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Distribuído mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

Museu da cortiça esquecido no tempo

9 | SET | 2010 • Nº 25 • Mensal • Este caderno faz parte integrante da edição nº1000 do POSTAL do ALGARVE e não pode ser vendido separadamente

p. 14 e 15

• I Festival Internacional de Literatura no Algarve » p. 6 e 7 • Fotógrafos da ALFA cobrem La Fura Dels Baus » p. 8 e 9 • Santo Asinha e Outros Poemas » p. 13

ALGARVE • ALENTEJO


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SIMPLEX DICTUM

MÚSICA

Madame Godard apresenta “Galapagos” DR

João Evaristo Editor Cultura.Sul

"Cultura, gravatas e foguetes no ar!"

“N

o dia em que o Rei fez anos houve arraial e foguetes no ar”, canta José Cid. Em bom exemplo c omemorámos o aniversário da morte do Infante, com um belo arraial e foguetes no ar… e farturas e pipocas, esses dois grandes símbolos da cultura popular. Há quem não chame a isto cultura. Talvez… animação ou produto comercial de cariz cultural, imputando-lhe um objectivo financeiro. Que não será necessariamente pior que um produto cultural de cariz comercial. “O mais do que isto |É Jesus Cristo, | Que não sabia nada de finanças. | Nem consta que tivesse biblioteca”, escreveu Pessoa

A cultura continua a ser uma espécie de gravata. Ninguém sabe bem para que serve mas usam-na… Porque fica bem!

destaque

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Compreende-se, afinal a cultura, tal como a gravata, é muito antiga e talvez por isso o seu verdadeiro significado tenha ficado camuflado pelo cotão da história. O sol, a chuva e o vento levaram-lhe a cor e a traça roeu-lhe a essência. Há culturas e gravatas para todos os gostos. Com mais ou com menos folhos, coloridas ou cinzentas, de festa ou de cerimónia. E vão sendo usadas por muitos que não podendo sê-lo querem parecê-lo. Tipo um disfarce, um suponhamos, um faz-de-conta, em que se juntam todos numa espécie de baile de máscaras e tecem as mais obscenas considerações sobre cultura. Nunca fizeram nada, não sabem fazer nada, mas têm muitos projectos, ou tiveram um, uma vez, que falhou por culpa do sistema ou por outra razão circunfusa. Mas têm acima de tudo lições para dar e conselhos. Alguns nunca leram um livro, mas fazem questão de manter uma biblioteca montada com base numa listagem de títulos que alguém lhes fez acreditar que seriam incontornáveis. Tudo depende do orçamento e do bom gosto. O pior é quando o primeiro falta e o segundo, não sendo discutível, é lamentável. Afrouxa-se a gravata, descompõe-se o figurino e pendurase a cultura no guarda-fato. Um dia alguém perguntou a um camponês o que era a cultura. Ele respondeu: “A cultura sou eu, é o senhor, é a minha mulher, os meus filhos, o meu vizinho…” Comove-me a sabedoria popular. E o facto do camponês não usar gravata levam-me a pensar que a pressão exercida sobre a carótida de quem a usa poderá ter consequências, nomeadamente a nível do nervo oftálmico. E isso parecendo que não é capaz de toldar a vista. Pois é, como escreveu António Gedeão “Onde Sancho vê moinhos Dom Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos! Vê gigantes? São gigantes!”

Ficha Técnica Direcção: Gorda Editor: João Evaristo Concepção gráfica: Ricardo Claro

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Os Madame Godart apresentam, neste espectáculo o seu mais recente álbum, «Galapagos». Praticando um som melódico e simples, ora mais ritmado a fugir para os ambientes ditos de cabarét como também com momentos mais melancólicos e introspectivos, os Madame Godard conseguem cruzar as mais dispares influências

tais como Serge Gainsbourg, Deus, Radiohead, Astor Piazzola e Pascal Comelade entre outros. 24 SET | 22.00 | TEMPO - Teatro Municipal de Portimão | Entrada Livre

João Evaristo

PINTURA

Cristina Carneiro expõe na Casa da Juventude de Olhão A artista, que desde muito cedo despertou para o mundo da arte, expõe, pela primeira vez, aos 22 anos. Nos seus quadros utiliza a técnica de Doodling Art, um tipo de desenho aparentemente simples e aleatório mas que em Cristina Carneiro ganha uma intenção e coerência de traço com resultados de grande dimensão artística. Esta jovem promissora considera-se, ainda, uma aprendiz, com “muito que ver, muito que aprender e principalmente muito que sentir, neste que é um mundo em constante mutação”.

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PINTURA

Design e paginação: Marta Vilhena Responsáveis pelas secções: »panorâmica.S - Ricardo Claro »cinema.S - Cineclubes de Faro, Olhão e Tavira

O Corredor das Artes é uma iniciativa da Casa da Juventude de Olhão que visa promover e divulgar os trabalhos de jovens artistas do concelho, incentivando novos talentos afirmandose no domínio das Artes. Desde 2004, ano em que foi inaugurado, já passaram pelo corredor mais de 50 exposições de 170 jovens artistas com trabalhos de excelente qualidade técnica e artística. 30 SET | 13.00>19.00 | Casa da Juventude de Olhão

João Evaristo

Exposição de pintura de Igor Nunes Silva Nasceu em 1977 em Portugal, de onde partiu para uma aventura inebriante de descobertas por vários continentes. Viajou por África, Ásia e pela Europa onde foi artista de rua e participou em diversos projectos. De volta à terra natal continua o seu processo de criação e envolve-se novamente em diversas actividades entre as quais, uma oficina de artes para crianças num projecto de apoio social, tendo sido fundador e orientador de um núcleo de banda desenhada. Colabora com espectáculos e jornais. A presente exposição apresenta vários estilos e formas, fazendo com que sobressaia uma luz muito própria onde a sensualidade

»livro.S - Adriana Nogueira »arte.S - João Evaristo »política.S - Henrique Dias Freire »património.S - Joaquim Parra

Colaboraram nesta edição: Direcção Regional de Cultura do Algarve; AGECAL; Cristian Valsecchi; António Laginha; Fernando Marreiros; ALFA; Cristina Braga; Ana Isabel Renda; Né-

é evidente e se destaca o corpo como traço singelo, de salientar a desmistificação da própria mascara, que assenta prevalentemente na fantasia deformadora. Nas obras escondem-se estranhamente formas mitológicas. 31 DEZ | Restaurante Bar The Terrace /Hotel Colina Verde (Sítio da Maragota/ Moncarapacho) | Reservas: 289790110

lia Sousa e-mail: geralcultura.sul@gmail.com Tiragem: 15.054


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MÚSICA

Aziza num espectáculo único em Portugal

Rodrigo Leão em Faro DR

Dono de uma das mais interessantes discografias do nosso país, o músico e compositor Rodrigo Leão tem conhecido o sucesso dentro e fora de portas, facto que lhe tem permitido ter convidados de peso nos seus discos, como aconteceu com Ryuichi Sakamoto ou Beth (Portishead) Gibbons. E isso reflecte apenas uma intensa ética de trabalho que nasce de uma dedicação profunda à música, patente desde sempre na sua carreira. “A Mãe” editado a 22 de

