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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o

NOVEMBRO 2019 Ÿ n.º 132 www.issuu.com/postaldoalgarve

7.395 EXEMPLARES

REFLEXÕES SOBRE URBANISMO •••

Os bairros e as cidades fotos d.r.

Teresa Correia

Arquitecta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

O que carateriza um bairro Um bairro tem uma componente identitária, uma estrutura formal e arquitetónica e uma organização de espaço urbano que o carateriza. Estes núcleos dentro da cidade em geral têm uma origem comum, nasceram de um projeto único e formalizaram-se através de um arquiteto ou urbanista. De qualquer forma, para além das caraterísticas físicas reconhecidas num bairro, este, para ser considerado como tal, terá de ter uma sociedade que se relaciona, ou seja, relações de vizinhança que constitua uma pequena comunidade. Um bairro tem também os seus próprios pontos de encontro, como seja, um café, um restaurante, uma mercearia, um quiosque, algo que faça um suporte funcional àquele tecido urbano. Uma zona completamente turística ou transformada, não poderá ser considerada um bairro, mesmo que se consiga manter as edificações. A sazonalidade e a constante mutação de pessoas não traduzem um modus vivendi que permita a manutenção da cultura de bairro. No entanto, apesar disso, a existência de atividade económica é uma for-

A construção de novas edificações é uma carência na maior parte das cidades que possuem dinâmica económica •

ma de recuperação do edificado que importa ponderar como vantagem. As ARUs e os bairros As autarquias têm realizado propostas de ARUs para estimular a recuperação de alguns bairros, o que em termos de programação estratégica está correto. No entanto, faltará um pouco mais além, ou seja, a realização de um planeamento mais aprofundado e consequente, o que teria de ter um investimento financeiro mais elevado. As Áreas de Reabilitação Urbana

(ARUs) são instrumentos de planeamento que visam priorizar aquela área em específico face a outras, no investimento público e na criação de benefícios fiscais para quem reabilitar os seus edifícios. A realidade de cada bairro irá determinar o tipo de benefícios e a estratégia a definir. A questão é saber quais os investimentos mesmo necessários para atingir os objetivos de revitalização ou renovação daquela parte da cidade, ou se será mais um instrumento que não acrescenta muito mais. Os entendimentos a respeito da operacionalidade destas Áreas de

Os bairros históricos são inspiradores de uma vida saudável e tranquila •

Reabilitação Urbana ainda não estão claros, pelo que será preferível combinar medidas e traduzir estas para planos que possam estar mais coerentes com a atuação na gestão urbanística. Se num bairro alguém quiser demolir um dos seus edifícios para construir um prédio sem qualquer caraterística, não existirá proteção legal que o impeça. O que distingue os bairros históricos dos bairros sociais Os bairros históricos são inspiradores de uma vida saudável e tranquila de comunidade e normalmente está combinada com funções de equilíbrio com o espaço público, a circulação viária e o ambiente envolvente. Os bairros sociais estão associados a guetização e a segregação social, sendo normalmente concebidos para alojamento das pessoas carenciadas ou situações de realojamento, por vezes em edifício de cércea elevada. No entanto, em Lisboa, pela falta total de casas a preços acessíveis para a classe média, a autarquia iniciou um processo de sorteio no âmbito de um Programa de Renda Convencionada. Esta inovação parece ser uma medida positiva, mas questiono se não se estará a esquecer os mais necessitados que continuam a não ter habitação.

Ficha técnica Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Henrique Dias Freire Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saúl Neves de Jesus • Espaço ALFA: Raúl Grade |Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direção Regional de Cultura do Algarve • Reflexões sobre urbanismo: Teresa Correia Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com online em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/ postaldoalgarve FB: www.facebook.com/ postaldoalgarve/ Tiragem: 7.395 exemplares

O problema da habitação é estrutural e resultou de um processo de estagnação que agora se está lentamente a recuperar. A construção de novas edificações é uma carência na maior parte das cidades que possuem dinâmica económica, pelo que a regulação do mercado terá de existir, a curto prazo, sob pena de um desequilíbrio social forte para a classe média. Durante algum tempo existiu também a defesa de uma tese de construir ou reabilitar edifícios para habitação social nos centros históricos. Esta ideia tem alguma falta de sentido prático, isto, porque existe um preço elevadíssimo por edifícios nessas zonas, por outro lado, existem fortes condicionalismos à construção, o que gera desperdício financeiro. A problemática da reabilitação está ainda longe de estar terminada, pela sua exigência e complexidade, e ainda por depender normalmente de soluções de forte investimento. l


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LETRAS E LEITURAS •••

Os Otimistas, de Rebecca Makkai fotos d.r.

