CULTURA.SUL 57 - MAI 2013

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

MAIO 2013 | n.º 57 8.893 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve ricardo claro

Juventude, arte e ideias:

d.r.

O futuro começou ontem p. 2

Especial Lídia Jorge: d.r.

A promessa de um instante

p. 6

Espaço Património: d.r.

Alcoutim:

A senhora do Guadiana

p. 4 e 5 d.r.

Patrimónios locais, riqueza regional

p. 9

Espaço ALFA:

d.r.

Perspectivas e linhas de fuga p. 7

Contos de Primavera na Ria Formosa

Acorda

p. 8


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10.05.2013

Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

Lídia Jorge é ‘universal’

Cooperativas… repensar o futuro, agir no presente!

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Todas as razões são boas para escrever sobre um ícone da escrita da região. Exactamente por isso convidei Paulo Serra, um especialista na matéria, para fazer para o Cultura.Sul um Especial Lídia Jorge, publicado em dois momentos, nesta e na última edição. Há coincidências felizes e em plena publicação deste especial eis que a grande escritora algarvia é galardoada na Corunha, Espanha, com o prémio “Escritora Galega Universal”. A Asociación de Escritoras e Escritores em Língua Galega, que atribui a distinção naquela província do norte de Espanha, destaca como razão para atribuir o prémio, o “compromisso ético” da autora com as “causas da dignidade do povo português e por ser autora de uma extensa e intensa obra, valorizada tanto em Portugal como nos diversos países onde está traduzida, na qual a mulher portuguesa ocupa um lugar central”. A filha de Boliqueime, algarvia de nascença, mulher portuguesa e do mundo, vê assim reconhecido, uma vez mais, o seu inegável mérito. O regozijo nacional é em particular algarvio e, no caso concreto, nosso [do Cultura. Sul], enquanto único caderno cultural da região que viu nascer Lídia Jorge. A coincidência do especial que estamos a dedicar à escritor é saborosa no que de incidental tem, mas acima de tudo feliz no momento escolhido para lhe dar destaque. Lídia Jorge é absolutamente incontornável na escrita portuguesa contemporânea e ocupa lugar cimeiro por entre os notáveis da arte da pena que desafia o branco do papel e o enche de frases corridas carregadas de sentido e de viveres numa arte sem paralelo. Mais razões houvesse, porque Lídia Jorge é em si mesma uma razão para se destacar em qualquer momento.

Ana Lúcia Cruz Gestora de Ciência e Tecnologia no CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg

nha direito a ser emoldurado e colocado na parede). Afinal, as cooperativas não são coisa do passado e até representam uma boa resposta aos desafios do presente, apoiando a construção de um futuro sustentável. Claro que não coloquei o modelo empresarial de parte. Simplesmente reconheço e va-

candidatar-se a sistemas de incentivos e ainda têm sistemas de incentivos para as suas atividades, tais como a Coop Jovem e a Social Investe. Também achei que as cooperativas não eram para jovens e que não passavam de modelos de negócio obsoletos. A verdade é que as cooperativas são uma d.r.

“O modelo cooperativo embora tenha que sofrer reformas do ponto de vista jurídico e organizacional, e os princípios cooperativos em que assenta (…) pertencem mais ao futuro...”. Eduardo Graça, Presidente da CASES A ideia geral que tinha, antes de integrar o projeto ICS – as PME e a Economia Cooperativa para o Desenvolvimento Local no Espaço Mediterrâneo, sobre as cooperativas era que estas estavam em decadência e eram coisa do passado. Confesso que, na altura, também não fiz muita questão em explorar muito mais o tema e dedicar-lhe o tempo merecido. Com o ICS descobri que se a ignorância fosse certificada, mais valia passar das molduras diretamente para papel de parede! (Sim! Eu sou do tempo em que cada certificado ti-

lorizo os princípios sociais do modelo cooperativo, que nada estão ligados a ideologias políticas como muitos pensam. Outra ideia preconcebida que constatei estar incorreta era a de achar que as cooperativas não se podiam candidatar aos sistemas de incentivo, pois costumo associá-los às empresas. Mas não só as cooperativas são empresas como podem

oportunidade e um modelo de negócio a pensar em adotar, independentemente do setor de atividade. A prova disso são as boas práticas identificadas pelo projeto ICS, o esforço contínuo do projeto Geração Coop e da CASES - Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, na promoção e renovação da imagem das cooperativas, através de uma

imagem e comunicação mais jovem, atrativa e clara. A frase de Eduardo Graça agrada-me, pois diz muito acerca das cooperativas e daquilo que tenho vindo a aprender nos últimos tempos. De facto, o modelo cooperativo no nosso país precisa de ser revisto, contudo, a sua mais valia assenta sobre os seus princípios cooperativos que orientam para a construção participativa da Economia Social. A questão da sustentabilidade, face à atual crise, também é pertinente. O modelo cooperativo é apresentado como um modelo alternativo ao modelo empresarial capitalista, no sentido em que promove a cooperação e participação entre os vários membros da cooperativa, os valores sociais locais e ainda os valores democráticos. Devo admitir que quanto mais sei sobre cooperativas, mais quero saber. E acredito, cada vez mais, no conceito e nos seus valores. As cooperativas são modelos de negócio viáveis, construídas sobre princípios sólidos de solidariedade social, onde o empreendedorismo individual dá lugar ao empreendedorismo coletivo, assegurando assim produtos e/ou serviços mais competitivos num mercado cada vez mais global, onde até as empresas reforçam os seus laços de cooperação.

Juventude, artes e ideias

O futuro começou ontem Elisete Duarte Santos Professora bibliotecária

Ao longo de vários anos, as Bibliotecas têm vindo a realizar um trabalho visionário no sentido de dar resposta às necessidades que o presente e o futuro próximo exigem. Um dos principais objectivos deste trabalho foi e continua a ser o de promover uma cultura para a literacia, contribuindo para a formação de

jovens resilientes, participativos, conscientes, empreendedores que reinventem o caminho a seguir. Muitas foram as iniciativas desenvolvidas pelas Bibliotecas no sentido de incentivar os jovens a adquirirem uma postura mais participativa. Em Olhão, são exemplo disso “A Batalha dos Livros” e o “Campeonato de Leitura”, desenvolvidos há vários anos em parceria com estruturas autárquicas como a Casa da Juventude, Biblioteca Municipal e Auditório Municipal. Os resultados deste trabalho não são de quantificação exacta. Porém, gostaria de referir o elevado número de

d.r.

Leitura e literacia alunos, professores, encarregados de educação, que se envolvem em todas estas iniciativas e que acompa-

nham entusiasticamente os representantes das diversas escolas em todas as fases destas actividades. Iniciativas como estas e tantas outras que o J tem vindo a salientar ao longo das suas edições, distinguindo exemplos a seguir, têm contribuído para que, cada vez mais, estejamos esperançosos que o amanhã será mais sorridente, mais próspero e mais positivo. Qualquer que seja a área de domínio é determinante que, no desempenho das suas funções, os nossos jovens sejam os melhores. Para estes há e sempre haverá um futuro próspero.

Ficha Técnica: Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Contos da Ria Formosa: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Ana Lúcia Cruz Ana Oliveira António Pereira Elisete Duarte Santos João Carrolo Paulo Serra Salomé Horta Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 8.893 exemplares


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Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt

O Amor tem destas coisas IPJ | às terças-feiras | 21.30 horas | entrada paga 14 MAI | A CAÇA, Thomas Vinterberg, Dinamarca, 2012, 115’, M/12 21 MAI | IRMÃ, Ursula Meier, França/ Suécia, 2012, 97’, M/12 28 MAI | BARBARA, Christian Petzold, Alemanha, 2010, 105 Mathew Barney, o americano intranquilo Sede da Associação Ar Quente (Galeria Arco) – entrada paga 15 MAI | CREMASTER 1, 1996, 40’ + CREMASTER 2, 1999, 79’ 16 MAI | CREMASTER 3, 2002, 182’ 18 MAI | CREMASTER 4, 1995, 42’ + CREMASTER 5, 1997, 55’ O Filme Francês do Mês Biblioteca Municipal, 21h30, entrada livre 17 MAI | L’ARBRE, Julie Bertuccelli, França, 2010, 100’ Cinema e Justiça Sede CCF, 21h30, entrada livre 30 MAI | NA SOMBRA E NO SILÊNCIO, Robert Mulligan, EUA, 1962, 129’

A Primavera tem destas coisas Pensam que pára por aqui? Nada… porque a Primavera tem destas coisas – chega Maio e desata toda a gente a pensar em dar cinema! Assim, além dos magníficos filmes que podem consultar ao lado – o ciclo do IPJ é todo constituído por filmes recentíssimos, dos quais destacamos o ansiado novo filme de João Canijo, num registo audaz entre a ficção, o documentário e o filme-dentro-do-filme a propósito das peixeiras de Caxinas, o Ciclo Cremaster, bem… dessa obra genial só nos resta dizer Finalmente!, e quanto ao Ciclo Cinema e Justiça, é um dos melhores e mais coerentes que arquitetámos para a nossa sede -, estivemos ainda na Semana Académica, dia 9, e estamos no Complexo Pedagógico da Penha nos dias 9, 22 e 29, para, por iniciativa do Curso de Artes Visuais, oferecermos grandes clássicos de cinema! E ainda não parou, dado que viajaremos para São Brás de Alportel no dia 24 para dar a ver Cadillac Records, o mítico filme sobre blues, integrado que será no… São Blues em São Brás. Ambas as iniciativas são de entrada livre… Ui, que maravilha este mês de Maio! Cineclube de Faro

Cineclube de Tavira

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com d.r.

