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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

AGOSTO 2013 | n.º 60 9.194 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve photoarch/ricardo soares

Espaço Cria: d.r.

O verdadeiro desafio para o autor é a protecção da sua obra

p. 2

Letras e leituras: d.r.

Gostos e cheiros traduzidos em palavras

Palato, à mesa com a envolvente

p. 5 d.r.

p. 4

Momento: d.r.

Portimão, “work in progress” p. 7

Sala de leitura:

d.r.

Na senda das pedras falantesp. 9

Contos de Verão na Ria Formosa:

Ele, ela e o Globo p. 8


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09.08.2013

Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

A Cultura na rua

O verdadeiro desafio para o autor é a proteção da sua obra! espírito humano pela Sociedade da Informação, conduziu a um enorme aumento da procura de obras protegidas pelo Direito de Autor, o que vem dificultar a gestão dos direitos pelo próprio autor. Neste

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Os termómetros sobem e a Cultura sai à rua, e abandona em grande medida os espaços fechados em que faz as delícias dos visitantes nos meses menos ensolarados. A Cultura do estio não é outra diversa da do resto do ano, é a mesma. Expressa de formas menos formais e conceptuais, muitas vezes, ganha cor, sabor, leveza e absorve realidades marginais para o seu espectro interior. Não deixa, no entanto, de ser Cultura e de merecer a atenção de quem com ela se cruza ainda que em época de férias. As feiras, os mercados, os festivais, são exemplos do ser e do estar algarvios e proliferam nesta altura do ano para acolher ao sabor dos elementos os muitos milhares que nos visitam com a mesma vontade com que recebem aqueles que 365 dias por ano fazem do Algarve a sua terra. As ruas vêem-se invadidas por costumes de outras épocas, por saltimbancos das sete partidas regressados dos baús da História que é o nosso passado comum. Os mariscos, os peixes e os petiscos fazem-se mostrar nos largos e praças na melhor expressão da tradição gastronómica algarvia. A música invade os palcos e faz rumar ao Algarve as mais diversas tendências sonoras, do nacional-cançonetismo ao ‘pimba’ puro e duro, do rock ao fado, da pop à música do mundo. O folclore dá-se a conhecer e faz-se ver e ouvir em ritmos de corridinho marcados por rodopiantes piruetas dignas de mestria. A serra revela os segredos melhor preservados e convida a ser visitada apesar do calor e ser descoberta em toda a sua beleza e hospitalidade. O Algarve cultural pintado com as cores do Verão é multifacetado e reserva a todos surpresas inesperadas numa terra onde da beira-mar à serra profunda se chega num ápice, percorridas apenas algumas dezenas de quilómetros. Imperdível porque em cada ano há apenas um Verão, apenas um tempo com estas cores, deixemo-nos levar pelo momento e pela ilusão.

Natércia Pereira Colaboradora do Gabinete de Apoio à Promoção da Propriedade Industrial, CRIA, UAlg

O Direito de Autor, como se sabe, é o exclusivo conferido ao titular de uma obra de exploração dessa mesma obra, impedindo terceiros de utilizar esse direito. Consideram-se obras as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas. Trata-se de um conceito bastante abrangente em termos da realidade a proteger e, por isso, fácil de enquadrar uma criação de caráter intelectual e criativo. O direito de autor pertence ao criador intelectual da obra e é reconhecido independentemente de registo, depósito ou qualquer outra formalidade, o que traduz uma situação de custo acessível a todos os criadores. Neste aspeto, reside a grande diferença com a propriedade industrial que, para ser reconhecida, implica registo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. O incremento exponencial de utilização das criações do

ritorial, o que acaba por dificultar, sobretudo em determinadas áreas como é o caso da música, o controle individual por cada autor das utilizações de determinada obra em outros territórios. d.r.

contexto, novas formas de exploração emergem e a gestão coletiva, como forma de gerir as múltiplas utilizações das obras por parte de entidades a quem é atribuída essa tarefa pelos autores, ganha relevância. Acresce o facto deste tipo de direito ter um âmbito ter-

A Sociedade da Informação vem, de facto, agudizar o problema de uma eficiente gestão de direitos a título individual, assumindo que o utilizador de obras quer um acesso cada vez mais rápido e ao máximo reportório possível, o que em certa medida não se coaduna

com a necessidade, legalmente imposta, de haver autorizações para utilização desses direitos. A internet como forma de distribuição, resultante em grande parte da substituição do consumo de informação escrita pela informação digital, tem um papel central nesta problemática e nunca podemos esquecer o direito à Informação que assiste a cada um de nós e, por outro lado, à questão da subordinação do direito de autor ao interesse público. O verdadeiro desafio está em conciliar o livre fluxo de informação com a proteção da propriedade intelectual que, não constituindo um problema novo, apresenta uma dimensão nova devido à generalização do uso da internet. O Direito de Autor e o Direito à Informação deverão estar em equilíbrio para que um não impeça o outro, e é neste sentido de conciliar posições que as legislações dos diferentes países tendem a caminhar e que algumas Diretivas recentes da UE apontam. De facto, assistimos a alguns conflitos de interesse entre a chamada “Indústria Criativa” e os consumidores, o que justifica a necessidade de alcançar uma solução satisfatória, no respeito pelos princípios do Direito de Autor e salvaguardando, naturalmente, o direito de acesso à informação, à cultura e à educação a todos.

Juventude, artes e ideias

Jornalismo (In)dependente d.r.

Gustavo Marcos Advogado

A imprensa desempenha uma função socialmente primordial que ultrapassa a mera função de informar. Inteirar, dar parecer ou ensinar são alguns dos sinónimos de informar - um exercício subjectivo. Em última análise, a transmissão de conhecimento é sempre condicionada por uma série de

factores que, objectivamente, impedem a definição de uma notícia como uma realidade ascética, típica de uma ciência exacta. Ora, não nos espanta que, desde a sua origem, os meios de comunicação social te-

nham sofrido pressões da mais diversa índole, sobretudo quando se sabe que a «consciência da informação» cairá sempre para um lado. Resta-nos esperar que seja o nosso! Na actualidade, a multipli-

cidade de plataformas noticiosas, ao contrário do que possa parecer, constituem uma fonte de liberdade, uma vez que não condicionam esse exercício de ensinar a um determinado número de agentes. Hoje, todos podemos presenciar factos e, através das redes digitais, passar o nosso ensino. Num mundo onde os grandes grupos económicos procuram condicionar governos e sociedades aos seus interesses egoístas e egocêntricos de lucro fácil e desmedido, ter a oportunidade de sermos jornalistas é um exercício de resistência que nenhum de nós deve desperdiçar.

Ficha Técnica: Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Contos da Ria Formosa: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Alexandra Pires Gustavo Marcos Maria Luísa Francisco Natércia Pereira Paulo Serra Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 9.194 exemplares


Cultura.Sul

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Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt ARTISTAS | 22H15 | ENTRADA LIVRE CICLO LIBERDADE CIGANA 14 AGO | JE SUIS NÉ D’UNE CIGOGNE, Tony Gatlif, França, 1999, 80’ (leg. em português)

21 AGO | VENGO, Tony Gatlif, Espanha/ França/Alemanha/Japão, 2000, 90’ (leg. em inglês) 28 AGO | TRANSYLVANIA, Tony Gatlif, França, 2003, 106’ (leg. em português)

Cinema não europeu no Convento do Carmo Estamos de volta. Não faz sentido descrevermos os tempos difíceis e as lutas que travámos nos últimos anos, o que importa é que as mostras de cinema de Tavira têm lugar este Verão! O local é o mesmo: os Claustros do Convento do Carmo, ao lado da igreja do mesmo nome. Durante os últimos meses trabalhámos incessantemente para poder oferecer-lhes um programa coerente de histórias sensíveis e de notável qualidade, para serem compartilhadas no grande ecrã. Empenhámo-nos para encaixar curtas-metragens cuidadosamente escolhidas para iluminar os vossos serões. Querendo tomar em conta ainda mais a opinião do nosso público, decidimos introduzir um “Prémio do Público”, tanto para as curtas como para as longas-metragens destas mostras. Por favor não hesitem em classificar cada filme que acabaram de ver no bilhete

Cineclube de Tavira

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com 8ª MOSTRA DE CINEMA NÃO EUROPEU DE TAVIRA 9 AGO | ZAN VA SHOHAR KAREGAR/ THE HISTORY OF A MARRIED COUPLE (A HISTÓRIA DE UM CASAMENTO), Keywan Karimi, Irão 2012 M/6 (11’) + JODAEIYE NADER AZ AZMIN/A SEPARATION (UMA SEPARAÇÃO), Asghar Farhadi, Irão 2011 (123’) M/12 10 AGO | THE HELP (AS SERVIÇAIS), Tate Taylor, E.U.A./Índia/Emiratos Árabes Unidos 2011 (137’) M/12

Cinema ao ar livre em Tavira de voto que lhes será entregue à entrada. O mesmo ajudar-nos-á para ficarmos mais cientes das vossas preferências e poderá também ajudar os criadores dos filmes! Apenas peço a todos para que não percam as duas estreias nacionais, algumas das muitas pérolas no programa deste ano. Espero que tanto a nossa selecção como o ambiente criado vos agradem! Divirtam-se!

