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D.R.

Filosofia dia-a-dia: d.r.

Falemos de Eros p. 3

Espaço ALFA

Álvaro de Campos regressou em força a Tavira

d.r.

ALFA lança catálogo on-line da programação 2018

p. 6

Espaço ao Património: d.r.

d.r.

Património e música

Adriana Nogueira estreia: Na Ágora

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Marca d’água: d.r.

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DEZEMBRO 2017 n.º 110

Turismo, herança e inovação

Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

p. 10

5.344 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve


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08.12.2017

Cultura.Sul

Editorial

Missão Cultura

Os desejos para 2018

Bens culturais da Igreja: Direção Regional de Cultura promove encontros com o clero

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

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Estamos na recta final de 2017 e como sempre se presta este momento final de cada calendário, também fazemos um balanço do que foi o ano e damo-nos ao sabor dos desejos para 2018 em termos de Cultura. 2017 foi pródigo como há muito se não via em Cultura no Algarve nas suas mais variadas formas de expressão e para isso contribuíram vários factores: a região sabe cada vez mais e melhor trabalhar em rede, as autarquias, maior sustentáculo do investimento em cultura no Algarve, estão mais desafogadas a nível financeiro, os agentes culturais e os fazedores de Cultura arriscam mais, com a crise a deixar que se atrevam, e o 365 manteve a sua presença no quadro cultural algarvio. A tudo isto se soma, e não é de somenos, o facto do ano ter incluído uma eleição para as autarquias locais com tudo o que isso implica na conquista de votos. Para 2018, desejamos que o Cultura.Sul se mantenha trabalhando o seu objectivo no panorama cultural de forma ainda melhor e mais capaz, que a aventura dos fazedores de Cultura se mantenha e que quer as autarquias, quer a Região de Turismo do Algarve, quer a Direcção Regional de Cultura e, bem assim, o 365 Algarve trilhem o caminho do sucesso. Por fim, os votos de que o público cresça, que se diversifique e se deixe levar por este sonho feito consolidação da identidade que é o acto de consumir bens culturais. Em todos os casos, já dizia Pessoa, "Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce". Vingue pois a vontade de dar ímpeto à coisa cultural que a região merece. 

Direção Regional de Cultura do Algarve

Do total de edifícios religiosos existentes no Algarve, edificados entre a Antiguidade Tardia e a Época Contemporânea, encontram-se patrimonializados (isto é, reconhecidos oficialmente como herança cultural da nação portuguesa ou das comunidades municipais) cerca de oito dezenas, entre os quais se incluem catedrais, antigos conventos, igrejas, ermidas e capelas, algumas integradas em fortalezas e em casas nobres. O inventário desses bens culturais está disponível no Atlas do Património e inclui o que está Classificado e em Vias de Classificação, no sítio da internet da DGPC (http:// geo.patrimoniocultural.pt). Esta ferramenta oferece informação atualizada sobre as cerca de duas centenas de bens culturais imóveis patrimonializados localizados no Algarve, com as respetivas

zonas de proteção, incluindo localização georreferenciada e caraterização de todos os bens culturais imóveis da Igreja classificados e em vias de classificação no Algarve. Nos seus dois milénios de presença no Algarve foi notável o contributo da Igreja para a criação de património cultural e para a salvaguarda e valorização dos bens culturais que detém, sobretudo pelo continuado uso litúrgico de edifícios históricos. Hoje em dia, a administração desses bens reparte-se entre imóveis que se encontram ao culto e sob gestão paroquial ou sob administração de confrarias e entidades particulares, e imóveis de cariz religioso que se encontram profanados ou mesmo em ruínas. Contudo, o abandono progressivo das técnicas tradicionais de construção e de manutenção e a sua substituição por técnicas e materiais com menor exigência de saberes e mais rápido desempenho conduziu a um afastamento dos processos tradicionais de preservação dos bens cul-

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Igreja de Santo António em Lagos (foto: CM de Lagos) turais - imóveis, integrados e móveis -, proporcionando o recurso a prestadores de serviços sem adequada preparação para a realização de intervenções carentes de apropriado acompanhamento técnico. A conservação e restauro dos bens culturais patrimonializados (incluindo os que são administrados pela Igreja) encontra-se legalmente enquadrada por diversos

diplomas do Estado e pela Concordata, e está ainda submetida a regulamentos e orientações, entre os quais os “Princípios e Orientações da Conferência Episcopal Portuguesa sobre os Bens Culturais da Igreja”, de 16/11/2005. Decorre da legislação aplicável que as obras e intervenções nos imóveis classificados ou em vias de classificação, bem como no património cultural neles integrado, estão sujeitas

a controlo prévio dos organismos do Estado que tutelam a área da Cultura, conforme o Decreto-Lei n.º 140/2009, de 15 de junho, que estabelece o regime jurídico dos estudos, projetos, relatórios e obras/intervenções em bens culturais classificados, de acordo com princípios e práticas internacionalmente consagrados. Assumindo o seu papel interventor na salvaguarda do património, a Direção Regional de Cultura do Algarve disponibilizou-se para reunir com o clero algarvio e orientar, aconselhar e mediar processos de intervenção, restauro e manutenção dos bens culturais. Estes encontros de esclarecimento com padres e diáconos decorreram nas vigararias de Portimão, Loulé, Faro e Tavira, tendo sido acolhidos com muita atenção e participação expressiva dos mesmos. Neles, os responsáveis da DRCAlg tiveram oportunidade de expor os procedimentos necessários, disponibilizando-se para assegurar apoio administrativo e técnico às intervenções. 

Juventude, artes e ideias

Banda Filarmónica 1º de Dezembro de Moncarapacho comemora o seu 155º aniversário

Jady Batista Coordenadora Editorial do J

A comemoração decorreu no Auditório Municipal de Olhão e contou com a participação especial da banda Íris. Foi fundada em 1 de dezembro de 1862 pelo pároco da

freguesia, Prior Simas. Em 1953, a Banda foi forçada a parar a sua atividade durante cinco anos. Mas, graças à vontade e ao esforço dos músicos, a Banda voltou a sair à rua em 1 de dezembro de 1958. A 28 de julho de 2006 constituiu-se como Associação Cultural Sem Fins Lucrativos. Atualmente, presidida por Amarildo Alves, é composta por 30 elementos não profissionais, de todas as idades, dirigidos pelo Maestro Luís Rodrigues. Ao longo da sua carreira

muitos foram os momentos de destaque, como a participação na Grande Exposição do Mundo Português em 1940, ou no 1º Concurso Nacional de Bandas Civis em 1960. No dia 16 de junho de 2012 foi agraciada com a medalha de mérito – Grau Ouro pelo Município de Olhão como reconhecimento pelas atividades desenvolvidas na cultura. A Banda conta ainda com uma Escola de Música com aulas de formação musical, solfejo e aprendizagem de instru-

“CONCERTO DE NATAL” 11 DEZ | 21.30 | Grande Auditório de Gambelas Universidade do Algarve Concerto, integrado na celebração do Dia da Universidade do Algarve, apresentará melodias antigas e modernas de compositores que se inspiraram nesta época de Paz e Amor

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Banda foi fundada a 1 de Dezembro de 1862 mentos de sopro ou percussão. As parcerias estabelecidas com a Câmara de Olhão e as Juntas de Freguesias do conce-

lho são essenciais à manutenção desta, que é, talvez, a mais antiga entidade do concelho, em atividade. 

“TOCHAS” Até 4 FEV | Museu Municipal de Faro Exposição de fotografia de Vasco Célio, que regista os protagonistas da Procissão das Tochas Floridas, no âmbito de um projecto da Artadentro que integra o programa cultural 365 Algarve


Cultura.Sul

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Filosofia dia-a-dia

Falemos de Eros d.r.

Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica

Em A morte de um Apicultor Lars Gustafsson classificou o erotismo como a mais difícil das artes. Eros, o deus do Amor, não parece fácil de decifrar. Basta abrir a internet e saltam artigos que prometem ensinar as regras pelas quais se rege tão escorregadia divindade: “Encontre o amor verdadeiro em 27 dias”; “Os segredos que fazem o amor durar”, ou ainda “Está a afastá-lo por o perseguir? Aprenda a atraí-lo como um íman”. Esta espécie de artigos também aparece para o público masculino: “10 dicas para conquistar uma mulher”, “Como conquistar uma mulher em 15 minutos”, ou “3 formas de atrair mulheres sem fazer nada”. Os anos passam e este tipo de literatura muda de estilo mas não desaparece, porque a procura se mantém, todos queremos encontrar e viver um grande Amor! Em busca da alma gémea

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De onde terá surgido esta ideia de que há alguém no mundo cuja alma, de tão semelhante à nossa, connosco encaixaria na perfeição? Existirá porventura esse ser único com o qual experimentaríamos uma afinidade tão intensa, que deixaríamos de caminhar por este mundo solitariamente, para passar a planar sobre ele no êxtase da comunhão plena? Receio bem que a filosofia tenha alguma responsabilidade na criação de tão altas expectativas... Aristófanes no Simpósio de Platão conta-nos que outrora, em tempos longínquos, a raça humana era andrógina. “Cada homem, no seu todo, era de forma arredondada, tinha qua-

