-lhe toda a situação e as implicações de cada atitude. O curso é pago com alguma dificuldade, mas se chumbar as coisas hão-de compôr-se. Aliás, o rapaz não aceitaria outra posição! Segundo o jornal República de 1 de Agosto de 1962, Redol realiza uma palestra na Cooperativa Piedense sobre “A minha experiência de escritor”. Além de abordar questões referentes à sua obra e à sua forma de trabalhar, explica que estava a escrever o romance Leão Sagrado, passado na Nazaré, que já ia em setenta páginas, quando se dá o episódio do quase naufrágio, o que o leva a bandonar aquele texto e a escrever Uma Fenda na Muralha. Aquele romance chamar-se-á, depois, O Lago das Viúvas e completa-o, embora sem o publicar. Na oportunidade, é inaugurada na biblioteca da colectividade uma “Estante Alves Redol”. Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos Em Dezembro, é publicado o livro Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, em que ficciona a vida do seu jovem amigo Constantino Cara-Linda, o qual reside numa casa junto de si no Freixial. Há anos que vem seguindo a vida do rapazinho, que quer ser mecânico de barcos. Na vida real acaba por ser mecânico de aviões nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca e, mais tarde, mecânico de 300

helicópteros. Conversa muito com ele, vai ver os seus locais preferidos, o rio, as árvores onde há ninhos. Fotografa-o e à família, de parceria com o Arquitecto António Neto. Redol pede autorização ao pai de Constantino para publicar a vida, embora ficcionada, do filho, bem como as fotografias dele e de toda a família. A primeira edição do livro sai com fotografias dos dois fotógrafos. Só volta a ser reeditado, após a morte do escritor, na colecção de livros de bolso de Publicações Europa-América com o número 100, sem fotografias, numa edição de 50.000 exemplares. A partir daí, passa a ser o livro mais vendido de Alves Redol, até porque é adoptado pelo Ministério da Educação como livro a utilizar nas escolas. No dia 1 de Janeiro um grupo liderado pelo Capitão Varela Gomes, por Piteira Santos e por Manuel Serra assalta o Quartel de Beja, mas a tentiva sai gorada. Humberto Delgado anda por perto e, pouco depois, no estrangeiro, vangloria-se de que entra e sai disfarçado em Portugal sem ser detectado pela PIDE. Segundo alguns participantes nesta tentativa, Alves Redol sabe dela previamente, embora sem grande intervenção. Embora esteja nesta altura, provavelmente, desligado do PCP, não se envolve. Ou porque não acredita no êxito da acção ou porque está afastado da actividade política concreta. Neste ano, no dia 1º de Maio, realizam-se grandes manifestações na Baixa. Dezenas de milhares de pessoas de diferentes profissões mostram o seu mal estar e a sua condenação do fascismo. As aglomerações mais numerosas e compactas fazem-se entre o Martim Moniz e Sta. Apolónia. A polícia carrega, mas em muitos locais não se foge e aguenta-se o impacte. Há batalha campal e a polícia começa a “disparar para o ar”, diz o Diário de Notícias. Mas há muitas pessoas atingidas. Depois, há novos recontros nas Ruas Augusta, do Ouro, da Prata, dos Fanqueiros, da Madalena, na Praça da Figueira, no Rossio e nos Restauradores. Nestes últimos locais, estreia-se o chamado “carro da água”, que expele azul de metilene, que deixa pintado de azul tudo à volta e os fatos das pessoas. Também aparecem os gases lacrimogéneos. Mais tarde, a agitação é no Carmo e no Chiado. A polícia fecha os cafés, pastelarias e restaurantes. As manifestações só cessam cerca das 1.30 horas. São presas cento e cinquenta pessoas, que são entregues à PIDE. Centenas de feridos são tratados nos hospitais. Outros não vão aí, para não serem identificados. No dia 8, há novas manifestações, mas sem a mesma dimensão. Entre 19 e 21 de Dezembro, reúne-se em Praga a Conferência das Forças Antifascistas Portuguesas, em que participam o Movimento Nacional Independente, representado por Manuel Sertório, a Resistência Republicana e Socialista, o PCP e o Movimento de Acção Revolucionária. Fundam a Frente Popular de Libertação Nacional (FPLN), que estabelece a sua sede em Argel. A Resistência Republicana e Socialista tinha sido fundada, em 1953, por Mário Soares, Manuel Mendes, Piteira Santos, Gustavo Soromenho, Ramos da Costa, etc.. O Movimento de Acção Revolucionária (MAR), fundado,

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provavelmente em 1962, por ex-dirigentes do Movimento Estudantil, Medeiros Ferreira, Vitor Wengorovius, Manuel de Lucena, João Cravinho, Nuno Brederode Santos, Vasco Pulido Valente. Redol sabe desta reunião e da fundação da FPLN, informação que comunica a amigos nos encontros no café. Aliás, é amigo de quase todos os fundadores da Resistência Republicana e Socialista, e é muito provável que tenha sido convidado a integrá-la por esta altura. Informa, também, que Álvaro Cunhal e Piteira Santos se falam normalmente após longos anos de incompatibilidade. Humberto Delgado vem a ser convidado para liderar esta Frente. 1963 Colóquio no Porto Em 2 de Fevereiro, a partir das 18 horas, está no Porto numa livraria (será a Livaria Latina?) a assinar vários livros seus e, nesse mesmo dia, à noite está no teatro de bolso do Grupo de Teatro Moderno dos Fenianos para falar da sua experiência de escritor. É apresentado por Óscar Lopes e há uma intervenção inicial do crítico Taborda de Vasconcelos. O escritor fala das diferentes fases da sua obra e do Neo-Realismo, dos adversários deste, que, inicialmente, o atacam porque é demasiado simplista, mas que, quando entra na fase de maturidade, os textos se complicam e são formalmente mais perfeitos, dizem que está em crise. Na altura informa estar a escrever um divertimento popular sob a forma de peça de teatro – que está em gestação há vários anos, pois fala numa entrevista de 1947 numa peça Destino & Cia que está a escrever e, noutra entrevista, esta de 1961, afirma que a editará em 1962 – acrescentando que deve vir a intitular-se O Destino Morreu de Repente. Também lê extractos de romances seus. O relatório de um agente da PIDE presente diz que estavam cerca de quinhentas pessoas e que a sessão é aproveitada para denegrir o regime.

Conferência de Alves Redol no Grupo de Teatro Moderno dos Fenianos, no Porto, para falar da sua experiência de escritor, no dia 2 de Fevereiro de 1963.

Em 27 de Maio, realiza-se o funeral de Aquilino Ribeiro, no qual se juntam muitos escritores e oposicionistas, numa homenagem ao grande mestre da língua portugesa e um dos maiores escritores portugueses de sempre. Em certo

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período, é um dos escritores que mais se vende e um dos mais lidos em bibliotecas populares, em parceria com Ferreira de Castro. Posteriormente, são acompanhados pelos neo-realistas. Do funeral, existem fotografias em que estão Redol com Cardoso Pires e Carlos de Oliveira com Vergílio Ferreira. Vergílio Ferreira, que convive com Carlos de Oliveira em Coimbra, escreve, mais tarde, num dos volumes de Conta-Corrente, palavras muito desagradáveis e venenosas sobre ele. Redol na publicidade A agência de publicidade Êxito está a crescer, devido à grande qualidade dos seus quadros e passa para novas instalações na Alameda D. Afonso Henriques, 3 – 3º Esq. e 4º Dto. Estão a colaborar diversos intelectuais de grande mérito como Alberto Ferreira, Alexandre Cabral, Augusto da Costa Dias e Álvaro Guerra. E também artistas plásticos como Cipriano Dourado. Entre os seus quadros exclusivamente publicitários há alguns dos melhores profissionais portugueses. Quer gráficos, quer produtores de textos. Aliás, em agências de publicidade estão alguns dos melhores escritores portugueses da nova geração e alguns da anterior. Alguns em regime de tempo parcial ou de avença. Citam-se, de memória, além dos já referidos, Manuel da Fonseca, Alexandre O’ Neill, Orlando da Costa, José Carlos Ary dos Santos. São incentivados a trabalharem num sector que exige um bom conhecimento psicológico das pessoas de diversos estratos sociais e uma escrita apurada, continuando, portanto, a exercitar as suas aptidões literárias. Sem pressões políticas, pois os proprietários destas empresas são, geralmente, pessoas democráticas, que defendem um salto do país em termos económicos, uma aproximação aos outros países europeus. Pessoas que não enjeitam a colaboração de gente de esquerda, ao contrário dos patrões retrógrados dos sectores tradicionais da economia e dos serviços do Estado, politicamente muito controlados. Além disso, este trabalho possibilita um desafogo económico que permite aos escritores continuarem a escrever. Pelo menos teoricamente, porque Redol se queixa que a publicidade o deixa “seco”, incapaz de criar literariamente. Talvez, por isso, os anos 60, depois de 1962, vão ser para ele anos de menor produção literária. Todavia, outros factores intervêm que podem ter contribuído para essa situação e que se verão a seu tempo. Redol e outros neo-realistas reescrevem as suas obras Mas essa menor produção refere-se a títulos novos, já que nesta década Redol reescreve grande parte dos romances elaborados na década de 40. Assim, em Março de 1963, termina a reescrita de Fanga, com um prefácio que explica o porquê desse acto e faz um balanço da sua opção por uma arte empenhada. E escreve:”Manuel Caixinha sou eu”, revelando a identificação existente entre ele e o personagem, ao mesmo tempo que, sem o declarar, abre a porta a que seja assumido o carácter autobiográfico de muitos dos personagens dos seus romances. 301


