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D.R.

Letras e leituras: D.R.

Adriana Nogueira: As Transformações do Amor p. 11

Os Despojados, Ursula K. Le Guinp. 5 Artes visuais: D.R.

O impacto sociopolítico da arte

p. 6

Espaço ao Património: D.R.

D.R.

Os Temp(l)os de Lagoa

Filosofia-dia-a-dia: Na Senda da Primavera

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p. 3

Panorâmica: D.R.

MARÇO 2018 n.º 113

‘Impulsos’ de Eliseu Correia

p. 12

Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o EXPRESSO 6.363 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve


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09.03.2018

Cultura.Sul

Editorial

Missão Cultura

A ‘Cançãodo Fim’...

Algarve Imaterial D.R.

Direção Regional de Cultura do Algarve

Cátia Marcelino / Henrique Dias Freire Jornalista catiam.postal@gmail.com

Depois de Salvador Sobral ter brindado os portugueses com a primeira vitória nacional no Festival Eurovisão da Canção com o seu ‘Amar pelos Dois’, em 2017, a curiosidade era muita para descobrir a canção que iria este ano defender tão honroso título. Após as duas semifinais onde dominaram as baladas, que fizeram claramente sentir saudades do ‘nosso’ Salvador, foi o algarvio Diogo Piçarra quem mais impressionou o público e os jurados, conquistando a pontuação máxima das duas partes, com uma ‘Canção do Fim’. Acontece que, em 1979, a Igreja Universal do Reino de Deus (a famosa IURD) editou o disco Cânticos do Reino vol. II e, por coincidência ou não, o tema ‘Abre os Meus Olhos’ é bastante idêntico à canção que Diogo Piçarra diz ter-lhe surgido em 2016. 'IURD rejeita qualquer ligação ao tema que fez Diogo Piçarra desistir do Festival da Canção' Depois da sua actuação, a IURD rapidamente rejeitou qualquer ligação ao tema mas o que é certo é a canção voltou a ganhar fama e as inúmeras acusações de plágio ao algarvio começaram a surgiu algumas horas após a actuação, levando-o a abandonar a competição. Apesar da desistência, o concorrente mais votado das duas semifinais do concurso continua a defender a sua canção que acredita ser algo de especial, e considera ser “engraçado como a vida tem destas coisas, coincidência divina ou não, e perceber que a Internet é o verdadeiro juiz dos tempos modernos, aclama mas também destrói”. Coincidência ou não, esta foi mesmo a ‘Canção do Fim’ de Diogo Piçarra no Festival da Canção. l

Pensar o Algarve Imaterial tem sido um dos propósitos desta Direção Regional de Cultura do Algarve. Neste desígnio, a que se propôs, deu início ao Ano Europeu do Património Cultural, tendo organizado em Janeiro, do corrente ano, um curso dedicado ao Património Cultural Imaterial, que reuniu inúmeros interessados, das mais variadas origens, nesta temática. A promoção do conhecimento, a valorização e salvaguarda deste património junto daqueles que ali se reuniram no sentido de que em conjunto sejam também eles promotores junto de outros para que esta temática adquira novas dinâmicas, foi um dos motes desta formação que, no entendimento de todos os participantes, foi atingido. A inventariação das manifestações culturais do Algarve é uma das formas de dar a conhecer a riqueza cultural de que esta região é detentora, factor relevante não só para a salvaguarda das mesmas mas também como valorização da região como pólo de atração de visitantes interessados pela cultura local. Desta forma, vale a pena relembrar o que nos diz a Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (2003), no seu Artigo 2º, onde refere que se entende por «“património cultural imaterial” as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos reco-

O património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado nhecem como fazendo parte do seu património cultural. Este património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua interacção com a natureza e da sua história, e confere-lhes um sentido de identidade e de continuidade, contribuindo assim para promover o respeito da diversidade cultural e a criatividade humana». […] Sendo consignado no ponto 3, do referido Artigo 2º. que se entende por salvaguarda «as medidas que visam assegurar a viabilidade do património cultural imaterial, incluindo a identificação, documentação, investigação, preservação, protecção, promoção, valorização, transmissão -

essencialmente pela educação formal e não formal – e revitalização dos diversos aspectos deste património». No caminho da salvaguarda vários são os passos do percurso. Desta forma, congratulamo-nos e apoiamos o trabalho que a Rede de Museus do Algarve, através do seu Grupo de Trabalho especializado dedicado ao Património Cultural Imaterial (RMA-PCI), tem vindo a desenvolver na construção de uma plataforma Web, que denominou de AlgarveImaterial, que visa dar a conhecer um conjunto de saberes e práticas que constituem um fator essencial para a preservação e salvaguarda da identidade e memória coletiva do Algarve. No dia 2 de março esta plataforma tornou-se pública, cumprindo com

uma ambição da equipa a que a Direção Regional de Cultura do Algarve se associa e integra. A construção de um mapeamento, visível nesta plataforma AlgarveImaterial, vem ao encontro de um outro projeto a ser desenvolvido posteriormente, a elaboração de um Atlas do PCI regional que, para além de bens imóveis e móveis, possa também agregar os património cultural imaterial do Algarve. A responsabilidade é a partir de agora maior, mas também a visibilidade que se está a construir para os diversos elementos patrimoniais que compõem a identidade cultural do Algarve. Abrace este desígnio e visite a página web: www.algarveimaterial.wordpress.com l

Juventude, artes e ideias

Clube de Cinema de Olhão

D.R.

Jady Batista Coordenadora Editorial do J

Quase a completar o seu terceiro ano, o Clube de Cinema de Olhão, uma iniciativa da Casa da Juventude do Município de Olhão, continua a ter cada vez mais aderência. O Clube possui uma programação de excelência, já estiveram presentes aproximadamente dois mil espectadores, com sessões regulares todas as quartas-feiras, às 21.30 horas, na Sociedade Recreati-

Filmes são exibidos na Sociedade Recreativa Progresso Olhanense va Progresso Olhanense, que é a mais antiga coletividade em atividade em Olhão e uma das mais antigas do país. A entrada é livre, podem conferir a programação no Clube na sua página de Facebook.

Em março teremos: Dia 14 – Corpo e Alma, drama, de Ildikó Envedi, Urso de Ouro e prémio FIPRESCI do Festival de Cinema de Berlim 2017; Dia 21 – O Amante de Um Dia, drama, de Phillippe Garrel, apresentado em Portugal na edição de

2017 do Lisbon & Sintra Film Festival; Dia 28 – As Falsas Confidências, comédia dramática, de Luc Bondy, Marie-Louise Bischofberger, é uma coméida de costumes da obra homónima do dramaturgo P. de Marivaux. l


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Filosofia dia-a-dia

Na Senda da Primavera

FOTOS: D.R.

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

Eu tenho a vida partida em mil pedaços Cola-os tu com dois abraços. Sérgio Godinho

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Cada dia tem 24 horas, se descontarmos as 8 que devíamos dedicar ao sono mais as 8 que passamos a trabalhar, ficamos com um terço do que começámos. Mas desses 480 minutos quantos é que são, realmente, nossos? Vem-me à memória uma canção do Sérgio Godinho: “O tempo parece que foge/ dura o tempo de um café/ e o ‘antes fosse’ já não é/ e vou de carro e vou a pé (...) Vou ter que dar de comer/ à filharada e ao periquito/ às plantas da selva em que habito/ à tartaruga e ao mosquito (...) E tenho os dedos e a cabeça/ a telefonar pra toda parte/ e desço à Terra e subo a Marte”. Vivemos a correr atrás de não se sabe muito bem o quê, que nunca se consegue apanhar, numa sensação de escassez de tempo generalizada. No entanto, quando nos encontramos com mais tempo do que prevíamos, frequentemente não sabemos o que fazer com ele. Ficamos ansiosos perante um fim de semana sem planos, sentimo-nos abandonados, vagabundos. Esse tempo livre que agora se abre à nossa frente magoa-nos mais do que quando foge. Torna-se urgente, necessário, imperativo, ocuparmo-nos. É preciso ocupar-se para não se aborrecer, para não entristecer, para não deprimir. Tendemos a considerar que de um lado estão a actividade, o movimento, o som — ingredientes constituintes das ocupações de um tempo bem vivido. Do outro lado estão o silêncio, a imobilidade, a solidão — características próximas da morte e, obviamente, reveladoras de um tempo mal passado. É como se o tempo precisasse de estar sempre preenchido e o seu esvaziamento equivalesse a tempo perdido. Quem percebeu muito bem esta dinâmica e sabe tirar partido dela são as indústrias de entretenimento. Proliferam os festivais, os concursos,

A Primavera está a chegar e com ela a disposição para enamoramento os eventos, as festas. Tudo com muita cor, música bem alta e uma linguagem motivacional reafirmatória do quanto é bom participar nestas actividades, identificar-se com os outros e exibir estar a sentir pelo menos tanta felicidade como o vizinho do lado. Longe vão os tempos das festas de garagem, em que o grupo de amigos se reunia e partilhava as músicas de que mais gostava, e se dançava e se namorava. Agora há uma indústria montada por trás do nosso suposto divertimento. Nesta correria dispersa em tantas frentes, neste galopar incessante voltado para fora, que sentido têm estas mil e uma ocupações? Um dia acordamos e damos conta de que somos um rato que dá voltas e voltas na roda da sua gaiola sem nunca sair do lugar! A actividade, o movimento por si só, de nada vale. São os afectos que dão sentido à vida e que de um modo misterioso colam, fazem aderir estes fragmentos uns aos outros criando uma forma, um todo, que constitui aquilo a que chamamos a nossa vida.