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Junho de 2009 teve entrada directa para o 1º Lugar do Top de vendas Nacional, lugar onde permaneceu 5 semanas consecutivas tendo já alcançado o galardão de disco de Platina! Paixão e intemporalidade são palavras que ocorrem quando se ouve o disco ou se presencia um concerto de Leão. 11 SET | 21.30 |Teatro das Figuras (Faro) | €15>€20

DR

Aziza Mustafa Zadeh, também conhecida como A Princesa do Jazz ou Jazziza, nasceu em Baku, no Azerbeijão, é cantora, pianista e compositora e faz uma fusão entre as suas raízes étnicas, o jazz e a música clássica. Aziza é dotada de um virtuosismo impressionante, além de ser uma extraordinária pianista e compositora. A junção

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MÚSICA

entre a técnica de canto lírico e o seu talento especial para a improvisação, que demonstrou desde muito cedo, fazem da sua voz, uma voz rara, completa, versátil, fluída e única, um instrumento como qualquer outro. Até hoje já gravou dez álbuns, intercalando as suas próprias composições, com standards de jazz e a sua forma particular de

interpretar peças clássicas de Bach e Chopin, entre outros. É, sem dúvida, um espectáculo inédito e único em Portugal. Simplesmente imperdível! 10 SET | 21.30 |Auditório Municipal de Olhão | €15

DANÇA

As Lágrimas de Saladino

Archie Shepp Quartet DR

O encanto de Archie Shepp vem todo ele de África, trazendo consigo a tradição da música Afro-Americana e revitalizando-a como só alguém que nasceu neste contexto histórico o poderia fazer. Histórico patriarca de um jazz aberto, puro. Archie Shepp não é apenas um mestre do saxofone. Ele representa uma consciência dupla, musical e política, que sempre definiu as suas opções estéticas que são vistas ao longo

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MÚSICA

de sua carreira: o estilo musical intenso do seu período de Free Jazz, a sua imersão no Blues, o seu namoro com o Rhythm N’ Blues, a paixão que emprega nas suas baladas e as suas frequentes passagens pelo Bop. 12 SET | 21.30 | Auditório Municipal de Albufeira

DR

As Lágrimas de Saladino é um espectáculo com coreografia, espaço cénico, desenho de luz de Rui Horta. Quando entrou em Jerusalém no ano de 1187, após 91 anos de sangrenta ocupação pelos combatentes cristãos do Ocidente, Saladino deu ordens aos seus soldados para evitar a pil-

hagem e o massacre. Quando a religião volta a ser o ponto de todas as discórdias, o coreógrafo parte deste “acto de compaixão” para nos propor uma reflexão sobre o outro, a diferença, a intolerância. “De algum modo”, antecipa Rui Horta, “As Lágrimas de Saladino” será também um

trabalho sobre a construção da incógnita. Um lugar de permanente tensão, mas de incomensurável poesia”. 25 SET | 21.30 | TEMPO Teatro Municipal de Portimão

destaque

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RIQUEZA MAIOR

Forte de Lagos

Fernando Marreiros

Nome

Forte da Ponta da Bandeira (também conhecido por Forte de Nossa Senhora da Penha de França, Forte do Pau da Bandeira, Forte do Registo Localização

Marginal de Lagos (Av. das Descobertas), concelho de Lagos, Distrito de Faro Data de Edificação

Finais da década de 70 até restau rante.

Nótula Histórica A sua construção

integ ra-se no pla no de protecção da baía de Lagos, substituindo, ao que parece, uma anterior fortif icação d e s i g n a d a p o r Fo r t e d a S o l a r i a . Tr a t a- s e d e u m a estr ut ura quadrang ular c om p a re de s em a lv en a r i a de pedra argamassada, l igeira mente inc l inadas, no e x ter ior, como for m a de oferecer maior resistência às bocas de fogo. Implantadas

em cada um dos seus cunhais encontramos quatro guaritas em alvenaria, colocadas aquando do restauro do e d i f íc io, em 1958 /6 0 . A entrada é feita por uma ponte levad iça sobre um fosso. Internamente, o forte apresenta um pátio cent ra l a pa r tir do qual se acede ao terraço superior por rampa. No piso inferior existe uma pequena capela com abóbada de berço e com um labrim de azulejos do século XVII com motivos f lorais em azul

e amarelo açafrão sobre f undo branco e fai xas de f lores- de- lis e folhas.

Pa r e c e t e r s i d o n o a r e a l onde foi const r u ído, que se assistiu à pr imeira venda d e e s c r a v o s e m Po r t u g a l . A padroeira do for te era N o s s a S e n h o r a d a Pe n h a de Fra nça, mas não se s a b e c omo s er i a a i m a g em que ocupava o respectivo nicho, embora possamos i m a g i n a r, te nd o e m c ont a a iconog ra f ia , t rata r-

se-ia de uma Virgem pousada numa penha e, na encosta, um laga r to. Nos anos 60 f uncionou a q u i o C e nt r o Náut ic o d a Moc id ade Por t u g ue sa . D e acordo com a tradição, é neste loca l que se celebra o B a n h o 2 9, à m e i a n o i t e do dia 29 de Agosto e que, act ua lmente inclui espectáculos de música, sardinha assada e o banho. Os compartimentos interiores do forte são act ua lmente utilizados para exposições e também por um pequeno

Real de Santo António, S. Brás de Alportel, Faro, Silves, Portimão entre outras. A sentença de mor te do Pirolito surge nos finais dos anos 50, quando o governo, por questões sanitárias considerou este tipo de garrafa inadequado, por não permitir uma lavagem e desinfecção adequada. Como consequência muitas fábricas

fe c h a r a m e o P i rol ito foi substituído pela garrafa de carica. Posteriormente, nos anos 70, como que para matar saudades, surge o Pirolito Bilas que, apesar de usar carica, tinha o formato do Pirolito e o respectivo berlinde, que era possível extrair removendo um dispositivo plástico no gargalo (sem necessidade de partir a garrafa). Quanto a preços, terão variado

Outras notas de interesse

Glossário Guarita: Uma g u a r ita , em a rqu itec t u ra m i l ita r, é u ma pequena torre com frestas ou seteiras, gera lme nte e r g u id a no â n g u lo ma is sa l iente de u m balua r tes de uma for t i f icação, com a f unção de prote c ç ão d a s s ent i ne l a s . Cunhais: Esquinas dos edifícios feitas de modo gera l em alvenaria ou em taipa ent recr uzada

