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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

JULHO 2016 | n.º 94 8.203EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve d.r.

Letras e leituras: d.r.

Ungulani Ba Ka Khosa

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Artes visuais:

Onde está a ‘pureza’ na produção artística?

d.r.

lídia jorge • manuel baptista • nuno júdice • antónio ramos rosa • gastão cruz • teresa rita lopes • casimiro de brito • carlos brito • joão ben- tes • luís ene • pedro afonso • ana andré • gonçalo vargas • anabela moutinho • josé carlos fernandes • vasco célio • pedro bartilotti • josé carlos barros • sónia litle b cabrita • dália paulo • jorge queiroz • pedro ramos • zé eduardo • paulo serra • antónio rosa mendes • otelo fabião • afonso dias • fernando grade • júlio almeida carrapato • luísa monteiro de sá • paulo moreira • nuno lorena • mário spencer • andré capela • vasco vidigal • josé bivar • fernando esteves pinto • joão ventura • tiago nené • joão mariano • lia viegas • fernando cabrita • eduardo ramos • luís de a. miranda • eduardo brazão gonçalves • carlos campaniço • turcato da luz • elisabete martins • josé vieira calado • paulo penisga • idália farinho • catarina oliveira • maria aliete galhoz • pedro jorge • lolita ramires • antónio manuel venda • xana • josé carlos vilhena mesquita • sandro william junqueira • jorge soares francisco palma-dias • josé laginha • luís guerreiro • joão viegas • luísa ricardo • paulo pires • sónia pereira • catarina rosa • luís vicente • ângelo encarnação • josé louro • luís oliveira • teresa ramos • susana de medeiros • susana nunes • nuno rufino • paula ferro • duarte temtem • manuel neto dos santos • sara monteiro • nuno murta • joão pires • paulo teixeira • josé barradas • antónio baeta • júlio conrado • elviro da rocha gomes • nuno bicho • josé ruivinho brazão • antónio silva carriço • emanuel ps.sancho 4e5 • glória maria marreiros • bruno alves • josé pedro machado • rui parreira • joaquim romero magalhães • emmanuel correia • manuel laginha • rui mendes paula • gomes da costa • vicente de castro • manuel teixeira-gomes • vicente campinas • bernardo marques • roberto nobre • assis esperança • antónio aleixo • manuel gomes guerreiro • emiliano da costa • bernardo de passos • carlos porfírio • antónio pereira • leonel neves • joão lúcio • mário lyster franco • cândido guerreiro • alberto iria • joão de deus • júlio dantas • francisco fernandes lopes • manuel viegas guerreiro • julião quintinha • antónio aleixo • lídia jorge • manuel baptista • nuno júdice • antónio ramos rosa • gastão cruz • teresa rita lopes • casimiro de brito • carlos brito • joão bentes • luís ene • pedro afonso • ana andré • gonçalo vargas • anabela moutinho • josé carlos fernandes • vasco célio • pedro bartilotti • josé carlos barros • jorge queiroz • pedro ramos • zé eduardo • paulo serra • antónio rosa mendes • otelo fabião • afonso dias • fernando grade • júlio almeida carrapato • luísa monteiro de sá • paulo moreira • nuno lorena • mário spencer • andré capela • vasco vidigal • josé bivar • fernando esteves pinto • joão ventura • tiago nené • joão mariano • lia viegas • fernando cabrita • eduardo ramos • luís de a. miranda • eduardo brazão gonçalves • carlos campaniço • turcato da luz • elisabete martins • josé vieira calado • pau-

p. 6

d.r.

Filosofia dia-a-dia: d.r.

‘Boa vibração’?

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Sala de leitura: d.r.

Manuel Madeira:

O corpo como elo mais fraco

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«É entre dois abismos que existo e me confundo»

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Cultura.Sul

Missão Cultura

Plataforma das Artes, Cultura e Criatividade no Algarve Direção Regional de Cultura do Algarve

Num artigo sobre as comunidades criativas, a cultura e o turismo reconhecíamos em 2008 como: “A cultura e as «indústrias criativas» têm sido determinantes para a (re)produção e (re) criação dos espaços urbanos; podemos mesmo afirmar que alguns locais foram reconstruídos ou até concebidos propositadamente para o turismo e para o lazer” (Gonçalves, 2008:11)1. Falava-se à data na necessidade das cidades e das regiões de serem criativas, de promoverem novas estratégias de regeneração e de dinamização do seu tecido económico e social. É no decurso desta abordagem que emerge o conceito de Turismo Criativo (Creative Tourism), constituindo-se como aquele tipo de turismo que oferece aos visitantes a oportunidade de desenvolver o seu potencial criativo através da participação activa em experiências únicas e autênticas de aprendizagem nos seus destinos de férias. Sobre esta

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abordagem, numa primeira fase de estudo, foram importantes os contributos científicos de R. Florida (2002) e G. Richards (2002 e 2005) e J. Wilson (2005)2. Hoje os documentos proliferam e há inclusive um programa estratégico europeu dedicado à Europa Criativa. Em Portugal, os estudos de Augusto Mateus têm sido uma referência, com uma actualização em 20143 onde se defende que no futuro nas economias progressistas, todas as indústrias serão culturais e criativas. Algarve, um lugar ao sol?

zada e plural a todo o sector cultural e criativo, numa rede aberta de benefícios mútuos. Reconhecemos assim que a cultura e a criatividade podem dar um contributo fundamental para a inovação e para a diferenciação de todas as actividades, entre as quais, as do turismo. Em conclusão, como diz a letra da música: “Há uma batalha a travar, que só tu podes vencer”, entendemos este tu como nós, o Algarve em conjunto. 1

A cultura e a criatividade podem dar um contributo fundamental ao turismo

Gonçalves, A. (2008) “As comunidades

criativas, a cultura e o turismo”, Revista dos algarves, pp.10-18. | 2 Florida, R. (2002), The Rise of the Creative Class: And How It is Trans-

“(N)um Lugar ao Sol, contributos do turismo para as dinâmicas criativas e para a atração da classe criativa no Algarve” é o título da tese de Doutoramento em Turismo de Ana Rita Pereira Marques da Cruz, que a 30 de Junho passado foi defendida na Universidade do Algarve. O título da música dos Delfins dá-nos o mote para um maior conhecimento sobre como o turismo pode contribuir para a atração e retenção da classe criativa (composta pelo núcleo criativo, pelos profissionais criativos e pelos

profissionais das artes e da cultura). Os resultados da investigação apontam como factores de atratividade principais da classe criativa ao Algarve: o clima, o sol e a luz; a tolerância; o mercado de trabalho; os estilos e ritmos de vida; a segurança; as oportunidades de consumo e as infra-estruturas. Nas dificuldades de retenção desta classe criativa surgem as referências à falta de maiores oportunidades de trabalho e à carência de infra-estruturas dedicadas.

Por sua vez, a comparação com outros casos europeus evidencia que as redes de actores de suporte ao desenvolvimento das comunidades criativas são baseadas em relações informais (excepção feita para o projecto Loulé Criativo) e é reconhecida a falta de cooperação e de relações fortes entre os actores da cultura e da criatividade. Em termos nacionais, o contributo da região para a economia criativa era em 2012 de 3,4% (muito longe de Lisboa, do Norte e até do Centro do país).

Neste sentido e conscientes destes resultados, um dos contributos que poderá fazer a diferença é a Plataforma para as Artes, Cultura e Criatividade que consta do Mapeamento da Cultura aprovado na região e que estabelece como objectivo principal a criação de uma rede digital de suporte e sustentação a este estreitamento entre actores públicos regionais e locais, mas também de aproximação à classe criativa do tecido empresarial, que assim conseguiria aceder e disponibilizar informação atuali-

forming Work, Leisure, Community and Every Day life, Basic Books, Nova Iorque. | 3 Richards, G. (2002), «From Cultural Tourism to Creative Tourism: European Perspectives», in Journal Tourism, vol. 50, nº 3, pp.235-248. | 4 Richards, G. e J. Wilson (2005), «Developing creativity in tourist experiences: A solution to the serial reproduction of culture?», in Tourism Management, [online] Disponível em: http://www. sciencedirect.com, 30/11/05, 15 p. | 5 Mateus, A. (2014) (Coord.) A Cultura e a Criatividade na Internacionalização da Economia Portuguesa, GEPAC/Secretário de Estado da Cultura

Direção Regional de Cultura do Algarve

Juventude, artes e ideias

Um bollycao não é uma sardinha v8

João Pedro Baptista Músico

AGENDAR

O verão chegou! E com ele todas as coisas a que temos direito: sol, calor, biquínis, turistas, etc. Eu tive a sorte de poder passar todos os verões numa roulo-

te, entre Faro e Fuseta. Passei os primeiros 21 anos da minha vida nisto. Com seis dias apenas já estava na roulote dos meus pais. Vivi o turismo pelas duas vertentes. A de turista e a de local/trabalhador. Fazia muita ‘espécie’ a muita gente, sair de casa durante dois meses para ir para aqui tão perto. Mas eram verões especiais onde conheci muita gente. Turistas estrangeiros e não só, pessoas com negócios de verão e não só, etc...