O amor apaixonado é um coração que lateja em carne viva e, hoje em dia, já ninguém se dispõe a deixar-se ferir. Renunciamos ao enamoramento, fugimos da paixão, e com tanto medo que temos de que nos partam o coração fechamo-lo a sete chaves e escondemo-lo. Esse coração embalsamado é uma flor que murcha antes de ter florescido. Amar é estar ligado, e estar ligado implica, forçosamente, um certo grau de dependência. Tal como dependem os órgãos uns dos outros num organismo vivo, tal como se afinam pelo mesmo

O Amor Asfixiado Vida na negação é a que se vive na ausência do amor. María Zambrano, A Metáfora do Coração Que lugar ocupam os afectos na vida de hoje? Com facilidade falamos do amor pelos filhos, ou do carinho pelos pais e avós, mas do amor entre pares, a esse camoniano fogo que arde sem se ver poucos ousamos referir-nos. Sentimos receio e até vergonha de nos apaixonarmos.

A filosofa María Zambrano diapasão os instrumentos de uma orquestra. Entrelaçar uma alma com outra só é possível na entrega. Com a glorificação da independência banimos o amor.

“O DESPERTAR” Até 24 MAR | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira Nesta exposição, a artista algarvia Elsa Revez remete para o seu ambiente familiar os valores e a simplicidade que definem a sua forma de sentir a Arte

A filósofa María Zambrano no seu livro A Metáfora do Coração põe o dedo na ferida ao afirmar que uma das maiores indigências dos nossos dias é, precisamente, a que se refere ao amor. “Não porque ele não exista, mas porque a sua existência não acha lugar, acolhimento na própria mente e mesmo na própria alma de quem é visitado por ele. (...) Todas as liberdades não parecem ter-lhe servido de nada; à medida que o homem foi acreditando que o seu ser consistia em consciência e nada mais, o amor foi-se encontrando sem espaço vital onde respirar, como um pássaro asfixiado no vazio de uma liberdade negativa. (...) Pois a liberdade foi adquirindo um sinal negativo, foi-se convertendo — ela também — em negatividade, como se, ao ter feito de uma liberdade o a priori da vida, o amor, o primeiro, a tivesse abandonado. E assim ficará o homem com uma liberdade vazia, o oco do seu ser possível.” É como se nos sentíssemos diminuídos e humilhados se ousássemos pronunciar essa frase tão simples e verdadeira, espécie amorosa incontornável... Não é apenas eu gosto, é eu preciso de ti. No entanto, quando se venera a deusa da Independência, a necessidade do outro tem de ser erradicada. O mínimo sintoma de dependência afectiva, é tratado como um cancro. Assim se submetem possibilidades de amores felizes à quimioterapia da emancipação, e acabamos por deitar fora o bébé com a água do banho. Não sei se “Deus morreu” como afirmava Nietszche, ou se foi o homem que se cansou d’Ele e do divino

que leva em si. Não suportamos o brilho dessa “centelha de estrela”, tal como Heraclito definiu a alma humana. Nesta ânsia de nos libertarmos do divino resolvemos acreditar que toda a realidade se submete a um encadeamento de causas e entrámos num jogo interminável de fazer contas e de arranjar razões para tudo. “Mas o divino é o incalculável, o que pode destruir todo o cálculo e anular qualquer conta, ainda que esteja bem feita.” (M. Zambrano, A Metáfora do Coração) Nesta ânsia de independência subvertemos o amor. E o amor “convertido em facto, decaído em acontecimento e submetido a julgamento fica desvirtuado na sua essência que tudo transcende; despojado da sua força e da sua virtude. Ao amor de nada lhe serve aparecer sob a forma de uma paixão arrebatadora; é como se, cuidadosamente, alguém tivesse efectuado uma análise e extraísse o divino e avassalador que nele existe para o deixar transformado num acontecimento, no exercício de um direito.” (Ibid.) Assim subjugado, o amor está como que “enterrado vivo, vivente, mas sem força criadora” (Ibid.). Queremos continuar a desviver-nos assim? A Primavera está a chegar e com ela a disposição para enamoramento. Talvez valha a pena reaprender com Zambrano que “o espaço infinito de uma liberdade real, é a liberdade que o amor concede aos seus escravos” (Ibid.).

Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com l

“SOMOS FEITOS DE MEMÓRIAS” 31 MAR | 21.30 | Centro de Congressos do Arade - Lagoa Concerto de Olavo Bilac, cujo percurso musical começa em 1987 com a formação da banda Santos & Pecadores, projecto que se mantém até hoje


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Cultura.Sul

Reflexões sobre urbanismo

Cidades no Algarve: reabilitar ou intervencionar FOTOS: D.R.

Teresa Correia

Arquitecta / urbanista arq.teresa.correia@gmail.com

A Pressão sobre as Cidades Algarvias: Que dinâmicas estão em curso As nossas cidades algarvias, apesar de pequenas e de média dimensão, possuem um tecido urbano com caraterísticas históricas e patrimoniais excecionais. Tantas vezes tão pouco estudadas em termos urbanísticos, ou divulgadas nos seus aspetos de valor arquitetónico, que acabam por constituir uma surpresa para os interessados que por acaso passam por cá. Afinal, não somos só Praia e Sol, mas também temos um reportório de obras tanto de Arquitetura Manuelina, Barroca como Modernista. A aquisição de algumas destas obras por diversos particulares, por vezes mais pequenas em dimensão, neste período de retoma económica, é agora uma constante nas nossas cidades. É até salutar que tal aconteça, uma vez que permite que haja uma forma de revitalização dos núcleos históricos, e o Estado nunca conseguirá manter ou ter meios suficientes de realizar obras coercivas que possam garantir a segurança e estética dos nossos espaços, para não falar de outros aspetos estratégicos. Assim, a classificação dos bens imóveis conforme a Lei do Património Cultural será um instrumento poderoso para definir o que é fundamental preservar, mas que tem sido insuficientemente utilizado. Verifica-se assim uma forte vulnerabilidade do nosso património arquitetónico e de conjunto face à atual conjuntura económica com uma ténue linha de crescimento, mas cuja atenção hoje, se foca nas áreas de reabilitação urbana em vez das periferias como nos anos 80 e 90. As entidades responsáveis, tanto da Administração Local ou do Estado, possuem agora uma responsabilidade ímpar pelo momento que atravessamos, ou são ágeis e rápidas na formação de verdadeiras políticas de património, ou rapidamente são ultrapassadas porque a dinâmica empresarial carateriza-se por grande racionalidade, inteligência e rapidez. Para além da classificação dos imóveis notáveis, é fundamental, a realização de planos de hierarquia inferior ao PDM, como Planos de Salvaguarda, que conseguissem definir com mais rigor a estratégia e intervenção nas nossas cidades. Salvo raras

Vista sobre os telhados em Faro exceções, na generalidade, com as revisões do PDM no Algarve tenta-se resolver tudo, o grande e o pequeno pormenor, sem a escala apropriada que seria importante estudar. Parece ser a única alternativa face ao nosso longo atraso de planeamento, e a única grande oportunidade que nos está agora a ser dada a nível municipal, mas a consciência das limitações do instrumento em que se está a trabalhar deverá existir.

das e reduzidas, sem que possamos usufruir de alternativas flexíveis e modernas de transporte público, e ainda a legislação do arrendamento urbano, que tem criado constrangimentos a uma verdadeira política de habitação. De uma forma simplificada, a reabilitação está também muito ligada ao Turismo e poder-se-á dizer que é

de diversa ordem, mas que está carenciado de algumas regras, e essas estão ainda uma pouco dispersas e sem grande orientação. Considerando ainda que grande parte das obras de conservação ou de intervenção no interior dos edifícios está isenta de controlo prévio, fica um pouco ao livre arbítrio do proprietário e do técnico que possa ou não asses-

