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abril de 2015  www.revistapesquisa.fapesp.br

sérgio buarque Nova edição de Monções revela intenção do historiador de reescrever sua obra Hormônio do sono Melatonina regula também a fome e o gasto de energia mapas digitais Criado no Brasil, Google Engine é usado como ferramenta científica entrevista thomas lovejoy Cinco décadas de estudos na Amazônia

Análises de textos antigos e diferenças linguísticas atuais evidenciam a crescente separação do idioma de Portugal


O que a ciência brasileira produz você encontra aqui

>>>  revistapesquisa.fapesp.br  >>> assinaturaspesquisa@fapesp.br


fotolab

Unidos até o fim Parte da comunidade de minúsculas criaturas marinhas, os dinoflagelados se reproduzem pela divisão em duas metades idênticas. O grupo do Laboratório de Fitoplâncton da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) flagrou o final desse processo na espécie Ornithocercus quadratus, residente nas águas próximas ao arquipélago de Fernando de Noronha. No primeiro registro do fenômeno para esse gênero em mares brasileiros, os dois indivíduos em formação se mantêm ligados por uma ponte estriada, a zona dorsal megacítica, até que todas as estruturas estejam prontas. A junção então se dissolve. A imagem foi obtida a partir de amostras fixadas em formol e analisadas ao microscópio em aumento de 200 vezes.

Imagem enviada pela bióloga Eveline Pinheiro de Aquino, doutoranda do Departamento de Oceanografia da UFPE Se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br, com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

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ABRil.230 CAPA 16 Análise de textos antigos

e de entrevistas expõe as marcas próprias do idioma no país

ENTREVISTA 24 Thomas Lovejoy

54

Biólogo americano lidera projeto que tem ajudado a definir áreas de preservação

POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA 30 Gênero

As novas hipóteses que tentam explicar diferenças nas trajetórias de homens e mulheres na ciência

3 Fotolab 5 Cartas 6 On-line 7 Carta do editor 8 Dados e projetos 9 Boas práticas 10 Estratégias 12 Tecnociência 88 Memória 90 Arte 93 Resenha 94 Ficção 96 Carreiras 98 Classificados capa  O violeiro, 1899, de Almeida Júnior, Óleo sobre Tela 141 x 172 cm (Acervo Pinacoteca do Estado de SP) reprodução  Isabella matheus

Planta usada na produção da tequila se alimenta das bactérias que vivem em seu interior

58 Astronomia

Levantamentos identificam galáxias anãs em regiões extremas da Via Láctea

62 Geologia

Parte da crosta do Nordeste se desloca alguns milímetros por ano

TECNOLOGIA

64 Ciência da computação

38 Cooperação

70 Química

40 Parceria

72 Fotografia

Unicamp cria centro dedicado ao estudo de enzimas presentes em células humanas e vegetais

seçÕes

54 Bioquímica

34 Sociedade

População de São Paulo admira os cientistas e dá valor ao investimento em pesquisa, mostra Datafolha

74

criar conjuntos de características que variam em uníssono

Brasil e Reino Unido iniciam cooperação em doenças tropicais

42 Políticas públicas

Grupo divulga previamente resultados de pesquisas sobre Aids

CIÊNCIA 44 Fisiologia

Melatonina regula a ingestão de alimentos e o acúmulo de gordura

50 Neurociência

Novas conexões entre as células cerebrais se formam durante a fase dos sonhos

52 Evolução

Como seleção natural atua para

Google Earth Engine é utilizada na elaboração de mapas a partir de imagens de satélite Presença de cafeína em água tratada é indício da presença de substâncias nocivas

Novo método facilita a transformação de documentos manuscritos históricos em arquivos digitais

HUMANIDADES

74 História

Nova edição de Monções, de Sérgio Buarque de Holanda, evidencia seu gosto por refazer suas obras

80 Sociologia

Mais de 1 milhão de brasileiros já participou de um ato ou uma tentativa de linchamento

84 Cinema

As aproximações e diferenças entre o road movie dos EUA e os filmes do gênero brasileiros


cartas

CONTATOS  Site da revista No endereço eletrônico www.revistapesquisa.fapesp.br você encontra todos os textos de Pesquisa FAPESP na íntegra. No site também estão disponíveis reportagens traduzidas e as edições internacionais da revista em inglês, francês e espanhol.  Opiniões ou sugestões Envie cartas para a redação pelo e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727 – 10º andar CEP 05415-012 São Paulo, SP  Assinaturas, renovação e mudança de endereço Envie um e-mail: assinaturaspesquisa@fapesp.br Ou ligue: (11) 3087-4237 De segunda a sexta das 9h às 19h  Para anunciar Midia Office – Júlio César Ferreira (11) 99222-4497 julinho@midiaoffice.com.br Classificados: (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br  Edições anteriores Preço atual de capa da revista acrescido do valor de postagem. Envie e-mail para clair@fapesp.br  Licenciamento de conteúdo Para adquirir os direitos de reprodução de textos e imagens de Pesquisa FAPESP ligue: (11) 3087-4212 ou mpiliadis@fapesp.br

cartas@fapesp.br

USP 80 anos

Em nome do corpo docente do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), gostaria de registrar nosso estranhamento diante da ausência de referências à antropologia como uma das três áreas que compõem o curso de ciências sociais da USP na reportagem “O peso da sociedade” (suplemento especial “USP 80 Anos”). Mencionar apenas os departamentos de Sociologia e Ciência Política como representantes das ciências sociais na USP não é uma escolha de “estudos mais apropriados”, como diz a Carta da Editora, pois omite a existência de toda uma área de conhecimento que responde, em larga medida, pela produção passada e presente das ciências sociais brasileiras. Sem dúvida, sociologia, ciência política e antropologia estabeleceram e seguem estabelecendo diálogos estreitos, mas várias também são suas contribuições específicas, desde o núcleo inaugural da FFLCH na USP até os dias atuais.

reta da descoberta da bradicinina. Assim, que se faça justiça ao Instituto Biológico e ao Instituto Butantan. E longa vida à USP. Henrique Moisés Canter Conselho de Cultura do Instituto Butantan São Paulo, SP

Periódicos

Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer

Oportuna a publicação da reportagem sobre as mudanças implementadas pelo SciELO (“Para ampliar o impacto”, edição 227), visando à maior internacionalização dos periódicos publicados no Brasil. Um ponto pode e deve ser modificado: aumentar o prazo de financiamento das revistas. No modelo atual do Programa Editorial MCTI/CNPq/MEC/Capes, anualmente tem que ser feita a solicitação de auxílio, cujo resultado sabemos apenas perto do início do ano seguinte, dificultando o planejamento. Uma medida que poderia ser adotada imediatamente seria a ampliação para três ou cinco anos de financiamento, fazendo com que os editores possam programar melhor as atividades.

Departamento de Antropologia-FFLCH-USP

Alexander W. A. Kellner

São Paulo, SP

Anais da Academia Brasileira de Ciências Museu Nacional/UFRJ Rio de Janeiro, RJ

A respeito da edição especial “USP 80 Anos”, na legenda das páginas 26 e 27, há a figura da cabeça de uma serpente, acompanhada da seguinte legenda: “A identificação em 1965 de moléculas no veneno da jararaca que potencializam a ação da bradicinina é ainda hoje uma das descobertas mais importantes feitas por pesquisadores da USP”. É preciso dizer, também, que a base de tais estudos foi levada a efeito inicialmente por Maurício Rocha e Silva e Wilson Beraldo, no Instituto Biológico, acompanhados por Gastão Rosenfeld, do Instituto Butantan, que foi quem lhes levou, em 1948, a amostra do veneno de Bothrops jararaca, trabalho publicado no American Journal of Physiology, em 1949. Foi esse o trabalho que possibilitou ao discípulo de Rocha e Silva, que se transferira à recém-criada Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Sergio Henrique Ferreira, a contribuição ao desenvolvimento da primeira droga anti-hipertensiva como consequência di-

Paleolítico

Parabéns pela reportagem “Convivência incerta” (edição 228), ao focalizar a megafauna e sua convivência duvidosa com os paleoíndios e lançar luzes sobre o processo de datação de artefatos arqueológicos na América. O processo de datação como é feito em Sergipe mistura artefatos líticos e vestígios de homens e animais, sendo confundidos pela sedimentação. Na verdade, vestígios de trabalho humano no Paleolítico Superior muitas vezes considerados grosseiros podem até representar presenças humanas para além dos paleoíndios. Francisco J. B. Sá Salvador, BA

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail cartas@fapesp.br ou para a rua Joaquim Antunes, 727, 10º andar - CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

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on-line

Galeria de imagens léo ramos

w w w . r e v i s ta p e s q u i s a . f a p e s p. b r

A mais vista do mês no Facebook CAPA

A morte explica a vida

35.328 visualizações 639 curtidas 178 compartilhamentos entre 12 e 19 de março no perfil de Pesquisa FAPESP

Exclusivo no site x Pesquisadores da USP verificaram que a luminosidade emitida por fungos da espécie Neonothopanus gardneri segue um ritmo de cerca de 24 horas. Em estudo publicado na Current Biology, eles mediram as quantidades das substâncias químicas responsáveis pela emissão de luz. Os níveis dessas substâncias variam de acordo com o ciclo luminoso. Segundo os pesquisadores, o fato de esse fungo apresentar uma regulação genética para produzir mais luz quando está mais escuro indica que o brilho tem uma função para o organismo: aparentemente, atrair insetos que podem disseminar os esporos.

Registro fotográfico

Rádio

feito pelo biólogo

Bioquímico fala sobre estudo que investiga entorpecentes vendidos sob o nome de ecstasy

Vídeos do mês

Rafael Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explora a biodiversidade dos campos rupestres

youtube.com/user/PesquisaFAPESP

x Um grupo internacional de Assista ao vídeo:

pesquisadores, coordenado por brasileiros da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, e do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, deu mais um passo na compreensão

Mapas climáticos ajudam na revisão das estratégias de planejamento urbano em Campinas

da angiogênese, que leva à formação de novos vasos sanguíneos. Entre outras situações anômalas, na idade adulta esse processo pode estimular a evolução de tumores. Num estudo publicado na revista PNAS, eles observaram um conjunto de microRNAs, um tipo de ácido ribonucleico (RNA). Verificaram que essas moléculas desempenham um papel importante na regulação de dois RNAs específicos que ajudam na formação de novos vasos: o HIF1A e o VEGFA. 6 | abril DE 2015

Assista ao vídeo:

Blocos de rochas seriam pedaço de continente que submergiu na separação da América do Sul e da África


carta do editor fundação de amparo à pesquisa do estado de são Paulo Celso Lafer Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente Conselho Superior Celso Lafer, Eduardo Moacyr Krieger, fernando ferreira costa, Horácio Lafer Piva, joão grandino rodas, Maria José Soares Mendes Giannini, Marilza Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, Pedro Luiz Barreiros Passos, Suely Vilela Sampaio, Yoshiaki Nakano Conselho Técnico-Administrativo

O idioma em evolução Neldson Marcolin |

editor-chefe

Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico Joaquim J. de Camargo Engler Diretor Administrativo

issn 1519-8774

Conselho editorial Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Marcelo Leite, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira comitê científico Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Adolpho José Melfi, Carlos Eduardo Negrão, Douglas Eduardo Zampieri, Eduardo Cesar Leão Marques, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Joaquim J. de Camargo Engler, José Arana Varela, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luis Augusto Barbosa Cortez, Marcelo Knobel, Marie-Anne Van Sluys, Mário José Abdalla Saad, Marta Teresa da Silva Arretche, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Luiz Monteiro Salles Filho, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner do Amaral Caradori, Walter Colli Coordenador científico Luiz Henrique Lopes dos Santos editor-chefe Neldson Marcolin Editores Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo Zorzetto (Ciência); Carlos Fioravanti e Marcos Pivetta (Editores espe­ciais); Bruno de Pierro e Dinorah Ereno (Editores-assistentes) revisão Daniel Bonomo, Margô Negro arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de infografia), Maria Cecilia Felli e Alvaro Felippe Jr. (Assistente) fotógrafos Eduardo Cesar, Léo Ramos Mídias eletrônicas Fabrício Marques (Coordenador) Internet Pesquisa FAPESP online Maria Guimarães (Editora) Rodrigo de Oliveira Andrade (Repórter) Rádio Pesquisa Brasil Biancamaria Binazzi (Produtora) Colaboradores Alexandre Camanho, Ana Lima, Daniel Bueno, Daniel das Neves, Evanildo da Silveira, Gilberto Stam, Igor Zolnerkevic, Juliana Sayuri, Larissa Ribeiro, Márcio Ferrari, Mariza, Mauricio Pierro, Mauro de Barros, Negreiros, Pablo Nogueira, Raul Aguiar, Sandra Javera, Valter Rodrigues, Vinicius de Figueiredo, Yuri Vasconcelos É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos sem prévia autorização Para falar com a redação (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br Para anunciar Midia Office - Júlio César Ferreira (11) 99222-4497 julinho@midiaoffice.com.br Classificados: (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br Para assinar (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br Tiragem 43.200 exemplares IMPRESSão Plural Indústria Gráfica distribuição Dinap GESTÃO ADMINISTRATIVA INSTITUTO UNIEMP PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Governo do Estado de São Paulo

A

língua portuguesa falada no Brasil sempre pareceu estranha, por vezes irreconhecível, aos naturais de Portugal. O inverso também é verdadeiro. É comum encontrar visitantes brasileiros em sua primeira viagem à terra de Camões que, inicialmente, pouco entendem o português europeu. Em tom quase sempre jocoso, uns acusam outros de se expressar em um idioma sem sentido, de difícil compreensão. A discussão pertence àquele gênero em que todos têm grande parte de razão. A língua dos colonizadores portugueses no Brasil nunca parou de se transformar, embora se encontrem rudimentos do português antigo em alguns poucos lugares do imenso território brasileiro. O idioma falado por aqui foi levado e disseminado para o Sul e Centro-Oeste do país desde o século XVI pelos bandeirantes paulistas, que imprimiram a ele aspectos regionais colhidos durante as longas viagens exploratórias. A reportagem de capa desta edição conta histórias como essa baseada em um extenso estudo realizado nos últimos 30 anos, que identificou características próprias do português brasileiro. A língua falada no nosso país hoje pode ser considerada única, tal a diferença com o original europeu. Os especialistas estimam que, talvez, em mais 200 anos, ela se torne efetivamente autônoma, como explicado na reportagem do editor especial Carlos Fioravanti (página 16). Os antigos paulistas foram também estudados pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, que tratou das monções, expedições fluviais que saíam de São Paulo em direção a Mato Grosso no período colonial. O pesquisador, autor de alguns clássicos da historiografia brasileira, pu-

blicou Monções em 1945 e trabalhou por vários anos em uma nova versão do livro com o intuito de reescrevê-lo, acrescido de novas pesquisas. Tudo indica que a obsessão por melhorar o que já estava pronto e impresso era uma característica de Sérgio Buarque. Vale a pena conhecer o caso da reedição de Monções em dois volumes – um com o texto original e outro com os capítulos alterados –, na reportagem do editor especial Marcos Pivetta (página 74). O biólogo norte-americano Thomas Lovejoy não tem nada a ver com bandeirantes paulistas, embora há 50 anos também tenha percorrido terras pouco conhecidas pela ciência – no caso, a Amazônia. Ele começou seu trabalho na região em 1965 e perdeu a conta do número de vezes em que esteve em campo, quase sempre vindo dos Estados Unidos. Lovejoy tem fácil trânsito nos gabinetes de governo, o que ajuda na formulação de políticas públicas ambientais. Cinco décadas depois, ele continua empenhado em projetos para definir áreas e estratégias de preservação de florestas e em pensar o futuro da Amazônia, como explicou em entrevista a Maria Guimarães e Carlos Fioravanti (página 24). A política ambiental recebeu nos últimos anos um reforço tecnológico que teve a participação decisiva de pesquisadores brasileiros. A plataforma Earth Engine, do gigante da informática Google, nasceu no Brasil há pouco tempo e já se tornou importante na elaboração de mapas digitais em alta resolução a partir de imagens de satélite. O repórter Yuri Vasconcelos narra o processo de criação e os principais usos dessa ferramenta digital a partir da página 64. PESQUISA FAPESP 230 | 7


Dados e projetos Temáticos e Jovem Pesquisador recentes  Otimização e aumento de escala do processo de extração líquido-líquido com líquidos iônicos (LIs) como ferramenta de separação sustentável do biofármaco antileucêmico L-Asparaginase (ASPase) Pesquisador responsável: Jorge Fernando Brandão Pereira Instituição: FCF de Araraquara/Unesp Processo: 2014/16424-7 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2019

Projetos contratados em fevereiro e março de 2015 temáticos  Caracterização molecular de mecanismos envolvidos na patogenicidade e sinalização celular em fungos Pesquisadora responsável: Nilce Maria Martinez Rossi Instituição: FMRP/USP Processo: 2014/03847-7 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2019

 Genômica aplicada à produção de ruminantes Pesquisador responsável: José Bento Sterman Ferraz Instituição: FZEA/USP Processo: 2014/07566-2 Vigência: 01/03/2015 a 28/02/2018  Septinas: estudos comparativos visando correlacionar estrutura e função Pesquisador responsável: Richard Charles Garratt Instituição: IFSC/USP Processo: 2014/15546-1 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2020

Instituição: IB/Unicamp Processo: 2014/03002-7 Vigência: 01/03/2015 a 28/02/2019

 Análise sistêmica do processamento n-terminal e diversidade de proteínas no secretoma de células tumorais Pesquisador responsável: Andre Zelanis Palitot Pereira Instituição: ICT/Unifesp Processo: 2014/06579-3 Vigência: 01/03/2015 a 28/02/2019  Sistema RANKL na regulação de macrófagos presentes na inflamação

 Decifrando os mecanismos moleculares envolvidos na localização subcelular de proteínas e na complexa interação planta-insetos-patógenos. (Bioen) Pesquisador responsável: Marcio de Castro Silva Filho Instituição: Esalq/USP Processo: 2014/50275-9 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2020  Dimensões US-Biota São Paulo: diversidade de interações multitróficas quimicamente mediadas em gradientes nos trópicos. (FAPESP-Biota-NSF Dimensions) Pesquisador responsável: Massuo Jorge Kato Instituição: IQ/USP Processo: 2014/50316-7 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2020  Segurança alimentar e uso da terra: o desafio do telecoupling (FAPESP-Belmont Forum) Pesquisador responsável: Luiz Antonio Martinelli Instituição: Cena/USP Processo: 2014/50628-9 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2020 JOVEM PESQUISADOR  Internalização e trágego intracelular de nanopartículas: atividade biológica e perfil nanotoxicológico Pesquisador responsável: Marcelo Bispo de Jesus

8 | abril DE 2015

 O papel de diferentes domínios de atividade física no curso clínico da dor lombar não específica Pesquisador responsável: Rafael Zambelli de Almeida Pinto Instituição: FCT de P. Prudente/Unesp Processo: 2014/14077-8 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2019

 Busca indireta de matéria escura com o detector AMS-02 Pesquisador responsável: Manuela Vecchi Instituição: IFSC/USP Processo: 2014/19149-7 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2019

Patentes de invenção concedidas nos Estados Unidos O crescimento de 80% no número de patentes de invenção concedidas pelo Escritório de Patentes e Marcas norte-americano entre os períodos considerados, além de resultar em número ainda bastante baixo, não evita queda do Brasil na classificação usando o número de patentes em relação à população (do 66º para o 69º lugar) Patentes de invenção concedidas (PIC) - média anual País/Região

 Indivíduos com alto risco para desenvolvimento de injúria renal aguda em contextos clínicos relevantes: estudo prospectivo sobre aspectos epidemiológicos, diagnósticos e prognósticos Pesquisador responsável: Emmanuel de Almeida Burdmann Instituição: FM/USP Processo: 2014/19286-4 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2020

do tecido adiposo Pesquisadora responsável: Mariana Kiomy Osako Instituição: FMRP/USP Processo: 2014/11092-6 Vigência: 01/02/2015 a 31/01/2019

Número 1999-2003

MUNDO Estados Unidos Japão Alemanha Coreia do Sul Formosa (Taiwan) Canadá França Reino Unido China Israel Itália Holanda Suíça Suécia Austrália Índia Finlândia Bélgica Espanha Rússia Malásia BRASIL África do Sul Arábia Saudita México República Tcheca Hungria Polônia Argentina Tailândia Turquia Chile Colômbia Uruguai

162.674 86.288 33.199 10.7 11 3.629 4.893 3.422 3 .917 3.725 198 946 1.678 1.307 1.339 1.583 810 202 735 681 275 200 43 105 113 14 82 30 51 15 53 26 12 12 8 2

2009-2013

228.492 110.683 45.810 12.523 12.095 9.076 5.169 4 .7 18 4.556 3.610 2.138 1.930 1.760 1.7 16 1.702 1.609 1.425 1.049 829 511 303 189 189 127 110 106 101 95 60 55 47 42 34 9 6

Classificação* 1999-2003

2009-2013

– 1 2 3 7 4 8 5 6 25 13 9 12 11 10 14 23 15 16 20 24 33 29 28 44 30 35 32 42 31 37 47 46 52 75

– 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 22 25 27 29 30 31 32 33 34 35 37 38 39 43 59 65

PIC/10 milhões de habitantes - média anual Número 1999-2003

263 3.030 2 .611 1.301 767 2.186 1.10 1 638 630 2 1.473 294 815 1.850 1.778 417 2 1.416 661 67 14 18 6 25 7 8 29 50 4 14 4 2 8 2 5

Classificação*

2009-2013

328 3.553 3.592 1.535 2.433 3.905 1.499 722 725 27 2.752 319 1.055 2.169 1.802 719 12 1.946 752 111 21 66 10 25 39 9 96 96 16 14 7 6 20 2 19

1999-2003**

2009-2013***

– 3 4 10 14 5 11 19 20 89 8 29 13 6 7 24 84 9 18 36 50 47 66 43 64 62 41 37 78 49 77 85 61 83 69

– 4 3 11 6 2 12 21 20 50 5 28 15 8 10 22 66 9 19 35 55 41 69 52 45 71 38 39 60 65 76 82 57 93 58

* Entre 124 países com patentes concedidas entre 2009 e 2013 ** Os países líderes em patentes per capita no período 1999-2003 são Liechtenstein e Mônaco *** O país líder em patentes per capita no período 2009-2013 é Liechtenstein Fonte: United States Patent and Trademark Office - USPTO (patentes), Banco Mundial (população)


Boas práticas O que uma revista científica deve fazer quando recebe uma denúncia de má conduta relacionada a um autor ou a um editor? O Committee on Publication Ethics (Cope), fórum de editores de periódicos científicos sobre ética na pesquisa, tentou responder esta pergunta propondo um roteiro de recomendações para situações desse tipo. Segundo o documento de discussão, assinado por Tara Hoke, membro do conselho do Cope, e Heather Tierney, da American Chemical Society, é fundamental dar atenção a toda reclamação referente a supostas violações de ética, mesmo que a fonte da denúncia tenha feito anteriormente acusações frágeis ou infundadas – o importante é a consistência da denúncia, não sua origem. “Não obstante esse princípio, o Cope considera que investigações de reclamações superficiais, vagas ou sem base podem representar um desperdício de recursos da revista e prejudicar a comunidade acadêmica”, dizem as autoras do documento. O Cope também recomenda que cada revista tenha critérios claros e conhecidos publicamente (em forma impressa e on-line) para lidar com denúncias, bem como instâncias internas capazes de encaminhá-las com rapidez. Um ou mais indivíduos devem ser destacados para avaliar as reclamações recebidas. Também deve ser definido um nível mínimo de evidências para que uma investigação formal seja aberta. Esse limiar deve incluir, em primeiro lugar, a identificação de um ato específico de má conduta profissional ocorrido durante a pesquisa ou o processo de publicação. Divergências

de opinião e disputas pessoais ou coletivas não são motivo para abrir uma investigação, diz o Cope. A quantidade e a natureza da documentação apresentada são cruciais para avaliar se há base para apurar a denúncia. A acusação deve ser arquivada se envolver dúvidas já resolvidas durante o processo de revisão. Se envolver artigos publicados há muito tempo, as investigações só devem ser abertas em casos extraordinários e muito graves, em razão da dificuldade de encontrar pessoas e levantar evidências sobre fatos muito antigos. Caso a denúncia seja anônima, os editores devem encorajar o delator a se identificar, a fim de avaliar sua procedência. O documento do Cope sugere que os denunciantes sejam informados claramente sobre as razões para não abrir uma investigação, quando isso ocorrer. Se o acusador insistir e não oferecer novos elementos, o periódico deve reiterar sua posição. Se ainda assim ele persistir na acusação sem

daniel bueno

Um roteiro para lidar com denúncias

fundamento, o caso deve ser encaminhado para aplicação de sanções legais contra difamação. A instituição a que o reclamante pertence também deve ser avisada. Autores de denúncias feitas de modo ofensivo e ameaçador devem ser notificados de que alegações com esse tipo de linguajar não são consideradas.

Padrão inadequado de revisão A editora Springer suspendeu temporariamente a publicação da revista Cell Biochemistry and Biophysics por manter “um padrão inadequado e comprometido” de revisão por pares. E abriu uma investigação para apurar por que, no ano passado, a revista publicou 16 artigos sem nenhum sentido que haviam sido gerados por um programa de computador. Em agosto, outro paper, sobre gases utilizados em anestesia, teve sua publicação cancelada por plágio. “A integridade científica

do periódico não pode ser garantida”, explicou a editora, num comunicado oficial. A revista tem fator de impacto 2,3 e estava classificada em 124º lugar no ranking de 185 publicações de biologia celular da empresa Thomson Reuters. Ao site Retraction Watch, o editor-chefe da revista, Edward J. Massaro, negou a existência de problemas éticos na avaliação, fez críticas à editora e disse que a suspensão ameaça gravemente o futuro da revista. PESQUISA FAPESP 230 | 9


Estratégias

1

O livro lançado pelo IAG-USP: seleção de textos publicados em Pesquisa FAPESP

Reportagens compiladas

Suporte para biotérios

O Instituto de

“Decidimos compilar

O Conselho Nacional

imprescindível nos testes

Astronomia, Geofísica

o material de Pesquisa

de Desenvolvimento

in vivo e que hoje existe

e Ciências Atmosféricas

FAPESP para mostrar

Científico e Tecnológico

um desequilíbrio entre a

da Universidade de

que é possível divulgar

(CNPq) anunciou a

oferta e a procura no

São Paulo (IAG-USP)

assuntos ligados à

criação de uma rede

país, em razão do

lançou um livro que

astronomia, meteorologia

nacional de biotérios –

aumento considerável da

reúne 62 reportagens e

e outras áreas numa

viveiros onde são criados

produção científica

entrevistas publicadas

linguagem simples,

e conservados animais

nacional”, informou o

por Pesquisa FAPESP

agradável e de

empregados em

CNPq em comunicado.

entre 2001 e 2013 que

qualidade”, diz Augusto

experiências de

A instituição, vinculada

envolvem pesquisas com

José Pereira Filho,

laboratório. O objetivo

ao Ministério da Ciência,

participação do instituto.

professor do IAG e um

da Rede Nacional de

Tecnologia e Inovação

A obra, intitulada

dos organizadores da

Biotérios de Produção

(MCTI), irá mapear,

Do centro da Terra

coletânea. Ao longo de

de Animais para Fins

monitorar e dar suporte

às fronteiras do Universo

12 anos, foram produzidas

Científicos, Didáticos e

à produção de animais,

– Um compêndio de

mais de 240 páginas de

Tecnológicos (Rebiotério)

além de cadastrar todos

pesquisas em astronomia,

conteúdo jornalístico

será estimular a

os biotérios no país. De

geofísica e ciências

relacionado a diversos

produção e a qualidade

acordo com Marcelo

atmosféricas, será

temas pesquisados no

de biotérios de ratos,

Morales, diretor da área

distribuída a alunos,

IAG em projetos apoiados

camundongos e coelhos

de Ciências Agrárias,

professores e

pela FAPESP. Para a

para atender de forma

Biológicas e da Saúde do

funcionários da USP

astrônoma Beatriz

adequada e organizada à

CNPq e coordenador da

e colaboradores do

Barbuy, professora do IAG,

demanda nacional. “O

Rebiotério, atualmente

IAG. Também será

a divulgação científica

entendimento é de que o

a produção de animais

disponibilizada uma

é fundamental para o

uso de animais ainda é

para fins de pesquisa é

versão on-line no

reconhecimento da

site do instituto. O

pesquisa na sociedade.

biotérios, que trabalham

objetivo do projeto foi

“Ter contato com esse

para atender as próprias

coletar e organizar todas

tipo de jornalismo, mais

necessidades e não dão

as reportagens que

comprometido com o

conta de auxiliar outras

envolveram trabalhos

aprofundamento do

instituições. Segundo

realizados pelo IAG

assunto, é bom não só

ele, há pesquisadores

financiados pela FAPESP

para alunos de física

que têm de esperar de

nesse período. A iniciativa

e astronomia, como

dois a cinco meses para

faz parte do programa

também para aqueles

receber animais de

IAG 2020, que busca

que ainda estão na fase

qualidade e que possam

planejar o futuro da

de decidir qual profissão

pesquisa no instituto.

seguir”, diz ela.

10 | abril DE 2015

Rede busca estimular produção de animais de laboratório para atender à demanda nacional

feita em apenas alguns

ser utilizados em 2

experimentos científicos.


3

fotos 1 EDUARDO CESAR 2 LéO RAMOS  3 Kim Shiflett / NASA  ilustraçãO daniel bueno

Viagem à magnetosfera A missão Magnetospheric

separam e se reconectam

Multiscale (MMS), da

violentamente,

Nasa, agência espacial

liberando energia. Essas

norte-americana, foi

reconexões perturbam

levada ao espaço no dia

a magnetosfera, escudo

12 de março. Horas após

protetor da Terra,

o lançamento, realizado

permitindo que

na base Cabo Canaveral,

partículas altamente

na Flórida, as quatro

energéticas que fluem

sondas espaciais

do Sol interfiram e

idênticas que compõem

eventualmente derrubem

a missão se separaram

sistemas tecnológicos

do foguete Atlas V e

modernos, como redes

entraram na órbita

de comunicações,

terrestre, onde

navegação GPS e redes

trabalharão em conjunto,

de energia, durante

“Em vez de construir

navegando numa

tempestades solares.

um laboratório, vamos

formação semelhante a

“As sondas vão

usar esse ambiente

uma pirâmide e fazendo

literalmente voar na

ao redor do planeta

medições elétricas e

magnetosfera da Terra”,

como um laboratório

magnéticas. A missão vai

explica Jeff Newmark,

natural. Estamos

O físico Venkatraman

estudar o que acontece

diretor da divisão de

indo para onde a

Ramakrishnan, diretor do

no espaço quando linhas

Física Solar da Nasa,

reconexão magnética

Laboratório de Biologia

do campo magnético se

segundo o site Space.com.

realmente ocorre.”

Molecular do Medical

As quatro sondas antes do lançamento: trabalho em conjunto

Novo líder da Royal Society

Research Council, na Inglaterra, é o novo presidente da Royal Society, uma das

Parcerias com a União Europeia

primeiras e até hoje mais importantes sociedades científicas do mundo, sediada no Reino Unido.

Representantes da União Europeia e da

Ele ganhou o Prêmio

FAPESP assinaram no dia 18 de março

Nobel de Química em

uma carta de intenção em que se com-

2009 pelo seu trabalho

prometem a apoiar pesquisas realizadas

sobre a estrutura e a

em parceria com pesquisadores de ins-

função dos ribossomos.

tituições em São Paulo e nos estados-

Nascido na Índia,

-membros da União Europeia por meio

Ramakrishnan

do Horizonte 2020, o maior programa

desenvolveu boa parte

de apoio à pesquisa e à inovação da Eu-

de sua carreira nos

ropa. Em vigor desde 2007, o programa

Estados Unidos e,

tem orçamento de € 80 bilhões aprova-

sil. Celso Lafer, presidente da FAPESP,

em 1999, mudou-se

do para projetos até 2020, além de in-

destacou o interesse mútuo por colabo-

para a Inglaterra.

vestimentos privados – os recursos estão

rações científicas. “A FAPESP apoia uma

Por conta disso, tem as

abertos à comunidade científica inter-

série de pesquisas realizadas em con-

cidadanias britânica e

nacional. “Há grande potencial para

junto por pesquisadores do Brasil e de

norte-americana. Sua

ampliarmos nossa parceria científica,

todo o mundo, e a parceria firmada com

guinada para as ciências

especialmente a partir desse compro-

a União Europeia vai ao encontro desse

biológicas ocorreu

misso de cooperação mútua firmado com

trabalho de internacionalização da ciên-

após seu doutorado em

o estado de São Paulo, de onde emerge

cia brasileira fortemente promovido em

física. “Espero que essa

o maior número de pesquisas do país e

São Paulo. Por meio do Horizonte 2020,

amplitude possa me

de nível extremamente elevado”, disse

pesquisadores do Brasil e da Europa te-

ajudar daqui para frente”,

à Agência FAPESP Ana Paula Zacarias,

rão acesso facilitado a novas redes de

disse o novo presidente

embaixadora da União Europeia no Bra-

colaboração científica”, afirmou.

em entrevista à revista Nature. PESQUISA FAPESP 230 | 11


Tecnociência Papel na cerâmica Utilizar aparas de papel para compor a cerâmica monoporosa e fabricar azulejos é a novidade de um estudo realizado na pós-graduação da Faculdade de Engenharia Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A proposta tem duas preocupações ambientais que são o aproveitamento das aparas de papel, material comum na indústria papeleira, e a diminuição do uso do calcário na produção da cerâmica, um ingrediente 1

Macacos de rabo dourado

Faixa grisalha na testa e cauda laranja são características do Callicebus miltoni

mineral não renovável. A porcentagem máxima de aparas na composição da cerâmica chegou a 20%. Acima desse nível

Nos últimos 15 anos,

testa, costeletas e

Metade dessa área

especialistas

garganta ocre-escuras

encontra-se em terras

quebras no processo de

descreveram seis novas

e cauda laranja

protegidas (unidades

fabricação dos azulejos.

espécies de macacos

(Papéis Avulsos de

de conservação ou

A pesquisa conduzida

do gênero Callicebus,

Zoologia, março).

reservas indígenas).

pelo mestrando Rodrigo

atualmente com

Caracterizados pela

Os animais desse gênero

Daros e pelo professor

31 espécies. Agora,

capacidade em delimitar

vivem nas árvores,

Humberto Gracher Riella

vem a público mais uma:

território próprio e

reúnem-se em galhos

também mostrou que

o Callicebus miltoni,

pelas vocalizações,

entrelaçando as caudas

o uso das aparas é viável

assim chamado em

principalmente nas

e são chamados de

economicamente.

homenagem ao

manhãs, como forma

zogue-zogue, ou

O resíduo de papel custa

primatologista Milton

de manter a distância

rabo de fogo, pelos

no máximo R$ 0,02

Thiago de Mello.

entre os grupos, os

moradores das

o quilo (kg) enquanto o

Descrito por

animais dessa espécie

florestas em que

preço do calcário é de

pesquisadores do

foram avistados

vivem.

R$ 0,13 o kg.

Instituto para a

pela primeira vez

Conservação dos

em 2010 por Júlio

Carnívoros Neotropicais

César Dalponte,

(Pró-Carnívoros),

do Pró-Carnívoros,

do Instituto de

e parecem viver

Desenvolvimento

apenas em uma área

Sustentável Mamirauá

de Floresta Amazônica

e do Museu Paraense

limitada pelos rios

Emílio Goeldi, o

Roosevelt e Aripuanã,

Callicebus miltoni possui

nos estados de Mato

uma faixa grisalha na

Grosso e Amazonas.