Isto tudo para dizer que estamos completamente perdidos... Continuamos a apostar na sazonalidade, continuamos a ter “época balnear” e a parecer um bairro mexicano abandonado durante o inverno. A segurança das águas continua a ser assegurada obrigatoriamente pelos concessionários das praias e a existir somente durante esse tempo. Temos praias que são sujas no inverno e limpas por voluntários antes do verão e tomamos este facto com o orgulho

“ADERITA – BLACK SILK” Até 5 AGO | Galeria Municipal de Albufeira Adérita utiliza a arte abstracta para exprimir sensações, impressões e sentimentos através de diferentes materiais: tela, papel, óleo, pastel, pigmentos, fibras e lantejoulas

digno do voluntariado pela “natureza”. As estradas estão um caos, os acessos horríveis e a rede de transportes é mais ineficaz que umas braçadeiras de criança num velho gordo que não sabe nadar. Usamos a nossa criatividade em momentos seleccionados e não como uma constante no dia a dia. É triste ver gente que quer trabalhar, mas que está agrilhoada ao peso da burocracia, à pressão das contas, ao incon-

tornável monstro da higiene e ao policiamento cego, digno de qualquer sociedade opressora. Continuamos a deixar que tudo aconteça ao mesmo tempo. Não há planeamento de eventos, atropelam-se concertos, mostras, festivais e conceitos falhados. E para não sermos incomodados com outras experiências e outras visões ou alternativas, acusamos o preço e baixamo-lo até o lucro ser a miragem acompanhada na sua miséria por fraca qualidade em tudo.

À falta de aposta, de “cojones” pela mudança e de arriscar, é a música que dá o mote para a eterna dança da ladainha de inverno. Este não é o verão das nossas vidas, porque nos falta a vontade de oferecer a quem nos visita, aquilo que estávamos dispostos a oferecer àquele amor de verão. Que por um beijo que fosse, não havia duna que fosse grande demais, ou ponte assustadora e alta para saltar e dar aquela chapa! Vínhamos vermelhos!

“CONCERTOS COM CONTEMPORANEUS” 13 e 16 JUL | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Num concerto inteiramente dedicado ao repertório de câmara escrito para flauta transversal e cordas, serão interpretadas obras de Mozart, Beethoven e Volkmar Andreae


Cultura.Sul

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Letras e leituras

O luto de uma nação: Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa, foi publicado em Maio de 2015 pela Sextante Editora. Apesar de muito pouco falado em Portugal, Ungulani (antes Francisco) Ba Ka Khosa é, de entre os escritores moçambicanos, o mais reconhecido da sua geração e integra a lista dos cem melhores autores africanos do século XX. A sua primeira obra, Ualalapi (1987), obteve o Grande Prémio de Ficção Moçambicana em 1990, e Os sobreviventes da Noite (2007) o prémio José Craveirinha de Literatura em 2007. Todavia, a não ser por Ualalapi, publicado pela Caminho, e Choriro, obra originalmente publicada no ano de 2009 em Moçambique e agora publicada pela Sextante numa edição revista, é praticamente impossível encontrar as suas obras em Portugal. As restantes obras são, aliás, colectâneas de contos.

Ualalapi é a obra de eleição de muitos dos seus leitores, pois o autor explora, tal como os sul-americanos o fizeram, o imaginário mítico do seu país. É um exemplo perfeito de realismo mágico na literatura sul-africana, onde se utilizam processos característicos da narrativa oral, em que o autor introduz elementos sobrenaturais e recorre a uma fenomenologia escatológica, assente no exagero que leva ao insólito e ao grotesco, através de vómitos, sangues, menstruações, chuvas diluvianas. Estes são sintomas de um mundo em desintegração que desrespeitou os seus valores tradicionais ao virar-se para a cultura ocidental como um modelo a seguir. A obra é composta por seis contos mas Khosa entretece as seis narrativas, unidades in(ter)dependentes, sendo cada uma das seis unidades antecedida por um pequeno texto, intitulado «Fragmentos do fim», textos esses que se encontram numerados de um a seis, numeração essa que parece marcar também a própria evolução histórica que se sente até chegar à queda do império. Choriro é o mais recente romance de Ba Ka Khosa e o seu segundo romance histórico, depois de Ualalapi. A palavra

choriro significa, numa das línguas locais da Zambézia, dor, correspondendo também ao período costumeiro de três dias de luto, durante os quais o morto é preparado para a cerimónia do enterro. E é sobre esses três dias que a narrativa se centra, retratando o luto daqueles que privaram de perto com o rei branco Nhabezi, aliás Luís António Gregódio. Na aurora da colonização mercantil de Moçambique, na região do Zambeze, no século XIX, Nhabezi foi o único rei branco do país. Um rei branco que, à semelhança de outra das personagens que era sacerdote, acaba por deixar para trás a sua vida de branco e de colonizador e adapta-se aos costumes e tradições locais, integrando-se e sendo respeitado por todos. Contudo, foi também este grande caçador que introduziu na dieta o arroz, a banana e o limão, e ensinou os homens a produzir pólvora e a fabricar armas para se poderem defender do invasor. É também curiosa a forma, tal como o título indica, como a narrativa se detém sobretudo no período do declínio da saúde de Nhabezi, quando surgem os abutres de paragens distantes e ficam de vigia sobre as paliçadas, como aves de mau agoiro que colocam toda a gente em sobressalto, e depois na morte do protagonista, porque é em torno dele que se reúnem as várias personagens e as narrativas que cada uma traz, e nos ritos fúnebres. Apesar das analepses constantes, que surgem

fotos: d.r.

'Choriro' é o mais recente romance de Ba Ka Khosa quase sempre de forma alternada, esta é sobretudo uma obra que retrata uma comunidade: sobre os conselheiros do rei, os seus guerreiros, as suas mulheres, os seus filhos. Ainda que esta narrativa seja um produto de uma aturada pesquisa histórica, onde não faltam citações de uma suposta crónica e referências bibliográficas, que tanto nos leva a saber mais sobre Livingstone, o explorador do continente africano, como sobre o regícidio em Lisboa, esta é uma versão da

Escritor é dos mais reconhecidos da sua geração

História inteiramente imaginada pelo autor, formado em História, Geografia e Antropologia. Choriro ganha assim um tom de crónica histórica, do que podia muito bem ter acontecido, não isenta de espírito crítico e de ironia, como se percebe logo no início da narrativa, quando nos situa temporal, espacial e socialmente: «A vila de Tete, nos então anos quarenta, cinquenta, do século dezanove, era uma pequena povoação com cerca de cem brancos que se intitulavam portugueses europeus, como forma de distanciarem-se dos mais de cento e cinquenta filhos de Goa que muito se orgulhavam de ser portugueses. O trato entre eles não era de todo cortês, por os brancos, incomodados com a presença sempre crescente dos canarins, chamarem-lhes, quando os nervos vinham à pele em momentos de infortúnio nas incumbências do comércio, judeus asiáticos pelas felizes e lucrativas artimanhas que tinham no trato com as mercadorias trafegadas, e outras ocupações ligadas ao comércio de panos e bebidas e diversas quinquilharias de maior e menor valia para os pequenos e grandes reinos do sertão africano.» (p. 15). Ungulani Ba Ka Khosa tem uma prosa elaborada em que as frases se alongam de modo extenso, sen-

do necessário, por vezes, voltar ao início das mesmas de forma a perceber o seu encadeamento e conclusão. A escrita, apesar do cuidado nos factos históricos, é efectivamente literária, cuidada, despojada de grandes floreados. A narrativa torna-se ainda mais rica quando atenta nos factos e costumes locais, o que configura um dos aspectos mais interessantes da obra, como acontecia em Ualalapi: a forma como se retratam tradições, crenças e superstições, como, por exemplo, a crença sempre presente de como Nhabezi irá voltar em espírito como leão, rei, ou, caso os espíritos não o favoreçam, como Negozi – espírito mau – para assombrar os que ficam. Uma das mulheres, ainda antes da sua morte, está em permanente pavor a pensar de que forma irá ele regressar para voltar a partilhar a sua cama, se transfigurado em símio, leão, leopardo ou hiena, enquanto outra das mulheres do rei – claro que um rei não pode ter apenas uma mulher – a tenta tranquilizar, convencendo-a de que o «povo fala por imagens». Como refere o próprio autor, «A minha língua-mãe é o português», assimilada logo em criança, e Ba Ka Khosa dá provas disso, utilizando o português com grande competência literária, conforme se reflete na sua destreza narrativa, ora contida em frases curtas ora distendendo-se em parágrafos mais longos, lembrando autores como Gabriel García Márquez, José Saramago ou João de Melo, criando o chamado efeito do barroquismo da linguagem. A sua linguagem é imaginativa e visual, densa e violenta, o que por vezes se revela de forma chocante, sem contudo chegar ao pornográfico, dotada de uma energia que veicula uma forte carga simbólica e mito-poética. Este autor moçambicano demarca-se por um estilo de escrita bastante ocidentalizante, quase rebuscado, com o condão de nos dar impressões fortemente visuais, enquanto desdobra a realidade moçambicana com a simplicidade e destreza de quem a conhece bem e vive no seu meio. Esperemos agora que a obra deste fabuloso autor continue a ser publicada e reeditada entre nós.