••BAÚ

O PIROLITO

Joaquim Parra Professor de História e Coleccionista

património

O

Pirolito foi uma bebida que, durante a primeira metade do século XX, fez as delicias de adultos e, principalmente, dos mais pequenos que viam nela um “dois em um ”pois além de beberem o refrigerante, partindo a garrafa, tinham um “carolo” para jogar ao berlinde. Basicamente, era uma bebida gaseificada, feita à base de um xarope feito com açúcar, água, ácido cítrico e essência de limão a que era posteriormente adicionado gás carbónico. A forma como estes elementos era misturados era o segredo que fazia a diferença. Quanto ao sabor, ta lvez o refrigerante actual que mais se aproxima seja a Seven-Up. Mas o que torna esta bebida

famosa, não é o conteúdo mas sim a garrafa que o contém. Ao que parece, terá sido um inglês, Hiram Codd, o seu inventor. Em vidro transparente ou esverdeado, a sua forma é bem característica: base cilíndrica, seguida de um estrangulamento e gargalo cónico que terminava num anel de borracha que segurava a bola de vidro que, pela pressão do gás, fechava hermeticamente a garrafa. Para abrir, bastava carregar no berlinde. A Vidreira Santos Barosa (SB), Ricardo Santos Gallo (SG) a Companhia Industrial Vidreira (CV) entre outras, todas da Marinha Grande, eram as fornecedoras destas garrafas, conforme se pode verificar pelas iniciais gravadas no fundo das mesmas. Tratando-se normalmente de uma industria familiar, o número exacto de fábricas de Pirolitos em Portugal é impossível de calcular, mas seriam seguramente umas dezenas, uma vez que há referências a elas em quase todos os distritos e concelhos. Só a titulo de exemplo, basta referir, no caso do Algarve, as existentes em Vila

desde os 5 tostões nos anos 40 e os 12 tostões nos anos 50, um “ bocadinho menos” que os 5 Euros (garrafa simples, sem a borracha) a 100 ou mais Euros (garrafa cheia, com rótulo original, e selo) que teremos de desembolsar, actualmente, para ter, um Pirolito.


••Cineclube de Faro

••Cineclube de Olhão

••Cineclube de Tavira

Cineclube de Faro

Verão, tempo de cinema

11ª Mostra de Cinema

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ontávamos com tudo, mas não com o que foi decidido pela Câmara Municipal de Faro – dada a situação financeira da autarquia, reduzir para 1/3 um subsídio que já era parco para organizar actividades mais ambiciosas, mas que (enfim) nos ajudava a cumprir o mínimo de sessões regulares de cinema. Desse 1/3 só está garantido o pagamento de metade; o restante sujeito a reavaliação até final do ano. Pondo as coisas em pratos limpos: temos garantidos 2.500 euros, quando o subsídio costumava ser de 15.000€. Tendo ainda em conta que o anterior executivo do Dr Apolinário não nos atribuiu qualquer subsídio para o ano transacto, podem imaginar a gravidade da situação em que nos encontramos. Assim, cabe-nos fazer um forte apelo aos sócios – pois este clube não é nosso, é deles -, pelas suas particulares responsabilidades em alturas de aflição, pedindo a sua maciça participação nas actividades programadas. Mas apelar igualmente aos muitos nãosócios usuais nas nossas sessões para que frequentem em grande número as próximas, de maneira a que se torne evidente que também para eles interessa haver uma sala de cinema alternativo em Faro. Esperamos, sinceramente esperamos, que consigamos todos em conjunto ultrapassar esta grave situação financeira, pois de contrário não nos restará senão fechar as portas de uma das mais ilustres associações farenses e de um dos mais nobres e antigos cineclubes portugueses, em actividade ininterrupta desde 1956. Não brincamos nem dramatizamos: estamos simplesmente a ser realistas. Desde já obrigado pela vossa presença. A Direcção do Cineclube de Faro

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cinema está sem dúvida ligado ao tempo livre e entretenimento. Os números assim o comprovam. O anuário estatístico do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) recentemente lançado e referente a 2008/2009 também o afirma. Se formos ao site deste organismo e pesquisarmos os resultados de 2010, temos a agradável surpresa de constatar que, este ano, e até ao corrente mês, o cinema melhorou as suas audiências e por conseguinte as receitas. Fenómeno Avatar à parte, não tem sido o 3D o grande dominador de audiências. Há salas que apesar de uma forte bilheteira, ainda não se converteram e parecem não dar mostras disso (Faro é disso um exemplo). Ao espreitar o ranking 2010 os suspeitos do costume estão no top 10 – Shrek, a Saga Twilight, Alice, ou Como treinares…, são alguns dos lideres, misturados com as grandes produções de Hollywood (Robin Hood, Prince da Pérsia, etc.). O primeiro filme europeu, surge na modesta posição 30. O que tem de bom é ser “A Bela e o Paparazzo”, um filme português ocupa portanto o primeiro lugar dos não americanos ou ingleses. Quanto aos números que falei, tradicionalmente Julho, Agosto e Dezembro, são os meses das grandes estreias e das grandes bilheteiras. Em 2009 apesar de ter sido um ano atípico por culpa da crise, os números não baixaram nos meses citados, tendo até aumentado, em valores pouco relevantes no Verão. Em 2010 estamos melhor. Julho teve um aumento de 9% face ao ano transacto, e em Agosto, o crescimento será similar pelos dados já obtidos. Esperemos que o crescimento continue e que se reflicta também nos Cineclubes, sendo por isso que o CCO propõe um conjunto interessante e diversificado de filmes para o próximo mês, convidando-lhe desta já, a marcar presença em todas as sessões. Vico Ughetto presidente direção CCO

Agenda do Cineclube de Faro

M

ais uma vez as Mostras de Cinema de Tavira foram sucessos em todos os níveis, e em particular em termos de afluência de público. A 11ª Mostra de Cinema Europeu foi a mais concorrida desde 2005, portanto continua a haver um público que prefere disfrutar de bom cinema no grande ecrã, exibido em 35mm, em vez de estar sentado frente ao computador portátil ou uma televisão... Ficamos feliz por saber isso! Aproveito para agradecer em especial toda a equipa executiva das passadas Mostras, sem os quais nada teria sido como foi!

