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ARTE MODERNA E CONTEMPORÂNEA EM OLINDA

TÂNIA CARNEIRO LEÃO PINTURAS E DESENHOS


Tânia Carneiro Leão

julho/2018


José Tavares Retrato de Tânia, 1969 Guache sobre Papel, Coleção Tânia Carneiro Leão


Tânia Carneiro Leão e a casa da amizade Que o Sítio Histórico de Olinda é um lugar de artistas todos sabem: de pintores, escultores, gravadores, desenhistas, músicos, de artistas contemporâneos em todas suas manifestações, de dançarinos, fotógrafos, cineastas, escritores, teatrólogos, poetas. Isto é mais do que sabido. Também é sabido que isto aconteceu entre as décadas de 50/60, com a presença aqui de artistas como Montez Magno, Anchises Azevedo e Adão Pinheiro, protagonistas da invenção da modernidade na arte daqui. É claro que a cidade, seu traçado colonial, sua arquitetura antiga e, sobretudo, a paisagem resultante de sua topografia, sempre foi fonte de prazer para o olhar. Por outro lado sendo Olinda uma cidade pequena que fica a cinco quilômetros de uma cidade grande, o espírito metropolitano do Recife sempre a alimentou de ideias novas, modernas e contemporâneas (no sentido artístico do termo). Porém o que seria de um núcleo urbano cujo talento é a arte sem o papel de inteligências que apoiam, apoiaram e promoveram os protagonistas desta singularidade? Podemos citar inúmeras pessoas responsáveis por

isto, num pequeno exemplo temos de cara Gilberto Freyre, não apenas com sua presença e amizades aqui, mas também por seu livro sobre a cidade magnificamente ilustrado por Manoel Bandeira, o pintor e desenhista. Também tivemos Assis Chateaubriand e seu cavalheiresco gesto de colocar aqui o Museu de Arte Contemporânea, fruto de sua Campanha Nacional de Museus Regionais. Finalmente Aloisio Magalhães que, como Secretário Nacional de Cultura empenhou sua vida para dar a Olinda o título de Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade. Citando estas três personalidades homenageamos inúmeras outras que caucionaram o status cultural desta cidade. Sabemos, porém que foi mesmo em Olinda que o grande apoio surgiu através da Prefeitura que possibilitou o aparecimento de movimentos e instituições como, por exemplo, O Movimento da Ribeira apoiado pelo Prefeito Eufrásio Barbosa, e a Oficina Guaianases de Gravura, iniciativa do pintor João Câmara e um grupo de amigos onde se destacaram os artistas José Carlos Viana e Delano, e o arquiteto e preservacionista Antenor Vieira de Melo, também diretor da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Olinda, com o apoio do Prefeito


José Arnaldo, e a Prefeita, hoje Deputada Federal, Luciana Santos apoiando o projeto proposto por Tereza Costa Rego “Olinda Arte em Toda Parte”. Esta pequena introdução tem o propósito de falar sobre a exposição da pintora Tânia Carneiro Leão, uma das protagonistas desta singularidade que caracteriza nosso burgo. Tivemos a ideia de convidar Tânia Carneiro Leão para iniciar a série de exposições da Galeria 02 na ocasião da inauguração do Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa exatamente para homenagear este homem público cuja casa, onde ela ainda reside ao lado de seu Marido, o escritor e professor Carneiro Leão, membro do Conselho de Cultura do Estado, e Rodrigo Carneiro Leão, o filho do Casal e Consul Honorário do Uruguai, é atribuída ao arquiteto Louis Vauthier, foi território da intelectualidade pernambucana. A casa de Eufrásio Barbosa sempre foi, em Olinda, a casa da amizade. Uma tentativa, mínima e falha certamente, de listagem, vamos iniciar pelo poeta Carlos Pena Filho, de quem Tânia é viúva, e que foi pai de sua filha Clara Pena, certamente trouxe seus pares, poetas locais de sua época. Do lado de sua mãe, Dona Otília, o seu irmão, o jornalista Odorico Tavares, superintendente dos Diários Associados da Bahia no tempo do famoso governador Balbino, que era um dos conselheiros de Assis Chateaubriand inclusive para assuntos de arte, sendo


da esquerda para a direita: Zélia Gatai, Jorge Amado, Eduardo Portela, Carlos Pena Filho, Tânia Carneiro Leão e a condessa Paços D’Arcos, Maria da Graça Feira de Santana/BA, 1960, Acervo Tânia Carneiro Leão


