Page 1

Quinzenalmente com o POSTAL em conjunto com o

JUNHO 2018 | n.º 116 www.issuu.com/postaldoalgarve

9.658 EXEMPLARES

Filosofia dia-a-dia

Nekoashi-dachi é uma postura de Karate que permite afastar-se do adversário

Sai da distância!

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

Uma mesma realidade quebra-se em muitas realidades divergentes, quando é vista a partir de pontos de vista distintos. Ortega y Gasset, A Deshumanização da Arte Imagine o caro leitor que está a ver um filme. Na tela uma cena dramática: Pedro tem nos braços a noiva moribunda que acaba por morrer. Os seus melhores amigos, Paulo e João, assistem à sua desventura. No entanto, reagem de forma muito diferente: Paulo, empatizando com o amigo, sente o seu sofrimento como se fosse próprio e por isso chora, e desespera em uníssono com o recém viúvo. João, pelo contrário, mantém-se sereno. Quem está de fora pensará, muito provavelmente, que Paulo tem um temperamento compassivo enquanto João possui um coração frio, feito de pedra. João não se deixa contagiar pelo sofrimento dos seus dois amigos, não entra em desespero, é o único que mantém a calma. Há um século atrás, Ortega y Gasset, o filósofo que descreve esta cena no seu ensaio Musicalia I, diz-nos que o João tem um temperamento de artista. João, afinal, possui uma alma sensível e refinada. Precisamente por isso, João consegue manter a distância espiritual que é condição sine qua non para a contemplação artística. É o estabelecimento desta distância espiritual que permite em João o surgimento de sentimentos secundários que não são de participante mas sim de apreciador estético. Ortega pretende com este exemplo demostrar o problema dos falsos juízos estéticos. A sua falsidade decorre de o contemplador tomar em consideração os conteúdos da obra de arte

- por isso lhe agrada, por empatia com os conteúdos - e não da sua forma. Ora é a forma da representação que, justamente, deve ser avaliada no caso da contemplação estética. No livro intitulado A Deshumanização da Arte Ortega y Gasset descreve uma variação desta situação: Um homem ilustre agoniza. A sua mulher está junto ao leito. Um médico conta as pulsações do moribundo. No fundo do quarto, um jornalista que veio fazer a cobertura da notícia e um pintor que o acaso conduziu até ali, assistem à cena. Embora todas estas pessoas presenciem um mesmo facto, a diferença das suas percepções é tão grande que poderia não se tratar da mesma realidade. Se utilizarmos como critério a distância espiritual veremos que na esposa do moribundo esta distância é mínima. Ela não assiste à cena. Vive-a. Está dentro dela. O médico encontra-se já um pouco mais afastado, intervém profissionalmente, mas sem o sofrimento desesperante da mulher. No entanto, tem de se interessar no que está a acontecer, essa é a sua responsabilidade. Se não o fizer o seu prestígio profissional poderá ficar em risco. O jornalista, encontra-se já bastante afastado daquela realidade dolorosa. Está ali, tal como o médico, devido à sua profissão, mas não intervém, limita-se a ver. Para ele a situação é como um espectáculo que depois deverá relatar no jornal. Não vive, contempla. No entanto, para interessar os seus leitores, tentará comovê-los, tudo fará para os emocionar, para que derramem lágrimas. O jornalista finge viver a cena para alimentar emocionalmente a sua literatura. Apenas o pintor tem uma atitude puramente contemplativa. Atende ao exterior, às luzes e sombras nas suas tonalidades e matizes. É ele quem alcança o máximo de distância espiritual. É muitíssimo importante que não se confunda o domínio da Artes, da Estética, com o domínio da Ética. Em questões de ética a empatia é muito favorável, dela decorre a capacidade de se colocar

no lugar do outro e de sentir as suas dores, a sua tristeza, o seu sofrimento. Só assim surge o amor ao próximo capaz de gerar a compaixão verdadeira. No entanto, se entramos em fusão com o outro que se encontra numa situação desesperada, se entramos em desespero nós também, dificilmente conseguiremos ajudar. Só consegue ajudar quem se afoga, alguém que não se esteja a afogar também. Caso contrário ambos naufragam! Então, talvez também em questões de ética seja benéfica uma certa dose de distância espiritual. Nekoashi-dachi Beleza feroz e graciosidade mortal Nekoashi-dachi é uma postura de Karate que permite afastar-se do adversário, aquilo que tecnicamente se chama sair da distância para poder acertar no inimigo. Este movimento proporciona também uma pausa no tempo de combate. É um espaço-tempo que pode parecer mínimo a quem assiste, mas extraordinariamente dilatado a quem luta. Executa-se da seguinte forma: todo o peso repousa sobre a perna de trás, cujo joelho está flectido. O pé traseiro encontra-se girado cerca de 20-30 graus e o joelho fica alinhado no mesmo ângulo. Apenas os dedos dos pés da frente repousam no chão, posicionados à frente do calcanhar traseiro. Não há peso no pé da frente, e não há inclinação na articulação do tornozelo - joelho da frente, canela dianteira, e a elevação do pé (mas não dos dedos do pé) - formam uma linha única, vertical, na linhagem de Shito-ryu. Também conhecida no Ocidente como postura do gato, é descrita como possuindo “uma beleza feroz e uma graciosidade mortal”. Perguntar-me-á o caro leitor, por que motivo lhe falo em posturas de Karate numa página de filosofia?... Posturas para melhor acertar no inimigo... Qual inimigo?... Quem sabe se não seremos nós próprios o nosso pior inimigo... Frequentemente, quando

nos vemos numa situação difícil tendemos a não reagir da melhor maneira. Respondemos mal e dizemos coisas que verdadeiramente não sentimos, que podem magoar o próximo. Por vezes, temos uma reacção intempestiva, cuja intensidade pode ser desproporcionada ao estímulo que a provocou. Eventualmente, carregam-nos num interruptor emocional, pressionam uma nódoa negra ou reabrem uma ferida, e a resposta sai com a violência que a dor provocada suscita. Estamos demasiado perto, excessivamente envolvidos, permitimos que a efervescência do momento

tome conta de nós! Mais tarde, quando a tempestade acalma, verificamos quanto dano provocámos e o muito que agora levará a reparar! Talvez tudo isto fosse evitável... Decompondo a palavra Karate “kara” significa vazio e “Te” significa mão. O karate consiste então na arte de lutar com as mãos vazias. Mas há também um significado filosófico: o vazio significa a ausência de pensamentos e emoções negativas proporcionado pela serenidade da mente. O treino do corpo co-existe com o adestramento da mente. Na minha prática diária de Yoga, de que sou instrutora, e

de Karate em que sou aluna experimento cada dia a coincidência de estados mentais com posturas físicas. Os conteúdos filosóficos adquirem uma força incrível quando são experimentados com o corpo! O que aqui proponho é um Nekoashi-dachi mental. Deixar de estar tão envolvido no assunto que atormenta, ganhar distância, tomar folgo. Essa distância alarga horizontes, permite encontrar novos pontos de vista. Criam-se condições para que o pensamento criativo germine. Soluções até então impossíveis sequer de sonhar, começam a desfilar no novo horizonte de possibilidades que agora se desenha à nossa frente.