Filme - Ilha da Couva da Moura

O Cineclube de Tavira não apenas realiza as Mostras de Cinema ao ar livre no Verão, durante todo o ano, em cada quinta feira e em cada domingo, realizamos duas sessões semanais no antiquado cine-teatro António Pinheiro na baixa da cidade. Ao programar estas sessões, sempre tentamos ser tão diversificados quanto possível ao nível de temática e de origem dos filmes, procurando sempre e em primeiro lugar exibir filmes de alta qualidade cinematográfica e de alta sensibilidade no tratamento do tema escolhido. Penso que cada um poderá encontrar algo do seu interesse no nosso programa do mês de Setembro. Começamos com o último documentário de Rui Simões: ILHA DA COUVA DA MOURA, que iremos exibir com legendas em inglês. Assim não só iremos facilitar a compreensão do nosso público estrangeiro residente mas também todos nós aproveitaremos a entender melhor os diálogos, já que muitas vezes a qualidade de gravação de som dos filmes nacionais dificulta sua compreensão... Cineclube de Tavira

w w w.cineclubefaro.com

>>Ciclo Segredos Não Muito Secretos

Agenda do cineclube de Olhão

IPJ | 21.30 | Entrada paga

w w w.cineclubeolhao.com

04 SET |  (127’)(M/16)

de Juan José Campanella

>>Sessões Regulares

Ria Shopping – sala 2 | 21.30 |Sócios:€1 | Não Sócios: €3

7 SET |

de Urszula Antoniak (85’)(M/12)

Agenda do Cineclube de Tavira w w w.cineclube-tavira.com

>>Sessões Regulares

Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30

02 SET | 05 SET | 09 SET | 12 SET |

11 SET | |

de Rui Simões (81’)(M/12) de Bong Joon-ho (128’)(M/16) de Luca Guadagnino (120’)(M/12) de Cary Fukunaga (96’)(M/16)

de Abbas Kiarostami (92’)(M/12) de Luca Guadagnino (120’)(M/12)

14 SET |

de Sophie Barthes (101’)(M/12)

16 SET | 19 SET |

de Juan Rebella & Pablo Stoll (99’)(M/12) de Kelly Reinhardt (80’)(M/12)

>>

cinema

Museu Municipal | 21.30 | Entrada livre

12 SET | (104’) *

de Jon Jost

21 SET | de Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu, Ioana Uricaru (155’)(M/12) 28 SET |

* filme igualmente em exibição entre 13 e 31 Outubro em sistema de sessões contínuas – 10h / 12h / 14h / 16h, sala de audiovisuais da Exposição, entrada livre

de Claudia Llosa (84’)(M/6) 23 SET |

w

O Cineclube é apoiado pela CM e JF de Olhão e pelo ICA (REDE 2010)

26 SET | 30 SET |

de Fanny Ardant (105’)(M/12) de James Mangold (109’)(M/12) de Marco Bellocchio (118’)(M/12)


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• lit.algarve

Um festival de letras a Sul E

Bárbara Fellgiebel é a mentora do projecto Lit.Algarve

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10-5

panorâmica

O padrinho do festival


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O lit.algarve dia-a-dia Dia 16, 5ª feira

Dia 17, 6ª feira

Dia 19, Domingo

Notas: ura

Literat igos da dos Amno Algarve ação e Associ e do Film

s ógurtaofgoraephs AutA ramm g o t u A O passaporte do festival para guardar os autógrafos dos escritores

panorâmica

Dia 18, Sábado


arte

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Comitiva ALFA cobre La Fura Dels Baus


p.8). Só um poeta poderia traduzir assim poesia.

d.r.

Poesia e música

Adriana Nogueira Professora Universitária de Estudos Clássicos adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

É

sabido que Frederico Lourenço (n.1963) se dedicou ao estudo da música (piano e cravo) e da língua alemã antes das letras clássicas. Talvez por isso o estranho seria ainda não ter publicado poesia. Corrijo: poesia da sua autoria. Corrijo: poesia que tivesse apenas o seu nome. Está difícil começar a escrever sobre um livro tão pequenino (19 poemas distribuídos por 43 páginas): Santo Asinha e Outros Poemas, lançado no passado mês de Junho pela Caminho/Leya). Porque os livros não se medem aos palmos.

Tradutor: traidor ou autor? Quando escrevi que este era o primeiro livro de poesia de Frederico Lourenço, estava a deixar-me levar pelas informações que a editora e as livrarias divulgaram. Mas, na verdade, as suas traduções da Ilíada e da Odisseia (publicadas pela Livros Cotov ia, em 20 05 e 20 03, respectivamente) são, também elas, poemas da sua autoria. Pois se tradutor é traidor (traduttore, traditore) não dei xa de ser também autor. Já nessas traduções, Frederico Lourenço assumia a sua preocupação em «reproduzir, ao nível da própria fonética, a música do original» (Prefácio à Odisseia,

d.r.

Séneca, Cartas a Lucílio, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2009

A dedicatória ao compositor Alexandre Delgado faz antever o carácter musical destes poemas, que atinge a sua forma mais explícita no último capítulo, que dá o nome ao livro, «Santo Asinha», que tem como subtítulo «Lenda para barítono e orquestra». Quem teve a possibilidade de ver o próprio Alexandre Delgado a conduzir a orquestra do Algarve (da qual foi o compositor associado este ano de 2009-2010) em Lagos, também em Junho, na primeira apresentação mundial desta obra (na «estreia absoluta», como foi divulgado), pôde apreciar este poema, cantado pelo barítono Luís Rodrigues. Quem nunca ouviu (como, infelizmente, é o meu caso) pode deliciar-se com a limpidez da expressão de Frederico Lourenço, que consegue criar o ambiente das lendas e dos milagres, com palavras e ritmos que nos fazem suspender a respiração (No coração sentia martelar o medo:/quanto menos falas melhor. /O aldeão mediu o outro de esguelha. /Já se via furado no peito com golpe de punhal. /Quanto mais medos bulia, mais violências fabricava. /Estudava pausas, movimentos, como furtivo caçador. /Mediu a distância, como quem mede o último passo da vida.) ou libertar os sentidos, antevendo o que poderiam ser estas palavras em música (Sem prevenir os caminheiros, no mais ébrio dos acasos, /como num acesso de esplendor, /todas as aves do mundo de amor cantaram. /Fugiam sons de ínfimos esconderijos, / rompiam melodias dos arbustos, esgueiravam-se harpejos das pedras, /como num claustro

e de confidências. Um lugar de encontro. E isto pode também ser lido nos poemas do grupo «Algarve», onde a noite algarvia/ tem a respiração de Novembro e se sobrepõe ao dia, pois é uma noite de descoberta: Vai longa esta noite, /as noites todas elas vão longas, /pois nem os dias /conseguem quebrar /esse fio que é a noite, / sempre a mesma, / infindável, a noite /que são todas as noites /em que nos amamos. Aqui, no Algarve, encontram os amantes um espaço de liberdade.

Poemas de Amor invadido por coros. /Pararam as gentes maravilhadas, surpresas, entontecidas.) A música está presente por todo o livro, quer através dos títulos dos capítulos («IV. Da Música»), quer dos nomes dos poemas (como em «Gavotte da Rainha Louca», numa dupla referência: ao andamento musical – gavotte – e à ópera «A Rainha Louca», também de Alexandre Delgado), quer em evidentes citações, como quando enquadra um verso em alemão (que, traduzindo, significa «desce, ó noite de amor»), da ópera de Wagner «Tristão e Isolda», no corpo do poema (p.29): Desce do tempo, desce das estrelas, /o sink hernieder, Nach der Liebe, /derrama gotejando cromáticas / cintilações; sobe em arabesco, / evola-te dos nossos corpos, /para de novo desceres /e pousares sobre nós , /que nos abrimos e nos penetramos /e no celebrarmonos te celebramos /a ti, noite do tempo (…).