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

Melhor livro do ano pelo New York Times e a National Public Radio. Vencedor do LA Times Book Prize, Stonewall Book Award e Andrew Carnegie Medal. Finalista do Pulitzer Prize e do National Book Award. Já referi antes que por vezes me incomoda quando os livros são demasiado etiquetados, todavia este romance, publicado pela ASA, e que está a ser adaptado para televisão, é para mim um dos livros do ano e aborda um tema que eu estranhava não ter sido ainda devidamente tratado na ficção literária. Temos o filme Filadélfia, a série Um Coração Normal, podemos até lembrar-nos do escritor que se suicida em As Horas, de Michael Cunningham, mas não havia nenhum romance, ainda mais de grande fôlego, que abordasse a epidemia da SIDA nos anos 80 nos Estados Unidos da América.

O livro "Os Otimistas", de Rebecca Makkai, foi finalista do Pulitzer Prize e do National Book Award e vai ser adaptado para televisão •

Em Novembro de 1985, um grupo de amigos fazem uma festa em Chicago que é, na verdade, um funeral, enquanto a “verdadeira” missa fúnebre decorre a quilómetros dali,

assistida apenas pela família. Nico, um jovem belo, promissor, querido por todos, morreu. A sua irmã Fiona vira as costas à família, da mesma forma que os seus pais, que agora o choram, expulsaram em tempos Nico de casa quando souberam da sua homossexualidade. Nos meses seguintes, decorre uma espécie de jogo, quase como num mistério policial, em que nunca se sabe quem vai morrer a seguir, enquanto o grupo de amigos de Yale Tishman vai sendo dizimado. Yale Tishman, responsável por angariar arte e fundos numa galeria, vê a sua carreira em ascensão, ao mesmo tempo que a sua vida amorosa se desmorona, quando se depara com a oportunidade de uma vida, pois Nora, a tia-avó de Nico, pede-lhe que veja uns quadros do seu tempo de jovem, na Paris de 1912, onde conheceu e posou para artistas como Modigliani – e outros que a guerra lançou no esquecimento de quem não teve sequer tempo para começar a brilhar. Em 2015, 30 anos mais tarde, Fiona aterra em Paris e fica hospedada na casa de Richard Campo, um fotógrafo que ficou célebre por ter documentado a epidemia de Chicago, da mesma forma que foi um dos poucos que sobreviveu. Fiona procura a sua filha, que depois de ingressar na universidade acabou por cortar com tudo, inclusive com a mãe, e entrou numa seita, com o seu namorado Kurt. Ao longo de 570 páginas que se lêem de um fôlego, o leitor tenta perceber como é que estes dois planos, tão complexos por si só e bem narrados, afinal se intersectam, uma vez que parecem histórias tão díspares,

apesar de se perceber que a cola que os une é Fiona. Será que Yale será um dos poucos sobreviventes? Nora identifica-se tão fortemente com Yale por este lhe lembrar o sobrinho-neto Nico? Ou

Porque é que Reagan faz uma declaração à nação a propósito de um vai-vém que explode após o lançamento mas se silencia perante a crise da SIDA? «Como podia explicar-lhes que aquela cidade era um cemitério?

Rebecca Makkai já tem vários contos e romances premiados •

porque também ela perdeu todos os seus ilustres amigos e amantes artistas nos anos da Primeira Guerra Mundial? Será que Fiona tem culpa do desaparecimento da filha, talvez pela sua inadequação em amar, devido ao stress pós-traumático de uma época que deixou muito poucos sobreviventes?

Que todos os dias passavam por ruas onde tivera lugar um holocausto, um homicídio em massa por negligência e antipatia, como podia perguntar-lhes se quando passavam por uma bolsa de ar frio não percebiam que era um fantasma, um rapaz que o mundo cuspira?» (p. 256) l

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Os Jardins do Presidente, de Muhsin Al-Ramli fotos d.r.

Muhsin Al-Ramli é romancista, poeta, dramaturgo, académico e tradutor •

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Muhsin Al-Ramli nasceu em 1967, numa aldeia do norte do Iraque. É romancista, poeta, dramaturgo, académico e tradutor. Os Jardins do Presidente, publicado pela Topseller, entrou na longlist do International Prize for Arabic Fiction, conhecido como o «Booker árabe». Vive em Madrid desde 1995.

realismo mágico latino-americano: veja-se, por exemplo, o caso de Isma’il que em rapaz cortou a língua de um bode e desde então perde a voz, até que anos depois as palavras que lhe saem num grito coincidem com o momento em que «reza a história antiga, (...) uma estranha massa amorfa com um corpo gigante e uma