Reabilitação: um desafio exigente A Reabilitação tem sido apontada como a área estratégica fundamental ao correto desenvolvimento das nossas cidades, sendo justificada pelos mais variados fatores. Desde logo, é importante porque envolve uma redução de CO2, contribuindo para a sustentabilidade ambiental no aproveitamento de materiais e na capacidade de reaproveitamento de estruturas e de solo urbano; por razões culturais, pela preservação da nossa memória coletiva, e ainda como pelo setor económico, criando negócios, e estimulando o emprego. As áreas de reabilitação urbana foram criadas na generalidade dos nossos centros históricos com este propósito, de as estimular, concebendo uma estratégia para estas áreas, com atribuição de benefícios fiscais e isenções de taxas, para além de alguns investimentos nos espaços públicos. Neste caso, o aumento acentuado do Turismo e do alojamento local também contribuíram para o crescimento das intervenções nestas áreas, tendo concretizado, nalguns casos, recuperações de edifícios devolutos de forma bastante significativa. Porém, existem várias debilidades que são importantes ter em conta: o enfraquecimento dos espaços comerciais, nas Baixas, que sentem a competição das grandes superfícies comerciais de caráter regional, as áreas de circulação e estacionamento que são normalmente condiciona-

Porta em madeira em Loulé benéfico em certa medida, mas não poderá ser somente isso, pela dependência que cria e também pela ausência da vivência nos bairros que tanto se deseja. A Reabilitação é assim uma adolescente, que vai criando experiência

sorar, respeitar as boas práticas da construção, conseguir intervir numa ótica de respeito pelo passado, e ainda com o sentido daquilo que vale a pena recuperar ou não. A exigência técnica é elevadíssima e o custo de construção sobe se existirem as pre-

ocupações atrás mencionadas. Para além de que as nossas escolas e universidades, mesmo as de engenharia, só recentemente despertaram para a formação de técnicos nestas áreas. Reabilitar ou Adulterar Os imóveis notáveis são facilmente reconhecíveis em termos patrimoniais e poderão ou não ser alvo de classificação, porém, no casario, ou nos edificados de conjunto dos centros históricos, a reabilitação pode tornar-se muito facilmente numa adulteração. As questões de valor são aqui difíceis de apreciar, sendo que uma porta ou uma janela de madeira, por exemplo, são por vezes elementos dignos de preservação. Elementos arquitetónicos simples, mas caraterizadores da nossa paisagem urbana, como telhados em tesouro, coberturas com telhas de canudo e paredes caiadas de branco, tornam-se facilmente objeto de alteração ou de substituição por sistemas tecnicamente mais duradouros, mas que nem sempre se adaptam ao edifício em causa. O promotor pretende normalmente atingir um objetivo económico, associado a um conceito de qualidade que poderá ser mais abrangente, porém, se for bem justificado pelos técnicos que o possam acompanhar, o ganho na preservação sobressai. A utilização do espaço público pela população das nossas cidades, com elementos mais vernaculares, como as mantas para o ensombramento das ruas em Loulé, produz um espaço belo e confortável, sendo que não é necessário dinheiro ou investimentos avultados para que tal aconteça. Se entendermos os nossos usos e a nossa arquitetura vernacular, como bens a respeitar, a Reabilitação acontece naturalmente. A intervenção na Reabilitação deverá ser discreta e pouco afirmativa da personalidade de um arquiteto. Porém, o belo acaba por sobressair na sua humildade. l


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Letras e leituras

Os Despojados, Ursula K. Le Guin D.R.

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

Autora de obras de fantasia e de ficção científica incontornáveis como o Ciclo Terramar (adaptado inclusive num filme de animação japonesa e também numa mini-série) ou A Mão Esquerda das Trevas, Ursula K. Le Guin faleceu em Janeiro de 2018, aos 88 anos de idade. Autora de mais de 20 livros, com milhões de exemplares vendidos, traduzida em 40 línguas, Ursula K. Le Guin escreveu ainda ensaios e para cima de uma centena de contos. Os Despojados, editado pela Saída de Emergência, é um dos seus principais livros, e forma, com A Mão Esquerda das Trevas, parte do Ciclo Hainish. O livro é, mais do que um romance, uma reflexão sobre os sistemas políticos e sobre a identidade e liberdade individual face a culturas alienígenas, mesmo quando o ou-

tro é bastante próximo da espécie humana. Shevek é um jovem físico brilhante, com uma descoberta que pode revolucionar a forma como se viaja no espaço, pois uma fracção de tempo de uma viagem no espaço continua a ser o equivalente a vários anos de vida que se perdem junto daqueles que se deixam para trás. Shevek vive em Anarres (por vezes considerado um planeta gémeo, outras vezes um satélite ou Lua do planeta vizinho Urras) é convidado a continuar e a desenvolver o seu trabalho na física em Urras. Urras é um planeta próspero de recursos abundantes, onde vigora justamente um sistema capitalista e mesmo hedonista (note-se que o traje de cerimónia das mulheres é estarem despidas da cintura para cima apenas com algumas jóias incrustadas na pele). Mas Urras, apesar da sua opulência e do cuidado na estética dos artefactos mais básicos, como o mobiliário, não é um planeta perfeito. «A conversa prosseguiu. Era difícil para Shevek segui-la, tanto na linguagem como no conteúdo. Estava a ouvir falar de coisas das quais não tinha experiência nenhuma. Nunca vira uma ratazana, nem as casernas do exército, nem um asilo de loucos ou de pobres, nem uma loja de penhores, nem uma execução,

Ursula K. Le Guin escreveu mais de 20 livros nem um ladrão, nem um edifício de apartamentos, nem um cobrador de rendas, nem um homem que quisesse trabalhar e não pudesse arranjar emprego, nem um bebé morto numa vala. (…) Este era Urras (…) o mundo do qual os seus antepassados tinham fugido, preferindo-lhe a fome, o deserto, e o exílio interminável.» (p. 241) Esta passagem recorda-nos como a ficção científica é sempre, por muito

escapista e fantasiosa que se afigure, uma forma de escrever sobre o real ou imaginar mundos possíveis como escape ou alternativa melhor à realidade. Anarres é um planeta desértico (e a capa da editora é brilhante na forma como retrata de modo simétrico essas duas paisagens em cima e em baixo) para onde alguns habitantes de Anarres partiram em tempos na busca de uma vida mais simples e

mais regrada, apesar de terem de enfrentar a fome, o deserto, o exílio. A colónia fundada nesse planeta inóspito foi afinal, saberemos depois, uma experiência de comunismo não autoritário, que sobrevive há 170 anos. Um dos momentos-chave do livro é o diálogo entre Shevek e uma embaixadora terrana, isto é, da Terra, o que resulta num debate filosófico ou político entre as semelhanças e diferenças entre estes três planetas tão similares. É também particularmente interessante, e possivelmente está relacionado com o próprio estudo de Shevek na área da física e do tempo, a forma como os capítulos, descobriremos depois, não são sequenciais, apesar de assim parecer. Há uma certa distorção cronológica, em que os capítulos não seguem afinal a devida sequência temporal. Lembra um pouco o filme Arrival na forma como nos apresenta um tempo circular em que o futuro e o passado podem estar contidos no agora. Em 2014, a autora recebeu a medalha National Book Foundation. Foi também distinguida ao longo da sua carreira de escrita com os Prémios Hugo, Nebula e World Fantasy. l

Gungunhana, Ungulani Ba Ka Khosa D.R.

O escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa Ungulani Ba Ka Khosa é dos escritores moçambicanos mais reconhecidos da sua geração. Francisco Esaú Cossa nasceu a 1 de Agosto de 1957 em Inhaminga, na província de Sofala, membro da tribo étnica Tsonga e falante da língua Tsonga, e adoptou como “pseudónimo” o seu nome Tsonga. Formado em Direito e em Ensino de História e Geografia, exerce actualmente as funções de director do Instituto Nacional do Livro e do Disco. É membro e secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos.