Vários escritores neo-realistas também refazem algumas das suas obras nesta década, como Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Armindo Rodrigues. Redol frequenta agora, também, o Café Império e a Pastelaria Pão-de-Açúcar, ali na Alameda e recebe regularmente a visita do filho, que está a estudar no Instituto Superior Técnico, desde final de 1960. Embrenha-se cada vez mais no sector e faz a publicidade de firmas importantes. Também faz a publicidade da praça de toiros do Campo Pequeno no tempo de Manuel dos Santos. Este, como homem inteligente que é, percebe que a publicidade das corridas de toiros necessita de uma actualização e encarrega Redol disso, através da Êxito. Este, introduz uma forma mais literária e moderna de falar da “Festa”. Elaboram-se folhetos desdobráveis, descrevendo as caracterísiticas particulares de cada toureiro e os aliciantes artísticos desta actividade, em português e inglês. E até pormenores de ordem técnica. Por outro lado, tem a ideia de se reservar um sector da bancada da praça à juventude, com grandes descontos nos bilhetes, iniciativa que contitui um êxito e que continua por muito tempo. Não só afluem novas camadas, como se introduz um factor de entusiasmo enorme, que muito beneficia o espectáculo. Em Dezembro, José Cardoso Pires publica o romance O Hóspede de Job, em edição da Arcádia. A vida da Redol & Cia., Lda. está no fim. Depois de um dos bancos credores meter uma acção em tribunal contra a empresa, em 1961, Redol e Luís Ferreira hipotecam em 1963, a três bancos credores, o terreno urbanizável que possuem em Vila Franca. Mas é Redol, sozinho, que acaba por se responsabilizar pela dívida, que não é pequena, atingindo o equivalente, hoje, a várias centenas de milhares de euros. Nos anos seguintes, vai pagando aos diferentes bancos, mas quando morre, a dívida ainda é muito grande, ficando o filho a pagá-la. É um assunto que o deixa bastante abalado, tendo, com esta aventura, levada a cabo para ajudar o pai e o cunhado, ficado sem o “dinheiro que amealhei a vida inteira para a velhice”, escreve em “Alinhavos para uma autobiografia”, em 1965. Nos primeiros meses de 1963, um importante funcionário do PCP decide contar tudo o que sabe e denuncia, além de vários aspectos da estrutura partidária, toda a organização dos intelectuais daquele partido, responsáveis e militantes: arquitectos, economistas, médicos, engenheiros, escritores, advogados e professores. Segunda prisão de Redol Em 30 de Outubro, Alves Redol é preso pela PIDE, de manhã, à entrada da Êxito. Alberto Ferreira é preso à tarde no mesmo local. Na agência, alguém se apercebe e dá o alerta. O filho não é avisado e, estranhando a ausência do pai, procura Cândida Ventura, que tinha sido libertada pouco antes muito debilitada e, depois, Álvaro Guerra. Este confirma a prisão, achando-a intrigante: “a bota não bate com a perdigota”, afirma ele. O que quer ele dizer? Será que Alves Redol e 302

Alberto Ferreira não têm qualquer ligação política? No mesmo dia, em casa, às 8 da manhã é preso Alexandre Cabral. Um dia, a mãe e o filho de Redol têm autorização para o visitarem no Aljube. Vendo o filho atrás das grades, a mãe tem uma atitude que é dela própria, isto é, austera, firme, sem dar parte de fraca. Sabe-se lá como estará por dentro! Quando saem, descem a rua e quando já vão na Rua da Conceição passa uma carrinha da PIDE, que leva Redol, certamente para interrogatório na António Maria Cardoso. Entretanto, a nível internacional a situação chega ao conhecimento dos meios intelectuais e começam a chegar protestos. Os jornais L’Avvenire d’Italia, de Bolonha, Il Giorno, L’Unitá, Avanti, os três de Milão, Tages-Avizeiger Zurich, de Zurique, Le Monde, de Paris, L’Information Latine falam do assunto logo nos dias seguintes a estas prisões. O Sun Baltimore , de Baltimore, nos EUA, dá a mesma informação com base em telegrama da Agência Assotiated Press. Segundo notícia do jornal República de 21 de Novembro, realiza-se em Roma, na Libreria Paesi Nuovi, por iniciativa de “La Revista L’Europa Letteraria”, uma homenagem aos três escritores presos em que intervieram os intelectuais Murillo Mendes, Arrig Repetto e Giancarlo Vigorelli, Secretário-Geral da Comunidade Europeia de Escritores, a que Redol pertence. Por outro lado, e mostrando que as notícias saídas incomodam muito o regime, o Director-Geral dos Negócios Estrangeiros e da Administração Interna escreve ao Director da PIDE a pedir “o favor de habilitar esta Secretaria de Estado a responder”, pois tinham saído notícias sobre o assunto em Washington, Rio de Janeiro, Londres, Caracas e Quito. Dias depois, a mesma entidade informa o Director da PIDE que “As aludidas informações foram já transmitidas às nossas embaixadas de Washington, Rio de Janeiro, Londres, Caracas e Quito que ao assunto se tinham referido a propósito de notícias publicadas na imprensa dos respectivos países”. Depois, em 9 de Novembro, a Sociedade Portuguesa de Escritores, na qual Ferreira de Castro é Presidente da Direcção, escreve ao Ministro da Educação a pedir a libertação dos três escritores. Tendo a carta sido remetida para o Ministro do Interior, este interpela o Director da PIDE em 19 de Dezembro e em 6 de Janeiro pede que o informe sobre a detenção dos três escritores. Mas no dia 10, o Ministério dos Negócios Estrangeiros pede informação sobre a detenção do “Dr. Luís Dias Amado, escritores Alves Redol, Urbano Tavares Rodrigues, Alexandre Cabral e Carlos de Araújo; Prof. Gaspar Teixeira; advogados Carlos Cal Brandão e Alberto Ferreira (um equívoco do Ministério, quanto à profissão) e os cineastas Vasco Granja e Manuel de Oliveira”. A 11 de Janeiro é a vez do Ministério do Interior “solicitando se digne comunicar-me, oportunamente, o que se lhe oferecer sobre o assunto”. Todas estas pressões fazem que as prisões destes cidadãos ligados à cultura sejam mais breves do que é habitual. Redol é libertado a 13 de Novembro, Alexandre Cabral e Alberto Ferreira a 16 de Dezembro. Verificam-se muitos gestos de solidariedade. Por exemplo,

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Alice Jorge escreve para o Aljube postais para Alves Redol e Alberto Ferreira. Mas esta prisão deixa Redol profundamente abalado. Em Dezembro, publica Histórias Afluentes, edição da Portugália Editora. É um livro de contos, onde apresenta muitas passagens autobiográficas, nomeadamente acontecimentos vividos em Angola. A crítica marxista não gosta. 1964 É um ano mau do ponto de vista literário para Alves Redol. Nada publica. Está inteiramente dedicado à publicidade. Na Sociedade Operária Joaquim António de Aguiar, de Évora, pronuncia Alves Redol uma conferência intitulada “A Minha Experiência Como Escritor”, no dia 11 de Abril. No dia 12 de Junho, Alves Redol é testemunha de defesa de Maria Lígia Alves Monteiro no Tribunal Plenário, acusada de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do estado. O romance O Hóspede de Job, de José Cardoso Pires, é contemplado com o Prémio Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Escritores, patrocinado pelo Grémio dos Editores e Livreiros. Habitualmente, o patrocínio é da Fundação Calouste Gulbenkian. No dia 30 de Maio de 1964, realiza-se no Hotel Embaixador o habitual jantar para entrega deste prémio, no qual discursam Ferreira de Castro, Presidente da Sociedade e Dr. Borges de Castro, Presidente do Grémio. Óscar Lopes, em representação do júri, faz uma alocução sobre a obra premiada e José Cardoso Pires agradece, tecendo considerações sobre as dificuldades do escritor em Portugal e falando de Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Alves Redol, Aquilino Ribeiro e dos poetas do “Novo Cancioneiro”. Alves Redol é um dos escritores presentes. Em 21 de Julho realiza-se uma Assembleia Geral da firma Êxito, em que entram para sócios dois quadros superiores da empresa e Álvaro Guerra, por cedência de quotas de Fernando de Almeida. Fica decidido que Alves Redol entrará mais tarde.

Comemoração dos 25 Anos de Gaibéus, em Vila Franca de Xira, numa iniciativa da Secção Cultural da União Desportiva Vilafranquense. Vêem-se Antero Ferreira, amigo de infância do homenageado e autor da capa da 1ª edição de Gaibéus, Arquimedes da Silva Santos, Manuel da Fonseca (à direita) e Orlando Duarte, presidente daquela Secção Cultural, Dezembro de 1964.

a mancha que nos separou, sem o tempo que nos consumiu o melhor que queríamos colher dos frutos do nosso sangue”. A prisão e a separação, juntamente com a já referida absorção total com a publicidade, parecem explicar a redução da actividade literária. No dia 25 de Novembro, Redol assina exemplares dos seus livros na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa. Nos dias seguintes, é a vez de Antunes da Silva, Maria da Graça Freire e Assis Esperança. Comemoração do 25º Aniversário de Gaibéus Em Dezembro, a Secção Cultural da União Desportiva Vilafranquense comemora os “25 Anos de Neo-Realismo”, a propósito da passagem de vinte e cinco anos sobre a publicação de Gaibéus. É constituida uma Comissão de Honra, constituída por Sociedade Portuguesa de Escritores, Sociedade Nacional de Belas Artes, António Pereira Vitorino, Arquimedes da Silva Santos, Carlos de Oliveira, Ernesto de Sousa, Igrejas Caeiro, Joaquim Namorado, José Cardoso Pires, Manuel da Fonseca, Maria Barroso e Mário Dionísio. Na organização participam, também, Atlético Clube de Moscavide, Comissão Cultural do Grupo Columbófilo de À-dos –Loucos, Clube Recreativo de Sacavém, Juventude da Castanheira, Sociedade Recreativa Musical 1º de Agosto Santairiense, Sociedade União Samorense, Mário Ventura, Júlio Graça e Álvaro Guerra. A terminologia do título da homenagem é discutível, porque o Neo-Realismo não se inicia com aquele romance, sendo, até, difícil apontar uma data para o seu “nascimento”. Gaibéus, é, sim, o primeiro romance daquela corrente literária, o que não é de somenos. Disso chama a atenção Mário Dionísio numa carta a Alves Redol, justificando a sua ausência nas homenagens que lhe são prestadas, apesar de ter aceite pertencer à Comissão de Honra. Dionísio aceita participar nesta Comissão, porque quem o contacta anuncia-lhe uma homenagem a Redol e não uma comemoração com o título que teve depois. Entre 2 e 19 de Dezembro realizam-se: uma exposição bio-bibliográfica na Biblioteca-Museu Municipal de Vila Franca

Redol e Natália separam-se Por esta altura separa-se de Natália, por iniciativa desta. Ela que suportara, tal como Maria, inúmeras aventuras de Redol e as suas ausências inexplicáveis, não aceita, agora, a ligação com uma colaboradora da agência e as coisas precipitam-se. Ele escreve-lhe cartas em que recomenda calma aos dois, ainda fazem uma nova tentativa, mas está esgotada a capacidade de tolerância mútua. Ela chega mesmo a casar com outra pessoa, embora a ligação dure pouco tempo. Redol fica profundamente afectado. Natália é, de facto, a mulher da sua vida, talvez a Gracinda dos romances sobre o Douro. Aliás, numa das “Crónicas do Banal” ele escreve que:”Vivem nos meus livros, em cada um dos meus livros, como carne e sonho do que fui as mulheres (imaginárias, acrescenta à mão, no texto escrito à máquina) que deixaram rasto na minha vida. E tal e qual as amei, sem