12 | abril DE 2015

haveria trincas ou


Painel solar em camadas

Tuberculose pela saliva Pesquisadores das

detectaram a bactéria

Um novo tipo de célula

universidades de

em amostras de saliva

solar desenvolvido por

Washington, nos Estados

de 18 dos 20 indivíduos

pesquisadores do

Unidos, e da Cidade do

com tuberculose,

Instituto de Tecnologia

Cabo, na África do Sul,

enquanto nas pessoas

de Massachusetts (MIT)

desenvolveram um

saudáveis não havia

e da Universidade

método alternativo,

sinal do bacilo. Para

Stanford, nos Estados

menos invasivo e seguro

os autores, a detecção

Unidos, poderá facilitar

para o diagnóstico da

da tuberculose pela

tuberculose. Num estudo

análise da saliva poderia

publicado na Scientific

representar uma

Reports (2 de março),

solução simples para o

eles avaliaram se

diagnóstico da doença,

as células ou o DNA

hoje baseado na análise

do Mycobacterium

do escarro pulmonar.

a produção de células

2

fotos 1 Julio Cesar Dalponte / Pró-Carnívoros 2 Felice Frankel / MIT  3 Juha Sarkkinen / VTT  ilustraçãO daniel bueno

fotovoltaicas mais

Células solares combinam dois materiais e aproveitam melhor a luz do sol

eficientes que as usadas

por um circuito de

hoje em painéis solares,

controle (Applied Physics

cujas lâminas convertem

Letters, 24 de março).

a energia do sol em

Para que o projeto avance,

eletricidade. As novas

porém, um desafio ainda

tuberculosis, principal

Para coletá-lo, os

células combinam dois

precisa ser superado: a

bactéria causadora da

pacientes precisam

materiais: uma camada

baixa eficiência desses

doença, se acumulariam

tossir, muitas vezes

de silício, que forma a

dispositivos. No caso de

na mucosa da boca de

arriscando contagiar os

base para a maioria dos

células feitas de silício,

pessoas infectadas.

profissionais da saúde.

painéis solares atuais,

menos de um quarto

Para isso, coletaram

A tuberculose ainda é um

e outra camada

da energia luminosa é

amostras de saliva de

grave problema de saúde

semitransparente de um

convertido em energia

40 voluntários — 20

pública, sobretudo em

material semicondutor

elétrica. A versão inicial

saudáveis, para controle,

países pobres. Em 2014,

chamado perovskita,

das novas células

e 20 contaminados.

o Brasil registrou mais de

capaz de absorver

apresentou eficiência de

Os pesquisadores

67 mil casos da doença.

partículas de luz de maior

13,7%, enquanto as

energia. Diferentemente

comerciais atingem 15%.

das células solares

Os pesquisadores dizem

anunciadas há alguns

saber como aumentar

meses pelos mesmos

esse número para 30%.

pesquisadores, em que as

A produção de energia

camadas foram sobrepostas

fotovoltaica cresce, mas

e cada uma tinha suas

sua presença na matriz

próprias ligações

energética mundial ainda

elétricas separadas, as

é pequena, de cerca de

novas células têm duas

1%. No Brasil é ainda

camadas conectadas

menos expressiva,

como um único

representa apenas

dispositivo controlado

0,01% do total.

Filmes plásticos com tecnologia Oled podem ser usados em painéis publicitários e embalagens 3

Tela de plástico luminosa e flexível Um novo método de produção de filmes

de gravuras e serigrafia, filmes plásticos

utilização de Oleds sobre plásticos fle-

plásticos baseados em Oleds, sigla em

flexíveis emissores de luz, o que possibilita

xíveis, vidro e aço. A espessura do filme

inglês para diodos orgânicos emissores de

amplas telas luminosas para iluminação,

é de 0,2 milímetro e nesse espaço estão

luz, desenvolvido pelo Centro de Pesquisa

publicidade e informações variadas, e

incluídos os eletrodos e polímeros que

Técnica da Finlândia (VTT), vai ampliar o

que podem ser instaladas em superfícies

emitem luz. O único problema é a película

uso dessa tecnologia presente em telas

transparentes como vidros de janela e

ser muito sensível ao oxigênio e à umida-

de celulares e mais recentemente em te-

embalagens. Até agora, a tecnologia Oled

de, o que leva a duração da luminosidade

levisores. Os pesquisadores liderados por

só era implementada em superfícies de

a no máximo um ano. Mas a vida útil deve

Raimo Korhonen criaram um método que

vidro usando métodos tradicionais da

aumentar conforme avancem as pesquisas

imprime, de forma semelhante à impressão

microeletrônica. A novidade permite a

com protetores desse tipo de tela.

PESQUISA FAPESP 230 | 13


Chumbo na América do Sul A poluição por chumbo

combustíveis fósseis.

causada pelo uso de

“Nosso estudo revela

combustíveis fósseis foi

uma queda significante

mais intensa nos últimos

nos níveis de poluição

50 anos do que em

por chumbo depois da

2 mil anos de história de

proibição da gasolina

mineração da América

com esse metal na

do Sul. Pesquisadores da

região dos Andes

Universidade de Berna,

bolivianos, embora ainda

na Suíça, chegaram

não tenha caído aos

a esta conclusão

níveis naturais”, disse

após medirem por

Anja Eichler, uma das

espectroscopia de

autoras desse trabalho,

massa a concentração

em um comentário

de chumbo – usado na

para o jornal inglês

produção de prata entre

The Guardian. No Brasil,

Uma sonda capaz

30 metros e transmite

os anos de 450 e 1900

o chumbo começou a

de monitorar as águas

os dados por uma rede

e de estanho no início

ser misturado à gasolina

de reservatórios e

sem fio baseada em

do século XX – em uma

em 1922 para melhorar

indicar a pureza, as

ondas acústicas.

amostra contínua de

o desempenho dos

concentrações de

Chamado de HydroNode,

gelo retirada de um

motores, e os debates

oxigênio dissolvido,

o equipamento mede os

glaciar dos Andes

sobre sua remoção

temperatura, turbidez,

parâmetros que aferem

da Bolívia (Science

começaram na década

condutividade elétrica

a qualidade da água.

Advances, março).

de 1970, em vista dos

e presença de clorofila

Todos os dados seguem

Depois de 1960, a

danos à saúde humana.

foi desenvolvida por

para uma central

quantidade de chumbo

Proibido na gasolina

pesquisadores das

onde um software que

na atmosfera triplicou,

desde 1992, o chumbo

universidades federais

funciona como um nó

em comparação com

pode prejudicar o

de Minas Gerais (UFMG),

computacional reúne

o nível de emissão

sistema nervoso e vários

Juiz de Fora (UFJF)

as informações e as

resultante da atividade

estudos já associaram

e Viçosa (UFV).

disponibiliza na internet.

metalúrgica na região,

a elevada contaminação

O dispositivo fica

A sonda serve também

provavelmente por

desse metal ao aumento

mergulhado na água em

para uso na aquicultura,

causa do uso de

da criminalidade.

profundidades de até

onde a medição do

Experimento com equipamento submerso para monitorar reservatórios, lagos e rios

1

Sonda monitora as águas

Amostra de glaciar do monte Illimani, nos Andes, permitiu medir a concentração do metal na região

oxigênio dissolvido e pH é muito importante para a sobrevivência dos peixes, nas plataformas de petróleo, além de rios e lagos. A ideia da sonda partiu do Laboratório de Gestão de Reservatórios do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, coordenado pelo professor Ricardo Motta Coelho, e a execução foi de um grupo de pesquisadores da área de ciência da computação que contou com os professores Luiz Filipe Vieira e Marcos Vieira (UFMG), José Augusto Nacif (UFV) 2

14 | abril DE 2015

e Alex Vieira (UFJF).


­

O interior escuro do Sol

Acordar e dormir como antigamente

Uma equipe de astrofísicos comandados

Apesar de ter acesso à eletricidade como

por Aaron Vincent, da

os vizinhos da cidade, moradores da área

Universidade de Durham,

rural de Baependi, município com quase

na Inglaterra, propôs a

20 mil habitantes no sudeste de Minas

existência de um novo

Gerais, preferem manter o ritmo de sono

tipo de matéria escura,

natural, perdido com a possibilidade de

armazenado nas

iluminação artificial nas casas depois da

entranhas do Sol (Physical

Revolução Industrial, e acordar cedo e

Review Letters, 26 de

dormir cedo (Scientific Reports, março).

fevereiro). Segundo a

Em um estudo comparativo, pesquisa-

teoria defendida pelos

dores da Universidade de Surrey, Aus-

pesquisadores, uma

trália, e da Universidade de São Paulo

variante especial da

perguntaram a 729 moradores da cida-

matéria escura,

de e outros 96 da zona rural a que horas

componente misterioso

costumavam acordar e dormir. Os mo-

e dormir eram 8h30 e 23h15. Os pesqui-

que seria responsável por

radores da zona rural preferiam pular da

sadores acreditam que os moradores da

quase 27% da

cama em média às 6h30 e deitar-se às

cidade seguem menos o ciclo natural do

constituição do Universo,

21h20, indicando um estilo de vida con-

sono, que implicaria acordar e dormir

parece se acumular abaixo

servador, enquanto os da cidade acor-

mais cedo, e dormem menos que os vi-

da superfície do Sol e

davam às 7h15 e dormiam às 22h30. Em

zinhos do campo, por causa da influência

desempenhar um papel

Londres, os horários médios de acordar

da iluminação artificial.

importante no transporte de calor dentro da estrela. A eventual existência dessa forma de matéria

O salto preciso do louva-a-deus

escura explicaria, de uma

fotos 1 UFMG 2 Hernan Payrumani / Wikipedia  3 Kaldari / Wikipedia  ilustraçãO daniel bueno

maneira mais satisfatória Exemplares jovens

Stagmomantis

Quando o abdômen

do que o modelo solar

de louva-a-deus, que

theophila – cada um

é experimentalmente

em vigor, o transporte de

não têm asas, usam

deles pulou três vezes

endurecido com cola,

energia do centro do

uma técnica toda

nos testes – e

de maneira que o

astro para as suas

especial para dar saltos

mostrou que as

inseto não consegue

camadas mais externas.

precisos. Antes de

manobras são essenciais

se arquear, os saltos

Como em outros estudos,

se lançarem ao ar,

para garantir a precisão

perdem a precisão:

balançam a cabeça de

do pouso num poleiro

os louva-a-deus erram

um lado para o outro,

vertical (Current

a mira, têm dificuldades

inclinam o corpo para

Biology, 16 de março).

de agarrar o alvo

trás e curvam o

Os pesquisadores

ou até batem a cabeça

abdômen para cima,

analisaram vídeo

nele antes de pousar.

chegando a apontá-lo

gravado em alta

para a frente. Enquanto

velocidade,

estão no ar, as patas

reproduziram o

traseiras, esticadas,

movimento com um

são torcidas para cima

modelo produzido

enquanto o abdômen

em computador e

desce. Um grupo de

mostraram que a

pesquisadores da

torção do abdômen,

Inglaterra, liderado

das patas traseiras

por Malcolm Burrows,

e das dianteiras, cada

da Universidade

parte de maneira

de Cambridge,

precisa, controla

analisou os saltos

o salto e permite

de seis exemplares

aterrissar com

jovens da espécie

elegância.

Vincent e seus colegas Exemplar do gênero Stagmomantis: estratégia corporal para locomoção

assumem que a matéria escura seria composta de diminutas partículas de antimatéria.

3

PESQUISA FAPESP 230 | 15


reprodução  Isabella matheus

capa

Estudo para Partida da monção, 1897, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). Os bandeirantes saíam de Porto Feliz​rumo ao Centro-Oeste 16 | abril DE 2015


Análise de textos antigos e de entrevistas expõe as marcas próprias do idioma no país, o alcance do R caipira e os lugares que preservam modos antigos de falar

tipografia mauricio pierro

Carlos Fioravanti

possibilidade de ser simples, dispensar elementos gramaticais teoricamente essenciais e responder “sim, comprei”, quando alguém pergunta “você comprou o carro?”, é uma das características que conferem flexibilidade e identidade ao português brasileiro. A análise de documentos antigos e de entrevistas de campo ao longo dos últimos 30 anos está mostrando que o português brasileiro já pode ser considerado único, diferente do português europeu, do mesmo modo que o inglês americano é distinto do inglês britânico. O português brasileiro ainda não é, porém, uma língua autônoma: talvez seja – na previsão de especialistas, em cerca de 200 anos – quando acumular peculiaridades que nos impeçam de entender inteiramente o que um nativo de Portugal diz. A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis explicações, PESQUISA FAPESP 230 | 17


a gente em geral não deixa claro se pretende se comprometer com o que está falando ou se se vê como parte do grupo, como em “a gente precisa fazer”. Já o pronome nós, como em “nós precisamos fazer”, expressa responsabilidade e compromisso. Nos últimos 30 anos, ela notou, a gente instalou-se nos espaços antes ocupados pelo nós e se tornou um recurso bastante usado por todas as idades e classes sociais no país inteiro, embora nos livros de gramática permaneça na marginalidade. Linguistas de vários estados do país estão desenterrando as raízes do português brasileiro ao examinar cartas pessoais e administrativas, testamentos, relatos de viagens, processos judiciais, cartas de leitores e anúncios de jornais desde o século XVI, coletados em instituições como a Biblioteca Nacional e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. A equipe de Célia Lopes tem encontrado também na feira de antiguidades do sábado da Praça XV de Novembro, no centro do Rio, cartas antigas e outros tesouros linguísticos, nem sempre valorizados. “Um estudante me trouxe cartas maravilhosas encontradas no lixo”, ela contou.

que fazem o urubu de São Paulo ser chamado de corvo no Sul do país, e as raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de 200 linguistas. De acordo com estudos da Universidade de São Paulo (USP), uma inovação do português brasileiro, por enquanto sem equivalente em Portugal, é o R caipira, às vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta ou carrrne.

A

18 | abril DE 2015

De vossa mercê para cê

Os documentos antigos evidenciam que o português falado no Brasil começou a se diferenciar do europeu há pelo menos quatro séculos.

Sem título da série Estudo para bandeirantes, sem data, de Henrique Bernardelli, (Acervo Pinacoteca do Estado de SP) paulistas expandiram a língua portuguesa ​c​onquistando outras regiões

reprodução  Isabella matheus

ssociar o R caipira apenas ao interior paulista, porém, é uma imprecisão geográfica e histórica, embora o R desavergonhado tenha sido uma das marcas do estilo matuto do ator Amácio Mazzaropi em seus 32 filmes, produzidos de 1952 a 1980. Seguindo as rotas dos bandeirantes paulistas em busca de ouro, os linguistas encontraram o R supostamente típico de São Paulo em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, formando um modo de falar similar ao português do século XVIII. Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar carioca que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte. Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o S chiado, que faz da esquina uma shquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses admiravam. A história da língua portuguesa no Brasil está trazendo à tona as características preservadas do português, como a troca do L pelo R, resultando em pranta em vez de planta. Camões registrou essa troca em Os lusíadas – lá está um frautas no lugar de flautas – e o cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa a deixou registrada em diversas composições, em frases como “frechada do teu olhar”, do samba Tiro ao Álvaro. Em levantamentos de campo, pesquisadores da USP observaram que moradores do interior tanto do Brasil quanto de Portugal, principalmente os menos escolarizados, ainda falam desse modo. Outro sinal de preservação da língua identificado por especialistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, dessa vez em documentos antigos, foi a gente ou as gentes como sinônimo de “nós” e hoje uma das marcas próprias do português brasileiro. Célia Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontrou registros de a gente em documentos do século XVI e, com mais frequência, a partir do século XIX. Era uma forma de indicar a primeira pessoa do plural, no sentido de todo mundo com a inclusão necessária do eu. Segundo ela, o emprego de a gente pode passar descompromisso e indefinição: quem diz


mapa ana paula campos  ilustraçãO mauricio pierro

Entre 1550 e 1720, bandeirantes levaram o idioma ao interior do país

Extensão máxima da Capitania de São Paulo em 1709 Expedições contra reduções jesuíticas espanholas Expedições de apresamento de outros grupos indígenas Expedições mercenárias paulistas no Nordeste Rota aproximada das expedições de Raposo Tavares fontes  PETRONE, P. Aldeamentos Paulistas. SETUBAL, M.A. A formação do Estado de São Paulo

Uma indicação dessa separação é o Memórias para a história da capitania de São Vicente, de 1793, escrito por frei Gaspar da Madre de Deus, nascido em São Vicente, e depois reescrito pelo português Marcelino Pereira Cleto, que foi juiz em Santos. Comparando as duas versões, José Simões, da USP, encontrou 30 diferenças entre o português brasileiro e o europeu. Uma delas é encontrada ainda hoje: como usuários do português brasileiro, preferimos explicitar os sujeitos das frases, como em “o rapaz me vendeu o carro, depois ele saiu correndo e ao atravessar a rua ele foi atropelado”. Em português europeu, seria mais natural omitir o sujeito, já definido pelo tempo verbal – “o rapaz vendeu-me o carro, depois saiu a correr...” –, resultando em uma construção gramaticalmente impecável, embora nos soe um pouco estranha.

Um morador de Portugal, se lhe perguntarem se comprou um carro, responderá com naturalidade “sim, comprei-o”, explicitando o complemento do verbo, “mesmo entre falantes pouco escolarizados”, observa Simões. Ele nota que os portugueses usam mesóclise – “dar-lhe-ei um carro, com certeza!” –, que soaria pernóstica no Brasil. Outra diferença é a distância entre a língua falada e a escrita no Brasil. Ninguém fala muito, mas muinto. O pronome você, que já é uma redução de vossa mercê e de vosmecê, encolheu ainda mais, para cê, e grudou no verbo: cevai? “A língua que falamos não é a que escrevemos”, diz Simões, com base em exemplos como esses. “O português escrito e o falado em Portugal são mais próximos, embora também existam diferenças regionais.” Simões complementa as análises textuais com suas andanças por Portugal. “Há 10 PESQUISA FAPESP 230 | 19


anos meus parentes de Portugal diziam que não entendiam o que eu dizia”, ele observa. “Hoje, provavelmente por causa da influência das novelas brasileiras na televisão, dizem que já estou falando um português mais correto.” “Conservamos o ritmo da fala, enquanto os europeus começaram a falar mais rápido a partir do século XVIII”, observa Ataliba Castilho, professor emérito da USP, que, nos últimos 40 anos, planejou e coordenou vários projetos de pesquisa sobre o português falado e a história do português do Brasil. “Até o século XVI”, diz ele, “o português brasileiro e o europeu eram como o espanhol, com um corte silábico duro. A palavra falada era muito próxima da escrita”. Célia Lopes acrescenta outra diferença: o português brasileiro conserva a maioria das vogais, enquanto os europeus em geral as omitem, ressaltando as consoantes, e diriam tulfón para se referir ao telefone.

H

á também muitas palavras com sentidos diferentes de um lado e de outro do Atlântico. Os estudantes das universidades privadas não pagam mensalidade, mas propina. Bolsista é bolseiro. Como os europeus não adotaram algumas palavras usadas no Brasil, a exemplo de bunda, de origem africana, podem surgir situações embaraçosas. Vanderci Aguilera, professora sênior da Universidade Estadual de Londrina (Uel) e uma das linguistas empenhadas no resgate da história do português brasileiro, levou uma amiga portuguesa a uma loja. Para ver se um vestido que acabava de experimentar caía bem às costas, a amiga lhe perguntou: “O que achas do meu rabo?”. O soldado e a filha do fazendeiro

No acervo de documentos sobre a evolução do português paulista (phpp.fflch.usp.br/corpus), está uma carta de 1807, escrita pelo soldado Manoel Coelho, que teria seduzido a filha de um fazendeiro. Quando soube, o pai da moça, enfurecido, forçou o rapaz a se casar com ela. O soldado, porém, bateu o pé: não se casaria, como ele escreveu, “nem por bem nem por mar”. Simões estranhou a citação ao mar, já que o quiproquó se passava na então vila de São Paulo, mas depois percebeu: “Olha o R caipira! Ele quis dizer ‘nem por bem nem por mal!’”. O soldado escrevia como falava, não se sabe se casou com a filha do fazendeiro, mas deixou uma prova valiosa de como se falava no início do século XIX. “O R caipira era uma das características da língua falada na vila de São Paulo, que aos poucos, com a crescente urbanização e a chegada de imigrantes europeus, foi expulsa para a periferia ou para outras cidades”, diz Simões. “Era a língua dos bandeirantes.” Os especialistas acreditam 20 | abril DE 2015

que os primeiros moradores da vila de São Paulo, além de porrta, pulavam consoantes no meio das palavras, falando muié em vez de mulher, por exemplo. Para aprisionar índios e, mais tarde, para encontrar ouro, os bandeirantes conquistaram inicialmente o interior paulista, levando seu vocabulário e seu modo de falar. O R exagerado ainda pode ser ouvido nas cidades do chamado Médio Tietê como Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Sorocaba, Itu, Tietê, Porto Feliz e Piracicaba, cujos moradores, principalmente os do campo, o pintor ituano José Ferraz de Almeida Júnior retratou, até ser assassinado pelo marido de sua amante em Piracicaba. Os bandeirantes seguiram depois para outras matas da imensa Capitania de São Paulo, constituída em 1709 com os territórios dos atuais estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Tocantins, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina (ver mapa). Manoel Mourivaldo Almeida, também da USP, encontrou sinais do português paulista antigo em Cuiabá, a capital de Mato Grosso, que permaneceu com relativamente pouca interação linguística e cultural com outras cidades depois do fim do auge da mineração de ouro, há dois séculos. “O português culto dos séculos XVI ao XVII tinha um S chiado”, conclui Almeida. “Os paulistas, quando foram para o Centro-Oeste, falavam como os cariocas hoje!” O ator e diretor teatral cuiabano Justino Astrevo de Aguiar reconhece a herança paulista e carioca, mas considera um traço mais evidente do falar local o hábito de acrescentar um J ou um T antes ou no meio das palavras, como em djeito, cadju ou tchuva, uma característica da pronúncia típica do século XVII, que Almeida identificou também entre moradores de Goiás, Minas Gerais, Maranhão e na região da Galícia, na Espanha. Almeida apurou o ouvido para as variações do português no Brasil por conta de sua própria história. Filho de portugueses, nasceu em Piritiba, interior da Bahia, saiu de lá aos 7 anos, morou em Jaciara, interior de Mato Grosso, e depois 25 anos em Cuiabá, foi professor da universidade federal e se mudou para São Paulo em 2003. Ele reconhece que fala como paulista nos momentos mais formais – embora prefira falar éxtra em


reprodução  Isabella matheus

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Rua 25 de março, 1894, de Antonio Ferrigno (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). A cidade de São Paulo t​ inha um sotaque próprio

vez de êxtra como os paulistas –, mas quando descontrai assume o ritmo de falar baiano e o vocabulário matogrossense. Ele estuda o modo de falar cuiabano desde 1991, por sugestão de um colega professor, Leônidas Querubim Avelino, especialista em Camões, que havia verificado sinais do português arcaico por lá. Avelino lhe contou que um roceiro cego de Livramento, a 30 quilômetros de Cuiabá, comentou que ele estava “andando pusilo”, no sentido de fraco. Avelino reconheceu uma forma reduzida de pusilânime, que não era mais usada em Portugal. “Os moradores de Cuiabá e de algumas outras cidades, como Cáceres e Barão de Melgado, em Mato Grosso, e Corumbá, em Mato Grosso do Sul, preservam o português paulista do século XVIII mais do que os próprios paulistas. Paulistas do interior e também da capital hoje falam dia, com um d seco, enquanto na maior parte do Brasil se diz djia”, observou Almeida. “O modo de falar pode mudar dependendo do acesso à cultura, da motivação e da capacidade de perceber e articular sons de modo diferente. Quem procurar nos lugares mais distantes dos grandes centros urbanos vai encontrar sinais de preservação do português antigo.” De 1998 a 2003, uma equipe coordenada por Heitor Megale, da USP, seguiu a rota das bandeiras do século XVI em busca de traços da língua portuguesa antiga que tenham permanecido ao longo de quatro séculos. As entrevistas com moradores com 60 anos a 90 anos de quase 40 cidades ou povoados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso trouxeram à tona termos esquecidos como mamparra (fingimento) e mensonha (mentira), uma palavra de um dos poemas de Francisco de Sá de Miranda do século XV, treição,

usada no interior de Goiás no sentido de surpresa, e termos da linguagem popular ainda usados em Portugal, como despois, percisão e tristura, comuns no sul de Minas. O que parecia anacronismo ganhou valor. Dizer sancristia em vez de sacristia não era um erro, “mas uma influência preservada do passado, quando a pronúncia era assim”, relatou o Jornal da Manhã, de Paracatu, Minas, em 20 de dezembro de 2001. Ao norte, a língua portuguesa expandiu-se para o interior a partir da cidade de Salvador, que foi a capital do Brasil Colônia durante três séculos. Salvador era também um centro de fermentação da língua, por receber multidões de escravos africanos, que aprendiam o português como língua estrangeira, mas também ofereciam seu vocabulário, ao qual já haviam se somado as palavras indígenas.

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ara impedir que a língua de Camões se desfigurasse ao cruzar com os dialetos nativos, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, secretário de Estado do reino, resolveu agir. Em 1757, Pombal expulsou os jesuítas, entre outras razões de ordem política, porque estavam ensinando a doutrina cristã em língua indígena, e, por decreto, fez do português a língua oficial do Brasil. O português se impôs sobre as línguas nativas e ainda hoje é a língua oficial, embora os linguistas alertem que não possa ser chamada de nacional por causa das 180 línguas indígenas faladas no país (eram 1.200, estima-se, quando os portugueses chegaram). A miscigenação linguística, que reflete a mistura de povos formadores do país, explica em boa parte as variações PESQUISA FAPESP 230 | 21


regionais de vocabulário e de ritmos, sintetizadas em um mapa dos falares do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. É fácil encontrar variações em um mesmo estado: os moradores do norte de Minas falam como os baianos, os da região central mantêm o autêntico mineirês, no sul a influência paulista é intensa e a leste o modo de falar assemelha-se ao sotaque carioca. A pandorga e o bigato

Há 10 anos um grupo de linguistas estuda um dos resultados da miscigenação linguística: os diferentes nomes com que um mesmo objeto pode ser chamado, registrados por meio de entrevistas com 1.100 pessoas em 250 localidades. Brasil afora, o brinquedo feito de papel e varetas que se empina ao vento por meio de uma linha é chamado de papagaio, pipa, raia ou pandorga – ou ainda coruja em Natal e João Pessoa –, de acordo com o primeiro volume do Atlas linguístico do Brasil, publicado em outubro de 2014 com os resultados das entrevistas nas capitais (Editora UEL). Já o aparelho com luzes vermelha, amarela e verde usado em cruzamentos de ruas para regular o trânsito é chamado apenas de sinal no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte e também de semáforo nas capitais do Norte e Nordeste. Goiânia registrou os quatro nomes para o mesmo objeto: sinal, semáforo, sinaleiro e farol. Começa agora a busca de explicações para essas diferenças. “Onde nasci, em Sertanópolis, a 42 quilômetros de Londrina”, disse Vanderci Aguilera, uma das coordenadoras do Atlas, “chamamos bicho de goiaba de bigato por influência dos colonizadores, que eram imigrantes italianos vindos do interior paulista”. Segundo ela, os moradores dos três estados do Sul chamam urubu de corvo por influência dos europeus, enquanto os do Sudeste mantiveram o nome tupi, urubu. Cada estado – ou região – tem seu próprio patrimônio linguístico, que deve ser respeitado, enfatizam os especialistas. Os professores de português, alerta Vanderci, não deveriam repreender os alunos por chamarem beija-flor de cuitelo, como é comum no interior do Paraná, nem recriminar os que dizem caro, churasco ou baranco, como é comum entre os descendentes de poloneses e alemães no Sul, mas ensinar outras formas de falar e deixar a meninada se expressar como quiser quando estiver com a família ou com os amigos. “Ninguém fala errado”, ela enfatiza. “Todo mundo fala de acordo com sua história de vida, com o que foi transmitido pelos pais e depois modificado pela escola. Nossa fala é nossa identidade, não temos por que nos envergonhar.” A diversidade do português brasileiro é tão grande que, apesar do empenho dos locutores de telejornais de alcance nacional em tentar criar uma língua neutra, despida de sotaques locais, 22 | abril DE 2015

“não há um padrão nacional”, assegura Castilho. “Há diferenças de vocabulário, gramática, sintaxe e pronúncia mesmo entre pessoas que adotam a norma culta”, diz ele. Insatisfeito com as teorias importadas, Castilho criou a abordagem multissistêmica da linguagem, segundo a qual qualquer expressão linguística mobiliza simultaneamente quatro planos (léxico, semântica, discurso e gramática), que deveriam ser vistos de modo integrado e não mais separadamente. Ao lado de Verena Kewitz, da USP, ele tem debatido essa abordagem com estudantes de pós-graduação e com outros especialistas do Brasil e no exterior.

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ambém está claro que o português brasileiro se refaz continuamente. As palavras podem morrer ou ganhar novos sentidos. Almeida contou que Celciane Vasconcelos, uma das estudantes de seu grupo, verificou que somente os moradores mais antigos do litoral paranaense conheciam a palavra sumaca, um tipo de barco antes comum, que hoje não se constrói mais, tirando a antiga serventia da palavra que hoje nomeia uma praia em Paraty (RJ). Os modos antigos de falar podem ressurgir. O R caipira, asseguram os linguistas,

está voltando, até mesmo em São Paulo, e readquirindo status, na esteira dos cantores de música sertaneja. “Hoje ser caipira é chique”, assegura Vanderci. Ou ao menos é aceitável e parte do estilo pessoal, como o da apresentadora de TV Sabrina Sato. Bilhetes de amor

Os linguistas têm notado a expansão do tratamento informal. “Tenho 78 anos e devia ser tratado por senhor, mas meus alunos mais jovens me tratam por você”, diz Castilho, aparentemente sem se incomodar com a informalidade, inconcebível em seus tempos de estudante. O você, porém, não reinará sozinho. Célia Lopes, com sua equipe da UFRJ, verificou que o tu predomina em Porto Alegre e convive com o você no Rio de Janeiro e em Recife, enquanto você é o tratamento predominante em São Paulo, Curi-


reprodução  Isabella matheus

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). No final do século XIX o pronome você já era mais formal que o tu​

tiba, Belo Horizonte e Salvador. O tu já era mais próximo e menos formal que você nas quase 500 cartas do acervo on-line da UFRJ (www.letras. ufrj.br/laborhistorico/), quase todas de poetas, políticos e outras personalidades do final do século XIX e início do XX. Como ainda faltava a expressão do falar das pessoas comuns, Célia e sua equipe exultaram ao encontrar 13 bilhetes escritos em 1908 por Robertina de Souza para seu amante e para seu marido. Esse material era parte de um processo-crime movido contra o marido, que expulsou de sua casa um amigo e a própria mulher ao saber que tinham tido um caso extraconjungal e depois matou o ex-amigo. Em um dos 11 bilhetes para o amante, Álvaro Mattos, Robertina, que assinava como Chininha, escreveu: “Eu te adoro te amo até a morte sou tua só tu é meu só o meu coracao e teu e o teu coracao é meu. Chininha e todinha tua ate a morte”. Já o marido, Arthur Noronha, que recebeu apenas dois bilhetes, ela tratava de modo mais formal: “Eu rezo pedindo a Deus para você me perdoar, mas creio que voce não tem coragem de ver morrer um filho o filha”. E mais adiante: “Não posso me separar

de voce e do meu filho a não ser com a morte”. Não se sabe se ela voltou para casa, mas o marido foi absolvido, por alegar que matou o outro homem em defesa da honra. Outro sinal da evolução do português brasileiro são as construções híbridas, com um verbo que não concorda mais com o pronome, do tipo tu não sabe?, e a mistura dos pronomes de tratamento você e tu, como em “se você precisar, vou te ajudar”. Os portugueses europeus poderiam alegar que se trata de mais uma prova de nossa capacidade de desfigurar a língua lusitana, mas talvez não tenham tanta razão para se queixar. Célia Lopes encontrou a mistura de pronomes de tratamento, que ela e outros linguistas não consideram mais um erro, em cartas do marquês do Lavradio, que foi vice-rei do Brasil de 1769 a 1796, e, mais de dois séculos depois, em uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. n

Projeto Projeto de história do português paulista (PHPP – Projeto Caipira) (nº 11/51787-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Manoel Mourivaldo Santiago Almeida(USP); Investimento R$ 87.372,10 (FAPESP).

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entrevista Thomas Lovejoy

Cinquenta anos de Amazônia Biólogo americano lidera projeto pioneiro que tem ajudado a definir as áreas de preservação de florestas Maria Guimarães e Carlos Fioravanti Foto 

Eduardo Cesar

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homas Lovejoy parece igualmente à vontade vestindo roupas adequadas para andar no mato ou paletós e gravatas-borboleta de estampas variadas. A versatilidade denota uma rara habilidade de transitar entre a selva, produzindo ciência, e as salas de governo, discutindo políticas ambientais, que valeu a esse biólogo norte-americano uma série de prêmios por suas contribuições à compreensão e defesa da biodiversidade. Lovejoy ganhou o reconhecimento da comunidade científica também por ter criado a expressão diversidade biológica, hoje de uso corriqueiro. “Falávamos sobre diversidade biológica, mas não tínhamos o termo”, ele contou. Formado em biologia em Yale e professor na Universidade George Mason desde 2010, Lovejoy foi à Amazônia pela primeira vez em 1965 para fazer o doutorado. Não saiu mais. Ao lado de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ele ajudou a criar e, desde os anos 1970, lidera um experimento de grande escala que investiga o funcionamento de fragmentos florestais e os efeitos do desmatamento sobre a diversidade de espécies de animais e plantas (ver Pesquisa FAPESP n. 205). Desde o início, esse trabalho norteou o planejamento de áreas de preservação na Amazônia. Lovejoy foi conselheiro para assuntos ambientais do Banco Mundial, do Instituto Smithsonian e dos governos Reagan, Bush e Clinton, vice-presidente executivo do Fundo para

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idade 73 anos especialidade Ecologia formação Biologia, Universidade Yale (bacharelado e doutorado) instituição Departamento de Ciência e Política Ambiental, Universidade George Mason, Estados Unidos produção científica 254 artigos científicos e 8 livros publicados


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a Natureza (WWF) e tem sido um interlocutor do governo brasileiro para a formulação de políticas ambientais. Para ele, é essencial planejar o gerenciamento da região de uma maneira integrada, reunindo cidades, floresta, transportes, energia e agropecuária numa mesma equação. Preocupado com o futuro da Amazônia, não pretende deixar de ser um protagonista na região, como ele contou, usando camisa azul listrada e gravata-borboleta vermelha, nesta entrevista concedida a Pesquisa FAPESP, por skype, de Washington. O que o levou à Amazônia, há 50 anos? No verão de 1965 [inverno no Brasil] tive a oportunidade de trabalhar no Instituto Evandro Chagas e na floresta nos arredores de Belém. Foi aí que decidi que queria fazer meu doutorado na Amazônia. Sempre fui fascinado por diversidade biológica e imaginava ter uma vida cheia de aventuras científicas. A Amazônia era esse mundo selvagem inacreditável e tropical. Era como se eu tivesse morrido e chegado ao Paraíso. Era fascinante, e aos poucos passei de simplesmente fazer ciência a fazer ciência e conservação ambiental. A Amazônia é um dos lugares mais importantes para trabalhar no mundo.

era o Instituto Evandro Chagas, que tinha muito interesse em ecologia e história natural, para saber como as doenças se desenvolvem. Tentei fazer duas teses de uma vez: uma sobre a ecologia das aves e outra sobre epidemiologia de vírus transmitidos por artrópodes. Eu tinha uma quantidade de dados tão imensa que acabei fazendo a tese só na ecologia das aves e entreguei todos os dados de vírus e epidemiologia ao laboratório de vírus de Belém. Tive muita sorte porque nunca peguei nenhuma dessas doenças tropicais. Onde eu trabalhava não era área de malária, que é a mais assustadora. Mas se perdeu na floresta, não? Algumas vezes, mas sempre encontrava o caminho. Não se deve se afastar mais de 5

vação e a colaboração do Inpa e da Zona Agropecuária ao norte de Manaus. Consegui no primeiro dia. A parte difícil foi conseguir o dinheiro. Em grande parte o projeto tirava proveito do Código Florestal da época, porque naquele período na Amazônia era preciso deixar 50% de qualquer propriedade como floresta. Hoje é 80%, o que faz sentido por causa do ciclo hidrológico. Trabalhamos com três fazendas adjacentes antes que tivessem cortado qualquer árvore. Ajudamos a mapear as propriedades, de maneira que eles sabiam onde estavam os córregos e onde eram as partes planas. Foi uma grande vantagem para os fazendeiros. E foram eles que fizeram o desmatamento. O mais difícil foi conseguir jovens estudantes brasileiros para participar, porque, naqueles dias, quem estivesse numa universidade no sul do país não pensava em ir para a Amazônia. Recebíamos uma enxurrada de estudantes da Europa e dos Estados Unidos, mas sabíamos que era muito importante ter brasileiros. Então fomos visitar universidades no sul do Brasil. Depois ficou cada vez mais fácil.