Algarve Assim se chama o capítulo

III, de onde este último poema citado foi retirado. Dois mais completam o grupo. No entanto, no capítulo seguinte, o Algarve continua presente, expresso na «Canção do Salgueiro» (um dos poemas de que mais gostei): Seguimos agora em direcção a Faro; /entramos já de noite na Via do Infante. /Atravessáramos o Alentejo debaixo de chuva, /como debaixo de chuva atravessáramos o Ribatejo. (…)/ É um mundo fechado, este; um mundo/ só teu e meu. Não nos olhámos nos olhos/ durante a viagem, mas consigo/ ver-te na paisagem nocturna à minha frente/ como se olhasses para mim. E o refrão, três vezes repetido entre as estrofes, canta: Peço-te que sobre o meu leito deponhas/ a veste branca com que serei enterrado. /Ouves um lamento? É o vento. O Algarve, visto por quem não é de cá ou aqui não vive, é o lugar para onde se vai, não aquele por onde se passa ou que se tem de atravessar para ir para algum lado. É um lugar de chegada e de permanência. Um lugar de repouso

Além da música, o amor é uma constante nos poemas deste livro: o amor pelo pai, pungente de tão cru e sentido, o amor erótico e belo de tão franco, o amor sedutor de tão subtil nas palavras e nos implícitos. Termino com um poema do capítulo «II. Sete Poemas (a partir de Goethe e de Eurípides)», o mais clássico na inspiração: Nuvens tens tu, amor, para nos levares aos lugares mais longínquos da terra. És sábio e conheces o futuro. O passado para ti não passou ainda. O teu olhar repousa sobre os que te pertencem, Como a tua luz, que dá vida às nossas vidas, Repousa na fel icidade temporária do nosso ser. * Frederico Lourenço optou por esta expressão na Ilíada em vez da fórmula tradicional «palavras aladas», pois as palavras não voam como as aves, que têm asas por natureza, mas como as flechas, nas quais o homem colocou penas para que voassem (e, até, ferissem) na direcção por si projectada.

••da minha biblioteca

••Diziam os antigos…

Com as Cartas a Lucílio, de Séneca, inaugura-se

Perde a esperança de poderes saborear em excertos o talento dos nossos maiores mestres: terás de estudar, e voltar a estudar, as obras inteiras. (…) Mas se quiseres fazer excertos, não vou armar em agiota – colhe a mãos ambas! A quantidade de máximas que poderás encontrar em qualquer página é enorme: apanha-as a eito, não precisas de rebuscar.

Cartas a Lucílio

uma nova secção nesta página Livro.S chamada «Diziam os antigos…». Esta obra, em forma epistolar, permite-nos ouvir o pensador latino (séc. I d.C.) a dirigir-se ao seu amigo Lucílio comentando a natureza do homem, reflectindo sobre fi-

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“Palavras apetrechadas de asas”

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losofia, sobre política, enfim, sobre a vida na sua totalidade: um livro pleno de assuntos controversos, do qual é tão fácil gostar como é frequente discordar. E a variedade de assuntos e sentimentos que nos provocam e estimulam faz deste livro excelente e desinquietador companheiro de caminhada. Podemos abri-lo em qualquer carta e encontraremos aí, cer-

tamente, muito em que pensar. A tradução, de uma grande qualidade e clareza, é da autoria de José António Segurado e Campos, algarvio de Lagos, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Séneca, Cartas a Lucílio, 33, 5-6.

>>Apresentação de Livro

>>Poesia e Música

>>Apresentação de Livro

  “Ventos do Sul” - apresentação, pelo Dr. Teodomiro Neto, do livro de poesia do advogado farense Manuel Inocêncio da Costa.

  “A Última Sexta - LEITURAS PERNICIOSAS” - poesia e música com Joaquim Morgado (poemas) e Strak (contra baixo).

  “Amanhecer na Rotunda”, de José Sequeira Gonçalves e João Espada.

 17 SET | 21.30 | Pátio de Letras (Faro)

 24 SET | 22.00 | Pátio de Letras (Faro)

 28 SET | 18.00 | Biblioteca Municipal de Faro

livro

Itinerários:


p.8). Só um poeta poderia traduzir assim poesia.

d.r.

Poesia e música

Adriana Nogueira Professora Universitária de Estudos Clássicos adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

É

sabido que Frederico Lourenço (n.1963) se dedicou ao estudo da música (piano e cravo) e da língua alemã antes das letras clássicas. Talvez por isso o estranho seria ainda não ter publicado poesia. Corrijo: poesia da sua autoria. Corrijo: poesia que tivesse apenas o seu nome. Está difícil começar a escrever sobre um livro tão pequenino (19 poemas distribuídos por 43 páginas): Santo Asinha e Outros Poemas, lançado no passado mês de Junho pela Caminho/Leya). Porque os livros não se medem aos palmos.

Tradutor: traidor ou autor? Quando escrevi que este era o primeiro livro de poesia de Frederico Lourenço, estava a deixar-me levar pelas informações que a editora e as livrarias divulgaram. Mas, na verdade, as suas traduções da Ilíada e da Odisseia (publicadas pela Livros Cotov ia, em 20 05 e 20 03, respectivamente) são, também elas, poemas da sua autoria. Pois se tradutor é traidor (traduttore, traditore) não dei xa de ser também autor. Já nessas traduções, Frederico Lourenço assumia a sua preocupação em «reproduzir, ao nível da própria fonética, a música do original» (Prefácio à Odisseia,

d.r.

Séneca, Cartas a Lucílio, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2009

A dedicatória ao compositor Alexandre Delgado faz antever o carácter musical destes poemas, que atinge a sua forma mais explícita no último capítulo, que dá o nome ao livro, «Santo Asinha», que tem como subtítulo «Lenda para barítono e orquestra». Quem teve a possibilidade de ver o próprio Alexandre Delgado a conduzir a orquestra do Algarve (da qual foi o compositor associado este ano de 2009-2010) em Lagos, também em Junho, na primeira apresentação mundial desta obra (na «estreia absoluta», como foi divulgado), pôde apreciar este poema, cantado pelo barítono Luís Rodrigues. Quem nunca ouviu (como, infelizmente, é o meu caso) pode deliciar-se com a limpidez da expressão de Frederico Lourenço, que consegue criar o ambiente das lendas e dos milagres, com palavras e ritmos que nos fazem suspender a respiração (No coração sentia martelar o medo:/quanto menos falas melhor. /O aldeão mediu o outro de esguelha. /Já se via furado no peito com golpe de punhal. /Quanto mais medos bulia, mais violências fabricava. /Estudava pausas, movimentos, como furtivo caçador. /Mediu a distância, como quem mede o último passo da vida.) ou libertar os sentidos, antevendo o que poderiam ser estas palavras em música (Sem prevenir os caminheiros, no mais ébrio dos acasos, /como num acesso de esplendor, /todas as aves do mundo de amor cantaram. /Fugiam sons de ínfimos esconderijos, / rompiam melodias dos arbustos, esgueiravam-se harpejos das pedras, /como num claustro

e de confidências. Um lugar de encontro. E isto pode também ser lido nos poemas do grupo «Algarve», onde a noite algarvia/ tem a respiração de Novembro e se sobrepõe ao dia, pois é uma noite de descoberta: Vai longa esta noite, /as noites todas elas vão longas, /pois nem os dias /conseguem quebrar /esse fio que é a noite, / sempre a mesma, / infindável, a noite /que são todas as noites /em que nos amamos. Aqui, no Algarve, encontram os amantes um espaço de liberdade.