Aristófanes no Simpósio de Platão relata que outrora, em tempos longínquos, a raça humana era andrógina tro mãos, outras tantas pernas, duas faces exactamente iguais sobre um pescoço redondo e, neste duas faces opostas, uma só cabeça, quatro orelhas, dois órgãos sexuais e tudo o resto na mesma proporção. Caminhava erecto, tal como um homem actual, na direcção que lhe convinha. Quando corria, fazia como os acrobatas, que dão voltas no ar. Lançando as pernas para cima e apoiando-se nos membros, em número de oito, rodava rapidamente sobre ele mesmo”. Estes seres humanos andróginos “possuíam uma força e um vigor extraordinários e, como eram corajosos, decidiram escalar o céu e guerrear os deuses”. A tão grande ousadia correspondeu proporcional castigo! Zeus decidiu tornar os homens mais fracos e cortou-os ao meio com um cabelo. “Cada uma das partes, lamentando a outra metade foi à procura dela e, abraçando-se e enlaçando-se umas às outras, no desejo de se fundirem numa só, iam morrendo de fome, por inacção, pois nada queriam fazer umas sem as outras”. Aristófanes mostra aqui como a falta de amor

pode provocar inércia. O desalento da solidão reduz o ânimo e consome a vontade. Nos casos mais graves entra-se em depressão. Pelo contrário, quando um homem encontra a sua cara-metade “é possuído por transportes de ternura, de simpatia e de amor. Não quer separar-se mais nem que seja por um instante!”. O seu maior desejo é “o de se fundirem com o objecto amado e de não serem dois, mas um só!”. Quando encontramos a nossa alma gémea é como se reconstruíssemos a nossa antiga natureza, “o amor é a ânsia desta plenitude!”. E no entanto... Que acontece algum tempo depois de encontrada a nossa metade? Algum tempo que podem ser semanas, meses, ou anos, este êxtase, esta plenitude parece condenada a não durar. Talvez nos tenhamos equivocado e aquela alma-gémea não o fosse realmente; agora já não o é de todo. Já não estamos felizes, pelo contrário, estamos aborrecidos, tristes e frustrados. Também

este aspecto a filosofia não deixou de prever. Para falar sobre Eros, Sócrates, como era seu hábito, optou por dialogar interrogando o Agatão, com uma profusão de perguntas encadeadas numa lógica infalível a que o interlocutor não pôde deixar de assentir. Reproduzo aqui algumas delas: “O amor é amor de alguma coisa ou não?”. “O amor deseja ou não o objecto que ama?”. “Quando ama e deseja, possui ou não o objecto que ama e deseja?”. Agatão apressou-se a responder que não o possui. E Sócrates lançou a estocada final: “o que deseja não possui o objecto, ou o que o possui já não o deseja?”. Deixando a audiência perplexa, derrotada, Sócrates reformulou a pergunta: “Não chegámos já à conclusão de que se ama o que nos falta e o que não se possui?”. Daqui decorre a redundante tragédia deste sentimento: se apenas se deseja o que não se possui, assim que o amado se rende aos encantos do amante o amor acaba! Que triste condição a nossa! Sofremos devido à solidão, esforçamo-nos por encontrar alguém,

“PRESÉPIO DE SAL” Até 6 JAN | Casa do Sal – Castro Marim Presépio construído com seis toneladas de sal castromarinense e que levou um mês de trabalho para reunir esculturalmente as cerca de 3.800 peças que o compõem

mas mesmo quando esse encontro improvável acontece, está condenado ao fracasso, não resistirá à erosão do tempo, ao tédio da convivência! O antídoto Será possível desejar o que já se tem? Questiona Sócrates: “Quando dizes desejar o que já tens não queres com isso significar que o desejas possuir igualmente no futuro?” Talvez seja este o segredo para um amor duradouro: não tomar o que se tem como garantido. Sentir cada instante fresco e novo como uma benção. Como fazê-lo? Prestando atenção aos pormenores. Nenhum de nós se conhece completamente a si próprio, do mesmo modo, é-nos impossível conhecer totalmente outrem. Mergulhar nas minúcias da personalidade do outro é uma viagem infinita e promissora. Por outro lado, o objecto de tão refinada atenção só pode sentir-se lisonjeado e a sua curiosidade por nós despertará também. Este processo de auto-descoberta de si e do outro pode converter-se num poderoso elixir do amor!

A genealogia de Eros Os convivas que discursaram sobre Eros no Simpósio de Platão mostraram sobre o deus visões muito divergentes. No entanto, todos coincidiram num ponto: o que disseram foi deveras elogioso. Apenas Sócrates ao relatar o que aprendera com a sacerdotisa de Mantineia foi discordante. Diotima, contou-lhe que terá sido no banquete de celebração do nascimento de Afrodite, deusa do Amor, que Eros foi concebido. A sua mãe, Penia, a Pobreza, veio mendigar as sobras do repasto e ao encontrar Poros, deus do Engenho e do Acesso, já turbado pelo nectar que tinha bebido, aproveitou-se dele gerando um filho. Eros herdou características de ambos progenitores. “Em primeiro lugar é pobre, e, longe de delicado e belo como geralmente imaginamos, é rude, sujo, anda descalço, sem eira nem beira”. É um sem abrigo indigente como a sua mãe. Por outro lado, “herdando a natureza do pai, vive à procura do belo e do bom; é bravo, audaz, ardente e filósofo”. Diotima explicou ainda que “todos os homens são fecundáveis, segundo o corpo e o espírito”. A procriação é o único meio que um mortal encontra para se perdurar, mas os que são fecundos segundo o espírito só desejam a criação no domínio da alma: “a sabedoria e outras virtudes, que têm por pais todos os poetas e artistas de génio”. Eros que se encontra num meio termo entre a sabedoria e a ignorância, não pode deixar de filosofar, ama a sabedoria mas não a possui, por isso dedica a sua vida ao esforço de a alcançar. Este desejo de saber, este sentir-se obrigado a procurar, estas perguntas que nos abrasam e dilaceram no seu sem resposta incessante, são a prova de que a filosofia é, por excelência, uma actividade erótica! Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com 

“O CONTINERALISMO POÉTICO” Até 30 DEZ | Centro Cultural de Lagos Timo Dillner pretende com este projecto dar a conhecer através do vídeo/instalação da pintura e da escultura, a sua perspectiva das viagens a lugares desconhecidos do Infante D. Henrique


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Cultura.Sul

Letras e leituras

A ambiência misteriosa de Daphne du Maurier: A Minha Prima Rachel fots: d.r.

Paulo Serra

Regresso a Manderley

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

Daphne du Maurier nasceu em Londres, em 1907, no seio de uma família de artistas e intelectuais. Filha de actores e neta de escritor, revelou-se desde tenra idade, não só uma leitora voraz, mas também possuidora de uma imaginação fértil. Começou a escrever artigos e contos em 1928 e publicou o seu primeiro romance, The Loving Spirit, em 1931. Foi no entanto Rebecca, o seu quinto romance, que a popularizou. Ao longo da sua carreira, continuou a escrever contos e escreveu igualmente peças e biografias. Rebecca foi em boa hora relançado pela Editorial Presença, que publicou ainda outras obras da autora, como A Pousada da Jamaica e A Minha Prima Rachel. A Minha Prima Rachel inicia quando Philip se recorda com nitidez de um momento da sua infância em que viu um homem de grilhetas enforcado nos Quatro Caminhos. Philip sabe bem que «não se pode voltar atrás» mas é a partir dessa estranha lembrança que nos conduz pela história de como perdeu o seu pai adoptivo e encontrou a sua prima Rachel. «Na vida não se pode voltar atrás. Não há recuo. Não há segunda oportunidade. Aqui sentado, vivo e na minha própria casa, é-me tão impossível retirar uma palavra proferida ou desfazer um ato realizado como o era ao pobre Tom Jenkyn a oscilar nas suas grilhetas.» (p. 13) Passaram-se dezoito anos, e entretanto Philip tem vinte e cinco, mas é a partir da recordação nítida desse homem suspenso, com o rosto e o corpo cobertos de alcatrão, que se espoletam as memórias que constroem o fio da narrativa. «O rapaz que estava debaixo da janela dela na véspera do seu aniversário, o rapaz que permaneceu à entrada da porta do quarto dela na noite da sua chegada, desapareceu, tal como desapareceu a criança que atirou uma pedra a um homem morto num patíbulo para criar uma falsa coragem.» (p. 13) Quase como se um condenado à morte por ter morto a mulher estivesse na mesma condição humana

do seu constante trajar de negro enlutado. Para Rachel, aliás, enquanto viúva, parece haver muito pouca esperança: «– As viúvas? – respondi eu, sem refletir. – Oh, as viúvas voltam a casar-se o mais depressa possível, ou vendem os anéis» (p. 134).

