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Revista do Meio

Ano IV - Edição nº 26 - Novembro de 2009

Fo t o : Pa p a g a i o - d e - c a r a - r ox a Fonte:Zig Koch, Amazona Br asiliensis

Rebia - Rede Brasileira de Informação Ambiental

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Editorial

Ações para a sustentabilidade e o poder da informação Por Vilmar Sidnei Demamam Berna *

A questão mais fundamental não é se o ser humano irá conseguir escolher ser sustentável ecosocio-economicamente ou se irá permanecer na atual trajetória suicida. Por trás dessas escolhas estão questões muito mais antigas no espírito humano sobre as quais filósofos e líderes religiosos têm se debruçado a milênios: como o ser humano pode ser sensibilizado a escolher entre a generosidade e a mesquinhez, o engajamento e a indiferença, a ganância e a solidariedade? A história nos mostra que algumas sociedades conseguiram mudar, e por isso prosperaram, e outras não, e por isso desapareceram. Albert Einstein dá uma dica: “Nosso maior erro é fazer sempre as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.” MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Q

uando uma pessoa está com febre, é fundamental tomar logo dois tipos de atitudes, uma emergencial, para abaixar a febre e outra para descobrir e resolver o problema que está causando a febre. Sabemos que medidas para abaixar a febre são necessárias e urgentes, mas são paliativas. Para resolver o problema de verdade, só indo à sua origem. Com o nosso Planeta não parece ser diferente. Como um organismo vivo, ele está com febre. E o problema não está no cobertor de gases de efeito estufa que o envolve, pois ele está aí a milênios, e o Planeta sempre conseguiu auto-regular sua temperatura. O problema está no aumento exagerado deste cobertor! Quando estamos com frio, um cobertor é agradável para ajudar a aquecer, mas se em vez de um, forem vários cobertores, o que era agradável, torna-se desagradável. Com a opção das sociedades

humanas, principalmente após a invenção das máquinas, pela geração de energia a partir da queima de madeira e de combustíveis fósseis, o cobertor de gases de efeito estufa sobre o Planeta aumentou consideravelmente, e o resultado é um aquecimento global como nunca visto antes em toda a história humana. As conseqüências disso já são sentidas por todos os cantos do Planeta, com mudanças climáticas severas e derretimento das calotas polares e o conseqüente aumento dos oceanos, atingindo a todos, ricos e pobres. É urgente substituir a matriz energética petroquímica por outras mais limpas, que não agravem o efeito estufa, e investir em tecnologias e conhecimentos que compensem as emissões que não conseguimos evitar. Se não pelo Planeta e pelos outros seres da natureza, por nós próprios, segundo alertou James Lovelok: “Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir.” PEGADA ECOLÓGICA Não há nada de errado em consumir. Fazemos isso desde quando nascemos até quando morremos. O problema está no consumismo, que nos faz trocar necessidades por desejos. Por exemplo, uma pessoa pode resolver sua necessidade de sede com um copo d’água, mas nem uma dúzia de cervejas resolverá seu desejo de mostrar aos amigos que é forte e capaz de absorver álcool e ainda assim poder dirigir, ou que é bem sucedido e por isso pode tomar ou pagar por uma dúzia ou mais de cervejas, ou ainda, para prolongar o tempo com os amigos, precisa adiar a ‘saideira’ oferecendo mais e mais cervejas! O desejo de ser feliz, de ser aceito, respeitado, reconhecido em sua sociedade é bem humano e tem

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impulsionado nossas vidas. Entretanto, a sociedade de consumo conseguiu capturar nosso imaginário com a falsa idéia de que para sermos felizes ou reconhecidos, precisamos ter em vez de ser! Precisamos trabalhar para trocar nosso tempo de vida útil por dinheiro, para com este dinheiro ter acesso aos bens que irão atender às nossas legítimas necessidades e também aos nossos desejos de felicidade e reconhecimento. Cada produto que consumimos, tem seus recursos retirados de um único lugar, o Planeta, e seus restos gerarão lixo que serão destinados também a um único lugar, o Planeta! Não existe ‘lá fora’ no Planeta Terra. As pedras que atirarmos para cima cairão em nossas cabeças, ou nas cabeças de nossos filhos e netos! As conseqüências das mudanças climáticas e do esgotamento dos recursos naturais atingirão a todos, mas as perdas serão maiores para aqueles que não dispõem de recursos para se defender, como os mais pobres. Então, ao lado dos problemas climáticos, e não com menor gravidade, está o consumismo que nos leva a promover a destruição de mais de 20% dos recursos naturais do Planeta, além da capacidade de regeneração da natureza, para produzir bens que muitas


das vezes sequer serão consumidos! Por isso é urgente adotar ações e medidas e desenvolver técnicas e conhecimentos que permitam avaliar corretamente onde, quanto e como estamos rompendo os limites da natureza e também como evitá-los, atenuá-los ou compensar estes danos. Também é importante voltarmos o nosso olhar para outras culturas, como as de nossos povos tradicionais, indígenas, caiçaras, caboclos, não para viver como eles, pois cada um tem seu estilo de vida, mas para aprender com eles como é possível sobreviver respeitando os limites da natureza. Infelizmente, nossa cultura de consumo, onde o dinheiro foi transformado em quase um ‘deus’, onde a cultura subsistência é considerada pobreza, não acha que tenha nada a aprender com estes povos e os trata como um ‘estorvo’ ecológico, ou como exóticos e incapazes. Mas, até quando? O PODER DA INFORMAÇÃO Em nome de atender à necessidade de todos, uma pequena parcela da humanidade tem apropriado-se dos recursos naturais para acumular imensas riquezas e imenso poder. Para não correr o risco de perder estes privilégios, estes poderosos usam de meias verdades e até mesmo de mentiras para manter o restante da humanidade mais que submissa, desejosa de alcançar os mesmos padrões de riqueza e poder, em vez de pretender combatê-los! Esta dominação não se dá pela força das armas, mas pela força das idéias, transmitidas através dos meios de comunicação de massa, e principalmente através da propaganda, do rádio e da televisão. Não é por um acaso que estes meios de comunicação de massa sejam controlados por meia dúzia de famílias poderosas, não é por que estejam comprometidos com o esclarecimento e a libertação da sociedade da escravidão do consumismo, mas é por que estão comprometidos com este modelo que faz e mantém poderosos e privilegiados. Estrategicamente, nossas necessidades humanas de consumir, para atender necessidades de comer, morar, vestir, alimentar, etc., foi explorada para nos induzir ao consumismo. O individualismo, a competição, o materialismo, a ganância, a mesquinhez, a indiferença passaram a ser valorizados como positivos, numa sociedade onde exibir sinais de riqueza é confundido

com felicidade ou sucesso. É falsa a idéia de que exista uma corrida pelo progresso e desenvolvimento, onde os melhores e mais merecedores chegaram antes, como os ricos e os países do chamado ‘Primeiro Mundo’. É falsa por que se todos alcançarem o mesmo padrão de consumo, não haverá Planeta Terra de recursos naturais para todos! No entanto, vivemos tentando reproduzir os mesmos hábitos de consumo, e elegemos os países do ‘primeiro mundo’ como ideal a ser perseguido! É falsa a idéia de que o problema em nossa sociedade é devido ao crescimento populacional. Se a quantidade de gente num lugar fosse determinante para avaliar a maneira com lidamos com os recursos naturais, então, em cidades com poucos habitantes o meio ambiente estaria preservado! Se gente demais fosse o problema, gente de menos seria a solução, e está longe disso. Uma única pessoa com uma caixa de fósforo sozinha no meio de um imenso cerrado pode causar mais danos à natureza que milhões de pessoas vivendo de maneira sustentável numa cidade! Ao lado da sociedade de consumo somos também a sociedade do desperdício! Quase a metade dos alimentos produzidos é desperdiçada, ou por que apodrecem pelo caminho, ou por que o preço de mercado não compensa sua venda, ou por que deixamos sobrar no prato, etc.! Então é mentira que existam milhões passando fome por que o Planeta já não consegue produzir alimentos para todos. Gandhi tentou nos alertar quando disse que “a Terra tem o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de uns poucos”. * Vilmar é escritor, com dezoito livros publicados, e jornalista, editor da Revista do Meio Ambiente e do www.portaldomeioambiente.org.br Por suas lutas pela democratização da informação ambiental e formação da cidadania socioambiental, recebem em 1999, o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas. Viste o site do escritor: www.escritorvilmarberna. org.br

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REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental - organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, dedicada à democratização da informação ambiental com a proposta de colaborar na formação e mobilização da CIDADANIA SOCIOAMBIENTAL planetária através da edição e distribuição gratuita da Revista do Meio Ambiente, Portal do Meio Ambiente e do boletim digital Notícias do Meio Ambiente (CNPJ 05.291.019/0001-58) http://www.portaldomeioambiente.org.br/index. php?option=com_content&view=article&id=79&Ite mid=144 Fundador da REBIA e editor (voluntário) Escritor e jornalista VILMAR Sidnei Demamam BERNA Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e Prêmio Verde das Américas http://www.portaldomeioambiente.org.br/vilmarberna/ Contatos: vilmar@rebia.org.br Tel: (021) 2610-7365 Assessoria Técnica Ambiental: Gustavo da S. D. Berna – Biólogo marinho pós graduado em meio ambiente na Coppe/UFRJ e especializado em resíduos sólidos – (21) 7826-2326 gustavo@rebia.org.br Inês Santos de Oliveira - Bióloga com pós-graduação em meio ambiente na COPPE/UFRJ e especialização em resíduos sólidos - ines@rebia.org.br Estagiário em Administração: Leonardo da. D. Berna, fotografia e infra-estrutura - (21) 7857-1573 leonardo@ rebia.org.br Pessoa jurídica A REBIA mantém Termo de Parceria com OSCIP para a administração financeira dos veículos de comunicação e projetos da REBIA. Dados para o cadastro da REBIA e de seus veículos de comunicação: ASSOCIAÇÃO ECOLÓGICA PIRATINGAÚNA - CNPJ: 03.744.280/0001-30 – Rua Maria Luiza Gonzaga, nº 217 - no bairro Ano Bom - Barra Mansa, RJ CEP: 27.323.300 - Representante: Presidente EDUARDO AUGUSTO SILVA WERNECH Tels: (24) 3323-4861 (ACIAP) eduardo.wernech@piratingauna.org

Redação Trav. Gonçalo Ferreira, 777 - casarão da Ponta da Ilha, Jurujuba - 24370-290 Niterói, RJ - Tel.: (21) 2610 7365 redacao@rebia.org.br Para Anunciar (21) 2610-7365/2610-2272 celular Tel.: (21) 7883-5913 ID 12*88990 vilmar@rebia.org.br http://www.portaldomeioambiente.org.br/index. php?option=com_content&view=article&id=552&Item id=568 Assinaturas Em www.portaldomeioambiente.org.br você pode assinar agora pagando apenas R$ 80,00 por ano através de depósito à ASSOCIAÇÃO ECOLÓGICA PIRATINGAÚNA no Banco Itaú - agência 6105-1 c/c 12.983-4 - CNPJ: 03.744.280/0001-30 Impressão: Gráfica MEC – (21) 7872-9293 Maurício Cabral Produção Gráfica: Designer: Rodrigo Oliveira da Silva designer@rebia.org.br Webmaster: Leandro Maia - webmaster@rebia.org.br Os artigos, ensaios, análises e reportagens assinadas expressam a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, o ponto de vista das organizações parceiras e da REBIA.