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de Xira, colóquios em Alhandra, Samora Correia, Santa Iria, Sacavém, À-dos-Loucos, Moscavide, Vila Franca de Xira, o descerramento de um busto em bronze do escritor de autoria de José Dias Coelho, na Biblioteca Alves Redol da União Desportiva Vilafranquense e um jantar de homenagem na Estalagem da Lezíria, em Vila Franca. Nestas comemorações, além de estarem presentes muitos escritores que não estão na Comissão de Honra, estão presentes muitos amigos de vários pontos do país, entre os quais os da “Mocidade Esperançosa”. Esta homenagem, terá sido muito importante para levantar o moral de Redol, abalado pelos acontecimentos referidos. Em Novembro, é fundada em Genebra a Acção Socialista Portuguesa (ASP), por Mário Soares, Manuel Tito de Morais e Francisco Ramos da Costa, este, recorde-se, integrante de um dos Passeios no Tejo, economista, que ajudou Redol a responder ao Ministro da Economia em 1957. Esta entidade organizou-se clandestinamente em Portugal e teve uma expansão razoável no meio universitário, onde captou, designadamente, dirigentes de Associações de Estudantes. Também no meio intelectual se expandiu,sendo possível que Redol, que era amigo de Mário Soares, Ramos da Costa, Maria Barroso e outros, tenha sido contactado, mas desconhecem-se pormenores. Com Mário Soares e Maria Barroso as relações são muito estreitas durante muito tempo. Aliás, será por esta altura que Mário Soares, que fora professor de História e de Filosofia do filho no Colégio Moderno, e por quem este tem amizade, telefona ao rapaz, como advogado e como amigo, e pede-lhe para ir falar com ele na sua casa da Estrada de Malpique, perto do Colégio. Diz-lhe que o pai quer esclarecer os aspectos relacionais da sua vida com mulheres e que, para isso, uma das acções que pretende empreender é divorciar-se de Maria, com quem já não vive há cerca de dezasseis anos. Mas que quer ter o acordo do filho.Este aspecto foi o único ponto de fricção do filho com o pai durante todos os anos após a separação e o rapaz responde secamente que não concorda, cortando a conversa. Aliás, poucas horas depois pai e filho estão juntos, mas nenhum deles toca no assunto. 1965 Contrato com Publicações Europa-América Em 11 de Janeiro de 1965, dá-se um acontecimento importante para o historial da edição em Portugal, na sede de Publicações Europa-América, em Mem-Martins, dirigida por Francisco Lyon de Castro. Neste dia, dois importantes escritores portugueses, Alves Redol e Fernando Namora, assinam um contrato de exclusivo com a editora, que se propõe publicar as suas obras, a incluir em duas colecções com características próprias intituladas Obras de Alves Redol e Obras de Fernando Namora. Serão publicadas, pelo menos, três obras por ano, sendo uma delas um original. Fixa-se uma tiragem máxima de 4000 exemplares e estipulam-se regras dos encargos com publicidade e critério de esgotamento de cada edição. O contrato, com a duração de seis anos, estipula um pagamento mensal de 304

direitos de 7.500$00 (o que equivale, hoje, a cerca de 2200 euros). Os direitos de autor são de 20% sobre o preço de capa de cada livro. É um contrato excelente para editor e escritores, igual para os dois – aliás Redol e Namora, que eram muito amigos, fizeram várias reuniões para estudarem o texto a propor à editora – e que resulta da experiência que tiveram com editores anteriores. Aliás, muitas cláusulas são semelhantes às que Redol preparou para o seu contrato anterior com a Portugália Editora. O acontecimento é histórico para a edição em Portugal, porque, pela primeira vez, dois escritores fazem um contrato em conjunto, transparente, com cláusulas muito vantajosas e com uma actividade editorial programada. Muitas vezes nem sequer havia contrato. Escritores como Carlos de Oliveira e Mário Dionísio, por exemplo – e quase todos os outros – fazem combinações verbais com os editores, sem grandes pormenores. E quando havia contrato, os intervenientes mantinham segredo absoluto. Depois, naquele contrato, estabelece-se um exclusivo, uma colecção apenas dedicada a um autor, uma cadência de edição, a obrigatoriedade de um original por ano e uma verba mensal por conta dos direitos de autor muito significativa. Na verdade, estes são os escritores portugueses que mais se vendem à época. Até há uns anos antes é Alves Redol, mas Namora acaba por ultrapassá-lo e fazer edições sucessivas, supõe-se que a partir da publicação de Domingo à Tarde, de 1961. Com as traduções passa-se o mesmo. Namora não chega a atingir o volume de Ferreira de Castro, mas aproxima-se bastante. Mais tarde, Saramago pulverizará tudo, mesmo antes de receber o Prémio Nobel. O editor está, portanto, a fazer uma boa aposta. Antes de acertar com Publicações Europa-América, Redol ainda conversa com representantes da Livraria Bertrand, editora de Aquilino Ribeiro, mas o assunto não avança. Quando Alves Redol revalida a carta de condução neste ano, dá como morada a Rua Victor Bastos, 26 porta 3-A, em Campolide. Das pessoas ainda vivas, que foram íntimas do escritor, ninguém conhece esta morada. Só em início de Abril de 1965, Redol aluga uma casa em Caxias, adquirindo o seu recheio ao proprietário e assim evitando a preocupação de a mobilar. É na Rua Projectada ao Mercado, 1 r/c Dto. Em 3 de Fevereiro de 1965, João José Cochofel escreve uma carta a Seara Nova desagradado com as notas da redacção sobre as reedições de Aldeia Nova, de Manuel da Fonseca e Casa da Duna, de Carlos de Oliveira e o prefácio de Mário Dionísio a este último. Sobre o 25º Aniversário de Gaibéus nota que, sem que os “colaboradores da secção de artes e letras” disso tivessem conhecimento, são proferidas “verrinosas insinuações infiltradas nessa pretensa adesão às justas homenagens prestadas a Alves Redol”. Protesta pela “depreciação sistemática dos nossos escritores neo-realistas empreendida pela Seara Nova, […] afastando-me ao mesmo tempo da revista”. No mês de Abril, vem a público a primeira obra produzida no âmbito do citado contrato com Publicações Europa-América: uma 2ª edição, refundida, de Uma Fenda na Muralha. Redol manifesta a insatisfação de alguns outros escritores e altera

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os textos logo na edição seguinte. Neste ano, ainda será reeditado o romance Gaibéus. Em Abril de 1965, subscreve uma exposição ao Presidente da República por uma amnistia aos presos políticos. Em 29 de Maio de 1965, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense comemora mais um aniversário e convida Redol para uma palestra sobre a sua obra (“A Minha Experiência de Escritor”), à semelhança do que se verifica em outros pontos do país. Fala sobre o Neo-Realismo e o seu significado e sobre a sua própria experiência de escritor, desde os primeiros passos até ao apogeu da sua obra. Explica o árduo trabalho de recolha de informação etnográfica, histórica, social, económica, geográfica, política, sobre os locais e populações seleccionados. A simplicidade da linguagem impressiona e deixa uma marca na assistência, segundo as notícias dos jornais regionais. Em Agosto, António Redol da Cruz, com setenta e oito anos, está a arranjar o telhado da casa da sua pequena propriedade e cai para o chão, partindo uma perna. É internado no Hospital Ortopédico, em Lisboa, onde vem a ser operado. É o filho que paga todas as despesas. Mais uma vez, o filho tem de ajudar o pai. 6ª edição de Gaibéus Em Outubro, é publicada a 6ª edição de Gaibéus, por Publicações Europa-América. Trata-se de uma versão reescrita do romance, com um prefácio muito importante no contexto da obra de Redol, intitulado “Breve memória para os que têm menos de 40 anos ou para quantos já esqueceram o que aconteceu em 1939”. Neste caso, o escritor introduz apenas alterações de ordem formal, sem mexer na estrutura da obra. E escreve neste prefácio: “Este romance, que hoje se reedita depois de lhe ter passado certidão de óbito”. De facto, o romance, depois de cinco edições, nunca mais é reeditado pelo autor desde 1947. Nunca imaginou que pudesse ter a repercussão que ainda hoje tem, pois vai na 22ª edição. Afinal, ficou mesmo na “história da literatura”. No mesmo prefácio, Redol recorda os seus primórdios de vida e de escritor, como o romance surgiu.Recorda as características inovadoras de Gaibéus na nossa literatura, de “romance anti-assunto, ou, melhor, anti-história, sem personagens principais”, “a impetuosidade desregrada, o arrebtamento impulsivo”. E reafirma os mesmos princípios estéticos do início. Voltando ao assunto do impacte da sua obra: Redol recebe muitos pedidos para ofertar livros seus para bibliotecas de colectividades, que têm sempre um orçamento muito apertado. Em 13 de Novembro de 1965, recebe idêntico pedido da biblioteca do Centro Recreativo Eixense, da aldeia de Eixo, concelho de Aveiro, em carta em que o director refere que se está a dirigir a “Ferreira de Castro, Alves Redol, Miguel Torga, José Régio e alguns outros”. Num texto de Manuel Ferreira sobre Redol, de 1981, aquele escreve: “Possivelmente os que fizeram a sua aprendizagem cultural e literária nas grandes cidades ou universidades não farão uma ideia precisa ou alguns desconhecerão mesmo completamente a importância que, a partir de 1938, de profunda insegurança social e claras mudanças ideológicas,