Inscrições para o Café Filosófico:

filosofiamjn@gmail.com l PUB


20 15.06.2018

Cultura.Sul

Editorial

Missão Cultura

Os Santos Populares estão de volta

Nova Agenda Europeia para a Cultura FOTOS:

DRCALG

Direção Regional de Cultura do Algarve

Maria Simiris / Henrique Dias Freire Jornalista mariasimiris.postal@gmail.com

Chegou o mês de Junho e com ele chegam também os tão aguardados Santos Populares. As festas religiosas, os arraiais e as marchas estão de volta um pouco por todo o Algarve. Santo António celebra-se a dia 12, São João a 24 e São Pedro a 29. Pelo barlavento, Lagos promete encher a Praça do Infante, e Portimão reinventa a tradição com 23 dias de animação de rua. Albufeira, este ano, tem uma causa mais nobre, e todos os fundos angariados serão revertidos para os bombeiros. Já Quarteira, acolhe no calçadão milhares de pessoas para assistirem às famosas marchas. Na capital algarvia a festa faz-se durante seis dias. No sotavento, Castro Marim apresenta o 19º Concurso de Mastros e Moncarapacho e Fuseta contam com três dias recheados de sardinha e vinho. Já Tavira realiza um espectáculo de piromusical. Por fim, a cidade de homenagem a um dos santos, Vila Real de Santo António, tem sete dias de animação. l D.R.

A Comissão Europeia comunicou em 22 de maio de 2018 para o Parlamento Europeu, para o Conselho Europeu e da Europa, para o Conselho Económico e Social, e para o Comité das Regiões, sobre a necessidade de aumentar a consciência social e a importância económica do Património Cultural. No texto de suporte desta comunicação reconhece a existência de várias crises financeiras no seio da Europa, o aumento das desigualdades sociais, a diversidade populacional, os populismos, a radicalização e as ameaças terroristas em curso. O documento evidencia a forma

A cultura transforma

O Promontório de Sagres é o monumento mais visitado a sul do Tejo como as novas tecnologias e a comunicação digital estão a transformar as sociedades, os estilos de vida, os padrões de consumo e as relações de poder, dentro das cadeias de valor económico. Neste panorama de mudança, a cultura é assumida como mais importante do que nunca. A cultura pode ser a ponte de união e de enraizamento das comunidades. Mas um número emerge como muito preocupante: 1/3 dos europeus em 2017 não participava em nenhuma actividade cultural. Este facto assustador deixa um enorme espaço para aumentar a participação das pessoas na cultura, todavia, a fragmentação do mercado, o acesso insuficiente a financiamentos, as condições contratuais, que caracterizam como de enorme incerteza, são reconhecidas no texto como condicionantes fortes para o desenvolvimento do sector cultural

e para os seus profissionais. Uma Nova Agenda e um Plano de Ação A nova agenda proposta espera desenvolver sinergias entre cultura e educação, mas também contribuir para criar oportunidades na relação com o sector criativo e na dimensão digital. Os objectivos e ações descritas incluem três dimensões: a social (alargamento das atividades culturais para todos, encorajamento da mobilidade dos profissionais, proteção e promoção do património cultural como recurso partilhado); a económica (educação, inovação, emprego e crescimento); e a externa (fortalecimento e aproximação internacional através de laços culturais). Nas ações identificadas destacam-se a apresentação pela Comissão Europeia, no final deste ano, de um Plano de Ação para o Património Cultural,

assim como, a preocupação com a revolução digital, introduzindo medidas concretas na digitalização do levantamento do património cultural em perigo, no lançamento de uma Semana Europeia do Cinema, na criação de uma rede/hub Pan-europeia de “inovação e criação digital”, e na renovação da plataforma Europeana do Património Cultural, entre outras. A participação da sociedade civil neste processo de "diálogo com a cultura e o património" é a mensagem final que se deseja concretizar através de Fóruns Europeus da Cultura, procurando assim uma nova abordagem e uma visão holística e integradora, que se espera que aconteça. Conclui-se então, que a cultura transforma e que a participação cultural une as pessoas. Alexandra Rodrigues Gonçalves Directora Regional de Cultura do Algarve l

Juventude, artes e ideias

Martins Leal à frente do CAPO há quase 30 anos D.R.

Jady Batista Marketing Strategist

Martins Leal, 72 anos, natural de Olhão, despertou para a pintura desde cedo, muito atraído pela cor, pelas formas. Essa paixão levou-o a fazer a primeira exposição aos 15 anos e a ingressar no Curso de Belas Artes. Após três anos de formação, foi chamado para a Guerra de Ultramar, onde conseguiu fazer uso do seu talento como pintor, ao ser nomeado chefe da ação psicológica do batalhão de comandos em Moçambique, ficando

Mestre Martins Leal fez a sua primeira exposição aos 15 anos responsável pelas ações de propaganda e sensibilização que se faziam, a nível de cartazes e panfletos. As fracas condições e escassez de material não impediram o Mestre de exercer o seu talento, como aconteceu com o seu primeiro cartaz, pintado com uma

escova de dentes. Ao longo do seu percurso fez mais de 150 exposições e perde-se a conta ao número de obras que executou. Conhecido pela produção intensa e frequente variação de estilo experimentou ao longo do seu percurso di-

ferentes técnicas e “caligrafias”. Toda essa experiência leva-o, nas palavras dos seus alunos, a ser a pessoa certa para estar à frente do CAPO - Centro de Arte de Pintores Olhanense. Criado em março de 1990, o Centro nasce de um convite feito pela Câmara Municipal de Olhão, por João Bonança e António Pina, a Martins Leal. No início o projeto promovido pela Câmara e gerido pela Junta de Freguesia de Olhão, desenvolveu-se num pequeno espaço, na Galeria Adriano Baptista, mas a forte adesão levou a que em outubro de 1991 se instalassem no atual espaço. Ao longo de 28 anos passaram pelo CAPO centenas de pessoas. Atualmente frequentam o Centro uma média de 30 pintores que todos os anos realizam uma exposição de trabalhos, sempre no dia 16 de junho, na galeria da Biblioteca Municipal de Olhão. l


15.06.2018  21

Cultura.Sul

Reflexões sobre urbanismo

O ordenamento do território e o petróleo no Algarve FOTOS: D.R.

Teresa Correia

Arquitecta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

Crescimento económico do Algarve O Algarve foi descoberto para o Turismo, próximo dos anos 60, com os primeiros turistas sobretudo de Inglaterra. O território é de uma beleza encantadora, seguro, e com um povo afável e com fracos recursos. O Algarve viveu durante séculos isolado, e sem grandes meios, tantas vezes deixado por conta de si próprio. A Pesca e a Agricultura foram a base do sustento de tantas gentes durante séculos, não tendo sido, ainda assim, fonte suficiente para a grandeza económica. Embora possa ser bucólico, não era certamente uma vida fácil, cultivar campos com meios artesanais por um lado, assim como enfrentar tempestades para a pesca do atum ou outra pescaria que pudesse dar sustento. Rapidamente, o Turismo permitiu abrir horizontes a tantas pessoas que foram criando negócios, crescendo a diversidade de culturas, e a melhoria

90, mas parou com a crise económica de 2008, estando hoje totalmente regulado pelos PDM's, PROT, POOC's e outros instrumentos de gestão territorial. O contexto atual é totalmente diferente, procurando-se a reabilitação dos núcleos urbanos como alternativa. O Algarve foi sempre um destino de excelência do ponto de vista turístico, e isso traz procura, o que gera economia. Se queremos as nossas cidades equilibradas e estruturadas, é necessário investir nos projetos estruturantes do Estado e no planeamento local. Prospeção de petróleo no Algarve: que necessidade? A estratégia do Algarve no crescimento económico deverá ter em conta o seu principal pilar, o Turismo, sendo que é do mais elementar bom senso não criar situações que o exponham ao risco de o perder. Existindo uma total incoerência por parte de quem nos governa, parece que a pesquisa do Petróleo no Algarve está mesmo a acontecer, sendo que este é o primeiro passo. De acordo com a Lei nº 37/2017 de 2 de junho, foi publicada a 3ª Alteração ao Regime que regula a sujeição a Avaliação de Impacte Ambiental, tendo a mesma previsto que caso a pesquisa ou prospeção seja realizada por meios convencio-