Fontes Mistas A Revista do Meio Ambiente é impressa em papel ecoeficiente couchè da Votorantim Celulose e Papel - VCP produzido com florestas plantadas de eucalipto, preservando matas nativas. A Undade Florestal da VCP Capão Bonito conquistou, em setembro de 2005, o certificado FSC (Forest Stewardship Council), que atesta o manejo ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável da floresta, bem como o cumprimento das leis vigentes. Mais informações: SPP - Nemo: http://www.vcp.com.br Sobre o selo FSC: http://www.suzano.com.br/fsc/index.htm


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Cidadania Socioambiental

ONGs repudiam acordo entre Minc e Stephanes sobre Código Florestal

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rganizações da sociedade civil divulgam carta aberta ao ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, contra acordo com o Ministério da Agricultura para modificar o Código Florestal por meio de uma Medida Provisória (MP), que pode ser publicada esta semana. Segundo as 14 organizações que assinam o documento, entre os pontos que podem ser modificados com a MP estão a compensação de reservas legais em outros biomas e a recuperação com espécies exóticas. Leia a seguir a íntegra da carta. Contatos para entrevistas: Raul do Valle / ISA – 61-30355114 André Lima /IPAM – 61-99444226 Fonte: Instituto Socioambiental (ISA)

Mais um remendo no Código Florestal não é a solução! Senhor Ministro, Os esforços empreendidos por Vossa Senhoria para assegurar que o Brasil assumisse compromissos concretos de redução de emissões de gases efeito estufa são louváveis. Do mesmo modo, a redução da taxa de desmatamento da Amazônia é um resultado concreto que coloca o Brasil em excelentes condições de liderança no que diz respeito à Convenção de Mudanças Climáticas. Esse resultado só foi possível pelos esforços empreendidos pelo governo no sentido de fazer valer a legislação florestal. Por essa razão nos causa imensa preocupação a noticia divulgada pela imprensa sobre um acordo feito no âmbito do Governo Federal para modificar o Código Florestal por meio de uma Medida Provisória (MP). Além de ser um meio inapropriado para tratar de um tema tão complexo e importante como a alteração da legislação florestal, o conteúdo desse acordo é inaceitável, pois quebra alguns dos pilares básicos da legislação, incluindo pontos que V. Sa. havia assegurado que jamais seriam aceitos por parte desse Ministério, como a compensa-

ção de reservas legais em locais a milhares de quilômetros da área onde deveriam estar, ou a recuperação dessas com espécies exóticas, dentre outros. O acordo feito, se transformado em lei, irá jogar por água abaixo os esforços de recuperação ambiental em boa parte do território nacional, onde vive a maior parte da população brasileira, e permitir a ocupação desordenada de áreas ambientalmente sensíveis, o que contribuirá para a perpetuação de eventos como as enchentes e desabamentos de Santa Catarina. Um tema de tamanha relevância para o desenvolvimento do país não pode ser decidido dessa forma, por via de MP, sem a participação aberta e transparente da sociedade. O Congresso Nacional tem discutido esse tema em diferentes fóruns, promovendo o debate com os diversos setores envolvidos, e é dessa forma que o assunto tem que ser conduzido. Uma MP publicada agora, além de atropelar as iniciativas já em curso no Congresso Nacional, nivelará por baixo a discussão, pois seu rito de aprovação impede qualquer discussão mais profunda, já que a votação acontecerá em plena virada do ano e já na corrida eleitoral, o que coloca em risco qualquer texto que seja definido agora. Diante do exposto, requeremos a V. Exa.

que cumpra com o compromisso assumido perante as ONGs e movimentos sociais desde o princípio do ano e evite que o Código Florestal seja mais uma vez remendado por meio da edição de uma MP, sobretudo para derrubar pontos centrais como a reserva legal, o uso de APPs e o tratamento diferenciado para a agricultura familiar. Por outro lado, reforçamos nosso interesse em trabalhar pela aprovação de uma nova legislação florestal que reposicione o Brasil como uma potência mundial em produção de bens e serviços ambientais. Amigos da Terra – Amazônia Brasileira Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí (Apremavi) Conservação Internacional – Brasil Greenpeace Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá) Instituto Socioambiental (ISA) Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) Instituto de Estudos Socioeconomicos (Inesc) Programa da Terra/SP (Proter) Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA) SOS Mata Atlântica The Nature Conservancy (TNC) Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz WWF – Brasil

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Artigo

Por Luiz Prado www.luizprado.com.br

Companhia Siderúrgica do Atlântico - CSA e o Blá-Blá-Blá da Compensação de Emissões de Carbono

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jogo de cena montado em poucos dias em torno das emissões de carbono da Companhia Siderúrgica do Atlântico “rendeu” tal visibilidade no jornal O Globo que permite questionar a isenção ou a competência jornalística desse órgão de imprensa nesse episódio. O CO2 nunca foi sequer considerado um poluente atmosférico – e, portanto, essas emissões não são regulamentadas, no Brasil, nos EUA ou em outros países. Não existe tecnologia para a captura durante os processos de queima de combustíveis fósseis ou outros. A preocupação com essas emissões – decorrentes de qualquer processo de queima – surgiu depois da constatação de sua importância para as mudanças climáticas e alguns países desenvolvidos que aderiram ao Protocolo de Kyoto estabeleceram metas de redução nacionais que poderiam ser atendidas através de grandes avanços tecnológicos na área da eficiência energética ou da adoção de fontes renováveis. Mas essas metas não eram obrigatórias para economias periféricas, como é o caso do Brasil, que nunca teve qualquer política consistente para a redução das emissões de CO2 além de esforços para a re Muito se falou na compensação das emissões de carbono da CSA sem que fosse feita qualquer referência ao inventário das emissões industriais no estado do Rio de Janeiro, cuja liderança nesse campo está, sem sombra de dúvidas, com a Petrobras, tanto na Refinaria Duque de Caxias – REDUC quanto em suas operações de extração de petróleo na bacia de Campos. Além disso, tampouco foi feita qualquer referência a outras aciarias, como a unidade da Votorantim, em Resende, a outras grandes fontes de emissão de

foto: Ibama

carbono na mesma atividade industrial, como a fábrica da Companhia Siderúrgica da Guanabara – COSIGUA, do Grupo Gerdau, situada na mesma bacia aérea da CSA. Da mesma forma, nada se falou das futuras emissões do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, erroneamente localizado em Itaboraí. Vale ressaltar que, dessas, a única estrangeira é a CSA, do grupo Thyssen Krupp, alemão. As grandes fontes de emissão de carbono de propriedade de grupos brasileiros não foram sequer mencionadas durante o bater de tambores de cartas marcadas. É interessante, ainda, notar que todo o processo de licenciamento da CSA foi “transparente” – já que precedido de estudo de impacto ambiental (EIA) em tese amplamente divulgado e precedido de audiência pública formalmente participativa – como acontece, há muito, com todo o sistema de EIA-RIMA ou de audiências públicas no Brasil. Com ou sem a transparência ideal sobre o processo de licenciamento dessa

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Foto tirada dentro do canteiro de obras da TKCSA, onde percebe-se os dutos utilizados nas dragagens. A parte escura no solo é devido a constantes vazamentos de óleo com um grande risco de contaminação dos lençóis freáticos.

indústria, todas as irregularidades envolvidas já eram conhecidas em 2007, valendo uma visita ao seguinte link: Nele, entre outras coisas é possível saber que já em 2007, encontravam-se na Justiça (a) sete ações cíveis em andamento contra a empresa e o órgão ambiental que emitiu a licença, (b) uma ação civil pública por danos ao meio ambiente ajuizada MP estadual, (c) um inquérito criminal em andamento no Ministério Público federal contra o IBAMA, os órgãos ambientais estaduais e a prefeitura do Rio de Janeiro acusando-os de “cúmplices e sócios da poluição”, e (d) uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público do trabalho contra a vinda de um grande contingente de chineses para trabalhar nas obras da empresa (tudo com o aval do governo federal, que concedeu os vistos de trabalho em detrimento de profissionais brasileiros de igual qualificação, mas sem


a validação prévia do CREA). Serão essas as razões ocultas do súbito ataque à CSA? Será que se encontram adormecidos nas gavetas do Judiciário e do MP todos esses processos ou há “riscos” de um iminente de uma condenação de todos os réus? Passando ao largo dessas dimensões eleitoreiras e judiciais, a secretária de estado Marilene Ramos foi a única entrevistada que, com profissionalismo, mostrou cautela ao falar na exigência de compensações para as emissões de carbono (apesar do excelente trabalho que vem fazendo, o perfil da secretária não inclui a badalação na mídia). De fato, O Globo e as personalidades que se manifestaram favoravelmente às compensações pelas emissões de carbono da CSA não tiveram o cuidado de calcular que área de florestas seria necessário plantar para fixar uma quantidade de carbono equivalente àquela emitida apenas pelo conjunto de indústrias acima relacionadas. Não é improvável que o reflorestamento de toda a área rural do estado fosse suficiente para assegurar tal compensação. Esse cálculo é, de fato, imprescindível para qualquer tomada de decisão. Já se disse, aqui, que há muito os países altamente industrializados exportam para os países “emergentes” ou de economias periféricas as indústrias intensivas no consumo de energia, como é o caso das siderurgias. Não o fazem por questões ambientais – ainda que as normas brasileiras de emissão de poluentes estejam, há muito, ultrapassadas. Fazem por razões

foto: MPT

de mercado, pura e simplesmente. São produtos de baixo componente tecnológico e pouco valor agregado, do tipo que caracteriza as exportações brasileiras. Com tanto blá-blá-blá em torno de uma única fábrica, vale comparar as emissões da indústria de aço de cinco países de economia emergente. Ainda com dados de 1995 – ano seguinte ao último inventário oficial de fontes de emissão de gases causadores de mudanças climáticas no Brasil -, o quadro não deve ter mudado muito. Tanto a Índia quanto a China já manifestaram a sua intenção de não assinar qualquer acordo internacional sobre a redução desses gases na forma atualmente

Nesta foto vê-se ao fundo a Baía de Sepetiba o píer, o canteiro de obras da empresa e o canal de São Francisco (abaixo).

proposta. Líderes de ambos os países já se manifestaram favoráveis a mudanças profundas nos padrões de consumo dos países altamente desenvolvidos e à adoção do conceito de pegada carbônica dos produtos finais consumidos em cada país. Se fosse fácil resolver esses problemas, bastaria uma gritaria generalizada de “ambientalistas” para que todas fontes de emissão de gases causadoras de mudanças climáticas do planeta fossem obrigadas a fazer as tais “compensações” e o mundo não estaria empacado nas negociações em torno do assunto.

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Por Montezuma Cruz/ Agência Amazônia

Pesquisa

Planta da Amazônia é arma poderosa contra poluição

Missao Tanizaki adverte que até produtos químicos são usados na erradicação do aguapé

Aprendizado para um bom manejo No entendimento de Tanizaki, não se pode mais esperar para mudar a situação. Citando a Declaração de Bangkoc, ele lembra que a política e as regulamen-

foto: Marcelo Eduardo Kornfeld/Olhares.com

A

guapé não é praga. Além de ser muito útil em lagos de jardins, essa planta pode ser usada por pequenos agricultores como fonte de energia, combustível e fertilizante. Sobram estudos e falta determinação, constata-se na análise do trabalho persistente feito na internet pelo fiscal agropecuário do Ministério da Agricultura e bacharel em química, Missao Tanizaki, de Brasília. Originária do Brasil, a Eichornia crassipes – seu nome científico – foi introduzida em vários países por causa de suas bonitas flores. Prolifera muito: em ambientes propícios pode aumentar a biomassa na taxa de 5% ao dia. Tem um poder de germinação enorme. Se for retirada completamente de um lago, para que as suas sementes germinem basta a presença de luz atravessando a lâmina d’água até o fundo. É também conhecida por baronesa, camalote, aguapé-de-flor-roxa, damado-lago, jacinto-d’água, murerê, mureru, muriru, murumuru, mururé-de-canudo, orelha-de-veado, orquídea-d’água, parecí, pavoã e rainha-dos-lagos. Um dos maiores defensores dessa planta encontrada do sul do País à Amazônia, Tanizaki disse esta semana à Agência Amazônia que municípios brasileiros e sul-americanos com a presença de aguapé deveriam mobilizar especialistas na busca da sua melhor destinação. “Alguns já fazem isso, mas a limpeza de algumas áreas alagadas deve ser um componente social, uma tarefa de todos”, ele observou. O fiscal lembrou que no Lago Paranoá, em Brasília já se fez um trabalho para a preservação da qualidade das águas.