Poemas de Amor invadido por coros. /Pararam as gentes maravilhadas, surpresas, entontecidas.) A música está presente por todo o livro, quer através dos títulos dos capítulos («IV. Da Música»), quer dos nomes dos poemas (como em «Gavotte da Rainha Louca», numa dupla referência: ao andamento musical – gavotte – e à ópera «A Rainha Louca», também de Alexandre Delgado), quer em evidentes citações, como quando enquadra um verso em alemão (que, traduzindo, significa «desce, ó noite de amor»), da ópera de Wagner «Tristão e Isolda», no corpo do poema (p.29): Desce do tempo, desce das estrelas, /o sink hernieder, Nach der Liebe, /derrama gotejando cromáticas / cintilações; sobe em arabesco, / evola-te dos nossos corpos, /para de novo desceres /e pousares sobre nós , /que nos abrimos e nos penetramos /e no celebrarmonos te celebramos /a ti, noite do tempo (…).

Algarve Assim se chama o capítulo

III, de onde este último poema citado foi retirado. Dois mais completam o grupo. No entanto, no capítulo seguinte, o Algarve continua presente, expresso na «Canção do Salgueiro» (um dos poemas de que mais gostei): Seguimos agora em direcção a Faro; /entramos já de noite na Via do Infante. /Atravessáramos o Alentejo debaixo de chuva, /como debaixo de chuva atravessáramos o Ribatejo. (…)/ É um mundo fechado, este; um mundo/ só teu e meu. Não nos olhámos nos olhos/ durante a viagem, mas consigo/ ver-te na paisagem nocturna à minha frente/ como se olhasses para mim. E o refrão, três vezes repetido entre as estrofes, canta: Peço-te que sobre o meu leito deponhas/ a veste branca com que serei enterrado. /Ouves um lamento? É o vento. O Algarve, visto por quem não é de cá ou aqui não vive, é o lugar para onde se vai, não aquele por onde se passa ou que se tem de atravessar para ir para algum lado. É um lugar de chegada e de permanência. Um lugar de repouso

Além da música, o amor é uma constante nos poemas deste livro: o amor pelo pai, pungente de tão cru e sentido, o amor erótico e belo de tão franco, o amor sedutor de tão subtil nas palavras e nos implícitos. Termino com um poema do capítulo «II. Sete Poemas (a partir de Goethe e de Eurípides)», o mais clássico na inspiração: Nuvens tens tu, amor, para nos levares aos lugares mais longínquos da terra. És sábio e conheces o futuro. O passado para ti não passou ainda. O teu olhar repousa sobre os que te pertencem, Como a tua luz, que dá vida às nossas vidas, Repousa na fel icidade temporária do nosso ser. * Frederico Lourenço optou por esta expressão na Ilíada em vez da fórmula tradicional «palavras aladas», pois as palavras não voam como as aves, que têm asas por natureza, mas como as flechas, nas quais o homem colocou penas para que voassem (e, até, ferissem) na direcção por si projectada.

••da minha biblioteca

••Diziam os antigos…

Com as Cartas a Lucílio, de Séneca, inaugura-se

Perde a esperança de poderes saborear em excertos o talento dos nossos maiores mestres: terás de estudar, e voltar a estudar, as obras inteiras. (…) Mas se quiseres fazer excertos, não vou armar em agiota – colhe a mãos ambas! A quantidade de máximas que poderás encontrar em qualquer página é enorme: apanha-as a eito, não precisas de rebuscar.

Cartas a Lucílio

uma nova secção nesta página Livro.S chamada «Diziam os antigos…». Esta obra, em forma epistolar, permite-nos ouvir o pensador latino (séc. I d.C.) a dirigir-se ao seu amigo Lucílio comentando a natureza do homem, reflectindo sobre fi-

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“Palavras apetrechadas de asas”

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losofia, sobre política, enfim, sobre a vida na sua totalidade: um livro pleno de assuntos controversos, do qual é tão fácil gostar como é frequente discordar. E a variedade de assuntos e sentimentos que nos provocam e estimulam faz deste livro excelente e desinquietador companheiro de caminhada. Podemos abri-lo em qualquer carta e encontraremos aí, cer-

tamente, muito em que pensar. A tradução, de uma grande qualidade e clareza, é da autoria de José António Segurado e Campos, algarvio de Lagos, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Séneca, Cartas a Lucílio, 33, 5-6.

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  “Ventos do Sul” - apresentação, pelo Dr. Teodomiro Neto, do livro de poesia do advogado farense Manuel Inocêncio da Costa.

  “A Última Sexta - LEITURAS PERNICIOSAS” - poesia e música com Joaquim Morgado (poemas) e Strak (contra baixo).

  “Amanhecer na Rotunda”, de José Sequeira Gonçalves e João Espada.

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livro

Itinerários:


politíca

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Museu da Cortiça

uma relíquia esquecida no tempo

por Nélia Sousa

Q

uando as portas se fecham ficam as memórias de tempos áureos, época em que a indústria da cortiça era o principal motor de desenvolvimento da cidade de Silves. Hoje, panos negros estendem-se ao cimo dos grandes portões de ferro que voltaram a deixar a Fábrica do Inglês no mais profundo esquecimento. Lá dentro está o Melhor Museu Industrial da Europa à espera de abrir, novamente, ao público De importante indústria corticeira, a Fábrica do Inglês em Silves passou a ser um importante pólo de atracção turística. Não só pelos eventos que todos os anos atraíam milhares de pessoas, mas também pela sua mais preciosa pérola: o Museu da Cortiça. As dificuldades financeiras que atravessam a sociedade proprietária do museu e do parque de lazer levaram a um desfecho que em nada dignifica o seu valioso passado. Fundado em 1999, o espaço museológico alberga um conjunto valioso de documentos e máquinas, dando a conhecer ao visitante como se processa a transformação da casca do sobreiro. Pelas mãos do director do Museu, Manuel Ramos, somos convidados a entrar nesta relíquia industrial. Em cada um dos recintos temáticos observa-se um conjunto de fotografias que recordam a labuta diária de operários no sector corticeiro, a transformação da cidade ao longo dos tempos e os velhos patrões que ergueram um vasto património. Outrora sem descanso, as brocas de pedal, rebaixadeiras e inúmeras ferramentas e máquinas dos operários fabris descansam, agora, sob o olhar atento dos intrusos (ver caixa). Mas torna-se pertinente saber como surgiu a ideia de construir o museu. Como nos explica Manuel Ramos, o Museu da Cortiça “surgiu da necessidade de preservar o património aqui encontrado. Depois organizámos umas jornadas dedicadas à indústria e, nesse âmbito, decidi-

d.r.