Muhsin Al-Ramli é um escritor iraquiano que vive em Madrid desde 1995 •

«Um romance extraordinário passado no Iraque de Saddam Hussein, que traz à memória Cem Anos de Solidão e O Menino de Cabul»... Com esta frase intenta-se seduzir o leitor a entrar neste mundo fabuloso que, de início, evoca realmente a atmosfera de Macondo ou o imaginário do

cabeça minúscula chamada América atravessou os mares e ocupou um país chamado Iraque» (p. 8) A primeira frase do romance é, aliás, tão emblemática como o início da obra-prima de García Márquez: «Num país onde não havia bananas, ao terceiro dia do Ramadão, a al-

deia deparou-se, ao acordar, com nove caixas de bananas, cada qual contendo a cabeça degolada de um dos seus filhos.» (p. 7). Todavia Os Jardins do Presidente, de Muhsin Al-Ramli, é uma narrativa que rapidamente se distancia de tudo e ganha vida própria. Tariq, Abdullah Kafka e Ibrahim nascem em 1959, em meses seguidos, e desde logo se tornam inseparáveis. Até que a guerra contra o Irão deflagra (e dura 8 anos), e Abdullah é preso pelas forças iranianas em 1982. Em 1990, o Iraque invade o Kuwait. A guerra torna-se o estado natural das coisas e «quanto mais se adentravam no deserto (...) mais mergulhavam na guerra» (p. 59). Em 1991, as forças aliadas desencadeiam o ataque terrestre a partir das areias da Arábia Saudita: «O deserto, que se vira abandonado durante séculos, foi transformado num mar de ferro e fogo. O cenário era nada menos que apocalíptico, demonstrando o poder que aquela pequena criatura, o homem, conseguira alcançar, capaz de transformar a face da natureza de forma aterradora e esmagadora.» (p. 62) Nas primeiras 200 páginas temos uma narrativa intrincada, repletas de horrores da guerra, mas sobretudo de histórias que se cruzam. Todas as personagens têm a sua história, sempre contada na pri-

meira pessoa, como é o caso de Ibrahim que procura deixar o seu

legado à sua filha Qisma (significa destino), vendo-a como a extensão natural da sua história. O romance passa depois a uma segunda parte, no que parece uma estrutura desarmoniosa, mas conforme prosseguimos percebemos como se fecha o círculo deste mundo, tanto que o penúltimo capítulo é um eco do primeiro, voltando à frase de abertura do romance. É quando Ibrahim se muda para a cidade de Bagdad que o romance ganha outro fôlego. Como funcionário nos jardins de um dos vários palácios do Presidente, Ibrahim é supervisionado por Sa’ad, que ao longo de várias páginas, descreve a opulência dos “palácios do povo”, em descrições hiperbólicas ao estilo dos contos das Mil e Uma Noites. A única vez em que Ibrahim avista o Presidente no jardim é justamente quando ele assassina um músico emblemático do país. O próprio nome de Saddam Hussein, ao jeito do realismo mágico, nunca é mencionado; quando Qisma dá o nome do líder ao filho, Ibrahim recusa-se terminantemente a chamá-lo pelo nome. Ibrahim é depois promovido de jardineiro a coveiro, enterrando milhares de corpos sem nome, «vítimas de um reinado impiedoso de terror», nos jardins do Presidente... l


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ARTES VISUAIS •••

Pode a arte sensibilizar para comportamentos mais saudáveis? Saúl Neves de Jesus

Professor Catedrático da Universidade do Algarve; Pós-doutorado em Artes Visuais; https://saul2017.wixsite.com/artes

Em números anteriores procurámos evidenciar que as artes visuais podem ser usadas como forma de consciencializar as populações e de contribuir para que as pessoas adotem comportamentos mais adequados em relação ao ambiente. Nomeadamente, nos artigos “Pode a arte ajudar a proteger o ambiente?” e “Pode a arte ajudar a proteger os oceanos?”, alertámos para o problema da poluição atmosférica e do plástico nos oceanos e para a importância da descarbonização e da prevenção através de comportamentos mais adequados, enquadrados numa economia circular, assente nos 3R: Reduza, Reutilize e Recicle! Por outro lado, no artigo “Pode a arte contribuir para a paz?”, procurámos destacar que a arte pode ser um importante instrumento no sentido duma educação para a paz e para princípios éticos universais e valores humanistas, como sejam a honestidade e o respeito pelos outros.

mais favoráveis do sujeito em relação a si próprio, sensibilizando-o para estilos de vida mais saudáveis. A este nível, o não fumar ou deixar de fumar é dos aspetos mais importantes. O cancro do pulmão é o que mais mortes provoca e o fumar é a principal causa deste tipo de cancro. Como forma de sensibilizar a população para a importância de deixar de fumar, para além da promoção de

Mundial do Não Fumador”, a 17 de novembro, aproveitamos para apresentar a fotografia “Stresse na sociedade”, que tirámos em 1986, encontrando-se publicada no livro “Expressividade” (Bastos & Jesus, 2001) e tendo sido premiada com uma Menção Honrosa no “1º Salão Virtual de Arte Contemporânea” (2013), realizado no Brasil. Nesta fotografia, o comportamento de fumar

fotos d.r.