Daphne du Maurier publicou o seu primeiro romance em 1931 de um desgraçado que se apaixona pela mulher errada. Como lhe vaticina o seu padrinho: «Há mulheres, Philip, boas mulheres, muito possivelmente, que, sem que a culpa seja sua, atraem a fatalidade. Tudo o que tocam se transforma em tragédia. Não sei porque te digo isto, mas sinto que devo dizê-lo» (p. 13). Philip é criado pelo seu primo Ambrose, após a morte dos seus pais quando ele tinha cerca de dezoito meses, altura em que se muda para o solar do primo onde é criado inicialmente por uma ama que acaba por ser despedida quando esta dá umas palmadas no rabo de Philip, então com três anos, altura em que Ambrose toma definitivamente a seu cargo a educação e a criação da criança, começando por lhe ensinar o alfabeto usando a letra inicial de todos os palavrões. Philip considera que ele era como o seu primo Ambrose: «dois sonhadores, pouco práticos, reservados, cheios de grandes teorias nunca postas à prova, e, como todos os sonhadores, adormecidos para o mundo real» (p. 12). Narrativa que alia a tensão ao misterioso Aliada à narração na primeira pessoa (patente logo no pronome possessivo «minha» do título), e sempre imersos no sentir e pensar da personagem, para melhor nos identificarmos com os devaneios amorosos de Philip à medida que o seu sentimento pela prima Rachel, viúva do seu

recentemente falecido primo Ambrose, passa do ódio e do desejo de vingança ao amor cego, temos uma escrita literária muito próxima de um registo cinematográfico, até pela qualidade visual das descrições que a autora fornece e da aura de mistério e de fantasmagoria que adensa a intriga. Philip, por exemplo, pode ser visto como um duplo ou uma reencarnação do seu primo Ambrose, até pela grande parecença física de ambos: «Parecia-me que Ambrose se encontrava a meu lado e eu revivia nele, ou ele em mim» (p. 328). O romance não mantém a tensão com a mestria conseguida em obras como Rebecca mas há, como sempre, um grande cuidado na descrição que nos transporta completamente para uma ambiência sombria e misteriosa, até que se chega a um desfecho quase cinematográfico de tão súbito, inesperado – ainda que subtilmente indiciado –, e magistralmente narrado, de modo a que no final da leitura fiquemos sem saber até que ponto existe culpa por parte do protagonista. Apesar de o próprio Philip apenas descobrir a verdade no Dia das Mentiras, dia do seu aniversário e data em que se precipitam de forma drástica as decisões que ele próprio tomou e colocou em marcha, a revelação final é quase sempre claramente adivinhada pelo leitor, pois a autora deixa lampejos da verdade nas entrelinhas, ainda que o leitor corra o risco de ficar embalado pela intensidade dos sentimentos de Philip, ao filtrar tudo pela consciência desse narrador na primeira pessoa:

«O meu professor do quinto ano, em Harrow, dissera-nos uma vez que a verdade era algo intangível, invisível, em que tropeçávamos às vezes sem a reconhecer, mas que é descoberta, assimilada e compreendida apenas pelos idosos perto da sua morte ou, às vezes, por seres muito jovens e muito puros» (p. 283). Uma constante do romance é também a questão da diferença entre a natureza de ser homem e a condição de ser mulher. No momento em que Philip se prepara para conhecer a sua prima Rachel, a sua educação é apontada como tendo a grave lacuna de este jovem nunca ter convivido realmente de perto com as mulheres: «Devia ter havido alguém na casa, uma governanta, uma parente afastada, qualquer pessoa. Cresceste na ignorância total das mulheres e, se vieres a casar-te, a situação poderá ser difícil para a tua esposa» (p. 64). É irónico, aliás, como a certa altura se afirma: «as mulheres, especialmente Rachel, agem segundo as suas emoções. Nós homens, em geral, embora não sempre, agimos segundo a razão.» (p. 319). Primeiramente adjectivada de aranha e de víbora pelo seu primo Philip, o véu de mistério em torno de Rachel, à semelhança dos xales que ela usa, é de tal ordem que a personagem apenas “entra em cena” na página 84, e fá-lo primeiro com uma «voz baixa, quase inaudível», imersa em escuridão. Só gradualmente a personagem se vai desvelando mais e mais, até que Philip se toma completamente de amores pela prima, a começar pelo seu humor inesperado apesar

Reler um romance como Rebecca agora finalmente reeditado tem o condão de fazer ressurgir lembranças bem vívidas, como a ingénua protagonista sem nome, a sinistra Mrs. Danvers, e o emblemático final em que a sugestão paira no ar como um clarão distante, ao mesmo tempo que se faz a leitura de todo um novo livro que desconhecíamos por completo e que merece justamente ser revisitado, como quem regressa a Manderley. Os pressentimentos e maus presságios conferem um ambiente fantástico ao romance, que se afasta do melodrama romântico para se aproximar mais de um universo próximo do que hoje se designa como thriller psicológico ou misterioso, em que a eterna inominada e jovem heroína, Mrs. de Winter, segunda esposa de Maximilian de Winter e sucessora de Rebecca, tenta juntar as peças desse enigma chamado Rebecca para poder compreender o comportamento do seu enigmático e por vezes irascível marido, o ódio da governanta que se move como uma sombra a dominar a casa, ao mesmo tempo que tenta lutar contra o fantasma omnipresente da sua antecessora, senhora da mansão de Manderley, que parece capaz de devorar tudo e todos, inclusivamente a sua própria identidade. Originalmente publicado em 1938, Rebecca conheceu inúmeras reedições e Alfred Hitchcock adaptou-o ao cinema em 1940, tendo sido vencedor de dois Óscares. Muitos dos romances de Daphne du Maurier tornaram-se bestsellers e inspiraram filmes de grande sucesso. A Minha Prima Rachel conheceu uma adaptação para mini-série televisiva em 1983 com Geraldine Chaplin, e duas versões para cinema, em 1952, com Olivia de Havilland e Richard Burton, com quatro nomeações para os Óscares, e em 2017 com Rachel Weisz. Daphne du Maurier viveu a maior parte da sua vida na Cornualha, cenário de grande parte dos seus livros. À medida que a obra literária de Daphne du Maurier lhe conferiu fama à escala mundial, a escritora foi-se tornando mais solitária, acabando por se afastar do mundo que a rodeava.


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Panorâmica

Festa cultural em Tavira marca aniversário de Álvaro de Campos fotos: cátia marcelino

Cátia Marcelino

Jornalista catiam.postal@gmail.com

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“No tempo em que festavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto”, escreve Álvaro de Campos no poema "Aniversário". Foi precisamente para manter vivo um dos mais famosos heterónimos de Fernando Pessoa, nascido a 15 de Outubro de 1890, em Tavira, e para celebrar o seu aniversário e a imensa criatividade humana, que vários artistas e associações de Tavira se uniram para realizar "A Festa dos Anos de Álvaro de Campos". A terceira edição do evento contou com mais de 25 eventos integrados num programa composto por poesia e música, desde a clássica e popular portuguesa a ritmos brasileiros e jazz, exposições de artes visuais e documentos históricos relacionados a Pessoa, programas de rádio, dança, cinema e até jantares com a música e a poesia como ingredientes principais. “A envergadura sensorial de Álvaro de Campos é tão vasta que há sempre muito por descobrir, há sempre novidades”, disse ao Cultura.Sul Tela Leão, presidente da direcção da Partilha Alternativa Associação, responsável pela promoção, criação e coordenação do programa que “tem muitas pernas para andar”, garante. Foi em 2015 que criou a Partilha Alternativa e desde então vem juntando cada vez mais artistas e associações tavirenses para celebrar a obra do seu mais famoso conterrâneo. O projecto, referiu Tela Leão, “funciona como uma co-participação, ou seja, é um trabalho conjunto onde cada produtor participa muito activamente e é responsável pela sua própria produção”. A Partilha Alternativa divide o apoio financeiro em dois montantes, um destinado a projectos de exposições e trabalhos com as escolas e outro para os espectáculos ao vivo. Cada

a trabalhar e ensaiar um mesmo espectáculo para que este fique finalmente em condições para ser apresentado”, refere Tela Leão. Acreditando que se pode contrariar este facto, a aposta desta iniciativa é fundamentalmente no artista local, sempre através da obra de Álvaro de Campos, nas mais diversas expressões artísticas. Tela Leão define o projecto como “um desafio bonito que funciona como um laboratório onde são produzidos novos produtos culturais que saem daqui prontos para novos desafios e preparados para apresentar os seus projectos e tentar vendê-los e apresentá-los noutros palcos de maiores dimensões”. Projecto integra programa turístico-cultural 365 Algarve

Quadro de Fonseca Martins 'Fernando Pessoa New Horizons' produtor gere a sua parte e “muitas vezes até complementa o apoio financeiro que nós damos através de acções de voluntariado ou outras iniciativas que promovem para gerar mais receitas”. Criação de micro temporada é a grande diferença relativamente a 2016 Para Tela Leão a grande diferença do projecto, comparativamente a 2016, foi a criação de uma micro temporada. “Um dos objectivos do programa 365 Algarve para este ano era promover a auto-sustentabilidade dos projectos e nós tentámos fazer isso através da criação de uma micro temporada, fazendo com que as apresentações artísticas e os espectáculos se repetissem por duas ou três vezes e não se realizassem apenas uma só vez, e também através da cobrança de bilhetes para assistir aos espectáculos”. A responsável pelo projecto garantiu ao Cultura.Sul que “o balanço desta terceira edição é muito positivo, especialmente devido à grande quantidade de novas criações que surgiram daqui e ao ligeiro aumento de público relativamente

ao ano anterior” mas, apesar disso, nota ainda muita resistência por parte do público local no que respeita ao facto das entradas para os espectáculos serem pagas. Projecto cultural aposta no artista local A aposta nos artistas locais ain-

da é escassa e isso faz com que não existam condições para que esses artistas se tornem profissionais e consigam viver só da arte enquanto profissão. Actualmente, “quase todos os artistas locais têm outras profissões que os sustentam e arte é apenas um hobby, sendo que a falta de tempo para ensaiar faz com que sejam necessários vários anos