SESSÕES REGULARES | Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30h 16 MAI | O GEBO E A SOMBRA, Manoel de Oliveira - Portugal/França 2012 (95’) M/12 d.r.

Cena do filme O Gebo e a Sombra 23 MAI | ON THE ROAD (PELA ESTRADA FORA), Walter Salles - França/Reino Unido/E.U.A./Brasil 2012 (124’) M/16 30 MAI | É O AMOR, João Canijo Portugal 2012 (135’) M/12

Ciclo The Cremaster

Espaço AGECAL

As bibliotecas universitárias e o movimento Open Access

Salomé Horta

Bibliotecária na Universidade do Algarve Sócia da AGECAL – Associação de Gestores Culturais do Algarve

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Atualmente as instituições de ensino superior são um dos mais importantes eixos da investigação científica a nível nacional e internacional, financiada ou não por fundos públicos, promovendo a sua divulgação e transferência para o sistema económico e so-

ciedade em geral. Esta informação e conhecimento produzidos, em particular nas áreas científicas, valem milhões. Multinacionais disputam o monopólio do acesso à informação e vendem às próprias universidades, produtoras desse conhecimento, assinaturas de bases de dados e de publicações periódicas por dezenas de milhares de euros ao ano. Por outro lado, a consulta da informação em formato digital cresce de forma exponencial e substitui em grande parte o uso do livro impresso. As revistas científicas em formato de papel morrem e dão lugar a versões eletrónicas. Neste contexto e em defesa do direito à informação e ao conhecimento científico surgem movi-

mentos internacionais visando a democratização do acesso livre aos conteúdos. As Conferências Internacionais sobre a Ciência para o Séc. XXI realizadas em Santo Domingo e Budapeste em 1999, geraram um novo contrato social para a ciência, acesso à informação científica e proteção dos direitos de autor. A Declaração de Berlim para o livre acesso ao conhecimento surge em 2003 e conta atualmente com a adesão de mais de meia centena de instituições a nível mundial, incluindo Portugal, reforçando o papel da internet na divulgação e publicação da investigação científica, motivando os investigadores a publicar a sua produção em repositórios institucionais e revistas de acesso livre.

“SILÊNCIO QUE SE VAI CANTAR O FADO!” 10 e 11 MAI | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Durante dois dias, o centro cultural será o cenário do género musical mais genuíno e representativo da cultura portuguesa - o fado, declarado em 2011 “Património Imaterial da Humanidade”

As Bibliotecas Universitárias mediadoras das bases de dados milionárias assinadas em consórcio, como é o caso da B-on, surgem agora também como as grandes aliadas e dinamizadoras do acesso livre e gratuito à documentação em texto integral, participando ativamente no desenvolvimento dos repositórios institucionais das suas universidades, compilando e disponibilizando em texto integral e acesso livre a sua produção científica. O RCAAP – Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (http://www.rcaap.pt) tem como objetivo a recolha, agregação e indexação dos conteúdos científicos em acesso livre e gratuito existentes nos repositórios institucionais de mais de trinta entidades nacio-

nais de ensino superior e outras organizações na área da investigação e desenvolvimento. Constituindo-se como um ponto importante de pesquisa, localização e acesso a milhares de documentos de caráter científico e académico, nomeadamente artigos de revistas científicas, comunicações de conferências, teses e dissertações. As bibliotecas universitárias na sua missão permanente de gerir e proporcionar o acesso à informação e ao conhecimento, enriquecendo os percursos da sua comunidade académica, assumem um papel neutro rentabilizando todos os recursos disponíveis nesta realidade de contrastes, mediando e orientando os seus leitores neste manancial infindável de opções.

“E SE A PINTURA COLORISSE A POESIA” Entre 17 MAI e 1 JUN | Galeria junto aos Paços do Concelho de Albufeira Célia Jasmim, autodidacta, retrata, através da pintura, as maravilhas da natureza, as cores, os movimentos, os cheiros, a energia, o grito criador da sua alma


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Panorâmica

Alcoutim, senhora do Guadiana Na serra algarvia a grande senhora do Guadiana é Alcoutim. Sede de um concelho com 576 quilómetros quadrados e com uma população total de perto de três mil habitantes, a vila convida a conhecer uma cultura e uma forma de estar e de viver particulares. O concelho é muito mais do que a vila de Alcoutim, são seis freguesias espalhadas por um território de características muito especiais e que se estende desde a fronteira com Espanha marcada pelo rio Guadiana, a este, até aos limites do concelho de Tavira a ocidente e desde o Alentejo, a norte, até a Castro Marim, concelho com que confronta a sul. Estamos em terras do nordeste extremo do Algarve, a paisagem campestre marca a visão feita de montes e vales, semeados de esteva que por esta altura rendilha de branco todo o horizonte. Mas mais do que a paisagem, dura mas absolutamente deslumbrante, o concelho deixa uma marca indelével no visitante pelas suas gentes. A hospitalidade imputada aos portugueses como característica basilar, assume

fotos: ricardo claro

aqui contornos de excelência, numa simplicidade cheia de complexos modos de viver e de estar que fazem dos alcoutenejos senhores de uma desarmante capacidade de conquista. Por entre os montes, aglomerados populacionais de muito pequenas dimensões, que se espalham esparsamente pelo território, a contagem do tempo faz-se com passada exclusiva. O relógio tem por

ali um compasso próprio esculpido pelo afastamento dos bulícios da beira-mar e das terras apinhadas. Os gestos, os sorrisos, os cumprimentos e até o simples bom dia ou boa tarde têm aqui contornos especiais feitos a peito aberto de quem sabe que quem visita Alcoutim o não faz por acidente. Não estamos em terras de

jos sabem-no e reconhecem-no no receber e no estar. A gastronomia e a doçaria feitas de tradições centenárias, passadas de mão em mão, com a oralidade como primado, chamam-nos a provar sabores serranos característicos deste território de fronteira, onde as culturas algarvia e alentejana, portuguesa e espanhola se cruzaram outrora como hoje na criação de um conceito identitário raro a todos os níveis mas muito em particular no palato. A vida feita em grande medida junto ao Guadiana marcou também a gastronomia local com o que um curso de água doce pode adicionar à

passagem, onde o incidental marca a chegada dos visitantes, quem vai a Alcoutim fá-lo com propósito e os alcoutene-

Existência milenar

Antas, menires, tholos e cistas megalíticas são os testemunhos de uma ocupação humana que se presume remontar ao Paleolítico Médio, mas foi a partir do Neolítico, entre 5 mil e 3 mil a.C., que os povos que escolheram as terras de Alcoutim para habitar desenvolveram estas construções que per-

duram até hoje. O grauvaque de que é feito o Menir do Lavajo, o maior do género no país, merece ser apreciado enquanto memória viva de tempos imemoriais. Logo a sul o sepulcro megalítico é outra das testemunhas de uma ancestral ocupação. Muito para além dos monumentos a paisagem envolvente permite a experiência de uma visita histórica a par de um enquadramento de rara beleza natural. Para os amantes destes monumentos que nos levam a viajar a outras eras, os tholos da Eira dos Palheiros constituem mais uma prova do relevo que os povos do Calcolítico davam aos rituais funerários e

à preservação para a posteridade da memória dos respectivos antepassados. Uma história milenar que importa conhecer e entender enquanto património de um Algarve que acolheu outras gentes, outros tempos e outros modos, que são, acima de tudo, a génese da identidade antropológico-cultural dos algarvios.