Fotografia “Stresse na sociedade” (S. N. Jesus, 1986) •

Escultura “Eco Pulmão” (C. Correia, 2019) •

Desta forma, a arte pode contribuir para atitudes mais favoráveis em relação ao ambiente e em relação às outras pessoas. Mas a arte também pode contribuir para o desenvolvimento de atitudes

estilos de vida mais saudáveis e de um ambiente mais limpo, o Município de Castro Marim inaugurou, no passado dia 26 de setembro, “Dia Europeu do Ex-Fumador”, a escultura “Eco Pulmão”, colocada na Praça 1º de maio. Da autoria de Carlos Correia, esta escultura de 1,6m em ferro permite a deposição de beatas nos “pulmões” da figura. Aliás, por baixo da mesma encontra-se uma legenda em que está escrito o seguinte: “Enquanto não toma a decisão mais importante da sua vida - DEIXAR DE FUMAR, coloque aqui as suas beatas.” Indo a publicação deste número do Cultura.Sul coincidir com a “Dia

aparece ainda como algo automático ou reativo em situações de stresse social, num sujeito anónimo ou não identificado, que se mascara ou esconde atrás desse comportamento. Num outro trabalho artístico também procurámos sensibilizar para os riscos do stresse na vida das pessoas e para a importância de estilos de vida mais saudáveis. Trata-se da escultura “Stresse – Peso das exigências” (2010). Esta escultura de dois metros de altura, em que foram utilizados os materiais alumínio e terracota, procura sintetizar o conceito de stresse, em termos dos principais fatores e sintomas que podem ocorrer. O cora-

ção está “rasgado” por correntes que pressionam em vários sentidos, representando as exigências ou os fatores de stresse que podem ser externos e internos. As pressões internas, sobretudo devido a conflitos internos face a decisões que têm que ser tomadas, ou a indecisões derivadas da multiplicidade de alternativas possíveis hoje em dia, ou a uma excessiva ambição pessoal, ou ainda a expectativas irrealistas por parte do sujeito, traduzem que o próprio sujeito pode ser o principal fator do stresse que apresenta e encontram-se representadas pelas correntes puxadas para lados diferentes destruindo o coração. No que diz respeito às pressões externas, estão representadas através de um peso pendurado no coração, que é um coração invertido, significando e sintetizando todas as exigências externas que podem prejudicar a saúde do sujeito, em particular o coração. Além disso, o facto deste coração ser em metal significa o ambiente frio e distante em que o sujeito se encontra, representando a falta de suporte social e emocional, o que aumenta o impacto negativo das exigências exteriores sobre o sujeito. A imagem desta escultura foi utilizada para o cartaz do “34th World STAR Conference” (34º Congresso Mundial de Stresse”), realizado na UAlg em 2013.

Assim, para além de poder contribuir para comportamentos mais adequados em relação ao ambiente e em relação aos outros, a arte também pode contribuir para comportamentos mais adequados em relação a si próprio, nomeadamente através da adoção de estilos de vida mais saudáveis. l

Escultura “Stresse: Peso das exigências” (S. N. Jesus, 2010) •


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ESPAÇO AGECAL •••

“Todas as fronteiras são culturais?” Jorge Queiróz

Sociólogo, Sócio da AGECAL

Num período histórico em que tanto se fala da globalização, de “cidadãos do mundo” e ao mesmo tempo da extinção de culturas ancestrais e da biodiversidade, seria oportuno reflectirmos o contributo de investigadores sobre as identidades colectivas e a questão nacional. Os textos bíblicos referiam-se ao Homem e à sua universalidade como uma criação divina, a ideia de humanidade está registada desde a Antiguidade, não existindo especial novidade neste tema. Os vários internacionalismos dos séculos XIX e XX surgiram de ideologias em forma de desígnios que se contrapõem aos nacionalismos. A percepção de pertencer a determinada comunidade permite ao individuo reconhecer a sua identidade, reforçada quando um Estado se estrutura como poder legitimado e autónomo num determinado território, assente em sistemas jurídico-constitucionais e de representação, em formas de organização social e económica.

“Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazião, assi erradas como dos valentes & nobres feytos….” in “Chronica do Condestabre”, anónimo, 1440 Na constituição das identidades colectivas surgem sempre como elementos marcantes, a diferenciação em relação a outras comunidades, pertença com significado relevante e consequentemente atribuição de valor. Contudo, os Estados não evoluem todos da mesma forma, existem ou coexistem fenómenos culturais e económicos que orientam diferentes formas de organização da comunidade. Portugal procura há muitos séculos entender-se, para além das lendas e mitos fundacionais, as suas origens, características diferenciadoras, a razão por que se constituiu desde o século XII como Estado independente, conservando as mesmas fronteiras continentais durante mais de 800 anos e porque atingiu o português expressão multicontinental, hoje o quinto mais falado do mundo, realidade que ultrapassa largamente a dimensão geográfica e demográfica do País. Oliveira Martins, um dos mais pro-

dutivos historiadores do século XIX, escrevia com a sua ironia sarcástica que “até hoje todas as tentativas para descobrir a nossa raça, têm falhado. Latinos, celtas, lusitanos e afinal moçárabes, têm passado: ficam os portugueses… Essa coesão ganha nas lutas na primeira dinastia, perde-se no século XVI, por causa das consequências do império oriental e da educação dos jesuítas. Portugal acaba; os Lusíadas são um epitáfio ”. Afirmação polémica é a de que “todas as fronteiras são culturais… o que separa as nações é a nacionalidade, não são os rios nem os montes”, escrita por António José Saraiva, que afirmava a hispanidade da cultura portuguesa, sublinhando que “a velha língua em que Afonso Henriques aprendeu a falar, a língua dos senhores e campónios da Galiza e dos guerrilheiros das Beiras, teve um destino raro e privilegiado. Foi por ela que os galego-portugueses se sentiram diferentes dos castelhanos muito antes de Afonso Henriques ter assentado o reino de

Portugal em Coimbra”. O português foi e é falado em todo o território nacional, sendo este um elemento culturalmente diferenciador em relação a Espanha, Estado plurinacional coexistindo nele diversos idiomas como o basco, o catalão ou o galego,… José Mattoso alertava que “fazer coincidir os Estados com áreas culturais resultaram normalmente de ideologias totalitárias”. É hoje evidente que Portugal se afirmou no contexto de uma Península Ibérica, fracionada por reinos concorrentes, que ora se combatiam ora se aliavam, por conveniência e contratos matrimoniais. Na transição para a modernidade, D. João II “O Príncipe Perfeito” e Isabel de Castela e Fernando de Aragão os “Reis Católicos”, centralizaram o poder real, dando origem a uma visão estratégica universal para os dois reinos ibéricos, claramente evidenciada no Tratado de Tordesilhas. A influência de factores geográficos foi rigorosamente analisada por

Orlando Ribeiro na sua incontornável e bem fundamentada obra “Portugal: o Mediterrâneo e o Atlântico”. Aspecto também abordado é o “perfil psicológico” do português e o seu “destino”, por autores como Luís de Camões, Antero de Quental (Causa da decadência dos povos peninsulares), Oliveira Martins, Fernando Pessoa (A mensagem), mais recentemente, por Eduardo Lourenço (o Labirinto da Saudade) ou José Gil (O medo de existir), entre outros. As elites político-económicas actuais e os seus aparelhos comunicacionais, culturalmente pouco formadas ou menos interessadas nestas questões indispensáveis para entender o mundo em que vivemos, consideram que soluções supranacionais estritamente económico-financeiras podem prescindir de fundamentos histórico-culturais que continuam vivos. Fernand Braudel chamou a atenção que as civilizações são eternas e quando menos se espera… renascem. l

Castanhas assadas e Feira de São Martinho atraem milhares a Portimão foto d.r.

􀪭􀪭 Feira promete fazer as delícias de miúdos e graúdos

Portimão cumpre a tradição e festeja o São Martinho, entre 8 e 17 de novembro, com a 357ª edição da feira que lhe dá nome, o mais antigo evento popular que se realiza em Portimão e que remonta ao ano de 1662. Neste que é um dos polos incontornáveis de animação outonal no concelho, e que volta a ter lugar, como habitual, no Parque de Feiras e Exposições de Portimão, não vão faltar as tradicionais castanhas assadas, as farturas, as pipocas, o pão com chouriço e outros petiscos tentadores nos bares e tasquinhas existentes no recinto, assim como vários espaços de animação com jogos diversos, ‘carrinhos de choque’ e carrosséis, numa feira que promete fazer as delícias de miúdos e graúdos. A edição deste ano volta a contar com dois dias temáticos – 13 e 17 de novembro – escolhidos conjuntamente pelos expositores e a organização, com o intuito de aplicar preços especiais nos divertimentos. O dia 13 destina-se a crianças e jovens (dia da juventude),