Tela Leão é presidente da entidade responsável pela iniciativa

“PRESÉPIO GIGANTE DE VILA REAL” Até 7 JAN | Centro Cultural António Aleixo - Vila Real Presépio integra na sua construção mais de 20 toneladas de areia, 4 toneladas de pó de pedra e 2.500 quilos de cortiça

Em 2016 o projecto concorreu ao programa 365 Algarve e este ano, além desse apoio, contou também com o apoio da Câmara de Tavira, que já o tinha feito indirectamente no ano anterior, através do apoio dado às associações locais, mas que este ano foi dado ao projecto, em termos logísticos e financeiros. O número de organizações participantes aumentou este ano para 30: A|NAFA Associação; Academia de Música de Tavira; Agrupamento Escolas D. Manuel; ALFA – Algarve Literature & Film Association; Armação do Artista; ARTE Associação Cultural; Arquivo Municipal de Tavira; Banda Musical de Tavira; Casa Álvaro de Campos; Casa das Artes de Tavira; Casa Fernando Pessoa; Castelo de Tavira; Cineclube de Tavira; Clube de Tavira; Corpo de Hoje - Associação Cultural; Escola Secundária de Tavira; Espaço Cultural Leão da Serra; Fado com História; Farmácia Picoito; Fundação Irene Rolo; Igreja da Misericórdia; Mercado da Ribeira; Oficina Bartolomeu dos Santos; Postal do Algarve; Rádio Gilão; Restaurante Álvaro de Campos; Restaurante Gilão; Sociedade Orfeónica de Amadores de Música e Teatro de Tavira - SOAMTT; Semente de Alfarroba Associação Cultural; Tavira D’Artes. 

“UM MUNDO DE PRESÉPIOS” Até 6 de JAN | Galeria de Arte da Praça do Mar - Quarteira Colecção particular de Anabela Guerreiro, que nos transporta pelo mundo fora através das formas, matérias-primas, cores e inspirações que os artistas plásticos imprimem às suas peças


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Cultura.Sul

Espaço AGECAL

Gestão cultural: desenvolvimento e internacionalização

Jorge Queiroz Sociólogo – AGECAL

Na escola primária, ainda em pleno Estado Novo, aprendíamos que “Portugal não é um País pequeno” e os professores para o demonstrar exibiam um mapa da Europa. Ao continente, a que chamavam “metrópole”, colavam as “províncias ultramarinas portuguesas”. No mapa assim idealizado a Europa era toda portuguesa até fronteiras da URSS. Percebi mais tarde que Portugal, do ponto de vista cultural, é um grande País com enorme potencial de intervenção global, mas com uma política cultural pequena. Vejamos: A língua portuguesa é falada nos cinco continentes por cerca de 290 milhões de pessoas. Um idioma com uma expressão universal maior que o francês, o alemão, o italiano ou o russo, possuímos a quinta língua mais falada no planeta. Monumentos planeados e construídos pelos portugueses

na África, Ásia, Américas estão classificados pela UNESCO como património mundial. Se analisarmos a influência da componente imaterial da cultura portuguesa, nas tradições festivas, simbologias religiosas e profanas, modelos alimentares e convivialidades,

Não será certamente por falta de recursos financeiros ou de pessoas qualificadas e especializadas para desenvolverem programas e acções. É porque nunca se entendeu que a língua e a cultura portuguesas são elementos excepcionais e prioritários na relação com o

uma importante conferencia sobre “Políticas Culturais para o Desenvolvimento”, na qual como primeira conclusão se considerou que “a política cultural é um elemento chave para o desenvolvimento”. Em 2003 a UNESCO adoptou a Convenção sobre o Património Cultu-

sidade biológica”. Sabemos que a acção cultural não se resume aos espectáculos, festivais ou a programas conjunturais para atrair turistas, tendências que actualmente preenchem excessivo espaço orçamental e mediático criando situações de prod.r.

A língua e a cultura portuguesas são elementos excepcionais e prioritários na relação com o mundo o território é infindável. Será que os cidadãos reconhecem e valorizam a importância da sua cultura? O País tem uma política cultural que corresponda à sua relevância no mundo? É óbvio que não tem.

mundo e em todos os sectores, na economia, novas tecnologias, diplomacia e outros, mas também para o desenvolvimento das sociedades. Em Março de 1998 a UNESCO organizou em Estocolmo

ral Imaterial e em 2005 mais de 180 Estados aprovaram a “Declaração Universal sobre a diversidade cultural", na qual se salienta que “a diversidade cultural é para o género humano tão importante como a diver-

fundo desequilíbrio. O número de festivais de música, a maioria de rock e jazz, segundo a APORFEST, registou em 2016 em Portugal um aumento de 18% em relação ao ano anterior, um total de

249 festivais, isto é mais de um “festival” em cada dois dias… A maioria são apoiados ou sustentados por autarquias locais. A área do património e museus, segundo a DGPC, teve um crescimento de visitantes de + 44,5% entre 2011 e 2016, passando de 3,2 para 4,6 milhões, sendo os estrangeiros quase metade. Mas continuam os mesmos problemas de pessoal, manutenção e programas de apoio ao desenvolvimento de projectos novos. A gestão cultural é neste momento uma disciplina incontornável, quer no plano do diagnóstico e da investigação, como na definição de estratégias e de programas prioritários. Uma política cultural adequada integrará como elemento central a formação profissional em gestão dos recursos culturais e a internacionalização. As universidades portuguesas e politécnicos devem quanto antes responder à necessidade de criação de licenciaturas e formação dos quadros profissionais que necessitamos para trabalhar dentro e fora do País. O potencial de recursos culturais disponíveis e o posicionamento de Portugal no mundo requerem novas estratégias e soluções pragmáticas. 

Espaço ALFA

ALFA lança catálogo on-line da Programação 2018 d.r.

Carlos Cruz

Gestor de Projectos

A ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve vai lançar no próximo dia 2 de janeiro o catálogo da Programação 2018, uma aplicação multimédia de consulta, para Tablets e PDF, quando assinala dez anos de existência, como organização cultural. O catálogo vai disponibilizar informação detalhada sobre passeios, levantar a ponta do véu sobre iniciativas no âmbito do turismo ferroviário, as viagens programadas lá fora,

às cidades imperiais de Marrocos e a Cabo Verde, o calendário dos cursos de formação, as exposições e outras atividades. Permite ainda visualizar vídeos, de projetos concretizados no âmbito social, entre outros, fotografias e infografias, que ajudam a perceber o trabalho realizado pela organização e o seu contributo, para o desenvolvimento cultural da região. A aplicação pretende ser uma ferramenta, para que qualquer um possa viajar pelas iniciativas desenvolvidas nesta última década em que sócios e amigos da arte fotográfica, aprenderam a estreitar relações e a construir soluções em parceria. Entretanto, a Associação terminou 2017 com um passeio fotográfico natalício para redescobrir a magia de Monchique. www.alfa.pt 


Cultura.Sul

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Artes visuais

A 'rua' pode ser uma galeria de arte? fotos: d.r.

Saul Neves de Jesus

Professor catedrático da UAlg; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora

No passado, o acesso à produção artística em artes visuais obrigava a que as pessoas fossem a museus ou galerias de arte. No entanto, cada vez mais, nas últimas décadas a arte tem-se vindo a procurar aproximar das pessoas, nos mais diversos domínios e formas de expressão artística, nomeadamente nas performances e na arte urbana. Nos últimos artigos abordámos várias formas de expressão artística que ocorrem no exterior, em particular as instalações, os grafitis, a arte urbana ou “street art” e a arte sobre a paisagem ou “land art”, tendo sido feita referência particular aos trabalhos dos irmãos Patrick e Frank Riklin, de Christo, de Banksy, de Bordalo II e de Vhils, estes dois últimos portugueses que se têm destacado com várias produções artísticas no exterior. No âmbito da expressão artística mostrada no exterior, contribuindo para a democratização da cultura, permitindo o acesso de todos às manifestações artísticas, destacamos neste artigo os trabalhos realizados por JR, jovem artista francês, nascido em 1983. No caso de JR, a base do seu trabalho em arte urbana é a