Um continuum museológico Em Alcoutim, muito mais do que se poder visitar um determinado museu, dedicado a determinada área do património cultural ou edificado do concelho, o visitante está perante a oportunidade de conhecer o concelho através de um roteiro de núcleos museológicos que constituem um verdadeiro continuum museológico. Os núcleos museológicos do Pereiro, de Martim Longo, de Santa Justa, de Vaqueiros, a par do Núcleo Museológico de Arqueologia, situado no Castelo de Alcoutim, das ruínas do Montinho das Laranjeiras e

do Museu do Rio, situado em Guerreiros do Rio, permitem entender a forma de viver e a evolução do ser alcoutenejo. A conservação do património edificado do concelho passa também por aqui com os núcelos a estarem alojados em imóveis que são parte da identidade edificada do concelho. No seu todo os vários espaços museológicos constituem um roteiro discursivo sobre a história das terras e das gentes do concelho nordestino.

arte de bem comer, mas deixou também rasto na vida dos povos, fazendo das gentes serranas, também, gentes do rio. Este outro lado do Algarve, diverso e carregado de diversidade quer-se descoberto por quem procura em terras do sul muito mais do que sol e praia e areais enxameados de turismo, quer-se revelado na calma do tempo que corre sem sobressaltos e vivido como uma experiência única e muito particular. Afinal o desafio é este, descobrir que há um Alcoutim único para cada um de nós.


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A vila, altaneira do castelo até ao rio Do castelo até ao rio, Alcoutim faz-se em socalcos de um casario branco que pontilha a paisagem numa visão de pequena cascata alva que reflecte o sol. A fortificação que alberga o Núcleo Museológico de Arqueologia reserva no interior o contraste entre a força bruta das paredes desenhadas para resistir aos mais rudes golpes e o singelo verde de um espaço verde a convidar ao desfrute. Das amuradas vê-se a espanhola Sanlúcar del Guadiana, a irmã do outro lado do rio, mas acima de tudo podem mirar-se o desenho entrecortado das ruelas características do centro histórico e a paisagem que adorna a vila, feita de relevo que parece desenhado desde sempre para acolher a povoação. A igreja matriz apresenta-se ao

visitante sobranceira ao Cais do Rio e marca o momento alto das edificações de carácter religioso. Há uma calma compassada que desafia o visitante a deixar-se levar até à linha de água, o jardim junto ao Guadiana apela ao estar e brinda o visitante com a frescura das águas correntes, deixando adivinhar no pensamento uma estrada até ao mar imenso do Atlântico. Lugar de destaque para a Casa Baluarte e para a Casa dos Condes, exemplos do edificado de interesse patrimonial da vila.

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Via panorâmica

Mas Alcoutim é principalmente a sua gente, o sorriso, o bem receber, a pacatez de quem sente o correr do relógio de forma diferente. Sente-se junte ao rio com as copas do arvoredo a garantir a sombra, usufrua do que o envolve e reaprenda a calma e a excelência do fruir. No entretanto prove um almariado, o cocktail criado para ser o néctar de Baco das terras alcoutenejas. Amarguinha, licor de figo, mel de Alcoutim e sumo de laranja são os segredos de uma bebida que se quer fresca no servir e no provar e marcadamente algarvia na constituição e no paladar. Um segredo a desvendar numa visita à sede do concelho, ponto de partida de um passeio que sem qualquer esforço se tornará inesquecível, porque Alcoutim marca a diferença num Algarve que se quer e deseja cada vez mais singular e recheado de paricularidades.

Há lá melhor roteiro do que entrar em Alcoutim pela porta grande. A proposta é a de em pleno IC27 sair em direcção a Guerreiros do Rio e dar-se ao luxo de percorrer a velhinha estrada que ladeia o Guadiana. Verdadeira via panorâmica esta via que serpenteia o rio, cruza Guerreiros do Rio onde é obrigatória a paragem no Museu do Rio para conhecer as histórias de uma terra serrana ligada às artes marítimas e no cais local onde um quiosque pede que nos sentemos deslumbrados com o marulhar da água doce que se faz em direcção à foz. Há convites irrecusáveis e verdadeiramente irresistíveis, e há-os em Alcoutim em cada canto e recanto. Há lá melhor razão para gozar o momento do que deixar a própria razão descansar por uns minutos e permitir ao coração tomar as rédeas do tempo, para simplesmente sentir.

Na praia entre a serra O Algarve é para muitos sol & mar e a serra parece à primeira vista pôr em causa a possibilidade de usufruir de um areal convidativo. Desengane-se. Em Alcoutim há areal, há praia e uma muito especial. A Praia Fluvial da Ribeira de Cadavais está plantada numa curva da serra mesmo à saída da sede de concelho. A represa que aprisiona as águas a um nível que permite um espelho líquido de dimensões muito razoáveis, convida a mergulhar

Legenda: Concelho de Alcoutim Alcoutim Martim Longo Pereiro Vaqueiros Montinho das Laranjeiras Guerreiros do Rio Giões

A serra em estado líquido Alcoutim é terra serrana, muito embora os alcoutenejos digam que vão à serra quando saem da vila para paragens situadas mais no interior do concelho. Mas a serra talhada na crueza do sequeiro típico tem em Alcoutim a particularidade de existir também sob a forma líquida. A serra em estado líquido é desenhada por vales recortados na paisagem, onde uma imensidão de linhas de água traçam a paisagem de forma perene e com uma beleza única e indizível. Do grande Guadiana, à incontornável Ribeira do Vascão, passando pelas ribeiras de Odeleite e de Cadavais, a água marca presença um pouco por todo o concelho. Os cursos de água ditam a existência de moinhos e azenhas e parques de lazer à beira de água capazes de deslumbar os visitantes e de responder aos anseios dos turistas em dias de calor. Irresistível é uma viagem de barco pelo curso talhado do Guadiana em direcção a norte e com partida do cais de Aljezur. Atreva-se a conhecer a paisagem natural do maior curso de água do Algarve e deixe-se simplesmente deslumbrar.

para combater o calor numa experiência única em toda a região. A única praia de rio em todo o Algarve tem um parque de lazer que permite escolher entre o areal e a sombra das árvores, entre um jogo de vólei e um momento dedicado a um piquenique, tudo a uma distância do centro da vila que se faz - e deve fazer - a pé, sem cansaços. Diferente, calma, e desafiante aos sentidos de quem está apenas habituado a estender a toalha frente ao imenso azul do oceano. Ir à praia por entre o som das cigarras a recordar o quente do Verão e o chilrear dos pássaros escondidos nas encostas que ladeiam a praia fluvial de Alcoutim é coisa que apela ao pleno dos sentidos numa conjugação quase idossincrática, mas plena de subtilezas que se trazem na memória para recordar. O bronze, esse ganha-se na mesma com um tom exclusivo dos raios de sol burilados pelo ar da serra e assim se aprende que há muito mais do que mar no que toca a idas à praia, há ir a Alcoutim experimentar a praia e ficar com vontade de sempre regressar.


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Especial Lídia Jorge

A promessa de um instante

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

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A noite das mulheres cantoras, o último romance de Lídia Jorge, foi publicado depois de um interregno de quatro anos, tendo sido atribuídos à autora o Prémio da Latinidade, de Escritora Galega Universal, e o Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade do Algarve. A sua escrita reflecte acerca de diversos aspectos sociais, sempre centrada nos problemas da actualidade, sem perder o burilar lento e ritmado de uma linguagem poética, por oposição à arte que se consome fugazmente e não deixa sequelas. Este romance versa o poder do espectáculo e do mediatismo televisivo, designado como «império minuto», oferecendo um testemunho da condição humana, mas, principalmente, da mulher, na qual a própria autora, por vezes, logra reflectir-se de forma autobiográfica. Solange de Matos conduz a narrativa, desfiando o fio da intriga até chegar a um clímax já previsto e, tal como outras protagonistas que assombraram a escrita da autora, é uma personagem cândida, ingénua, com um olhar intocado sobre o mundo, lançada na rede do mal e das complexas relações humanas, mas conseguindo salvaguardar a sua integridade moral. Próximo do final da narrativa e depois de revelado o desenlace não completamente imprevisto que contesta a perfeição de uma noite em que o grupo de mulheres cantoras apareceu na televisão, Solange disserta: «A credulidade é um estado de alma que não se adquire e raramente se perde. Quando se é viciado nessa espécie de não prudência, ela se desfaz e logo se recompõe, persistindo sob a forma de uma natureza intrínseca.» (pp. 302-303). Esta jovem faz o seu ingresso na universidade e na grande cidade, no ano de 1988, data que coincide justamente com a publicação de A Costa dos Murmúrios, vinda da província, onde a família recompôs a sua vida e o seu património, enquanto retornados. Na urbe lisboeta vê-se confrontada