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em que toda a actividade literária exercia um papel de relevo, determinada imprensa cultural e as obras de certos escritores assumiam na consciencialização dos que percepcionavam essa mudança e a viviam como uma sensação de combate exaltante. Referimo-nos aos que viviam nas aldeias, vilas, pequenas cidades”. Forja é representada pela primeira vez em Moçambique Neste ano, em data que não se consegue apurar, estreia-se Forja no Festival de Teatro de Manica e Sofala, em Moçambique, pelo Teatro de Ensaio do Clube Recreativo do Buzi, numa encenação de Salvador Rego. É a primeira vez que a peça é representada em público, depois de várias tentativas de grupos profissionais e amadores. Quando a reedita em 1966, Redol fá-lo “em homenagem ao grupo de actores profissionais que a julgaram capaz de defrontar o público há alguns anos e aos amadores do Buzi”. A 13 de Fevereiro, Humberto Delgado é assassinado pela PIDE em Villanueva del Fresno. Em Novembro, realizam-se eleições para a Assembleia Nacional, às quais concorre um sector da oposição liderado por socialistas e republicanos moderados, apresentando listas apenas em Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Leiria e Braga. É divulgado um “Manifesto ao País”, assinado por Acácio Gouveia, António Macedo, Carlos Cal Brandão, Francisco Salgado Zenha, Gustavo Soromenho, Helder Ribeiro, Raul Rêgo, Vasco da Gama Fernandes e outros. 1966 Jorge Amado está de novo em Portugal, por iniciativa de Publicações Europa-América e Redol está presente. Em Janeiro, Redol adquire o seu primeiro automóvel e, no mês seguinte, inicia aulas de aperfeiçoamento de condução, pois tendo tirado a carta em 1950, nunca conduzira. Mas como agora vive com Maria Orquídea Matos Graça, que também trabalha na Agência Êxito, é ela que guia. Mas vivem num sistema em que cada um está longas épocas em sua casa, juntando-se temporariamente. Só nos últimos tempos de vida de Redol, Orquídea está sempre presente. Também manda fazer algumas obras de adaptação na nova casa de Caxias. Redol vem todos os dias para Lisboa de combóio para trabalhar. A casa é junto à Praceta Oliveira Salazar, onde está instalada a Pastelaria Vera Cruz, local que o escritor frequenta, convivendo com várias pessoas. Em Caxias, também vivem Lima de Freitas, Igrejas Caeiro, João de Freitas Branco, Leonor Praça, que se encontram frequentemente. Nesta casa, é menos assídua a presença de José Cardoso Pires, Rogério de Freitas, Manuel da Fonseca, Alexandre Cabral e outros, pois está-lhes fora de mão. Mário Ventura e Leonor Praça são, agora, os mais assíduos. Cardoso Pires também aparece. E, em particular, pessoas que vivem ali perto. O Muro Branco. Nova viragem na obra. Em Maio, é publicado um original, O Muro Branco, com a chancela da Europa América, que revela uma nova viragem 305


na obra do escritor. O romance tem influências do “Nouveau Roman”, cujo principal expoente é Alain Robbe-Grillet, um escritor que os neo-realistas criticam fortemente. Escreve Alfredo Guisado: “…desta nova e interessantíssima obra […] que se lê de um fôlego”. E Alexandre Pinheiro Torres: “Afirmou-se até hoje que os grandes romances de Alves Redol eram A Barca dos Sete Lemes e Barranco de Cegos, afirmação que pressupunha a convicção de que estes livros se colocavam, qualitativamente, em posição de notório destaque em relação aos restantes. Pois agora estas obras deixam de figurar isoladas em tal plano. Necessário é que se lhes junte O Muro Branco”. Em 27 de Maio, o Teatro de Ensaio da Fima-Lever repõe Maria Emília no Teatro Monumental, em Lisboa, juntamente com O Cavalheiro Respeitável, de André Brun e Cavalgada para o Mar, de J.M. Synge. Em data não especificada, mas que deve ser anterior, a peça é apresentada na sede do grupo. Constantemente vigiado pela PIDE No dia 17 de Junho, na Cooperativa Árvore, no Porto, realiza-se um colóquio sobre a obra de Alves Redol, presidido por Óscar Lopes. À tarde, na Livraria Divulgação autografa livros seus. Segundo o relatório do agente da PIDE destacado, estão presentes “algumas dezenas ou até centenas de pessoas, com dois e mais livros cada”. No dia seguinte, em Viana do Castelo, no Sport Club Vianense realiza-se uma sessão idêntica, também presidida por Óscar Lopes, em que o escritor autografa livros. No Relatório Semanal de 19 a 25 de Junho de 1966, o Sub-Director da PIDE da Delegação Norte, apresenta e desenvolve os seguintes pontos: I) Visita Presidencial; II) Na cidade do Porto a) Ambiente político-social b) Escritor Alves Redol c) Acção Democrata-Social; III); Na restante área desta delegação a) Visita Ministerial , mostrando a atenção que aquela polícia dedica às actividades de Alves Redol. Assim, numa nota “À Brigada dos S.R.” …”O Exmo. Sub-Director pretende que seja nomeado um funcionário capaz para assistir a todos os actos, no Porto e em Viana” (Nota – os “actos” são as iniciativas culturais que atrás se referem). No ponto intitulado “Escritor Alves Redol” escreve aquele Sub-Director: “Esta Delegação tem vindo a constatar que as actividades culturais, designadamente as de índole literária, promovidas por adversários do Regime ou organismos dominados por elementos de idêntica filiação política, não passam, muitas vezes, de mero pretexto para os seus intervenientes extravasarem em público, o ódio que nutrem pelas Instituições vigentes”. Este Relatório e outros, mostram a atenção constante que Alves Redol merece da parte daquela polícia. Nos arquivos desta, existem muitas informações sobre os colóquios e conferências realizados pelo escritor, documentos que subscreve, passos que dá. Nomeadamente, destaca-se uma informação de 21 de Julho de 1961 em que um agente relata uma visita de Redol à Régua, em que está em casa de José Arnaldo Monteiro com Francisco Tavares Teles, Manuel 306

Numa sessão de autógrafos, na Livraria Divulgação, no Porto, vendo-se a escritora judia alemã Ilse losa, refugiada em Portugal.

Lourenço Morais de Carvalho e o Dr. Luís Roseira, advogado oposicionista, o que apresenta com sendo uma reunião. Apesar de assinado com grande esperança por todos, o acordo com a Europa-América não está a ser cumprido, pelo menos no que diz respeito a Redol. Em 1965, apenas se publica uma reedição. Mas Redol volta a escrever. Em Agosto, recebe uma carta da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, antepassada da Sociedade Portuguesa de Autores, solicitando autorização para a representação de Forja pelo grupo cénico da Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar, de Évora, com encenação de Manuel Peres. Não deve ter havido autorização da Censura para a concretização. Visita de alunos dos EUA Em Novembro, é visitado em sua casa por um grupo de alunos duma universidade flutuante americana, Chapman College / Seven Seas Divison, de Orange, na Califórnia, que anda a dar a volta ao mundo num navio, enquanto os cerca de trezentos alunos têm aulas e estudam. Mas à medida que visitam alguns países, vão recebendo informação sobre eles: história, arte, literatura, economia. É uma universidade privada, com propinas muito elevadas, onde se formam quadros de uma nação que pretende dominar o mundo. Nessa sessão, em que estão presentes cerca de vinte alunos e vários professores, relata a sua vida de escritor e o tipo de literatura que faz. Os alunos fazem muitas perguntas e, quer eles, quer os professores, ficam muito entusiasmados com a sessão. Poucos dias depois, o Reitor da Universidade escreve-lhe uma carta a agradecer, datada de 7 de Novembro de 1966. Teatro I- Forja e Maria Emília Em Novembro, sai o volume Teatro I, incluindo Maria Emília, que é publicada pela primeira vez em livro e Forja, em 2ª edição, com alterações importantes relativamente à 1ª edição e um prefácio em que Redol relata os seus encontros com a morte na infância. Em cada nova reedição, Redol reelabora, agora, os textos anteriores.

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Os seus livros têm nesta altura menos impacte nos jornais literários e suplementos. Por exemplo, apenas no Diário de Lisboa há uma entrevista, em 15 de Dezembro, sobre o volume de teatro acabado de sair, embora possa haver alguma justificação no facto de que esta forma artística, vindo a público em livro, tem menos impacte que o romance. É que existe uma geração de críticos e colaboradores de origem universitária que viveram a crise universitária de 1962, anos anteriores e anos seguintes, os quais, para além de terem uma visão diferente da literatura e da política, estão afastados da realidade de um país que não conhecem, mas onde querem liderar uma “revolução”. Embora muitos se digam marxistas, assumem um pseudo-conflito de gerações. Se acusam a anterior geração de dominar as páginas literárias – o que é verdade; mas apesar desse domínio, havia uma ampla informação sobre o que ia saindo - agora, são mais fechados e sectários. Só dão informação sobre os livros e os escritores de que gostam e, em especial, os amigos. Os outros são ignorados. As “capelinhas” são mais evidentes e fechadas. Por isso, até Barranco de Cegos, em 1961, passa despercebido. Só mais tarde é notado e vangloriado, muitas vezes para se dizer que é o único livro de Redol que vale a pena ler! É na década de 60 que se verificam os grandes ataques à obra de Redol e ao Neo-Realismo do lado de uma esquerda diversificada, dividida, utilizando-se a obra do escritor como bombo da festa de divergências de ordem política. Nos anos 40 e 50 os ataques só vêm dos apaniguados do regime e de um ou outro crítico. Os reparos existem, mas são, na maior parte das vezes, reparos amigos, cujo móbil é o do aperfeiçoamento de um escritor, em quem encontram grandes capacidades, mas que está à procura de uma forma própria, condizente com uma literatura de novo conteúdo ideológico e não só. Reescrita e novos projectos Redol está a reescrever parte dos seus romances, tencionando condensar o Ciclo do Port-Wine em apenas um volume. Também tem Os Reinegros sobre a secretária. E está a preparar os livros infantis. Para isso, não só estuda psicologia infantil, como fala com diversos especialistas, particularmente com Arquimedes da Silva Santos. Escrita a primeira versão de um dos livros da série “Flor” pede à irmã, que é professora primária e tem um colégio em Vila Franca, para ler o texto aos alunos e pedir-lhes que façam desenhos inspirados nele. Pode, assim, aquilatar da reacção das crianças e do grau de compreensão que têm do texto, corrigindo o que for menos compreensível. Mais uma vez Redol está a inovar, pois não se conhecem situações semelhantes com escritores de histórias infantis. Por outro lado, o texto é para ser lido pelos alunos que estão a aprender a ler, razão pela qual é escrito, exclusivamente, em monossílabos. Mais uma inovação. O escritor tem, há vários anos, o projecto de escrever um romance autobiográfico. Será o iniciado Sinfonia para uma Corda ? Por outro lado, deseja fazer um romance sobre a história da estrada que liga Vila Franca a Lisboa. Para isso,