tações referentes à aqüicultura devem promover explorações técnicas “economicamente viáveis, ambientalmente responsáveis e socialmente aceitáveis”. Assim, por exemplo, os sistemas de tratamento de efluentes compostos por plantas aquáticas podem ser uma alternativa viável para os aqüicultores. Segundo ele, há vantagens do baixo custo de instalação e manutenção e a eficiência já comprovada no tratamento de efluentes urbanos. Outro aspecto relevante é que o excesso de biomassa vegetal produzido pode ser utilizado como fertilizante da água dos viveiros e tanques de piscicultura, proporcionando o aumento de organismos que participam da cadeia alimentar dos peixes, ou mesmo como fonte alternativa de proteína. “A maioria dos municípios precisa aprender a trabalhar com a biomassa do aguapé. Muitos estão até pecando, porque utilizam produtos químicos tóxicos para erradicar a planta e, assim, contaminam as águas”, adverte o técnico. “O aguapé vem sendo, equivocadamente, considerado uma praga por prefeitos e autoridades brasileiras e de outros países”, prossegue. “Ao contrário, eles deveriam valorizar esse fantástico

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recurso que Deus e a natureza nos deixam de presente para promover o desenvolvimento social e econômico do Brasil. É o nosso melhor despoluidor de águas”. Tanizaki acredita que um manejo e destinação correta tornariam o aguapé “um santo remédio para a humanidade” na solução dos seus principais problemas. Conforme explicou, esse “santo remédio” resolve ou ameniza sensivelmente as mudanças climáticas, podendo se tornar no principal substituto do petróleo e garantir água de qualidade para o abastecimento das populações. Pequenas barragens Tanizaki se vê envolvido num trabalho que busca conscientizar melhor as autoridades a respeito da importância dessa


planta. Desta maneira, ele entende que poderá iniciar um novo trabalho visando à construção de pequenas barragens para a produção de aguapé. “Serão milhares, em grande escala mesmo. Indiscutivelmente isso contribuirá para que a agropecuária nacional se consolide e proporcione milhões de empregos dignos no Brasil”, prevê. Entusiasta do assunto, ele também acredita numa próxima frente com mais trabalhos, “cada qual com o seu valor e seu êxito”. Aposta numa perfeita somatória de esforços, “até para derrotar a criminalidade”. Filtro seguro e refúgio de alevinos BRASÍLIA – Estudos da USP e da Unesp mostram a importância do aguapé em lagos de jardim, onde servem para a desova dos peixes de água fria (kinguios e carpas) e de refúgio para os alevinos. A planta evita a luz direta do sol sobre a lâmina, impedindo que a água fique extremamente esverdeada, já que absorve a luz na superfície. Por meio de suas raízes, absorve também os nitratos e fosfatos sempre presentes em águas eutrofizadas, competindo diretamente com as algas pela absorção destes nutrientes. Possui propriedades filtrantes. Erga um aguapé e note a grande quantidade de detritos em suspensão que ele literalmente “segura” em suas raízes. Absorve metais pesados presentes na água, principalmente ferro, cálcio, manganês e magnésio. Na aqüicultura intensiva, as rações empregadas apresentam elevados teores de nutrientes e apenas uma fração do alimento disponível é digerida pelos organismos. Esse alimento não consumido é convertido em sólidos orgânicos em suspensão, dióxido de carbono, amônia, fosfato e em outros compostos, que associados às excretas e às fezes, proporcionam um considerável aporte de matéria orgânica e inorgânica aos ecossistemas

foto: Vladimir Bouret/Olhares.com

aquáticos. Apesar do efluente de aqüicultura apresentar grande volume com baixos teores de nutrientes, quando comparado com os efluentes de origem doméstica, o seu lançamento direto e contínuo nos ambientes límnicos pode resultar em uma bioacumulação crônica e eutrofização, com conseqüências ecológicas negativas sobre o ambiente aquático. Para minimizar tais impactos existe a necessidade do tratamento dos efluentes produzidos por essas atividades, visando atender às exigências das novas legislações, às pressões de órgãos ambientais e da própria sociedade. Outro uso notável do aguapé consiste na fabricação de tijolos do tipo adobe, amplamente utilizados em construção civil. Apesar de ser um dos mais antigos materiais manufaturados, esse modelo ainda se mostra atual e perfeitamente viável como material de construção totalmente ecológico. A utilização do aguapé pode ser inserida em programas de manejo integrado de lagos eutrofizados ou em vias de eutrofização, como alternativa de retirada e encapsulamento de nutrientes e metais indesejados em um ecossistema e alternativa para a construção de habitações de interesse social (com baixo custo), cujo déficit é preocupante no Brasil. Saiba mais sobre a planta • Constituintes químicos: minerais

da planta (1% do peso verde da planta): 28,7% de potássio, 21% de cloro, 12% de cal, 7% de anidrido fosfórico, 1,8% de soda, 1,28% de nitrogênio e 0,59% de magnésio. • Pela sua grande capacidade de absorção de nutrientes, pode ser usada na despoluição de esgotos. Suas folhas são rígidas e brilhantes, com cutícula espessa e repelente à água e ficam reunidas em rosetas. • Estima-se que o Canal do Panamá ficaria totalmente obstruído em apenas três anos, se não fossem tomadas medidas relativas ao controle do aguapé. • Não tolera salinidade e suas folhas também são sensíveis às geadas. Na Índia, invade plantações de arroz, impedindo o seu crescimento. Na África, escapou para o Rio Congo e chegou ao Nilo. Em algumas partes do Sudão reproduziu-se tanto que impediu a navegação. Nos EUA tentaram erradicá-la por meio do uso de arsênico, o que causou a mortandade de diversos animais domésticos, devido ao envenenamento da cadeia alimentar. • A base das folhas geralmente parece uma pequena bóia. As rosetas multiplicam-se por meio de estolões. Suas raízes são numerosas, com coifas bem desenvolvidas. Flores belíssimas apresentam o fenômeno tristilia, bastante raro em plantas. Neste fenômeno verificam-se basicamente três tipos de plantas, cada uma com um tipo de flor. Estas flores têm seus estames e estiletes em três alturas diferentes. Quando as abelhas visitam estas flores, tocam em partes diferentes da planta, ora sujando-se de pólen ou conduzindo esse pólen para outra planta e recebendo outro. Dá-se a polinização cruzada. Missao Tanizaki é Fiscal Federal Agropecuário e Bacharel em Química. E-mails para contato: missao.tanizaki@agricultura.gov.br missao.tanizaki@gmail.com.br

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Animais

Polícia prende donos de restaurantes suspeitos de vender carne de cachorro

Carne era consumida pela comunidade oriental, segundo investigação. Proprietários de abatedouro foram presos em flagrante em Suzano.

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oliciais civis prenderam no início da tarde desta quintafeira (12) dois proprietários de restaurantes orientais suspeitos de vender carne de cachorro no Bom Retiro, região central de São Paulo. De acordo com a polícia, os estabelecimentos encomen-

davam carne de animais abatidos em Suzano, na Grande São Paulo. De propriedade de um casal, que foi preso em flagrante nesta quinta, o abatedouro ficava nos fundos de uma casa. “Eles matavam com um machado e, depois, queimavam o couro com maçarico”, afirmou o delegado Anderson Giampaoli, da 2ª Delegacia de Saúde Pública. Fonte: Portal G1, em São Paulo

Segundo a polícia, cachorro encontrado vivo ainda seria abatido

Por Pablo López Guelli. Enviado especial do G1 à Coréia do Sul*

Jovens coreanos rejeitam carne de cachorro Está cada vez mais difícil comer “boshintang” em Seul.

E

ncontrar um restaurante em Seul que venda pratos feitos de carne de cachorro (“boshintang”, em coreano) não é uma tarefa fácil. E mais difícil ainda é encontrar um coreano que goste desse tipo de refeição. Ao contrário do que se pensa, a Coréia do Sul, que ao longo dos anos foi estereotipada como “o país onde se come cachorro”, vê como algo cada vez mais distante o consumo do polêmico prato. “A Coréia está muito mais aberta ao mundo e as pessoas estão vendo o que acontece aqui. Além disso, esse costume (de comer carne canina) vem caindo porque hoje em dia é muito normal ter cachorros em casa”, afirma o jornalista Sung-Hae Kim, especializado na história dos costumes da Coréia do Sul. Ele, que tem 40 anos e nunca provou o prato, diz que o consumo da carne é algo que faz parte da cultura do país, mas que está mudando rapidamente por causa das transformações sociais pelas quais a Coréia passou nos últimos anos. “É verdade que algumas pessoas ainda adoram o prato, mas é cada vez mais raro encontrar lugares que vendem essa carne aqui em Seul. A sociedade está mudando sua maneira de pensar e simplesmente há menos gente comendo esse prato”, afirma Kim, lembrando que todos os países tem

Cardápio de restaurante em Seul mostra os pratos feitos de cachorro (Foto: Pablo López Guelli/G1)

suas “estranhas tradiçoes”: “Na China, por exemplo, há quem coma ratos.” O prato A carne de cachorro é uma tradição milenar na Coréia do Sul. Come-se com mais freqüência no verão porque ela supostamente dá energia e é facilmente digerida pelo corpo. O prato costuma vir em forma de ensopado, com a carne cozida dentro e muitos vegetais. A carne em si é macia, mas não é especialmente saborosa. A maior parte dos restaurantes que servem carne de cachorro na Coréia estão no interior do país, o que torna mais difícil o acesso a estrangeiros. No centro de Seul é até arriscado perguntar onde se pode comer carne de cachorro. É provável que se receba uma resposta ríspida ou mal-educada de garçons e donos de restaurantes -como os insultos ouvidos por este repórter.

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A estudante Sooyyon Chung não conseguiu comer o “boshintang” (Foto: Pablo López Guelli/G1)

Ocidentalizado

O estudante Byun Yoon-woo, de 20 anos, é outro exemplo de como a sociedade coreana está mais “ocidentalizada” quando o assunto é carne de cachorro. “Cachorro é um companheiro, não uma refeiçao”, diz Yoon-woo. “Eu nunca provei, e todas as meninas que conheço têm nojo desse prato. Para a nossa geração, esse é um costume muito estranho”, afirma o coreano. Outra estudante, Sooyon Chung, de 21 anos, conta que há algum tempo passou pelo “desafio culinário de provar cachorro”. E não passou no teste. “Na época eu estava saindo com uma pessoa e decidimos ir a um restaurante especializado em cachorro. Mas na hora de pedir a comida ficamos com medo e não pedimos o prato”, diz Chung. * O jornalista Pablo Guelli, repórter do G1, viaja a convite do governo sul-coreano, que custeia parte de suas despesas. Fonte: site G1

foto: Adriano Vaccari/Futura Press

Por Paulo Toledo Piza


Animais

Amigos para Sempre D

epois de perder os pais. esse orangotango de três anos de idade estava tão deprimido que se recusava a comer e não respondia muito bem aos tratamentos e remédios. Os veterinários achavam que ele iria se entregar à morte. O velho cão foi encontrado perdido nos arredores do zoológico, e quando levado para dentro da sala de tratamento, se encontrou com o orangotango, e os dois se tornaram amigos inseparáveis desde então.

Eles passam o tempo todo juntos e podemos ver, pelos sorrisos e risadas, o quanto são felizes. Juntos descobriram o lado engraçado da vida e o valor da amizade. Encontraram mais do que um ombro amigo para debruçar...

O orangotango encontrou uma nova razão para viver e se esforça ao máximo para fazer seu novo amigo acompanhá-lo em suas atividades

Eles vivem no norte da California e a natação é o esporte favorito de ambos, embora Roscoe (o orangotango) ainda tenha um pouco de medo da água e precise da ajuda do amigo para atravessar a nado.

E viva a AMIZADE!!! 2009 - NOVEMBRO - EDIÇÃO 026 - REVISTA DO MEIO AMBIENTE - 11


Por Marcus Fernandes

Consumismo

Obsolescência programada Não entendeu o título acima? Pois então, responda:Você já tem um Ipod? Possui a mais recente versão do sistema operacional do seu computador? Seu celular tem GPS? E a televisão, é full HD? Vai trocar de carro ou geladeira para aproveitar os descontos nos impostos? Se você respondeu positivamente a uma dessas questões, então talvez tenha sido pego, mesmo sem saber, pela obsolescência programada.

