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pedro ruas

Da minha biblioteca: d.r.

O Retorno de Dulce Maria Cardoso

p. 11

Grande ecrã:

d.r.

Cineclubes de Faro e Tavira exibem Amour

p. 3

Espaço ALFA:

Exposição:

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Preto e branco é slow

Tavira mostra Dieta Mediterrânica p. 5

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Gosto de poesia e depois... p. 9

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Espaço Cultura:

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MARÇO 2013 n.º 55

Moeda de ouro histórica regressa a casa em Portimão

p. 10

Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO 8.805 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve


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01.03.2013

Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

O brilho dos Óscares

Os dez mandamentos do empreendedor

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Foram esta semana atribuídos os Óscares e o brilho e glamour do cinema regressaram, uma vez mais, aos ecrãs de milhões de pessoas em todo o mundo. A sétima arte mantém a capacidade inequívoca de fazer sonhar, de proporcionar viagens nas geografias e nos tempos, sejam eles reais ou ficcionados, mas o cinema dá também sinais menos positivos, em particular em Portugal e muito em especial no Algarve. Cada vez mais a discussão já não é a da sobrevivência do cinema dito ‘alternativo’ ou ‘não comercial’, face ao cinema de massas ‘hollywoodesco’ e comercial, quando nem este já resiste à crise. As salas de cinema encerram umas atrás das outras no país e na região, sucumbindo aos ditames do cinema visto em casa, em suporte físico ou através de downloads da web legais ou ilegais, em plasmas e sistemas vídeo e áudio cada vez mais sofisticados. A romaria ao grande ecrã é cada vez menor, seja ele o comercial ou dos cineclubes. Os apoios aos cineclubes e ao cinema como um todo, soçobram perante os apertos das contingências orçamentais e para que as populações tenham acesso a esta forma de Cultura vêm agora as autarquias, forçadas, dar apoio à projecção das obras cinematográficas. Pouco, muito pouco, para garantir que a sétima arte mantém lugar merecido entre as formas de expressão cultural por terras de Portugal e dos Algarves. Assim vai a penúria a que se votam as manifestações culturais em muitos casos e que importa denunciar para que não se padeça de falta de alertas para uma situação a que importa pôr cobro atempadamente, pelo cinema e pela Cultura.

Ana Lúcia Cruz Gestora de Ciência e Tecnologia no CRIA - Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg

A crónica de hoje é dedicada à identificação dos dez mandamentos do empreendedor. Qualquer empreendedor, para ser bem sucedido, tem de ter conhecimento dos principais fatores que o vão apoiar no desenvolvimento do seu negócio. O percurso não é fácil, nem igual para todos, mas o empreendedor deve mentalizar-se que, independentemente da atividade, existem linhas de orientação a considerar, as quais identificamos como “Os dez mandamentos do empreendedor”. Estes mandamentos foram alvo de uma profunda e rigorosa análise e não ficavam por aqui. Contudo, e em última instância, poderão invadir o facebook do CRIA com todas as sugestões que acharem necessárias. Os dez mandamentos do empreendedor são: 1) Usarás sempre o teu processo criativo.

Este é gratuito e é a tua melhor arma para tornares a empresa mais competitiva; 2) Elaborarás o melhor Plano de Negócios de todas as “Eras”. Falharás! Mas nada temas, pois a prática faz a perfeição; 3) Estarás atento ao mercado: concorrência, clientes, produtos, redes de distribuição...; 4) Reforçarás a tua

Ficha Técnica: Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro

dores e valoriza-os; 7) Investirás (tempo ou recursos) de forma recorrente na inovação, seja ela de produto, processo e/ou organizacional; 8) Trabalharás de forma contínua na imagem da tua empresa. A imagem vale mais do que mil palavras e representa a captação ou perda de clientes; 9) Apoiarás de ford.r.

rede de contactos, respeitando os compromissos assumidos; 5) Criarás um Plano de Marketing eficiente e não o negligenciarás em nenhum momento; 6) Promoverás um ambiente de trabalho estimulante para os teus colaboradores. Um bom líder é aquele que, entre muitas outras competências, sabe/ aprende a comunicar de forma clara, motiva os seus colabora-

ma contínua a tua formação e a dos teus colaboradores; 10) Trabalharás para o presente, sem nunca comprometer os objetivos futuros. A visão estratégica é alma do negócio. Na realidade, a estes dez mandamentos, podíamos acrescentar muitos outros. Contudo, estes são os principais e não recomendamos que sejam negligenciados. A título de exemplo,

o Plano de Negócios e o Plano de Marketing costumam não ter a devida atenção. O Plano de Negócios, por norma, costuma ser feito numa fase inicial, tendo em vista a captação de financiamento. Mas este é mais do que uma mera apresentação do nosso negócio. O PN permite-nos perceber o que não está a correr bem, quando começamos a ter mais custos do que o esperado. No que concerne ao Marketing, mais especificamente o marketing digital, muitas vezes os conteúdos divulgados através das redes sociais não são coerentes com o Core Business da empresa. Este é um dos erros mais comuns. Por último, gostaríamos de deixar claro, que a fórmula que funciona por vezes com uma empresa, pode não funcionar com outra. Por este motivo é premente “sair da caixa”, que é um excelente exercício para ativar a aprendizagem contínua, tal como recorrer a especialistas. Arrisco, também, dizer que para cada mandamento existe um especialista pronto para dar apoio. O que pode ser crucial, não só para encontrar as melhores soluções para a empresa, como também para rentabilizar ao máximo os recursos disponíveis. Portanto, dez mandamentos igual a sucesso garantido!

Juventude, artes e ideias

Eu nunca desisti

Tiago Peres

Empresário Miau, miau mó/Sagres t-shirts

Hoje vou contar uma história. Era uma vez um rapaz apaixonado pela arte de deslizar nas vagas. Era com uma prancha de bodyboard que entre Olhão e Sagres fazia quilómetros e mais quilómetros à procura da onda perfeita. Não era fácil! A costa sul do Algarve chega a estar se-

manas sem receber ondulação. Apesar das adversidades o sonho não abrandava, ele treinava muito, os seus objectivos eram claros. Aquela vontade de evoluir, a fome de vencer era forte. Começou por se destacar a nível regional. Mais tarde começou a frequentar as praias da zona de Lisboa onde o nível dos atletas era mais alto. Carcavelos, Costa da Caparica, Peniche e Ericeira eram alguns dos locais que serviam de palco para os seus treinos. Passados alguns anos já disputava os lugares cimeiros dos circuitos nacional e europeu. Chegando mesmo a vencer alguns dos seus ídolos. Hoje aos trinta e oito anos

d.r.

Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Contos da Ria Formosa: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Ana Lúcia Cruz João Ventura Miguel Godinho Telma Veríssimo Tiago Peres Vera Teixeira de Freitas Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 8.805 exemplares

As t-shirts da marca e agora empresário continua a colocar o seu empenho, a sua criatividade e alegria no dia-a-dia da sua empresa. O

seu novo sonho. Eu nunca desisti e tu? Não esperes mais, agarra o teu sonho e segue em frente! 


Cultura.Sul

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Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt IPJ | às terças-feiras | 21.30 horas | entrada paga

5 MAR | Holy Motors, Leos Carax, França/Alemanha, 2012, 115’ 12 MAR | Amor, Michael Haneke, França/ Alemanha, 2012, 127’ 19 MAR | Reality, Matteo Garrone, Itália/ França, 2012, 116’ 26 MAR | 4:44 Último Dia na Terra, Abel Ferrara, EUA; 2011, 85’ d.r.