Gungunhana é um livro que reúne Ualalapi, o romance de estreia de Ungulani Ba Ka Khosa, publicado em 1987 e eleito como um dos cem melhores romances africanos do século XX, e As Mulheres do Imperador, uma nova novela deste autor moçambicano que constitui um regresso a este universo romanesco. Este livro assinala assim trinta anos de escrita ao mesmo tempo que o autor parece fechar um ciclo. Ualalapi narra o fim do império de Ngungunhane, último imperador de Gaza que resistiu ferozmente aos portugueses, entre 1884 e

1895, até que foi feito prisioneiro por Mouzinho de Albuquerque, levado para Lisboa e depois exilado para os Açores. Ungulani Ba Ka Khosa explora nesta obra, na linha dos sul-americanos, o imaginário mítico do seu país. A obra situa-se entre o conto e o romance, constituída por seis partes, mas sem ser uma narrativa fragmentária. As seis narrativas entretecem-se como unidades in(ter) dependentes, cada uma antecedida por um pequeno texto, intitulado «Fragmentos do fim», textos esses que se encontram numerados de um a seis, numeração essa que parece marcar também a própria evolução histórica que se sente até chegar à queda do império. Esses pequenos fragmentos constituem um levantamento feito a partir de fontes históricas, escritas na óptica do colonizador. Contribuem para esta paródia intertextual o acrescento de citações bíblicas (Job 2, Apocalipse 3, Mateus 6), na precedência de quatro dos contos, frases aforísticas referentes a Ngungunhane, citações de fontes fictícias da autoria do próprio autor e um dos textos trata-se de um fragmento mínimo do discurso

de Ngungunhane, antes de embarcar para o exílio. Através da intertextualidade entramos assim no domínio da metaficção historiográfica, como modo de questionar o passado e o presente. Há ainda uma valorização da oralidade, patente no próprio facto de o narrador ser um jovem que mexe em papéis e ouve um velho, junto a uma fogueira, a transmitir uma estória que, por sua vez, lhe foi contada pelo avô. As Mulheres do Imperador, uma novela com pouco menos de cem páginas, é – conforme anunciado na contracapa – um tributo ao papel das mulheres na História, neste caso as favoritas da corte do imperador, «sempre secundarizadas pela História». Mas, na verdade, as mulheres já estavam bem presentes em Ualalapi, até porque é quase sempre a partir da perspectiva do outro que o autor constrói aos nossos olhos a figura do mítico imperador. O que se configura nesta nova novela é o fim definitivo do império, quinze anos depois, quando as mulheres do imperador regressam do seu exílio em S. Tomé a Lourenço Marques, para testemunhar o início de uma nova época, quando os nativos vivem completamente subjugados e

dominados pelo colono, e novos bairros começam a surgir em torno da cidade, conforme os pretos vão sendo empurrados para bairros fora da cidade, como o da Mafalala, ao mesmo tempo que assimilam uma nova cultura. O narrador esquece muitas vezes essas mulheres que toma como personagens centrais, para nos dar, uma vez mais, uma perspectiva dispersa e fragmentada ou complementada por diversos olhares. As características que tornam a escrita de Ungulani Ba Ka Khosa tão peculiar e interessante estão também bem presentes nesta obra, como, por exemplo, a forma como muitas vezes recorre a termos das línguas locais para designar algo, explicando depois ao leitor o equivalente semântico da palavra ou qual o significado e/ou origem da palavra, ou ainda os diálogos entre as personagens, que muitas vezes consistem numa réplica sucessiva de provérbios, geralmente alusivos aos animais e à natureza. A linguagem de Khosa é imaginativa, visual, densa, violenta, o que por vezes se revela de forma chocante, de forma a transluzir uma forte carga simbólica e mito-poética, conforme à tecitura poética do maravilhoso e do realismo mágico. l


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Cultura.Sul

Artes visuais

Qual o impacto sociopolítico da arte? FOTOS: D.R.

Saul Neves de Jesus

Professor catedrático da UAlg; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora

Desde há muito tempo que a arte tem servido como instrumento de crítica e para serem tomadas posições políticas em relação a diversos assuntos, nomeadamente questões sociais. Aliás, os artistas envolvem-se frequentemente em movimentos sociais, expressando a grande relação das artes com o ativismo político e social. Em particular, ao longo do século XX, muitos artistas participaram em movimentos revolucionários e libertários, usando a expressão da sua produção nas artes como meio de comunicação de ideologias nos espectadores ou no público. Os anos 60 foram ricos em manifestações artísticas inseridas em movimentos sociais, muitas vezes de caráter pacífico, que procuravam questionar os modelos políticos vigentes, nomeadamente os extremos predominantes, com uma direita capitalista, que incentivava o individualismo e o imediatismo consumista, e uma esquerda comunista, que instaurava o autoritarismo e a inibição da diversidade. Manifestações de arte visual e musical, com performances e happenings, ocorriam muitas vezes de forma aparentemente espontânea, “invadindo” a rotina do espaço público, questionando e funcionando muitas vezes quase como contracultura, aparentemente anárquica. O Fluxus foi um movimento que se destacou nos EUA, na Europa e no Japão, a partir dos anos 50, com objetivos claros de ativismo político nas suas expressões artísticas. O uso do próprio corpo, enquanto instrumento a favor da liberdade sexual e da igualdade de género era usado por artistas como Yoko Ono. Mas é sobretudo nos anos 90, com o desenvolvimento da arte urbana, que a expressão visual como meio de protesto económico e sociopolítico pa-

Imagem de trabalho realizado por Vhils rece ter um maior incremento. Já em artigos anteriores fizemos referência a vários artistas atuais que procuram ter impacto sociopolítico com os trabalhos que produzem. De entre os artistas portugueses, destacámos os trabalhos de Bordalo II, no artigo “Pode a arte emergir a partir do “lixo?”, e de Vhils, no artigo “Pode a arte emergir da natureza?”. No caso de Bordalo II, que utiliza “lixo” nas suas obras, chegando a afirmar que “o lixo de um homem é o tesouro de outro”, procura chamar a atenção para as questões da pobreza, havendo muitos que passam fome enquanto outros desperdiçam comida, bem como para as questões da preservação do ambiente, através da reciclagem e da reutilização dos materiais. Por seu turno, Vhils é conhecido internacionalmente por esculpir rostos em paredes, estando a preocupação com questões sociais presente nos seus trabalhos. Por exemplo, homenageou os moradores de um bairro que estava em processo de despejo, esculpindo-os nas ruínas, para lembrar que, segundo as suas próprias palavras, “quando se destroem as paredes sem dar alternativa, é a vida da pessoa que se destrói também”. Não obstante o impacto visual de muitas obras realizadas no âmbito da arte

urbana, o problema é que são também muitas aquelas cuja duração é muito limitada no tempo. Tendo em conta que a arte acompanha o desenvolvimento da sociedade, sendo uma expressão desta, tanto que se considera que as obras artísticas devem procurar ser compreendidas no contexto histórico-social em que são produzidas, numa época em que predomina uma atitude consumista e imediatista, em que quase tudo parece ser feito para consumir e descartar, surgem também formas de arte visual que se enquadram neste paradigma. No entanto, a arte urbana não tem que ser descartável, podendo ser até fator de desenvolvimento e inclusão social. Por exemplo, fizemos já referência num artigo anterior que as obras produzidas na Quinta do Mocho conseguiram aumentar o otimismo dos habitantes, mostrando que a arte também pode contribuir para aumentar o bem-estar dos residentes. Os trabalhos de Banksy, em graffitis que podemos encontrar em ruas, pontes e muros de diversas cidades do mundo, são também um exemplo do impacto que podem ter as mensagens visuais de crítica política e social. No geral, as imagens que cria representam uma crítica aos conceitos de capitalismo, autoridade e poder. Há alguns meses atrás,

Banksy abriu o Hotel Walled-Off, considerado aquele com “pior vista do mundo”, pois

situa-se em frente ao muro de Israel na Cisjordânia, que constitui uma das materializações mais emblemáticas do conflito entre israelenses e palestinos. E este muro é a vista que os nove quartos deste hotel possuem. Além disso, a decoração dos quartos alerta para este conflito, havendo, por exemplo, por cima de uma das camas, um graffiti de uma guerra de travesseiros entre um soldado israelense e um manifestante palestino. Ainda muito recentemente (já este mês) gerou alguma polémica na Bolívia, tendo sido notícia nos media internacionais, uma pintura da artista Rilda Paco que mostra a Virgem de Socavón em lingerie. Segundo a artista, ela e a família têm recebido ameaças de populares por isso, para além de se estar a tentar iniciar um julgamento criminal contra a artista, devido a protestos de grupos religiosos. Inclusivamente, o arcebispo de Sucre, Monsenhor Jesus Juárez, disse que “a liberdade de expressão não é

para ferir os sentimentos das pessoas. A Santíssima Virgem, para nós, é quem nos deu o Salvador e, por isso, devemos honrá-la, defendê-la e protestar contra esses atos que prejudicam a fé de milhões de crentes”. Este acontecimento revela que, mesmo nem sempre sendo compreendida, a arte visual tem impacto sociopolítico. Assim, a imagem visual pode sintetizar questões psicossociais complexas e atuais e pode ajudar a promover a necessária reflexão sobre as mesmas. A arte visual é uma forma de comunicação, permitindo sintetizar em imagens, as emoções e os sentimentos sociais já existentes em relação a certas questões polémicas. No entanto, a atual saturação de imagens visuais na sociedade e a rapidez do funcionamento dos media, implicam que o processo criativo tenha que ser cada vez mais inovador de forma a que a arte visual tenha impacto sociopolítico. l PUB