11 AGO | HERE (AQUI), Braden King, E.U.A. 2011 (126’) M/12 12 AGO | DRIVE (RISCO DUPLO), Nicolas Winding Refn, E.U.A. 2011 (100’) M/16 15 AGO | SEARCHING FOR SUGAR MAN (À PROCURA DE SUGAR MAN), Malik Bendjelloul, Suecia/Reino Unido/E.U.A. 2012 (86’) M/12

Espaço AGECAL

Gestão cultural e recursos culturais

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“Gestão” refere-se ao acto de gerir, significa administração de recursos e integra os sistemas de planeamento, organização e estruturação de meios para alcançar objectivos estratégicos, gerais e sectoriais. A gestão comporta diagnósticos e análise, tomadas de decisão para corrigir deficiências, também uma dimensão projectiva sobre metas e alargamento de resultados. A Gestão Cultural, surgida na segunda metade do século XX em consequência da evolução das sociedades, focaliza-se na administração dos recursos culturais de uma determinada área geográfica, cidade, município ou região, de instituições públicas ou privadas. Tem funções mediadoras e operativas. A Gestão Cultural é uma disciplina autónoma que exige, como todas as outras, estudo e conhecimentos especializados, formação científica superior e técnico-profissional, experiências em contexto de trabalho, análise e avaliação.

O Gestor Cultural é fundamentalmente um gestor de recursos culturais, que poderá ser um monumento ou conjunto patrimonial, sítio arqueológico ou arquivo, biblioteca ou teatro, museu ou centro de ciência, mas também poderá gerir festivais de artes ou empresa de serviços culturais. O Gestor Cultural para exercer corretamente a sua profissão terá de possuir conhecimentos de Direito da Cultura, Economia da Cultura, gestão de recursos humanos em equipas de intervenção cultural, comunicação da cultura, turismo cultural, entre outros, sobretudo entender a importância das diferentes disciplinas que intervêm no fenómeno cultural. A cultura exerce um papel central na socialização dos indivíduos e na transmissão de valores, esta aprendizagem realizou-se tradicional e quase exclusivamente através da família ou do grupo, da escola e da religião. Atualmente, e cada vez mais, essa mediação se faz pelos meios de comunicação social, em

particular da televisão, normalmente associados a interesses prioritariamente comerciais. Daqui resulta a crescente importância da educação cívica, da Gestão Cultural Pública e de organizações sem fins lucrativos, enquanto modelo de oferta democrática na transmissão de conhecimentos diversos, de garantia do direito de todos à formação e à escolha individual e colectiva. A Gestão Cultural pública centra-se

d.r.

na maioria dos casos na concepção, organização e funcionamento das infraestruturas culturais, propriedade do Estado ou das autarquias (teatros, museus, centros culturais, bibliotecas, videotecas…), na gestão dos meios humanos especializados e dos recursos financeiros disponíveis. Integra a educação para os valores, a participação e inclusão de cidadãos e minorias, sejam étnicas, etárias, de género ou pessoas com limitações físicas

ou intelectuais. A Gestão Cultural privada está sobretudo ligada às indústrias culturais como a edição/produção, promoção e comercialização do livro, da música e discos, audiovisuais e cinema, artes do espectáculo, conservação e restauro, festivais, parques temáticos, promoção e transacção de obras de arte, criação de conteúdos, … As sociedades com melhores níveis de organização interna garantem normalmente maior equilíbrio e cooperação entre a oferta da gestão cultural pública e privada, associando educação e acesso comunitário com uma dinâmica produção de conteúdos para as culturas de apartamento, de saída e divertimento. O ideal será a concretização de uma boa cooperação estratégica entre a gestão cultural pública e a privada, reconhecendo a importância e funções de cada uma. AGECAL - Associação de Gestores Culturais do Algarve

“PEQUENAS E GRANDES MARAVILHAS DA NATUREZA”

“COMMEDIA GOURMET”

Exposição fotográfica de Alexis Morgan, que retrata algumas espécies botânicas e borboletas que se encontram na região

O humorista Chef Eduardo Madeira, autor de receitas de sucesso como “Os Contemporâneos”, “Estado de Graça” e “Anticrise”, apresenta um menu de Stand Up Comedy, música e redução de trufas, servido com boa disposição

Até 4 SET | Centro Comunitário de Benafim - Loulé

24 AGO | 21.30 | Centro Cultural de Lagos


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Cultura.Sul

Letras e Leituras

Gostos e cheiros traduzidos em palavras d.r.

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

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Quando li dois livros na passada semana, a marcar o início oficial das férias, lembrei-me, devido aos títulos em questão, daquelas pessoas que têm o hábito detestável de forrar os seus livros nos transportes públicos. Mas, paradoxalmente, dei por mim a compreender melhor essa atitude de ocultação pois, a marcar o início da minha época balnear, composta de leituras adiadas há um ano, li de enfiada dois livros e ambos com um certo prazer culpado, que quase me fez lê-los apenas às escondidas. Quase decidi escrever aqui sobre o primeiro dos dois, que foi, inevitavelmente, o Inferno, de Dan Brown, pois mesmo que seja para criticar pela negativa não posso evitar a leitura. Sobre esse senhor talvez fale mais à frente no tempo, mas interessa-me agora escrever sobre - e porque afinal estamos em época de praia e de coisas mais light, nomeadamente leituras leves também - esse outro romance, que me prendeu logo nas primeiras linhas: O Aroma das Especiarias, último romance de Joanne Harris. Não vou estar com paliativos. O título é horrendo, mas isso é culpa das editoras, pois actualmente os títulos de filmes e livros estão de tal forma enredados e, por vezes, desfazados do original que depois deixam um travo amargo com certos títulos delicodoces como este que fazem lembrar tudo e não dizem nada. Outra questão bem actual é a forma como tudo parece vir em séries. Mas por vezes as trilogias ou sagas trazem esse prazer reconfortante de voltar a um lugar ou a uma personagem cuja força não se esgota num único romance. Este livro fecha - ou retoma (pois a autora diz que é bem possível voltar novamente a estas personagens) - o ciclo iniciado com o bem conhecido Chocolate que originou um filme que recebeu nomeações aos Óscares. Quando descobri a obra desta autora foi justamente com o livro Chocolate que eu incluí (erradamente) numa espécie de subliteratura para senhoras, agora muito na moda. Mas este