Sede | às quintas-feiras | 21.30 horas | entrada livre 7 MAR | Barravento, Brasil, 1962, 81’ 14 MAR | Deus e o Diabo na Terra do SoL, Brasil, 1964, 118’ 21 MAR | Terra em Transe, Brasil, 1967, 108’ 28 MAR | António das Mortes, Brasil, 1969, 100’

Março é um mês fortíssimo pelas nossas bandas Nem sequer referimos as nomeações – ou o Óscar arrebatado – por Amor, pois isso é o que menos diz desta obra-prima, dura mas sensível, realista e lúcida, sobre um amor como o retratado entre os magníficos Emannuelle Riva (um escândalo não ter ganho o Óscar para Melhor Actriz) e Jean-Louis Trintignant. Basicamente, um amor como todos desejamos para nós. Holy Motors, por seu lado, é um OFNI (objecto fílmico não identificado), indefinível e quase indescritível, no meio de toda a sua erosão, loucura, fantasia, surrealismo, inconformismo e rebeldia. É impossível ficar-lhe indiferente. Também Reality, ao jeito franco e sincero da veia neo-realista italiana, nos confronta com os nossos próprios preconceitos face àqueles cujo principal objectivo na vida é conseguirem participar num reality show… embora, por isso mesmo, se torne um verdadeiro libelo contra o que esse lixo televisivo provoca nos mais ingénuos e carentes. Ferrara é Ferrara, um dos poucos autores da cinematografia norte-americana, e este seu retrato do fim do mundo é uma confissão angustiada e terna do fim dos nossos mundos, os pessoais, tragados pelos vórtices da-

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Cineclube de Tavira

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com SESSÕES REGULARES 7 MAR | O Sabor do Leite Creme, Portugal, 2012 (74’), M/6 Na presença de Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres 11 MAR | Half Nelson - Encurralados, Ryan Fleck, E.U.A., 2006 (106’), M/16, (10 horas, entrada livre) d.r.

Cena do filme Amor queles que, lá fora, se encarregam de destruir os nossos sonhos. Na nossa sede, como habitualmente, às quintas-feiras, optámos por partilhar o enorme Glauber Rocha, unanimemente considerado o maior realizador brasileiro de todos os tempos, mostrando os seus quatro mais relevantes filmes, produzidos na década de 60 do século passado. Cineclube de Faro

11 MAR | CARANDIRU, Hector Babenco, Brasil/Argentina/Itália, 2003 (145’), M/16, (14.30 horas, entrada livre) 14 MAR | Aguirre, Der Zorn Gottes (Aguirre, O Aventureiro), Werner Herzog, Alemanha, 1972 (93’), M/12 21 MAR | Marti, Dupa Craciun (Terça, Depois do Natal), Radu Muntean, Roménia, 2010 (99’), M/16 28 MAR | Amour (Amor), Michael Haneke, França/Alemanha/Aústria, 2012 (116’), M/16

Espaço AGECAL

Por uma paisagem algarvia

Miguel Godinho

Técnico Superior de Património Cultural – Sócio da AGECAL

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O grau de desenvolvimento de um território pode medir-se pelo tipo de apropriação que dele se faz. Os processos de ocupação do espaço revelam a relação entre o meio ambiente e as populações, o modo como estas se distribuem, e dão forma aos seus hábitos e costumes, à cultura e à economia e são fundamentais para perceber o nível de adaptação das comunidades ao território, a sua capacidade organizacional, tendo em conta

que a uma paisagem natural também corresponde, inevitavelmente, uma paisagem humana, económica, cultural. Nesse sentido, a preocupação com a definição dos modelos mais adequados de desenvolvimento para cada território deve ser uma exigência constante por parte de quem nele habita, devendo estes ser revistos sempre que necessário. É fundamental uma reflexão persistente e continuada sobre que caminhos seguir, que orientações, que padrões de apropriação. Para o Algarve, esse trabalho de estudo já se vem a fazer desde há muito tempo, por diferentes instituições, pessoas e disciplinas, com fracos resultados práticos. Não precisamos de ser especialistas – basta percorrermos o território – para percebermos que, em termos de ocupação e gestão do espaço, muitos erros têm vindo ulti-

d.r.

Até meados do século XX, no litoral, as citriculturas e horticulturas complementavam as actividades pesqueiras mamente a ser cometidos, por incúria ou incapacidade de administração, especialmente no que aos últimos 50 anos concerne. Por aqui, a utilização do solo sempre esteve adaptada às necessidades básicas das populações. Até meados do século XX, no li-

“ENSEMBLE DE FLAUTAS DE LOULÉ E CORO DE CÂMARA VOZART” 2 MAR | 18h00 | Convento de Stº António – Loulé No concerto serão interpretadas peças de autores como Tielman Susato, Jacques Arcadelt. Arcangelo Corelli, Georg Philipp Telemann, J.S Bach, Gustav Holst, José Maurício Nunes Garcia, entre outros

toral, as citriculturas e horticulturas complementavam as actividades pesqueiras; no barrocal, era clara a riqueza das quintas, das hortas, do sequeiro e das várias indústrias associadas e, nos montes da serra, as pequenas parcelas lavradas, em terrenos frequentemente roubados às ribeiras, ali permitiam, bem ou mal, fixar as escassas populações. Uma realidade integrada numa escala local, regional, perfeitamente sustentável. Contudo, a partir dos anos 60 e 70, o progressivo abandono dos campos e da agricultura tradicional, um turismo de massas crescente e a decorrente betonização do litoral, a multiplicação de equipamentos a partir de modelos que nada tinham a ver com a realidade do território, foram consentidos por todos, com base numa evolução que se dizia imprescindível. Passados 50 anos e já com uma grande e importante porção de terri-

tório adulterada, assiste-se novamente, um pouco por todo o lado, a uma multiplicação de grandes complexos de estufas – agora, já em alumínio – associados a novas práticas agrícolas de tipo intensivo, altamente intrusivas na paisagem, decorrentes também, é certo, das alterações nas formas de consumo das populações, mas pondo em risco aquilo que desde sempre foi a realidade mais nobre do território: a riqueza da sua paisagem natural, o seu maior activo, até em termos turísticos. É bom que se pense nisto a sério antes de nos lançarmos de cabeça numa nova cantiga de progresso, completamente desligada das necessidades mais próximas (e mais salutares) das comunidades, e onde os riscos se começam já a evidenciar: uma paisagem altamente artificializada, com benefícios apenas para uns quantos e com todos os prejuízos que daí advêm outra vez para a realidade da região.

“OBJETIVO INTERIOR” Até 23 MAR | Galeria de Arte da Praça do Mar - Quarteira Exposição de fotografia e vídeo de Ana Gonzalez, Elsa Ramos, Ana Oliveira e Eduardo Pinto. Quatro olhares, conhecimentos e sonhos, um misto que cada artista reinterpreta


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01.03.2013

Cultura.Sul

Aqui há espectáculo

João Ventura Director Artístico do TEMPO - Teatro Municipal de Portimão

Em 2012 passaram pelo TEMPO 24.333 espectadores que assistiram a 103 sessões, 32 das quais protagonizadas por artistas ou entidades locais. Apostando em parcerias com artistas e produtores, o TEMPO apresentou uma programação diversificada em

é possível promover cultura e entretenimento com sentido. Por isso, nos dias que correm, e mais do que nunca, como forma de afrontar e vencer as dificuldades que a crise nos coloca, acreditamos que programar um teatro municipal deve ser mais do que fazer suceder espectáculos a espectáculos. Daí que a programação do TEMPO, ainda que fortemente condicionada pelos limites e as possibilidades orçamentais cada vez mais reduzidas, mas também pelas ofertas dos produtores e artistas numa lógica de parceria, continue a ser pensada a partir de um pla-