T

rata-se de fabricar um produto que tenha que ser substituído em pouco tempo. Muda-se um detalhe no seu desenho e o cidadão acha que precisa comprar um novo para não parecer antiquado em relação ao seu colega”, diz a educadora Annie Leonard. Segundo ela, a obsolescência programada surgiu após a 2ª Guerra Mundial, como um mecanismo para manter a produção das fábricas a todo vapor e o interesse dos consumidores em alta. “Hoje, o resultado disso é que menos de 1% dos produtos vendidos nos Estados Unidos continuam no mercado após seis meses”, diz Annie. Reversa Não é de se espantar, portanto, que em plena crise econômica mundial o Brasil tenha cortado impostos para que as fábricas vendam mais carros, geladeiras, fogões, areia, tijolos, pisos, tintas, ferragens, entre outros. Além da inimaginável quantidade de recursos naturais que são gastos para se manter esse padrão (apenas um computador consome quase 2 toneladas de materiais diversos), “uma parcela ínfima desses produtos é reutilizada ou reciclada”, diz o presidente do recém-criado Conselho de Logística Reversa do Brasil (CLRB), Paulo Roberto Leite. As empresas que fazem parte desse segmento têm como objetivo coletar, tratar e reaproveitar essas matérias-primas. No Brasil, o CLRB está começando a calcular esse mercado, mas sabe que

apesar de um potencial gigantesco, ele ainda engatinha.“Não tenho a mínima dúvida de que estamos jogando dinheiro no lixo”. Comprar, comprar Hoje, no País, menos de 10% das cidades têm coleta seletiva. E pior: como aqui na Baixada Santista, a maioria não reaproveita nem 2% do que seus cidadãos geram. “Produzimos 80 milhões de celulares ao ano e menos de 3% são reciclados”, exemplifica Roberto Leite. O que dizer então de garrafas PET, embalagens longa-vida, saquinhos plásticos, entulho etc. Segundo Annie Leonard, essa realidade é insustentável. Hoje, o preço que pagamos é a queda na qualidade vida, a poluição, desmatamento, contaminação das lavouras, rios e mares. “Nós nos tornamos uma nação de consumidores. Não somos mais pessoas – mães, pais, filhos, amigos –, mas consumidores. Temos que comprar, comprar, comprar. É esse o nosso objetivo maior?”, questiona Annie.

dos) para carros, geladeiras, fogões e máquinas de lavar, que já produziram um crescimento entre 20% e 25% nas vendas, o governo federal anunciou em fevereiro que financiará a troca de 150 mil geladeiras velhas com gás CFC, que destrói a camada de ozônio. Em 2008, portanto ainda sem os incentivos fiscais, mais de 972 mil refrigeradores foram comercializados no Brasil. “Com a mudança no IPI estamos esperando uma enxurrada de produtos no mercado”, afirma Paulo Roberto Leite, presidente do Conselho de Logística Reversa do Brasil (CLRB). Hoje, segundo ele, o País não possui um programa de reciclagem dos produtos da chamada ‘linha branca’. “Na maioria das cidades, quem faz esse trabalho são os carrinheiros”, explica. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o reaproveitamento desse tipo de material movimenta um mercado de U$ 750 bilhões por ano. “Lá, você compra uma geladeira reciclada com selo de garantia. Aqui, porém, estamos longe disso. Falta cultura por parte da população e uma ação efetiva por parte dos governos”.

Perversa Ao invés da Logística Reversa, vivemos uma logística perversa, “insustentável como um castelo de areia na beira do mar”, diz o presidente da CLRB. Segundo o professor da USP, Sabetai Calderoni, autor do livro “Os bilhões perdidos no lixo”, o primeiro passo é reduzir o consumo. “Pense: será que você realmente precisa trocar seu celular, geladeira, carro ou computador?”. O segundo é reutilizar e o terceiro, reciclar. “Dessa forma é possível, pelo menos em parte, compensar a obsolescência programada” diz o engenheiro Jaime Caettano, especialista em reciclagem. “O mercado só muda se o cidadão mudar. Do contrário, prosseguimos, como gado no curral. E lá, já sabemos qual o destino desses animais”.

O exemplo do Nova Cintra Na última edição da tradicional festa junina do Morro Nova Cintra era possível encontrar um exemplo de cidadania, preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. Tudo começou há alguns meses, quando o diácono José Guerra, da Paróquia São João Batista, soube de um método desenvolvido na Universidade de Campinas (Unicamp) para construir forração de telhado com embalagens longa-vida. Além de mais barato do que os processos tradicionais, esse tipo de cobertura tem como resultado uma excelente proteção térmica, graças às características das caixinhas, feitas com camadas com papelão, plástico e alumínio, que refletem parte dos raios solares.

Uma enxurrada de produtos Além da redução ou corte do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializa-

A mudança Guerra passou, então, a pedir aos moradores que enviassem as embalagens.

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Água quente Mas as ações sustentáveis não pararam por aí. “Mais de 60% das nossas necessidades de água para fins nãopotáveis vêm da chuva”. O líquido, coletado no telhado, escorre para calhas e daí para quatro caixas d’água, “que nunca ficam vazias”. Em breve, a comunidade pretende instalar uma tubulação que passará pela lateral da churrasqueira do restaurante. O método, muito comum nas casas com fogão a lenha, permite ter água quente sem gasto de energia elétrica. O segredo para tanta mobilização? “Sinto que eles gostam de colaborar. E a questão ambiental tem um grande apelo, maior até que o lado financeiro. É só não se acomodar. O comodismo mata a criatividade”.

foto: Enaldo Valadares/ Olhares.com

Em pouco tempo, mais de 2 mil delas foram recolhidas, suficiente para forrar metade do teto do restaurante Barrote (da própria paróquia), uma área equivalente a 25 por 12 metros. “Antigamente, não conseguíamos ficar dentro do salão em dias de calor. Era insuportável, nem os ventiladores davam conta. Hoje mudou totalmente. Chega a ser mais fresco dentro do que fora”, diz o diácono. Além da economia na obra e de dar um destino nobre para um resíduo que iria para o lixo, o reaproveitamento das caixinhas permitiu economia de energia, na medida em que os ventiladores já não eram tão necessários para o conforto de clientes e trabalhadores.

A foto acima, feita por Enaldo Valadares, foi composta com elementos que pertenceram a computadores produzidos sob a égide da obsolescência programada.

Cheque sem fundo A atual demanda por recursos naturais ultrapassa em quase um terço o que o Planeta tem condições de fornecer. Caso esse ritmo seja mantido, dentro de 30 anos o consumo humano será equivalente à produção de dois planetas Terra. A conclusão é da organização WWF, em conjunto com a Zoological Society, de Londres, e o Global Footprint Network. Os países com maior taxa de consumo são os Estados Unidos e a China. Juntos, abocanham 40% da pegada ecológica do mundo - que mede a quantidade de

terra e água necessária para fornecer os recursos utilizados e absorver os resíduos deixados. Os especialistas calculam que o Planeta possa dispor de 2,1 hectares de terra por pessoa a cada ano para gerar os recursos necessários para uma vida sustentável. Hoje, porém, a média individual mundial já é de 2,7 hectares-ano (cerca de três campos de futebol). A média brasileira por pessoa está atualmente em 2,4 hectares-ano. Fonte: Jornal A Tribuna.

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OS EFEITOS DO AQUECIMENTO GLOBAL JÁ PODEM SER SENTIDOS NO MUNDO INTEIRO. Neste momento, o esforço de todos é muito importante. Com políticas ambientais que combatem o desmatamento e incentivam práticas sustentáveis na agricultura e na indústria, o Brasil está fazendo a sua parte na luta para conter as alterações climáticas. É assim que o nosso país contribui com um futuro melhor para todo o planeta. Conheça as políticas públicas para o meio ambiente: www.mma.gov.br 14 - REVISTA DO MEIO AMBIENTE - EDIÇÃO 026 - NOVEMBRO - 2009


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Por Fernanda Búrigo

Animais

Você está pensando em comprar um papagaio?

Então considere estes fatos: Papagaios cativos são animais carentes, estressados e frustrados:

A

inteligência* dos papagaios é uma das razões que os fazem tão queridos por nós humanos. Por outro lado, é também a sua inteligência que os tornam muito sensíveis ao cativeiro. Papagaios engaiolados não podem expressar dois comportamentos profundamente enraizados no seu instinto: voar e socializar com indivíduos da mesma espécie. Na natureza, papagaios geralmente vivem em pares ou grupos, voando longas distâncias todos os dias para procurar alimento e congregando em grandes bandos para passar a noite. A falta destes estímulos sociais e ambientais levam a desvios de comportamento, tais como agressão (ver adiante) e ações estereotipadas locomotoras (fazer movimentos repetitivos sem sentido, tais como mover a cabeça de um lado para o outro ou caminhar em círculos) e orais (arrancar as próprias penas ou morder as grades da gaiola). Embora tendo causas diferentes, estes comportamentos assemelham-se ao autismo humano. A propósito, criadores argumentam que seus papagaios foram selecionados para a vida em cativeiro. Isto não é verdade. Enquanto que cães e gatos acompanharam o ser humano desde épocas remotas da civilização, evoluindo como animais domésticos, papagaios de criadouros não estão distantes mais que uma ou duas gerações de seus antepassados silvestres, retendo quase todas as características de instinto e comportamento dos indivíduos silvestres. *”Inteligência” é um assunto polêmico, sujeito a diferentes definições e interpretações, mas pesquisadores abordam o problema dividindo-a em componentes, as chamadas habilidades cognitivas: capacidade de compreender, aprender, fazer inferências, tomar decisões, generalizar, e assim por diante. Seja qual for a habilidade cognitiva considerada, os papagaios estão no topo da pirâmide do reino animal, junto com os primatas,

golfinhos, e mesmo bebês da nossa própria espécie. Papagaios em cativeiro são sujeitos a doenças e lesões. Como as necessidades nutricionais dos psitacídeos (papagaios, araras e periquitos) são pouco conhecidas, mesmo donos cuidadosos raramente alimentam seus papagaios adequadamente. Tanto assim que a desnutrição ou distúrbios clínicos relacionados à alimentação são as principais causas de atendimentos de papagaios no ambulatório de aves do hospital veterinário da USP. A desnutrição também aumenta a suscetibilidade a outras doenças sérias como a aspergilose e pneumonia. Mais ainda, os desvios de comportamento causados por confinamento e isolamento podem ser tão intensos que causam traumas físicos, fato frequentemente demonstrado em autópsias de aves cativas. Papagaios são irriquietos, barulhentos e fazem sujeira. Além de estar ciente das dificuldades e custos para alimentar e manter corretamente um papagaio, seu dono tem que estar preparado para tolerar muita sujeira - inevitável para uma ave de porte razoável - e ruído. Desgosto e irritação devido a contínua algazzarra e a presença de penas, restos de comida e cocô espalhados pela casa são as razões principais para a doação ou venda particular de papagaios. Com o aumento do comércio legal destas aves, pode-se esperar que muitas terão destino semelhante ao de milhares de gatos e cães - enjeitados por equívoco dos donos, que não previram os encargos e aborrecimentos causados por animais de estimação. E

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a dor de cabeça provocada por papagaios é duradoura: eles podem viver de 30 a 80 anos em cativeiro. Papagaios são agressivos. Pessoas que vivem com um papagaio, mesmo que pacato e brincalhão, podem contar como certo que cedo ou tarde serão vítimas de bicadas dolorosas e de vandalismo; morder e mastigar objetos fazem parte do instinto de todos os psitacídeos como meio de estabelecer sua posição na hierarquia do grupo e defender território, além de reação de medo ou tensão sexual. Papagaios

tamb é m mordem para brincar, mesmo que o alvo da sua afeição possa ser ferido seriamente. Comprar um papagaio, mesmo legalmente, promove o tráfico de ani-


mais silvestres. Ter um animal exótico e fascinante como um papagaio incentiva outras pessoas a querer um também, mas o custo de uma ave criada legalmente é muito maior do que no mercado negro. Como a repressão ao tráfico é ineficiente e as penalidades para este tipo de infração são irrizórias, as pessoas são tentadas a comprar um papagaio contrabandeado da floresta ao invés de adquiri-lo na loja de animais. De fato, estudos demonstram que há uma correlação positiva entre o comércio legal de papagaios e o seu tráfico. Isto é muito preocupante porque o contrabando continua a ser a principal causa de risco para as espécies de psitacídeos ameaçadas de extinção. Fiscalização e punições praticamente inexistentes também criam vastas oportunidades para fraudes, já que e fácil falsificar os requerimentos de um animal obtido legalmente; os próprios órgãos de proteção ambiental reconhecem isto. A propósito, muitos criadouros comerciais difundem seu suposto papel conservacionista: na verdade este comércio não

contribui em praticamente nada para a proteção de papagaios, como reiterado seguidamente por organizações oficiais e não governamentais. Em suma, você e seu papagaio não serão felizes - mas pode-se afirmar isto para uma ave? “Felicidade animal” é ainda mais difícil de definir e quantificar do que inteligência, mas existem critérios razoáveis para pelo menos avaliá-la subjetivamente. A declaração universal do bem-estar animal, proposta à ONU por várias organizações, estabelece o direito de animais domésticos a cinco aspectos de liberdade: liberdade da fome, sede e desnutrição; liberdade do medo e ansiedade; liberdade de tormentos físicos e térmicos; liberdade da dor, ferimentos e doença; liberdade para expressar seus padrões normais de comportamento. Se considerarmos estes princípios válidos, justos e humanitários, não poderíamos nunca considerar ter um papagaio como animal de estimação, já que o cativeiro impossibilita pelo menos quatro destes preceitos.