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Cultura.Sul

Panorâmica lídia jorge • manuel baptis• gastão cruz • teresa rita lojoão bentes • luís ene • pedro • anabela moutinho • josé carbartilotti • josé carlos barros • jorge queiroz • pedro ramos • rosa mendes • otelo fabião • afonalmeida carrapato • luísa monteilorena • mário spencer • andré cafernando esteves pinto • joão ventu• lia viegas • fernando cabrita • edu• eduardo brazão gonçalves • carlos elisabete martins • josé vieira calado • catarina oliveira • maria aliete galhoz manuel venda • xana • josé carlos vijorge soares francisco palma-dias • josé cardo • paulo pires • sónia pereira • ca- tarilouro • luís oliveira • teresa ramos • susana • paula ferro • duarte temtem • monteiro • nuno murta ra • josé barradas júlio conrocha gocho • josé • antónio emanuel ria maria bruno alves machado • • joaquim rogalhães • emcorreia • manuel rui mendes paula da costa • vicente • manuel teixeiravicente campinas marques • roberto rança • antónio aleiguerreiro • emiliano de passos • carlos pereira • leocio • mácândido berto iria júlio danfernandes viegas guerquintinha aleixo • lídia nuel baptista dice • antónio • gastão cruz • lopes • casimiro • carlos brito • tes • luís ene • peso • ana andré • anabela moutinho • vasco célio • pedro bartilotti • roz • pedro ramos • zé eduardo • paulo bião • afonso dias • fernando grade • júlio sá • paulo moreira • nuno lorena • vidigal • josé bivar • fernando nené • joão mariano • lia vieramos • luís de a. miranda • campaniço • turcato da luz • eli• paulo penisga • idália farinho galhoz • pedro jorge • lolita raxana • josé carlos vilhena mesqui• jorge soares francisco palma-dias • joão viegas • luísa ricardo • paulo rosa • luís vicente • ângelo encarna• teresa ramos • susana de medeirufino • paula ferro • duarte temtem • sara monteiro • nuno murta • joão barradas • antónio baeta • júlio connuno bicho • josé ruivinho brazão • an• glória maria marreiros • bruno alves •

Cultura.Sul: oito anos a levar a cultura até aos algarvios d.r. fotos:

Oito anos não é muito, nem pouco, são exactamente oito anos, mas a verdade é que longe de alguns agoiros o Cultura.Sul completa oito anos de edições mensais em prol da cultura no Algarve. Comecemos - porque por aí exactamente devemos começar - pelo reconhecimento de que foram e são muitos os nomes que ao longo desta verdadeira maratona cultural ajudaram o Postal a pôr de pé esta ideia que muitos apelidaram e apelidam de peregrina de dar ao Algarve um caderno cultural mensal em formato jornal. Se as e os artistas e as mulheres e homens da cultura e de todos os seus quadrantes são a massa de que se fazem os conteúdos que mensalmente publicamos e por isso a eles devemos em grande medida a existência e o sucesso do Cultura.Sul, não menos verdade é que é aos nossos colaboradores e aos jornalistas do Postal mensais que de-

Capa da primeira edição do Cultura.Sul vemos grande parte da obra que levamos mensalmente até aos algarvios e aos leitores do Postal em Portugal e no mundo.

Mês após mês, ao longo destas 94 edições que já somámos, foram centenas aqueles que com a sua arte e a sua pena deram corpo a

este caderno e levaram até todos os leitores a sua opnião, o seu saber e o seu génio, na procura de uma oferta jornalística diversificada e apelativa, ao mesmo tempo que geradora de reflexão, conhecimento e saber. A todos o nosso indispensável obrigado e o mais que merecido reconhecimento. Não menos reconhecidos estamos àqueles que ao longo destes oito anos nos acompanham de forma mais ou menos assídua, lendo e dando por essa via destino a todos os temas que abordámos. É para todos vós e para todos aqueles que podem em qualquer momento ler as páginas do Cultura.Sul que escrevemos, investigamos, criamos e concebemos mensalmente o Cultura.Sul. Desnecessário seria dizer - não fosse por si só fundamental - que o Cultura.Sul existe por vós e para vós. Todos, os que nos lêem em formato papel, na internet


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Panorâmica

através do ISSUU (www.issuu/postaldoalgarve) ou através do Postal on-line, onde também publicamos e damos acesso on-line aos conteúdos criados para este caderno cultural que queremos cada vez mais lido e mais próximo de todos. Uma região culturalmente fraca, um mito a combater Durante décadas o Algarve foi considerado, e ainda o é por muitos, uma região com grandes debilidades ao nível da cultura, quer do ponto de vista da oferta cultural, quer do ponto de vista da produção. A verdade é que muito se fez nos últimos anos nesta matéria e se muito há ainda por fazer a verdadae é que a ideia feita de uma região pobre culturalmente é cada vez mais um mito. Sem querer encetar uma discussão sobre a matéria que poderia ter sempre argumentário de um e outro quadrantes, o que o Cultura.Sul se propõe desde a primeira hora fazer é ser mais uma ferramenta de crescimento e desenvolvimento cultural na região. Um esforço que sem modéstias assumimos preponderante para que a cultura como um todo tenha na imprensa

regional um espaço próprio e que lhe seja estritamente dedicado. Não abrangemos, nestes oito anos, certamente, todos os temas que a vastíssima área da cultura tem para destacar, compreender, trazer à ribalta e dar a conhecer, mas percorremos muito do que se apresenta e se faz na região na área cultural, da música à dança, do teatro à literatura,

da pintura, à arquitectura e à escultura, da identidade à forma de ser e de estar que marca o todo cultural regional, passando pela culinária e pela fotografia, pela museologia e pelo património, assim como pela política cultural e pelo cinema, pelo folclore e pelas formas vivas da cultura popular nas sua diferentes formas. Sem ideias pré-concebidas, sem medos e sem juízos de

valor demos voz e palco, luz e espaço às mais diferentes manifestações artísticas, demos e damos espaço à palavra escrita como veículo de compreensão e interpretação da cultura e criámos um lugar de cultura acessível a todos nas páginas deste caderno. Queremos exactamente prosseguir assim, não estáticos e cristalizados, mas na procura de todas as formas de expressão cultural, novas e velhas, mais ou menos consensuais, inovadoras e reinventadoras da expressão maior da humanidade que é a arte e a cultura como um todo. Queremos ser cada vez mais um dos espelhos do percurso cultural do Algarve e da forma como o mesmo se vem afirmando e ganhando dimensão. Estamos hoje como ontem e desde o primeiro dia firmes na convicção de que a cultura é uma área de especial relevo e que enquanto tal é mercedora do espaço que lhe dedicamos e dedicaremos, muitas vezes sós neste desafio que fazemos colectivo com quem cria cultura e com quem escreve nas páginas do Cultura.Sul. É que continuamos a saber e a fazer saber que a cultura é grande como a vida e imensa como a humanidade.

ta • nuno júdice • antónio ramos rosa pes • casimiro de brito • carlos brito • afonso • ana andré • gonçalo vargas los fernandes • vasco célio • pedro sónia litle b cabrita • dália paulo • zé eduardo • paulo serra • antónio so dias • fernando grade • júlio ro de sá • paulo moreira • nuno pela • vasco vidigal • josé bivar • ra • tiago nené • joão mariano ardo ramos • luís de a. miranda campaniço • turcato da luz • paulo penisga • idália farinho • • pedro jorge • lolita ramires • antónio lhena mesquita • sandro william junqueira • laginha • luís guerreiro • joão viegas • luísa rina rosa • luís vicente • ângelo encarnação • josé de medeiros • susana nunes • nuno rufino manuel neto dos santos • sara • joão pires • paulo teixei• antónio baeta • rado • elviro da mes • nuno biruivinho brazão silva carriço • sancho • glómarreiros • • josé pedro rui parreira mero mamanuel laginha • • gomes de castro -gomes • • bernardo nobre • assis espexo • manuel gomes da costa • bernardo porfírio • antónio nel neves • joão lúrio lyster franco • guerreiro • al• joão de deus • tas • francisco lopes • manuel reiro • julião • antónio jorge • ma• nuno júramos rosa teresa rita de brito joão bendro afongonçalo vargas • josé carlos fernandes • josé carlos barros • jorge queiserra • antónio rosa mendes • otelo faalmeida carrapato • luísa monteiro de mário spencer • andré capela • vasco esteves pinto • joão ventura • tiago gas • fernando cabrita • eduardo eduardo brazão gonçalves • carlos sabete martins • josé vieira calado • catarina oliveira • maria aliete mires • antónio manuel venda • ta • sandro william junqueira • josé laginha • luís guerreiro pires • sónia pereira • catarina ção • josé louro • luís oliveira ros • susana nunes • nuno • manuel neto dos santos pires • paulo teixeira • josé rado • elviro da rocha gomes • tónio silva carriço • emanuel sancho josé pedro machado • rui parreira • joaquim


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Cultura.Sul

Artes visuais

Onde está a 'pureza' na produção artística?