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Cultura.Sul

09.03.2018

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Espaço AGECAL

Gestão cultural do património (II): arte moderna e contemporanea - o caso de Tavira

Jorge Queiroz Sociólogo - AGECAL

jorge.queiroz1@gmail.com

O conceito de património, no domínio cultural, integra múltiplas realidades temáticas (arqueológico, industrial, etnográfico, científico, literário, musical, teatral,…), períodos históricos (pré-histórico, antiguidade clássica, medieval, moderno, contemporâneo,…) e movimentos ideológicos e expressões estéticas. A gestão cultural, disciplina científica investigativa e essencialmente prática, define um tronco comum, a gestão dos recursos culturais, de natureza interdisciplinar, também campos especializados, as artes do

espectáculo, bibliotecas, museus, arquivos, centros de ciência, edição, transdisciplinares... A programação e a produção não constituem áreas autónomas são complementares à gestão cultural. A preceder a gestão cultural está a política cultural definidora de princípios e objectivos. As experiências de Gestão Cultural são múltiplas, contudo não devem ser vistas como “modelo” mas como respostas a situações concretas. É nesta perspectiva que neste artigo continuaremos a abordar a experiência de Tavira no campo do património e artes visuais. Nas últimas duas décadas colocaram-se questões estratégicas ao desenvolvimento cultural. Numa cidade muito antiga, com perfil histórico-patrimonial e atracção turística, como deverá ser definida a estratégia para a cultura? Valorizando apenas aspectos dessa herança patrimonial, estudando e musealizando,

desenvolvendo um discurso “patrimonialista” centrado no passado e na “tradição”? Que lugar para as manifestações artísticas da modernidade e da contemporaneidade? A opção foi a coexistência das duas perspectivas no desenvolvimento cultural com enquadramento educativo, de informação e serviço publico, aproveitando as reabilitações de edifícios históricos promovidas pela autarquia: Convento do Carmo/Ciência Viva, antiga prisão/Biblioteca, Casa Cabreira/ Arquivo Municipal, Palácio da Galeria/Museu. O aproveitamento do Palácio da Galeria para funções museológicas com integração da arte moderna e contemporânea foi um caso bem-sucedido pela representatividade e regularidade expositiva, um contributo para a melhoria educativa e da oferta cultural da região. Em 2000 já existia uma perspectiva de rede museológica

municipal ampla mas sem suporte de sustentabilidade, isto é, disponibilidade de meios humanos e financeiros. O programa inicial para o Palácio da Galeria propunha um “centro cultural” mas obras invasivas conflituavam com a sensibilidade arqueológica do local. A evidência surgiu logo no decurso da reabilitação do corpo existente, um palácio barroco do séc. XVIII, onde foram exumados materiais do séc. VIII a IV a.C. e descobertos “poços votivos” fenícios, assim interpretados e designados pelos arqueólogos. A inauguração da reabilitação ocorreu em 5 de Outubro de 2001. Em 2002 iniciou-se um programa de divulgação da arte moderna e contemporânea, sendo apresentadas nesse ano exposições individuais de gravura de Bartolomeu dos Santos e do catalão Antoni Tapies. A adesão de público foi sendo crescente, ano após ano,

atingindo em 2017 os 80 mil visitantes no Palácio da Galeria e núcleos museológicos Pelo Palácio da Galeria passou uma geração de grandes criadores já desaparecidos, como Ângelo de Sousa, Alberto Carneiro, Costa Pinheiro, Günter Grass, René Bertholo, Gerard Castello Lopes,… que estiveram presentes e acompanharam as suas exposições. Incluídas nos programas referências da arte portuguesa e internacional, como Júlio Pomar, Luis Gordillo (Prémio Velasquez - 2008), Cabrita Reis, Joana Vasconcelos, Rui Sanches, Leonel Moura, Sofia Areal, Xana, Rico Sequeira, Manuel Baptista, Ivo, também fotógrafos como Luís Ramos, Roberto Santandreu, Fernando Ricardo, José Manuel Rodrigues, Hector Garrido e artistas residentes na região com universos personalizados, Antonio Alonso, Paulo Serra, Karstie Stiege, Araci Tanan,… Importantes colecções de

arte portuguesa foram apresentadas no Palácio da Galeria, Arpad Szenes/Vieira da Silva, Fundação Berardo, Caixa Geral de Depósitos, EDP, Culturgest, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa da Cerca, Centro Português de Fotografia, Museu da Presidência da República, Cupertino de Miranda. Os mais qualificados curadores de arte portuguesa trabalharam no Palácio da Galeria nas mais de 80 exposições que deixaram nos catálogos preciosa informação. Investigação sobre a história e património da cidade e região em articulação com a divulgação da arte moderna e contemporânea permitiu enriquecimento cultural complementado com o trabalho permanente de serviço educativo, reabilitação e restauro, arqueologia, visitas ao património,… Património e desenvolvimento cultural são construção de muitas gerações. O futuro começou ontem. l PUB


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09.03.2018

Cultura.Sul

Marca d'água

Leeuwarden: Capital Europeia da Cultura 2018 FOTOS: D.R.

Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

luisa.algarve@gmail.com

Faro: Capital Europeia da Cultura 2027 A Capital Europeia da Cultura é uma iniciativa da União Europeia que tem por objectivo a promoção de duas cidades europeias, por um período de um ano, durante o qual cada cidade tem a oportunidade de mostrar à Europa a sua vida e desenvolvimento cultural, permitindo um melhor conhecimento mútuo entre os cidadãos da União Europeia. Esta iniciativa começou em 1985 com o nome de Cidade Europeia da Cultura. Apenas uma cidade era nomeada por ano, sendo a responsabilidade da organização do evento do Estado-membro ao qual pertencia essa cidade e sucediam-se por ordem alfabética dos países. Em 1999, o Conselho de Ministros e o Parlamento, decidem mudar o nome de Cidade Europeia da Cultura para Capital Europeia da Cultura e mais tarde passaram a ser nomeadas duas cidades por ano em vez de uma. O turismo cultural é um mercado turístico muito importante. É visto como uma forma de salvaguarda do património, da preservação da identidade, cultura, tradição e herança de um povo. As cidades são parte crucial neste cenário, pois têm um papel importante na história e na cultura, possuem a capacidade de envolver a comunidade e promover a coesão social. São muitas as cidades europeias que redefinem o seu futuro apostando na cultura e nas artes, como um meio de regeneração do espaço urbano e do desenvolvimento económico da cidade. Apostam assim em eventos culturais e desportivos. Ser Capital Europeia da Cultura é um de entre os grandes eventos culturais internacionais que atraem a atenção dos turistas. Sugestões para Faro Capital Europeia da Cultura 2027 No caso da cidade de Faro sair vencedora nas candidaturas a Capital Europeia da Cultura, gostaria muito de ver a nossa capital algarvia como uma capital europeia que apostasse numa forte articulação com a Universidade do Algarve.