Foto-instalação de JR junto ao muro que separa os EUA do México fotografia, colocando fotos de grandes dimensões nas ruas de cidades em todo o mundo. Tendo começado na sua adolescência com a realização de grafitis nas ruas de Paris, desde logo encarou a mostra de produções artísticas no exterior como o melhor veículo para permitir dar visibilidade aos trabalhos produzidos. Ele mesmo tem referido que “a rua é a maior galeria do mundo”. Aliás, no seu site refere explicitamente que tem a maior galeria de arte do mundo: a rua. Além disso, considera a arte como um instrumento global de comunicação. Entre 2007 e 2010 expôs trabalhos seus nalgumas das principais cidades do mundo, como Paris, Veneza, Amesterdão, Berlin, Londres, Genebra, Bruxelas, Rio de Janeiro, Shangai, São Diego e Los Angeles, tendo obtido em 2011 o Prémio TED, que procura

Foto-instalação de JR no edifício Hilton Santos, no Rio de Janeiro distinguir “autores de ideias dignas de difundir”, tendo já sido atribuído a figuras como Bono, Bill Gates ou Al Gore. Efetivamente, para além do grande impacto visual

Foto-instalação de JR na pirâmide do Museu do Louvre, em Paris

das obras produzidas por JR, os seus trabalhos procuram expressar ideias com grande valor simbólico e afetivo, tendo uma das suas últimas produções artísticas, em 2017,

consistido na colocação da uma fotografia com cerca de 20 metros de altura de um bebé que olhava por cima do muro que divide os EUA e o México. Esta obra havia sido concebida a partir de um acordar criativo de JR cerca de um ano antes. A obra teve ainda mais impacto mediático porque a sua apresentação foi feita na mesma semana em que o Presidente Donald Trump terminou com o programa que permitia que pessoas trazidas para os EUA em crianças permanecessem no país. A foto foi tirada a um bebé (Enrique Achondo) de um ano, com permissão da mãe deste, na zona de Tecate, na fronteira entre os EUA e o México, tendo sido aí que JR decidiu realizar esta exposição/instalação de arte urbana. A emigração tem sido um dos temas trabalhados por JR, pois já dez anos antes, em 2007, havia colocado fotos de

grande dimensão de palestinos e israelitas cara a cara em oito cidades do mundo, procurando chamar a atenção para o muro que os separa. Dos outros trabalhos realizados por JR destacam-se as centenas de retratos gigantes colocados em Londres, em 2013, no âmbito do projeto “Inside Out”. Por seu turno, entre maio e junho de 2016, “fez desaparecer” a pirâmide de vidro do Louvre, em Paris, ao colocar uma foto que reproduzia a fachada do museu, camuflando a pirâmide quando observada de certos ângulos, criando um efeito de ilusão ótica de invisibilidade da pirâmide. Também em 2016, por ocasião da realização dos Jogos Olímpicos realizados no Rio de Janeiro, criou várias obras expostas nesta cidade, alusivas a atletas olímpicos. Uma delas foi do atleta sudanês Mohamed Younes Idriss, de 27 anos, recordista africano de salto em altura, que ficou de fora nestes jogos por se ter aleijado antes da prova de qualificação. Assim, mesmo sem competir, ele podia ser visto saltando um prédio no Aterro do Flamengo, na zona sul do Rio. Os trabalhos de JR, para além do grande impacto visual, procuram ter impacto comunicacional, procurando chamar a atenção do “público” para certas situações, enquadrando-se na perspetiva da arte visual como uma forma de comunicação que procura, nesta sociedade cada vez mais divergente, criar convergências através das imagens produzidas. 

Foto-instalação de JR junto à "Somerset House", em Londres


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Cultura.Sul

Letras e leituras

Sobreviver ao trauma da memória: Debaixo da Pele, de David Machado

Paulo Serra

Doutorado em Literatura na Universidade do Algarve; Investigador do CLEPUL

David Machado nasceu em Lisboa em 1978 e a sua obra tem sido publicada pela Dom Quixote. O seu Índice Médio da Felicidade, já apresentado no Cultura.Sul, foi adaptado ao grande ecrã, com realização de Joaquim Leitão e participação do autor na elaboração do guião. O livro foi vencedor do Prémio da União Europeia para a Literatura, prémio aliás que abriu portas ao autor, pois levou a vendas de direitos para uma dezena de países, tradução dos seus livros anteriores, a premiação da edição italiana e a participação de David Machado em vários festivais e feiras do livro. Um livro que levou cerca de três anos a ser escrito, conforme se sente na tessitura narrativa, mais burilada, e a procura de uma originalidade no estilo e na forma como tenta cruzar três narrativas diferentes, sem propriamente simplificar a história, cingindo-as a um enredo único. Na segunda parte do livro existe mesmo um jogo literário mais evidenciado, na forma como o autor inova e procura reflectir sobre o processo da própria escrita. Processo esse que «Custa tanto» conforme as suas personagens referem. O autor inova ainda, particularmente na primeira parte, e naquela que é a narrativa mais forte e que mais marcas deixará certamente no leitor, ao adoptar uma voz narrativa feminina, pois as suas personagens anteriores são maioritariamente masculinas. Apesar de inicialmente a voz da personagem de Júlia nos parecer encaminhar para uma história de violência, pelo modo como deixa perceber, gradualmente e sempre de forma ambígua, como esta adolescente terá sido vítima de maus tratos ou de abuso há cerca de um ano, sem nunca se deter propriamente nesse episódio, para que o leitor o capte e veja na sua totalidade, esta jovem irá revelar como se

convive com uma dor profunda, que se tenta camuflar na esperança que adormeça. A história desta adolescente de dezanove anos, emancipada, magoada, que sente repúdio de qualquer contacto físico ao mesmo tempo que, paradoxalmente, sente as lágrimas virem-lhe aos olhos assim que lhe tocam, é um desvelar de como se vive o trauma e a dor, a memória de um acto profundamente doloroso, físico ou emocional, que deixa marcas duradouras e impressões indeléveis, debaixo da pele. Pode até parecer um cliché a forma como uma das constantes da vida de Júlia, mesmo dentro do casulo do seu quarto, ser o barulho constante das discussões acesas do casal vizinho, como um ruído de fundo à história de Júlia, conforme lida com a depressão e o trauma do que lhe aconteceu, e da forma como isso a impele a querer salvar uma menina de cerca de cinco anos, a filha do casal do lado, cujo som de desamor atravessa as paredes e atinge o âmago da dor que Júlia procura disfarçar. Um livro tripartido A primeira narrativa, intitulada «Júlia não está cá», cuja acção se passa em 1994 e é constituída por cerca de 117 páginas, não se lê de ânimo leve, e instaura uma atmosfera opressiva que, no final do livro, se redime um pouco, quando a voz narrativa é a de uma criança. Conforme Júlia agarra em Catarina, nas escadas do seu prédio, e foge com ela por Lisboa, num périplo subterrâneo moderno, entre estações de metro e discotecas, sentimos como é a própria personagem que está à deriva, enquanto tenta salvar ainda a sua infância, a sua inocência, a sua capacidade de (voltar a) confiar tão cegamente no mundo e nos homens e mulheres que o habitam

fotos: d.r.

criança que precisa de ajuda e salvar essa criança torna-se uma prioridade.» (p. 148) Se de início pode haver alguma hesitação entre ler esta personagem feminina como sendo Júlia, perceberemos como na verdade essa criança que Júlia em tempos salvou é afinal Catarina, que se tornou uma espécie de femme fatale, perita em manipular os homens. A perda da inocência

Debaixo da Pele é a mais recente obra de David Machado

como aquela criança que lhe estende os braços incondicionalmente e cujo corpinho encaixa tão perfeitamente no seu colo. É a história de um só dia na vida de Júlia e de Catarina, e que no entanto perdurará no tempo, com consequências que se repercutem nas histórias seguintes, mesmo que indirectamente. Na segunda história, «Notas para um romance sobre uma rapariga que não suporta ser amada», saltamos para 2010. Numa narrativa com cerca de 90 páginas, cuja mancha gráfica é completamente diferente, de modo a fazer jus à designação genérica de «Notas», conheceremos Salomão, nome fictício que o escritor adopta para o seu narrador, isto é, para o eu que conta a sua própria história. Ao exercício de estilo e de estrutura narrativa que David Machado diz querer ter experimentado neste livro, acresce ainda esta técnica próxima da metaficção, em que o narrador, novamente na pri-

meira pessoa, deixa perceber, aos poucos, e sempre de forma muito subtil, como se encontra encerrado em consequência de algum acto cometido. Ao mesmo tempo que pondera como narrar o que lhe aconteceu e que, saberemos no fim, o levou a ser preso, Salomão, esse alter ego do protagonista desta narrativa, vai colocando perguntas a si próprio, ou ao leitor?, de como melhor compor os eventos: «Ela terá na história o mesmo nome que na realidade? É uma questão difícil. Para mim, é importante ser-lhe absolutamente fiel e aos acontecimentos com ela relacionados ao longo de toda a narrativa. No entanto, escrever o seu nome, página após página, ao mesmo tempo que recordo tudo, poderá tornar o relato demasiado doloroso. Não tenho a certeza. Mas sei que nenhuma característica física, psicológica ou cronológica enche tanto de vida uma personagem como um nome.» (p. 123). Mas nunca saberemos o nome dessa personagem feminina sobre quem Salomão fala. E se Júlia nunca fala muito sobre João Tiago, o ex-namorado, Salomão centra-se completamente nessa mulher sem nome que invade a sua casa e a sua vida, fo-

cada unicamente na sua escrita, e com um namorado aparentemente violento. Em simultâneo com o processo de Salomão pôr a nu a sua alma e o processo de escrita em que expõe os factos do que lhe ocorreu, ao mesmo tempo que ele convive com o seu próprio trauma, temos essa rapariga completamente empenhada na sua escrita, como se apenas sobrevivesse do próprio acto da escrita. Por nunca ter nome, o leitor pode sentir uma ambiguidade latente e depois crescente em relação a essa jovem por quem Salomão acaba por se apaixonar irremediavelmente, ao ponto de cegar e ver aquilo que ela o quer levar a ver, manipulando-o a vê-la como uma vítima até que ele próprio resulta numa vítima de um crime passional. «Eram pouco mais de cem páginas sobre um dia na vida de uma rapariga chamada Júlia que, no ano anterior, foi agredida pelo namorado e que, desde então, quer viver o menos possível. Sentir alguma coisa dói-lhe demasiado. Olhar o Mundo obriga a um envolvimento que ela receia. A sua confiança nas palavras e nos gestos de outras pessoas foi devastada. Porém, neste dia em particular, Júlia conhece uma