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tem a paciência de ir para junto desta estrada observar o trânsito e a vida que nela circula, qual artéria do nosso sistema circulátório.Terá sido a última situação de “ir ver e viver” para escrever. O romance deveria chamar-se A Serpente de Fogo. Por outro lado, recorde-se que Alves Redol viaja de autocarro diariamente naquela estrada, durante, talvez, treze anos, para Vila Franca primeiro e, depois, para Alverca, para ir trabalhar na firma de que é sócio. Supõe-se que parte desse trabalho é incorporado em O Muro Branco. Neste romance utiliza várias vezes a expressão “serpente de fogo” para designar a estrada em que Zé Miguel se desloca no Ferrari. Repare-se que, depois da vivência no Douro, há outra numa mina, que dá origem ao argumento para um filme que deveria intitular-se Seara Negra, mas que nunca chega a ser rodado. Depois disso, há as permanências no Freixial e na Nazaré, mas que são já de um outro tipo, pois são locais de estadia de longa duração e não de estadia eventual e propositada. Não é conhecido qualquer outro local com este último tipo de vivência. E note-se que, este tipo de aproximação, extingue-se para Redol ainda nos anos 40. Isso significa uma diferente visão da obra literária ou, também, uma menor disponiblidade para deslocações com o sacrifício das férias? Ou será que as experiências acumuladas dão para vários romances, dispensando novas? Não esquecer a aproximação que faz ao meio tauromáquico, acompanhando a carreira de José Júlio. Por vezes, manifesta o desejo de escrever sobre esse meio, tão pouco tratado pelas letras. Pelas letras portuguesas, nada. Pelas espanholas, muita coisa, como por exemplo Blasco Ibáñez, Federico García Lorca, Ignácio Sánchez Mejias (toureiro e dramaturgo), Camilo José Cela, Jean Cau, André Amoros e outros e o estado unidense Ernest Hemingway em Fiesta. E trata-se de um meio com tão grande potencial literário! Redol ainda escreve o já referido texto sobre a colhida de José Júlio em Sevilha e um longo poema, inédito, dedicado ao toureiro. 1967 Em Março, Redol assina, com outros, uma petição dirigida ao Presidente da República pela libertação de José Bernardino, que já cumprira pena de prisão e se encontra a cumprir medidas de segurança. Teatro II – O Destino Morreu de Repente Em Abril é publicado o volume Teatro II, que contém a peça em gestação há muitos anos O Destino Morreu de Repente, edição de Publicações Europa-América. Há críticos que percebem o vanguardismo da peça, sem que Redol deixe de ser o mesmo de Gaibéus, mas um dos críticos da página literária do Diário Popular acha que aquilo é um disparate sem nexo. E que é mediocre. Em Janeiro, sai a 5ª edição de A Barca dos Sete Lemes. Este romance tem a seguinte sequência de edições: 1ª edição – 1958, 2ª edição – 1959, 3ª edição – 1962, 4ª edição – 1964, 5ª edição – 1967. Em Junho sai a 3ª edição de Olhos de Água. 307


O Rádio Clube de Moçambique, solicita a Redol, através da Sociedade Portuguesa de Autores, autorização para adaptar Forja à rádio, confiando a adptação a Sarah Pinto Coelho. O Autor pede que lhe seja enviado o texto da adaptação e, já em início de 1968, concorda, mas não há elementos que permitam saber se o projecto foi efectivamente por diante. Redol está a trabalhar nas histórias infantis, entregando a execução dos desenhos a Leonor Praça. Em Julho, o filho, estando a trabalhar na Junta de Energia Nuclear, é incorporado no exército em Mafra. O pai visita-o aí algumas vezes e fala-lhe na questão da participação na guerra colonial. Diz-lhe que, assim como conseguiu impedir o processo de outros irem para o estrangeiro, recusando a tropa, com ele isso também será possível. O rapaz diz-lhe para se aguardar o que acontece. Em Outubro, quando termina o 1º ciclo, o rapaz passa umas semanas com o pai em Caxias, só os dois, embora este esteja a trabalhar. Fica à espera do 2º ciclo para decidir o que fazer. Redol é impedido de ir a Barcelona a uma reunião do Secretariado Internacional da Lã Na Agência Êxito as coisas não correm muito bem entre Redol e a Direcção. O sócio maioritário e gerente continua a protelar a combinada cedência de uma quota a Redol e não executa todas as tarefas de que se incumbe, prejudicando o trabalho da Agência. Redol é um bom profissional, segundo testemunha quem com ele trabalhara, como, por exemplo, Alexandre Cabral no filme sobre o escritor que a RTP produz em 1991 e a que já se aludiu. É extremamente competente, rigoroso e exigente consigo próprio e com os outros. E é ele que está a assegurar a estabilidade da empresa, em particular depois da saída de Alberto Ferreira, agastado com os comportamentos do referido sócio. Apesar dos problemas entre Redol e este a Agência ganha cada vez mais prestígio e uma das campanhas dirigidas por Redol, a do Secretariado da Lã/ Wool Mark, ganha o Prémio Rizzoli, de âmbito europeu. Em Novembro, representantes da Agência vão a Barcelona para participar numa reunião em que participam delegados de Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra, mas, quando Redol já se encontra dentro do avião, a PIDE obriga-o a sair e não o deixa seguir. Fernando de Almeida escreve uma carta ao director da PIDE, protestando e mostrando o prejuízo que advém para a Agência com a acção policial. Como resultado, é preso durante dois dias!

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Por esta altura, realiza-se um jantar oferecido pela Agência aos seus clientes, a propósito da conquista do Prémio Rizzoli. Supõe-se que por iniciativa de Publicações Europa-América, Claude Roy visita Portugal, realizando-se uma recepção nas instalações daquela editora, em que, pelo menos, Redol, Francisco Lyon de Castro, Mário Castrim, Baptista-Bastos e Álvaro Guerra estão presentes, de acorco com uma fotografia existente. O editor Lyon de Castro não se limita a publicar os livros. Faz a sua promoção de uma forma empenhada, embora sempre considerada insuficiente, num país onde muito pouco acontece no domínio cultural. A Europa-América é, também, das poucas editoras que faz publicidade das suas edições nos jornais. Lyon de Castro vai às feiras que se realizam no estrangeiro para ver o que se edita lá fora e contratar o que lhe interesse. Faz, também, divulgação dos autores portugueses que edita. Por exemplo, num dos anos, instala um “stand” na Feira de Hamburgo, onde promove as obras de Alves Redol e Fernando Namora. A esta acção se deve grande parte das edições estrangeiras de A Barca dos Sete Lemes. Está presente nos “Rencontres Internationales de Genève”, com Mário Dionísio e Rogério de Freitas, este a trabalhar na editora. Numa reunião internacional em Barcelona, provavelmente no Congresso de Escritores Ibéricos, em 1962, Lyon de Castro tem uma corajosa intervenção em que denuncia a situação da literatura em Portugal, perseguida pelo Regime. 1968 Em Janeiro é publicada a 2ª edição de O Cavalo Espantado, em Agosto a 5ª edição de Avieiros e em Setembro a 2ª edição de O Muro Branco, no âmbito do contrato com Publicações Europa-América. Em comparação com 1967, verifica-se uma reactivação das reedições. 5ª edição de Avieiros, um novo romance Na 5ª edição, Avieiros é um romance totalmente reformulado. Alves Redol tem em atenção as observações de Mário Dionísio em Ficha 5 e, na dedicatória firmada no exemplar que lhe oferece, escreve: “Devo à tua sinceridade e à tua camaradagem (…) muito daquilo que hoje sou. Quero dizer-to hoje, de olhos nos olhos, com a lucidez de quem se rasga todos os dias para se situar neste mundo. Obrigado!”. Redol não faz dedicatórias banais nos exemplares dos seus livros que oferece aos amigos e familiares. O estudo destas dedicatórias impõe-se a quem queira estudar a obra de Redol com profundidade. O prefácio desta edição é, também, como todos os desta época, um documento importante para a compreensão da sua vida e obra. Nele se refere, entre outras coisas, a crítica de Mário Dionísio na Ficha 5 e o que significara para o autor. Aliás, recorde-se nas referências que lhe faz em várias oportunidades, até mesmo a propósito da escrita de Fanga, o romance que se segue a Avieiros. Porque razão as ultimas reedições de Gaibéus e Avieiros antes dos anos 60 são, respectivamente, de 1947 e de 1945 e a de Fanga de 1948 ou 1949, com uma edição de bolso em 1958? Isto é, entre quinze e vinte e três anos de distância.

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Com colaboradores da Agência de Publicidade Êxito, Álvaro Guerra, Fernando Santos, Fernando de Almeida e António Borges e o Eng. João Chaves, do Secretariado Internacional da Lã, grande cliente da agência.


Alves Redol, na casa de Caxias, em meados dos anos 60.

Porque não houve reedições, se os romances continuam a ser considerados importantes e a ser referidos pelos estudiosos? Certamente porque Redol, nos anos 50, pensando que o Neo-Realismo tem de tomar outros rumos, mais conducentes com a nova realidade nacional e mundial, com maior atenção aos aspectos formais, não quer reeditar aqueles textos. Quando reedita Fanga, em 1963, introduz alterações e prefacia. E o mesmo se passa com Gaibéus em 1965 e, agora, com Avieiros, aquele que sofreu alterações mais profundas. Durante alguns anos, também não houve reedições porque a Editorial Inquérito continua a realizar reimpressões sem autorização do autor. Numa carta ao editor, Redol confronta-o com essa realidade, mas aquele nada responde. Por essa razão, no contrato com Publicações Europa-América prevê-se o controlo das tiragens, o que Redol nunca faz, mas que o filho fará após a morte do escritor. Aliás, as edições fantasmas e as tiragens muito superiores ao declarado continuam, hoje, a ser prática corrente em muitas editoras portuguesas e estrangeiras. Especialmente com autores estrangeiros, que não têm qualquer hipótese de acompanhar o andamento das vendas. Por outro lado, como contabilista que é, o escritor tem uma contabilidade própria das relações com a Europa-América, registando num livrinho que existe no seu espólio os “deve e haver”. E o editor, todos os anos faz o apuramento das vendas efectuadas, entregando, também, ao autor, o inventário das obras em armazém. Redol é, igualmente, rigoroso com as suas próprias contas e faz, todos os meses, contabilidade dos seus gastos, para melhor os controlar. Em 27 de Janeiro, realiza-se no Cine-Teatro Gardunha, no Fundão, uma sessão comemorativa do 22º aniversário do Jornal do Fundão, aproveitando-se para homenagear a poesia brasileira. A sessão era para ser presidida pelo Embaixador do Brasil, que não pode comparecer, pelo que é indicado o nome de José Cardoso Pires para presidir. Mas as autoridades locais não aceitam o seu nome. Por isso, a sessão acaba por ser presidida pelo Director do jornal, António Paulouro, ladeado por João Cabral de Melo Neto, Alves Redol e Dr. José Lopes Dias à direita e José Cardoso