Foto de material de divulgação da Capital Europeia da Cultura 2018 Gostaria que existisse uma programação que valorizasse os recursos da cidade de Faro em particular e da região em geral. Uma programação dirigida a diversos públicos com

cidade pode sair muito reforçada e rejuvenescida. Uma cidade que tenha o estandarte de Capital Europeia da Cultura desenvolve o tecido cultural da região em

Base para copos distribuída nos estabelecimentos de restauração da cidade de Leeuwarden projectos originais e com coproduções e pelo menos um megaevento de referência. Uma programação que apostasse em propostas artísticas de valorização da visão histórica do Algarve, mas que ao mesmo tempo trouxesse leituras contemporâneas com o uso artístico das tecnologias de informação e comunicação. Uma programação que fizesse a ligação com as periferias de forma a incorporar as comunidades rurais e a divulgação de tradições e pudesse atrair novos investidores. Seria importante capitalizar o investimento e os contactos que serão gerados pela Capital Europeia da Cultura, de modo a manter a população com vontade de se envolver em novos projetos. Nestas alturas há sempre oportunidade para a reabilitação de espaços públicos e investimentos em infraestruturas culturais, pelo que a

que se insere, para além de ter projecção a nível nacional, europeu e internacional. Em Portugal temos exemplos de cidades que foram Capitais Europeias da Cultura e o resultado para essas cidades foi multiplicador. Concretamente podemos perceber isso em cidades como Lisboa, que foi Capital Europeia da Cultura em 1994. Porto, que foi Capital em 2001, e Guimarães, Capital em 2012. 2027 será o ano em que Portugal volta a ter uma Capital Europeia da Cultura. Será a quarta vez que uma cidade portuguesa acolhe aquele que é um dos eventos europeus com maior impacto cultural. As cidades interessadas em ser capitais da cultura têm agora quatro anos para preparar as candidaturas. O município de Faro manifestou interesse. O processo de candidatura a ser entregue em 2021 implica uma equipa interdisciplinar e dinâmica

para criar uma programação que mexa não só com Faro, mas com o panorama cultural de toda a região algarvia, em que todas as autarquias se sintam empenhadas, dando principal destaque à cultura. Faro, se for escolhida como Capital Europeia da Cultura, terá certamente todas as possibilidades para se afirmar no mapa cultural nacional e internacional. Como já referi, em cada ano existem sempre duas cidades capitais europeias em simultâneo, no ano de 2027 será Portugal e a Letónia. Este ano a Capital Europeia da Cultura é partilhada entre estas cidades: Valeta (Malta) e Leeuwarden (Holanda). Visita à Capital Europeia da Cultura 2018 Recentemente estive em Leeuwarden (Região da Frísia no norte da Holanda) e foi interessante ver a dinâ-

mica da cidade. Tudo gira em torno da emblemática figura nascida nesta cidade a 7 de Agosto de 1876, Margaretha Gertruida Zelle, conhecida por Mata Hari. Essa enigmática mulher, que foi bailarina e espia (fuzilada pelos franceses a 15 de Outubro de 1917) tem uma história de vida intensa e que está retratada de forma muito completa e pormenorizada na exposição no Fries Museum ou Museu da Frísia, patente até 2.4.2018 com o título: “Mata Hari, a mulher e o mito”. Existem muitas visitas guiadas pela cidade, nomeadamente à casa onde nasceu Mata Hari e quase todos os souvenires à venda em Leeuwarden têm referência a esta emblemática figura. A organização distribuiu por todos os locais informação e brochuras e nas zonas de restauração distribui bases para copos com o logotipo desta Capital Europeia da Cultura. Nessas bases, para além de aparecer o logotipo de um lado, aparece a foto de Mata Hari do outro, o que reforça a sua importância enquanto figura associada à cidade. Reparei que os menus nos restaurantes recomendados nem sempre estão em inglês e algumas brochuras e informação útil está em holandês e alemão e não em inglês, o que me parece ser uma lacuna de organização nesta Capital Europeia da Cultura. Situação que certamente não se verificaria em Faro. No geral foi muito gratificante conhecer a dinâmica de Leeuwarden enquanto Capital Europeia da Cultura e sentir que viajar é uma das formas mais interessantes de enriquecermos culturalmente. Por fim, de referir que existem mais algumas cidades portuguesas a preparar candidaturas, mas como algarvia gostaria que Faro fosse a cidade escolhida, porque seria uma grande oportunidade para esta cidade e um bom desígnio regional. l

Imagem do exterior do Fries Museum onde se encontra a exposição sobre a vida de Mata Hari


Cultura.Sul

09.03.2018

Espaço ao Património

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Ficha técnica:

Os Temp(l)os do Património de Lagoa

Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural D.R.

Editor: Henrique Dias Freire Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saul de Jesus

Joana Pires

• Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho

Historiadora da Arte, Técnica Superior do Município de Lagoa

Assinalou-se no passado dia 16 de Janeiro 245 anos sobre a criação do concelho de Lagoa. Esta efeméride consubstancia a afirmação e a autonomia político-administrativa perante Silves, até então sede de concelho, onde estava inserido este espaço territorial. Mas nesta data assinala-se igualmente a emergência e confirmação da situação económica, social e política de Lagoa, que se vinha afirmando desde o século XVI, num reino e região extremamente ruralizada, característica do Antigo Regime. Quando se fala em Património de Lagoa, sentimos a necessidade de desconstruir e reanalisar o termo. Patrimónios, porque toda a História deste concelho é feita de afirmações, avanços e, porventura, retrocessos, reconhecimentos atribuídos ao labor e persistência das suas gentes, sendo esse verdadeiramente o seu Património, a história intrínseca, não contada, conhecida pelas vozes da tradição oral. A sua diversidade num território de pequena dimensão, administrativamente organizado em quatro freguesias (duas uniões), congrega uma miscigenação de culturas, espaços e relevos, que confere atualmente a este concelho um lugar de destaque para o entendimento sociológico e político do Algarve, sobretudo pelo contributo dos últimos três séculos, na redefinição de fronteiras, e na constituição de movimentos sociais, enquanto pólo agregador e multicultural, dinâmico, económico e culturalmente, e em harmonia com a sua biodiversidade e recursos naturais. Lagoa é um concelho que projeta a sua marca no espaço Europeu e Mundial. A terra, o mar, o rio Arade e as suas margens, promoveram a fixação das populações, passando de uma economia baseada na sobrevivência e usufruto, para a exploração do espaço rural, produção

• Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ao Património: Joana Pires • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Na Ágora: Adriana Nogueira • Panorâmica: Cátia Marcelino • What ever happened to... Pedro Jubilot

Claustro do Convento de São José - Lagoa 2017 manufactureira e comércio. Estes aspetos determinaram a ocupação geográfica e topográfica de locais que vieram a dar origem às povoações e vilas que compõem atualmente o território concelhio. Lagoa-Carvoeiro, EstômbarParchal, Ferragudo e Porches, distam entre si poucos quilómetros, mas cada uma destas freguesias possui elementos identificadores distintivos, Patrimónios que promovem a sua individualidade. Todavia, os hábitos e costumes das suas gentes sobressaem no contexto local e regional, conferindo identidade própria a este “jovem” e dinâmico concelho. Os temp(l)os do Património de Lagoa são os lugares sagrados das pessoas e das suas devoções, os pequenos altares e nichos que se encontram um pouco por todas as suas freguesias, atestando a religiosidade de um povo perante quem os auxiliava e amparava nas horas mais difíceis. São as lendas, muitas delas do tempo

de mouros e cristãos, como é característico da tradição oral algarvia, as festas e tradições populares, com destaque para as romarias e procissões religiosas que perpetuam a devoção dos habitantes ao seu orago, ao milagre ou evento transmitido oralmente pelos seus antepassados. É temp(l)o do Património a olaria, com raízes que remontam ao século XVIII, e que se recria e reinventa nas peças produzidas pelos oleiros e artistas a partir da matéria-prima, o barro, e das cores. Para as gerações presentes e vindouras fica o trabalho destacado do nome de um dos mais conhecidos mestres oleiros: Fernando Rodrigues, atribuído à Escola das Artes de Lagoa, hoje um espaço vivo onde se ensinam e promovem as artes plásticas nas suas mais variadas formas. Património é a doçaria de cariz artesanal, tendo como base os figos, as amêndoas e os ovos. A gastronomia que, com origem nos

géneros provindos da terra e do mar, resulta em iguarias de qualidade e tradição. É também a sua tradição etnográfica, o folclore, que reproduz os dizeres, as cantigas, a dança, os encontros e namoros, as tradições e os ofícios dos finais do século XIX e primeira metade do século XX. Mas verdadeiros templos do património são todos os Lagoenses que sentem e vivem esta terra, os seus hábitos e costumes com orgulho, participando ativamente na vida social e nos seus eventos culturais. São as associações culturais, recreativas e desportivas que representam e valorizam os lugares e os seus habitantes. São os visitantes, de inúmeras nacionalidades, que levam Lagoa consigo. São as expressões, os rostos, os vestígios, os imóveis, as praias, os algares, as falésias, o mar revolto de inverno, a calmaria das águas translúcidas do verão. Os rochedos que se assemelham a um qualquer navio, as

fortalezas e torres de defesa e vigia, o casario empoleirado nas pitorescas vilas costeiras de Ferragudo e Carvoeiro, onde sobressaem as ermidas e as igrejas. De Lagoa os espaços conventuais e a Matriz. Do Parchal, os vestígios industriais e as salinas. De Porches a beleza natural do promontório, com a Ermida de Nossa Senhora da Rocha e os seus elementos arquitetónicos que remontam à alta Idade Média. De Estômbar a majestosa Igreja de S. Tiago, símbolo ímpar do Manuelino e da arquitetura religiosa no Algarve. Da Mexilhoeira da Carregação, os vestígios das fábricas de conservas de peixe, os lagares, as salinas e moinhos. Lagoa é um temp(l)o do Património, do que é de todos nós, da nossa identidade. Lagoa abraça o presente e perspetiva o futuro de mãos dadas com as suas origens, tradições e com o seu passado, promovendo-o de forma sustentável. l

• Reflexões sobre urbanismo: Teresa Correia Colaboradores desta edição: Joana Pires Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com on-line em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/postaldoalgarve

facebook: https://pt-pt.facebook.com/postaldoalgarve/ Tiragem: 6.363 exemplares


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Cultura.Sul

What ever happened to... ? FOTOS: D.R.