A escritora Joanne Harris êxito comercial surpreendeu-me, pois vinha imbuído de originalidade e de qualidade. Fui levado pela voz de Vianne Rocher que segue o vento, segundo uma espécie de maldição de família, até chegar a uma pequena localidade francesa, chamada Lansquenet, onde vai abrir uma chocolataria em plena Quaresma, provocando a hostilidade do padre e de outros locais. Aí percebemos que ela é mais do que uma simples dona de casa, pois não só herdou um receituário de antigas receitas de chocolate como tem o condão de pôr a falar as pessoas mais duras. O sabor do chocolate quente funciona como uma mezinha que ajuda a derreter o coração das pessoas, além de Vianne saber sempre quais são os chocolates favoritos de cada um dos seus clientes, chegando assim pela boca ao seu âmago. Se bem que no seu segundo livro, Vinho Mágico, o leitor regresse ainda a esse universo de sabores, em que uma garrafa de vinho conta uma história passada na mesma localidade de Lansquenet, só voltamos a encontrar Vianne muitos anos (e romances) depois, em Sapatos de Rebuçado, quando a sua vida e verdadeira identidade são ameaçadas por uma mulher maléfica porque, talvez, seja demasiado parecida consigo e consiga ler bem demais a sua natureza,

portadora de uns magnificos sapatos vermelhos que brilham como cristal ou como rebuçado. Cinco quartos de laranja seria o último dessa trilogia sobre a comida, em que uma jovem, Framboise, volta também a uma localidade rural, acompanhada por um velho livro de receitas, herança da sua mãe, e abre uma casa de crepes. Em Peaches for Monsieur Le Curé, traduzido com o infeliz título de O Aroma das Especiarias ainda que este se justifique dado o tema, sente-se ainda esse dilema de uma alma nómada, fadada a seguir o vento para onde ele sopra e a ajudar aqueles que precisam de si, sem poder criar grandes laços afectivos, tanto que a sua relação amorosa continua mas havendo um forte sentido de autonomia entre ambos os parceiros além de que vivem numa casa fluvial, isto é, num barco ancorado no Sena. Chegada novamente, desta feita durante o Ramadão, à localidade de Lansquenet, que aqui mais parece uma alegoria da França, Vianne vai ser confrontada com uma espécie de alter ego. O cenário está agora repleto de novos habitantes, pois instalou-se uma comunidade muçulmana no outro lado do rio, que chega mesmo a improvisar uma mesquita onde até a chaminé de uma antiga fábrica é aproveitada

como torre de onde se fazem ouvir os chamamentos para as orações. A “Dama Escorpião”, uma mulher que anda permanentemente coberta de negro, vai provocar o desconforto nessa pacata comunidade, não só entre a população local como entre os próprios muçulmanos, quando chega a abrir uma escola para raparigas (no antigo espaço abandonado da chocolataria) ensinando-lhes o valor da tradição e de se respeitarem ao andarem cobertas. E Vianne, apesar de atacada e ofendida, vai acabar por aprofundar a sua relação com o padre que antes a hostilizava, da mesma forma que irá ajudar a sarar a divisão que grassa entre as duas comunidades e no seio de cada uma. O livro está efectivamente bem escrito e as personagens são detentoras de densidade psicológica, além de que se consegue manter o suspense

até final da história quando finalmente se percebe o que esconde a mulher de negro por trás daquele véu. A tensão que se vai criando ao longo da história, que é contada, pela primeira vez nesta série, a duas vozes, alternando o registo na primeira pessoa entre Vianne, essa xamã do chocolate, e o padre, só é resolvida mesmo no final do romance e consegue criar um forte impacto no leitor, quando finalmente se percebe os obscuros segredos que motivam o estranho comportamento de Inès, a Dama Escorpião. Quando penso no prazer de ler Joanne Harris lembro-me ainda muito bem de outro livro fabuloso, cujo título Gentlemen & Players foi traduzido por Xeque ao Rei. Esse romance marcou-me imenso ao ponto de me provocar uma genuína exclamação de surpresa que encontrou eco na reacção de admiração despertada noutras pessoas a quem fiz questão de oferecer o livro mas na sua versão original. Sem querer criar aqui um spoiler tenho que dizer que esta autora consegue, durante todo o romance, criar uma tensão idêntica, em que as informações vão sendo dadas espaçadamente, numa longa e lenta digestão de uma história original, que narra o desenrolar de uma amizade quase obsessiva de um rapaz em relação ao outro, num registo mais uma vez paralelo com a história de um professor do colégio onde um dos rapazes estuda. Só nos últimos capítulos percebemos que aquele jovem que vive nas imediações de um colégio interno de rapazes e que se aproxima por uma espécie de platonismo do outro rapaz, aluno interno do colégio, até quase inundar a sua vida, é, afinal, outra pessoa, instituindo assim um inovador e aprazível jogo ficcional que, infelizmente, se perde na tradução, mas nem por isso rouba o prazer e o impacto da surpresa a um leitor contemporâneo, que é cada vez mais difícil de surpreender.

“ORQUESTRA DO ALGARVE COM AMOR ELECTRO”

“TEMPOS QUE PASSAM... RECORDAÇÕES QUE FICAM”

A Orquestra do Algarve junta-se aos Amor Electro, a banda revelação de maior sucesso em 2011, num concerto inserido no Festival Caixa Geral de Depósitos 2013

Exposição fotográfica de Vítor Sousa, onde apresenta imagens inéditas, a cores ou a preto e branco, que revelam a cidade de Albufeira nos anos 1950 e 1960

9 AGO | 22.00 | Parque do Palácio da Galeria - Tavira

Até 31 AGO | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira


Cultura.Sul

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Panorâmica

Web, património, gastronomia e muito mais: uma ágora chamada Palato fotos: photoarch/ricardo soares

A gastronomia faz-se de mil cores, aromas e sabores, numa paleta que se mistura para deleite dos comensais e se reinventa numa geração incessante de cruzamentos entre tradição, História e modernidade. É exactamente a gastronomia o ponto de partida do projecto Palato que se vem mostrando aos algarvios pelas mãos da Xerem, uma associação cultural que decidiu dar vida e forma a uma visão única e rara da arte e da cultura algarvias numa demonstração de que nem tudo o que supostamente não se cruza se deve manter assim. A mesa como ponto de partida O prazer da mesa, a gastronomia e a capacidade que de agregação que o acto de comer tem são o mote para o Palato, é em torno desta “mesa” que os artistas, os investigadores, os amantes do património e do território, enquanto espaço cultural geodeterminado, e os internautas se querem sentados. Espaço privilegiado escolhido para o diálogo entre as variáveis que compõem este projecto, a mesa, símbolo da gastronomia, e o acto de cozinhar, fonte de todos os repastos, são a ágora para um diálogo que se quer demonstrativo do património e do território, enriquecedor porque integrador de várias expressões culturais, e partilhado, enquanto acessível a públicos insuspeitos perdidos na web que partilham com a assistência in loco as performances criadas para dar corpo ao Palato.

Território

Em cada sítio Jorge Rocha cozinha ao vivo acompanhado de um investigador experiências que a Xerem desenvolve no âmbito do projecto. Ao vivo e a cores, num qualquer local com acesso à internet é possível assistir às performances e partilhar experiências através de um chat em tempo real que permite uma interacção entre os artistas e investigadores e quem está do outro lado, perdido na internet. Cozinhando na Paisagem Cozinhando na Paisagem é a performance do Palato junto do património

edificado do Algarve. Jorge Rocha assume as despesas do cozinhar perante uma assistência convidada a ouvir um especialista falar do enquadramento cenográfico. Antes do arranque do tacho exposto ao lume, o desafio é o de realizar uma visita guiada ao monumento, depois a performance de cozinha assume o controlo do programa e junta investigação sobre tradição gastronómica a explicações sobre a História e o valor patrimonial do local. Arqueologia, gastronomia e estética,

a que se juntam a arte performativa, a envolvência e o espaço em si unidos numa realidade pouco habitual. As Muralhas de Lagos e a Villa Romana de Milreu já acolheram o Cozinhando na Paisagem e na calha a Xerem tem novas sessões cujas datas, a divulgar, podem ser conhecidas aderindo à newsletter do Palato no sítio do projecto na internet. Tavolo Imagine uma mesa, corporizada

A web como plataforma de partilha

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A casa do Palato é antes de mais a internet. A rede acolhe o sítio www. palato.org onde o projecto se eterniza entre a escrita, as fotos e os vídeos. Ali se espelham os resultados de cada performance, mas também se antecipa o próprio desenvolvimento do projecto. O sítio é um organismo. Vive e desenvolve-se, expõe e apresenta e, finalmente, ali se consolida a experiência daqueles que entram em contacto com o projecto cultural. É também na rede que o Palato convida os internautas, em qualquer sítio do globo, a partilharem em directo as

numa tira rectangular de tecido branco que é transportada por vários convivas por entre um espaço urbano. Correm os comensais as ruas e os locais onde se podem adquirir os ingredientes para uma refeição típica do local e regressam da passeata performativa ao local de partida com cestas cheias para o acto que mais se aguarda. Ganha lugar e espaço, uma vez mais, a gastronomia e o cozinhar, enquanto o diálogo frutifica e espreita os domínios insondáveis de uma boa conversa que tem como ponto de partida o périplo que levou todos até ali. Lagos foi a primeira cidade a assistir ao Tavolo que promete repetir-se, diz Jorge Rocha, que deseja encontrar parceiros para que a ideia ganhe maior dimensão.