A Amazônia era um mundo inacreditável. Era como se eu tivesse morrido e chegado ao Paraíso

Pouca gente devia fazer pesquisa por lá nessa época. A comunidade científica era realmente bem pequena. Em Belém havia o Museu Goeldi, com uma história muito distinta, e o Instituto Evandro Chagas, fazendo pesquisa em epidemiologia e saúde. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) tinha acabado de ser criado em Manaus, mas só estive lá em 1976. Em ecologia florestal, área em que fiz meu doutorado, havia apenas duas outras pessoas, uma na Amazônia peruana e outra na Venezuela.

Como foi o processo de se instalar e encontrar os caminhos? A gente vai improvisando. Todos foram muito solícitos e me apaixonei pelo Brasil na hora. Consegui levantar dinheiro para o trabalho de campo e minha base 26 | abril DE 2015

metros da trilha, porque é muito fácil se perder. A regra mais importante para trabalhar na floresta é nunca ir sozinho. No Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais [PDBFF], perto de Manaus, essa é a principal regra: ninguém entra na floresta sozinho. Por coincidência, hoje [20 de março] foi publicado um artigo numa revista nova chamada Science Advances sobre fragmentação florestal no mundo. Tem cerca de 25 autores, que participam de projetos de fragmentação de hábitat. O projeto mais antigo é o que comecei, há 36 anos. Como foi criar o PDBFF na década de 1970? A parte mais fácil foi conseguir a apro-

Alguém já tinha feito um projeto assim antes, para estudar fragmentos florestais? Não. Esse foi o primeiro experimento. Quando eu morava em Belém, durante o doutorado, saiu um livro sobre a teoria da biogeografia de ilhas. Como ele falava de números de tipos de espécies em ilhas, as pessoas começaram a pensar: “Bem, talvez fragmentos de hábitat também sejam como ilhas”. Nesse momento surgiu a questão sobre qual seria o tamanho ideal para uma área protegida de floresta: ter uma área grande ou várias pequenas? Àquela altura eu trabalhava para o Fundo Mundial para a Natureza [WWF] e percebi que isso era importante para todos os projetos enviados. Não sabíamos se eles seriam bem-sucedidos até entendermos os efeitos da fragmentação de hábitat. Foi isso que levou ao projeto. Pensei que o deixaria correr por 20 anos e conseguiria minha resposta. Mas eu não tinha ideia das taxas de mudança e não estava prestando atenção ao valor de conjuntos de dados de longa duração, que são raros no mundo.


arquivo pessoal

Eu não tinha avaliado como seria importante em termos de construção de capacidade e também não imaginava que pudesse trazer pessoas para duas ou três noites na floresta, falar com estudantes, ter a experiência da floresta e entender sua importância, entender biodiversidade. Sempre tento levar gente interessante para lá. Você trouxe pesquisadores importantes para a Amazônia e ajudou na formação de muitos. Foram em torno de 150 doutorados e mestrados, pelo menos metade deles era de brasileiros. Uma de nossas estudantes, Rita Mesquita, de Belo Horizonte, foi a primeira da família dela a ir à universidade. Dois dias depois de se formar, para desgosto do pai, ela aceitou um convite para fazer um estágio no projeto e depois fez mestrado e doutorado lá. Nos anos 1980 na Amazônia com Mary O’Grady, do WWF Ela chegou a ser responsável pela conservação ambiental de todo o estado do Amazonas. O pai ficou criação de parques nacionais. Todos os muito orgulhoso. Agora ela está no Depar- que foram criados são muito grandes. tamento de Ecologia do Inpa. É maravi- Isso foi quando Maria Tereza Jorge Pálhoso ver estudantes de nacionalidades dua estava à frente dos parques naciodiferentes trabalhando juntos como se não nais, e ela tinha muito interesse no que a ciência tinha a dizer. Ela sabia que o houvesse diferenças nacionais. conhecimento científico deve chegar à Qual foi sua conclusão sobre o tama- tomada de decisão e o incorporava. O nho mínimo desejável para as reservas? mesmo valia para Paulo Nogueira-Neto, Por inferência, já dava para imaginar que o primeiro secretário da Sema [Secretaé importante ser grande. Porque uma an- ria Especial de Meio Ambiente]. ta, por exemplo, precisa de muito espaço. Se a área for menor que a de uma anta, Você sente abertura de autoridades do não vai funcionar. Mas a forma como es- governo atual para ouvir o que a ciênses fragmentos – resultantes do desma- cia tem a dizer? tamento – perdem espécies é dramática. O Ministério do Meio Ambiente está Um artigo de 2003, cujo autor principal muito interessado em ciência. Eles têm era Gonçalo Ferraz, de Portugal, agora na cientistas de estatura mundial à frente Universidade Federal do Rio Grande do de divisões importantes, como Roberto Sul, mostrou que um fragmento de 100 Cavalcanti na divisão de Biodiversidade hectares perde a metade das espécies de e Carlos Klink na divisão de Mudanças aves em menos de 15 anos. E são aves que Climáticas. A ministra Izabella Teixeira não gostam de sair ao sol. Elas dependem também tem formação em ciência. dos recursos desses 100 hectares e, com a fragmentação, a floresta não basta mais Você fala diretamente com eles? para sustentá-las. Olha que engraçado: Trocamos e-mails. o projeto, no minuto em que começou, já influenciou decisões no Brasil sobre a O PDBFF é o experimento de mais longa

duração em florestas tropicais. Vocês conseguiram as respostas que buscavam? Conseguimos uma resposta simples para uma pergunta simples, sobre o tamanho mínimo das áreas de florestas a ser mantido. Mas também sabemos que esses fragmentos vão continuar a mudar por séculos. Os fragmentos pequenos mudam muito depressa, os grandes mais devagar e de modo mais complexo. Há todos os motivos para o trabalho continuar, e estou tentando armar para que não termine comigo. Também começamos a estudar coisas que não estavam incluídas no plano inicial. Uma delas é o impacto da matriz em torno dos fragmentos. Então, quando foram retirados os subsídios que sustentavam a pecuária, as fazendas foram abandonadas e a mata voltou a crescer. Isso começou a diminuir o isolamento dos fragmentos. Começamos a estudar a sucessão vegetal nas áreas do entorno. Agora há a influência das mudanças climáticas. Ainda não temos um sinal forte, mas algo parece estar acontecendo. Agora se sabe o que fazer para reconstituir a floresta em fragmentos abandonados? Em termos de políticas mais amplas, o mais óbvio, sempre que possível, é reconectar fragmentos de maneira a se tornarem parte de um sistema maior para que não percam tanta biodiversidade. Em geral acho que precisamos de planejamento e gerenciamento da paisagem mais integrados. Em qualquer lugar do mundo, há várias partes em movimento que não são coordenadas. Que sejam na Amazônia ou em partes dos Estados Unidos, decisões de transporte são feitas separadamente de decisões de energia e decisões agrícolas. Precisamos pensar na escala da paisagem. O que você faz hoje no PDBFF? Nos últimos 34 anos, mais ou menos, uma equipe em Manaus gerencia esse projeto, garantindo que os estudantes tenham o que precisam. Minha função agora é construir uma instituição com fluxo financeiro suficiente para que o PESQUISA FAPESP 230 | 27


projeto possa se perpetuar. Já temos uma sede no Inpa que construímos com fundos do governo norte-americano. Um deputado gostou da ideia e nos deu o dinheiro. Foi bom, não precisamos pedir que o Inpa construísse um prédio, sempre tivemos o cuidado de não pedir demais e reconhecer que somos hóspedes. Você também dá aulas? Dou apenas um curso por semestre no ano porque, para a universidade, minhas outras atividades são suficientes. Uma delas é institucionalizar o projeto dos fragmentos, outra é a preocupação com o futuro da Amazônia. Há 30 anos trabalho no que se chama biologia da mudança climática, as mudanças afetando a natureza. Mas também, nos últimos anos, em como a natureza pode contribuir para resolver o problema da mudança climática. Há um projeto agora para produzir um mapa até a conferência do clima de Paris, um mapa global do potencial de restauração de ecossistemas mostrando o que se pode fazer do ponto de vista da biologia. Provavelmente é cortar da atmosfera meio grau Celsius da mudança climática antes que algo aconteça.

não tínhamos o termo. Discutimos onde o Fundo para a Natureza deveria se concentrar e concordamos que deveria ser nos trópicos, porque há mais espécies lá do que no Alasca, por exemplo. Era biodiversidade pura. O fascinante é que as pessoas começaram a usar o termo. Eu usei em 1980, Ed Wilson usou mais para o fim do ano e depois muitas outras pessoas começaram a usar. Nem paramos para pensar de onde tinha vindo, e só mais tarde Elliot Norse voltou atrás e disse: “Sabe, acho que você foi o primeiro”. A contração biodiversidade veio depois, em 1987. Havia um simpósio organizado pela Academia Nacional e pelo Instituto Smithsonian e o termo foi contraído para o simpósio. É um termo um pouco técnico, mas me disseram que o país em que ele é mais conhecido é o Brasil.

Mas a atividade em um lugar como o WWF também requer um talento específico para ir do conhecimento científico às políticas na prática. Tem razão. Acho que há muitos mais que poderiam fazê-lo do que os que fazem agora. É preciso ser prático, mas também ampliar os horizontes. É assim que a mudança acontece. Mas o que consegui fazer em países como o Brasil foi sempre em parceria. A cada Natal telefono ao Paulo Nogueira-Neto, que vai fazer 93 anos. Ele é quase um pai, e bastam três frases para ele começar a falar de ambiente. A gente desenvolve amizades reais que transcendem completamente quaisquer fronteiras nacionais. Você ainda vai à Amazônia? Vou! É muito interessante ter uma perspectiva de 50 anos. Em 1965 havia apenas uma estrada na Amazônia inteira, que corresponde aos 48 estados contíguos norte-americanos. Era a estrada de Belém a Brasília, e as pessoas falavam maravilhadas sobre a colonização espontânea acontecendo ao longo dela. Era como um anúncio de tudo o que estava por vir. Agora há centenas de milhares de caminhos e estradas, 20% da Amazônia deve estar desmatada e é uma saga em andamento. Mas o que não é tão evidente para o público é o lado positivo do trabalho de conservação. Em 1965 só havia um parque nacional na Amazônia inteira e era na Venezuela. Havia uma Floresta Nacional, no Brasil, no Tapajós, e uma área indígena demarcada, o Xingu. Hoje mais de 50% da Amazônia está sob alguma forma de proteção. É um feito extraordinário que nunca imaginamos possível. Mas a história não acabou, não é? Sabemos agora que a Amazônia deve ser gerenciada como um sistema. Gerenciada de uma maneira que preserve seu ciclo hidrológico, que continue capaz de ser uma floresta chuvosa, que a região agrícola de Mato Grosso continue a receber chuva suficiente, que alguma água chegue até a Argentina e São Paulo.

A cada Natal telefono ao Paulo Nogueira-Neto, que vai fazer 93 anos. A amizade vai além das fronteiras

Como pode ser feito? Reflorestamento, restauração de pastos degradados, sistemas agrícolas que acumulam carbono e restauração de vegetação costeira. O excesso de CO² na atmosfera dos recentes séculos de maus-tratos aos ecossistemas é bem grande, mas basta restaurar para ganhar de volta todos os benefícios que esses ecossistemas fornecem.

Você lançou o termo diversidade biológica nos anos 1980. Os biólogos não pensavam nisso? É bem interessante. Nos anos 1960, tínhamos a teoria da biogeografia de ilhas e começaram a sair muitos artigos sobre riqueza de espécies, mas não tínhamos um termo coletivo para falar da variedade de seres vivos na natureza. Eu me lembro, devia ser 1975 ou 1976, da primeira vez que encontrei Ed Wilson [Edward Wilson, biólogo americano]. Almoçamos juntos e falamos sobre diversidade biológica, mas 28 | abril DE 2015

Você trabalhou por muitos anos para o WWF. Na sua opinião, quando e como um cientista deve ir além da atividade acadêmica? ​ A academia não é um bom lugar para algumas coisas. Sou efetivado na universidade onde dou aulas. Se estivesse numa universidade fazendo um projeto de longa duração, nunca teria conseguido a efetivação, porque demora muito para conseguir os resultados. Quando se olha para nossos desafios atuais — 2 bilhões de pessoas a mais e mudança climática —, às vezes dá vontade de fechar a porta e nunca mais se envolver, mas todos os dias vejo coisas muito boas sendo feitas, então fica fácil lidar com o lado negativo. Costumo dizer que o otimismo é a única opção.

Ainda não temos como saber se as secas atuais têm relação com o desma-


arquivo pessoal

tamento, mas você acha que há dados nessa direção? Acho que há outras coisas acontecendo ao mesmo tempo. Uma delas é uma mudança climática real. Outra é a redução na quantidade de umidade que chega da Amazônia. Pode ser parte de flutuações climáticas normais, mas também porque 20% da Amazônia já foi desmatada. A ciência é imprecisa nesse aspecto, mas isso deve ser próximo do ponto de virada em que a floresta poderia se alterar para uma forma de vegetação diferente, como a savana nas partes sul e leste da Amazônia. Há também, é claro, as questões de desmatamento local nos mananciais de São Paulo. E há boas notícias aqui: é perfeitamente possível fazer um reflorestamento significativo dessa destruição e reconstruir a margem de segurança contra a perda de floresta. Em termos de mudança global do clima, fazer esse tipo de coisa pelo mundo é de fato uma forma muito boa de reduzir a extensão de mudança no clima. Nem todos estão de acordo, mas vemos um crescente reconhecimento da importância do ciclo hidrológico da Amazônia e a necessidade de mantê-lo. Na escala global, a ideia de restaurar ecossistemas e capturar CO2 da atmosfera está começando a receber muita atenção. Sem essas medidas, a Amazônia pode estar perto de um ponto sem retorno? Sim. Não sabemos precisamente onde esse ponto é em desmatamento, mas acho que é em torno de algo próximo do que já foi desmatado. Ninguém quer descobrir exatamente qual é o ponto porque aí o ponto de virada terá sido virado. Os seres humanos são muito bons em usar um recurso até o limite, descobrindo que algum outro fator chega e os empurra para fora da borda. Neste caso faz sentido recuar e, essencialmente, ter cautela. Você tem acompanhado os grandes projetos de hidrelétricas na Amazônia? Tenho, e acho que é importante desenvolver um novo plano de energia para a região. Alguns deles, como a barragem do rio Madeira, foram projetados, pelo que sei, para levar em conta a ecologia dos peixes, por exemplo. Mas outros se baseiam em modelos mais antigos. É hora de repensar isso tudo, daria para fazer com menos impacto. E claro que um grande problema na Amazônia é que,

Na década de 1970 na Amazônia, quando algumas áreas de estudo do PDBFF já haviam sido isoladas

quando se constrói uma estrada, se cria o acesso de que todo mundo falava quando fui lá pela primeira vez, com a Belém-Brasília. É muito difícil construir uma represa sem fazer estradas, certo? É preciso uma maneira mais integrada de pensar sobre isso. Pode ser muito inovador. Na Amazônia peruana tem um projeto de gás e petróleo chamado Camisea, em que me envolvi bastante, que foi construído e opera sem nenhuma estrada. Como é possível? A primeira empresa que fez a exploração disse: “Não vamos construir estradas”. Trouxeram tudo por ar e pelo rio. Os poços estão conectados por tubos subterrâneos com sensores. Se há um problema, sabe-se exatamente onde o sensor está e um helicóptero vai direto àquele ponto. Esse exemplo poderia ser seguido aqui? Certamente, já que Urucu segue o mesmo modelo de Camisea. Volto ao que disse antes, a Amazônia precisa ser gerenciada como um sistema, o que significa realmente um planejamento e um gerenciamento integrados. Hoje existem ecólogos, ambientalistas, universidades e ONGs trabalhando na Amazônia. Qual sua avaliação? Para começar, acho notável a transformação em termos de capacidade científica e da sociedade civil. Não há dúvida de que o Brasil é um líder importante nessas

questões. Não só o ambiente num sentido estreito. A capacidade da Embrapa na pesquisa em agricultura tropical é uma das melhores do mundo. O desafio é como encaixar todas essas coisas de maneira harmoniosa. Como imagina o futuro da Amazônia? Este é meu sonho: que todos os países amazônicos trabalhem juntos para gerenciar a Amazônia como um sistema e ter um planejamento e um gerenciamento realmente integrados. Não vale só para as florestas, mas também para as cidades. A qualidade de vida nas cidades amazônicas é uma parte muito importante para se atingir a solução ideal. Isso significa organizar o desenvolvimento das cidades para concentrar a qualidade de vida sem afetar os arredores? Sim. O exemplo interessante, claro, é Manaus, como uma zona franca com toda a indústria de montagem, de maneira que o estado do Amazonas tem uma taxa de desmatamento muito baixa. Pensar sobre a Amazônia como um todo requer considerar as cidades também. Em geral os verdes pensam na floresta e as pessoas com preocupações sociais pensam sobre os problemas nas cidades. Elas não juntam as duas coisas. Esperamos que não tenha planos de se aposentar em breve. Vou me aposentar com as botas calçadas. n PESQUISA FAPESP 230 | 29


política c&T  gênero y

A força dos estereótipos Estudos apresentam novas hipóteses para explicar diferenças nas trajetórias de homens e mulheres na ciência Bruno de Pierro


Visões distintas Importância atribuída à ideia de talento inato para ser pesquisador de uma área e o número de doutoras por disciplina em 2011 nos Estados Unidos

3,7

4,2

Matemática

Ciências da Computação

Física

Bioquímica

Engenharias

Biologia Molecular

Estatística

60%

40% 30% 20%

História da Arte

80% 70%

Filosofia

Economia

60%

Música 5,2

50%

10%

História Filosofia 4,7

70%

5,2

Sociologia

4,7

Economia Música

História da Arte

Sociologia História

Psicologia

Educação 3,2

80%

Matemática

Física

4,2

Psicologia

3,7

Educação

3,2

Neurociência

Participação de mulheres entre doutores em 2011 nos Estados Unidos

Estatística Bioquímica Engenharias/ Ciências da Computação

representação feminina 

A escala de 3,2 a 5,2 representa o grau de crença no talento inato. As disciplinas com valores mais altos são aquelas cujos pesquisadores dão mais ênfase a essa ideia

Neurociência Biologia Molecular

aptidão natural

50% 40% 30% 20% 10%

Fonte  sarah-jane leslie/princeton university

ilustrações  negreiros

E

m janeiro de 2005, o então reitor da Universidade Harvard, o economista Lawrence Summers, disse numa conferência que a reduzida participação das mulheres nas ciências e na matemática se explicaria por uma natural inaptidão feminina para tais campos do conhecimento. A declaração sem respaldo científico rendeu a Summers uma avalanche de críticas que culminaram com sua destituição do cargo de reitor de uma das mais prestigiadas universidades norte-americanas. Um estudo publicado em janeiro na revista Science enxerga uma relação entre a baixa participação feminina em certas áreas da ciência e a ideia de que talentos inatos determinam carreiras científicas, mas de uma forma muito diferente daquela que Summers propôs. O trabalho colheu evidências de que certos campos do conhecimento, tais como matemática e física, combinam uma participação baixa de

mulheres no contingente de doutores com uma crença disseminada, dentro e fora de suas comunidades de pesquisadores, de que é necessário ter um talento natural para seguir tais carreiras. Os autores sugerem que as mulheres, bombardeadas desde cedo com a ideia de que lhes falta a aptidão natural, simplesmente tendem a evitar tais carreiras, o que, isso sim, explicaria a participação restrita. “Essa mensagem é combinada com estereótipos arraigados em nossa cultura que diminuem a diversidade de gênero na ciência”, diz Sarah-Jane Leslie, professora do Departamento de Filosofia da Universidade Princeton e autora principal do artigo. Para a pesquisadora, quando as mulheres internalizam esses estereótipos, podem também decidir que tais campos do conhecimento não são para elas. Como resultado disso, acabam tendo pouca representação nessas áreas que exigiriam um pESQUISA FAPESP 230  z  31


talento especial. Sarah-Jane teve um vislumbre dessa ideia após participar de uma conferência da Sociedade para Filosofia e Psicologia (SPP, na sigla em inglês). “Reparei que os filósofos davam muita importância para a ideia de aptidão inata, enquanto os psicólogos enfatizavam mais a dedicação e o esforço”, diz ela. “Ao mesmo tempo, percebi que havia no local mais homens filósofos e mais mulheres psicólogas”, completa. A partir dessa observação, Sarah-Jane decidiu ver na prática se essa correlação entre o número de pesquisadores num campo do conhecimento e a crença no talento inato aparecia em outras áreas. A resposta foi positiva. A crença em algum tipo de talento ou aptidão inatos foi identificada nas chamadas ciências duras, como a física, e as tecnológicas, como as engenharias e a computação – campos cuja participação feminina geralmente é menor, principalmente no topo da carreira. Segundo o estudo, o fenômeno explica a variação da representação feminina em algumas disciplinas das ciências humanas, campo cuja frequência de mulheres é mais pronunciada. Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais doutoras atuando em história da arte e psicologia (cerca de 70%) do que em economia e filosofia (menos de 35%).

S

arah-Jane e sua equipe aplicaram 1.820 questionários a estudantes de pós-graduação e recém-doutores, de várias partes dos Estados Unidos, que participaram de um levantamento feito em 2011 pela National Science Foundation (NSF), a principal agência de fomento à pesquisa dos Estados Unidos. Os entrevistados pertenciam a 30 disciplinas diferentes: 12 em ciências naturais e tecnológicas, incluindo engenharias e matemática, e 18 em ciências sociais e humanidades. Foi pedido aos participantes que respondessem a algumas questões. Uma delas perguntava: “Ser um pesquisador reconhecido na minha área exige uma aptidão especial que não pode ser aprendida?”. Os participantes tiveram que dizer se concordavam ou não com os enunciados e também supor o que outras pessoas de suas áreas diriam sobre isso. Para medir o nível de “crença na importância do talento inato”, os autores da pesquisa utilizaram um modelo estatístico segundo o qual quanto menor o número na escala (de 3,2 a 5,2), menor é o número de pessoas que acreditam no talento inato em uma área do conhecimento. Em filosofia, por exemplo, esse índice chega a quase 5,2 – indicando a grande ênfase que os profissionais dessa área dão para a ideia de talento inato. Não por acaso, diz o estudo, a filosofia apresenta um dos menores percentuais de doutoras nos Estados Unidos, aproximadamente 30% em 2011 (ver gráfico). Já a psicologia tem um índice de “crença” inferior a 3,7% e uma representação feminina superior a 70%.

32  z  abril DE 2015

"A crença no talento inato diminui a diversidade na ciência", diz Sarah-Jane

As análises também incluíram dois grupos de minorias raciais – afro-americanos e descendentes de asiáticos. Segundo o estudo, o mesmo fenômeno que acontece com as mulheres explicaria a escassez desses grupos étnicos em algumas disciplinas. No caso de doutores negros, nota-se a sua baixa inserção (menos de 15%) em todas as áreas. “Pesquisadores que desejam diversificar suas áreas devem minimizar a ideia de que afro-americanos e mulheres são menos dotados e destacar a importância do esforço pessoal”, concluem os pesquisadores no estudo.

P

ara Maria Conceição da Costa, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pesquisa publicada na revista Science trata um problema complexo de uma forma que soa simplista. O trabalho, diz ela, carece de uma análise mais profunda que relacione diferentes fatores, como gênero, raça, condição econômica e condições regionais. “Falar apenas em mulheres e homens é muito genérico. Há uma diferença, por exemplo, entre mulheres negras do sul dos Estados Unidos, com mais acesso à universidade do que as mulheres negras do norte do país”, diz ela. Conceição também chama a atenção para a falta de comentários críticos no artigo. “Ele funciona mais como uma declaração e não como uma crítica à crença no talento inato. Mais do que gráficos, é preciso apresentar os mecanismos e condições que levam as pessoas a crer que os homens são mais capazes que as mulheres”, afirma. Diante dos resultados do estudo, é possível questionar o seguinte: a presença maciça de mulheres em áreas como psicologia e educação fa-


Mulheres longe do topo Percentual de pesquisadores brasileiros nas áreas de física e medicina em dois níveis de bolsas de produtividade do CNPq física

medicina 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0

Nível 2

Nível 1A

Nível 2

Nível 1A

Fonte  Banco de dados da plataforma lattes do cnpq, 2011

vorece a valorização da ideia de esforço pessoal? Segundo a socióloga Gilda Olinto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Informações em Ciência e Tecnologia (Ibict) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pode ser que esteja em curso o desenvolvimento de uma cultura feminina na ciência, valorizando o esforço pessoal. “Isso seria um aspecto positivo”, diz. Gilda ressalta que os próprios autores da pesquisa – ao examinarem a relação entre o sexo dos entrevistados e a valorização do talento inato em oposição à dedicação ao trabalho – verificaram que as mulheres valorizam mais a dedicação do que os homens. “A menor valorização do talento inato é também característica de disciplinas mais femininas. Assim, a menor valorização do talento inato pode ser consequência da cultura acadêmica característica das disciplinas mais femininas”, afirma Gilda Olinto. Portanto, diz ela, a maior representação de mulheres em uma área pode não ser consequência da valorização do esforço, mas sim o contrário: quanto mais mulheres numa área, menor importância se dá para o argumento do talento inato. Para a física Marcia Barbosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a ideia de um talento inato está associada a uma imagem ultrapassada do cientista, que, contudo, ainda se faz viva nos dias atuais. “Figuras como as de Newton, Einstein e Galileu, dentre tantos outros, ganharam o imaginário popular, que relaciona a genialidade e o brilhantismo a esses homens.” No entanto, diz ela, essa imagem tende a perder força ao longo do século XXI. “Para fazer ciência hoje, é preciso mais a união de talentos do que a genialidade de uma pessoa só. A pesquisa é mais colaborativa e por isso casos como o de Einstein serão mais raros daqui para frente”, diz a pesquisadora, para quem, no caso da comunidade científica no Brasil, a crença no talento inato é

n Homens n Mulheres

um fator menos importante para explicar a baixa representação das mulheres em alguns setores. Marcia Barbosa é uma das autoras de um estudo que avaliou a participação feminina na ciência brasileira. O trabalho, publicado no livro Trabalhadoras: análise da feminização das profissões e ocupações, de 2013, avaliou bolsistas de Produtividade em Pesquisa no Brasil do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) entre 2001 e 2011, nas áreas de física e medicina. A pesquisa mostra que mesmo no caso da medicina, em que o percentual de mulheres chega a quase 40% no nível 2 – o mais básico –, à medida que se sobe na carreira essa taxa diminui e chega a 20% no nível 1A, que é dado a pesquisadores mais experientes na classificação do CNPq. Na física, os números são piores (ver gráfico). Embora as mulheres sejam maioria entre os discentes nas universidades brasileiras e já representem cerca de 50% dos docentes nas instituições públicas, segundo dados do Censo da Educação Superior de 2010, o estudo mostra que o acesso delas aos níveis mais altos da pesquisa ainda é restrito.

U

m estudo divulgado em março pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, mostra que na faixa dos 15 anos o desempenho escolar de meninas em várias disciplinas, inclusive matemática, é superior ao de meninos. Nos Estados Unidos, dentre os alunos com baixo desempenho no colégio, 63% são meninos e 36%, meninas. No Brasil, a disparidade é menos acentuada: 52% para os meninos e 47% para as meninas. No total, foram avaliados 510 mil estudantes de 64 países participantes do Programa para Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), que avalia a capacidade dos alunos para analisar, raciocinar e refletir sobre seus conhecimentos e experiências. A pesquisa também mostra que os pais são muito mais propensos a esperar que seus filhos homens sigam carreira em áreas tecnológicas do que suas filhas, mesmo que elas apresentem bom desempenho na escola. Em países como Chile, Hungria e Portugal, por exemplo, menos de 20% dos pais entrevistados esperam ver suas filhas atuando em áreas científicas. Uma das conclusões do estudo da OCDE é que as disparidades de gênero não resultam de diferenças inatas a ambos os sexos, mas sim das atitudes dos estudantes em relação à aprendizagem e do comportamento que tinham na escola. “Vários fatores contribuem para moldar tais comportamentos, entre eles a educação familiar, o trabalho de professores em sala de aula e a forma como os jovens passam o tempo de lazer. Os estudantes, sejam eles meninos ou meninas, têm o mesmo potencial”, diz o estudo. n pESQUISA FAPESP 230  z  33


Como os paulistas veem a ciência Alguns resultados da pesquisa Datafolha que entrevistou 3.217 pessoas em 138 cidades do estado de São Paulo (em %) Interesse por ciência e tecnologia

perfil de quem tem muito interesse por c&T

o conhecimento científico tem muita utilidade

Sexo Interessado

37

Pouco interessado

Feminino

27

Nada interessado

44

No cuidado com a saúde e prevenção de doenças

Idade

8

Não sabe

56

Masculino

26

2

16 a 24 anos

21

25 a 34 anos

22

35 a 44 anos

Na minha compreensão do mundo

19

45 a 59 anos 13

Escolaridade 26

Fundamental Médio

43

Na minha profissão ou trabalho

42

28 Renda familiar mensal 28

Até 2 salários mínimos

48

Mais de 2 a 5 salários mínimos

Conhecimento/ aprendizado/ aprender sobre esse assunto

23

Faz parte da vida/é importante

17 12 10

Trabalha na área/ atualização profissional

10

Facilita o dia a dia

Outras respostas

34  z  abril DE 2015

88

Muito importante

Não sabe

Grau de desenvolvimento do país em pesquisa científica

9

Pouco importante Nada importante

avaliação da pesquisa científica no brasil

1 2

Menos do que o suficiente

12

39 5

Investimento em ciência e tecnologia no país Suficiente

4

44

Atrasado

Mais do que o suficiente

9

12

Avançado Intermediário Não sabe

Diagnóstico, tratamento e cura de doenças

Faz/pretende fazer um curso na área

2

investimento em c&T

Razões para ter interesse em C&T

30

8

Mais de 10 salários mínimos

Gosta do assunto/acompanha as novidades

Na formação das minhas opiniões políticas e sociais

14

Mais de 5 a 10 salários mínimos

Não sabe/não respondeu

47

Nas minhas decisões como consumidor 46

Superior

51

Na preservação do entorno da minha casa e do meio ambiente

24

60 anos ou mais

70

5 25 70

Fonte datafolha

ilustraçãO  larissa ribeiro

Muito interessado


sociedade y

Apoio à atividade científica

População de São Paulo admira os cientistas e dá valor ao investimento em pesquisa mesmo que ele não traga benefícios imediatos, mostra Datafolha

Fabrício Marques

P

esquisa feita pelo Instituto Datafolha mostra que 88% dos habitantes do estado de São Paulo consideram muito importante o investimento em ciência e tecnologia e 86% acham que o governo deve financiar a pesquisa científica mesmo que ela não traga benefícios imediatos. A profissão de cientista é a terceira mais admirada, perdendo apenas para a de professor e a de médico. Setenta e sete por cento dos entrevistados, porém, não souberam dizer o nome de nenhuma instituição de pesquisa, nem sequer o de universidades. A pesquisa foi encomendada pela FAPESP com o objetivo de mapear o interesse dos paulistas por ciência e tecnologia e conhecer a percepção pública sobre os investimentos em pesquisa e o trabalho da Fundação. Ao serem apresentados a nomes de instituições, 26% disseram já ter ouvido falar da FAPESP, mas 69% não sabem ou não lembram o que faz a Fundação.