Pedro Jubilot

pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

... Teresa Rita Lopes

A maior investigadora da vida e obra de Fernando Pessoa, algarvia nascida em Faro em 1937, será homenageada na terra de Álvaro de Campos, na Biblioteca Municipal de Tavira, no dia 10 de Março, pelas 21h30. O programa contempla uma apresentação de Afonso Dias, uma intervenção de Teresa Rita Lopes em torno de Pessoa e poemas de Álvaro de Campos por Vítor Correia, acompanhado à guitarra por Pedro Antunes. Evento integrado nas comemorações do dia internacional da mulher, com organização do núcleo de Tavira da Associação José Afonso.

... João Rodrigues

Biólogo e mergulhador, está necessariamente consciente dos problemas que poderão surgir da exploração de petróleo perto da costa algarvia, bem como dos mais diversos problemas de poluição que afectam o mar. Ao fotografar a beleza subaquática da região do Algarve quer chamar a atenção para a ameaça que esses perigos representam para o nosso património natural. As fotografias de «Águas Vivas», em exposição (25.02-23.03) na Fnac do Forum Algarve-Faro, foram registadas ao longo de quatro meses. Tem participado em vários documentários especializados e colabora com a revista National Geographic Portugal. (mais informação no site greensavers).

dos textos de apresentação do livro publicado pela editora Algarcongress. O professor e músico, encarou mais esta experiência com a mesma seriedade, honestidade e qualidade com que assume os mais diversos projectos artísticos e culturais em que se tem envolvido desde sempre, em especial na região do Algarve. O lançamento ocorreu na Biblioteca António Ramos Rosa em Faro.

... Viviane

Para quem a conhece desde os tempos em que começou a dar os primeiros passos nas cantigas, não estranha a sua apetência, vontade, necessidade? para cantar a chanson francesa, certamente devido à sua passagem por França e o conhecimento da cultura gaulesa. Confesso que tive alguma reserva e demorei mesmo algum tempo até carregar no ícone »play» para escutar uma enésima interpretação da canção (talvez a mais bela de amor) de ‘La Vie En Rose’ (Viviane Canta Piaf, cd 2017), mas finalmente quando o fiz não pude deixar de ficar cativado pelo trabalho de Viviane e Tó Viegas, que foi mais além da versão de uma tal Melody Gardot.

acesos, os movimentos de dança ao som em transe do longo e magnífico solo de bateria em ‘Moby Dick’. Depois acabou o filme, acenderam-se as luzes e puseram toda a gente na rua. Sem direito a encore.

... Rui Dias Simão

Publicou poemas no fanzine ‘Tão Longe. Tão Perto’ (olhão,1993), e depois em livro estreou-se com ‘Hipantropias’ pela Edições Cativa. Radicado desde a infância na Conceição de Tavira, dedica-se também à pintura e desenho, que aparecem nalguns dos seus livros. Depois de algum tempo arredado das edições de longo folgo, surge agora com o poema ‘Impreparado para esta noite’, pelas páginas da edição quinta do fartzine ‘esfera’ dirigido por Paulo Tomé.

... Maria de Fátima Bravo

Natural de Lagos (1935), Maria de Fátima Bravo é sobretudo recordada por esse êxito enorme que foi, em 1957, ‘Vocês Sabem Lá’ (EP Decca P-DFE 6489), canção de Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança que ficou como um dos grandes clássicos da música ligeira nacional. Embora o seu desejo fosse ser pintora tornou-se

Mª de Fátima Bravo é recordada pelo êxito 'Vocês Sabem Lá' ro que aquilo que o próprio teatro já encena. Não se trata apenas de uma actividade para entreter entre a preparação de filmes, mas um laboratório de aprendizagem, e de testar

lhoramento na sua sede, e de uma remodelação no tipo de oferta cultural a dar aos seus sócios e visitantes, dotando-a de um pólo museológico evocativo do poeta, com exposições

... Robert Plant

…… Paulo Cunha

Após um interregno, Rui Dias Simão surge agora com o poema 'Impreparado para esta noite'

«Cem desabafos…. Sem espinhas», reúne as crónicas – as primeiras 100 – publicadas semanalmente na revista online Algarve Informativo, com direcção de Daniel Pina, que assina um

Músico ainda no activo (tocou no Nos Alive o ano passado) trouxe um dia os seus Led Zeppelin a Olhão. Na verdade não estiveram eles connosco, mas nós com eles. O meu primeiro concerto ao vivo. Foi espectacular: ‘The Song Remains the Same’ a festa do circo rock’n’roll – desde o Madison Square Garden em Julho de 1973 (Lp e filme publicado em 1976) para uma sessão do cine-teatro, aí por 78 . Sala cheia em ambiente fantástico. Palmas e gritos no fim e início das canções ou mesmo durante; os diversos cigarros

actriz. Cedo abandona a carreira artística (1961, ao casar-se). Tivesse vivido noutro lugar, ainda que no mesmo tempo e teria sido transformada em estrela mundial. Assim… presto-lhe culto desde a infância através do gira-discos lá de casa com o single comprado pelo meu pai à época.

... Marco Martins

O que este cineasta faz entre filmes é, não apenas encenar teatro mas, tornar essa experiência ainda em algo muito mais vivo e mais verdadei-

com seriedade as possibilidades dos «Actores», agora nome da peça. Esteve no Algarve (Cine-Teatro Louletano), região a que está há muito ligado pela família, que dirige a Casa das Artes de Tavira.

... Casa Álvaro de Campos Tavira

A associação cultural de Tavira, sediada junto à igreja da Misericórdia, nas anteriores instalações do posto de turismo, está a ser alvo de um me-

continuadas e vocacionando as actividades para a divulgação e promoção de artistas locais ou residentes, oferecendo espaços onde possam dar a conhecer as suas criações e que sejam uma mostra viva das nossas vivências culturais, num espaço vocacionado para a leitura ou a tertúlia. No próximo dia 21 de Março essa intenção será anunciada, pelas 19h00, no âmbito do evento «Dia mundial da Poesia», que contará com microfone aberto para a leitura de poemas e de um lanche partilhado. Sintam-se convidados. l


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Cultura.Sul

Na Ágora

As transformações do amor FOTOS: D.R.

Adriana Nogueira

Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Andava a passear pela ágora e vi uma edição de Os Lusíadas na montra. Luís Vaz de Camões é um poeta que sempre me fascinou. Vicissitudes na vida (leia-se «falta de professor», situação comum na minha época) fizeram com que não o estudasse nem na escola nem na faculdade. Muitos colegas comentavam o horror que tinham sido as aulas em que tiveram de dividir as orações daquele grande poema (método que já não se recomendava, mas que muitos professores ainda adotavam) mas eu não passei por isso. Como não gosto de ler por obrigação, normalmente fazia no ano anterior as leituras obrigatórias do ano seguinte: foi assim que li Os Lusíadas, quando andava no 8º ano (e Os Maias, quando andava no 10º. Infelizmente, também nunca o estudei, pelas mesmas vicissitudes mencionadas anteriormente). Ler Os Lusíadas desacompanhada, mesmo com o apoio de uma edição bastante anotada, não será a mesma coisa do que com um/a professor/a, mas resultou, porque fiquei a gostar muito do poeta. Na universidade, quiseram os deuses que também não estudasse esta obra, porque a docente de Literatura Portuguesa que me calhou em sorte, a querida e malograda Margarida Vieira Mendes, tinha a lírica, no seu programa, e não a épica. E em boa hora isso aconteceu, porque a lírica camoniana é maravilhosa. Como tínhamos de a ler toda, e a quantidade de sonetos, redondilhas, endechas, trovas, éclogas, elegias, cantigas nos parecia infindável, a professora recomendou-nos que aproveitássemos as refeições para pôr a leitura em dia. E eu cumpri: naquele já longínquo ano de 1986, acompanhei os meus pequenos-almoços com sonetos, deixando as outras formas poéticas para o almoço e jantar.