Teatro Municipal de Faro Programação: www.teatromunicipaldefaro.pt

Destaque

Programar um teatro em tempos de crise

2 MAR | SONGS TOUR 2013 (música), Rodrigo Leão, 21.30 horas, duração: 75’, preço: 25 € Rodrigo Leão leva ao palco o seu mais recente trabalho “Songs (2004 – 2012)”, um álbum que reúne canções

5 MAR | Concerto Pedagógico (exclusivamente para público escolar), 10.30 horas, duração 60’ 8 MAR | Comemoração do Dia Internacional da Mulher (dança, fados, música popular e tradicional portuguesa, jazz e folclore), 21.30 horas, duração: 140’, preço: 1 € 10 MAR | Concerto Promenade - Suite Pulcinella, 12 horas, duração: 60’, preço: entre 5 e 10 € 15 MAR | 9º Festival de Flamenco de Faro - Casta Flamenca, com Felipe Mato & Almudena Serrano 21.30 horas, duração: 60’, preço 10 € 16 MAR | 9º Festival de Flamenco de Faro - Luz de Luna, com Oscar de los Reyes & Luna Fabiola, 21.30 horas, duração: 60’, preço 10 € A partir 20 de MAR | Visitas Encenadas - Atrás do Pano III, Os Cantos Confidenciais, 10, 11.15 e 14.30 horas , duração: 60’, preço 3 € De 21 a 23 MAR | DANÇARTE - 10º Concurso Internacional de Dança, 9.30 horas, duração: 120’ (gala), preço: 10 € (Gala)

Cine-Teatro Louletano Programação: http://cineteatro.cm-loule.pt 1 MAR | Miguel Ângelo (música), 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 12 € 5 MAR | “Gala do Desporto”, 21 horas, entrada livre 7 MAR | “Conversas à 5.ª”, com Xana (ciclo), 21 horas, duração: 1h10, entrada livre 9 MAR | “Jasmina Jolie & Orquestra Desvarietées – Cosmopolitan Cabaret” – Vozes de Mulheres, 21.30, preço: 10 € 14 MAR | “Linha Vermelha” (cinema), 21 horas, duração: 1h20, preço: 3 € 16 MAR | “O Deus da Matança”, pela ACTA, 21.30 horas, duração: 1h05, preço: 5 € 17 MAR | “Mucancas – Estória de uma Escola Paga”, de Rui Sena (documentário), 21 horas, 3 € 21 MAR | “Improvisos à 5.ª”, com Sextas à Solta (ciclo), 21 horas, duração: 1h20, entrada livre 23 MAR | “Amália por Júlio Resende” (música), 21.30 horas, duração: 1h, preço: 10 € 24 MAR | “Sininho e o Segredo das Fadas” (cinema), 15.30 horas, duração: 1h15, preço: 3 €

Destaque

d.r.

TEMPO aposta em programação diversificada no de actividades conforme à ideia de espectáculos e acções que mediatizam a comunicação no seio da comunidade em que se insere, combinando o que vem de fora com aquilo que acontece e se cria localmente. Eis porque, a par das programações artísticas contemporâneas de natureza institucional que o TEMPO tem vindo a apresentar desde a sua abertura e às quais pretende dar continuidade agora numa lógica de parceria com artistas e produtores, seja nossa vontade abrirmo-nos, também, a programações amadoras, alternativas, perseguindo uma ideia de proximidade e predisposição para receber projectos artístico-culturais diferenciados que ao invés de conflituarem antes se complementam numa lógica de programação cultural diversificada em géneros, formas e expressões artísticas e pensada para todos os públicos como se exige a um teatro municipal.

27 MAR | “E Tudo o Casamento Levou”, com Maria João Abreu e Almeno Gonçalves (teatro), 21.30 horas, duração: 1h40, preço: 10 € Primeiro começamos por acompanhar este casal em situações banais, situações por que todos já passamos. Depois achamos que eles são extremamente engraçados e rimo-nos a bom rir. Rimo-nos do dia

atribulado do seu casamento, da condução dela, das saídas dele, da maneira como planeiam as suas férias, de como falam dos seus pais, dos seus amigos. Rimo-nos a bom rir de tanto e tão pouco.

27 MAR | “E Tudo o Casamento Levou”, com Maria João Abreu e Almeno Gonçalves (teatro), 21.30 horas, duração: 1h40, preço: 10 € 28 MAR | “Deste Lado da Ressurreição”, de Joaquim Sapinho (cinema), 21.30 horas, duração: 1h56, preço: 3 €

AMO - Auditório Municipal de Olhão Programação: www.cm-olhao.pt/auditorio 16 a 28 MAR | Exposição de Henrique Dentinho – Formosa Ria (escultura) 16 MAR | Mestre André (música infantil) 22 MAR | “Canções – Pedro Abrunhosa”, 21.30 horas

Destaque

géneros, formas e expressões artísticas, pensada a partir das expectativas, necessidades e desafios culturais de diferentes segmentos de públicos, cruzando o que veio de fora com projectos locais como convém a um teatro de proximidade em que a comunidade se revê. Uma programação artística e cultural, ainda, que visou a promoção de qualidade de vida com sentido, e não apenas como entretenimento, mas como estratégia de criação e sustentabilidade, de civilidade comum, de valores, de estilos e resultados de vida melhor, humanistas e solidários. Em 2013, queremos continuar a contrariar a crise fazendo do TEMPO um palco de cidadania cultural, estimulando iniciativas culturais locais, acolhendo propostas cívicas, promovendo parcerias com artistas, pondo em prática ideias empreendedoras de forma a assegurar a sustentabilidade do projecto com base na ideia de que mesmo em tempos de crise

cantadas em inglês que desde Cinema têm pontuado a discografia e ainda três inéditos.

22 MAR | “Canções – Pedro Abrunhosa”, 21.30 horas O Coração dos meus espectáculos tem nome: Canção. E tem uma função: Contar Histórias, minhas e de outros, onde não há heróis nem vilões mas sim palavras que apetece cantar. A Canção bate por si ao ritmo fugaz que atravessa o tempo. Pode ser uma valsa fran-

cesa ou uma arriscada acrobacia de Dylan, mas todas as Canções empurram esse corpo fugidio a que se chama espectáculo para os braços do público. E, assim abraçados, celebramos juntos o pulsar de versos remotos, agora aprisionados pela nossa Voz comum.

TEMPO - Teatro Municipal de Portimão Programação: www.teatromunicipaldeportimao.pt 8 MAR | “Cinemas às 6.ªS – Womens Are Heroes”, 21.30 horas, duração: 1h25, preço: 3 € 9 MAR | “O Bicho da Malha” (teatro), 16 horas, duração: 0h35, preço: 6 € / 4 € (crianças até 12 anos) 15 MAR | “Cinemas às 6.ªS – Uma Vida Melhor”, 21.30 horas, duração: 1h50, preço: 3 € 16 MAR | “Os Reis da Comédia” (teatro), 21.30 horas, duração: 2h, preço: 15 € 22 MAR | “Água – A Seiva da Terra” (música), 21 horas, duração: 1h, preço: 6 €