mos avançar para o projecto de musealização. Em 1998 comprometemo-nos a fazer a musealização do espaço e em Outubro de 1999 abrimos como museu”. Não foi preciso muito tempo para o reconhecimento internacional. Em 2001 foi distinguido pelo Fórum Museológico Europeu com o Prémio Micheletti para Melhor Museu Industrial da Europa, uma proeza nunca antes alcançada por nenhum museu da região. Além disso, coube-lhe outro grande feito no contexto dos museus algarvios: o de ter recebido mais de 100 mil visitantes nesse ano. Futuro incerto O Museu da Fábrica do Inglês em Silves é um dos poucos museus privados existentes no Algarve. O Museu possui o maior acervo documental do mundo sobre a história da indústria da cortiça. São mais de 150 anos de maquinaria e de documentação comercial. Foi um projecto tão inovador que, no entender da directora regional de cultura,

Dália Paulo, “tinha tudo para ser vencedor”. “Mas, a partir do momento em que o complexo perde a vertente comercial, o Museu não consegue per se atrair mais visitantes”, explica. Além disso para a directora regional da cultura faltou uma equipa consistente para dinamizar o museu. Dinamização que passa não só pela conservação do património, mas também pela função comunicacional e pela divulgação. Ironicamente o museu fechou portas no dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus. Estão, actualmente, em cima da mesa, algumas propostas no sentido de

salvar o espólio. A Câmara Municipal de Silves, a sociedade detentora do museu, e a Direcção Regional da Cultura estão empenhadas em dar um rumo positivo ao espaço. “Não queremos equacionar a hipótese do Museu continuar fechado a longo prazo. O objectivo é tentarmos encontrar rapidamente uma solução de viabilidade até porque o museu funciona como um ponto de atracção importante enquanto produto turístico”, diz Maria Manuela Guerreiro. Segundo explica a vereadora da cultura, neste momento, a autarquia está a trabalhar nesse sentido. “Te-

mos procurado falar sobre o assunto e discutido soluções. Se estivéssemos num período fora de crise, e se a autarquia tivesse recursos, uma das soluções poderia passar pela compra do imóvel. Em período de crise vamos tentar encontrar parcerias para podermos olhar para o futuro daquele complexo de forma positiva”. Apostar na identidade cultural Situada entre o litoral e a serra, Silves tem vivido sob o estigma da interioridade o que a leva a manter-se afastada do interesse voraz dos grandes empreendedores turísticos. Em contrapartida,

Ao princípio era o braço, a mão, o saber de gerações acumulado. O artesão, munido da sua faca ferramenta cortava a prancha, retalhavaa em rabanadas, dividia estas em quadros. Torneava depois a rolha entre os dedos já que o trabalho do rolheiro era ainda manual. Mais tarde, alguém inventara processos mecânicos, alguém criara a máquina que ele próprio,

muitas vezes contrariado, movimentava com a força dos seus músculos. Produzia mais, muito mais com certeza, mas a pouco e pouco perdia a proximidade com os objectos que fazia, e o saber que adquirira era cada vez menos importante. A ferramenta, antes sua, era agora a máquina de que o patrão era dono. E precisava cada vez menos da sua força, do seu saber. O motor já não era o

seu braço, era a correia que precisava vigiar, não o fosse atraiçoar e aleijar. O ritmo do trabalho não era já o seu, a voz que ouvia não era a dos seus companheiros: era o da veloz máquina que tudo ensurdecia e que a seu lado preenchia o lugar do colega despedido. Manuel Ramos, director do Museu da Cortiça


Maria Manuela Guerreiro, está a ser feito. Porque, como adianta, “a cultura precisa de hábitos e práticas regulares. Sobretudo a cultura mais erudita. As pessoas não estão habituadas a este tipo de cultura, e por isso, é preciso convidá-las. E aí eu

penso que o serviço educativo pode ser um pólo muito importante de dinamização”. Para a vereadora, o objectivo é assumir uma postura mais pedagógica e apostar no trabalho desenvolvido pelos agentes culturais locais, pois “eles são as forças vivas que

ficam quando os espectáculos vão embora”. Preservar a identidade cultural de um local deverá ser a aposta quando se fala em cultura. Pelo menos é assim que Dália Paulo vê o futuro cultural da região. “No Algarve os responsáveis algarvios perceberam que temos de preservar a nossa identidade, a nossa memória e que no mundo globalizado em que vivemos temos de ser diferentes pela cultura”, afirma. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, associando o Algarve ao sol e à praia, existe na região muito património que precisa ser valorizado. É esse o passo que a directora regional acredita que tem de ser dado. E é possível fazê-lo aliando turismo e cultura. “Durante algum tempo pensou-se que o turismo poderia ser o elixir desta região e onde o pro-

gresso se fazia muitas vezes penalizando a identidade cultural da região. Hoje já se percebeu que isso não é assim. Hoje o turista pede algo diferente. Por isso a região tem de ter uma marca muito forte que só é dada pela identidade do lugar.” Apostar fortemente na cultura deverá ser o grande trunfo para a região que não deve deslumbrar-se com os produtos culturais que vêm de fora. Dália Paulo salienta que “felizmente está a criarse a ideia de que o Algarve não é apenas uma região boa para viver, mas uma região onde também se faz criação artística, onde há mais-valias a nível do conhecimento”. *artigo produzido no âmbito do 2º Curso de Jornalismo Cultural realizado com o apoio do CENJOR, numa parceria entre a AGECAL e o POSTAL

política

a cidade orgulha-se do seu passado profícuo, presente no património histórico e arqueológico. Falta, no entanto, despertar as gentes locais para as questões culturais. Um trabalho que, segundo a vereadora da cultura da Câmara,

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••DIRECÇÃO REGIONAL DE CULTURA DO ALGARVE

Salvaguarda do Património do Algarve: o Plano Regional de Intervenções Prioritárias (PRIPALG) À