Ainda dentro do universo polifacetado do projecto Palato surge Território, em que a cozinha se desenvolve perante uma assistência tendo por base o enquadramento territorial e a recolha daqueles que são os hábitos alimentares ligados ao território em causa. Vila do Bispo acolheu a primeira performance que Jorge Rocha considera ter sido uma óptima experiência. A repetir um pouco por todo o Algarve onde se queira experimentar o projecto Palato, a Xerem está aberta a sugestões e encetar parcerias que se juntem àquelas que já se fundaram com autarquias, associações e com a Direcção Regional de Cultura. A proposta é a de ir acompanhando a par e passo um projecto que não tem um tempo determinado nem prazo agendado, como refere Jorge Rocha, responsável maior pelo conceito. Levar o Palato a todo o Algarve, mostrar aos algarvios o que a mesa tem de relação estreita com a História e o património , com o espaço e tempo que habitamos e com aqueles que o habitaram antes de nós é um desafio no mínimo interessante. O Algarve quer-se assim reinventado em cada momento e conhecido culturalmente das mais diversas formas e pelos mais insuspeitos meios. Há lá melhor do que conhecermo-nos, ainda mais com uma mesa como palco?!

Cozinhando na Paisagem na Villa Romana de Milreu

“BELA MANDIL REVISITADO” Até 23 AGO | Junta de Freguesia de Pechão - Olhão Exposição de pintura digital de José Bívar, que com este trabalho pretende chamar a atenção para o futuro da freguesia em terras sustentáveis, preservando as suas características rurais

Ricardo Claro

“ISTO É QUE ME DÓI!”

Até 31 AGO | 22.00 | Teatro Municipal de Portimão - TEMPO

Peça interpretada por José Raposo, acompanhado de um elenco com grandes nomes do espectáculo, 35 anos após Raul Solnado ter dado vida a esta comédia


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Cultura.Sul

Núcleos Museológicos em Alcoutim: um processo de revitalização maria luísa francisco

Maria Luísa Francisco

Delegada Regional da Associação Portuguesa de Museologia

A forma como valorizamos o Património revela não só as nossas preocupações com o passado, o presente e o futuro, mas revela acima de tudo uma parte do que somos. O tempo que dedicamos a esta valorização será sempre um bom investimento, trará novas vivências e reforçará outras memórias. Porque como dizia António Rosa Mendes: “Somos feitos de tempo. Pelas nossas veias não circula só o sangue, circula também o tempo. A nossa matéria é o tempo e nessa medida se queremos sinais de orientação em relação ao futuro temos que nos apoderar do passado”. Núcleos Museológicos no espaço rural Os Núcleos Museológicos no espaço rural têm de estar ao serviço das populações incentivando a participação da comunidade, promovendo a experiência colectiva e a reflexão dos visitantes. Quando um Núcleo é lugar de recuperação de objectos, símbolos e saber-fazeres de uma comunidade, esta sente-se valorizada e sente que o seu legado cultural continua no tempo. Ao dar a conhecer essa “herança cultural”, para além de fomentar o interesse pelo património, está-se também a viabilizar a preservação do

Recriação de uma aula da 2ª classe dos anos 50/60, no Núcleo Museológico de Santa Justa espaço, fazendo com que a comunidade sinta admiração e respeito pela identidade cultural que representa. Essa é uma forma de incutir aos mais jovens o gosto e o interesse em preservar a história e a cultura local, despertando interesse pelas suas próprias raízes culturais. A realização de actividades culturais nos referidos espaços contribui para a revitalização do património, para a revalorização da história numa perspectiva de identificação e de auto-estima das populações, em particular dos espaços rurais. O trabalho de investigação realizado nos montes do Nordeste Algarvio permitiu-me conhecer um pouco do seu património cultural material e imaterial, através destas magníficas gentes, de vivências ricas e, por vezes, de auto-estima baixa. Os Núcleos Museológicos podem representar uma mais-valia no de-

senvolvimento local, nomeadamente no domínio turístico e cultural e essa mais-valia pode ser reforçada com diferentes dinâmicas de revitalização. Revitalização museológica em Alcoutim “A realidade museológica do Algarve assenta sobretudo em museus de tutela autárquica (53%) e na proliferação de uma grande quantidade de núcleos museológicos, na sua maioria dedicados à etnografia das diversas localidades”.1 Dos vários núcleos museológicos existentes no concelho de Alcoutim, que integram a Rede Museológica de Alcoutim e a Rede de Museus do Algarve, um deles está a ser revitalizado de forma sistemática e organizada. Trata-se de uma antiga Escola Primária, musealizada desde 2000, onde se pode encontrar uma sala de aula dos anos 50/60, com todos os

elementos e materiais usados na época. Este Núcleo situa-se no Monte de Santa Justa, a 3 Km de Martim Longo. O processo de revitalização referido passa pela dinamização de sessões mensais, que irão decorrer até Outubro, no âmbito do «Projeto Alcoutim» do qual sou coordenadora executiva. Pretende-se com estas sessões a participação da comunidade na valorização do seu património e ao mesmo tempo contribuir para que a população se aproprie de um espaço, que afinal é seu e está povoado das suas memórias. No essencial, a ideia é que a comunidade se envolva socialmente na vida do Núcleo Museológico e que dê continuidade a este processo de revitalização mensal. É importante que se sintam “guardiões das memórias”, das histórias de vida e da identidade cultural. Foi com esse sentimento que ficamos na primeira sessão ao escutarmos teste-

munhos tão genuínos e espontâneos, capazes de “povoar os objectos” da escola, resgatando o passado, transformando as imagens, já de todos distantes, em novos modos de interrogar o presente e problematizar o futuro. A segunda sessão foi dedicada ao enquadramento histórico do ensino da época e à recriação de uma aula com os conteúdos de uma lição da 2ª classe dos anos 50/60. Nessa recriação não faltaram alguns rituais da altura como o canto do Hino Nacional de pé e a professora vestida de bata branca com a palmatória na mão! Houve uma recolha de depoimentos que nos fizeram perceber como as memórias de infância estão bem presentes nos mais idosos, tendo deixado algumas marcas que não se esvaíram no tempo. A sessão de 29 de Agosto será dedicada aos contos tradicionais, envolvendo a comunidade nessa partilha. Desejo que a comunidade de Santa Justa possa dar continuidade a este processo de revitalização do Núcleo, realizando actividades, serões onde partilhem as suas vivências, as suas histórias de vida e as possam transmitir aos seus descendentes e ainda que possam motivar outros montes com núcleos museológicos a trilhar o mesmo caminho. Desejo ainda que este pequeno contributo sirva de reforço à interiorização da “herança cultural” do seu território e a promova de modo a atrair mais visitantes para o rico e importante património do Nordeste Algarvio. 1. PAULO, Dália (2008) “Museus de fronteira no Algarve: novos espaços, novos desafios” in MUSEAL nº 3, Faro: Museu Municipal; Câmara Municipal de Faro, p.96 a 105. PUB


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Momento

Portimão, “Work in Progress” Foto de Vítor Correia PUB


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09.08.2013

Cultura.Sul

Contos de Verão na Ria Formosa

Ele, ela e o Globo

Pedro Jubilot

pjubilot@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

O Globo

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Já ninguém tem um. Com luz e tudo. Como aqueles que se compravam às Selecções Reader’s Digest. Com um manual de utilizador de capa azul e branca. Que ensinava a ajustar as coordenadas de um determinado local e encontrá-lo na bola mundo. De onde aprendemos os nomes dos lugares e as suas características. Graças a ele sabemos onde estamos, onde já estivemos, e onde gostaríamos de ir nessa esfera azul terrestre. O globo de todos os sonhos. Dava muito jeito.