Cultura.Sul

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Panorâmica

Tavira mostra dieta mediterrânica em exposição fotos: pedro ruas

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A missão de dar a conhecer a importância da participação portuguesa na candidatura transnacional da Dieta Mediterrânica a Património Cultural Imaterial da Humanidade conhece agora uma nova e decisiva fase com a abertura da exposição Dieta Mediterrânica - Património Cultural Milenar, inaugurada no passado sábado, no Palácio da Galeria, em Tavira. A importância da exposição, no âmbito da candidatura apresentada a 30 de Março do ano passado, passa por divulgar o conceito multidisciplinar da dieta mediterrânica e fazer com que os algarvios, e não só, se apercebam, contactem e reconheçam um património cultural que é nosso, mas que se alarga ao conjunto de países e comunidades que partilham o modo de vida mediterrâneo. Numa área geográfica que abrange três continentes, 25 países e 473 milhões de pessoas, há algo que as aproxima numa confluência civilizacional, quer nas formas particulares de vida em comunidade, quer nos usos e costumes, e que se prende com a ideia de uma dieta que é muito mais do que comida, é um modo de vida antes, durante e depois de uma típica refeição. O conjunto de artes, conhecimentos, práticas e tradições que se estendem desde a terra ou do mar até à mesa, desde as colheitas ou da pesca, à preparação e confecção dos alimentos até aos hábitos do consumo da refeição enquanto fenómeno social são paralelos comuns nos países mediterrânicos. A candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade da dieta mediterrânica agora a concurso é composta por Portugal (Tavira), Espanha (Soria), Itália (Cilento), Grécia (Koros), Croácia (Hvar e Brac), Chipre (Agros) e Marrocos (Chefchaouen). No que se refere aos alimentos, o pão, o azeite e o vinho compõem a tríade alimentar mediterrânica por excelência, contudo, a constante presença do pomar de sequeiro com frutos como a alfarroba, a amêndoa ou o figo, os produtos do mar, sejam eles peixe, marisco, bivalves ou moluscos, as hortícolas e leguminosas ou as ervas aromáticas e o próprio mel são também identificados enquanto elementos comuns do regime alimentar

Palácio da Galeria teve casa cheia no dia da inauguração que dá corpo à alargada candidatura. O circuito da exposição é tão transversal como a própria cultura mediterrânica e começa por explicitar o património cultural e as paisagens culturais da região mediterrânica, para depois dar a devida atenção às especificidades da região de Tavira, representante nacional da candidatura, continuando pelas formas alimentícias, desde a serra até ao mar, das colheitas e pescarias à confecção, onde há ainda uma cozinha equipada para workshops culinários representativos da dieta mediterrânica.

netes de seis ministérios deste Governo para que a candidatura entregue a 30 de Março de 2012, na sede da UNESCO em Paris, pela mão do nosso embaixador, pudesse tomar forma”. Para o edil, o objectivo da exposição passa por “mostrar às pessoas o trabalho que estamos a fazer e que nós esperamos que no fim do ano seja o reconhecimento de Tavira como património imaterial da humanidade”. A importância desse

reconhecimento é, segundo Jorge Botelho, “fundamental no futuro da economia local, no âmbito do turismo e dos postos de trabalho para os jovens, porque uma terra que é património da humanidade decerto trará muitos turistas, quer de Verão, quer de Inverno”. Também Jorge Queiroz, que coordenou a candidatura em Tavira, salienta o carácter informativo da exposição, dada “a necessidade de haver um es-

paço relacionado com a candidatura transnacional que pudesse permitir às pessoas ter acesso às várias dimensões da dieta mediterrânica”. Para Jorge Queiroz, a exposição é também “um instrumento que as escolas, os nutricionistas, os médicos e os produtores agrícolas podem e devem utilizar”, adiantando que vão ser organizadas “visitas, workshops e sessões culinárias”. O Cultura.Sul ouviu ainda a directora regional de Cultura, Dália Paulo, que também enveredou pela importância de dar a conhecer este regime alimentar enquanto forma cultural, porque “só faz sentido se for apropriada pelas pessoas, pelos algarvios, que ainda hoje têm este tipo de dieta”. Dália Paulo sublinha “o carácter didáctico da exposição que vai permitir abarcar um leque muito grande de pessoas e sobretudo de jovens e crianças que, com ela, podem apropriar-se, voltar a olhar e preservar a paisagem cultural e a dieta mediterrânica, criando uma consciência que ajudará também a preservar essa mesma identidade cultural”, conclui. A exposição está aberta ao público de terça a domingo, durante, pelo menos o resto do ano, com entrada gratuita para os residentes do concelho de Tavira e preços que variam entre um e dois euros, consoante a idade. Pedro Ruas / Ricardo Claro

Abertura concorrida No dia da inauguração, o Palácio da Galeria contou com casa cheia, com pessoas de todas as idades a marcar presença numa exposição que pretende também ser um testemunho da herança cultural mediterrânica que perdura há três mil anos e que tem sabido ser mantida de geração em geração e que é agora proposta, de forma alargada, a património cultural imaterial. Presente esteve Jorge Botelho, autarca tavirense, que lembrou a responsabilidade de levar a cabo esta exposição no âmbito da candidatura e que resulta “de um esforço de dois anos em que trabalhamos em gabi“ALGUNS ARTISTAS DA TERRA” Até 23 MAR | Galeria Zem Arte - São Brás de Alportel Exposição procura abrir novas perspectivas de interpretação, ao reunir alguns artistas da terra, de quem ali nasceu e cresceu, mas também de quem ali enraizou a vida

Jorge Botelho e Jorge Queiroz “RODRIGO LEÃO” 2 MAR | 21.30 | Teatro das Figuras - Faro Um dos mais reconhecidos compositores portugueses contemporâneos apresenta o seu último trabalho, “Songs”, reunindo canções cantadas em inglês que desde “Cinema” têm pontuado a sua discografia


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Cultura.Sul

01.03.2013

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Momento

Sem fatura Foto de Vítor Correia

Espaço ALFA

Preto e branco é slow

Telma Veríssimo

Formadora na ALFA

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Hoje, ainda encontramos fotografias a preto e branco, feitas a partir de filme e reveladas em laboratório, sobretudo em portefólios com aspirações artísticas. Estranha-se esta opção que implica horas de dedicação e paciência, quando existem alternativas aparentemente melhores. Esta tendência aparece em movimentos que criticam o entusiasmo predador de todos os momentos, facilitado pela generalização do uso da fotografia digital. Os adeptos destas tendências dão por perdida a batalha contra o tempo e a perda de memória, que nos leva a querer registar tudo. Para eles a pressa priva-nos da reflexão. Reclamam o direito ao prazer de fazer, ao envolvimento com o tema e ao respeito pelos assuntos

d.r.

fotografados. Primam a qualidade. Ao lado da palavra fotografia surgem expressões como slow ou zen. Trata-se de uma forma ideológica de encarar a fotografia: fotografar por opção estética, valorizando, não apenas o resultado final, mas todo o processo criativo. Para além do mérito inestimável de salvaguarda da memória, o que conta é o poder transformador e expressivo que uma imagem pode conter: dar a ver de outras formas, suscitar emoções, partilhar ideias, contar histórias. Os autores regressam aos métodos anteriores atraídos pelo lado artesanal, de contacto direto com os materiais, participando de forma ativa em todas as fases do processo. Recorrem ainda ao pin-hole ou aos fotogramas. Encantam-se com as máquinas com história e com as imagens que proporcionam. O preto e branco em concreto tem uma longa tradição, que há muito deixou de se explicar pelas limitações técnicas. No princípio era feito desta forma porque não se conseguia fazer a cores. Agora faz-se a preto e branco e “à antiga” porque se quer e se gosta: funciona, é sedutor e faz lembrar as fotografias do tempo dos nossos avós. “OUVIR A MÚSICA” Até 26 MAR | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira Os instrumentos musicais combinados com uma temática acentuadamente naturalista dão o mote a esta exposição, em que Natallia Yaskevich recorre tanto à técnica de acrílico como ao óleo sobre tela