Saul Neves de Jesus

Professor catedrático da UAlg; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora

Terminou no dia 3 de julho (a data em que estou a escrever este artigo), a instalação “Píeres flutuantes” (Pés flutuantes) de Christo. Tratou-se de mais uma instalação de Christo que consistiu numa passadeira de 3 km, com 16m de largura, amarelo-alaranjada (dália amarelo), colocada no lago Iseo, no norte de Itália, fazendo a ligação entre Sulzano e duas ilhas (Monte Isola e San Paolo), permitindo a milhares de pessoas andarem sobre a água. Esta instalação demorou largos meses a preparar e custou cerca de 13 milhões de euros. No entanto, decorreu apenas durante 16 dias e não teve qualquer financiamento público ou patrocinadores privados. Para além de não haver uma perspetiva de lucro, o “público” não pagou para ver e sentir este trabalho de Christo, sendo claramente a sua obra oferecida àqueles que dela quisessem usufruir, durante o período em que existiu. Conforme anunciado pelo próprio Cristo: “Like all of our projects, The Floating Piers is absolutely free and accessible 24 hours a day, weather permiting. There are no tickets, no openings, no reservations and no owners. The Floating Piers are an extension of the street and belongs to everyone” (Como todos os nossos projetos, a instalação Os Pés Flutuantes é absolutamente livre e acessível 24 horas por dia, desde que o clima o permita. Não há bilhetes, aberturas, reservas ou donos. Os Pés Flutuantes são uma extensão da rua, pertencendo a todos). Parece-nos que esta obra concebida por Christo nos ajuda a responder à questão colocada como título deste artigo: Onde está a “pureza” na produção artística? Mas não foi apenas nes-

ta obra que isso aconteceu, sendo esta uma das características das instalações de Christo, pois financia os seus trabalhos sem patrocinadores ou fundos públicas. Em vez disso, vende os esboços e as fotos das instalações realizadas, bem como os materiais usados para a produção, revertendo os valores para a criação e execução de outros projetos. As instalações de Christo são também caracterizadas pelas suas enormes dimensões. De entre as mais conhecidas, conta-se a obra “Wrapped Reichstag” (Reichstag embrulhado), na qual o edifício do parlamento alemão, em Berlim, foi “embrulhado”, em 1995. Segundo o próprio Christo, esta obra terá demorado 32 anos a ser realizada, desde a preparação do projeto a partir de desenhos, colagens e estudos técnicos, passando pelo processo de construção, até a sua finalização. A questão do processo tem um papel muito importante na obra de Christo, sendo que muitas instalações demoraram vários anos entre a sua conceção e a sua concretização, nomeadamente sete anos para “The Umbrellas” (Os guarda-chuvas), simultaneamente em Ibaraki, no Japão, e no norte da Califórnia (EUA), de 1984 a 1991, dez anos para  “The Pont Neuf Wrapped” (Pont Neuf embrulhada), em Paris, de 1975 a 1985, três anos para “Surrounded Islands” (Em redor das ilhas), em Miami (EUA), de 1980 a 1983, e mais de dois anos para “Valley Curtain” (Vale Curtain), nas montanhas do Colorado (EUA), de 1970 a 1972. Mas a pureza das obras de Christo resulta também do prazer com que são feitas, expressando a relação que teve com Jeanne-Claude. Ambos nasceram no dia 13 de junho de 1935, Christo na Bulgária e Jeanne-Claude em Marrocos, tendo começado a trabalhar em conjunto nas artes visuais em 1961. Viveram 51 anos juntos, tendo Jeanne-Claude falecido no final de 2009. Esta afirmava que o amor entre eles era o principal elemento de suas obras. Preparavam e realizavam estas com prazer, sem expectativa de qualquer retorno que não fosse a con-

fotos: d.r.

Foto da instalação 'Pés flutuantes' (perspetiva geral), de Christo (2016)

Foto da instalação 'Pés flutuantes' (perspetiva geral), de Christo (2016) cretização do projeto em si mesmo: “é como criar um filho”, referia Jeanne. Num artigo anterior, quando analisámos a liber-

dade do artista, fizemos referência à teoria de Csikszentmihalyi (1999). De acordo com esta teoria, quando se encontram em estado de

Esboço da instalação 'Pés flutuantes', de Christo (2016)

fluxo, as pessoas apresentam um sentimento de total envolvimento e têm a consciência totalmente focada na atividade em si. Fizemos também referência ao Movimento Transvanguarda (Oliva, 1980), desenvolvido em Itália a partir dos ano 80, para acentuar a utilização de diversos meios na produção artística, numa atitude eclética e multidisciplinar, e de forma livre e com prazer. A não dependência em relação ao reconhecimento do seu trabalho e a aspetos sócio-económicos relacionados com a arte produzida, liberta o sujeito das avaliações por parte dos outros. O artista transvanguardista decide para onde quer ir e o que quer fazer, sem compromissos ou preconceitos. A “pureza” da produção artística está também nesta liberdade e neste prazer que vários artistas foram revelando ao longo da história de arte. Temos, por exemplo, os action painting dos anos 40 e 50 de Pollock, em que

a pintura são filamentos de cores que vão nascendo com o pulsar das sensações do artista, sendo as obras executadas de forma intensa, rápida, intuitiva e sem esquemas prévios. Neste aspeto há uma diferença muito acentuada com o processo de concepção e concretização da obra artística por Christo, a qual é conceptualizada e elaborada durante anos, procurando re-configurar o espaço, dando uma nova visão de realidade e possibilitando diversas interpretações do mesmo. As obras de Christo consistem numa intervenção, seja na natureza, seja em lugares públicos. Mas, ao contrário da Land Art, cujas intervenções são em lugares não habitados e longe dos olhos do ser humano, os trabalhos de Christo são sempre voltados para o público e construídos em locais de fácil acesso. Um dos seus principais objetivos é chamar a atenção para aspectos da paisagem que o “público” nunca havia notado antes. Utilizando o “embrulho”, os trabalhos de Christo conseguem revelar, pelo ocultamento, os pormenores e a importância daquilo que deixamos de visualizar. Além disso, outro denominador comum nas obras de Christo é o uso de têxteis, materiais frágeis, sensuais e passageiros que traduzem o caráter temporário das obras de arte. O tecido estendido sobre ou em torno de objetos simboliza a natureza temporária da arte efémera, criando no “público” a urgência para ver e participar nas instalações criadas. Mas a arte é como a vida, efémera, mas que pode ser vivida com prazer e intensidade! Parece-nos que é difícil encontrar uma atitude mais pura, livre e genuína nas artes visuais do que aquela que Christo tem revelado na sua produção artística, pelo que quisemos também homenageá-lo ao analisarmos a questão colocada neste artigo. Nota: Algumas das reflexões apresentadas neste artigo encontram-se no livro “Construção de um percurso multidisciplinar, integrativo e de síntese nas Artes Visuais”, de Saul Neves de Jesus (snjesus@ualg.pt).