Entretinha muito as famílias, quando ainda não havia o Google Earth, nem mesmo sequer os computadores. Tanto, que o pai dele criou uma história que lhe contava a si e aos seus irmãos, sobre como tinha viajado em lua-de-mel com a sua mãe antes de se casarem. Tudo por causa de uma brincadeira com o globo que o seu avô lhe comprara. Um bom investimento se revelou. Tornou-se professor de Geografia. Assim também ele percorreu o país de norte a sul enquanto o pai não conseguiu a colocação definitiva. (Ela e) Ele O que é aquilo, aquele… ali sobre a mesa? Para que o compraste? A tua mania de comprar coisas inúteis nas feiras de velharias. É de segunda mão? É vintage? Tem um ar estranho? Para que queres aquilo? Adoro este globo. E o Google Earth também. Permitem-me viajar como o

Pessoa - o poeta dos pobres que viajam sentindo (indo, mas sentados). Não te lembras da história? É o globo do meu pai. Deu-mo. Quer dizer, agora vai passar por mim. Disse-me para eu o trazer porque teve a sensação que podia estar a chegar a minha vez de o usar. E aconselhou-me a não dar ouvidos aos que estão sempre a dizer: «A vida é o que tu fazes dela», convencido que nada se desvela mais enganoso, quando depois aprendemos que a vida é o que se vai (sempre) pensando que se poderia ter feito nela. Ela (para Ele) Ah…, sim! Estou a lembrar-me daquela história dos teus pais meio estranha, que me contaste… isso é mesmo verdade? É então este o famoso globo!? Já que vens com isso, aproveito para te dizer algo que venho pensando há alguns dias… tenho que te dizer isto. Desculpa, mas não aguento mais. Acho que chegou o momento da verdade da nossa relação. Aqui e agora é este o tempo e o lugar decisivos. Assim como nos concursos da televisão, aqueles que tanto há agora, esses tipo espectáculo da realidade, em que o concorrente ou arrecada o que ganhou até esta fase, ou decide se vai jogar a prova final ganhando o fabuloso prémio em jogo. Onde também pode perder tudo. Este é o momento que interessa. O mais importante do processo, a decisão. Depois se ganhas o prémio final, isso é o futuro que nunca saberás se não jogares. O princípio mágico e arrepiante da vida. A glória e o arrependimento. Se me amas tens agora a tua oportunidade de me levar nessa viagem de família. E eu escolho a igreja para nos casarmos quando regressarmos. Se não o fizeres sei que a nossa relação termina aqui. Os espectadores, divididos, entre te julgarem cauteloso e sensato, ou atirando-te com um para ali está mais um jovem cobarde e sem ambição… baterão palmas, todos no entanto, enquanto eu saio de cena por aquela porta. Já tu ficas com eles a apanhar com blocos de 20 minutos de publicidade seguidos. Ou: - Podes pensar. Mas tens apenas aqueles dois minutos e meio que demora o intervalo exclusivo da-

“A RIQUEZA QUE A RIA E O MAR NOS DÃO” Até 15 AGO | Ria Shopping - Olhão Exposição fotográfica do habitat natural de um dos locais mais bonitos e emblemáticos do Algarve, com destaque para os flamingos, assim como para a arte da faina de pesca e captura de bivalves e para a actividade de extracção de sal

quele novo carro que tanto gostas. Ele, (Ela) e o Globo A solução, concordaram, passava simplesmente pela escolha aleatória de um destino de férias, como era da tradição. Algo que ele tantas vezes tinha ouvido aos pais, visto contar pelos tios, gabado pelos amigos de todos eles. E nem mesmo assim ele sabia se isto não passava de um mito. Mesmo que não tivesse acontecido nunca, era por ele .. que o faria, pela sua honra própria. E por ela. Agora não podia simplesmente dizer-lhe que tudo aquilo não passava de uma história, uma brincadeira, uma piada privada de amigos e familiares. Não era simplesmente a lenda de todos os homens da família, que num certo dia se tinham virado para a mulher que a dado momento achavam ser a da vida deles, propondo-lhes a tal viagem para um local do mundo ao acaso. Embora não à sua escolha, mas da sua decisão. E uma vez escolhido o lugar – fosse esse qual fosse – esse seria, e nenhum outro mais. Como numa roleta russa. Quando o globo parasse de rolar abruptamente, o destino estaria traçado. Com bilhete só de ida. Teriam de conquistar o regresso. Agora a decisão era irrefutável, chegado pois o momento da verdade. Ele levantou-se. dr

Ela (o Globo e Ele) Um gesto por ela interpretado como um sim. Uma prova de amor embora não verbalizada, entendia-se. Foi buscar o globo de família. ‘Aquela relíquia macabra, que me trouxe para esta casa’, lembrou-se da frase que a mãe dele dizia, ainda que não tivesse para já avaliado o grau de ironia nela envolvido. Mas estaria agora mais perto de perceber porque aquele objecto antiquado e insignificante era tão importante e decisivo para aquela família. Não apenas o tal de fetiche como ela o apelidava, pois achava que aquelas histórias de viagens, provavelmente inventadas eram meio caminho andado para levar na bagagem, as pretensas ouvintes, novas potenciais viajantes, para uma cama de hotel. Ele, Ela, o Globo Ele carregava o mundo nas suas mãos. Aqui tens. Dou-to. É todo teu, mas dele infelizmente só vais poder escolher um único ponto. Onde ser feliz não dependerá só de ti.

Respiraram fundo. Iniciaram o ritual. Ele girou o globo de modo a dar as voltas suficientes para não se distinguirem os oceanos dos continentes. Olharam-se nos olhos. Sentiam a tensão do mundo a girar entre os seus peitos. O planeta azul começava a perder força na sua rotação forçada. Era então que ela tinha de cerrar os olhos. E em seguida teria de apontar o dedo indicador sobre a superfície do globo, parando o mundo e tudo o que nele gira. Por uns segundos. Cabia ao homem marcar as coordenadas. Ditá-las à mulher que as escreveria num pedaço de papel. Onde fez aparecer: 37° 2’ 0’’ N, 7° 55’ 0’’ W. Ele tomou o livro a seu lado sobre uma cadeira. Procurou e deu-lhe a ler: «Europa, Portugal, Algarve, Faro, Ilha da Culatra». Caraças, isto não está viciado nem nada !? Que galo, saiu logo o único sítio onde com esta crise eu conseguiria ir passar uns dias de qualquer modo. Seja! Também nunca acreditei muito nesta treta. Aí não diz se vamos à boleia ou de comboio!?, desabafou ela. Ele e Ela, sem Globo O táxi-aquático serpenteou o canal de águas turvas da maré baixa, sempre junto às bóias. Quando a pequena lancha enfiou a proa pela areia naquela ilha lá para o pé do fim, como cantou Júlio Pereira, puderam ver a seu lado as pessoas que dentro e fora das traineiras terminavam os preparativos para a festa da Nª Srª dos Navegantes. Na sua frente destacava-se iluminada, a igreja. Não conseguiram dormir sujeitos ao calor desses dias de canícula. A casa que alugaram era demasiado quente. Daí observaram a lua, que toda a noite brilhara tão alto, a desaparecer do lado poente enquanto o sol nascia do mar a este. À primeira claridade rumaram à costa, já o farol do cabo de StªMaria estava prestes a desligar-se. O mar mais parecia um longo espelho deitado. Entraram na água que surpreendentemente estava a uma temperatura muito agradável. Dali, no cedo daquela manhã, perceberam que será errado tentar repetir as horas perfeitas. Algo que se pensa mas não se enuncia. E que o amor e vida são para sempre, pelo menos enquanto duram nesta breve eternidade, que mais parece feita de pequenos nada, de cada presente que vivemos. A eternidade não é algo para o futuro, que se constrói com o que não se viveu ainda, mas talvez com aquilo que se tem vivido e nos leva para diante.

