música
A
Imagem cedida por Nelio Rodrigues
mais de 3 mil léguas submarinas, o telefone ringe: de Brasília, capital federal, a ligação soa em algum endereço incerto de Tapes, bucólico recanto irrigado
pela Lagoa dos Patos. Peço por Marco Antônio Figueiredo, vulgo “Fughetti Luz”. Trata-se do pioneiro homem, que, pode-se pontificar, desferiu para o Brasil a “palhetada fundamental” de um cancioneiro pop sul-rio-grandense. Dos versos “Ouça menina, essa nova música/ Que será sucesso durante um mês”, Por
Favor, Sucesso virou fenômeno entre a magrinhagem setentista gaúcha. Composto em 1969, o hino do Liverpool leva assinatura do poeta Carlinhos Hartlieb, jovem agitador das concorridas Rodas de Som daquele tempo. Presentemente, Luz – cuja idade é mistério maior do que ele próprio – faz outro tipo de súplica: “Por favor, me deixem em paz!”. Calejado, antes mesmo que eu me identifique como repórter, o cantor adivinha o mote da prosa. Malfadado, o bate-papo deveria ser a respeito da profusão de bandas gaúchas que batem em retirada para tentar a sorte
À FRENTE DA MODA
Em 1969, guiados por Mimi Lessa (E) e Fughetti Luz (D), o Liverpool pavimentou a estrada dos retirantes gaúchos
em São Paulo, centro econômico-cultural do país. Tal como o Liverpool fez ao pôr o pé na estrada rumo ao Rio de Janeiro 40
a erva de chimarrão. Grande parte dos retirantes, porém, como
anos atrás – quando a fuga tinha no eixo Rio-São Paulo o des-
bons filhos à casa retornaram. Em 2001, confessa o frontmen
tino mais cobiçado. Majestade que, de certa forma, os cariocas
da Bidê ou Balde, Carlinhos Carneiro, o conjunto passou por altos
perderam. A Meca do rock, hoje, é São Paulo. Em seu intratável,
e baixos em sua estadia paulista. Dos mais aplaudidos da cena
mas divertido, azedume, Fughetti Luz reina ao telefone: “Não
contemporânea do rock nacional, os guaibenses do Superguidis
quero mais falar sobre o Liverpool, não”. A negativa só faz miti-
se apoderam da famosa frase de Dom Pedro II: “Se é para o bem
ficar a reputação de punk por natureza do autor de hits como
de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que ficamos!”,
Olhai os Lírios do Campo, Bixo da Seda e Trem.
diz o guitarrista Lucas Pocamacha, parafraseando a História para
Em 1964, ainda crooner do conjunto Flamboyant, Elis Re-
POR FAVOR,
SUCESSO! FAMA, ARTE E RECONHECIMENTO: QUE FENÔMENO LEVA BANDAS GAÚCHAS À PAULICEIA EM BUSCA DO DESVAIRADO SONHO ROCK-AND-ROLL?
POR CRISTIANO BASTOS (DE SÃO PAULO, GOIÂNIA E BRASÍLIA – MENOS DE PORTO ALEGRE) JORNALISTA, COAUTOR DE GAULESES IRREDUTÍVEIS – CAUSOS E ATITUDES DO ROCK GAÚCHO
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justificar permanência em terra pampeana. Ainda.
gina também deu no pé. Do IAPI, em Porto Alegre, direto para
Em solo bandeirante, Pedro Metz ajeita um carreteiro – “só
o Rio de Janeiro. Atitude rock, sem dúvida. Ainda mais para
para não perder o costume”. Conta que a escolha por São Paulo
uma mulher cuja arte estava recém começando a amadurecer
foi, acima de tudo, profissional. O perfil macro da cidade pareceu
naquele primeiro ano de chumbo. Bandas e artistas pop (Os
ideal para as ambições criativas da Pública. Louros, inclusive, re-
Cleans, Os Brasas, Almôndegas, Hermes Aquino, Rosa Tattooada,
pousam na “estante de prêmios” dessa (Re)Pública, onde com alta
Garotos da Rua – e muitos outros), em suas respectivas épocas,
rotatividade recebem visitas de congêneres paulistanos. Como
nem pestanejaram quando convidados a sair de Porto Alegre.
os músicos das bandas Biônica e Rock Rocket. Entre os troféus, a
E, nesse segundo decênio, nossos artesãos do pop, outra vez,
estatueta arrebatada com o videoclipe de Casa Abandonada na
estão na crista da onda. Na eleição dos melhores de 2010 feita
edição de 2007 do Video Music Brasil. “Nos sentimos desafiados
pela revista Rolling Stone, três álbuns gaúchos aparecem no top
a tentar”, ressalta Metz, que arremata: “Não curtimos a situação
25: Fresno, Superguidis e – ora, veja só – Vitor Ramil. Afundado
cômoda que ficar no Rio Grande do Sul representa”. E logo se
num sofá da casa da Pública, a conversa que levo com Pedro
reconcilia: “Amamos Porto Alegre”. Parceiro de empreitada, o
Metz, cantor e letrista, versa justamente sobre este ir ou não ir.
baixista Guilherme Almeida (filho do nativista Iraci Rocha) tam-
Na capital paulista, o casarão onde os guris da banda residem,
bém discorre sobre o autoexílio. E fala por todos: “A escolha foi
ensaiam e compõem, fica em meio à boemia da Vila Madalena.
importantíssima em nossas vidas”. No caso dele, a brincadeira ainda tem rendido novos sons: além da Pública, Almeida anda
CARA, CORAGEM E ERVA DE CHIMARRÃO
enredado em projetos com Martin (guitarrista da banda de Pitty)
Mas o papo, assim como o rock de agora, muito pouco tem
e com Tita Lima – cantora paulistana que é acompanhada pelo
de novo. No gaulês Rio Grande do Sul, historicamente afeito
guitarrista Guri Assis Brasil, outro integrante da Pública.
a pelejas de toda sorte, o debate existe desde o dia em que
Agora façamos o favor: o caso desfraldado pela banda
cunharam a alquebrada insígnia “rock gaúcho”. Nos áureos anos
porto-alegrense Fresno, estampado em todas as possíveis mídias,
1980/1990 (boom do rock brasileiro, como gostam de chamar),
merece ser narrado. Em tempos que a indústria fonográfica
muitas bandas gaúchas dançaram embaladas pelo suingado
agoniza em mortal concordata, a façanha conseguida por esses
esquemão bancado pelas grandes gravadoras. Como destino, as
nativos da capital é um admirável triunfo. Autodefinida como
selváticas plagas cariocas e paulistas. Cara, coragem e, no alforje,
“powerpop-rock-shoegaze” (decerto para espantar a alcunha 15