A pesca e a agricultura sustentaram os algarvios durante séculos da qualidade de vida dos residentes na região. Esse crescimento fez-se sentir também no aumento das cidades e vilas, nas faixas costeiras, nos aldeamentos. Este Algarve foi e é também duramente criticado pelos chamados “erros urbanísticos”, embora este fenómeno possa ter ocorrido noutros pontos do país. Este aumento da urbanização existiu nos anos 80 e

nais, esta deverá ser analisada caso a caso. A apreciação prévia destes projetos passou a incluir um período de discussão pública não inferior a 30 dias, e apesar de terem existido várias participações a decisão é de continuar. Os contratos únicos de Pesquisa, Prospeção, Desenvolvimento e Produção parece que estão assinados e válidos, sem que tivesse sido consul-

O Algarve foi sempre um destino de excelência do ponto de vista turístico tado qualquer autarca, ou mesmo que tenha existido uma discussão na Assembleia da República sobre tal matéria. O regime democrático está agora completamente desrespeitado nos seus princípios essenciais. Não parece existir informação suficiente, não há debate, e não se discute alterações aos contratos já assinados. O percurso dos hidrocarbonetos está para ficar, mesmo que seja contrária às posições tomadas pelos autarcas. Pressupondo que existirão forças que nos empurram para tal exploração de hidrocarbonetos, será de colocar em risco a nossa costa algarvia ou as nossas terras, o nosso ambiente, e a nossa fauna numa região fortemente marcada pelo Turismo? Fará sentido expor o Algarve a um risco ambiental desta envergadura? Os riscos existem certamente, como seja, o ruído no oceano prejudicando a fauna, o risco sísmico, a qualidade do ambiente em termos de toxicidade do subsolo, etc. No entanto, embora possam existir algumas manifestações pontuais, que discussão tem surgido à volta deste tema por parte dos cidadãos? Impactes no ordenamento do território relativos à exploração de hidrocarbonetos Concebendo um cenário de exploração de hidrocarbonetos, e podendo correr o risco de não ter conhecimentos suficientes para realizar tal projeção, concebo a ideia de ter de existir uma plataforma terrestre de ligação e depósito de matérias ou infraestruturas. Esta localização seria um desafio em termos de pla-

neamento e, por outro lado, a tomada de decisão seria de uma enorme litigância. Para além do óbvio constrangimento às utilizações na envolvente à exploração, esta a ser realizada em terra, teria um impacto muito superior. A paisagem será totalmente alterada, podendo reduzirmo-nos a uma área pouco digna e desqualificada na envolvente imediata. Porém, os impactes económicos e sociais estão por analisar, sendo talvez

para os PDM's em vigor. Mas que estradas deverão ser construídas, que oleodutos, que infraestruturas e que segurança? Poderá ser só uma imaginação exacerbada, mas nunca se sabe face ao percurso iniciado. Quem ganha com esta exploração de hidrocarbonetos? Parece que não existe qualquer valor para compensar as regiões dos riscos que poderão sofrer. Os valores que parecem ser pequenos em termos proporcionais, são inteiramente para o Estado, não

Exploração de hidrocarbonetos colocará em risco a costa os mais relevantes e graves. De que forma, poderá ou não prejudicar o Turismo, e se tal for, qual seria a alternativa? Em termos de ordenamento do território, que plano urbanístico poderia incluir uma plataforma petrolífera? Talvez um PROT, Programa Regional de Ordenamento do Território, que poderá depois impor por adaptação as alterações

tendo qualquer reflexo para o Algarve em concreto. Aqui coloca-se de facto um conflito de interesses entre o poder central e o local, sendo que o lado mais fraco parece estar a cair para o local. Acredito ainda assim, que as populações algarvias já evoluíram, são informados e dão um sinal de reação, de proatividade, e isso é de uma força indiscritível. l


22 15.06.2018

Cultura.Sul

Letras e leituras

João Reis: do olhar ingénuo de uma criança à crueza da guerra D.R.

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

João Reis nasceu em Vila Nova de Gaia em 1985. Licenciado em Filosofia, foi fundador e editor da Eucleia Editora, de 2010 a 2012. É tradutor literário, especialista em línguas nórdicas, tendo traduzido para português livros de Knut Hamsun, Halldór Laxness e Patrick White, entre muitos outros. Entre 2012 e 2015, trabalhou e residiu na Noruega, Suécia e Inglaterra, onde exerceu várias profissões, como trabalhar numa cozinha ou num armazém de vinhos. Não deixa de ser curioso o percurso deste jovem tradutor e autor, que aprendeu diversas línguas pela sua própria iniciativa, procurando professores particulares. A noiva do tradutor, primeira novela do autor (ed. Companhia das Ilhas), é uma narração na primeira pessoa, em corrente de consciência, em que o autor consegue a proeza de levar o leitor a fluir juntamente com o pensamento da personagem principal, um tradutor, que parece zangado com o mundo e com todos, certamente com razão. Mas passadas algumas páginas o leitor não pode deixar de se perguntar até que ponto toda esta injustiça de que o tradutor é vítima será, ou não, responsabilidade dele próprio. As frases distendem-se, entre a descrição, a narração e os constantes à partes do tradutor, que constantemente critica e injuria alguém ou algo, especialmente o país, num domínio perfeito da prosa de um autor que se estreia com esta obra. É difícil não estabelecer alguma relação autobiográfica entre a personagem e o autor, ambos tradutores, nomeadamente quando o protagonista, herói algo pícaro, refere que não se sente bem no seu país e no qual não consegue vingar nas letras ou com traduções. A Avó e a Neve Russa (Elsinore), primeiro romance do autor escrito no decurso de uma residência literária em Montreal, no Canadá, em 2015, é também ele narrado na primeira pessoa, agora a partir da perspectiva de um menino de dez anos, nascido no Canadá. O menino não tem nome e apenas o conhecemos pela alcunha que alguns amigos lhe dão, Russkiy, da mesma forma que a sua avó Svetlana, centro do mundo deste menino, é designada por Babushka (avó em

russo), e que está a morrer com cancro do pulmões, de gases libertados no desastre de Chernobyl. A história tem algo de fábula, como se esta avó representasse também o século XX que se despede, e apesar do menino ser ainda tão novo e inocente, as suas referências ao capitalismo do mundo ocidental vs. comunismo da «Antiga-Soviética», bem como ao Holocausto, são constantes. Não deixa aliás de ser curioso que a certa altura seja um judeu que o acompanha na sua fuga, e que Russkiy considera como a pessoa ideal para o ajudar, justamente por aquilo que terá vivido enquanto judeu, ao mesmo tempo que o menino invoca fragmentos do que ele sabe sobre o Holocausto. A dado momento, o nosso jovem herói dá por si num camião cheio de membros e torsos, corpos desmembrados, que não são pessoas, ao contrário do que ele inicialmente acredita, mas manequins… É assim que o autor consegue encantar o leitor, fazendo-o partilhar do maravilhamento desta criança que ainda está a descobrir um mundo, ao qual não deixa de se sentir estranho, ou não fosse ele um desenraizado, nascido no seio de uma família estrangeira ao local que agora os acolhe, e sendo também órfão, pois a mãe morreu e o pai abandonou-os. É ainda de uma fina ironia que este menino queira chegar ao México à procura de um cacto milagroso, e imagina que um dia pode mesmo construir estufas e plantá-los: «mando construir uma fábrica para fazer chá e pó do cato e vender às pessoas, e aí sim, serei um grande capitalista.» (p. 141) Perguntamo-nos se é de facto um cacto ou se será outra planta milagrosa mexicana, capaz de aliviar as dores e as preocupações… São igualmente desenraizadas as