Na terceira e última parte, «As cassetes do Manuel», uma criança que percebemos ser o filho de Júlia, que aliás já tinha surgido, mudo e muito mais novo, no final da segunda parte, este jovem grava em 2017 umas cassetes com um Walkman, onde narra a sua própria história, entre o ontem e o agora, sentindo-se como houve um momento de cisão em que esta criança se tornou homem aos 11 anos. Pouco mais de vinte anos depois, o tom da narrativa adensa-se novamente, conforme Manuel nos revela como a mãe passou de vítima a opressora, ao tentar salvar mulheres vítimas de violência doméstica mas não é capaz de compreender como a sobreprotecção que exerce sobre o seu filho, e o isolamento a que o destinou, vivendo no meio do nada (Manuel tem inclusivamente ensino doméstico), podem ser tão ou mais nocivos do que deixá-lo contactar com o mundo real por sua conta e risco, para crescer com as suas próprias feridas. Fica a tristeza, quem sabe pouco fictícia, de Júlia não ter sido capaz de sobreviver ao seu trauma, ao mesmo tempo que se deixa uma nota de esperança ao encerrar a narrativa pela voz de uma criança mesmo que aparentemente ele já tenha crescido muito e de repente. Debaixo da Pele é um livro tripartido que conta nas suas várias partes uma história idêntica no seu cerne, a da perda da inocência e do mal que podemos inflingir aos outros. Mal que é capaz de deixar marcas muito mais profundas que a epiderme, muitas vezes impossíveis de sarar, e que podem até repercutir-se nos que nos rodeiam. Mas é também a forma como lidamos com as marcas que nos deixam e aquilo que decidimos fazer em resposta que nos impele ou nos derrota. 


Cultura.Sul

Ficha técnica: Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural

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Espaço ao Património

Património e Música d.r.

Editor: Ricardo Claro Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saul de Jesus • Na Ágora: Adriana Nogueira • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Panorâmica: Ricardo Claro • Quotidianos poéticos Pedro Jubilot Colaboradores desta edição: António Alferes Pereira Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com on-line em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/postaldoalgarve

facebook: Cultura.Sul Tiragem: 5.344 exemplares

António Alferes Pereira Maestro Grupo Coral Adágio

À primeira vista, Património e Música parece-nos um título bem sugestivo para um artigo. Ao analisar mais de perto deparamo-nos com um questão: E música não é património? Claro que é! Há bem pouco tempo o Cante Alentejano foi considerado pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. Estamos habituados a pensar em património associando-o aos vestígios materiais de cultura, isto é, a coisas palpáveis, visíveis, tangíveis. Na grande maioria dos casos, até as próprias línguas - som falado - têm um corpus consubstanciado nas gramáticas, nos dicionários, na literatura. Com a Música a relação é bem diferente. É certo que há cerca de 1.200 anos, com o aparecimento da escrita musical que hoje utilizamos, começou a constituir-se um corpus musical que nos nossos dias é inestimável, por ser gigantesco. É certo que antes disso os povos da Antiguidade Clássica e pré-clássica tinham formas de escrever música que infelizmente ainda não compreendemos na totalidade. É também certo que desde tempos remotos temos indícios de que o Homem sempre utilizou a música. A Música corre-nos nas veias, - pode dizer-se. O problema é que a música não se vê. Podemos fazer uma reprodução do que se vê, mas é-nos mais difícil representar os outros sentidos. É fácil pintar uma paisagem ou desenhar uma casa, mas parece complicado desenhar o som. Não tem corpo como uma estátua ou como um templo. Ainda assim é, nas suas expressões, desde as mais populares às mais eruditas, património! Deste património devem apoderar-se os povos. Que cada um usufrua do seu património é, não só um direito, mas também, e sobretudo, um dever. Temos o dever de tomar nas nossas mãos o património colectivo sob variadíssimas perspectivas. Devemos conservá-lo, admirá-lo, interrogá-lo e recriá-lo. Estas e outras atitudes positivas em relação ao legado dos nossos antepassados, permitem-nos recriar-nos, e reforçar a nossa identidade, desenvolvendo uma panóplia de actividades que, se a imaginação ajudar, nos pode abrir horizontes vastíssimos. Foi partindo destes pressupostos que propus ao grupo que dirijo concretizar uma acção cultural conjunta, dentro do nosso concelho.

Grupo Coral Adágio protagonizou o espectáculo ‘Da Pré História à Lua Cheia’ no monumento de Alcalar Um grupo coral não tem, à partida, grande relação com um monumento de há cerca de cinco mil anos atrás. A dança, também não parece caber nesta ideia. Mas cabem: tanto a dança, como a música, como a luz. O monumento megalítico de Alcalar consiste num túmulo da pré-história, formado por uma tholos: uma abóbada de pedra solta, rodeada por um murete de contenção e com uma abertura de um dos lados para uma cripta funerária. À frente dessa abertura/corredor, parece ter havido um muro atrás do qual se desenvolveriam, possivelmente, as cerimónias sagradas, vedadas à vista do povo que se juntaria no espaço fronteiro a esse muro. O Grupo Coral Adágio estava na altura a recolocar no seu repertório um requiem, - Requiem, de Gabriel Fauré peça de finais do século XIX e que consiste em composições musicais que acompanham o cerimonial religioso para um defunto. A passagem da vida à morte é um movimento que, embora incompre-

ensível por nós, faz parte da nossa condição de humanos. Nada melhor para exprimir movimento que a dança. A luz e as trevas ou a vida e a morte, são dualidades que a nenhum de nós escapam. A luz, e a sua manipulação com as técnicas de que hoje dispomos, pode oferecer-nos magníficos espectáculos de raras contemplações. A acrescentar a todas estas ideias, junta-se o facto de que, cada vez mais, necessitamos de actividades culturais que extravasem o grupo onde são desenvolvidas e se cruzem, de forma multidisciplinar, estimulando-se mutuamente e obrigando a um convívio desejável que cria novas sinergias. O espectáculo que se desenvolveu na noite de 27 de Maio, em Alcalar, quis proporcionar, a quem assistiu, uma viagem de cinco mil anos. O monumento megalítico, a luz, a dança e o som abarcaram um arco temporal de cinco mil anos. E levanta, nos espíritos mais perspicazes e atentos, questões pertinentes. A Arte não deve servir só para contemplar. Tem de recriar, interrogar, desinquietar ou ded.r.

Espectáculo proporcionou uma viagem de cinco mil anos

sassossegar, como diz o poeta. O que é a memória? Quanto tempo dura? Que forma é esta de estar? Que relação temos com o Tempo? com o espaço? Quem sou eu? Porque não? Por quanto tempo levarei flores à campa dos meus antepassados? Há regras para isso? Há costumes? O que é o luto? Porquê? Para quê? Não deverei levar flores aos meus antepassados de há cinco mil anos? - Porquê? Nunca os conheci! dirão. Mas também Camões eu nunca conheci e, ainda assim, o homenageio depositando coroas de flores na base da sua estátua, para comemorar o hipotético dia da sua morte! Também Fauré eu nunca conheci e no entanto canto a sua música. Mas Camões escreveu obras fundamentais da nossa cultura. Fauré é reconhecido internacionalmente pela qualidade da sua música. E os construtores do monumento? E os seus arquitectos? e quem lá foi sepultado? Que Homens foram? Que feitos praticaram? Porque chegaram até nós desta forma, em forma de pedra? Foi por tudo isto que propus a realização de um concerto junto a um monumento megalítico com cinco mil anos, executando obras de Fauré com cerca de 150 anos; foi por tudo isto que incorporei o movimento da dança, tão bem expresso pelas seis alunas da professora de dança Nilsen Jorge. Foi esta a razão da utilização das luzes e das actuais tecnologias. Resta-nos dar relevo a todos nós, Homens de hoje, que participámos no evento cantando, dançando, iluminando, tocando e assistindo... Fica-nos a memória. Impõe-se agora pensar, reflectir, perpetuar. Se isto aconteceu, a nossa apropriação de um monumento, criou arte que cumpriu a sua função: Fruir e fazer pensar. E claro, o desejo de mais. 