com os subterfúgios e dissimulações de uma boa parte da natureza humana, retratada em Gisela Batista, que se assume como a líder deste grupo de mulheres que a recruta como letrista. Não sendo esta nenhuma comparação inédita, a nossa memória cultural pode remontar ao período de fama das Doce, que como muitas outras bandas dos anos 80, período de frenesim de criação artística, tiveram o seu apogeu e queda, muitas vezes de forma meteórica. A vida parece resumir-se a um instante tão repleto de promessa que raia a eternidade, condensada num momento-chave em que tudo se resume: «Eu tinha a ideia de que aquela noite não era uma noite, era aquele momento circular e totalitário de que falam as pessoas que uma vez estiveram à beira da morte e contam que, num ápice, reúnem numa só paisagem todos os pontos

altos da sua vida, tudo o que viram e experimentaram» (p. 302). O império minuto de Solange e dessa banda é não propriamente a noite perfeita em que reaparecem num espectáculo televisivo, duas décadas depois, para comemorar o seu único disco, mas também a falsa epifania de um grupo de pessoas, «os filhos da década», que atingiu um êxito, efémero, à custa de um incidente, constituindo uma metáfora judicativa de todos aqueles que se consomem na busca do sucesso, ardendo como borboletas nas luzes e nos brilhos da ribalta a que toda uma geração parece aspirar, desde a década de 80, mas mais ainda nos tempos de hoje: «O pequeníssimo mundo minuto em que a Terra se transformou» (p. 299). Hoje, o egotismo tornou-se uma constante dos tempos modernos e, mais do que um sintoma, é considerado e defendido enquanto apaná-

“SHOW NICO” 11 MAI | 21.30 | Teatro das Figuras - Faro Nicolau Breyner apresenta um espectáculo de stand-up comedy intervalado com sketches humorísticos alusivos aos temas que o artista aborda

gio da sociedade, numa geração em que todos criam os seus books fotográficos e mantêm páginas sociais ou blogs onde comentam as mais perfeitas trivialidades, analisando-as como alguma passagem literária de grande projecção. Lídia Jorge traça o rastro da sociedade actual que vive para o imediatismo e efemeridade de um momento de fama, cujo início possivelmente remonta ao boom cultural e social da época em análise neste romance. Solange mantém-se pura apesar do encantamento de estar enamorada, espelhando no seu comportamento uma tradição católica rural, como quando rejeita mergulhar na piscina nua como os demais, naquele que é um dos episódios emblemáticos do romance, retratando a folia urbana e o hedonismo eufórico de um tempo em que se pode dar a volta ao mundo com «um cartão bancário» (p. 203), atitude e possibilidades que terão conduzido, em suma, à crise da actualidade. Essa libertinagem característica de uma sociedade capitalista, obcecada com o prazer estético e com a fruição dos sentidos revela consequências drásticas em João de Lucena, que adoece, e noutra personagem, que falece. De modo paradoxal, há um grande controlo exercido por Gisela Batista sobre as mulheres cantoras, através de dois instrumentos castradores e reveladores, o espelho e a balança, que permitem confirmar se os membros desta girls band se esforçam ao máximo para atingir a perfeição daquilo a que se propõem enquanto artistas, além de que Gisela - apesar de hipocritamente manter uma relação sexual com um homem que diz ser seu pai - lhes exige castidade, para melhor se concentrarem, canalizando toda a sua energia para a sua performance: «sabemos que estamos a passar ao juramento de que nos manteremos concentradas, guardando a nossa libido dentro de um saco bem atado de modo a emprestar essa força explosiva às nossas canções pop-swing» (p.183). Murilo Cardoso, o ex-amigo de Solange surge como contraponto das suas novas relações: «só ele teria escapado à febre de viver, e escutando as notícias

sobre o desconcerto do mundo que nos coubera em sorte, ouvia-o rir (...) Porque eu, ao contrário de vocês, pequenos lorpas, não vivo para mim.» (pp. 312-313). Solange não é escritora mas oferece o seu próprio relato, num romance de forte estrutura e densidade psicológica, transportando o leitor para o interior do seu sentir e do seu viver, numa escrita fluida como um rio, onde somos levados na corrente de consciência desta jovem e não sabemos mais do que ela própria pode descodificar. Um exemplo dessa d.r.

bruno portela

parcialidade na visão dos acontecimentos narrados, de que o leitor não tem posse absoluta, é a sexualidade duvidosa do namorado de Solange: «O brasileiro não desgrudava de João de Lucena - «Como você fica bem, meu bem. Aí encostado, com suas pestanas grandes, você agora é mesmo uma boneca, Lucena, uma linda boneca, desde que está doente.» (p. 301). O que é notável é que o leitor só apreende os factos mediante a focalização toldada de Solange, que vê com o coração, num discurso cujas palavras cantadas e entoadas nunca revelam tudo o que indiciam. Todavia, não deixa de ser premente o tom melancólico do «Epílogo - Para mais tarde». O romance fecha com o cair do pano sobre a solidão de uma personagem desamada, que vinte anos antes sonhava pisar o palco do mundo, compondo mentalmente letras que davam um sentido à vida.

“TEJO-TIETÊ” 10 MAI | 21.30 | Auditório Municipal de Olhão A cantora lusa Susana Travassos e o brasileiro Chico Saraiva, compositor e violonista, carioca radicado em São Paulo, juntam-se no palco para oferecer um concerto de Música Portuguesa Brasileira


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Momento

Passeio por Portimão Foto de Vítor Correia

Espaço ALFA

Perspectiva e linhas de fuga

Ana Oliveira

Membro da ALFA

Agendar

Na fotografia de Arquitectura a composição é um factor relevante e existem elementos que a tornam mais poderosa, são eles as linhas, especialmente as linhas de fuga que criam uma perspectiva. As linhas inclinadas em relação a um plano são designadas de linhas de fuga. Estas reproduzem o efeito de profundidade convergindo para um ponto distante, chamado de ponto de fuga. Perspectiva significa “através de”, surgiu na renascença e era usada na pintura e na represen-

tação. Era um utensílio geométrico através do qual era reproduzida a ilusão da realidade, mostrando objectos no espaço com dimensões e localizações correctas. A fotografia usa a perspectiva captando o jogo de volumes, reproduzindo a realidade tridimensional em superfície bidimensional. Esta permite recriar a espacialidade arquitectónica congelando-a na imagem fotográfica. Como na fotografia de arquitectura não conseguimos mover o edifício para enquadrá-lo na melhor composição e nem sempre captar o edifício no seu conjunto. Cabe ao fotógrafo procurar o melhor ângulo e encontrar a forma mais criativa de captar a estrutura. Caso necessário usar uma teleobjectiva, pois esta minimiza o problema das linhas verticais convergentes e faz com que a câmara não necessite de

d.r.

estar tão inclinada em relação ao assunto fotografado. Poderá também usar lentes especiais, tilt-shift, “olho de peixe”, que distorcem opticamente a captação fotográfica, corrigindo e “endireitando” as linhas, sem que o fotógrafo tenha de se afastar ou procurar outros ângulos. No entanto, se pretende uma foto abstracta de arquitectura pode abusar dos ângulos, acentuá-los, reter um pormenor, captar uma textura, fazer um zoom sobre uma pequena parte do edifício, suscitando interesse e dúvidas ao observador. Este método (close-up) é muito usado, pois permite simplificar a composição onde nem sempre é possível captar todo o edifício no enquadramento, eliminando pessoas, cabos, carros e elementos que interferem na fotografia. Pegue na sua máquina e dê asas à sua imaginação.