Livro da autoria de João Reis personagens que compõem o mundo deste menino, como o português

João Reis, escritor e especialista em línguas nórdicas Senhor Pereira, com o seu Deus-galo (de Barcelos), e dono de um restaurante, quase de certeza de frango assado; ou o chinês Huan; ou o vagabundo Matt, descendente de judeus. 'A Devastação do Silêncio' é o seu mais recente romance O autor volta a brincar com a questão da linguagem, não só por uma criança que domina várias línguas, como a língua de herança, o russo, depois o francês, do país em que nasceu e o acolhe, mas especialmente pelos equívocos que esta criança, muito lida e esperta para a idade – ou assim se afirma –, estabelece, como, por exemplo, quando chama gulasch a um gulag, quando assume que oncologia é o estudo dos pássaros (ornitologia), ou quando considera como o irmão gosta de «música metalúrgica». Com subtileza, sem propriamente forçar os equívocos, apesar de por vezes serem repetitivos, o autor consegue criar humor a partir de situações delicadas e levar-nos pelos olhos dessa criança a redescobrir o mundo e as palavras que lhe dão sentido. A Devastação do Silêncio (Elsinore) é o seu mais recente romance, publicado no dia 16 de Abril, com ilustrações

de Lord Mantraste, que tão bem acentuam a crueza e a ironia deste livro. Afirmava alguém que muitos escritores da nova geração não parecem ter memória do 25 de Abril (até porque não o viveram) nem reconhecer a importância desse momento de cisão, do mesmo modo que alguns destes autores optam por situar as suas narrativas num cenário universal e anódino, sem nada que o torne especificamente português. Parece sincronia esta coincidência entre a publicação do livro e a efeméride dos cem anos decorridos desde a Batalha de La Lys, em que o Corpo Expedicionário Português foi dizimado. O autor recorda aqui a história de um tio-bisavô, soldado prisioneiro num campo de prisioneiros alemão, durante a Primeira Guerra, sem documentos que o confirmem como oficial, pois foram-lhe roubados, obrigado a partilhar as miseráveis condições de vida dos restantes soldados. O protagonista terá sido «engenheiro na vida civil» (p. 42), estudou em França, e nasceu com uma assimetria corporal do ombro para baixo, o que lhe valeu dispensa, sendo alistado como engenheiro militar, e depois promovido a oficial e a capitão. A sua história é uma vez

mais narrada na primeira pessoa, dando a conhecer a Guerra não nos grandes acontecimentos (e mortandades) mas pelo tédio, pela rotina, pela fome e pela pouca higiene: «os piolhos saltavam-lhe do cabelo… estava cheio deles, atafulhado… os outros homens pouco se importavam, pois se não fossem os piolhos, eram os carrapatos, mais sangue, menos sangue… ali, eram essas as batalhas que nos restavam.» (p. 20) Os prisioneiros morrem não da guerra, mas da doença: «a doença alastrava pelo campo, a tuberculose e a pneumonia matavam-nos aos poucos, no inverno anterior, os romenos haviam morrido às dezenas por conta da gripe (…), os romenos morreram às pazadas, era o que se dizia, que tinham perecido às centenas com disenteria, decerto propagavam-se também todos os géneros de pestilências labiais e linguais… pústulas… carne viva… lacerações…» (p. 22). Um livro negro, como o primeiro, sarcástico, com laivos grotescos, condizentes à realidade descrita, sem dourados nem subtilezas, mas ainda assim com um fino humor e ironia: «a guerra traria o derradeiro estádio civilizacional dos respectivos povos (…), mais alguns anos e desenvolveríamos guelras e barbatanas» (p. 96). A narrativa alterna entre um presente, em que o protagonista se encontra com alguém a uma mesa de café – e por isso sabemos que sobreviverá -, enquanto se discute uma gravação com a sua voz. A narrativa é assim um trabalho de rememoração, por vezes com carácter metaficcional. Note-se como o oficial invoca constantemente a necessidade do silêncio – que terá sido aliás a sua melhor arma e garante de sobrevivência durante a guerra: «é preferível manter a ambiguidade, a incerteza, trata-se de uma técnica que utilizei ao longo da vida com enorme proveito» (p. 95). Ao mesmo tempo que invoca a constante vontade em escrever sobre aquilo que testemunha, mas sem papel onde assentar o seu depoimento: «Queria escrever, anotar aquilo em que pensava, o que acontecera no campo nesse dia, decidi não escrever, faltava-me o papel e era inútil, uma perda de tempo, portanto pus-me então à escuta de pássaros» (p. 25). Português prisioneiro num campo alemão, cria-se também a possibilidade de perspectivar o soldado luso a partir do outro, enquanto simultaneamente se traça uma reflexão acerca desse outro: «Os alemães dedicam-se à ponderação, levantam dúvidas curiosíssimas, é impossível alcançar um tal ponto de civilização nos nossos penhascos e barrancos…» (p. 90). l


15.06.2018  23

Cultura.Sul

Artes visuais

Porquê colecionar obras de arte? FOTOS: D.R.

Saul Neves de Jesus

Professor Catedrático da Universidade do Algarve; Pós-doutorado em Artes Visuais; http://saul2017.wixsite.com/artes

Há cerca de seis meses, no dia 15 de novembro de 2017, a pintura “Salvator Mundi”, de Leonardo da Vinci, foi vendida pela Christie’s, em Nova York, por 450,3 milhões de dólares (cerca de 364,7 milhões de euros), estabelecendo uma nova marca para a pintura mais cara já alguma vez vendida. Desta forma, foi ultrapassado por mais do dobro o valor da obra “Les femmes d’Alger” (1995), de Pablo Picasso, que havia sido vendida em 2015 por 179,3 milhões de dólares. Em 2015, também havia sido vendida a pintura “Nu couché” (1917), de Amadeo Modigliani, por 170,4 milhões de dólares, a terceira obra mais cara de sempre, levando a que se considerasse este ano como um ponto de viragem na história de arte, pelo valor atingido nas transações de obras de arte. Antes de ter chegado ao leilão da Christie’s, a obra “Salvator Mundi” teve um percurso que importa conhecer.

Pintura 'Salvator Mundi', de Leonardo da Vinci (1500) Terá sido pintada por volta de 1500 para Luís XII de França, tendo depois sido detido por Carlos I de Inglaterra, em 1649, até ter sido leiloado pelo filho do Duque de Buckingham e Normandia em 1963. Em 1900, a obra foi comprada por Francis Cook, colecionador britânico, tendo os seus descendentes vendido a mesma num leilão em 1958, por 45 libras esterlinas, o que equivaleria a pouco mais de 50 euros nos câmbios atuais. Em 2013, após algum restauro, foi vendida ao colecionador russo Dmitry Rybolovlev por 127,5 milhões de dólares (cerca de 103,3 milhões de euros), tendo mais