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Pires, sua esposa e o corregedor do Círculo Judicial de Castelo Branco à esquerda. São lidos poemas de Cabral Neto por Arnaldo Saraiva e Ruy Belo. No dia 8 de Fevereiro, é lançado ao mar em S. Martinho do Porto e benzido pelo padre da Nazaré, o novo barco da família Formiga Peixe, que resolve dar-lhe o nome de “Uma Fenda na Muralha”, num processo já atrás referido. Que melhor homenagem para um escritor, ver o nome de um seu romance ser nome de um barco? Equipamento que é a menina dos olhos dos seus donos e o seu único ganha-pão. Normalmente, um barco tem nome de mulher ou de santo. Durante este ano, a situação pessoal de Redol não se esclarece na Êxito. Ainda escreve uma carta ao sócio maioritário a lembrar que “andamos nisto há dezoito meses” e quando este, em Outubro, lhe propõe uma reunião (mais uma) para se discutir o assunto, Redol já resolvera sair. Alberto Ferreira tem, então, uma pequena agência de publicidade, Espiral, na Avenida da República, 98 – 7º Dto, em Lisboa. Junta-se-lhe, entra para sócio, juntamente com outros e alargam a empresa, que vai instalar-se, já em meados de 1969, na Rua Almirante Reis, 82 – 6º Dto. Muitos dos clientes importantes seguem Redol, assim como muitos dos melhores quadros, e, enquanto, a Êxito cai rápida e inexoravelmente, acabando por se extinguir, a Espiral cresce e, dentro de pouco tempo é uma das melhores agências portuguesas de publicidade. Que a Êxito também o é antes. Os livros infantis da série da Flor No final do ano, são publicados A Flor Vai Ver o Mar e A Flor Vai Pescar Num Bote, com desenhos de Leonor Praça, que têm a indicação “Para ler e colorir”. É uma novidade, porque “os livros não são para estragar”, na acepção geral. Mas, nestes, as crianças são exortadas a colorirem os desenhos a preto e branco com os seus lápis de cor. É mais uma inovação, para além do texto do primeiro ser escrito só com monossílabos e o do segundo com monossílabos e dissílabos. Alves Redol continua a viver em Caxias, onde faz amizade com as crianças filhas dos amigos e conhecidos com que se encontra na Pastelaria Vera Cruz. Mais tarde, já adultas, dirão que Redol lhes dá grande atenção e importância, e que conversa muito com elas, o que as marca profundamente, porque a maioria dos adultos não procede assim. Em Novembro, Redol intervém para ajudar um primo da Golegã que ficou imobilizado em toda a parte inferior do corpo, em resultado dum acidente de trabalho, procurando a empresa eximir-se a responsabilidades. Pede a ajuda do advogado e amigo Dr. Humberto Lopes, de Santarém, o qual consegue uma pensão mais elevada do que aquela que a empresa está decidida a dar. Em 28 de Outubro, Publicações Europa-América organiza na Livraria Quadrante, em Lisboa, uma sessão de apresentação de quatro livros por si editados: Alves Redol (6ª edição de Avieiros), Fernando Namora (Um Sino na Montanha), Maria Isabel Barreno (De Noite as Árvores São Negras) e João Palma Ferreira (Três Semanas em Maio). No dia 18 de Março, Mário Soares é deportado para Timor. É uma represália de Marcelo Caetano por Soares ter 309


investigado e denunciado os autores da morte de Humberto Delgado, que o Regime quer atribuir a lutas entre facções da oposição. 1969 A doença declara-se. A morte. Redol começa a revelar graves problemas de saúde e continua a emagrecer, apesar de tomar medicamentos para abrir o apetite. A sua médica é a Drª Maria Julieta Gandra, que estivera em Angola a partir dos anos 40, onde se dá com os intelectuais que W a fundar o MPLA. Presa em 1959, é julgada em Luanda por actividades contra a segurança do estado, sendo condenada a vários anos de prisão. Em 1964, é considerada pela Amnistia Internacional como “prisioneira do ano”. O Dr. Arménio Ferreira, que conhece quando está em Luanda é o médico cardiologista de Redol. No consultório e laboratório do Prof. Luís Dias Amado, que foi Grão-Mestre da Maçonaria, expulso da Universidade e com quem estivera no MUD, faz as análises que os médicos lhe pedem. Consulta Arquimedes da Silva Santos e o psiquiatra Joaquim Seabra Diniz em várias situações. Em Maio, Redol vai para o Hospital Particular, a conselho da médica, para fazer uma estadia de repouso, mas não melhora. “Não ando bem”, escreve a um amigo. Está ali doze dias. Em 9 de Setembro, escreve uma carta ao Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, Dr. Azeredo Perdigão, acusando a recepção da que este lhe envia em 29 de Julho, convidando-o para a inauguração do “Museu, a Biblioteca e as demais instalações culturais da Fundação Calouste Gulbenkian”, pedindo desculpa “de não haver respondido ao convite que me foi dirigido”, mas “Uma longa doença explica a minha falta” e “O prolongado período de convalescença que agora se seguirá, impede-me de estar junto de V.Exa. para lhe prestar a minha homenagem pelos instrumentos culturais postos ao serviço do país”. Em carta de final de Outubro, Cardoso Pires escreve: “Achei-te em baixo quando parti – e tenho a impressão de que esse maldito orgulho de quereres fazer tudo bem onde te metas é que dá cabo de ti. Merda para a publicidade”. Em meados de Outubro, é internado no Hospital de Santa Maria, onde é visto pelo médico Dr. Francisco Santos Costa, que percebe imediatamente qual é a doença. O fígado está duro como pedra. Feita uma biópsia, confirma-se o veridicto, que lhe não é comunicado. É bem tratado, está num quarto sozinho: Clínica Médica, Piso 5, Quarto 5. Mantém-se internado, com a assistência de Maria Orquídea e recebe muitas visitas e cartas, a que vai respondendo. Todos os amigos e conhecidos ali vão. Mas Álvaro Guerra não. Estão de candeias às avessas, por razões que não se conhecem. Francisco Lyon de Castro visita-o e propõe-se publicar uma edição ilustrada de Fanga, com desenhos coloridos de Manuel Ribeiro de Pavia, que este prepara ainda nos anos 40, para outra edição ilustrada, com desenhos a preto e branco. Segundo o próprio editor, é uma forma de manter o escritor atento e interessado. Mas toda a gente sabe que o fim está 310

próximo. Muitos não voltam ali, porque não aguentam a situação e não querem chorar na sua presença. Dos outros, alguns choram quando saem do quarto. Toda a vida, depois de Angola, Redol tem problemas de saúde e é sempre uma pessoa frágil. Numa entrevista, declara que já lhe passou a anemia que tinha há muito. Mas tem sempre muito cuidado com a alimentação. Come pouco e simples. Raramente bebe vinho ou ingere comidas complicadas. Depois da sua morte, o médico Dr. Francisco Santos Costa diz que o paludismo lhe afectara o fígado para sempre e que pode estar aí a origem do cancro, embora as mestástases cheguem aos pulmões. Também pode estar aqui a origem do mal, pois Redol é um inveterado fumador, como se pode ver em numerosas fotografias. Fuma mais de que um maço de tabaco por dia, talvez dois. Quando escreve tem de fumar! Maria, que estivera todo o tempo, desde 1948, à espera que o marido voltasse para casa e nunca pensa em refazer a vida, manda-lhe um recado oferecendo-se para recebê-lo, tratando dele sem qualquer compromisso futuro. Mas ele, obviamente, recusa. Redol escreve a José Cardoso Pires, que está em Londres no King’s College, a dar aulas, despedindo-se : “Eu serei um dos que morre na incomunicabilidade com o seu tempo”. Na resposta, Cardoso Pires tenta animá-lo, mas já soubera pela Edite, a sua mulher, como estão as coisas.

Rogério de Freitas, no stand de Publicações Europa-América na Feira de Hamburgo, nos anos 60, promovendo as obras de Alves Redol e Fernando Namora.

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Ainda tem tempo para comunicar a alguns amigos que gostaria que parte dos direitos de autor dos seus livros, os de Fanga, por exemplo, seja utilizada no apoio a bibliotecas populares. E escreve um pequeno apontamento em que indica Alberto Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Ventura e o filho como executantes dessa vontade. Após a sua morte, forma-se uma Comissão Legado Alves Redol, é comunicada a intenção numa conferência de imprensa. Ainda se trabalha durante uns anos, com muitas dificuldades, porque os intervenientes são pessoas com muitos afazeres, mas em 1982 não há condições para continuar e o projecto cai. Todavia, no período de existência da Comissão ainda se concretizam iniciativas importantes, como a edição das Obras Completas de Alves Redol, a Comemoração do 40º Aniversário de Gaibéus e outras, como a decisão de se abandonar o projecto de uma Casa-Museu Alves Redol e de se avançar para a constituição do Museu do Neo-Realismo. No hospital, vai escrevendo, claro, pois não pode passsar sem o fazer. Nos seus últimos apontamentos regista: “Herdade da Palma Existe uma estação de correios só para ele. Foi herói das campanhas coloniais contra os Índios (?) Não pode deitar-se sobre o fígado para não estragar o resto que lhe sobeja da cerveja, do damão e do paludismo (falar do seu honrado comércio) Por outra banda, deita-se um pouco de través para que a injecção lhe faça efeito. Está inchado dos pés e há que pô-los do tamanho de … ________ Escuridão”

Quando já está em coma, os pais vão despedir-se dele. A mãe, “nem uma lágrima”, como no dia que dele se despede quando parte para Angola. Olhar fixo, nem uma palavra. Mas, logo a seguir entra em coma, não se apercebe do funeral do filho que lhe passa à porta e, duas semanas depois, fina-se ela! Em 29 de Novembro, falece no hospital e o seu corpo fica em câmara ardente na Casa da Imprensa, onde muitas centenas de pessoas do mundo da literatura, do teatro, do cinema, da rádio, dos jornais, da ciência, amigos e admiradores, acorrem. No dia 30, o funeral sai para Vila Franca, pela estrada nacional, onde se junta muita gente nas principais localidades, nalguns casos com estandartes de colectividades. Em Alhandra, um numeroso grupo de pessoas, aglomerado à entrada da vila, pede para o carro funerário percorrer as ruas da terra, acompanhando-o. Em Vila Franca, o corpo está, primeiro, na Biblioteca Alves Redol, da União Desportiva Vilafranquense, cuja Secção Cultural organiza o funeral. Junta-se uma grande multidão, com gente vinda de todo o país e a terra assiste ao maior funeral de que há memória. Costa de Caparica, Abril-Outubro de 2011