“F.M.I. E OS 40 E TAL MAMÕES” 30 e 31 AGO | 21.30 | Centro Cultural de Lagos A actualidade política e social do país e do mundo, bem como o quotidiano de Portimão, servem de mote para mais uma edição desta revista à portuguesa, que segue as directrizes impostas pela Troika para cortar nas despesas


Cultura.Sul

09.08.2013

Espaço ao Património

Sala de leitura

Um Algarve a descobrir

Na senda das pedras falantes

Alexandra Pires

Arqueóloga, Câmara Municipal de Loulé

A época de férias traz mais uma vez ao Algarve uma grande afluência de turistas, quer nacionais, quer estrangeiros, que enchem as praias em busca de sol, tornando uma vivência habitualmente calma num corrupio de falta de estacionamento e engarrafamentos. Não sendo algarvia mas vivendo no Algarve há cerca de dez anos, a sazonal diferença de vivências a que se assiste nesta região suscita-me sempre alguma perplexidade. É no Verão que a diferença entre o lito-

numentos megalíticos existentes perto desta localidade, uma vez que estes monumentos se encontram em locais de fácil acesso. O caminho encontra-se sinalizado, permitindo ao público interessado aceder facilmente ao local. Outra iniciativa levada a cabo recentemente resulta de uma parceria entre a Universidade de Jena (Alemanha) e o município de Loulé para a escavação de um sítio arqueológico romano na freguesia de Benafim, na localidade de Espargal. A vontade de realizar trabalhos arqueológicos no local partiu do proprietário do terreno, na expectativa do seu aproveitamento turístico futuro. A escavação, a decorrer desde 2010, colocou a descoberto vestígios de uma estrutura de produção de azeite e/ou vinho que terá estado em utilização entre os séculos II a.C e V d. C. Durante o corrente ano foi realizada mais uma iniciativa visando aumentar a afluência de turistas interessados na vertente patrimonial e arqueoló-

pois para a aldeia da Penina, freguesia de Benafim, onde esteve desde 10 de Junho até 10 de Julho. A iniciativa juntava ao percurso pedestre de vertente natural da Rocha da Pena uma vertente patrimonial que pretendia ser uma mais-valia para a oferta já existente. A colocação temporária da Estela de Barradas na aldeia da Penina permitia aos visitantes a fruição de um objecto arqueológico que faz parte da exposição permanente do núcleo sede do Museu Municipal. Com a deslocação da exposição para o Ameixial a 12 de Julho, onde terminará o seu percurso, dá-se o encerramento de um ciclo. Sendo o Ameixial a freguesia do concelho de Loulé com maior número de estelas com escrita do sudoeste até agora identificadas, esta realidade apresenta-se como uma herança histórica de peso para a localidade. A exposição, localizada na principal artéria do Ameixial, a EN 2, estrada que ainda d.r.

Paulo Pires

Programador Cultural no Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

O presente texto vem na sequência do último artigo, em que foi apresentado, de um modo mais genérico, o formato interdisciplinar “Leituras Zen”, dando-se agora alguns exemplos práticos a nível musical, literário e contextual. Musicalmente, é fundamental o recurso a sonoridades de efeito trofotrópico, ou seja, de melodias que

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e introspectivo de parte do seu repertório), possui temas instrumentais de grande adequação a este formato, como “Cinema”, “Amatorius” ou “Final”. Sobre os textos, alguns exemplos que resultam bem: “Convida-me só para jantar”, de Ana Goês; “A terra do nunca”, “Presente” e “As coisas mais simples”, de Nuno Júdice; “O brincador”, de Álvaro Magalhães; “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colasanti; “O faroleiro do Sardão” e “O guardador da ilha”, de Al Berto; “[Não gosto tanto”], de Adília Lopes; “E tudo era possível” e “A rua é das crianças”, de Ruy Belo; ou “O sorriso”, de Eugénio de Andrade. Quanto a espaços de realização, as possibilidades são inúmeras consoante a imaginação e a ousadia: o interior de uma igreja ou de outro edifício histórico, um terraço junto d.r.

Leituras zen na villa romana de Milreu (Estoi) Anta da Pedra do Alagar (Ameixial) ral algarvio e o interior da região se torna gritante. Aí, mesmo quando as praias estão cheias de turistas, continuamos a poder apreciar com calma toda a beleza que nos é oferecida pelas regiões mais afastadas do mar. O concelho de Loulé, com a sua grande extensão territorial, enfrenta vários problemas na dinamização do seu interior. Numa tentativa de contrariar esta tendência tem existido um esforço por parte da autarquia em diversificar a oferta turística aí existente. A par de várias iniciativas de carácter social e cultural e do turismo de vertente natural e paisagística, o património arqueológico pretendeu assumir-se nos últimos anos como mais um ponto de interesse a ser explorado nas regiões do interior. À oferta turística da freguesia do Ameixial, que passa por uma série de percursos pedestres procurou ultimamente associar-se uma visita aos mo-

gica ao interior do concelho. Trata-se de uma exposição de rua itinerante, concebida numa parceria entre a autarquia e o Projecto Estela, que visa dar a conhecer a Idade do Ferro e as estelas com escrita do sudoeste encontradas no Concelho de Loulé. A exposição, que pretende interagir com os espaços públicos, foi pensada para estar patente nas freguesias onde foram encontrados vestígios arqueológicos deste tipo de escrita, tendo sido inaugurada em Salir a 9 de Maio. Localizada perto do Pólo Museológico de Salir, a exposição permitia que o visitante iniciasse a sua visita junto da antiga escola primária, subindo a Rua do Castelo ao mesmo tempo que lia os seis painéis que constituem a exposição, terminando a visita no Pólo Museológico, onde se expõe a Estela de Viameiro. A exposição esteve em Salir cerca de um mês tendo registado um elevado número de visitantes, seguindo de-

hoje é uma das mais movimentadas da região, pretende receber não só os visitantes que se deslocam especificamente para este fim mas também surpreender quem transita na estrada, convidando-os a parar para conhecer melhor esta realidade. No âmbito da exposição foi realizada pelos serviços do Museu Municipal uma réplica da estela de Corte Pinheiro, a última a ser descoberta na freguesia do Ameixial e no concelho de Loulé. A réplica e a exposição vão passar a fazer parte da oferta turística do Ameixial, passando a exposição a estar patente a partir do final do Verão numa das salas da Junta de Freguesia. Com este tipo de iniciativas a autarquia pretende diversificar a oferta turística existente no concelho, promovendo o nosso património e convidando à fruição de um outro Algarve que para tanta gente é completamente desconhecido.

induzam tranquilidade, apaziguamento, sono e harmonia íntima, na linha da chamada “música orgânica”, dotada de atributos biológicos (fluidez, harmonia, unidade de sentido). O universo clássico, por exemplo, é fértil em peças enquadráveis neste registo, como alguns temas de Ravel, Massenet, Liszt, Bach, Beethoven ou Vivaldi. No jazz, a música “Reed song” dos americanos Will Holshouser Trio é um tema bem ilustrativo do que se pretende para este formato planante e viajante. No caso português, além de composições instrumentais de projectos como Madredeus (“As Montanhas” e “As ilhas dos Açores” são bons exemplos), Danças Ocultas, Bernardo Sassetti e João Paulo Esteves da Silva, uma palavra especial para Rodrigo Leão, que, com o seu som clássico-moderno e as suas aproximações à música contemporânea, ao minimalismo e ao misticismo/espiritualidade (patentes no cariz contemplativo

ao mar, em plena sala de leitura de uma biblioteca, um jardim público, junto a uma fonte, moinho ou eira tradicionais, a praia, um retiro espiritual, um monumento arqueológico, o recanto de uma esplanada de café ou uma zona mais elevada, privilegiada, de observação paisagística… Esta abordagem já foi testada, de forma inédita em Portugal, em 2011 pelo projecto Experiment’arte, em colaboração e com o patrocínio da Direcção Regional de Cultura do Algarve, tendo sido então criado o ciclo “Na senda das pedras falantes”, assente na ideia de reinvenção do conceito de experiência patrimonial. Proporcionou-se assim aos visitantes de vários monumentos da região uma experiência inovadora, diferenciad(or)a e surpreendente, que obteve um assinalável impacto junto do público-alvo e será inclusivamente reposta este ano nalguns monumentos algarvios entre 25 de Agosto e 20 de Outubro. Atrevam-se…


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Cultura.Sul

Na senda da Cultura

Cultura na rota da rua d.r.

Com a chegada da época estival, o Algarve recebe milhões de turistas que programam as férias para a região, em busca, essencialmente, de sol e de mar. Contudo, nem só de praia vive o Algarve e muitas vão ser as festas, festivais e concertos que complementam a oferta numa estação que não esquece a Cultura e as tradições. O Cultura.Sul destaca cinco eventos que durante este mês procuram encher o tempo livre de turistas e residentes e que passam por festas temáticas medievais, festivais gastronómicos, certames de artesanato com muita animação e, claro, muita música.