Foram realizadas 3.217 entrevistas em 138 cidades de todas as 15 mesorregiões do estado de São Paulo. “A alta prioridade que a população dá ao apoio à pesquisa e o valor que dá à profissão científica ecoam o sentimento verificado em outros países e estimulam a comunidade científica paulista a obter cada vez mais e melhores resultados de impacto científico, social e econômico”, comentou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP. “A pesquisa destaca também a necessidade de maior empenho das instituições na demonstração e associação de seus nomes aos resultados.” Para o presidente da FAPESP, Celso Lafer, “a pesquisa feita pelo Datafolha mostra a importância que a população atribui à ciência e o respeito que tem pelos cientistas. Em segundo lugar, evidencia a clara percepção de que cabe ao Estado apoiar a pesquisa científica, mesmo quando ela possa não trazer benefícios imediatos, e que a iniciativa pESQUISA FAPESP 230  z  35


privada também pode aumentar seus investimentos no setor”. Além da pesquisa com a população em geral, o Datafolha abordou outros dois públicos: 505 pesquisadores apoiados pela FAPESP e 30 formadores de opinião, como professores e jornalistas, foram entrevistados. Para a maioria (80%) dos pesquisadores, no Brasil, o investimento em ciência e tecnologia é menor do que o suficiente. Para 64%, as empresas deveriam financiar mais a pesquisa; 75% citaram o governo como o principal financiador da atividade científica. “Melhores recursos financeiros” e “credibilidade” são os principais fatores para a escolha da FAPESP pelos pesquisadores apoiados, de acordo com a pesquisa. O apoio da FAPESP aos pesquisadores entrevistados se dá por meio de Bolsas de Doutorado (36%), Bolsas de Pós-doutorado (30%), Auxílio à Pesquisa – Regular (26%), Bolsas de Mestrado (26%), Bolsas de Iniciação Científica (22%), Auxílio à Pesquisa – Projeto Temático (5%), Programa de Pesquisa Inovadora em Pequenas Empresas, Pipe (3%), Jovem Pesquisador (2%) e outros (6%). Entre os formadores de opinião, o grau de satisfação com a pesquisa científica no Brasil foi regular. Eles citaram a falta de investimento e a baixa tradição em pesquisa como aspectos negativos. Também 36  z  abril DE 2015

“O público mais diretamente envolvido reconhece a contribuição da FAPESP e ressalta sua credibilidade”, diz Celso Lafer

concordaram que o ensino de ciências nas escolas precisa melhorar. Há falta de estímulos e capacitação, tanto para os professores quanto para os alunos. Porém há o reconhecimento de algumas iniciativas positivas, como, por exemplo, a Virada Científica, as Feiras de Ciências e o programa Ciências sem Fronteiras. A FAPESP é pouco conhecida pelos formadores de opinião, mas os que conhecem a Fundação guardam uma imagem positiva, a de instituição séria. “O público mais diretamente envolvido reconhece a contribuição da FAPESP e ressalta a sua credibilidade. Em resumo, os dados

confirmam o apoio do contribuinte paulista às atividades da FAPESP”, afirma Celso Lafer. Nas entrevistas feitas com a população, o interesse declarado em assuntos científicos foi elevado: 67% se disseram interessados ou muito interessados em ciência e tecnologia. Mas 79% concordaram com a afirmação de que a ciência e a tecnologia são tão especializadas que a maioria das pessoas não consegue entendê-las. O índice de muito interessados em ciência e tecnologia (26% do total) foi inferior ao de tópicos como medicina e saúde (51%), alimentação e consumo (45%), meio ambiente e ecologia (39%), religião (38%), esportes (32%) e cinema, arte e cultura (30%). Mas foi superior ao dos muito interessados em moda (14%), política (12%) e curiosidades sobre pessoas famosas (7%). gap importante

O descompasso entre o interesse e a dificuldade de apontar o nome de uma instituição de pesquisa não é uma novidade em estudos sobre a percepção pública da ciência, observa Luisa Massarani, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, que já realizou diversos estudos desse tipo. Segundo ela, o panorama de São Paulo não é diferente do cenário nacional, como mostraram enquetes realizadas no país pelo Ministério da Ciência,


Percepções dos cientistas Respostas dos 505 pesquisadores apoiados pela FAPESP a algumas perguntas do levantamento (em %) razões por ter escolhido a fapesp Oferece os melhores recursos financeiros

55

Credibilidade da instituição

46

Processos burocráticos mais rápidos e acessíveis

19

Melhor valorização da pesquisa/pesquisador

10

Organização da instituição

7

Localização Apoio a áreas específicas de pesquisa Outras respostas

motivos para fazer pesquisa científica

3 1 3

É um dos atributos da carreira profissional

23

Por vocação

20

Desenvolver a carreira profissional

18

Formação acadêmica despertou interesse

15

É o que gosta de fazer

13

Produzir conhecimento/ desenvolver novas tecnologias

9

Contribuir para o desenvolvimento científico

8

Por ser profissional de instituições que trabalham com pesquisa

4

Fonte datafolha

Tecnologia e Inovação e pelo Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz. “O que observamos é que as pessoas expressam interesse por temas de ciência, mas há um gap importante entre afirmar que tem interesse e, de fato, buscar se informar sobre temas de ciência e tecnologia”, afirma. “Outro ponto que ficou evidente em estudos qualitativos que fizemos é que muitas vezes não há uma correlação direta entre ciência e fazer ciência no nosso país. Ou seja, as pessoas ainda sabem pouco que o Brasil faz ciência e há cientistas brasileiros.” Na avaliação da pesquisadora, ter uma população que se interessa por ciência é um passo importante, mas há muito mais a fazer. “A começar por uma noção mais concreta e realista do que é ciência, quem faz ciência, onde se faz ciência e qual a associação entre ciência e sociedade”, diz. É comum que pesquisadores e público leigo tenham percepções diferentes sobre a atividade científica. Nos Estados Unidos, uma pesquisa divulgada em janeiro pelo Pew Research Center comparou as opiniões de cientistas ligados à Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) e um grupo de cidadãos do país. Em alguns tópicos, as divergências eram grandes. Oitenta e sete por cento dos pesquisadores afirmaram que as mudanças climáticas devem-se principalmente à

“As pessoas sabem pouco que o Brasil faz ciência e que há cientistas brasileiros”, afirma Luisa Massarani

ação humana, mas apenas 50% dos leigos concordaram com isso. Da mesma forma, 88% dos cientistas afirmaram que alimentos geneticamente modificados são seguros para o consumo, diante de apenas 37% dos cidadãos. A pesquisa do Datafolha também registrou algumas percepções diferentes. O grau de desenvolvimento da pesquisa científica do país foi classificado por 44% dos paulistas como intermediário e por 39% como atrasado. Já para os cientistas, os índices foram de 67% para intermediário e 26% para atra-

sado. No público de pesquisadores, 60% consideraram que o país tem muito destaque em agricultura e pecuária e apenas 6% acham que tem muito destaque em desenvolvimento de tecnologias. Se os paulistas têm uma impressão menos favorável sobre a qualidade da pesquisa brasileira, isso não afeta a admiração que têm pelos cientistas. A taxa de admiração chega a 61%, superior à de engenheiros, jornalistas, juízes, empresários e artistas. Já os pesquisadores têm uma imagem mais crítica de sua atividade profissional. A maioria considera a profissão de cientista pouco atrativa para os jovens por ter “baixos salários e pouco prestígio”. Mas 80% consideram a profissão muito gratificante do ponto de vista pessoal e 58% consideram que é a vocação para o conhecimento a principal motivação dos cientistas. E 55% disseram estar satisfeitos com o desenvolvimento científico da área de atuação, diante de 44% que se declararam insatisfeitos – 1% não respondeu. Dos que se mostraram satisfeitos, 31% apontaram como principal motivo o “reconhecimento ou destaque internacional” e 29%, “avanços e desenvolvimento na área de pesquisa”. Praticamente todos os pesquisadores entrevistados (99%) acreditam na contribuição da pesquisa científica para o crescimento do país e defendem a independência dos cientistas. O conhecimento científico e tecnológico foi considerado de “muita utilidade”, principalmente no “cuidado com a saúde e prevenção de doenças” (70%), na “compreensão do mundo” (51%) e na “preservação do entorno de minha casa e do meio ambiente” (47%). O campo da saúde também se destacou entre os formadores de opinião: a maioria dos professores e jornalistas entrevistados afirmou que, quando pensa em ciência, lembra da área da saúde. Os temas mais relacionados à ciência, para eles, são células-tronco, vacinas, cura de doenças e laboratórios de ciência. “Há vários estudos em outros países e no Brasil que mostram que grande parte da cobertura de ciência é na área da saúde”, observa Luisa Massarani. “Já fizemos, inclusive, essa pergunta a editores e jornalistas, que colocam que a pesquisa em saúde tem uma associação muito forte com o cotidiano das pessoas. É na área da saúde que se percebe o impacto da ciência, com os medicamentos, as vacinas etc.”, explica. n pESQUISA FAPESP 230  z  37


Do homem à planta Unicamp cria centro segundo modelo de inovação aberta dedicado ao estudo de enzimas presentes em células humanas e vegetais

A

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) anunciou a criação de um novo centro de pesquisa básica dedicado ao estudo de um grupo de enzimas chamadas quinases, responsáveis pela regulação de processos metabólicos em células de seres humanos e de vegetais e com potencial para gerar fármacos. Além de avançar nessa área, o Centro de Biologia Química de Proteínas Quinases pretende aproveitar o conhecimento e a tecnologia gerados em parceria com a indústria farmacêutica para impulsionar pesquisas sobre biologia de plantas. O objetivo é descobrir como tornar culturas essenciais para a agricultura mais resistentes à seca. O centro, cujas atividades devem começar em julho, faz parte da rede Structural Genomics Consortium (SGC), uma parceria público-privada criada em 1999 que reúne mais de 10 empresas do setor farmacêutico, entidades de apoio à pesquisa e cientistas em outros dois centros de pesquisa localizados nas universidades de Oxford, na Inglaterra, e de Toronto, no Canadá. 38  z  abril DE 2015

O consórcio adota os modelos de open science (acesso aberto ao conhecimento) e inovação aberta, que garantem o compartilhamento de resultados de pesquisa. Nesse sistema, também é liberado o acesso a moléculas, métodos e técnicas para que pesquisadores de outras instituições e laboratórios farmacêuticos possam gerar novos produtos e, principalmente, partilhar soluções capazes de reduzir o tempo e os custos das pesquisas. O acordo que selou a parceria foi assinado em março na sede da FAPESP em São Paulo. Ele prevê um aporte de US$ 4,3 milhões da Fundação, por meio do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), US$ 1,9 milhão da Unicamp e US$ 1,3 milhão do SGC. Na cerimônia de assinatura da cooperação, Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, afirmou que a iniciativa deve incentivar pesquisas cujos resultados podem ter alto impacto na sociedade. “Ela oferece oportunidade de fomentar pesquisas que vão levar a resultados de alto impacto intelectual, social e econômico. Além disso, cria opor-

tunidades de colaboração internacional para pesquisadores de São Paulo. Por último, cria uma oportunidade para os pesquisadores paulistas trabalharem em parceria com empresas”, afirmou Brito Cruz. Com o novo centro em Campinas (SP), o SGC contará com mais de 230 pesquisadores em suas três unidades, que mantêm parcerias com mais de 300 grupos de pesquisa em mais de 40 países e grandes laboratórios farmacêuticos, como GlaxoSmithKline (GSK), Pfizer, Bayer e Novartis. De acordo com Aled Edwards, fundador e presidente do consórcio, o projeto do Genoma Humano mostrou que existem cerca de 500 tipos de quinases, mas apenas 40 foram estudadas em detalhe até hoje. Segundo Edwards, o problema é que o processo para descobrir como uma quinase funciona é demorado. “Cria-se uma molécula, uma espécie de sonda química, que se liga à enzima-alvo e inibe seu funcionamento. Depois, injetamos a molécula em animais e observamos o resultado disso. Uma sonda dessas pode levar até dois anos para ser desenvolvida, a um custo alto”, diz ele. Não apenas o estudo das quinases é caro. Na última década, pesquisadores ligados ao SGC conseguiram descrever a estrutura de mais de 1.200 proteínas, com implicações para o incremento de terapias contra câncer, diabetes, obesidade e transtornos psiquiátricos. No entanto, a estimativa é de que o custo das pesquisas necessárias para desvendar cada uma das proteínas seja de aproximadamente US$ 1 milhão. Para compartilhar custos e riscos, o consórcio passou a adotar os modelos de open science. Celso Lafer, presidente da FAPESP, salientou que essa estratégia poderá também ajudar a acelerar a busca por novos medicamentos para câncer e mal de Alzheimer. “A partir da divisão de tarefas entre universidade e empresas, será formado um grande mutirão em prol do avanço do conhecimento”, disse ele. Bill Zuercher, representante da GSK, uma das empresas que investem no consórcio, destacou que atualmente

foto eduardo cesar  detalhes Structural Genomics Consortium (SGC)

Cooperação y


Plantação de milho em Serrinha dos Pintos, no Rio Grande do Norte: cultura resistente à seca será um dos alvos do novo centro da Unicamp

atualmente poucos grupos de pesquisa ocupados com esse tipo de investigação. “Há alguma coisa no Instituto Max Planck, na Alemanha, e na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Mas o que se estuda hoje sobre quinases em plantas não chega a 1% do que se conhece sobre as quinases em humanos”, disse ele. Para Arruda, outro mérito do modelo de inovação aberta será colocar “debaixo do mesmo teto” pesquisadores das áreas de biomedicina e biologia vegetal. A ideia, disse ele, não é utilizar extratos de plantas para produzir fármacos, como usualmente ocorre, mas sim usar técnicas especialmente desenvolvidas para estudar quinases humanas e aplicá-las na pesquisa de problemas da biologia de plantas. sem água

o estudo de cerca de 500 quinases humanas depende do trabalho colaborativo entre empresas e centros de pesquisa. “O modelo de pesquisa fechada e individual, no nosso caso, leva a um desperdício de recursos. Dividir etapas de pesquisa faz com que diminua o risco de fracasso no desenvolvimento de novas drogas”, disse. Hoje, aproximadamente 95% das molé-

culas candidatas a medicamentos não têm sucesso na etapa de ensaios clínicos, inviabilizando sua ida para o mercado. O braço brasileiro do SGC será o único do consórcio a desenvolver estudos sobre quinases em plantas. Segundo Paulo Arruda, professor de genética no Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador do centro no Brasil, existem

Um desses problemas é a falta de conhecimento sobre como as plantas respondem ao estresse hídrico. “Nos próximos 30 anos, por conta das mudanças climáticas, a seca poderá ter impacto na oferta de alimentos. É necessário compreender como as plantas se comportam diante da falta d’água”, completou. A ideia é estudar o mecanismo pelo qual as plantas respondem à seca e às altas temperaturas. “Esses vegetais têm em suas membranas receptores que modificam o metabolismo celular, ajudando a planta a enfrentar o estresse hídrico. E esse processo envolve as quinases”, explicou Arruda. Sabendo como isso acontece, diz ele, será possível desenvolver moléculas capazes de ativar as quinases de plantas com baixa resistência à seca. Segundo Arruda, há pesquisadores brasileiros interessados em colaborar nesse campo de estudo. O centro deverá firmar parceria com o Instituto de Biologia da Unicamp e grupos de pesquisa da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, e da Universidade de São Paulo (USP). “Queremos formar uma grande rede no país, para avançar numa área bastante inédita no mundo”, disse ele. n Bruno de Pierro pESQUISA FAPESP 230  z  39


Parceria y

Expertises complementares Especialistas em olfato e imunidade de mosquitos dão início a rede de cooperação sobre doenças tropicais entre o Brasil e o Reino Unido

U

m workshop programado para acontecer entre os dias 13 e 14 de julho, em Botucatu, interior paulista, vai reunir pesquisadores de universidades e instituições do estado de São Paulo, uma delegação da Universidade de Keele, do Reino Unido, e provavelmente um representante da fundação de apoio à pesquisa biomédica britânica Wellcome Trust para discutir como ampliar colaborações científicas no campo das doenças tropicais. O encontro acontecerá em Botucatu porque ali surgiu um fruto pioneiro dessa cooperação: a parceria entre os biólogos Jayme Souza-Neto, do Instituto de Biotecnologia (Ibtec) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Julien Pelletier, do Centro de Entomologia e Parasitologia Aplicada da Universidade de Keele, no âmbito de um acordo de cooperação celebrado entre a FAPESP e a universidade britânica em 2013. “O objetivo é que, ao fim dos dois dias de discussão, saiamos dali com algumas ideias consolidadas para projetos de pesquisa em parceria que possam ser submetidos a agências de fomento do Brasil e do Reino Unido”, diz Souza-Neto.

40  z  abril DE 2015

A parceria estabelece visitas anuais de cada um dos pesquisadores ao laboratório do parceiro, ao longo de um período de três anos. Atualmente, Souza-Neto está passando uma temporada de três meses em Keele. Lá, aprende com Pelletier a trabalhar com uma ferramenta criada recentemente, denominada CRISPR-Cas9, que permite silenciar genes específicos de vetores e já resultou, por meio da manipulação de embriões, na criação de insetos mutantes. Um dos focos da pesquisa de Pelletier é compreender, analisando o comportamento de insetos mutantes, como genes ligados ao sistema olfatório dos insetos influenciam a atração pelo ser humano. Atualmente, ele está desenvolvendo colônias de mosquitos mutantes, dos tipos que transmitem malária na África (Anopheles gambiae), para realizar ensaios funcionais. Ao mesmo tempo, o brasileiro compartilha sua expertise sobre respostas imunes do mosquito da dengue com o colega, cuja experiência é mais calcada em vetores como o mosquito causador da malária. Vai ajudá-lo a estabelecer, em seu laboratório em Keele, um sistema de infecção


de Aedes aegypti com vírus da dengue. Em breve, Pelletier deverá passar uma temporada no Brasil. “Do meu ponto de vista pessoal, a cooperação entre a FAPESP e a Universidade de Keele representa uma grande oportunidade de desenvolver um programa de pesquisa ambicioso combinando expertises do Brasil e do Reino Unido”, diz Pelletier. “Ao reunir dois componentes da biologia de vetores, que são o olfato e a imunidade, acredito que podemos realmente contribuir para uma melhor compreensão de como patógenos são transmitidos para os seres humanos. A rede também se beneficiará com o compartilhamento de tecnologias entre o meu laboratório em Keele e o do doutor Souza-Neto em Botucatu”, afirma. intercâmbio de conhecimento

A chamada de projetos no âmbito do acordo de cooperação entre a FAPESP e a Universidade de Keele previa o recrutamento de um pesquisador brasileiro, atuando na área de doenças tropicais,

para trabalhar em sinergia com um grupo de Keele – a dupla seria precursora de colaborações mais amplas no futuro. “A ideia era encontrar dois grupos com linhas de pesquisas sólidas e complementares”, diz Souza-Neto. Os nomes de Souza-Neto e Pelletier despontaram justamente porque atuam em áreas com bom potencial para intercâmbio de conhecimento. Nascido na França, Pelletier estuda a fisiologia de insetos desde que se graduou na Universidade Paris 6. Doutorou-se em biologia no Institut National de la Recherche Agronomique, em Versailles, trabalhando com a caracterização de proteínas olfatórias envolvidas com a recepção de feromônios pelas antenas da mariposa do bicho-da-seda. Em 2013, depois de fazer pós-doutorado na Universidade da Califórnia, Davis, nos Estados Unidos, e na Sveriges Lantbruks Universitet, na Suécia, recebeu um convite para trabalhar em Keele. Também em 2013, Jayme Souza-Neto foi contemplado pelo programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergen-

tes, da FAPESP, depois de ter feito um pós-doutorado de três anos no Instituto de Pesquisas em Malária (JHMRI) da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health (JHSPH), onde se dedicou a estudos com foco nas respostas imunes dos mosquitos vetores a patógenos como dengue e Plasmodium. Como Jovem Pesquisador da FAPESP, retornou à Unesp, onde concluiu o doutorado em genética em 2006, para montar um laboratório voltado para estudos sobre o Aedes aegypti, com foco na interação entre as bactérias que habitam o intestino dos mosquitos e o vírus da dengue. O Laboratório de Genômica Funcional e Microbiologia de Vetores (Vectomics), liderado por Souza-Neto, é dotado de aparelhos para aplicações básicas em biologia molecular e câmaras para criação e infecção de mosquitos. Também irá trabalhar com um sequenciador de nova geração Illumina MextSeq recém-adquirido pelo Ibtec. Agora, vai ganhar uma plataforma de mutagênese para manipular embriões de mosquitos. Souza-Neto vai usar essa tecnologia para nocautear genes do Aedes aegypti relacionados ao processo de infecção, na tentativa de torná-lo refratário ao vírus da dengue. Sabe-se que algumas respostas naturais do Aedes ao vírus são mediadas de alguma maneira por bactérias presentes no intestino dos mosquitos. “A microbiota intestinal influencia o desenvolvimento do patógeno no intestino do mosquito. Queremos entender quais são essas relações entre o sistema imune do inseto, a microbiota e o vírus da dengue e como isso afeta o desenvolvimento desses patógenos do mosquito”, diz o pesquisador. Além de semear novas colaborações, a dupla também vai envolver-se com o ensino de graduação, com o objetivo de estimular o fluxo de estudantes entre os dois países. n Fabrício Marques

fotos  cdc

Projetos

Aedes aegypti: dos estudos sobre a microbiota intestinal do mosquito da dengue à ambição de gerar insetos com genes silenciados

1. Caracterização dos mecanismos de ação antidengue mediados pela microbiota intestinal de populações naturais do mosquito Aedes aegypti (2013/11343-6); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Jayme Augusto de Souza-Neto (Unesp); Investimento R$ 1.042.766,71. 2. A rede de cooperação FAPESP-Unesp-Keele: promovendo interações Brasil-Reino Unido através de atividades acadêmicas recíprocas conjuntas (2014/25287-3); Modalidade Bolsa no Exterior; Pesquisador responsável Jayme Augusto de Souza-Neto (Unesp); Investimento R$ 45.905,38.

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Políticas Públicas y

Em primeira mão Grupo divulga previamente resultados de pesquisas sobre Aids para colaborar com a prevenção

U

m grupo de pesquisadores ligados à área da saúde pública tem adotado uma estratégia incomum em outros campos para divulgar resultados de pesquisa. Após a conclusão de um estudo segundo o qual a prevalência de infecção pelo vírus HIV permanece elevada (15,4%) entre homossexuais e travestis que frequentam bares, boates e outros locais de sociabilidade no centro de São Paulo, os pesquisadores resolveram divulgar os resultados desse trabalho para a população e órgãos públicos antes mesmo de publicá-los em artigo científico. A iniciativa faz parte do projeto SampaCentro, que reúne pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Instituto Adolfo Lutz, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e organizações não governamentais. “Assim que analisamos os dados e organizamos as informações, fizemos reuniões com as pessoas que participaram do estudo, com organizações da sociedade civil e com agentes de saúde pública para alertá-los sobre as altas taxas de infecção e sobre a necessidade de políticas de prevenção dirigidas para o grupo de pessoas estudado”, conta Maria Amélia de Sousa Mascena Veras, professora da Santa Casa e coordenadora do estudo, realizado entre 2011 e 2012 e só publicado na revista Aids and Behaviour em novembro do ano passado. “Difundimos 42  z  abril DE 2015

os resultados em eventos científicos e por meio de redes sociais”, diz ela. Um dos motivos para apressar a apresentação do estudo é que boa parte dos participantes não sabia que estava infectada com o vírus da Aids. Após a realização das entrevistas, os 1.217 homens que fazem sexo com homens foram convidados a realizar a coleta de sangue para o teste de HIV. Desse total, 771 aceitaram participar do exame, dos quais 118 (15%) estavam infectados pelo vírus. Destes, 54 disseram que já sabiam que eram positivos para Aids – os demais (64) não tinham conhecimento disso. “O processo para publicação de um artigo pode levar meses. No caso da saúde pública, quanto mais precocemente disponibilizamos informações para a população pesquisada e para a saúde pública, maiores são as chances de influenciar aqueles que tomam decisões e elaboram políticas de combate à Aids”, diz Maria Veras. O levantamento, realizado entre 2011 e 2012, teve o objetivo de estimar a prevalência do vírus HIV na população de homossexuais e travestis e saber se eles têm acesso à prevenção, se sofrem discriminação e quais locais de sociabilidade frequentam. O estudo mostra que a proporção de infectados entre as pessoas estudadas no centro de São Paulo é alta (6,4%) entre os mais jovens (homens de 18 a 24 anos) e entre os de mais baixa renda. Outras informações ajudam a compor o quadro: 63% dos entrevistados consideram-se brancos; 57% não têm o segundo grau

completo; 60% disseram já ter sofrido algum tipo de preconceito e 30% relataram já ter tido relação sexual sob efeito de drogas, o que aumenta o risco de exposição a doenças sexualmente transmissíveis. Com base nos dados obtidos, diz a pesquisadora, é possível conhecer melhor essa população e agir de forma mais eficiente e assertiva no momento de desenhar políticas preventivas. desdobramentos

Outra iniciativa conduzida pelo grupo é o Projeto Muriel, que pretende estudar o quanto está vulnerável a população de travestis e transexuais femininos e masculinos. São avaliados dados sociodemográficos e de acesso a direitos e serviços de saúde e educação. O projeto está em andamento e deverá ser concluído no próximo ano. Até o momento, foram entrevistadas 259 pessoas, das quais 77% possuem até o segundo grau completo e 23% afirmaram ser portadoras do HIV. Essas e outras informações estão sendo divulgadas como resultados preliminares no site do projeto (www.projetomuriel. com.br) e fomentando reuniões com interessados, organizações não governamentais e órgãos de governo para melhorar o atendimento a esse público. “A falta de informações precisas sobre travestis e transexuais impede a elaboração de políticas mais específicas para esse grupo”, diz Brunna Valim, 40, ativista do movimento LGBT/Aids e funcionária do Centro de Referência e De-


Questionário aplicado pelo Projeto Muriel a travestis e transexuais que vivem no estado de São Paulo

fesa da Diversidade de São Paulo. Além de participar do grupo estudado pelo Projeto Muriel, Brunna ajudou a equipe de pesquisadores a elaborar o questionário aplicado em várias cidades de São Paulo. “Os dados até agora nos mostram que travestis e transexuais demandam outros cuidados que vão além do tratamento da Aids, isso quando têm a doença. Trata-se de uma população que precisa de melhor acolhimento na atenção básica à saúde”, completa Brunna. Para Ana Maria Costa, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), iniciativas como estas realizadas em São Paulo estão no cerne da pesquisa em saúde coletiva. “É um campo científico que nasce do compromisso com o direito à saúde”, diz Ana Maria. Segundo ela, muitas pesquisas em saúde coletiva feitas no Brasil costumam gerar relatórios, avaliações, livros e anais de congressos – tipos de publicação que nem sempre chegam às revistas científicas. Isso é outro fator que contribui para que os pesquisadores optem por outras formas de divulgação de resultados parciais e finais. Para acompanhar esse conjunto de informações que tangencia os periódicos tradicionais, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) criou recentemente o Observatório Nacional de Políticas de Saúde. Ele irá rastrear e disponibilizar estudos que num primeiro momento não foram publicados na forma de artigo científico, mas que contêm dados importantes para a gestão pública da saúde. n Bruno de Pierro Projetos 1. Comportamentos e práticas sexuais, acesso à prevenção, prevalência de HIV e outras infecções de transmissão sexual entre gays, travestis e homens que fazem sexo com homens (HSH) na região central de São Paulo (nº 09/53082-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – PPSUS; Pesquisadora responsável Maria Amélia de Sousa Mascena Veras (Santa Casa de São Paulo); Investimento R$ 326.835,63 (FAPESP). fotos  léo ramos

2. Vulnerabilidades, demandas de saúde e acesso a serviços da população de travestis e transexuais do estado de São Paulo (nº 13/22366-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Maria Amélia de Sousa Mascena Veras (Santa Casa de São Paulo); Investimento R$ 330.016,70 (FAPESP).

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ciência  FISIOLOGIA y

Uma conexão entre

o sono e a fome

Hormônio que indica ao corpo a hora de dormir também regula a ingestão de alimentos e o acúmulo de gordura

A

melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, situada no centro do cérebro, é conhecida há tempos por seu papel na regulação do sono. Agora, surgem evidências de que ela também exerce uma ação fundamental no controle da fome, no acúmulo de gorduras e no consumo de energia. “Na ausência da melatonina, ratos desenvolveram doenças metabólicas e se tornaram obesos. Já a reposição do hormônio favoreceu a perda de peso”, conta o fisiologista José Cipolla Neto, da Universidade de São Paulo (USP). Ele coordenou uma série de experimentos com animais, realizados em parceria com outros pesquisadores de São Paulo, da França e dos Estados Unidos, que estão demonstrando como a variação nos níveis de melatonina ao longo do dia afeta a ingestão e o gasto de energia, o chamado balanço energético do organismo. Cipolla e seus colegas começaram a identificar a influência desse hormônio sobre a fome e o acúmulo de energia usando uma estratégia clássica da fisiologia. Segundo essa estratégia, para se conhecer a função de determinado componente em um sistema, é preciso eliminá-lo e observar o que acontece. Por meio de uma cirurgia, eles extraíram a glândula pineal dos animais, extinguindo a produção do hormônio, e acompanharam as mudanças que 44  z  abril DE 2015

surgiram. Depois, como se colocassem de volta a peça retirada, reverteram o efeito fazendo a reposição de melatonina via oral e registrando como era afetado o funcionamento de diferentes órgãos e tecidos sobre os quais a melatonina atua. Os experimentos revelaram que o metabolismo energético tem uma organização temporal diária sincronizada pela melatonina. À medida que escurece, a pineal passa a liberar o hormônio até alcançar uma concentração máxima, inundando o corpo com melatonina. A partir desse pico, que ocorre por volta do meio da madrugada, a concentração de hormônio diminui e permanece baixa durante a manhã e a tarde – os níveis são 10 vezes menores do que à noite. No caso dos seres humanos e de outros mamíferos de atividade diurna, as concentrações mais baixas coincidem com o período de maior atividade. É durante o dia que esses animais se alimentam – ou, ao menos, comem em maior quantidade do que à noite – e estocam mais energia do que gastam. A energia armazenada na forma de gordura ou de estoques de açúcares durante o dia garante que o organismo continue funcionando à noite, em geral o período de descanso, quando os níveis de melatonina estão altos e o corpo passa horas em jejum. Uma parte significativa dessa energia é usada pelo tecido


léo ramos

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Ganhos e perdas Níveis de melatonina regulam a ingestão e o gasto de energia

De dia, a luz que chega aos olhos envia à pineal um comando para interromper a produção de melatonina

Glândula pineal No escuro, a pineal aumenta a síntese e a secreção de melatonina

Hipotálamo

Em níveis mais altos, ela inibe no hipotálamo os centros ligados à fome

Níveis baixos desse hormônio ativam centros do hipotálamo que despertam a fome

O fígado e o tecido adiposo branco armazenam energia na forma de gordura

Os músculos estocam energia na forma de glicogênio, reserva de consumo rápido

Tecido adiposo marrom Fígado Pâncreas Tecido adiposo branco

Músculos

A energia estocada no tecido adiposo e nos músculos é consumida para manter o corpo funcionando

O tecido adiposo marrom converte parte das reservas energéticas em calor Fonte  josé cipolla neto / usp

adiposo marrom – esse tipo de gordura gasta energia, enquanto a gordura branca a armazena – para produzir calor e manter o corpo aquecido num período em que há pouca contração muscular (outra fonte de calor). O consumo de energia pela gordura marrom é tão elevado à noite que, no balanço geral, compensa o que havia sido estocado de dia. Como resultado, o peso praticamente não muda. “Do ponto de vista evolutivo, essa organização temporal do metabolismo energético deve ter sido fundamental para a sobrevivência dos mamíferos”, diz Cipolla, um dos pioneiros no país dos estudos em cronobiologia, área da ciência que investiga como os fenômenos biológicos variam no tempo. Produzir reservas energéticas no período de atividade, conta, pode ter permitido sobreviver em segurança à noite, quando se está em jejum e se dorme, em geral, em ambiente isolado e menos suscetível à ação de predadores. Nos testes em laboratório Cipolla observou que, depois de algum tempo, os ratos que não produziam melatonina apresentaram distúrbios metabólicos associados ao desenvolvimento da obesidade. Os níveis de açúcar (glicose) e de gorduras (lipídios) no sangue eram mais elevados do que o normal, o que favorecia a estocagem de energia na 46  z  abril DE 2015

forma de gordura no tecido adiposo branco e no fígado. Além de ter mais energia disponível para guardar, os animais também passaram a comer mais e fora de hora, além de gastar menos energia. Segundo Cipolla, essas mudanças são efeitos diretos da redução da melatonina, hormônio que, como ele vem demonstrando, auxilia no controle da fome e estimula o tecido adiposo marrom (concentrado ao redor do pescoço, sob as clavículas e ao longo da coluna vertebral) a gastar energia. CRONORRUPTURA

Sem a melatonina, os animais perdem o padrão de organização rítmica diária do metabolismo. “Ocorre a chamada cronorruptura”, explica Cipolla. Como consequência, o cérebro deixa de perceber a saciedade e o apetite aumenta. Assim, come-se mesmo que fora de hora. Para piorar, o organismo gasta menos energia. Se antes os animais acumulavam energia quando estavam acordados e a gastavam durante o repouso, alternando os períodos de estocagem com os de queima de gordura, agora passam a acumular energia o tempo todo e engordam. Cipolla notou ainda que era possível reverter os efeitos da cronorruptura – que também pode ocorrer pela exposição excessiva à luz (em especial à luz azulada de telas de computador, tablets, celulares e TVs de LED) e, nos seres humanos, pelo trabalho no turno da noite – ao dar melatonina via oral para os animais. “Os roedores que receberam reposição do hormônio perderam peso”, conta o pesquisador. Aqueles tratados com melatonina logo após a remoção da pineal não sofreram alterações no metabolismo energético. A administração do hormônio também gerou um efeito protetor em roedores idosos e obesos, que produzem menos melatonina do que os animais mais jovens e sadios. Num dos testes, os ratos que receberam melatonina por oito semanas ganharam o equivalente a 1,3% de seu peso, enquanto os que receberam apenas água e alimentação usual engordaram 4,7%. Quando o tratamento foi mais longo, as diferenças se acentuaram. O grupo tratado por 12 semanas com uma mistura de água e melatonina perdeu 2% do peso corporal, enquanto o que tomou apenas água pesava em média quase 8% a mais no final do período, segundo estudo publicado em 2013 no Journal of Pineal Research. Esse trabalho, que Cipolla vem desenvolvendo em parceria com colegas da USP, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Instituto Butantan e dos Estados Unidos, indica que uma redução importante nos níveis de melatonina, como a observada nos ratos, aumenta a fome e favorece o ganho de peso por duas vias diretas e uma indireta. Níveis mais altos de melatonina, como os liberados à noite, atuam diretamente sobre uma região cerebral chamada hipotálamo


infográficos ana paula campos  ilustrações daniel bueno

inibindo a fome. Portanto, menos melatonina significa um apetite maior. Outro efeito direto da diminuição desse hormônio é uma redução da queima de energia pelo tecido adiposo marrom. De modo indireto, a redução da melatonina desregula a produção e a ação do hormônio insulina e reduz a produção de leptina pelo tecido adiposo – dois hormônios que também atuam sobre o hipotálamo inibindo a fome. Sem melatonina, ou com níveis muito baixos dela, perdem-se dois dos freios cerebrais do apetite e se gasta menos energia. Estudos experimentais indicam ainda que, na ausência da melatonina, o corpo produz mais grelina, hormônio que induz a fome. Existe a suspeita de que essa alteração na produção e na ação da insulina inicie um processo de retroalimentação, gerando um círculo vicioso. Animais que produzem menos insulina também secretam menos melatonina, mostrou um experimento usando ratos com diabetes tipo 1, doença que causa uma diminuição importante na produção de insulina. A redução nos níveis de insulina, porém, explicou apenas 20% da queda na produção de melatonina. O que mais influenciou a diminuição nos níveis do hormônio do sono, constataram Cipolla e seus colegas, foram as altas concentrações sanguíneas de glicose (hiperglicemia), comum quando o diabetes não está controlado. Testes feitos com seres humanos já demonstraram que, quanto menor a produção de melatonina à noite, maior a glicemia em jejum. Esse resultado também levanta a hipótese de que algo semelhante possa ocorrer no diabetes tipo 2, uma forma bem mais frequente da doença – calcula-se que cerca de 10% dos adultos desenvolvam diabetes tipo 2, uma das consequências da obesidade, já considerada uma epidemia no mundo ocidental. Testes feitos com ratos que tinham diabetes tipo 1 e com ratos com diabetes tipo 2 indicaram que a suplementação de melatonina ajudou a sincronizar o metabolismo nas fases de atividade e de repouso, melhorou a ação da insulina e ajudou a regular a ingestão e o metabolismo de lipídios. Em estudos a serem publicados em breve, Cipolla e sua equipe demonstraram que tratar com insulina e melatonina animais com diabetes tipo 1 permitiu regularizar o ritmo de variação diária da temperatura corpórea, indicando, indiretamente, a superação da cronorruptura e melhoria do quadro geral dos animais. Para Cipolla, esse conjunto de resultados indica que a suplementação de melatonina pode, em determinados casos, desempenhar um papel importante na prevenção e na melhora desses problemas metabólicos. “Em especial se estiverem em uma fase inicial”, diz. Uma das contribuições fundamentais do grupo foi elucidar como a melatonina ajuda o organismo a manter a sincronia temporal com o ambiente.