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Lugar de papagaio é na floresta; curtaos na natureza. Fonte: ornitobr@yahoogrupos.com.br Comentário do leitor: Marcilio Fontes Muito inteligente e oportuna as colocações da Ilustre colega Fernanda. Desde o inicio da minha caminhada como biólogo, me recordava do que me dizia o meu saudoso avô, a “vida deve ser pela vida” pela liberdade... hoje o que se observa é que o pseudo inteligente homem, engaiola mas não “gosta da gaiola”. Então não façamos aos “outros” aquilo que não queremos pra nós. A final de contas a determinação era de que “ Dominai sobre”, isso significa administrar com responsabilidade. atualmente o que se observa é totalmente o contrário. Lamentável.


Por Anna Paula Buchalla

Fotos: Alexandre Schneider, Bira Prado, Dougal, Levi Mendes Jr e Google

Especial: Escolhida pelos Leitores

Lixo doméstico: como reduzi-lo e diminuir seu impacto no ambiente dificuldades brasileiras de fazer valer a legislação, e não só quando o assunto é sujeira, é preciso perseverar na divisão do lixo doméstico e, além disso, tentar diminuir a quantidade diária de dejetos. No mínimo, você manterá a consciência mais limpa. A seguir, as quatro soluções domésticas que mais ajudam a reduzir o lixo dentro e, consequentemente, fora de casa.

série de materiais que levariam um tempo assombroso para se decompor – como plástico (450 anos), latas de alumínio (200 anos) ou vidro (1 milhão de anos). Além disso, ao ser reaproveitado, o lixo reciclável economiza recursos naturais. “Uma tonelada de papel reciclado poupa 22 árvores, 75% de energia elétrica e polui o ar 74% menos do que a produção da mesma quantidade de papel com matéria-prima virgem”, diz a bióloga Elen Aquino

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil descarta a cada dia 230 000 toneladas de detritos – e mais da metade disso corresponde a lixo doméstico

D

o total produzido nas casas, apenas 2% é destinado à coleta seletiva”, afirma a bióloga Elen Aquino, pesquisadora do Centro de Capacitação e Pesquisa em Meio Ambiente (Cepema), da Universidade de São Paulo. O restante vai parar em lixões a céu aberto ou, na melhor das hipóteses, em aterros sanitários cuja capacidade máxima já está próxima do limite. Para piorar o quadro, muitas vezes o cidadão toma o cuidado de separar metais, vidros, plásticos e papéis acreditando que esses materiais serão reciclados, mas as empresas de limpeza contratadas pela prefeitura acabam por misturá-los num mesmo caminhão. O desempenho das administrações municipais costuma ser um lixo em matéria de lixo, mas não por falta de boas leis. No estado de São Paulo, por exemplo, a legislação obriga todos os condomínios com mais de cinquenta unidades residenciais a ter coleta seletiva de lixo. Uma nova lei publicada na semana passada determina que shoppings, prédios comerciais e indústrias da cidade de São Paulo separem o lixo reciclável. Só poderão ser levados a aterros o lixo orgânico e materiais que não são reaproveitáveis, como isopor, espelhos e papel higiênico. Em que pesem as consuetudinárias

Separação e reciclagem de papéis, vidros, plásticos e metais De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil descarta a cada dia 230 000 toneladas de detritos – e mais da metade disso corresponde a lixo doméstico. Como fazer: evidentemente, usando recipientes diferentes para cada material. Papéis, em geral, são recicláveis, com exceção daqueles sujos. Não podem ser reciclados: fraldas descartáveis, absorventes, papel higiênico, guardanapos de papel, papel-toalha e embalagens metalizadas de salgadinhos. O ideal é que você encontre tempo para verificar se o que separou em casa continuará separado no caminhão de lixo e depois encaminhado, de fato, a uma usina de reciclagem. No mínimo, para não fazer papel de trouxa – que, como todos sabemos, não é reciclável Vale a pena para a cidade? E como! Os materiais recicláveis representam 70% do volume de lixo produzido numa cidade. Por isso, separá-los dos outros detritos resulta em muito mais espaço nos aterros sanitários Em quanto reduz a poluição ambiental? A reciclagem retira do lixo uma

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Adubo feito em casa Com a compostagem doméstica, a bióloga Patrícia Blauch diminui seu lixo orgânico e o aproveita nos vasos de plantas.

Compostagem doméstica Como fazer: pode ser montada em um tambor de plástico. O tamanho da composteira de cascas de frutas, folhas e talos depende muito do espaço disponível para abrigá-la. Para uma família formada por um casal e dois filhos, um tambor de 50 litros é suficiente para comportar o lixo produzido em um mês 1. Para começar, é preciso fazer furos na lateral do recipiente, a fim de escoar o líquido que se forma com a decomposição dos restos. Ele pode ser recolhido em vasilhas. Não se preocupe: esse líquido não é tóxico, ao contrário do chorume dos aterros, que resulta da mistura de outros tipos de detrito 2. Com o recipiente da composteira pronto, forre o fundo com pedrinhas e coloque a primeira camada de lixo orgânico. Em seguida, cubra-a com terra de jardim, folhas secas ou serragem. Vá intercalando as camadas de detritos com esse tipo de cobertura 3. A cada dois ou três dias, revolva camadas e coberturas, para garantir a oxigenação do material e acelerar, assim,


a decomposição 4. Uma vez que o recipiente esteja cheio, é preciso esperar em torno de dois meses para que o processo de compostagem se complete. Depois disso, o conteúdo pode ser usado como adubo Vale a pena? Sim, desde que se tenha clara a destinação do composto. Quem não tem no apartamento ou em casa muitos vasos ou áreas ajardinadas que consumam todo esse adubo deve organizar-se para doá-lo a amigos ou aplicá-lo em áreas verdes da vizinhança Em quanto (ou como) reduz a poluição ambiental? Se aliada a um triturador (para os restos de comida), a composteira reduz o lixo doméstico em cerca de 60%

Triturador de lixo na pia Onde comprar e como instalar: o equipamento é encontrado em lojas de material de construção e custa cerca de 800 reais. Pode ser instalado facilmente por um encanador. Para receber o aparelho, a cuba deve ter um ralo um pouco maior do que o convencional. Além disso, é necessário um ponto de eletricidade embaixo da pia para ligá-lo. O triturador substitui o sifão normal e é ligado à tubulação doméstica O que faz: tritura restos de frutas, legumes, ossos e cascas de ovos, entre outros resíduos orgânicos, com um consumo médio de energia mensal equivalente ao de uma lâmpada de 100 watts ligada durante uma hora. Os detritos são descartados pelo cano em vez de ir para a lata do lixo Por que vale a pena: porque facilita o tratamento de parte do lixo orgânico pro-

duzido numa casa – desde que, é lógico, ele vá parar numa estação de tratamento de esgoto Em quanto reduz a poluição ambiental? Com o triturador, uma família pode reduzir em 40% o volume de lixo orgânico. Isso significa menos detritos nos aterros sanitários – e, consequentemente, menor quantidade de matéria orgânica decomposta na forma de chorume (aquele líquido nojento que polui córregos e rios) e gases do efeito estufa Coleta de óleo de cozinha usado Como fazer: guarde o óleo usado em garrafas ou recipientes fechados com tampa e envie-os para reciclagem. Várias ONGs e empresas se dedicam a essa coleta. Em São Paulo, uma das pioneiras é a ONG Trevo (www.trevo.org. br). Por 30 reais, o condomínio pode adquirir um recipiente para recolher o óleo de cozinha usado pelos moradores. A Trevo se encarrega de retirar o material. Quem mora em casa tem de levar o resíduo aos postos de coleta com endereços no site. Na Grande São Paulo e no litoral paulista, outra ONG, a Triângulo, dispõe de 170 postos para a coleta de óleo (veja a lista no site www. triangulo.org.br). No Rio, a SOS Óleo Vegetal oferece o mesmo serviço. A empresa Ambiental serve cidades do Paraná e Santa Catarina (os endereços dos postos de coleta podem ser solicitados pelo e-mail contato@ ambientalsantos.com.br ) Funciona? Sim, desde que as empresas de coleta sejam confiáveis e de fato deem uma destinação adequada ao óleo. A Trevo, por exemplo, faz o tratamento e encaminha o material para fábricas de biocombustível. A Triângulo, por sua vez, usa o material na fabricação de sabão Em quanto reduz a poluição ambiental? De uma forma impressionante. De acordo com cálculos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, cada litro de óleo de cozinha usado pode contaminar até 20 000 litros de água potável. Fonte: Revista Veja

COMENTÁRIOS DOS LEITORES: Carolina Andrade da Silva Acho muito importante a divulgação de ideias mais sustentáveis para aplicarmos ao nosso dia a dia. (...) Mas ressalto que devemos pensar em toda a cadeia do sistema antes de adotarmos determinada atitude. Na reportagem foi citado o exemplo da coleta de recicláveis, ou seja, não adianta separar se final não haverá a destinação para a reciclagem. Outro ponto importante, e é aí que quero chegar, é a questão dos trituradores para pia de cozinha. Não é a primeira vez que vejo os trituradores sendo indicados e isso começa a me assustar: Nossa rede de esgoto (isso considerando os lugares que de fato tem uma, pois no Brasil isso é minoria) não está preparada para receber toda essa carga de matéria orgânica. A utilização desse equipamento pelas residências causaria um colapso no sistema de tratamento de esgoto, o iria piorar a questão ambiental. E, finalmente, todos sabemos que os resíduos sólidos retirados do esgoto durante o tratamento (incluindo o lodo) vai parar nos aterros sanitários...voltamos ao aterro - ou lixões (que não são poucos). Do que adianta sobrecarregar a rede de esgoto, aumentar o custo do tratamento e correr o risco de colapso ambiental sério pra no final das contas o lixo (resíduos sólidos) voltar ao local para onde ele deveria ter ido desde o início? (...) Não adianta reduzir seu lixo em 40% e aumentar o lixo dentro da rede de esgoto em 40%, pois ele vai voltar pro aterro. Continuemos na busca de soluções, mas cuidado pra não meter os pés pelas mãos e piorar a situação. Maria Augusta Como citou a nossa amiga Carolina, que os trituradores de cozinha aumentaria a carga orgânica e prejudicaria o tratamento nas ETEs, não concordo.., desde que sejam devidamente triturados os residuos acima citados contribuiria biologicamente para melhorar efetivamente o tratamento final da nossas estaçoes. Provalvemente estes elementos contribuiriam para a biorremediação, onde a materia orgânica ajudaria na decomposição de poluentes, como óleo queimado, margarina, manteiga, detergentes inorganicos...etc, que descem também pelos ralos e que são de difícil tratabilidade. Parabéns pela matéria de vocês, continuem com ideias assim, pois o povo brasileiro muitas vezes querem contribuir, mas no sabem como.