que triplicado o seu valor no período de quatro anos. Alguns especialistas têm vindo a levantar dúvidas sobre se esta pintura terá sido da autoria de Leonardo, mas seguramente quem a comprou acredita que foi, o que revela a importância das crenças pessoais e emoções, para além da informação e do conhecimento objetivo, na coleção e no valor monetário das obras de arte. Assim, não há arte certa ou errada e não há maneira certa ou errada de comprar ou colecionar arte. Qualquer um pode colecionar tudo o que quiser, pela quantia que estiver disposto a gastar, desde que a tenha. Em todo o caso, comprar arte é diferente de colecionar arte. Comprar arte é uma atividade mais aleatória, baseada no gosto e preferências pessoais, e com um propósito específico, habitualmente decorativo. Colecionar arte representa um compromisso mais a longo prazo, com um propósito mais estratégico em mente. A maioria dos compradores vai adquirindo peça a peça, tendo em conta o gosto que nutre por cada obra específica. Encontra peças de que gosta e vai comprando as obras aleatoriamente. No entanto, se o objetivo for construir uma boa coleção, deve ser estipulado um plano coerente de aquisição a longo prazo, permitindo que as obras adquiridas aumentem o seu valor ao longo do tempo. Pode afirmar-se que os grandes colecionadores são tão conhecidos e respeitados como os autores das obras que possuem. O que torna um colecionador num caso de sucesso é a sua capacidade para selecionar obras de forma coerente. Em qualquer boa coleção, o todo é mais do que a mera soma das partes, isto é, a coleção tem mais valor do que a soma das peças que a constituem. Em todo o caso, é importante ter em conta o gosto pessoal, pois este fator torna a coleção única, conferindo-lhe identidade e um valor distinto. Quando se ignoram as preferências pessoais em prol dos interesses mercantis, a coleção não se distingue das demais, perdendo o valor do todo, da coerência ou identidade. O que faz de um colecionador memorável é o seu pensamento estratégico, a sua capacidade em manter-se focado na composição geral da coleção, não perdendo o fio condutor da mesma. Recentemente estreou nos cinemas o filme “All the money in the world” (“Todo o dinheiro do mundo”), de Ridley Scott. Este filme baseia-se em factos verídicos sobre o rapto, ocorrido em 1973, de John Paul Getty III, um dos netos do magnata do petróleo Jean Paul Getty. Este foi considerado o homem mais rico do mundo pelo Guinness, em 1966, mas recusou-se a

Pintura 'Les femmes d’Alger', de Pablo Picasso (1955) pagar o resgate do seu neto. Com o dinheiro  de sua  companhia  petrolífera, Getty investia na compra de artefactos importantes, especialmente da Grécia e de Roma, chegando a afirmar que acreditava ser a reencarnação do imperador romano Hadrianus. Terá ainda confessado que as obras de arte são sempre belas, não contrariando ou desiludindo, ao contrário das pessoas.

A história de Jean Paul Getty como colecionador terá começado nos anos 30, numa época em que o caos se instalou na Europa e os preços terão baixado. A sua primeira aquisição conhecida foi a pintura “Marten Looten”, de Rembrandt, em 1938, por 65 mil dólares (cerca de 52,6 mil euros), avaliada em mais de um milhão de dólares na atualidade. No total reuniu cerca de 50 mil obras, as quais constituíram

Pintura 'Marten Looten', de Rembrandt (1632)

o acervo do Museu Getty, ou “Getty Center”, em Los Angeles, que apresenta uma impressionante coleção artística, contando com obras de arte desde a Idade Média até a atualidade. Quem o visita tem uma impressão diferente das visitas a outros museus, já que a presença de obras artísticas de tantos lugares e tempos distintos parece mais uma coleção pessoal do que uma exposição feita por curadores tradicionais. Isso acontece porque o “Getty Museum” é precisamente a coleção pessoal de Jean Paul Getty. Assim, em Getty o investimento em arte estava associado à beleza das obras e ao desejo de posse das mesmas. Getty morreu em 1976, pelo que nunca teve oportunidade de visitar o “Getty Center”, que só foi inaugurado em 1997. Embora Jean Paul Getty tenha reunido uma das maiores coleções de obras de arte existentes, na fase final da sua vida viria a lamentar: “Eu deveria ter comprado uma dúzia de Renoir nos anos 30, em vez de um, além de alguns Degas, Monets, Pissarros, Manet, e menos tapeçarias e tapetes. Mas eu gosto das minhas tapeçarias, mesmo que não tenham aumentado 20 vezes em valor, como os impressionistas (7/11/1967)”. Esta distinção entre a emoção e a razão é o que divide muitas vezes o comprador relativamente à aquisição de algumas obras de arte. No entanto, ambas devem predominar de forma integrada na construção duma coleção com identidade e potencial para fazer história. l


24 15.06.2018

Cultura.Sul

Espaço AGECAL

Gestão cultural do livro e da leitura D.R.

Salomé Horta Bibliotecária; Sócia da AGECAL

Este pseudo-artigo resulta de uma comunicação apresentada na Conferência Internacional sobre Gestão Cultural, promovida pela AGECAL, para comemorar o seu décimo aniversário. Um encontro interessantíssimo que reuniu gestores culturais de diversos países, resultando numa generosa partilha de boas práticas. Fui desafiada para falar sobre Bibliotecas. Sobre as Bibliotecas como espaços culturais. Resolvi contar uma história, pois contar histórias é uma das atividades fundamentais nas Bibliotecas. Assim, era uma vez… A Biblioteca é uma instituição com uma história milenar e que ao longo do tempo tem demonstrado a sua grande resiliência e capacidade de adaptação. Humberto Eco na sua obra A Biblioteca descreve desta forma as Bibliotecas: “… comecei a refletir sobre qual será a função de uma Biblioteca. No início, no tempo de Assurbanipal ou de Polícrates, talvez fosse uma função de recolha, para não deixar dispersos os rolos e volumes. Mais tarde, creio que a sua função tenha sido de entesourar: eram valiosos, os rolos. Depois,

As Bibliotecas encheram-se de atividades culturais em torno do livro e da leitura na época beneditina, de transcrever: a biblioteca quase como uma zona de passagem, o livro chega, é transcrito e o original ou a cópia voltam a partir. Penso, que em determinada época, talvez já entre Augusto e Constantino, a função de uma biblioteca seria também a de fazer com que as pessoas lessem (…) É claro que essas bibliotecas também eram feitas para permitir que se encontrassem. Surpreende-nos sempre a habilidade dos humanistas de século XV em encontrarem manuscritos perdidos. Onde é que os encontram? Encontram-nos na biblioteca.

Em bibliotecas que em parte serviam para esconder, mas também serviam para se achar. (…) Penso que a biblioteca se irá dimensionando pouco a pouco à medida do homem”. As palavras de Humberto Eco lembram-nos os desafios ultrapassados com sucesso no passado e são profundamente atuais quanto aos desafios do presente a que a Biblioteca diariamente procura responder. Nos anos de 1980, em Portugal, as Bibliotecas viveram uma verdadeira revolução. O projeto da Rede de Bibliotecas Públicas, iniciado em 1986,

vem dotar todos os concelhos de uma Biblioteca alicerçada em novos paradigmas. Uma Biblioteca centrada no utilizador, em livre acesso, com documentos em vários suportes, com espaços dedicados a diferentes perfis de utilizadores, informatizada e com acesso à internet, com espaços para acolher a atividade cultural. Este projeto, que perdura por 30 anos, será certamente um dos mais estruturantes e consensuais que o país já teve, passando por diversos governos, de diferentes quadrantes políticos. Esta rede inspirou a Rede de Bibliote-

cas Escolares, que nasce em 1997, e influenciou as Bibliotecas de Ensino Superior. Em paralelo, o Manifesto da UNESCO para as Bibliotecas Públicas atribui à Biblioteca Pública várias missões-chave relacionadas com a cultura: - Criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância; - Assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa; - Estimular a imaginação e criatividade das crianças e dos jovens; - Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas; - Fomentar o diálogo intercultural e a diversidade cultural; - Apoiar a tradição oral; - Possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo. Em resposta ao desafio, as Bibliotecas encheram-se de atividades culturais em torno do livro e da leitura. Horas do conto, leitura encenada, ateliers de escrita criativa, clubes de leitura, encontros com escritores, apresentações de livros, encontros de poesia, concursos de leitura, etc. As Biblioteca encheram-se de conferências, de exposições (fotografia, pintura, escultura, artesanato…), de teatro, de cinema, de dança, de música… para todos. … E foi assim que os Bibliotecários se transformaram em Gestores Culturais e as Bibliotecas em centros privilegiados de acesso democratizado à cultura. l

Espaço ALFA

O objetivo da fotografia D.R.