Já se sabia que a retina, tecido fotossensível que recobre o fundo do olho, envia sinais para o relógio biológico existente no hipotálamo. Este, por sua vez, estimula a pineal a produzir melatonina de noite e inibe a síntese durante o dia. Mas como a melatonina sincroniza o metabolismo ao longo das 24 horas do dia, se ela só é secretada à noite? Cipolla e seus colegas verificaram A melatonina que, uma vez lançada no sangue, a meativa nas latonina ativa nas células de diferentes do corpo um conjunto de genes células os clock partes –os chamados clock genes ou genes do relógio – que agem como sincronizagenes, que dores periféricos. Eles transmitem a informação do relógio central para todesencadeiam das as células do organismo. eventos Nas células, esses genes disparam uma cadeia de eventos moleculares que moleculares duram cerca de 24 horas e sinalizam o momento em que as diferentes reações que duram metabólicas devem acontecer. Esse mecanismo pode ajudar a entender o paquase 24 horas drão de funcionamento dos diferentes órgãos e tecidos do corpo. Acertando os ponteiros

“A melatonina já é usada para tratar distúrbios do sono e talvez possa ser adotada para ajudar a restabelecer o padrão circadiano de liberação de outros hormônios”, diz o endocrinologista Marcio Mancini, da Faculdade de Medicina da USP. É que

Gangorra energética Equilibrados sob condições normais, o acúmulo (A) e o gasto (G) de energia mudam com a falta de melatonina

Melatonina normal

Manutenção do peso

Melatonina reduzida

Ganho de peso

Fonte  josé cipolla neto / usp

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ela regula o ciclo de produção de hormônios como o cortisol, liberado em situações de estresse; a leptina e a grelina, que regulam a fome; e o hormônio do crescimento, que auxilia na reparação de danos celulares. “Mas ainda é necessário demonstrar que o que se observou em ratos também ocorre em seres humanos”, enfatiza Mancini. Nos últimos anos começaram a surgir evidências de que a melatonina pode auxiliar no controle da glicemia e dos níveis de lipídios e colesterol em seres humanos. Um estudo clínico feito nos Estados Unidos e publicado em 2011 na revista Diabetes, Metabolic Syndrome and Obesity: Targets and Therapy indicou que, em pacientes com diabetes tipo 2 e insônia, a melatonina melhorou o sono após três semanas e auxiliou o controle glicêmico após cinco meses. Outro teste clínico, descrito no Journal of Pineal Research, também em 2011, demonstrou que, após dois meses de tratamento com melatonina, pessoas com distúrbios metabólicos apresentaram redução na pressão sanguínea e nos níveis de colesterol. Mesmo diante desses resultados, Cipolla é cauteloso e ressalta que não existe solução fácil para os problemas metabólicos. “A melatonina pode se tornar um coadjuvante no tratamento desses distúrbios e talvez tenha um papel especialmente importante na prevenção deles”, diz. “Após tantos anos de estudos experimentais, chegou a hora de realizar estudos clínicos bem planejados e adequadamente controlados para testar o papel da melatonina na fisiopatologia metabólica humana.” Ainda há muito trabalho a ser feito. É preciso, primeiro, verificar a eficácia e a segurança da melatonina para tratar esses problemas em seres humanos. Caso de fato funcione, também será necessário alterar a regulamentação sobre a venda desse hormônio no país. Por causa do uso indiscriminado nos anos 1990, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a comercialização da melatonina, embora seu uso esteja liberado. O próprio Cipolla importa o sal dos Estados Unidos e manipula aqui para seus experimentos – e compra também alguns comprimidos para uso pessoal. n Projeto O papel da melatonina no controle do metabolismo energético: ações centrais, periféricas e a regulação circadiana da função metabólica. Pineal, diabetes, obesidade e envelhecimento (nº 2009/52920-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável José Cipolla Neto (ICB-USP); Investimento R$ 1.849.483,52 (FAPESP).

Artigos científicos CIPOLLA-NETO, J. et al. Melatonin, energy metabolism and obesity: a review. Journal of Pineal Research. v. 56, p. 371-81. 2014. AMARAL, F. G. et al. Environmental control of biological rhythms: effects on development, fertility and metabolism. Journal of Neuroendocrinology. v. 26, p. 603-12. 2014. AMARAL, F. G. et al. Melatonin synthesis impairment as a new deleterious outcome of diabetes-derived hyperglycemia. Journal of Pineal Research. v. 57, p. 67-79. 2014.

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Desprotegido contra o Alzheimer Inflamação associada à doença neurodegenerativa inibe a produção de melatonina, hormônio que evita a morte celular

N

as últimas semanas de março o dia foi mais longo que o normal no laboratório da farmacologista Regina Markus na Universidade de São Paulo (USP). À frente de uma equipe de 12 pessoas, ela própria chegava à universidade bem cedo pela manhã e só retornava para casa tarde da noite. “Estou trabalhando 24 horas por dia”, escreveu em um e-mail enviado no dia 24 às 2h46 da madrugada. Mais tarde no mesmo dia, em uma conversa por telefone, ela contou que nessas fases de trabalho mais corrido estava habituada a passar dias quase sem dormir, tirando apenas cochilos estratégicos. A pressa era para concluir a redação de oito artigos que mostram uma possível conexão entre a inflamação leve e persistente observada na obesidade e em alguns casos de câncer e a desativação da pineal, glândula localizada na região central do cérebro e principal fonte de melatonina para o organismo. Na mensagem de e-mail, Regina chamava a atenção para um trabalho que enviava em anexo. Uma semana antes ela e sua equipe haviam publicado no Faseb Journal as primeiras evidências de que os oligômeros beta-amiloide, compostos tóxicos que se acumulam no cérebro nos estágios iniciais da doença de Alzheimer, alteram o funcionamento da glândula pineal e bloqueiam a síntese de melatonina. Produzido por quase todos os seres vivos, esse hormônio de múltiplas funções ajusta o ritmo de fenômenos fisiológicos como o sono, a fome e a temperatura corporal. No final dos anos 1990 o pesquisador italiano Salvatore


imagem  luciana pinato / unesp

Ação anti-inflamatória: no cerebelo de rato, astrócitos (amarelo), micróglias e neurônios (verde) produzem melatonina ante sinais de dano celular

Cuzzocrea, da Universidade de Messina, demonstrou também que a melatonina funciona como um importante agente anti-inflamatório. Desde então, Regina e sua equipe trabalham para compreender melhor como a inflamação afeta a produção do hormônio e como as variações na secreção da melatonina influenciam a inflamação. O objetivo Compostos do grupo é identificar alvos específicos tóxicos que se sobre os quais compostos, já existentes ou a serem desenvolvidos, possam acumulam no agir e evitar os danos indesejáveis da inflamação persistente. cérebro nos Com o estudo do Faseb Journal, o grupo de Regina parece ter chegado a estágios iniciais uma possível explicação para os efeitos do Alzheimer limitados de uma das poucas classes de medicamentos – os compostos anticoalteram a linesterásicos, como a rivastigmina e a galantamina – disponíveis contra o atividade da Alzheimer. Também pode ter aberto um caminho novo para o desenvolviglândula pineal mento de fármacos que, usados em associação com os anticolinesterásicos, talvez consigam melhorar o desempenho deles e permitir a administração de doses mais baixas, reduzindo os efeitos colaterais. Erika Cecon, bióloga da equipe de Regina, realizou uma série de experimentos com ratos em que tentava simular a inflamação causada pelos oligômeros beta-amiloide no Alzheimer. Primeiro, ela injetou uma pequena dose dos oligômeros em uma das câmaras do cérebro dos roedores e depois analisou, tanto em nível molecular como celular, o que acontecia. Na pineal, os oligômeros aderiram a uma molécula da superfície das células chamada toll-like receptor 4 (TLR-4), especializada em detectar sinais de danos ou de perigo, como a presença

de fragmentos de células mortas e de pedaços de microrganismos invasores. Uma vez ativado, esse receptor desencadeou uma sequência de reações químicas que, nas células produtoras de melatonina (pinealócitos), cessou a síntese do hormônio – efeito semelhante já havia sido observado pelo grupo ao causar uma inflamação cerebral em roedores usando lipopolissacarídeos (LPS), moléculas da parede de bactérias. “Estudos internacionais sugerem que as pessoas com doença de Alzheimer não produzem melatonina”, conta Regina. A redução inicial dos níveis de melatonina é desejável e até fundamental para que células do sistema de defesa se dirijam ao local danificado, destrua as células mortas ou os microrganismos invasores e depois elimine os restos, numa espécie de faxina celular. Mas, prolongada, ela se torna danosa porque começa a destruir também os tecidos sadios. No sistema nervoso central, a diminuição dos níveis de melatonina deixa as células vulneráveis. Em 2013 Luciana Pinato e Regina demonstraram que a baixa da melatonina matou neurônios em diferentes regiões do cérebro. Só foram poupados os neurônios do cerebelo, órgão associado ao controle dos movimentos, que, por razões desconhecidas, apresenta uma produção local do hormônio. Sem ele, ocorre também outro efeito no tecido cerebral. Os neurônios, células que transmitem e armazenam informação, deixam de expressar em sua superfície os receptores sobre os quais agem os anticolinesterásicos, os medicamentos contra o Alzheimer, observou o grupo de Regina em parceria com o pesquisador francês Ralf Jockers. “A restauração dos níveis de melatonina no sistema circulatório e a recuperação da função dos receptores de melatonina podem ter um valor terapêutico, especialmente por meio da administração de melatonina nos estágios avançados do Alzheimer”, escreveram no Faseb Journal. Esse efeito ainda precisa ser comprovado em humanos. n

Projeto Eixo imune-pineal: integrando a biologia do tempo em condições fisiológicas, fisiopatológicas e patológicas (nº 2013/13.691-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Regina Pekelmann Markus (IB/USP); Investimento R$ 1.833.122,85 (FAPESP – para todo o projeto)

Artigos científicos CECON, E. et al. Amiloid peptide directly impairs pineal gland melatonin synthesis and melatonin receptor signaling through the ERK pathway. Faseb Journal. 10 mar. 2015. PINATO, L. et al. Selective protection of the cerebellum against intracerebroventricular LPS is mediated by local melatonin synthesis. Brain Structure and Function. 22 dez. 2013. CECON, E. e MARKUS, R.P. Relevance of the chronobiological and non-chronobiological actions of melatonin for enhancing therapeutic efficacy in neurodegenerative disorders. Recent Patents on Endocrine, Metabolic & Immune Drug Discovery. v. 5, p. 91-9. 2011.

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NEUROCIÊNCIA y

Os relevos da memória Novas conexões entre as células cerebrais se formam durante o sono REM, a fase dos sonhos Ricardo Zorzetto

É

durante o sono, sabe-se há algum tempo, que o cérebro consolida a memória de acontecimentos recentes e importantes. É preciso estar acordado e atento para registrar uma informação nova. Mas as mudanças nos circuitos cerebrais que vão fixá-la e permitir que seja recordada tempos depois só ocorrem mais tarde, enquanto se dorme. Até aí os especialistas em sono e memória parecem estar de acordo. As opiniões divergem, porém, no que diz respeito à maneira como ocorre a consolidação da memória e em qual das fases do sono isso acontece. Um estudo recente conduzido por pesquisadores brasileiros elimina uma parte das dúvidas e questiona a ideia mais aceita até o momento de como as memórias se tornam robustas durante o sono. Em uma série de experimentos realizados com ratos, animais-modelo para o estudo do sono e da memória, pesquisa50  z  abril DE 2015

dores de São Paulo e do Rio Grande do Norte demonstraram que no sono ocorre, sim, a eliminação ou poda das conexões (sinapses) mais débeis entre as células cerebrais, como haviam proposto em 2003 dois pesquisadores italianos. Mas os brasileiros verificaram que, enquanto o animal dorme, também ocorre o reforço das sinapses. “O modelo sugerido por Giulio Tononi e Chiara Cirelli não está errado, mas é insuficiente porque dá conta de apenas parte da realidade”, afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador do novo estudo. No trabalho, publicado na revista Neurobiology of Learning and Memory, Ribeiro e seus colaboradores criaram em laboratório uma situação que simula o aprendizado e depois acompanharam o que acontecia no cérebro dos animais. Nos experimentos o biólogo Julien Calais

colocava os ratos (um por vez) em uma caixa com a qual já estavam familiarizados e os deixava explorar o ambiente à vontade. Depois acrescentava quatro objetos – feitos por ele próprio com escovas de sapato, pedaços de cano e tachas – com os quais os animais jamais haviam tido contato. Como ratos são animais curiosos e de hábitos noturnos, Calais usou uma câmera que capta infravermelho e permite filmar no escuro para se certificar de que o animal se interessava em conhecer os novos brinquedos. Ele esperava o roedor passar um tempo tateando os objetos com as vibrissas (bigodes) e depois o mantinha acordado pelos 90 minutos seguintes. Na sequência, deixava o animal dormir três horas, enquanto acompanhava o seu sono com equipamentos que registram as alterações elétricas do cérebro. Com ajuda da geneticista Elida Ojopi e do neurologista Koishi Sameshima, Calais observou


ilustraçãO  sandra javera

que durante o sono REM – a mais curta das quatro fases do sono, na qual ocorrem os sonhos – certos genes codificadores de proteínas que formam as sinapses estão ativos no hipocampo, a região cerebral que funciona como porta de entrada da memória. É um resultado que nem todos esperavam observar. Alguns anos atrás Tononi e Cirelli haviam demonstrado que, de modo geral, esses genes são progressivamente desligados à medida que os roedores adormeciam e se aprofundavam no sono. Com base nesses dados e nos de outros estudos, eles propuseram a chamada hipótese da homeostase sináptica. Segundo essa ideia, uma informação nova – uma música que jamais se havia ouvido, por exemplo – é transformada em lembrança por meio de uma sequência de eventos químicos iniciada durante a vigília que cria conexões novas entre os neurônios. Durante o sono, as conexões mais frágeis, dos acontecimentos que serão esquecidos, são desfeitas. É como se o sono podasse as informações menos importantes, como um jardineiro que desbasta a árvore das recordações. Sidarta Ribeiro, porém, não estava convencido. Para ele, os italianos haviam se baseado em experimentos que não eram suficientes para dar apoio à hipótese da homeostase sináptica. Ribeiro começou a estudar o sono durante o doutorado sob a orientação de Claudio

Vianna de Mello e Constantine Pavlides, na Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos. Em 1999 demonstrou que na fase REM havia aumento da expressão de alguns genes. Mas isso não ocorria sempre. A ativação só ocorria se o animal tivesse sido exposto a informações novas – em outras palavras, se tivesse aprendido algo – antes de dormir. entalhamento

Essa razão o levou a planejar os experimentos realizados por Calais, que demonstraram a desativação de genes ligados à formação de sinapses durante o sono de ondas lentas e a reativação de alguns deles num estágio posterior, o sono REM – também conhecido como sono paradoxal porque nele o cérebro se encontra tão ativo quanto na vigília. Esses resultados complementam os estudos feitos por Ribeiro ao longo dos últimos 15 anos e favorecem a hipótese formulada por ele em 2004, quando ainda trabalhava com Miguel Nicolelis, na Universidade Duke. De acordo com essa proposta, a fixação da memória envolve tanto a ativação de alguns genes e reforço de conexões quanto a desativação de outros e eliminação de sinapses durante o sono. Ribeiro compara esse processo, que começa no hipocampo e depois atinge o córtex, ao entalhar de uma imagem em uma peça de madeira. “A informação nova, que fica

registrada, é como a parte em alto-relevo de uma figura”, diz. Débora Hipólide, bióloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que estuda os efeitos da privação de sono sobre a memória e a aprendizagem, conta que esses dados agregam informações importantes à explicação de como se dá a fixação da memória do ponto de vista molecular. Mas ainda não permitem saber qual das duas hipóteses descreve melhor o fenômeno. “É necessário investigar tanto parâmetros eletrofisiológicos quanto moleculares para se ter uma gama de informações que vão se fortalecer para corroborar ou não a hipótese”, diz. Segundo Débora, uma das contribuições do novo estudo é reforçar a ideia de que o sono REM é crucial para a consolidação da memória. “Os genes que estavam ativos durante a vigília são ativados de novo no sono REM. É como se nessa fase o cérebro revisitasse a informação”, conta. n

Projeto Expressão gênica durante o sono após a exposição a um ambiente enriquecido (n. 2006/05436-8); Modalidade Bolsa de mestrado (Julien Braga Calais Correia Pinto); Pesquisador responsável Elida Paula Benquique Ojopi (FM-USP); Investimento R$ 32.864,04 (FAPESP).

Artigo científico CALAIS, J. B. et al. Experience-dependent upregulation of multiple plasticity factors in the hippocampus during early REM sleep. Neurobiology of Learning and Memory. 2015.

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Evolução y

Teoria em construção Modelo explica como seleção natural atua para criar conjuntos de características que variam em uníssono Maria Guimarães

Q

uando uma notícia de jornal traz a ilustração de um dinossauro recém-descoberto, talvez caçando em meio a uma floresta pré-histórica, é difícil acreditar que o ponto de partida para reconstruir o animal tenha sido um único dente. Mas é o que muitas vezes acontece. Isso é possível, em parte, porque as proporções entre as diferentes partes do corpo se mantêm bastante fixas nos mais diferentes organismos como resultado de uma ação em concerto de certas características. “A evolução brinca com tijolos e vai remodelando a construção dos seres, como se fosse um Lego da vida”, compara o biólogo Gabriel Marroig, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Seu grupo, do Laboratório de Evolução de Mamíferos, está esmiuçando como esse jogo acontece por meio de estudos sobre como esses blocos podem ser transmitidos de uma geração para outra em diferentes espécies de animais. Mas o avanço mais recente, que de certo modo serve de fundamento para os demais projetos, não se concentrou em espécies reais: foi obtido a partir de simulações teóricas em computador. Os resultados

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do mestrado do biólogo Diogo Melo mostram que, para que surjam esses tijolos evolutivos que agrupam feições, é necessário um empurrãozinho da seleção natural – que os evolucionistas chamam de seleção direcional, segundo mostra artigo publicado em janeiro na revista PNAS. Marroig dá como exemplo a relação estável de tamanho e forma que existe entre a mandíbula e a maxila, respectivamente os ossos que servem de suporte para os dentes inferiores e superiores da maioria dos mamíferos. Esses ossos precisam ser proporcionais para permitir que o animal obtenha e mastigue os alimentos de modo eficiente. Como a função – no caso, comer – é essencial para a sobrevivência do organismo, variações no tamanho de uma parte necessariamente provocam mudanças na outra. Mandíbula e maxila formam, então, um bloco de construção. “A não ser que de repente começasse a chover papinha de bebê”, imagina o pesquisador. “Nesse caso poderia ser melhor o animal ter a mandíbula maior do que a maxila para, sem esforço, recolher o alimento que cai do céu.” Retomando a analogia do Lego, a evolução precisaria criar novos blocos, em vez de remanejar os que existem.


Apesar de fantasioso, o exemplo se assemelha à realidade. Assim como a forma das peças de Lego mudam pouco, a estrutura do crânio de mamíferos é extremamente estável. O trabalho da dupla mostra que, quando há uma pressão seletiva forte – como a mudança no tipo de alimento disponível e na forma de obtê-lo –, o módulo se rompe e um novo se estabelece em poucas gerações. A tal modularidade existe porque a relação entre os genes e as características raramente é simples como se aprende na escola. Em geral, há uma relação direta entre um gene e uma característica. Mas pode haver variações em qualquer direção conectando grupos de genes e blocos de características – seriam os módulos. complexidade

Com as simulações rodando por semanas a cada vez, Melo conseguiu o que ainda não tinha sido feito na busca por entender como surgem esses blocos: criar um cenário em que ao longo de 10 mil gerações uma população é submetida a tipos distintos de seleção natural ou isenta de pressão seletiva. Mais importante: essa evolução teórica age sobre mais de mil genes que determinam uma dezena de características. “Até agora só existiam trabalhos com duas características”, conta Melo. Eles

resolveram investir num cenário multidimensional, mais próximo da realidade, apesar de exigir um esforço computacional incrivelmente maior. Isso foi possível porque um quarto do financiamento para o projeto de Marroig foi destinado à aquisição de um potente servidor para uso compartilhado com outros pesquisadores. Ao testar tipos diferentes de seleção natural, além da situação em que genes aparecem ou se perdem ao acaso (processo conhecido como deriva genética) na população, as simulações mostraram que só é possível reproduzir o que se vê na natureza por meio de uma combinação de dois tipos de seleção natural: a direcional, seguida da seleção estabilizadora. A primeira favorece a sobrevivência de organismos que apresentam uma característica vantajosa num ambiente em alteração – por exemplo, a boca com queixo projetado para a frente quando a comida passa a cair do céu. Só assim surgiram, nas populações fictícias, os novos blocos de características. Depois de um período em que vigorou a seleção direcional, no entanto, a seleção estabilizadora entra em cena. Ela possibilita que os organismos que preservam uma determinada característica ao longo das gerações se saiam melhor. O que era novidade se torna regra.

Apesar de ser um experimento conduzido em populações simuladas em um programa de computador, suas conclusões reproduzem os resultados empíricos que Marroig obteve em trabalhos anteriores, como o que explica a evolução do tamanho dos macacos encontrados nas Américas (ver Pesquisa FAPESP nº 141), assim como nos projetos atuais do laboratório. O trabalho de Melo reforça a importância de uma ideia que costuma receber pouca atenção na biologia evolutiva: a epistasia, ou a influência que alguns genes exercem sobre outros. “A epistasia é o patinho feio da genética e da evolução, mas agora começa a assumir importância central”, afirma Marroig. Esse conceito vem sendo discutido apenas nos últimos 20 anos, tempo insuficiente para ganhar espaço nos livros didáticos da área. Mas, para Marroig, explica a maior parte da variação genética encontrada hoje na natureza. Faz sentido: um conjunto de mil genes é limitado se cada um deles afeta uma característica. Mas se o efeito se der por meio de combinações entre as peças desse repertório genético, as possibilidades se tornam muito mais numerosas. É por isso que a evolução consegue reagir em poucas gerações a mudanças no ambiente, quebrando os blocos de construção e fazendo novos, mais adequados. “As coisas não são tão lineares quanto os biólogos estão acostumados a imaginar”, conclui o pesquisador. n

ilustrações marcelo cipis

Projeto Modularidade e suas consequências evolutivas; Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Gabriel Marroig (USP); Investimento R$ 1.006.189,94 (FAPESP).

Artigo científico MELO, D. e MARROIG, G. Directional selection can drive the evolution of modularity in complex traits. PNAS. v. 112, n. 2, p. 470-75. 13 jan. 2015.

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BIOQUÍMICA y

Na hora do aperto Em condições extremas, planta usada na produção da tequila se alimenta das bactérias que vivem em seu interior Igor Zolnerkevic

A

tequila, famosa bebida destilada mexicana, é feita da polpa de uma planta de folhas longas, duras e espinhosas, o agave-azul (Agave tequilana). Típica do deserto, essa planta cresce em solos pobres e arenosos em parte graças aos nutrientes produzidos por bactérias que vivem harmoniosamente no interior de suas células. Mas, em momentos de necessidade extrema, como longos períodos de 54  z  abril DE 2015

seca ou sol intenso, o agave-azul sacrifica essas bactérias e se alimenta delas para sobreviver. “A planta literalmente consome suas bactérias para se manter viva”, explica o bioquímico Paolo Di Mascio, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). Ele participou de uma equipe internacional que fez uma série de experimentos no IQ-USP e na Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, e demons-

trou que o agave-azul digere a bactéria Bacillus tequilensis, normalmente encontrada em suas células. Essa estratégia permite à planta absorver ao menos parte dos nutrientes de que necessita para atravessar períodos de privação. Os resultados desse trabalho, publicado em novembro de 2014 no periódico Scientific Reports, revelam ainda que, mesmo quando há abundância de nutrientes, o agave-azul se beneficia da parceria com a


Agave-azul: típico de regiões com solo pobre e arenoso e matéria-prima da tequila

no periódico PLoS One, indicaram que a luz solar, ao incidir sobre o pigmento melanina produzido pelo fungo, desencadeia reações fotoquímicas que geram moléculas de oxigênio excitado e levam à morte das células nas folhas da planta, deixando-as escurecidas. Os pesquisadores continuam a investigar a praga, conhecida como sigatoka-negra, agora para entender melhor como uma solução líquida desenvolvida por Beltrán-García e seus colaboradores conseguiu controlar a doença em plantações comerciais no México. A solução é feita de uma mistura de bactérias obtidas das próprias bananeiras e, além do efeito pesticida, serve como fertilizante. Em paralelo à pesquisa sobre a praga das bananeiras, Beltrán-García segue preocupado com o futuro do agave-azul, um dos principais produtos agrícolas do estado mexicano de Jalisco, onde ficam a cidade de Guadalajara e o vilarejo de Tequila. A forte bebida destilada não é o único derivado do agave-azul fabricado em escala industrial. Dele também se extrai, depois da cocção, um xarope mais doce que o mel e a inulina, um açúcar usado na produção de alimentos. “A produção do agave-azul está sofrendo com doenças causadas por fungos e bactérias e com o ataque de insetos”, explica Beltrán-García.

léo ramos

Fome de nitrogênio

B. tequilensis: a presença da bactéria faz o agave crescer mais rápido, chegando a triplicar sua produção de biomassa. Outras pesquisas recentes já haviam indicado que certas espécies de bactérias colaboram para o crescimento de plantas e o controle de pragas agrícolas. “Buscamos microrganismos que substituam ou reduzam o uso de fertilizantes e pesticidas”, diz Miguel Beltrán-García, pesquisador da Universidade Autônoma

de Guadalajara, no México, que liderou os estudos com o agave. Beltrán-García conduziu esses experimentos em 2013, quando passou um ano no IQ-USP a convite de Di Mascio, seu colaborador há mais de uma década. Em conjunto com outra equipe internacional, eles identificaram uma via bioquímica pela qual o fungo Mycosphaerella fijiensis danifica as bananeiras. Os experimentos, descritos ano passado

Na tentativa de aumentar a produtividade, os agricultores aplicam quantidades excessivas de fertilizantes – um fenômeno mundial na agricultura –, o que também traz consequências indesejáveis. Os fertilizantes contêm sais de nitrato e de cloreto de amônio, fonte de um dos nutrientes mais essenciais às plantas, o nitrogênio. Esse elemento químico entra na composição das proteínas, do DNA e da molécula de clorofila, pigmento responsável pela reação de fotossíntese que alimenta os vegetais. O problema é que pESQUISA FAPESP 230  z  55


apenas metade do nitrogênio dos fertilizantes é absorvida pelas plantas. O restante vai para o ambiente e pode prejudicar a qualidade do solo e contaminar ecossistemas distantes, quando é levado para longe pelo vento e pela água. Por causa desses efeitos, buscam-se alternativas aos fertilizantes. Uma delas são bactérias que ajudam as plantas a extrair nitrogênio. Elas transformam o nitrogênio do ar (inerte para a maioria dos seres vivos) e de outros compostos em moléculas que as plantas podem absorver, como a amônia. Outras bactérias decompõem organismos mortos e disponibilizam compostos à base de nitrogênio para as plantas. Mais recentemente se percebeu que as plantas também adquirem nitrogênio com a ajuda de outro tipo de microrganismo: as bactérias endofíticas, como o Bacillus tequilensis, que vivem no interior das células da planta em harmonia com a sua hospedeira. Ninguém sabe,

Água oxigenada produzida pelo agave pode digerir as bactérias endofíticas e decompor suas moléculas

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porém, como os nutrientes produzidos por essas bactérias – estejam elas no solo, nas raízes ou nas células vegetais – são aproveitados pelo agave. “É difícil estudar o fluxo de nutrientes dos micróbios para as plantas”, afirma James White, especialista na interação entre plantas e microrganismos da Universidade Rutgers, um dos colaboradores de Beltrán-García e Di Mascio no estudo da sigatoka-negra. “Provavelmente por isso ninguém realizou esse tipo de experimento”, conta White, que, com sua colega Monica Torres, também participou do trabalho com o agave-azul. White estuda gramíneas que abrigam bactérias endofíticas e acredita que as plantas podem digerir os microrganismos por meio da produção de água oxigenada (H2O2). Com fórmula química semelhante à da água, a água oxigenada contém um átomo de oxigênio extra, que tende a reagir com outras moléculas. O pesquisador imagina que a água oxigenada liberada pela planta destrói as bactérias endofíticas e decompõe suas moléculas grandes em moléculas menores, que podem ser aproveitadas pelas células vegetais. “Temos evidência de que isso ocorre em algumas espécies, mas acreditamos que esse processo pode acontecer em todo o reino vegetal”, diz White. “A questão em aberto é saber quanto o nitrogênio proveniente das endofíticas é importante para a planta.” A resposta provavelmente deve variar de uma espécie de planta para outra e conforme as circunstâncias em que se encontra. Em um dos experimentos, White e Monica observaram ao microscópio células da raiz do agave-azul lançarem água oxigenada sobre bactérias B. tequilensis inoculadas na planta. O teste, porém, No laboratório: folhas são maceradas (acima) e cortadas (ao lado) para passar por dois tipos de análise que avaliam a incorporação de nitrogênio 15

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56  z  abril DE 2015

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No campo: plantação de agave em Tequila, no México, e colônia da bactéria Bacillus tequilensis encontrada sobre a raiz das plantas (destaque)

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deixava uma dúvida: a liberação de água oxigenada seria uma reação de defesa da planta contra o excesso de bactérias ou uma forma de obter nutrientes?

fotos  1, 2 e 3 léo ramos  4 James White / Universidade rutgers  5 Miguel Beltrán-García / UAG

Seguindo o isótopo

Di Mascio teve então a ideia de cultivar a B. tequilensis em laboratório, alimentando as bactérias com um nitrogênio especial, que poderia ser rastreado e, mais tarde, detectado em moléculas produzidas pelas plantas. Eles deram às bactérias um tipo de nitrogênio que pesa 15 unidades de massa atômica, diferente da maioria dos átomos de nitrogênio encontrados na natureza, que têm peso 14. No IQ-USP, Fernanda Prado, Kátia Prieto e Marisa Medeiros, do Departamento de Bioquímica, e Lydia Yamaguchi e Massuo Kato, do Departamento de Química Fundamental, alimentaram plântulas de agave-azul cultivadas em condições controladas com as bactérias contendo nitrogênio 15. Em um dos experimentos, as plântulas eram retiradas da estufa uma vez por semana, lavadas e esterilizadas. Depois passavam algumas horas em um vaso contendo apenas areia estéril e uma solução de B. tequilensis, o que simulava um ambiente pobre em nitrogênio. Os pesquisadores aumentavam o estresse do ambiente ao deixar o agave sob uma luz muito intensa. Depois de seis meses, os pesquisadores coletaram as folhas que brotaram nesse período e as analisaram com o au-

xílio de espectrômetros de massa, equipamento capaz de distinguir os dois tipos de nitrogênio. Eles encontraram nitrogênio 15 tanto em aminoácidos (blocos formadores de proteínas) quanto no DNA e na feofitina, molécula derivada da clorofila. “A feofitina é típica da planta e não existe na bactéria”, explica Di Mascio. “Encontrar feofitina com nitrogênio 15 é a prova de que átomos das bactérias absorvidas pelas raízes foram parar em uma molécula criada pela planta.” Em outro experimento, os pesquisadores compararam o crescimento das plântulas que não receberam doses semanais de B. tequilensis com aquelas que receberam as bactérias, vivas ou mortas. As plântulas alimentadas com bactérias vivas cresceram duas vezes mais do que as que receberam bactérias mortas e três vezes mais do que as alimentadas com uma solução mineral contendo nitrogênio. O resultado sugere que, além de fornecer nitrogênio, as B. tequilensis que vivem no agave-azul produzem hormônios de crescimento vegetal chamados de auxinas. Estudos brasileiros feitos com cana-de-açúcar já haviam demonstrado que a inoculação de bactérias endofíticas pode acelerar consideravelmente o crescimento da planta. Em parceria com Antonio Figueira e Layanne Souza, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP, Di Mascio e Kátia Prieto planejam realizar com a cana experimentos semelhantes aos feitos com o agave-azul.

“Trabalhar com a cana é mais difícil, porque em laboratório as mudas crescem com adição de muito açúcar”, explica Di Mascio. “O açúcar aumenta o risco de contaminação por outras bactérias e fungos, o que pode arruinar o experimento.” Chanyarat Paungfoo-Lonhienne, pesquisadora da Universidade de Queensland, na Austrália, afirma que o resultado obtido com o agave “encoraja a investigar se esse também é um modo de nutrição para outras plantas”. Em 2010, ela liderou o primeiro estudo a mostrar que plantas – nesse caso, o tomate e a Arabidopsis thaliana, uma planta-modelo usada em pesquisas – são capazes de digerir bactérias e fungos invasores. Para Chanyarat, entender como funciona a interação dessas bactérias com as plantas e associar essa combinação a outras técnicas orgânicas pode levar a resultados interessantes: “Pode reduzir o uso de fertilizantes, se não substituí-lo totalmente”. n

Projetos 1. Oxigênio singlete e peróxidos em química biológica (nº 2012/12663-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Paolo Di Mascio (IQ-USP); Investimento R$ 3.408.783,02 (FAPESP). 2. Redoxoma (2013/07937-8); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Ohara Augusto; Investimento R$ 22.604.697,96 (FAPESP – para todo o projeto).

Artigo científico BELTRÁN-GARCÍA, M. J. et al. Nitrogen acquisition in Agave tequilana from degradation of endophytic bacteria. Scientific Reports. v. 4, n. 6.938. 6 nov. 2014.

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ASTRONOMIA y

A visão da periferia Levantamentos identificam galáxias anãs e berçários de estrelas em regiões extremas da Via Láctea Pablo Nogueira

O

retrato já bem sedimentado da Via Láctea, a galáxia que abriga o sistema solar, mostra um disco onde braços coalhados de estrelas, poeira e gás se espalham espiralados a partir de um núcleo central alongado como uma barra. Com o surgimento de meios de observação mais precisos e potentes, essa imagem está se tornando mais nítida e complexa, como mostram três trabalhos divulgados em fevereiro e março deste ano que analisaram regiões remotas da Via Láctea. Em um deles, um grupo do Departamento de Astronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) identificou dois aglomerados estelares incrustados em uma nuvem de gás situada cerca de 16 mil anos-luz abaixo do plano da galáxia. Os aglomerados foram batizados como Camargo 438 e Camargo 439, em referência a Denilso Camargo, um dos membros da equipe, formada ainda por Charles Bonatto, Eduardo Bica e Gustavo Salerno. Em trabalhos anteriores, eles haviam identificado outros

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437 aglomerados. Todos, porém, mais próximos do plano da galáxia. Um dos novos aglomerados abriga 33 estrelas e o outro, 42. Ambos são muito jovens para os parâmetros astronômicos: têm 2 milhões de anos (o Sol tem 5 bilhões e a Via Láctea, cerca de 13 bilhões). Isso mostra que a nuvem de gás onde estão inseridos é um berçário, no qual continuam surgindo novas estrelas. “É a primeira vez que se detecta a formação de estrelas a uma distância tão grande do disco da galáxia”, conta Camargo. Os aglomerados foram identificados a partir de imagens do telescópio espacial Wise, da Nasa, lançado em 2009 para fazer observações em infravermelho. “Não é fácil detectar estrelas em nuvens de poeira porque a radiação ultravioleta emitida pelas estrelas de massa elevada é absorvida pela poeira, que a reemite no infravermelho”, diz Camargo. “Esses detectores estão fazendo contribuições importantes para a astronomia.” A maioria das estrelas nasce em aglomerados estelares, dentro das nuvens

moleculares gigantes que povoam o disco da galáxia, em especial os braços. Essas nuvens geralmente estão em equilíbrio. Mas perturbações – como colisões com outras nuvens, ondas de choque da explosão de supernovas e encontros com os braços espirais – podem desestabilizá-las e provocar seu colapso sob a influência de sua própria gravidade. Durante o colapso a nuvem se fragmenta e gera regiões mais densas, com massa elevada, nas quais se formam estrelas e planetas. A Via Láctea abriga duas populações estelares. A primeira contém a maioria das estrelas da galáxia, concentradas no


Pequena Nuvem de Magalhães

foto  yuri belestky / eso

Grande Nuvem de Magalhães

plano do disco, numa faixa que mede cerca de 100 mil anos-luz de extensão por 3 mil anos-luz de espessura. Ali as estrelas se formam continuamente. A segunda população estelar povoa o halo – uma região mais externa, que envolve o disco. No halo, as estrelas se encontram em aglomerados globulares. Essa população é formada por estrelas velhas, com idade da ordem de bilhões de anos, e de baixa metalicidade, características que sugerem que tenham se formado quando a galáxia era jovem – há indícios de que a Via Láctea abriga estrelas quase tão antigas quanto o próprio Universo.