“A PORTADA” 23 e 24 MAI | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Uma peça cativante e engraçada da vida boémia em Londres no pós Segunda Guerra Mundial. A acção desenrola-se num bar dirigido por uma senhora desconfiada do mundo inteiro

“ENTRETANTO” 18 MAI | 21.30 | TEMPO - Teatro Municipal de Portimão Marco Rodrigues apresenta o seu segundo álbum, no qual dá voz às palavras escritas por Isabel Noronha, Inês Pedrosa ou Luísa Sobral, entre o fado tradicional e a sua forma progressiva de ver a tradição


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Contos de Primavera na Ria Formosa

Acorda

Pedro Jubilot

pjubilot@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

A mãe Laurinda sai esbaforida, agarrando com força a amarrotada prova do seu desespero. Acelera o passo rua abaixo em direcção à casa da comadre, onde se refugia já lavada em lágrimas. ‘Eu sabia. Só que estava tão contente com o namoro dele com essa moça que ele conheceu lá na universidade. Eu queria acreditar que isso o ia agarrar à vida. Mas o raio do destino suicida dos Paiva já anda aí a pairar outra vez. Ela diz aqui na carta que também se vai matar com ele. Que desgraça Natália! Ele é já o único homem que me sobra da família, o que é que eu faço agora com o meu Alexandre?’ Acorda! Eh! Jovem! Já chegámos. O revisor teve de abanar-lhe o ombro pela segunda vez e com mais força para o conseguir despertar. Se vão para sotavento têm de mudar de comboio aqui, e depressa. A preocupação do zeloso funcionário quanto ao transbordo, era precisamente confirmada através da informação emitida pela voz que se espalhava no exterior da gare através do roufenho altifalante: Atenção senhores passageiros, o comboio que se encontra estacionado na linha nº 2, destina-se a Vila Real de Santo António e vai partir dentro de momentos. A seguir à partida de Faro o comboio começa por curvar uns noventa graus para a esquerda, fazendo com que do lado direito se apresente a ria recortada nos seus formosos canais. Depois, passando o velho apeadeiro da antiga feira de S. Francisco, começam-se a vislumbrar as ilhas. A Deserta, e na outra margem da barra o imponente farol do Cabo de Santa Maria. Uma brisa morna de leste entra pelas janelas ao balanço da velha automotora. O suficiente para enlevar num sono solto qualquer passageiro que tivesse levado toda uma noite em viagem. De olhos fechados perdiam toda uma paisagem desconhecida e deslumbrante. Provavelmente Alexandre e Marisa não desejavam senão esquecer tudo o que lhes suscitasse beleza. ‘Desgraçado! Para onde julgas tu que levas a minha filha?’ O pai de Marisa ameaça-o de morte com uma pistola. ‘Isso! Faça-o! Dispare agora! Acabe com isto de vez. Vá.’ propõe Alexandre. Acorda, devido a uma brusca paragem antes do apeadeiro de Fuseta-A, não lhe permitindo a continuação do

pesadelo. Passados alguns minutos chegam finalmente ao destino que o dinheiro disponível tinha proporcionado no dia anterior, quando se tinham metido num comboio rumo ao sul - mítico lugar de todas as fugas. Mas as estátuas de bronze que ali se exibem no largo em frente à estação, em que um homem e uma mulher se despedem acenando um ao outro, relembrou-os ao que vinham. Convencem um agricultor ali parado numa carrinha de caixa aberta, a levá-los de boleia para qualquer sítio fora da cidade. Apesar da resistência inicial o homem lá acabou por ceder. Mas tinham de ir deitados atrás. O trajecto foi curto, mas deu para reparar que nunca tinham visto um céu assim tão azul e luminoso. Talvez porque nunca tinham estado num ponto tão a sul nas suas curtas vidas. Sentiam-se confortáveis debaixo daquele sol quente e acolhedor. Ficaram num cruzamento. Escolheram o lado da estrada com mais árvores. O objectivo era encontrar um lugar recôndito para pernoitar. Ajeitando o chapéu de xadrez, o bom do homem desejou-lhes boas férias sem supor quais as intenções do jovem casal. Ignorava, as cordas verdes de nylon grosso bem enroladas dentro dos bolsos das mochilas, já prontas a serem laçadas numa árvore à sua medida. Enfiaram por um caminho de terra batida ladeado por cactos que ostentavam estranhos frutos, e que mais à frente desembocaria numa pequena

d.r.

habituados. A viagem até ali fora longa e cansativa. Parecia-lhes mesmo que estavam num lugar muito mais longínquo do que aquele que na realidade correspondia à distância percorrida. As sempre acolhedoras cores quentes do pôr-do-sol ajudaram a dar um toque romântico ao momento. Algo que sempre acontece lá no fundo dos olhos, mesmo daqueles que parecem querer evitar esse tipo de sensações demasiado fotografadas.

céu até que adormeceram algo inesperadamente, dado que iam dormir juntos pela última vez neste mundo, tal como o tinham conhecido. Pela madrugada bem cedo mesmo antes do sol raiar para um novo dia crescer, o seu desígnio teria desenlace. Uma enlutada Laurinda chora copiosamente sobre um pálido mas efusivo Alexandre que deitado no chão, com os olhos muito esbugalhados, lhe diz que está vivo, ‘Estou vivo mãeeee…’ d.r.

praia, à beira ria. Este primeiro embate com tal inesperada beleza natural valeu-lhes como recompensa um sorriso mútuo, nas faces soturnas dos últimos dias. Sentaram-se na areia, deliciados com aquela temperatura de fim de tarde a que não estavam

Ao anoitecer acenderam um pequeno fogo, comeram um naco de pão com queijo e beberam a garrafa de vinho tinto que restara da viagem. À sobremesa fumaram um cigarro de erva que os reconfortou. Ficaram por ali encostados, abraçados, olhando o

Acorda, transpirado e com uma sensação de falta de ar. Depois ouviu o barulho rouco do motor de uma pequena traineira que passava na ria. Quando já estava mais calmo, olhou para aquela criatura a seu lado, admirando a beleza do seu rosto ao luar,

num sono inexplicavelmente tranquilo, para quem queria pôr termo à vida no dia seguinte. E aí, de repente, não conseguia perceber como a poderia ter convencido a ficar sem ela, só porque a amava e alguém não os queria ver juntos. Sentiu-se culpado ao pensar que a levara a embarcar naquela loucura. Pôs a hipótese de se suicidar sozinho mas achou que iria desapontá-la, traí-la. Sentia-se tão atordoado que não conseguia matutar noutra solução. Ainda era muito cedo mas já havia alguma claridade. Esperou ansiosamente que Marisa acordasse, considerando que a ia decepcionar com a sua súbita mudança de plano, assim da noite para o dia, indo no sentido de quebrar o quase pacto de amor e morte. Ela sorriu assim que abriu os olhos. Marisa?! Tenho estado para aqui a pensar. Não sei se… Mas eu sei… sonhei que… percebemos tudo mal. Se me amas como eu a ti, não devemos morrer por isso. E eu só te conheço há tão pouco. Nós não merecemos, Alex. Não fizemos mal a ninguém. Devemos sim é tentar viver o nosso amor. Nessa manhã de Verão ainda sem o ser, foi-lhes revelado um esplendor de vida até então por eles desconhecido, tipo um alento para a renovação do ser - sentimento que a proximidade do solstício traz muitas vezes. Descobriram-se felizes quando não era o que procuravam. Banharam-se nas águas tépidas da ria. Um sorriso natural emergia nos seus lábios. Jamais tinham experimentado um dia tão cheio de serena beleza. Um pescador que por ali andava ofereceu-lhes um peixe que assaram para o almoço. Aquela simples refeição soube-lhes tão bem como se fosse a última. Ficaram à sombra a descansar. Amaram-se como se o amanhã não existisse, pelo menos para eles. Lá adiante, para este, uma igreja ergue-se numa rocha atrás duma muralha branca de cal, virando para poente a sua grande porta verde. Atrás dela um catavento rodava muito lentamente, a espaços. Para norte destaca-se uma cruz no alto de uma capela deixando adivinhar um pequeno cemitério. Ainda assim, apesar de toda a felicidade por ora conquistada, há coisas que por mais que queiramos não se podem deixar de fazer, porque estão forçosamente destinadas a acontecer. Olharam-se e tiveram a mesma ideia lida no pensamento um do outro. A corda! Levantaram-se de repente, e ao mesmo tempo dirigiram-se para as mochilas. Cada um deles prendeu a sua à volta dos troncos de duas árvores próximas uma da outra. Depois esticaram-nas. Assim podiam pendurar a roupa que traziam vestida nos últimos dias e que já precisava de ser lavada. Deitaram-se nus ao sol, à espera que secasse.