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Cultura.Sul

Marca d'água

Para uma dinâmica turística assente na herança e inovação

Maria Luísa Francisco Investigadora na área da Sociologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

luisa.algarve@gmail.com

AGENDAR

A preservação da memória e das tradições dos antepassados formam um legado que pesa na construção social da herança cultural e da memória colectiva. Essa redescoberta da memória, da tradição e da identidade, tem uma autenticidade que facilita a criação de atractivos turísticos. Permitir a experiência turística, desde que de forma sustentável, valorizando a paisagem, as populações idosas e os seus saberes, reavivando imaginários, pode ser uma mais-valia para todas as partes: para quem visita e para quem é visitado. Os espaços rurais podem permitir a experiência turística sustentável com actividades que vão ao encontro de uma imagem idílica do rural, que creio ainda existir no mais remoto Algarve interior. Segundo a Convenção Europeia da Paisagem, assinada por Portugal e pelos restantes membros do Conselho da Europa, em Outubro de 2000, a paisagem desempenha importantes funções de interesse público no âmbito cultural, ecológico, ambiental e social e constitui claramente um recurso favorável à actividade económica. Ainda segundo a mesma Convenção, o património do mundo rural deve ser entendido e utilizado, tendo em conta todas as suas componentes (paisagem, edifícios, técnicas, instrumentos, saberes-fazer e o próprio homem rural), como um factor de desenvolvimento. O turista que valoriza o turismo de experiências, venha ele para o Algarve ou para qualquer outra região do país, certamente procura a hospitalidade, a dimensão estética, algum entretenimento e a vivência diferenciada. Na procura dessa vivência o turista quer cada vez mais a experiência em que não seja apenas um espectador passivo na sua viagem, mas que seja um actor que participa e vive momentos únicos e que possa contar o que experienciou. Alguns exemplos de actividades

que permitem fruir o espaço através da vivência de novas experiências são: o amassar o pão, colocá-lo no forno, no final degustá-lo ainda quente juntamente com os produtos da região, como os enchidos, o presunto, o queijo, o mel e as azeitonas. As visitas às adegas, destilarias, melarias, lagares, a par da participação em actividades como a apanha do medronho, da azeitona ou da alfarroba. Estas são experiências que permitem um contacto com modos de vida ancestrais e que valorizam a milenar cultura mediterrânica. Será a fruição desses saberes e sabores, enquanto parte do património imaterial, que enriquece a experiência turística. Daí a referência à experiência turística sustentável, em que exista uma redescoberta e interpretação do território rural, com alternativas para o desenvolvimento dos territórios rurais. Em que os recursos sejam valorizados e que possam permitir que a pouca população existente se mantenha nos locais de origem e obtenha alguma rentabilidade na manutenção das suas tradições, e que também lhe permita manter um equilíbrio na sua relação com o passado, o presente e o futuro. Inovação e criatividade O Algarve tem uma excelente oferta turística de natureza e de experiências com actividades muito variadas, tais como caminhadas, passeios a cavalo e de burro, passeios de observação de aves, de borboletas e libelinhas, obser-

fotos: d.r.

ferreiro, o ferrador, o artesão, o latoeiro, o sapateiro. São actividades que não exigem muitos recursos e que transmitem o valor da memória, da aprendizagem e da capacidade criadora. De referir também Loulé Criativo Turismo enquanto oferta organizada que permite à “nova geração do turismo” participar activamente na cultura, tradições e modo de vida dos residentes, em interacção com as gentes e o carácter singular do destino turístico, conforme referido no site do município. A dinâmica dos estrangeiros residentes

Destilaria do Sr. Valério em Monchique foi visitada pela cantora Bonnie Tyler vação de árvores (no Algarve existem algumas árvores centenárias), observação de plantas, como por exemplo de orquídeas selvagens (há uma agência inglesa que traz grupos ao Algarve para ver orquídeas). Principalmente na serra existem muitos turismos rurais e empresas a ter sucesso com estas atividades. Através destas e de mais ideias inova-

Turismo criativo em que através de matérias como a empreita se inova com oferta de novos produtos “PETER PAN - O MUSICAL”

As escolhidas, 9 DEZ | 16.00 série | Auditório de 12, 1994. Municipal Sépia des/ Olhão papel. Col. Centro de Em musical a clássica história doContemporânea menino que queriaGraça Morais Arte ser criança para sempre, assinada pelo escritor escocês James Matthew Barrie

doras, vai-se reinventando os recursos existentes de forma a criar novos produtos, novas ofertas turísticas. Num sector de grande competitividade como este, as empresas devem implementar formas de colaboração no sentido de partilharem experiências, porque a maioria das actividades são complementares. Não basta limitar-se a oferecer o que a natureza e história dão, é necessário trabalhar no sentido de criar produtos inovadores e dinâmicos, ofertas de valor acrescentado, onde a participação e a experiência devem ser as componentes mais valorizadas. Ao ter criado em 2013 uma start-up de eventos (particularmente na natureza e em espaço rural) e de serviços (mais direcionados para autarquias) aprendi a valorizar ainda mais as potencialidades do meio rural e a criar novos produtos com base no conhecimento desse meio. Ao longo deste tempo tenho conhecido outros empreendedores, com os quais há bom entendimento e alguma troca de experiências e parcerias. Há iniciativas pouco conhecidas, mas originais e criativas, onde as artes e ofícios são valorizados, tal como tardes em que os turistas portugueses vão ouvir tradições, lendas, mezinhas. Tardes com o

É do conhecimento geral que a cultura e o património configuram importantes âncoras de atracção de turistas, visitantes e novos residentes. Ao mesmo tempo, permitem a requalificação de lugares e a melhoria das condições de vida das populações, principalmente em zonas de baixa densidade. A este nível posso referir que alguns residentes estrangeiros têm dado uma certa dinâmica ao interior algarvio. O Algarve devia apoiar-se mais na comunidade de estrangeiros residentes, principalmente nos que tem ligação com o meio artístico. São no geral pessoas com uma visão bastante ampla, com experiências de vida muito enriquecedoras e dispostas a dar contributos para um Algarve mais criativo. No âmbito da tese de mestrado que defendi em 2002, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, comecei a estudar academicamente estas populações e as suas dinâmicas. Encontrei pessoas com imenso valor e vontade de dar contributos para um Algarve mais aberto ao mundo: desde artistas, diplomatas, académicos, médicos, terapeutas, escritores, etc. Aproveito para sugerir a visita à exposição de pintura de Grünter Grass, romancista, dramaturgo, poeta, intelectual, e artista plástico alemão, que foi vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1999 e que tinha casa no Algarve, no concelho de Portimão. A exposição será inaugurada hoje, dia 8 de Dezembro, e ficará patente até dia 4 de Março 2018 no Museu de Portimão. Voltarei a esta temática do trabalho de investigação sobre estrangeiros residentes no Algarve, numa outra edição do Postal do Algarve. 

“PRESÉPIO VIVO DE ODELEITE” 16 e 17 DEZ | Aldeia de Odeleite Mais de 50 figurantes trajados à época, artesãos e produtores do concelho integram uma das mais fiéis e belas recriações do nascimento de Jesus


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Cultura.Sul

Na Ágora

Na Ágora: uma nova idiossincrasia

Adriana Nogueira

Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

A página que se começou por chamar Livros.S e, depois, Da Minha Biblioteca faz agora uma pausa. Ao longo de pouco mais de sete anos escrevi 85 artigos de promoção de leitura. A intenção era partilhar o modo como lia e interpretava alguns livros que, em diversas fases da minha vida, me tinham interessado por diferentes razões. Foi um desafio que me deu muito prazer e que, espero, também tenha sido do agrado dos leitores. Porém, ao atingir os sete anos, pensei que era altura de mudar. Tendo o editor do Cultura.Sul aceitado esta minha vontade e, generosamente, mostrado interesse em que eu continuasse a escrever aqui, propus-lhe o seguinte: uma página menos espartilhada na temática, onde pudesse registar algumas reflexões sobre o fascinante mundo da antiguidade greco-latina, sempre em contacto íntimo com este mundo, onde vivemos. Porque não estão nada, nada longe. Lembro-me muitas vezes da frase que George Santyana escreveu, em 1905: «Those who cannot remember the past are condemned to repeat it» (The Life of Reason, I. 12), isto é, «Aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo». Mas esta não será uma página passadista. Será uma página que reconhece que no passado há muito para aprender sobre o presente. Ou que entenderemos melhor o presente se reconhecermos o passado.

na. Muitas foram as ideias que tive, mas a que mais se aproximou da noção de espaço aberto, onde se cruza muita gente, de muitas culturas, onde se fazem novas amizade, onde os conhecidos se encontram, foi Na Ágora. A ágora era a praça central das cidades gregas. Era aí que a vida coletiva palpitava. Era aí que os cidadãos se reuniam, cumpriam com os seus deveres religiosos (os templos iam sendo erguidos nas suas proximidades), faziam compras no mercado, debatiam informalmente os assuntos do governo, que a todos dizia respeito. Em grego, cidade diz-se pólis (que já faz parte do nosso vocabulário e escreve-se assim mesmo), de onde vem o adjetivo politikós, que deu o nosso «político», que significava o que dizia respeito aos cidadãos. Apesar de haver outros espaços para mercadejar, esta praça pública, por ser um lugar de passagem e com muita atividade, era o preferido dos negociantes. Conta-se, mesmo, que Sócrates, de quem Platão foi discípulo, ao passar pela ágora, «quando reparava na quantidade de coisas que havia à venda, dizia para si próprio: “De quantas coisas eu não tenho necessidade!”. E recitava continuamente estes versos: “As travessas de prata e as roupas de púrpura/ são úteis para os atores trágicos, não para a vida.”» (tradução minha de Diógenes Laércio, autor grego do séc. III d.C., conhecido

fotos: d.r.