Os pesquisadores da UFRGS identificaram os novos aglomerados estelares se formando numa região onde não se esperava que houvesse formação estelar. Essa descoberta traz um paradoxo: como podem surgir novas estrelas na região que abriga as mais antigas da galáxia? “Uma possibilidade é que esteja ocorrendo o que chamamos de canibalismo”, explica Walter Maciel, da Universidade de São Paulo (USP), que investiga a composição química das estruturas da Via Láctea e não participou desse estudo. O tal canibalismo é a absorção de estrelas e nuvens de gás que pertencem a

La Silla, no Chile: a Via Láctea (faixa luminosa à esquerda) e duas galáxias vizinhas, a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães

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outras galáxias e estão sendo puxadas para a Via Láctea pela atração gravitacional. Segundo Maciel, essa hipótese começou a ser aventada no início deste século para explicar a observação de que estrelas da Via Láctea se deslocavam a velocidades para as quais não parecia haver explicação. “Hoje existe pelo menos meia dúzia de casos bem documentados nos quais se acredita que a Via Láctea canibalizou outras galáxias”, diz. Há outra hipótese. No passado, estrelas do plano da galáxia podem ter seguido o processo de evolução estelar e alcançado o estágio de supernova. Quando isso acontece, segue-se uma violenta explosão que dispersa gás e poeira a distâncias imensas. Parte do material ejetado é atraída pelo empuxo gravitacional e se reaproxima da Via Láctea. Esse mecanismo recebe o nome de chaminé ou fonte galáctica. “Essa seria uma possibilidade mais frequente, enquanto os casos de canibalismo são raros”, diz Maciel. Ele destaca, porém, uma particularidade nos resultados do grupo de Camargo. “Os casos de canibalismo já observados envolvem galáxias anãs. Ele [Camargo] encontrou aglomerados estelares, que são estruturas muito menores.” É possível, então, que a nuvem onde estão os dois aglomerados esteja associada a alguma galáxia ainda desconhecida. Camargo concorda que as duas hipóteses podem explicar a origem dos aglomerados e que não é possível, no momento, indicar qual é a correta. Mas ressalta que, mesmo que a poeira tenha vindo de fora, as estrelas, por serem tão jovens, só podem ter se formado na Via Láctea. “É possível que haja mais galáxias anãs orbitando a Via Láctea do que as que conhecemos”, afirma. “Acho que nossa galáxia se formou engolindo outras menores, que estavam em sua periferia, e que esse processo ainda não acabou.” De olho no escuro

Outra descoberta na periferia da galáxia trouxe os resultados do primeiro ano do Dark Energy Survey (DES), projeto que reúne cerca de 120 pesquisadores de cinco países. Eles anunciaram em março a identificação de oito novos sistemas estelares a pelo menos 100 mil anos-luz do Sol, orbitando a Via Láctea como satélites. Em operação desde 2013, o DES deve mapear um oitavo do céu com grande detalhe, a fim de lançar novas luzes sobre 60  z  abril DE 2015

Modelos cosmológicos atuais sugerem que a Via Láctea deveria ter milhares de sistemas estelares ao seu redor

a energia escura. O braço brasileiro do projeto, o DES-Brazil, colaborou para a descoberta, e o astrônomo brasileiro Basílio Santiago, também da UFRGS, coordena o grupo de trabalho internacional que lida com a Via Láctea (DES-MW). A detecção no espectro da luz visível de objetos situados a distâncias tamanhas foi possível graças à câmera usada no projeto. A DECam, instalada no Observatório Inter-americano de Cerro Tololo, no Chile, tem resolução equivalente a 570 milhões de pixels, quase 10 vezes maior do que a das câmeras fotográficas mais potentes do mercado. Ela é capaz de capturar quantidades ínfimas de luz, permitindo a observação de estrelas muito distantes. “É o instrumento mais eficiente para a produção de imagens de

alta sensibilidade em funcionamento no mundo”, diz Santiago. A DECam começou a operar em 2013 e no ano passado divulgou para a comunidade científica o primeiro catálogo dos objetos celestes emissores de luz identificados pelo DES. Ainda não está claro se os oito sistemas satélites novos são aglomerados estelares ou galáxias anãs. O mais provável é que a maioria, ou mesmo todos, integrem a segunda opção. Se isso acontecer, o número de galáxias anãs que orbitam a Via Láctea pode passar de 27 para 35. Os pesquisadores apostam que o estudo das galáxias anãs pode ajudar a conhecer a natureza da matéria escura, um dos mistérios da astronomia contemporânea. Além do tamanho, uma importante diferença entre aglomerados de estrelas e


imagens eso

Vizinha próxima: à esquerda, a galáxia anã Reticulum II, satélite da Via Láctea identificada pelo DES; ao lado, as estrelas que integram a Reticulum II

galáxias anãs é o fato de que as últimas são ricas em matéria escura. “São galáxias de baixa densidade. Se toda a matéria que possuem se limitasse à das estrelas, já deveriam ter se desmanchado há muito tempo, por conta das forças de maré que a nossa galáxia exerce sobre elas. Isso mostra que há mais matéria ali, mas não na forma de estrelas”, diz Santiago. A lista de questões em aberto é maior. Os modelos cosmológicos atuais sugerem que a Via Láctea deveria ter milhares de galáxias anãs ao seu redor, e não apenas as três dúzias já identificadas – isso se as recém-descobertas integrarem essa classificação. “Essa aparente discrepância precisa ser resolvida. Há quem ache que há centenas delas por serem encontradas e que apenas tocamos a ponta do iceberg”, diz Santiago. Os dados a serem coletados pelo DES nos próximos anos podem ajudar a confirmar ou refutar essas expectativas. Serão centenas de terabytes de informações a serem armazenadas apenas nos catálogos de fontes extraídos das imagens. Para analisar tal quantidade de

dados, o DES-Brazil desenvolveu um portal científico com apoio do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LineA). O LineA tem como missão ajudar grupos brasileiros a participarem de levantamentos como o DES e de experimentos mais ambiciosos, como o Large Synoptic Survey Telescope (LSST), que captará imagens de mais da metade do céu austral em maior profundidade. “É fundamental que brasileiros continuem a participar de levantamentos internacionais como o LSST”, afirma Santiago. Outra pesquisa que mirou na discrepância entre o número de galáxias anãs previsto e detectado nos arredores da Via Láctea identificou quatro estrelas do tipo variável cefeida a 180 mil anos-luz do centro da galáxia. O trabalho, do qual participou Roberto Saito, da Universidade Federal de Sergipe, foi feito com dados do Vista, o maior telescópio em infravermelho do mundo, que funciona no Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile. O estudo, aceito para publicação no Astrophysical Journal, buscou objetos

a altitudes baixas em relação ao plano da galáxia. É uma abordagem difícil, já que a poeira e o gás do disco dificultam as observações. As cefeidas estavam a 4 mil anos-luz de altura em relação ao plano da galáxia. “Também nesse caso foi o infravermelho que permitiu enxergar os objetos”, diz Maciel. Foi o estudo dessas estrelas que permitiu descobrir que havia outras galáxias no Universo e que ele está em expansão. Periodicamente, essas estrelas aumentam e diminuem de volume. Essa pulsação é acompanhada por uma oscilação no brilho percebido na Terra. Estabelecida a relação entre o período da estrela e as variações no brilho, é possível saber a que distância está da Terra. Para Saito e os demais autores, a grande distância sugere que as cefeidas encontradas agora pertençam a alguma galáxia anã, de dimensões ignoradas. “É uma hipótese boa, mas não há por ali nenhuma galáxia conhecida. É preciso fazer outros estudos para que ela possa ser comprovada”, avalia Maciel. Uma decisão estratégica para que os brasileiros continuem a estudar a periferia da Via Láctea é a adesão do país ao ESO, hoje ameaçada por falta de verbas. “Projetos importantes propostos por brasileiros não são contemplados com tempo de observação nos telescópios, por isso essa adesão é fundamental para o crescimento da astronomia no país”, afirma Camargo. “Está aí uma oportunidade para o Brasil deixar a periferia e se instalar no centro da produção de conhecimento científico de ponta.” n

Artigos científicos CHAKRABARTI, S. et al. Clustered cepheid variables 90 kiloparsec from the galactic center. Astrophysical Journal. No prelo. CAMARGO, D. et al. Discovery of two embedded clusters with Wise in the high galactic latitude cloud HRK 81.4−77.8. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. v. 448, p. 1930-6. 2015. The DES Colaboration. Eight new milky way companions discovered in first-year Dark Energy Survey data. http:// arxiv.org/abs/1503.02584.

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Geologia y

Rumo ao noroeste Medições com GPS indicam que parte da crosta do Nordeste se desloca alguns milímetros por ano nessa direção Marcos Pivetta 1

62  z  abril DE 2015

víncia geológica, que concentra a maior parte das atividades tectônicas do país, é um fenômeno esperado. Seu ritmo de locomoção é relativamente modesto, cerca de 12 vezes menor do que o verificado na famosa falha geológica de San Andreas, perto do litoral da Califórnia, a região com maior risco de grandes terremotos nos Estados Unidos, e nove vezes menor do que a verificada em setores dos Andes, outra zona de fortes tremores de terra. “Sabíamos que a Província Borborema se mexia e agora conseguimos quantificar a velocidade máxima desse tipo de ocorrência”, diz o geólogo Francisco Hilário Bezerra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que também assina o artigo científico. A medida foi obtida a partir de dados fornecidos por um conjunto de estações receptoras de sinais de Sistema de Posicionamento Global, o popular GPS, instaladas em 12 pontos distintos da província (ver mapa ao lado). Nove estações fazem parte da Rede Brasileira de Monitoramento Contínuo dos Sistemas GNSS (RBMC), mantida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e três pertencem à Rede GPS Potiguar, iniciativa do De-

partamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Com baixíssima margem de erro, da ordem de 1 milímetro, cada receptor GPS registra de forma quase ininterrupta sua localização em um plano horizontal em conjunto com um eixo vertical. Em outras palavras, mede se a crosta, sobre a qual está fixado o equipamento de GPS, moveu-se para cima, para baixo ou para os lados ao longo do tempo. Um ponto do globo totalmente imóvel – que não afunda, não se soergue e não se desloca horizontalmente – apresenta sempre as mesmas coordenadas em um determinado intervalo temporal. interior da placa tectônica

No caso do trabalho com a Província Borborema, as informações sobre a localização das estações foram registradas por no mínimo dois anos consecutivos. Como a série temporal analisada é pequena, não é possível dizer se a velocidade máxima de deslocamento encontrada no estudo indica uma tendência contínua de movimentação de setores da província ou reflete um fenômeno efêmero. “O ideal é que tenhamos informações de ao menos três anos seguidos”,

fotos 1 Lucas Lacaz Ruiz / Folhapress 2 Francisco bezerra

F

ragmentos que compõem um terço da crosta terrestre do Nordeste estão deslizando lentamente nas direções norte e oeste, a uma velocidade máxima de 5,6 milímetros ao ano, de acordo com artigo científico publicado por pesquisadores brasileiros em março no Journal of South American Earth Sciences. A movimentação de setores da Província Borborema – nome dado pelos geólogos ao bloco rochoso que abrange cerca de 540 mil quilômetros quadrados e engloba grande parte dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe – provoca sutis estiramentos e contrações em diferentes pontos da superfície e eleva o risco de ocorrência de tremores locais. “A província sofre pressão por todos os lados”, diz o geofísico Giuliano Sant’Anna Marotta, do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), principal autor do estudo. “É uma situação semelhante à que ocorre quando apertamos uma borracha.” Alguns pontos encolhem enquanto outros se esticam, certas partes afundam ao passo que outras se erguem. Não há, no entanto, motivo para alarme. O deslocamento de pedaços da pro-


Fortaleza

u

pe

do

na

Se

om rP

Natal

João Pessoa Recife

Maceió

Província Borborema

Rede GPS potiguar Estações da RBMC n Bacias sedimentares Zonas de cisalhamento

mapa ana paula campos ilustração daniel das neves fonte marotta et al.

Estação de recepção GPS (à esq.) em João Câmara (RN) e paisagem da região de Senador Pompeu (CE): Província Borborema tem zonas de cisalhamento sujeitas a instabilidades

2

afirma João Francisco Galera Mônico, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente, especialista em estudos geodésicos com GPS, outro pesquisador que participou do estudo. Não há grandes terremotos no Brasil porque o território nacional, inclusive o Nordeste, se situa na parte interna da placa tectônica sul-americana, um dos enormes blocos de rocha que formam a superfície terrestre. Os tremores de maior magnitude ocorrem em áreas localizadas nos arredores das bordas das placas, onde há grandes falhas geológicas, rachaduras na crosta que marcam a zona de contato entre

o fim de uma placa e o começo de outra, como ocorre nos Andes, perto do Chile e Peru (limite entre a placa sul-americana e a de Nazca), e no litoral da Califórnia (fronteira entre a placa norte-americana e a do Pacífico). Devido aos movimentos da crosta, a borda de uma placa colide com os confins do bloco de rocha contiguo. A Província Borborema dista milhares de quilômetros da zona de contato mais próxima entre duas placas tectônicas, a cordilheira submersa denominada dorsal mesoatlântica, que estabelece o limite entre a placa sul-americana e a placa africana. Ainda assim, esse pedaço do

Nordeste sente os efeitos do distanciamento paulatino da placa sul-americana, que se move na direção oeste, em relação ao bloco rochoso que engloba a África. “A Província Borborema tem muitas zonas de cisalhamento”, explica Marotta. Esse tipo de estrutura geológica corresponde a antigas zonas de fraqueza, sujeitas a instabilidades. Movimentos da crosta podem provocar tremores em lugares assim. A região vizinha à zona de cisalhamento Senador Pompeu, falha que corta o interior do Ceará e chega à bacia Potiguar, foi a que apresentou as maiores variações de deslocamento na direção noroeste, segundo os dados da rede de GPS. Setores da bacia Potiguar, a meio caminho entre Natal e Fortaleza, deslocaram-se 4 mm por ano na direção oeste e 4,1 mm na direção norte dentro da placa sul-americana. A bacia apresenta temores de terra de média intensidade, com magnitudes de até 5,2 graus. n

Artigo científico MAROTTA G. S. et al. Strain rates estimated by geodetic observations in the Borborema Province, Brazil. Journal of South American Earth Sciences. v. 58, p. 1–8. mar. 2015.

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tecnologia  CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO y

Colaboração do céu

Nascida no Brasil, a plataforma Google Earth Engine é utilizada na elaboração de mapas sobre vários temas a partir de imagens de satélite Yuri Vasconcelos

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fotos  Lucas Cavalcante / USP

E

m novembro de 2013, o cientista Matthew Hansen, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, publicou na revista Science o primeiro mapa digital em alta resolução da cobertura florestal de todo o planeta e as transformações sofridas por ela entre 2000 e 2012. No fim do ano passado, foi a vez de pesquisadores do Joint Center Research da União Europeia revelarem um mapeamento completo das fontes de água da Terra, feito a partir de imagens de satélite em um nível de detalhamento nunca visto. E, a partir de 2012, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma organização ambiental com atuação na região Norte do país, passou a divulgar alertas mensais de desmatamento e degradação da Floresta Amazônica. As três iniciativas usam uma plataforma tecnológica desenvolvida pelo gigante norte-americano Google, chamada

Earth Engine, cujo projeto nasceu no Brasil e teve participação decisiva de pesquisadores nacionais. “O Google Earth Engine é uma plataforma tecnológica para análise de dados ambientais em escala planetária. Ela disponibiliza imagens de satélite produzidas nos últimos 40 anos, atualizadas diariamente, e fornece as ferramentas necessárias e um massivo poder computacional para cientistas e outros interessados detectarem mudanças e tendências na superfície terrestre, nos oceanos e na atmosfera”, explica a cientista da computação Rebecca Moore, líder da equipe Earth Engine, na sede do Google em Mountain View, nos Estados Unidos. “A plataforma é uma ferramenta que democratiza o acesso a dados de satélite, transformando pixels em conhecimento. É justo dizer que o Earth Engine foi concebido no Brasil e guiado por cientistas brasileiros, notadamente os pesquisadores Carlos Souza Júnior,

Região agrícola da cidade de Bakersfield, na Califórnia, nos Estados Unidos: máscara vermelha mostra plantações de algodão

pESQUISA FAPESP 230  z  65


do Imazon, e Gilberto Câmara, do Inpe [Instituto de organizações sem fins lucrativos para que possam dar visibilidade às suas causas. “Num interNacional de Pesquisas Espaciais].” Versão mais sofisticada, avançada e robusta valo de uma apresentação sobre como os índios do que o Google Earth – o popular programa suruís usavam tecnologias Google para proteger computacional que permite a visualização de suas terras (ver quadro na página 68), Carlos Soumodelos tridimensionais do globo terrestre –, o za Júnior se aproximou e disse que, apesar de o Earth Engine também possibilita a elaboração Earth e o Maps serem fantásticos, ele sentia uma de detalhados mapas do planeta, agregando ima- carência por novas tecnologias de mapeamento gens de satélites, mas vai além. Uma vantagem que suportassem um monitoramento ambiental da plataforma é permitir aos pesquisadores fa- em larga escala – um sistema que fosse capaz de zer cálculos e processamento de dados na pró- mapear, medir e monitorar o desmatamento da pria nuvem de computadores do Google, o que Amazônia, por exemplo”, recorda-se Rebecca. O facilita a extração de informações das imagens. Imazon tinha habilidade técnica e científica para Para se ter uma ideia da facilidade oferecida por fazer isso, mas estava limitado pela enorme quanesse sistema, Hansen, da Universidade de Mary- tidade de imagens de satélite e recursos compuland, dispôs de 10 mil computadores do Google tacionais exigidos – levava semanas para rodar a trabalhando em paralelo, totalizando 1 milhão de análise de desmatamento da organização em um único computador. “Foi, então, que horas de processamento. percebemos que este era um desafio Esse exército computacioem ‘escala Google’.” nal analisou 700 mil imaO Google gens do satélite Landsat, o Engine equivalente a 20 trilhões partir daí intensificaram-se de pixels, para produzir o os contatos do pesquisador reduziu o mapa global das florestas brasileiro e sua equipe com do mundo com uma resoo Google e várias reuniões foram tempo para lução de apenas 30 merealizadas no Brasil e na Califórnia, tros. “Uma tarefa que tenos Estados Unidos, onde fica a segerenciamento ria levado mais de 15 anos de da companhia. Em 2009, a emde dados e para ser concluída em um presa norte-americana e o Imazon único computador foi fimostraram durante a Convenção do imagens nalizada em poucos dias Clima em Copenhague, a COP-15, com o Google Earth Engium protótipo do Google Earth Ende satélite ne”, ressalta Rebecca. gine. No mesmo ano, o pesquisador Gilberto Câmara, que na época era Hoje, mais de 3 mil cienresponsável por vários produtos do tistas e instituições ao redor do mundo empregam a plataforma em suas Inpe relacionados ao monitoramento da Floresta pesquisas. “Com o Earth Engine, pretendemos en- Amazônica, foi convidado a participar da criação frentar desafios globais em áreas como segurança da plataforma. “Câmara nos orientou sobre uma alimentar, disponibilidade de água, saúde pública, série de características e configurações de dados mudanças climáticas e gestão de recursos natu- que o Earth Engine deveria ter, como, por exemrais escassos”, diz Rebecca. A ideia de criar uma plo, a capacidade de realizar análises temporais. ferramenta com esse potencial surgiu em 2008, E recomendou que apoiássemos os pesquisadoquando a pesquisadora do Google esteve em Bra- res a fazerem análises de mudanças na cobertura sília para lançar o Google Earth Solidário, projeto terrestre ao longo do tempo”, diz Rebecca, que que coloca os sistemas Earth e Maps à disposição estará em João Pessoa, na Paraíba, no fim deste

A

fotos  google engine

Análise temporal do desmatamento na Amazônia: ocupação humana entre 1984 e 2012 ao longo da rodovia BR-364 em Rondônia

66  z  abril DE 2015


Primeiro mapa digital das florestas existentes no planeta feito com imagens de satélite

mês de abril para participar do XVII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Ela irá falar sobre as tecnologias de mapeamento Google na sessão especial “Big Data em observação da Terra: infraestruturas e análises espaço-temporais”.

O

primeiro projeto operacional a usar o Google Earth Engine foi um sistema de monitoramento florestal criado pelo Imazon. Em 2012, quatro anos após o contato inicial com o Google, a organização lançou no Rio de Janeiro, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, seu novo Sistema de Alerta de Desmatamento alimentado pelo Earth Engine (SAD-EE). “O Google tornou as coisas mais simples. A integração de nosso Sistema de Alerta de Desmatamento, lançado em 2008, com o Google Earth Engine reduziu drasticamente o tempo despendido por nossa equipe para fazer o gerenciamento de dados e imagens de satélite. O SAD-EE representou uma revolução na forma de monitorarmos nossas florestas. Com ele, conseguimos produzir alertas de desmatamento por meio de boletins de forma rápida, permitindo um combate mais eficaz contra o desmatamento ilegal”, diz Souza Júnior, que é geólogo e pesquisador do Imazon, que tem sede em Belém (PA). A primeira grande vantagem oferecida pelo SAD-EE, segundo o pesquisador, é que os dados e as ferramentas de processamento de imagens de satélites, edição de mapas digitais e validação do mapeamento estão disponibilizados e rodam

nos computadores do Google. Com isso, o tempo necessário para pré-processamento, análise, divulgação dos dados e geração dos alertas reduz-se consideravelmente. A segunda vantagem é a possibilidade de integração com sistemas de comunicação móvel, com smartphones e tablets, e com a rede de computadores da internet. “Isso facilita o acesso aos alertas de desmatamento e de degradação florestal por parte dos usuários”, ressalta Souza Júnior. Ele destaca, ainda, o enorme potencial colaborativo do SAD-EE, que permite a qualquer pessoa fornecer dados e informações coletados em campo e em tempo real. Além do Imazon, pelo menos uma dúzia de pesquisadores e instituições brasileiras usam o Earth Engine. Uma delas é o Instituto Centro da Vida (ICV), organização não governamental ambientalista sediada em Cuiabá (MT), cujo foco são projetos que conciliem a produção agropecuária e florestal com a conservação e a recuperação do ambiente. “Um diferencial dessas tecnologias é agilidade no acesso e no processamento de dados de sensoriamento remoto”, conta o engenheiro florestal Ricardo Abad, coordenador do Núcleo de Geotecnologias do ICV. O instituto possui diversas atividades em campo, como experimentos de restauro de áreas de preservação permanentes (APPs) e nascentes, além de trabalhos com intensificação de pecuária. Dados desses experimentos são adquiridos, armazenados e compartilhados por meio de ferramentas que têm como base as tecnologias Google Geo. pESQUISA FAPESP 230  z  67


“Depois de coletarmos em campo imagens de alta resolução – seja com balões, pipas ou vants [veículos aéreos não tripulados] –, nós as arquivamos no Maps Engine, uma plataforma voltada ao armazenamento e compartilhamento de dados geoespaciais. Paralelamente, usamos smartphones com sistema Android que acessam formulários eletrônicos para realizar a coleta de informações em campo usando o Open Data Kit. Esses dados, por sua vez, são armazenados na nuvem Google, permitindo que sejam acessados de qualquer lugar do planeta onde exista internet”, diz Abad. Open Data Kit, ou simplesmente ODK, é um aplicativo que permite a coleta de dados e o envio deles a um servidor on-line com dispositivos móveis Android. Técnicos e pesquisadores do ICV também empregam as ferramentas Google para verificação de imagens dos alertas de desmatamento emitidos pelo Imazon e Inpe. “A facilidade de acessar

imagens muito recentes possibilita grande agilidade na geração de relatórios que podem subsidiar ações de fiscalização. Usamos a plataforma Google Earth Engine para gerar classificações multitemporais de uso e cobertura do solo e, assim, constatar o avanço de culturas, pastagens e reservatórios de usinas hidrelétricas, entre outros, que acabam provocando desmatamento”, diz Abad. “Recentemente, utilizamos essas imagens para verificar o enchimento de um reservatório de uma recém-construída hidrelétrica no rio Teles Pires, que faz a divisa dos estados do Pará e Mato Grosso, constatando o alagamento de extensas áreas de florestas.” O Earth Engine está também sendo empregado pelo pesquisador Lucas Schmidt Cavalcante, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), para identificar e monitorar culturas agrícolas por

Suruís vigiam o próprio território Além de ser relevante para cientistas em

Cacique Almir Suruí conheceu o Google Earth e percebeu o potencial para preservar as terras de seu povo (acima)

68  z  abril DE 2015

Os suruís, que só tiveram o primeiro

universidades e instituições de pesquisa

contato com o homem branco em

do Brasil, as tecnologias Google Geo

1969, também aprenderam a usar

também são um instrumento vital para

smartphones para vigiar seu território

os suruís, grupo indígena que vive nos

e registrar casos de extração ilegal de

estados de Rondônia e Mato Grosso.

madeira. Dessa forma, atuam na

A aproximação entre os indígenas

proteção da reserva florestal onde

brasileiros e a gigante da computação

vivem. Com o celular, eles capturam

teve início em 2007, quando, ao visitar

fotos e vídeos com marca de

uma lan house, o cacique Almir Suruí

localização por GPS, fazem o imediato

conheceu o Google Earth e viu seu

upload no Google Earth e alertam as

potencial para preservar o patrimônio

autoridades para o desmatamento.

e as tradições de seu povo.

Eles também utilizam o Open Data Kit

Em seguida, Almir, agraciado como

para monitorar o estoque de carbono

“Herói da Floresta” pelas Nações Unidas

de sua floresta e negociar no mercado

em 2013, convidou a equipe do Google

de crédito de carbono. “Os suruís

Earth Solidário, comandada por Rebecca

foram o primeiro povo indígena do

Moore, para visitar sua tribo e ensiná-los

mundo a vender créditos de carbono

a usar as ferramentas de mapeamento

com certificação internacional”,

Google para proteger a floresta e a

afirma Rebecca.

cultura de seu povo. Os membros da

Em janeiro deste ano, a equipe do

tribo aprenderam a criar e postar vídeos

Google Earth Solidário participou de

no YouTube, marcar a localização de

um encontro com mais de uma dezena

conteúdos e inseri-los no Google Earth,

de líderes indígenas em Cacoal (RO),

compartilhando sua história e modo de

interessados em replicar em seus

vida. Em 2012, com apoio do Google, os

territórios a bem-sucedida experiência

indígenas lançaram o Mapa Cultural

dos suruís no manejo das tecnologias

Suruí durante o Fórum de

de mapeamento Google.

Sustentabilidade Empresarial da Rio+20,

O treinamento de índios dessas tribos

a Conferência das Nações Unidas sobre

dos estados de Rondônia, Pará e

o Desenvolvimento Sustentável

Amazonas deve ocorrer ainda este

realizada no Rio de Janeiro.

ano, segundo o Google.


de aplicativos, é um conjunto de rotinas e padrões de programação para acesso a um aplicativo de software ou plataforma baseado na web. “A cultura da cana tem grande importância para o Brasil e o estado de São Paulo responde por cerca de 60% da produção nacional. Logo, imagens do satélite ser capaz de estimar e acompanhar a produção Landsat foram usadas no canavieira é de fundamental importância”, diz mapeamento da cobertura ele, ressaltando que a iniciativa de buscar ferraflorestal do planeta mentas de sensoriamento remoto para melhorar o monitoramento da produção agrícola no mundo foi uma das ações propostas durante reunião dos ministros de Agricultura dos países que integram o G20 – grupo de nações mais desenvolvidas do planeta – realizada em Paris em junho de 2011. Na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente, a engenheira cartógrafa Arde imagens de de horas de lete Meneguette, professora do Departamento de satélite são processamento e 10 mil Cartografia, tem amplo conhecimento das soluções disponibilizados computadores Google Geo. Além de ensinar o uso dessas ferrapela plataforma trabalhando em paralelo mentas aos seus alunos, ela atua na capacitação de cartógrafos, educadores e outros profissionais que utilizam esses sistemas. Com Profissionais da área e voluntários doutorado em fotogramepodem gerar e adicionar dados na tria pela Universidade de Londres, na Inglaterra, Arplataforma Google Earth lete é voluntária do Google Maps, líder do Grupo de Educadores Google em Presidente Prudente e revimeio de imagens de satélite. O objetivo final desse sora regional do Google Map Maker, que permite monitoramento é melhorar as estimativas de pro- aos internautas adicionar elementos inéditos no dução. “Não sou da área de sensoriamento remoto Google Maps e no Google Earth. e meu contato com esse campo se deu no ano pas“Há democratização de acesso porque os usuásado, durante um estágio de quatro meses que fiz rios se tornam produtores e consumidores de no Google na Califórnia”, explica Cavalcante, que informação georreferenciada”, destaca Arlete. é formado em Ciências da Computação. “Naquela “Quando contextualizada e significativa, a geoinocasião, percebi que o Earth Engine poderia ter formação pode se transformar em conhecimento uma aplicação interessante para os métodos de espacial. É nesse ponto que o Google se destaca, classificação que estava desenvolvendo em meu porque organiza as informações do mundo e as mestrado, com bolsa da FAPESP. A finalidade é torna mundialmente acessíveis e úteis.” estudar tecnologias capazes de detectar diferentes Em suas pesquisas sobre geocolaboração – culturas agrícolas. Também planejo avaliar as áreas estratégia que permite que profissionais da área de plantação de cana-de-açúcar em São Paulo.” e voluntários gerem dados georreferenciados utilizando mapas cognitivos, navegadores GPS, urante o período em que estagiou no Goo- sensores móveis e ferramentas de mapeamengle, entre maio e agosto de 2014, Cavalcante to na web –, a professora da Unesp tem validatrabalhou com o time responsável pelo de- do plataformas de mapeamento colaborativo e senvolvimento do Earth Engine. “Meu objetivo foi participativo do Google. “Fiz uma escolha deliexpandir a API do Earth Engine para possibilitar berada por elas, porque são as mais difundidas a análise de séries temporais nos dados de satélite. e utilizadas, e eu percebia uma necessidade de Fui responsável por implementar um algoritmo fundamentação teórico-metodológica em seus que faz a detecção de distúrbios e identificação de adeptos”, diz. “A cartografia colaborativa ganha tendências em áreas de vegetação. Por exemplo, cada vez mais importância por dar oportunidaele é capaz de detectar áreas de desmatamento e de aos usuários de contribuir com seu conhecideterminar quanto tempo durou esse processo.” mento local para aprimorar os mapas usados por API, sigla em inglês para interface de programação milhões de pessoas.” n

Números do Google Engine

3 mil cientistas e instituições empregam o Google Earth Engine ao redor do mundo

40 anos

700 mil

1

milhão

fotos  google

D

pESQUISA FAPESP 230  z  69


Química y

Contaminação emergente Presença de cafeína em água tratada é indício da presença de outras substâncias nocivas Evanildo da Silveira

A

escassez e o risco de racionamento não são os únicos problemas que parte dos brasileiros enfrenta em relação à água. O crescimento das cidades e o consequente adensamento populacional, aliados ao saneamento precário e a novos hábitos de consumo, têm contribuído para lançar nos mananciais (rios, lagos e depósitos subterrâneos) centenas de substâncias conhecidas como contaminantes emergentes (CE) resultantes das atividades humanas. Uma pesquisa recente, realizada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), contribuiu para verificar a dimensão do problema ao estudar a presença de cafeína na água. Essa substância serve de indicador da existência de outras em sistemas de abastecimento público. O pesquisador Wilson de Figueiredo Jardim, vice-coordenador do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (Inctaa) e professor associado do Instituto de Química da Unicamp, é um dos autores do livro Cafeína em águas de abastecimento público no Brasil, lançado no ano passado. Ele explica que o termo “contaminante emergente” é abrangente e pode reunir mais de mil compostos. Além de não

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estarem previstas na legislação, essas substâncias apresentam em comum o fato de serem detectadas em vários tipos de ambientes o que aumenta a exposição humana a elas. “Estamos falando de fármacos prescritos ou não, drogas ilícitas, nanomateriais, produtos de higiene pessoal, repelentes de inseto, protetores solares, produtos de cloração e ozonização de águas, microrganismos, hormônios naturais e sintéticos, entre outros”, enumera. “Uma série de novas e de velhas substâncias que fazem parte da nossa rotina diária.” Diante disso, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) declarou que este é um problema real e que merece a atenção dos governos para identificar fontes, rotas e receptores dos CE na natureza. De acordo com Jardim, já há numerosas evidências de animais silvestres, especialmente peixes, répteis e anfíbios, que vivem em locais com grande aporte de esgoto doméstico e possuem problemas de feminização, infertilidade e indefinição sexual. Isso ocorre porque, além dos hormônios naturais excretados no esgoto sanitário, há uma quantidade considerável de similares sintéticos provenientes principal-

mente da pílula anticoncepcional e da terapia de reposição hormonal. “Além disso, inúmeras moléculas como o bisfenol A e vários pesticidas clorados, dentre outros, podem confundir nosso sistema endócrino”, diz o pesquisador. altas cargas

O problema se agrava porque, segundo Jardim, é inviável legislar sobre centenas de compostos, um dos grandes desafios em termos de políticas públicas. Por isso, a comunidade científica trabalha na identificação de possíveis substâncias indicadoras, ou seja, um composto que possa apontar o risco da exposição a algumas classes de produtos. É aí que entra a cafeína, um excelente indicador por estar associado a compostos com atividade estrogênica que podem alterar o metabolismo hormonal do ser humano. Segundo Jardim, a cafeína encontrada nos mananciais é quase toda oriunda do esgoto doméstico, porque é a bebida mais consumida no mundo depois da água. “Altas concentrações num manancial indicam que ele recebe altas cargas de esgoto sanitário”, explica. “Nas águas de abastecimento, uma desinfecção efetiva remove os indícios da contaminação


Grande, Manaus, Belém, São Luís, Teresina e Salvador somente na segunda. As demais capitais foram estudadas nos dois períodos de amostragem, sendo que em São Paulo e no Rio de Janeiro houve alteração de pontos de coleta entre a primeira e a segunda campanha.