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Espaço ao Património

Sala de leitura

Patrimónios locais, riqueza regional

Literatura: uma macieira que dá laranjas

António Pereira

Técnico superior de História

Não sendo natural do Algarve, sempre me foi “estranha”, pela positiva, a tão clara e óbvia delimitação regional do Algarve. Mais me surpreendia o consenso de quem é algarvio. Não existem dúvidas ou hesitações como frequentemente acontece a quem é do “centro”, do Norte e até do Alentejo. São sobejamente conhecidas as razões históricas, culturais e até naturais porque sucede. Erradamente ou não, todos identificam claramente o Algarve, a região e os estereótipos a ela associados. Desde cedo nos foram inculcados as “típicas chaminés”, as açoteias, as casas brancas, os frutos secos, a praia e os citrinos como imagens distintivas

Sempre me fascinou a riqueza, diversidade e autenticidade do património que subsiste, existe e ainda resiste no Algarve, desde a Pré-história até aos nossos dias. A multiplicidade de património histórico, material e imaterial, passando pelo natural que encontramos na globalidade da região é uma riqueza ímpar, e um activo que urge valorizar. A nível local, as entidades, sobretudo as autarquias, esforçam-se (e muito bem) por promover os seus patrimónios, junto da população em geral e escolar em particular e, sobretudo, junto dos visitantes, procurando dar a conhecer a SUA história, as SUAS tradições, a SUA cultura no fundo: o seu património. Mas será que são apenas SEUS? São de facto, mas são-no sobretudo NOSSOS, de toda a região. São partes importantes, cada uma com as suas características distintivas, mas indissociáveis do todo. Entender a sua existência como isolada retira-lhe grande parte do seu sentido. Este trabalho e esforço de cada uma ana ramos

do Algarve. Mas são estes os elementos caracterizadores e definidores da identidade da Região? Certamente que alguns deles o serão, goste-se ou não… Mas muitos outros existem, ainda um pouco na sombra, à espera que alguém lhes aporte a luz necessária. Falo obviamente do património. Ou melhor dizendo: dos patrimónios. Segundo a vox populi “o Algarve é pobre em património”. É o senso comum que impera, mas um olhar mais atento basta para constatarmos que tal não corresponde à realidade. Se olharmos apenas para o património monumental não será, de facto, a região mais “abastada”, mas a relativa modéstia de património edificado é sobejamente compensado pela riqueza dos mais diversos testemunhos e patrimónios que a ocupação por diferentes povos com distintas culturas aqui semearam por vários milénios.

das partes deve, sem dúvida, continuar e persistir, mas é imperativo apostar numa promoção regional integrada: promoção dos patrimónios regionais complementada pelos diversos patrimónios locais e vice-versa. Por que razão não é comum (salvo algumas honrosas excepções e iniciativas pontuais) na visita a um qualquer ponto de interesse patrimonial em qualquer município do Algarve, ter ao nosso dispor um conjunto de informação coerente sobre outros patrimónios, fora do limite geográfico do concelho, que possam ser do nosso interesse? Estas sugestões poderiam e deveriam assentar em diversos canais de informação, começando pelo contacto estabelecido geralmente pelos agentes que directamente lidam com o público. Para tal é imperiosa a sensibilização e formação desses agentes, pois aca-

bam por ser as principais e primeiras fontes de informação a quem o visitante de qualquer espaço cultural recorre. Esta abordagem directa deverá ser suportada por publicações em papel, pois, goste-se ou não, continua a ser o mais apreciado como fonte de informação mas, sobretudo, como recordação… Mas não menos importante é o complementar destes dois com novas tecnologias de informação, que nos oferecem cada vez mais um conjunto de soluções muito interessantes que, de forma instantânea e de baixo custo, permitem um melhoramento contínuo da divulgação, compreensão e exploração dos nossos patrimónios. É necessário olhar, pensar e desenvolver soluções, ofertas e possibilidades para além das rotas pré-definidas, cujo estaticismo limita frequentemente a plena fruição por parte do visitante. Cada vez mais o paradigma da informação prestada e acessível deve passar pela qualidade, diversidade e capacidade de entrecruzamento de interesses. É necessário facultar ao visitante e ao residente a informação. Mas é de primordial importância permitir que este a seleccione, filtre, ordene e organize de acordo com a sua vontade e interesses. Relembrando o célebre provérbio: não se deve dar apenas o peixe para comer, mas sim dar as ferramentas necessárias para pescar. Para tal é necessário sair da política “das capelinhas”, promovendo, divulgando, valorizando, repromovendo os nossos patrimónios como um todo, de forma sistemática, coordenada e integrada entre todos os agentes intervenientes. Um pouco como acontece com as nossas praias, é na beleza, mas principalmente na diversidade, que reside a nossa riqueza. É na capacidade e possibilidade de surpreender sempre quem nos visita com algo novo, sempre com algo mais que vá de encontro aos seus anseios. É tempo de deixar quem nos visita com “água na boca”, com vontade de conhecer mais e com a certeza que tem à sua disposição os meios e recursos para o fazer. É nossa missão transmitir, de forma inovadora e integrada, que temos muito, muito mais para conhecer… As praias são só a ponta do iceberg! É tempo das diversas entidades locais e regionais se juntarem. Os recursos existem, a matéria-prima é de qualidade. Haja então vontade de todos os intervenientes para, juntos, criarem sinergias para transmitirem e valorizarem de forma coerente, sistemática e inovadora a riqueza ímpar de uma região. No fundo, a sua identidade e a sua personalidade. Só assim podemos aspirar a ter um Algarve verdadeiramente rico!

Paulo Pires

Programador do Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

Imaginem uma história com apenas sete palavras: “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá”. Este emblemático e glosadíssimo texto, intitulado “O Dinossauro”, foi criado pelo guatemalteco Augusto Monterroso, que, em 1989, explicava assim como se alcança uma escrita tão económica: “Rasurando. […] Júlio César inventou o telégrafo dois mil anos antes de Morse com a

necessidade de desconstrução de normas preestabelecidas, de releitura(s) e de uma maior “ginástica” imaginativa que exige a convocação de um background metafórico plural e alargado e a associação de elementos de universos díspares – no fundo, a capacidade de ler nas entrelinhas (tão preciosa e urgente nos dias que correm). O poeta alemão Heinrich Heine afirmou um dia: “Não fui breve porque não tive tempo”. Apesar de muitas vezes se associar textos curtos a ideias como superficialidade, simplismo redutor, preguiça mental ou incapacidade criativa, o recurso à brevidade exige claramente “transpiração”, constituindo um desafio muito estimulante para os autores (ao nível da criatividade, originalidade e destreza linguística), mas também para os leitores, visto que a mensagem se encontra geralmente roberto soares

Fascínios e labirintos da escrita breve sua frase: ‘Vim, vi, venci’. E é certo que a escreveu assim por razões literárias de ritmo. Na realidade, as duas primeiras palavras sobram; mas César conhecia o seu ofício de escritor e não prescindiu delas em nome do ritmo e da elegância da frase. Nisto da concisão não se trata apenas de cortar palavras. Há que deixar as indispensáveis para que a mensagem, além de ter sentido, soe bem”. O título deste artigo dá-nos outro exemplo de micronarrativa singular, da autoria de Rui Manuel Amaral. Ambos os textos vêm abalar e questionar as nossas visões convencionais e os cânones oficiais ligados ao que entendemos por Literatura e, neste caso, pelo género “conto”. Não só pela evidente brevidade das duas histórias, mas sobretudo pela panóplia de efeitos que a sua estrutura provoca imediatamente no leitor: inquietação, perplexidade, incompreensão e, consequentemente,

subentendida/sugerida, elíptica, vaga e até paradoxal. Abrem-se assim diversas possibilidades a nível da descodificação do(s) sentido(s) do texto, conferindo à leitura uma estimulante imprevisibilidade em termos de horizonte de expectativa. Gonçalo M. Tavares recorda-nos precisamente o ofício mais difícil: “trabalhar para que o texto seja cada vez mais pequeno e forte. Ganhar força à medida que perde palavras. […] Assim fica mais espaço para o leitor”. Não será esta escrita experimental e depurada uma estratégia atractiva para combater a iliteracia e promover a leitura (como acontece em Espanha e no continente americano)? Podem ler-se facilmente várias histórias nos transportes públicos ou partilhá-las por telemóvel ou na internet (via email ou redes sociais). Digitem “nanoescritas antologia” no Google e desfrutem!


