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CULTURA
Terça-feira, 19 de maio de 2009
Jornal de Brasília
CONTINUAÇÃO DA CAPA
Fitas originais do LP foram apagadas G Cristiano Bastos
FOTOS: DIVULGAÇÃO
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cristiano.bastos@jornaldebrasilia.com.br
trajetória de Vida & Obra de Johnny McCartney é misteriosa. Ao deixar a gravadora CBS, Leno recebeu a notícia de que as fitas originais do LP haviam sido apagadas. O álbum, então, foi dado como perdido. Contudo, em 1994 o jornalista e pesquisador musical, Marcelo Fróes, do selo Discobertas, esbarrou numa verdade distinta. Deparou-se, ao revirar os arquivos da extinta gravadora, com duas fitas de rolo, nas quais indentificou o nome de Leno e os títulos das músicas. Ele próprio jamais ouvira falar nas gravações. Fróes avisou Leno e as fitas foram remixadas digitalmente. O "lançamento oficial" portanto, deu-se somente há 17 anos – pelo selo de Leno, o Natal Records. Das 13 faixas que compõem a obra, só quatro foram editadas num compacto duplo da CBS: Johnny McCartney, Peguei uma Apollo, Lady Baby e Convite para Ângela. A gravadora julgou as demais inviáveis para o mercado. Após a proibição de Johnny McCartney, Leno rompeu contrato com a CBS: "Mudei de gravadora; o disco, porém, mudou a minha carreira", afirma.
Johnny McCartney – O disco abre com o tema-título, um rockão encharcado numa guitarra fuzz de Leno
A
LENO & LILIAN A história de reconhecimento de Leno começou antes de Johnny McCartney, na Jovem Guarda. O duo Leno & Lilian foi a Sandy & Júnior dos anos 60. A dupla se conheceu ainda na pré-adolescência, no Rio de Janeiro, quando se tornaram vizinhos em Copacabana. No começo, faziam ocasionais aparições em programas da TV Rio, apresentando mímicas de sucessos do rock. Em 1965, foram aos programas de TV Os Brotos Comandam, de Carlos Imperial, e Hoje é Dia de Rock –, sempre acompanhados pelo requitado Renato & Seus Blue Caps. Foi Renato Barros, aliás, que levou os adolescentes para fazer um teste. Contratados pela CBS, no ano seguinte, lançaram um compacto com os eternos hits Devolva-me e Pobre Menina. No mesmo ano, com enorme sucesso, saiu o primogênito LP: Leno e Lilian. Desfizeram-se em 1968, e saiu cada um em carreira solo. Entre 1972 e 1975, voltaram a se reunir – insterstício no qual Leno registrou o ousado Johnny McCartney. Nos anos 80, Lilian emplacou um sucesso retumbante: Sou Rebelde. Nessa época, na tentativa de manter-se em evidência, a "brotinho" posou nua na revista Homem. A dupla Leno & Lilian notabilizou-se, também, pelas homéricas brigas nos bastidores. Só voltaram a se apresentar na década de 1990, quando se juntaram para shows e gravações comemorativos dos 30 anos da Jovem Guarda.
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Porque Não? – Hard rock baseado em All Right Now, do Free. É o grupo carioca A Bôlha que dá o peso Lady Baby – Raul ajuda na letra. Backing vocal do Trio Ternura Sentado no Arco-Íris – Música que leva assintura de Leno e Raulzito. O número mais heavy do disco
Lilian e o parceiro de Jovem Guarda Leno no auge do sucesso (acima) e em reunião nos anos 90 (abaixo)
Pobre do Rei – Música dos irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle. A letra foi proibida pela ditadura Sr. Imposto de Renda – Típica vinheta que Raul Seixas usaria em seus discos Peguei uma Apollo – Composição de Arnaldo Brandão. Era para ser chamada de Subentendido Não há Lei em Grilo City – A letra é profética ao falar da violência no Rio de Janeiro Convite para Ângela – Com Renato, dos Blue Caps, na guitarra. Em 1977, Raul verteu a música para Sapato 36 Deixo o Tempo Me Levar – Balada com backing vocals dos Golden Boys
Leno rebate biografia de Coelho "Fomos recebidos pela mulher dele, Edith, com uma filha pequenininha, que deve ter no máximo três anos. É tudo caretinha, tudo bem comportado. (...) Aí veio o cara: Querem um uísque? Claro que queríamos uísque, né? Bebida de rico. Mal acabou o jantar, Gisa e eu estávamos doidos para ir embora. Aí o Raul disse: ’Ah, eu queria mostrar umas músicas minhas para vocês. P... m..., ainda íamos ter que ouvir música? ’ (...) Imagina se eu vou escrever letras para esse careta que nunca tocou numa droga na vida! Nunca botou um cigarro de maconha na boca."
Essa é a deferência com a qual Paulo Coelho retrata, em sua biografia, O Mago (Planeta), escrita por Fernando Morais, o dia no qual conheceu Raul Seixas. O ano era 1972, Rio de Janeiro. O encontro foi na casa de Raul, e contou com a presença de Leno: na verdade, o responsável por apresentar Seixas a Coelho. A versão biográfica, discorda Leno, não condiz com a versão biográfica. "Se não fosse o meu intermédio, Paulo Coelho nunca teria conhecido o Raulzito. E, por causa disso, talvez jamais teria se tornado o escritor famoso que se tornou". Leno sequer é
citado na passagem biográ fica. Após ler a biografia, Leno não conseguiu ficar calado. Para ele, Coelho insiste em relatar que seu afastamento de Raul foi motivado pelas drogas pesadas e pelo envolvimento com a magia negra: "Quem iniciou o Raulzito nessa história, na realidade, foi o próprio Paulo Coelho. Agora, ele contar essa história fajuta, sem Raul estar aqui para defender", protesta. Naquela noite, rememora, Coelho desatou a falar sobre o "livro da época" – o Despertar dos Mágicos. "Pensei logo de cara: ’O Raul não vai aguentar esse cara. Não era, nem de perto, o que Raul buscava".
Contatos Urbanos – Composição do maestro húngaro Ian Guest Bis – É a faixa que fecha o aspecto conceitual do álbum
Vida & Obra de Johnny McCartney – Reedição do disco de Leno. Gravadora Lion Music (1970/2009). 13 faixas. Onde comprar: wwww.recordcollector.com.br.