enquanto o último dia da feira é dedicado à família (dia da família). No interior do Portimão Arena, durante este mesmo período, entre as 15 e as 24 horas à sexta-feira e ao sábado, e entre as 15 e as 23 horas de domingo a quinta-feira, decorrerá uma exposição automóvel a cargo das marcas Alfa Romeu, Audi, Citroën, Dacia, Fiat, Ford, Hyundai, Jeep, Kia, Mazda, Mitsubishi, Nissan, Opel, Renault, Seat, Skoda e Volkswagen, e de motos Yamaha. No primeiro dia, 8 de novembro, a Feira de São Martinho poderá ser visitada das 16 à 1 hora, no dia 9 de novembro funcionará das 10 à 1 hora, entre 10 e 14 de novembro abre portas das 10 às 24 horas e nos dias 15 e 16 de novembro abre das 10 à 1 hora. No derradeiro dia, 17 de novembro, a Feira funcionará das 10 às 24 horas. De salientar que no corrente mês de novembro não se realiza o mercado mensal, que regressará a 2 de dezembro, nem a feira de velharias, cuja periodicidade será então retomada nos dias 1 e 15 de dezembro. l


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MARCA D'ÁGUA •••

“Economia e Sociedade – Pensar o Futuro” In Memoriam de Manuela Silva (1932-2019)

acção. Integrou diversos grupos de investigação da Comissão Europeia, do Conselho da Europa e da OIT. Foi Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (2006 a 2008). Tinha uma visão muito alargada da vida e da sociedade. Numa crónica intitulada “Olhar o trágico como um novo possível”, publicada em 2018 no livro Resiliência. Criatividade. Beleza, Manuela Silva refere fenómenos como o êxodo dos refugiados, as catástrofes naturais e as tensões geopolíticas, onde afirma que: “Estamos perante um gigantesco desafio cultural e espiritual, que supõe e impõe um redobrado empenhamento, a todos os níveis, designadamente na educação das gerações mais jovens, para uma nova concepção e vida boa e feliz, que se traduza em novos estilos de vida, modos de pensar e de agir, de produzir e consumir, de cuidar de si, dos outros, do próprio local, do País em que se vive e do Planeta Terra”. O título que escolhi para esta crónica é o título que Manuela Silva A economista Manuela Silva foi o rosto português da luta contra a pobreza • deu ao seu último livro publicado pela Fundapara a Intervenção Social (Cesis) e Como Secretária de Estado para o ção Calouste Gulbenkian em 2018. criou, na década de 1990, um mes- Planeamento no I Governo Constitu- Nessa obra fala não só em reduzir e trado em Economia e Política Social. cional (1976-77) deixou pensamento e erradicar a pobreza nas suas diversas foto d.r.

Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa luisa.algarve@gmail.com

A crónica do mês passado foi dedicada a Fernando da Silva Grade falecido a 8 Setembro. Não contava, no entanto, que a deste mês fosse dedicada a outra pessoa falecida, neste caso a 7 Outubro. Dois autores e amigos que partiram com um mês de diferença, ambos vítimas de doença prolongada. Sinto que devo prestar esta homenagem à economista e amiga Manuela Silva, não só pelo que aprendi com ela, mas porque, e usando as palavras do Presidente da República, teve “uma vida dedicada a causas de grande relevância económica e social, nas quais se incluem a justiça social, luta contra a pobreza e defesa dos Direitos Humanos”. Marcelo Rebelo de Sousa na nota de condolências à família, afirma ainda que “a sua morte constitui uma perda de grande relevância” para Portugal. No dia 1 de Outubro, a 6 dias de morrer, publicou a sua última crónica intitulada “Ampliar as perguntas e ser coerente com as respostas”, onde refere a Fundação Betânia e a Rede Cuidar da Casa Comum – A Igreja ao Serviço da Ecologia Integral. Dois projectos marcantes da sua vida e aos quais se dedicou até ao fim. No ISEG, onde leccionou de 1970 a 1991, Manuela Silva presidiu ao Conselho Pedagógico, dirigiu a Revista de Estudos de Economia, dinamizou a criação de um Centro de Estudos pub