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bibliografia


BIBLIOGRAFIA ACTIVA ROMANCES Gaibéus Gaibéus: romance, 1ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], 1939. 2ª ed., Lisboa: Livraria Portugália, 1941. 4ª ed., Lisboa: Ed. Inquérito, 1945. 4ª ed., [capa nova], Lisboa: Ed. Inquérito, 1945. (Obras de Alves Redol). Gaibéus, Marés e Avieiros, Lisboa: Ed. Inquérito, [1945?]. (Os Romances de Alves Redol). 6ª ed. refundida, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1965. 7ª ed., Martins: Publicações Europa-América, 1969. [1ª ed. de bolso], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, imp. 1971. (Livros de Bolso Europa-América; 11). 3ª ed. de bolso, texto integral, Mem Martins: Publicações Europa-América, imp. 1974. (Livros de Bolso EuropaAmérica; 11). 4ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, imp. 1975. (Livros de Bolso Europa-América; 11). 5ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, imp. 1976. (Livros de Bolso Europa-América; 11). 7ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1979. (Livros de Bolso Europa-América; 11). 8ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1983. (Livros de Bolso Europa-América; 11). 15ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1979. (Obras Completas de Alves Redol; 17). Mem Martins: Publicações Europa-América, [1979]. Edição especial comemorativa do 40º aniversário de Gaibéus, com ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia. 16ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1983. 17ª ed., Lisboa: Caminho, 1989. (Alves Redol. Obras Completas). Edição comemorativa dos 50 anos da primeira edição (1939-1989). 18ª ed., Lisboa: Caminho, 1993. (Alves Redol. Obras Completas). [19ª ed.], Lisboa: RBA, 1994. (Narrativa Actual). 20ª ed., Lisboa: Caminho, 2005. (Alves Redol. Obras Completas). Lisboa: Leya, 2009. (BIIS). 22ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Obras Completas de Alves Redol). Marés Marés: romance, [1ª ed.], Lisboa: Livraria Portugália, 1941. 2ª ed., Lisboa: Ed. Inquérito, 1944. (Obras de Alves Redol). 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 6). 5ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1978. (Obras Completas de Alves Redol; 6). 6ª ed., Lisboa: Caminho, 2002. (Alves Redol. Obras Completas; 4). 7ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Avieiros Avieiros, [1ª ed.], Lisboa: Livraria Portugália, 1942. 2ª ed., Lisboa: Livraria Portugália, [1943]. 3ª ed., Lisboa: Ed. Inquérito, 1945. (Obras de Alves Redol). 3ª ed., [capa nova], Lisboa: Ed. Inquérito, 1945. (Obras de Alves Redol).

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4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1967. 5ª ed., nova versão com prefácio do autor, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1968. 6ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 5) 7ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1976. (Obras Completas de Alves Redol; 5) [1ª ed. de bolso], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [1979]. (Livros de Bolso Europa-América; 214). 8ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980. (Obras Completas de Alves Redol; 5). [2ª ed. de bolso], Mem Martins: Francisco Lyon de Castro, [1982]. (Livros de Bolso Europa-América; 214). [11ª] Lisboa: Mediaset, 2004. 12ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Fanga Fanga: romance, [1ª ed.], Lisboa: Portugália Editora, 1943. 2ª ed., Lisboa: Ed. Inquérito, 1943. (Obras de Alves Redol). [3ª ed.], Lisboa: [s. n.], 1948. Desta edição fez-se uma tiragem especial em papel offset, de 50 exemplares, numerada e rubricada pelo autor, com ilustrações Manuel Ribeiro de Pavia. [3ª ed.], [capa nova], Lisboa: [s. n.], 1948. 4ª ed. [5ª ed.], Lisboa: Publicações Europa-América. imp. 1958. (Colecção Os Livros das Três Abelhas; 15)1. 6ª ed., rev. pelo autor, Lisboa: Livraria Portugália, 1963. (Colecção Contemporânea; 44). 7ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969. 8ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 1). 9ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1976. (Obras Completas de Alves Redol; 1). 10ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980. (Obras Completas de Alves Redol; 1) 11ª ed., Lisboa: Caminho, 1996. (Alves Redol. Obras Completas; 4). 12ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Anúncio Anúncio, 1ª ed., Lisboa: Inquérito, imp. 1945. (Obras de Alves Redol). 2ª ed., Lisboa: Ed. Inquérito, imp. 1945. (Obras de Alves Redol). 3ª ed., Lisboa: Livraria Portugália, 1964. (Contemporânea; 55). 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1982. (Obras Completas de Alves Redol; 19) Porto Manso Porto Manso: romance, [1ª ed.], Lisboa: Inquérito, [1946]. (Obras de Alves Redol). 2ª ed., Lisboa: Inquérito, [s. d.]. (Obras de Alves Redol). 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1979. (Obras Completas de Alves Redol; 16) 4ª ed., Lisboa: Caminho, 1999. (Alves Redol. Obras Completas; 7). 5ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Horizonte Cerrado Horizonte cerrado: ciclo port-wine I: romance, 1ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], 1949.

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Na realidade, é a 5ª ed.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


[1ª ed.], Lisboa: [Ed. do Autor], 1949. Desta edição fez-se uma tiragem em papel especial, numerada e assinada pelo autor, com ilustrações de Júlio Pomar. 1ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], 1949. Edição em papel normal, com ilustrações de Júlio Pomar. 2ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], 1949. 1ª ed. nesta col. [3ª ed.], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1974. (Obras completas de Alves Redol; 10). 2ª ed. nesta col. [4ª ed.], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1981. (Obras completas de Alves Redol; 10). Os Homens e as Sombras Homens e as sombras (Os): ciclo port-wine II: romance, 1ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], [1951]. 2ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], [19--?]. 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1974. (Obras Completas de Alves Redol; 11). 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1981. (Obras Completas de Alves Redol; 11). Vindima de Sangue Vindima de Sangue: ciclo port-wine III, 1ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor, 1953]. 2ª ed., Lisboa: [Ed. do Autor], 1954. 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1975. (Obras Completas de Alves Redol; 12). 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980. (Obras Completas de Alves Redol; 12). Olhos de Água Olhos de água, [1ª ed.], Lisboa: Centro Bibliográfico, [1954]. (Tempo Presente; 1). 2ª ed., Lisboa: Portugália Editora, [19--?]. (Contemporânea; 15). 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1967. 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1978. (Obras Completas de Alves Redol; 15). 5ª ed., Lisboa: Caminho, 1993. (Alves Redol. Obras Completas; 11). 5ª ed., [capa nova de 2011], Lisboa: Caminho, 1993. (Alves Redol. Obras Completas). A Barca dos Sete Lemes A Barca dos sete lemes, [1ª ed.], Lisboa: Publicações EuropaAmérica, [1958]. (Século 20; 14). 2ª ed., Lisboa: Publicações Europa-América, imp. 1959. (Colecção Século 20). 3ª ed. [rev.], Lisboa: Publicações Europa-América, 1962. (Século 20; 14). 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1964. (Século 20; 14). 5ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1967. 6ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 3). 7ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1977. (Obras Completas de Alves Redol; 3). 8ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1986. (Século 20; 14). 9ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Uma Fenda na Muralha Uma fenda na muralha: romance, [1ª ed.], Lisboa: Portugália Editora, [1959]. (Contemporânea; 9).

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

2ª ed. refundida, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1965. 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969. 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1976. (Obras Completas de Alves Redol; 14). 5ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980. (Obras Completas de Alves Redol; 14). O Cavalo Espantado O cavalo espantado: romance, 1ª ed., Lisboa: Portugália Editora. [imp. 1960]. (Contemporânea; 17). 2ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1967 (imp. 1968). 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 4). 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1977. (Obras Completas de Alves Redol; 4). Barranco de Cegos Barranco de cegos, [1ª ed.], Lisboa: Portugália Editora, [imp. 1961]. (Contemporânea; 29). 2ª ed. rev. pelo autor, Lisboa: Portugália, [1963]. (Contemporânea; 29). 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1970. 4ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1973. (Obras Completas de Alves Redol; 9). 5ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1976. (Obras Completas de Alves Redol; 9). 6ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980. (Obras Completas de Alves Redol). [7ª ed.], Lisboa: Edições Avante, 1982. Com ilustrações de Jorge Pinheiro. [8ª ed. de bolso], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1983. (Livros de Bolso Europa-América; 351). [9ª ed.], Lisboa: Círculo dos Leitores, 1987. (Série Romances Portugueses – Obras Primas Século 20). [10ª ed.], Lisboa: RBA, 1994 [D. L. 1995]. (História da Literatura; 40). 11ª ed., Lisboa: Caminho, 1998. (Alves Redol. Obras Completas; 15). [12ª ed.], Lisboa: Planeta DeAgostini, 2000. (Os Grandes Escritores Portugueses Actuais). 12ª ed., [13ª ed.], Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas) 2. O Muro Branco O Muro branco: romance, [1ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, [imp. 1966]. 2ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1968. 3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1976. (Obras Completas de Alves Redol; 13). 4ª ed., Lisboa: Caminho, 1992. (Alves Redol. Obras Completas; 16). Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Os Reinegros Os Reinegros, 1ª ed., Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 7).

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Na realidade, é a 13ª ed.

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[2ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, D.L. 1986. (Século 20; 270).

3ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1980. (Obras Completas de Alves Redol; 8).

CONTOS

Três Contos de Dentes “Três Contos de Dentes”, in: Histórias breves de escritores ribatejanos, Lisboa: Prelo, 1968, p. [35]-48.

Nasci com Passaporte de Turista Nasci com passaporte de turista: contos, [1ª ed.], Lisboa: Ed. do Autor, 1940. [2ª ed.], Lisboa: Caminho, 1991. (Alves Redol. Obras Completas; 17) 3. 3ª ed., Lisboa: Caminho, 2011. (Alves Redol. Obras Completas). Espólio Espólio: conto, [s. l.]: [s. n.], [s. d.]. Comboio das Seis Comboio das seis (O), [1ª ed.], [s. l.]: Edições Academia - Académica Editora, 1946, (Prosadores Portugueses Contemporâneos). Noite Esquecida Noite esquecida, [1ª ed.], Lisboa: Estúdios Cor, 1959. Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos Constantino, guardador de vacas e de sonhos, 1ª ed., Lisboa: Portugália Editora, imp. 1962. 1ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1971. (Livros de Bolso Europa-América). 2ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, imp. 1975. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 3ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, imp. 1975. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 5ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica. imp. 1977. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 6ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica. imp. 1977. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 7ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [1977]. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 8ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [1977]. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 9ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [1980]. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 10ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [1981?]. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 11ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [1987]. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 12ª ed. de bolso, Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, 1988. (Livros de Bolso Europa-América; 100). 15ª ed., Lisboa: Caminho, 1990. (De Par em Par). 16ª ed., Lisboa: Caminho, [imp. 1992]. (De Par em Par). 16ª ed., Lisboa: Caminho, [imp. 1995]. (De Par em Par). 17ª ed., Lisboa: Caminho, imp. 1997. (De Par em Par). 18ª ed., Lisboa: Caminho, imp. 1998. (De Par em Par). 19ª ed., Lisboa: Caminho, imp. 1999. (De Par em Par). 20ª ed., Lisboa: Caminho, D. L. 2002. (De Par em Par). 21ª ed., Lisboa: Caminho, imp. 2008. (Livros do Dia e da Noite). Histórias Afluentes Histórias afluentes, [1ª ed.], Lisboa: Portugália Editora, [imp. 1963]. (Contemporânea ; 53). 2ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. (Obras Completas de Alves Redol; 8).