“CONCERTO ACADÉMICO” 2 MAR | 16.00 | Armazém Regimental de Lagos Os alunos da Academia de Música de Lagos, das classes de canto, cravo e fagote, dos professores Joana Godinho, Elsa Mathei e Emily Mcintyre, respectivamente, vão proporcionar uma audição de final do segundo período lectivo


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Cultura.Sul

Contos de Inverno na Ria Formosa

ArquiMendes

Pedro Jubilot

pjubilot@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

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Francisco Mendes terminou o curso de arquitectura na capital, e o sonho de ter o seu próprio gabinete tornara-se realidade, numa vivenda que o sogro construíra para o efeito, ali em plena quinta do lago, onde os canais da ria formosa se fecham, mas se abre terra a um novo mundo prometido. Por isso lhe dedicou, a citação do famoso inventor grego que ele tanto apreciava: Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo, colocando-a na parede da entrada do escritório. As coisas até nem estavam a correr mal no primeiro ano, mas a sorte começou a sorrir-lhe mais rapidamente quando teve o bonito gesto de convidar para sócios, João Neves, um colega de curso que estava sem trabalho, e Carlos Desidério, um amigo advogado ainda a acabar o estágio. E para isso nem fora preciso mudar o nome inicial da firma ArquiMENDES, já que essa designação empresarial englobava as iniciais dos apelidos dos três amigos/sócios MEndes, Neves & DESidério. Em menos de três anos já tinham sido superadas todas as expectativas em relação às metas a atingir a longo prazo. Em qualquer deles já eram visíveis assinaláveis sinais exteriores de riqueza. Desde velozes e modernos carros a vivendas de luxo, até ao recentemente remodelado atelier. Mas tudo isso implicava muito tempo passado em vertiginosas maratonas de trabalho. Se bem que depois compensado com estadias, embora curtas, passadas em resorts paradisíacos algures no planeta. Numa bela manhã Francisco deslocava-se ao volante do seu novo bmw, quando reparou numa indicação que apontava para uma nova urbanização de condomínio fechado a inaugurar em breve. Lembrou-se que tinha projectado aqueles Refúgios de Sonho dentro de um Sonho, embora já nem fizesse bem ideia onde ficavam localizados. Como ainda tinha tempo para chegar à importante reunião

que tinha nesse dia, decidiu ir ver como tinham ficado as casas, algo que não era habitual fazer. Saiu da via do infante. Passou por duas urbanizações mas nenhuma lhe parecia ter sido desenhada por si. Continuou estrada fora até que entrou por um caminho de terra batida e que terminava numa pequena e sossegada clareira. Mas que sítio tão bonito, foi o que os seus sentidos leram. Cada vez, se torna mais difícil encontrar um lugar assim não habitado, um espaço assim sem casas. Não se ouvia qualquer barulho a não ser o dos pássaros chilreando nas árvores o que aquecia o ar naquele final de inverno. Parou o carro e saiu. Respirou fundo sem esforço. Sentiu-se estranhamente calmo,

char os olhos e descansar, sem pensar em nada, e dormir sem saber que estava a dormir. Sozinho. Chegou mesmo a pensar que queria ficar assim para sempre. Podia mesmo tomar mais uns quantos comprimidos e… Não chegou a fazê-lo. Adormeceu, naturalmente. Mas teria dormitado apenas durante cinco minutos ou uma ou duas horas? perguntou-se. Ligou o telemóvel. Já tinha rede. Estava quase na hora marcada para a reunião e viu que tinha para aí uma dúzia de chamadas não atendidas. Pode um homem de negócios, bem sucedido, permitir-se a chorrilho de pensamentos egoístas e nefastos, nos dias de crise em que vivemos? Não, nem mesmo um pensamento desviante dura para sem-

com o grande negócio que se anunciava para esse dia. O ambiente era de tal modo inebriante que só quando entrou na sala grande de reuniões percebeu que a reunião estava atrasada. Comunicaram-lhe então que o advogado do inglês telefonara a dizer que tinham um problema com o voo. Ao fim do dia quando fechou o escritório, para ir festejar com os amigos, as letras no logótipo da empresa, pareceram-lhe mais brilhantes do que nunca. Ao voltar a casa já de madrugada, Francisco era um homem ainda muito mais rico do que quando saiu de manhã. Acordou às 3 da tarde, sobressaltado, e de repente lembrou-se que com toda esta agitação dos últimos d.r.

relaxado. Viu as horas no telemóvel e reparou que não tinha rede. Sobrava-lhe ainda algum tempo. De repente pensou não ir à reunião para que o esperavam, como se fosse apenas uma falta a uma aula chata na escola. Seria dos comprimidos que andava a tomar para o stress que o deixavam assim tão descontraído. E ali era o sítio ideal para descansar. Estar sozinho por uns instantes. Sem casas, sem barulho, sem carros, sem pessoas. Subitamente sentiu nostalgia da vida de infância passada ao ar livre no campo. Podia um homem que tem tanto, contentar-se assim com tão pouco? Só queria fe-

pre. Ligou para a empresa. Adormeci, explicou-se. Daqui a quinze minutos estou aí! Até já. Francisco voltou a ficar animado. Era habitual por estes dias ter oscilações de humor mas percebeu ter tomado a decisão mais acertada. Imaginou o que seria a empresa sem ele, o seu ideólogo, fundador e… veio-lhe à cabeça a conhecida frase que diz que ninguém é insubstituível - a vida continua, mas mesmo assim é melhor que eu lá esteja para me certificar como é feita a divisão dos lucros, pensou cheio de certezas. Os sócios mostravam-se eufóricos

“JUNTOS QUEBRAMOS AS BARREIRAS” 2 MAR | 21.00 | TEMPO - Teatro Municipal de Portimão Concerto solidário que conta com a voz de Helena Kupert e a Orquestra de Sopros do Conservatório do Algarve, com a participação especial de Beto Kalulu e Ondina Santos, em prol da Associação Rafael Carole

dias, com reuniões, projectos, viagem a Londres, entrevistas, etc… já não via os filhos e a mulher praticamente há mais de quatro ou cinco dias. Lembrou-se que eles também eram parte da sua vida, - eram a sua vida, tentou corrigir-se do lapso, mentalmente. Levantou-se e pensou que poderia ir buscar as crianças, mas resolveu telefonar para o colégio antes de sair. Perguntou se o José e a Sónia Mendes já tinham saído. Responderam do outro lado que os meninos nem sequer tinham ido. O que teria acontecido? Ele não sabia de nada. Apercebeu-se o quanto se estava a afastar dos seus pe-

quenos e como estava a perder tudo o que de importante estava a acontecer nas suas vidas. Ligou para a mulher. Não atendeu o telemóvel. Achou estranho e telefonou para o trabalho. Não tinha voltado depois do almoço. De manhã as crianças tinham ficado com a avó para a seguir ao almoço irem à consulta de rotina dos 6 e dos 4 anos, respectivamente. Dina esquecera-se de tirar o telefone do silêncio depois da consulta. A seguir foram comer os seus gelados preferidos na marina antes do regresso a casa. Achou então que a sogra teria a resposta para todas as perguntas mas esta também não estava em casa. As chamadas que fazia para a cunhada eram enviadas para a caixa de mensagens. Francisco estava agora sentado nos degraus da entrada de sua casa. Alguém haveria de aparecer, ou telefonar. Ia esperar. Tivera o bom senso de não entrar em pânico. Não queria pensar que a família o tinha abandonado, não podia pensar sequer que eles pensassem que ele os tinha abandonado. Começou a sentir-se culpado da sua ausência, como pai e marido, de os deixar tanto tempo sós e de ele próprio se sentir só. Não queria acabar sozinho numa praia a desenhar círculos como o matemático que tanto o inspirara. Dina só se apercebeu das chamadas não atendidas, quando agarrou o telemóvel, para o colocar na mala, depois de estacionar no jardim junto à porta da garagem. As crianças correram felizes para o pai que as abraçou efusivamente. Olha que surpresa! O que é que fazes aqui ? Ah!... já sei!, conseguiste encontrar o caminho para casa, mas perdeste a chave ? inquiriu a mulher ironicamente. Estava só à vossa espera para jantarmos? Desculpou-se no momento. Depois de deixar as crianças no quarto a dormir, Francisco desceu à sala, onde Dina o esperava com um ar muito sério. Precisamos conversar, Francisco Mendes! Mas a conversa não durou muito. Fizeram amor mesmo ali no sofá da sala. Na manhã seguinte durante o banho, tal como Arquimedes, gritou ‘Eureka’, quando descobriu o que fazer nesse dia. Ao pequeno-almoço Francisco anunciou a toda a família, que estava de férias… finalmente. Hoje ficamos todos juntos em casa, boa?