Cultura.Sul

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Espaço ALFA

Primavera é tempo de fotografar flores e muito mais…

Ana González

Membro da ALFA

Inspiração para fotografar é com o que a primavera nos brinda cada vez que se aproxima. A mãe natureza é tão generosa que nos oferece um vasto leque de cores sem igual nesta estação. As diversas espécies de flo-

res vão desabrochando, os campos floridos dominam e transformam a paisagem numa explosão de cores. No entanto, não só de flores é constituída a primavera. Os insetos também desempenham um papel fundamental nesta estação. Se prestarmos atenção e observarmos ao nosso redor, podemos assistir ao frenesi das abelhas, das borboletas, entre outros insetos, que pousam de flor em flor. Estes insetos desempenham um trabalho de extrema importância para o equilíbrio e a preservação

das espécies. Toda esta diversidade somente é possível graças à população destes insetos coletores de pólen. O processo da polinização depende da presença destes insetos polinizadores, tornando-os, desta forma, indispensáveis para a obtenção de bons resultados na agricultura, pois carregam a enorme responsabilidade na oferta global de alimentos. Para além disso, a região algarvia é privilegiada pelas suas condições edafo-climáticas, salientando a sua diversidade botânica que representa e constitui um dos

centros de maior diversidade do país. Sendo assim, somos todos convidados para dar um passeio e passar a explorar ao pormenor as diversas espécies que compõem a paisagem algarvia, ou simplesmente contemplar a natureza e renovar as energias. Aproveitar o bom tempo e as primeiras horas da manhã para fotografar, pois permite capturar flores mais abertas que no fim do dia, quando algumas se fecham por completo. Além disso, a iluminação natural do sol deixará a sua foto naturalmente mais bela.

Filosofia dia-a-dia

O que há de verdade na 'boa vibração'? nância geral do universo que produziria continuamente a “música das esferas”, sinfonia que nós não ouvimos precisamente pelo seu carácter permanente. Maria João Neves Ph.D

fotos: d.r.

A Alma é uma lira

Consultora Filosófica

É frequente ouvir dizer que certa pessoa ou certo lugar propicia boas (ou más) vibrações. Será esta expressão apenas uma metáfora, ou haverá algo de real nela? A Harmonia das Esferas Os filósofos Pitagóricos (sec. VI a. C.) formavam uma comunidade de carácter moral e religiosa, mas distinguiram-se, sobretudo, pelas suas investigações matemáticas. Convencidos de que o universo está constituído harmoniosamente, os Pitagóricos deram-lhe o nome de Cosmos que significa ordem. Partindo da premissa de que cada movimento regular emite um som harmonioso, acreditavam na conso-

Os Pitagóricos acreditavam que a alma era um instrumento musical constituído por cordas. Tendo observado que quando duas liras se encontram perto uma da outra, basta fazer soar a corda de uma delas para que na outra ecoe o som, consideraram a música como uma força que afecta directamente a alma: a boa pode melhorá-la, a má pode corrompê-la. Criaram uma ciência chamada Psicagogia - Guia das Almas. À semelhança do que acontece com as liras, as almas ecoariam e influenciar-seiam umas às outras de acordo com a vibração que emitiriam. A Lei da Atracção Os filósofos Demócrito de Abdera (460-370 a.C.) e Leu-

cipo de Mileto (sec. V a.C) foram os primeiros a afirmar que a natureza é constituída por átomos, na altura considerados a partícula ínfima e indivisível da realidade (do grego, “a”, negação e “tomo”, divisível. Átomo=indivisível). Hoje em dia sabemos que o átomo é constituído por um

núcleo onde se encontram protões e neutrões e uma nuvem de electrões que orbita à sua volta; conhecemos também as consequências da sua divisibilidade. No entanto, estes filósofos da antiguidade enunciaram uma lei que continua válida nos dias de hoje: o semelhante tende para o semelhante. Anaxágoras (500428 a.C.), outro filósofo pré-socrático, declarou que “o Nous iniciava um vórtice e as partículas semelhantes juntavam-se para formar corpos”. Mais tarde Epicuro (341-270 a.C) afirmará que os átomos se encontram fortuitamente, por uma inclinação da sua trajectória. Este desvio pode acontecer por três motivos: vontade, desejo, ou afinidade com outro átomo. Sabemos que existem corpos que se comportam de maneira contrária, como é o caso dos ímans em que o semelhante se repele. No entanto, não deixa de surpreender que a lei de que o semelhante atrai o semelhante já tivesse sido enunciada no sec. V a.C.

A Teoria das Supercordas Em 1984 os físicos quânticos J. Schwarz e M. Green apresentaram uma teoria segundo a qual as entidades mais fundamentais do Universo nas são pontos, mas objectos unidimensionais alongados como fios, que têm a capacidade de vibrar, a que deram o nome de supercordas. Trinh Xuan Thuan no leu livro O Caos e a Harmonia diz-nos que “da mesma maneira que um trio de violoncelos nos encanta ao interpretar Mozart, assim também as vibrações combinadas das três supercordas produzem a música do protão. O átomo, que é uma combinação de protões, neutrões e electrões, dispõe ainda de outros músicos de orquestra. Estes músicos são ainda mais numerosos, tornando o som ainda mais amplo e majestoso, quando se trata da molécula, que é feita de um conjunto de átomos. As supercordas cantam e vibram à nossa volta, e o mundo não é senão uma vasta sinfonia”. L. Portela, explica no seu livro Ser Espiritual. Da Evidência à Ciência que “segundo a teoria das supers-

trings, os animais, as plantas, as rochas, a água, o ar, os raios infra-vermelhos, os raios X e tudo o resto são diferentes vibrações das mesmas partículas básicas. Na aparência entidades separadas, somos afinal seres de energia vibrátil, intimamente ligados com tudo o mais no Universo, participantes de um imenso campo universal de Energia”. Responsabilidade O que não passava de uma suposição na Antiguidade parece estar provado pela actual física quântica: somos essencialmente vibração. As vibrações semelhantes atraem-se, as diferentes repelem-se. Daqui decorre que somos responsáveis não só por aquilo que somos, mas também pelo que nos acontece. Há que aprender a sintonizar-se bem! As reflexões sobre os textos da rubrica Filosofia dia-a-dia continuam nos Cafés Filosóficos que se realizam em Tavira e Faro em Português e Inglês. Para mais informações contacte: filosofiamjn@gmail.com


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Cultura.Sul

Sala de leitura

O corpo como elo mais fraco

Paulo Pires

Programador cultural no Município de Loulé http://escrytos.blogspot.pt

O corpo tem, enquanto sala de perguntas mas também caixa-de-ressonância dos dias, um papel fundamental na criação de uma empatia do indivíduo com o mundo. Mas a escola pública em geral vai persistindo numa educação excessivamente centrada na mente, na questão cognitiva e na acumulação de saber; ou então funcionando numa lógica perigosamente binária, em que a visão dominante, mesmo que estanque e redutora, é a de que existem disciplinas que educam o corpo e outras que desenvolvem o intelecto, como se, no fundo, fossem duas realidades dissociáveis. Abordar uma educação do corpo a nível do ensino formal é ter em conta duas vertentes fundamentais, também elas interligadas: uma dimensão mais estritamente física, ligada à questão motora e desportiva, que se espelha sobretudo na disciplina de Educação Física e nas metodologias pedagógicas a esta habitualmente associadas; e uma vertente que privilegia sobretudo a expressão através do movimento (a preciosa psicomotricidade), a musicalidade, o ritmo, a criatividade corporal e seus discursos, simbolismos, limites (espaciais, temporais e laterais) e possibilidades. Só explorando ambas as componentes podemos falar de uma educação corporal realmente integrada, holística e estimulante, e que permita criar pontes e cruzamentos entre corpo, mente e emoção (como, aliás, os antigos preconizavam: mens sana in corpore sano); e que não aprofunde o fosso entre essas três dimensões ao moldar alunos com mentes “brilhantes” mas com corpos deficitários, amorfos e que lhes são até estranhos. Se pensarmos no percurso escolar oficial, e falando para já só da própria disciplina de Educação Física, verificamos que o processo de educação motora só começa efectivamente no 2.º ciclo, o que se revela manifestamente tarde, visto que nessa

fase muitos alunos já perderam, por falta de estímulo precoce, consistente e continuado, uma dose considerável do que seriam as suas possibilidades e potencialidades a nível motor. No pré-escolar e 1.º ciclo as crianças estão em idades críticas para a aquisição de alguns dos padrões motores fundamentais que serão a base para que possam ser pessoas fisicamente bem-educadas. Mas o facto de, por exemplo, no 1.º ciclo a educação física ser ministrada por um professor que lecciona tudo, não havendo tempo útil nem, muitas vezes, formação adequada de quem ensina para que haja um efectivo enfoque pedagógico e trabalho específicos nessa área, torna a educação do corpo numa espécie de anexo ou parente pobre, pouco valorizado, do trajecto escolar. Se pensarmos, por outro lado, na educação estética e artística do corpo no concernente ao ensino público o cenário ainda causa maior preocupação. Apesar da existência até de um programa oficial do Ministério da Educação direccionado para essa área (o PEEA – Programa de Educação Estética e Artística, criado em 2010), o qual se dirige ao ensino pré-escolar e primeiro ciclo, na prática o seu impacto revela-se, em geral (e não obstante haver empenhados protagonistas e boas práticas aqui e ali), residual, não abrangente e pouco consistente. Vários dos seus pressupostos acabam por não ter, por razões quer conceptuais quer práticas, um efectivo reflexo e impacto no que se passa diariamente no terreno (infantários, escolas), nomeadamente quando frisa

d.r.