Fórum da cidade de Pompeios, com o Vesúvio ao fundo (Itália) por ter escrito Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres). Sócrates insurgia-se contra o consumismo, o acumular de bens desnecessários para a vida. Conta-se também (podemos ler no mesmo Diógenes Laércio) que, quando Alcibíades lhe deu um terreno muito grande para que construísse uma casa, recusou, por achar um desperdício, dando o seguinte exemplo: «Se me fizessem falta umas sandálias e, para que eu fizesse as ditas sandálias, me desses uma pele inteira, também seria ridículo se aceitasse».

No mundo romano havia também um espaço equivalente à ágora, que era o fórum (em latim apenas não tinha acento). Também ele era o centro da vida das cidades: desde as atividades mais solenes (como as religiosas), passando pelas civis (relacionadas com a política), e as mais corriqueiras e mundanas, como os mercados e os divertimentos. Uma curiosidade etimológica: o adjetivo latino civilis é da mesma família de civis, o substantivo que quer dizer «cidadão». Portanto, politikós e

O título

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Houve, depois, que decidir o nome a dar a esta nova pági-

Ágora de Atenas vista da Acrópole (Grécia) “CAMINHOS DA MISSÃO Até 5 de JAN | Galeria de Arte da Praça do Mar - Quarteira Em exposição um projecto missionário de leigos, através da Diocese do Algarve, das Franciscanas Missionárias de Maria e dos Sagrados Corações de Jesus e Maria

civilis queriam dizer a mesma coisa. Nos dicionários de português, a primeira aceção de político é «relativo à política ou aos negócios públicos», enquanto civil diz que é «relativo ao cidadão». Terão os cidadãos passado a envolverem-se menos nos negócios de Estado e a achar que políticos são apenas uns tantos profissionais? Dezembro «Estamos em Dezembro: a cidade está coberta de suor! A ostentação desregrada invadiu toda a vida colectiva. Fazem-se estrepitosamentre enormes preparativos, como se existisse alguma diferença entre o período das Saturnais e os dias úteis. O facto é que não há qualquer diferença, e por isso mesmo acho que tem toda a razão quem afirma que se Dezembro em tempos foi um mês, agora é um ano inteiro». Como as aspas o denunciam, o texto não é meu. Nem é de agora. Tem quase 2000 anos. O seu autor, Séneca, nasceu aqui perto, em Córdova, poucos anos antes de Cristo. Foi viver para Roma, onde morreu,

no ano 65 d.C. Tutor e posteriormente conselheiro de Nero, foi por este forçado a cometer suicídio, por suspeita de participação numa conspiração contra a vida do imperador. Entre a sua variada obra, encontram-se estas Cartas a Lucílio (de que já aqui falei), escritas nos últimos anos da sua vida. A transparente tradução que citei é da autoria de José António Segurado e Campos, professor catedrático jubilado de Literatura Latina (da Universidade de Lisboa), de quem tive o privilégio de ter sido aluna, e diz respeito à Carta 18. A edição é da Gulbenkian e o preço muito acessível. Segurado e Campos, numa nota à Carta 12, explica: «Por ocasião das Saturnais (Saturnalia), antigas festas do calendário romano celebradas por volta de 17 de Dezembro de cada ano em honra de Saturno, era costume haver troca de presentes entre amigos, e mesmo, como é aqui o caso, entre senhores e escravos». Não querendo promover o consumismo (que Sócrates me perdoe!), será um excelente presente de Saturnal. Ou de Natal. 

“PRESÉPIO DOS BOMBEIROS DE ALBUFEIRA” Até 8 de Jan | Parque de Viaturas do Quartel dos Bombeiros de Albufeira O mundo inteiro num Presépio de 75 metros quadrados que, à semelhança do seu mentor, S. Francisco de Assis, apela à fraternidade e à solidariedade entre as pessoas


Última Quotidianos poéticos

Mariano Alejandro Ribeiro fotos: d.r.

Pedro Jubilot

pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

Mariano Alejandro Tomasovic Ribeiro nasceu em Buenos Aires, em 1993. Aos dez anos a sua família deixou a Argentina e estabeleceu-se em Portugal. Estudou em várias Universidades, passando pelos cursos de História da Arte, Medicina e Psicologia, tendo uma licenciatura neste último e uma pós-graduação em Teoria da Literatura. Colaborou em diversas revistas literárias como a Sizígia (CanalSonora, 2014), Modo de Usar & Co., Flanzine e Enfermaria 6. Tem publicados os livros “Antes da Iluminação” (Mariposa Azual, 2016), “Carta em fuga para cravo e Drá” (Douda Correria, 2017) e ainda “Cabeça de Cavalo” (Macondo, 2017), este último no Brasil.

Mariano Alejandro Ribeiro já publicou três livros de poesia e depois dou por mim em alturas de muita produção, em que qualquer circunstância, frase, cheiro são o ponto de partida para criar alguma coisa. Fala-nos acerca de coisas dos teus dias em que acontece poesia ou que a faças acontecer. Acho que a poesia está latente em

Consegues escolher o teu livro/ livros de poesia preferido/s? Os mais relevantes? Leio muita poesia, e tento diversificar a leitura de poesia ao máximo, por isso não conseguiria escolher apenas um. Gosto muito dos poetas do modernismo, do T.S. Eliot, do Ezra Pound, do Rilke, do Almada. O Pessoa aborrece-me um bocado. Mas foram eles que deram o primeiro passo para “mundanizar” a poesia, para a tornar do povo, e isso é um gesto de tanta virtude e de tanto valor que é impossível um autor não se deixar influenciar por eles.

Autores que gostas ou que possas dizer te inspiram a escrever? Para além dos que mencionei, provavelmente a poesia americana, do Walt Whitman ao Gary Snyder, o Ginsberg incluído. Na poesia portuguesa tento fugir sempre que posso à influência do Herberto, do Al Berto e do Cesariny, embora goste muito de os ler. Dos nossos poetas contemporâneos a Adília é uma instituição, o Miguel-Manso e o António Poppe também são uma grande influência para mim. Já ninguém usa caneta e papel, quanto mais máquina de escrever,

Ao desafio de Pedro Jubilot: "Escolhe um poema teu para nossa leitura...", o autor argentino respondeu desta forma:

SEI

Como é o teu quotidiano na escrita da tua poesia? A poesia vem por momentos. Podem passar dias, semanas em que não escrevo nem penso em escrever,

tudo, enquanto componente do nosso quotidiano, mas depende muito mais do estado de espírito do poeta, se se deixa (ou não) influenciar pelo entorno e ainda se tem convicção de que determinado verso ou poema vale a pena ser passado ao papel.

As mãos atadas ao almofariz A ponta dos dedos a querer decifrar O morse do quotidiano nas cicatrizes da madeira Distancia-te um pouco desse sol de alvorada Finge-te finnegans ao despertar Sê humildemente A humidade Da terra In Cabeça de Cavalo (Edições Macondo, Brasil, 2017)

que material usas para escrever, como é o processo material da tua escrita? E o imaterial ? Quando me ocorre algum verso que me parece interessante aponto-o no telemóvel, às vezes pode chegar a ser um poema inteiro, mas a maior parte das vezes é só um verso ou palavras que na altura me soam bem. De resto, escrevo sempre, sempre no computador, nunca com caneta e papel. O processo imaterial da escrita é o mais complicado, porque sinto não ter muito controlo sobre ele. Simplesmente acontece e quando a frase que surge na minha mente parece por alguma razão adequada, e aí passo-a a um suporte físico. Quando (dia, hora, estação do ano) escreves ? Sempre e só de manhã. Vícios, manias e segredos contáveis relacionados com a tua escrita … Não mostro absolutamente nada dos meus textos até não estarem publicados e no seu estado final, quer seja impresso ou online. Tirando isso, a minha namorada é a única pessoa que consulto durante o processo de criação, quando não estou completamente seguro sobre alguma coisa. Também não escrevo em público. Que livro de poesia estás a ler ou leste recentemente? Leio sempre poesia em paralelo com algum romance ou livro de não-ficção. Ontem estive a reler o livro 50 Poemas do Tomas Tranströmer, editado pela Relógio D’Água. Antes desse, foi o Obra Gruesa, do Nicanor Parra. 

CULTURA.SUL 110 - 8 DEZ 2017  
CULTURA.SUL 110 - 8 DEZ 2017  

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