Gilberto Freyre, Carlos Pena Filho e Di Cavalcanti Acervo Tânia Carneiro Leão


colecionador também, chegando a ter uma das grandes coleções de arte do Brasil conservada até hoje por sua família. Sabe-se da influência de Odorico na localização em Olinda do Museu de Arte Contemporânea – MAC, com seu importante acervo. Entre os amigos e frequentadores da casa de Eufrásio estavam Miguel Arraes, Mauro Mota, o casal Jorge Amado e Zélia Gatai, O pintor Di Cavalcanti, Capiba, Pelópidas da Silveira, Marcos Freire e Ascenso Ferreira. Quando Eufrásio como Prefeito foi forçado pela Câmara Municipal a substituir Adão Pinheiro na sua Secretaria de Cultura o fez por Vicente do Rego Monteiro, contounos Tânia que, em sua humildade e respeito pela cultura, ele disse: “Olinda é diferente, é a cidade em que o Secretário de Turismo e Cultura é mais importante do que o Prefeito”. Definia Eufrásio nesta afirmação a vocação verdadeira de Olinda. Nesta casa Tânia viveu cercada de artistas escritores e políticos, todos parentes e amigos da família. Dedicou-se ao antiquariato, comprando e vendendo obras, móveis e objetos antigos, e à poesia. Porém sua paixão é a pintura que exerce intensamente engajada no modernismo típico daqui, com seus aspectos regionais, mas não regionalistas. Esta diferença é fundamental por que sua pintura não exalta o folclore, tão pouco é arte naïfe, é a pintura de quem vê sua casa, seu jardim sua rua, sua cidade. Numa de suas séries de quadros ela pintou mapas recriados dos desenhos dos holandeses

recolocando Olinda e Recife em seus lugares do passado, pois vivemos mais no tempo do que no espaço. O próprio Gilberto Freyre, pintor amador (não pintor de domingo, pois esta alcunha se deve aos que saiam de casa para pintar paisagens ao ar livre nos fins de semana), autor do Manifesto Regionalista, também não era folclórico, mas um amante do folclore, e também não era naïfe – como poderia um homem de cultura acadêmica como ele ser? – mas um sabedor da arte moderna que exercia poeticamente, embora utilizasse alguns temas expressos pelo povo. Tânia representa a atitude de quem não sacramenta o artista, mas a arte, mesmo que este mistério humano não se defina hoje em dia. Achamos fundamental o rito de exercer a arte sem balizamentos estéticos, mas dentro da ética social que faz dela uma atividade humana, independente de qualidades – o que não faltam na obra de Tânia – ou de rótulos teóricos. A arte também como “fazer”, como desejo e exercício do prazer. Raul Córdula Olinda, junho de 2018


Tânia Carneiro Leão Flores Tinta Acrílica sobre Tela, Coleção da Autora


Soneto do Desmantelo Azul Carlos Pena Filho Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas, depois, vesti meus gestos insensatos e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente e aprisionar no azul as coisas gratas, enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos que no excesso que havia em nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos e vimos que entre nós nascia um sul vertiginosamente azul. Azul.


Tânia Carneiro Leão Interior com Café, Flores e Frutos Tinta Acrílica sobre Tela, Coleção da Autora


Tânia Carneiro Leão Flores e Frutos Tinta Acrílica sobre Tela, Coleção da Autora


Tânia Carneiro Leão Natureza Morta, 2006 Nanquim sobre papel, Coleção da Autora


Tânia Carneiro Leão Natureza Morta, 2006 Nanquim sobre papel, Coleção da Autora


Tânia Carneiro Leão Natureza Morta, 2006 Nanquim sobre papel, Coleção da Autora


Tânia Carneiro Leão Flores e Frutos Tinta Acrílica sobre Tela, Coleção da Autora


Eufrásio Barbosa e Marcos Freire Acervo Tânia Carneiro Leão


Seção solene de restituição dos mandatos de Eufrásio Barbosa e Marcos Freire Câmara de Vereadores de Olinda Antes de tudo, gostaria de saudar as famílias dos honrados senhores vereadores, Antônio Bezerra Gomes, Antônio Marques Dourado e Roberval de Souza Lopes, injustamente cassados pelos insignificantes governos ditatoriais e discricionários que por aqui passaram. Incorporo-me, em também homenagear suas excelências os Srs. Vereadores Élcio Siqueira (compadre do meu avô Eufrásio), Luciano Soares, que teve uma vida toda de lealdade aos amigos, Luiz Paiva, de caráter exemplar, Severino Arruda, que tive a honra de conviver de perto e que faz muita falta a Olinda e a esta casa e, ainda, Antonino de Matos Peixoto Guimarães. Esses cinco vereadores devem compor um lugar de destaque na galeria de honra desta Câmara e na história recente de Olinda pelas suas bravuras e firmezas de propósito. Estendo a minha saudação aos familiares do militante político Glauco de Albuquerque Pinheiro Menezes.