Caminhos da cafeína O transporte é feito por várias vias até o consumo humano cafeína

estação de tratamento de esgoto esgoto sanitário

lodo de esgoto

efluente líquido

Rios, lagos e represas

solo

águas subterrâneas tratamento de água

Fonte INCTAA

consumo humano

* Concentração média de cafeína por capital dos seguintes estados: RS MS pi sp mg mt es pa infográfico ana paula campos ilustraçãO raul aguiar

pr go rn pb am df ba rj to sc ma pe ce ro 1

10

100

1.000 * nanogramas

por litro (ng/l)

fecal, mas a cafeína é um composto resiliente e, por isso, é uma impressão digital química. Podemos dizer que onde existe cafeína, embora nas concentrações encontradas ela não seja tóxica, há uma grande variedade de outros compostos que não são monitorados, mas que podem trazer algum impacto à saúde humana.” No trabalho que coordenou, Jardim coletou 100 amostras de água tratada em 61 pontos espalhados por 22 capitais (cinco em Brasília; quatro em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife; três em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Vitória, Cuiabá, Manaus, Belém e Salvador; dois em Goiânia, Campo Grande, Porto Velho, Natal, São Luís, João Pessoa e Teresina; e um em Florianópolis e Palmas). Foram feitas coletas durante duas campanhas realizadas entre julho e setembro de 2011 e 2012. Porto Velho e Palmas tiveram amostras apenas na primeira, enquanto Campo

situação grave

Segundo Jardim, os resultados mostraram o que de certa forma já era esperado. “Mas nós não tínhamos noção de quão grave era a falta de saneamento e suas consequências tanto na qualidade dos mananciais como na água distribuída à população”, diz. “Primeiro, constatou-se que os mananciais de superfície (rios e lagos) apresentam concentrações de cafeína da ordem de mil a 10 mil vezes maiores do que aquelas encontradas na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e no Japão. Até mesmo as águas subterrâneas apresentavam concentrações mensuráveis de cafeína.” No cenário nacional, verificou-se que as condições não eram muito diferentes daquelas medidas no estado de São Paulo. Um dado curioso é que as capitais costeiras mostraram níveis menores de cafeína da água de abastecimento quando comparadas com as capitais interioranas. Isso se explica, segundo Jardim, pelo fato de que os emissários submarinos ou o simples descarte na orla de algum modo preservam os mananciais. Entre as capitais estudadas, Porto Alegre foi a que apresentou a maior concentração de cafeína na água tratada para consumo humano, com um valor médio de 1.211 nanogramas por litro (ng/l), seguida de Campo Grande, com 900 ng/l. Além do consumo de mate em Porto Alegre, rico em cafeína, os mananciais das duas cidades estão muito impactados por esgoto. Entre as capitais com os menores índices médios estão Porto Velho (3,0 ng/l), Fortaleza (4,0 ng/l), Recife (5,0 ng/l) e São Luís (8,0 ng/l). Outras cinco cidades estudadas registraram concentração média entre 100 e 200 ng/l: Vitória (101 ng/l), Cuiabá (114 ng/l), Belo Horizonte (119 ng/l), São Paulo (121 ng/l) e Teresina (188 ng/l). n

Projeto Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas – Inctaa (nº 2008/57808-1); Modalidade Projeto Temático – INCT; Pesquisador responsável Célio Pasquini (Unicamp); Investimento R$ 375.421,77 e US$ 531.453,87 (FAPESP).

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fotografia y

Carta do século XIX sobre Mesa Cartesiana. Abaixo, transcrição em caracteres para estudo do português da época

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Registro da escrita Novo método facilita a transformação de documentos manuscritos históricos em arquivos digitais Marcos de Oliveira

fotos  Lapelinc

A

dificuldade em manusear documentos históricos raros e manuscritos para análise dos textos levou um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) a desenvolver um método de fotografia que facilita a transcrição e compreensão de fenômenos linguísticos de uma época. “Existem documentos e livros antigos para os quais o método tradicional de obtenção da imagem por escaneamento pode prejudicar ou até destruir o original porque é preciso, muitas vezes, dobrá-los ou desencaderná-los para uso no escâner”, diz o professor Jorge Viana Santos, do Laboratório de Pesquisa em Linguística de Corpus (Lapelinc) da Uesb. O objeto de estudo dos pesquisadores são livros e documentos cartoriais manuscritos do século XIX que já tiveram grande manuseio e cujo estado é bem frágil. “Diferentemente da fotografia, no escaneamento o documento é que se adapta ao aparelho e não o contrário”, diz. Para a digitalização de documentos impressos, já existem softwares bem difundidos que levam o nome de reconhecimento óptico de caractere (OCR na sigla em inglês) e podem ler o documento a partir de escâneres e transformá-lo em digital. Em documentos manuscritos não existe essa possibilidade. O método criado pelo professor Santos em colaboração com a professora Cristiane Namiuti Tempon, também da Uesb, começa com a captura da imagem em uma câmera fotográfica. Para isso, o documento é assentado em uma espécie

de placa plana de plástico de cor cinza e quadriculada milimetricamente, característica que serve para informar no computador a exata medida do papel. Denominada pelo grupo de Mesa Cartesiana, sobre ela também são colocadas escalas de tom de cores, informações catalográficas, paginação e sequência. A página do documento pode tanto ser apresentada no computador com todas essas informações como também de forma recortada, apenas a parte manuscrita. Detalhes na tela

A transposição do documento do mundo físico, intermediado pela fotografia, para a formatação digital, é feita por um software desenvolvido também no Lapelinc. Ele permite interpretar esses dados e recuperar numa tela de computador os tons e cores originais de um documento. Assim, o método faz a transposição de documentos manuscritos históricos para a formação de conjuntos de textos eletrônicos com aspecto próprio para pesquisa científica. As vantagens do Método Lapelinc se expandem também na facilidade de aumentar o texto original na tela do computador para verificar detalhes ou tirar dúvidas em relação à escrita. Com o documento digital é possível fazer várias consultas sem deteriorar o material histórico. Segundo Santos, o novo método contribui para a análise dos paleógrafos, especialistas que leem o texto para estudos de linguagem e fazem a transcrição e adaptação ao português atual se for o caso. A linguística de corpus (texto para

análise) necessita do original em caracteres para a compilação de corpora (conjunto de corpus) para análise linguística automática. “Nosso método permite montar o corpus eletrônico que forma um banco de dados no qual é possível identificar cada palavra e etiquetá-la, facilitando o trabalho do linguista na busca pelo seu objeto de estudo; pode-se, assim, etiquetar substantivos e verbos, por exemplo”, diz Santos. “O historiador pode ler na linguagem de hoje, mas o linguista quer saber como o texto foi concebido naquela época para determinar o padrão e a evolução da linguagem.” O trabalho de estrutura do Método Lapelinc começou em 2008 e ainda não terminou, faltando a finalização do software para fazer a transcrição e a edição do texto. Todo o sistema criado na Uesb também pode ser útil em outras instituições acadêmicas e até em empresas. “Fazemos pesquisa e um apoio externo ou comercial não muda nosso trabalho, mas o protótipo pode levar a um produto, porque o método é passível de uma patente. No momento estamos finalizando seu desenvolvimento”, explica Santos. O trabalho teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq) e da própria universidade. n

Artigo Santos, J. V. e Brito, G. S. Fotografia técnica de documentos para formação de corpora digitais eletrônicos: o método desenvolvido no Lapelinc. Letras & Letras. v. 30, n. 2, p. 421-30. jul./dez. 2014.

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humanidades   história y

Monções (quase) reescrito livro de Sérgio Buarque de Holanda como historiador de ofício evidencia seu gosto por refazer suas obras Marcos Pivetta

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U

m dos mais respeitados intelectuais brasileiros do século passado, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) raramente ficava totalmente satisfeito com o que escrevia. Crítico literário que virou ou se assumiu como historiador de ofício entre o fim dos anos 1940 e o início da década de 1950, gostava de reescrever suas obras e não raro dava novas formas e fins a textos antigos ou em preparação. Entre 1957 e 1958, viu-se, por exemplo, forçado a dedicar seis árduos meses à tarefa de produzir rapidamente uma tese para assumir a cátedra de História da Civilização Brasileira na Universidade de São Paulo (USP). Para cumprir com essa obrigação acadêmica, expandiu a introdução de um livro em gestação sobre o barroco brasileiro dos séculos XVII e XVIII – parte desses escritos viraria a obra póstuma Capítulos de literatura colonial, lançada apenas em 1991 – e a transformou em Visão do paraíso. Defendida em 1958, a tese virou livro no ano seguinte e se tornou uma de suas obras mais importantes, ao lado de Raízes do Brasil (1936), Caminhos e fronteiras (1957) e Do Império à República (1972). Em 2015, faz 70 anos que Sérgio Buarque lançou seu primeiro livro na pele de historiador, Monções, que trata das expedições fluviais saídas de São Paulo rumo ao Oeste durante o período colonial. O intelectual tentou, durante boa parte da vida, reescrever o livro, sem, no entanto, ter logrado por com-

Folhapress

Nova edição do primeiro


fotos  1 e 3 nonononono 2 nononon

Sérgio Buarque sonhou por décadas em reescrever Monções, livro sobre a expansão paulista rumo ao Oeste durante o período colonial


1

pleto esse objetivo. No início deste ano chegou às livrarias uma nova edição de Monções (Companhia das Letras, 624 páginas), que, mais do que comemorar a efeméride, permite ao leitor espiar o refazer constante que o historiador imprimiu à sua obra. Organizada ao longo dos últimos dois anos pela historiadora Laura de Mello e Souza e seu ex-aluno André Sekkel Cerqueira, a nova versão reúne em dois volumes, de forma inédita, o que de mais significativo o pensador escreveu sobre a expansão paulista. Um tomo traz o texto original da obra, tal qual impresso em 1945. O outro, denominado Capítulos de expansão paulista, coteja três capítulos de Monções reescritos por Sérgio Buarque, provavelmente nos anos 1960 e 1970, e os textos, por vezes inacabados, que compuseram o livro O extremo Oeste, assim batizado em 1986 pelo historiador José Sebastião Witter (falecido em julho do ano passado), discípulo e amigo do intelectual. “Por décadas, Sérgio Buarque sonhou em reescrever Monções, obra que foi sua companheira durante toda a vida”, diz Laura, que se aposentou da Universidade de São Paulo (USP) no ano passado e atualmente é titular da cadeira de História do Brasil na Universidade Paris-Sorbonne. “Provavelmente por ser perfeccionista e rigoroso consigo mesmo, nunca pôs fim a essa tarefa.” Uma hipótese, mais remota, é o historiador ter se cansado do tema e desistido da empreitada no fim da vida. Dos seis capítulos originais que compõem Monções, Sérgio Buarque chegou a reescrever o primeiro (“Os caminhos do sertão”), o segundo (“O transporte fluvial”) e o quinto (“As estradas móveis”). Além de mudanças de estilo, os três capítulos foram alongados, com mais dados e documentação colhidos pelo historiador. Ganharam, respectivamente, 40, 17 e 37 páginas a mais. Apenas a nova redação do capítulo inicial do livro, “Os caminhos do sertão”, que fora publicada como um artigo na Revista de História em 1964, 76  z  abril DE 2015

se mostra totalmente acabada, tendo inclusive notas bibliográficas completas. Em março do ano passado, perto do término da pesquisa, Cerqueira encontrou os originais de dois capítulos reescritos de Monções em meio aos documentos da Coleção Sérgio Buarque de Holanda, na Biblioteca Central Cesar Lattes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Monções talvez seja o caso mais emblemático dessa busca incessante de Sérgio Buarque por atualizar e aprimorar seus livros à luz de novos documentos ou interpretações da história. Paradoxalmente, apesar de todos os esforços do historiador, a obra foi reescrita apenas parcialmente. “Nos anos 1970, depois de ter levantado muito material sobre a expansão paulista ao Oeste e de ter retrabalhado algumas partes de Monções, Sérgio optou por fazer outra obra sobre o tema em vez de reescrever esse livro”, afirma André Cerqueira. O esboço dessa outra obra foram os textos incompletos e inconclusivos que, reunidos, deram corpo ao já citado O extremo Oeste. folhas de bloquinho escritas

Filha de Antonio Candido e de Gilda de Mello e Souza, amigos da família de Holanda em São Paulo, Laura teve a oportunidade de frequentar a casa de Sérgio Buarque em razão dessa relação de proximidade. Ela se lembra de tê-lo visitado sozinha certa vez e, enquanto conversavam, o historiador, sentado em sua poltrona na sala de casa, tirou do bolso folhas de bloquinho escritas e reescritas à mão. “Mostrou-me as folhas e explicou que era daquela maneira que escrevia”, recorda-se Laura. “Aproveitei a ocasião e perguntei o que estava escrevendo. Ele respondeu que estava reescrevendo Monções.” Redigir não era um processo fácil para Sérgio Buarque, que podia demorar até uma semana para encontrar a forma final de um parágrafo, como conta Laura no prefácio da nova edição de Monções.

Livro sobre os anos formativos de Sérgio Buarque (à esq.) e nova edição de Monções: produção revisitada do intelectual


fotos 1 eduaro cesar 2 reprodução do livro Monções

2

A ideia de reescrever essa obra perseguiu Sérgio Buarque por cerca de 40 anos, segundo Laura e Cerqueira. Em 1965, o já consagrado historiador e professor da USP, aos 62 anos, programou-se para levar adiante essa bandeira pessoal e formalizou uma iniciativa com esse intuito: enviou uma carta com duas páginas datilografadas à FAPESP, que três anos antes havia iniciado suas atividades e funcionava no 14º andar de um prédio na avenida Paulista. Laura e Cerqueira reproduzem a íntegra do pedido na nova edição de Monções, cuja divulgação foi autorizada após a FAPESP ter obtido o consentimento dos filhos de Sérgio Buarque. Datada de 29 de janeiro daquele ano, a missiva fazia a defesa de um projeto para coletar mais dados e documentos sobre a navegação fluvial entre São Paulo e Cuiabá no período colonial, empreitada com duração prevista de 18 meses nos cálculos do historiador. A proposta se destinava basicamente a custear os gastos com passagens, alimentação e estadia que o pesquisador teria em viagens ao Rio de Ja-

neiro – sede de importantes arquivos públicos, como os da Biblioteca Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – e a Cuiabá, onde faria “pesquisa acurada no acervo manuscrito da Biblioteca e Acervo Público do Estado do Mato Grosso”. Com essa nova pesquisa de campo, Sérgio Buarque acreditava que estaria em condições de produzir uma renovada segunda edição de Monções. Havia urgência em editar uma versão atualizada do livro. No pedido de auxílio, o historiador afirma que a primeira edição estava esgotada havia muito tempo. Ele mesmo dispunha apenas de um único exemplar do livro. Na argumentação em prol do financiamento ao projeto, escrita com a ortografia em vigor na época, o historiador diz “que a projetada pesquisa, tendente a esclarescer em alguns dos seus aspectos mais significativos a formação da unidade nacional atravez da ligação das bacias do Prata e do Amazonas, ajudaria ao mesmo tempo a melhor conhecer-se a formação do Brasil, esclarecendo o presente atravez do passado”.

Trechos do pedido de auxílio à pesquisa de 1965 enviado à FAPESP pelo historiador: proposta obteve o equivalente a R$ 8.400

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O cronograma de trabalho apresentado por Sérgio Buarque é otimista. Diz que, “salvo imprevisto”, o trabalho de campo deveria ser feito ainda em 1965 e a redação da nova edição do livro estaria pronta em meados de 1966. A segunda versão de Monções sairia pela Livraria José Olímpio, na Coleção Documentos Brasileiros, segundo o historiador. Diante de tal arrazoado, o projeto de número 65/0223-4 foi aprovado em junho de 1965 e recebeu da FAPESP uma verba de 550 mil cruzeiros, cerca de R$ 8.400 em valores atuais, de acordo com conversão feita por meio do site do Banco Central do Brasil. Mas houve imprevistos. Por razões até hoje não totalmente compreendidas, Sérgio Buarque nunca chegou a terminar a nova versão da antiga obra. Ele produziu, sim, escritos sobre a temática da expansão paulista a partir de material coletado não só nas viagens à antiga capital federal e ao Mato Grosso como também em visitas ao Paraguai e a Portugal. Apesar de não ter sido reescrito como o historiador inicialmente queria, Monções ganhou novas versões. Uma segunda edição, praticamente com o mesmo texto de 1945, foi lançada em 1976. Uma terceira, composta novamente da versão original, acrescida de um apêndice com os três capítulos reescritos, chegou ao mercado em 1990. A atual edição representa a quarta versão da obra. “Quando morreu, acho que ele estava reescrevendo algo”, afirma Sérgio Buarque de Hollanda Filho, o Sergito, professor aposentado da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, um dos sete filhos do historiador. “Mas ele não falava muito de trabalho com os filhos.” Anos formativos como crítico literário

Historiador da nova geração que há 15 anos estuda a obra de Sérgio Buarque, Thiago Lima Nicodemo – que se formou e fez pós-graduação na USP e, desde o ano passado, é professor da Universidade

Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) – reforça a ideia de que o mestre esteve sempre a espichar, cortar e emendar seus textos. “Ele queria dar coerência ao seu projeto intelectual”, diz Nicodemo, de 35 anos. “E era perfeccionista mesmo.” Segundo o pesquisador, Sérgio Buarque procurava reforçar o caráter histórico de suas obras mais antigas, nas quais o tom dominante tinha sido dado pelo olhar de crítico literário e ensaísta, por meio da inclusão de notas e documentos retirados de novas leituras e arquivos. “Depois de publicar Monções, Sérgio Buarque refez Raízes do Brasil sob essa perspectiva”, afirma ele. “Nas versões posteriores do livro, ele procurou enfraquecer o caráter ensaístico de Raízes, dando coesão ao seu novo viés de historiador profissional.” Em 2008, Nicodemo publicou um livro sobre o percurso intelectual de Sérgio Buarque durante a década de 1950 a partir da feitura de Visão do paraíso. Neste mês, lança outro título sobre o intelectual, Alegoria moderna – Crítica literária e história da literatura na obra de Sérgio Buarque de Holanda (Editora Fap-Unifesp, 384 páginas). O foco agora são os anos formativos – melhor seria dizer décadas – que pavimentaram os caminhos do crítico de livros e o empurraram, progressivamente, para as fronteiras da história. Alegoria moderna é fruto da pesquisa de doutorado que Nicodemo concluiu na USP, com bolsa da FAPESP, no início desta década. “Analisei a relação entre a produção de crítica literária e de história de Sérgio Buarque de Holanda tendo como núcleo documental seus escritos em periódicos, como o Diário de Notícias e Diário Carioca, e suas obras publicadas entre 1940 e 1961”, diz Nicodemo, também pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Antes de abraçar definitivamente o trabalho de pesquisa em arquivos e a busca por fontes e documentos que embasassem sua pesquisa his-

Impresso da Universidade de Roma com chamada para conferência de Sérgio Buarque: historiador viveu de 1952 a 1954 na Itália

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fotos  siarq / unicamp

tórica sobre o Brasil, Sérgio Buarque atuou como jornalista, ensaísta e crítico de literatura. Desde os anos 1920, quando militou no modernismo paulista e se tornou amigo de Mário de Andrade, interessou-se por escrever, atividade a que se dedicaria profissionalmente duas décadas mais tarde. “Nos anos 1940, ele fez crítica literária para sobreviver e o auge de sua produção foi entre 1948 e 1952”, comenta Nicodemo. Ao assumir a cátedra de História da Civilização Brasileira na USP em 1958, a atividade de crítico literário, que já vinha perdendo força nos últimos anos, cessa de vez, de acordo com Nicodemo. Durante a realização da pesquisa, Nicodemo passou uma temporada na Itália, onde Sérgio Buarque residiu entre 1952 e 1954 e lecionou na Universidade de Roma. No país europeu, o crítico de livros que se transmutava em historiador conheceu arquivos e fontes bibliográficas que lhe foram úteis para analisar os textos literários produzidos na colônia lusitana. “Muitos dos modelos poéticos dos escritores na cultura luso-brasileira dos séculos XVII e XVIII eram originados da cultura italiana, como é o caso, por exemplo, do movimento árcade”, afirma o pesquisador da Uerj. Novas edições dos livros de Sérgio Buarque e mais obras sobre o crítico literário e historiador

estão previstas para sair em breve. Pedro Meira Monteiro, professor titular na Universidade de Princeton, Estados Unidos, onde ministra cursos na área de estudos latino-americanos, com ênfase em literatura brasileira, prepara uma biografia sobre o intelectual. Monteiro, que editou um livro com a correspondência de Sérgio Buarque e Mário de Andrade em 2012, também trabalha, ao lado da antropóloga Lilia Schwarcz, da USP, na confecção de uma edição crítica e anotada de Raízes do Brasil. A obra mais conhecida de Sérgio Buarque completará 80 anos em 2016. Se Monções mereceu uma edição caprichada ao chegar aos 70 anos, as oito décadas do clássico mais clássico de um dos mais importantes pensadores brasileiros são um bom pretexto para conhecer ou passar em revista sua vida e obra. n

Caderno de pesquisa de Sérgio Buarque do período italiano: fase importante para conhecer arquivos e fontes bibliográficas

Projetos 1. O senso do passado: história e crítica literária na obra de Sérgio Buarque de Holanda (1940-1961) (2006/50659-5); Modalidade Bolsa no País – Doutorado; Pesquisador responsável Raquel Glezer (FFLCH-USP); Bolsista Thiago Lima Nicodemo (FFLCH-USP); Investimento R$ 133.153,80 (FAPESP). 2. A navegação fluvial entre São Paulo e Cuiabá nos séculos XIX e XX (65/0223-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Sérgio Buarque de Holanda (USP); Investimento 550 mil cruzeiros, cerca de R$ 8.400 em valores atuais (FAPESP).

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SOCIOLOGIA y

Dias de fúria Novo trabalho de José de Souza Martins revela que mais de 1 milhão de brasileiros já participou de um ato ou uma tentativa de linchamento Juliana Sayuri

ilustrações Mariza

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ra 2 de janeiro de 1998: um pedreiro de 58 anos teve os braços amarrados com arame farpado e foi linchado por uma multidão em Caboto, Região Metropolitana de Salvador, depois de discutir e ferir dois vizinhos a golpes de foice. Era 14 de fevereiro de 2008: um adolescente de 15 anos foi espancado por outros internos na Fundação Casa de Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo, que pensavam que o garoto delatara outros infratores. Era 3 de maio de 2014: uma mãe de 33 anos foi brutalmente agredida na praia do Guarujá, litoral sul de São Paulo, confundida com uma suposta sequestradora de crianças que praticava “magia negra”. Nas páginas dos jornais, essas histórias viraram estatística. Nos últimos 60 anos, mais de 1 milhão de brasileiros já participou de um ato ou uma tentativa de linchamento – um sintoma de uma enfermidade da sociedade brasileira. A análise é do sociólogo José

de Souza Martins, que dedicou mais de três décadas ao estudo dos linchamentos no país. “A frequência dos linchamentos no Brasil pede que se conheça o fenômeno do justiçamento popular, que é endêmico entre nós”, diz o autor de Linchamentos: a justiça popular no Brasil (Contexto, 2015), pesquisa realizada com apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Martins iniciou suas investigações sobre os linchamentos na década de 1970, quando pesquisava os conflitos e as tensões nos movimentos sociais no interior do país, especialmente na fronteira amazônica, identificando surtos de saques e práticas de justiçamento popular. Incorporou ao estudo muitas outras ocorrências, minutadas inclusive no noticiário jornalístico, e três estudos de campESQUISA FAPESP 230  z  81


po, realizados no interior de São Paulo, no oeste de Santa Catarina e no sertão da Bahia. Indexou, ao longo dos anos, 2.028 casos, concentrados especialmente entre 1945 e 1998: nesses, 2.579 indivíduos foram alcançados por tentativas e linchamentos consumados; apenas 1.150 (44,6%) foram salvos, em mais de 90% das oportunidades pela polícia. Outros 1.221 (47,3%) foram engolidos pela fúria popular, espancados, atacados a pauladas, pedradas, pontapés e socos, nessa ordem e nessa progressão, até casos extremos de extração dos olhos, extirpação das orelhas e castração. Entre eles, 782 (64%) foram mortos e 439 (36%) feridos, segundo revela o estudo pioneiro. Para Martins, os números indicam que o linchamento se tornou um componente da realidade social brasileira, perdendo gradativamente sua caracterização como um fato anômalo. Em outras palavras, um dia excepcional de fúria se transformou num ato cotidiano conjugado no plural: dias de fúria. Paralelamente a esse corpus, o sociólogo acompanhou outros 2.505 episódios, que atualizam as informações até 2014, um procedimento experimental de monitoramento diário das ocorrências. Também enriqueceu o estudo a partir de pesquisas no exterior em diferentes momentos, especialmente em bibliotecas e arquivos na Inglaterra, Itália e França. Revisitou ainda a produção bibliográfica americana, o principal modelo teórico nessa área – as raízes do linchamento, afinal, remetem à Lei de Lynch, que originou a palavra “linchamento” no século XVIII que cá aportou no século XIX. “No Brasil, o primeiro linchamento registrado data de 1585. Na época não era designado como ‘linchamento’, mas indicava uma prática já presente em diversos países que levava a multidão, por variados motivos, a matar alguém”, afirma o pesquisador. “Os americanos reuniram o maior número de estudos, mas com campos limitados. Queriam saber essencialmente quem foi linchado, quem fez o linchamento e qual era a causa provável”, diz Martins, que ampliou a dimensão da análise com 189 campos para preencher com informações de modo a aprofundar o âmbito sociológico dos linchamentos. Enquanto sociólogo, Martins lembra que é preciso entrar nessa arena não para julgar, mas para conferir se o linchamen82  z  abril DE 2015

to é compreensível ou não, isto é, para compreender o ponto de vista dos participantes. “Linchamento é uma forma de justiçamento covarde. A vítima da vítima do linchamento já está morta ou violentada. Um grupo se reúne para fazer justiça em prol de uma vítima e reage a algo que, entre eles, se tornou moralmente insuportável”, explica. “Quem lincha intui que está cometendo um crime. Se o linchamento acontece durante o dia, o número de participantes é menor. À noite, porém, o número de linchadores quase dobra – e a crueldade aumenta –, pois há a expectativa de impunidade. É um envolvimento irracional, mas existe um fundo de consciência sobre o certo e o errado. As pessoas pensam que estão punindo alguém que, a partir de sua perspectiva, merece ser punido. Ao mesmo tempo, têm consciência de que não são elas que deveriam punir.” No fio da navalha

Para Martins, os linchamentos expressam uma crise de desagregação social. “Os crimes que motivam os linchamentos são interpretados pelos linchadores como crimes contra a condição humana. Não são delitos banais, como roubar uma carteira”, diz. “Se alguém estupra uma criança, por exemplo, significa que as regras foram violadas e a polícia e a justiça falharam. A população se vê entre uma justiça cega e uma justiça cética. Uma justiça que a população não aceita mais e deslegitima a lei de enfrentamento ao crime. E leva às explosões de fúria popular.” Martins situa o linchamento na arena do comportamento coletivo e, ao mesmo tempo, no âmbito do crime comunitário, entre a multidão e a antimultidão. “Significa que, nessa sociedade, os indivíduos estão vivendo como marginais, no sentido do sociólogo Everett Stonequist. São pessoas vivendo no fio da navalha da transição social, numa sociedade baseada em relações societárias de natureza contratual que explode eventualmente com comportamentos de multidão, mas também estruturada num mundo comunitário e familístico”, diz ele. Segundo Martins, as metrópoles São Paulo, Rio e Salvador lideram os casos de linchamento. A informação é a mesma de levantamento realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP que, entre 1980 e 2006, contou 580 linchamentos


no estado de São Paulo, 204 no Rio de Janeiro e 180 na Bahia. “É um fenômeno das grandes cidades, mas praticado em nome de valores da pequena comunidade”, pondera Martins. No novo livro, o sociólogo traz considerações inéditas a partir do cruzamento dos 189 campos investigados. Identifica, por exemplo, a “durabiliPara José dade do ódio” – em de Souza 70% dos casos, dura aproximadamente 20 Martins, os minutos; depois, pode se estender por 24 linchamentos horas; noutros casos, é possível se prolonexpressam gar por mais de um uma crise de mês ou um ano, tal o impacto do crime desagregação primeiro, provocador. “Em geral, o linchasocial mento não é um crime premeditado. É cometido ainda sob o estado de emoção provocado pelo crime originário”, diz. Além disso, o autor aponta banana. Bastou para um morador a inum “índice de crueldade”, ilustrado, por dicar como a “bruxa” do litoral e, em exemplo, no contraste entre negros e questão de minutos, milhares a cercaram brancos: “Se a motivação for a mesma, o alucinados e violentos. “As pessoas esautor, branco ou negro, é alvo de lincha- tão vivendo com mídias ultramodernas, mento. Entretanto, se o linchado for ne- mas num mundo inteiramente rústico. gro, a crueldade é maior, incluindo ações Acontece uma tentativa de linchamencomo arrancar os olhos, as orelhas e o to por dia no Brasil. As normas estão pênis do acusado”, afirma. Ao contrário ausentes. Assim, a população inventa do que se pode imaginar, porém, o fator normas ad hoc para fazer ‘justiça’ aqui econômico interfere pouco nesses casos: e agora”, critica. há ricos participando de linchamentos, Aos 76 anos, José de Souza Martins assim como pobres; há ricos sendo lin- publicou mais de 30 livros. Nos últimos chados, assim como pobres. tempos, também lançou Diário de uma terra lontana (Fundação Pró-Memória, 2015) e Desavessos: crônicas de curtas Todos contra um Há um imaginário imenso por trás dos palavras (Com-Arte Editora Laboralinchamentos, agravado atualmente por tório, 2014). O autor agora se dedica à ferramentas midiáticas. Tornou-se sim- elaboração de outro livro, a respeito da bólico o caso de Fabiane Maria, lincha- dimensão ritual dos linchamentos, como da brutalmente no Guarujá, diante de rito de sacrifício e de sangue. Sociólogo câmeras de smartphones. Alastrou-se a com sensibilidade antropológica, Mar“notícia” na internet de que uma loira tins pretende destrinchar o “protocolo” sequestrava crianças para fazer feitiça- implícito dos linchamentos: “Há uma ria – e Fabiane, morena, tingiu os cachos ordem. Primeiro, perseguir. De repente, de vermelho num sábado de sol, passou 2, 3, 4 se transformam em 8, 9, 10, 100. na casa de uma amiga para buscar a Bí- Todos contra um. Se o acusado estiver blia, passou na quitanda e, numa série longe, atiram pedras. Mais perto, partem de acasos, parou para consolar um me- para pauladas – uma bengala ou uma vasnino chorando na rua, dando-lhe uma soura, o que estiver à mão. Depois, para

o espancamento, com pontapés e socos. Não há ‘render-se’ na lógica do linchamento. Os linchadores atacam, mas param e esperam o sujeito ficar amolecido. Se o linchado despertar por um minuto, voltam a atacar”. Até agora, Martins encontrou 7,8% dos casos como linchamentos de um inocente – um índice alto, na sua interpretação. Diante de uma sociedade fraturada, a impressão final é que qualquer um estaria sujeito aos impulsos violentos da multidão. “Em Santa Catarina houve tentativa de linchamento de um juiz do Superior Tribunal de Justiça, que lá estava em férias, com a família, usando carro oficial. Um padre no Ipiranga, em São Paulo, foi cercado por pais furiosos, pois não queria que as crianças brincassem no pátio da igreja. No fim, ninguém está imune a um linchamento”, arremata. n

Projetos 1. As condições do estudo sociológico dos linchamentos no Brasil (nº 96/09765-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável José de Souza Martins (FFLCH-USP); Investimento R$ 11.725,73 (FAPESP). 2. Linchamentos no Brasil (nº 94/03202-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável José de Souza Martins (FFLCH-USP); Investimento R$ 4.311,02 (FAPESP).

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cinema y

O Brasil na estrada Estudo revela aproximações e diferenças entre o road movie norte-americano e os filmes do gênero feitos aqui Márcio Ferrari

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ADEMIR SILVA / produções cinematográficas lc barreto / Acervo Cinemateca Brasileira/SAv/MinC

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ênero habitualmente associado à filmografia norte-americana, já a partir do nome em inglês, o road movie prolifera também em outras cinematografias, entre elas a brasileira. Um nicho particularmente interessante se desenvolveu por aqui no período entre os anos 1960 e final dos 1970, com filmes como Iracema, uma transa amazônica (1976), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna; Bye, bye Brasil (1980), de Cacá Diegues; e ecos posteriores em Central do Brasil (1998), de Walter Salles; e Cinema, aspirina e urubus (2005), de Marcelo Gomes, entre outros. São histórias de deslocamento que o pesquisador Samuel Paiva analisou em seu projeto O filme de estrada no cinema de ficção do Brasil (1960-1980), desenvolvido no Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) entre 2012 e 2014. O termo foi cunhado num ambiente de contracultura nos Estados Unidos, refletido em filmes emblemáticos como Bonnie e Clyde – Uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, 1967), de Arthur

Penn, e Sem destino (Easy Rider, 1969), de Dennis Hopper, numa época marcada tanto pelos efeitos do pós-Segunda Guerra Mundial quanto da Guerra do Vietnã, então em curso. No Brasil, um dos momentos mais emblemáticos do gênero se deu durante a vigência da ditadura militar. Em ambos os casos, a presença da estrada se torna mais comum nas telas de cinema em parte como consequência da superação da fase dos estúdios, que marcou a produção industrial cinematográfica até meados do século XX (mais precisamente, no Brasil o que houve foram tentativas de industrialização, sendo as mais conhecidas as representadas pelos estúdios Atlântida, no Rio, e Vera Cruz, em São Paulo). O surgimento de equipamentos mais ágeis e o advento do cinema de rua, entre outros movimentos estéticos em vários países, disseminaram o uso de movimentos de câmera e o aproveitamento da luz natural. Samuel Paiva considera importante notar, no entanto, que nos dois países se encontram exemplos muito anteriores de filmes com caracterís-

José Wilker em Bye, bye Brasil (1980): Brasil profundo, mas mecanizado, com distâncias encurtadas pela TV

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ticas semelhantes àquelas consideradas canônicas no road movie. No Brasil há exemplos tão distantes quanto os registros cinematográficos das expedições chefiadas pelo marechal Cândido Rondon, realizados pelo major Luiz Thomaz Reis nos anos 1910. Para o pesquisador, citando o teórico norte-americano Rick Altman, “os gêneros não têm identidades e fronteiras estáveis; são frequentemente híbridos, trans-históricos, não seguem evoluções predizíveis, ainda que sua natureza repetitiva muitas vezes possa nos levar a pensar dessa maneira”. Diálogos

Essa abordagem da questão do gênero cinematográfico remeteu o pesquisador à metodologia historiográfica proposta pelo pesquisador e crítico Jean-Claude Bernardet no livro Historiografia clássica do cinema brasileiro (1995), em que é feita uma crítica à tradição nacionalista e sociológica de análise fílmica no país e se propõe o estabelecimento de “linhas de coerência” entre filmes de nacionalidades, épocas e contextos diversos. Embora em situações históricas bem distintas (nos Estados Unidos, o eco das guerras, e no Brasil o regime autoritário), é possível, para Paiva, criar diálogos entre as duas produções de filmes de estrada. Para o crítico norte-americano Timothy Corrigan, o road movie dos anos 1960 fala de uma “volta para casa” relacionada tanto ao retorno do soldado quanto à tradição da literatura beatnik, que tem entre os seus temas centrais os conflitos de geração e a diáspora fami-

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No Brasil, o filme de estrada foi marcado pela contracultura, com conotações específicas

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liar. Há a presença central do carro, que funciona ao mesmo tempo como um símbolo da cultura de consumo, usado para questionar os valores ideológicos dessa mesma cultura, e como uma máquina de destruição, no que guarda relações com as armas. Os deslocamentos espaciais estão impregnados de “uma busca que não se sabe exatamente do que é”. “No Brasil, o filme de estrada do período também é marcado pela contracultura, mas tem conotações específicas”, diz Paiva. Um filme como Iracema, uma transa amazônica, proibido pela censura entre 1976 e 1980 (mas exibido no exterior), é carregado de sentidos políticos. A história mostra o encontro do caminhoneiro Tião Brasil Grande (Paulo César Peréio) e uma prostituta de 15 anos, Iracema (a atriz não profissional Edna de Cássia). A estrada é a Transamazônica, símbolo do desenvolvimentismo da ditadura e, para o olhar crítico do filme, da destruição ecológica. “A degradação de Iracema ao se prostituir tão jovem é a chave para compreender um país que está sendo violentado e destruído”, diz o pesquisador. Um forte aspecto da produção brasileira de filmes de estrada, presente em Iracema, é o de viagens que significam um descobrimento ou redescobrimento do Brasil, característica que marca também o projeto político e estético do Cinema Novo. Filmes inaugurais do movimento, como Vida secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963) e Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964), mesmo sem estradas, são histórias de personagens em deslocamento em que surgem “personificações do Estado opressor”. Às imagens


1 Peréio e Edna de Cássia (dir.) em Iracema (1976) 2 Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em Central do Brasil (1998) 3 Peter Ketnath (motorista) e Francisco Figueiredo em Cinema, aspirina e urubus (2005)

fotos 1 Wolf Gauer / Acervo Cinemateca Brasileira/SAv/MinC 2 Photos 12 / Alamy / Glow Images  3 Caio Guatelli / Folhapress

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desse sertão arcaico, Bye, bye Brasil, feito mais de uma década depois por um dos diretores do Cinema Novo, Cacá Diegues, contrapõe “uma espécie de reflexão da crise do movimento cinemanovista”. O país que se desvela no filme é ainda o Brasil profundo, mas mecanizado, com distâncias encurtadas pela televisão e em convivência com a cultura norte-americana. Numa produção bem mais recente, Cinema, aspirinas e urubus, os viajantes são um brasileiro e um alemão que veem na companhia um do outro uma proteção contra um sertão ameaçador. O mundo externo se personifica, numa espécie de revisão da exclusividade nacional no gênero. Revolução e conciliação

Em chave aparentada, Paiva toma do pesquisador e crítico Ismail Xavier a expressão “sertão-mar”, criada para se referir ao cinema de Glauber Rocha e sua estética da fome. Também nesse caso, a trajetória emblemática é a dos personagens centrais de Deus e o diabo na terra do sol, que se traduz numa jornada de conscientização rumo, possivelmente, a uma revolução. Nessa trajetória transformadora, o sertão é o ponto de partida e o mar, a libertação. Em Bye, bye Brasil, no entanto, a água do mar está poluída e a viagem se encaminha para o interior. Em Central do Brasil, a trajetória do menino em busca do pai começa à beira-mar,

no Rio, e vai até o interior do Nordeste. Ele não encontra o pai, mas conhece os irmãos. “No lugar de revolução, surge conciliação”, diz Paiva. “O reencontro é com um princípio ético, a fraternidade.” A ausência do pai e a crise da figura masculina, que movem Central do Brasil, são traços do road movie norte-americano que ressoam na produção brasileira. Em Mar de rosas (1979), de Ana Carolina, a protagonista é uma mulher (Norma Bengell) que mata o marido durante uma viagem de carro com a filha. E, oscilando entre a ausência e a presença autoritária do pai, a crise da figura patriarcal é tematizada em muitos dos filmes de estrada mais recentes, como Árido movie (2005), de Lírio Ferreira, e À beira do caminho (2012), de Breno Silveira. Paiva encontra ainda reflexões sobre o road movie nos textos escritos pelo cineasta Rogério Sganzerla para o jornal O Estado de S.Paulo nos anos 1960. O pesquisador lembra que os filmes que ele faria, a começar por O bandido da luz vermelha (1968), estão repletos de “deambulações e perambulações automotivas”. Impressionado com o surgimento de um “cinema físico” no interior da Nouvelle Vague francesa e de momentos da produção brasileira como a cena de Os cafajestes (Ruy Guerra, 1962) em que a personagem de Norma Bengell, nua, é cercada na praia por um carro dirigido pelos personagens-título em contínuos

movimentos circulares, Sganzerla escreveu um artigo intitulado “Cineastas do corpo”. Nele, o então crítico dizia que esses cineastas observam “a destruição dos homens pelos agentes externos, os meios criados pela nossa civilização (o avião; o automóvel; a metralhadora; o cinema, responsável pela morte dos personagens de [Jean-Luc] Godard)”. Destruição leva a pensar num aspecto que Paiva destaca nos road movies do período 1960-1980: a presença da ideia de distopia. Tanto em Bonnie and Clyde como em Easy rider os personagens acabam destruídos. Nos filmes brasileiros, o pesquisador vê na estrada a manifestação de uma “incerteza em relação ao que se pode construir em termos de futuro”. Tomando emprestados conceitos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, Paiva considera o road movie expressão da crise da modernidade sólida (em que o movimento supera o espaço), anterior à modernidade líquida (a época atual, das tecnologias que fazem o tempo se sobrepor ao espaço). Esses filmes manifestariam uma “espécie de nostalgia da modernidade sólida” – isto é, do tempo dos trens e do próprio cinema. n

Projeto O filme de estrada no cinema de ficção do Brasil (19601980) (nº 2010/05715-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Samuel Paiva (CECH-UFSCar); Investimento R$ 20.828,84.