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TEATRO Forja Forja: tragédia, [1ª ed.], Lisboa: [Ed. do Autor], 1948. Desta edição fez-se uma tiragem em papel especial numerada e assinada pelo autor. [1ª ed.], [capa nova], Lisboa: [Ed. do Autor], 1948. Teatro I – Forja e Maria Emília Teatro I – Forja e Maria Emília, 1ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1966. [1ª ed.], [capa nova de 1969?], Mem Martins: Publicações Europa-América, 1966. Com capa especial destinada a ofertas pelo editor e pelos herdeiros do autor. [2ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, 1970. (Obras Completas de Alves Redol; 20). Teatro II – O Destino Morreu de Repente Teatro II: O destino morreu de repente, [1ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, cop. 1967. [1ª ed.], [capa nova], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, cop. 1967. (Obras Completas de Alves Redol; 21). Teatro III – Fronteira Fechada Teatro III: Fronteira fechada, 1ª ed., Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972. LITERATURA INFANTIL A Vida Mágica da Sementinha A vida mágica da sementinha: uma breve história do trigo, [1ª ed.], Lisboa: [s. n.], 1956. [2ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, D. L. 1987. [3ª ed.], Lisboa: Caminho, [1993]. (De Par em Par). [4ª ed.], Lisboa: Caminho, imp. 1995. (De Par em Par). [5ª ed.], Lisboa: Caminho, D. L. 1997. (De Par em Par). 4ª ed., [6ª ed.], Lisboa: Caminho, D. L. 1999. (De Par em Par) 4. 5ª ed., [7ª ed.], Lisboa: Caminho, D. L. 2001. (De Par em Par) 5. 8ª ed., Lisboa: Caminho, 2008. (Livros do Dia e da Noite). A Flor Vai Ver o Mar A Flor vai ver o mar, [1ª ed.], Mem Martins: Publicações EuropaAmérica, [cop. 1968]. (6/12; 2). [2ª ed.], Lisboa: Caminho, 2006. A Flor Vai Pescar Num Bote A Flor vai pescar num bote, [1ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, [cop. 1968]. (6/12; 2). [2ª ed.], Lisboa: Caminho, 2006.

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O organizador desta antologia acrescentou à edição de 1940, contos que se encontravam dispersos. Na realidade, é a 6ª ed. Na realidade, é a 7ª ed.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


2ª ed., [3ª ed.], Lisboa: Caminho, 20116. Uma Flor Chamada Maria Uma flor chamada Maria, [1ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, [1969]. (6/12; 2). [2ª ed.], Mem Martins: Francisco Lyon de Castro, cop. 1969. (6/12)7. [3ª ed.], Lisboa: Caminho, D. L. 2007. Maria Flor Abre o Livro das Surpresas Maria Flor abre o livro das surpresas, [1ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, [cop. 1970]. (6/12; 2). [2ª ed.], Lisboa: Caminho, 2008. ESTUDOS Glória – Uma Aldeia do Ribatejo Glória: uma aldeia do Ribatejo: ensaio etnográfico, [1ª ed.], Lisboa: Ed. do Autor, 1938. [2ª ed.], Mem Martins: Publicações Europa-América, [1982?]. (Obras Completas de Alves Redol; 18) 3ª ed., Lisboa: Caminho, 2004. (Obras Completas de Alves Redol; 19). Lisboa: Caminho, 2011. Ribatejo “Ribatejo”, in Portugal Maravilhoso, vol. 2, n.º 6 [s. d.], p. 90-[?]. A França – Da Resistência à Renascença A França: da resistência à renascença, [1ª ed.], Lisboa: Ed. do Autor, [1948?]. Cancioneiro do Ribatejo Cancioneiro do Ribatejo, [1ª ed.], [s. l.]: Centro Bibliográfico, 1950. Romanceiro Geral do Povo Português Romanceiro geral do povo português, [1ª ed.], Lisboa: Iniciativas Editoriais, [1959?]. (Tesoiros da Nossa Literatura). CONFERÊNCIA Le Roman du Tage Le Roman du Tage, [1ª ed.], Paris: Union Française Universitaire, [1946]. TRADUÇÕES DE OBRAS DO AUTOR 8 Prístav Manso = Porto Manso, trad. Milada Fliederová, Praha (Checoslováquia): Ceskoslovenský Spisovatel, 1949. Fanga, trad. Zdenèk Hampejs, Praha (Checoslováquia): Ceskoslovenský Spisovatel, 1951. The man with the seven names = A barca dos sete lemes, trad. Linton Lomas Barrett, New York: Alfred A. Knopf, 1964. The man with seven names = A barca dos sete lemes, trad. Linton Lomas Barrett, New York: Alfred A. Knopf, 1964. Covek sa sedam imena = A barca dos sete lemes, trad. Miodrag Bulatovic, Titograd (Jugoslávia): Graficki Zavod, 1965. (Besteseleri). Trad. servo-croata. Moz s sedmimi imeni = A barca dos sete lemes, trad. Katarina Pucova, Ljubljana: Mladinska Knjiga, 1966. Trad. eslovena. Der mann mit den sieben namen = A barca dos sete lemes, trad. Andreas Klotsch, Berlin: Volk und Welt, 1968.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO

A hétevezös bárka = A barca dos sete lemes, trad. Hargitai György, Budapest: Kossuth Könyvkiado, 1971. Otchlan slepców = Barranco de cegos, trad. Bozena Olesiowa, Wroclaw: Wydawnictwo Literackie Kraków, 1985. [Trad. em mandarim] = Barranco de Cegos, Macau: Instituto Cultural: Instituto Português do Oriente, 2000. (CravoBiblioteca Básica de Autores Portugueses. Literatura; 25). PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS (artigos, contos, novelas, crónicas e capítulos de livros) “Homenageando”, Vida Ribatejana, n.º 253 (10 Jul. 1927). “Toiros”, Vida Ribatejana, n.º 256 (31 Jul. 1927). “Glória aos nossos”, Vida Ribatejana, n.º 258 (14 Ago. 1927). “A caça”, Vida Ribatejana, n.º 261 (4 Set. 1927). “Progresso”, Vida Ribatejana, n.º 264 (2 Out. 1927). “Decadência”, Vida Ribatejana, n.º 275 (25 Dez. 1927). “Um dever”, Vida Ribatejana, n.º 279 (22 Jan. 1928). “Justiça!...”, Vida Ribatejana, n.º 283 (19 Fev. 1928). “De Longe…: Partida”, Vida Ribatejana, n.º 310 (16 Set. 1928). “De Longe…: Aspectos”, Vida Ribatejana, n.º 312 (30 Set. 1928). “De Longe…: Madeira”, Vida Ribatejana, n.º 314 (14 Out. 1928). “De Longe…: Madeira”, Vida Ribatejana, n.º 315 (21 Out. 1928). “De Longe…: Farrapos”, Vida Ribatejana, n.º 317 (4 Nov. 1928). “De Longe…: S. Tomé”, Vida Ribatejana, n.º 321 (2 Dez. 1928). “De Longe…: A Carolina”, Vida Ribatejana, n.º 326 (6 Jan. 1929). “De Longe…: Prelúdio”, Vida Ribatejana, n.º 327 (13 Jan. 1929). “De Longe…: Natal”, Vida Ribatejana, n.º 331/2 (17 Fev. 1929). “De Longe…: História”, Vida Ribatejana, n.º 335 (10 Mar. 1929). “De Longe…: Ressurgimento”, Vida Ribatejana, n.º 339 (7 Abr. 1929). “De Longe…: Emissários”, Vida Ribatejana, n.º 343 (5 Mai. 1929). “De Longe…: Emissários”, Vida Ribatejana, n.º 350 (23 Jun. 1929). “De Longe…: Lisete”, Vida Ribatejana, n.º 380 (26 Jan. 1930). “De Longe…: Confissão”, Vida Ribatejana, n.º 383-384 (23 Fev. 1930). “De Longe”, Vida Ribatejana, n.º 405 (27 Jul. 1930). “Para tu cantares”, Vida Ribatejana, n.º 431 (22 Fev. 1931). “O fogo”, Vida Ribatejana, n.º 441 (3 Mai. 1931). “O modelo”, Vida Ribatejana, n.º 449 (5 Jul. 1931). “Lambeu”, Vida Ribatejana, n.º 450 (12 Jul. 1931). “O volúvel”, Vida Ribatejana, n.º 452 (26 Jul. 1931). “Almas perdidas”, Vida Ribatejana, n.º 458 (13 Set. 1931). “O perigo do cancro”, Vida Ribatejana, n.º 463 (18 Out. 1931). “África em fogo”, Vida Ribatejana, n.º 466 (8 Nov. 1931). “Poente”, Vida Ribatejana, n.º 469 (29 Nov. 1931). “Um Drama na Selva”, O Notícias Ilustrado, n.º 208 (5 Jun. 1932). “Um inquérito oportuno – reúne o Tribunal”, Mensageiro do Ribatejo, n.º 126 (30 Jun. 1932). “Gente rude”, O Notícias Ilustrado, s. 2, a. 5, n.º 216 (3 Jul. 1932). 6 7 8

Na realidade, é a 3ª ed. Ed. especial feita pelo Ministério da Educação. Sabe-se da existência de uma trad. russa e de uma tradução búlgara, editada pela Narodna Kultura [anos 50?] de Fanga; de uma trad. russa, editada pela Meshdunarodnaja Kniga, e de uma trad. italiana, editada pela Arnoldo Mondadori Editore, [1962?], ambas de A barca dos sete lemes.

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9

Era o título inicialmente previsto para Uma fenda na muralha.

Alves Redol HORIZONTE REVELADO


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Alves Redol HORIZONTE REVELADO


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Alves Redol HORIZONTE REVELADO

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Alves Redol HORIZONTE REVELADO

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