PREFEITO EUFRÁSIO BARBOSA Exmo. (a). Senhor (a).Presidente, Vereador (a). Eufrásio nunca foi neófito em política, apesar de sua atividade de industrial. Natural da Lagoa do Carro, seu pai Manoel Barbosa, ou melhor, o Cel. Manoel de Balbina, era o chefe político daquele distrito e de seus arredores. Aos 16 anos, elegeu-se vereador do recém-criado município de Floresta dos Leões, hoje Carpina, que abrangia o distrito de Lagoa do Carro. Nunca esteve vinculado a partidos ou ideologias, mas sempre participou dos movimentos políticos e culturais do Estado. Sua gestão na Prefeitura de Olinda foi revolucionária e exitosa. Individualista, criativo, inovador, incansável trabalhador, Eufrásio transferiu sua experiência como empresário da indústria para a Prefeitura, Interferindo em todas as áreas da administração pública municipal. Atualizou as ultradefasadas tarifas do IPTU e cobrou impostos de quem devia e de quem nunca pagava. Naquela época, os serviços de água e luz eram administrados pelo Município, através da repartição SALO e eram deficientes e precários. Empenhou-se em resolver essa carência com o auxílio da SUDENE e do Governo do Estado e o fez no mais breve tempo possível.

Dedicou-se em trazer indústrias para o Município e, em pouco tempo, treze delas estavam se instalando, dentre as quais, a maior fábrica de cerveja da região norte e nordeste, a Cervejaria Antarctica. Recebeu por isso um ofício da Federação das Indústrias, dirigida então por Miguel Vita, parabenizando e congratulando-se com as medidas da Prefeitura de Olinda a favor de sua industrialização. Criou a Secretaria de Turismo, inexistente até então, onde Adão Pinheiro e, posteriormente, Vicente do Rego Monteiro tiveram uma inovadora atuação, refomando o Mercado da Ribeira e transformando-o no mais importante centro artístico de Pernambuco, atraindo para Olinda dezenas de artistas de todos os feitios. Dentre eles, Ypiranga Filho, Guita Charifker, João Câmara, José Barbosa, José Tavares, Luciano Pinheiro, Adão Pinheiro, José Cláudio da Silva. Sobre esse assunto, recomendo a imprescindível leitura do livro “Utopia do olhar” do crítico literário e artista plástico Raul Córdula Filho. Esse livro, inclusive, está entre os finalistas para receber o prêmio da Associação Brasileira dos Críticos de Arte, ABCA. Com a colaboração de Murilo Marroquim, restaurou o antigo Aljube (a detenção da rua 13 de maio), que estava em ruínas, para abrigar o Museu de Arte Contemporânea, para o qual Assis Chateaubriand contribuiu com inúmeras obras artísticas, dentre as quais quadros dos renomados pintores Portinari, David


Hockney e De Chirico além, da doação por parte do banqueiro norte-americano, David Rockfeller de um quadro de Gothlib, tornando-o um dos mais importantes museus do país. Recepcionando Assis Chateaubriand no mercado da Ribeira, outorgo-lhe a chave da cidade e o título de cidadão olindense. Recebeu posteriormente do mesmo, um estimulante telegrama: “Eufrásio, adoro festa arraial. A Ribeira e Olinda entraram no meu coração e continua fuçando dia e noite”. Em apenas 03 meses de mandato, enviou uma mensagem a esta Câmara de Vereadores, lida pelo seu Chefe de gabinete, o Jornalista Samir Abou Hana,( a quem rendo as minhas homenagens),onde prestava contas das realizações da prefeitura nesses primeiros 90 dias. A mensagem informava dentre outros: ›› O aumento das matrículas escolares de 2.831 alunos para 4.323. Também relatava o substancial aumento no serviço de captação d’água do município de oito mil para catorze mil metros cúbicos diários, que beneficiaram os bairros de Águas Cumpridas, Beberibe, Peixinhos e Bairro Novo. Foi criado um posto médico em Caixa D’água e comprado novas ambulâncias para o serviço médico da cidade. ›› Na área da energia, se realizava uma ampla