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Reportagem de Iracy Paulina e Jacqueline Manfrin

Consumo Responsável

A quantas anda a reciclagem brasileira

Em catorze anos, o Brasil avançou na coleta seletiva que dá início ao reprocessamento dos dejetos. Passou de 81 municípios com esse sistema implantado em 1994 para 405 em 2008. Ainda é pouco – o número representa apenas 7% das cidades brasileiras. Mesmo assim, nos itens abaixo, o país figura bem no cenário mundial

A máquina que lava (quase) sem água

E

mbalagens de alumínio O Brasil é o campeão, com 94% de reciclagem, à frente de Japão e Argentina (ambos com 90%) Garrafas PET O país recicla 51%. Os japoneses, que est��o em primeiro lugar, exibem um índice de 62% Embalagens de Vidro Os brasileiros superam os americanos, por 46% a 40% Anote (no bloco de papel reciclado, é claro) Algumas atitudes que você pode tomar para reduzir ainda mais seu lixo e não prejudicar o ambiente: Ao substituir um celular, entregue o antigo na mesma loja em que o novo foi comprado. O equipamento será encaminhado ao fabricante, que poderá reaproveitar algumas das peças e dará um destino apropriado às não reutilizáveis Use cartuchos de impressora reciclados. A fabricação de um único cartucho requer o uso de 5 litros de petróleo e ele demora cerca de cinquenta anos para se degradar naturalmente Na hora de comprar, dê preferência a embalagens maiores ou retornáveis e produtos com refil. No supermercado, em vez de alimentos pré-embalados em bandejinhas de isopor (que não é reciclável), prefira comprar a granel

Opte por lâmpadas de baixo consumo. Além de gastarem menos energia, elas duram mais. Mas cuidado ao descartá-las: não podem ir para o lixo comum porque, quando se quebram, emitem vapor de mercúrio. A recomendação é que sejam devolvidas aos estabelecimentos que as vendem Ao comprar calçados ou roupas, dispense as caixas e folhas de papel que costumam embalá-los

Fontes consultadas: as biólogas Assucena Tupiassu, professora da Escola Municipal de Jardinagem do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e Elen Aquino, pesquisadora do Centro de Capacitação e Pesquisa em Meio Ambiente (Cepema), da Universidade de São Paulo; a ambientalista Ana Maria Domingues Luz, presidente do Instituto Gea; André Vilhena, diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre); e Helio Padula, gerente do departamento de serviços da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) Fonte: Revista Veja

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Seu nome: Xeros O projeto: desenvolvida pelo inglês Stephen Burkinshaw, da Universidade de Leeds, a máquina consome apenas 10% da água usada em lavagens comuns e economiza 30% de eletricidade Como funciona: a lavagem é feita basicamente por milhares de minúsculas esferas de polímeros de náilon que, umidificadas, atraem e absorvem a sujeira das roupas. Essas esferas podem ser reutilizadas até 100 vezes, o que equivale a aproximadamente seis meses de uso. Elas requerem também pouco detergente O impacto ambiental: em relação às lavadoras comuns, diminui em 40% a emissão de carbono, componente do principal gás do efeito estufa, causador do aquecimento global Previsão de lançamento: até o fim de 2010. Seu inventor acredita que, nos primeiros anos de fabricação, por causa do alto preço, a máquina será adquirida apenas por grandes hotéis e lavanderias


Pesquisa

ONU: como o brasileiro cuida do ambiente?

O

que você está fazendo para cuidar do meio ambiente? Esta é a pergunta que as Nações Unidas estão colocando a todos os brasileiros através da campanha ONU Verde, que será lançada no 64º aniversário da Organização, festejado mundialmente em 24 de outubro 2009. A campanha conta com o apoio da TIM, que enviará cerca de oito milhões de SMS convidando seus assinantes a participar e também com o apoio da MTV Pública que divulgará a iniciativa e veiculará os cinco vídeos mais criativos. Todos aqueles que quiserem participar, deverão responder a pergunta “O que você está fazendo para cuidar do meio ambiente?” através do envio de até três fotos – tiradas com celular – ou um pequeno filme de até 30 segundos, também realizado com celular, acompanhados por um relato da ação proposta, com até 100 palavras. Estes materiais serão publicados

pelo próprio participante no site http://www.onuverde.org.br/. Depois de enviar suas sugestões, o participante receberá um certificado online, da ONU, com a frase: “Eu faço minha parte”. A campanha ficará no ar até 1º de junho de 2010, quando um Comitê de Seleção - composto por cinco representantes das agências e programas do Sistema ONU no Brasil - escolherá as 10 fotos e os cinco melhores vídeos que melhor traduzam o tema da campanha. O resultado estará disponível neste site a partir do dia 5 de junho 2010. As fotografias selecionadas serão amplamente divulgadas pela rede de comunicação das Nações Unidas no Brasil e

no exterior e os cinco vídeos vencedores serão veiculados pela MTV Pública no Dia Mundial do Meio Ambiente de 2010 (5 de junho). Outras informações sobre a campanha, o regulamento, e detalhes sobre inscrição podem ser obtidos no site http:// www.onuverde.org.br/

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Por Sandra Sinicco*

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Mudanças Climáticas

Reunião do FBMC revela avanços na posição do governo brasileiro, mas incertezas ainda persistem.

a reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) realizada dia 09 de novembro – apenas 5 dias antes da data estipulada pelo presidente Lula para divulgação das posições que o Brasil levará para a COP15 – alguns sinais positivos puderam ser detectados. Talvez o mais emblemático tenha sido a fala da ministra Dilma Roussef, que, mudando seu discurso de algumas semanas atrás – disse que “o Brasil poderá sintetizar sua posição em torno de um número, um objetivo quantitativo voluntário. O valor exato vai depender de uma avaliação técnica, pois não falamos apenas de nossa vontade, mas das possibilidades concretas: pode ser 38%, como pode ser 42%”. É um grande progresso, para quem dizia que “nosso compromisso principal não é com o estabelecimento de números”... Outra fala merecedora de destaque é a do presidente Lula, que ao encerrar o evento declarou que “a questão das mudanças no clima já não é mais assunto só da academia e dos ambientalistas: é uma questão popular, as pessoas comuns já percebem o quanto este assunto é sério e urgente”. Mas as ressalvas persistem, quando o presidente lembra que “existe porém uma grande distância entre acreditar numa coisa que achamos certa, e conseguir convencer os outros disso, e colocá-la em prática”. Lula também declarou literalmente que nesta semana está “incumbido de telefonar para os presidentes Obama e Hu Jin Tao, para convencê-los a irem a Copenhague”. Informou sua percepção de que os chefes de Estado europeus estão dispostos a ir, citando nominalmente Nicolas Sarkozi, Gordon Brown, Ângela Merckel e os países nórdicos. Disse ainda que está articulando uma reunião entre os presidentes dos países amazônicos, programada para o final de novembro ou primeiros dias de dezembro, com o objetivo de definir uma posição comum na COP15. Quanto às expectativas do resultado dessas articulações, Lula concluiu dizendo que “se não for possível um acordo formal, detalhando tecnicamente em todos os aspectos, devemos buscar pelo menos uma firme declaração política conjunta dos chefes de Estado presentes às reuniões

Na avaliação do coordenador-executivo da TicTacTicTac, Aron Belinky, “apesar das falas do presidente Lula e da ministra Dilma ainda serem um tanto condicionais, é inegável que houve um progresso na posição do governo. “Todas as informações possíveis estão na mesa, e as autoridades têm clareza sobre o assunto: a posição do Brasil na COP15 depende agora de decisões essencialmente políticas e negociais”, sintetiza ele, concluindo que “mais do que nunca, é importante manter a mobilização social e a pressão popular”.

programadas para 16 e 17 de dezembro (durante a COP15). Mas confesso a vocês que, se ninguém for, eu também não irei”. O ministro Minc manteve o tom otimista, destacando os progressos nos entendimentos dentro do Governo e com a sociedade em geral, enfatizando as oportunidades de reduções de emissões na agricultura, nos transportes e – especialmente – na siderurgia, com o “aço verde”. Chamou também a atenção para o processo de revisão do Plano Nacional sobre Mudanças no Clima, que deverá ter sua nova versão em publicada em julho de 2010. Estas falas significativas ocorreram ao final de mais de duas horas de evento, em que os componentes da mesa comandada pelo secretário executivo do FBMC - Luiz Pinguelli Rosa – ouviram dele a síntese e as conclusões dos trabalhos realizados pelo fórum, seguidas de manifestações de representantes de diversos setores da sociedade: poder público, indústria, agronegócio, trabalhadores, academia e sociedade civil. Estavam na mesa, além de Pinguelli, o presidente Lula e os ministros Dilma, Minc e Reinold Stefanes. Na platéia, também o ministro da Saúde e os governadores do Amazonas e do Amapá, dentre outras autoridades.

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Em suas falas, os representantes dos diferentes setores enfatizaram as posições que já vêm manifestando nas últimas semanas, em que predomina a noção de que a COP15 é um momento de enorme importância para o Brasil, tanto na definição de indicações para a sociedade nacional, quanto para posicionamento do país no cenário internacional. A persistente polêmica quanto à amplitude dos mecanismos de mercado nos processos de REDD foi um dos pontos de divergência, mas aparentemente existe espaço para acomodação das diferentes visões sobre o tema, via definição de limites e regulação pública para aplicação de tais mecanismos. O tom mais destoante ficou por conta do representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que basicamente repetiu os pontos principais do documento recentemente divulgado pela entidade, onde - entre outras medidas muito focadas nos interesses de curto prazo de alguns setores - destaca-se a oposição a metas obrigatórias, limitando-se as expectativas quanto às ações da indústria brasileira a compromissos voluntários (mas, curiosamente, passíveis de receber benefícios e incentivos financeiros). Esta posição foi rebatida com firmeza e ironia na fala de Sérgio Leitão, do Greenpeace: “Concordaremos plenamente com a pro-


posta da CNI quanto à ausência de metas, mas só no dia em que as empresas também eliminarem as metas de produtividade para seus executivos e funcionários”, disse ele, usando a oportunidade para enfatizar a necessidade de números claros assumidos pelo Governo, como forma de alinhar a sociedade e mobilizar motivação e recursos para o esforço necessário à inclusão do Brasil numa nova economia, de baixo carbono. A fala de Leitão não estava na agenda inicial da reunião, mas foi um dos pontos altos do evento, enfatizando num tom coloquial, por meio de exemplos concretos e bom humor, as agendas do desmatamento zero e da necessidade de metas claras e ambiciosas para que a indústria brasileira não perca sua competitividade e as oportunidades abertas pelo processo de transformação econômica em curso. O representante oficial das ONGs no evento foi Ivan Marcelo, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais (FBOMS), que leu o documento preparado pela entidade (anexo), no qual são enfatizados os pontos construídos nos debates realizados ao longo deste ano, nos seminários e grupos de trabalho. Além dos aspectos relativos às mudanças nos padrões de produção e consumo e nas reduções de emissões, a entidade enfatiza a necessidade de que o processo de transição para uma economia de baixo carbono seja realizado de modo a ampliar a inclusão social, diminuindo as disparidades entre ricos e pobres, tanto no próprio país, como internacionalmente. Enfatiza também a importância de viabilização do intercâmbio de tecnologias, e dos investimentos urgente em adaptação aos efeitos das mudanças climáticas, que já se fazem sentir e afetam de modo mais imediato e intenso os mais pobres. A constituição de um fundo internacional com uma governança inclusiva e equilibrada é fundamental neste sentido. Concluindo sua fala, o representante do FBOMS enfatizou a importância e a representatividade da campanha TicTacTicTac, chamando o seu coordenador executivo, Aron Belinky, para que fizesse a entrega simbólica do abaixo-assinado da campanha ao presidente Lula, juntamente com a cartaaberta a ele endereçada por 38 entidades apoiadoras da campanha (anexas). A documentação foi entregue ao presidente, assim como outros materiais com mensagens da campanha. “Foi muito animador notar o interesse com que o presidente e os demais integrantes da mesa receberam os materiais, e a atenção com que os leram”, diz Belinky,