Filémon e Baucis por Janus Genelli que (parecia que) se davam bem. Talvez não fossem mesmo semelhantes, mas havia qualquer coisa que me fazia pensar que seriam família, quando não tinham laços de consanguinidade. Vim a saber, mais tarde, quando li alguns estudos feitos sobre este assunto, que os casais, com os anos de convívio, tendem a imitar expressões um do outro, e, ainda, que as pessoas têm tendência a escolher para parceiras aquelas que se

tivesse atraiçoado. Localizei Michel Tournier e tirei da estante Gaspar, Belchior e Baltazar (Ed. Dom Quixote, 1992, 3º ed.). A frase de que me recordava dizia: «A Criança tornou-se negra, para melhor acolher Gaspar, o rei negro». Não andava longe… Diz Gaspar (p. 184): «Mas quando me inclinei sobre a manjedoura para adorar a Criança, que vi eu? Um bebé negro de cabelos crespos,

«Transforma-se o amador na cousa amada» Muitos foram os poemas de Camões que me interpelaram, mas este destacou-se: «Transforma-se o amador na cousa amada/ por virtude de muito imaginar; / não tenho, logo, mais que desejar,/ pois em mim tenho a parte desejada//». Houve várias questões que estes versos me colocaram: poderemos mesmo ser tão empáticos com o outro, como o poema sugere? Será que o querermos muito que algo aconteça (o «muito imaginar») será suficiente? Será que o que temos em nós é apenas o amor que podemos dar ao outro? Não sei porquê, mas fiquei a pensar nesta ideia de que amar nos transforma no objeto do amor. Ainda jovem, o meu conhecimento apenas empírico do mundo dizia-me que (alguns) casais ficavam parecidos com o tempo. Era o que eu via, principalmente entre aqueles

Baucis e Filémon por Arthur Rackham parecem consigo ou com os seus pais. Não sei se assim é, mas na literatura, encontrei um exemplo, do qual nunca me esqueci, do que achei que Camões queria dizer. Para escrever este artigo, fui procurar o livro, um pouco receosa de que a minha memória me

com um pequeno nariz achatado, um bebé em tudo semelhante às crianças africanas do meu país! (…) A criança na Manjedoura tornou-se negra para melhor acolher Gaspar, o rei mago africano. Há aqui algo mais do que em todas as histórias de amor que eu conheço. Esta imagem

exemplar manda que nos façamos semelhantes àqueles que amamos, que vejamos com os seus olhos, que falemos a sua língua materna, que os respeitemos, palavra que significa olhar duas vezes. Foi assim que se deu a elevação do prazer, da alegria e da felicidade a este poder superior que tem o nome de amor». Transformações por amor Nem todas as transformações o são por amor. A mitologia mostra-nos vários casos de metamorfoses que acontecem por as personagens quererem, precisamente, fugir do amor. Uma das mais conhecidas é a de Dafne, a ninfa por quem Apolo se apaixonou, mas que não lhe correspondia. De modo a não ter de se submeter a um amor indesejado, Dafne foge do deus, pedindo a seu pai, um deus-rio, que a salve. O pai ouve a sua súplica e transforma-a em loureiro. Apolo passa a usar uma coroa feita das folhas desta árvore, como forma de se lembrar dela. Mas havia muitas transformações por amor. Ovídio, no livro 8 das Metamorfoses (cito a tradução de Domingos Lucas Dias, para a Vega), conta uma história muito terna. Um velho casal, Báucis e Filémon, recebeu, em sua casa, Júpiter e Mercúrio disfarçados. Os deuses compensaram a sua bondade para com estranhos, poupando-os a um dilúvio que dizimou a população vizinha. A sua casa transformou-se num templo («Os esteios viram colunas, o colmo/ vai-se tornando amarelo, o tecto parece de ouro, cinzeladas/ as portas, e o chão coberto a mármore» - vv. 700-3), eles passam a sacerdotes e Filémon pede às divindades (vv. 708-720): «“E, uma vez que vivemos a vida/ harmoniosamente, que a mesma hora nos leve a ambos/ e que eu nunca veja a tumba/ da minha mulher, nem ela me enterre a mim”/ (…) Báucis vê Filémon cobrir-se de folhas,/ e o velho Filémon vê as folhas a cobrirem Báucis. Já/ sobre a face de ambos se alargava a copa; enquanto podiam,/ iam conversando. Disseram um ao outro simultaneamente –/ “Adeus, meu amor!” E logo a casca lhes cobre e lhes esconde/ a face. Ainda hoje o habitante da Bitínia mostra ali dois/ troncos vizinhos, nascido cada um de seu corpo». Ou talvez pudessem dizer, como Camões, «não tenho, logo, mais que desejar,/ pois em mim tenho a parte desejada». l


Última Panorâmica

‘Impulsos’ de Eliseu Correia inspiram Algarve e Lisboa FOTOS: D.R.

a cada passo e o prazer crescente de conseguir, de realizar, de partilhar a visão. São palavras como carreiras de experiências, notas da sua viagem interior, quando, do lado de dentro do vidro imaginário, olhamos (ele olha) o cenário e os convivas: há sempre convivas e palavras de ocasião para encher nada de tanto nada”.

Cátia Marcelino / Henrique Dias Freire Jornalista catiam.postal@gmail.com

Um livro onde acreditar e fazer acreditar é o lema Ao completar meio século de vida Eliseu Correia lançou o seu primeiro livro onde revela o lado mais íntimo, agora eternizado em fotografias e palavras. ‘Impulsos’ é um “manual de sobrevivência” que Eliseu Correia escreveu para si próprio e que decidiu agora partilhar com todos. “As frases que o compõem não são teóricas, todas elas já foram vividas e sofridas

Algarve e Lisboa recebem apresentações de ‘Impulsos’

'Impulsos' é um 'manual de sobrevivência' que Eliseu Correia decidiu partilhar por mim e já provaram ser úteis”. Com mais este impulso, Eliseu Correia quer acreditar que as suas palavras motivacionais possam vir a “dar às pessoas a coragem necessária para enfrentar alguns medos. Quero que estas frases possam ajudar outras pessoas assim como me ajudaram a mim”, revelou ao Cultura.Sul Eliseu Correia, garantindo no entanto que

“o livro não pretende ensinar mas sim inspirar”. No prefácio de ‘Impulsos’ António Manuel Ribeiro, dos UHF, escreve que “o Eliseu conhece os caminhos da vida, as manhas, os trilhos e as fronteiras. É um manual sobrevivente que só poderia ter sido escrito depois deste homem ter subido a montanha, sopesando o esforço que encontrou

A vida de ‘Impulsos’ de Eliseu Correia vai percorrer o Algarve e Lisboa com as suas frases e experiências reais onde não há lugar para a ficção nem para a teoria. No Algarve Eliseu Correia vai apresentar o livro nas Livrarias Bertrand do Forum Algarve (10 de Março, às 17 horas) e de Portimão (16 de Março, pelas 18.30 horas), e nas lojas FNAC de Faro (17 de Março, às 21.30 horas) e de Albufeira (18 de Março, às 16 horas). Em Lisboa as datas ainda

não estão definidas mas Eliseu Correia tem a certeza que a campanha publicitária que irá ser transmitida pela TVI, TVI24 e SIC Notícias, a partir de 12 de Março, vai contribuir ainda mais para o sucesso desta obra. “É muito engraçado ver a reacção das pessoas e perceber que gostam e compram o livro, porque não é um hábito meu escrever livros”, revela Eliseu Correia ao Cultura.Sul. A sua frase preferida ainda não quer revelar porque quer que as pessoas escolham a sua própria frase “de forma natural e espontânea, sem quaisquer condicionamentos ou influências”. Ao Cultura.Sul, afirma ter recebido reacções muito positivas, “pelo menos aquelas que se manifestam nas redes sociais, há muitas pessoas a partilhar a sua frase favorita”. Para Eliseu Correia, o importante é “acreditar e fazer acreditar os outros porque se sonhou, pode vir a ser realidade”. l

CULTURA.SUL 113 - 9 MAR 2018  

• CONHEÇA O CULTURA.SUL DESTE MÊS • Sexta-feira (dia 9/03) nas bancas com o PÚBLICO e o POSTAL • ON-LINE a informação para a distância de um...

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