O marisco é rei em Olhão

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Também a gastronomia tem lugar de destaque na programação algarvia nesta época do ano e a 28.ª edição do Festival do Marisco é, provavelmente, um dos certames gastronómicos mais aguardados por turistas e residentes. Com conquilhas, amêijoas, gambas e camarão, perceves, búzios, mexilhões, ostras ou santolas como protagonistas, já nada mais seria preciso para fazer deste evento um dos mais apetecidos mas, de 10 a 15 de Agosto, há ainda

Feira Medieval de Silves Zona histórica de Silves

ÔÔ Dias: até 11 de Agosto ÔÔ Horário: das 18 às 2 horas hoje e amanhã, sábado, e das 18 à 1 hora no domingo ÔÔ Preço: 4 euros (passe para todos os dias) e 2 euros bilhete diário. Crianças até 1,30 metros de altura têm entrada grátis.

Loulé despede-se do Verão de branco

Silves, uma lição de história A decorrer desde o dia 2 de Agosto e até domingo, a Feira Medieval de Silves é uma boa maneira de começar as férias. Uma feira temática que aposta no traçado característico do centro histórico da cidade para oferecer aos visitantes uma viagem no tempo através da recriação histórica do período medieval do final do séc. XII. Para este fim-de-semana é esperada a grande fatia dos milhares de visitantes que anualmente acorrem à antiga capital do Reino do Algarve e que, uma vez mais, podem experimentar uma atmosfera única num cenário tão distante dos nossos dias. A não perder os torneios a cavalo e o teatro no castelo. A música e a animação de rua ficam a cargo dos figurantes do povo, acrobatas, malabaristas ou cuspidores de fogo que ajudam a avivar todos os sentidos para uma época de incontornável importância para a cidade. O preço diário do evento é de dois euros e o passe para todos os dias custa quatro euros. As crianças até 1,30 metros não pagam.

ta para uma viagem ao imaginário da Idade Média. Os Dias Medievais, de 22 a 25 de Agosto, convidam os milhares de visitantes esperados em Castro Marim a conhecer em pormenor, e com o rigor alcançado ao longo das últimas 15 edições, os usos e costumes, os mesteres e a gastronomia medievais, num certame que conta com música, animação de rua, desfiles e até um banquete típico da época. Razões mais do que suficientes para estar atento e não perder uma noite seguramente diferente, num dos mais imponentes castelos da região.

Silves e Castro Marim regressam à Idade Média muita música para ouvir na no Jardim Pescador Olhanense. Tony Carreira, Carminho, Xutos & Pontapés, João Pedro Pais, a banda de tributo U2 UK e o Grupo Revelação são os cabeças-de-cartaz que garantem a animação aos milhares de visitantes durante os seis dias de festival. Os bilhetes custam oito euros para adultos, três para crianças dos 7 aos 12 anos e entrada grátis para os mais novos. Cartaz de luxo em Lagoa

ra. De 16 a 25 de Agosto o palco principal conta, todas as noites às 22.30 horas, com nomes como Entre Aspas, The Gift, Herman José & Orquestra, José Cid, Vol. 2, Os Azeitonas, Miguel Gameiro, Emanuel, Expensive Soul, João Pedro Pais e Pedro Abrunhosa, por esta ordem. Os ingressos custam cinco euros e o bilhete familiar para quatro pessoas custa 15 euros. As crianças até aos 12 anos têm entrada gratuita. História e fantasia em Castro Marim

Naquela que é a maior feira realizada a sul do Tejo, a 34.ª FATACIL Também a sotavento há via aber– Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria de Lagoa tem no carácter generalista a sua Noite Branca maior valência. Com actividaLoulé des para todos os gostos, os visitantes podem sempre contar com degustaÔÔ Dias: 31 de Agosto ções da melhor gastronomia, demonstrações ao vivo ÔÔ Uma noite imperdível de grande parte dos 180 arem que a diversão invade tesãos presentes no Parque as ruas da cidade de Loulé. de Feiras e Exposições, além Uma noite vestida de branco, da beleza dos espectáculos que o dress code oblige, e em equestres. que é imprescindivel uma úniContudo, é também na ca coisa, boa disposição música que se centram as atenções nos 11 dias de fei“ARTE COM LATA” Até 29 SET | Museu de Portimão Exposição composta por uma série de imagens criadas pelo artista holandês Eric de Bruijn, com base nas antigas ilustrações litográficas coloridas das latas de conserva

A grande novidade deste ano é o regresso da Noite Branca de Loulé depois de uma interrupção de dois anos. No último sábado de Agosto, dia 31, e sob o mote do branco a cidade louletana despede-se da época estival com um evento organizado pela autarquia, onde não vai faltar música, animação de rua, moda, pintura ou artes plásticas. Uma forma diferente para se despedir do Algarve ou das férias com um sorriso no rosto e uma recordação que justifica o regresso no próximo Verão à rua e à Cultura. Pedro Ruas/Ricardo Claro

Dias Medievais Castro Marim Castelo e vila de Castro Marim ÔÔ Dias: 22 a 25 de Agosto ÔÔ Com o programa ainda por definir uma coisa é certa, a viagem histórica para tempos imemoriais está garantida. Cheiros, sabores e viveres de outros tempos num cenário único, Castro Marim

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Fatacil Parque de Feiras e Exposições de Lagoa

ÔÔ Dias: 16 a 25 de Agosto ÔÔ Horário: Os concertos decorrem todos dias às 22.30 horas ÔÔ Preço: 5 euros para os adultos, bilhete para quatro pessoas 15 euros, as crianças até aos 12 anos têm entrada grátis

“EXPOSIÇÃO DE PEDRO VARANDAS” Até 29 SET | Casa da Juventude de Olhão Artista é natural de Olhão, desde criança que sente interesse pelo desenho, sobretudo desenhos animados. Em 2009 começou a frequentar o Centro de Arte de Pintores Olhanenses e aí descobriu a pintura a óleo sobre tela


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Cultura.Sul

Da minha biblioteca

Sob o signo de Pigmalião: O Lago, de Ana Teresa Pereira d.r.

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

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O mito de Pigmalião, como muitos dos mitos gregos, foi glosado ao longo da história, sendo uma das versões mais conhecidas a peça de George Bernard Shaw, Pygmalion, popularizada pela sua versão cinematográfica com o nome de My Fair Lady (um filme de George Cukor, de 1964, com Audrey Hepburn e Rex Harrison) e, em Portugal, pela produção do musical homónimo, de Filipe La Féria, em 2002. Conta o mito (vou usar a versão latina, de Ovídio, livro X, versos 244-296, na tradução de Domingos Lucas Dias) que Pigmalião, desiludido com as mulheres, esculpiu «uma estátua/ de níveo marfim e emprestou-lhe uma beleza com que/ mulher alguma pode nascer. E enamorou-se da sua obra (…). Adorna-lhe/ os dedos com jóias, enfeita-lhe o pescoço com longos/ colares, nas orelhas, elegantes pérolas, pendem-lhe/ do peito cordões. Tudo nela fica bem./ (…) Havia chegado/ o dia das festividades de Vénus (…) – ‘Se tudo podeis conceder, ó deuses,/ desejo que seja minha esposa…’ Não ousando dizer/ a donzela de marfim, Pigmalião disse – ‘… uma igual/ à de marfim’. Dado que a dourada Vénus assistia/ em pessoa às festividades em sua honra, percebeu o que/ pretendiam aqueles votos (…). Pigmalião dirigiu-se/ à estátua da sua amada e, reclinando-se no leito, beijou-a./ Pareceu-lhe estar quente. Aproxima outra vez a boca/ e, com as mãos, toca-lhe o peito também. Ao ser tocado,/ o marfim torna-se mole (…)./As veias palpitam

Ana Teresa Pereira sob o polegar (…)./ Por fim, beijou com sua boca/ uma boca não fingida. A donzela sentiu os beijos que lhe/ eram dados e corou. E, erguendo seu tímido olhar para/ os olhos dele, de par com o céu viu o seu enamorado./ A deusa assistiu à boda, que organizou». Este longo preâmbulo serve para apresentar o livro que trago hoje, O Lago, de Ana Teresa Pereira (editora Relógio d’Agua, 2012), que ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela - 2012, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores. Ana Teresa Pereira é uma autora discreta. Nascida no Funchal, em 1958, começou a publicar em 1989 e tem mantido uma edição regular, tendo muitas das suas obras ganho prémios variados (começando pelo primeiro, Matar a Imagem, que recebeu o Prémio Caminho de Literatura Policial). Não dá muitas entrevistas e mantém-se à margem de polémicas em blogues e afins. Li alguns dos seus livros e cada um dá-me vontade de

ler outro e mais outro e mais outro. Este não foi exceção. No início… … está tudo. Ao terminarmos apercebemo-nos de que os indícios do que se ia passar já estavam lá. Cada capítulo é contado focalizando ora em Tom, ora em Jane. Apesar do livro ter apenas 4 personagens, uma delas quase não aparece (Ed, o produtor) e a outra, o ator Kevin, é uma espécie de projeção do autor (Tom), que representa em vez dele, mas a sua existência não é suficientemente importante para que a narrativa se centre no que sente ou pensa. Apenas em Tom e Jane. Jane esperava ter trabalho como atriz, depois de ver a sua carreira como bailarina destruída por uma queda que a deixou incapacitada para voltar a dançar: «Continuava à espera de uma oportunidade. Embora gostasse de repetir a si mesma que não acreditava em contos de fadas.