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Cultura.Sul

Aqui há espectáculo

Contra o estertor

As duas últimas décadas trouxeram um incremento notável no número de equipamentos culturais, estruturas de produção artística, número de profissionais dedicados à área cultural e oportunida-

que a cultura e a arte são bens transacionáveis, tomarmos as pessoas como público consumidor é reduzirmos esses bens a uma dimensão unívoca e limitarmos a atividade do público a um ato de consumo. Não devem subsistir dúvidas de que a crise subtrai e a falta de investimento nas artes nos torna a todos mais pobres. Todavia, tem que ser contrariado o triste espetáculo do estertor dos teatros municipais. Com a atividade fortemente condicionada devido aos escassíssimos recursos financeiros disponíveis para o desenho duma programação de qualidade, o

11 MAI | Show Nico, com Nicolau Breyner (teatro/música), 21.30 horas, duração 1h20, preço: 12 € e 15 € 15 MAI | Visitas Encenadas – Atrás do Pano III, Os Cantos Confidenciais, 10, 11.15 e 14.30 horas, duração 1h, preço: 3 € 18 MAI | Do Pecado ao Divino (dança), 21.30 horas, duração: 1h45, preço: 7 € 25 MAI | Oscar’s & Grammy’s, Festival de Hip Hop Dance, 21.30 horas, duração: 2h, preço: 6 €

Destaque

João Carrolo Programador do Teatro Municipal de Faro

Teatro Municipal de Faro Programação: www.teatromunicipaldefaro.pt

11 MAI | Show Nico, com Nicolau Breyner (teatro/música), 21.30 horas, duração 1h20, preço: 12 € e 15 € Show Nico é um espectáculo de stand-up intervalado com sketches humorísticos alusivos aos temas que Nicolau aborda. Pelo meio, Nicolau canta e encanta acompanhado de uma magnífica banda ao vivo e veste a pele de vários personagens satiricamente

criados para retratar algumas temáticas. E com o optimismo que lhe é próprio, Nicolau vai fazer as pessoas perceberem que todas as crises têm um lado positivo. Resumindo, Show Nico é um belo espetáculo para rir muito e bem dispor.

Cine-Teatro Louletano Programação: http://cineteatro.cm-loule.pt

d.r.

Destaque

11 MAI | Al-Buhera canta Amália, Alain Oulman e Ricardo Valério, 21.30 horas, preço: 6 € 16 MAI | “Conversas à 5.ª”, com Toca Tintas (ciclo), 21 horas, duração: 1h10, entrada livre 17 MAI | III Mostra de Teatro Escolar, 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 5 € 18 MAI | “A Lenda de Cássima e o Canto das Mouras” (teatro), 15.30 horas, duração: 50 minutos, preço: 3 € 23 MAI | “Rafa”, “Arena” e “Cerro Negro”, três curtas metragens de João Salavisa (cinema), 21 horas, duração: 1h10, preço: 3€ 24 MAI | III Mostra de Teatro Escolar, 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 5 €

caminho com que nos deparamos é agora outro e é à energia criativa das pessoas que devemos retornar, protagonizando um novo paradigma de criação e produção que não dependa em tão larga medida de fatores económicos. A crise esbate-se quando aos teatros se permitem outras lógicas que não as meramente económicas e se convocam os amadores, os jovens, os desempregados, as famílias para colocarem em prática as incríveis possibilidades de relacionamento que estruturas como os teatros municipais podem ter com a massa viva de pessoas e acontecimentos que existem em seu redor. É às populações que os teatros pertencem; abram-se-lhe as portas para o encontro, para a experimentação, para a aprendizagem em conjunto, para a discussão, para a espontaneidade. A crise combate-se quando se prova o sentido e a pertinência dos teatros.

a nossa tradição oral através do teatro, reforçando o elo que une a nossa identidade cultural com a arte de representar, de fazer música e de entreter, ao vivo e em qualquer lugar.

11MAI | Galo Gordo (música infantil), 16 horas, duração: 1h, preço: 9 € De 11 MAI até 13 JUN | Exposição de Pedro Marques e Pedro Botelho (escultura), entrada livre 15 MAI | II Teatr’ão, 21.30 horas, duração: 2h, preço: 3 € até aos 30 anos, 4 € 22 MAI | O Testamento (teatro), 21.30 horas, preço: 3 € até aos 30 anos, 7 € 25 MAI | Lar Doce Lar, com Maria Rueff e Joaquim Monchique (teatro), 21.30 horas, duração: 1h45, preço: 12.5 € (balcão), 15 € (plateia) 25 MAI | Lar Doce Lar, com Maria Rueff e Joaquim Monchique (teatro), 21.30 horas, duração: 1h30, preço: 12.5 € (balcão), 15 € (plateia) Ao longo de vários meses, Maria Rueff e Joaquim Monchique esgotaram sessões e fizeram rir milhares de espectadores com as atribula-

ções do (inconfessável) dia-a-dia da residência Antúrios Dourados para Seniores de Qualidade. Não vai querer perder, pois não?

TEMPO - Teatro Municipal de Portimão Programação: www.teatromunicipaldeportimao.pt 10 MAI | “Cinemas às 6.ªS – Holy Motors”, de Leo Carax, 21.30 horas, duração: 1h55, preço: 3 € 18 MAI | Marco Rodrigues (música), 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 10 e 12 € 24 MAI | “Cinemas às 6.ªS – Autobiografia de Nicolae Ceausescu”, de Andrei Ujica, 21.30 horas, duração: 3h, preço: 3 €

Destaque

des para a formação nas artes. Foram dados passos grandes e rápidos na construção duma estrutura que começava a ver provada a sua razão de existir na medida em que iam sendo criados os conteúdos que lhe conferiam sentido. Tratou-se sem qualquer dúvida dum avanço civilizacional admirável, aquele em que aos criadores nacionais são dadas as condições para desenvolverem os seus projetos nos novos espaços entretanto criados e às populações é assegurado o acesso a criações artísticas de qualidade. E de repente a crise. Teatros que se esvaziam da sua lógica de serviço público e que a custo e a frio se adaptam à nova conjuntura, apresentando uma programação onde a um espetáculo que persegue apenas uma lógica comercial se segue outro de igual lógica, apenas pontualmente cortada por algum projeto que escapa à doutrina da rentabilidade económica. Embora saibamos

Um projecto da companhia Ao Luar Teatro que visa levar teatro numa carroça às feiras e mercados medievais, inspirados no espírito saltimbanco das Companhias Itinerantes, recuperamos

AMO - Auditório Municipal de Olhão Programação: www.cm-olhao.pt/auditorio

Destaque

Escassos recursos financeiros condicionam teatros

18 MAI | “A Lenda de Cássima e o Canto das Mouras” (teatro), 15.30 horas, duração: 50 minutos, preço: 3 €

18 MAI | Marco Rodrigues (música), 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 10 e 12 € Em EntreTanto, Marco Rodrigues expõe, com intensidade e paixão, a demanda pela profundidade da sua identidade artística e a sua constante busca pelas várias ramificações do fado. São muitos os tons do fado. E são muitos os cantos escondidos dentro da tradição

fadista. Em EntreTanto assiste-se à procura por todas as soluções que o fado pode ter, com o universo feminino presente no grande olhar. Palavras escritas no feminino por diversos autores, a não perder em forma de Música.


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Cultura.Sul

Da minha biblioteca

O último Campaniço

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Acredito que vai chegar o dia em que usaremos uma sinédoque e diremos: «Já leste o último Campaniço?», querendo designar os livros de Carlos Campaniço, um escritor que, discretamente, se está a impor nas letras nacionais. Algarvio por adoção e paixão (aqui estudou Línguas e Literaturas Modernas, na Universidade do Algarve, aqui casou, aqui teve uma filha e aqui trabalha) e alentejano de nascença e coração (natural de Safara, concelho de Moura), iniciou-se na ficção com Molinos, em 2007, seguiu-se A ilha das duas primaveras, em 2009, e agora, em 2013, publica Os demónios de Álvaro Cobra, livro que merecidamente ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada 2012.