“FMI E OS 40 E TAL MAMÕES” À QUI, SEX, SÁB | 21.00 | Boa Esperança Atlético Clube Portimonense É seguindo as directrizes impostas pela Troika, para cortar nas despesas, mas mantendo a qualidade de sempre, que o Boa Esperança apresenta esta revista à portuguesa


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01.03.2013

Espaço ao Património

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Sala de leitura

Desafios de um arqueólogo É urgente a Poesia (ou Como fazer alguém custear uma intervenção arqueológica com um sorriso…) d.r.

Paulo Pires

Programador do Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

Apesar da existência, em Portugal, de alguns (poucos) projectos consistentes de promoção da leitura com jovens em escolas e bibliotecas, no cômputo geral verifica-se uma enorme carência a nível quer de formação específica nesta área, quer, no tocante ao mercado editorial, de obras (ficção, poesia e outras) para essa faixa

de divulgação regular e sistemática das (inúmeras) novas vozes poéticas de qualidade emergentes no mercado prejudica claramente os profissionais que se movem neste universo cada vez mais exigente e plural. Restam a Internet e as encomendas online, através dos sites das editoras, e as sugestões de bastidores entre colegas para suprir em parte essa grave lacuna. A constante curiosidade, pesquisa e reflexão individuais/institucionais tornam-se, assim, essenciais para a aquisição de ferramentas (textos/antologias, temas e estratégias de “contágio” junto do público jovem) que possam combater eficazmente os preconceitos de não poucos adolescentes em relação à poesia: chata, complicada, estranha, vaga, inútil e (algo) “louca”/ d.r.

Muitos não fazem ideia do que se trata um acompanhamento arqueológico

Vera Teixeira de Freitas

Arqueóloga no Museu de Portimão/ Uniarq – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa

Após o convite que me foi endereçado para escrever esta rubrica, pensei inicialmente em dedicá-la a um dos sítios arqueológicos que tenho investigado. No entanto, decidi retomar um texto há muito iniciado sobre uma questão que me tem vindo a perturbar. Este foi forjado mentalmente nas pausas nocturnas forçadas, entre fraldas e biberons e apenas recentemente resgatei estas ideias e decidi passá-las para o papel. Trata-se de uma reflexão pessoal sobre o meu contributo profissional enquanto arqueóloga, relativamente à comunidade em que me insiro e a muito discutida, mas pouco esclarecida, questão da função social da nossa profissão. Nós, os arqueólogos, e nomeadamente os arqueólogos que cumprem funções públicas, lidamos diariamente com diversas situações que nos obrigam a adequar a nossa postura face à realidade em questão. A multiplicidade das nossas tarefas enquanto investigadores, apreciadores de licenciamentos urbanísticos, técnicos em reuniões de obra, prospectores, escavadores, etc. obriga-nos a dominar um conjunto de técnicas mas, de igual forma, a possuir características pessoais que permitam criar uma empatia com as pessoas com quem lidamos relativamente à nossa actividade. E vamos ser claros, a arqueologia é uma actividade fascinante para a maioria das pessoas, mas o caso muda completamente de figura quan-

do ela acontece ao vivo no seu quintal e principalmente às suas custas. Li algures que se trata de uma utopia da nossa parte pensar que um promotor imobiliário, ao ver a sua obra condicionada por razões patrimoniais, irá ficar agradado ou pelo menos irá compreender esta necessidade. Habitualmente a reacção inicial é considerar a condicionante, seja ela um acompanhamento ou escavação arqueológica, como um encargo extra sem qualquer tipo de mais-valia para o projecto em questão, situação agravada pela actual conjuntura económica do país e especialmente do sector da construção. Muitas das vezes, a forma como o promotor é informado da obrigatoriedade de realizar uma intervenção arqueológica dificulta o processo. Geralmente recebe um ofício de uma entidade da administração pública, seja ela central ou autárquica, onde encontra uma extensa fundamentação técnica sobre a condicionante a aplicar. Trata-se de pareceres feitos por técnicos para serem lidos por outros técnicos, utilizando uma linguagem complexa, uma vez mais, de cariz iminentemente técnico. Não questiono a necessidade de os efectuar nesses termos, pois a apreciação técnica é fundamental para apoiar a decisão de quem de direito e por princípio deve ser o mais completa possível. No entanto, questiono a sua utilidade quando lida pelo tal promotor que falávamos anteriormente, que muitas das vezes está a ter o primeiro contacto com esta realidade e com esses termos. Não faz ideia do que se trata um acompanhamento arqueológico, quem o deve fazer e em que condições. Não nos podemos nunca esquecer que nos dirigimos tanto a um arquitecto habituado a lidar com estas questões como a um senhor que a muito custo pretende legalizar a sua obra clandestina ou remodelar a sua habitação com condições precárias. Com isto não pretendo afirmar que o arquitecto será à

partida mais sensível às questões patrimoniais do que alguém sem formação académica. A realidade desmente este pressuposto. Muitas das vezes encontramos mais interesse e compreensão pela actividade arqueológica em alguém cuja vivência se encontra ligado à terra e à sua comunidade do que alguém com habilitações académicas superiores. A minha interrogação pessoal diz respeito ao modo como informamos as pessoas, como transmitimos a alguém a necessidade de cumprir pressupostos técnicos que lhe são desconhecidos. Acredito que um esforço conjunto para simplificar a linguagem dos documentos dirigidos ao público irá, a médio prazo, produzir efeitos benéficos no modo como este percepciona a actividade arqueológica. Considero que simplificar a linguagem não é necessariamente sinónimo de “baixar de nível” como muitos poderão crer. Trata-se simplesmente de assumir que o funcionário público tem a obrigação de informar com clareza e com respeito por quem lê um documento que, em última instancia, o vai obrigar a custos acrescidos. Estas ideias que aqui exponho não são novidade, há muito que Sandra Fisher-Martins, fundadora da Português Claro, batalha pelo direito à informação numa linguagem clara e acessível. Nós, os arqueológos, temos a obrigação, para além de garantir a salvaguarda dos vestígios arqueológicos, de sensibilizar o público em geral para estas questões. Penso que esta sensibilização deverá ser feita de um modo contínuo, diário, em todos os contactos pessoais e profissionais que fazemos, de uma forma clara, perceptível, que desperte interesse de quem nos ouve, quem nos lê, na esperança que um dia estas mesmas pessoas quando confrontadas com uma realidade arqueológica estejam mais receptivas à sua salvaguarda. Trata-se de um desafio profissional que todos devemos assumir.