“AIA SUMMER PARTY” 11 AGO | 21.30 | Autódromo Internacional do Algarve – Portimão Concerto pela banda inglesa Keane, que lançou o seu primeiro single “Call Me What You Like” em Fevereiro de 2000 e desde então têm tido sucessos como “Everybody’s Changing” e “This Is The Last Time”

Mesmo que fosse numa peça que mais ninguém recordasse. Mas ela teria sido, completamente, aquela personagem. Teria passado, completamente, para o outro lado». (p.21) Pigmalião e My Fair Lady No mito de Pigmalião, a estátua – Galateia – ganha vida, casa com o seu criador, têm uma filha e são felizes para sempre. Portanto, passa de uma não vida para uma vida – boa, para os padrões da época (e, como se percebe, esses tempos mitológicos não estão tão distantes assim). Em Pigmalião/ My Fair Lady, Galateia – Eliza Doolittle – já tem uma vida antes de encontrar Pigmalião (Henry Higgins) e a mudança que ele opera nela – uma mudança que ela deseja, sem ter noção das consequências desse desejo – é irreversível e a sua vida nunca mais poderá ser a mesma. E esta Galateia recusa ficar com o seu Pigmalião, porque ele não a trata com a gentileza que ela merece, mas como uma sua criação. Tom, como a maioria de

nós, é um homem da era visual e, para ele, Galateia teria de ter o rosto, o corpo, os gestos, o cabelo da atriz por quem se apaixonara: «Havia nela alguma coisa de Audrey Hepburn. E se havia alguma coisa, ele podia inventar o resto» (p.12). «Apaixonara-se por Audrey Hepburn quando vira My Fair Lady. Sempre o seduzira a história de Pigmalião. Apaixonava-se de vez em quando, mas tinha consciência de qua a outra pessoa era só alguém com quem viver uma fantasia. Só podia amar de facto um ser criado por ele. (…) Ele conhecia tudo a seu respeito, excepto o seu rosto. (…) De vez em quando sonhava com ela. Não era nada de surpreendente, sonhara com as personagens que interpretava, com as personagens que criara. Quase não sonhava com outras coisas. No fundo, era um fanático, sempre o fora. Acordava à procura dela, e com uma certeza. Ela seria tão bonita. De uma forma profunda e tortuosa, estava apaixonado

por ela. Tanto quanto podia estar apaixonado por alguém.» (p.26-27) E quando dois fanáticos se juntam (também ela diz: «Ainda havia nela alguma coisa da criança que treinava horas todos os dias, até perder as forças. Um princípio de fanatismo» p. 21), quando um quer criar uma personagem e o outro quer ser essa personagem, o resultado é inquietante. Este livro questiona os limites da memória, da vontade, da própria existência. Muito bom. Outras leituras Ovídio, Metamorfoses (tradução de Domingos Lucas Dias, em dois volume, de 2006 e 2008, Lisboa, Ed. Vega). George Bernard Shaw, Pigmalião (não conheço a qualidade da tradução portuguesa, mas a inglesa – Pygmalion – está disponível, gratuitamente, na Internet).

“TRANSPARÊNCIAS” Até 13 SET | Galeria Municipal de Albufeira Exposição de aguarelas de João Moraes Rocha. Artista autodidacta, que privilegia as paisagens, especialmente as marinhas, tendo eleito a aguarela como a sua técnica pictórica


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Cultura.Sul

Cinemas ganham novo fôlego na região

pub

d.r.

Ao que parece o Verão voltou a trazer algumas boas novidades para os amantes da sétima arte. O cinema que parecia definhar, fosse ele de massas ou minorias, em centros comerciais ou cineclubes, um pouco por todo o Algarve, e pelo país, num grande ecrã que tendia a minguar. Eis que as boas novas, ainda que a conta-gotas, nos reservam a esperança de que, afinal, o cinema e a Cultura ainda podem dar a volta por cima do negro cenário que no horizonte se desenhava. Bem virtuosos os investimentos sérios no sector, independentemente da sua origem, e os frutos que daí possam surgir para os públicos actuais e para aqueles que estas mesmas salas de cinema vão decerto criar. Vejamos os exemplos de um percurso que parece indicar que o Algarve tem espaço para o cinema e que os algarvios não deixarão de aderir às propostas da arte de contar histórias no grande ecrã a começar pelos cineclubes e a terminar nas salas ditas comerciais. Foi assim em Tavira, onde as mostras de cinema ao ar livre regressaram para gáudio de residentes e turistas, foi assim em Lagos, onde pela mão de Carlos Matos o cinema voltou anos depois do esquecimento e agora a notícia de que até os centros comerciais na Guia e em Portimão, cujas salas estavam encerradas desde o início do ano, vêem agora luz ao fundo do túnel com a entrada dos brasileiros Orient Cinemas no mercado nacional, com a marca ‘Cineplace’.

Salas de cinema reabrem até fim do ano São 60 as salas que em dez centros comerciais do grupo Sonae Sierra vão reabrir portas aos portugueses, até ao final do ano, de norte a sul e até às ilhas, por via do acordo com a Orient Cinemas, que ficam assim a gerir as salas que eram exploradas pela Socorama Cinemas, que entretanto pediu insolvência. É o caso do AlgarveShopping (Guia) e Centro Comercial Continente de Portimão, os dois exemplos no Algarve, mas também do Estação Viana Shopping, LeiriaShopping, LoureShopping, MadeiraShopping (Funchal) e ainda as salas de cinema do Parque Atlântico (Ponta Delgada), do Serra Shopping (Covilhã), do RioSul Shopping (Seixal) e da 8.ª Avenida (São João da Madeira). A data limite apontada pelos responsáveis para a reabertura das mencionadas salas é até ao final do ano, mas tudo aponta para que alguns dos cinemas reabram ainda este mês, avança o jornal Público. Brasileiros apostam em Portugal Os nordestinos Grupo Orient (UCI Orient, Orient Cinemas e Cineplace) chegam em força ao mercado nacional de exibição cinematográfica e com o novo protocolo assinado com a Sonae Sierra passam imediatamente a ocupar a segunda posição no país, imediatamente atrás da já muito bem implementada Zon Lu-

somundo. A Sonae Sierra, que já negociava com operadores há diversos meses, e que chegou a pensar noutras opções como dar novo uso às salas entretanto encerradas, vê naturalmente com bons olhos a entrada da Orient em Portugal, que diz ser “um importante operador, uma referência em qualidade, tecnologia e sinónimo de programação inteligente e bem elaborada”. De facto, o grupo brasileiro conta com vinte anos de presença no mercado brasileiro e opera em Angola há seis e, segundo a Sonae Sierra, “é líder de mercado de exibição de filmes no nordeste do Brasil”. Aquiles Mônaco, presidente do grupo brasileiro, considera que a aquisição das salas de cinema em Portugal é “um importante passo na estratégia de internacionalização da empresa”, sendo Portugal a porta de entrada para o mercado europeu. De resto, e com a realização deste negócio, a Orient passa a deter cerca de 15% da cota de mercado em Portugal, sendo que tem ainda cerca de 20 salas espalhadas pelo nordeste do Brasil, além das seis salas no Belas Shopping, o primeiro centro comercial angolano. A crise por que passa Portugal parece não assustar Aquiles Mônaco e este investimento pode e deve reforçar em breve os cerca de 30 milhões de euros de facturação global registados pelo grupo em 2012. Pedro Ruas/Lusa

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CULTURA.SUL 60 - 9 AGO 2013  

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