melhoria da iluminação pública, com a compra de transformadores e postes através de convênio com o Governo Alemão que disponibilizou recursos. ›› Nesses noventa dias foram calçadas mais de 8 km de ruas em Peixinhos, Vila Popular, Amaro Branco, Bairro Novo e Cidade Alta. ›› Também foi criado o “Jornal de Olinda” com distribuição gratuita para a população. Com todas essas medidas, Eufrásio desagradava políticos e moradores reacionários, que não se conformavam com o sucesso e o prestígio da nova administração. ›› Ao completar um ano de mandato, havia pavimentado 36 km de ruas, e, pasmem, os senhores, a arrecadação do município foi ampliada em $ 56 milhões a mais que a soma dos últimos quatro anos do governo anterior. ›› Em 1963, recriou a bandeira de Olinda através da lei 2.388, símbolo de qualquer pátria, a desde então bandeira de Olinda tremula até os atuais dias e é, sem dúvida, uma das mais bonitas bandeiras do Brasil. ›› No ano de 1965, Eufrásio é escolhido pela imprensa pernambucana, “o Prefeito do Ano”.


Muito embora tenha recebido diversas homenagens de Olinda, dentre elas a fixação de seu nome no Mercado do Varadouro, o agora “Mercado Eufrásio Barbosa”, não poderia ter recebido maior homenagem que esta, na tarde de hoje. Pela grata iniciativa do eminente vereador Marcelo Santa Cruz, esta casa de Bernardo Vieira de Melo, Primeira Câmara de Vereadores do Brasil, resolve restituir o seu mandato popular que nunca deveria ter sido cassado, posto que, não se cassa mandato oriundo do povo.

de Eufrásio ter sido proibido de assumir o seu mandato ao seu lado pelas forças arbitrárias e antidemocráticas que rasgaram a constituição e tomaram de assalto o poder no Brasil.

Uma dia inteiro seria muito pouco para falar das inúmeras realizações deste grande prefeito. Prefiro também não fazer maiores comentários sobre a sua prisão no 7º R. O bem como das atrocidades, torturas e desaparecimentos cometidas pela indecente ditadura militar aos inúmeros militantes políticos deste Brasil a fora, a exemplo de Fernando Santa Cruz, irmão do vereador Marcelo Santa Cruz. Todavia, gostaria de destacar em Eufrásio que uma de suas maiores heranças foi ter indicado para candidato a prefeito o inesquecível líder político, o Prefeito, Deputado Federal, Senador da República e Ministro de Estado da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, Professor e grande figura humana, Marcos de Barros Freire, que num ato de extrema coragem e grande espírito público, renunciou ao seu mandato de Prefeito de Olinda pouco antes de sua posse, em razão do seu Vice-Prefeito, o Ministro aposentado e ex-presidente do Superior Tribunal do Trabalho, René Barbosa, meu tio e único filho homem

Para concluir, no seu discurso de posse na Prefeitura de Olinda, Eufrásio inicia afirmando que assumia o cargo com “um sentimento de humildade e orgulho” e conclui com a seguinte frase: “Bato o pó de meus sapatos impregnados da poeira de outros caminhos, para entrar nos umbrais da cidade mãe com o cuidado e respeito que merece essa pátria do amor e da liberdade”.

Por essas e outras razões, não se pode falar em Olinda sem citar as figuras de Eufrásio e Marcos, ligadas pelos princípios éticos e a defesa incansável dos valores humanos e essenciais que norteiam e dignificam a Marin dos Caetés.

Muito Obrigado! Rodrigo Carneiro Leão Olinda, primeiro de abril de 2014.


Carlos Pena Filho na companhia de Gilberto Freyre Acervo da Fundação Gilberto Freyre


Governo do Estado de Pernambuco Paulo Henrique Saraiva Câmara Governador do Estado de Pernambuco Secretaria de Desenvolvimento Econômico Antônio Mário Abreu Pinto Secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de Pernambuco Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco - AD Diper Leonardo Cerquinho Monteiro Diretor-presidente da AD Diper Companhia Editora de Pernambuco - CEPE Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco - FUNDARPE Prefeitura Municipal de Olinda Lupércio Carlos do Nascimento Secretaria de Patrimônio e Cultura João Luiz da Silva Júnior

Curador Raul Córdula Fotografia Obras | Gustavo Bettini Projeto Gráfico Pedro Alb Xavier Capa Retrato de Tânia | fotografia de Amélia Couto


apoio

realização

MEB | TÂNIA CARNEIRO LEÃO  
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