Poesia e jovens, um desafio possível etária, quer ainda de outras ferramentas de trabalho (orientações, laboratórios, estudos e práticas testados, descritos e sistematizados) que possam ser úteis aos diversos profissionais que trabalham com públicos entre os 13/14 e os 18/19 anos. Vejamos o caso da Poesia. Subsiste ainda por vezes uma fraca preparação, por falta de perfil, motivação, background teórico e/ou criatividade, de certos mediadores (entre docentes e promotores informais da leitura), o que torna difícil um conhecimento crítico, actualizado e mais abrangente e diversificado da produção poética existente no país. É claro que a quase completa inexistência, no Algarve e não só, de livrarias (as mais mediáticas são um exemplo gritante) – e até de algumas bibliotecas – que privilegiem simultaneamente uma política efectiva de fundos de catálogo, incluindo obrigatoriamente um “cânone” de autores e obras de referência, a par de uma estratégia

lunar. É importante também o recurso a diálogos interdisciplinares como veículo de reinvenção e universalização da poesia, usando elasticamente a música/spoken word, cinema, artes plásticas, fotografia, tecnologias digitais e outras áreas de forma a estimular, surpreender e desassossegar positivamente os jovens. A poesia pode ter ainda um papel relevante no ensino de matérias extraliterárias, como ponto de partida e espécie de mediador/”passaporte” para se chegar depois aos objectivos didácticos que as chamadas disciplinas exactas procuram almejar. Três sugestões: Contos dos subúrbios, uma pérola de estranha beleza poética de Shaun Tan (Contraponto); O silêncio dos livros seguido de Esse vício ainda impune, dois ensaios saudavelmente divergentes e polémicos de George Steiner e Michel Crépu (Gradiva); e Bibliotecas cheias de fantasmas, um livro para quem gosta de livros, de Jacques Bonnet (Quetzal).


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Na senda da Cultura

Áureus de Faustina regressa ao Algarve quarenta anos depois Dos cofres da Caixa Geral de Depósitos para o Museu de Portimão, será este o percurso de regresso ao Algarve que fará a moeda de ouro Áureus de Faustina, retornando assim ao “contexto histórico de onde nunca deveria ter saído”, diz José Gameiro, director do Museu de Portimão. Quarenta e três anos depois de ter sido entregue à guarda da Caixa Geral de Depósitos, a moeda romana retirada do Rio Arade no âmbito das dragagens de desassoreamento realizadas em 1970, é entregue à guarda do Museu de Portimão por despacho de secretário de Estado da Cultura, cabendo agora à Direcção Geral do Património Cultural, em articulação com o Museu de Portimão e com a autarquia local, levar a cabo os restantes actos administrativos que tornem possível o regresso físico da moeda à cidade do Arade onde foi encontrada. José Gameiro, em declarações ao Cultura.Sul, afirma-se convencido de que o objecto histórico “poderá estar no museu para apresentação pública por altura do quinto aniversário da

instituição, que se realizará na semana de 18 a 25 de Maio”. Para a vinda da moeda o museu não necessita de criar quaisquer condições específicas, assegura o responsável pela instituição, uma vez que do ponto de vista das condições para acolher o objecto a instituição está preparada. “O Museu de Portimão integra a Rede Portuguesa de Museus, cujas exigências técnicas tornam aptos os museus que a integram para receber este tipo de património”, refere o responsável, que destaca a importância de “no Algarve, a par do de Portimão, os museus de Albufeira, Faro e Tavira também integrarem esta rede, dotando a região de um conjunto de espaços que permitem assegurar que o património de relevo da região pode manter-se em instituições regionais com capacidade para assegurar a respectiva segurança e salvaguarda”. Quanto à integração da moeda no acervo visitável do museu também não serão necessárias adaptações. Segundo o responsável máximo do

d.r.

Moeda de ouro romana retirada do Rio Arade volta a Portimão Museu de Portimão a moeda integrará o discurso museológico já existente na instituição, especificamente a exposição “Portimão – Território e Identidade”, que abrange o legado patrimonial resultante das dragagens do Arade e que se dedica também à compreensão da relação do Arade como porta entre o Mediterrâneo e

o Atlântico. Destaque para o facto da moeda em causa ser a única do seu género em ouro que se sabe ter sido encontrada na zona do Arade, o que revela bem a importância museológica e patrimonial do achado a par do acervo de objectos de cerâmica e várias peças em metal em exibição no Museu

de Portimão e que constituem prova factual da relevância da presença romana na zona de Portimão e do Rio Arade enquanto via de comunicação e palco comercial daquele tempo. A moeda cunhada entre os anos de 152 e 156 da nossa era em honra de Faustina Junior, esposa do imperador Marco Aurélio, foi entregue pela então Junta Autónoma dos Portos do Barlavento Algarvio à guarda da Caixa Geral de Depósitos, onde permaneceu até agora. Um facto que José Gameiro compreende, dada “a inexistência à época de um museu com condições para acolher um objecto com este valor histórico-patrimonial”. No anverso, o exemplar apresenta o busto de Faustina à direita, com o cabelo ondulado, apanhado sobre a nuca e a legenda FAUSTINA AUG. P II AUG FIL, ou seja, Faustina Augusta Pia, filha de Augusto, título ostentado pelo Imperador em curso, Antonino Pio, ao passo que no reverso está gravada uma pomba caminhando, e a legenda CONCORDIA. Ricardo Claro pub


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Da minha biblioteca

O Retorno – Dulce Maria Cardoso

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Dulce Maria Cardoso andou muito tempo esquecida das nossas livrarias, jornais e revistas literárias, mas não dos seus leitores, que cativou desde o primeiro romance. Em contrapartida, o seu quarto e último livro, O Retorno, mereceu atenção de todos e foi, ainda em 2011 (apesar de ter sido lançado já em outubro) considerado o melhor romance, e por isso recebeu o Prémio Especial da Crítica dos Prémios de Edição LER/Booktailors. Uma das grandes qualidades que encontro neste livro é a de poder ser compreendido mesmo por uma pessoa que não passou pela situação de retornada nem tem memória desse tempo, como é o meu caso. Apesar de acreditar que

quem tenha vivido a situação o entenderá com outra emoção e entendimento, acredito também que a Literatura (usei maiúsculas propositadamente) se faz desta capacidade de ser universal e de quebrar barreiras. Por exemplo, a vontade de integração e de aceitação dentro de um grupo onde somos recém-chegados já foi sentida por muitos dos leitores (um emprego novo, uma terra nova, uma nova escola, etc.) e é essa reminiscência que nos faz compreender tão bem a jovem Milucha: «A minha irmã tem vergonha de ser retornada, finge que é de cá e esconde o cartão que tem o carimbo vermelho, aluna retornada, o cartão que dá direito a um lanche na cantina. A minha irmã cheia de fome mas sem coragem de ir à cantina para que os de cá não vejam o cartão, aluna retornada. A minha irmã a achar que pode não ser retornada apesar das roupas grandes, da pele ainda queimada pelo sol de lá, de se rir sem medo que os lábios sangrem, um sorriso bonito, a minha irmã a fingir que não é

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A capa do livro de Dulce Maria Cardoso

d.r.