Raúl Grade Coelho Secretário da ALFA

O que se pretende com a fotografia? - questionam algumas pessoas. Há várias temáticas para a fotografia. Há a fotografia profissional, dentro de várias áreas e a amadora por onde existem várias associações como a ALFA. Neste campo estão também os fotógrafos que existem em todas as ocasiões em todos os lugares do mundo e que tudo fotografam. Pelo simples prazer de gravar o momento mas sem

pertencerem a qualquer associação nem a nenhum grupo relacionado com a fotografia. Simplesmente, um dia despertaram para a fotografia e deslocaram-se, tal como já aconteceu e acontece várias vezes, à loja da fotografia que existe na sua vila ou cidade e onde são exibidas as várias máquinas acompanhadas pelas diversas objetivas. Isto no campo das máquinas profissionais ou semi-profissionais. Há também as compactas. Aquelas que basta apontar e cliclar no botão. Não é necessário pensar, por vezes, para tirar as fotografias que estas máquinas capturam e gravam. Mas é necessário pensar para tirar aquela fotografia? - perguntam outras pessoas. Depende. Qual o objetivo da fotografia. É ele que fabrica a fotografia que retiramos e colocamos naquele quadro naquela zona da sala

A Associação Livre Fotógrafos do Algarve (ALFA) ensina como capturar o momento com uma iluminação especial que a salienta. Também pode ser vendida ou publicada num jornal bem como num livro. Como se repara a fotografia ade-

qua-se a tudo e todos e todas as imagens têm a sua qualidade que desperta sempre os nossos comentários. Uma vezes positivos, outras negativos. Depende da pessoa. Mas todas as má-

quina fotográficas capturam o momento e por isso existem associações como a www.alfa.pt que ensinam como capturar o momento, entre outras ações como os passeios fotográficos. l


15.06.2018  25

Cultura.Sul

Ficha técnica: Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Henrique Dias Freire

Marca d'água

Portugal: um país de poetas, um desígnio por cumprir

Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saul de Jesus • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho

Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

• Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Na Ágora: Adriana Nogueira • What ever happened to... Pedro Jubilot • Reflexões sobre urbanismo: Teresa Correia Colaboradores desta edição: Salomé Horta Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com on-line em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/postaldoalgarve

facebook: https://pt-pt.facebook.com/postaldoalgarve/ Tiragem: 9.658 exemplares

da Universidade Nova de Lisboa

luisa.algarve@gmail.com

O dia 10 de Junho é apontado como o dia em que o poeta Luís Vaz de Camões morreu, no ano de 1580. Durante o Estado Novo este dia designava-se como Dia de Camões, de Portugal e da Raça. A partir das Comemorações do ano de 1978 passou a designar-se como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Uma das frases diversas vezes repetida nos discursos deste Dia é: “A minha Pátria é a língua Portuguesa”. De facto, é a língua que permite a criação de Cultura e a pertença a uma comunidade. Sem a língua não haveria partilha, nem Cultura. Fernando Pessoa, autor da frase citada foi um importante divulgador da língua portuguesa pela dimensão universal que a sua obra literária alcançou. Outra frase emblemática que se refere à língua portuguesa, embora menos utilizada, é: “Da minha língua vê-se o mar”, esta da autoria de Vergílio Ferreira. A Pátria-Poesia corre nas veias… e na manhã deste Dia de Portugal, acordei com esta frase a construir-se no meu pensamento: Do meu sentir vê-se a Pátria que me habita. “A minha Pátria é a língua Portuguesa” é a frase, provavelmente, mais conhecida de Fernando Pessoa, afirmada no Livro do Desassossego, do heterónimo Bernardo Soares. Creio que com esta frase o poeta reforça bem a noção de patriotismo. Ao mesmo tempo a frase tem uma carga cultural e cívica, porque nos dá a ideia do estreitar de laços afectivos e institucionais entre povos de língua portuguesa, é como se Fernando Pessoa tivesse uma visão lusófona. Numa consulta ao Arquivo Pessoa onde se podem pesquisar palavras associadas à obra de Fernando Pessoa, as palavras “lusófono ou lusofonia” não aparecem. O poeta pode nunca ter usado estes termos, mas o seu pensamento tinha uma dimensão universal e porque não lusófona. A palavra que mais aparece através do motor de busca do arquivo associado a Fernando Pessoa é a palavra “Deus” e “espiritual” e pode ser consultado em www.arquivopessoa.net De facto, Fernando Pessoa deu uma

significativa relevância à vida espiritual, ou não andasse numa procura permanente de um Todo que o preenchesse. Fernando Pessoa ortónimo escreveu que “todas as religiões são verdadeiras, por mais opostas que pareçam entre si. São símbolos diferentes da mesma realidade, são como a mesma frase em várias línguas”. O autor da frase também parece que é assim, fragmentado por múltiplas perspectivas do seu eu. Sem dúvida que a dimensão religiosa é uma presença fundamental no pensamento e na obra de Fernando Pessoa, senão mesmo uma das suas temáticas preferidas. Ao mesmo tempo, é preciso sublinhar como a religiosidade pessoana, acompanhada de um evidente pessimismo existencial, é bastante contrastante e também bastante “desassossegada”. Todos os autores que escrevem sobre Fernando Pessoa, daqueles que li, e seria impossível conseguir ler tudo o que se escreve sobre este poeta, referem em relação à sua pessoa as seguintes palavras: “inquietação” e “fome de totalidade”. Fernando Pessoa / Álvaro de Campos É difícil ficar indiferente a Fernando Pessoa e ao seu sentir, até porque ele queria “sentir tudo de todas as maneiras”, como nos diz através do seu heterónimo Álvaro de Campos. Fernando Pessoa criou este heterónimo dando-lhe a profissão de engenheiro naval e a naturalidade tavirense, certamente pela ligação que o próprio Fernando Pessoa tinha, pela via paterna, ao Algarve, concretamente a Tavira. Nesta cidade existe uma Associação designada “Casa Álvaro de Campos” e que tem tido, nos seus 30 anos de existência, uma actividade cultural a considerar, nomeadamente um leque de actividades ligadas à temática pessoana. A mais recente das quais decorreu já neste mês de Junho com um especialista pessoano a falar do legado do poeta, de Álvaro de Campos, de Tavira e da ligação do património ao diálogo cultural. Álvaro de Campos é considerado o heterónimo mais vivo e alegre, o heterónimo que revelava o que Fernando Pessoa gostaria de fazer e de ser, como se pode ler numa citação (pág. 13) do livro de comunicações apresentadas no I Encontro Internacional Álvaro de Campos realizado em 2010, em Tavira: “Pus em Álvaro de Campos a emoção que não dou a mim nem à vida.” Neste mês é de salientar também uma outra data: o dia 13 de Junho em

que se comemoram os 130 anos do nascimento de Fernando Pessoa em Lisboa. Por ser dia de Santo António de Lisboa, ficou com dois nomes próprios: Fernando António. Numa longa dedicatória a Santo António inicia o poema com estes três versos: “Nasci exactamente no teu dia Treze de Junho, quente de alegria, Citadino, bucólico e humano” O plural de Portugal é ser mais! Destaco a frase que mais gostei no discurso do Presidente da República neste Dia 10 de Junho de 2018: “o universalismo fraternal que é o nosso destino”, porque Portugal é um só. Uma expressão que nos remete para o pensamento de Agostinho da Silva e de Fernando Pessoa que na sua obra tem presente a noção espiritual de Pátria. No entanto considero discutível o uso, neste mesmo discurso, da palavra “Portugais”, para além de essa palavra não existir, o plural de Portugal é mais do que “Portugais”! Pluralizar a palavra Portugal é susceptível de criar interpretações que interferem com a sua singularidade.