trabalhos pesados do campo e da lida da casa, e outra delicada, com a qual borda, costura e faz trabalhos finos. A irmã, Branca Mariana, vive numa cama, com uma febre tal que chega a pegar fogo ao colchão; a água, quando lhe toca a pele, evapora-se. A bisavó, Lourença, festeja 150 anos de vida. O filho, Vicente, é delicado como a mãe (uma jovem cigana), mas de ideias fixas e arrebatado como o pai. A própria terra é especial, pois conseguiu, ao longo de séculos, manter-se um espaço de coexistência de descendentes dos fundadores, oriundos de culturas e religiões que, historicamente, não têm conseguido viver pacificamente. De uma forma discreta e bem inserida no que nos quer contar, Carlos Campaniço enriquece a narrativa com pormenores das culturas árabe e judaica (em parte, fruto do seu conhecimento adquirido no mestrado que realizou na

texto, quer em pequenas e não intrusivas notas de rodapé. Por exemplo, quando relata a lenda da fundação de Medinas, remontando a D. Dinis, diz que foi desenhada por um árabe, com o apoio de, e para nela viverem, outros árabes, com cristãos e judeus: «Sonharam com uma cidade de paz, como em tempos haviam ouvido falar de uma Córdova mourisca, onde judeus, muçulmanos e cristãos, cada um à sua maneira, viviam como iguais e livres. Madinat foi o arabismo escolhido para baptizar seis casas pobres num vale prenhe de estevas e sargaços, para representar a dimensão do seu sonho»; depois, uma nota a Madinat explica que a palavra é um «Nome árabe que designa cidade» (p.88). Suspense discreto: o futuro do pretérito Este é um livro discreto e subtil. Não no tema ou no de-

colocando-os ao serviço da narrativa: paulatinamente, o alternar de tempos e modos vai formando um ritmo. Por exemplo, ao intercalar o modo condicional no meio de imperfeitos, perfeitos e mais-que-perfeitos do indicativo ou do conjuntivo, cria a expectativa de acontecimentos futuros, que nos trazem alguma tranquilidade (ou intranquilidade) na leitura, como se pequenas janelas se fossem entreabrindo no texto, sem nos revelarem se o que é dito terá consequências na trama («Menéndez, um cigano espanhol que aparecia em Medinas para vender remédios haveria de decifrar mais tarde a Álvaro que aquela auscultação sobrenatural da voz dos animais só estava ao alcance de homens predestinados a tornarem-se santos», p. 81) ou se nos está a preparar para o desenlace que se avizinha («Uma manhã, quando Maria Braz acordou e d.r.

cumbir pela causa natural dos vícios humanos», p. 99). Num crescendo uso do condicional (também chamado, certeiramente, de «futuro do pretérito») e do conjuntivo, toda uma página é construída sobre hipóteses sucessivas, começando com «Se», mas que resultarão num «se» irreal (p. 219). Ambientes

«Medinas era uma aldeia como tantas outras no Alentejo remoto dos finais do séc. XIX», lemos, na p.85, contrastando esta naturalidade aparente com as particularidades da terra e dos seus moradores, especialmente as da família Cobra: Álvaro, o protagonista, tem uma força sobrenatural e vive quase em comunhão com o universo (em criança, tinha dores de cabeça por sentir os movimentos de rotação da Terra) e a natureza (compreende o pensamento de animais, tem uma cadela que fala e um melro que canta a horas certas); morre duas vezes e duas vezes ressuscita, e tem conversas com o pai já morto. A mãe, Maria Braz, tem duas mãos desiguais: uma enorme, com muita força, com a qual faz os

Numa aldeia perdida no Alentejo, onde não chegam ecos de quase nada do que se passa no mundo, Campaniço recria o ambiente de uma terra sossegada, sem extremismos religiosos ou políticos, visitada por personagens que a animam de tempos a tempos, com alguma regularidade: uma madame e as suas afilhadas, protegidas por um exótico indiano, que monta uma tenda para amores pagos; um cigano que vende torrão; um outro que vende mezinhas e curas; um anarquista que ensina a ler as crianças e conta histórias. Mas o ambiente é também criado pela natureza que envolve a aldeia e que é, por vezes, personificada e descrita com uma grande beleza de linguagem: «o vento quente,

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Medinas

Carlos Campaniço ganhou o Prémio Literário Cidade de Almada 2012 Universidade do Algarve – que agora, reformulado, se chama Mestrado em Portugal Islâmico e o Mediterrâneo), quer no

senho das personagens, mas do ponto de vista da criação. Carlos Campaniço usa com mestria os tempos verbais

“O GALO GORDO - ESTE DIA VALE A PENA” 11 MAI | 16.00 | Auditório Municipal de Olhão Espectáculo musical infantil, com Inês Pupo e Gonçalo Pratas, que promete muita alegria em palco

viu Rajpur de partida, montado no seu comboio de mulas, teve o pressentimento de que Medinas haveria por acabar de su-

sempre quente, fervido nas noites de Verão, assomava a todas as portas farejando as gentes, subindo as camas, descendo as ruas, voltando-se de repente para apanhar os incautos, salivando o seu furor indómito, a sua raiva de gente, o seu orgulho sazonal: entrava na casa dos ricos, na boca das crianças, nos pulmões estafados dos agricultores, nas ventas dos bichos, nas camisas dos homens» (p. 87). O texto tem de momentos alegres, jocosos, que o tornam muito agradável de ler e que nos ajudam, por momentos, a esquecer a descrição da violência constante da vida; há também ternura por aquelas pessoas, que sobrevivem na pobreza: «Medinas não deixara nunca de ser uma terra pobre, onde se lavavam as caras pelas manhãs com as lágrimas das noites» (p.170). As últimas palavras do livro resumem-no, com simplicidade e intensidade: «sobrará na história um recado humano, de que a alma tem limites para o sofrimento». Carlos Campaniço constrói um livro que se imprime na alma e do qual não é fácil desligar.

“A CAMINHO DA DANÇA” 16, 17 e 18 MAI | 19.30 | Centro Cultural de Lagos Apresentação das diversas coreografias trabalhadas durante o ano lectivo 2012/13, interpretadas pelos alunos e professores da Escola de Dança de Lagos


12 10.05.2013

Cultura.Sul

Espaço cultura

DESCUBRITER: no Trilho dos Descobrimentos Nos séculos XV e XVI, os territórios do Sudoeste peninsular entre Sanlúcar de Barrameda (Cádiz) e o Cabo de São Vicente assumem um papel preponderante nas viagens de exploração protagonizadas pelas nações ibéricas. O investimento feito pelos poderes de então em infraestruturas e equipamentos, e o particular envolvimento dos mareantes algarvios e andaluzes, deixaram marcas profundas no legado cultural desses territórios e propiciaram vínculos culturais, evidentes no património edificado e imaterial das comunidades, que assume hoje em dia um enorme potencial turístico. Nesta perspetiva, e sob iniciativa da sevilhana Fundación Nao Victoria, foi criada uma parceria entre esta, o Turismo do Algarve, a Direção Regional de Cultura do Algarve, a Diputación de Sevilha/Prodetur, a Promosagres e os municípios de Vila do Bispo, Lagos, Palos de La Frontera e Sanlúcar de

Barrameda, beneficiando de uma candidatura a fundos europeus através do Programa de Cooperação Transfronteiriça Espanha – Portugal / POCTEP, 2017-2013. Particularmente no Algarve, o cluster do Turismo / Cultura / Lazer precisava desta aposta de desenvolvimento por parte de parceiros essenciais, implicando entidades públicas e privadas, na criação e dinamização de uma Rota Europeia dos Descobrimentos / DESCUBRITER. Com impacte, direto e indireto, no crescimento económico, na competitividade, no emprego e no desenvolvimento sustentável das regiões abarcadas pelo projeto (Algarve e Andaluzia Ocidental), este procura dar impulso a uma aposta no potencial turístico e cultural do legado da Era dos Descobrimentos. Nestes territórios fortemente marcados pelo segmento turístico do sol e praia como atual motor de desenvolvimento,

d.r.

Nos territórios do Algarve e da Andaluzia Ocidental, fortemente marcados pelo segmento turístico do sol e praia como motor de desenvolvimento de questionável sustentabilidade, a importância e transversalidade da área da Cultura configuram um complemento indispensável à afirmação da identidade e da qualidade mas cuja sustentabilidade cada vez mais se questiona, a importância e transversalidade da área da Cultura configuram um complemento indispensável à afirmação da identidade e da qualidade, ambicionando

abrir uma perspetiva de futuro, em que o legado cultural contribua para a diversificação da base económica e para a coesão social e a inovação. O filão do legado cultural dos Descobrimentos ibéricos permite estabelecer uma plataforma temática ligando o Turismo e a Cultura, de enorme importância para melhorar a capacidade empreendedora e gerar empre-

go na região, possibilitando a criação de novos produtos turísticos com valor acrescentado associados ao património e um aumento de escala na oferta de produtos específicos. Os parceiros envolvidos concretizaram já diversas ações de sensibilização, com destaque para as travessias de promoção a bordo da Nau Victoria (réplica fiel da nau em que Magalhães

e Elcano realizaram a primeira viagem de circum-navegação), percorrendo os portos de Sevilha, Lisboa, Sagres, Málaga e Valência, e marcando presença na última Bolsa de Turismo de Lisboa. A criação de um Portal dos Descobrimentos na internet, a realização de um vídeo promocional, a realização de jornadas transfronteiriças de divulgação da história e das tradições gastronómicas dos Descobrimentos, a capacitação dos agentes envolvidos, constituem primeiros passos na desejável consolidação de uma rota cultural que propicia a qualificação e diversificação da oferta turística destes territórios através da valorização e promoção conjunta do legado cultural dos Descobrimentos. Direção Regional de Cultura do Algarve