Dulce Maria Cardoso aborda a descolonização no romance O Retorno retornada, a dizer pequeno-almoço, frigorífico, autocarro, furos, em vez de matabicho, geleira, machimbombo, borlas» (p. 150) Um dos aspetos de que mais gostei, foi o do ponto de vista escolhido: o de Rui, um jovem de 15 anos, que acompanhamos durante dois anos, através de quem vemos o mundo, mas que não nos deixa ver tudo quanto se passa à volta ou dentro de si. Uma sabedoria na construção da narrativa leva o leitor a surpreender-se, pois, apesar de não perder o fio à meada, a narração não segue uma linha cronológica, levando-nos a deduzir o que se passa ou passou, ou que o narrador/personagem sabe ou não, mas que não nos quer contar. A idade, longe de infantilizar, devolve pureza à história. A pontuação escolhida, onde pontifica a ausência de marcação de discurso direto, provocando uma interseção constante entre o que é visto, o que é dito e o que é pensado, contribui para, por um lado, nos envolvermos na confusão de sentimentos por que passa Rui, e, por outro, para irmos

“CONCERTO DE MIGUEL ÂNGELO” 1 MAR | 21.30 | Cine-Teatro Louletano O carismático vocalista dos Delfins regressa aos palcos com o seu primeiro disco a solo, que conta com a participação de Rui Fadigas (baixo), Mário Andrade (guitarra eléctrica), Rogério Correia (guitarra de 12 cordas) e Samuel Palitos (bateria)

acompanhando a interceção entre acontecimentos, através das lembranças (ou construções da imaginação) do narrador. Há um exemplo muito claro, que se estende ao longo de cinco páginas (59-63). A família, sem o pai, que tinha sido levado preso perante o filho, aguarda em Luanda transporte para a metrópole. Cada um dos 18 parágrafos que constituem aquele capítulo onde se conta a situação vivida no aeroporto termina com uma frase da situação presenciada por Rui, contada no capítulo anterior, como se um parágrafo tivesse sido desfeito em frases a estalarem na cabeça do adolescente, com a atenção ao pormenor que sempre acontece em momentos de grande tensão, memória em forma de imagens soltas e de sons, sem seguir necessariamente a ordem dos acontecimentos: «O jipe desaparece depois da casa da Editinha». «As mãos do pai amarradas atrás das costas». «Vamo matáti cum tuá arma e tuá bala». «A poeira demora a assentar». «A balalaica branca do pai ensopada de sangue». «O isqueiro Ronson

Varaflame caído ao pé do canteiro». «A mãe de braços caídos no fim da rua». «O sangue do pai no asfalto». «Os vasos da escada tombados». «O pai metido à força no jipe». «As mãos do preto no braço do pai». «A minha irmã sem conseguir descer as escadas». «A Pirata a ganir com o pontapé do preto». «Os olhos aflitos do pai». «Os pretos a rirem quando o jipe arranca». «A arma do pai nas mãos do preto». «A arma do pai apontada à cabeça». «A mãe a correr por dentro da poeira que não assenta». As personagens secundárias representam muitos tipos: os que eram contra o regime, os que eram a favor, os que se alegraram com a colonização, os que culparam os descolonizadores, mas não procura encontrar culpados, mas mostrar quadros e vidas desenraizadas. Ainda em Angola, a mãe costumava dizer: «Esta terra não nos pertence enquanto não lhe conhecermos o coração, enquanto não lhe conhecermos o coração esta terra não guardará as nossas marcas nem reconhecerá os nossos passos» (p. 151). E o que Rui

vê, depois de quase dois anos a viver num quarto de hotel, é que «a metrópole é velha e já não tem um pedaço de terra selvagem onde a mãe possa inventar um coração» (p. 195). No entanto, este livro fala de esperança. Uma esperança assente da força do pai um pai que, fisicamente, também é forte, que acredita conseguir reconstruir a sua vida. Fala de libertação. A libertação dos medos que tolhem a vida. Fala de crescimento. Não apenas de Rui, mas de todos, inclusive do pai. Fala de ternura. Entre o casal, entre pais e filhos, entre irmãos, entre filhos e pais. Mas uma ternura não lamecha. Porque a mãe tinha «crises» e «demónios», os filhos poupavam-na e não se queixavam das privações e provocações que lhes aconteciam na escola: desprezo, frio, fome. As professoras escreviam (pp. 149-50) «recados, a aluna tem muito frio, a aluna está sempre a tremer nas aulas, a aluna tem de vir mais agasalhada. Nunca mostrámos à mãe os recados […]. Era o que faltava mostrar os recados das professoras à mãe».

“E TUDO O CASAMENTO LEVOU” 29 MAR | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Uma divertida comédia, encenada por Heitor Lourenço e protagonizada por Almeno Gonçalves e Maria João Abreu, dupla que promete um serão muito divertido


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Espaço cultura

Os anos que nos separam do final do próximo Quadro Estrutural Comunitário, 2020, constituirão a última oportunidade para a Região do Algarve empreender um caminho de construção, estruturação e consolidação do que se convencionou chamar cluster das Indústrias Culturais e Criativas. Seguindo a Estratégia Europa 2020, o caminho que a região algarvia tem que percorrer pauta-se pela inclusão de três categorias de conhecimento, complementares e particularmente importantes para a construção de um setor cultural e criativo dinâmico. A necessidade de desenvolvimento seminal deste setor respeita a toda a sociedade, tornando-se imperiosa a necessidade de convocar todos os agentes que nesta área operam, ou que sobre ela refletem. Embora seja esta a força maior do setor cultural e criativo, que, ao dizer respeito a toda a sociedade, transforma todos os cidadãos em potenciais produtores e consumidores, também é esta abrangência o seu principal problema na definição de um cluster criativo, ao que urge chamar as entidades com responsabilidade regional para lhe dar consistência. Quando se fala de cultura e criatividade, pondo-lhe, ou não, o prefixo de indústrias, surge uma pluralidade de discursos que, embora não incorretos - pois somos todos produtos da cultura em que estamos inseridos e todos temos a faculdade de ser criativos -, refletem abordagens diferentes, muitas vezes sem nos apercebermos daquilo que queremos tratar. A economia da cultura, ao ser um campo próprio, de atividade e de conhecimento, necessita de ser abordada com o saber específico de quem nela trabalha, de forma a construir-se um quadro institucional próprio que permita que a

2020 o r u t u f o e j o h a começ A economia da cultura, ao ser um campo próprio, de atividade e de conhecimento, necessita de ser abordada com o conhecimento específico de quem nela trabalha, de forma a construir-se um quadro institucional específico que permita que a atividade floresça e seja o mais plural possível atividade floresça e seja o mais plural possível. No tempo presente, é imperioso que o quadro em que as Indústrias Culturais e Criativas se vão desenvolver na região algarvia comece a ganhar a robustez de um cluster com dinâmicas próprias e capaz de ser um pólo agregador de novas “empresas”, produtos e serviços. Após as primeiras atividades desenvolvidas pela CCDR Algarve,

d.r.

2020 o horizonte de sustentação das Indústrias Culturais e Criativas no Algarve

torna-se imperioso o desenvolvimento sustentado, neste ano de 2013, de ações que permitam estruturar, e guiar, o caminho a desenvolver até ao ano de 2020, sob pena de o próximo quadro estrutural de apoio comunitário ser subaproveitado, no que respeita às indústrias culturais e criativas. É, agora, necessário traçar as linhas com que a região vai enfrentar a construção de um tecido forte ao nível das indústrias culturais e criativas e para isso é importante conhecermos, e reconhecermos, o plano onde nos propomos intervir, realizando um estudo de levantamento do setor, informando, com ações de divulgação, formação e networking, intra e extra regional, propondo economias de escala, de aglomeração e de conhecimento, onde todos os stakeholders sejam ouvidos, informados, e se potenciem sinergias entre os agentes. É imperiosa a realização de um documento que contenha o diagnóstico do setor cultural e criativo, que aponte caminhos para o futuro, com ações concretas, e que balize os próximos sete anos de atividade que as instituições regionais têm o dever de prestar aos seus agentes na região algarvia. Direção Regional de Cultura do Algarve

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