Um conceito que tem uma força imensa é “Portugalidade” enquanto sentimento de afinidade ou de amor por Portugal e de traços comuns considerados distintivos da cultura e história de Portugal. O etnólogo Jorge Dias (1907-1973) defendeu que a cultura portuguesa é marcada pelo “profundo sentimento humano, que assenta no temperamento afectivo, amoroso e bondoso. Para o Português o coração é a medida de todas as coisas”. O etnólogo refere que a expressão “saudade”, que é tida como a característica idiossincrática da sensibilidade portuguesa, o fez traçar um perfil luso mais ligado à emoção do que à razão. E porque esta sensibilidade está à flor da pele e “Portugal anda emocionalmente exausto” é preciso repensar Portugal, mas a fundo… como diz Eduardo Lourenço. Falta um desígnio e uma comunhão . . de princípios, valores e objectivos que façam de Portugal uma verdadeira comunidade, a tal noção espiritual de Pátria que Fernando Pessoa referia, e que poderá devolver a esperança numa fraternidade comum… em que a necessidade desesperada de competir com o outro, se transforme na necessidade consciente de cooperar com o outro…porque… É a Hora!... l DR

D.R.

'A minha Pátria é a língua Portuguesa' (Fernando Pessoa)


26 15.06.2018

Cultura.Sul

Na Ágora

Publicidade e postais FOTOS: D.R.

não ficarem indiferentes à mensagem veiculada. Deixo dois exemplos de postais que enriquecem a minha coleção pela sua força e expressividade: num, pela causa da abolição das touradas, vemos a cabeça ensanguentada de um touro, ainda vivo, com a legenda «Não podemos deixar que matem uma tradição», numa evidente (e triste) ironia: para que as tradições

Adriana Nogueira

Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Sempre gostei de postais ilustrados. Herdei alguns da minha avó e fui fazendo a minha própria coleção, que organizei por temas. Um deles, como seria de esperar, é a Antiguidade. Aproveito sempre as visitas às lojinhas de museus, convenientemente colocadas no nosso caminho, para comprar (entre outras coisas a que não resisto, mas que aqui não confesso) postais de obras ali expostas. Também nos sítios arqueológicos há belíssimos postais, com excelentes fotografias, que, depois de digitalizados, posso usar no meu trabalho. Foi a arrumar um arquivador que me deparei com um postal de Éfeso, cidade da antiga Grécia, que atualmente pertence à Turquia. Quando o comprei, encontrava-me na ilha de Samos, a poucas milhas daquela cidade, e, com um pequeno grupo, decidi apanhar um barco e passar o dia no país vizinho, a visitar as ruínas gregas ali existentes. Que tinha, então, este postal de diferente dos outros, para me chamar a atenção? Era a fotografia de uma laje de um caminho, onde se podia ver uma série de símbolos curiosos gravados na

'A wine shop sign, Pompeii' (Fig. 2) pedra: um pé esquerdo, uma cabeça de mulher, um coração, uma moeda. Ora um pouco mais adiante, no cruzamento da rua Mármore (onde está a laje) com a rua Curetes, duas das mais importantes vias da cidade, havia um bordel. Diz quem sabe mais destas coisas (e, apesar de não ser a única interpretação, não deverá estar longe da verdade), que era um sinal de publicidade a esse lugar: do lado esquerdo (pé), há uma casa onde, por dinheiro (moeda), pode comprar amor (coração) de mulheres (cabeça feminina). (Fig. 1)

Os postais publicitários Anunciar o que se quer vender foi sempre uma necessidade dos comerciantes, para que o consumidor saiba encontrar o que procura. Ainda hoje se pode ver em Pompeios (vulgo Pompeia), cidade que ficou subterrada no ano 79 da nossa era, após a erupção do vulcão Vesúvio e consequentes tremores de terra, as diversas formas de publicidade, quer em forma de grafitos, quer em baixos-relevos ou, mesmo, pinturas. (Fig. 2) No fim dos anos 90 do séc. XX, cheFOTO: WERNER FORMAN-UIG-GETTY

Publicidade a bordel em Éfeso (Fig. 1)

gou a Portugal uma forma diferente de publicitar, que muito me agrada: os postais gratuitos. Parecem postais ilustrados na forma e, até, pelo espaço para escrever no verso, mas, além de serem gratuitos, não são prioritariamente dirigidos a turistas, mas servem para anunciar produtos, serviços, ou sensibilizar para causas cívicas e culturais. Estes postais têm um grande potencial para colecionadores (como eu) e, hoje em dia, a própria empresa Postalfree explora essa vertente do colecionismo, proporcionando a troca de postais, numerando-os, etc. Faço parte daquele grupo que se aproxima dos expositores para ver se chegaram postais diferentes, desde a última vez que ali esteve. Encontram-se em cafés de museus, em bares, na entrada se salas de concertos, em associações. Por exemplo, a Casa Álvaro de Campos, em Tavira, faz postais para publicitar os eventos, distribuindo nas atividades que decorrem nos dias que os antecedem, para as pessoas levarem para casa. Também o Cineclube de Faro envia aos sócios, pelo correio, para cada filme do seu programa. A maior parte da minha coleção é, precisamente, de postais de cinema, muitos deles reproduzindo os cartazes dos respetivos filmes. Como já quase ninguém escreve a ninguém por correio normal (é quase sempre tudo eletrónico), começaram a aproveitar a parte de trás dos postais, aquela que tinha lugar para o selo, destinatário e algumas palavras, para imprimir mais sobre o que divulgavam. A ideia dos postais é serem mais impactantes e levarem as pessoas a

Cabeça de touro (Fig. 3) não morram, matam-se animais inocentes, para deleite de quem gosta de os ver a serem provocados, espetados, a escorrer sangue e, por fim, mortos. (Fig.3) No outro (Fig.4), reconhecemos Salazar e o bigode de Hitler que aquela mão está a começar a desenhar. Mesmo que não tivesse a legenda «O Estado Novo e o III Reich», percebia-se

Salazar (Fig. 4) imediatamente a aproximação pretendida entre as duas personagens históricas. Se um estrangeiro vir este postal, pode não saber quem foi Salazar, mas como Hitler tem uma dimensão mundial, reconhece os sinais que têm a intenção de comparar os dois homens. Às vezes, questiono-me como lerão os nossos vindouros estes postais. l


15.06.2018  27

Cultura.Sul

What ever happened to... ?

Pedro Jubilot

pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

... Miguel Gonçalves Mendes FOTOS: D.R.