Na reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) realizada dia 09 de novembro foi feita a entrega simbólica do abaixo assinado da campanha TicTacTicTac nas mãos do presidente Lula, que juntamente com a ministra Dilma Roussef e os ministros Carlos Minc e Reinold Stefanes o leram atentamente.

concluindo que “apesar das falas do presidente Lula e da ministra Dilma ainda serem um tanto condicionais, com reticências que podem terminar em posições tímidas ou insuficientes, é inegável que houve um progresso na posição do governo. Todas as informações possíveis estão na mesa, e as autoridades têm clareza sobre o assunto: a posição do Brasil na COP15 depende agora de decisões essencialmente políticas e negociais”, sintetiza ele, concluindo que “mais do que nunca, é importante manter a mobilização social e a pressão popular”. Na ocasião outras duas contribuições de organizações da sociedade civil foram entregues pelo coordenador da campanha TicTacTicTac ao Secretário Executivo do FBMC, que é o responsável por garantir que

as mesmas sejam devidamente consideradas e encaminhadas aos ministros envolvidos e ao presidente Lula. Trata-se da “Carta contra Incineração no Brasil” - subscrita pelo Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, pelo Movimento Nossa São Paulo e outras cinco entidades articuladas por meio Instituto Pólis - e da “Carta de Organizações da Sociedade Civil e Lideranças Religiosas da Região Metropolitana de São Paulo”, subscrita por 14 entidades representativas de diversas religiões, numa iniciativa articulada pelo Vitae Civilis - Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz. * Coordenadora de Comunicação da campanha TicTacTicTac

Representantes de entidades participantes da TicTacTicTac - Ivan Marcelo, do FBOMS e Sérgio Leitão, do Greenpeace - estiveram presentes e em suas falas reforçaram os pontos fundamentais defendidos pela campanha e por suas entidades. 2009 - NOVEMBRO - EDIÇÃO 026 - REVISTA DO MEIO AMBIENTE - 23


Por Dal Marcondes

Sustentabilidade e Clima

Mudanças climáticas: Compromissos ou metas?

O Brasil assumiu compromissos com a redução das emissões de carbono até 2020. Algo entre 31% e 38% do que emitiria se nenhuma medida de redução fosse tomada. Este é o piso estabelecido pelo governo, não deve ser tomado como teto pela sociedade.

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os últimos dois anos, em especial desde o início deste ano, o governo brasileiro tem sido pressionado por organizações da sociedade civil e pela oposição política a estabelecer suas metas para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Os estudos do governo e de ONGs como Imazon, Greenpeace e outras mostram que os grande vilões do aquecimento global no Brasil são: desmatamento e agronegócio. Estes dois vetores de emissões, muitas vezes, andam juntos. Os compromissos que o governo brasileiro aceitou levar para Copenhague são apenas um piso na redução de emissões, não devem e não podem ser vistos como um teto. Ou seja, a sociedade brasileira pode e deve fazer mais do que isso. Não há nenhum motivo pelo qual o Brasil não possa assumir uma vanguarda a partir de suas empresas e de decisões de governos estaduais e municipais. O governo federal tem de negociar com muitos setores, aplacar a

birra de uma bancada ruralista egocentrada e mediar as vontades de setores ambientalistas e desenvolvimentistas dentro do próprio aparelho do Estado. É compreensível que o resultado seja conservador. Mas precisamos lembrar que este é (e lutou-se muito para isto) um País livre e cada um pode estabelecer suas próprias metas e compromissos. Existem mais atores trabalhando pela redução da emissão de gases de efeito estufa além do governo. É o governo federal que levará as metas brasileiras á COP 15, em Copenhague. A equipe de negociadores brasileiros vai enfrentar posições duras de governos como Estados Unidos e China, que ainda não se posicionaram claramente em relação às suas próprias metas e compromissos. O jogo em uma COP é pesado e os governos estão lá para defender soberania, pois uma vez assinados os compromissos, perdem o poder de decisão sobre o tema. Por isso não se espera nenhum resultado, ou algo parecido com um “Protocolo de Copenhague”, antes de março ou abril de 2010,

outros importantes protagonistas que representam outras vontades, algumas mais avançadas. Para além das reuniões de governos, a COP é um cenário multicultural, onde ONGs, empresas e governos locais discutem suas próprias agendas, com acordos, metas e compromissos próprios. No caso brasileiro algumas representações merecem destaque, porque tem efetiva capacidade de pressão sobre as negociações principais, e porque tem o poder de tomar decisões setoriais que podem reposicionar o Brasil como liderança em questões climáticas. Estarão em Copenhague representações empresariais, onde vale destacar o Instituto Ethos e o posicionamento marcante de seu presidente Ricardo Young, representações de governos locais, a Prefeitura de Manaus, através do secretário do Meio Ambiente e Sustentabilidade, Marcelo Dutra, que estará representando as cidades da América Latina e Caribe, a convite da própria ONU, e a Força tarefa de Governadores da Amazônia, que terá como representante seu secretário executivo,

quando o Congresso norte-americano terá aprovado ou recusado as metas que os Estados Unidos irão propor para sua própria sociedade e economia. No entanto, lá estarão presentes

Virgílio Viana. Estes três grupos estão se articulando há meses para levar posições caras para Copenhague. O Instituto Ethos, juntamente com o Fórum Amazônia

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Sustentável, que reúne ONGs e empresas para debaterem políticas públicos sobre a Amazônia, lançou a “Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças Climáticas”, uma iniciativa tão inovadora que foi citada pelo Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, como exemplo de participação da sociedade nos processos de construção de uma economia de baixo carbono. A Prefeitura de Manaus realizou em outubro a “Cúpula Amazônica sobre Mudanças Climáticas”, onde prefeitos de toda a Amazônia brasileira e de países vizinhos assinaram a “Carta de Manaus”, que defende a criação de mecanismos que valorizem as iniciativas locais em prol da preservação e dos uso sustentável da floresta. Por fim, a Força Tarefa de Governadores da Amazônia, que lançou no final de outubro o “Relatório I – Força Tarefa sobre REDD e Mudanças Climáticas”. Segundo o governador do Amazonas, Eduardo Braga, as negociações são nacionais, mas são os governos locais que tem a capacidade de transformar as metas em realidade. “No Amazonas estamos desenvolvendo mecanismos de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) inovadores, em parceria com empresas privadas”, explica. Em Copenhague a Força Tarefa estará representada pelo diretor geral da Fundação Amazonas Sustentável, Virgilio Viana, que é um dos mais vigorosos defensores de iniciativas de REDD. Mais além destas representações, organizações não governamentais e empresas estão trabalhando para manter altas as expectativas e conseguir que o mundo aceite uma redução mais drástica das emissões globais de gases estufa. No entanto, é importante compreender que qualquer que seja o resultado em Copenhague, é apenas um fator de balizamento para as sociedades de todos os países. Nenhuma meta precisa ser vista como “teto” para as emissões globais e nada impede que governos locais e empresas assumam compromissos mais abrangentes. Já há exemplos de avanços além do exigido pelas leis e acordos internacionais. Um exemplo a ser destacado é o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, governado pelo republicano Arnold Schwarzenegger, que assumiu compromissos de redução de emissões muito mais audaciosos do que o governo Bush, além de liderar

um movimento de governadores locais para avançar nas mudanças por uma economia de baixo carbono. Em uma série de palestras, entrevistas e em seu mais recente livro lançado no Brasil, “A Terceira Margem”, o economista Ignacy Sachs vem defendendo que o Brasil é dos países mais bem preparados para mudar o eixo de sua economia em direção a uma “economia da biomassa”. Ele acredita que o País detém conhecimentos e capitais que

permitem olhar para os recursos naturais de forma inovadora, com a exploração sustentável de matérias primas agroflorestais e sem a necessidade de destruir biomas, mas sim com o manejo inteligente de insumos da biodiversidade. “Além disso o Brasil tem sorte, com os recursos do petróleo pré-sal pode investir grandes volumes de capitais para ser o primeiro país do mundo a ter uma economia pujante e com baixas emissões de carbono”, diz Sachs. O importante para se refletir é o quanto desta nova economia estaria nas mãos do Estado e o quanto estaria nas mãos de governos locais e de empresas. Os empreendimentos necessários para a transformação desta economia estão muito mais no eixo da iniciativa privada do que do Estado. É importante o apoio e a regulamentação das ações, mas quem vai produzir biocombustíveis e desenvolver tecnologias hoje são empresas, universidades, centros de pesquisas e ONGs. O papel do Estado é importante, mas não limita a expansão do papel de outros setores. Recentemente o governo do estado de São Paulo anunciou metas mais abrangentes do que as do Governo Federal para a redução de emissões. Isto é importante, porque o Estado de São Paulo tem universidades e centros de pesquisa atrelados a ele, o que certamente vai possibilitar mais ações nas áreas de ciência e desenvolvimento tecnológico. Então, não se deve ficar decepcionado porque o governo não é ambicioso nas reduções de emissões. Uma sociedade comprometida com a construção de uma nova economia, com empresas focadas em melhorar seus negócios e garantir a perenidade de seus recursos e governos locais mobilizados pode fazer muito mais do que seguir metas tímidas. O Brasil seguirá liderando pelo exemplo de sua sociedade e o governo, qualquer que seja, virá a reboque da sociedade, como aconteceu com as políticas de REDD, que até bem pouco tempo eram completamente ignoradas por Brasília, mas que agora representam o “prato de resistência” dos negociadores do Itamaraty em Copenhague.

(Envolverde)

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Por Herton Escobar

Biodiversidade

‘Valor da biodiversidade é mil vezes superior ao da agricultura’

Cientista da Embrapa afirma que a salvação da lavoura depende da preservação do bioma

foto: Roberto Jayme/Reuters

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Cerrado ainda tem 800 mil quilômetros quadrados de terras agricultáveis - uma área igual à da França e Reino Unidos juntos, suficiente para duplicar tudo o que já é ocupado pela agropecuária no bioma. Se o País for inteligente, não precisará desmatar nem um hectare dessa terra. “A riqueza que temos guardada na biodiversidade do Cerrado é mil vezes superior à da agricultura”, diz o engenheiro agrônomo Eduardo Assad, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A afirmação surpreende. Não só pelo conteúdo, mas por sair da boca de um cientista que há mais de 20 anos dedica sua vida ao agronegócio e que se lembra, sorrindo, dos tempos em que passava o correntão no Cerrado em cima de um trator, na fazenda da família em Quirinópolis, no sul de Goiás. Só que os tempos mudaram. Agora, diz Assad, é hora de preservar e pesquisar as riquezas que o bioma tem a oferecer no seu estado natural. Até mesmo para o bem da própria agricultura. “A preservação do Cerrado é a salvação da lavoura”, costuma dizer o pesquisador. Segundo ele, é no DNA das plantas nativas do bioma que estão escondidos os genes capazes de proteger suas inquilinas estrangeiras (a soja, o milho, o algodão, o arroz) do aquecimento global. Dentre as 12 mil espécies nativas conhecidas, só 38 ocorrem no bioma inteiro, o que significa que estão adaptadas a uma grande variabilidade de condições climáticas e de solo. “A elasticidade genética das plantas do Cerrado é impressionante”, afirma Assad. Ele e sua mulher, Leonor, também pesquisadora, destacam que o Cerrado é uma formação mais antiga do que a Amazônia e a Mata Atlântica, tanto do ponto de vista geológico quanto biológico. O que significa que suas espécies já foram expostas - e sobreviveram - a todo tipo de situação: muito frio, calor, seca, etc. Os genes que conferem essa capacidade adaptativa poderiam ser transferidos para culturas agrícolas via transgenia, tornando

Parte da vegetação do cerrado é transformada em carvão.