formas, como afirma que nem todo o crescimento económico é virtuoso. Acrescenta que só o será se der origem a um maior bem-estar das pessoas e das suas comunidades e a um mais elevado progresso social, isto é, melhor nível de educação, saúde, conhecimento, segurança, liberdade e participação. Foi pioneira na intervenção e desenvolvimento comunitário, tal como nos estudos sobre a pobreza em Portugal e nas questões das desigualdades entre homens e mulheres. A acção de Manuela Silva em prol de causas que são centrais no nosso modo de vida, mostra como ela foi uma figura percursora na nossa história colectiva recente. É por isso que não hesito em dizer que o seu legado permanecerá por muito tempo. Ela mostrou-nos que o caminho a seguir é o do envolvimento, do compromisso com o Ser Humano e com a Natureza. Nos últimos anos empenhou-se em duas novas áreas que são uma forma de pensar o futuro. Uma foi a reflexão sobre a educação das gerações mais jovens, tendo juntado educadores, psicólogos, sociólogos e professores e a outra foi a questão da emergência climática. Inspirada e impulsionada pela Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, dinamizou e foi “a grande alma da rede Cuidar da Casa Comum”. Rede da qual falei na Crónica de Setembro, com breve alusão à dinamização que procuro desenvolver enquanto representante da Rede no Algarve. Na manhã em que estava a iniciar a resposta a uma SMS que tinha recebido de Manuela Silva, com palavras de estímulo, ouvi na rádio a notícia da sua morte… um nó na garganta… um agradecimento que ficou por fazer… mas uma gratidão e uma missão que continuará a existir. l


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FILOSOFIA DIA-A-DIA •••

Filosofia Sufi no al-Gharb foto d.r.

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

O Algarve é o ocidente andaluz por excelência e tem sido considerado por muitos o paraíso na terra pois “os lugares brilham entre as árvores, quais pérolas engastadas em esmeraldas". [Aqui] a vegetação, a brisa, o sol, os frutos, as águas, tudo é bom. As pessoas talentosas do Islão nascem no Andaluz, onde se elevam o sol e a lua da ciência, "terra de génios.”, diz-nos Pinharanda Gomes no seu livro A Filosofia Arábico-Portuguesa. O historiador marroquino do sec. XIII Al-Marrakushi no seu livro Historie des Almohades afirma: “Nenhum clima goza de temperatura mais igual, de um ar mais puro, de melhores águas, de plantas mais olorosas, de rocios mais abundantes, de manhãs mais gratas, de noites mais doces”. Por este motivo, “O encontro com a feraz Andaluzia, foi decisivo na quebra da expansão árabe a ocidente... Aos felizes detentores das veigas meridionais, como poderiam tentar as asperezas do setentrião”, pergunta-se F. da Cunha Leão em O Enigma Português. Para quê continuar a guerra expansionista se se estava já na terra prometida? O Algarve correspondia na perfeição a esse oásis “onde deixará de haver chamamento à oração, porque todas as coisas estarão consumadas, no paraíso da glória e da felicidade”. Esta terra abençoada foi também fecunda de filosofia, a saber, da vertente mística do Islão: a filosofia Sufi. Nela se distinguem três vias principais: a via do amor, a via do êxtase, e a via da intuição. No misticismo do amor o homem deixa-se impregnar pelo amor de Deus. O expoente máximo da poesia amorosa sufi é o poeta Jalal ad-Din Rumi e podemos encontrar a sua influência nos místicos espanhóis Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. A segunda é a via extática que implica experiências de diferentes estados de consciência. A sua principal metáfora consiste na viagem noturna do profeta Maomé pelos sete céus até à presença divina. Os sufistas extáticos atingem um grau tão elevado de concentração que perdem a consciência do mundo em seu redor. Consideram que entram num estado de “graça infundida”. A terceira via é a do discernimento intuitivo. Através de um órgão a que chamam “olho do coração” acedem a realidades intangíveis. Consideram que o mundo é Deus velado e utili-

O Algarve é o ocidente andaluz por excelência e tem sido considerado por muitos o paraíso na terra •

zam uma linguagem simbólica para falar desse inefável que apenas o olho do coração alcança. São aproximadamente trinta os poetas árabes que nasceram e viveram no Gharb Al-Andalus, entre eles o mais famoso poeta de Cacela (Velha) Ibn Darraj Al-Qastalli; Ibn Qasi de Silves que, por sua vez, deixou dois discípulos: Al-Oriani de Loulé, que se fixou em Sevilha, e Abu Imran de Mértola. Ambos foram mestres do grande filósofo-poeta sufi Ibn al-Arabi de Múrcia, quando este viveu em Sevilha. Justamente, a ACTA acaba de estrear a peça “IBN QASI”, da autoria de José Carlos Fernández, com encenação de Luís Vicente, que estará em cena no Teatro Lethes até 30 de Novembro. Uma oportunidade a não perder para conhecer um pouco mais da vida e obra deste soberano “iniciado”. Consta que durante a juventude Ibn Qasi, oriundo de uma família com posses, terá sido um hedonista, levando uma vida de prazeres mundanos. Detentor de um cargo público, abandonou-o após a morte dos seus pais emergindo então a sua vocação espiritual. Ao tornar-se sufi, decantou-se por uma vida ascética, e doou grande parte dos seus bens aos mais carenciados. Teve dois principais mestres espirituais: Ibn Khalil de Niebla e Khalafu ‘llah al Andalusi. Tornou-se um fervoroso defensor da obra proibida de al-Gazali, proscrita desde o sec. XII, que exortava as