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memória 1

1 O médico Borges da Costa (de bigode) e a cientista Marie Curie (centro), durante sua visita ao Instituto de Radium de Belo Horizonte, em 1926

Mineiros contra o câncer Instituto de Belo Horizonte iniciou no Brasil o uso de radioterapia no tratamento de tumores Rodrigo de Oliveira Andrade

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m agosto de 1926, após longa viagem vinda de Paris, a química polonesa Marie Curie desembarcou em Belo Horizonte para uma conferência na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais sobre a radioatividade e suas possíveis aplicações na medicina. Em sua mala, a prêmio Nobel de Física, em 1903, e Química, em 1911, trazia duas agulhas de rádio usadas na irradiação de tumores. Durante a visita, a cientista aproveitou para conhecer o Instituto de Radium de Belo Horizonte, primeiro hospital especializado no uso da radioterapia contra o câncer no Brasil — e para o qual doou as agulhas. As circunstâncias que permitiram sua criação quatro anos antes, em setembro de 1922, surgiram em meio a uma atmosfera de cruzada contra a doença, sobretudo na Europa, no início do século XX, que incentivou médicos brasileiros, como Eduardo Borges Ribeiro da Costa, a expandir suas pesquisas em radioterapia. Em 1920, ao voltar de uma temporada de estudos na Europa, onde conheceu a cientista e a sua obra, o médico se viu diante do aumento dos números de casos de câncer em Minas Gerais. Frente à situação, Borges da Costa, especialista na extirpação de tumores com o bisturi, conseguiu apoio do então presidente


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2 Lançamento da pedra fundamental do edifício do instituto, em 1921 3 Fachada do edifício que abrigava o hospital

fotos  1, 2 e 3 Centro de memória da medicina da Universidade federal de minas gerais  4 Bruna Carvalho

4 Livro de registro de pacientes

do estado, Arthur da Silva Bernardes, para a construção do Instituto de Radium. Erguido nos fundos da Faculdade de Medicina da Universidade de Belo Horizonte — hoje Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) —, o instituto tinha como objetivo o estudo e as aplicações terapêuticas dos raios X e do rádio, elemento químico identificado por Marie Curie e seu marido, Pierre, em 1898. Essas tecnologias, além de recentes, eram difíceis de ser manejadas. Na dose certa, a radiação era eficiente para matar o tumor, mas qualquer erro na dosagem poderia

danificar os tecidos sadios próximos. Em 1924, Belo Horizonte, com uma população de 75 mil pessoas, registrou 56 mortes por câncer, de modo que a inauguração do Instituto de Radium, em 1922, representou muito mais que a criação do primeiro hospital oncológico do Brasil, segundo a historiadora Ethel Mizrahy Cuperschmid, do Centro de Memória da Medicina da UFMG, que estudou os primeiros anos do hospital com sua colega Maria do Carmo Salazar Martins. “Com agulhas radioativas e outros equipamentos e

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médicos modernos, o instituto atraiu doentes de todo o Brasil”, observa. As historiadoras resgataram um pouco da história e da rotina do instituto analisando o livro de registro de pacientes que encontraram em uma de suas alas prestes a ser reformada. Com 199 páginas, algumas bastante desgastadas, outras mordiscadas por traças e cupins, o livro contém nome, idade, local de nascimento, diagnóstico, data de óbito e detalhes do tratamento de 1.653 pessoas diagnosticadas com algum tipo de câncer entre 1923 e 1935. Nesses 12 anos, 481 pessoas morreram no hospital, das quais 45,3% em decorrência da doença, segundo dados encontrados no documento, hoje preservado no Centro de Memória da Medicina da UFMG. O livro registra ainda pessoas atendidas que enfrentaram longas viagens a partir de seus estados para se tratar no instituto. Os médicos não contavam com muitas alternativas à época: ou extirpavam o tumor cirurgicamente, retirando

também uma área vasta de tecido sadio como forma de evitar o reaparecimento da doença, ou o destruíam com radiação. “Era uma escolha entre o raio quente e a faca fria”, comentaram as pesquisadoras em um artigo que detalha suas análises, publicado na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos. Mantido com recursos públicos, o instituto comprava rádio da França, com certificados de dosagem assinados por Marie Curie. O edifício projetado para abrigar o hospital tinha corredores e portas largas e grandes janelas, que aumentavam a iluminação e ventilação dos ambientes. Em 1950, a instituição ganhou o nome Instituto Borges da Costa, em homenagem a seu fundador, morto naquele ano, e em 1964 foi outra vez renomeada, desta vez como Hospital Borges da Costa. O prédio foi restaurado e hoje funciona como ambulatório para pacientes com câncer. Atualmente, os tratamentos radioterapêuticos são feitos em outros hospitais da cidade. n PESQUISA FAPESP 230 | 89


Arte

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A criação do espaço Vera Hamburger procura a essência da direção de arte Márcio Ferrari

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ormada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Vera Hamburger desenvolveu ao longo de três décadas uma sólida e consagrada carreira de diretora de arte, cenógrafa e figurinista no cinema, assim como no teatro e na montagem de exposições. A inquietação e a curiosidade em relação a seu ofício, no entanto, só se intensificaram com o acúmulo de experiência. A partir de 2003, com três projetos paralelos, Vera mergulhou numa investigação profunda sobre a direção de arte, sem deixar de lado a criação profissional. Nesse mesmo período, trabalhou como cenógrafa ou diretora de arte em filmes como Carandiru (2003) e O passado (2007), ambos de Hector Babenco, Não por acaso (2006), de Philippe Barcinski, e Hoje (2010), de Tata Amaral. “Eu percebia que a direção de arte era uma função muito pouco compreendida e em 2003

Filmagem de Carandiru (2003), de Hector Babenco, em que Vera Hamburger fez a cenografia


Equipe de pintura em um dos cenários de Castelo Rá-tim-bum, o filme (2000), de Cao Hamburger. Vera assinou a direção de arte com Clóvis Bueno

fotos 1 marlene bérgamo / acervo hb filmes 2 jeyne stakflett/ acervo vera hamburger  3 ramón canelles / acervo vera hamburger

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comecei a dar aulas com a intenção de discutir com os alunos e refletir sobre isso”, diz Vera. No mesmo ano, ela ganhou uma bolsa da Fundação Vitae para uma pesquisa sobre a direção de arte no cinema brasileiro. “Desde então não parei mais de juntar as duas vertentes, pesquisa e produção artística.” Do trabalho de prospecção teórica e histórica nasceu o livro Arte em cena – a direção de arte no cinema brasileiro, publicado no ano passado pela Editora Senac em conjunto com as Edições Sesc, um compêndio sobre as práticas, atribuições e rotinas da direção de arte (que engloba funções como escolha de locações, cenografia, figurino, maquiagem e efeitos especiais) acrescido da trajetória de quatro nomes da área – Pierino Massenzi, Clóvis Bueno, Marcos Flaksman e Adrian Cooper – e descrições sobre o trabalho realizado em filmes específicos. Na evolução paralela da atividade didática, “a experiência direta passou a ser mais rica do que as aulas expositivas”, o que resultou na criação do laboratório interdisciplinar Fronteiras Permeáveis, realizado em 2013 na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). “Tive a oportunidade, pela primeira vez, de ter o retorno de uma investigação que se desenvolveu exclusivamente no espaço da obra, sem a interferência de uma narrativa”, diz Vera. Essa observação inédita, vinda da “apropriação da recepção dos exercícios pelos alunos”, se desdobrou num terceiro projeto, a dissertação de mestrado O desenho do espaço cênico: da experiência vivencial à forma, defendida no fim do ano passado.

Cena de Kenoma (1998), de Eliane Caffé, com cenografia de Vera: anteprojeto realizado um ano antes de começar a filmagem

O convite para o curso, oferecido como disciplina optativa no Departamento de Audiovisual da ECA, foi aberto a várias áreas. “Minha opinião é que seria ótimo se a universidade adotasse uma abordagem multidisciplinar em vez de investir apenas na especialização”, diz Vera. Selecionados a partir de cartas de intenções, os alunos vieram da FAU e dos departamentos de Artes Cênicas, Artes Visuais e Audiovisual da ECA. O ponto de partida foi organizar exercícios de intervenção no espaço, livres de qualquer roteiro narrativo, a partir unicamente dos elementos essenciais da conformação do lugar – como a linha, ponto, luz, matéria, cor, textura e imagens projetadas – em intervenções construtivas diretas.

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“Tanto no ensino quanto na prática artística, a questão narrativa e conceitual é colocada como primeiro objetivo, quando a aproximação inicial, na realidade, é do corpo e das sensações”, diz Vera, que toma emprestada do artista plástico teuto-americano Josef Albers a ideia de elaborar a teoria através da prática. O primeiro módulo constitui-se em desenvolver essas percepções em espaços delimitados. O segundo transportou a experiência para locações, ou seja, ambientes não controlados. E o terceiro se voltou para a teorização a partir do processo experimentado. “O que constatei foi uma relação distinta de cada participante com as diretrizes do curso”, diz Vera. Um dos alunos, em seu relatório final, deu o seguinte depoimento: “Permaneci concentrado nos chamados elementos primordiais. E todo o trabalho coletivo entrou em foco. Passei a observar o que eu tinha interesse em fazer e aquilo que efetivamente conseguia realizar. (...) Foi como dar um giro de 180 graus em meu modo de ser. (...) De repente o mundo dos significantes superou o dos significados.” A própria professora absorveu a experiência de maneira semelhante e percebe a conexão entre a vivência pedagógica e a criação de novas dinâmicas de trabalho na elaboração de projetos cenográficos ou na prática corrida de um set de filmagem, exercícios permanentes de criação da obra coletiva. “Cada um tem um tempo e uma contribuição”, diz Vera. O termo direção de arte só aparece pela primeira vez nos créditos de um filme brasileiro em 1985, em O beijo da mulher aranha, de Babenco.

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Foi nessa época que Vera começou a trabalhar na área. Ela percebe, desde então, uma evolução na valorização e na concepção mais clara da direção de arte, que forma com o cineasta e o diretor de fotografia o tripé da concepção visual de um filme. Dada a complexidade das funções de cada um, é da natureza do processo que todas as instâncias tragam consigo um conceito diferente da realização. Como diz um dos entrevistados do livro, o diretor de arte Clóvis Bueno, faz-se um exercício de conquista do outro. “Vivemos o sofrimento e o prazer ao mesmo tempo, mas é sempre um exercício incrível”, diz Vera, que ainda tem uma parte de sua pesquisa a ser publicada. Trata-se da história da cenografia e da direção de arte no cinema ficcional brasileiro, desde seu nascimento na virada do século XIX para o XX. n

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fotos 1 divulgação  2 acervo cinemateca brasileira

O italiano Pierino Massenzi projetou e construiu a primeira cidade cenográfica da América Latina para Tico-tico no fubá (1952), de Adolfo Celi. Ao lado, o circo montado por ele para o filme. O livro Arte em cena traz o depoimento do cenógrafo


resenha

Humor é coisa séria Vinicius de Figueiredo

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eduardo cesar

A forma e o sentimento do mundo – Jogo, humor e arte de viver na filosofia do século XVIII Márcio Suzuki Editora 34 / FAPESP RS 63,00 | 560 páginas

m meio promissor de apresentar o novo livro de Márcio Suzuki é atentar ao subtítulo: “Jogo, humor e arte de viver na filosofia do século XVIII”. Como esses temas se articulam no século do Esclarecimento? Comecemos pela “arte de viver” – uma ideia antiga, conforme a qual a filosofia é uma arte para atingirmos a tranquilidade da alma. Se a filosofia representou uma alternativa à religião, foi por nos assegurar contra os males deste mundo. Marco Aurélio dizia que participamos de um todo ordenado, o “cosmos”, cujas razões devemos ter em mente para desfrutar da vida com serenidade, haja o que houver. A “natureza”, vista como organismo, deveria guiar a vida prática. Essa “arte de viver” irá reaparecer no século XVIII, só que com outra feição. Agora, a filosofia será útil aos homens, desde que os distraia de si mesmos. Com acuidade, Suzuki mostra que o “divertimento”, tematizado por Pascal como fuga de nossa miséria, reaparece de modo atenuado, mas central, no pensamento moral britânico setecentista (o protagonista do livro). O “jogo” do subtítulo torna-se metáfora da atividade filosófica, concebida como elemento lúdico que a emancipa de qualquer intuito salvífico como o da religião. A filosofia evita o tédio, é útil socialmente e apraz. Torna-se entretenimento. Embora possamos entreter-nos a sós, é mais comum fazê-lo em grupo. Pensar, então, solicita o convívio social e dele toma sua medida. Examinando D. Hume (1711-1776), Suzuki explica por que o pensamento britânico setecentista fez tanto ensaísmo. É que o ensaio toma por modelo a conversação. Já no plano de sua forma expositiva, pensar consiste no diálogo com os outros. Outra implicação da ancoragem social da filosofia é o elogio à mediania. O diálogo requer que os interlocutores possuam afinidades e interesses comuns que vão além da promoção de sua mútua segurança (Hobbes). Imagine alguém que, admitido numa mesa de pôquer, perde uma mão após outra, sem que isso o aborreça – ele tem dinheiro de sobra. Fácil adivinhar o que sucede: a mesa desanda, pois o jogo, assim como o bom convívio, não admite assimetrias excessivas. Sua presença inviabilizaria não apenas a conversação, como também o comércio e o bem comum.

Nessa chave, F. Hutcheson (1694-1747) estende os prós da mediania para além do social; no âmbito psicológico-cognitivo, a mente que se mantém em um estado intermediário contorna todo tipo de uneasiness. A mediania traz benefícios não só para o indivíduo, como para o conjunto. Foi tendo isso em vista que Hutcheson concebeu nossa felicidade como resultado do cálculo entre bens e malefícios, cujo êxito requer a administração das expectativas e da satisfação individual que leve em conta o bem comum. Se a ars vivendi requer autocontrole, é menos a título de usura que de equanimidade. Conversação, mediania, acumulação e bem comum: essas ideias não seriam expressões do capitalismo em formação, especialmente no Reino Unido do século XVIII? A reconstrução que Suzuki faz dos temas que vão de Shaftesbury (16711713) a A. Smith (1723-1790), passando por Hume, Hutcheson e Kames (1696-1782), levanta pistas nessa direção. Segui-las nos levaria à órbita em torno do clássico de Weber sobre o espírito do capitalismo, com a diferença de que, nos autores examinados aqui, a ascese intramundana já foi atenuada a ponto de incorporar, no ideal do gentleman, humor e crítica. O Deus transcendente dos reformados dá vez ao moral sense que guia nossas atitudes e admite o refinamento. O que Kant, cuja presença atravessa todo o livro, tem que ver com isso, logo ele que fomos habituados a opor a Hume? Seguindo seus cursos de antropologia, Suzuki reconstrói a apropriação genuína que Kant fez dos britânicos, dos quais foi um leitor arguto e penetrante. E fornece, assim, uma tese original e instigante quanto à gênese do juízo estético e do “livre jogo” entre as faculdades da mente que, na Crítica do juízo, caracteriza a eminência da atividade filosófica. Mas logo nisso Kant teria sido tributário dos “empiristas”? Quem aprendeu filosofia apoiando-se em oposições rígidas, especialmente se for um kantiano, não deve ler este livro. A não ser que saiba rir de si mesmo. O que não seria pouco; como ensina Suzuki, o humor é coisa séria. Vinicius de Figueiredo é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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ficção

Serraterra Carlos Henrique Schroeder

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esde os oito anos acompanhava seu pai, e com doze João ganhou seu primeiro serrote. “É teu, mas cuida, corta, e feio.” E assim passou de um mero observador a assistente. Ele subia primeiro, amarrava uma corda num galho resistente, fazia o nó que seu pai lhe ensinara. “Nem um navio a todo vapor acaba com esse nó.” E a corda entrava por um furo e saía por outro no colete de couro de vaca, que sua mãe fizera, e por fim era amarrada na outra extremidade da corda, por outro poderoso nó. Caso se descuidasse, ficaria suspenso, e não desabaria como uma maçã podre. Com o serrote desbastava os galhos mais finos, se embrenhava na árvore e, como era leve e pequeno, conseguia chegar nos pontos mais altos das árvores, limpava a área para subida de seu pai. E não tinha medo, subia rapidamente, não sabia muito bem o que era a dor, o que era a morte. Ele apenas não gostava de subir em eucaliptos, pois quase não havia copa, e o chão estava sempre à vista: os galhos também eram distantes uns dos outros, e os eucaliptos mediam dezenas de metros de altura. E agora cada vez mais se plantavam eucaliptos, para fins industriais e também nas grandes residências: os ricos gostavam da opulência da árvore, naquele tempo. O pai viera da região oeste do Paraná, do distrito de Cascavel, hoje município homônimo. Trabalhara durante muitos anos na extração de madeira nativa, para empresas madeireiras regionais, até que uma dessas empresas resolveu abrir uma filial no nordeste de Santa Catarina. Seus pertences couberam numa saca de feijão de cinquenta quilos: algumas roupas e uma bíblia. Nunca mais viu seus pais ou algum dos seus treze irmãos, e era assim naquela época, quando alguém partia, realmente partia. Morou nos

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fundos da madeireira, com outros peões, durante alguns anos, até que conheceu Salete, a filha da faxineira do escritório da madeireira. Em pouco tempo se casaram, e ao lado da casa do seu sogro ele ergueu sua casa, toda em madeira, com ajuda dos cunhados e do sogro. A madeira era retirada da mata e trazida para o terreno com a carroça do Gerçon, o carroceiro do bairro. Com a casa pronta, saiu da madeireira e passou a trabalhar sozinho, primeiro extraindo madeira da mata e vendendo às famílias do bairro e depois como aparador e cortador de árvores, o que se mostrou mais lucrativo, pois a extração da madeira era perigosa e demorada, numa época em que motosserras pesavam sessenta quilos e custavam uma verdadeira fortuna. E com ele era na serra, no serrote e no braço. “Quando se tem braço, pra que motor?” Chegaram os filhos: um, dois, três, quatro. Dois meninos e duas meninas. Ao primogênito, João, nome de apóstolo, decidiu passar sua paixão pelo corte da madeira. E escondia o orgulho ao ver seu filho, ágil como um sagui, de galho em galho, serrando e serrando. E ensinara João a sentir o cheiro e a textura de cada árvore, a imaginar o peso do galho pela extensão e pelo tipo da madeira, e, principalmente, saber o tanto de trabalho que cada tipo de árvore dava ao ser cortada ou desbastada ou transportada. Cortar é a parte mais fácil, difícil é prever para que lado o galho vai pender, qual o estrago que vai causar e onde vai cair. Em Cascavel já havia visto inúmeros acidentes: pernas e braços arrancados e todo o tipo de esmagamento. Membros pendurados, tripas à mostra, e certa vez um galho de pinheiro-brasileiro atravessou o Augusto, seu companheiro de trabalhos. E não importa a espécie, pau-brasil, jacarandá, peroba, garupuvu, jequitibá-rosa, cedro, eucalipto, o barulho é o mesmo ao cair, um ruído assustador. Havia um prazer secreto no corte de


alexandre camanho

árvores, uma sensação de poder, a força do braço subjugando a natureza, e, quando o galho ia ao chão, uma sensação de vitória. Ele ensinara seu ofício a João, e também a sobreviver na mata, a reconhecer os pássaros pelo cantar, e conhecer os costumes das cobras, principalmente das jararacas, que também subiam em árvores. Não havia como evitar as cobras, era preciso vê-las, afugentá-las, ou em casos mais extremos matá-las. E treinou seu filho para perceber as cobras no meio das árvores, na vegetação fechada, onde fosse preciso. Mas João quis a cidade. Aos dezoito anos comunicou seu pai que não queria mais cortar árvores, seus amigos iam, todos, trabalhar na Tigre, que até 1941 fabricava pentes de boi, mas desde 1950 começara a fabricar tubos e conexões de PVC. Iria ganhar o mesmo que ganhava com seu pai, mas o serviço era mais leve. “Só digo uma coisa, na hora de cortar, você nunca sabe para que lado vai cair o galho.” Este ditado era usado para tudo por seu pai, um homem de uma frase. E foi o que disse quando João lhe comunicara que iria trabalhar na cidade, e também quando Matheus destruiu a vida de todos, serrando. Cada árvore tinha sua textura, seu peso, seu cheiro específico: não existe “madeira”, dizia seu pai, mas sim jequitibá-rosa, mangueira, peroba et cetera... Não devíamos generalizar, nunca, era como chamar todos de “gente”. Embora parecesse aceitar bem, nunca digeriu muito bem a traição do primogênito, que trocou a arte de lidar com a madeira pela manipulação de produtos plásticos. Não entendia como João trocara a liberdade de trabalhar em horários alternativos, em meio à natureza, com algo que era realmente vivo, pulsante, como a madeira, para ficar trancafiado num depósito, cheirando plástico oito horas por dia. E este ressentimento pas-

sou a pontuar a relação dos dois e, como ambos eram de poucas palavras, o contato passou a ser cada vez mais estreito. Logo João saiu de casa, alugou um quarto numa pequena pensão próxima da empresa e, como era dedicado, começou a prosperar, e logo ficou encarregado do setor de expedição, ganhando o dobro do que ganhava com seu pai. Conheceu Márcia, que seria sua esposa. E o pai direcionou sua atenção para Matheus, seu filho caçula, o preferido da mãe e das irmãs do meio. Ensinou a plantar e matar árvores, um pouco de marcenaria. Mas Matheus não era paciente como João, e mais uma vez ele viu um de seus abandoná-lo. O filho mais novo não queria saber de madeira, para ele estava claro que a alvenaria era o futuro, e tornou-se servente do Gumercindo, um dos bons pedreiros do bairro. Queria aprender, queria logo ser um pedreiro, tão bom quanto o viúvo Gumercindo, e por isso foi morar com o velho ranzinza, grosso e turrão, para aprender. Então o pai deu serrotes para as meninas, e as ensinou a serrar madeiras menos resistentes, pois na casa dele todos tinham serrotes, até Salete. “Quem tem um serrote, tem tudo, pode construir uma casa, se perder na mata que vai achar comida, pode se defender.” Quando casou e mudou para uma pequena casa, João colocou seu último serrote numa moldura, e pendurou na parede de sua sala, para que soubessem que a sua família era de homens de serra. “Quero que meu futuro filho herde este serrote, e isto só vai sair da parede quando eu morrer.” Mas o serrote sairia da parede uma semana depois. O pai de João soube pelo rádio, à noite, e chorou como criança, como nunca chorara. E repetia o quinto e o sexto mandamento, ininterruptamente. “5 – Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.” “6 – Não matarás.” O motivo da discussão teria sido a perda de um prumo. Gumercindo e Matheus trocaram socos, e sabe-se apenas que o resultado final de tudo foi o corpo do primeiro, serrado em 11 partes, e jogado numa vala que Matheus tentara cavar no quintal da casa de Gumercindo. Matheus sumira, e nunca mais ninguém ouvira falar dele. O pai proibira a pronúncia do nome dele em casa, e a mãe rezava todas as noites, bem baixinho, um murmúrio, para que deus perdoasse seu filho, que era um bom menino, embora tivesse cometido um erro. O pai recolheu todos os serrotes da casa, pediu o de João também, fez um grande buraco e enterrou todos. “Lugar de serra é na terra, a partir de agora.”

Carlos Henrique Schroeder é contista e romancista. Autor de Ensaio do vazio (2006, e adaptado para os quadrinhos em 2012) e As certezas e as palavras (2010, Prêmio Clarice Lispector da Biblioteca Nacional), dentre outros. www.carloshenriqueschroeder.com.br

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carreiras

Empreendedorismo

Processo acelerado Programa Supernova torna ideias e projetos mais maduros dentro da universidade antes de entrar no mercado Uma estrutura para aqueles que queiram experimentar e avançar em uma ideia ou projeto de um possível novo medicamento ou diagnóstico elaborado nos laboratórios da Universidade de São Paulo (USP) nas áreas de biomedicina e biotecnologia está disponível para professores, pesquisadores e alunos. O Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da universidade abriga um programa que acelera a formatação de ideias e projetos de novos produtos e os torna mais maduros, do ponto de vista científico e tecnológico, antes de se aventurarem no mercado. Chamado de Programa Supernova, 96 | abril DE 2015

a iniciativa se baseia inteiramente na experiência do Spar, uma plataforma criada dentro da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, pela professora Daria Mochly-Rosen, química que atua na Escola de Medicina da mesma universidade. “O Supernova é um acelerador de projetos dentro da academia que serve para agregar valor em uma possível aplicação em curto e médio prazo”, diz o professor Julio Cesar Batista Ferreira, do ICB e fundador do Supernova. Ele, por dois anos, enquanto fazia o pós-doutorado em Stanford, acompanhou o Spark, onde o foco maior está na descoberta de novos

medicamentos e diagnósticos. Criado em 2007, o programa norte-americano já acelerou 51 projetos. Desses, apenas oito foram paralisados porque apresentaram resultados insatisfatórios. Vinte e dois foram licenciados e estão em estudo clínico; outros sete foram licenciados, mas não passaram por testes. Treze estão prontos para interessados em licenciá-los. O Spark não recebe royalties, apenas a universidade e os pesquisadores. Outro diferencial desse tipo de estrutura é que mesmo antes de formar uma empresa os professores, pesquisadores e


foto  eduardo Cesar  ilustraçãO  daniel bueno

alunos que tenham uma molécula ou uma substância com potencial para ser transformada em medicamento, por exemplo, têm à disposição a assessoria de um conselho formado por acadêmicos de instituições paulistas e internacionais e consultores da indústria. “Esse conselho recebe a cada três meses um relatório do que está acontecendo”, diz Ferreira. Um dos primeiros passos para a ideia ou projeto avançar é elaborar um plano de negócios voltado para o mercado e as possibilidades do futuro produto. Hoje, quatro projetos estão selecionados no Supernova. “O tempo para a ideia ou projeto ser licenciado ou ganhar uma estrutura de empresa é de dois anos.” Principalmente nos candidatos a medicamentos, a formação da empresa favorece a captação de recursos financeiros para os testes clínicos que demandam muito investimento. O acompanhamento de perto por especialistas traz vantagens evidentes. “Na área de descoberta de medicamentos, segundo a experiência do Spark, o custo de cada projeto cai 10 vezes em relação ao processo inicial na indústria”, diz Ferreira. Além do ICB, o Supernova também serve às áreas de biotecnologia da Escola Politécnica (Poli-USP), às faculdades de Medicina, Farmácia e Veterinária da USP. Entre os consultores, que são voluntários, estão profissionais do Instituto Butantan, das empresas Dow, Roche, Startup Design, Axonal, Recepta Biopharma, Cemsa e Pluricell, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec). Mais informações no site http://sparksupernova. com.br/. n Marcos de Oliveira

perfil

O engenheiro diferente Consultor de P&D dá nome a critério de projeto na área de motores Eduardo Tomanik é um engenheiro mecânico que trabalha na Mahle, multinacional de autopeças de origem alemã, faz pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e batizou um parâmetro internacional em tribologia, área que estuda o atrito, o desgaste e a lubrificação. O Critério Tomanik de conformidade de anéis de cilindros de motores automotivos apresentado em artigo técnico em 2009 é citado por autores da área e utilizado em softwares de simulação por várias empresas no mundo. Tomanik tem 57 anos e começou a trabalhar na Embraer, em São José dos Campo (SP) logo depois da graduação na Escola Politécnica da USP. “Foi muito importante trabalhar lá por dois anos, como recém-formado aprendi a ter um rigor técnico, consultar bibliografia e normas técnicas”, diz. Depois, em 1984, por querer voltar para a capital paulista, ele entrou na Cofap, em Mauá, na Grande São Paulo, empresa que produzia autopeças e em 1997 foi comprada e dividida entre Mahle e Magneti Marelli. “Na Cofap havia menor ambição tecnológica e eu gostava de um aprofundamento teórico e por isso era visto como estranho. Mas os gerentes e diretores também queriam que a companhia inovasse e aceitavam que pelo menos um engenheiro fosse diferente e aí concordaram que eu fizesse mestrado na USP, coisa que na indústria era algo fora do padrão

naqueles tempos”, lembra Tomanik. “Eles concordaram que eu passasse meio dia por semana na USP, onde tive o professor Francisco Nigro como orientador, que alinhava bem prática e teoria.” Depois, Tomanik fez o doutorado também com o mesmo orientador e começou a publicar em revistas científicas, sendo o primeiro doutor “produzido” na Cofap. “Até tiveram que arrumar o nome de pesquisador para cargos como o meu.” Em 1997, a parte de motores da Cofap ficou com a Mahle e tudo mudou. Nas empresas alemãs, o reconhecimento por títulos de pós-graduação é maior, assim como o rigor tecnico e o entrosamento com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Mahle em Stuttgart, na Alemanha, foi muito rápido. “As minhas publicações ajudaram muito.” Tomanik é consultor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) do Centro de Tecnologia da Mahle em Jundiaí (SP) e apenas uma vez ocupou um cargo de chefia nos 30 anos de empresa. “Embora interessante, o cargo tinha a parte burocrática que não me atrai, preferi voltar para a pesquisa, tenho vários projetos com a USP, MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] e Universidade de Halmstad, na Suécia”, diz. Ele atua também na Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE) como coordenador do comitê técnico de motores Otto. No pós-doc participa de projetos como um do Programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) da FAPESP sobre tribologia em motores flex-fuel, em que a Mahle participa. n M. O. PESQUISA FAPESP 230 | 97


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Projeto FAPESP-SCOPE Bioenergia & Sustentabilidade

SIMPÓSIO DE LANÇAMENTO DO VOLUME DE SÍNTESE

OBJETIVOS

QUANDO

• Lançamento do Volume de Síntese “SCOPE Bioenergy & Sustainability: bridging the gaps”, resultado de uma análise global sobre a expansão sustentável da bioenergia no mundo, conduzida por 136 pesquisadores de 81 instituições e 24 países

14.4.2015 10h às 17h30, na FAPESP

• Discussão dos desafios, lacunas no conhecimento e da ciência necessária para que os múltiplos benefícios da bioenergia sejam alcançados • Apresentação dos últimos desenvolvimentos ao longo de toda a cadeia de produção da bioenergia, desde o uso da terra e produção de biomassa, até as tecnologias de conversão para combustíveis líquidos, bioeletricidade, biogás e calor • Recomendações para políticas públicas, considerando-se os impactos social, econômico e ambiental, em face das mudanças climáticas, segurança energética, alimentar e dos ecossistemas na transição para a bioeconomia O relatório apresenta soluções tecnológicas e novos conhecimentos gerados em iniciativas de produção e uso da bioenergia, em vários contextos e regiões do mundo. Este é o primeiro de uma série de simpósios regionais a serem realizados no Brasil, América do Norte, Europa, África e Ásia para divulgar os resultados científicos, soluções e recomendações do relatório.

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PÚBLICO-ALVO Comunidade científica, representantes de governos e ONGs, indústria, agências de fomento, parceiros dos programas FAPESP de pesquisa em biodiversidade, bioenergia e mudanças climáticas,imprensa.

Mais informações www.fapesp.br/eventos/scope


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