soja e companhia igualmente resistentes às intempéries climáticas que estão por vir. Só falta descobri-los. “O Cerrado é o maior laboratório de prospecção de genes do mundo, mas ninguém olha para isso”, diz. “Nem estudamos o genoma dessas espécies e já estamos acabando com elas.” Sem falar no potencial farmacológico das plantas medicinais e nos serviços ambientais prestados pelo bioma como um todo: estocagem de carbono, controle climático, controle de erosão, produção de água e outros fatores cruciais para a agricultura. “A conservação tem de ser vista como uma atividade produtiva também”, diz a bióloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília. Desconhecimento Não é o que acontece. A riqueza econômica e tecnológica do agronegócio contrasta com a pobreza de recursos e de conhecimento sobre o bioma. “Trabalhar com políticas públicas no Cerrado é muito frustrante”, admite o diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, Mauro Pires. “Quando se fala em trabalhar com a Amazônia as portas se abrem. Quando se fala em trabalhar com o Cerrado, elas não se mexem.” Mercedes sente a mesma dificuldade. Ela é coordenadora científica da Rede de Pesquisa ComCerrado, recém-criada pelo Minis-

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tério da Ciência e Tecnologia (MCT), com representantes dos 11 Estados do bioma. A ideia é fazer pelo Cerrado o que o Experimento de Grande Escala da BiosferaAtmosfera (LBA) faz pela Amazônia, produzindo o conhecimento científico necessário para entender, valorizar e explorar adequadamente - quando possível - os serviços ambientais prestados por seus ecossistemas. “Não há como fazer boa gestão sem informação”, ressalta Mercedes. “Vemos muitas políticas públicas que carecem de embasamento técnico adequado.” Por enquanto, o programa tem R$ 220 mil em caixa para pesquisa. A expectativa é que receba R$ 6 milhões do MCT nos próximos dois anos, mais o valor de uma emenda parlamentar apresentada pela bancada do Distrito Federal - inicialmente orçada em R$ 7 milhões, mas reduzida para R$ 1,7 milhão. Parte da dificuldade, diz Mercedes, é o Cerrado estar espalhado por várias regiões e não concentrado em um bloco geopolítico coeso, como a Amazônia. “Até a Caatinga tem mais força política do que o Cerrado”, diz o gerente do Programa Cerrado-Pantanal da ONG Conservação Internacional, Mario Barroso - sem desmerecer a importância da Caatinga. Fonte: Estadão


Ecologia Interior

Atitudes diante de tragédias Por Maurício Andrés Ribeiro*

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar Por causa disso, minha gente lá de casa, começou a rezar...” Assis Valente

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radições espirituais pregam a oração e as virtudes humanas que ajudem a reduzir a dor. Quem se sente impotente para atuar diante de cenários catastróficos recolhe-se, apela para Deus e a ele entrega seu destino. A esperança da salvação diante do apocalipse faz transcender, ao crer que os puros, os bons, os justos se salvarão. Outra reação é a de curtir o aqui e agora, presente numa história oriental: “Um homem caiu num precipício e agarrou-se num cipó. Embaixo, um leão esfomeado o aguardava; acima, um ratinho roia o cipó. Ao lado, na rocha, havia uma parreira com uvas maduras. Ele soltou uma das mãos, colheu uma uva e a provou, exclamou: Que delícia!” Nessa linha do carpe diem, também canta o sambista: “E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei a boca de quem não devia/ Peguei na mão de quem não conhecia/ Dancei um samba em traje de maiô”. A perspectiva de uma catástrofe pode provocar pânico, desespero, ansiedade e depressão, bem como reações emocionais de negação. Ao aterrorizar as pessoas, as previsões de catástrofes paralisam as reações, produzem sensação de impotência, de não ter o que fazer, de medo do futuro. Um rato fica hipnotizado diante da cobra que se prepara devorálo. Alertas de catástrofes climáticas e ambientais podem causar reação paralisante. Romper tal paralisia cria condições para agir. Para além da reação emocional, a iminência da catástrofe é vista como desafio a ser vencido, cria motivação para luta, para desenvolver a astúcia, a inteligência, a resistência. Com calma,

vem a aceitação da situação e a consciência da necessidade da adaptação, o desenvolvimento de estratégias de sobrevivência que exigem encarar a situação com coragem e agir racionalmente. Esse tipo de reação pragmático mobiliza ações: seja a de buscar a salvação individual ou coletiva, na esperança se proteger e escapar da catástrofe; seja a de prevenir, criar sistemas de alerta para, se possível, evitar que o desastre aconteça. Define metas e as traduzem em ações que garantam o seu cumprimento. Não basta definir metas de longo prazo, capitalizar os ganhos de tê-las definido e deixar o seu cumprimento para aqueles que vierem depois, desobrigando-se de agir agora. A percepção da iminência da catástrofe mobiliza a ação e desperta a consciência, especialmente de grupos mais esclarecidos. No caso das mudanças climáticas, isso vem ocorrendo com os alertas dos cientistas e a pressão crescente sobre as lideranças políticas. Eles denunciam o déficit de consciência ecológica dos governantes, a ganância e o egoísmo. Reconhecer os perigos à frente, acender luzes amarelas de alerta e de emergência, é um primeiro passo para lidar com as tragédias anunciadas. Assim, por exemplo, cientistas convencidos dos riscos que representam eventuais colisões com outros corpos celestes montam sistemas de previsão e de prevenção. Catástrofes são pedagógicas e ensinam, porém a custa de sofrimento e dor. Diante do desastre ocorrido, surge uma atitude de compaixão e de ajuda e cooperação entre vizinhos atingidos, como ocorreu nas enchentes em Santa Catarina. Conhecer as reações humanas antes, durante e depois de catástrofes é valioso num mundo em que estamos expostos a cenários potencialmente trágicos. Alguns cenários antecipam tragédias grandiosas, globais, planetárias, com o colapso das civilizações que

poderia ocorrer devido às mudanças climáticas e à extinção da biodiversidade. Filmes como A era da estupidez ou O dia depois de amanhã, dão forma a esses cenários. Outros cenários mostram tragédias pontuais, delimitadas a locais específicos. Alguns colocam em duvida se é verdadeiro o diagnóstico da iminência da catástrofe, tal como os céticos em relação a mudanças climáticas ou aqueles que negam a responsabilidade humana por tais mudanças. Nessa linha, continua Assis Valente: “Acreditei nessa conversa mole/Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir... E constata, em tom de frustração, que tudo não passava de alarme falso: E o tal do mundo não se acabou.” Um problema de dimensões colossais não pode ser enfrentado apenas por meio da ação individual ou de pequenos grupos. Num Titanic que afunda ou num avião em queda, o passageiro tem pouco a fazer para evitar o desastre; ações preventivas deveriam ter sido tomadas antes. Na iminência de um colapso climático, a união planetária é forma de fortalecimento mutuo. Por meio dela desenvolve-se a cooperação e a solidariedade, superam-se divergências menores em prol da sobrevivência, numa ação convergente em que cada um faça a sua parte. Como construir tal convergência num contexto de interesses conflitantes é um desafio penoso de ser superado, como mostram as difíceis negociações relacionadas com as mudanças climáticas. Ações preventivas tomadas a tempo podem evitar a ocorrência da tragédia anunciada. A mudança de atitudes pode criar outro futuro possível. * Autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia para a civilização sustentável. www.ecologizar.com.br / mandrib@ uol.com.br

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Por Paula Rothman, de INFO Online

Ciência

Confirmada água na Lua

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erca de 90 litros de água sob foma de gelo congelado há bilhões de anos estavam escondidos em cratera lunar. A descoberta foi feita graças à missão Lcross, iniciais de Lunar Crater Observation and Sensing Satellite, que bombardeou a Lua no dia 9 de outubro. Depois de percorrerem nove milhões de quilômetros e 113 dias, o foguete Centaur se separou do satélite Lcross e se chocou à Lua em alta velocidade na região permanentemente sombreada da cratera Cabeus, perto do pólo sul lunar. O impacto abriu um buraco entre 18 e 30 metros de largura e encontrou cerca de 90 litros de água congelada. O choque causado pelo Centaur criou uma nuvem de vapor e poeira fina e também revelou a existência de um material mais pesado. O anúncio feito pela NASA reforça os planos de tornar a Lua uma base para viagens a locais mais distantes da Terra. A descoberta também confirma a fonte das grandes quantidades de hidrogênio

observadas nos pólos lunares. Os dados da Lcross mostram que existe mais água, e que ela está mais espalhada na Lua, do que antes imaginado. Segundo comunicado da NASA, as concentrações exatas de água ainda são incertas, mas com certeza ela está presente na região. De onde vem a água na Lua? A Lua é como uma grande esponja que absorve partículas eletricamente carregadas liberadas pelo Sol. Esses prótons interagem com o oxigênio presente em alguns grãos de poeira da superfície lunar produzindo hidroxila e água. Junto com a descoberta, os cientistas se depararam com outro mistério, afinal, nem todo próton é absorvido: um em cada cinco é rebatido de volta ao espaço. Nesse processo, o próton se junta a um elétron e se torna um átomo de hidrogênio. Apesar de não saberem ainda o porquê desse acontecimento, cientistas já imaginam

como ele pode ser aproveitado. Na Lua, o hidrogênio é rebatido com uma velocidade de 200 km/s e escapa sem ser desviado pela gravidade. O hidrogênio também e eletricamente neutro, e não é desviado pelos campos magnético do espaço, fazendo com que os átomos voem em linha reta – como os fótons fazem na luz. Isso abre um novo caminho para imagens serem feitas já que, a princípio, cada átomo pode ter sua origem traçada. As áreas que emitissem mais hidrogênio apareceriam como as mais brilhantes.

Festmundo Criança, 1º Festival da Cultura da Infância no Mundo

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erópolis, cidade do interior goiano localizada a 25Km de Goiânia, Capital de Goiás, com acesso por Anápolis ou Goiânia, inaugura dia 19 de Novembro às 8h o 1º FESTMUNDO CRIANÇA, 1º Festival da Cultura da Infância no Mundo. Na Rua Aderbal Nunes de Oliveira – Centro, Neropólis-GO e nos espaços do Colégio Estadual José Valente e Ginásio de Esportes Domingos Xavier Nunes que sediarão as atividades um grupo de quase 300 crianças de 06 a 14 anos estarão realizando para o grande público em geral exposições culturais , artísticas e literárias,

representação da história do Estado de Goiás e de Nerópolis, palestras sobre temas ambientais, apresentações de dança, teatro, música e poesias de sua produção ou interpretação e oficinas de Eco-educação. A abertura oficial terá uma mesa de crianças presidindo os trabalhos, a apresentação do Hino Nacional, um show de danças típico e uma caminhada pela expressão das crianças. De iniciativa da Prefeitura de Neropólis e articulado pela Organização pela Preservação Ambiental com suas Secretarias e as escolas municipais e estaduais existentes no município o festival incentiva, promove e ordena no processo pedagógico cultural livre a construção da memória e identidade das crianças (com sua plena participação) sobre os valores éticos, morais e humanos das suas tradições culturais de origem familiar, municipal, estadual e brasileira e sobre os Direitos Sociais Humanos voltados para sua formação como cidadãos do mundo. De tal modo que, ao realizar o festival para o público interessado, essas crianças de 6 a 14 anos estarão colocando em execução essa proposta de ação em contraposição às propostas de mercado

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e competição que dão ênfase à formação de sua memória e identidade sobre os valores de consumo, violência, balada, drogas e sexo. E, assim, elas estarão executando as diretrizes de formação da cidadania contidas na Agenda 21 da Cultura, Convenção sobre os Direitos das Crianças e em documentos correlatos. As duas principais diretivas do festmundo criança são, portanto: a) Promover o auto-preparo e autonomia das crianças para publicamente apresentar, defender, integrar, fortalecer e desenvolver suas identidades individuais e coletivas, local e global contra todo tipo de marginalidade e criminalidade e em favor da Paz e do Desenvolvimento Sustentável – ou, o exercício por elas da expressão de sua identidade e cultura como cidadã desde a INFÂNCIA; e, b) Promover o resgate e o desenvolvimento de brincadeiras e travessuras de grupo que ajudem no fortalecimento dos laços culturais de amizade e união entre as crianças e adultos participantes. Maiores informações: Roberto, tel. 61 9675 0407 E-mail: miceem@terra.com.br


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Ano IV - Edição 26 - Novembro 2009


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