O corpo como hipótese a necessidade de uma interacção e colaboração regulares entre as escolas/agrupamentos de escolas e instituições culturais e universidades, ou quando defende um forte envolvimento das famílias e docentes na questão da sensibilização para a arte, ou ainda quando destaca a necessidade de formação dos profissionais da educação em contexto de trabalho para a literacia cultural e artística. Promover realmente um conhecimento mais profundo do corpo, através da música, dança, artes plásticas, teatro e de outras áreas expressivas e artísticas, afigura-se essencial para a descoberta das suas potencialidades e para a ampliação das suas linguagens ao nível psicomotor e expressivo. A chamada educação pelo movimento é, sem dúvida, uma peça fundamental na construção pedagógica e, não poucas vezes, um meio insubstituível para afirmar certas percepções, desenvolver graus

de atenção e até pôr em jogo certos aspectos da inteligência. Olhando, por exemplo, para a dança, são inegáveis os amplos benefícios que este universo pode trazer em termos emocionais, sociais e culturais, sendo que a criança apreende noções de espaço, sequência e padronização (de movimentos e estilos), adquirindo gradualmente uma consciência mais funda da ideia de corporalidade – lacuna tantas vezes verificada, inclusive mais tarde, em vários quadrantes da vida adulta. A estimulação multissensorial (táctil, visual, auditiva, motora, bem como afectiva e cognitiva) que a dança possibilita constitui inclusive uma ferramenta importante quando, mais tarde, estes futuros cidadãos contactarem, enquanto público, com abordagens artísticas contemporâneas de teor mais experimental e interdisciplinar que desconstroem e questionam os lugares, diálogos e limites do corpo.

A descoberta pelo movimento

Pensamos que o facto de a dança contemporânea, bem como o teatro físico e outros tipos de abordagens performativas que têm como epicentro o corpo, serem considerados geralmente áreas de difícil adesão e “compreensão” para a maioria do público também tem a ver, em grande medida, com o facto de a educação oficial não estimular, ao longo das primeiras infâncias e adolescência, um claro enfoque na corporalidade e no movimento – o que contribuiria, ao mesmo tempo, para uma futura formação de públicos. Essa lacuna essencial não permite a muitos indivíduos estarem apetrechados com adequadas chaves de leitura e ferramentas de descodificação ao nível do seu imaginário, sensibilidade e conhecimento quando confrontados com propostas menos convencionais, dotadas de mensagens mais densas, conceptuais e herméticas, e mais out of the box. Apreender a individualidade de cada corpo, cultivar a sua auto-percepção e ter em conta também a visão do corpo do outro e as múltiplas formas como aquele pode comunicar deveriam ser apostas estratégicas a nível do ensino oficial (até pelo sinal e valor simbólicos que isso transmitiria ao partir da iniciativa do aparelho estatal), através de docentes dotados de preparação específica, de cariz transdisciplinar, bem como de um maior cruzamento e diálogo, biunívoco, entre o universo estético-artístico e outras áreas do saber/disciplinas tradicionais (como o Português, Matemática, História, etc.), e ainda de um trabalho continuado e faseado ao longo

de todo o período de escolaridade obrigatória e não apenas de forma dispersa e/ou mais ou menos pontual. Crianças que crescem sem explorar ou perceber o seu potencial expressivo, que parecem viver num corpo estranho que cumpre as necessidades quotidianas básicas e que, não poucas vezes, limita-se a reproduzir acriticamente mensagens e modelos estereotipados, comerciais e massificados (nomeadamente na adolescência, por meio da publicidade, internet e demais media; e em que acresce a tudo isto a habitual “crise do corpo” e os desafios inerentes a nível psicológico e de socialização), são uma realidade a que não podemos ficar indiferentes. Apesar do valioso papel desempenhado pelas escolas artísticas privadas, conservatórios e equipamentos culturais públicos (bibliotecas, teatros, auditórios, etc.) em termos de ensino estético formal e não formal, pensamos que a escola pública não pode deixar de marcar uma posição a este nível, não de um modo superficial, precário e pouco ambicioso (como nos parece ser a tendência geral), mas com uma política educativa sustentada, progressista, de continuidade e aberta a novos paradigmas e práticas. Recordamos, a fechar, um episódio verídico que o prestigiado docente, palestrante e especialista em educação artística inglês Sir Ken Robinson conta numa das suas mais marcantes conferências do ciclo TEDx, em que fala de uma mãe que, já em desespero de causa, levou a filha ao médico por esta ser extremamente inquieta na sala de aula e não se concentrar nem se interessar minimamente pela matéria, tendo imensas queixas dos professores e um péssimo aproveitamento escolar. O médico, a certa altura, saiu da sala com a mãe e deixou lá a jovem sozinha, accionando, do exterior, o sistema de som do gabinete e colocando uma melodia a tocar, ficando depois a observar a reacção da paciente. Foi então que ela começou inesperadamente a dançar improvisando uma surpreendente coreografia para o tema que estava a ouvir, ao que o clínico comentou com a mãe que a sua filha não tinha problema nenhum: queria tão-somente ser bailarina. Era essa a sua inquietação criativa maior, a descoberta que faltava.


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O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N

Julho no real, do que se está a passar a sul.

Embarco Pedro Jubilot

pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

Julho

ticipou nas colectâneas «Sizígia» e «Tômbolo». As fotografias de Luísa Soares Teixeira também foram revistas face à edição anterior. É uma edição limitada, uma vez que Van S.a (nome literário de Vanessa Rodrigues, Estoi, 1990) se encontra actualmente a viver em Londres, e a trabalhar em investigação de projectos multimédia para museus. Não estando previstas quaisquer apresentações, o livro pode ser adquirido por mensagem através da pagina facebook da editora.

Na leitura desta revista (nº1-2015) de Estudos Marítimos do Algarve, uma edição do município de Olhão produzida pelo Museu Municipal de Olhão, que abre com o artigo «Sal e Pesca no Algarve Romano» de João Pedro Bernardes e Cassandra Gonçalves e fecha com «Património Cultural Marítimo» por Veralisa Brandão. No meio ainda espaço para artigos de Andreia Fidalgo, Hugo Cavaco, Joana Macedo e Marco Lopes.

Feira do livro de Tavira

Sul Real

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Mais uma editora, criada a partir de Bela Mandil – Olhão, a surgir na movimentada cena literária algarvia, com a publicação do livro de poemas «Brilho» de Valdir Rodrigues da Silva que tem ilustrações de José Bivar. Só quem anda muito distraído ainda não caiu

«Telegramas do Mediterrâneo de Pedro Jubilot

meio whisky

fotos: d.r.

É o mês mais importante das nossas vidas. Agora que a atmosfera derivou para uma pausa de azuis, podemos desprender sorrisos, soltar os passos sobre longos caminhos de areias molhadas, ingerir os líquidos da nossa satisfação, abrir o coração ao nosso contentamento. Ao contrário do que se diz ou pensa nada disto, nesta época aberta, deve ser tomado por estupido. As coisas que nos fazem bem são as que mais seriamente devemos considerar.

tuguesa, e cujo acervo documental revela como se pode desencadear um efeito potenciador de atividades culturais. Este estudo evidencia o modo como a Sociedade do Gabinete de Leitura de Loulé representou um autêntico laboratório da cidadania contemporânea com ramificações em outros concelhos algarvios, em Lisboa e em Mato Grosso, no Brasil.

Uma feira deve ter de tudo para todos. Nas do livro nem sempre é assim. Este ano, no jardim do coreto, abre-se um pouco o leque a quem procura novidades editoriais, daquelas que não são fáceis de encontrar mesmo nas lojas de grandes cadeias culturais de renome, que as há na região. Lá encontrarão um pavilhão da editora Livros de Bordo, mas onde embarcam algumas outras editoras menos divulgadas. Surpreenda-se.