Para a gravação do videoclip ‘You Trip Me Up’ um dos singles do seu Lp de estreia ‘Psychocandy’ (Blanco y Negro, 1985), os The Jesus and Mary Chain escolheram um barato destino do Sul da Europa, no tempo em que o Algarve ainda tinha ‘360 dias de sol por ano’, - o slogan menos verdadeiro da história do turismo em Portugal. Quem os viu chegar ao aeroporto de Faro, diz que os irmãos Jim & William Reid vinham já assim mesmo desgrenhados, nos blusões de cabedal em segunda mão, dispensando cabeleireiro e guarda-roupa na equipa de produção. Tudo ao natural. Daí para o ‘set’ localizado nas praias e ruas de Ferragudo e Alvor. Para quem for espreitar ao YouTube, não duvide que o rapazinho imberbe (de franginha) a tocar pandeireta se tornou uma famosa estrela rock. É o Bobby Gillespie, cantor dos Primal Scream. E ficou assim registado mais um belo ‘teledisco’ para a colecção da banda escocesa. ... Tamanqueiro

Acaba de estrear no circuito comercial o documentário de longa-metragem ‘Labirinto da Saudade’ sobre a vida e o pensamento do maior intelectual português vivo - Eduardo Lourenço. O autor trabalhou já sobre Maria Gabriela Llansol e Mário Cesariny. O seu mais conhecido filme é «José e Pilar» nomeado por Portugal como candidato a Melhor Filme em Língua Estrangeira aos Óscares em 2011. O cineasta ensaiou desde logo esta vertente em que mistura documentário e ficção, aquando da sua passagem por Olhão onde em 2007 filmou «Floripes», a partir da lenda local da moura encantada que deambulava todas as noites, triste e sem destino, pela vila de Olhão, inebriando os pescadores num feitiço que os guiava, mar a dentro, até à morte.

AGENDAR

... Jim & William Reid

lenenses e internacional. Apesar de nunca ter jogado pelo Olhanense, é o único internacional na categoria máxima natural de Olhão. Foram também os primeiros pai e filho a jogar na selecção AA portuguesa. ... Ibn Darraj al-Qastalli

Poeta hispano-árabe de origem bérbere, nasceu em Cacela (958-1030). Cultivou uma poesia de estilo maneirista  exemplo da sofisticação que a poesia do Al-Andaluz alcançou nessa época. O homem e a terra têm inspirado todos os que ali chegam desde então. ... Cacela Velha, Algarve, Portugal nesse abstracto arrebatamento me trago para um pouco de deleite na amurada junto à ria. daqui vejo o que ele viu, sinto o que ele sentiu ? atento, sereno, confiante ? só se não ouvir hoje o ruído de todos estes dias, ou então se me lembrar de como as coisas já foram simples neste pedaço muito próprio que remanesceu de mediterrâneo aspira-se a um novo dia infinito. acima da praia, onde o mar se em-prata de lua ou se vai na-mouriscar, facilmente se encarna o inesgotável inebriamento de ibn darraj al-qastalli só aqui se não deseja parar o tempo. e se acaso alguém souber de outro lugar assim de tão belo, poderá vir um dia trocar de morada comigo

Quem negociava com peixe mais cedo ou mais tarde ia parar a Olhão. Raul ‘Tamanqueiro’ Figueiredo (22.01.1903 - 03.12.1941) juntou o útil ao agradável e representou o Sporting Clube Olhanense – e foi campeão de Portugal na memorável época de 1923/24. Na final venceu o F. C. Porto por 4-2 no Campo Grande. Na final dessa primeira competição organizada pela F.P.F, estava o Presidente da República, o algarvio Teixeira Gomes, e destacou a forma de jogar de Tamanqueiro: «juvenilmente obstinada, na sua ubiquidade inverosímil (…) sem deixar nunca de sorrir.» De seguida foi chamado a representar a selecção nacional, e logo aliciado a ingressar no Benfica. O seu filho, nascido em Olhão e que tinha o mesmo nome que o pai, foi jogador do Be-

O autor espanhol, que é já um habitué dos eventos de poesia que acontecem no Algarve, regressa à região a 21 e 22 de junho, para apresentar ‘Inventário’ o seu mais recente livro bilingue, traduzido por Fernando Pessanha. As apresentações em Vila Real de Santo António (Biblioteca Vicente Campinas, 18h) e Tavira (Casa Álvaro de Campos, 21h45) estarão a cargo de Vítor Gil Cardeira. Mario Rodríguez García trata a poesia com o mesmo cuidado com que ama a Serra de Aracena onde vive, ou como lhe agrada descer ao litoral, sempre com o olhar desperto para as paisagens e o coração aberto para as pessoas. Amante de fotografia, e da cultura e língua portuguesas, sempre sentiu necessidade de ter as suas sensações traduzidas. Quando participou no evento ‘Poesia a Sul’ conheceu as edições da CanalSonora e esse contacto visual tornou-se desejo, feito livro, agora tornado realidade. Tive todo o tempo Tuve todo el tiempo que hoje falta que hoy falta para escrever para escribir sobre o meu tempo sobre mi tiempo.

... Sérgio Mestre

(Pedro Jubilot, in Telegramas do Mediterrâneo, CanalSonora, 2016)

“PORTUGAL SELVAGEM” Até 29 JUN | EMARP - Empresa Municipal de Águas e Resíduos de Portimão João Simões apresenta 19 reproduções a partir de originais feitos em scratchboard preto/branco, com tinta-da-china e utilização de aerógrafo

... Mário Rodriguez

Decorreu no passado fim-de-semana em Tavira, mais um festival, dos que todos os anos são dedicados ao ‘Sérginho’. Louvemos o esforço e dedicação da associação Rock da Baixa Mar para manter vivo entre nós o nome dessa lenda da música portuguesa. Duma simplicidade estonteante, tratava tudo e todos com a naturalidade que lhe era característica, quer fosse nas fogueiras da Ilha de Tavira ou nas noites de Lisboa. Um músico excepcional, um ser humano brilhante. Temos saudades. l “FESTA DA MÚSICA” 21 JUN | 21.30 | Teatro Lethes - Faro Grupo Les Kostards convida a uma magnífica viagem... elegância, energia, poesia e humor aliados com a alegria e o charme único do jazz francês


Última Santos Populares

Tavira encerra celebrações do Dia da Cidade com os 'Resistência' O Município de Tavira comemora mais um Dia da Cidade, no domingo, dia 24 de Junho, com um programa repleto de música e animação. O grupo "Resistência" marca as cerimónias com um concerto nocturno, na Praça da República. Os arraiais dos Santos Populares, a encenação da Moura Encantada e o espectáculo piromusical complementam a festa. A autarquia tavirense realiza, nos dias 22, 23, 24, 28, 29 e 30 de Junho, os arraiais dos Santos Populares, com um cenário decorado a preceito, um pouco por todo o concelho. O primeiro dia fica marcado com um concerto da du-

pla Bailasons. De seguida, o dia 23 conta com a presença de Fábio Lagarto, do Rancho Foclórico de Tavira e, com a iniciativa em parceria com a Junta de Freguesia de Tavira, o saltar à fogueira. No dia 24 actua a banda Mais Dois e no dia 28 os Sons do Sul. Já nos últimos dias Cristiano Martins e Ângelo Pereira prometem animar as noites de 29 e 30, respectivamente. Para além disso, no dia 23, o Castelo de Tavira apresenta a encenação da Moura Encantada pela Armação do Artista e, à meia-noite em ponto, a cidade ilumina-se com um espectáculo piromusical. l D.R.

Tavira promete seis dias de festa

CULTURA.SUL 116 - 15 JUN 2018  

CONHEÇA O CULTURA.SUL DESTE MÊS • Sábado (dia 16/06) nas bancas com o EXPRESSO e o POSTAL • ON-LINE a informação para a distância de um cliq...

CULTURA.SUL 116 - 15 JUN 2018  

CONHEÇA O CULTURA.SUL DESTE MÊS • Sábado (dia 16/06) nas bancas com o EXPRESSO e o POSTAL • ON-LINE a informação para a distância de um cliq...