gentes contra o regime almorávida. Começou por pregar a vizinhos e rapidamente a sua fama foi crescendo, congregando seguidores. Afirmava ter feito a peregrinação a Meca numa só noite, ter dons telepáticos e que o dinheiro que distribuía provinha do “tesouro de deus”. O investigador António Rei no seu artigo “Os Místicos no Garb al-Andalus e os modelos sociológico das suas vivências (séculos X a XIII)” considera que Ibn Qasi foi um caso sui generis entre os místicos de al-Andalus pois “tendo sido um chefe ou guia espiritual (Imām), acabou mais tarde, por assumir um protagonismo como chefe político (Mahdī). O papel do Mahdī não é o de um chefe político tout court, como um qualquer monarca. Ele é um homem ‘guiado por Deus’, para fazer com que a lei islâmica e a justiça social se restabeleçam na sociedade, após um período de injustiça e de ignorância. (...) Ibn Qasi foi o único mestre espiritual, oriundo do espaço hoje português, que deixou uma obra escrita que sobreviveu, completa, até aos nossos dias. Trata-se do Tratado Khal‘ al-Na‘layn (Tira ambas as sandálias), que se encontra em Istambul, associado a um comentário realizado por Ibn al-‘Arabī. Esta mesma obra chegou às mãos de Ibn al-‘Arabī através de uma dádiva feita pelo próprio filho de Ibn Qasī, al-Husayn, na Tunísia.” Aqui

apresentamos um dos seus poemas: "Tira as sandálias e ascende altivo acima das estrelas cintilantes ! une-te à Verdade! quem as desprezou ficou chorando por todas as coisas. o olhar do mais firme -tal como o céuconvoca a beatitude da verdade clara. descalça as sandálias sinceramente, desde os umbrais do esplendor. une-te ao Ser! vale-te mais essa união que todas as provas da Razão. quem viu o que eu gritei à multidão acerca da realidade da união tem de deixar o mundo da dualidade que são duas sombras sob o sol. o espírito venceu a dor ao aproximar-se do distante. ó mãe dos meus irmãos! o Amado é a meu lado! ó povo! se a paixão me der a morte toma o meu amor, como vingança, e vinga-me!” Ibn Qasi constrói na Arrifana de Aljezur um ribat ou azóia onde congrega os seus seguidores de oração e luta - os muridines de quem se proclama Im. Foi ele o primeiro a sublevar-se no al-Andaluz contra os Almorávidas. Conquista Mértola em 1144 onde chega a cunhar moeda, sendo o único príncipe mouro a fazê-lo em território lusitano. De facto, foram encontradas em Múrcia moedas dessa época onde consta “O Mahdi [Ibn Qasi] é o nosso Imām”.

Mais tarde Ibn Qasi é proclamado senhor de Silves. Quando uma década depois o seu reinado entra em declínio pede auxílio a D. Afonso Henriques, senhor de Coimbra. Esta aliança é selada com a oferta de um cavalo, um escudo e uma lança. Presentes modestos se desconhecermos o seu significado simbólico. Porém, se tivermos em conta a iniciação cavalheiresca do ocidente medieval o cavalo é a montada privilegiada da busca espiritual, o escudo representa o universo, assim convertendo o cosmos em arma protetora, e cravar uma lança em terra significa o fim das hostilidades e o desejo de parlamentar. Pode parecer estranha esta aliança entre um rei cristão e um soberano muçulmano, contudo, como afirma Adalberto Alves em As Sandálias do Mestre, “para um sufi, as fronteiras entre as diversas formas de conhecimento espiritual são ilusórias e resultam da vivência meramente esotérica do fenómeno religioso. Sabemos quanto os Templários foram esteio ao rei conquistador, e sabemos igualmente o grau de cumplicidade iniciática que, com o sufismo, a Ordem possuía. (...) Não tinha, pois, Ibn Qasi, razões para considerar aberrante um pacto com o nosso rei, muito pelo contrario, era isso natural à luz das regras da Cavalaria Espiritual.” l Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com

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