Garrafeira Atlântica A editora CanalSonora recupera para edição física a sua edição digital de agosto de 2015, agora revista e aumentada, incluindo sete inéditos e ainda os poemas com que a autora par-

“MERCADO DE CULTURAS… À LUZ DAS VELAS” 7 a 10 JUL | Convento de S. José e ruas de Lagoa Acendimento diário de 12 mil velas, com as quais vão ser desenhados símbolos, amuletos e runas Celtas, num evento com mais de 60 artesãos de várias culturas e religiões

Certa vez, num dos nossos encontros no bar de um hotel da marginal onde costumávamos ir beber vários meio-whisky, sentados nas rústicas cadeiras de verga, efemeramente joviais, na sedução e no tédio estampados na transparência das vidraças bem limpas,  no deixar fluir a nossa existência para o atlântico... lembro-me de te ter dito algo assim parecido com isto: tenho uma caixa onde guardo areia e conchas, quer dizer,  os sonhos escondidos que trago das praias do sul já que não posso aduzir a brisa, o sol, o mar, a não ser  nos olhos postos nos lugares de ali onde vou  às vezes tentar ser mais feliz.

Patrícia de Jesus Palma O Caderno de Arquivo nº 10 dedicado ao tema “Leitura, sociabilidade e opinião pública: o caso da Sociedade do Gabinete de Leitura de Loulé, 18351848”, de Patrícia de Jesus Palma, foi apresentado a 25 de junho, no Arquivo Municipal de Loulé. Mostra o caso da Sociedade do Gabinete de Leitura de Loulé, fundada a 29 de dezembro de 1835, pouco depois da Convenção de Évora-Monte (26 de maio de 1834) ter posto termo à guerra civil por-

Telegr. nº10 ~ sfax. tunisia pas photo! exige o guia que nos passa para lá da moderna cidade. e neste deambular são pois os olhos que enquadram os detalhes do casco urbano: arcos, paredes, portas, ruas estreitas - aquilo que pode haver de mais aparentado com o que resta da antiga barreta olhanense o exercício forçado de clicar para a retina as imagens a descarregar na memória, permite reparar nas pequenas coisas e pessoas a sobressair no movimento que subjaz do dia sobreposto ao de ontem carte postale?! como resistir a comprar-lhe uns toscos e amarrotados postais, que esconde entre as pedras dum muro em ruínas à saída do bairro oui, bien sûre - assim que as moedas caem na mão do rapaz somos de novo abandonados à normalidade cruciante da cidade nova

Julho Cria espaço para todos os sonhos. Nas malas leves de quem viaja para sul, nas cabeças despejadas das rotinas, nos bolsos descarregados dos afazeres inadiáveis. Cria horizontes dos mais diversos azuis, à disponibilidade dos olhares de todos os que deixam as paredes das casas e buscam o seu mundo exterior. O único que realmente existe. Julho cria o ambiente certo para a amizade. Nota de redacção: na última edição do Cultura. Sul, por lapso, nesta página publicámos uma fotografia de Rogério Oliveira quando a mesma deveria ser de Adão Contreiras, aos visados e aos leitores as nossas desculpas.

“NOITE DE FADOS” 23 JUL | 21.00 | Casa do Sal – Castro Marim Espectáculo pela fadista Nádia Catarro, com João Franco na guitarra portuguesa e João Arrobe na viola fado


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Cultura.Sul

Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt PÁTIO DO SEMINÁRIO | 22 HORAS 11 JUL | SÍTIO CERTO, HORA ERRADA, Hong Sangsoo,Coreia do Sul, 2015, M/12 | ANA , UM PARDALINHO, Joana Toste, 5’

14 JUL | ACADEMIA DAS MUSAS, José Luis Guerin, Espanha, 2015, 92’, M/12 | MARIA DO MAR , João Rosas, 30’ CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL | 22 HORAS 18 JUL | LOVE & MERCI, Bill Pholad, EUA, 2014, 121’ | HISTÓRIA TRÁGICA COM FINAL FELIZ, Regina Pessoa, 17’ 21 JUL | SALÃO DE JIMMY, Ken Loach, RU, 2013, 106’ | VIGIL, Rita Cruchinho Neves, 12’ 25 JUL | O BARAÇO DA SERPENTE, Ciro Guerra, Colômbia, 2015, 125’, M/16 | A NOIVA DO GIGANTE, Nuno Amorim, 7’ 28 JUL | DHEEPAN - REFÚGIO, Jaques Auidiard, FR, 2016, 115’, M/14 | O REFUGIADO, Rui Cardoso, 12’

Cinema no Verão vê-se fora de portas Os cineclubes de Tavira e Faro fazem, como habitualmente nesta época, uma incursão pelos espaços abertos dando à sétima arte o arejo que a época estival recomenda. A informalidade toma conta das projecções e os espaços são outros que não as salas escuras e silenciosas onde os astros do grande ecrã se acostumaram a exibir ao mundo e ao público. A partir da sexta-feira, 15 de Julho, às 21.30 horas, o Cineclube de Tavira ocupa os amplos Claustros do Convento do Carmo para a 16ª Mostra de Cinema Europeu. A linha característica mantém-se, histórias bem contadas sobre a condição humana. O Cineclube apresenta já amanhã uma sessão regular, no Cine-Teatro António Pinheiro, com o filme português “Axilas”. Já o cineclube de Faro convida os sócios, os munícipes e os turistas a sair à rua para nos acompa-

fotos: d.r.

Cineclube de Tavira

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | cineclubetavira@gmail.com CLAUSTROS DO CONVENTO DO CARMO | 21.30 HORAS 15 JUL | THE DANISH GIRL (A RAPARIGA DINAMARQUESA), Tom Hooper, RU/B/DK/ AL/US, 2015, 119 min, M/14

16 JUL | AMY, Asif Kapadia, RU/US, 2015, 127 min, M/14​ nhar ‘n’Os Pátios do Cinema’. São dez noites de Verão com cinema ao ar livre, distribuídas por quatro pátios de Faro – Sé, Seminário, Museu Municipal e GNR. O objectivo é levar os espectadores a (re)descobrir o cinema e estes espaços menos prosaicos para estas andanças através de um conjunto de 20 filmes, às segundas e quintas-feiras até 4 de Agosto.

17 JUL | MUTE (MUDOS), Marieke Blaauw & Joris Oprins, Holanda, 2013, 4 min, M/6 | SONG OF THE SEA (A CANÇÃO DO MAR), Tomm Moore, IRL/DK/B/LUX/F, 2014, 93 min, M/6

Espaço AGECAL

A poesia está em todo o lado

Miguel Godinho

Coordenador cultural, técnico de Património Cultural Sócio da AGECAL

Juan Manuel Roca, um relevante poeta colombiano, dizia há dias em entrevista ao Expresso, a propósito de um conhecido festival que todos os anos tem lugar em Medellín: “não se sabe se os participantes [destes encontros] são pessoas que gostam de ler (e/ou escrever) poesia ou simplesmente de ouvir poesia”. No contexto desta afirmação parece-me importante tentar-se perceber a forma como actualmente se olha para este género literário e para as inúmeras iniciativas que em torno dele têm proliferado. De uma forma muito natural, parece que a poesia se tem vindo a vulgarizar – no melhor sentido da palavra, entrando definitivamente no quotidiano das vidas comuns, nas nossas vidas do dia-a-dia, saindo da marginalidade, do alto mundo da intelectualidade. E, dessa forma, ter-se-á transformado numa coisa muito maior do que um simples prazer de letrados. As pessoas passaram a sentir-se integradas e

a ter vontade de participar porque aquilo de repente desmistificou-se, passou a fazer-lhes mais sentido. Em Portugal acontecem hoje em dia, de forma relativamente frequente, iniciativas de vários tipos associadas a este género literário: festivais, leituras, recitais, apresentações de livros, tertúlias, reuniões, percursos poéticos, programas de rádio. São várias as abordagens a que temos assistido nestes últimos tempos. Parece que finalmente, de forma genérica, se aceitou que a poesia faz parte da vida. Sente-se muita juventude no meio. Há

ele que não se deve avaliar isoladamente a tiragem dos livros mas sim “pensar na imensa dimensão que a poesia tem através das novas formas de partilha de poemas que as redes sociais permitem”. Estou totalmente de acordo com esta ideia. E parece-me até que estas mesmas redes sociais poderão perfeitamente ser as principais responsáveis por esta inclusão da ideia de poesia nas nossas vidas, porque, de facto, a poesia está – e pode estar – em todo o lado. Simplesmente porque permite – ou melhor, torna possível – através da linguagem, traduzir a realidade do d.r.