Direcção Regional de Cultura compete definir estratégias regionais de intervenção no património e priorizar as acções de salvaguarda e preservação. Criada em 2007 – juntando a antiga Delegação Regional da Cultura do Algarve e a antiga Direcção Regional de Faro do IPPAR – a Direcção Regional de Cultura do Algarve tem nas suas atribuições a elaboração de um Plano Regional de Intervenções Prioritárias, de acordo com a alínea b) do n.º 2 do artigo 2.º do Decreto Regulamentar n.º 34/2007, de 29 de Março. Este Plano, propõe ao IGESPAR as intervenções prioritárias em matéria de estudo e salvaguarda do património arquitectónico e arqueológico bem como os pro-

gramas e projectos anuais e plurianuais da sua conservação, restauro e valorização, assegurando a respectiva promoção e execução. Em Janeiro de 2010 iniciouse a elaboração do PRIPALG,

com o levantamento do património em risco na região do Algarve, o que irá permitir estabelecer as prioridades regionais com vista a definir investimentos e prazos de intervenção. A metodologia utilizada na

elaboração deste instrumento operativo privilegiou um diálogo com os Municípios. Assim, foram até ao momento realizadas as seguintes etapas: reunião com as autarquias; visita a cada concelho, conjuntamente com

outra em S. Braz de Alportel que, afinal, não passam de grupos amadores de alunos de “escolas” de categoria duvidosa. E é isto que constitui a programação autóctone terpsicoreana do Teatro das Figuras! Se o nível do ensino da música, sobretudo com a contribuição de artistas vindos do Leste, tem vindo a subir – embora a constituição da Orquestra do Algarve seja o melhor atestado de incompetência às escolas algarvias e uma chico-espertice que aliciou quase todas as autarquias meridionais - já no que toca à produção algarvia nas outras artes não estamos muito longe da paisagem desértica de há três décadas. A culpa de tal estado de coisas deverá também ser imputada ao Ministério da Educação que, entre outras barbaridades, se permite espalhar “monitores” e oferecer “cursos artísticos”, por escolas sem quaisquer condições, com umas centenas de horas de formação. O que começa por se tratar de um equívoco acaba num ultraje à consciência de um artista digno desse nome e que carrega na bagagem muitos (e por vezes penosos) anos de formação antes de se aventurar a apresentarse em público. Neste século XXI, em que a Internet nos permite - em tempo real - apreciar o que de melhor se faz em todas as áreas, parece paradoxal que gente com responsabilidades políticoculturais continue a publicitar feitos e projectos (de substância muito empolada e, quase sempre, ferida de demagogia) quando, na prática, os resultados raramente chegam a ter um

nível aceitável e o impacto pretendido, para além quase nunca atingirem os verdadeiros interessados. “Incidentes” como a desastrosa Faro Capital da Cultura e o famigerado Allgarve – que pouco mais servem do que para dar trabalho a políticos desempregados e oportunistas sedentos de protagonismo que promovem artistas de conveniência - carnavais de verão e de inverno, noites brancas e pretas, festivais disto, daquilo e de tudo e mais alguma coisa, não deixam qualquer semente. Apenas se pautam por um rasto de populismo que atingiu muitos “agentes culturais” algarvios, embalados por uma falsa abundância de números É que quando se fala de tudo como sendo cultura… então já nada mais é (verdadeira) cultura. Eventos que se costumavam apelidar de artísticos, têm sido, em muitos casos, substituídos

pela animação espúria, centrada no entretenimento puro e duro, ou por ensaios cujo experimentalismo está nos antípodas do gosto e das tradições dos consumidores mas que o dinheiro dos impostos, hoje, compra e distribui sem qualquer critério. O tecido cultural português dependente do estado – muito mais do que seria desejável transborda de burocratas sem vontade nem interesse nas artes, que se vão revezando num imenso universo laboral que os partidos criaram para satisfazer as suas enormes clientelas. A sua forte e perversa influência, ao contrário do que seria de esperar, tem se revelado, em muitos casos, o maior entrave para a evolução das artes e o desenvolvimento de artistas no Algarve. Engenheiros que escolhem músicos para orquestras dirigidas por vendedores de piscinas, informáticos que são promovi-

as autarquias; elaboração de uma ficha de levantamento; preenchimento das fichas pelas autarquias e envio de uma lista de prioridades por concelho. Actualmente, a Direcção Regional de Cultura está a trabalhar os dados recolhidos e a realizar a caracterização das necessidades de intervenção, elaborando o Plano Regional de Intervenções Prioritárias do Algarve, que servirá como documento orientador do investimento do Estado na região. Este instrumento operacional é um documento aberto e em constante actualização, que permite uma acção regional concertada.

••convidado.S

António Laginha Director da Revista da Dança e do Centro de Dança de Oeiras, Presidente da Associação Cais de Culturas e Vice-Presidente da Batoto Yetu-Portugal

O Apelo do Sangue

estratégia

S

e tivessem os responsáveis pela Cultura – desde que surgiram no sul do País a nível ministerial e autárquico - tido um pouco mais de formação académica e competência em áreas como as artes performativas e património arquitectónico e tradicional, um mínimo de visão, uma pitada de humildade e alguma vontade de deixar obra consistente para que outros pudessem vir a usufruir de dinheiros estatais (falar de talento e genuíno empenho pela causa pública em políticos, não costuma ultrapassar as raias da ficção) não viveria, ainda hoje, o Algarve praticamente de fogachos estivais. E, seguramente, não teriam os algarvios que sair da sua terra para estudar, se estabelecer e afirmar-se em outras paragens como profissionais das artes. Só “Companhias de Dança do Algarve” há duas em Faro - e, não muito longe, apareceu

••próximo

Luís Vicente

O

dos a vereadores, donos de bar que viram programadores, bibliotecários que saem debaixo das pedras para gerir teatros, e muitos outros que fazem parte de num lamentável desfile de figuras mercenárias, têm deixado um desagradável amargo de boca em todos os que estão atentos ao joio e, sobretudo, aos maus mondadores. Representantes de “profissões” do leque das novas “oportunidades” para as quais, curiosamente, não existe escola. Em décadas de prática teatral tenho visto coisas inenarráveis sem que alguém tenha, alguma vez, sido chamado a responder pelos fracassos e buracos financeiros resultantes de más práticas na área cultural. Como tudo seria diferente se este sangue não me corresse na veias e o Algarve das “Artes” não tivesse a mania atávica de varejar a rama e deixar os frutos apodrecer no tronco.

convidado.S

próximo convidado.S é Luís Vicente, actor, encenador e director artístico e de produção da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve.

Natural de Setúbal. Ficou conhecido do grande público pela participação em inúmeros trabalhos radiofónicos e televisivos: teatro, novelas, séries. No teatro participou, até à data, em mais de 50 peças de grandes autores da dramaturgia mundial, como Brecht, Stridberg, Genet, Shakespeare, Camus, Duras, Gombrowikz, Albee, Bulgakov, Feydau, Molière, e também de incontornáveis autores nacionais como Romeu Correia, Virgílio Martinho, Natália Correia, Norberto Ávila, José Saramago,

na maioria das quais como actor-protagonista e nalguns casos também como encenador. Foi em várias ocasiões e sob diferentes pretextos, distinguido e premiado em Portugal e no estrangeiro. Em 1997, a convite do professor e pedagogo José Louro, integra o núcleo fundador da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, da qual é director de produção desde o início de actividade da Companhia e director artístico desde finais de 1999. http://www.actateatro.org.

Cultura.Sul 25  

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