novos olhares. Transversalidade. Diferentes expressões. Diversidade. Vontade de participar, de (se) mostrar. Nuno Júdice, um importante autor algarvio, refere, na mesma entrevista que atrás se referiu, a propósito das baixas tiragens dos livros que no nosso país são publicados, que duvida, inclusive, da existência de poucos leitores de poesia. Diz

dia-a-dia. Através da poesia consegue-se descobrir aquilo que gostaríamos de saber dizer, de saber expressar, e não conseguimos. Através dela conseguimos, ao mesmo tempo, descobrir-nos. A força e a importância da poesia é essa mesma. E por isso mesmo, o ter-se conseguido aproximar as pessoas da poesia parece-me ter sido mais uma das boas conquistas das

redes sociais. Julgo que não será arriscado dizer-se que por causa delas não terá existido nunca tanta gente a escrever, a ler, a querer ouvir, a participar em iniciativas, enfim, a relacionar-se com a poesia. No que se refere ao Algarve, pode dizer-se que hoje em dia existem várias iniciativas interessantes, a acontecer em vários locais e ao longo do ano, alguma criação poético-literária de qualidade e é possível assistir-se a uma reprodução de novos autores, para além dos (muitos e bons) consagrados que daqui são naturais. Há poucas editoras mas grande parte delas são de carácter independente e/ou desalinhado. Descobrem-se vozes e estilos diferentes, tendências distintas e, nalguns casos, essencialmente opostas. Não há por isso uma escola, uma voz, um só movimento. Há diversidade, pluralidade, um certo desconcerto, até. Há também alguma disputa. Diferentes grupos, organizados de acordo com amizades pessoais e afinidades editoriais. A região sofre também, como noutras áreas, de um problema: a distância relativamente à capital onde, por norma, se define quem e o que merece ter destaque. Mas por aqui sempre se lidou bem com a questão. Prova disso é que, do meu ponto de vista, e apesar de tudo, a produção poética, a participação das pessoas e a programação cultural associada ao tema está viva – e recomenda-se.

Ficha Técnica: Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saul de Jesus • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N: Pedro Jubilot • Panorâmica: Ricardo Claro • Sala de leitura: Paulo Pires • Um olhar sobre o património: Alexandre Ferreira Colaboradores desta edição: Ana González João Pedro Baptista Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, FNAC Forum Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com on-line em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/postaldoalgarve

facebook: Cultura.Sul Tiragem: 8.203 exemplares


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Cultura.Sul

Da minha biblioteca

Manuel Madeira: «É entre dois abismos que existo e me confundo» (em jeito de homenagem) d.r.

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve

Conheci Manuel Madeira há uns anos (infelizmente, não muitos), poeta que tive o prazer de apresentar, numa homenagem que a Biblioteca Municipal de Faro (que tem por patrono o seu grande amigo António Ramos Rosa), em boa hora lhe prestou, em janeiro deste ano de 2016. Estava o mês de maio a acabar e Manuel Madeira deixou-nos. Não importa a idade: mentes lúcidas como a sua fazem sempre falta. Na sua voz poética havia a memória de quem sonhou e lutou por um país livre. E também havia uma voz amorosa, sensível aos sentidos, amante de terras e lugares, com uma compreensão do mundo que só os homens sábios têm. «E se não existissem as palavras»

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Nos poemas de Manuel Madeira há muitas reflexões sobre as palavras, que são a matéria-prima dos seus poemas («num significativo parto/ em que as palavras e as coisas às vezes se confundem» - p. 376. Salvo indicação específica, as páginas indicadas correspondem ao volume que colige a sua poesia entre 1949 e 2004, No Encalço do Real Inalcançável, Lisboa, Editorial Minerva, 2004); se precisa delas, também gostaria de não precisar («Ai de nós quando só palavras/ existem para dizer seja o que for», p. 131).; se, por um lado, fazem falta, por outro, não fazem («Tudo sim menos palavras», p.121); e se bem que sejam necessárias, não são tudo, pois o mundo tem de ser mais do que isso: «Bem queria eu que

Manuel Madeira convida o leitor a pensar e a sentir

a palavra fosse/ a realidade que ela representa» (p. 121). Mas, «(…) Se não existissem as palavras/ estaria talvez aqui como estou agora/ tentando exprimir o que sinto e me comove/ confundido com a própria ausência/ que no escuro me habita e a claridade implora» (p. 253). É com as palavras que o poeta se procura («Por toda a parte atónito me procuro em vão/ mas encontro só a minha eterna ausência», p.130). Não deixa de ser interessante ler as dúvidas, as incertezas sobre si próprio, vindas de um homem que, no mundo real, soube aquilo em que acreditava e lutou por isso: foi preso quatro vezes, sofreu a tortura da PIDE, participou na famosa Jornada de Bela Mandil (em 1947), e continuou ativamente a lutar pelo fim da opressão. O seu exemplo leva-nos a pensar que o que fazemos e exteriorizamos pode ser bem diferente do que sentimos e vivemos dentro de nós: somos feitos de tantas contradições, com as quais temos de viver: «Muitas vezes interrogo este ser obtuso/ a que me habituei sem o qual não posso/ olhar de frente a luz que só ele enfrenta/ faz par-

te de mim esta ambiguidade» (p. 127). Na literatura, é onde a busca metafórica do eu é possível (já que a realidade nos puxa para ações mais concretas), pro-

tegida pelo próprio ato criativo: «Abrupto afasto o lençol imaginário/multiforme teia de ficção tecida/ confundindo-me com ela que me protege e devora/ deixando-me apenas o resíduo avulso/ dos ossos insolúveis// Despido de artifício procuro-me/ por toda a parte no espaço que ocupei/ ou julguei ocu-

Manuel Madeira faleceu no passado dia 28 de Maio

“O CONTINERALISMO POÉTICO - ACHADOS” Até 28 AGO | Museu Municipal Dr. José Formosinho - Lagos Projecto que se materializa em três séries distintas com temáticas próprias (Achados, Musas e Todos os Santos), criado para apresentar as últimas criações de Timo Dillner

par seguindo/ a trajectória da seta inexorável do tempo// Mas é em vão que tento/ encontrar no vazio a nudez do ser/ como é difícil encontrar a partícula indivisível/ se é que ela existe» (p. 261). «o acto de escrever é um convite puro» Manuel Madeira convida-nos a pensar e a sentir (serão diferentes?) sobre tantos temas, como o amor e a morte, o quotidiano, a terra, o mar, a natureza. E a não ficarmos indiferentes a nada do que nos rodeia («Boi triste na canga de olhos tapados/ mais triste o seu dono de olhos abertos…», p. 138). Para isso, vai trocando, connosco, impressões sobre os lugares longínquos que visitou, como a casa de Andresen, na Dinamarca (p. 112), ou as impressões de viagem a Nápoles e Pompeia (pp. 32 e 35), mas também sobre os que lhe estão perto, como Olhão, que descreve no poema «Cidade Cubista»: «(…) Por ruas direitas becos e vielas/ e brancas açoteias acenando/ ao azul da ria salpicado/ de alvos maçaricos e gaivotas/ debicando a salsugem à flor da maresia// (…) Por aqui passou Picasso sobraçando a paleta/ e levou consigo as lágrimas e os olhos/ das mulheres senta-

das na soleira das portas (…)» (pp.94-95). E nem mesmo a morte o afasta da vida, como tão bem lemos no poema «Morte em Flor»: «Quando vieres, ó morte, hás-de encontrar/minha alegria em plena primavera./ Não deixarei as rosas soluçar,/ hei-de morrer de pé como uma fera.// Os frutos já maduros hão-de sorrir/ ao breve adeus da minha despedida:/ – até logo, direi – até surgir de novo/ em qualquer folha renascida// (…)» (p. 23, do seu último livro, Para a Decifração do Caos, Lisboa, Lua de Marfim, 2016). Visão de vate Vate significa poeta, mas o seu primeiro sentido (e que ainda se mantém) era o de profeta, adivinho (aquele que vaticina). Em janeiro de 1949, a Censura riscou (literalmente, pois os censores usavam com um lápis azul para os seus cortes), de cima a baixo, um poema de Manuel Madeira, que estava para ser publicado na revista Vértice. Chamava-se «Fotografia 1950» e dizia assim: «O Poeta vai à frente/ veste um fato novo feito expressamente para esse dia/ leva o estandarte guardado há muitos séculos para essa ocasião/ e distribui esperanças rubras em flor/ a todos os manifestantes.// Uns põem-nas na lapela/ outros por trás da orelha/ alguns guardam-nas no coração.// (…) Por último, a imensa multidão/ que esperou longos anos pelo dia anunciado.// (…) À passagem do cortejo/ abrem-se todas as portas/ sai de cada casa uma pomba encarnada/ e as árvores do jardim público/ curvam-se até ao chão/ tirando o chapéu comovidamente!» Manuel Rodrigues Madeira nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 13 de julho (apesar do registo dizer 21 de agosto) de 1924, e faleceu em Olhão, a 28 de maio de 2016.

“NOITES D’ENCANTO” 14 a 17 JUL | Cacela Velha Mais de 70 artesãos de diferentes culturas e credos irão conviver em harmonia e mostrar aos milhares de visitantes as suas tradições


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